Skip to main content

Revista Alternativa L 2018

Page 1

abril\ 2019 ano 5 - ed.14 e 15

cara leitora, Se você discorda das opiniões expressas nesta revista, escreva-nos. Estamos dispostas a publicar sua opnião com o mesmo título como “segunda visão”. Dispomos de um espaço especialmente para você leitor(a). Esta revista reserva-se no direito de resumir os textos e estes, sem identificação (nome e email) serão desconsiderados.

créditos

Participação Especial em textos Bruno Sprout

Realização Equipe Alternativa L

Fernanda Elias

Foto de Capa Equipe Alternativa L

Lulli

Revisão de textos Luana Farias Costa Design Gráfico Ananda Feliciano

Matilde Freitas Rafaela Chor

Notas da redação A revista Alternativa-L - Escrevendo com camaleões em 2018/2019 apresentará uma roupagem abrangente dentro da sigla LGBTIQ+ e atenderá 50% de suas matérias para o público L e os outros 50% distribuidos entre as outras letras(camaleões). Escrevendo com camaleões tem patrocínio da politica pública Fomento à Cultura da

facebook - RevistaAlternativaL

Periferia 2ª edição. Ensejamos continuar

Instagram - @AlternativaL

atendendo nossas leitoras.

e-mail - Alternatival.revista@gmail.com

apoio


sumário Editorial

04

06 07

O POETA VIADO

TIRINHA

08 10

IRENE

PRECONCEITO DISFARÇADO DE PROMISCUIDADE

12 14

Acolhimento, Arte e Cultura marcam a gestão do CCLGBT Luana Barbosa

POEMA: MULHERES

16 20 22 24 26

COLETIVO TEATRAL CIAMAr COLETIVO MEMÓRIA E RESISTÊNCIA

POEMA: NÓS, MARÉ

SOBRE OS AUTORES

vamos falar de música ?


e d i to ri a l

O outro eu, quem somos nós ? Quando apontamos o que o outro é sem conhecer, podemos dizer que julgamos o que o outro parece ser. Nesta edição queremos mostrar o que somos através das visões sobre sexualidade, do ser mulher, sororidade e empoderamento feminino. Para tanto precisamos fazer parcerias, nos comunicar com nossos semelhantes, enquanto grupo social de LGBTI+, sempre cientes e exaltando nossas diferenças. Como o do poder de ser mulher e fazer isso sem “carregar nas costas, a culpa pelas desgraças do mundo” (Sheila Costa), muito menos ser ameaçada e morta por isso, vide os altos índices de violência. Veremos o quanto a sexualidade é ampla, rotular o outro não faz ninguém melhor, só impede a si mesmo de “novas (re) descobertas.” (Luiz Fernando Uchoa). Conhecer o outro o outro é também uma forma de nos conhecermos e entendermos nossa visão do que somos neste mundo. Conheça o outro e faça de você alguém melhor. Boa leitura! Equipe Alternativa L.

4


5


O POETA VIADO POR BRUNO SPROUT

Bicha não Você pode ser gay, mas precisa ser regrado. Você pode ser gay, mas precisa ser afeminado? Você pode ser gay, mas engrossa essa voz. Você pode ser gay, mas depois do jogo não vá ao vestiario. Você pode ser gay, mas da porta para fora. Você pode ser gay, mas tome cuidado. Você pode ser gay, mas respeito é importante seu viado. Você pode ser gay, mas fique ciente que é pecado. Você pode... Você pode... Você pode? Eu sou gay, e não preciso me desculpar. Enquanto mando esse recado, meus irmãos morrem por todo lugar. Não sou vitimista, sou realista. De acordo com a sociedade, posso virar estatistica. Eu sou gay, e agora vou gritar, para que a violencia deixe de nos matar. Eu sou gay, para os intimos bicha, para você bicha não. Eu sou gay, se ponha você no seu lugar! Eu sou gay, e meu Deus é puro amor, enquanto você semeia rancor. Eu sou gay, e meu beijo não vai te influenciar. Eu sou gay, e pretendo segurar a mão daquele que eu amar, mesmo sentindo medo de apanhar. Eu sou gay, eu sou bicha, mas para você.... Eu sou um artista, faço uso da poesia para meus discursos criar. Enquanto você, usa Deus para a violencia pregar. Eu sou gay. Eu sou bicha. E eu vou incomodar! 6


