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Al-Madan Online 29-2

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Associação de Utilidade Pública Sem Fins Lucrativos

Organização Não-Governamental de Ambiente

[travessa luís teotónio pereira, cova da piedade, almada] [212 766 975 | 967 354 861] [c.arqueo.alm@gmail.com] [https://carqueoalm.wixsite.com/website] [http://www.facebook.com]

C ENTRO DE A RQUEOLOGIA DE A LMADA

1972-2026

54 anos de intervenção social, a promover uma visão integrada da Arqueologia, do Património Cultural e Ambiental e da História local e regional, no exercício partilhado de uma cidadania cultural e cientificamente informada.

ficha de inscrição em https://carqueoalm.wixsite.com/website/contact-3

Capa | Jorge Raposo

Composição gráfica que tem por base fotografia subaquática do Lidador, embarcação a vapor construída em Londres, em 1873, que assegurou a rota Lisboa-Rio de Janeiro por um curto período, pois naufragou apenas cinco anos depois na baía de Angra do Heroísmo. É hoje um dos naufrágios mais visitados por mergulhadores recreativos no arquipélago dos Açores.

Foto | © José Luís Neto

2.ª Série, N.º 29, Tomo 2, Julho 2026

Proprietário e editor | Centro de Arqueologia de Almada, Apartado 603 EC Pragal, 2801-601 Almada Portugal

NIPC | 501 073 566

Sede do editor e da redacção | Travessa Luís Teotónio Pereira, Cova da Piedade, 2805-187 Almada

Telefone | 212 766 975

E-mail | c.arqueo.alm@gmail.com

Internet | www.almadan.publ.pt

ISSN | 2182-7265

Estatuto editorial | www.almadan.publ.pt

Distribuição | http://issuu.com/almadan; https://zenodo.org/communities/al-madan_online

Periodicidade | Semestral

Apoios | Associação dos Arqueólogos Portugueses / ArqueoHoje - Conservação e Restauro do Património Monumental, Ld.ª / Câmara Municipal de Almada / / Dryas - Octopétala, Ld.ª / Cota 80-86, Unipessoal, Ld.ª / Câmara Municipal de Oeiras / Neoépica, Ld.ª

Director | Jorge Raposo (director.almadan@gmail.com)

Publicidade | Centro de Arqueologia de Almada (c.arqueo.alm@gmail.com)

Na ocasião em que se discute a criação, nos Açores, de um Museu Nacional dedicado à Arqueologia Náutica e Subaquática, por petição pública entretanto apoiada unanimemente no respectivo parlamento regional, a Al-Madan Online destaca um dos sítios emblemáticos desse rico e diversificado Património arqueológico: aquele onde naufragou o vapor Lidador, em 1878, quando assegurava a rota atlântica que unia Lisboa ao Rio de Janeiro. Incorporado em parque arqueológico subaquático desde 2005, a integridade e o estado de conservação do destroço deste navio surpreendem os muitos mergulhadores recreativos que atrai à baía de Angra do Heroísmo. Mas evocam também um dos movimentos sociais mais relevantes do século XIX açoriano e português: o da emigração legal e clandestina para o Brasil, maioritariamente oriunda dos Açores e do Minho, num contexto que a historiografia viria a classificar de “escravatura branca”, por incidir essencialmente sobre mão-de-obra desqualificada e barata destinada a substituir o comércio de escravos africanos, cuja proibição fora decretada em 1850. Esse é o contexto económico e social que o naufrágio do Lidador também permite abordar. Outros estudos têm por tema a interacção de populações fenícias e indígenas no processo de formação de Olisipo e na estruturação do território envolvente ao longo do I milénio a.C., ou análises mais detalhadas dos selos de chumbo aplicados em mercadorias que chegaram ao Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, ou ainda de um marco epigrafado que marcaria a divisão entre os terrenos ligados a este Mosteiro e à Quinta das Lágrimas, passando por um conjunto de materiais de Época Moderna recolhidos na Rua da Fé, em Lisboa, e por um olhar arqueológico sobre instrumento culinário recolhido em estruturas habitacionais do século XVI, em Silves.

A Arqueologia de campo está representada por trabalhos em Moura, Lisboa e Leiria, enquanto outros artigos partem da realidade brasileira para uma reflexão mais abrangente sobre a teoria e a prática arqueológicas a aplicar em contextos de catástrofe, discutem como avaliar e registar situações dramáticas de isolamento sénior, e questionam os limites da Arqueologia contemporânea portuguesa. Por fim, a Al-Madan Online volta a dar atenção à arte do guadameci / “couro dourado”, agora a propósito de uma encomenda do início do século XVII destinada a decorar o Palácio de Estaus, sede da Inquisição de Lisboa. E o alinhamento encerra com noticiário breve de intervenções arqueológicas e de eventos científicos ou de divulgação, que acompanha a agenda dos anunciados para os próximos meses e a recensão e destaque de edições recentes. Tudo isto antecedido pelas crónicas de Arqueologia e Património que dão brilho às páginas iniciais desta edição. Como sempre, votos de que encontre bons motivos de leitura, com prazer e saúde.

Jorge Raposo, 28 de Junho de 2026

Conselho científico |

Amílcar Guerra, António Nabais, Luís Raposo, Carlos Marques da Silva e Carlos Tavares da Silva

Resumos | Autores e Jorge Raposo (português), Luísa Pinho (inglês) e Maria Isabel dos Santos (francês) Modelo gráfico, tratamento de imagem e paginação electrónica | Jorge Raposo

Revisão | Autores e Fernanda Lourenço Colaboram neste tomo | April M. Beisaw, Tânia Casimiro, Maria João B. Coelho, Ricardo Coelho, Rui Gomes

Coelho, Sara Cura, Vítor Durão, José d’Encarnação, Allysson A. de Farias, Vanessa Filipe, Sofia Fonseca, Marcos T. E. Frota, Cristina Gameiro, Vanessa Gaspar, Catarina Gomes, Rosa V. Gomes, Sérgio Gomes, Susana Henriques, Martha J. Hernández Velasco, Vítor O. Jorge, Catarina C. Leal, Afonso Leão, Sebastião L. de Lima Filho, António Marques, Maria João Marques, Nicholas Márquez-Grant, Victor Mestre, Manoel O. Moraes Filho, Renato E. Moreira Filho, José Luís Neto, Agustín Ortega-Esquinca, Susana Pacheco, F. Donald Pate,

Franklin Pereira, Rui Pina, Rui Pinheiro, Paulo Costa Pinto, Artur Rocha, Maria Isabel F. Rodrigues, André Tomás Santos, Filipe J. C. Santos, Joel Santos, Maria do Céu Santos, Guilherme Sarmento, João Sequeira, Bruno Silva, Sara Simões, Vítor Rafael C. Sousa, Marco Valente e Alexandra Vieira

Os conteúdos editoriais da Al-Madan Online não seguem o Acordo Ortográfico de 1990. No entanto, a revista respeita a vontade dos autores, incluindo nas suas páginas tanto artigos que partilham a opção do editor como aqueles que aplicam o dito Acordo.

EDITORIAL... 3

CRÓNICAS

Esta louca correria… | José d’Encarnação 6

ESTUDOS

Olisipo no Baixo Tejo: estruturas territoriais e processo de formação, I milénio a.C. | Vitor Durão 46

O Lidador: um relevante documento da História social atlântica nos Açores | José Luís Neto 16

Uma Estrema Entre o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova e a Quinta das Lágrimas (Coimbra): crónica de um marco (re)descoberto na Rua Cano dos Amores | Filipe J. C. Santos e Maria Isabel Figueiredo Rodrigues 71

Conservar, reconstituir, mobilar de passado o nosso presente | Vítor Oliveira Jorge 9

A questão do bom senso e do bom gosto nas intervenções em Património: a liberdade criativa enquanto processo de vivificação da memória cultural | Victor Mestre... 12

Selos de Mercadorias: os selos de chumbo do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha em Coimbra | Maria João Bernardes Coelho, Catarina Cunha Leal e Maria do Céu Santos 32

Gabinete de Curiosidades. Materiais de Época Moderna da Rua da Fé, Lisboa | Artur Rocha 61

Carretilha: de utensílio culinário a artefacto arqueológico | Rosa Varela Gomes... 78

ARQUEOLOGIA

OPINIÃO

A Arqueologia na Reabilitação Urbana: o caso da Torre do Relógio, em Amareleja | Vanessa Gaspar 85

Síntese dos Trabalhos Arqueológicos Realizados no Viaduto do Campo Grande, Torre Vicentina, Rampa de Garagem / / Metropolitano de Lisboa | Vítor Rafael C. Sousa, Rui Pina, Bruno Silva, Guilherme Sarmento e Catarina Gomes 94

Digging up the present! Essay on Disaster Archaeology: concept, definition, and its field of practice as a subfield of Forensic Archaeology | Sebastião Lacerda de Lima Filho, Marcos Tadeu Ellery Frota, Renato Evando Moreira Filho, April M. Beisaw, F. Donald Pate, Nicholas Márquez-Grant, Martha Judith Hernández Velasco, Allysson Allan de Farias e Manoel Odorico de Moraes Filho 124

PATRIMÓNIO

Os Guadamecis no Palácio da Inquisição, no Rossio Lisboeta, em Inícios do Século XVII | Franklin Pereira 148

A Casa Fabião (Largo de São Pedro, Leiria): os resultados dos trabalhos arqueológicos recentes | Filipe J. C. Santos... 107

Da Consagração Arqueológica à Decadência Intelectual: porque escrevemos o óbvio? | Joel Santos, Susana Pacheco, João Sequeira, Tânia Casimiro, Afonso Leão e Ricardo Coelho 141

NOTICIÁRIO ARQUEOLÓGICO

Um achado fortuito na Fundação de Serralves | Rui Pinheiro 156

Monte da Salsa / Salsa 1 (Brinches, Serpa): um novo complexo religioso? | Marco Valente e Maria João Marques 159

Dois Prováveis Monumentos Megalíticos Inéditos? (União de Freguesias de Salvador e Santa Maria da Feira, Beja) | Marco Valente e Agustín Ortega-Esquinca... 163

Arqueologia do Isolamento

Sénior: ética, memória e metodologias de registo | Tânia Casimiro, João Sequeira, Joel Santos, Susana Henriques e Vanessa Filipe... 131

EVENTOS

Workshops 50Layers | Cristina Gameiro, Sérgio Gomes, Rui Gomes Coelho, Sara Simões, André Tomás Santos e Sara Cura... 165

ArqueoLoci em 2026: iniciativas para a valorização do turismo arqueológico em Portugal | António Marques, Alexandra Vieira, Sofia Fonseca e Paulo Costa Pinto 168 Agenda de Eventos... 171

LIVROS & REVISTAS

Retrato, vós não sois meu! | José d’Encarnação 172 Novidades editoriais 173

Esta louca correria...

Por opção do autor, o texto não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990.

Está sobre a secretária a rolha duma garrafa de vinho que diz: Feito Devagar No Alentejo.

«Tudo tem o seu tempo!», proclama o Eclesiastes (3, 1).

A luta constante, uma guerra, de que podem ser testemunho batalhas perdidas. Eis algumas.

1. Recebi, ‘remetida’ por confrade meu, a mensagem:

«Estás disponível? Tenho uma tarefa urgente para ti.

Estou a caminho de uma reunião neste momento. Sem chamadas, por favor responde apenas ao meu email»

Percebia-se, pelo endereço, que se tratava de mensagem falsa e, como tal, remeti-a ao detentor do verdadeiro endereço, simplesmente para lhe dar conhecimento. Respondeu-me nestes termos: «Peço muita desculpa.

A resposta não é minha. Trata-se de uma reação falsa»

Pasmei:

a) não tinha de me pedir desculpa; b) eu não lhe enviara uma ‘resposta’; c) que não era dele já eu sabia e, por isso, lha remetera; d) e onde é que está a «reação falsa»?

2.

Resposta (automática, embora oficialmente vinda da directora) ao envio de artigo para uma revista:

«Olá, M. H. submeteu o manuscrito, “vvvvvv” à Boletim de Estudos

Se tiver questões, por favor contacte-nos. Obrigado por considerar esta revisão como meio de difusão do seu trabalho».

As incongruências são tão evidentes que nem é mister referi-las.

Quantas contou?

3.

A familiaridade, de longa data mantida, permitia que a correspondência viesse assinada por iniciais: MT.

Um dia, porém, veio MTY. Depressa, porém, a signatária se deu conta do lapso e nova mensagem remeteu, na volta do correio: «O “Y” do “FT” não é um novo apelido… é a pressa com que ando sempre: »

4.

Tive ocasião de me referir ao touro, cuja altaneira imagem constituía bem conhecida publicidade, em terras de Espanha, ao Brandy de Jerez Veterano. Nos anos 1990, a proibição da publicidade nas estradas levou a suprimir o nome, mas o poder popular obrigou o Supremo Tribunal a permitir, em 1997, que os touros ficassem, atendendo ao seu “interesse estético ou cultural e integração na paisagem”. Haverá, na actualidade, cerca de 90 desses touros, a maioria na Andaluzia. E aproveitei o ensejo para perorar: «Tínhamos nós, Portugueses, painéis publicitários em azulejo, concebidos, geralmente, por artistas de nomeada da nossa praça e que estrategicamente se colocaram, por exemplo, à entrada das povoações. Fazem parte do nosso imaginário. Recordo os painéis dos Nitratos do Chile, dos Pneus Mabor, do Licor Beirão… Quem não se lembra? Evocavam o bom exemplo das firmas que, desde cedo, aquilataram o importante poder da boa publicidade. É provável que ainda subsistam alguns por esse país fora. Se subsistem, há que os preservar! Que os autarcas se consciencializem de que eles fazem parte da nossa memória coletiva».

Credenciado colega fez um comentário, que mostrava claramente que não lera a pequena crónica até ao fim – e o fim é que era, em meu entender, o mais importante. Retorqui-lhe: «Olha, amigo, tu não leste a crónica até ao fim! Ora lê». Respondeu: «Tens razão!

A vida hoje em dia não nos dá tempo para nada, mesmo aposentados!... desculpa!...»

5.

Uma entidade enviou-me, com a intenção de eu divulgar, mas desacompanhado de qualquer texto ou mera saudação, o documento IMG–20260311–WA000.jpg. Tratava-se do anúncio de um concerto de coros que, naturalmente, tinha identificação e, por sinal também, não se realizaria a 11 de Março de 2026, como a legenda poderia dar a entender.

Dou comigo a perguntar-me: num mundo em que um drone, um míssil ou uma depressão podem, num ápice, reduzir a escombros todo um bairro, haverá assim tanta tarefa que um senhor não tenha possibilidade de dispor de dois minutos para transformar siglas em algo verdadeiramente entendível e proveitoso?

“ “ Tudo tem o seu tempo.
Ilustração: Tudo tem o seu tempo . José Luís Madeira, 2026.

6.

Encontrei, nas arrumações, a capa dum bloco-notas assim identificado: X Jornadas Históricas Portugal: Mitos e Ritos 16/17 de Novembro.

Dei a volta à cabeça: em que ano foi ‘isto’? A omissão do ano na documentação sobre iniciativas culturais retira-lhe a componente cronológica. Ainda por cima, umas jornadas históricas – e, em História, é imprescindível a localização temporal.

7.

As nótulas seguintes não têm a ver com a pressa de realização, mas sim com a pressa na concepção:

A – Por que razão se teima em preferir o galicismo «ter lugar» em vez de ‘realizar’, ‘efectuar’?... Aliás, nos tempos que correm, o mais coerente deveria ser «está previsto para…», atendendo a tantos condicionalismos a que estamos sujeitos. E, a esse propósito, como é possível escrever que «o senhor Y vai fazer uma conferência às X horas»? Não faz. Na melhor das hipóteses, o começo da conferência poderá ser «às X horas»; o correcto, portanto, é: «a partir das X horas».

B – Por que razão continuamos a submeter-nos ao termo «newsletter», mui escusado anglicanismo? Não há tempo para pensar noutro? Então, veja-se como, depois de alertados para esse crime de lesa vernaculidade, de pronto souberam reagir os responsáveis: na Academia das Ciências de Lisboa, optou-se por ‘Notícias’; no Museu do Douro, por ‘bloco-notas’; no Museu Nacional de Arqueologia, por ‘Boletim Digital’; no Panteão Nacional, por ‘Agenda e Notícias’... Com grande pena minha, direi que a minha Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra permaneceu fiel aos britânicos, certamente para dar um ar de internacionalidade, quase a exemplo dessoutra escola –a «School of Business and Economics» – que, por estranho que pareça, se situa em Portugal, mais concretamente junto à Praia de Carcavelos, ao largo da qual (importa recordar!), aquando da 3.ª invasão francesa, estavam ancorados os navios ingleses, prontos a zarpar com os refugiados, caso as Linhas de Torres dessem pró torto e os bonapartistas viessem por aí abaixo atacar a capital do Reino!…

E, por favor, se concorda comigo, não me responda «ok»; responda «Certo!». E não crie um «link», prefira «atalho», que é portuguesíssimo e quer dizer isso mesmo: o caminho mais curto para chegar a um sítio! Ou siga o bom exemplo (que aplaudo!) da Academia Portuguesa da História, que acaba de optar por «a ligação de acesso à…»

E“

Quando tudo é urgente, nada permanece. Quando tudo nos chega, nada se organiza. Saber exige outra coisa. Exige tempo, contexto, continuidade. Exige conflito com aquilo que lemos. Exige parar.

E parar, hoje, é quase um gesto político.

“

Leonor Freitas, Duas Linhas (2026-03-25).

stas, amigo, as minhas lutas. Batalhas que gostava de ganhar. Perdoe-me se o macei ao partilhá-las.

Vale-me ter, de vez em quando, alguém que pensa como eu. Leonor Freitas, a 25 de Março de 2026, publicou a crónica «Porque Ver Não é Saber» (acessível em: https://bit.ly/4djfBqe). Afigura-se-me muito boa conclusão para estes desabafos meus: «Quando tudo é urgente, nada permanece. Quando tudo nos chega, nada se organiza [...]. Saber exige outra coisa. Exige tempo, contexto, continuidade. Exige conflito com aquilo que lemos. Exige parar. E parar, hoje, é quase um gesto político»

Pois que seja! – digo eu.

José d’Encarnação, Cascais, 16 de Abril de 2026

Conservar, reconstituir, mobilar de passado o nosso presente

Por opção do autor, o texto segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990.

Fui sempre um pouco avesso a “antiguidades”.

E fiquei sempre embaraçado quando algum colecionador, sabendo-me arqueólogo, me veio perguntar algo sobre uma peça. Normalmente, são as três perguntas sacramentais: quando foi feito? Quem o fez? Para que servia isto?... Não quer isso dizer que eu não tenha certa curiosidade pelo bricabraque das lojas que se dedicam a esse comércio. Mea culpa Mas na verdade não há nada de mais oposto à Arqueologia do que a curiosidade por objetos antigos heterogéneos que jazem nesses locais à espera de comprador. Na realidade, tal mercado incentiva a “busca” ilegal de “tesouros” e, ao mesmo tempo, incrementa o fetichismo das “peças” em que, verdade se diga, todos nós

arqueólogos caímos quando postos perante algo de inesperado, raro, muito antigo, muito belo, etc., que nos é mostrado.

O empírico tem muita força!… Claro que os colecionadores que nos abrem os seus “tesouros” vêm sempre com a mesma conversa: “se não fosse eu a comprá-la, era outro qualquer, e a peça até podia nunca mais ser vista e perder-se para o nosso conhecimento. Assim, conservou-se”. Sim, mas como objeto retirado do seu contexto (que a maioria dos antiquários cautelosamente refere desconhecer) qualquer “peça antiga” já perdeu grande parte do seu valor, digamos, científico, histórico, de documento. É apenas um resto mais ou menos atraente, uma relíquia que só reporta a um nada.

FIG. 1 – Uma loja de equipamento de viagem vintage no Marché Dauphine, Saint-Ouen, Paris.

AArqueologia não é a ciência das coisas ou objetos antigos.

A Arqueologia é uma forma de cada presente encarar a História da Humanidade partindo da assunção de que essa História deixou os seus vestígios algures sob os nossos pés, ou em algum local menos acessível, ou ainda sob uma forma encriptada que se trata de tentar decifrar. E que essa amplitude documental que se esconde por toda a parte permite contar uma história completamente diferente, mesmo que recamada de dúvidas e interrogações. Cientificamente, a dúvida, o incerto, aquilo que instiga a investigação, é o mais importante, sendo sempre a certeza um momento entre duas dúvidas. E, hoje, os saberes e as novas tecnologias deles decorrentes ampliaram muito a nossa capacidade de ver: os drones, que lamentavelmente nos lembram a temível violência da guerra, permitem visões aéreas do território, a diferentes escalas, que só por si revelam muita coisa; formas mais sofisticadas de tratar a imagem possibilitam que painéis inteiros de “arte rupestre” surjam aos nossos olhos de forma quase milagrosa, pois só lá antes víamos manchas ou figuras delidas pelo tempo; métodos de datação mais aperfeiçoados permitem extrair de pequenas amostras dados que circunscrevem cronologicamente certos contextos; a colaboração da Biologia, nos seus diversos domínios, aumentou de maneira excecional os nossos conhecimentos sobre a evolução humana, incluindo espécies de Homo já desaparecidas, a complexa imbricação de espécies (como a que se deu entre neandertais e “homens modernos”), doenças de que sofreram pessoas ou populações, etc., etc.

A enumeração poderia continuar, porque praticamente todas as outras ciências são úteis à Arqueologia para esta tentar compreender a trajetória humana nos diversos meios-ambientes que a permitiram ou condicionaram. Tentar fazer de um registo estático e muito parcial um panorama mais compreensivo e mais dinâmico, em suma.

Quando falamos de Pré-História, em que somos confrontados com os tempos mais remotos e com uma total mudez dos “documentos”, com a ausência da palavra, e, portanto, da linguagem articulada que separa o ser humano dos outros animais, estamos perante dificuldades acrescidas, que se trata de transformar em estímulos. Ou seja, as “dificuldades” em ciência são “o pão nosso de cada dia”, porque esta prática distingue-se da religião precisamente por conviver confortavelmente com a dúvida permanente, como acima referi, e, portanto, com o incerto e o incompleto, sabendo que a cada abismo de ignorância transposto se segue um outro,

A Arqueologia não é a ciência das coisas ou objetos antigos. [...] É uma forma de cada presente encarar a História da Humanidade partindo da assunção que essa História deixou os seus vestígios algures sob os nossos pés, ou em algum local menos acessível, ou ainda sob uma forma encriptada que se trata de tentar decifrar.

“ “

e outro, “até ao infinito”. Não é apenas um problema epistemológico, ou seja, resultante da nossa incapacidade como sujeitos humanos, mas ontológico, isto é, intrínseco à própria realidade, como as filosofias do não-todo nos explicaram. Ou seja, nós usamos palavras/conceitos que parecem tudo abarcar, como “realidade”, por exemplo, mas se os dissecarmos veremos que essa própria realidade não passa de uma abstração com diferentes conotações de indivíduo para indivíduo, de comunidade para comunidade, de época para época. É que a “verdade” é dinâmica, tem a sua história, as suas infindas versões, e daí a importância fundamental do estudo das ideologias, das crenças, dos pressupostos, mesmo de qualquer investigação, por mais “objetiva” que pretenda ser. Porque a objetividade pressupõe logo a sua contrária, a subjetividade (individual ou coletiva) que a institui como “objetiva”, de acordo com pressupostos e observações. As duas noções estão em mediação dialética, determinam-se uma à outra. A não ser que nos voltemos para a religião, que concebamos um Deus como Pai eterno que tudo sabe, nós humanos habitamos o incerto e o contingente, e ainda bem que assim é, porque é como seres subjetivos que podemos sentir, experienciar as diversas modalidades dos afetos que fazem a riqueza (e também a dificuldade) do nosso viver. E nunca nos podemos esquecer de que em cada sujeito há um inconsciente a trabalhar (dia e noite...), e que aí se albergam desejos recalcados que o próprio sujeito ignora...

Ogosto das “antiguidades”, daquilo que parece ter escapado à voracidade do tempo, é precisamente uma forma de compensação fetichista, como tantas outras, da nossa finitude. Conforta alguns sentirem-se rodeados de objetos a que, porventura, dão valor estético ou evocativo de experiências pessoais passadas; e, na verdade, nenhum de nós pode viver sem um certo “mobiliário” de memórias, que povoam a nossa casa, o local onde nos sentimos em relativa paz e segurança. Quanto mais não seja, a foto de um familiar já desaparecido, ou, o que vai dar quase ao mesmo, a própria foto que nos “tiraram” há muitos anos, e que conserva um suposto “eu” que ainda aí persiste noutra modalidade, noutra imagem. Ser para a morte, Dasein, como Heidegger, em particular, se não cansou de teorizar, cada ser humano procura a sua estratégia para poder conviver com a sua finitude. O colecionismo é uma delas, entre mil.

Vítor Oliveira Jorge, Loures, 25 de Abril de 2026

O gosto das ‘antiguidades’, daquilo que parece ter escapado à voracidade do tempo, é precisamente uma forma de compensação fetichista, como tantas outras, da nossa finitude. Conforta alguns [...] e, na verdade, nenhum de nós pode viver sem um certo ‘mobiliário’ de memórias.

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FIG. 2 – O Antiquário, óleo sobre tela por Ulpiano Checa (1908).

A questão do bom senso e do bom gosto nas intervenções em Património a liberdade criativa enquanto processo de vivificação da memória cultural

Por opção do autor, o texto não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990.

Ao revisitarmos o bom senso e o bom gosto, temas ancestrais de mediação de uma determinada apreciação estética, pretendemos ampliar a margem de subjectividade em termos de “liberdade criativa” do que entendemos que as intervenções em património podem, se não mesmo devem, incorporar. As boas práticas associadas a reconhecidos bons exemplos têm sido relevantes, ao estabelecerem padrões comparativos em termos técnicos, tecnológicos e culturais. Mas o que procuramos evidenciar é a questão da “liberdade criativa” em Património, algo que sempre surge nas discussões teóricas como potencialmente perverso, na justa medida em que se procura salvaguardar a autenticidade do monumento a intervencionar, preferencialmente sem introduzir novidade(s). Ora, a própria condição de preservação, por requerer intervenção física, tende a legitimar a introdução de novidade(s), mesmo que silenciosa(s), considerando que as acções de preservação que sustentam a permanência no tempo daquele valor patrimonial, implicam intervir. Podemos desde logo determinar qual o grau de intervenção no contexto patrimonial em questão, em termos qualitativos e quantitativos, e verificar qual o nível de intervenção que sustenta a conservação e o que implica no restauro. E, claro que devemos continuar a questionar, para cada contexto / bem patrimonial específico, o que se entende por restauro e/ou reabilitação numa perspectiva “criativa”.

OO que aqui trazemos para a discussão é precisamente uma questão de ética de intervenção relativa à criatividade em contexto patrimonial, não apenas a nível técnico e tecnológico [...], mas sobretudo ao nível da proposta de transformação imaterial das identidades espácio-funcionais e volumétrico-formais.

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que aqui trazemos para a discussão é precisamente uma questão de ética de intervenção relativa à criatividade em contexto patrimonial, não apenas a nível técnico e tecnológico, cujas especificidades, de um modo geral, introduzem novidades científicas, mas sobretudo ao nível da proposta de transformação imaterial das identidades espácio-funcionais e volumétrico-formais. As alterações aos usos são uma realidade, mesmo quando (aparentemente) nada se altera fisicamente, como é exemplo a musealização de um determinado edifício sem alterações materiais, validando acções de salvaguarda da sua integridade e autenticidade global. Nesta perspectiva, parece que se congelou o edifício num determinado período histórico, para permitir a visita pública e a experienciação do tempo passado. Mesmo nestes casos, embora não se tenha alterado fisicamente a volumetria e espacialidades, a sua atmosfera deixou

de existir, perdendo o mais precioso bem imaterial, ou seja, as vivências para o qual foi concebido e construído. E a pergunta coloca-se: não estará a autenticidade comprometida no seu mais específico sentido? Ou seja, perante a mudança de uso, a manutenção física, por si só, salvaguarda a autenticidade da intervenção? Consideramos assim que, na realidade, não se deverá separar a materialidade da imaterialidade em termos de conceito de salvaguarda, e neste âmbito a criatividade, em contexto patrimonial, poderá harmonizar o sentido da transformação. Verificamos que, nos casos em que permanece a integridade física e mudança de uso, estas têm a particularidade da sua manutenção se aproximar da que se faria se estivessem na sua utilização comum, onde a limpeza e a conservação seriam práticas correntes. Ainda que o natural envelhecimento dos materiais, técnicas e tecnologias implicassem, e impliquem, manutenções específicas com eventuais substituições e, por vezes, a introdução de inovações. Neste pressuposto, as questões de ética de intervenção serão sempre pertinentes enquanto critérios de manutenção e/ou de conservação. E estes critérios serão distintos, entre os aplicados por quem gere o espaço museológico e os que eram determinados pelas práticas correntes de quem habitava esses espaços quotidianamente.

Em contexto patrimonial, quando passamos para o nível da necessidade de intervenção, coloca-se a questão da “liberdade criativa”. Evidencia-se esta questão com particular acutilância no âmbito da apreciação de projectos por parte de técnicos especializados representantes de entidades públicas licenciadoras. Esta questão coloca-se sobretudo em projectos de intervenção em edifícios com perdas significativas de materialidade, degradação acentuada, colapso parcial,

ou por terem ficado incompletos desde a sua origem, ou, ainda, por se pretender efectuar ampliações e/ou transformações para adaptabilidade a novas funções.

Neste contexto coloca-se a pergunta: o que entendemos por “liberdade criativa” em contexto patrimonial? Sem dúvida que não terá uma resposta consensual, pela simples razão de não ser possível aprisioná-la numa resposta canónica, ou seja, definitiva e replicável. A própria expressão “liberdade criativa” é por si só uma redundância, uma vez que toda a criatividade surge de um espírito livre, que emana do seu criador. Pelo que, para o acto ser criativo, a sua natureza é livre. Contudo, o que está em causa é a sua compreensão e aceitação.

FIG. 1 – Escrita desenhada: intervenção nas Ruínas do Convento do Carmo, em LisboaVictor Mestre, campanhas de 1999-2003 e de 2023-2024.

Com frequência esta questão / discussão surge associada ao bom senso, algo complexo de determinar, ainda que se recorra a uma ideia de consciência reguladora de princípios abstractos, bem-intencionados no seu propósito. Sobretudo, surge como algo que avalia o que a criatividade desenvolve e propõe. Teremos, contudo, de considerar que não existirá definição consensual de consciência, ou, pelo menos, esta poderá ser tida como uma cautelosa aproximação a algo que se pretende consensual por tentativas de aproximação. A consciência terá na sua base primordial a percepção do ser, ou seja, do próprio que a interpela na sua compreensão perante si e os contextos exteriores. Nesta demanda se incluem as experiências sensoriais, as emoções, os pensamentos e a apreensão do conhecimento via processo comparativo. A consciência não se define, mas existe, e tem uma particular relevância no foco do pensamento e do raciocínio que desenvolvemos neste ensaio, pois é através dela que associamos, ou mesmo justificamos, o sentido do bom senso na percepção de bem pensar e fazer, não como um anátema, mas como algo plástico e mutável.

Para que não fique, contudo, a impressão de que consideramos o bom senso como algo apenas apaziguador, ou mesmo passivo, lembramos a questão Coimbrã resultante de uma célebre carta que Antero de Quental escreveu, em 1865, a António Feliciano Castilho, intitulada “Bom Senso e Bom Gosto”. Neste texto que ficou célebre, Antero de Quental defende a liberdade criativa de um inovador pensamento, em oposição às amarras da tradição passadista da poesia conservadora e decorativa, cujos autores considera “enfeitadores de ninharias”. O contexto desta contenda tem a sua origem na Universidade de Coimbra e resultou do choque de gerações, de um lado os românticos e do outro os realistas e naturalistas, jovens estudantes que viriam a formar a geração de setenta. Castilho acusou os rebeldes de falta de bom senso e de bom gosto, algo que, considerou, estaria na matriz literária dos românticos.

A questão poderá ser sintetizada, e necessariamente imperfeita e incompleta, na dicotomia entre um acomodado academismo burguês e a rebeldia da novidade positivista, apoiada na Ciência colocada ao serviço das causas sociais.

Bom senso e bom gosto continuaram, em várias ocasiões, a surgir como processo de distinção cultural de determinados grupos sociais e políticos. Bom senso, de um modo geral, deixa transparecer algo que se acomoda consensualmente, algo estabilizado que, nesta condição, não necessita de ser questionado, pois se convencionou como padrão, tornando-se referência estável. O bom gosto será algo indefinível na sua complexidade intrínseca, por integrar uma vertente criativa, ou seja, na permanente

“A consciência não se define, mas existe, e tem uma particular relevância no foco do pensamento e do raciocínio que desenvolvemos neste ensaio, pois é através dela que associamos, ou mesmo justificamos, o sentido do bom senso na percepção de bem pensar e fazer, não como um anátema, mas como algo plástico e mutável.

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instabilidade e, simultaneamente, impossibilidade de se padronizar. O bom gosto não se mede ou pesa, e não gera consensos, permitindo que se reinvente a cada momento. Ainda que seja comum apontar extremos para criar definições, como o erudito e o vernáculo ou popular, surge ainda em ambos o que se codificou designar por kitsch, algo que não encaixará no bom senso e no bom gosto, mas que, na sua estranheza, os auxilia a definir. Como anteriormente referido, o bom senso estará associado à consciência, que terá a sua base primordial na compreensão de cada indivíduo, nos respectivos contextos sociais e culturais, onde se incluem as experiências sensoriais, as emoções, que constroem pensamento e conhecimento individual e de grupo social. As intervenções em Património, geram perplexidades quando não são consensuais e levantam questões relacionadas com a criatividade, discreta e/ou contrastante. Ambas têm argumentos para existir e/ou coexistir numa mesma realidade, considerando a sua intensão programática, técnica, tecnológica e de expressão estética nos respectivos contextos físicos e culturais. São muitos os exemplos dessas distinções, umas imperceptíveis, como as intervenções no Palácio Nacional de Sintra e no Palácio Marquês de Fronteira, em Lisboa, ou as convictamente contrastantes, ainda que integradas pelo factor temporal, como o claustro de D. João III do Convento de Cristo de Tomar, ou o museu Amadeu de Sousa Cardoso no Convento de São Gonçalo, em Amarante. A liberdade criativa em intervenções no Património é algo da maior sensibilidade, no sentido em que esta pode ser entendida para

além de opções construtivas e, neste âmbito, não se reduzirá à questão do bom senso e do bom gosto de uma realização material, mas antes de uma opção ética que pode também ser imaterial. Será sobretudo trabalhar com o espaço e o tempo em parceria, de modo a introduzir um factor cultural orientador da intervenção, algo não mensurável no momento da apreciação / aprovação do(s) projecto(s), reflectindo, contudo, o pretendido na execução, quer a partir do âmbito programático, quer através das atmosferas / / ambiências criadas com a intervenção, numa dimensão de futuras vivências em contextos sociais em movimento.

Oarquitecto Fernando Távora (1923-2005), em 1947, publicou um texto seminal, nos Cadernos de Arquitectura, sobre a questão da casa portuguesa, onde os seus “guardiões” procuraram defender a existência de uma suposta autenticidade cultural e, consequentemente, referencial, em oposição à arquitectura moderna, refugiando-se no bom senso e no bom gosto de projectos de “casas à antiga portuguesa”. Sobre este tema, Fernando Távora escreveu: “As casas de hoje terão de nascer de nós, isto é, terão de representar as nossas necessidades, resultar das nossas condições e de toda a série de circunstâncias dentro das quais vivemos, no espaço e no tempo” (Távora, 1947: 9). Este pensamento permanece actual e poderá ser considerado no âmbito das intervenções com memória cultural, no sentido em que somos a continuidade temporal dos nossos antecessores e, num gesto de actualização, procuramos legar esse bem, preferencialmente enriquecido, às futuras gerações.

Neste sentido se actualiza um determinado edifício com novas valências funcionais, técnicas, tecnológicas e culturais que, cuidadosamente, as incorpora em contexto patrimonial. Esta acção constitui o reflexo de um exercício criativo, que permitirá a continuidade funcional em conformidade com a especificidade do contexto histórico, numa linha de acumulação de memória cultural desse lugar. Ao expressarmos a necessidade de se assegurar a liberdade criativa em contexto patrimonial, é precisamente por considerarmos que é através dela que se vivifica a memória cultural, pois nela fica o registo de todas as acções e respectivos tempos em que ocorrem. E é neste contexto que entendemos positivo considerar a liberdade criativa em contexto patrimonial como indispensável na elaboração de projectos de conservação, restauro, reabilitação e ampliação de edifícios patrimoniais. Fernando Távora, ainda no âmbito da sua crítica à “casa portuguesa”, em nosso entender aplicável a intervenções em Património arquitectónico, tinha essa convicção ao registar: “É impossível, para os homens de hoje, poderem ver o resultado completo dos seus esforços; porém as grandes obras e as grandes

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Somos a continuidade temporal dos nossos antecessores e [...] procuramos legar esse bem, preferencialmente enriquecido, às futuras gerações. Neste sentido se actualiza um determinado edifício com novas valências funcionais, técnicas, tecnológicas e culturais que, cuidadosamente, as incorpora em contexto patrimonial [...], reflexo de um exercício criativo que permitirá a continuidade funcional [...], numa linha de acumulação de memória cultural desse lugar.

