alternativa l
SOBRE Hanna korich e a Editora Brejeira Malagueta CONHEÇA Coletivo Cine Sapatão e Clube Lesbos
FEMINICÍDIO no Brasil
janeiro \ 2019 ano 5 - ed.12 e 13
cara leitora, Se você discorda das opiniões expressas nesta revista, escreva-nos. Estamos dispostas a publicar sua opnião com o mesmo título como “segunda visão”. Dispomos de um espaço especialmente para você leitor(a). Esta revista reserva-se no direito de resumir os textos e estes, sem identificação (nome e email) serão desconsiderados.
créditos
Participação Especial em textos Luis Fernando Uchoa Carolina Ribeiro
Realização Equipe Alternativa L
Formiga
Foto de Capa Larissa Rocha
Nay Rosário
Modelo de Capa Larissa Rocha
Larissa Rocha
Notas da redação
Revisão de textos Luana Farias Costa
A revista Alternativa-L - Escrevendo com
Design Gráfico Ananda Feliciano
uma roupagem abrangente dentro da sigla
camaleões em 2018/2019 apresentará LGBTIQ+ e atenderá 50% de suas matérias para o público L e os outros 50% distribuidos entre as outras letras(camaleões). Escrevendo com camaleões tem patrocínio da politica pública Fomento à Cultura da
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Periferia 2ª edição. Ensejamos continuar
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apoio
sumário 04
Editorial
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BREVES APONTAMENTOS SOBRE O STAND-UP “HANNAH GADSBY Erótika lésbika na poesia: uma missão revolucionária
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menstruação
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a capa
24 28
poesia: você
30
conto entre olhares um amor feminicídio
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bem vindas ao clube lesbos A FORÇA DA MULHER SAPATÃO E A MÚSICA XOXOTA NA MACIOTA COMO CRÍTICA À HEGEMONIA MASCULINISTA HETERONORMATIVA
44 48 54
a (re)descoberta do prazer
Hanna korich e a Editora Brejeira Malagueta
cine sapatão
e d i to ri a l
O outro eu, quem somos nós ? Quando apontamos o que o outro é sem conhecer, podemos dizer que julgamos o que o outro parece ser. Nesta edição queremos mostrar o que somos através das visões sobre sexualidade, do ser mulher, sororidade e empoderamento feminino. Para tanto precisamos fazer parcerias, nos comunicar com nossos semelhantes, enquanto grupo social de LGBTI+, sempre cientes e exaltando nossas diferenças. Como o do poder de ser mulher e fazer isso sem “carregar nas costas, a culpa pelas desgraças do mundo” (Sheila Costa), muito menos ser ameaçada e morta por isso, vide os altos índices de violência. Veremos o quanto a sexualidade é ampla, rotular o outro não faz ninguém melhor, só impede a si mesmo de “novas (re) descobertas.” (Luiz Fernando Uchoa). Conhecer o outro o outro é também uma forma de nos conhecermos e entendermos nossa visão do que somos neste mundo. Conheça o outro e faça de você alguém melhor. Boa leitura! Equipe Alternativa L.
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QUANDO A COMÉDIA ENCONTRA UMA MULHER RECONSTRUÍDA – BREVES APONTAMENTOS SOBRE O STAND-UP “HANNAH GADSBY: NANETTE”
A comédia é um entretenimento, comumente, desconfortável para uma multidão de dissidentes: as sapatão, os viado, as gordas, as travestis, as pessoas negras são, não só o foco, como o alvo da maior parte das piadas que a grande maioria de comediantes homens brancos focam em abordar ao subir no palco. Temas como estupro, violência, racismo, misoginia eram (e ainda são em alguns nichos) vistos quase como “temas clássicos” dos especiais de comédia e construção de sketchs, como já abordou o documentário “O Riso dos Outros” e como podemos ver nos diversos casos de comediantes brasileiros que foram processados judicialmente por suas “piadas” que ofendiam, humilhavam e/ou violentavam. Contudo, o que acontece quando uma mulher lésbica comediante sobe ao palco e, sob a luz dos holofotes, diz: “chega”?. Hannah Gadsby é uma mulher, lésbica, gorda, não-feminina, que, por anos a fio, criou comédias auto depreciativas, sua vida era uma piada, literalmente. Hannah subia ao palco onde contava as 6
peripécias de sua vida sexual, afetiva e as tensões e violências que poderiam ter sofrido, usando seu corpo e sua história como foco de construção de uma personagem cômica. Seu especial da Netflix parte justamente dessa proposta, relembrar as histórias que ela contara no palco sobre si. Gadsby começa desnudando sua subjetividade, trazendo as narrati-
vas de tensão, quebrando o gelo com brilhantes desfechos. Na primeira parte do stand-up é impossível não rir com Nanette. Desde sua desconexão com a sociedade, a dinâmica familiar com sua mãe, a vida numa cidade pequena, sua homofobia e a quebra com os
próprios conceitos sobre sexualidade, cria uma narrativa quase ilusória de integração e sucesso nas suas interações. Contudo, há uma tensão no ar que não se dissipa e vai sendo revelada conforme avança o documentário: Hannah Gadsby abandonará os palcos da comédia. Aquela brilhante mulher, cheia de frases de efeito não quer
mais, mesmo com seu sucesso, parar a frente do microfone e contar a sua história. Ela parece uma vitoriosa e, numa sociedade de ocidental heterocapitalista como a nossa, ver uma mulher lésbica de sucesso não é algo muito comum, Hannah parece ter superado as dificuldades e se encontrado na frente dos holofotes, lugar almejado por muitas e muitos de nós. O que Hannah escondia era que parte de sua história fora omitida para obter seu sucesso com Nanette, em contrapartida suas sensações duras e cruéis foram crescendo, até o ponto que ou Nanette sobreviveria ou Hannah Gadsby. A comediante e escritora começa a desvelar que a mulher lésbica zangada que aparecia no palco era uma faceta que vinha de uma história não contada, uma história de violência, onde os finais leves e risonhos não eram uma realidade. Com uma vida cercada de violências físicas e sexuais, Gadsby faz com que o cara que comentei lá em cima, o antigo dono da comédia, sinta-se parte de sua vida, posicionado enquanto aquele que precisa ser zombado, tirado do seu lugar de conforto, tirado do seu lugar tão caro e tão naturalizado de “zombador”. A comediante faz um processo em que se aproxima de Audre Lord que nos dizia: “seu silêncio não o protegerá”, desafiando o lugar de pretensa neutralidade dos homens brancos heterossexuais. Sem meios 7
termos. Hannah não dissipa mais as tensões, brilhantemente as coloca no palco, nos sujeitos e no seu stand-up que vai, aos poucos, tornando-se uma apresentação político-cultural que questiona as desigualdades de gênero e sexualidade e as naturalizações dos lugares ocupados por comediantes dentro do mundo da comédia. Hannah traz debates importantes articulados a gênero e sexualidade, fala sobre arte, saúde mental, cultura, conhecimento e subjetividade, abrindo as portas para uma forma de olhar mais fresca e recheada de sabedoria, que pode ser o nosso ponto de partida para reflexões muito profundas ou então mais uma das formas de usarmos de nossa sensibilidade para olhar para es outres de forma mais justa e mais sensível. Numa sociedade onde precisamos re-existir a cada dia, Hannah Gadsby é uma poderosa força dolorida e um incentivo para seguirmos na luta, na rua, na vida. O stand-up dói na pele, mas traz uma mensagem e uma sensação importante que devem ser partilhadas entre todes nós: não será mais confortável viver num espaço enquanto outres não têm o mesmo conforto. Termino então, com as palavras de Hannah e convido todes a se conectarem com suas histórias, com as minhas histórias, com as nossas histórias e conhecerem Hannah Gadsby em uma viagem inesquecível: 8
“Rir não é o melhor remédio. O que cura são as histórias. O riso é só o mel que adoça o remédio amargo. Não quero me unir a vocês pelo riso ou pela raiva. Só queria que minha história fosse ouvida, sentida e compreendida por indivíduos com pensamentos próprios, porque, queira ou não, sua história é a minha história e a minha história é a sua história. (...) Só posso pedir, por favor, me ajudem a cuidar da minha história.” (Hannah Gadsby). Hannah Gadsby: Nanette. Original Netflix. 2018. 1h9m. Classificação indicada: 16 anos.