tirinha

7


Por Fernanda Elias

Em setembro de 2018 o cineclube Cine Sapatão exibiu em São Paulo o curta metragem Irene (2011, 15’), dirigido por Patricia Galucci e Victor Nascimento. Gostaria de aqui apresentar uma leitura sobre a obra. O filme se passa na casa de uma senhora de cerca de 70 anos, cujo olhar é acompanhado pela câmera. O silêncio de sua presença, de início imperceptível, contrasta com a ruidosa chegada da neta e sua amiga. Com o pega-pega das meninas, a ambiguidade fala por si, deixamos o interior escuro da morada de Irene para descobrir uma velha piscina no quintal ensolarado, há muito cerrada e agora reaberta pelas jovens. A água é a metáfora do mergulho na fluidez dos desejos e o convite para que a avó reati8

ve memórias e histórias adormecidas. Ao observar a brincadeira a um só tempo pueril e sensual das meninas e, talvez, por identificação, algo irrompe em Irene: seu desejo extravasa a forma de vida e de ser que o tempo lhe impôs e, em uma das cenas mais significativas, a torneira já fechada goteja. Sutilmente, sensualidade e lesbianidade percorrem a obra – da relação indeterminável das jovens às fantasias não-ditas de Irene ao vê-las. Neta e amiga levam consigo aquela vitalidade exuberante ao irem embora; po-


rém, simbolicamente, deixam a piscina descoberta, convidando (sem o saber) a que Irene venha se banhar novamente.

der com o corpo o fragmento de muitas vidas.

O filme retrata um tema tabu de raras representações fílmicas, a sexualidade das senhoras que vivem sós. E o faz de modo extremamente sensível. Não é preciso dizer nada, enxergar através da imagem é compreender. No entrosamento entre forma e conteúdo, os enquadramentos e a luz favorecem o argumento. Os poucos minutos com Irene possuem a profundidade para compreen9


PRECONCEITO DISFARÇADO DE PROMISCUIDADE

Porque as relações homoafetivas são vistas como promíscuas e como isso afeta LGBTs Por Matilde Freitas

Quando você vence todas as barreiras internas e assume uma relação homoafetiva, além de enfrentar os olhares de reprovação da tradicional família brasileira, é bem provável que tenha que lidar com questionamentos da própria família e amigos, do tipo: mas homossexuais são mais liberais né? Todo mundo pega todo mundo? Mas não precisa ficar beijando em público... O fato de ser ou não homossexual não muda a forma como cada pessoa se relaciona, o preconceito é que muda, separa as pessoas e aumenta a violência. O que não se enquadra é enquadrado Quando assumimos nossa sexualidade, nos sentimos sim mais livres, mas não é a orientação sexual que nos define. 10

“Esta imagem da promiscuidade possui como explicação o fato dessas relações não se enquadrarem às normatizações sociais, contrariando a heteronorma e a cisnorma. Esta leitura de uma relação afetiva e sexual liberta e autônoma em relação a estes padrões são ameaçadores às normas e revela assim, a própria fragilidade, pois, se a identidade legitimada do outro fragiliza a nossa, devemos urgentemente rever nossos conceitos e convicções”, analisa Breno Rosostolato, psicólogo clínico, educador sexual e professor universitário. O psicólogo acredita que esse comportamento também possa ter relação com a ideia equivocada de que a AIDS seria o “câncer gay”. “Daí a ideia de que as práticas sexuais destas pessoas seriam doentes e erradas”, explica. Dois pesos, duas medidas A intolerância e o preconceito contra homossexuais fazem com que essa associação errada e cômoda pareça natural para quem prefere excluir ou julgar o diferente. “Isso que acontece


em relação a um casal de lésbicas, por exemplo, que troca afetos em situações cotidianas e é alvo de julgamentos e atitudes violentas, enquanto que o casal hetero é legitimado por uma norma que determina quem deve ser legitimado e, na verdade, só perpetua ainda mais preconceito, ignorância e violência”, compara Breno Rosostolato. O que muitas vezes incomoda, não é o gesto de carinho em público, mas a sexualidade de quem está ali. Afinal o que é promiscuidade Segundo a OMS - Organização Mundial de Saúde, toda pessoa que teve mais de dois parceiros por ano é promíscua, ou seja, não é a sua sexualidade que define. “Os homens sempre tiveram um maior número de parceiros/as sexuais em toda a história da humanidade, inclusive houve épocas que a homossexualidade masculina era considerada comum e aceita pela sociedade e pelas próprias esposas. As mulheres, pela repressão que sofreram, principalmente a partir da Idade Média, eram menos propensas a troca de parceiros sexuais e as relações homoafetivas escondidas. Como o sexo praticado entre homens se tornou mais visível e, por preconceito, passou a ser considerado promíscuo, as lésbicas receberam o mesmo título pejorativo também em