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realidades pertencem não a indivíduos, mas a uma comunidade constituída não só pelos presentes como pelos que hão-de vir, e dentro deste espírito ficaremos contentes em saber que as gerações vindouras obterão as soluções que sonhamos e para as quais colaboramos, sem no entanto ter o prémio da sua completa realização” (Távora, 1947: 13).

Vítor Mestre, Lisboa, 27 de Masrço de 2026

REFERÊNCIA

Távora, Fernando (1947) – O Problema da Casa Portuguesa. Lisboa: Imprensa Libânio da Silva (Cadernos de Arquitectura, 1).

RESUMO

O Lidador, integrado no parque arqueológico subaquático da baía de Angra do Heroísmo, é um dos naufrágios mais visitados por mergulhadores recreativos no arquipélago dos Açores e um poderoso totem cultural, especialmente na criação literária. Com o presente estudo, pretende-se contribuir para uma mais aprofundada compreensão da história do destroço, associando-o ao fenómeno atlântico oitocentista da “escravatura branca”. A análise de fontes documentais permite também caraterizar o seu contexto, enquadramento e significado.

Palavras-chave: Arqueologia subaquática; Século XIX; Gestão do Património; Açores.

ABSTRACT

The Lidador shipwreck, integrated in the underwater archaeological park of the Angra do Heroísmo bay, is one of the most visited by recreational divers in the Azores archipelago and a powerful cultural totem, particularly in literary creation. The present study aims to contribute to a deeper understanding of the history of the wreckage by associating it to the eighteenth-century Atlantic phenomenon of “white slavery”. The document analysis also allows the author to characterise its context, framework and meaning.

Key words: Underwater archaeology; 19th century; Heritage Management; Azores.

RÉSUMÉ

Le Lidador, intégré au parc archéologique sous-marin de la baie de Angra do Heroísmo, est l’un des bateaux naufragés les plus visités par des plongeurs de loisirs sur l’archipel des Açores ainsi qu’un puissant totem culturel, particulièrement dans la création littéraire.

Par la présente étude, on souhaite contribuer à une compréhension plus approfondie de l’histoire de l’épave l’associant au phénomène atlantique du XIXème siècle de « l’esclavage blanc ». L’analyse de sources documentaires permet également de caractériser son contexte, encadrement et sens.

Mots Clés: Archéologie Sous-marine; XIXème siècle; Gestion du patrimoine; Açores.

O Lidador um relevante documento da História social atlântica nos Açores

1 Arqueólogo (jlneto77@gmail.com).

Por opção do autor, o texto segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Foi recebido para publicação em 2025-11-13.

Apesar de referidas nos Portulanos, não é certo que, antes do século XV, as ilhas dos Açores fossem conhecidas. Pode afirmar-se que, a partir de 1427, começam a ser regularmente visitadas por navegadores portugueses. O seu povoamento, iniciado em Santa Maria, estendeu-se, progressivamente, de oriente para ocidente, terminando, já nos inícios de quinhentos, na ilha do Corvo. A partir dessa centúria, através do estabelecimento das Rotas da Prata e do Cabo – oficializadas, respetivamente, por Cristóvão Colombo, quando rumou à América, e por Vasco da Gama, quando chegou à Índia –, os Açores passaram a ser, durante cinco séculos, ponto de paragem obrigatório para quem, por via marítima, regressava à Europa.

Com cerca de mil naufrágios documentalmente registados, uma centena de sítios arqueológicos já identificados e 35 sítios visitáveis, o património cultural subaquático dos Açores é um dos mais importantes de todo o mundo. Ao largo da ilha de Terceira existem cerca de 150 documentalmente registados, numa investigação que continua a decorrer. O objetivo de estudar os naufrágios e antigos ancoradouros do arquipélago dos Açores, selecionando, a partir desse estudo, os que possam ser visitados por mergulhadores recreativos e pelo público em geral, tem sido, na Região Autónoma dos Açores, a ação fundamental no que ao Património arqueológico diz respeito. A fruição pública desses testemunhos pode oferecer, por um lado, o conhecimento mais profundo da condição insular e, por outro, uma maior compreensão da História atlântica, ao mesmo tempo que sensibiliza o público para o valor, os perigos e a fragilidade com que esses recursos patrimoniais se confrontam, bem como do meio onde se encontram, o Mar Oceano, que urge proteger e salvaguardar.

Eduardo Galeano contou-nos que deliciosa estrangeira, com saia imensa, escondia entre infinitos folhos outros tantos bolsos, reservando, em cada um, novo guião para uma história, que então era o seu ganha-pão contá-las, num dos bares de Paris. Com matrioskas de horizonte pleno, a arrebatadora metáfora de um dos maiores novelistas que conheço, pantagruélico cultor de letras, onde o essencial foi sabiamente misturado com o acessório, este último indispensável ligante para a fermentação correta da massa, polvilhando-a com adornos de farinha fresca, de modo a construir saborosas narrativas, que as tornaram inesquecíveis, em repastos literários de delongadas horas, plenamente satisfatórias, diga-se em abono da verdade.

A importância das histórias que nos vão construindo não é despicienda. Engravidam de significado, os vazios destituídos de valor. Sem essas histórias que se fundem, partindo da epiderme até ao âmago do ser, talvez que a pleuma vital fosse oca de sentido, e pouco distintos seríamos de ar em movimento. As histórias, embora percecionadas de fora para dentro, sabemos que, por vezes, algumas abrasam no casulo mais íntimo do ser, precedendo a incandescência e as posteriores labaredas, que do dentro saltam para o de fora, com poder transformador. Mudam vidas, mudam afetos, mudam ideias e, por que não o admitir, mudam o mundo.

Esta, estamos em crer, é uma delas, razão pela qual Pedro Almeida Maia, romancista de crédito, escreveu A Escrava Açoriana (Maia, 2022), que é outra boa maneira de penetrarmos nas brumas do passado e viajar até esse mundo, onde a fuga de capital humano foi a resposta possível a uma sociedade insular em crise, substituindo o enquistamento das elites regionais, pelas agruras de uma viagem através do tormentoso Atlântico, oceano de problemas, de dores e de desumanidades. Pelo olhar de Rosário, micaelense, assistimos a todos esses cenários e desvelamos o seu crescimento pessoal, bem como as evoluções e contrariedades das duas sociedades de época, indo da pobreza nos Açores até à estratocracia brasileira. Editado em 2022 pela alfacinha Cultura Editora, integra já o Plano Regional de Leitura. E, trocando pessoalmente ideias com o autor, durante o Outono Vivo de 2025, confidenciou-me que a sua primeira inspiração para este romance partira de um documentário televisivo a que assistira, por mim bem conhecido 1. Devido a esse facto, a narrativa começou “no ano da graça de 1873”, pois, como escreveu Miguel Real a propósito deste romance: “Sobre o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade” (Real, 2022).

Ora, nessa data começou a operar nas águas açorianas o vapor brasileiro Lidador, embarcação de primordial importância ainda hoje para o arquipélago, visto ser – no âmbito do turismo recreativo de mergulho em Património cultural subaquático – o segundo local mais visitado nos Açores, destroço de assinalável integridade e de fundamental importância económica para as empresas de mergulho sedeadas na ilha, seu principal ganha-pão desde 2005, quando foi disponibilizado à visitação pública, através da publicação do Decreto Regulamentar Regional, n.º 20/2005/A, de 12 de ou-

1 Especificamente sobre o Lidador, veja-se a série Máquina do Tempo, realizada por José Serra para a RTP Açores, episódio n.º 1, de 2019, disponível em https://bit.ly/4dyzBEv.

tubro, que criou o Parque Arqueológico Subaquático da Baía de Angra na ilha Terceira, entretanto revisto através do Decreto Regulamentar Regional n.º 19/2015/A, 27 de outubro.

Porém, a relevância do vapor brasileiro não se cingiu somente ao acidente fatal que o transformou num dos destroços mais famosos do arquipélago, mas sim pela sua participação ativa na emigração açoriana para o Brasil, nomeadamente na sua parte mais sombria, a denominada “escravatura branca”, conforme sublinhou de forma veemente Susana Serpa Silva (2013). Assim sendo, é relevante compreender a forma como este comércio ultramarino se desenvolveu e, com base nos registos ora encontrados, poder contribuir com mais algumas adições ao tema, que já possui bibliografia significativa.

Se o Lidador está indelevelmente associado à emigração açoriana com destino ao Brasil, não é menos verdade que este fenómeno remonta quase ao início do povoamento do território a Sul e, pelo menos desde 1617, que se encontra bem documentado para a colonização do estado autónomo do Maranhão, Pará e Ceará, que levou a que centenas de casais provindos das ilhas para lá fossem morar. Cerca de cem anos volvidos, Alexandre de Gusmão recorreu a esse mesmo expediente para assegurar fronteiras mais ao Sul do Brasil, nomeadamente para Santa Catarina, Nossa Senhora do Desterro, Porto Alegre e São Pedro do Rio Grande, o que em muito contribuiu para o êxito diplomático que foi o Tratado de Madrid, de 13 de janeiro de 1750.

Porém, o Lidador foi construído em Londres, em 1873, nos estaleiros navais ingleses da William Walker & Co, tendo vindo a soçobrar na baía de Angra do Heroísmo em 1878. Esteve operacional somente cinco anos, pelo que a curta cronologia que a documentação nos oferece abre alguma luz sobre um período de transição extremamente relevante e ajuda a entender, de forma muito clara, a importância adquirida pelo navio, ou seja, ajuda-nos a compreender a época de transição entre os navios à vela e os navios a vapor. É que, evidentemente, a emigração para o Brasil manteve-se antes, durante e depois da sua brevíssima existên-

FIG. 1 – Lidador, óleo sobre cartão, década de 1870, Museu de Angra do Heroísmo.

cia, e bastante numerosa, através de carreiras transatlânticas regulares, mantidas entre este meio Atlântico e o hemisfério Sul, ao longo de toda a segunda metade do século XIX (Monteiro, 2007).

No que respeita à “escravatura branca”, é um fenómeno que, em traços largos, pode ser definido e compreendido se atendermos à história jurídica e económica do Brasil. Em 1850, foi publicada a Lei n.º 581/1850, mais conhecida como Lei Eusébio de Queirós, que proibiu a entrada de escravos provenientes de África; seguiu-se-lhe o Decreto n.º 731, de 1854, que obrigou a marinha brasileira a fazer cumprir essa proibição; a 28 de setembro de 1871, foi publicada a Lei do Ventre Livre; depois, foi publicada a Lei n.º 3.270/1885, conhecida como Lei dos Sexagenários, alforriando todos aqueles que tivessem atingido aquela idade; finalmente, a Lei n.º 3.353, de 13 de maio de 1888, conhecida como Lei Áurea, acabou com a escravatura no Brasil. Conseguimos assim perceber que o período curto de vida da embarcação, entre 1873 e 1878, se enquadra precisamente neste longo processo de abolição do trabalho forçado sem direitos. Mas, se é verdade que o Brasil caminhava para a abolição, não é menos verdade também que não acabaram, por isso, os escravocratas. Todo o processo de exploração agrícola, quer açucareira, quer cafezeira, assentava no sistema de mão-de-obra escrava, de modo a facultar estes dois produtos ao mais baixo custo possível, destinados aos mercados europeus e ocidentais.

Esta consequente necessidade de mão-de-obra barata e contínua, numa época em que a tradicional fonte escasseava, provocou uma diversificação das proveniências da mesma, procurando prolongar um determinado modelo arcaico de produção agrícola. Engajadores, capitães de navios, tripulações, responsáveis administrativos e políticos, todos estavam envolvidos neste negócio altamente lucrativo, da emigração clandestina, de contingentes populacionais de baixa condição socioeconómica, oriundos da Europa, que eram, à chegada, vendidos como escravos. Pese embora Portugal não fosse o único país europeu alvo da sedução das mefistofélicas elocuções dos engajadores, a verdade é que o fenómeno atingiu preocupantes proporções, tanto nos Açores, como no Minho, fruto da impreparação, analfabetismo e falta de perspetivas de melhor vida dos numerosos contingentes populacionais das classes populares então existentes e disponíveis para emigrar em busca de vida digna, que as mais das vezes não encontraram, mas que foram mitificadas pelo sucesso absolutamente excecional de alguns “torna-viagem”, ou seja, conferindo-lhes qualidades fascinantes, que ocultavam a dura e cruelíssima verdade, perpetuando o sonho do enriquecimento pelo “salto”. Muitos indivíduos nos Açores estiveram envolvidos neste processo, contribuindo com avultados contingentes migratórios, se atendermos à escala do arquipélago, tanto em emigração legal como clandestina, que era, sem sombra de dúvida, altamente rentável para os envolvidos. Acerca de alguns destes, com o detalhe possível, já tratámos em estudo anterior (Rodrigues e Neto, 2024).

O Lidador entrou em cena nos Açores em finais de junho 1873. Assim, A Persuasão, de 23 de julho de 1873, na página 4, anunciou para breve a sua chegada a Ponta Delgada. Na Gazeta da Relação, de 24 de julho, na página 3, dá-se como tendo chegado, pelo que atracou na tarde de 22 de julho de 1873, logo partindo, mas regressando pouco depois, a 29, com intenção de levantar ferro a 31. Capitaneado por Guilherme de Castro, brasileiro, o navio, propriedade da Companhia de Navegação Brasileira Transatlântica, possuía uma tripulação de 38. Estava anunciada a sua chegada desde o início do ano 2. A rota era circular, partindo do Rio de Janeiro para Lisboa, de Lisboa para as ilhas, e destas regressando ao Brasil. Na sequência das queixas apresentadas, de finais de setembro 3 até meados de outubro 4, o Lidador passou a ser capitaneado por Augusto Borges Cabral, que se manteve no cargo até ao naufrágio da embarcação, em 1878. E o propósito deste vapor, especificamente alocado a esta rota, era um acima de todos os outros: “O vapor Lidador, que se destina à condução de colonos para o Brasil [...]” 5 . 2 e 3

2 O Melrinho, n.º 1059, 23 de julho de 1873, p. 2: “O Lidador – É este o primeiro vapor brasileiro, há mais de sete meses anunciado para fazer a navegação transatlântica dos Açores para Pernambuco e Rio de Janeiro, e que chegou ontem à tarde ao nosso porto. Recebeu o seu primeiro piloto o sr. Augusto B. Cabral e seguiu para as ilhas do Oeste. Veio de Cardiff em 5 dias”

FIG. 2 – A Independência, n.º 114, 24 de julho de 1873, p. 4.

3 Gazeta da Relação, n.º 870, 30 de setembro de 1873, p. 4: “Há fundados motivos para acreditar que são certas as queixas de mau tratamento, de passageiros, contra o comandante do vapor Lidador. Quando os oficiais do navio foram tratados pelo modo que consta, acredita-se facilmente o que corre a respeito dos passageiros”

4 O Melrinho, 15 de outubro de 1873, p. 2: “Assim era de esperar –Diz-se que sendo tomados em consideração os reclamos contra o capitão brasileiro do Lidador, tendente ao mau trato que dera aos passageiros, as agências obtiveram a sua pronta exoneração, do que muita glória lhe seja” 5 Gazeta da Relação, n.º 847, 5 de agosto de 1873, p. 3.

FIG. 3 – A Terceira, n.º 750, 26 de julho de 1873, p. 4.

Como se disse, o desejo era levantar ferro de Ponta Delgada a 31 de julho de 1873. Porém, a 30, o agente Domingos Dias Machado, com escritório na Rua do Garcia (dita do Frade), relembrava, através de A Persuasão e O Melrinho, da necessidade de tirar previamente o passaporte antes de embarcar. Evidentemente, resultou mal: “Na segunda feira à tarde ia havendo barulho sério na cidade, promovido pelos passageiros do Lidador e muitas outras pessoas que vinham despedir-se deles, pela contrariedade de os não deixarem embarcar naquele dia. Felizmente tudo se apaziguou em bem. Comenta-se o facto e bom será que não se repita. No governo civil onde tanta gente ia fazer reclamações menos avisadas, viu-se o guarda em dificuldades para conter a ordem. O sr. Domingos Dias Machado, consignatário do Lidador, fez todos o possível para acalmar os ânimos excitados por circunstância que não podia prever e em que não teve a menor responsabilidade” 6. É óbvio que o consignatário não fez tudo o que estava ao seu alcance, pois que foi na véspera da data da partida que anunciou a necessidade de passaporte, através dos jornais, meio de comunicação nada auspicioso para a população analfabeta. Dois dias volvidos, Domingos Dias Machado deu novas explicações, recorrendo ao mesmo periódico: “Tendo-se propalado, e até publicado, que por culpa do empregado incumbido da verificação dos passaportes, é que teve lugar o barulho dos passageiros para o Lidador e de muitas pessoas que deles se vinham despedir, barulho que teve lugar ao anoitecer de segunda-feira, é do meu dever declarar publicamente, que aquele facto não cabe responsabilidade alguma ao referido empregado […]” 7 Faltava, portanto, a autoridade justificar-se. E assim, por ordem do Governador Civil do distrito de Ponta Delgada, publicou-se 8 e tornou-se pública uma relação de passageiros do Lidador a quem fora concedido

passaporte, por ordem expressa da entidade emissora do mesmo, em Ponta Delgada, que assim puderam rumar a Pernambuco e ao Rio de Janeiro, a 4 de agosto de 1873. Este cuidado em divulgar publicamente esta lista é indissociável da tentativa de mitigar, pelo menos aos olhos da opinião pública urbana, o desastre que foi o primeiro embarque e, como é evidente, terá tido pouco efeito prático.

Porém, oferece-nos uma invulgar hipótese de vislumbrar quem embarcava com destino ao Brasil, pelo que justifica a atenção que nos mereceu, pese embora o arrolamento seja pobre em detalhes pessoais, que muito gostaríamos de ter. A lista detalhada consta do Anexo 1 9 .

Foram concedidos 184 passaportes, todos emitidos em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, sendo que o Lidador ainda viria a fazer escala em Angra do Heroísmo, ilha Terceira, e na Horta, ilha do Faial, antes de prosseguir rumo ao país de bandeira. Tal permite-nos, por estimativa, ter uma noção do quantitativo de gentes que zarpava a cada passagem desta embarcação.

Porém, comecemos pelas origens dos passageiros propriamente ditos. 1,6 % eram provenientes do próprio Rio de Janeiro, integrando um agregado familiar constituído por Tomás de Melo Senra, natural de Vila Franca do Campo, de 35 anos, casado com D. Francisca Maria de Oliveira Senra, carioca de 30 anos, sendo que dos três filhos, Virgílio e Clotilde, de 3 e 2 anos, respetivamente, eram igualmente naturais dessa cidade brasileira, e Juvenal, de oito meses apenas, era-o de Ponta Delgada. Trata-se de passageiros, não de emigrantes, como se infere logicamente, o que se veio a confirmar em página digital genealógica especializada 10, demonstrando que este casal somente estava a começar a sua prole de 20 descendentes.

Outros 1,6 % eram oriundos do grupo central do arquipélago: é o caso de Maria Joaquina Borges, natural de São Jorge, 27 anos, solteira; Carlota Augusta, natural da Terceira, 29 anos, solteira, que, porque solitárias, se estranha, o que permite problematizar acerca do tipo de emigração, de que adiante falaremos. Acresce ainda Guilherme de Castro, igualmente da ilha Terceira, 37 anos, casado, que se enquadra num tipo que corresponde à emigração laboral expectável.

6 Gazeta da Relação, n.º 848, 7 de agosto de 1873, p. 3.

7 Gazeta da Relação, n.º 849, 9 de agosto de 1873, p. 2.

8 Gazeta da Relação, n.º 850, 12 de agosto de 1873, pp. 1-2.

9 A análise de passageiros não constitui uma novidade, apesar de existirem períodos sem informação, o que justifica a presente abordagem. Veja-se, por exemplo, Silva (2011).

10 “When Thomaz de Mello Senra was born on 24 June 1837, in São Miguel, Azores, Portugal, his father, Caetano Jose de Medeiros Senra, was 27 and his mother, Maria Luciana Moreira Rebello, was 24. He married Francisca Maria de Oliveira in 1869, in Valença, Rio de Janeiro, Brazil. They were the parents of at least 11 sons and 9 daughters. He died on 4 October 1905, in Brazil, at the age of 68”. Ver https://bit.ly/3QLGB9g.

Com um quantitativo de 1,1 %, encontram-se dois indivíduos oriundos do distrito de Vila Real, Trás-os-Montes, caso de José Teixeira Sanches, 29 anos, solteiro, e de Francisco José Ferreira de Carvalho, 53 anos, também solteiro. Se seriam pessoas com ligação, para além da indicação vaga de serem transmontanos, não o sabemos. O documento não o indica e é sempre pertinente recordar que o dito distrito é extenso, metade da região, sendo composto de mais de uma dezena de concelhos. Se se conheceram no barco, é provável que, pelo menos durante uns tempos, até tenham sido patrícios, mas é somente dedução sem qualquer importância.

O que é relevante é que 95,7 % dos embarcados oficiais eram oriundos da ilha de São Miguel. Porém, nesse manifesto há uma evidente discriminação, nomeando os locais de origem expressos e, por outro lado, para 11,4 % simplesmente se diz “cidade”, evidentemente referente a Ponta Delgada, mas criando uma distinção. Da “cidade” são oriundos os urbanos, ao passo que os demais, são, por evidente oposição, os rurais, essa imensa gente que perfaz 84,3 % do universo dos embarcados documentados. Se a estes juntássemos os indocumentados, em quantitativos ainda desconhecidos para o Lidador, mas que já estimámos para as embarcações à vela, teríamos um cálculo realista, mas não é ainda o caso. Note-se que o Lidador apresentava 40 lugares para 1.ª classe, 160 para 2.ª classe e 346 lugares para a 3.ª classe, ficando os dois primeiros em camarotes e os de 3.ª classe num salão comummente partilhado 11 , num total de 546 lugares para passageiros, o que é um evidente acréscimo de capacidade de carga, três vezes superior face à navegação à vela (Rodrigues e Neto, 2024: 158).

Porém, no que se pode percecionar da tipologia de viajantes, não parece justificar-se assim tanto a distinção entre urbanos e rurais. Há, porém, para lá da família Senra, o caso do agregado familiar constituído por Manuel Raposo de Oliveira, 44 anos, casado com Maria Carolina, de 40, que consigo levaram a filha, Albina, de 6 anos, em viagem, talvez por visita a familiares a morar no Brasil, dado que Manuel Raposo de Oliveira era funcionário na Direção das Obras Públicas do Distrito de Ponta Delgada 12, o que afasta a emigração como primeira causa do embarque. O mesmo se pode suspeitar de António Maria de Sousa Vasconcelos, nome e apelido comuns na aristocracia lusa, bem como no invulgarmente extenso nome de Maria Josefa Garcia das Neves, casada, de 25 anos, que se fez acompanhar de João, seu filho, de 11 anos apenas (o que a colocaria como mãe aos 14 anos de idade), talvez que numa visita familiar. E, forçando muito, talvez que Jacinto Moniz, de 42 anos, casado, morador em Ponta Delgada, também tenha ido visitar um familiar ou comerciar com um, dada a propensão dos Monizes micaelenses em emigrar, registados que estão no Havai e no México 13, não seria de espantar também no Brasil. Porém, Moniz é apelido assaz abundante na ilha de São Miguel, pelo que tal vale o que vale, ou seja, entre o pouco e o nada.

Quanto aos demais, pelos padrões de informação disponíveis nesta fonte, são indistintos tipologicamente dos rurais, razão pela qual não parece mesmo justificar-se assim tanto a distinção entre urbanos e rurais, porquanto seriam, na sua esmagadora maioria, passageiros de terceira. Conseguimos sim outras distinções que ajudam na procura de caraterização destes embarcados mais que seculares. É que, apesar de não serem indicados, com esforço, conseguimos detetar 22 eventuais agregados familiares, a que correspondem 35,8 % do total dos passaportes expedidos, o que nos deixa, mesmo assim, com 64,2 % de embarcados individuais.

Outra distinção evidente é entre homens e mulheres, resultando numa diferença bruta de 80,5 % face a 19,5 %. Mas, ao excluirmos crianças (ou seja, neste caso, até aos 10 anos, inclusive), que correspondem a 10 % dos passageiros, esta acentua-se ligeiramente, ficando a representação feminina apenas pelos 17 %.

Porém, indaguemos acerca destas mulheres. 57 % acompanham os seus maridos, a que acrescem 11 % de filhas de família, que estão, portanto, com os seus respetivos agregados. E este universo familiar, a que a mulher estava destinada ainda no terceiro quartel de oitocentos, reproduz-se no vapor, casa provisória sobre o mar oceano, explicando diretamente 68 % desta sua presença. Depois, há uma casada, Maria Júlia Cabral, 25 anos, da Ribeirinha, que viajou sozinha, o que possivelmente encontrará explicação plausível num reagrupamento familiar, dada a percentagem de homens casados que viajavam sozinhos, mesmo que tivesse viajado sem filhos. O caso de Maria Joaquina de Amaral, 54 anos, de Ponta Delgada, e de Francisca Tomásia de Amaral, 29 anos, solteira, provavelmente mãe e filha, também poderá ser um caso de reunificação familiar com um filho varão emigrado no Brasil, após a morte do marido e pai, de forma a providenciar-lhes o sustento. Maria Carolina, 35 anos, viúva, de São Vicente, e Jacinta Cândida de Jesus, 33 anos, viúva, de Ponta Delgada, podem também ser exemplo disso mesmo.

11 A Independência, n.º 115, 31 de julho de 1873, p. 3.

12 Surge um Manuel Raposo de Oliveira como apontador de 3.ª classe da Direção das Obras Públicas do Distrito de Ponta Delgada (anos 1889-1907). Ver https://bit.ly/3Pb3nH5. 13 Consulte-se https://bit.ly/4whr4hz.

Margarida Raposo, 21 anos, da Ribeirinha; Antónia de Jesus Braga, de 15 anos, da Fajã de Cima; Alexandrina Rosa, 23 anos, de Ponta Delgada; Maria dos Anjos, 22 anos, da Fajã de Cima; Maria Joaquina Borges, 27 anos, jorgense; Carlota Augusta, 29 anos, terceirense; Catarina de Jesus, 42 anos, da Bretanha; Felismina dos Santos, 19 anos, de Ponta Delgada; correspondem a 28,5 % desse universo feminino e, no cômputo geral, apenas a 4 %. Poderiam ter passado despercebidas, que ninguém se importaria. São nomes e, cada um destes, uma história de vida inteira, pelo que não são grupo, são sobras das gavetas utilizadas, que lá não lhes permitiram arrumação. É evidente que é sempre simpático pensar que estas se dirigiram também para a desejável reunificação familiar; aliás, esperemos que tenha sido o caso. Porém, não se podem excluir outras hipóteses menos simpáticas. Acima de tudo, pode constatar-se a precariedade da situação, pois que, se a maioria iria rodeada

de pessoas que até conheceriam, porquanto seus conterrâneos, o mesmo não se pode defender face àquelas oriundas do grupo central. E, depois da travessia, a instabilidade e incerteza agudizar-se-iam. É neste grupo que teremos de reconhecer e encaixar Rosário, de Pedro Almeida Maia (2022), que tem probabilidade histórica real, e assim reconhecer a personagem como ficção inspirada em pretérita realidade. Os masculinos eram a maioria, esses 80,5 %. E acerca destes há também alguns apontamentos a notar. Já assinalámos que alguns, poucos, não partiram como emigrantes, mas sim visitantes. Também já se sublinhou que alguns homens faziam-se acompanhar da família, mulher e filhos. Também há o caso de José de Oliveira, 36 anos, viúvo, que viajou com Francisca e Margarida, suas filhas, de 6 e 2 anos, nitidamente com o intuito de começar a vida de novo, após a viuvez. Ou assim nos apraz pensar. O mesmo em relação a António José de Medeiros, 46 anos, viúvo, oriundo da Lagoa, que partiu acompanhado por António de Medeiros, 21 anos, solteiro, neste caso não se sabendo por iniciativa de quem.

Depois, há cinco situações em que os elementos do agregado são provavelmente irmãos. É o caso de Manuel Martins Papelão, 49 anos, casado, e de Francisco Martins Papelão, 34, solteiro, ambos oriundos de Vila Franca do Campo; o de Francisco Rebelo Cordeiro, 18 anos, e Henrique Rebelo Cordeiro, de 15, ambos da Fajã de Cima; bem como o de João Correia Cordeiro, 45 anos, casado, e Francisco Correia Cordeiro, 54 anos, também casado, ambos oriundos da Relva; para além de Júlio Soares do Amaral, 15 anos, e António Augusto do Amaral, de 17, de Água de Pau; mais o caso dos Casquilhas, o José Rodrigues, de 25 anos e o João Rodrigues, de 27, ambos da Fajã de Cima. A irmandade ofereceria um sentimento de pertença e segurança que facilitaria a adaptação e, pese embora não fosse elixir para todas as maleitas, não deixava de ser melhor, à primeira vista, do que dar o “salto” solitariamente. Porém, foi isso que a maioria fez, ou seja, 75 % da população masculina. Nas contas que se fez e ora se apresentam, excluíram-se as crianças, seguindo o critério já expresso. Logo se vê que esta viagem é um arriscado jogo destinado, fundamentalmente, aos mais novos. Os viúvos solitários correspondem a 2 %; os casados a 29 %, pelo que se depreende os solteiros correspondem a 69 %, numa média etária absoluta de 29 anos, mas facilmente corrigível se aplicada a mediana, dado que o homem mais velho tinha 67 anos, caso único, ao passo que os mais novos tinham 11, estando numerosamente acompanhados na sua faixa etária. Afinal, Vicente Borges do Rego, de 14 anos, das Capelas, viajou sozinho. Assim o foi também José Elias do Amaral, 13 anos, de Água de Pau; José Carreiro, 11 anos, da Ribeira Grande; José Dias Branco, 13 anos, da Ribeira Grande; João do Rego Amaral, 13 anos, de São Vicente; João Jacinto Jorge, 13 anos, de Rabo de Peixe; Manuel de Torres, 13 anos, da Achadinha; Eugénio Caetano, 13 anos, de Água de Pau; Manuel da Costa Alves, 12 anos, de Ponta Garça; Augusto da Ponte Branquinho, 14 anos, de Água de Pau; e João Maria de Sequeira, 13 anos, de Ponta Delgada. E selecionei estes pois que nem sabemos se

já tinham entrado na sua respetiva puberdade. No que aos riscos do salto concerne, as Rosários eram unissexo.

Em suma, apesar da aridez da fonte, rapidamente nos apercebemos que 97 a 98 % dos passageiros não se deslocou a fazer turismo, tão pouco a comerciar. Era gente que se mudava de armas e bagagens para recomeçar numa nova terra. Eram fundamentalmente homens, jovens e muito jovens, fossem solteiros ou casados, em idade ativa, sendo que 25 % arranjou estratégias de ir acompanhado, mas três quartos foram sozinhos. Mulheres foram também, como esposas, filhas, outras como viúvas, na esperança de reagrupamento familiar que providenciasse o seu sustento e sentido de vida. Porém, há outros casos, quase 30 %, para que não se encontra uma explicação, porque, provavelmente, essa será múltipla. Também elas iam jovens e muito jovens. É pouco, mas é a caraterização possível com a fonte que temos e o poliédrico a que correspondem as opções de cada vida humana, com a sua sensibilidade e biografia irrepetível.

14 A Casa dos Açores do Rio de Janeiro, a segunda mais antiga, foi fundada em 1952, situando-se na Avenida Melo Matos, 25, no bairro da Tijuca, cidade do Rio de Janeiro.

15 O Melrinho, n.º 1073, 29 de outubro de 1873, p. 2.

Porém, houve razões concretas que fizeram esta gente específica, mas também muitos outros milhares, emigrarem rumo ao Brasil, num fluxo ininterrupto a partir de meados da centúria de oitocentos, até ao final do século XIX e início do XX. Não se pode crer que, simplesmente, um rapaz acordasse nas ilhas e se lembrasse que desejava e ansiava abandonar os Açores, porque lhe apetecia ir apanhar um pouco do sol de Ipanema ou erigir Casa no bairro da Tijuca 14. O Brasil estava a viver uma fase de crescimento económico, é certo. O censo demográfico do Brasil, de 1872, o primeiro que foi realizado, contabilizou quase dez milhões de habitantes. O Rio de Janeiro, primeira cidade do Brasil, tinha então 274 972 habitantes (Rodrigues e Neto, 2024: 159), ao passo que os Açores, em 1878, possuíam 259 794 e a ilha de São Miguel 119 933 (Silva, 2025). Independentemente do entendimento macroeconómico que enquadra esta emigração, havia questões imediatas e práticas que foi urgente resolver. Como, por exemplo, de que forma se pagaria o preço de tão onerosa passagem, por famílias que não possuíam vintém. Uma resposta apareceu-nos num jornal micaelense, dizendo: “Ações generosas – A Ex.ma Sra., condessa da Fonte Bela, sabendo que o sr. António Jacinto da Câmara estava resolvido a ir para o Brasil, com sua família, no vapor Lidador, fez-lhe um importante donativo para ajuda do custo das passagens. O simpático proprietário do Café Central, também fez ao sr. Câmara um valioso presente para o mesmo fim. Ações destas em si contêm o próprio elogio” 15 . Para a maioria, contudo, à chegada ao Brasil eram recebidos com contratos de pelo menos cinco anos, feitos de forma ilegal, preparando o regime de escravatura encapotada que se seguiria. De acordo com os termos em vigor, para sobreviver teriam de descontar verbas do seu próprio salário de forma a pagar a viagem, o que reduzia consideravelmente

qualquer fundo de sobrevivência e levava a regimes de trabalho forçado sem retorno. Essa realidade era agravada pelo elevado índice de analfabetismo, que resultou na assinatura de papéis sem sequer os ler, concedendo valor de lei aos escravocratas. Por fim, as próprias autoridades políticas viviam na sombra económica dessa indústria, pelo que alterar essa realidade revelou-se processo difícil e demorado, ao longo dos anos seguintes.

Tal não deve fazer esquecer que parte relevante da explicação desta torrente emigratória encontrava explicação endógena, sem qualquer dúvida. Ninguém sai de onde se sente bem. E ninguém ficava indiferente. Dois artigos publicados em A Terceira, um a 16 de junho e outro a 2 de agosto de 1873, são desse mal-estar social lapidarmente demonstrativos.

O primeiro descreve o Lidador como uma catástrofe, demonstrando até tolerância com os barcos à vela que se dedicavam a essa mesma tarefa, mas falando de um sistema que irá deixar profundas marcas, pois passariam a faltar braços para cultivar os campos. Acrescenta que não haverá mancebos para o recrutamento militar. E profetiza o esvaziamento quase total de população das ilhas, tendo como destino um país propenso a epidemias 16 .

O segundo é maior, ainda mais apocalíptico, mas acrescenta informação talvez útil para se perceber o contexto, razão pela qual aqui colocamos um pequeno excerto: “Não é só aqui, que este mal aumenta – da ilha de São Jorge, parte deste distrito, no curto espaço de três meses saíram, sem passaporte, mais de setecentos mancebos, embarcando de dia e sol fora para bordo do iate Rival, que os conduzia para a barca Amizade, e para um outro navio da praça de São Miguel!!! E é tal o descaramento com que ali se emigra para os Estados Unidos da América, que os mancebos sabem, mesmo depois de recrutados, e no fim de meses, apresentam-se como cidadãos americanos, e abrigam-se à bandeira da sua nação, zombam das nossas autoridades. As leis do recrutamento nestas ilhas são as causas mais predominantes de tanta emigração. É tão grande o horror à vida militar, que os mancebos e seus pais preferem antes procurar terras estranhas, e sujeitarem-se a toda a sorte de infortúnios, do que viverem na sua pátria e no seio da sua família. Quando chegam à idade 14 anos, em que podem embarcar sem fiança ao recrutamento, já não querem viver na sua pátria com receio do recrutamento, e se porventura são dispensados do serviço das armas por amparo às suas famílias, lá vão com fiança ao amparo, e outras vezes sem ela. Hoje com as viagens amiudadas, e diminuída a passagem a duas partes da quantia, que pagavam, ascende de uma maneira assustadora a emigração. E é tal o empenho que o governo do Brasil está em importar escravos brancos, que substituam a escravatura preta, que subsidia as empresas importadoras de colonos, e até nos consta, que ordenou a todos os seus agentes consulares, reconhecessem gratuitamente todos os passaportes, e mais documentos relativos aos colonos, com o que na verdade devem ficar muito prejudicados os vice-cônsules daquela nação” 17 Independentemente do que possa auxiliar na verdade e na razão do texto, que se enquadra no que hodiernamente apodaríamos de “teoria

da conspiração”, porquanto se sabe que as nações americanas passavam de uma fase proto-capitalista para uma de capitalismo industrial, razão pela qual demandavam a mão-de-obra; de o Lidador para isso mesmo existir, pois que após a primeira partida, em agosto de 1873, repetiu-o em outubro, em novembro e em dezembro desse mesmo ano, levando muita gente; parece-nos que as pessoas comuns pouco se sentiriam representadas nas ideias expressas e naqueles juízos de valor, que distribuem culpas à mocidade e aos estrangeiros, mas nunca aos próprios senhores da terra. Com espírito de autocrítica, à época, apenas uma representação do município da Ribeira Grande, que por isso mesmo criou polémica 18, mas oferece uma explicação absolutamente compreensível, pela simplicidade, transparência e razoabilidade, daquilo que se soube colocar em forma de letra. Desse extenso documento, que nem na sua integralidade está transcrito no Anexo 2, colocaremos somente um pequeno excerto de um texto ainda muito mais longo. E reza o seguinte: “[…] É a população desta Vila laboriosa sim, mas pobre, podendo dizer-se em geral pobríssima, sem comércio nem indústrias, que possam merecer tal nome, sem profissões, artes ou ofícios de consideração, sem estabelecimento ou empresa alguma industrial ou comercial de importância; e, o que é mais, até quase sem propriedade rústica propriamente sua! […] Daqui deriva a necessária conclusão, de que o rendimento da propriedade rústica deste concelho na sua quase totalidade, pertence a proprietários e senhorios de fora dele; sendo apenas os rendimentos ou lucros próprios dos seus moradores as sobras das rendas e foros, que pagam, sempre mais escassas, quanto elevado é em geral o preço das rendas e foros, e quanto mais decadente se vai tornando o preço das produções agrícolas nesta ilha: havendo por isso muitos cultivadores que se empenham ou despojam de seus poucos haveres, para pagar rendas e foros em dívida […].