Sobre a autora Carolina Ribeiro tem 30 anos e é doutora em sociologia. Desde os 12 anos escreve textos literários e poemas que não teve muita coragem para publicar, até agora... Mora na periferia de São Paulo e se interessa por temas como: gênero, sexualidades, decolonialidades, pornografias, ativismo, feminismo e sexualidades.
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Erótika lésbika na poesia: uma missão revolucionária Por Formiga
Keridas fanchas, kaminhoneiras, machorras, lesbianas, roçonas, entendidas, sargentos, kola-velkro, sapatonas, marias-homem hoje a missão aki é falar sobre erótika lésbika literária. Vou fazer isso dai falando um poko de tudo ke mais gosto, literatura, polítika e história. Missão muito difícil pra minha pessoa mas missão dada na mão de formigão é missão kumprida. Nunka pirei em letras de amor amor de ke faz a pele arder... até ver o sentido polítiko desse bagulio. Pra eskrever esse texto mana também vou falar do meu pessoal igual a feminista Carol Hanish falou jão o pessoal é político. Pra kem não sabe saber: eu sou fã de literatura negra especialmente as letras pretas da diáspora afrikana no Brasil. Em uma tarde komum de estudos lésbikos nos idos de 2013 em uma biblioteka kualker no centrão de $P, komecei a ler uma matéria no Boletim do Kaos #11 feita pela jornalista Jéssica Balbino sobre um kara ke se tornaria um dos meus poetas pretos preferidos. 10 10
Num dado momento Balbino destaca ke o mano Akins Kinte 1 komeça a falar sobre a importância da literatura erótika negra (2013, p. 11) O povo negro teve o corpo sequestrado e consequentemente o prazer também foi. Então essa busca pelo prazer é uma busca pela liberdade. Nossa literatura erótica beira uma afronta a sociedade e é diretamente política sem perder a ginga na arte gostosa da leitura.
Em outras palavras o mano Kintê cita na entrevista ke a kestão da escravidão negreira retirou o direito a liberdade inkluive a sexualidade do povo preto. Peguei a visão e essa ideia mudou minha forma entender a literatura erótica negra. O korpo preto foi objetifikado, animalizado destituído de sua humanidade na eskravidão negreira sofrida pela na diáspora afrikana na Amérika, logo kom a hiperssexualização, o negro teve historikamente sua sexualidade negada. Se pa essa konsekuencia ai é até pior pra a mulher preta ke é tratada komo um objeto sexual, historikamente vítima de estupro, ao mesmo tempo ke não é símbolo de relação afetiva no imaginário da brankitude atual. Ai já vem na mente já as ideia da bell hooks, ta liga-
do akele texto monstrão chamado “Vivendo de Amor?”, tem uma mão ke ela fala ke a escravidão teve uma influência na forma de amar do povo preto. Então se tem essa história de negação da humanidade preta, a poesia erótika negra é um instrumento de luta porke é possível konstruir simbolikamente uma sexualidade negada. Visibilizar os korpos pretos komo dignos de amor e de gozo é um modo de kontestar a supremacia branka ke ainda ker submeter korpos pretos a kondição de objeto e uma tentativa de redução de danos das konsekuencias da escravidão pra afetividade preta. Desde desse dia mana komecei a eskrever versos erótikos pra lesbianizar a literatura negra e erotizar minha lesbianidade polítika na literatura marginal. A minha primeira poesia erótica foi publikada no meu fanzine Aversão Poétika 3 em 2013 mas perdi esse trampo e posteriormente foi publicada na koletânea de literatura feminina erótica negra Além do Quartos de 2015 fikou assim ó:
Preta Teus cabelos crespos Encaracolam meu desejo Nesse delicado toque meus pelos se crispam Com a língua diaspórica Percorro a cor da tua pele Quente Só de olhar minha vontade já sente nossa atração ancestral Navego na imensidão de tuas curvas Sem mapa me encontro no teu sexo E anseio acariciar seus seios fartos Enegrecendo meu tato Linda esfrega, esfrega, esfrega sua epiderme na minha Beijando nosso fogo se enlaça Quando agente se abraça Estou me enraizando em você 11 11
Importante noiz rememorar ke nossos passos vem de longe jão não fui eu kem inventou a roda tem gente fazendo isso muito antes da minha pessoa. Tipo akela mina lá Safo de Lesbos não sei se vcs já ouviram falar mas dizem ke ela é mô safada no bom sentido da palavra. Segundo o historiador Pedro Paulo Abreu Funari, Safo poeta grega ke viveu no período da Antiguidade por volta de 612 a. C. se reunia kom mulheres na Ilha de Lesbos em uma escola de música, poesia e culto a Afrodite, obteve reconhecimento de suas paixões homoerótikas e alguns fragmentos de seus poemas chegaram até nóiz. Interessante falar do texto do Funari porke ele cita uma mina pesquisadora chamada Bella Zweig ke aponta ke fontes kom textos de Safo de Lesbos foram adulteradas para parecer ke ela fala de erotismo kom homem. É isso memo tio apagamento da existência sapatona. Sobre essa fita de usos políticos da história e da desigualdade entre homens e mulheres, num texto importante pra produção eskrita sobre lésbikas no Brasil chamado O que é lesbianismo? a historiadora
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Tânia Navarro Swain (SWAN, p. 1516) da a letra: (...) os olhos veem o que querem e podem ver através de uma ‘política de esquecimento’: apaga-se ou destrói o que não interessa à moral, as convicções, aos costumes, à permanência de tradições e valores que são dominantes em uma determinada época. (...) No caso do Ocidente criou-se um discurso filosófico religioso para justificar a divisão dos humanos de acordo com um critério básico: sexo biológico. Complementares ou diferentes, os sexos biológicos foram dotados de uma importância crucial, de uma evidência indiscutível; entretanto, enquanto divisor do humano está distinção é também arbitrária, é também construída também em nome de um critério básico: a reprodução. A ideia da mana Swain ker dizer ke nosso sociedade dos macho dominante fundada kom valores kristãos, separa homens e mulheres e a função social dos dois é pra poder prokriar. E se pá é por isso ke sapatão sofre violência e repressão porke não ker fazer sexo reprodutivo. Uma moral eskrota ta ai a mili ano dominando apagando nossos korpos sapatão e isso é violento jão. As lésbikas desde dos 1969 tão na atividade junto kom o movimento feminista e o movimento homossexual, segundo uma sap-
atona maravilhosa chamada Jules Falquet (2006, p. 23-24), só ke em as lésbikas passam a lutar pra ter um movimento organizado só por lésbikas porke elas komeçaram a kritikar o falocentrismo do movimento homossexual. Muitas lésbikas fechavam kom o feminismo só ke tiveram uma decepção as mulheres não somava na lutas por koisas ke as sapatonas precisavam ai as sapatão decidiu fazer seu próprio rolê. As lutas por mudança social inkomoda o sistema eles tremem na base kuando veem noiz se movimentar pra tirar o poder da mão deles. E é lógiko ke teve o revide dos de elite kontra nosso time o famoso Backlash 2, só ke tô falando do Backlash kontra as polítikas de sapatonas. O ke eu chamo de Backlash anti sapatão a Jeffreys (1993, p. 14) vai explicar melhor falando ke as revoluções sexuais dos anos 1920 e 1960 não são revolução koisa nenhuma são sim um jeito ke os machos deram de continuar dominado. As “revolução” fortaleceu a indústria do pornô, os sex shops e as terapias sexuais. E nos anos 1980 o sexo das sapatonas passou a ser vendido na indústria, ai mana eles teve ke kriar um mercado konsumidor de koisas e de mulheres kom a pornografia e a prostituição. A Nossos korpos de sapatonas foi kuase apagado da história dos machos branko da Europa, por sorte uns pedaço das letra da Safo de Lesbos sobreviveu a destruição e