função do preconceito”,explica a terapeuta sexual Leila Cristina. Ocupe o espaço que te pertence O fato é que o preconceito existe, e a associar LGBTs com promiscuidade é um exemplo. O preocupante é que esse preconceito vem acompanhado de violência, o Brasil é o país que mais mata LGBTS no mundo. “Devemos resistir à estas mentalidades e lutar para legitimar a existência das diferenças, pluralidades e a diversidade afetivo, sexual e relacional”, defende o Psicólogo Breno. Se queremos uma sociedade mais livre e igualitária, não podemos deixar que nos calem. “É importante saber que suas vidas devem ser respeitadas e que existem caminhos para que esta existência possa acontecer sem medo e de maneira empoderada”, encoraja o psicólogo. Ninguém está sozinho, há sempre uma comunidade para lhe acolher e lhe ajudar a viver o amor e a sexualidade da forma que lhe fizer feliz! 11


Acolhimento, Arte e Cultura marcam a gestão do CCLGBT Luana Barbosa dos Reis - zona norte de São Paulo. Os Centros são uma iniciativa da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, por meio da Coordenação de Políticas para LGBT e são de extrema importância para a comunidade LGBT. O centro Luana Barbosa, único com nome de uma lésbica (Mulher negra, lésbica, periférica, mãe e não feminilizada, agredida violentamente pela PM - em Ribeirão Preto – SP). É também administrado por mulheres lésbicas. Sensibilizar, educar e mostrar o que é o movimento LGBT são prioridades neste centro, ao longo deste último ano os números são gigantes: 89 UBS sensibilizadas com palestras ou rodas de conversa. Sensibilização com gestores de escolas e da diretoria de ensino estadual da zona Norte de são Paulo. 06 LGBTs empregados na pinacoteca do Estado. 12


Maúde Salazar preocupa-se com o acolhimento das pessoas atendidas no CCLGBT Luana Barbosa e as práticas do ouvir e compreender as diversas vivências são diária. Os trabalhos são desenvolvidos com maior ênfase no segmento T da sigla, por representarem normalmente o mais vulnerável às violências. O instituto Omindaré que administra o CCLGBT Luana Barbosa é focado na luta de lésbica e feministas e o centro também tem essas referencias no seu plano de trabalho A administração do CCLGBT LB passou por diversas violências, para manter uma mulher no comando da coordenação, entre elas: misoginia, discriminação profissional e lesbofobia. Pode utilizar a desculpa que quiser mas, nos parece evidente que pelo fato da administração feita por mulheres e ter tanta inovação, recordes e uma nova forma de tratamento e educação diferenciadas às pessoas atendidas pelo CCLGBTLB causou muito desconforto. Falsas denúncias, perseguição, anulação do trabalho, descasos... Um exemplo de

descaso com o trabalho e protagonismo feminino foi a invisibilidade dos grandes meios de comunicação ao divulgarem as matérias sobre os novos contratados pela pinacoteca do Estado, seis LGBTs atendidos pelo programa Transcidadania, em nenhuma das matérias esses veículos de comunicação citaram o CCLGBT LB e muito menos o nome da coordenadora do centro, mesmo sabendo que todos os trabalhadores contratados eram provenientes deste centro de cidadania. Outra tentativa de anulação/perseguição foi o fato do centro ter cuidados de adequação de gênero da voz dos atendidos com exercícios e acompanhamento de um fonoaudiólogo, mas como essa atividade não estava no plano de trabalho foi veemente proibida, mesmo que este diferencial no atendimento tenha colaborado para visibilidade do programa. Atualmente a prática é replicada em outros centros. A administração do Luana Barbosa é corajosamente efetiva e cheia de cuidados com o outro e necessitou dizer vários nãos para resistir. O NÃO de uma mulher para uma “ordem vinda de cima” representa um perigo para a pseudo-soberania masculina e quando essa mulher é lésbica o perigo torna-se ainda maior.