16 A Terceira, n.º 744, Angra do Heroísmo, 14 de junho de 1873, p. 1.

17 A Terceira, n.º 751, Angra do Heroísmo, 2 de junho de 1873, p. 1.

18 Gazeta da Relação, n.º 832, 1 de julho de 1873, p. 2: “Diz a Estrella Oriental que, na Ribeira Grande senão pregaram pasquins convidando o povo à revolta, como nesta cidade se propalou e um dos nossos colegas referiu.

O que se afixou foram editais da câmara convidando os habitantes a assinarem uma representação ao governo pedindo diminuição nos tributos”.

Os filhos desta terra só de grandes fadigas e trabalhos, nas precárias condições, em que agricultam a terra alheia, podem tirar o pão de cada dia para sustento de suas famílias; e só à força de grandes privações e economias conseguem alguns conservar, e raros aumentar o pequeno património que herdaram. Assim para a maior parte dos filhos desta terra é penosíssimo o viver, e eles que são bons, trabalhadores, dotados de boa índole e sobretudo amorosos de suas famílias e de sua pátria, sentindo gastas as forças em uma luta estéril com o seu mal estar presente, sofrendo mais pelo sofrimento dos que lhe são caros, olhando o futuro com terror e desânimo, fazem um supremo esforço sobre o seu coração, abandonam a pátria, e se desprendem do seio de suas famílias, para como em torrentes se precipitarem sobre o convés desses Lidadores, de onde apenas divisam uma pequena e

duvidosa esperança em longínquos horizontes, nessas paragens sertanejas e doentias do Brasil, através de rudes fadigas e maus-tratos de estranhos, e de grandes sofrimentos e perigos de vida. E a terra da pátria, pobre de tudo, fica ainda mais minguada de braços válidos, que ajudem; abundando mais em famílias desvalidas, em viúvas e em órfãos abandonados, isto é, na miséria crescente […]” 19 . Ou seja, o que levava as pessoas a emigrar era a falta de oportunidades para poderem, com o seu trabalho, vir a ter uma vida decente. A tipologia da propriedade fundiária, a posse dos meios de produção, estavam capturados por uma elite que, perante tamanho descalabro social, com laivos de crise humanitária até, se recusou a abdicar de parte dos seus privilégios (Riley, 2003: 149), preferindo, consequentemente, culpar a conjuntura externa, as nações emergentes, do seu infortúnio. Como se tal não fosse suficiente, escolheu ainda culpabilizar os pobres, reiteradamente alcunhando-os de juventude perdida, sem valores e sem amor à pátria, simultaneamente fomentando o medo do desconhecido e lamentando a ausência de carácter, até de amor filial (já que a posse da terra lhes estava coartada). Ser pobre, nos Açores, era uma enfermidade amaldiçoada. Nesse sentido, a Rosário de Pedro Almeida Maia (2022) faz justiça, pela denúncia, às muitas Rosários reais, cujas vidas já ninguém recorda e das quais não ficou memória. Por fim, essa mesma elite lucrou ainda mais com a desgraça alheia através das percentagens dadas por engajadores e capitães de navio, transversalmente distribuídas pelas redes da corrupção instaladas na administração regional, ora por favorecimentos, ora para negligenciar procedimentos, ora para calar o que se passava.

O texto de que acima se reproduziu um excerto (desenvolvido no Anexo 2), subscrito por Maurício de Arruda, Bento Joaquim Soares de Melo,

João Borges Aguelo, António Augusto da Mota Frazão e Jacinto Xavier Tavares, a vereação do município ribeira-grandense, pela lucidez, pela excecionalidade e pela profundidade, criou mal-estar. Esse mal-estar, porém, não atingiu todos aqueles que tinham responsabilidades na situação, razão pela qual, por perceber a sua originalidade e possibilidade de nele se construir futuro, o texto foi republicado em A Persuasão, de Ponta Delgada, com inegável entusiasmo de Francisco Maria Supico, intelectual de craveira, atribuindo a autoria do mesmo a Francisco Moniz Barreto Corte-Real, antigo funcionário do Mistério Público, elogiando-lhe a capacidade e ilustração 20. É provável que este Francisco Moniz Barreto Corte-Real fosse o pai daquele com o mesmo nome, aquele outro que empreendeu, em 1895, no auge da campanha autonómica e das tentativas de fraternidade insular e unidade entre micaelenses e terceirenses, uma viagem solitária num barco feito à base de papel e tela, intitulado Autonomia, que se encontra na exposição de longa duração do Museu de Angra do Heroísmo. Pese embora a qualidade do texto, a perspicácia do diagnóstico, o brilhantismo dos argumentos, nada se alterou na realidade concreta da vida dos pobres. E é assim, pedrinha a pedrinha, que se vai revelando este passado incómodo.

19 A Estrella Oriental, ano 5.º, n.º 4, Ribeira Grande, 6 de novembro de 1873, pp. 1-3.

20 A Persuasão, n.º 619, Ponta Delgada, 26 de novembro de 1873, pp. 1-2.

No âmbito da Convenção sobre a Proteção do Património Cultural Subaquático, da Unesco, assinada em Paris em 2001, ratificada pela República Portuguesa em 2006, a salvaguarda, a valorização e a divulgação dos materiais existentes, de sítios de naufrágios e, fundamentalmente, dessas narrativas, têm vindo a ser realizadas (Carvalho e Neto, 2017: 39-41). A continuação do estudo

FIG. 4 – O Lidador, Parque Arqueológico da baía de Angra do Heroísmo.
Foto: João Bruges.

do naufrágio do Lidador enquadra-se neste esforço de resgatar o valor universal do Património cultural subaquático (Neto et al., 2020), e permitir, em simultâneo, a defesa, o conhecimento e a fruição de um bem cultural de singular significado e alcance, porquanto interpreta e caracteriza significativa parte da emigração açoriana nos mares do oceano Atlântico, que secularmente encontrou como destino o Brasil. Ao longo dos apenas cinco anos de existência, o Lidador foi ininterrupto gatilho de fortes paixões identitárias no seio da sociedade açoriana. Quanto ao vapor propriamente dito, nos finais de janeiro de 1878, ancorou ao largo da Horta sob o comando do capitão da marinha mercante Augusto Borges Cabral. Após ter embarcado os emigrantes e os passageiros faialenses que tinham o Brasil como promessa, e naquela que seria a sua última escala, o vapor rumou então em direção à ilha Terceira, ancorando em Angra. No interior do porto encontravam-se apenas três navios, todos à vela: o português Angrense e os ingleses Jane Wheaton e Zebrina.

Na noite de 6 de fevereiro, com as operações de embarque de mercadoria ainda a meio gás, o vento levantou-se com maior violência, rodando para o quadrante sul. Poucas horas depois, tornou-se rijo e evidenciou corresponder ao temido fenómeno do “vento carpinteiro”. Correndo a escapar daquela catástrofe, a tripulação do Lidador deixou descair a âncora acidentalmente, não a conseguindo recolher atempadamente. Por esse motivo, o navio girou em torno da amarração e foi embater, já depois da meia-noite do dia 7, num recife submerso prolongado para lá da ponta do forte de São Sebastião.

A tripulação sobreviveu. Escapou em pânico, até terra, nos botes disponíveis, com o apoio da lancha da cidade e com bastante dificuldade. Com um rombo no casco, deu-se a quase imediata submersão da máquina pela água do mar, explodindo de seguida a sua caldeira, ficando sem pessoas a bordo, nem possibilidade de ser monitorizado. À deriva, seguiu inexoravelmente em direção a terra, onde foi colidir com o Jane Wheaton, quebrando-se o mastro do gurupés. Acabou por encalhar paralelamente ao atual Cais da Figueirinha, junto ao Monte Brasil, e ali afundou lentamente, depositando-se a sete metros, a 7 de fevereiro de 1878, na baía de Angra do Heroísmo. O caso foi dramático, não porque foi um naufrágio, mas porque foi aquele navio específico a naufragar:

Tinham os fitos no eterno, a esperança além dos mares: não temem, eles, os vendavais do inverno: onde temores em peitos insulares?

Um cento de infelizes embarcaram com fé e esperança em Deus: e mal no porto de Angra, eles singraram cerca-os a tempestade de escarcéus!

O mar ruge terrível na baía, envolve temeroso o Lidador, que, qual batel sem leme andar sohia, até encalhar na baixa com fragor…

Então acena horrível; da peça o desenlace; os gritos de pavor; cem míseros ao mar, uma cidade inteira a socorrê-los, nobre e cada qual no intuito das vítimas salvar.

Não sei qual mais temível: se o mar medonho, irado, se de entre as bravas ondas os gritos de aflição: só sei, que ao ver o transe, as lágrimas corriam, e a todos palpitava com força o coração.

Os desgraçados ativistas, tristes emigrantes, os pobres sonhadores de um fito santo e nobre, viram da praia o barco sepulto de entre as ondas, e cada qual, misérrimo, ficou então mais pobre.

Este Naufrágio do Lidador, da autoria de Moniz de Bettencourt 21 , coevo do sinistro marítimo, é bem exemplificativo desse imenso significado social 22 .

Entre 1993 e 1998, a partir dos mais diversos arquivos locais, nacionais e internacionais, a memória deste navio foi sendo resgatada pelo arqueólogo e investigador Alexandre Monteiro. Daquilo que era até então apenas conhecido pelos caçadores submarinos locais como “o barco do sal” emergiu uma história e um nome, a deste vapor.

O casco, ainda que bastante reconhecível, encontra-se esmagado e fragmentado, com os bordos quebrados e a popa torcida para estibordo, apresentando-se com o veio de transmissão ainda visível por entre as pedras de lastro, na parte posterior do navio. Mais à frente, um aglomerado de destroços, formados por tubos e placas encurvadas de ferro, assinala a presença do que resta das caldeiras.

Característica até agora apontada como algo surpreendente para um navio daquele tipo, relativamente moderno, é o facto de o Lidador ter carregado uma enorme quantidade de lastro de pedra no seu porão de vante – afinal, um lastro, cimento ou chumbo, seria bem mais compacto e libertaria mais espaço nos porões do navio. Com base na análise feita, percebemos agora que esse lastro era um dos produtos locais comercializados no Brasil, ainda bem visível, sobre o fundo de areia. E o dito do “sal” lá estava, porque afinal carregava açúcar. Porém, o que justificou a criação desta linha marítima não foram os produtos que chegavam do Brasil, mas aqueles que o Brasil então requeria, a mão-de-obra. Simplesmente, o principal produto açoriano eram as pessoas, e é essa memória esquecida que esse sítio visitável pode e deve narrar, convertendo-o em memorial em sua homenagem, testemunho vivo de algo que não pode nem deve ser esquecido.

21 Inserido em Bettencourt (1895). 22 Urbano Bettencourt, escritor, poeta e pensador de quem tanto gosto, ou melhor, Manuel Urbano Bettencourt Machado, docente universitário na academia açoriana, indicou-me que, no Pico, há um poema popular de um seu ancestral, relativo ao Pico, inserido em quadras recolhidas e transcritas por Serafim Machado Soares (Piedade, Pico, 1901-1990), intitulado O Vapor o Lidador, que comigo partilhou e que se espera seja publicado em breve.

Mas a história do Lidador é também uma narrativa de superação e resiliência. O naufrágio é, atualmente, o segundo mais visitado no arquipélago dos Açores, e o mais importante sítio arqueológico visitável na ilha Terceira. É um dos espaços que reúne melhores condições para a realização de batismos de mergulho na Região, e é um ponto de biodiversidade já anteriormente estudado por investigadores e interessados. Enquadra-se no primeiro parque subaquático português e é também um dos motores da economia cultural terceirense. Pelos dados que conseguimos apurar, estimamos cerca de 1500 mergulhos no Lidador, por ano, dos quais cerca de metade deverão corresponder a batismos de mergulho. Recorrendo aos preços médios que são praticados no arquipélago, podemos concluir um volume de negócio que rondará o retorno direto de cerca de 150 mil euros, repartido pelas quatro empresas de mergulho existentes na ilha, com vasto potencial de crescimento, para além do retorno indireto associado à hotelaria, restauração e outras áreas do turismo local 23 .

E, para quem não mergulha, A Escrava Açoriana (Maia, 2022) cumpre plenamente a dimensão pedagógica de uma história que teima em não se manter morta. É caso, até, para se dizer que a ficção imita a realidade e vice-versa, retroalimentando-se; ou, como sentenciou Camilo Castelo Branco, que sobre este tema escreveu: “A verdade é, às vezes, mais inverosímil que a ficção”.

23 Recorrendo aos números avançados pelo Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, a partir do estudo do setor de Adriana Ressurreição (atualmente

na Universidade do Algarve), em 2014 (portanto desatualizados), de 1500,00 € por turista de mergulho, corresponde a um volume de negócios de 2 250 000,00 €.

ANEXO 1 – Relação dos passageiros do Lidador, a quem foi concedido passaporte em Ponta Delgada, rumo a Pernambuco e Rio de Janeiro, a 6 de agosto de 1873

N.º Género Nome Idade Estado civil Origem Observações

1 masculino Francisco Teixeira Gaipo 23 solteiro Ribeira Grande 2 masculino Francisco Ferreira de Sousa Júnior 46 casado Fajã de Cima

3 masculino José Alexandre Cordeiro 35 casado Ginetes 4 masculino Raimundo da Costa Morais 32 casado Furnas Eventual agregado A 5 feminino Francisca de Jesus 32 casada Furnas Eventual agregado A 6 feminino Maria 1 mês solteira Furnas Eventual agregado A

7 masculino Vicente Borges do Rego 14 solteiro Capelas

8 masculino José Soares de Mendonça Mota 26 casado Povoação 9 masculino Manuel Cabral 19 solteiro Relva 10 masculino Manuel Martins 44 casado Capelas 11 masculino José de Oliveira 36 viúvo São Vicente Eventual agregado B 12 feminino Francisca 6 solteira São Vicente Eventual agregado B 13 feminino Margarida 2 solteira São Vicente Eventual agregado B

masculino José Elias do Amaral 13 solteiro Água de Pau

masculino Manuel Raposo de Oliveira 44 casado Ponta Delgada Eventual agregado C

feminino Maria Carolina 40 casada Ponta Delgada Eventual agregado C 17 feminino Albina 6 solteira Ponta Delgada Eventual agregado C 18 masculino Jacinto de Melo Sousa 24 solteiro Água de Pau 19 masculino Manuel de Melo 23 solteiro São Vicente 20 masculino José da Santíssima Trindade 22 solteiro Ribeira Grande 21 masculino José Carreiro 11 solteiro Ribeira Grande 22 masculino José Dias Branco 13 solteiro Ribeira Grande 23 masculino Mariano Jácome Pereira 29 casado Povoação 24 masculino Manuel de Melo 27 casado Ribeira Grande 25 feminino Maria Júlia Cabral 25 casada Ribeirinha 26 masculino José de Medeiros Ramalho 22 solteiro Lagoa 27 masculino José de Medeiros 58 casado Povoação Eventual agregado D

ANEXO 1 – Relação dos passageiros do Lidador... [continuação]

N.º Género Nome Idade Estado civil Origem Observações

28 feminino Emília Cândida 7 solteira Povoação Eventual agregado D

29 masculino António Rebelo 5 solteiro Povoação Eventual agregado D

30 feminino Margarida Raposo 21 solteira Ribeirinha

31 feminino Antónia de Jesus Braga 15 solteira Fajã de Cima

32 masculino José de Medeiros 18 solteiro Ponta Garça

33 masculino João da Ponte 20 solteiro Lagoa

34 masculino João do Rego Amaral 13 solteiro São Vicente

35 masculino João de Medeiros Vasconcelos 23 solteiro Fajã de Cima

36 masculino Manuel de Medeiros Assunção 34 casado Lagoa

37 masculino Manuel Moniz 20 solteiro São Vicente

38 masculino Manuel Pereira de Carvalho 53 casado Ginetes

39 masculino João Pacheco Neto 22 solteiro Ponta Delgada

40 masculino António de Amaral 32 solteiro Ribeira Grande

41 masculino João Jacinto Jorge 13 solteiro Rabo de Peixe

42 masculino Felício José Ferreira 39 casado Povoação

43 masculino Vitorino José do Amaral 40 casado Povoação

44 masculino Manuel de Oliveira 24 solteiro Santo António

45 masculino Francisco Moniz da Ponte 38 casado São Vicente Eventual agregado E

46 feminino Margarida Augusta da Encarnação 32 casada São Vicente Eventual agregado E

47 masculino Francisco 7 solteiro São Vicente Eventual agregado E

48 masculino Jacinto 2 ½ solteiro São Vicente Eventual agregado E

49 feminino Maria Carolina 35 viúva São Vicente

50 masculino José Botelho do Conto 24 solteiro Santo António

51 masculino Manuel Tavares 39 solteiro Calhetas

52 masculino Jacinto de Sousa 22 solteiro Fajã de Baixo

53 masculino Mariano José Pacheco 23 solteiro Povoação

54 masculino Manuel Jacinto Jorge 15 solteiro Rabo de Peixe

55 feminino Alexandrina Rosa 23 solteira Ponta Delgada

56 masculino António de Medeiros Brilhante 38 casado Ponta Garça

57 masculino Fortunato José da Costa 34 casado Mosteiros

58 masculino José da Costa Benevides 24 solteiro Rosto de Cão

59 masculino Manuel Teixeira Gaipo 25 solteiro Ribeira Grande

60 masculino Manuel Frutado Leite 54 casado Povoação

61 masculino Jacinto de Sousa 31 casado São Roque

62 feminino Maria dos Anjos 22 solteira Fajã de Cima

63 masculino Francisco José Ferreira 44 casado Povoação

64 masculino António da Costa Afonso 28 solteiro Livramento

65 masculino Manuel Martins Papelão 49 casado Vila Franca do Campo Eventual agregado F [irmão de 72?]

66 feminino Ana Perpétua 42 casada Vila Franca do Campo Eventual agregado F

67 masculino José Teixeira Sanches 29 solteiro Distrito de Vila Real Não açoriano

68 masculino Henrique Rebelo Cordeiro 15 solteiro Fajã de Cima Irmão de 71?

69 masculino Joaquim Sodré 34 viúvo Ponta Delgada

70 feminino Maria Joaquina Borges 27 solteira Ilha de São Jorge

71 masculino Francisco Rebelo Cordeiro 18 solteiro Fajã de Cima Irmão de 68?

72 masculino Francisco Martins Papelão 34 solteiro Vila Franca do Campo Eventual agregado F [irmão de 65?]

73 masculino António Moniz Pereira 21 casado Povoação

74 masculino António do Rego 50 solteiro Santo António

75 masculino António de Oliveira Carreiro 25 casado Cabouco

N.º Género Nome

ANEXO 1 – Relação dos passageiros do Lidador... [continuação]

Idade Estado civil Origem Observações

76 masculino Manuel de Almeida 38 solteiro Fajã de Cima

77 masculino Manuel de Sousa 35 casado Calhetas Eventual agregado G

78 feminino Maria Cabral 32 casada Calhetas Eventual agregado G

79 feminino Maria 9 solteiro Calhetas Eventual agregado

80 feminino Elvira 5 meses solteiro Calhetas Eventual agregado G

81 masculino Francisco José Ferreira de Carvalho 53 solteiro Distrito de Vila Real Não açoriano

82 masculino Manuel Luís 24 casado Bretanha Eventual agregado H

83 feminino Francisca de Jesus 22 casada Bretanha Eventual agregado H

84 masculino José Joaquim de Freitas 23 solteiro Povoação

85 masculino António Botelho 23 solteiro Ponta Delgada

86 masculino Feliciano da Silva 44 casado Vila Franca do Campo

87 masculino João Borges 27 solteiro São Vicente

88 masculino Manuel Inácio Moniz 31 casado Ponta Garça

89 masculino António José de Medeiros 46 viúvo Lagoa Eventual agregado I

90 masculino António de Medeiros 21 solteiro Lagoa Eventual agregado I

91 masculino João Tavares 24 solteiro Lagoa

92 masculino António José Botelho 25 solteiro Povoação

93 masculino João da Rocha 34 solteiro Lagoa

94 masculino João Moniz Pereira 22 solteiro Povoação

95 masculino António de Fontes 27 casado Ponta Garça

96 masculino Manuel da Ponte 25 solteiro Lagoa

97 masculino Vitorino da Fonseca 22 solteiro Faial da Terra

98 masculino António Raposo 24 casado Ribeirinha Eventual agregado J

99 feminino Rosa Augusta Peixinha 22 casada Ribeirinha Eventual agregado J

100 masculino José da Mota 29 solteiro Lagoa

101 masculino Manuel Soares 39 casado Ponta Garça

102 feminino Maria Joaquina de Amaral 54 viúva Ponta Delgada Eventual agregado K

103 feminino Francisca Tomásia de Amaral 29 solteira Ponta Delgada Eventual agregado K

104 masculino António do Couto 23 solteiro Vila Franca do Campo

105 masculino António Raposo do Amaral 39 casado Ponta Garça

106 masculino João Correia Cordeiro 45 casado Relva Eventual agregado L

107 masculino Francisco Correia Cordeiro 54 casado Relva Eventual agregado L

108 masculino João de Pimentel 24 solteiro Calhetas

109 masculino Vitorino José Tavares Matos 32 solteiro Lagoa

110 masculino José Correia 22 solteiro São Vicente

111 masculino João Moniz 32 solteiro Ponta Delgada

112 masculino Manuel de Torres 13 solteiro Achadinha

113 masculino Eugénio Caetano 13 solteiro Água de Pau

114 masculino João Rodrigues 23 solteiro Fenais da Luz

115 masculino Manuel da Costa Alves 12 solteiro Ponta Garça

116 masculino Manuel de Medeiros Soares 18 solteiro Água de Pau

117 masculino Francisco Botelho Falcão 45 casado Lagoa

118 masculino Manuel de Sousa Pereira 23 solteiro Ginetes

119 Francisco de Almeida Garapau 50 viúvo Lagoa

120 feminino Carlota Augusta 29 solteira Ilha Terceira

121 masculino Júlio Soares do Amaral 15 solteiro Água de Pau Eventual agregado M

122 masculino António Augusto do Amaral 17 solteiro Água de Pau Eventual agregado M

123 masculino João de Medeiros Maurício 45 casado Ponta Garça

ANEXO 1 – Relação dos passageiros do Lidador... [continuação]

N.º Género Nome Idade Estado civil Origem Observações

124 masculino Manuel de Medeiros Fernandes 23 solteiro Água de Pau

125 masculino António Moniz Bettencourt 44 casado Povoação

126 masculino José de Freitas 22 solteiro Ribeira Grande

127 masculino José Rodrigues Casquilha 25 solteiro Fajã de Cima Eventual agregado Q [ver 153}

128 feminino Catarina de Jesus 42 solteira Bretanha

129 masculino Manuel Pereira 35 solteiro Mosteiros

130 masculino Augusto da Ponte Branquinho 14 solteiro Água de Pau

131 feminino Jacinta Cândida de Jesus 33 viúva Ponta Delgada

132 feminino Felismina dos Santos 19 solteira Ponta Delgada

133 masculino José da Costa Borges 36 solteiro Lagoa

134 masculino João Maria de Sequeira 13 solteiro Ponta Delgada

135 masculino António de Medeiros 32 casado Fajã de Cima Eventual agregado N

136 feminino Inácia Cândida Lucinda 28 casada Fajã de Cima Eventual agregado N

137 masculino Joaquim de Medeiros Cabral 35 solteiro Livramento

138 masculino Manuel Cordeiro 45 casado São Roque

139 masculino Tomás de Melo Senra 35 casado Vila Franca do Campo Eventual agregado O

140 feminino D. Francisca Maria de Oliveira Senra 30 casada Rio de Janeiro Eventual agregado O

141 masculino Virgílio 3 solteiro Rio de Janeiro Eventual agregado O

142 feminina Clotilde 2 solteira Rio de Janeiro Eventual agregado O

143 masculino Juvenal 8 meses solteiro Ponta Delgada Eventual agregado O

144 masculino Francisco de Almeida 23 casado Ponta Delgada Eventual agregado P

145 feminino Rosa Joaquina 22 casada Ponta Delgada Eventual agregado P

146 masculino Bernardo 4 solteiro Ponta Delgada Eventual agregado P

147 masculino Francisco 3 solteiro Ponta Delgada Eventual agregado P

148 masculino Mariano de Medeiros 35 casado Pico da Pedra

149 masculino António Maria de Sousa Vasconcelos 28 solteiro Ponta Delgada

150 masculino Alberto de Medeiros Valério 23 solteiro Povoação

151 masculino Manuel Vicente 25 solteiro Ponta Garça

152 masculino Joaquim Rodrigues 24 solteiro Lagoa

153 masculino João Rodrigues Casquilha 27 solteiro Fajã de Cima Eventual agregado Q [ver 127]

154 feminino Maria Josefa Garcia das Neves 25 casada Ponta Delgada Eventual agregado R

155 masculino João 11 solteiro Ponta Delgada Eventual agregado R

156 masculino Manuel José Soares do Amaral 27 solteiro Água de Pau

157 masculino Manuel Jacinto 32 solteiro Ribeirinha

158 masculino António João Furtado 17 solteiro Vila Franca do Campo

159 masculino João de Sousa 24 solteiro Vila Franca do Campo

160 masculino José Elias de Sousa 24 solteiro Água de Pau

161 masculino António Pereira 24 solteiro Povoação

162 masculino António Figueira de Sousa 31 casado Povoação

163 masculino Manuel da Ponte 23 solteiro Água de Pau

164 masculino António da Rocha Fita 43 casado Lagoa Eventual agregado S

165 feminino Clara Rosa de Jesus 40 casada Lagoa Eventual agregado S

166 masculino Manuel 16 solteiro Lagoa Eventual agregado S

167 feminino Maria 15 solteira Lagoa Eventual agregado S

168 masculino António 14 solteiro Lagoa Eventual agregado S

169 feminino Maria 12 solteira Lagoa Eventual agregado S

170 feminino Maria 10 solteira Lagoa Eventual agregado S

171 masculino Francisco 4 solteiro Lagoa Eventual agregado S

N.º Género Nome

ANEXO 1 – Relação dos passageiros do Lidador... [conclusão]

Idade Estado civil Origem Observações

172 masculino José 1 solteiro Lagoa Eventual agregado S

173 masculino Manuel Jacinto de Melo 22 solteiro Povoação

174 masculino Manuel Martins Adão 32 casado Água de Pau Eventual agregado T

175 masculino Francisca da Glória 30 casada Água de Pau Eventual agregado T

176 masculino Manuel Raposo Morgado 27 casado Feteira

177 masculino Manuel de Medeiros 67 casado Povoação Eventual agregado U

178 feminino Ermelinda de Jesus 50 casada Povoação Eventual agregado U

179 masculino Manuel 14 solteiro Povoação Eventual agregado U

180 masculino José 7 solteiro Povoação Eventual agregado U

181 masculino Manuel Luís 24 solteiro Fenais da Luz

182 masculino Bento Moniz 23 solteiro Ribeira Grande 183 masculino Jacinto Moniz 42 casado Ponta Delgada

184 masculino Guilherme de Castro 37 casado Ilha Terceira

A Câmara Municipal desta vila em sua sessão de 30 de outubro último, e em harmonia com o que dispõe o artigo 7º do decreto de 28 de agosto de 1872, dirigiu ao Governo de Sua Majestade uma petição, a fim de que comprovadas as verdades expostas na representação que esta câmara fez em 23 de junho próximo passado, fazendo sentir aos altos poderes, que esta Vila, apesar de populosa, lhe faltam recursos para ser equiparada a terra de 3.ª ordem, espera que seja a mesma, atenta a doutrina do citado artigo, classificada em 5.ª ordem de terra. […] É a população desta Vila laboriosa sim, mas pobre, podendo dizer-se em geral pobríssima, sem comércio nem indústrias, que possam merecer tal nome, sem profissões, artes ou ofícios de consideração, sem estabelecimento ou empresa alguma industrial ou comercial de importância; e, o que é mais, até quase sem propriedade rústica propriamente sua! […] e sendo a população aglomerada desta Vila nas freguesias Matriz e Conceição de 8507 almas, recai esta contribuição quase na sua totalidade nesta Vila sobre 335 contribuintes, sendo 138 simples mestres de ofícios mecânicos, - 74 taberneiros, compreendendo-se nestes os vendedores de tabaco por miúdo, - 27 empregados públicos; - 5 solicitadores de causas, - 23 Moinhos de cereais movidos a água, - 22 bufarinheiros, - 9 adelos 24 , 10 cortadores de carne, etc.

24 Refere-se tanto à pessoa que compra e vende objetos usados (ferro-velho), como ao estabelecimento onde esses objetos são vendidos.

Ora, como se mostra da representação e relatório referidos, os mestres de ofícios desta Vila apenas podem equiparar-se nos seus lucros nos povos trabalhadores de campo, devendo notar-se, que algumas obras de mais valia e importância são feitas por oficiais de Ponta Delgada.

Os taberneiros na sua quase totalidade não possuem nas tabernas um valor equivalente às elevadas taxas, que pagam pela classificação desta vila em terra de 3.ª ordem.

Os moinhos desta Vila pagam uma pesada contribuição predial, e são na maior parte onerados em grandes foros, que absorvem quase todo o seu rendimento, e os diretos senhorios são quase todos de fora do Concelho, sendo o mais importante o Marquês da Ribeira Grande: e além disso pela construção de muitos moinhos de vento fora desde concelho, muito moinhos há hoje nesta Vila, que mal rendem para pagamento do foro.

A indústria dos empregados públicos e solicitadores de causas como base tributável por si revela a sua pouca importância. É também insignificante por sua natureza a indústria dos bufarinheiros e adelos, e destes, pode dizer-se com verdade, que a maior parte deve mais, que o valor dos objetos, que revende depois de comprados a crédito. Quanto aos restantes contribuintes compreendidos naquela nota fácil é ver, que pouco importante é a sua indústria; sendo também certo, que nenhuns contribuintes se constituíram em grêmio. O documento junto nº 4 autenticamente extraído da matriz predial deste concelho mostra, que a propriedade rústica deste concelho consiste em terras aráveis, pomares de laranja, vinhas e matas mede 818637,88 aras, e que destas são possuídas por pessoas de fora do concelho em pleno domínio 545470,23 aras, sendo apenas possuídas pelos moradores do concelho 273177,65 aras, isto é,

apenas um terço da propriedade rústica. E sendo certo que daquelas 273 177 aras e 65 centiaras a maior parte é foreira a senhorios de fora do concelho, sendo assim aráveis oneradas em grande parte com foros elevados, manifestamente se vê, que é muito insignificante a parte da propriedade rústica pertencente a este concelho. Possui este concelho em matas e baldios conforme consta da mesma matriz predial 559343,62 aras; sendo igualmente certo, que a parte desta propriedade é possuída por pessoas de fora do Concelho. […] Daqui deriva a necessária conclusão, de que o rendimento da propriedade rústica deste concelho na sua quase totalidade, pertence a proprietários e senhorios de fora dele; sendo apenas os rendimentos ou lucros próprios dos seus moradores as sobras das rendas e foros, que pagam, sempre mais escassas, quanto elevado é em geral o preço das rendas e foros, e quanto mais decadente se vai tornando o preço das produções agrícolas nesta ilha: havendo por isso muitos cultivadores que se empenham ou despojam de seus poucos haveres, para pagar rendas e foros em dívida. É ainda de acordo com esta precária situação, que o documento junto n.º 6 emanado da Conservatória deste concelho mostra, que só nos últimos três anos foi neste concelho assegurada por hipotecas a considerável soma de 284:075$574 réis. Esta cifra conquanto não respeite na sua totalidade aos moradores do concelho como devedores, dá contudo uma bem triste ideia das suas condições económicas e de quanto se acha onerada a propriedade rústica, que além de uma pesada contribuição predial, se acha ainda sobrecarregada com pesado juros. Não tendo esta Vila comércio marítimo pela braveza da sua costa, nada há aqui, que possa dar lugar ou ocasião à atividade do homem, nada há, que anime uma empresa ou indústria.

ANEXO 2 – Representação do Município de Ribeira Grande ao Governo

ANEXO 2 – Representação do Município de Ribeira Grande ao Governo [conclusão]

Os filhos desta terra só de grandes fadigas e trabalhos, nas precárias condições, em que agricultam a terra alheia, podem tirar o pão de cada dia para sustento de suas famílias; e só à força de grandes privações e economias conseguem alguns conservar, e raros aumentar o pequeno património que herdaram. Assim para a maior parte dos filhos desta terra é penosíssimo o viver, e eles que são bons, trabalhadores, dotados de boa índole e sobretudo amorosos de suas famílias e de sua pátria, sentindo gastas as forças em uma luta estéril com o seu mal estar presente, sofrendo mais pelo sofrimento dos que lhe são caros, olhando o futuro com terror e desânimo, fazem um supremo esforço sobre o seu coração, abandonam a pátria, e se desprendem do seio de suas famílias, para como em torrentes se precipitarem sobre o convés desses Lidadores, de onde apenas divisam uma pequena e duvidosa esperança em longínquos horizontes, nessas paragens sertanejas e doentias do Brasil, através de rudes fadigas e maus-tratos de estranhos, e de grandes sofrimentos e perigos de vida. E a terra da pátria, pobre de tudo, fica ainda mais minguada de braços válidos, que ajudem; abundando mais em famílias desvalidas, em viúvas e em órfãos abandonados, isto é, na miséria crescente.

Todo o conjunto das circunstâncias expostas justifica, que esta Vila é uma terra pobre, sem comércio, sem indústrias, sem profissões, artes ou ofícios, que tenham lucros de algum importância; e o que é mais para notar, quase sempre prioridade rústica pertencente aos seus moradores, tornando-se assim para eles escassíssima esta única fonte da sua produção ou riqueza, e da qual se alimenta essa

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mesma insignificante indústria, não podendo por isso suportar as elevadas taxas de contribuição de rendas de casas, sumptuária e industrial, resultantes da classificação de terra de 3.ª ordem. Comparadas as taxas vigentes com as da Lei de 30 de julho de 1860 se vê, que sendo esta Vila classificada como terra de 5.ª ordem viriam os seus moradores a pagar nunca menos, e em muitos casos ainda mais, do que pagavam como terra de 3.ª ordem pela taxas estabelecidas naquela Lei de 30 de julho de 1860, contra o gravame das quais já então se queixavam, chegando até a fazer lamentáveis manifestações; e não havendo razão alguma que justifiquem o aumento do imposto, em tais circunstâncias pede a equidade, que esta Vila seja classificada de 5.ª ordem. […]

Aquele aumento é muito, para agravar o mal-estar deste povo, a sua redução é pouco, para a proteção, que tem direito de pedir e haver do Estado, para melhorar as péssimas condições da sua existência. Não possui este povo, nem conhece os benefícios de caminhos-de-ferro, dos telégrafos elétricos, dos estabelecimentos ou instituições de crédito, dos capitais baratos, que com a sua proteção e salutar influxo venham fecundar e animar a agricultura, as indústrias, as artes, as profissões e o comércio; este povo só vê e conhece o imposto disputando à usura o pouco, que resta daquelas escassas sobras da terra, que não é sua, e que rega e fertiliza com o suor de muitas fadigas.

O excesso de imposto é mais do que um grande erro económico, porque absorvendo e esterilizando o capital, atrofia e aniquila a substância e a vida dos povos.

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Senhor, para poder manter-se a classificação desta Vila como terra de 3.ª ordem, era mister, que ela se pudesse equiparar ao menos aproximadamente a muitas importantíssimas cidades do Reino classificadas na mesma ordem de terra para o pagamento do imposto, tais como Coimbra, Braga, Guimarães, Faro, Setúbal, Funchal, Angra e Ponta Delgada, etc, etc, mas cuja população, comércio, indústria e riqueza, cujos recursos são incomparavelmente maiores, ou não admitem proporção alguma com esta pobre Vila; […] É ainda esta uma mais forte razão, para o povo desta Vila, esperar que será atendido por um Governo ilustrado e constitucional, cujo maior e primeiro empenho deve ser garantir os princípios de direito público, conservar ilesa e fazer respeitara a lei fundamental do Estado; por isso pede esta Câmara em nome do povo desta Vila, por quem representa e requer, que Vossa Majestade, ouvida a Direcção-Geral das contribuições diretas e Procuradoria Geral da Coroa haja por bem transferir esta Vila para terra de 5.ª ordem, como é de esperar da equidade e da justiça de Vossa Majestade.

O Presidente Maurício de Arruda

Bento Joaquim Soares de Melo

João Borges Aguelo

António Augusto da Mota Frazão

Jacinto Xavier Tavares

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RESUMO

As intervenções arqueológicas realizadas no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, revelaram um conjunto de 26 selos de chumbo aplicados em mercadorias datáveis, presumivelmente, entre o final da Idade Média e o século XIX. Associados a procedimentos de verificação, certificação e controlo de bens em circulação, estes artefactos evidenciam práticas comerciais e mecanismos de fiscalização, refletindo a integração desta casa religiosa nas redes de circulação de mercadorias da época.