a adulteração e por kausa disso noiz pode ta conhecendo uma lésbika poeta memo ke entrou para os livros de história. Mesmo assim é muito poko. Por kausa da luta de lésbikas feministas dos anos 1960 noiz konsegue andar de mãos dadas kom a gatinha no mundão, só ke muitas vezes na kebrada não, ainda as nossas tão morrendo, tão sem emprego, tão se matando é komo por kausa do heteropatriarkado. Rememorando essa ideia de kolonização o korpo da lésbika negra é triplamente invizibilizado se a mulher negra não tinha direito a ter uma sexualidade e o sexo era violência na kolonização a lésbika negra piorou. O ke podemos imaginar de referência pras sapas pretas ke foram escravizadas é o itã de Oxum e Iansã ke Tatiana Nascimento dos Santos vai mandar a letra em sua tese de doutorado de 2014 ke prefere lembar de se Oxum não por fertilidade mas por uma relação lésbika, ela vai citar Rita Laura Segato komo kem lhe rekontou esse mito de que Oxum seduziu Iansã, ke é tipo assim ó Oxum viu Iansã achou mô gata e foi dar ideia nela elas fikaram Iansã gamou Oxum pegadora saiu fora Iansã
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revoltada foi kobrar Oxum Oxum kom medo de Iansã saiu korrendo pulou no rio e lá ke ela mora até hoje tio. Referência de amor entre noiz em Áfrika memo se pa essa foi um jeito de refazer a memória lésbika preta depois da travessia e essa memória é tão forte ke chegou até noiz. Kom a poesia erótika da lésbika negra agente rekria essa imagem de sexualidade entre lésbikas fora das imagens ke os macho branko acha ke é ser lésbika e vai espalhando a ideia de ke o korpo da lésbika preta é um korpo de gente, um korpo ke pulsa tem intelecto pra fazer poema ke tem desejo e pode desejado fora da objetifikação racista, ke tem amor e pode ser amado tipo as mitologias vivências de antes da travessia e kom expectativa de afrofuturo jão. A literatura lésbika a poesia lésbika é um jeito de agente ter koletividade kompartilhando nossos eskritos kom nossas amigas e nossas amantes. Recitar poema pra gatas pras amiga pras amantes é um jeito de kriar um espaço pra gente se ver se olhar tipo um sarau tipo um slam tive um klube du livro. Pra mim tio fazer literatura lésbika não é fazer literatura de elite pelo kontrário é bater de frente kom essa elite branka, rika e hetero. Konkordando
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kom a Diedra Roiz no prefácio de Incontadas 3 a literatura sapatão é literatura marginal porke noiz ta na margem. Só ke nossos trampo pode ser mais do ke querer fazer parte do sistema ke odeia noiz, nosso trampo kom os verso pode ser o de revolucionar. E podemos começar revolucionando por meio do erótika. Os verso safado representam o tesão, mas é mais ke isso jão. Poétika erótika lésbika y poética erótika da lésbika negra inskreve nossos korpos ke tantas vezes tentaram apagar na história dos exkluídos. Vem até mim também agora e liberta-me dos duros pesares, e tudo o ke kumprir meu koração deseja, kumpre, e tu mesma sê minha aliada de lutas Safo 4 Notas 1. Akins Kintê é um poeta negro que possui diversos poemas publicados na koletânea anual Cardernos Negros lançada pelo grupo Quilmboje. Também tem as seguinte publicações de livros de poema: Punga (2007) em parceria kom Elisandra Souza, InCorPoros (2011) em parceria kom Nina Vieira e mais recentemente teve um trampo solo o Muzimba (2016). 2. Backlash é um termo inventado pela Susan Faludi, ke escreveu um livro chamado Backlash – o contra ataque na guerra não declarada contra as mulheres no ano de 1991, nesse trampo ela mostra diversas estratégias do patriarcado estadunidense
para bater di frente kom os avanços da luta do movimento feminista nos anos 1980. 3. Incontadas - aquelas que não podem falar dizendo o que não pode ser dito, é uma koletânea de literatura lésbika kom várias autoras sapatão do Brasil, entre elas Cidinha da Silva, Diedra Roiz e etc., lançada em 2016 kom o grana do edital PROAC SP do governo ke incentiva a kultura em São Paulo e foi distribuído de graça. 4. Essa poesia da Safo de lesbos foi retirada do zine Lesbos ke é uma koletênea de poesias de mulher ke gosta de mulher kom várias autoras organizado pela kerida Júlia Franciska no ano de 2016.
Mini bio Poeta y eskritora, kapoeira de vulgo, Formiga pele parda 27 anos contrariando as estatístikas. ] Nascida e kriada no extremo Sul da zona Sul de São Paulo. Publikou o fanzine Aversão Poetika de 2012 a 2015, o livreto Eu-lesbika em 2014, o fanzine Seis Sentidos em 2016 e em 2018 lançou o recente kuadrinho chamado Lesbo Ódio #1, trampo pela sua distro Edições Formigueiro.
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menstruação Texto: Sheila Costa Propagandas: fonte internet Foto: Larissa Rocha
Substantivo feminino 1. Fluxo de sangue e restos de mucosa uterina periodicamente eliminados pela vagina (geralmente a cada período de cerca de quatro semanas), nas mulheres não grávidas, entre a puberdade e a menopausa. Incômodo, de Chico , de vermelho, naqueles dias, monstruada, entre outras.
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Em média uma mulher menstruará por 30 anos! Somos consumidoras maravilhosas para todos os fabricantes de absorventes industrializados que tentam nos fazer acreditar em propagandas e promessas inconcebíveis durante “aqueles dias”. As formas de esconder nosso sangue são diversas, desde as antigas toalhas higiênicas aos copos coletores. (este último nem tão novo assim, sua primeira versão confeccionado em látex data de 1937). Faz algum tempo que as questões ligadas à menstruação me deixam “incomodada”. As propagandas de absorventes nos retratam vivendo um momento de alegria, proporcionada pelo produto, caminhamos sorridentes entre campos de lavandas, mas a realidade é bem diferente: Pegamos ônibus lotados, horas e horas de trânsito, mau humor alheio, calor, frio, trabalhamos em pé ou sentadas o dia todo, sofremos com mudanças drásticas de humor causadas pelo sobe e desde hormonal e quando perdemos a paciência somos taxadas de loucas. Ser mulher e vivenciar o ciclo menstrual a cada 28 ou 30 dias é realmente travar uma 18
guerra para manter-se nos padrões sociais aceitáveis de humor e paciência sem querer matar alguém. AS propagandas de absorventes no Brasil desde os anos 30 do século XIX mostram a solução para esse descompasso feminino durante a menstruação: trocar as antiquadas toalhinhas por um moderno absorvente higiênico descartável. Os primeiros absorventes descartáveis chegaram ao Brasil na década de 1930, mas popularizaram-se na década de 1950. Veja algumas propagandas dos anos 40 e 50 no Brasil.
deveria ter tecnologias para ser biodegradável e não poluir ainda mais o meio ambiente, mas alguns produtos também industrializados colocam nas nossas contas a poluição do meio ambiente e nos faz acreditar, de novo, que somos a culpada pela degradação do planeta, pois esses poluentes em grande escala fazem parte do universo tido como feminino: absorventes higiênicos e fraldas descartáveis.