13


Mulheres por Lulli

Por falta de coragem trocavam sรณ olhares olhares extremamente corajosos Por vontade de coragem, elas flertava desentendidas jurando pra uma outra entender, rezando para nenhuma perceber! Por coragem demais calaram-se, mas elas sabem que os olhos falam demais...

14


15


COLETIVO TEATRAL CIAMAR Aprendendo a ser independente Texto: Simone Almeida de Araújo Fotos: Arquivo CIAMAR /Revista Alternativa L

A Ciamar é um coletivo teatral formado por jovens da periferia de São Paulo. O coletivo iniciou-se em outubro de 2016 a partir de um processo de criação do espetáculo Daquilo que Mora em Mim, onde seus integrantes participaram de um curso teatral oferecido pela Fábrica de Cultura Sapopemba, as Fábricas são espaços com acesso e oficinas gratuitas voltadas às atividades artísticas e culturais localizadas nas quatro regiões da capital de São Paulo. Posteriormente, a Ciamar trabalhou na concepção de Vista Seu Fracasso dirigido por Filipe Peixoto. A trama ambientada em uma pensão com sete moradores, ou seja, sete fracassos em sete mora (dores) quando vem à tona uma dívida passada que levanta a questão: a dívida a ser paga é do imóvel oudo próprio eu -perdido?. É uma peça intensa como todas as questões que envolvem a juventude, e Samuel (interpretado por Fábio Castro) correndo em 16

desespero enquanto sua mente reaviva memórias e ativa a descontrução de seu ser é de tirar o fôlego. As músicas ao vivo no estilo banquinho e violão na voz de Sabrina Collela, com canções autorais e adaptações de outros artistas como Marisa Monte embalam as cenas cuja iluminação nos leva a um estado quase onírico e o silêncio na cena da retirada da placa de “Vende-se” convida a platéia à reflexão. Vista Seu Fracasso teve sua pré–estreia em novembro de 2018 na Mostra De Ver Gente, no teatro Martins Penna localizado no Centro Cultural da Penha, zona leste de São Paulo. O Teatro Da Rotina na Rua Au-


gusta, centro alternativo de espetáculos,baladas e cultura da região central da capital paulista, também cedeu o espaço para breve temporada da Ciamar. Filipe Peixoto, Gustavo Rios, David Moreira e Raul Dias Soares, gentilmente ,concederam entrevista à Alternativa L na Fábrica de Cultura Sapapemba. Quando Se iniciou o projeto Ciamar? Filipe Peixoto: ”Em 2016 após o espetáculo Daquilo que Mora em Mim, surgiu à idéia de elaborarmos algo diferente estávamos em galeras diferentes e mudamos por diversas vezes o projeto até chegarmos em Vista Seu Fracasso em 2018.” Gustavo Rios: “O espetáculo que encenamos em 2016 aborda o reencontrar-se , as problemáticas do eu andante buscando uma morada é nesse momento que nasce a essência do nome do coletivo, onde ao final nos atiramos ao mar para reencontra-nos buscar nossa identidade nos encontramos ao mar, e assim surge o nome Ciamar.” Como foi a concepção do texto de Vista Seu Fracasso? Filipe Peixoto: “Compartilhada. Cada um deu um pouco de si no texto, principalmente, nos monólogos.

Gustavo Rios: “A Ciamar começou comigo, Filipe e o auxílio do David (Moreira) escrevendo em 2014 o Era Uma Vez Maria. Em 2016 desengavetamos esse projeto e, sob outro olhar notamos a potência do texto que mostrava um rei gay que escravizava a todos, mas desejava uma atmosfera harmônica do bem, só que mais uma vez ainda não era ”O” projeto então decidimos iniciar do zero com cada um apresentando um personagem cômico com uma bagagem de fracasso e, conforme mergulhávamos no texto concluímos que não se tratava de uma comédia e sim um texto mais complexo, reflexivo regido de maneira coletiva.” Filipe Peixoto: ”Fomos tateando as coisas desde 2016, foi nosso projeto sem ajuda do pessoal da Fábrica o texto foi amadurecendo e fomos aprendendo a conviver e a fazer a arte de modo coletivo. A CRIATIVIDADE FOI IRMÃ DA NECESSIDADE 17


Dificuldades e facilitadores na trajetória da Ciamar?

cena o que não poderia abalar nossa amizade cinco minutos depois.”