Palavras-chave: Arqueologia; Sigilografia; Chumbo; Comércio; Conventos; Coimbra.

ABSTRACT

Archaeological work carried out at the Monastery of Santa Clara-a-Velha, in Coimbra, revealed a set of 26 lead seals applied on datable goods presumably between the Middle Ages and the 19th century. These artifacts, which are associated with goods verification, certification and control procedures, testify to commercial practices and inspection mechanisms in place, showing that this religious institution was an integral part of goods circulation networks at the time.

Key words: Archaeology; Sigillography; Lead; Trade; Convents; Coimbra.

RÉSUMÉ

Les interventions archéologiques réalisées dans le Monastère de Santa Clara-a-Velha, à Coimbra, ont révélé un ensemble de 26 sceaux de plomb appliqués sur des marchandises que l’on pourrait supposément dater entre la fin du Moyen Âge et le XIXème siècle.

Associés à certains procédés de vérification, certification et contrôle de biens en circulation, ces objets mettent en évidence des pratiques commerciales et des mécanismes de fiscalisation, illustrant l’intégration de cette maison religieuse dans les réseaux de circulation de marchandises de l’époque.

Mots Clés: Archéologie; Sigillographique; Plomb; Commerce; Couvents; Coimbra.

Selos de Mercadorias

os selos de chumbo do Mosteiro de Santa

Clara-a-Velha em Coimbra

João Bernardes Coelho 1, Catarina Cunha Leal 1

e Maria do Céu Santos 1

I. INTRODUÇÃO

Opresente trabalho centra-se na análise do acervo de selos de chumbo de mercadorias, provenientes do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Estes exemplares constituem testemunhos relevantes das práticas comerciais, dos mecanismos de controlo económico e da circulação de produtos, em particular no contexto do comércio têxtil. Com base em paralelos e na bibliografia especializada, o estudo procura identificar, classificar e contextualizar cada selo, contribuindo para atenuar a escassez de informação sobre estes pequenos artefactos no contexto nacional. Assim, a divulgação dos dados obtidos a partir desta coleção assume-se como um suporte comparativo para a interpretação de selos semelhantes provenientes de outros contextos arqueológicos, e para um conhecimento mais abrangente dos selos de mercadorias identificados em território português.

II. ENQUADRAMENTO HISTÓRICO-ARQUEOLÓGICO

A presença das clarissas em Coimbra remonta ao final do século XIII, quando D. Mor Dias, membro da nobreza local, fundou um mosteiro dedicado a Santa Clara na margem esquerda do rio Mondego. Esta primeira instituição teve existência breve, sendo extinta em 1311, na sequência de disputas com o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, relativamente à posse dos bens da fundadora. Posteriormente, a rainha D. Isabel de Aragão retomou o projeto, promovendo a construção de um novo complexo monástico no mesmo local, destinado a acolher religiosas da Ordem. As obras iniciaram-se em 1316, no ano seguinte instalou-se a comunidade e, em 1330, a igreja foi concluída e consagrada (Vasconcelos, 1993; Macedo, 2006; Coelho, Leal e Santos, 2026).

1 Mosteiro de Santa Clara-a-Velha (mariacoelho@patrimoniocultural.gov.pt; catarinaleal@patrimoniocultural.gov.pt; mariacsantos@patrimoniocultural.gov.pt).

Por opção das autoras, o texto segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Foi recebido para publicação em 2026-04-15.

A localização junto ao leito do Mondego expôs o Mosteiro a inundações recorrentes e à presença persistente de água no interior dos edifícios, comprometendo as estruturas arquitetónicas e as condições de habitabilidade. Apenas um ano após a consagração da igreja, em 18 de fevereiro de 1331, uma grande cheia atingiu o Mosteiro, assinalando o início de dificuldades que se prolongaram ao longo da sua história (Macedo, 2006; Coelho, Leal e Santos, 2026).

Na tentativa de reduzir estes impactos, foram implementadas diversas intervenções arquitetónicas, nomeadamente o alteamento sucessivo de pisos e o reforço de estruturas (Vasconcelos, 1993; Macedo, 2006).

Contudo, estas medidas revelaram-se insuficientes, tendo as dificuldades persistido. Em 1677, a comunidade abandonou o Mosteiro, transferindo-se para um novo edifício no Monte da Esperança, construído por ordem de D. João IV, fora da zona inundável. O abandono prolongado conduziu ao soterramento gradual de grande parte do conjunto monástico, situação que perdurou até ao final do século XX (Macedo, 2006; Coelho, Leal e Santos, 2026).

No âmbito do projeto de valorização do sítio, as intervenções arqueológicas iniciadas em 1995 permitiram documentar o claustro e o piso inferior da igreja, bem como recuperar um vasto conjunto de artefactos provenientes de diferentes áreas do Mosteiro (Côrte-Real et al., 2002). Entre este espólio destacam-se 26 selos de chumbo de mercadorias, recolhidos maioritariamente no claustro e dependências adjacentes, mas também no interior da igreja, coro e adro. Estes selos documentam práticas administrativas e fiscais associadas ao controlo de bens em circulação. Refletem também a integração de Santa Clara de Coimbra em diferentes circuitos de distribuição, constituindo um testemunho material das dinâmicas económicas do Mosteiro.

III. SELOS DE CHUMBO DE MERCADORIAS

“As manufacture and trade developed in the Middle Ages, marks were applied to objects to indicate their source, quality, and the fact that their purveyors or importers had paid duty or tax” (Cherry, 2018: 167).

Selos são pequenos artefactos, geralmente de forma circular, que eram fixados a diversos tipos de mercadorias e documentos. No momento da sua aplicação, recebiam uma impressão produzida por meio de uma matriz específica 1, destinada a indicar a origem da mercadoria, o fabricante ou mercador, a qualidade do produto e/ou o pagamento de taxas e impostos (Egan, 1987; Mordovin, 2014; Sousa, 2016).

1 “A matriz era um cunho que especializava os selos, na medida em que lhes dava uma iconografia base característica, que representava a origem das mercadorias e a sua qualidade” (Fernandes, 2014: 29).

2 Alguns autores, como José de Sousa (2016 e 2019), fazem distinção entre selos de bula e selos de saca. No presente estudo optou-se por integrar ambos na mesma categoria, atendendo à sua finalidade comum. Stuart Elton (2017) defende que selos de saca (“bag seals”) são um tipo de selos de bula (“bulla-type seal”).

3 Os selos de pano podem ainda apresentar uma forma tubular. Nestes

Inicialmente produzidos em cera – material de natureza perecível –, estes selos passaram, gradualmente, a ser fabricados em chumbo. Este material, suficientemente maleável para receber a impressão da matriz, apresentava simultaneamente a resistência e durabilidade necessárias para suportar as condições de transporte e permanecer fixo à mercadoria até ao seu destino final (Egan, 1987; Cherry, 2018; Sousa, 2019; Rodenburg, 2011; Mordovin, 2014; Níelsson, 2021).

Os selos de chumbo destinados à marcação de mercadorias eram inicialmente produzidos em moldes de pedra (Cherry, 2018), podendo assumir diversas configurações formais. De modo geral, podem ser agrupados em duas categorias principais: selos de pano (“cloth seals”) e selos de saca ou bula 2 .

Os selos de pano correspondem, na maioria dos casos 3, a peças constituídas por dois discos unidos por uma tira larga (charneira), podendo um dos discos apresentar um ou mais rebites 4. Durante a aplicação, estes rebites perfuravam o tecido e encaixavam no disco oposto, que possuía os orifícios correspondentes. Nos exemplares sem rebite, a fixação era assegurada apenas pela pressão exercida no momento da selagem (Rodenburg, 2011; Sousa, 2016; Sousa, 2019; Mordovin, 2019; Gonçalves, Gomes e Gomes, 2024). Os selos de pano constituem, provavelmente, os selos de chumbo mais antigos utilizados na Europa, estando documentados pelo menos desde o século XIII 5 (Egan, 1987; Rodenburg, 2011; Elton, 2017; Sousa, 2019; Gonçalves, Gomes e Gomes, 2024). A distinção entre selos de pano e selos aplicados a diferentes tipos de mercadorias, ou mesmo outros pequenos objetos em chumbo 6, nem sempre é evidente, podendo suscitar dificuldades de identificação (Elton, 2017; Cherry, 2018).

casos, o selo corresponde a um cilindro oco, preso e apertado a uma porção de tecido, de modo a assegurar a sua fixação (Rodenburg, 2011; Sousa, 2016; Sousa, 2019; Gonçalves, Gomes e Gomes, 2024). Estes selos tubulares são considerados “originários da Alemanha, e […] foram quase exclusivamente utilizados pelos fabricantes holandeses” (Sousa, 2016: 7).

4 Nora Maria Rodenburg (2011), com base no trabalho de Geoffrey Egan (1995), sugere que selos de pano com um rebite seriam maioritariamente utilizados em Inglaterra, enquanto exemplares com dois rebites

seriam mais comuns nos Países Baixos e em França. José de Sousa (2016 e 2019) refere ainda a existência de selos em que ambos os discos apresentam rebites, sendo que um possui rebite mais estreito, que encaixava num rebite oco de maior diâmetro, no disco oposto.

5 A partir dos séculos XVI-XVII, sobretudo em Inglaterra, começam a ser utilizados selos de rebite compostos por quatro discos (Fernandes, 2014; Elton, 2017; Cherry, 2018).

6 Stuart Elton refere, no seu guia ilustrado (Elton, 2017), que certos objetos de chumbo utilizados na

reparação de recipientes podem ser facilmente confundidos com selos de mercadorias executados naquele metal. Pequenos remendos de chumbo eram aplicados a recipientes de cerâmica, madeira, couro ou metal, quando estes se fraturavam. Com o passar do tempo, e após a degradação do recipiente original, o tampão de chumbo resiste e perdura, conservando frequentemente uma depressão característica, correspondente à área onde se fixava na margem da fratura do recipiente, podendo ser interpretado erradamente como um selo formado por dois discos prensados.

Embora o momento exato do início da sua utilização permaneça incerto, é consensual que terá ocorrido no Norte da Europa. O selo de pano mais antigo atualmente conhecido, datado de 1275, foi recuperado na região de Amesterdão e apresenta uma legenda que o permitiu associar à cidade de Leiden (Países Baixos), importante centro de produção têxtil à época (Rodenburg, 2011; Fernandes, 2014; Mordovin, 2014; Sousa, 2016; Cherry, 2018). No Sul da Europa, destaca-se um selo de pano de origem veneziana, encontrado associado à mortalha que envolvia o corpo do Santo Giacomo Salomoni, sepultado na Catedral de Forlì (Itália) e datável de cerca de 1314 (Cherry, 2018).

A utilização destes selos de chumbo difundiu-se rapidamente, tendo alcançado Inglaterra e alguns territórios da Europa Central ainda durante o século XIV, e, de forma gradual, os restantes territórios europeus, mantendo-se em uso até aos inícios do século XX (Endrei e Egan, 1982; Cherry, 2018; Mordovin, 2014).

Os selos de saca ou bula correspondem a uma tipologia possivelmente mais tardia, tornando-se particularmente frequentes a partir do século XVIII. Estes exemplares são, em geral, constituídos por um único disco de chumbo, mais robusto, apresentando perfuração em forma de túnel interno, ou com um orifício em cada extremidade do disco. Por estas aberturas passava um arame ou cordel, permitindo prender e fechar o saco/fardo e autenticar assim todo o conteúdo (têxtil ou de outra natureza) guardado (Rodenburg, 2011; Elton, 2017; Sousa, 2019; Mordovin, 2019; Gonçalves, Gomes e Gomes, 2024).

O aparecimento e difusão dos selos de chumbo está diretamente relacionado com o desenvolvimento do comércio têxtil, que exigiu mecanismos eficazes de controlo da qualidade, autenticidade e tributação das mercadorias transacionadas. Neste contexto, os selos desempenhavam diversas funções, como identificar a origem da peça, atestar a sua qualidade e, posteriormente, comprovar o pagamento de taxas ou impostos associados à sua verificação ou à importação/exportação da mercadoria (Egan, 1987; Fernandes, 2014; Cherry, 2018; Elton, 2017; Mordovin, 2019; Níelsson, 2021).

Assim, de um modo geral, reconhecem-se três principais finalidades para o uso destes selos:

a) Selos de fabricantes ou mercadores – consistiam em marcas privativas, como monogramas, brasões, iniciais ou outros símbolos identificativos associados ao produtor ou ao comerciante responsável pela mercadoria. Tinham como finalidade identificar a origem do produto e garantir a sua autoria ou responsabilidade sobre a sua produção e comercialização, podendo incluir informações adicionais sobre a peça ou o lote, como dimensões, datas, entre outras (Endrei e Egan, 1982; Egan, 1987; Sousa, 2016; Elton, 2017; Níelsson, 2021; Gonçalves, Gomes e Gomes, 2024);

b) Selos de controlo de qualidade – associados ao crescimento da produção e circulação de têxteis, atestavam o cumprimento de normas de fabrico e a qualidade da peça, certificando características como dimensões regulamentares, elasticidade, ou características do tingimento (Endrei e Egan, 1982; Egan, 1987; Sousa, 2016; Elton, 2017; Níelsson, 2021; Gonçalves, Gomes e Gomes, 2024);

c) Selos alfandegários – constituíam prova do pagamento de impostos e taxas aplicadas à importação ou exportação de mercadorias. Os selos alfandegários serviam, igualmente, como comprovativo de liquidação de obrigações tributárias em transações comerciais efetuadas dentro do território nacional (Endrei e Egan, 1982; Sousa, 2016; Elton, 2017; Gonçalves, Gomes e Gomes, 2024).

Tanto os selos de controlo de qualidade como os selos alfandegários eram regulamentados e fiscalizados pela Coroa ou por autoridades por ela delegadas, constituindo uma fonte regular de receita para o reino (Sousa, 2016; Gonçalves, Gomes e Gomes, 2024).

Independentemente da sua categoria ou finalidade, os selos de mercadoria eram estampados com marcas, motivos iconográficos ou numerais, num ou em ambos os lados do selo, no momento da sua fixação à mercadoria. A aplicação era realizada com recurso a tenazes ou alicates, munidos de matriz, responsáveis pela impressão da marca no metal (Rodenburg, 2011; Cherry, 2018; Sousa, 2016).

O controlo de qualidade de tecidos e o reforço da respetiva regulamentação intensifica-se a partir do final do século XV, e conduziu a uma utilização cada vez mais intensiva destes dispositivos. Neste contexto, não era incomum que uma mesma peça apresentasse vários selos, aplicados em diferentes fases do percurso até chegar aos mercados de destino 7 (Egan, 1987; Rodenburg, 2011).

IV. CARACTERIZAÇÃO DA COLEÇÃO DE SELOS DE CHUMBO DE MERCADORIAS DO MOSTEIRO DE SANTA CLARA-A-VELHA

A coleção de selos de chumbo de mercadorias provenientes do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha é constituída por um total de 26 exemplares, representando um conjunto relevante de testemunhos associados às práticas de controlo, certificação e circulação de produtos.

7 Apesar de se preservarem fragmentos de tecidos com vários selos ainda fixos, alguns autores assinalam que, ao longo das diferentes fases de produção, certificação e verificação alfandegária, os selos anteriormente aplicados eram frequentemente removidos. Em certos casos, eram derretidos para posterior reaproveitamento, enquanto noutros eram deliberadamente inutilizados, de modo a impedir o seu uso indevido ou fraudulento (Rodenburg, 2011; Sousa, 2016; Cherry, 2018; Fernandes, 2014).

De um modo geral, os exemplares apresentam diferentes estados de conservação. Observam-se peças relativamente bem preservadas 8, nas quais é possível distinguir claramente legendas ou motivos iconográficos, a par de outras que evidenciam desgaste significativo (Fig. 1), que dificulta, ou mesmo impossibilita, a leitura das superfícies 9

Recuperados entre 1996 e 2002, em diferentes contextos arqueológicos no interior do complexo monástico (Fig. 2), estes objetos correspondem, do ponto de vista tipológico, maioritariamente a selos de pano 10 sem rebite 11

8 Dois exemplares conservam ainda a trama do tecido impresso na superfície do selo (Mscv SS2 e Mscv SS3). 9 O exemplar Mscv SS28 foi inutilizado propositadamente, tendo sido encontrado dobrado sobre si mesmo. 10 Selos de pano: 19; Selos de bula ou saca: quatro; Inconclusivos: três. 11 Selos sem rebite: 12; com um rebite: dois; com dois rebites: dois; inconclusivos: três.

FIG. 2 – Planta do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha com sinalização dos locais de exumação dos selos de chumbo de mercadorias.

FIG. 1 – Selo de chumbo de mercadoria. Apesar do grau de desgaste das superfícies, é claramente visível a impressão do tecido no interior da peça (Mscv SS3).

SS19; SS20

SS13

SS21; SS22

SS26; SS27 fora de contexto

No conjunto, destacam-se 18 exemplares 12 que, através da sua iconografia, comprovam a passagem de tecidos pelas alfândegas portuguesas, integrando-se na categoria dos selos alfandegários 13. A predominância desta tipologia confirma a estreita associação destes artefactos ao comércio e certificação de tecidos, atividade que, ao longo da Época Moderna, esteve sujeita a diferentes formas de regulamentação e fiscalização por parte das autoridades locais e régias.

As primeiras alfândegas portuguesas remontam, pelo menos, ao século XII 14, sendo já referidas 15 nos forais dos primeiros tempos da monarquia (Fernandes, 2014; Sousa, 2016). À semelhança de outros contextos europeus, “Portugal desde cedo possuiu um sistema fiscal, de que fazia parte a complexa estrutura alfandegária, com regras explícitas nas Cartas de Foral, de concessão régia” (Gonçalves, Gomes e Gomes, 2014: 111). Admite-se que os primeiros selos alfandegários portugueses em chumbo tenham surgido no reinado de D. João II (século XV), sendo provável que anteriormente fossem produzidos em cera (Sousa, 2019; Gonçalves, Gomes e Gomes, 2014; Fernandes, 2014).

Do ponto de vista iconográfico, os selos alfandegários apresentam forte afinidade com a simbologia representada na numismática coeva. A partir do reinado de D. Manuel I, generaliza-se, nos selos de chumbo, o uso do escudo de armas português, coroado ou não 16, bem como a representação da esfera armilar 17 (Sousa, 2016; Sousa, 2019). Surge, igualmente, “a legenda com o topónimo correspondente à alfândega que fiscalizou as mercadorias” 18 (Sousa, 2016: 56) (Fig. 3).

Nos exemplares desta coleção, destacam-se representações das armas reais de Portugal, frequentemente encimadas pela coroa, bem como a presença da esfera armilar 19. As legendas identificadas correspondem a topónimos como Porto, Aveiro, Lisboa e Castelo de Vide 20, cen-

tros que desempenharam um papel relevante nos sistemas de controlo alfandegário (Sousa, 2019). Nos dois exemplares associados ao Porto, observa-se, no reverso das peças, a expressão devocional “IN DEO”, traduzível como “Em Deus” (Fig. 4).

FIG. 4 – Selo alfandegário. No anverso, escudo com as armas reais portuguesas, encimado por coroa e torneado pelo topónimo “PORTO”. No reverso, a legenda “IN DEO” com esfera armilar ao centro (Mscv SS12).

12 Selos de pano alfandegários: 13; selos de saca ou bula alfandegários: três; selos alfandegários de tipologia inconclusiva: dois.

13 Selos de mercador ou fornecedor: dois; inconclusivos: seis.

14 “O tributo de portagem foi introduzido na Lusitânia pelos romanos, conservou-se durante o domínio godo e muçulmano, tendo continuidade na monarquia portuguesa” (Sousa, 2016: 46).

15 O primeiro registo conhecido da utilização do termo “alfândega” data de 1249 (Fernandes, 2014; Sousa, 2016; Sousa, 2019).

16 O escudo de armas de Portugal, bem como a própria coroa, sofreram alterações ao longo dos diferentes reinados. José de Sousa (2019: 22) apresenta um esquema que relaciona a evolução do escudo de armas português com os diferentes períodos e reinados. A coroa foi inicialmente representada aberta e, a partir do reinado

de D. Sebastião, pode também aparecer fechada por arcos. Assim, apesar destes selos não exibirem data, em alguns casos, mediante análise da iconografia heráldica, é possível associar a sua cronologia a determinados reinados (Sousa, 2019).

17 Modelo astronómico que representa o Universo, com a Terra ao centro, e composto por vários anéis, ou aros, designados por armilas. As armilas horizontais representam o equador,

os trópicos e os círculos polares, enquanto os meridianos são representados pelos anéis verticais. A banda diagonal, que atravessa a esfera armilar, é designada por banda do zodíaco e, nos selos de chumbo, apresenta, frequentemente, uma data.

A divisa foi atribuída por D. João II a D. Manuel I, em cujo reinado passa a ser utilizada continuamente como símbolo associado à nação portuguesa (Godinho, 2016; Sousa, 2019).

18 São comuns selos de chumbo alfandegários anepígrafos, ou seja, apresentam iconografia em ambos os lados da peça, mas não se observa qualquer referência ao local onde foram emitidos (Sousa, 2016).

19 Em onze exemplares é possível distinguir estes três elementos.

20 Porto: dois; Aveiro: um; Lisboa: dois; Castelo de Vide: um; Anepígrafos: sete; alfândega inconclusiva: cinco.

FIG. 3 – Reverso de selo alfandegário com topónimo “AVEIRO” (Mscv SS16).
Fotos: Prr-Pcip©PC360®Mscv, 2025, Dks Studios®.

Ainda no grupo dos selos alfandegários, destaca-se um exemplar singular (Mscv SS5), que apresenta referência explícita ao pagamento de imposto. Associado à alfândega de Lisboa, exibe no reverso a legenda “DÍZIMA”, encimada por uma esfera armilar (Fig. 5). As alfândegas estavam autorizadas a cobrar este imposto 21 a todos os tecidos e outras mercadorias, que entravam ou saíam do território português, funcionando o selo como prova material do cumprimento desta obrigação fiscal 22 (Gonçalves, Gomes e Gomes, 2014).

Para além destes, entre os exemplares da coleção passíveis de identificação, reconhecem-se dois selos (Mscv SS4 e Mscv SS6) que parecem estar relacionados com centros de produção ou marcas de mercadores. O selo de pano Mscv SS4, composto por dois discos e rebite, apresenta no anverso as iniciais incisas “R” e “D” e, no reverso, um monograma 23 (Fig. 6). Segundo Frank Girling (1961) e José de Sousa (2016), monogramas combinados com iniciais foram comumente utilizados por fabricantes e mercadores ingleses, sendo conhecidos diversos símbolos semelhantes a este (Girling, 1961; Girling, 1964). O exemplar Mscv SS6, único selo de pano da coleção composto por quatro discos e rebite, conserva informação apenas em dois deles. Num identifica-se o número “45”, no outro observa-se um brasão partido, com três flores num dos campos e, no campo oposto, um quadrúpede interpretado como um leão passante, com três patas apoiadas no solo e uma dianteira levantada – motivo recorrente na heráldica inglesa (Egan, 1987; Elton, 2017). Sob o brasão subsiste parte de uma legenda – “XON” –, que poderá corresponder à abreviatura “Exon”, associada à cidade de Exeter (Devon, Inglaterra) (Fig. 7). Selos com a mesma abreviatura encontram-se bem documentados em trabalhos como os de Geoffrey Egan (1987) e Stuart Elton (2017), sendo atribuídos a diferentes mercadores ou fabricantes dessa cidade. Deste modo, a iconografia e as legendas preservadas nestes dois exemplares (Mscv SS4 e Mscv SS6) apontam para uma provável origem inglesa, associada a centros de produção (fabricantes) ou a agentes comerciais (mercadores), constituindo indícios materiais das relações comerciais estabelecidas entre Inglaterra e Portugal.

FIG. 5 – Reverso de selo alfandegário onde se distingue, abaixo da esfera armilar, a legenda “DÍZIMA” (Mscv SS5).

FIG. 6 – Selo de fabricante (ou mercador). No anverso, iniciais “R” e “D” e, no reverso, monograma (Mscv SS4).

FIG. 7 – Selo de fabricante (ou mercador)

Distingue-se: brasão partido com legenda parcial “XON” e o número “45” (Mscv SS6).

21 A dízima, imposto cobrado pela monarquia portuguesa, pelo menos desde o século XIII, sobre mercadorias importadas e exportadas, constituía uma fonte de rendimento para a Coroa (Brito, 2012; Fernandes, 2014).

22 Encontram-se igualmente selos de

chumbo que comprovam o pagamento de outros impostos, como a sisa –tributo sobre transações comerciais, instituído pelo menos desde 1385. Inicialmente cobrado pelos municípios, para fazer face às necessidades das autarquias, este imposto foi sendo progressivamente integrado

no domínio fiscal da Coroa, sobretudo a partir do reinado de D. Fernando, passando por completo, em 1476, para a alçada da Casa Real (Brito, 2012; Cruz, 2014).

23 Poderá representar um Sign of four combinado com outra informação. José de Sousa refere que “a representação desta simbologia

de carácter religioso estava intrinsecamente ligada à esperança da proteção divina no trajeto das mercadorias despachadas, pois as perdas eram muito elevadas” (Sousa, 2016: 36), e informa ainda que terá sido particularmente comum em Inglaterra durante os séculos XVI e XVII.

Fotos: Prr-Pcip©PC360®Mscv, 2025, Dks Studios®.

V. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O conjunto de selos de chumbo de mercadorias exumado no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, constitui um testemunho material particularmente relevante das dinâmicas económicas associadas à circulação e fiscalização de bens entre os finais do século XV e o século XIX.

Apesar das limitações impostas pelos diferentes estados de conservação – que, em vários casos, impossibilitaram a leitura integral das superfícies –, foi possível proceder à sua análise tipológica e funcional, bem como identificar padrões iconográficos e epigráficos que permitem enquadrar a maioria dos exemplares nos sistemas de selagem de mercadorias então em uso.

A clara predominância de selos de pano, sobretudo de natureza alfandegária, evidencia a forte ligação deste conjunto ao comércio têxtil e às práticas de controlo fiscal que o regulavam. As representações heráldicas, nomeadamente as armas reais e a esfera armilar, bem como as legendas toponímicas identificadas, permitem relacionar alguns destes selos com centros alfandegários portugueses. A referência explícita à dízima, assim como a presença da expressão devocional In Deo, reforçam não só a dimensão fiscal destes objetos, mas também a carga simbólica e ideológica associada à circulação de mercadorias. Paralelamente, a identificação de exemplares associados a contextos ingleses – nomeadamente através de marcas e abreviaturas de mercadores, bem como da possível referência à cidade de Exeter (Exon) –, constitui um indicador de ligações comerciais mais amplas, sublinhando o papel destes selos como evidência da integração do território português em redes de circulação de bens de âmbito internacional.

Do ponto de vista cronológico, ainda que nem todos os exemplares permitam uma datação precisa, a análise conjunta dos elementos iconográficos e formais sugere uma utilização compreendida entre o final do século XV e o século XIX 24. De acordo com a bibliografia analisada, este intervalo corresponde ao período de maior difusão destes dispositivos, particularmente no contexto do reforço dos mecanismos de fiscalização e certificação de mercadorias. Em síntese, a coleção estudada, embora quantitativamente limitada, revela-se de interesse significativo. Para além de documentar práticas administrativas e fiscais, constitui um contributo importante para o conhecimento das redes de circulação de mercadorias em território português. O conjunto analisado constitui, também, um testemunho da inserção de espaços monásticos, como o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, nas dinâmicas económicas da época. A divulgação destes dados assume, assim, particular relevância no panorama arqueológico nacional, ao fornecer novos elementos de comparação para futuros estudos sobre mecanismos de controlo e circulação de bens em contextos históricos.

24 Importa referir que, apesar de a comunidade monástica ter abandonado o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha ainda no século XVII, existem testemunhos de utilização posterior do espaço, nomeadamente através do seu arrendamento a particulares e da sua posterior venda pelo Estado Português (Côrte-Real e Gambini, 2009). Estas circunstâncias poderão justificar a presença de selos de chumbo de cronologias mais recentes no conjunto analisado.

Selo de pano alfandegário composto por dois discos unidos por charneira. No anverso apresenta escudo português com armas reais de Portugal, encimado por coroa aberta. No reverso figura uma esfera armilar.

Material: chumbo

Datação provável: séculos XV-XVII

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 27 x 20 x 8 mm

Peso: 17 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

PRR-PCIP - Plano de Recuperação e Resiliência-Património Cultural, I.P.; MSCV - Mosteiro de Santa Clara-a-Velha.

MSCV SS1
Selos de chumbo do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra - CATÁLOGO

MSCV SS2

Selo de pano composto por dois discos unidos por charneira e com dois rebites. O estado de conservação do anverso impossibilita qualquer leitura. O reverso apresenta, possivelmente, a legenda “TVT” ou “TVR” (?), que poderá corresponder a uma referência toponímica. É visível a impressão da trama do tecido no metal.

Material: chumbo

Datação indeterminada

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 26 x 20 x 6 mm

Peso: 6 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS3

Selo de pano composto por dois discos unidos por charneira e com dois rebites. O desgaste acentuado impossibilita a leitura da superfície. É visível a impressão da trama do tecido no metal.

Material: chumbo

Datação indeterminada

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 23 x 25 x 6 mm

Peso: 5 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS4

Selo de pano de fabricante, ou mercador, provavelmente de origem inglesa. Composto por dois discos unidos por charneira com rebite. No anverso apresenta as iniciais “R” e “D”, incisas. A charneira apresenta uma inicial, possivelmente um “R”, em ambos os lados. No reverso figura um monograma.

Material: chumbo

Datação indeterminada

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 32 x 21 x 4 mm

Peso: 8 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS5

Selo de pano alfandegário composto por dois discos. No anverso, sobre pedestal, escudo português com armas reais de Portugal, ladeado pelas maiúsculas “L” e “I” e encimado por coroa aberta. Na base, as iniciais “S” e “b”. As iniciais remetem à abreviatura do topónimo Lisboa. No reverso, sobre pedestal, representação de esfera armilar. Na base, a legenda “D I Z I M A”, onde o “M” e o “A” formam um nexo.

Material: chumbo

Datação provável: reinado de D. Sebastião (1554-1578) –um exemplar idêntico, datado de 1560, é referido no estudo de José de Sousa (2019: 42).

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 24 x 19 x 6 mm

Peso: 13 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS6

Selo de pano de fabricante, ou mercador, provavelmente de origem inglesa. Composto por quatro discos unidos por charneira com rebite. Um dos discos ostenta brasão partido, com três elementos florais estilizados ou estrelas. Na metade oposta figura um quadrúpede, provavelmente um leão passante, com três patas apoiadas no solo e uma dianteira levantada, motivo recorrente na heráldica inglesa.

Sob o brasão a legenda “XON”, possivelmente relacionada com “EXON”, referente à cidade de Exeter (Devon, Inglaterra).

No disco oposto figura o número “45”.

Material: chumbo

Datação provável: séculos XVI-XVII

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 74 x 25 x 4 mm

Peso: 16 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS7

Selo de pano alfandegário composto por dois discos unidos por charneira. No anverso apresenta escudo português com armas reais de Portugal, ladeado por grinaldas e encimado por coroa aberta.

No reverso figura uma esfera armilar.

Material: chumbo

Datação provável: período compreendido entre os reinados de D. João III (1521-1557) e D. Afonso VI (1656-1683).

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 30 x 20 x 5 mm

Peso: 15 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS8

Selo de pano alfandegário composto por dois discos unidos por charneira. No anverso, escudo (?) com as cinco quinas de Portugal (dispostas em forma de “X”), encimado por três elementos decorativos de configuração circular. Composição inscrita em campo delimitado por grafila de pontos. No reverso, a legenda “• S • DALTER”, envolve a inicial “A” ao centro, ladeada por pontos.

Material: chumbo

Datação indeterminada

Dimensões máximas (diâmetro x espessura): 25 x 6 mm

Peso: 18 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS9

Selo de pano alfandegário constituído por dois discos unidos por charneira. No anverso, escudo português com as cinco quinas. No reverso, a inscrição disposta em três linhas: “S • DE • CAS •D•V•”, remete para a designação “Selo de Castelo de Vide”.

Material: chumbo

Datação provável: séculos XV-XVI – um exemplar semelhante é referido no estudo de José de Sousa (2019: 76).

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 30 x 18 x 10 mm

Peso: 14 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS10

Selo de pano alfandegário composto por dois discos unidos por charneira. No anverso, apresenta escudo português com armas reais de Portugal, ladeado por grinaldas e encimado por coroa aberta (?). No reverso figura uma esfera armilar sobre a qual se distingue motivo cruciforme.

Material: chumbo

Datação provável: período compreendido entre os reinados de D. João III (1521-1557) e D. Afonso VI (1656-1683).

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 28 x 20 x 7 mm

Peso: 18 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS11

Selo de saca, ou bula, alfandegário. Composto por um disco com, possivelmente, um orifício em cada extremidade, dos quais apenas subsiste um. No anverso, apresenta escudo português com armas reais de Portugal, possivelmente encimado por coroa aberta (?). No reverso, ao centro, numeral composto por três algarismos que parecem corresponder a “668”. Sob o algarismo central identifica-se um ponto. A composição encontra-se delimitada por grafila de pontos. Em redor, legenda parcial que parece corresponder a “M […] I D A” (?), possivelmente relacionada com um topónimo, e rematada por motivo decorativo cruciforme.

Material: chumbo

Datação provável: período compreendido entre os reinados de D. Manuel I (1495-1521) e D. Afonso VI (1656-1683).

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 23 x 16 x 5 mm

Peso: 10 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS12

Selo de pano alfandegário composto por dois discos unidos por charneira. No anverso, representação de escudo português, com armas reais de Portugal, encimado por coroa aberta. Em torno do campo desenvolve-se a legenda “POR.TO”, identificável como o topónimo Porto. No reverso figura a esfera armilar, em redor da qual se desenvolve a inscrição “I(N) DEO” (“Em Deus”). A inicial “N” está parcialmente oculta.

Material: chumbo

Datação provável: reinado de D. Manuel I (1495-1521)

Dimensões máximas (diâmetro x espessura): 20 x 6 mm

Peso: 14 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS13

Selo de pano alfandegário composto por dois discos unidos por charneira. No anverso, escudo português com as armas reais de Portugal, ladeado por grinaldas e encimado por coroa aberta. No reverso figura a esfera armilar, rematada pelo algarismo “3”, possivelmente associado à alfândega de onde o selo é originário (Sousa, 2016: 55-56).

Material: chumbo

Datação provável: período compreendido entre os reinados de D. João III (1521-1557) e D. Afonso VI (1656-1683).

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 26 x 20 x 7 mm

Peso: 12 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS15

Selo de saca, ou bula, alfandegário. Composto por um disco atravessado por uma perfuração interna que se estende até às extremidades. No anverso, escudo de configuração próxima do modelo heráldico francês, com armas reais de Portugal, bordadura raiada e encimado por coroa fechada. A composição encontra-se delimitada por grafila de pontos. No reverso, a legenda que parece corresponder a “CONFERENCIA” e “AGA” (?) encontra-se cingida por grafila de pontos.

Material: chumbo

Datação provável: período compreendido entre os reinados de D. Miguel I (1828-1834) e D. Maria II (1834-1853).

Dimensões máximas (diâmetro x espessura): 20 x 4 mm

Peso: 9 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS16

Selo de pano alfandegário composto por dois discos unidos por charneira. O anverso encontra-se truncado, o que impede a leitura da iconografia representada. No reverso, esfera armilar, com a legenda “AVEIRO” em redor. Sobre este elemento observa-se o algarismo “4”, possivelmente associado à alfândega de onde o selo é originário (Sousa, 2016: 55-56).

Material: chumbo

Datação indeterminada.

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 30 x 22 x 5 mm

Peso: 10 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS17

Selo de pano composto por dois discos unidos por charneira. O exemplar apresenta elevado grau de desgaste, impossibilitando a identificação com segurança de qualquer iconografia ou legenda. Contudo, no anverso, ostenta linhas incisas e caracteres (?) indeterminados. No reverso, observa-se possível legenda disposta em duas (?) linhas, onde se distingue um “L” na linha superior e, na inferior, um “B”.

Material: chumbo

Datação indeterminada

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 23 x 18 x 4 mm

Peso: 7 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS18

Selo de saca, ou bula, alfandegário. Composto por um disco atravessado por uma perfuração interna que se estende até às extremidades. No anverso, escudo de configuração próxima do modelo heráldico francês, com armas reais de Portugal, bordadura raiada e encimado por coroa fechada. No reverso, a legenda composta por “[…] ANDEGA” e “LISBOA” corresponde, possivelmente, a Alfândega de Lisboa. Entre as palavras distingue-se motivo decorativo.

Material: chumbo

Datação provável: período compreendido entre os reinados de D. Miguel I (1828-1834) e D. Maria II (1834-1853).

Dimensões máximas (diâmetro x espessura): 19 x 4 mm

Peso: 10 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS19

Selo de pano alfandegário composto por dois discos unidos por charneira. No anverso, escudo português com as armas reais de Portugal. No reverso, representação de esfera armilar.

Material: chumbo

Datação indeterminada.

Dimensões máximas (diâmetro x espessura): 20 x 8 mm

Peso: 11 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS20

Selo alfandegário. No anverso, representação de escudo português com as armas reais de Portugal, encimado por coroa aberta. No reverso, representação de esfera armilar.

Material: chumbo

Datação provável: período compreendido entre os reinados de D. Manuel I (1495-1521) e D. Afonso VI (1656-1683).

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 22 x 23 x 6 mm

Peso: 10 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS21

Selo de pano alfandegário composto por dois discos. No anverso, representação de escudo português, com as armas reais de Portugal, ladeado por grinaldas e encimado por coroa aberta. No reverso apresenta esfera armilar.