Há muitos produtos, industrializados ou confeccionados artesanalmente para atender a todos os tipos de necessidades das mulheres, mesmo com tanta tecnologia alguns podem causar alergias e estas mulheres precisam de materiais alternativos. Independente do produto que você escolha para usar durante a sua menstruação é importante sentir-se confortável com este produto, industrializado ou não. O que mais me choca em alguns discursos é tornar quase uma obrigatoriedade que a mulher, de novo, carregue nas costas a culpa pelas “desgraças” do mundo. O Nosso absorvente, criado pela indústria,
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Deixo cação,
aqui uma querida
seria mais óbvio os fabricantes de absorventes higiênicos desenvolverem um material biodegradável do que a mídia e esses próprios fabricantes culpar-nos pela poluição do planeta?
Não
provoleitora:
Lançamento da 11ª edição da Revista Alternativa-L e Tia Concha No dia 15 de dezembro de 2018, no Ella Cantinho Rosa Bar em uma rua histórica para o movimento lésbico paulista, a Martinho Prado, rua do antigo Ferro’s Bar, lançamos a 11ª edição da Alternativa L e a 2ª edição da nossa irmã caçula: a Tia Concha !
a capa Auto-retrato: Larissa Rocha
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Essas fotos são auto-retrato de um momento em que em mim latejava a vontade de falar sobre o meu corpo, sobre o sangue que corre em minhas veias e minhas pernas, do que se foi construído através dele. O disparo criativo foi uma notícia que li em um jornal virtual sobre uma criança que morreu de frio após o pai colocá-la em um quarto fora da casa quando ela estava menstruada, porque segundo a religião deles, era comum as mulheres não dormirem em casa enquanto estivessem menstruando. Isso me abalou muito, pois em vários lugares o sangue feminino trás mortes, nojo, e dinheiro aos donos de grandes nomes de absorventes. Isso me levou a essa série de fotos, onde meu sangue é meu, e os absorventes das grandes empresas que nos obrigam a comprá-los todo mês porque o que temos deve ser tapado e escondido, e JAMAIS aceitado. O horror das fotos está enrolado em meu corpo, o meu sangue é o que mantém o restante vivo, tanto a arte, a mim, e a humanidade. 23
A (re)descoberta do prazer Por Luis Fernando Uchoa
Ao abordar em palestras, sensibilizações, rodas de conversa ou artigos a questão da sexualidade no âmbito político-social todos(as) têm a impressão que minha vida sexual é um tema tranquilo e sem grandes pormenores, pelo fato de ser militante e ativista da causa LGBTI+ e lidar com essa temática em meu cotidiano. Mas, é exatamente o oposto que ocorre devido ao falocentrismo existente no universo cis gay, muitas vezes é fator impeditivo para exploração de prazeres sexuais pelo fato de ser um homem trans gay. Recentemente me envolvi com um cis gay militante e ativista da causa LGBTI+ e de esquerda. A princípio, a relação estava ocorrendo bem e sem grandes problemáticas. No entanto, quando abordava com ele minha vontade de ter relações sexuais, o assunto era desfocado para outras vertentes e isso me frustrou de forma intensa. Com o tempo, a nossa convivência se limitou a amizade circunstancial e a possível interação sexual-amorosa foi interrompida.
MÀ experiÊncia A má experiência fez com que me fechasse a novas possibilidades e assim, segui realizando minhas tarefas cotidianas sem grandes expectativas em relação a exploração de minha sexualidade. Nesta fase o tesão crescia em mim avassalante tanto que masturbação diária não era capaz de suprir essa necessidade latente por sexo.
Surpresa O tempo passou até que finalmente por essas consequências que a vida nos proporciona, encontrei um outro rapaz que havia conhecido através de grupo de travestis e transexuais. No qual sou membro; e ele me falou inicialmente de projetos voltados a qualidade vocal focados para este segmento e, me encantei com suas falas e sua paixão pela fonoaudiologia. Mas, a atração por ele somente ocorreu após um encontro mais infor24 24
mal em um barzinho no centro de SP. Conforme o passar dos dias conversávamos sobre nossos cotidianos, desejos, anseios e de repente, disse que nunca ter se relacionado sexualmente com um homem trans, porém, tinha vontade de saber como seria esta experiência. “Logo, pensei mais um homem cis com discurso fetichista e objetificador”, fiquei paralisado com a declaração. Segui conversando com ele pelo Whats e pelo Messenger do Facebook e, de repente, o pensamento inicial se desmorona quando ele passa a tratar com uma naturalidade esplendorosa e, me passa segurança, ao dizer que minha masculinidade existe e resiste apesar de possuir características distintas do padrão cis masculino e, que seu desejo por mim era por minha aparência masculina e minha personalidade.
Desejos Nossas conversas diárias se tornavam cada vez intensas por abordarem múltiplas temáticas que iam desde assuntos triviais até expressão de desejos e fantasias sexuais e, isso me fazia sentir arrepios, calafrios, suores e batidas cardíacas descompassadas quando ouvia o som de sua voz e lia suas palavras fortes e objetivas.
A aventura O dia de nossa aventura sexual finalmente chegou e no momento em que senti o beijo voluptuoso simplesmente cai em um completo êxtase, suas mãos firmes explorando cada parte do meu ser, me vi entregue e quando o lapso de consciência ocorreu as roupas estavam caídas e estava nu sem nenhum pudor diante daquele homem com pele macia e aparência firme/ máscula. Um inexorável olhar rumo ao meu me fazia sentir paixão, tesão e um certo tipo de romance em uma situação meramente sexual e conforme o ato avançava meu corpo mergulhava em um frenesi altamente volátil. Sua boca em cada poro de meu ser, me elevava a uma outra galáxia inacessível no mundo racionalizado e, com isso, sentia aquele corpo pesando sobre meu e não conseguia imaginar como tinha vivido sem aquela experiência tão prazerosa até então. 25
Ápice O ápice veio ao sentir aquela boca em minha genitália e percebi o seu desejo latente por ela sem nenhum tipo de rotulação ou questionamento. Era um homem desejando o outro independente de sua corporeidade e, conforme, o clima esquentava o prenúncio da penetração vinha e o grande temor foi desfeito. Nunca pensei que fosse ser prazeroso sentir um pênis me penetrando, por imaginar a descaracterização de minha identidade masculina construída a tão duras penas nesse sistema cisheteronormativo. O prazer veio por sentir naquele momento a fusão de um pênis e uma vagina em uma mesma sintonia, em que os papéis fossem e pudessem ser trocados, em qual ele e eu pudéssemos trocar os corpos para cada um sentir o que outro estivesse sentindo naquela situação.
Novas percepçÕes Jamais quero impor aos homens trans gays, bissexuais ou pansexuais uma maneira de se relacionar sexualmente. Só expresso aqui a minha experiência e as impressões acerca do ato que me fez (re) descobrir um prazer até inexplorado mesmo em um corpo não representativo pelo fato de nutrir determinadas características imputadas por uma biologia, que em nada definem minha identidade.
LiçÃo A grande lição deste ato sexual é de perceber que posso utilizar a minha vagina em uma relação sexual sendo penetrado por qualquer objeto ou um pênis e isso não me fara ser um quase homem. E, sim, alguém capaz de explorar inúmeras facetas sexuais sem nenhum tipo de pudor ou restrição dessa forma, colocando em prática o que apregoo em minha militância que o corpo é um instrumento político-social existente para desestabilizar as normas vigentes de como se fazer sexo. Por isso, resolvi viver sem nenhum tipo de rotulação acerca de minha sexualidade e seguir nessa busca por eternas (re) descobertas.