David Moreira: ”Uma das dificuldades foram às discussões internas as ideias entre os integrantes não se conectavam uma parte do grupo concordava outra discordava e por aí foi as discussões foram inevitáveis, mas depois observamos que foi tudo pelo aprendizado. Construímos tudo ao mesmo tempo, foi nosso primeiro processo fora do curso aprendemos a conviver e a mediar conflitos entre os integrantes da Ciamar e entendemos “na raça” o que é essa arte fora da Fábrica, aprendendo a ser independente e, depois nos deparamos com as questões financeiras o que gerou um “estressinho” no grupo ,felizmente , tudo certo no final do processo.”

Filipe Peixoto: “Por vezes eu era o Filipe amigo e não o Filipe na função de diretor que falava sobre determinada cena. Amadurecimento é a palavra-chave.

Gustavo Rios: ”Sobre facilitadores tivemos auxílio de Sheila Costa (risos), contatos e conseguimos convencer algumas pessoas a nos auxiliarem porque fizemos acontecer “no braço”, e é bonito falar que você ajudou essa juventude periférica. Fizemos vaquinha e, artisticamente, pedimos auxílio para diretores os quais mostramos o ensaio e a cumplicidade no olhar do coletivo foi fundamental nesses momentos.” Raul Dias Soares: ”Somos um grupo não hierárquico, linear onde cada um tem seu direito de fala sem julgamentos foram facilitadores fundamentais para o andamento da Ciamar.” David Moreira: “Somos amigos isso foi um facilitador quando surgiam as divergências de ideias e eu soube separar a questão profissional do pessoal porque as discussões eram em torno do jogo de

18

Gustavo Rios: ”Outro facilitador foi nossa voz nossa vivência dentro de um grupo periférico foi um trabalho de jovens voltados para jovens tudo ficou esclarecido quanto à problemáticas juvenis.” Como foi a questão do envolvimento com o público? Filipe Peixoto: “Eu tive medo, mas ainda bem que ninguém saiu com um ponto de interrogação na cabeça. Não gosto daquele teatro “cabeça” gosto do diálogo e com a platéia abordamos situações de vivências dos jovens da periferia que é a nossa realidade, ainda temos a questão do sentir-se deslocado em seu ambiente como em casa ou na escola. David Moreira: ”Tivemos feedbacks incríveis de pessoas que se sentiram dentro do espetáculo, e não somente jovens da periferia como também de bairros nobres e de faixa etária maior que passaram pelas situações apresentadas e isso foi gratificante, Vista Seu Fracasso dialoga com todos. Gustavo Rios: ” O espetáculo traz a mensagem do desconstruir-se e isso pode correr a qualquer momento.”


Qual gênero teatral pode definir a Ciamar? Gustavo Rios: ”Transitamos entre os diretores e gostamos muito do trabalho de Celso Castelani, acho que temos um gênero mais voltado para o contemporâneo transitando entre gêneros.” Filipe Peixoto: ”Não tenho como definir porque somos um grupo de amigos onde cada um tem sua trajetória o que contribui para o amadurecimento da Ciamar.” David Moreira: ”Anote aí: camaleão, é eclético.” Qual foi a pergunta que Alternativa L não fez e que gostariam de responder? Gustavo Rios: ”Com o que nosso espetáculo bate de frente com a contemporaneidade? Meu personagem afirma que a farda dele é lixo e como podemos lidar com essa onda de patriotismo desenfreada? Nossa peça aborda essa questão atual. Filipe Peixoto: ”Pra onde vai Vista Seu Fracasso agora ? O espetáculo já aconteceu e continua a reverberar em nós enquanto pessoas evoluindo, ele é o que somos ou que queremos a Ciamar continua sendo lapidada .”

Vista Seu Fracasso Elenco David Moreira Fábio Castro Gustavo Rios Isadora Ribeiro Raquel Fernandes Raul Dias Renato Martins Produção Musical Beatriz Canuto Sabrina Collela Músico Victor Scarani Direção Filipe Peixoto Assistente de Direção Natália Sena Iluminação Jennifer Soares 19


memória e resistência

LGBT ARTE E FERvO NA ZL

Em maio de 2018, os amigos Érica Tiemi Yonamine, Jéssica de Aragão Bezerra, Leonardo da Silva Vieira e Ohana Aparecida da Silva criaram o Coletivo Memória e Resistência. Constituía-se, desta forma, o primeiro passo para a concretização de uma ideia que havia sendo pensada há muitos anos: atuar em conjunto no terreno da cultura. Meses depois fomos contemplados pela 16ª edição do programa de Valorização de Iniciativas Culturais da prefeitura de São Paulo com o projeto Memória e Resistência LGBT: esta iniciativa visa promover o registro e valorização, por meio de uma exposição, de elementos da memória LGBT relaciona-