Material: chumbo

Datação provável: período compreendido entre os reinados de D. João III (1521-1557) e D. Afonso VI (1656-1683).

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 24 x 23 x 7 mm

Peso: 15 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS22

Selo de pano alfandegário composto por dois discos unidos por charneira. No anverso, representação de escudo português, com as armas reais de Portugal, encimado por coroa aberta. No reverso apresenta esfera armilar, em torno da qual se dispõe a legenda, distinguindo-se apenas a inicial “V”.

Material: chumbo

Datação provável: período compreendido entre os reinados de D. João III (1521-1557) e D. Afonso VI (1656-1683).

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 25 x 18 x 6 mm

Peso: 8 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS23

Selo de saca, ou bula, alfandegário. Composto por um disco atravessado por uma perfuração interna que se estende até às extremidades, pela qual passa um arame. Não é visível iconografia ou legenda associada.

Material: chumbo

Datação indeterminada.

Dimensões máximas (diâmetro x espessura: 13 x 5 mm

Peso: 4 g

Créditos: Arquivo do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha.

MSCV SS25

Selo de pano alfandegário composto por dois discos unidos por charneira. No anverso, representação de escudo português com as armas reais de Portugal, encimado por coroa aberta e com a legenda “PORTO” disposta em redor da composição central. No reverso, esfera armilar ao centro, em torno da qual se inscreve a legenda “IN DEO” (“Em Deus”).

Material: chumbo

Datação provável: período compreendido entre os reinados de D. Manuel I (1495-1521) e D. Afonso VI (1656-1683).

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 40 x 22 x 9 mm

Peso: 21 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS26

Selo de pano composto por dois discos unidos por charneira. No anverso, motivo relevado ao centro, cujo significado não foi possível identificar. No reverso, a legenda “IO” ou “10”.

Material: chumbo

Datação indeterminada.

Dimensões máximas (diâmetro x espessura): 18 x 4 mm

Peso: 5 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

BIBLIOGRAFIA

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MSCV SS27

Selo de pano alfandegário composto por dois discos unidos por charneira. O desgaste que as superfícies dos discos apresentam não permite a observação certa de iconografia ou legenda. Contudo, o relevo permite distinguir uma esfera armilar circundada por legenda.

Material: chumbo

Datação indeterminada.

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 13 x 14 x 3 mm

Peso: 3 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

MSCV SS28

Possível selo de pano. O exemplar parece ter sido deliberadamente inutilizado, não permitindo a observação das superfícies.

Material: chumbo

Datação indeterminada.

Dimensões máximas (altura x largura x espessura): 21 x 11 x 14 mm

Peso: 9 g

Créditos: Prr-Pcip© - PC360® - Mscv, 2025, Dks Studios®

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[ligações à Internet ativas em 2026-07-05]

RESUMO

Olisipo, povoado que esteve na origem de Lisboa, resultou de um processo de formação ao longo do I milénio a.C., levado a cabo por populações fenícias e indígenas.

Esse processo estruturou-se no Baixo Tejo, articulando a organização regional do território fluvial com as estruturas naturais e antrópicas da área de Lisboa. O papel geoestratégico da colina de S. Jorge condicionou também a localização do novo povoado.

Palavras-chave: Proto-História; Fenícios; Olisipo (Lisboa); Tejo.

ABSTRACT

Olisipo, the settlement that was at the origin of Lisbon, was formed by Phoenician and indigenous populations throughout the 1st Millennium BC. The formation process was structured around the Lower Tagus, combining the regional organisation of the river territory with the natural and anthropic structures of the Lisbon area.

The geostrategic role of S. Jorge hill also influenced the location of the new settlement.

Key words: Proto-History; Phoenicians; Olisipo (Lisbon); Tagus.

RÉSUMÉ

Olisipo, peuplement à l’origine de Lisbonne, est l’aboutissement d’un processus de formation tout au long du 1er millénaire av. J-C., mené à bien par des populations phéniciennes et indigènes. Ce processus s’est structuré sur la partie intérieure du Tage, articulant l’organisation régionale du territoire fluvial avec les conditions naturelles et anthropiques de la zone de Lisbonne.

Le rôle géostratégique de la colline S. Jorge a également conditionné la localisation de ce nouveau peuplement.

Mots Clés: Protohistoire; Phéniciens; Olisipo (Lisbonne); Tage.

Olisipo no Baixo Tejo

estruturas territoriais e processo de formação, I milénio a.C.

1 Investigador independente: estruturas territoriais e morfologia urbana (vmdurao@gmail.com).

Por opção do autor, o texto não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Foi recebido para publicação em 2026-04-08.

1. INTRODUÇÃO

Pretende-se, com a leitura apresentada neste artigo, contribuir para desvendar o processo de formação de Olisipo, que se terá iniciado entre os finais do século VIII a.C. e o início do século VII a.C., e que se terá mantido até à chegada dos romanos, pelo século II a.C. Estes terão arrasado o edificado do povoado proto-urbano, e realizado Olisipo Felicitas Julia segundo uma adaptação dos seus modelos urbanos a pré-existências naturais e antrópicas.

A tese aqui apresentada incide sobre o processo de formação de Olisipo, defendendo que:

– Com a chegada de populações fenícias ao Baixo Tejo constituiu-se um tipo territorial, à semelhança do que sucedeu na parte baixa de outros rios portugueses, aspecto que se revelou decisivo para o desenvolvimento desta região neste período histórico e que marcou os seguintes, nomeadamente o período romano (Durão, 2025);

– O rio afirmou-se como elemento central e determinante das comunicações regionais locais;

– Áreas de povoamento, já perceptíveis no Bronze Final, foram consolidadas significativamente;

– Foram criados novos povoados ribeirinhos, embora outros terem sido abandonados. Em termos globais, porém, a quantidade e dimensão dos povoados cresceu, como a interacção entre estes e a complexidade de relações estabelecidas. A génese de Olisipo reflecte este novo dinamismo que, a partir do século V a.C., fez destacar o povoado na região e ganhar primazia relativamente a Almaraz (Almada);

– A escolha da colina de S. Jorge para implantação do povoado de Olisipo poderá ter resultado de uma opção geoestratégica, devido à posição dominante desta colina na área do Baixo Tejo;

– As características morfológicas da própria colina propiciavam a realização de um povoado organizado em dois níveis, junto ao rio e pela encosta, onde se iniciou, e no topo desta, tendo sido iniciados em momentos cronologicamente próximos;

– A escolha deste local tinha também a vantagem da presença indígena nas proximidades, à semelhança do que ocorreu na maioria dos locais de implantação fenícia;

– As populações indígenas possuíam um conhecimento sedimentado sobre o território onde hoje se situa Lisboa. A experiência pré-histórica estaria presente através de permanências, como trajectos estruturantes e vestígios de estruturas anteriores; – Apesar de assimétrica, a relação entre fenícios e indígenas terá, possivelmente, estado presente desde os primeiros momentos na escolha do local e na realização do novo povoado. A visão estratégica terá sido, contudo, fenícia, por corresponder aos seus objectivos para a região e aos seus modos culturais de realizar povoados ribeirinhos. Convém ressalvar que, quando neste artigo se fala de “fenícios”, está-se a referir um conjunto heterogéneo de populações oriundas da Fenícia, mas também de populações de outros locais do Mediterrâneo oriental, como gregos, às quais se juntaram populações provenientes de colónias fenícias próximas do estreito de Gibraltar, algumas já no Atlântico, como Gadir, actual Cádis. Não obstante essa diversidade, a matriz cultural fenícia manteve-se preponderante. Para cumprir o objectivo proposto, considerou-se necessário compreender os diferentes territórios antrópicos em interacção, sob a influência de factores exógenos e endógenos. Para tal, observaram-se as seguintes estruturas e aspectos:

– O Baixo Tejo como elemento estrutural do território, com uma estrutura de comunicações composta por trajectos terrestres, fluviais e marítimos conjugados em portos ou ancoradouros, áreas de povoamento ribeirinhas e outras, onde ocorreram transformações internas com implicações no desenvolvimento de Olisipo; – O território de Lisboa, entendido como o território da actual cidade. Conhecimento dos aspectos naturais da área em estudo, e estabelecimento da relação entre áreas morfológicas com o povoamento pré-histórico, identificando povoados reconhecidos desde o período Neolítico;

– No que respeita a Olisipo, identificação das estruturas territoriais naturais e antrópicas, com destaque para os trajectos na formação da urbe e respectivos vestígios arqueológicos deste período (Durão, 2024). A investigação realizada apresenta características multidisciplinares (Durão, 2019). Integra dados arqueológicos que interpretam vestígios

e estruturas da região do Baixo Tejo, do território de Lisboa e do povoado proto-urbano de Olisipo (Sousa, 2016b; Cardoso, 2011; Arruda, 2005). A leitura apoia-se no método histórico-tipológico ambiental desenvolvido pelos arquitectos Gianfranco Caniggia e Gian Luigi Maffei (Caniggia e Maffei, 1995 [1979]), com aportações sobre o território (Cataldi et al., 2023). Parte da matéria apresentada assenta em dois trabalhos anteriormente publicados pelo autor: um sobre Olisipo (Durão, 2024), publicado nesta revista, e outro relativo ao Baixo Tejo (Durão, 2025), publicado na Revista de Morfologia Urbana, que convergem na fundamentação do tema aqui tratado.

2. O BAIXO TEJO: FORMAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DO TIPO

TERRITORIAL DA REGIÃO BAIXA DE RIOS

Os rios foram, desde a antiguidade, elementos de atracção de populações, e até decisivos no desenvolvimento de algumas das antigas civilizações. Esse conhecimento, assente na História, poderá ter estado na génese das acções dos fenícios nas suas áreas de influência (Aubet, 1997), nomeadamente quando viajaram para terra tão distante e optaram por estabelecer-se, de modo sistemático, na parte baixa de diversos rios portugueses, do Guadiana ao Mondego, região litoral que passou a ter forte influência fenícia.

Tal política territorial fez florir um tipo territorial, como esquematicamente está apresentado na Fig. 1, definido por: uma tipologia territorial que abrange uma área reconhecida e delimitada; uma estrutura de trajectos centrada no rio; um povoamento policêntrico, com pelo menos duas centralidades em polos opostos, uma junto à foz, onde se constituiu o porto principal e que serviria ao controlo e defesa da área da foz do rio, e outra no interior, ainda em área navegável do rio, junto a trajectos terrestres, que servia de porta de acesso ao hinterland; e que foi realizado num tempo e por uma cultura, e consolidado por outras culturas, e até conjugando novos objectivos (Durão, 2025: 6-8).

FIG. 1 – Modelo territorial simplificado da parte baixa dos seguintes rios portugueses: Tejo, Mondego, Sado Guadiana, Mira, Arade, Minho e Lima. Articulação entre navegação fluvial e marítima, trajectos terrestres e povoamento ribeirinho polinucleado (Durão, 2025: Fig. 2, letra B).

FIG. 2 – Baixo Tejo. Caracterização geográfica e morfológica:

GT. Gargalo do Tejo, da foz ao Mar da Palha; ET. Estuário do Tejo, Mar da Palha e área de mouchões; VT. Vale do Tejo; (A). Hipótese do primeiro local a montante do rio para atravessamento a vau. Locais indicados no texto: 1. Lisboa; 2. Alverca; 3. Vila Franca de Xira; 4. Castanheira do Ribatejo; 5. Monte do Amaral; 6. Cartaxo; 7. Santarém; 8. Chões de Alpompé; 9. Golegã; 10. Torres Novas; 11. Vila Nova da Barquinha; 12. Chamusca; 13. Alpiarça; 14. Almeirim; 15. Muge; 16. Almada.

O território do Baixo Tejo (ver Fig. 2) tem cerca de 120 km de comprimento, desde a foz a Vila Nova da Barquinha, e acompanha a orla costeira atlântica a cerca de 40-50 km para o interior. Está protegido dos ventos predominantes de Noroeste pelas diferentes serras que acompanham a orla costeira, encimadas pela cumeada de separação entre a bacia do Tejo e as bacias costeiras do Oeste e do Lis. Do ponto de vista das características geográficas e morfológicas, reconhecem-se três áreas: o gargalo, ou garganta, do Tejo (GT), que liga a foz ao estuário (ET) que se abre num extenso mar interior, o Mar da Palha, que é prolongado por uma área de mouchões até onde nasce o vale do Tejo (VT), por onde corre o canal fluvial e onde, nas suas margens, se definiu a lezíria ribatejana, assente em terraços fluviais.

Todo o Baixo Tejo é navegável. As marés fazem-se sentir até Muge (Daveau, 1995: 118, fig. 1), local onde, em maré baixa, provavelmente, seria possível realizar a primeira travessia a vau do rio e onde terá passado posteriormente a estrada romana (Pimenta e Loubet, 2024). Na Idade do Ferro, e mesmo anteriormente, este seria, possivelmente, o primeiro local de atravessamento do rio a jusante.

O modo como evoluiu a utilização do rio enquanto elemento de ligação principal na região do Baixo Tejo, fez deste como que um trajecto matriz de vale, por onde eram estabelecidas as principais comunicações entre os povoados ribeirinhos.

No Bronze Final, os vestígios arqueológicos apontam para a crescente ocupação de lugares ribeirinhos junto ao Tejo, assentamentos ou pequenos povoados, mantendo-se outros povoados no interior do território.

O rio apresentava-se nesse período como meio de subsistência e de deslocação entre povoados. Apesar de poder ser usado em distâncias significativas, o tráfego fluvial relacionava-se com as condições de navegação em cada local, particularmente com os meios disponíveis. Mantinham-se as ligações preferenciais a povoados do interior pelos antigos trajectos de cumeada e por outros de meia-encosta, evitando, dentro do possível, atravessamento de ribeiras e rios (Vilaça e Arruda, 2004; Sousa, 2016a).

O Tejo só ganhou primazia significativa quando foram estabelecidas as ligações por mar e os modos de deslocação evoluíram, o que sucedeu a partir dos séculos IX-VIII a.C., quando chegaram populações fenícias que se instalaram primeiramente junto ao povoado indígena de Santarém (Arruda, 2005), estabelecendo assim a ligação do Baixo Tejo às rotas do Mediterrâneo. Os fenícios, possivelmente, ou já tinham realizado viagens exploratórias, antecipando esta acção de instalação em território tão distante, ou conheciam-no por intermédio de mercadores e viajantes (Alarcão, 1996: 19), pois o modo como se posicionaram na região deu-lhes acesso, com a maior economia de meios, aos minérios e a estabelecer uma rede de comércio com as áreas interiores do território a partir do litoral, do modo que lhes era mais familiar deslocarem-se. A Idade do Ferro entrou em força no litoral pelos Fenícios, ao trazerem o domínio de novas técnicas e outros saberes culturais mediterrânicos. Introduziram novas políticas territoriais que implicaram novos modos

Figura:
Vitor
Durão sobre base cartográfi ca Topographic-map.com .

de percorrer e estruturar o território, de gerar novos povoamentos e criar novos povoados, como o desenvolvimento de povoados existentes (Durão, 2025, 2024).

Modos de estruturar os povoados segundo eixos orientadores, a realização de socalcos como modo de vencer desníveis, a construção de edifícios de implantação ortogonal organizados em banda ou isolados deixando interstícios entre estes, modificaram os modos de saber-fazer anteriores (Arruda, 2005).

Este período de influência fenícia transformou significativamente o modo de estabelecer as ligações entre povoados, com o rio a ganhar primazia significativa, e a serem abandonadas áreas interiores (Arruda, 2017). Essa maior facilidade de deslocação terá também contribuído para o aumento do povoamento e dos povoados ribeirinhos, e para a maior complexidade do ambiente antrópico ribeirinho, face às novas interacções que se estabeleceram. As áreas de povoamento que já se reconheciam no Bronze Final foram ampliadas, particularmente as de Santarém e Lisboa. Surgidas de modo espontâneo, estas áreas proporcionariam diversidade de actividades e diferentes géneros de ocupação, complementaridade e vivência, tal como criariam rivalidades entre grupos que vivem na mesma área e repartem bens comuns.

Reconhecem-se na região do Baixo Tejo três grandes áreas de povoamento, como está apresentado nas Figs. 3 e 4, e que correspondem em parte às áreas morfológicas do território:

– A. Área de Lisboa: a área que abrange a parte interior da garganta do Tejo e o início do estuário do Tejo, onde se incluem as áreas de Lisboa, Oeiras / Amadora / Cascais / Sintra e, na margem sul, Almada; – B. Área de Alverca, Vila Franca de Xira e Castanheira do Ribatejo: área do estuário do Tejo, na margem direita, em frente aos mouchões; – C. Área de Santarém: a área do Vale do Tejo, de Muge a Vila Nova da Barquinha.

FIG. 3 – Baixo Tejo. Povoados, estruturas e vestígios do Bronze Final: 1. Lisboa; 1’. Tapada da Ajuda; 1’’. Moinho da Atalaia; 3. Castelo de Alverca; 5. Adanaia; 11. Quinta da Marquesa; 13. Quinta da Carapinha I; 14. Casal da Mó; 15. Castro do Amaral; 19. Quinta da Aramenha; 22. Santarém; 30. Alto do Castelo; 32. Alto dos Cacos; 33. Eira da Alorna; 35. Vale de Tijolos; 46. Almaraz; 48. Quinta do Marcelo; 49. Quinta do Percevejo. Povoados principais: 50. Castelo da Amoreira; 51. Castro da Ota; 52. Castelo dos Mouros; 53. Cabeço de Alcainça; 54. Serra do Socorro; 55. Castro de Pragança. Áreas de povoamento: A. Lisboa; A1 (Oeiras) e A2 (Almada) - povoados agrícolas; B. Alverca / Vila Franca de Xira / / Castanheira do Ribatejo; C. Santarém. Referências arqueológicas: Vilaça e Arruda, 2004: 46 (figura). Adaptado de Durão, 2025: fig. 4.

2.1. A área de povoamento de Lisboa

O povoamento nesta área e na sua envolvente variou ao longo do período em análise. Do Bronze Final são escassos os povoados reconhecidos, pelo que, aparentemente, não teriam ligações significativas entre si pelas distâncias a que se encontravam. Diferente situação teriam os povoados próximos da Praça da Figueira e Encosta de Santana, se é que

Figura: Vitor Durão sobre base cartográfi ca Topographic-map.com .

coexistiram no mesmo período, como, provavelmente, outros da área do vale da Baixa, que evidenciam uma tendência de fixação de populações em áreas baixas, nas proximidades de ribeiras e do rio, aspecto que se verificou noutros locais junto ao Tejo. No concelho de Almada, o povoado de Almaraz, se já existisse neste período, algo que está em estudo (Olaio et al., 2023), teria ligação às áreas interiores de povoamento agrícola e de exploração de minérios.

Os Fenícios, ou restruturaram Almaraz ou fundaram o povoado, aparentemente antes de Olisipo. Almaraz, até ao século V a.C., afirmou-se como o principal povoado da área da foz. Junto com Olisipo, constituiriam uma área de povoamento fortemente apoiada na actividade fluvial, para o que contribuiriam os ancoradouros de Cacilhas, Almaraz, e os de Olisipo (Sousa, 2018). Na segunda metade do milénio, Olisipo começa a afirmar-se mais e ganha primazia, o que terá impulsionado o ressurgimento de povoados na área da serra de Monsanto, como nas áreas da Amadora, Oeiras, Cascais e Sintra, dedicados sobretudo à agricultura e ao apoio ao povoado principal (Arruda, Sousa e Antunes, 2019: 94).

2.2. A área de povoamento de Alverca, Vila Franca de Xira e Castanheira do Ribatejo

Esta área de povoamento ocupou uma posição central no sistema do Baixo Tejo. Estabeleceu-se no final do estuário, próximo do início do vale do Tejo e em frente à área de mouchões. Englobava Alverca do Ribatejo, Vila Franca de Xira e Castanheira do Ribatejo, com pequenos povoados.

O principal povoado era o Castro do Amaral, localizado num promontório sobre o vale do rio Grande da Pipa, a 290 m de altitude, em posição de significativo destaque, com ampla vista para o Tejo e de

FIG. 4 – Baixo Tejo. Povoados, estruturas e vestígios da Idade do Ferro: 1. Lisboa; 3. Castelo de Alverca; 6. Quinta do Bulhaco II; 7. Casal dos Pegos I; 8. Santa Sofia; 9a. Castelo dos Povos; 10. Bairro Gulbenkian, Castanheira do Ribatejo; 11. Quinta da Marquesa II; 13. Quinta da Carapinha I; 15. Castro do Amaral; 17. Cabeço Guião; 18. Porto de Muge; 19. Quinta da Aramenha; 20. Algares; 22. Santarém; 24. Chões de Alpompé; 30. Alto do Castelo; 31. Cabeço da Bruxa; 32. Alto dos Cacos; 33. Eira da Alorna; 34. Azeitada; 35. Vale de Tijolos; 36. Porto do Sabugueiro; 44. Monte da Caparica / Cova da Piedade; 46. Almaraz; 47. Cacilhas. Áreas de povoamento: A. Lisboa e Almada; A1. Amadora / Oeiras; A2. Cova da Piedade / Monte da Caparica; B. Alverca / / Vila Franca de Xira / Castanheira do Ribatejo; C. Santarém. Adaptado de Durão, 2025: fig. 6.

dimensão apreciável (Sousa, 2016a). Terá tido ocupação desde a Idade do Bronze, tendo-se prolongado em declínio no início do período romano (Pimenta e Mendes, 2010-2011; Pimenta, Mendes e Madeira, 2010). Contudo, no período romano foi sendo abandonado, enquanto um povoado de fundação romana, o Monte dos Castelinhos, ganhou significativa primazia relativamente aos restantes (Pimenta, 2024). Nesta área de povoamento não se estabeleceu um povoado preponderante que atravessasse os diferentes períodos históricos, até à actualidade.

Figura: Vitor Durão sobre base cartográfi ca
.

2.3. A área de povoamento de Santarém

Nesta área de povoamento, no Bronze Final, os povoados estavam praticamente todos na margem oposta a Santarém, assentes nos terraços fluviais que definem a frente ribeirinha, e onde, cuidadosamente, se implantaram em pequenas elevações. Seria pelo rio que se estabeleciam as comunicações entre os povoados ribeirinhos e Santarém. Alcandorado no cimo do promontório, este estabelecia a ligação às cumeadas principais, mas também às áreas do vale. Na Idade do Ferro, Santarém ter-se-á consolidado como povoado principal e surgiram novos povoados na área. A norte, numa colina sobre o rio Alviela, junto ao Tejo, criaram em Chões de Alpompé um povoado que irá destacar-se e, junto com Santarém, ter importância na ligação ao hinterland e até na defesa do vale do Tejo, enquanto, no topo sul, Lisboa e Almaraz podiam proteger a foz.

A interacção entre os povoados próximos da foz e os localizados a norte do vale é uma evidência, como mostra a similitude encontrada entre elementos cerâmicos produzidos no Baixo Tejo, o que reforça a ideia de área cultural (Sousa, 2018; Arruda, 2017). Mas também os vestígios arqueológicos evidenciam a relação directa entre cada povoado e o mundo fenício, o que tende a demonstrar a ausência de uma administração única, algo comum ao mundo fenício (Arruda, 2005; Aubet, 1997).

A comparação dos dois períodos analisados evidencia o aumento da complexidade das ligações fluviais e o incremento da interacção entre as diferentes áreas de povoamento, como se verifica na comparação entre as Figs. 3 e 4, com consequências no crescente aumento de ocupações ribeirinhas e na consolidação das diferentes áreas de povoamento. Os povoados de Lisboa e Santarém consolidaram-se gradualmente ao longo dos diferentes períodos.

No Bronze Final, existiriam ligações entre povoados dentro de cada área de povoamento, enquanto as relações seriam escassas entre as diferentes áreas dispersas ao longo do rio. A estrutura das comunicações era sobretudo em árvore; ao usar o rio como modo de estabelecer ligações, transformou-se numa estrutura que, nalguns locais, passou a ser em árvore / / matriz, como se evidencia na Fig. 5, letra A.

Na Idade do Ferro, a interacção dentro de cada área de povoamento seria forte, tal como entre as diferentes áreas dispersas no rio e com o mundo mediterrânico. Estabeleceram-se as relações marítimas e fluviais que transformaram a estrutura de trajectos em matriz / árvore, ainda que frágil em muitos aspectos, pois os trajectos terrestres manteriam, no essencial, as características anteriores, apesar de se sedimentarem trajectos ribeirinhos locais e estabelecerem novas ligações com as cumeadas (ver Fig. 5, letra B).

3.

POVOAMENTO E POVOADOS PRÉ-HISTÓRICOS

NA ÁREA DE LISBOA

No território da cidade de Lisboa destaca-se o planalto de Monsanto, com cerca de 215 m de altitude, que desce pela Ajuda e Belém, suavemente, até à frente ribeirinha, anteriormente composta maioritariamente por praias. Este planalto é delimitado pelas ribeiras de Algés e de Alcântara, a qual gera uma profunda ruptura morfológica no território, particularmente na área de Campolide / Campo de Ourique (ver Figs. 6 e 7).

Em termos gerais, podem ser consideradas duas grandes áreas morfológicas naturais na área de Lisboa, relacionadas também com as características dos solos, e às quais corresponderiam dois grandes territórios de povoamento: a ocidente Monsanto / Ajuda-Belém, e a oriente a envolvente do vale da Baixa, mediadas por um outro território de forte identidade, o vale de Alcântara. Este vale, para além da ruptura morfológica que produzia, definia em grande medida a separação de dois géneros de solo caracterizadores de Lisboa: os solos basálticos do complexo vulcânico de Monsanto e os solos predominantemente arenosos, calcários e argilosos da restante área da cidade. Era um elemento de separação morfológica das duas regiões, pela dificuldade que na época seria o seu atravessamento, mas ao mesmo tempo de união, pois de ambos os lados existiam jazidas de sílex que terão feito deste vale um local especializado na exploração e transformação desta matéria-prima, como na realização de ferramentas em pedra.

FIG. 5 – Desenho esquemático sobre a transformação da estrutura geral de trajectos, particularmente no que respeita ao uso do rio.

A. Bronze Final; B. Idade do Ferro.

Desenho: Vitor Durão.

A área norte do território de Lisboa apresenta vestígios arqueológicos dispersos e pouco significativos, não sendo conhecida a existência de povoados estruturados. Esta área não foi considerada na presente análise, tal como a zona a oriente da colina de S. Jorge, onde os vestígios são igualmente escassos.

A rede de trajectos de cumeada articulava-se com ligações locais de meia-encosta e de vale e, provavelmente, com um grande trajecto ribeirinho que percorreria a frente do Tejo, adaptando-se às condições naturais locais. Este trajecto facilitaria ligações a maiores distâncias e o reconhecimento territorial pelas populações indígenas. Diversos vestígios arqueológicos próximos da antiga linha de costa (Costa et al., 2016) evidenciam a utilização desta área, actualmente inexistente, devido aos significativos aterros realizados na frente ribeirinha da cidade.

3.1. A área de Monsanto / Ajuda-Belém

A área de Monsanto / Ajuda-Belém está ligada pelas cumeadas à cumeada oeste da bacia do Tejo (ver Fig. 2), onde se localiza a área da Amadora, que teve povoamento significativo nas épocas mais antigas. Os solos basálticos de Monsanto proporcionariam solos ricos em nutrientes, água doce a pouca profundidade, um coberto vegetal relativamente aberto, favorável à presença de animais de caça, actividade que terá tido importância para as comunidades humanas que aqui viviam ou por aqui passavam. Na área dos solos carbonatados encontravam jazidas de sílex e quartzo, entre outras rochas que permitiam a realização de inúmeras ferramentas de apoio ao seu quotidiano (Cardoso, 2011: 94).

aluvionares arenosos argilosos basálticos calcareníticos carbonatados

FIG. 6 – Lisboa, carta de tipo de solos. Adaptado do Plano Director Municipal de Lisboa, revisão, relatório de caracterização biofísica (2010: 19).

FIG. 7 – Lisboa: estrutura territorial, trajectos estruturantes e principais povoados identificados entre o Neolítico e a Idade do Ferro: Vales e ribeiras: A. Algés; B. Vale de Alcântara; C. Vale da Baixa e respectiva ribeira; D. Ribeira de Valverde; E. Ribeira de Arroios.

Trajectos: a. cumeada principal; b. cumeada secundária; c. ligação pelo vale; d. ligação local; e. trajecto ribeirinho / sopé de encosta. Povoados: 1. Alto das Perdizes, Monsanto; 2. Santana, Monsanto; 3. Bairro da Serafina; 4. Montes Claros; 5. Tapada da Ajuda, Ajuda; 6. Forte do Alto do Duque, Algés; 7. Cerca dos Jerónimos, Belém; 8. Junqueira, Belém; 9. Rio Seco, Ajuda; 10. Vila Pouca, vale de Alcântara; 11. Túnel do Rossio, Campolide; 12. Sete Moinhos, Campolide; 13. Bairro Alto, colina de S. Francisco; 14. Encosta de Santana, Promontório de Santana; 15. Olisipo, Colina de S. Jorge. Referências arqueológicas: Cardoso, 2011; Cardoso e Silva, 2004; Filipe, 2013; Krus, Coelho e Vieira, 2017-2018; Moita, 1967; Neto et al., 2017; Reis et al., 2017; Simões et al., 2020; Sousa et al., 2024).

Nesta área, os arqueólogos recolheram, em dezenas de locais, milhares de peças do período Paleolítico. Contudo, por se tratar maioritariamente de achados de superfície, e devido a não terem sido realizadas estratigrafias, não tem sido possível identificar com segurança os locais de assentamento ou de povoamento deste período tão prolongado, nem avaliar a dimensão das ocupações. A grande quantidade de objectos recolhidos corresponde igualmente a milhares de anos, pelo que a ocupação poderá não ter sido tão significativa quanto inicialmente poderia parecer (Cardoso, 2011: 91, 93, 100).

Dos períodos Neolítico, Calcolítico e Bronze são conhecidos diversos assentamentos nesta área, associados sobretudo a actividades agrícolas e recolectoras. Entre os mais representativos destacam-se os povoados do Alto das Perdizes, de Montes Claros (Cardoso, 2011: 107 e 110) e da Tapada da Ajuda (Cardoso e Silva, 2004), bem como o conjunto de ocupações do Rio Seco, onde foram identificadas estruturas de armazenamento de cereais (Neto et al., 2017). A presença de vestígios em vários pontos da encosta virada ao Tejo sugere uma ocupação relativamente ampla desta área ao longo destes períodos.

3.2. A área do vale de Alcântara

Os assentamentos conhecidos no vale de Alcântara dedicavam-se sobretudo à exploração de sílex, matéria-prima utilizada na produção de instrumentos líticos. A abundância deste material e dos objectos produzidos deu consistência à existência de locais especializados de extracção e transformação, como os povoados identificados em Vila Pouca e Sete Moinhos (Moita, 1967; Cardoso, 2011: 91-110). Apesar das dificuldades de atravessamento impostas pelas encostas íngremes, este vale terá funcionado como espaço de ligação entre as duas áreas principais de povoamento.

3.3. A área envolvente da Baixa

A área aqui denominada de envolvente da Baixa ia desde o vale de Alcântara, Campolide, à colina de S. Jorge. O vale da Baixa é delimitado pelo rio Tejo, a sul, pela colina de S. Francisco, a ocidente, pelo promontório de Santana, a norte, e pela colina de S. Jorge, a oriente (ver Fig. 7). Nas colinas adjacentes do vale da actual Baixa, área principal do centro histórico da cidade, há vestígios arqueológicos de povoados de diferentes épocas, que foram formados junto às cumeadas ou em situação de meia encosta, a cotas pouco elevadas ou mesmo baixas.

3.4. Colina de S. Francisco

Do período Neolítico Antigo, último quartel do VI milénio a.C. ao início do V milénio a.C., foram identificados vestígios arqueológicos em diversos locais da colina. Os mais significativos concentram-se na área do Bairro Alto, pois apresentam homogeneidade cultural relevante, o

que permite supor pertencerem ao mesmo período. O povoado dedicar-se-ia sobretudo à realização de actividades agrícolas, recolectoras e talhe de sílex, e é reconhecido pelos vestígios encontrados em diversos locais (Sousa et al., 2024: 52-53; Simões et al., 2020: 36; Cardoso, 2011: 101). Há também vestígios da Idade do Bronze e do Ferro (Filipe, 2013).

3.5. Promontório de Santana

O povoado da Encosta de Santana (Leitão, Cardoso e Martins, 2021) localiza-se na encosta nascente acima do Martim Moniz, por onde passava a ribeira de Arroios. A adaptação dos edifícios ao relevo fazia-se por socalcos realizados na encosta. Atravessou um período muito amplo, não necessariamente de ocupação continua, desde o Neolítico, cerca do VI-V milénios a.C., ao Calcolítico e ao Bronze, até à sua fase final, registando igualmente ocupações posteriores (Sousa, 2016b). Neste promontório e em áreas próximas há vestígios de outros povoados (Reis et al., 2017; Krus, Coelho e Vieira, 2017-2018).

Na parte baixa, na actual Praça da Figueira, foram encontrados vestígios furtuitos do período Calcolítico e diversos fragmentos da Idade do Bronze (Cardoso, 2011: 107-108 e 114). Do Bronze Final foram encontrados diversos vestígios e estruturas arqueológicas do povoado, que se dedicava a actividades agro-pecuárias e recolectoras de moluscos (Silva, 2013).

3.6. Colina de S. Jorge e o vale da Baixa

A colina de S. Jorge, com apenas 94 m de altitude, é um elemento de relevo central no Baixo Tejo, devido à sua posição proeminente. Desta avista-se a foz, o estuário e o vale do Tejo.

Na colina de S. Jorge há poucos vestígios arqueológicos da Pré-História.

No topo, no sítio do castelo, os achados neolíticos ou calcolíticos são considerados duvidosos e, por isso, não permitem afirmar ter aqui existido qualquer assentamento antes da Idade do Ferro. Os vestígios e estruturas desse período assentam directamente no terreno natural, aspecto determinante na determinação da génese de uma estrutura ou povoado (Cardoso, 2011: 109), mas é uma questão que continua em aberto. Mesmo que tenha existido algum assentamento ou povoado anterior, este não terá tido ocupação contínua nem expressão relevante, não tendo condicionado a implantação do novo povoado de Olisipo, cuja génese se associa aos contextos da Idade do Ferro.

Do período Neolítico foram identificados diversos vestígios: um machado, aparentemente descontextualizado, na área do Chafariz D’El-Rei; em local próximo, nos Armazéns Sommer, uma fossa sepulcral datada por radiocarbono da transição do VI para o V milénios a.C.; elementos de pedra lascada e de fauna que poderão indiciar actividade doméstica na zona, hipótese que, contudo, não se encontra comprovada (Sousa et al., 2024: 54).

4.

POVOADO PROTO-HISTÓRICO

Nas vésperas da formação do povoado de Olisipo, existiriam, hipoteticamente, na área do vale da Baixa, como já foi referido, os povoados indígenas da Praça da Figueira e da Encosta de Santana, como poderiam existir outros ainda desconhecidos, e até pequenos assentamentos.

As evidências arqueológicas na região indicam que os Fenícios tendiam a instalar os seus estabelecimentos em áreas onde já existiam comunidades indígenas. Tal permitia estabelecer acordos em diversas áreas, nomeadamente no comércio, obter conhecimentos sobre o território, integrar as populações nos novos povoados e dispor de força de trabalho. O estudo dos vestígios arqueológicos sugere que o modo indígena de edificar não foi adoptado, pois as cabanas redondas ou elípticas com base em pedra são desconhecidas nas muitas escavações já realizadas na colina de S. Jorge. O que aqui foi construído foram edifícios ortogonais, com embasamento em pedra e paredes em adobe, de comprovada matriz fenícia. Este aspecto corresponde a uma certa recorrência no modo fenício de agir, que realizava os tipos domésticos de acordo com a sua tradição arquitectónica, em vez de prolongar tipos anteriores (Cúsi, 1994: Tabelas I-II). Quanto aos povoados ou assentamentos indígenas que existiriam nesse período, alguns terão sido abandonados e outros reorganizados, apesar de alguns se terem mantido por um tempo considerável, como sucedeu com o povoado de Santa Sofia, em Vila Franca de Xira, que pode ter-se prolongado pelo século VI a.C. (Pimenta, Soares e Mendes, 2013).

Relativamente a outros aspectos da cultura material, a cultura indígena foi gradualmente transformada, mas de modo incisivo, pelo que é observado na transformação do modo de produzir os objectos de cerâmica. Os objectos indígenas eram realizados manualmente. Com os Fenícios, os mesmos objectos passaram a ser realizados com torno. Os vestígios cerâmicos evidenciam, assim, a gradual diminuição da percentagem de objectos realizados manualmente, relativamente aos realizados pelo novo método de produção. Esta transformação cultural ter-se-á realizado num período relativamente curto (Sousa, 2016b: 170-172), fenómeno que se reflectiu em diversas esferas da vida destas populações, incluindo na alimentação (Sousa, 2018).

Em Olisipo, pela leitura dos vestígios e das estruturas arqueológicas, é possível identificar quatro fases culturais de influência fenícia: as duas primeiras, de formação e consolidação, terão decorrido desde os finais

do século VIII ao século VI a.C.; as duas últimas, entre o século V a.C. e a chegada dos primeiros contingentes militares romanos. A transição entre estes dois períodos terá sido algo conturbada, devido à substituição da influência fenícia original por outras influências de colónias fenícias atlânticas e da área do estreito de Gibraltar, bem como pela afirmação crescente de Olisipo na região do Baixo Tejo. Durante este segundo período o povoado expandiu-se para áreas do vale da Baixa, assumindo uma posição de predominância regional (Sousa, 2016b). O porto terá acompanhado esta expansão, com ampliação das áreas e estruturas de apoio, em consonância com o crescimento do tecido proto-urbano.