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Poesia : Você Por: Marcela Hebeler Barbosa
Olho seus olhos Seus brincos Cabelos Soltos ou presos... No entanto, o que me fascina Admiro É o que se derrama da sua boca Som, das músicas mais lindas Tomando minhas orelhas E assim, todo o meu corpo gira Num florescer, sem querer, Um sorriso transpira Me vou perdida Sem ninguém saber Nem eu, nem você Pois nem para mim ouso dizer Que o meu querer é estar sempre Junto a você 28 28
Autora Poeta, contista e professora de História. Participa de um site de poesias na internet, possui várias publicações impressas, como também em e-books pela Amazon. 29
Conto entre olhares um amor por Nay Rosário Sinto meu coração disparado de tal forma a parecer que quem estiver a metros de distancia poderá ouvi-lo. Sempre que a vejo não consigo controlar as reações do meu corpo. Com apenas um olhar ela me domina, me controla e o pior é que gosto dessa sensação masoquista. Seus passos em direção a mim são marcados pelo compasso do salto no assoalho. A cuíca que dá o contraponto a bateria do meu coração. No ar o perfume que traduz tão bem sua personalidade. Forte, marcante contrastando com a suavidade dos gestos delicados de uma dama. Quem diria que a distancia entre a entrada do restaurante e a mesa meticulosamente escolhida por mim para nosso jantar tornar-se-ia uma passarela para o seu andar. Os outros que ali estão tornaram-se espectadores do desfile de sua beleza. Eu sou só uma apaixonada que respira o ar que te rodeia se embriagando do seu ser na ânsia de ser correspondida em toda sua plenitude. Levanto-me para cumprimenta-la com os tão tradicionais beijinhos na bochecha. Típico de brasileiros. Sentamo-nos e um jovem de aparência e expressões belas aparece nos oferecendo o cardápio. Deixo por conta dela as escolhas, peço apenas o vinho, chileno suave que muito me agrada. Digo-lhe que o sabor do vinho em muito se assemelha com ela e vejo um leve rubor em sua face. Saboreamos nosso jantar em total silencio. As palavras são pronunciadas pelos olhares que deixam às claras todas as intenções de ambas. Da minha parte há desejo, paixão, uma excitação incontida e incontrolável. De sua parte vejo o desejo de ser saboreada tal qual faço com o vinho que se encontra em minha taça. Enquanto beberico o vinho sustento seu olhar no meu. A tensão do jantar é quase palpável. O jovem garçom nos trás uma mousse de chocolate como sobremesa. Ela saboreia um pedaço de forma tão provocante que sinto meus pelos eriçar-se quase que instantaneamente. Entre 30
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minhas pernas certa umidade já conhecida. Nesse digladiar de olhos e olhares a sobremesa é degustada. Estou à beira do colapso e decido por fim a esse tormento. Peço a conta e faço questão de pagá-la. Dirigimos-nos para a entrada e tenho a impressão de estarmos sendo seguidas por olhares. Coloco minha mão em sua cintura levemente e sinto que um calafrio atravessou seu corpo em direção ao meu. A deixarei em casa. Já dentro do carro enquanto distraidamente dirijo pela cidade naquela noite especialmente estrelada. Vejo de soslaio quando ela liga o player do carro e a voz deliciosa de Yolanda Adams começa a invadir minha imaginação provocando ainda mais minha libido. Ela não esta indiferente a letra daquela canção. O semáforo fecha. Viro-me em sua direção e vejo uma das cenas mais lindas da noite. Com os olhos fechados ela canta baixinho, sua voz enrouquecida denuncia o que lha vai ao intimo. Não resisto. Meu autocontrole perde-se na minha insanidade. Aproximo nossos rostos e quando estou a centímetros de sua face seus olhos se abrem. A permissão me é concedida. Beijo-a com toda a vontade e necessidade do meu ser. Sou correspondida na mesma intensidade. Um beijo que começou suave e tranquilo tornou-se urgente. O semáforo abre e ouço buzinas ao longe. Lembro-me de onde estamos e lentamente me afasto. Seu sorriso cristalino agradece minha audácia. Seguimos em silencio até sua casa. Sinto sua mão repousada sobre minha perna e vez ou outra sente caricias que me arrepiam. Chegamos. Ela convida-me a entrar e conhecer seu refugio. A decoração simples e aconchegante reflete sua imagem, mas não me demoro a prestar atenção nos detalhes, pois sinto uma mão invadir e acariciar minha nuca enquanto lábios sedosos beijam-me empurrando-me em direção a sua alcova com certa urgência de saciar vontades de toda uma noite de espera. 31
Horas depois de intensas sessões de mordidas, gemidos, arranhões, gritos e dizeres que não me cabe expressar. Estamos nós deitadas, trocando caricias e sorrisos. Nada é dito. Os olhares falam. O silencio responde. Poucos instantes depois, dormimos no calor dos braços uma da outra. Sinto que é apenas o começo. Nos meus pensamentos a letra daquela canção ainda ressoa como se fosse a resposta do meu coração.
Minicurrículo da Nay Rosário Pseudônimo de uma escritora soteropolitana. Amante da natureza, sensível ao extremo. Mantém um blog onde escreve contos, poemas, romances e fragmentos de pensamentos intitulado Escritos da Noite, pois a noite é seu habitat. Sente-se em paz.
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FEMINICÍDIO Texto e foto por: Aleska Drychan
“ feminicídio é um termo utilizado para crime de ódio contra mulher, somente pela condição de ser mulher, definindo também como agressões verbais, psicológicas, abuso ou assédio sexual, estupro, tortura, todos seguidos de morte.”
O conceito feminicídio surgiu na década de 70 com o intuito de denunciar morte de mulheres em diferentes contextos sociais e políticos. Reconhecer e dar visibilidade à discriminação, opressão, desigualdade e violência contra mulher, onde sua forma mais extrema resulta em morte, isso porque o índice de mortalidade vem crescendo muito. A lei do feminicídio 13.104 foi sancionada dia 9 de março de 2015 por Dilma Rousself com intuito de impedir os crimes contra mulher, acrescentando no título I dos crimes contra a pessoa, no artigo 121 do Código Penal. Seu parágrafo 2º “homicídio qualificado”, o inciso VI, criando uma nova figura jurídica, o feminicídio, que tipifica e agrava o crime de homicídio quando cometido contra a mulher por razões da condição de sexo feminino. Considera-se que há razões de condição de sexo feminino quando o crime envolve: violência doméstica e familiar e menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Segundo estudos, o mapa da violência de 2015, o Brasil é o 5º país mais violento do mundo em um grupo de 83 países, com uma taxa de 4,8 homicídios por 100 mil mulheres. Taxas de homicídio de mulheres (por 100 mil) 35
Fonte: mapa da violência 2015 homicídio de mulheres no Brasil.
Existem diversas características, e circunstâncias dos homicídios contra mulheres. Não existe muitas informações oficialmente registrada, porém se baseando nas declarações de óbito, o mapa da mortalidade divulgou, que a raça/cor e a idade da vítima, pode ser um agravante para que essas agressões seguida de morte ocorra. * A população negra é uma vítima prioritária da violência de feminicídio no país. *A taxa de feminicídio da população branca cai, enquanto as taxas de mortalidade de negras tendem a aumentar. * Por esse motivo, nos últimos anos, o índice de vitimização da população negra cresceu de forma drástica.
Fonte: mapa da violência 2015 homicídio de mulheres no Brasil.
Taxas de homicídio de mulheres brancas (por 100 mil). Brasil. 2013.
Fonte: mapa da violência 2015 homicídio de mulheres no Brasil.
Taxas de homicídio de mulheres negras (por 100 mil). Brasil. 2013
Hoje em dia ouvimos falar muito mais sobre o feminicídio do que antigamente, pois as pessoas começaram a entender que exitem homens machistas o suficiente pra achar que podem tirar a vida de uma mulher. Estudo realizado em 2018 pelo MDH (ministério de direitos humanos), mostra que de “janeiro a julho, o Ligue 180” registrou 27 feminicídios, 51 homicídios, 547 tentativas de feminicídios e 118 tentativas de homicídios. No mesmo período, os relatos de violência chegaram a 79.661, sendo os maiores números referentes à violência física (37.396), e violência psicológica (26.527).