20

das ao espaço urbano da zona leste da cidade de São Paulo. Ou seja, trabalhamos com o objetivo de identificar e valorizar as ações desenvolvidas para e pelo público LGBT nos bairros da zona leste da cidade. A comunidade LGBT é corresponsável pelo desenvolvimento econômico, cultural e social da nação brasileira. Portanto, a identificação e a valorização da memória LGBT, para nós, constitui ação essencial para o fortalecimento desta comunidade tanto no âmbito político quanto cultural. Retomando ao nosso projeto, durante a fase de pesquisa identificamos uma série de iniciativas que atestam a atuação da comunidade LGBT em bairros da zona leste. Dentre estas iniciativas, optamos por abordar na exposição Memória e Resistência LGBT: Arte e Fervo na ZL a criação do Centro de Cidadania LGBTI Laura Vermont, a atuação dos coletivos Acuenda e Sankofa, a existência da Revista Alternativa L e das festas Sarrada no Brejo, Helipa LGBT, do Guinga’s Bar e do en-


contro realizado no Shopping Tatuapé. De modo geral, os empreendimentos acima, em maior ou menor medida, foram responsáveis por promover encontros e espaços de debate, lazer e aprendizado a partir da temática da diversidade sexual, seja em espaços públicos ou privados. Sendo assim, estes grupos e atividades realizaram e foram responsáveis pela produção de peças de teatro para o público adulto e infantil, festivais, espetáculos de dança, festas, shows de drags e divulgação de textos elaborados por LGBT’s, além da possibilidade de socialização e convivência entre diversos grupos LGBT.

para a diversidade de manifestações culturais da comunidade LGBT em bairros da zona leste, tão frequentemente caracterizada como desfavorecida econômica e culturalmente. A falta de equipamentos culturais na região da zona leste, quando comparada à outras regiões, fez com que sua comunidade LGBT encontrasse alternativas para expressar e vivenciar sua cultura. Devemos apenas manter os olhos e mentes abertas para podermos enxergá-la.

Por fim, devemos dizer que esperamos que esta exposição – o pontapé inicial de um amplo trabalho que necessita ser executado - chame atenção

19

21


Nós, maré por Rafaela Chor

Mulher é terra fértil Solo delicado e enraizado Dentro de ti o poder de gerar a vida ou melhor o poder de escolher gerar a vida Terra sagrada Iluminada Preparada para enfrentar batalhas Períodos de sangrias Mulher leoa Leoas que criam jubas e lutam lado a lado com leões Mulher é mar Correnteza que puxa Maré que sobe quando menos espera Somos maré E estamos subindo 22


por Lulli

23


Sobre os autores Bruno Sprout Tenho 21 anos, sou ativista, poeta, escritor, ator, gay, sou basicamente diferente, e me sinto incrível por ser diferente, isso me torna uma pessoa com a habilidade de ser infinito.

Matilde Freitas Jornalista, vegetariana em transição para o veganismo. Amante de vinho, café e psicologia. Produtora editorial na EdiCase Publicações, colunista do Vegpedia e editora do Blog Entre Nós – Blog de poesias,

matérias

relacionadas

ao empoderamento feminino, 24

LGBTQ+ e saúde mental.


Lulli Olá, sou a Lulli, tenho 24 anos e escrevo poemas lésbicos para desconstruir o “fetiche” hétero, e mostrar a paixão entre mulheres.

Rafaela Chor Mulher, lésbica, atriz, poeta, artista plástica e musicista. Usa a arte como refúgio desde que se entende por gente. Começou a escrever canções aos 7 anos que logo tomaram formato de poesias. Na faculdade de Artes Cênicas descobriu seu fascínio pelo corpo humano e entrou em contato com mulheres que a inspiraram a realizar performances e obras voltadas para o empoderamento do corpo feminino. Contato para venda de livros instagram: @arte.chor email: rafaelachor@outlook.com 25


26


27


Patrocínio

realização


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Revista Alternativa L 2018 by alternatival.revista - Issuu