4.1. A colina de S. Jorge e o vale da Baixa, formação e ampliação de Olisipo

A colina de S. Jorge apresenta acessos muito difíceis até ao topo, por qualquer dos seus lados, incluindo pela cumeada (Fig. 8), que seria o trajecto mais natural e de uso mais normal, mas cuja ligação pela colina da Graça se faz por uma passagem de portela alta, que proporciona inclinações significativas e difíceis de resolver, como ainda hoje é reconhecível entre a área do Largo de S. Tomé e o castelo, incluindo o acesso pela Praça de Armas.

A topografia actual da colina, nos quadrantes Sul-Sudoeste, integra: 1) os significativos movimentos de terras realizados ao longo do tempo, nomeadamente os do período romano, para conseguirem concretizar o tecido urbano ortogonal e construir edifícios especializados de maior dimensão, como o Teatro Romano (Durão, 2024: 150), bem como as modificações posteriores do tecido urbano; 2) os movimentos de terra realizados aquando do ordenamento do acesso do castelo, a sul, e da área adjacente, que podem ter sido realizados em período romano ou posterior; 3) movimentos naturais do solo e deslizamentos, devido aos diversos terramotos sentidos em Lisboa ao longo destes milénios. A planta topográfica apresentada na Fig. 9 corresponde à situação actual. Não se realizou uma proposta de reconstituição do relevo na área do acesso ao castelo, pois tal exigia um estudo integrado de Geologia e de Arqueologia, desde o sopé da encosta, na área da Sé, passando pela meia-encosta, na área do Teatro Romano, até ao topo da colina. A análise dos perfis da colina (Durão, 2024: figs. 5-6) permite compreender a dificul-

FIG. 8 – Perfil da colina de S. Jorge, pela cumeada, identificado na planta da Fig. 9 (AA-AA).

Adaptado de Durão, 2024: fig. 7.

dade de acesso ao topo a partir do sopé e a complexidade de urbanizar a encosta sul. No artigo de 2024, propus como hipótese que o acesso proto-histórico teria sido realizado pelo lado onde é o actual acesso, apesar da ausência de vestígios arqueológicos deste período nesta área (Gomes et al., 2003). Atendendo à topografia, é plausível que existisse uma muralha na área do acesso norte, pela portela, e ser desse lado que se abrisse a porta do núcleo de altura. Contudo, face ao estado actual do conhecimento, é preferível manter em aberto, ambas as hipóteses (Fig. 9, letras f e g).

4.2. Os trajectos iniciais e o acesso ao topo da colina de S. Jorge

Segue-se a primeira aproximação a uma proposta de reconstituição dos principais trajectos estruturantes do novo povoado de Olisipo (Fig. 9).

estruturas arqueológicas vestígios arqueológicos emergências de água doce

Trata-se de um esboço que visa contribuir para a interpretação de passados tão remotos, considerando que apenas estradas ou caminhos empedrados deixam evidências arqueológicas, o que não sucede com os caminhos pedonais, e muito menos com os trajectos, entendidos como possíveis locais de passagem. Os indígenas possuíam conhecimento do território do vale da Baixa e das colinas adjacentes, ao percorrerem-nas nas suas actividades diárias de exploração e subsistência, criando os primeiros trajectos locais, os de cumeada (a), de sopé de encosta (b) e outros de ligação. Embora frequentemente designados de trajectos naturais, este termo pode induzir em erro, pois trata-se de realizações humanas. Por isso, é preferível designá-los como trajectos iniciais ou primigénios. Estes trajectos eram naturalmente adaptados ao relevo, para proporcionarem o menor esforço no seu uso.

4.3. Olisipo, os trajectos estruturantes e os núcleos proto-urbanos

O reconhecimento topográfico da colina de S. Jorge e do vale da Baixa, aliado aos conhecimentos sobre o modo como os trajectos eram estabelecidos nos territórios (Durão, 2024; Cataldi et al., 2023; Caniggia e Maffei, 1995) e à localização dos vestígios arqueológicos, fundamentam a proposta de estrutura de trajectos do povoado proto-histórico de Olisipo (Fig. 9), e uma primeira aproximação à forma geral deste (Fig. 12).

0 150 m

FIG. 9 – Olisipo, trajectos, estruturas e vestígios arqueológicos, sobre a topografia actual. Povoados do Bronze Final: A. Encosta de Santana; B. Praça da Figueira. Núcleos de povoamento da Idade do Ferro: C. Ribeirinho e de meia encosta; D. De altura. Trajectos estruturantes do povoado: a. cumeadas; b. sopé de encosta; c. fluvial ou de fundo-de-vale; d. meia encosta; e. trajecto ribeirinho. Locais arqueológicos: 1. Praça Nova; 2. Castelejo; 3. Pátio das Cozinhas; 4. Casa do Governador; 5. R. das Flores; 6. R. do Espírito Santo; 7. Lg. de Santa Cruz; 8. Beco do Forno; 9. R. do Recolhimento / Páteo do Leão; 10. Termas dos Cássios, R. das Pedras Negras; 11. Pátio do Aljube; 12. R. de S. Mamede; 13. Teatro romano; 14. Portas do Sol, Fundação Ricardo Espírito Santo Silva; 15. R. dos Douradores, antigo convento Corpus Christi; 16. Sé; 17. R. Augusta, Zara; 18. R. dos Correeiros, Bcp; 19. R. da Madalena; 20. Casa dos Bicos; 21. Cais de Santarém, Armazéns Sommer; 22. Trav. Chafariz D’El-Rei, Palácio do Marquês de Angeja; 23. R. de S. João da Praça, local da Porta de Alfama; 24. Pátio da Senhora de Murça, muro da cerca velha; 25. R. da Judiaria; 26. Lg. do Chafariz de Dentro; 27. Troço da cerca velha, R. Norberto Araújo, n.ºs 21-29, antiga R. da Adiça. Emergências de água doce, fria e quente: ag1. Área da mãe de água do Chafariz D’El-Rei e das Termas romanas de Alfama; ag2. Área do Largo das Alcaçarias; ag3. Área do Chafariz de Dentro. Adaptado de Durão, 2024: fig. 9. Perfil AA-AA: apresentado na Fig. 8.

Olisipo, segundo os vestígios arqueológicos, terá sido constituído por dois núcleos:

– Núcleo ribeirinho e de meia-encosta, situado na área baixa da colina de S. Jorge, com orientação Sul-Sudoeste, que se terá iniciado pelo final do século VIII a.C. (Sousa, 2016b). Para vencer o relevo, os edifícios adaptavam-se em socalcos, tal como sucedia noutros povoados da área de influência fenícia, de que Santa Olaia é exemplo (Pereira, 2012).

Teria estrutura irregular, com espaços pouco claros entre edifícios, mas que tenderiam a formar largos e travessas, com edifícios de planta ortogonal (Fig. 10) isolados ou organizados em bandas. A partir do século V a.C., o povoado terá sido ampliado para a área do vale da Baixa; – Núcleo no topo da colina de S. Jorge, que começou a formar-se no início do século VII a.C. (Sousa, 2016b). Destacava-se na área do povoado e em parte do Baixo Tejo, possuindo valor estratégico e simbólico. Pode ter alojado elites fenícias ou indígenas, conferindo-lhes prestígio político e social, embora tal não esteja demonstrado. A posição elevada permitia monitorizar o território e controlar o tráfego marítimo e fluvial no Tejo. A ocupação prolongada teria exigido sistemas locais de recolha de água, como poços ou cisternas, garantindo a sustentabilidade do núcleo.

Segundo a proposta aqui apresentada, Olisipo teria os seguintes trajectos estruturantes (Fig. 9):

– O Tejo (c), como se fosse um trajecto de fundo de vale, de características regionais, estabelecia ligações fluviais a outros povoados ribeirinhos, como as ligações marítimas. As embarcações maiores podiam usar o sistema de trasfega de mercadorias, enquanto embarcações pequenas chegariam às praias e a ancoradouros realizados, possivelmente, em estruturas de madeira. Aqui estabeleciam-se as ligações marítima e fluvial, com a terrestre.

– O trajecto ribeirinho (e), que, por hipótese, propusemos para todo o território – ver Fig. 7, letra e –, acompanhava nesta área a frente rio, desde as proximidades da Rua dos Correeiros ao sítio do Chafariz D’El-Rei, onde, pelo menos em parte, existiria uma muralha de protecção da frente ribeirinha do povoado, com cerca de 1,20 m de largura (Fig. 11), cujos limites

vão para além dos antigos Armazéns Sommer (26), na Rua Cais de Santarém (Ribeiro et al., 2017: 243-245). Outros vestígios, localizados na Travessa do Chafariz D’El-Rei, próximo da mãe de água do chafariz, no antigo Palácio do Marquês de Angeja (27), sugerem que o intenso desenvolvimento desta área terá sido impulsionado pelas ligações mediterrânicas (Filipe, Calado e Leitão, 2005), de que são exemplo a quantidade de ânforas encontradas neste local, como também as da Casa dos Bicos (25). Estes achados corroboram a existência de uma área portuária; – O trajecto matriz de sopé de encosta (b), circundava a colina e mediava a relação entre a frente ribeirinha e a meia-encosta. Era um dos trajectos matrizes iniciais, de grande estabilidade topográfica e temporal (Durão,

FIGS. 10 e 11 – Em cima, Rua dos Correeiros, sede do Banco Comercial Português (Bcp). Estruturas da Idade do Ferro, de diversas fases, sobre o terreno natural. Adaptado de Sousa, 2014: 68, fig. 34. Em baixo, estruturas da Idade do Ferro, incluindo muralha ribeirinha, no local dos antigos Armazéns Sommer (segundo Ribeiro et al., 2017: fig. 32).

2018: 53-55; Guerreiro, 2002: 201, Planta 2). Permanece hoje integrado na estrutura viária da cidade, apesar de alterações de traçado e hierarquia. Neste trajecto, estabeleceram-se importantes edifícios, como o que existiria neste período no local da actual Sé de Lisboa (16), mas cujos vestígios arqueológicos ainda não foram tratados. Também na Rua S. João da Praça, junto à Porta de Alfama (17), foram encontradas ânforas datadas dos séculos V-I a.C., que confirmam a importância da área portuária (Pimenta, Calado e Leitão, 2005).

– Trajecto de meia-encosta (d), ligava o sopé da encosta ao topo da colina, estabelecendo a conexão entre os dois núcleos de Olisipo. Na Rua de S. Mamede ao Caldas, n.º 15 (11), encontraram-se vestígios do século VIII a.C., os mais antigos conhecidos, que compreendem estruturas edificadas (Calado, 2008). Na fase inicial, manifesta-se forte presença de objectos indígenas, que gradualmente foram sendo substituídos pelos da nova cultura (Sousa, 2016b: 170-171).

– Trajectos de cumeada (a), mantinham-se para áreas interiores localizadas nas partes elevadas das colinas. No topo da colina, na futura Alcáçova e Castelo de S. Jorge, este núcleo (D), estruturava-se pela cumeada (a) e, aparentemente, ao longo de um eixo (h), a actual rua de Santa Cruz do Castelo, por onde, hipoteticamente, escorreriam as águas pluviais. Diversas estruturas deste período estão assentes sobre o terreno natural, o que evidencia serem as estruturas primigénias aí realizadas. Em diversos locais, coexistia cerâmica indígena manual com cerâmica realizada a torno, o que evidencia a transformação cultural ocorrida. Disso são exemplo os vestígios no pátio do Palácio das Cozinhas (4) e na Rua do Espírito Santo, n.ºs 31-35 (Gomes e Gaspar, 1997; Filipe et al., 2013: 8) e na Rua do Recolhimento / Beco do Leão (9) (Sousa e Pinto, 2016).

Não se propuseram travessas de ligação entre os trajectos, pois estas surgiriam onde o relevo melhor o permitisse, e o seu desenho não seria suficientemente fundamentado.

4.4. Emergências de água doce na frente ribeirinha de Alfama (Durão, 2011 [2005])

Na área da Travessa do Chafariz D’El-Rei / Rua S. João da Praça, na mãe de água do chafariz, e junto à Porta de Alfama, onde mais tarde se localizaram as termas romanas, poderiam já existir neste período as emergências de água doce quente e fria (ag1), como, para oriente, na área dos largos das Alcaçarias (ag2) e do Chafariz de Dentro (ag3), outras emergências que poderiam permitir usos e actividades. As emergências de água doce ajudaram a consolidar trajectos e a sedimentar o tecido proto-urbano. No Largo Chafariz de Dentro (20), numa pequena área, foi encontrado abundante espólio cerâmico deste período, séculos VIII-VI a.C., maioritariamente feita a torno, de origem mediterrânica oriental (Silva et al., 2012: 73). O trajecto matriz (b) seguiria para oriente, adaptando-se o melhor possível ao relevo.

4.5. Olisipo e área próxima de influência

Os principais vestígios deste período na área de Lisboa e proximidades, fora de Olisipo, encontram-se na área de Monsanto / Ajuda, consistindo em pequenas explorações agrícolas familiares (Cardoso, 2011: 115), como no Alto da Casa Branca, Montes Claros e Alto das Perdizes. Estas poderiam estar ligadas a outros povoados na região de Amadora, Oeiras, Cascais e Sintra, onde se concentra a maior parte dos vestígios deste período (Arruda, Sousa e Antunes, 2019: 94-95). A área Monsanto / Amadora / Oeiras poderá ter correspondido a um espaço de povoamento agrícola de apoio a Olisipo. Contudo, a distância e a dificuldade imposta pelo relevo e pela hidrografia sugerem que esses povoados mantinham sobretudo relações entre si, usando mercados para a troca de produtos, embora também pudessem estabelecer relações comerciais com Olisipo, apoiadas pelo tráfego fluvial, como sucederia com o povoado de Almaraz.

5. CONCLUSÕES

5.1. Olisipo como resultado de um processo territorial

A génese de Olisipo, segundo a leitura realizada, está intrinsecamente relacionada com o desenvolvimento e consolidação do tipo territorial do Baixo Tejo. Entre os finais do século IX a.C. e o início do século VIII a.C., populações fenícias chegaram a um rio navegável, ao longo do qual havia diversas áreas de povoamento: no início do estuário, a área de Lisboa; na área central do estuário, em Alverca, Vila Franca de Xira e Castanheira do Ribatejo; e já no vale do Tejo, a área de Santarém, primeiro local onde se terão instalado junto ao povoado indígena.

O interesse e apetência dos fenícios pelo comércio geral, como pela exploração e transformação de metais, resultou em estabelecerem contactos com as populações locais, o que proporcionou maior intensidade de comunicações centradas no rio. Resultou num processo gradual de expansão das áreas de povoamento, com o surgimento de novos povoados. As significativas transacções de objectos de cultura material entre os povoados são disso exemplo.

Toda esta dinâmica sintetizou-se na formação de Olisipo, como povoado estratégico na entrada do estuário. A sua ampliação, a partir da segunda metade do milénio, reforçou a afirmação deste como uma centralidade regional e como povoado de mediação entre o mar e o rio.

O povoamento do Baixo Tejo, e a formação de Olisipo em particular, compreendem-se, neste largo período de tempo, como fazendo parte de um movimento de aproximação, sedimentação e consolidação de estruturas antrópicas no litoral. Não se trata de caso isolado ou furtuito, mas antes o resultado de modos de agir estruturados dos povos que implementaram e deram sequência a tais realizações, um saber-fazer que

atravessou povos e culturas e, simultaneamente, demonstra a importância decisiva das comunicações terrestres, fluviais e marítimas na construção do ambiente antrópico aqui observado.

5.2. Os trajectos estruturantes e a permanência temporal

Nos três níveis geográficos e morfológicos observados – a região do Baixo Tejo, o território da cidade de Lisboa e o sítio de Olisipo –, os trajectos constituíram-se como os primeiros elementos antrópicos de estruturação do território, tendo particular importância e primazia, para o período observado, o rio Tejo. O uso deste como elemento preferencial de ligação entre povoados, transformou a estrutura de trajectos existente, até então predominantemente em árvore, com primazia das cumeadas, numa estrutura em matriz local, ainda que incipiente, na qual as frentes ribeirinhas ganharam importância decisiva na formação e sedimentação dos povoados.

A hipótese da estrutura de trajectos apresentada para o território de Lisboa, estabelece a relação entre o relevo natural e o modo de percorrer um território com estas características, em que as cumeadas eram preferenciais para as deslocações de maior distância. No território, estabeleciam-se ligações locais entre povoados, e outras como as que atravessariam o vale de Alcântara. Ao longo do Tejo, percorreriam a frente rio através de um trajecto que uniria o território, ribeirinho em certas partes, nomeadamente ao longo das praias, ou de sopé de encosta noutras. Em Olisipo, a estrutura de trajectos proposta acompanha o relevo natural. Tal implicou que os edifícios também seguissem esse princípio de adaptação, realizando socalcos, como sucedeu noutros povoados. Verifica-se, actualmente, que o trajecto matriz de sopé de encosta continua bem presente na cidade, apesar da Baixa Pombalina, aparentemente, o ter transformado. Liga o norte da cidade pelo vale de Arroios, ruas da Baixa à Rua S. João da Praça, Rua dos Remédios, Rua do Paraíso e daí para oriente (Durão, 2024, 2018). Constitui um dos trajectos estruturantes mais antigos da actual Lisboa. Também os outros trajectos se mantêm na cidade, nomeadamente o de meia-encosta, que estabelece a ligação do sopé, junto à Sé, para o Castelo de S. Jorge e S. Tomé.

5.3. Olisipo e a Colina de S. Jorge: um sítio geoestratégico no Baixo Tejo

A colina de S. Jorge, onde foi formado Olisipo, revelou-se ao longo do tempo um local natural de excepção para a vida das populações, adaptável às múltiplas transformações e adaptações que foram realizadas ao longo da construção do ambiente humano. Apesar da altitude ser apenas de 94 m, a colina tem uma posição proeminente na região, devido à localização que permite, a partir desta, uma ampla visão para a foz, o estuário e o próprio vale do Tejo, onde se localizavam outras áreas de povoamento.

12 – Lisboa e Olisipo no estuário do Rio Tejo. Hipótese de reconstituição da estrutura principal de trajectos e da forma geral do povoado. A mancha atribuída a Olisipo corresponde a uma hipótese de ocupação em dois núcleos –um núcleo ribeirinho, implantado entre a frente rio e a meia-encosta, e um núcleo de topo –, articulados por um trajecto de meia-encosta.

A escolha, como se viu, terá resultado de uma opção geoestratégica na formação do povoado de Olisipo. Num único local, concentraram-se diversas funcionalidades: um porto fluvial próximo do mar; a possibilidade de observação a longas distâncias, nomeadamente na área do Baixo Tejo, e com isso controlar o tráfego fluvial; ter um povoado ribeirinho e de meia-encosta como um povoado protegido no alto da colina, com valor simbólico; e ainda a possibilidade de estabelecer conexões com novos povoados no interior do território.

5.4. Olisipo, povoado ribeirinho e de altura

Olisipo resultou de um processo de formação iniciado entre os finais do século VIII a.C. e o início do século VII a.C., que se prolongou até à chegada dos romanos, pelo século II a.C. Teve uma fase de ampliação pelo século V, quando ocupou parte da área da actual Baixa. Olisipo organizou-se em dois núcleos, um na frente ribeirinha e meia-encosta, e o outro no topo da colina. Na frente ribeirinha predominaria uma área portuária, com os seus armazéns e outros edifícios de apoio,

FIG.
Figura: Vitor Durão sobre base cartográfi ca Topographic-map.com .

enquanto na meia-encosta e, posteriormente, na área da Baixa, prevaleceriam espaços de habitação e de produção. O núcleo do topo surgia, pela sua posição elevada, como símbolo do próprio povoado, onde possivelmente viveriam as elites, embora tal não esteja demonstrado. Este tipo de povoado representou, na região, uma ruptura significativa com o passado. Tornou-se possível por um novo modo de conceber e estruturar os povoados, que privilegiou as frentes ribeirinhas, ou seja, as partes baixas, abandonando a concepção anterior de povoar a partir das cumeadas. Apesar de integrar um núcleo no topo da colina, Olisipo foi estruturado a partir de baixo, rompendo com o modelo predominante de organização dos povoados da região, nesse período.

5.5. Olisipo e a antiguidade da cidade de Lisboa

Olisipo resultou de um processo de formação iniciado há cerca de 2700 anos. Porém, na área da cidade de Lisboa, reconhecem-se povoados iniciados há cerca de 7000 anos, com ocupação descontínua: Alto das Perdizes, em Monsanto, com vestígios do Neolítico-Calcolítico à Idade do Ferro e evidências paleolíticas, e a Encosta de Santana, com estruturas do Neolítico à Época Contemporânea.

Pode afirmar-se, assim, que Lisboa possui vida urbana permanente desde Olisipo, embora o seu território inclua ocupações humanas descontínuas de maior antiguidade. Esta distinção permite compreender que a

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Se o Baixo Tejo exprime a dimensão territorial regional e as dinâmicas exógenas que nele se inscreveram com impacto na configuração do ambiente antrópico, o território de Lisboa evidencia a dimensão endógena, sedimentada no processo histórico de adaptação ao meio. Olisipo, pelo seu lado, constitui o ponto de convergência dessas duas dimensões: incorpora impulsos externos decisivos de transformação, e enraíza-se nas condições naturais e em estruturas locais que lhe conferem continuidade e permanência.

Desde Olisipo, elementos morfológicos fundamentais como os trajectos primigénios estruturantes, a frente ribeirinha, a meia-encosta e o topo da colina de S. Jorge, mantiveram-se e mantêm-se bem presentes, em adaptação, atravessando sucessivos períodos históricos. Esta continuidade estrutural fundamenta também a leitura de Lisboa como cidade histórica ao longo do tempo, ancorada nas possibilidades naturais do território e na capacidade humana de as interpretar, estruturar e transformar, como integrar: passado e presente.

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gabinete de curiosidades Materiais de Época Moderna da Rua da Fé, Lisboa

1. ENQUADRAMENTO

Os trabalhos arqueológicos decorreram no logradouro de um edifício habitacional sito na Rua da Fé, com os números de polícia 31 a 35 (adiante FÉ 31-35), freguesia de Santo António, concelho de Lisboa. Tem por coordenadas médias: X = -87801; Y = -104802; Z = +30 (Datum Etrs89). A intervenção realizou-se entre 22 de Maio e 30 de Junho de 2018, primeiro em modo de acompanhamento e, após a descoberta dos estratos arqueológicos, através de escavação manual.

O edifício insere-se na encosta oriental do vale da antiga da Ribeira de Valverde, um longo talvegue que corria, grosso modo, paralelo às actuais ruas de Santa Marta e de São José (da qual arranca, perpendicularmente, a Rua da Fé), com duas encostas assimétricas, a ocidental mais aplanada. Desde muito cedo, possivelmente desde a Idade do Ferro, a transitabilidade deste eixo tornou-o uma das mais importantes vias de comunicação para norte de Lisboa, fenómeno que perdurou até ao século XIX. Em complemento, o potencial agrícola da envolvente impulsionou o estabelecimento de diversas explorações, sobretudo na margem ocidental (orograficamente mais apropriada), como comprovado pelos dados do Convento de Santa Joana (Rocha, Silva e Miguez, 2024), da Rua de Santa Marta 25 (Rocha e Santos, 2023) e da Rua de Santa Marta 23B (Rocha e Santos, 2020). Este panorama parece ter sido descontinuado nos séculos seguintes à ocupação romana. Após um abandono que não deixaria grande pegada arqueológica, a vocação agrícola da zona seria assumida no final da Idade Média, altura em que as referências toponímicas às Hortas se começam a estender por toda a envolvente da Ribeira de Valverde, num padrão semelhante, aliás, àquele descortinado no outro grande vale de acesso a Lisboa, a ribeira de Arroios. Em Época Moderna, esta zona manterá a presença de explorações agrícolas, mas conhecerá um novo impulso com o assentamento, sobretudo na encosta oriental, de vários edifícios religiosos, como os Conventos de Santa Marta e da Anunciada e,

RESUMO

São apresentados os resultados mais relevantes de intervenção arqueológica realizada no logradouro de um edifício residencial sito na Rua da Fé, em Lisboa, na qual se detectou uma lixeira maioritariamente datável do século XVI, heterogénea e de considerável dimensão. O presente estudo isola várias peças do conjunto cerâmico, tanto as mais representativas das baixelas em uso na Lisboa quinhentista, como algumas relativamente raras neste panorama.

Palavras-chave: Arqueologia urbana; Idade Moderna; Cerâmica; Comércio; Lisboa.

ABSTRACT

The author presents the most relevant results of the archaeological survey carried out in the courtyard of a residential building located at Rua da Fé, in Lisbon, during which a considerably large and heterogeneous dump was found, mainly dating from the 16th century. The present study isolates several items from the ceramic set, both the most representative of 15th century Lisbon tableware and some relatively rare pieces.

Key words: Urban archaeology; Modern age; Ceramics; Trade; Lisbon.

RÉSUMÉ

On présente les résultats les plus marquants de l’intervention archéologique réalisée dans la cour intérieure d’un édifice résidentiel sis Rue da Fé, à Lisbonne, où on a détecté un dépôt d’ordures majoritairement datable du XVIème siècle, hétérogène et de dimensions considérables.

La présente étude isole différentes pièces de l’ensemble céramique, non seulement les plus représentatives de la vaisselle en usage dans la Lisbonne du XVIème siècle mais également certaines relativement rares dans ce panorama.

Mots Clés: Archéologie urbaine; Période moderne; Céramique; Commerce; Lisbonne.

1 Arqueólogo independente (artur.j.rocha@gmail.com).

Por opção do autor, o texto não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Foi recebido para publicação em 2026-03-04.

FIGS. 1 a 3 – Localização da intervenção na cidade de Lisboa (em cima); implantação da intervenção no lote e vista geral a partir de Norte (ao centro); e vista geral da intervenção a partir de Sul (em baixo).

mais significativamente, da Igreja de São José dos Carpinteiros, a sede paroquial do novo bairro, de cariz mais popular, cuja mancha de arruamentos irá ocupar a encosta oriental, prolongando o crescimento urbano anteriormente ocorrido no topo encosta e a partir do Rossio. A maior inclinação da encosta oriental tornava-a menos atractiva, em termos produtivos, que o terreno aplanado a Oeste, igualmente menos sujeita a inundações, razões que poderão ajudar a explicar a preferência que lhe foi dada para a criação desta primeira urbanização, já analisada mais detalhadamente por outros autores (Barros, 2017; Barros, 2019).

Aparentemente, a fisionomia urbana do bairro ter-se-á conservado de forma constante desde essa data, não conhecendo grande afectação no terramoto de 1755, pelo menos ao nível planimétrico, relativamente estável até à actualidade. Como curiosidade, acrescente-se que este era o logradouro do prédio onde nasceu Rafael Bordalo Pinheiro.

2. RESULTADOS

2.1. Vista geral

A intervenção decorreu no logradouro de um destes edifícios, sensivelmente a meio da Rua da Fé, via nordeste-sudoeste, com grande pendente para este último. Devido às contingências próprias de uma intervenção subordinada à lógica de escavação de emergência, sobretudo à limitação da escavação às cotas de afectação do projecto, não foi possível descortinar a totalidade da coluna estratigráfica, quer vertical, quer horizontalmente.

Não obstante os resultados se restringirem, assim, a uma espécie de sondagem alargada, pouco competente para avaliar cabalmente a evolução da ocupação do local, entendemos que a prolixidade da lixeira moderna no local e algum do seu espólio são passíveis de publicação, quer pela sua relativa raridade, quer pelo seu bom estado de conservação, um pouco à imagem dos antigos gabinetes de curiosidades.

Grosso modo, o conjunto de materiais arqueológicos exumados desmultiplica-se nas principais produções cerâmicas modernas, tendo-se contabilizado várias peças inteiras ou de perfil integralmente recuperado, em especial de tipologias associadas à confecção e consumo alimentar, estando também representadas formas de armazenagem ou higiene pessoal. A elevada densidade de restos faunísticos reforça a atribuição funcional como lixeira, associada a despejos quotidianos. A par das produções nacionais, registaram-se diversificadas importações, com realce para as asiáticas (porcelana chinesa, potes e prato martaban), italianas (majólica) e espanholas (loiça malagueira).

2.2. Cerâmica comum

Neste grupo, tomamos por referência o trabalho de Jacinta Bugalhão e Inês Coelho (Bugalhão e Coelho, 2017), que nos parece o esforço de sistematização mais avalizado até à data. Por conseguinte, aplicaremos a terminologia definida por aquelas autoras.

O lote de cerâmicas comuns corresponde, grosso modo, ao padrão da época, comportando a maioria das formas reconhecidas de uso quotidiano no século XVI. Neste grupo, incluem-se alguns servidores cilíndricos com bordo em aba que, no século seguinte, se manifestariam sobretudo na versão vidrada. Esta situação, curiosamente (ou talvez não), também é replicada no caso dos saleiros – FÉ 31-35/ [115] -1 a 5 –, peças em cerâmica não vidrada que, no século seguinte, foram substituídos na sua função pelos especieiros de esmalte branco, fazendo-nos suspeitar que as peças de FÉ 31-35 possam corresponder a uma primeira tentativa de produção destes tipos, cujo maus desempenhos das superfícies sem revestimento as levariam a ser trocadas por peças mais estanques. Pela maior possibilidade de reconstrução do perfil que manifestaram, além dos referidos saleiros, destacam-se também duas tigelas – FÉ 31-35/ [117] e 1FÉ 31-35/ [115] -6 –, reconstituídas na sua quase totalidade, que apresentam algumas das características mais habituais de um dos subgrupos quinhentistas. Com paralelos diretos, entre outros, num exemplar da Praça da Figueira (segundo Bugalhão e Coelho, 2017: 133, fig. 27.10), exibem corpo de tendência hemisférica assente num fundo destacado plano, notando-se, na junção inferior de ambos, um ligeiro ressalto, com a parede a terminar num bordo ligeiramente espessado, individualizado no exterior por um sulco/canelura bem vincado. Uma

das peças encontra-se grafitada post-cocturam no exterior, exibindo um pentagrama.

Contabilizou-se ainda um número significativo de púcaros, separáveis em dois subtipos.

O primeiro inclui as peças FÉ 31-35/ [115] -11, bastante comuns nas baixelas da época, com corpo esférico, fundo plano, colo troncocónico invertido curto, bordo espessado externamente e uma asa que arranca horizontalmente do bordo e desce quase até à base da peça. Neste subgrupo, os púcaros quinhentistas distinguem-se dos exemplares setecentistas pelo facto de, neles, a asa não ultrapassar a linha de bordo e ter um perfil menos encurvado 1: nas peças mais recentes, a ligação entre os elementos é mais verticalizada, ou seja, a asa não se liga horizontalmente ao bordo, antes desce em direcção a este.

1 Utilizámos como termo de comparação o material ainda inédito de duas grandes lixeiras setecentistas escavadas pelo signatário: no Palácio Silva Amado e no Convento de Santa Joana, ambos em Lisboa.

FIGS. 4 a 6 – Em baixo, cerâmica comum: saleiros e tigelas (à esquerda) e púcaros, testo, infusa e candeias (à direita). À esquerda, foto de alguns exemplares completos.

Outro subtipo de púcaros é testemunhado por FÉ 31-35/ [115] -10 e FÉ 31-35/ [115] -11, ambos com reconstituição completa do perfil. Trata-se de uma forma mais pequena, de paredes mais finas e melhor acabamento superficial, cujo corpo se reparte em dois volumes separados por uma inflexão sensivelmente a meia altura, claramente marcada: a parte inferior é esférica – FÉ 31-35/ [112] -2 – ou ligeiramente ovalada – FÉ 31-35/ [115] -10 –, terminando num fundo irregular, umbilicado; já os colos são troncocónicos invertidos e os bordos apresentam um ligeiro espessamento exterior. Ao contrário de FÉ 31-35/ [115] -11, as partes superior e inferior destas duas peças possuem um maior equilíbrio volumétrico e distinguem-se, também, pelo facto de as asas terem um arranque ligeiramente mais verticalizado. Neste conjunto da cerâmica comum, foram igualmente identificadas algumas infusas, incluindo o bordo e asa FÉ 31-35/ [103] -2, reconhecido pelo escadeamento do colo acima do ponto de estrangulamento, e pela asa de fita larga com margens espessadas na superfície externa. Nota final para três candeias – FÉ 31-35/ [115] -7, FÉ 31-35/ [115] -8 e FÉ 31-35/ [115] -9 –, de fundo circular e parede côncava com um bico modelado pelo aperto desta, similares à forma 6 de Bugalhão e Coelho (2017: 116, figs. 6.1 e 6.2).

2.3. Cerâmica modelada

Neste texto, a utilização do termo cerâmica modelada, em detrimento de cerâmica moldada, segue a proposta que Maria Ramalho e Deolinda Folgado elaboraram a propósito da cerâmica dos Convento de São Francisco da Cidade, em Lisboa (Ramalho e Folgado, 2002), visto também nos parecer que as peças em apreço foram executadas no torno e não em molde.

À semelhança de outros conjuntos, a cerâmica modelada de FÉ 31-35 encontra-se bastante fragmentada, em virtude da sua escassa resistência mecânica. Das peças em que foi possível reconhecer parcialmente uma maior percentagem do perfil, apresentam-se três: a tampa FÉ 31-35/ [115] -14; a taça de pé alto FÉ 31-35/ [105] -1; e FÉ 31-35/ [112] -3.

A primeira tem um volume genericamente troncocónico, escadeado, com várias quebras de plano que, na parte superior, terminaria num espigão entretanto desaparecido, familiar dos exemplares do Pátio do Aljube (Santos, 2008: 335, fig. 7, n.ºs 29 a 31), posteriormente compulsados para o tipo 25 de Bugalhão e Coelho (2017: 131, figs. 25.1 a 25.4), embora, no nosso exemplar, a aba inferior seja ligeiramente mais discreta.

No caso da taça de pé alto FÉ 31-35/ [105] -1, identificou-se a parte mesial, repartida entre a base do hemisférica do receptáculo e o arranque do pé. A superfície externa da parede é escadeada e possui duas asas opostas. Tem alguns paralelos no Pátio do Aljube (Santos, 2008: 332, fig. 4, n.ºs 14 e 15), enquadrados na forma 23 de Bugalhão e Coelho (2017: 129, figs. 23.1, 23.2).

Quanto a uma terceira peça, FÉ 31-35/ [112] -3, embora sua inscrição neste grupo seja mais discutível, parece-nos que também é passível de ser catalogada como cerâmica modelada. Tem um corpo cilíndrico de perfil muito arestado, sendo de facto uma forma com maior singularidade, para a qual não foi encontrado nenhum paralelo directo, impedindo uma atribuição funcional mais concreta. Não obstante, a partir da observação da sua aba inferior, poder-se-á avançar com a hipótese de se tratar de uma tampa, neste caso de um recipiente de maior dimensão.

FIG. 7 – Cerâmica modelada.
FÉ 31-35/[115]-14
FÉ 31-35/[105]-1
FÉ 31-35/[112]-3

2.4. Majólica

A designação de cerâmica majólica é empregue em várias produções esmaltadas à base de estanho e chumbo, popularizadas na Europa em época Tardo-Medieval e Moderna. A origem da técnica pode ser descortinada na actual região iraquiana, em meados do 1.º milénio a.C. (Garcia Iñañez, 2007: 19). Posteriormente, foi introduzida no continente europeu por comunidades islâmicas que, em paralelo com as olarias do Norte de África, iniciaram a laboração no Sul e Levante hispânico a partir do século XI. Espraiar-se-ia primeiro por vários centros na Catalunha, em Valência, na Andaluzia e no centro peninsular (Garcia Iñañez, 2007: 20), para depois se alargar ao território transalpino onde, a partir do século XIII (Carta, 2008: 76), os modelos ibéricos serviriam de protótipo às novas oficinas.

Não obstante o grande sucesso comercial e artístico que viriam a alcançar na península italiana, a designação majólica viria a reflectir esta origem hispânica, radicando com probabilidade numa corruptela de Maiorca, importante centro distribuidor à época, ou de Málaga (Málica), um dos mais antigos focos produtores de cerâmicas vidradas. Inclusivamente, até ao século XVI, o termo majólica foi apenas empregue nas peças hispânicas e só mais tarde, com o grande impacto das oficinas italianas, passaria a ser associado a estas (Hess, 1988: 2).

No texto seguinte, abordaremos especificamente as cerâmicas majólicas produzidas na península italiana.

O primeiro fragmento em análise é o bordo FÉ 31-35/ [103] -1, com decoração azul sobre branco, formada por linhas curvas e espirais, e que nos parece enquadrável no género 42 de Fornaciari, Motivi vegetali della famiglia bleu (Fornaciari, 2016: 309, figs. 157 e 158), em detrimento do género 45 de Compendiario della famiglia bleu (Fornaciari, 2016: 336-330). É oriundo das oficinas montelupinas, algures entre 1535 e 1550.

Já os fragmentos FÉ 31-35/ [103] -15 a 18 integram-se claramente noutro dos estilos bem reconhecido das oficinas montelupinas, dito spirali arancio – linearmente traduzido por espirais laranja –, no qual as formas são decoradas com um campo circular central, com preenchimento axadrezado ou figurativo, a partir do qual se desenrolam várias espirais em direcção ao bordo, desenhadas com traço laranja espesso acompa-

nhado por diversos traços azuis ou verdes, mais curtos, mas também espessos. O espaço vazio é preenchido por traços azuis mais finos, acentuando a noção de movimento na peça.