Fonte: Ministério dos direitos humanos.
Detalhamento dos números registrados pelo Ligue 180.
Fonte: Ministério dos direitos humanos.
Quantidade total de registros classificados como violência doméstica.
O Ligue 180, é uma política pública, que está disponível no Brasil, e em mais 16 países. Pode ser acionado na Argentina, Bélgica, Espanha, EUA, França, Guiana Francesa e Inglesa, Holanda, Inglaterra, Itália, Luxemburgo, Noruega, Paraguai, Portugal, Suíça, Uruguai e Venezuela. Toda e qualquer violência contra à mulher pode ser registrada pelo número 180 ou pelo e-mail ligue180@spm. gov.br “O Ligue 180 se consolida, como uma ferramenta acessível, à todas as mulheres e sociedade em geral. Inteiramente gratuito, é um recurso que pode salvar vidas, e possibilitar o fim de um ciclo de violências”,
Bem-Vindas ao Clube Lesbos “Quando a gente lê ouve a voz dessas mulheres mesmo que seja ficção”. Lídia Bizio Texto : Simone Almeida Fotos: Vanessa Siqueira e Arquivo Pessoal Clube Lesbos
O Clube Lesbos nasceu da resposta para a seguinte questão : E se existisse um espaço para discutir literatura e filmes produzidos por autoras lésbicas com o objetivo de conectar e fortalecer lésbicas e mulheres bissexuais ? Foi uma realização pessoal de Lídia Bizio, pois buscava um lugar onde as lésbicas sentiam-se acolhidas e o Clube é um espaço
para discussão de vivências lésbicas e divulgação de escritoras. Lídia Bizio: 22 anos, pisciana, tem dois cachorros, sempre foi habitué de clubes de leituras, estudante de Astrologia, formada em Editoração e trabalha em redes sociais. Paula Splendore: (Sol Guiné ,nome recebidopeloXamanismo), 22 anos, leonina, formada em Turismo e Terapia Holística, tem dois cachorros e dois gatos, devora livros, ama desafios, é a integrante “zoeira” e a responsável pela maior parte da organização dos eventos do Clube. Paula teve a idéia de buscar um espaço físico para as discussões lésbicas, e após muitas conversas Lídia publica no grupo “A parada no Brejo”, uma proposta para organizar o 1º encontro do Clube Lesbos.
Michele Vieira: 22 anos, canceriana, responsável pelas fotografias, eventos e contabilidade conheceu Lídia e Paula em um terceiro encontro do Clube. O detalhe sobre a aproximação entre Michele e Lídia foi através de um erro no CTRL V em um aplicativo de relacionamentos.
Thaylla Nayyza: 22 anos, sagitariana, cursa Radiologia e “ingressou” no Clube através de mais uma reunião de organização. A PARTE FINANCEIRA DO CLUBE LESBOS O Clube não possui fins lucrativos ou gastos fixos, os espaços não cobram locação e há um baixo investimento (em alguns encontros há sorteio de livros) as integrantes repõem os valores investidos com a venda de camisetas e botons vale ressaltar que o Clube Lesbos é favorável às Políticas Públicas. PONTOS POSITIVOS E NEGATIVOS Há os pontos positivos como a segurança e suporte de um local para as lésbicas discutirem suas vivências, a reversão da bifobia entre as integrantes do Clube e amenizar a discriminação contra as bissexuais. Lídia comenta emocionada:”Sentir que me dá prazer em mudar a vida de mulheres tenho um retorno superior ao financeiro”. Temos também a TK rapper, bissexual, designer das nossas peças e trata da barbearia em alguns eventos “.
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O ponto negativo é trabalhar fobias e discursos de vertentes de lésbicas dentro dos encontros do Clube . OS TÍTULOS, OS ESPAÇOS De início as escolhas dos títulos dos livros eram realizadas por votação online o que não decolou, a partir daí as integrantes do Clube passaram a escolher os títulos. O primeiro encontro com a presença aproximada de 14 pessoas e discussão do filme “Elena Undone” data de 24/09/2017 no Centro Cultural de Terapias Holísticas em São Paulo onde realizam mais três encontros com a colaboração de Danielle Ferrer. Logo depois o Clube Lesbos fixa-se durante o ano de 2018 no Centro Cultural Artemis com todos seus ingredientes: literatura, poesia, séries, filmes, discussão das vivências lésbicas e bissexuais. O público neste período é crescente e por isso são incluídos na programação do Clube Lesbos cursos de panificação e HQs ministrados por e para lésbicas e bissexuais. A dinâmica das ações no Clube junto com um público participativo leva o Clube Lesbos para uma “filial” na cidade de Curitiba-PR com a colaboração de Ísis e Rosa nas terras do sul. Em Agosto de 2018 o encontro foi realizado no Museu da Diversidade Sexual na capital paulista com a publicação “Frente e Verso “ que contou com a participação de uma das autoras Hannah Korich (Editora Malagueta) e da Equipe Alternativa L. DESEJOS Michele: “Ampliar o Clube com novas parcerias “. Sol: ”Mais visibilidade ao Clube Lesbos e que as mulheres tenham espaços 42
para vivências desejamos ter o Clube em todos os lugares do país, e que não perca sua essência intimista e acolhedora.Ter laços com mulheres escritoras, leitoras, livrarias especializadas, ter um trabalho em rede com as lésbicas e mulheres bissexuais queremos expandir os cursos e auxiliar outras mulheres na busca da sua independência financeira”. QUAL FOI A PERGUNTA QUE ALTERNATIVA-L NÃO FEZ PARA O CLUBE LESBOS ? Lídia nos responde, “Qual a importância da Literatura lésbica? “Precisamos mudar para não cometermos os mesmos erros e é importante ler, pois quando lemos ouvimos a voz dessas mulheres mesmo que seja ficção, por exemplo: a discussão sobre a sexualidade de Virgínia Woolf sabemos que no contexto de sua época era difícil assumir ou divulgar sua orientação sexual. Ler as publicações da editora Malagueta é ouvir autoras lésbicas, e as mulheres lésbicas precisam ser ouvidas no meio heterossexual ou LGBTTQI+, pois somos ignovradas. Há muito mais produções sobre gays e menos sobre lésbicas. Precisamos divulgar literatura lésbica, quanto mais lermos essas mulheres mais pessoas irão ouví-las; a divulgação dessa literatura possibilita que outras escrevam e façam suas artes. Editoras lésbicas como a Malagueta e PEL em São Paulo são de extrema relevância, pois são textos escritos por lésbicas e para lésbicas”. Nota: Até o fechamento desta edição o Clube Lesbos está com desembarque marcado na segunda quinzena de Janeiro em mais uma “filial” em Salvador-BA com a discussão do livro” Carol “, de Patricia Highsmith. 43
A FORÇA DA MULHER SAPATÃO E A MÚSICA XOXOTA NA MACIOTA COMO CRÍTICA À HEGEMONIA MASCULINISTA HETERONORMATIVA
É importante salientar que ao citar mulheres no decorrer do texto, falo sob licença do conceito de mulheridades. Descrevo aqui, a partir da narrativa pessoal, um experiencial enquanto mulher cisgênero, bissexual e negra, cuja proposta é discutir o determinismo binário nas expressões de gênero e o falocentrismo, enquanto discursos de poder ainda existentes. Há uns anos relutava pelo termo sapatão, pois me incomodava a utilização limitadamente pejorativa e estereotipada das expressões de gênero de mulheres lésbicas e bissexuais, aludindo ao uso de sapatos, roupas e correlatos tidos como masculinos. No Brasil o termo surgiu na década de 70, e inclusive, citado em marchinhas de carnaval. Me incomoda ainda, associar mulheres lésbicas ou bissexuais única e exclusivamente à uma definida expressão de gênero, pois à medida que somos sapatão, necessariamente somos “conduzidas” sob a lógica da estereotipia, ao cumprimento de expressões de gênero masculinas, e o descumprimento das mesmas ora deslegitimiza nossa orientação sexual lésbica ou bi, ora é permeada por fetichização. 44
Quantas de nós já ouviram os comentários? “Nossa! Mas nem parece que você é lésbica ou bissexual” ou ainda “Ah eu sabia! Você tem cara de sapatão!”. Meu incômodo se dá justamente a partir do interesse em desconstruir esse caráter binário nas expressões de gênero, e acredito que se essa construção perpassa, ainda as nossas relações sociais, é porque de fato, essas relações estão permeadas pelo poder de uma hegemonia masculinista heteronormativa. Diante disso, o que pode implicar o cumprimento ou não dessas expressões de gênero? Podemos sofrer opressões ou violências por causa delas? Mulheres lésbicas ou bissexuais que cumprem expressões de gênero masculinas sofrem a mesma opressão que mulheres lésbicas ou bissexuais cujas expressões de gênero são femininas? E se forem mulheres lésbicas ou bissexuais negras?. Foram esses alguns dos questionamentos que me fiz em um momento da militância, e que no decorrer dela me fez compreender que existem sim diferenças no cumprimento ou não dessas expressões, e que as violências podem ser acentuadas devido a essas expressões de gênero e ainda mais se existirem questões de raça e classe.