Tradicionalmente atribuível à segunda metade do século XVI, este fragmento tem diversos paralelos, entre eles um exemplar recuperado na Prisão do Aljube, em Lisboa (Amaro et al., 2013: 1024, fig. 3, E).

Finalmente, os fragmentos de bordo FÉ 31-35/ [103] -19 e 20 enquadram-se no estilo Fascia al blu graffito género 34 de Fornaciari (2016: 286-289), um dos mais populares produtos das oficinas montelupinas, cujo fabrico foi iniciado em finais do século XV e se manteve na primeira metade do século XVI. Teve uma difusão significativa no mundo mediterrânico e atlântico (Carta, 2008: 789), sendo natural a sua presença em contextos olissiponenses.

FIG. 8 – Importações italianas: pratos de majólica.

2.5. Loiça malagueira

Embora os antecedentes da loiça dita malagueira se confundam com os do grupo de majólica anteriormente descrito, esta encontrava-se já perfeitamente individualizada em finais do século XV-inícios do século XVI, num panorama em que Sevilha se assumiria como grande centro produtor do sudoeste peninsular. Com grande dispersão em ambos os lados do Atlântico, incluindo nas colónias espanholas da América, a loiça malagueira seria alvo de estudos mais precoces nestas latitudes. A literatura anglo-saxónica viria a cunhar para o efeito algumas designações algo exóticas para o léxico europeu, com os subgrupos então distinguidos entre Columbia plain, Yayal Blue on White ou Isabella Polychrome, o primeiro aplicado a malagueiras brancas, o segundo às peças decoradas com listas radiais a azul, e o último às peças policromas (Goggin, 1968). Em português, ficaram a dever a sua designação à preponderância que a cidade de Málaga (Espanha) granjearia na difusão das produções originais.

Dos subgrupos da loiça malagueira, o Columbia plain foi sempre o mais preponderante em termos numéricos. Irradiou do foco espanhol para o território nacional no final do século XIV-dealbar do século XVI e correspondeu à primeira grande massificação das produções esmaltadas, que viria a ser designada como Período I por Tânia Casimiro (2013: 354-355).

Convém salientar neste ponto que, atendendo às semelhanças formais entre as peças nacionais e os protótipos sevilhanos que imitaram directamente, nem sempre é possível distinguir qual a origem do foco produtivo, pelo que não abordamos esse aspecto.

No conjunto em análise, foram identificadas as duas pedras basilares do grupo Columbia plain: as escudelas carenadas, como FÉ 31-35/ [117] -2, e os pratos com fundo em onfáleo, como FÉ 31-35/ [103] -3, formas esmagadoramente maioritárias nos contextos arqueológicos conhecidos. Além das habituais peças integralmente brancas, surgiram alguns exemplares com decoração em linhas radiais azul, Yahal Blue on White, menos frequentes.

2.6. Importações asiáticas

O estabelecimento, no século XVI, de rotas comerciais marítimas com o Extremo Oriente transformou Lisboa na porta de entrada preferencial dos produtos asiáticos na Europa, estando estes presentes no registo arqueológico desde momentos muito precoces do século. Entre as várias mercadorias cerâmicas, as porcelanas assumiram um papel de destaque, secundadas pelos grandes potes em grés, ditos martaban. Como veremos de seguida, outras produções também viriam a fazer o seu caminho até Lisboa, mas de forma tão residual que a sua pegada arqueológica foi mínima, assim como o seu sucesso nos mercados europeus.

FIG. 9 – Loiça malagueira: prato e escudela carenada.

As porcelanas analisadas correspondem maioritariamente a formas abertas, pratos e taças, com fundos maioritariamente moldurados com pé de anel ligeiramente invertido. Além das mais frequentes decorações a azul e branco, também se detectaram peças com motivos dourados e vermelhos. Numa das peças, a base possui uma marca incompleta, plausivelmente apócrifa do reinado de Xuande (1426-1435).

Grosso modo, são produções enquadradas na Dinastia Ming, durante o século XVI, possivelmente oriundas do grande centro produtor de Jingdezhen, o principal fornecedor dos mercados de exportação (Coelho, 2008: 102). A ausência de pratos de maior dimensão, tipo Kraak, poderá ser indicadora de alguma antiguidade do conjunto, remetendo-o maioritariamente para a primeira metade do século.

O segundo grupo é constituído por fragmentos de grandes potes em grés que, embora recorrentemente referidos como martaban, em função da importância daquele porto birmanês na sua distribuição, representam, em boa verdade, um universo muito complexo e heterogéneo, quer a nível da produção, quer da distribuição, e têm sido objecto de distintas interpretações e denominações ao longo dos tempos (para desenvolvimento, veja-se Simões, 2009: cap. 2.2.1). Assim, não obstante utilizarmos o termo, ressalvamos que este não deve ser lido como uma referência taxativa à proveniência da peça, antes a uma generalização útil na individualização da produção em análise.

Para o estudo dos potes martaban, tem sido importante o aporte cronológico trazido por vários naufrágios que permitem enquadrá-los entre os finais do século XV e do século XVII (Borell, 2014: 260-262),

incluindo o presumível Nossa Senhora dos Mártires, Cascais (Coelho, 2008: 75-77), datado do reinado de Wanli (1573-1619). A sua presença no registo arqueológico terrestre é menos representativa.

A peça em apreço – FÉ 31-35/ [103] -12 –, caracteriza-se pelo grande diâmetro do bordo, com ressalto bem marcado na parte interior do lábio, pela ausência de colo destacado, e pela aplicação de uma decoração

plástica na parte superior da pança, de contorno circular, na qual se inscreve um motivo estrelado com cinco pontas intercalado com pequenos pontos circulares. É familiar de alguns dos potes recenseados em Lisboa (Simões, 2009: estampa 35, Mnaa 469; estampa 40, Mnaa 3317; estampa 45, Mmvfx), sendo aceitável que a sua origem seja procurada nos mesmos focos produtivos.

FÉ 31-35/[103]-6

FÉ 31-35/[103]-5

FÉ 31-35/[103]-4

FIG. 10 – Importações chinesas: pratos e taças de porcelana.

FÉ 31-35/[103]-7

FIG. 11 – Importação do Sudeste Asiático: pote martaban

De carácter mais singular, e para o qual não conseguimos identificar paralelos na bibliografia compulsada, encontra-se o prato FÉ 31-35/ [115] -15, peça com paredes ligeiramente encurvadas e fundo plano assente num pé de anel. Está revestida com um esmalte branco muito espesso e aderente, cobrindo a totalidade da parte interior e o exterior até ao pé de anel, pelo que, na parte inferior do fundo, fica delimitado um disco não vidrado. A pasta é avermelhada e compacta, distinguindo-se perfeitamente das restantes produções esmaltadas da época (em particular, malagueiras). A eventual confusão que a presença de esmalte branco possa convocar, será, aliás, um motivo para a relativa invisibilidade destas peças no registo arqueológico nacional.

Na realidade, são pratos fabricados na região de Myanmar, do grupo Myanmar opaque white ware, com uma distribuição centrada nos mercados asiáticos (Japão, Indonésia, Indochina, etc.), estando também presentes em contextos da península arábica (Nan, 2009: 117-121). A sua exportação está associada à dos grandes potes martaban, convivendo sobretudo com exemplares sem colo destacado, com também é o nosso caso.

Tipologicamente, a nossa peça é classificável no tipo A (Nan, 2009: 134-136, fig. 19a), muito parecida com uma outra encontrada no grande entreposto comercial de Sakai (Osaka, Japão), local com relações directas a Portugal, testemunhadas, entre outras, pelas visitas que Francisco Xavier e Gaspar Vilela ali fizeram entre 1550 e 1565.

No sítio de Sakai-kangotoshi também é apontada a relativa raridade destes pratos, quando comparados com os potes martaban (Nan, 2009: 118). Esta relação poderá traduzir, não só uma efectiva menoridade no aspecto comercial, como, atendendo ao diferencial de volumes de cada forma (e respectivo número de fragmentos), a uma distorção de registo arqueológico que, a ser real e conjugada com alguma confusão que possa existir entre os pratos da Myanmar opaque white ware e produções regionais (ibéricas), poderá explicar o seu maior desconhecimento na bibliografia ocidental. A este propósito refira-se que, por exemplo, na escavação arqueológica do Edifício Sede do Banco de Portugal, em Lisboa, também a cargo do signatário, surgiu um fragmento ainda inédito, BPLX FNÇ 64, que, a julgar pela pasta e esmalte (apenas pelo interior), poderá integrar este grupo produtivo, tendo sido numa primeira fase inserido no grupo das faianças de origem desconhecida.

2.7. Azulejo

A presença de azulejos neste conjunto é muito residual, tanto em número absoluto como na dimensão dos fragmentos. Além de escassos exemplares monocromáticos, verdes ou azuis, cuja espessura e vidrado lateral apontam para a sua articulação com estruturas de madeira (talvez como placas de tecto) – FÉ 31-35/ [11] -1 e FÉ 31-35/ [115] -16 –, surgiram apenas três exemplares que merecem maior aprofundamento. O primeiro – FÉ 31-35/ [117] -3 – é um azulejo de aresta de repetição com módulo único, onde se observa um motivo floral de oito pétalas

ao centro, a partir do qual irradiam quatro alcachofras, intercaladas por flores-de-lis apontadas inversamente. Este conjunto é delimitado por um losango em fita, cujos vértices interiores coincidem com a ponta das alcachofas, restando nos cantos exteriores quatro quadrados bicolores. Trata-se de um padrão que, não sendo o mais comum, é reconhecido nas produções quinhentistas, tanto a nível museológico como pictórico, fazendo a sua aparição, por exemplo, na pintura São Pedro, de Grão Vasco, exposta no Museu Nacional Grão Vasco, aproximadamente de 1529 (Peralta, 2014: 382), datação esta que é compaginável com a maior parte do restante espólio analisado. Nesta pintura, o azulejo é representado como elemento pavimentar, utilização que é replicável no nosso caso, a julgar pelo desgaste superficial que apresenta.

FIG. 13 – Azulejos: em majólica (em cima, à direita) e de padrão mudéjar.
FIG. 12 – Importação do Sudeste Asiático: prato esmaltado.

O segundo exemplar – FÉ 31-35/ [116] -1 – está mais fragmentado e também foi fabricado com recurso à técnica de aresta. Corresponde a um padrão de repetição simples, de tradição hispano-árabe, com um motivo floral no qual, a partir do centro circular branco, se desenvolvem quatro pétalas verdes secundadas por amarelas e castanhas. Este motivo de flor central tem paralelos diferenciados, embora com ligeiras variantes de enquadramento, entre as quais um dos tipos do Palácio dos Condes de Penafiel, Lisboa (Bargão, Ferreira e Silva, 2017: 1793, fig. 5, oitavo exemplar). Em paralelos pictóricos, também se comprova a sua utilização como elemento pavimentar (Peralta, 2014: 381), consistente com o desgaste superficial da peça. Finalmente, o último exemplar – FÉ 31-35/ [103] -13 – enquadra-se já noutro grupo produtivo, vulgarmente conhecido por majólica, ou seja, com pintura policroma sobre superfície lisa. O fragmento corresponde a um canto original no qual ainda se reconhecem três bandas: uma negra junto à aresta da peça; uma azul intermédia, na qual se alinham círculos e óvulos de tom branco; e outra laranja pelo interior. Embora as limitações sejam evidentes, face à reduzida dimensão, as parecenças com uma das guarnições da Igreja da Graça são óbvias (Pais et al., 2019: 54, fig. 6). Esse conjunto é datado entre 1560 e 1570 (Mimoso et al., 2019: 113), sendo apelativa a hipótese de o autor ser o mesmo, neste caso o flamengo João de Góis.

No computo geral, as datações dos azulejos parecem cobrir um hiato centrado, sobretudo, na primeira metade do século e prolongado até ao terceiro quartel, talvez correspondendo a diversas fases de edificação ou renovação, uma primeira com os exemplares monocromáticos e de aresta no tecto e chão, a segunda com a colocação de um (efémero) painel vertical em majólica

2.8. Outros materiais

Além do espólio sobre suporte cerâmico, foram identificados quatro objectos habitualmente com menor expressão no registo arqueológico: um cadinho, uma fechadura, uma foice e um peso.

O primeiro – FÉ 31-35/ [115] -12 – é uma peça de corpo grosseiramente ovóide com revolução (diâmetro) do bordo irregular. As paredes são espessas e o lábio irregular. Não foi possível caracterizar o material refractário de suporte, uma pasta branca, algo granulosa, de textura áspera, talvez grés. Nas superfícies são visíveis várias manchas e escorrências de aspecto oxidado, denunciando a sua utilização como cadinho. Entre os paralelos que pudemos descortinar, encontra-se um exemplar em Sevilha, encontrado na Calle Pureza 44 (Lorenzo e Vera, 1987), associado à oficina do conhecido ceramista italiano Francisco Niculoso Pisano, entre 1500 e 1530 (Amores Carredano e Lloret Marín, 1995: 270, fig. 2).

Neste ponto, refira-se que os dados históricos relativos à presença de ceramistas (neste caso, de azulejo) nesta colina de São José remetem, com maior certeza, apenas para meados do século XVII, com a referência a

um Manoel da Matia, ladrilhador, em 1649 (Sebastian, 2010: 99), na Rua Direita de Sima da Igreja de S. Joseph, sendo as referências anteriores mais vagas, como as do Livro do Lançamento e serviço que a cidade de Lisboa fez a el-rei nosso senhor o ano de 1565 (Sebastian, 2010: 99). Encontraram-se ainda dois objectos em liga de ferro: uma fechadura – FÉ 31-35/ [117] -4 – e uma foice – FÉ 31-35/ [103] -14 –, o primeiro dos quais remete a deposição para um cenário de remodelação arquitectónica.

Nota final para um peso de secção ovalada do qual se conservou a parte proximal – FÉ 31-35/ [112] -1 –, habitualmente mais presente em contextos ribeirinhos.

FIGS. 14 e 15 –Em cima, peso e cadinho com vestígios de uso. À esquerda, elementos metálicos: foice e fechadura.

3. SÍNTESE

A deposição do conjunto em causa denuncia a existência de uma área de despejo, cujo tempo de actividade pode ser maioritariamente enquadrado nos primeiros três quartéis do século XVI. Atendendo à distinta composição dos dois níveis identificados – UE [115] e [117] – na base, e restantes Unidades Estratigráficas na parte superior, não será de des-

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cartar a possibilidade de corresponderem a duas formações distintas: a primeira talvez associada ao cataclismo de 1531, a segunda posterior a esta data. Como critério para esta possível distinção, é de considerar a ausência de porcelana e majólica (loiça e azulejo) nos níveis inferiores, em contraste com a presença nestes de exemplares azulejares de aresta, lisos de tecto, e da fechadura e da concentração de telha (80 % da totalidade da amostra) hipoteticamente associáveis aos restos de um derrube.

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[ligações à Internet activas em 2026-07-05]

Uma Estrema

Entre o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova e a Quinta das Lágrimas (Coimbra)

crónica de um marco (re)descoberto na Rua Cano dos Amores

Filipe J. C. Santos 1 e Maria Isabel Figueiredo Rodrigues 2

INTRODUÇÃO

Q“A malha urbana da cidade encontrava-se espartilhada por duas cintas: a primeira, conventual, e a segunda formada por um enorme conjunto de quintas.”

José Santiago Faria (2006: 14)

RESUMO

A descoberta fortuita de uma inscrição lavrada em bloco calcário, acompanhada um outro elemento também insculturado, justifica breve estudo que visa retirá-los da incompreensível invisibilidade a que se encontravam votados. A localização destes elementos, bem como a interpretação das letras gravadas – dois acrónimos separados por ponto preciso do mesmo cinzel –, permite supor estarmos na presença de um marco de propriedade. Este marcaria a divisão entre os terrenos ligados ao Mosteiro de Santa Clara-a-Nova e os que seriam propriedade da Quinta das Lágrimas, em Coimbra.

Palavras-chave: Arqueologia urbana; Idade Moderna; Epigrafia; Marcos (de delimitação).

ABSTRACT

The fortuitous discovery of an inscription engraved on a limestone block, accompanied by another carved element, justifies a brief study that aims to shed light on their inexplicable obscurity to present. The location of these elements, as well as the interpretation of the engraved letters –two acronyms separated by a precise dot carved with the same chisel –, points to the possible presence of a landmark which would indicate the separation between the land belonging to the Monastery of Santa Clara-a-Nova and that of the Quinta das Lágrimas, in Coimbra.

Key words: Urban archaeology; Modern age; Epigraphy; Boundary milestones.

RÉSUMÉ

La découverte fortuite d’une inscription gravée sur un bloc calcaire, accompagnée d’un autre élément également sculpté, justifie une brève étude qui a pour but de les sortir de l’incompréhensible invisibilité à laquelle ils sont voués. La localisation de ces éléments, autant que l’interprétation des lettres gravées – deux acronymes séparés par un point précis issu du même ciseau – nous permet de supposer être en présence d’une borne de propriété. Elle marquerait la séparation entre les terres rattachées au Monastère de Santa Clara-a-Nova et celles propriété de la Quinta das Lágrimas, à Coimbra.

Mots Clés: Archéologie urbaine; Période moderne; Épigraphie; Bornes de délimitation.

1 Arqueólogo (santos.philipe@gmail.com).

1 As coordenadas –Etrds 89 – são as seguintes: X: -25761.94; Y: 59157.69.

uando reconhecíamos o terreno e realizávamos os primeiros registos fotográficos para o que viria a ser o acompanhamento arqueológico da construção de um edifício residencial em Santa Clara, Coimbra, construção essa que se desenvolve por parcela de terreno paralela à Rua Carlos Alberto Pinto de Abreu, em um plano superior e a oeste, e a Rua José Vilarinho Raposo, a este, tendo por limite a norte a Rua Cano dos Amores (Fig. 2), identificámos na escadaria presente nesta última, corredor em pendente que liga as duas artérias previamente aludidas, um bloco epigrafado 1. A par do bloco epigrafado, fazia parte do conjunto um outro, também de feição rectangular, embora menos anguloso, obtido no mesmo calcário local, apresentando-se também marcado, mas sem epigrafia.

2 Arqueóloga (mariaisabel.soares.uni@gmail.com). Por opção dos autores, o texto não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Foi recebido para publicação em 2026-03-23.

1 – Localização da intervenção no mapa da Península Ibérica e na Carta Militar de Portugal, escala 1/25 000, folhas 230 e 241.

DESENVOLVIMENTO DO CASO

Na medida em que era da nossa responsabilidade o acompanhamento arqueológico da reconstrução da escadaria pública, tal como bem explícito no parecer de Arqueologia em sede de licenciamento do prédio em construção, certamente medida compensatória exigida pela edilidade local, tornaram-se de igual modo da nossa responsabilidade os dois blocos insculturados.

Poucos dias passados sobre o início do nosso trabalho, apresentámos logo em Outubro de 2025 uma Nota Técnica (NT1), posteriormente enformada burocraticamente na figura de Relatório Preliminar 7, onde não só dávamos conta do achado, como das medidas de minimização que, julgávamos, deveriam ser adoptadas. Estas passariam por:

2 Podíamos ter optado por outra referência geográfica, mas optámos por esta, que é também metafórica.

3 Relatório Prévio / Ficha Avaliação de Impacto Patrimonial e Arqueológico, da autoria de Daniel Pinto.

4 Sistema de Informação e Gestão Arqueológica gerido pelo Património Cultural, IP.

5 Veiculado por intermédio da Informação, n.º 1929/Drcc/2023, CS 257087.

Nada fazia supor a presença ali daqueles pequenos monólitos, sobretudo pelo que tivemos oportunidade de pesquisar sobre os elementos patrimoniais referenciados naquela área da margem esquerda do rio Mondego, distante do Portugal dos Pequenitos 2 em escassos 200 m. Não só o relatório prévio, elaborado por colega nosso 3 e a que tivemos acesso, não lhes fazia menção, como também não constava na base de dados Endovélico 4 qualquer informação sobre os mesmos. Somava-se ainda a esta invisibilidade o próprio parecer 5 de Arqueologia emitido pela ainda então Drcc 6, onde se propunha “como medida de minimização de possível impacte patrimonial o acompanhamento arqueológico de todos os trabalhos com afetação ao solo e afins previstas em projeto, incluindo a intervenção que prevê a reconstrução da escadaria pública de ligação da Rua Carlos Alberto Pinto de Abreu à Rua Vilarinho Raposo”. Em bom rigor, e pelo exposto, pese embora o espaço público e a ampla visibilidade que os blocos detinham, era como se nunca tivessem existido no rol de elementos patrimoniais presentes, incluindo em trabalhos de inventariação patrimonial levados a cabo pelos técnicos do Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Coimbra (Gervásio, Pereira e Santos, 2009: 255), não se encontrando de igual modo plasmados em Plano Director Municipal (Pdm). Achámos ainda mais estranha essa suposta invisibilidade, por outro lado, porquanto os mesmos pareciam integrar-se numa obra cuidada (Fig. 4), onde se empregaram argamassas típicas de trabalhos de conservação e restauro de estruturas arqueológicas. Pareciam ainda enquadrar-se com nicho em um muro de propriedade, a norte da escadaria aludida, de vivenda recentemente elevada naquela área sobre terreno ocupado por prévia ruína, tendo nós de imediato associado o enquadramento cuidado dos blocos insculturados dentro daquele projecto de construção; e não nos enganámos, como veremos.

6 Direcção Regional de Cultura do Centro (entretanto substituída pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, I.P.).

1. Acompanhamento arqueológico presencial e sistemático durante a fase de intervenção no âmbito da reabilitação da escadaria, com especial enfoque na área onde os elementos se encontram assinalados;

2. Levantamento fotográfico exaustivo, com vista ao seu registo e tentativa de modelação

3D do contexto em análise;

3. Descrição tão exaustiva quanto possível dos elementos em análise, no que concerne à sua dimensão, suporte de gravação, altura das letras e a sua interpretação;

4. Que os trabalhos de reabilitação previstos para a escadaria fossem concretizados tendo também como objectivo a preservação in situ do contexto em análise, atendendo, sobretudo, à preservação integral do mesmo e, em concomitância, dos blocos epigrafados;

7 Pese embora sejam aceites noutras geografias, para a Ccdr Centro, transcrevendo-se da Informação - Ucult-Dsgcpc 2342/2025, que aprovou o documento por nós apresentado: “As ‘notas técnicas’ utilizadas, no caso para informar a identificação de vestígios de interesse patrimonial, no âmbito da execução de um trabalho arqueológico, não possuem enquadramento no Regulamento de Trabalhos Arqueológicos; Estas devem ser substituídas pela elaboração de um relatório preliminar, cujo conteúdo se encontra definido no n.º 3, do art.º 15, do Regulamento de Trabalhos Arqueológicos”.

FIG.

8 PC.IP., Informação-Ucult-Dsgcpc 2342/2025.

9 Porção de faiança tardia de produção local, deixada gentilmente por um dos trabalhadores em obra, no sentido de ser posteriormente entregue à equipa de Arqueologia, ausente na data da visita levada a cabo pelos técnicos do Gabinete de Arqueologia da Cmc, pelo facto de não ser necessária a sua presença face aos trabalhos que, naquele dia, se encontravam a ser executados, como, aliás, os próprios técnicos puderam constatar.

e 5. Levar a cabo pesquisa bibliográfica direccionada, com o objectivo de nos certificarmos se os elementos em causa poderão conotar-se, efectivamente, com alguma das propriedades rurais presentes nas imediações, nomeadamente, como logo ali o avançámos, a Quinta das Lágrimas. À Nota Técnica/Relatório Preliminar [1] haveria, em face ao exposto, de ser proposta a emissão de parecer favorável, “nada se tendo a obstar à continuidade dos trabalhos de acompanhamento arqueológico, conforme constante do Plano de Trabalhos submetido a aprovação, no qual devem ser incluídas as ações propostas pelo arqueólogo” 8. O PC.IP., subsequentemente, aprovaria o documento. Mais tarde, na sequência da visita ao nosso local de trabalho por parte de técnicos do Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Coimbra (Cmc), aproveitando estes uma acção de fiscalização que estavam a desenvolver no Convento de São Francisco, a poucos metros dali, ficámos a saber, na conversa telefónica que dela resultou, que não só tinham encontrado um fragmento de faiança sobre um muro de divisão da parcela de terreno em construção, o que, na sua opinião, “dava mau aspecto” 9, como também já conheciam os blocos inscul-

turados, adiantando ainda que a respectiva ficha de património se encontrava em fase última de redacção. Na sequência desta conversa telefónica, tivemos desde logo a oportunidade de referir qual era a nossa interpretação das letras gravadas no Bloco 1, que não correspondia com a que os técnicos do Património da Cmc aventavam. Isto porque, ao contrário daqueles, que viam um nexo formado pelas letras V e A – \A 10 , nós apenas víamos, de forma perfeitamente clara, um A. A este propósito, julgamos que os registos fotográficos produzidos e que aqui apresentamos não deixam a mais pequena dúvida. Ainda assim, para os mais cépticos, bastará constatar esta realidade in loco. Tendo nós aproveitado o contacto para questionar sobre a casa erigida sobre terreno com ruína (Fig. 3), na extremidade nordeste da Rua Cano dos Amores, a mesma que integrara no âmbito da sua construção os blocos de que aqui damos nota, foi-nos comunicado que havia sido uma obra concretizada sem qualquer acompanhamento arqueológico, tendo um arquitecto (em abstracto) sido o responsável pela sua integração. Achámos toda a situação rocambolesca, na medida em que a vivenda, construída, ao que parece, entre os anos de 2023 e 2024, se encontrava, tal como a nossa parcela de terreno, abrangida pela Zona Especial de Protecção do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova 11 .

10 O suposto \A, na opinião dos nossos colegas, teria relação com Várzea, outra das quintas agrícolas da margem esquerda do Mondego, cujo edifício principal se localiza a cerca de 500 m, a sul, da Quinta das Lágrimas. 11 Monumento Nacional (Portaria n.º 381/2009, Diário da República, 2.ª série, n.º 49, de 11-03-2009).

FIG. 2 – Localização em aproximação do marco de propriedade em relação aos sítios arqueológicos assinalados no Endovélico e imagem de satélite obtida no Sistema de Informação Geográfica (Sig) da Câmara Municipal de Coimbra.

Ainda na sequência do contacto com os técnicos do Gabinete de Arqueologia da Cmc, tivemos desde logo oportunidade de lhes remeter a nossa Nota Técnica/Relatório Preliminar [1], aguardando daqueles, tal como depreendido, a respectiva ficha de ocorrência patrimonial logo que esta estivesse concluída. Isto a 3 de Outubro de 2025. O tempo – como sempre acontece –, foi passando, acabou a primeira fase da obra, que contemplou a decapagem integral da parcela de terreno alvo de construção, entretanto terminada, aguardando-se ainda, à data, o reinício do acompanhamento arqueológico tendo em vista o preconizado em relação à reabilitação da famigerada escadaria, onde os elementos insculturados, como vimos, se encontram.

plasmaram e às quais a Tutela daria ainda mais amplitude, é ali referido que: “Os elementos patrimoniais, marcos epigrafados, são do conhecimento dos serviços de arqueologia do município de Coimbra desde, pelo menos, o ano de 2019, data da Ficha de ocorrência Arqueológica 075(SIG)152(ID) Epigrafes - Cano dos Amores, tendo o mesmo local sido visitado novamente por estes serviços em 2024-07-18. Ficha onde se afirma que as epigrafes se localizam do ‘lado sul encosta a uma escadaria pública, que dá acesso à confluência da Rua Cano dos Amores com a Rua José Vilarinho Raposo’, confirmando a localização das mesas em espaço público”

Tendo em conta o exposto, solicitámos de novo ao Gabinete de Arqueologia da Cmc a respectiva ficha, sem termos obtido de imediato resposta. Viemos a tê-la depois, quando fizemos uso do e-mail geral desta edilidade, através da técnica superior do Património com quem previamente havíamos conversado sobre este assunto, a mesma que nos havia dito que a ficha ainda se encontrava em construção, referindo que “a ficha das epígrafes - Cano dos Amores só está disponível na Intranet, não sendo possível, nesta data, remetê-la para o exterior”. Não obstante, fomos então informados que poderia ser consultada no Gabinete de Arqueologia, localizado na Rua Quebra

3 – Enquadramento dos blocos insculturados na escadaria da Rua Canos dos Amores e no muro de divisão da vivenda construída sobre parcela com ruína.

12 PC.IP., Of. 65737, complementar à Informação- Ucult-Dsgcpc 163/2026 (veiculada pela Ccdr Centro).

Mais recentemente, em uma visita que nos vimos obrigados a fazer a Coimbra, decidimos passar no local da intervenção, constatando, tal como nos havia sido dito pelo director de obra, que se encontrava a ocorrer ainda o rebaixamento, sobre superfície rochosa, com vista à concretização dos pisos inferiores do prédio. Qual não foi a nossa surpresa quando vimos, sobre o topo do bloco epigrafado (Bloco 1), chapiscos de cimento. Alguém tinha aproveitado o bloco para proceder à limpeza de material, não da obra que nos encontrávamos a acompanhar, pois o cimento aí ainda nem sequer tinha dado entrada, mas na requalificação de um conjunto de apartamentos sobre o lado oposto da nossa área, ou seja, sobre o lado norte da Rua Canos dos Amores, praticamente em frente à nossa parcela. Tendo em conta o que observámos, decidimos no imediato alertar a Tutela para o sucedido, tendo elaborado um segundo documento, desta feita intitulado Relatório Preliminar [2], onde não só relatávamos a situação, como nos pretendíamos desde logo desvincular de quaisquer responsabilidades sobre o que acontecera. Para nossa surpresa, no ofício de aprovação condicionada 12 que resultou da submissão do segundo relatório preliminar, sujeita à implementação do conjunto de medidas de minimização que se

Costas, n.º 3 - 2.º e 3.º andares, sendo apenas necessário agendar um horário para aquele efeito. Em resumo, não só a dita ficha patrimonial estava feita, como estava feita desde 2019 13 . Concordando-se desde logo com a abreviatura de Santa Clara (a Nova) nas iniciais SC, não vemos nós qualquer nexo que prefigure a abreviatura Várzea (Quinta da) formada pelas letras V e A ( \A ), tal como nos havia sido avançado, antes sim a abreviatura de Lágrimas (Quinta das) em LA.

13 Fomos posteriormente informados que a ficha patrimonial havia sido produzida no âmbito da revisão do Pdm, ainda a decorrer, pelo que não constituía a versão final (desde 2019!). Seria oportunamente publicada, quando se encontrasse validada. Pelo exposto, acreditamos que este trabalho possa ser uma ajuda preciosa na sua revisão.

FIG.

OS BLOCOS INSCULTURADOS

Levámos a cabo uma limpeza circunscrita na envolvência dos dois blocos, tendo em conta que se trata de uma zona com nicho propícia à acumulação de pequenos detritos e alguma vegetação, por forma a que udéssemos concretizar alguns registos de pormenor.

A par de registos fotográficos exaustivos sobre os elementos em causa e a sua envolvência, em alguns casos de pormenor, os mesmos possibilitaram também a concretização de um modelo tridimensional por ortorrectificação fotográfica. À data, foram produzidos dois desses modelos, aguardando-se o final integral dos trabalhos de acompanhamento arqueológico para fazer um derradeiro registo, documentando os dois blocos e a área onde se encontram inseridos dentro do plano de reabilitação que se levará a cabo na escadaria. Procedemos ainda ao preenchimento de fichas de registo próprias (Ficha Epigráfica), sendo destas que a informação vertida neste trabalho foi retirada. Nas mesmas, contamos com um conjunto vasto de campos, com respectivos subcampos, sendo os primeiros: (1) Identificação; (2) Suporte; (3) Tipo de Suporte; (4) Medidas gerais da epígrafe; (5) Medições de letras; 6) Texto; (7) Observações; (8) Referências e bibliografia; (9) Descrição visual; e (10) Croquis. Os elementos serão devidamente protegidos durante a fase do arranjo previsto na envolvente, que inclui a substituição da escadaria actual por uma outra. Como é evidente, na eventualidade de não ser possível a sua manutenção no decurso da reabilitação prevista, apresentaremos, quer às entidades tutelares do Património quer à Cmc, um plano de execução para a sua retirada, assinalando o respectivo lugar de depósito e plano para a sua subsequente reposição.

O Bloco 1 (Figs. 4 e 5), relativamente bem preservado, não obstante apresentar algumas mazelas na superfície, mormente sulcos mais ou menos profundos e áreas lascadas, sendo essa evidência na base da letra L e no topo da letra A, configura um bloco de calcário rectangular, bem aparelhado, gravado em caracteres capitais quadrados e por intermédio de um ductus regular e ligeiramente oblíquo, na face voltada a oeste, a mais larga, com a seguinte inscrição: SC●LA.

As suas medidas visíveis, tendo em conta que o mesmo se encontrará parcialmente enterrado, são as seguintes: altura total visível = 36 cm; largura total = 36 cm: espessura/profundidade = 22 cm.

O campo epigráfico tem uma altura útil de 10 cm por 29 cm de largura. No que toca à altura das letras, as mesmas apresentam-se de forma bastante regular, detendo cerca de 10 cm de altura, variando a sua largura entre os 5 e os 6 cm. O ponto, de configuração triangular, tem 3 cm de altura por 6 cm de largura. A profundidade da gravação é em torno dos 2 mm, excepção feita ao ponto, mais profundo, que apresenta 4 mm.

A leitura que fazemos da epígrafe não nos oferece significativas dúvidas, tendo em conta, não só as letras gravadas a cinzel, como a própria localização do bloco, não acreditando, desde logo, que o mesmo possa ter sido transportado de muito longe relativamente à sua posição original (mas nunca se sabe!). Lemos a abreviatura de Santa Clara em SC, com certeza em referência a Santa Clara-a-Nova, e Quinta das Lágrimas, inscrita de forma abreviada na superfície calcária com a abreviação LA. Entre as duas abreviaturas um ponto de recorte triangular. No que toca ao Bloco 2, o mesmo corresponde a elemento similar ao previamente descrito, gravado na face voltada a este por uma marca que não consideramos de índole epigráfica, antes podendo corresponder a uma espécie de sistema de encaixe, sob a forma de um sulco subrectangular.

Apresenta uma altura total visível de 32 cm, uma largura parcial de 31 cm, tendo em conta que parte do elemento se encontra incorporado no muro de divisão da propriedade, e uma profundidade/espessura de 17 cm. O elemento gravado tem uma altura útil de 5,5 cm e uma largura em torno dos 6 cm. A profundidade de gravação, feita por objecto metálico, é de 2 mm.

FIG. 4 – Enquadramento dos blocos gravados na escadaria da Rua Cano dos Amores.

5 – Registo fotográfico de pormenor do Bloco 1 (à esquerda) e Bloco 2 (à direita).

BREVE ENQUADRAMENTO HISTÓRICO

Como é sabido, foi a sistemática inundação do velho mosteiro de Santa Clara pelas águas do Mondego que ditou a construção de um outro, na mesma margem esquerda, mas em ponto bem mais elevado (Monte da Esperança) (Fig. 6). A pedido endereçado, por motivos justificados, a D. João IV, que o aceitou, a primeira pedra do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova seria lançada logo após a Restauração, tendo sido elevado entre os meados do século XVII e a primeira metade do século XVIII. Sofreria posteriormente sucessivas remodelações, havendo mesmo de substituir-se ao espaço da ordem religiosa que o havia ocupado desde 1677, nos inícios da República, uma pequena guarnição militar. Como se compreenderá, este episódio da biografia do complexo não pode ser dissociado da extinção das ordens religiosas no Portugal Liberal, ainda que, como também sabemos, esta tenha ocorrido ainda na primeira metade de Oitocentos.

Já a propriedade que ainda hoje constitui a Quinta das Lágrimas, tomadas as medidas em linha recta a partir das igrejas presentes nos dois complexos, dista cerca de 600 m para sudeste. Espaço mitificado, onde a realidade parece fundir-se com o imaginário, é célebre pela morte de Inês de Castro às mãos dos conselheiros de Afonso IV. Recua efectivamente a sua história à época medieva, encontrando-se dentro do rol de propriedades aforadas ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, sendo conhecida então por “Quinta do Pombal”. Foi também aí que a viúva do rei Dom Dinis adquiriu duas nascentes aos monges Crúzios, dando-lhes como contrapartida, no contrato datado de 1326, posses-

FIG. 6 – Composição sobre planta de Coimbra datada do século XVIII (autor desconhecido), destacando-se o Mosteiro de Santa Clara (a-Nova), bem como a Quinta das Lágrimas, em associação a levantamento tridimensional de Coimbra com a localização de vários edifícios referidos e do marco de propriedade (SC.LA).

Sé Velha

Santa Clara-a-Velha

Santa Clara-a-Nova

SC.LA

Quinta das Lágrimas

FIG.

sões e terras em Leiria (Santos, 2013: 231). Muito tempo depois da propriedade ter passado para as mãos da Universidade de Coimbra, logo em 1545, na sequência da transferência de todas as propriedades e rendas detidas pelo entretanto extinto Priorado-Mor de Santa Cruz, manteve-se nesta instituição até aos inícios do segundo quartel do século XVIII. Para nós, assume particular importância este período, na medida em que, em 1730, é lavrada a escritura da compra do foro da Quinta das Lágrimas por Manuel Homem Freire de Figueiredo a Pedro Correia de Lacerda, constituindo o primeiro documento em que a mesma é assim identificada (Santos, 2013: 233).