Tenho observado, com frequência, que o discurso de luta contra violências às nossas expressões, práticas e vivências tem ultrapassado espaços acadêmicos e coletivos. Tem ecoado nos blocos de carnaval, na literatura e nas músicas. A música “xoxota na maciota” é um exemplo desse discurso, não foi escrita por mulheres, mas tem sido cantada por mulheres lésbicas e bissexuais como “um hino”. Considero interessante a análise diante do contexto cantado, pois compreendo ressignificação tanto para o termo sapatão, quanto para essa música. O termo sapatão cuja autodeclaração aponta força, resistência e crítica à hegemonia masculinista heteronormativa e a música “xoxota na maciota” enquanto crítica ao falocentrismo. Sabemos que ter ou não um pênis diz muito em quase todas as circunstâncias (principalmente se for de um homem cisgênero, branco, hétero e abastado). Não quero aqui generalizar, e tão pouco culpabilizar todos que se enquadram nesses quesitos, minha intenção é apontar os privilégios que emergem de eixos de relações de poder que perpassam gênero, raça e classe, e que devem ser observados. Se examinarmos os registros históricos, veremos que antes do século XVIII os órgãos sexuais femininos eram considerados versões 45
internas dos órgãos sexuais masculinos, sendo por exemplo, a vagina como o pênis, o útero como o escroto. Durante dois milênios os ovários não possuíam ao menos nome específico! Apenas em 1759 é que alguém se importou em detalhar em um livro de anatomia o esqueleto feminino, pois até então havia uma estrutura básica de corpo humano e sua representação profundamente marcada por uma política hegemônica masculinista.
Meu interesse não é supervalorizar a vagina, e conforme declarei no início, reitero aqui, meu interesse é questionar a hegemonia masculinista heteronormativa e falocêntrica enquanto discursos de poder. E perceber que tanto a ressignificação do termo sapatão, quanto de uma música que fala explicitamente sobre a vagina podem expressar o reconhecimento e exteriorização da liberdade de nossas vivências, experiências e práticas, dando-nos assim visibilidade e força diante de violências que nos entrecortam.
Até o fim da década de 90, o processo de excitação do Clitóris não tinha sido entendido, enquanto que a mesma estratégia usada para analisar a estrutura interna de um exemplar vivo, já havia sido realizada para estudar a anatomia masculina na década de 70. Ainda hoje a vagina é tratada com depreciação, por muitas pessoas, há polêmica e censura acerca da exposição de mamilos femininos, e sem dúvida, essas questões apontam para análise sobre determinações, bem como, o prevalecimento de representatividade de papéis sociais sobre nossos corpos sexuados, e a reprodução histórica das desigualdades sociais advindas daí, entre outros discursos. 46
A Autora Guelba S. Alves Xavier é psicóloga, pesquisadora de estudos de gênero e sexualidade, militante bissexual e feminista interseccional.
Hanna korich e a Editora Brejeira Malagueta Entrevista: Sheila Costa Imagens: Simone Almeida e arquivo pessoal Malagueta
“Em 2007 me aposentei da carreira de advogada e sempre tive a intenção de trabalhar em radio e tv, fiz comunicação social na faculdade e foi uma experiência boa conviver com uma turma de idade diferente da minha na universidade. Nunca tinha pensado em trabalhar com livros, muito menos montar uma editora”.
O PROJETO Eu era casada com uma editora de livros e em uma conversa sobre projetos surgiu a ideia de abrir uma editora que publicasse livros para as lésbicas apenas escritos por e para lésbicas brasileiras e que essas histórias retratassem nosso cotidiano, mas por que isso? Após muitas visitas a livrarias e buscas por títulos com temática lés, concluimos que o mercado para publicação deste segmento criava diversos obstáculos e o machismo estava presente e nós sentíamos falta de livros para as lésbicas. 48
Nos anos 90, mas especificamente em 1998, surgiu o selo GLS que publicava livros com temática LGBT, com autores brasileiros e estrangeiros, mas poucos por e para lésbicas. Ensejando uma boa produção de livros com qualidade escrito por lésbicas brasileiras, abrimos a editora Brejeira Malagueta, seu principal foco: Histórias que falassem sobre o amor entre mulheres e fossem escritos por lésbicas brasileiras.
Como localizar essas escritoras ? Nós tinhamos contato com Lúcia Facco, o primeiro livro publicado foi dela em agosto de 2008, o As Guardiãs da Magia“ com ilustrações de Lara Luna. Nós abrimos o mercado, com inscrições no site da editora, com envio de originais e líamos, eu, Laura Bacellar (editora chefe da Brejeira Malagueta) e um conselho editorial e só após aprovação deste grupo a obra seria então publicada.
Apoios financeiros para o projeto A malagueta surge sem apoios financeiros. Sobre utilização de verbas públicas “Não sou contra o uso de verba pública para projetos, desde que eles sejam obtidos de forma lícita sem conchavos que atendam interesses diversos, que não 49
o de políticas públicas. Eu faço um trabalho idealista, carrego comigo o idealismo da juventude, a malagueta, o documentário sobre a escritora Cassandra Rios (com financiamento pelo PROAC).não trouxeram lucros”. Para exibição do filme documentário com sua presença é necessário agendamento e o suporte minimo para deslocamento, hospedagem e alimentação de acordo com a distancia da cidade ou local. Memória Lésbica
Cassandra Rios
Foi uma escritora polêmica que ficou conhecida pela ousadia de suas obras, consideradas por alguns pornográficas, por outros irresistíveis. Na década de 1970, foi das autoras brasileiras que mais vendeu livros e também uma das mais perseguidas pela ditadura militar. Pode-se dizer que foi a primeira escritora brasileira a mostrar a mulher como um ser sexual e, mais ainda, a primeira a ter coragem de retratar as homossexuais. Neste vídeo, amigos, estudiosos, familiares, leitores, colegas falam de Cassandra Rios e prestam tributo à sua coragem e pioneirismo. Câmera de Cadu Silva, trilha sonora (linda, em cima de dois poemas da própria Cassandra) de Laura Finocchiaro, direção de Hanna Korich. Se você quer conhecer ou relembrar a história de Cassandra Rios, uma escritora 50
corajosa, que desafiou as restrições de sua época para escrever sobre o desejo da mulher, inclusive o amor entre mulheres, eis aqui: um dvd cheio de depoimentos que inspiram. Lésbica atirada, cheia de coragem, foi essa aqui. Para adquirir entre em contato com: korich@uol.com.br
Quem é Hanna Korich? “Hanna é uma mulher judia, do Bom Retiro, formação não muito religiosa e relativamente conservadora e ao assumir publicamente sua sexualidade foi como retirar um peso enorme dos ombros”. Quando começou a trabalhar com um projeto direcionado para as lésbicas, não tinha como não assumir a homossexualidade. Passou por sofrimento com familiares, devido a conflitos, mas aos poucos foi superando as atribulações. “Trabalhei muito a autoestima, conversei, busquei informações, li muito. Os livros foram um instrumento valiosíssimo para o entendimento de quem eu era (sou)” No final dos anos 80, quando Hanna se entendeu lésbica, o acesso à informação era bem complicado. “Eu sabia o que estava acontecendo comigo, mas tive medo. Os livros me ajudaram muito neste processo de conhecimento e cuidados com minha autoestima”. “Uma das motivações para entrar no projeto da Editora Malagueta foi a minha relação com os livros e a informação que fizeram eu entender quem eu realmente era e continuo sendo: um ser humano 51
normal com direitos e deveres e a única diferença era a minha orientação sexual ser diferente da maioria da população, uma expressão relativamente simples se você tem informação, cultura, uma boa educação e vive em um contexto favorável a tudo isso. Nem sempre esses fatores estão juntos”. Às vezes as pessoas tem educação e cultura, mas a familia é homofóbica ou a família não tem maiores problemas com a sexualidade, mas o individuo não se interessa por cultura e despreza a educação, não valorizando os livros e o conhecimento e encarando a homossexualidade como brincadeira. A intersecção de todos esses aspectos são raras, mas quando elas acontecem é muito tranquilo compreender a sua sexualidade; mesmo considerando que a homofobia exista seja diária e compartilhada, mas as coisas podem ser facilitadas. “Eu acredito que o que facilita não é só a questão de aceitação, mas é o seu interno e este cultiva-se com cultura, educação, trabalhando a autoestima, informando-se. Leia e informe-se”!
Uma alegria “Foi uma alegria e surpresa muito grande descobrir por redes sociais um grupo de meninas interessadas em ler e discutir literatura lésbica” Hanna adorou ver a juventude interessada por esta literatura lésbica nos encontros do Clube Lesbos e sempre que pode comparece nos eventos com seus livros sapatônicos!
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Para aquirir um dos livros da Editora Malagueta ou o Documentรกrio sobre Cassandra rios a Safo de Perdizes, entre em contato pelo email. korich@uol.com.br
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CINE SAPATÃO Texto: Simone Almeida Imagem: Simone Almeida e Cine Sapatão
“Fomentar um espaço de fala e interação para mulheres lésbicas, um espaço para que nossa vida liberte-se do privado para vivenciar o coletivo”. Fernanda Elias
Coletivo que organiza os encontros mensais do Cine Sarau Sapatão em São Paulo, com entrada gratuita e exibição de filmes de mulheres com temática lésbica. As mulheres à frente do Cine Sapatão desenvolvem um trabalho incrível que consiste em pesquisar, traduzir, legendar, obter a devida autorização das diretoras para exibição de suas películas e, finalmente, divulgar as sessões gratuitas apresentadas em um espaço público ou privadas a determinar na capital paulista. A seleção dos filmes (com finais felizes) acontece em conjunto. Em setembro de 2018 as editoras desta revista Sheila Costa e Simone Almeida foram convidadas como mediadoras após exibição de curtas no evento “ Com o Passar do Tempo : Sexo e Vida Afetiva de Mulheres Lésbicas “. 54
A “DIREÇÃO” DO CINE SAPATÃO Fernanda Elias: 34, formada em Direito, Filosofia e História é responsável pela tradução, legendas e curadoria. Catharine Rodrigues: 27, Artista Plástica e Ceramista é responsável pela tradução, legendas produção dos folders. Rita Quadros: 52, Relações Públicas do Coletivo, Feminista, militante, participou da organização das primeiras Paradas do Orgulho LGBT e Caminhadas de Lésbicas de São Paulo; participou da construção da Liga Brasileira de Lésbicas e representou o seguimento de Lésbicas no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher em sua primeira gestão.
“AÇÃO” Partiu através da observação de mais uma edição do Festival Mix Brasil, evento cultural anual realizado em São Paulo dirigido ao público LGBTTQ+ com apresentações de audiovisual, música, literatura, cinema, teatro e performances, onde ficou clara a pouca participação das lésbicas. Após reflexões Fernanda convida Rita e Catharine para “garimparem” e exibirem filmes com foco na lesbianidade ,Rita fez a ponte com o teatro de entrada gratuita para exibição e discussão dos filmes. Pesquisar os filmes para exibição uma vez por mês é um trabalho intenso (e prazeroso) porque requer disponibilidade de tempo também para o contato com as respectivas diretoras. De início essa atitude foi colocada como Loucura ,porque a equipe do Cine não tinha uma variedade de títulos disponíveis, feliz-
mente, a busca incessante dessas mulheres por longas e curtas metragens concretizou um belo acervo. Temas como maturidades, lésbicas negras, feminismo radical, títulos relacionados ao contexto político do país, porn-art, curtas de Rita Moreira já passaram pelo Cine e o Cine-Sarau apresenta poesias e lançamento de livros de autoras lésbicas. As exibições são organizadas por temas, geralmente, com um longa ou vários curtas para em seguida iniciar as discussões com o público com a presença ou não de uma ou mais mediadoras convidadas. A legislação brasileira permite a exibição dos filmes em cineclubes sem necessitar pagar por direitos autorais, desde que não se cobre a entrada, estes ajustes surgiram em resposta às necessidades que o cinema dito comercial não atende.
PONTOS POSITIVOS As diferentes idades, as vivências plurais das integrantes do Cine Sapatão favorecem na seleção dos filmes. A permanência do Cine Sapatão depende da venda de botons e camisetas, e principalmente, da boa vontade de suas integrantes todo o processo de execução é complicadíssimo por causa da pouca disponibilidade de tempo do Coletivo, mas o processo precisa 55
continuar porque vida de paulista é “os corres”.
PONTOS NEGATIVOS O público é constante ao mesmo tempo em que é instável e o Coletivo já está organizando essa questão. QUEM TEM “MEDO” DAS PRODUÇÕES COM TEMÁTICA LÉSBICA ? O QUE DIFICULTA ESSA PRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO ? “Fernanda Elias nos guia nessa viagem cinematográfica,” Não sei se é um medo das lésbicas. Quando enviamos o evento para o “Guia da Folha” (Caderno Cultural do Jornal Folha de São Paulo) ou para a Rádio USP não nos mostram que há prioridade; não divulgam. A baixa produção está relacionada à diferença social as mulheres não são incentivadas a trabalharem com tecnologias, a produção é pequena se compararmos com produções de temática não lésbica porque tem poucas mulheres com acesso às tecnologias ou fazendo cinema como formação há também poucos filmes dirigidos por negras. A gente está falando do Cine Sapatão e nossas dificuldades são apenas a ponta desse iceberg, pois esse meio é um território misógino. Precisamos incluir profissionalização do Cinema, curso de Roteiro para mulheres em toda sua pluralidade. Nos primeiros meses do Cine Sapatão houve essa inquietação com falta de formação de mulheres que anseiam produzir filmes sob diferentes realidades lésbicas com a pluralidade lésbica fazendo cinema teremos cada vez maior representatividade. A problemática da aversão de algumas mulheres às tecnologias é enraizada em nossa sociedade porque o 56
espaço da mulher é limitado ao espaço doméstico e essa cultura da interiorização dos espaços femininos reflete em diversas áreas do conhecimento, e o senso comum afasta as mulheres de áreas dominadas pela “ala “masculina, temos o exemplo do Cinema, Literatura e Fotografia”.
Nota: Catharine Rodrigues desligou-se do Cine Sapatão ao final desta edição. 57
Patrocínio
realização