NOTA FINAL

A Cerca é componente fundamental do complexo monástico, considerando-se mesmo as reminiscências daquela associada ao Mosteiro de Santa Clara-a-Nova como uma espécie de muralha defensiva, em parte justificada por se localizar no exterior da área amuralhada da própria urbe, mas, de igual modo, pelo carácter de reclusão das próprias Clarissas (Rodrigues, 2003: 13). Sobre esta matéria, parece-nos ainda importante ressalvar o que refere Ana Assis Pacheco, enquadrando algumas soluções arquitectónicas com os constrangimentos das Guerras da Restauração, assegurando uma arquitectura de carácter defensivo por forma a que as religiosas fossem protegidas (Pacheco, 2021: 28).

Também é certo que, pelo grau de autonomia de que gozaria, tudo deveria ser encontrado no interior desse espaço murado, por forma a que se vivesse em plena, ou quase plena, autarcia. Essa plenitude seria alcançada, como é evidente, com os outros domínios. Neste sentido, e nas palavras de Manuel da Rocha (2006-2007: 528), pese embora a sua análise incida sobre um particular da Ordem Beneditina, “o mosteiro é, como produto humano, um reflexo funcional de todas as necessidades dos homens que o habitam em regime de exclusão social”. Tal não invalida, naturalmente, que espaços adstritos à administração de um determinado mosteiro se encontrem afastados dos seus limites, como é prova evidente Santa Cruz de Coimbra. Não só este terá arrendado, desde muito cedo,

BIBLIOGRAFIA

Alarcão, Jorge de (2008) – Coimbra: a montagem do cenário urbano. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra. Faria, José Santiago (2006) – “Evolução do Espaço Físico de Coimbra”. In Rebelo, João (coord). Evolução do Espaço Físico de Coimbra: exposição. Coimbra: Câmara Municipal de Coimbra, pp. 9-16.

Gervásio, Ana Sofia; Pereira, Carmen e Santos, Raquel (2009) – Património Edificado com Interesse Cultural. Concelho de Coimbra. Coimbra: Câmara Municipal de Coimbra. https://bit.ly/4d8ODjJ

as terras que viriam mais tarde a ser ocupadas pela própria Quinta das Lágrimas, como se documenta, também, a sucessiva aquisição de outras propriedades pelos Crúzios em Coimbra (Alarcão, 2008: 180).

De igual modo, a aquisição de propriedades pelos monges de Santa Cruz em outros locais e por motivos diversos, está perfeitamente documentada. Veja-se a este propósito, por exemplo, aquelas adicionadas em Leiria, em resultado do contrato celebrado entre eles e a Rainha Dona Isabel, por troca de duas nascentes e das terras que as rodeavam na então Quinta do Pombal, hoje Quinta das Lágrimas (Santos, 2013: 231).

Terras pertença de uma determinada ordem religiosa e directamente associadas a um determinado mosteiro, perfeitamente assinaladas com marcos delimitadores, podem encontrar-se mais próximas ou mais afastadas do próprio complexo religioso que as administra. A este propósito, e sem sermos exaustivos, veja-se o caso do Couto de Bustelo, administrado pelo Mosteiro de São Miguel de Bustelo, incluindo-se estas propriedades nos seus vastos domínios (Nunes et al., 2007: 47).

Não pretendendo traçar de forma exaustiva a historiografia das propriedades de ambas as instituições de referência para Coimbra, dada a natureza deste trabalho, serve esta pequena nótula arqueológica para dar a conhecer, de forma mais visível, os elementos que aqui foram plasmados, resgatando-os a um certo esquecimento a que foram votados e contribuindo, de igual modo, para uma tentativa de aferição mais concreta das fronteiras entre os dois domínios. Tanto quanto sabemos, não há paralelos para o marco epigrafado que aqui se apresenta, constituindo este ineditismo razão de sobra para que o mesmo, não só seja divulgado, como condignamente protegido.

Por último, parece-nos mais do que provável, pese embora a localização do(s) marco(s) apresentados possa estar ligeiramente deslocada daquela que seria a sua posição original, que os mesmos, ou, pelo menos, o bloco com a indicação para nós evidente ao Mosteiro de Santa Clara-a-Nova e à Quinta das Lágrimas, traduzam uma etapa de demarcação espacial entre as duas vastas propriedades, demarcação essa que, tendo em conta o que tivemos oportunidade de expor, poderá ter ocorrido entre os finais do século XVII e a primeira metade do século XVIII.

Nunes, Manuel; Cardoso, Cristiano; Sousa, Luís e Gonçalves, Carlos (2007) - “Marcos de Propriedade no Concelho de Lousada: notas para a sua significação histórico-arqueológica”. Oppidum- Revista de Arqueologia, História e Património Lousada: Câmara Municipal de Lousada. 2: 39-52. https://bit.ly/4dyzVTJ

Pacheco, Ana Assis (2021) – Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, Coimbra, Construído em 1647 Para as Clarissas. S.l.: s.n. [Imp. Amazon Italia Logistica S.r.l.] (Estudos de Teoria e História da Arquitectura, 9).

Rocha, Manuel Joaquim M. (2006-2007) –“O Mosteiro-Cidade na Génese e Desenvolvimento

Urbano: uma interpretação do espaço”. Ciências e Técnicas do Património - Revista da Faculdade de Letras. Porto. 1.ª Série. 5-6: 527-548. Rodrigues, Vasco (2003) – “Coimbra: caracterização da margem esquerda”. Monumentos. Lisboa: Dgemn. 18: 9-15.

Santos, Sandra (2013) – “Quinta das Lágrimas: História, lugar e lenda”. In Coelho, Maria Helena da Cruz (coord.). Actas do Congresso Internacional “Pedro e Inês: o Futuro do Passado”. Coimbra: Associação dos Amigos de D. Pedro e D. Inês, pp. 223-246. https://bit.ly/4uykilM

[ligações à Internet activas em 2026-07-05]

RESUMO

Durante escavação arqueológica na Zona da Arrochela, em Silves, identificámos estruturas habitacionais dos séculos XV-XVI, cuja arquitetura e materialidades temos vindo a estudar.

Entre o espólio encontrado contam-se cerâmicas de distintas proveniências e objetos de vidro ou metal, com destaque para os numismas. O mais recente corresponde a quatro reais cunhados no reinado de Felipe II de Espanha, em 1591 e na cidade de Sevilha, de onde também provêm fragmentos de recipientes de faiança do tipo “San Domingo Blue on White”, indicando-nos cronologia ainda dos finais do século XVI. No interior de um dos compartimentos, exumámos também o cabo de carretilha que é objeto do presente estudo.

Palavras-chave: Arqueologia urbana; Idade Moderna; Processamento de alimentos; Carretilhas.

ABSTRACT

During the archaeological excavation in the Arrochela Zone, in Silves, we identified domestic structures dating to the 15th-16th centuries, whose architecture and material culture we have been studying.

Among the finds are ceramics of various origins, glass and metal artefacts, in particular numisms, the most recent being four reais minted in 1591 in Seville during the reign of King Filipe II of Spain. Faience vessel sherds of the “San Domingo Blue on White” type, also originating from Seville, point to a chronology still within the late 16th century. Inside one of the identified compartments, we also uncovered the handle of a spur rowel, which is the subject of the present paper.

Key words: Urban archaeology; Modern age; Food processing; Spur Rowel.

RÉSUMÉ

Lors d’une fouille archéologique dans la Zone de Arrochela, à Silves, nous avons identifié des structures d’habitations des XVème, XVIème siècles dont nous avons étudié l’architecture et les matérialités.

Parmi la dépouille trouvée, se trouvent des céramiques de diverses provenances et des objets en verre et métal, particulièrement les pièces de monnaie. La plus récente correspond à quatre réaux, frappée sous le règne de Philippe II d’Espagne, en 1591, à Séville, d’où proviennent également des fragments de récipients en faïence de type « San Domingo Blue on White », nous indiquant une chronologie encore de la fin du XVIème siècle. A l’intérieur de l’un des compartiments, nous avons ainsi exhumé le manche de coupe-pâte faisant l’objet de la présente étude.

Mots Clés: Archéologie urbaine; Période moderne; Traitement des aliments; Coupe-pâte.

Carretilha de utensílio culinário a artefacto arqueológico

1 Nova Fcsh - Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Instituto de Arqueologia e Paleociências / História, Territórios e Comunidades / Centro de Ecologia Funcional (rv.gomes@fcsh.unl.pt).

Por opção da autora, o texto segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Foi recebido para publicação em 2026-05-13.

INTRODUÇÃO

Aabertura de alicerces para a edificação de lar de idosos, propriedade da Misericórdia de Silves, em quarteirão da zona alta daquela cidade, proporcionou o reconhecimento de silo, com tampa, assim como de parte de cunhal, em estilo manuelino, da porta de casa, que conduziu à obrigatoriedade de ali se realizarem escavações arqueológicas antecedendo a continuidade daquela obra. Assim, o Presidente da Câmara Municipal de Silves, José Correia Viola, solicitou-nos que dirigíssemos aqueles trabalhos, dado termos investigado arqueologicamente diversos sítios na cidade, nomeadamente o PoçoCisterna e área anexa, que identificámos com Mário Varela Gomes e hoje é Monumento Nacional, e o Castelo de Silves, onde se descobriram testemunhos de palácios islâmicos e, mais tarde, da alcaidaria.

Então, com o apoio de funcionários camarários, do Sector de Obras e do Museu Municipal de Arqueologia, a maioria dos quais tinham já connosco trabalhado, assim como de estudantes da Licenciatura em História - Variante de Arqueologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Universidade Nova de Lisboa, dirigimos, entre abril e outubro de 1994, a escavação do denominado quarteirão da Arrochela. Os resultados destes trabalhos, no respeitante aos níveis e estruturas islâmicas, encontram-se publicados monograficamente. Todavia, temos dado a conhecer espólios ulteriores, nomeadamente numismas e a cerâmica dita “San Domingo Blue on White” (Gomes e Gomes, 1996; Gomes e Gomes, 2000; Gomes, 2005; 2011; 2022).

Nos testemunhos de uma das casas ali identificadas, dos finais do século XVI, encontrámos cabo de carretilha, de liga de cobre, quase idêntico a alguns que chegaram aos nossos dias, mas constituindo apetrecho de cozinha por ora desconhecido em contexto cultural tão antigo. Os utensílios de cozinha dos séculos XV e XVI estão ainda pouco divulgados e estudados, ressalvando-se o uso das cerâmicas de ir ao fogo ou de armazenamento e os almofarizes, embora a informação empírica disponível incida preponderantemente sobre os aspetos técnicos, morfológicos, e raramente se cruze com a literária, o que pretendemos fazer no presente texto.

CARRETILHAS: FORMAS E FUNCIONALIDADES

As carretilhas, apetrecho culinário ainda hoje usual em muitas cozinhas, produzidas em madeira, osso, metal ou, mais recentemente, de baquelite, são constituídas por cabo, com comprimento variável, que apresenta, na extremidade distal, roda ou roseta, de bordo recortado e presa ao cabo por eixo onde gira. Elas permitiam cortar e fechar, ao mesmo tempo, massas de pastéis e bolos, dobrada de modo a prender recheios ou a recortar massas. Por vezes, a extremidade proximal do cabo mostra diferentes formas, nomeadamente de disco, em exemplares metálicos e mais antigos, contendo incisões, permitindo marcar ou decorar, por impressão, a massa.

EVIDÊNCIA ARQUEOLÓGICA

Alguns exemplares oferecem no cabo incisões e relevos em forma de balaústre, conforme se pode observar na capa e contracapa do n.º 157, datado de março de 1973, da Revista Portuguesa de Culinária, editada pelo Instituto de Culinária Cidla, sob a direção de Maria Emília Cancella de Abreu (Fig. 1). Além do aspeto decorativo, aqueles elementos possibilitavam uma melhor preensão, pelos dedos, das carretilhas, cujas dimensões se deviam adaptar às mãos de quem as usava.

A carretilha, também designada por recortilha ou recartilha, foi mencionada em distintos dicionários e, entre eles, o Diccionário da Língua Portugueza elaborado por R. Bluteau (1789: 164), que a descreve como “pequena roda de metal, com seu eixo, para lavrar bolos e pastéis” O Dicionário da Língua Portuguesa (Machado, 1960: 194), considera que se trata de “roda de metal enfiada em um eixo, com que se cortam, deixando um lavor, as massas de forrar pastéis, bolos, etc.”. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Casteleiro, 2001: 711), diz que tal artefacto corresponde a “peça circular, em forma de roseta, enfiada num eixo, e que, ao rodar, corta massa de pastéis, marca costuras…”. As descrições formais e funcionais das carretilhas são muito similares entre aqueles autores, indicando a mesma fonte para a definição deste artefacto de culinária destinado a cortar e decorar massas. Todavia, quem realizou o glossário de termos culinários constante no livro de cozinha de Lucas Rigaud (1999: 306), originalmente publicado em 1785, considerou a carretilha como sendo “instrumento de cortar semelhante ao salazar”, o que é incorreto, dado que aquela última palavra constitui, no contexto culinário, nome popular associado a espátula utilizada para raspar os restos dos conteúdos de taças, panelas ou outras vasilhas de cozinha, aludindo ao patronímico de Presidente do Conselho de Ministros da Ditadura Nacional.

Conforme referimos, escavação que dirigimos na denominada Zona da Arrochela, da cidade de Silves, permitiu-nos identificar vestígios de várias estruturas habitacionais, que constituíram quarteirão nos séculos XV-XVI (Fig. 2). Os testemunhos reconhecidos integravam-se na malha urbana ainda hoje ali visível. As habitações tinham as fachadas voltadas para a rua da Arrochela e a rua da Porta da Azóia e muitos compartimentos encontram-se, atualmente, sob casas ali erguidas ulteriormente (Gomes, 2005; 2022). Entre o espólio recuperado contam-se fragmentos de recipientes de cerâmica, com distintas proveniências, objetos metálicos e, de igual modo, exemplares de vidro. Aquele contexto arqueológico

Planta de casa com indicação do local onde foi encontrado o cabo de carretilha (segundo Gomes, 2011).

FIG. 1 – Capa e contracapa da Revista Portuguesa de Culinária (1973, n.º 157).
FIG. 2 – Localização da cidade de Silves na Península Ibérica e Zona da Arrochela.

ofereceu numismas, correspondendo o mais recente a quatro reais de prata, cunhados no reinado de Felipe II de Espanha (1556-1598), que apresenta à direita do escudo, com as armas do Império, a data de emissão (1591) e, no lado oposto, a inicial da oficina emissora, S (Sevilha). Desta cidade provêm, também, fragmentos de recipientes de faiança, do tipo “San Domingo Blue on White”, e de taça produzida na Ligúria, indicando-nos cronologia dos finais do século XVI (Gomes e Gomes, 1996: 280; Gomes e Gomes, 2000: 252, 253, 257) (Fig. 3). No interior do compartimento mencionado, com planta retangular, exumámos maioritariamente fragmentos de cerâmica de cozinha e de armazenamento, pertencentes a frigideiras ou a panelas, algumas com a superfície interior vidrada de cor castanha melada ou, ainda, a alguidar, jarros, cântaros e talha. Entre outros artefactos metálicos, recolhemos o fragmento, correspondente ao cabo, de carretilha, de liga de cobre, agora estudado. Este (AR. Q1/CO.5/C2), apresenta a extremidade distal bifurcada, com elementos retangulares e paralelos, rematados por dois topos discoides que suportavam eixo onde se movia a desaparecida roda ou roseta, que seria do mesmo metal do cabo. No lado oposto, ou seja, na extremidade proximal, desenvolve-se o cabo, em forma de haste, com balaústre ao centro, que termina em disco. Este oferece, na superfície plana do topo, motivo estrelar inciso, constituído por oito raios cruzados. Mede 9 cm de comprimento e 5 mm de diâmetro (Figs. 3 e 5-A). O cabo encontra-se algo encurvado, certamente devido ao trabalho a que a peça foi submetida ao longo dos anos, aspeto que também se reconhece em outros utensílios congéneres. Aliás, podemos colocar a hipótese de que a fratura do eixo que suportava a roda e a falta desta, foi provocada pela sua utilização intensa, o que terá conduzido ao consequente descarte.

0 5 cm

FIG. 3 – Zona da Arrochela. Representação gráfica do cabo de carretilha (AR. Q1/CO.5/C2) e de parte do seu contexto arqueológico; Numisma, cunhado no reinado de Felipe II de Espanha (AR. Q2/CO.3/C2); Fecho de livro (AR. Q1/CO.1/C2); Dois fragmentos de faianças produzidas nas oficinas sevilhanas (AR. Q5/CO.3/C2 e AR. Q6/CO.5/C2); Faiança italiana (AR. Q2/CO.3/C2); Garrafa de vidro (AR. Q2/CO.3/C2).

Desenhos: J. Gonçalves e A. Machado.

INFORMAÇÃO LITERÁRIA E ICONOGRÁFICA

Na obra de Bartolomeo Scappi (1570: 922, 926, 948, 950), cozinheiro do Papa Pio V, observam-se diversas carretilhas. Em duas imagens, correspondentes a sectores de cozinha, aquelas encontram-se sobre mesa, ao lado de massa que estava a ser estendida com rolo (Figs. 4-A e B). Outra de tais peças consta entre os utensílios de cozinha, embora com forma algo distinta das anteriormente referidas, dado que apresenta faca do lado oposto à roda, sendo designada por “sperone da pafticiero” (espora ou carretilha de pasteleiro) (Fig. 4-C). Carretilha, denominada “sperone da pasta” (espora para massa), integra a categoria de “diversi instrumenti” (instrumentos diversos), cuja forma é bem visível em outra imagem (p. 950), embora sem indicação da dimensão, dada a ausência de escala. Aquela apresenta, na extremidade distal, roseta, que circulava em eixo preso a haste bifurcada, possivelmente encabada em madeira. Ela possui, na extremidade proximal, fio para a sua suspensão (Fig. 4-D). No livro de Bartolomeo Scappi, e de acordo com as imagens, apenas um dos exemplares de carretilha seria totalmente metálico (Scappi, 1570: 947), enquanto os restantes parecem possuir cabo de madeira. Todavia, a lâmina da roseta desta última peça parece ter forma similar àquelas que ainda hoje existem, enquanto as outras mostram perfurações interiores. As quatro carretilhas cujas imagens constam naquele livro, oferecem, como característica comum, a presença da roseta na extremidade distal, enquanto na oposta, o cabo oferece diferentes formas, tendo em vista funções diversas. A designação de “sperone” ou esporão (grande espora), relaciona-se com a roseta que é visível nas esporas usadas pelos cavaleiros. No Livro de Cozinha da Infanta D. Maria (séculos XV-XVI), o uso da carretilha surge em receitas de massa e, nomeadamente, na “dos tutanos”, “canudos dos ovos mexidos” e de “almojávenas de D. Isabel de Vilhena” (Manuppella, 1986: 29, 33, 79-81). Nesta última receita refere-se que com a massa mais fina que “puderem ser estendidas ao canudo - arredondem-nas com a carretilha”, ajudando na forma que se pretendia obter. Aquele utensílio era empregue para cortar “pastéis de tutanos” e na “fruta de manjar branco”, conforme receitas transmitidas na obra Arte de Cozinha, datada, na sua primeira edição, de 1680 (Rodrigues, 2017: 136, 325, 355-356).

FIG. 4 – Imagens de carretilhas na obra de Bartolomeo Scappi (1570, pp. 922, 926, 948, 950).

A e B. Sectores de cozinhas, vendo-se carretilhas sobre mesas e ao lado de massa; C. Carretilha metálica; D. Carretilha integrada na panóplia de utensílios ligados à cozinha.

No manuscrito do Livro das Receitas de Doces e Cozinhados Vários d’Este Convento de Santa Clara d’Évora, da autoria da Abadessa Maria Leocádia do Monte do Carmo, de 1729, publicado em 2010, constam receitas de doces e, entre elas, refere-se a utilização da carretilha para cortar a massa dos “alfitetes de Santa Clara” (Carmo, 2010: 8-9).

O Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de Cozinha, obra cuja primeira edição data de 1785, da autoria de Lucas Rigaud (cozinheiro da rainha

D. Maria I), assinala, apenas, a utilização da carretilha na receita de “rissolas” (rissóis) (Rigaud, 1999: 278).

Em 1788 foi publicado, em Lisboa, o livro, de autor anónimo, intitulado Arte Nova e Curiosa para Conserveiros Confeiteiros e Copeiros e mais pessoas que se ocupam em fazer doces e conservas com frutas de várias qualidades e outras muitas receitas particulares que pertencem à mesma arte (Braga, 2004b). Este, foi considerado como sendo o primeiro livro de doçaria portuguesa, dado que as anteriores publicações não são exclusivamente dedicadas àquela vertente da culinária. Ali, a carretilha integra a bateria de utensílios de cozinha, sendo empregue nas receitas de “queijadas de leite” e nas “almojávenas de ovos moles” que seriam, também, marcadas com o topo proximal daquele utensílio que, neste caso, teria dupla funcionalidade, ou seja cortar, recortar e marcar (Braga, 2004b: 17, 53, 54, 74).

Data da primeira metade do século XVIII livro intitulado Receitas de melhores doces e de alguns guisados particulares e remédios de conhecida experiência que fez Francisco Borges Henriques para uso da sua casa, onde se regista a presença da carretilha na bateria de utensílios de cozinha, o mesmo ocorrendo na obra Arte de Cozinha, de 1876, de João da Mata, que a denomina de recortilha (Braga, 2004a: 78, 135). Este termo foi, e ainda é, utilizado para designar aquela peça, pelo menos na zona de Lisboa, onde ouvimos repetidamente chamar-lhe recartilha, dado que era usada para recortar massa, de pastéis ou coscorões.

No manuscrito Livro de Receitas de Cozinha, de Cosméticos e de Mezinhas das Freiras da Visitação de Santa Maria, cuja compilação é do século XVIII, assinala-se a carretilha como integrando os utensílios de cozinha, mas, de igual modo, para cortar a massa nas receitas de “fartes de especia” e na de “queijadas” (Braga, 2015: 69, 331, 342).

Nas obras que referimos, a carretilha integra a categoria dos utensílios constantes na chamada bateria de cozinha, sendo sobretudo mencionada em certas receitas de doces. Observa-se, nos livros mencionados, que eram importantes os ingredientes necessários à confeção de determinados pratos, tal como a sua manufatura e apresentação à mesa, pelo que os utensílios de cozinha usados na preparação daqueles foram pouco valorizados. Eles eram apenas um meio para alcançar um fim, o impacto visual e a excelência dos sabores dos pratos salgados e doces.

CARRETILHAS DE ONTEM E DE HOJE

As carretilhas fazem parte do número de artefactos cuja simplicidade e funcionalidade permitiram atravessar larga diacronia. De facto, o exemplar de Silves, atribuído aos finais do século XVI, oferece forma que alcançaria o século XIX, embora se conheçam variantes, de osso ou de madeira, daquele século e outras que chegaram aos nossos dias. Entre as carretilhas metálicas, de liga de cobre, que constituem pequena coleção por nós reunida, duas delas mostram, na extremidade distal, duas hastes retangulares, rematadas por dois elementos circulares, suportando eixo onde se movia a roda ou roseta. Uma daquelas, possui pega ou cabo

FIG. 5 – Diferentes formas de carretilhas produzidas em metal. Observam-se a quase constante dimensionalidade e as funcionalidades secundárias.

em forma de balaústre, oferecendo, na zona mesial, dois anéis e, no disco proximal, decoração constituída por losangos incisos. Outra, possuindo cabo liso, mostra, a meio deste, quatro anéis e, na extremidade proximal, disco contendo cruz incisa (Figs. 5-B e C). Exemplar similar aos anteriores oferece cabo que termina em matriz para marcar ou efetuar recortes com forma de coração (Fig. 5-D). Este, poderia ter sido usado para cortar pequenas peças de massa ou bolos com aquela forma. Carretilha apresentando cabo liso, troncocónico, possui, no topo da extremidade proximal, reticulado inciso. Apresenta roseta de maior dimensão em relação às que integram os exemplares anteriores (Fig. 5-E).

Fotos:

A ornamentação patente na extremidade do cabo dos exemplares referidos confirma o que se encontra descrito no livro de 1788, onde se indica que certo doce era marcado com o pé da carretilha (Braga, 2004b: 54). Estes exemplares podem, eventualmente, ser atribuídos aos séculos XVII-XVIII.

Uma outra variante formal de carretilha mostra cabo cuja extremidade proximal termina em pinça, contendo no interior barra, de um e de outro lado, formada por série de incisões que serviriam para melhor fechar a massa. A superfície exterior do cabo oferece finas linhas dispostas obliquamente (Fig. 5-F). Este artefacto poderia ter sido produzido nos finais do século XVIII ou nos inícios da centúria seguinte. Scappi (1570: 950) apresenta imagem de pinça que denomina de “molete perpasta”, cuja extremidade termina em ziguezague e com funcionalidade quiçá idêntica à da pinça da carretilha que antes referimos.

Carretilha com dupla roseta, e diferente dimensão (Fig. 5-G), oferece naquelas quatro orifícios, apresentando fino cabo liso que as une. Poderá corresponder a peça importada, embora com a mesma cronologia do exemplar anterior.

As carretilhas produzidas totalmente em osso apresentam forma similar às dos exemplares metálicos, oferecendo o cabo decorado através de incisões, com duas ou três bandas de carácter geométrico, formando espinhados, ziguezagues ou teoria de sulcos oblíquos. Alguns possuem, na extremidade proximal, pequena esfera que, em um dos exemplares, apresenta argola para suspensão (Figs. 6-H, I e J). Uma delas diferencia-se por o eixo que suporta a roda ser, também, de osso (Fig. 6-J). A extremidade proximal desta carretilha termina em figa, vendo-se o pulso e motivo decorado com losangos, eventualmente, associado a manga.

A figa constitui talismã, com propriedades apotropaicas e antecedentes bem recuados, podendo a sua representação na extremidade de carretilha constituir símbolo protetor da atividade desenvolvida por aquele utensílio.

Os exemplares totalmente fabricados com madeira seriam os mais comuns, possuindo, apenas, o eixo, onde circulava a roda, de metal. Apresentam decoração constituída por linhas incisas na parte superior da extremidade que suporta a roda, assim como no início e na extremidade proximal do cabo, que é normalmente rematado por pequena esfera.

Apenas uma delas possui roda de osso (Figs. 6-K, L e M).

Já dos anos sessenta da passada centúria, carretilha oferece roseta encabada em baquelite (Fig. 6-N).

SÍNTESE

O fragmento de carretilha metálica recolhido em Silves, no interior de cozinha de espaço habitacional integrado em quarteirão dos séculos XV-XVI, é, tanto quanto sabemos, o único daquele tipo de artefacto encontrado durante escavação arqueológica. Ele procede de contexto arqueológico e possui cronologia que pode ser algo ulterior às imagens que constam no livro de Scappi (1570: 922, 926, 948, 950), constituindo forma que alcançou o século XIX.

Observa-se a acentuada diferença dimensional entre os exemplares de madeira, que poderá resultar da sua utilização por indivíduos de género distinto.

Todas as carretilhas, independentemente da cronologia, oferecem como característica principal a presença de roda com bordo recortado em ziguezague inserida em eixo, e este fixado à extremidade distal bifurcada de cabo.

As variantes morfológicas que se verificam nas carretilhas encontram-se, ainda, presentes nos efeitos produzidos pelos recortes do gume da roda que, embora todos em ziguezague, oferecem diferentes ângulos, larguras e ritmos, influindo na decoração ou nos bordos dos cortes que se pretendiam obter. O mesmo regista-se nas marcas deixadas pela impressão dos discos proximais daquelas, confirmando a sua dupla função de cortar e fechar a massa e, também, de a decorar (Fig. 7).

O cabo de carretilha que apresentamos foi identificado na Zona da Arrochela, no interior de compartimento que, pelas materialidades ali encontradas, terá correspondido a sector de cozinha onde, entre outros ali-

FIG. 6 – Diferentes formas de carretilhas produzidas em osso, madeira e baquelite.
0 3 cm
Fotos:
J. Gonçalves.

mentos, se terão, também, confecionado bolos ou massas para consumo dos residentes ou, eventualmente, para serem vendidos às elites que viviam neste sector da cidade de Silves. De simples utensílio de cozinha, a carretilha passou a artefacto arqueológico, ainda pouco conhecido, mas que merece a nossa atenção.

AGRADECIMENTOS

Estamos reconhecidos à D. Nazaré Costa, por nos ter disponibilizado imagens da Revista Portuguesa de Culinária e facultado algumas carretilhas da sua coleção, assim como a Duarte Oom, pela oferta de carretilha dos anos sessenta do passado século. Devo, em particular, ao Mário o incentivo para escrever este texto, assim como muitos outros que temos publicado, ao logo dos cinquenta anos de vida em comum.

FIG. 7 – Efeitos produzidos pelo recorte do gume da roda.

1. Carretilhas metálicas;

2. Carretilhas de osso ou madeira; 3. Marcas deixadas pelos discos proximais de carretilhas metálicas e matriz cordiforme, para recorte de massa.

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A Arqueologia na Reabilitação Urbana o caso da Torre do Relógio, em

Amareleja

1. TORRE DO RELÓGIO, BREVE DESCRIÇÃO

Oimóvel também denominado de Igreja da Praça está localizado na Praça da República, freguesia de Amareleja, no concelho de Moura (Fig. 1). Foi edificado no início do século XIX, através de donativos particulares, e seria para funcionar como complemento à igreja matriz da vila de Amareleja, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição. No entanto, a sua construção nunca foi terminada (Lobato, 2012: 61).

A partir de 1838, o local foi utilizado como cemitério e em 1879 terão recomeçado as obras, numa tentativa de concluir a sua construção (IDEM, ibidem).

Corresponde a um edifício construído em alvenaria de pedra, onde apenas a torre, que lhe dá o nome, se encontra(va) pintada em tons de ocre claro e vermelho óxido de ferro (Saraiva, 2016: 3). Ainda hoje serve como suporte aos relógios que ornamentam as suas quatro faces.

Na fachada principal, a nascente, o vão de entrada dá acesso ao que seria a nave da igreja, coroada pela área da capela-mor; a sul desta, existe o volume ocupado pela sacristia; o acesso à torre faz-se pelo interior da nave.

O imóvel, antes da sua requalificação, funcionava esporadicamente como recinto de espetáculos, festas ou exposições; apenas a torre e o que seria o espaço do oratório possuíam cobertura. Todas as restantes áreas (nave central, capela-mor e sacristia) estavam a descoberto, reforçando a imagem de ruína que caracterizava o conjunto (Saraiva, 2016: 3). Esta edificação não se encontra(va) abrangida por qualquer classificação/proteção patrimonial: o trabalho arqueológico foi realizado por indicação do Município de Moura, pelo conhecimento da sua utilização como espaço sepulcral.

ARQUEOLOGIA

RESUMO

Apresentação de resultados do acompanhamento arqueológico da empreitada de requalificação do imóvel denominado de Torre do Relógio, na vila da Amareleja, em obra promovida pela Câmara Municipal de Moura. Embora o edifício não se encontrasse abrangido por qualquer proteção patrimonial, o trabalho arqueológico foi solicitado pelo município, dado o conhecimento da utilização da zona como cemitério. Foram exumadas 17 inumações primárias e uma deposição secundária, e balizou-se a utilização do espaço como necrópole por um período de 31 anos, entre 1838 e 1869.

Palavras-chave: Arqueologia urbana; Antropologia biológica; Século XIX; Necrópole; Gestão do Património.

ABSTRACT

Presentation of the results of the archaeological monitoring of the Torre do Relógio building rehabilitation in Amareleja, Alentejo, carried out by the Moura Municipal Council. Although the building was not protected as heritage, the council required archaeologists’ intervention as it is known that the area was used as a cemetery. Seventeen primary inhumations and a secondary deposition were exhumed, showing that the place was used as a necropolis for 31 years, between 1838 and 1869.

Key words: Urban archaeology; Biological Anthropology; 19th century; Necropolis; Heritage Management.

RÉSUMÉ

Présentation de résultats de l’accompagnement archéologique de l’entreprise de réhabilitation de l’édifice appelé Torre do Relógio dans le village de Amareleja, dans le cadre de travaux promus par la mairie de Moura. Malgré le fait qu’aucune protection patrimoniale ne porte sur le bâtiment, l’intervention archéologique a été sollicitée par la municipalité au regard de l’utilisation connue de la zone comme cimetière. Ont été exhumées 17 inhumations primaires et un dépôt secondaire et l’on a balisé l’utilisation de l’espace en tant que nécropole sur une période de 31 ans, entre 1838 et 1869.

Mots Clés: Archéologie urbaine; Anthropologie biologique; XIXème siècle; Nécropole; Gestion du patrimoine.

1 Arqueóloga, Câmara Municipal de Moura (vanessa.gaspar@cm-moura.pt). Por opção da autora, o texto segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Foi recebido para publicação em 2026-04-29.

2. ACOMPANHAMENTO ARQUEOLÓGICO DE OBRA

O trabalho arqueológico aqui realizado ocorreu no âmbito da minimização de impactos decorrentes do projeto apresentado para a requalificação do imóvel, tendo em vista a criação de um espaço polivalente que permitisse a concretização de eventos culturais. Foram abertas sondagens arqueológicas, no interior, com o objetivo de identificar, classificar e registar os níveis arqueológicos, eventualmente, existentes no local. Pretendeu-se avaliar e acautelar patrimonialmente o subsolo nas áreas de implantação das sapatas necessárias para as construções previstas no projeto, nomeadamente um núcleo de receção e apoio ao visitante e duas escadas laterais de acesso ao placo. O plano de trabalhos contemplou a realização de nove sondagens arqueológicas (Fig. 2), com dimensões que variavam entre 1 x 1,5 m ou 1,5 x 1,5 m, e os 9 x 1 m; a profundidade escavada foi estabelecida em função da cota de afetação das construções a edificar (≈ 1 m). Num primeiro momento, foram retirados os pavimentos em cimento correspondentes às últimas fases de utilização do recinto e o nível subsequente, de enchimento, com uma componente artefactual atribuível aos séculos XIX-XX (fragmentos de cerâmica utilitária em faiança ou em cerâmica comum) e sem qualquer vestígio da presença de ossos humanos.

Foi no decurso da abertura das sondagens de menor dimensão, para as sapatas do núcleo de receção, que foram detetados os vestígios osteológicos humanos, a cerca de 60 cm de profundidade, num depósito cinzento e com uma elevada concentração de xisto desfeito (substrato rochoso) – esta característica contribuiu para uma significativa acidez do solo, que potenciou negativamente o estado de conservação / preservação dos vestígios osteológicos descobertos no local.

A similitude entre o solo onde foram escavadas as covas e o enchimento dessas mesmas estruturas negativas contribuiu para a dificuldade em identificar os seus limites e determinar a tipologia das suas plantas. No que concerne à orientação das sepulturas, na totalidade das estruturas intervencionadas, a cabeceira estava orientada para Este e os pés para Oeste – a única particularidade que afasta estes enterramentos dos cânones cristãos: em vez de estarem orientados de frente para o nascer do sol, encontravam-se de frente para o espaço que deveria corresponder ao altar-mor da igreja.

A existência destes enterramentos veio confirmar a utilização do espaço como necrópole. Por tal, procedeu-se à inclusão no trabalho arqueológico da antropóloga Patrícia Simão, responsável pelo trabalho antropológico realizado. Alguns dos dados aqui elencados resultam da análise do Relatório Antropológico, de sua autoria.

2 –

do imóvel com a localização das áreas intervencionadas.

sondagens arqueológicas alargamentos de áreas

FIG. 1 – Torre do Relógio, Amareleja.
FIG.
Planta

2.1.

Implantada com uma dimensão de 1 x 1,5 m, encostada à parede sul do imóvel. Foram identificadas duas sepulturas: a Sepultura 9 e a Sepultura 12 (Fig. 3).

Sepultura 9 – Detetada a 83 cm abaixo do pavimento, correspondia à inumação primária incompleta de um indivíduo imaturo (cota absoluta tirada no cotovelo: 201,33 m), de idade à morte compreendida entre os seis e os 12 meses (Simão, 2019: 23-25). O espólio arqueológico associado a esta inumação era constituído por um objeto em metal fragmentado, possivelmente de adorno, encontrado junto ao crânio.

Sepultura 12– Encontrada a 91 cm de profundidade, correspondia à inumação primária completa de um indivíduo maturo de sexo masculino (cota abs. no úmero direito: 201,31 m), de idade à morte compreendida entre os 25 e os 55 anos (Simão, 2019: 28-29) (Fig. 4). O espólio arqueológico era constituído por um alfinete em metal, encontrado na zona da mandíbula; por um conjunto de contas cor-de-rosa, recolhidos na região das costelas; e por diversas contas de rosário (brancas e pretas), detetadas na cintura pélvica.

2.2. Sondagem 2

Sepultura 12

Sepultura 9

FIGS. 3 e 4 – Sondagem 1, desenho das sepulturas 9 e 12 (à esquerda), com fotografia desta última (em baixo).

– Sepultura 6: encontrada a 57 cm abaixo do pavimento, correspondia à inumação primária incompleta de um feto (cota abs. nas costelas: 201,56 m), com cerca de 38 a 40 semanas de gestação (Simão, 2019: 19). Não foi recolhido qualquer espólio arqueológico associado ao enterramento.

Com uma dimensão de 1 x 1,5 m, foi implantada encostada à parede sul do imóvel. Foram identificadas quatro sepulturas: a Sepultura 5, a Sepultura 6, a Sepultura 11 e a Sepultura 17 (Fig. 5).

– Sepultura 5: detetada a 74 cm de profundidade, em que a metade esquerda foi parcialmente cortada pela Sepultura 17, e poderá ter sofrido alguma afetação com a abertura da cova para a colocação do enterramento pertencente à Sepultura 11. No entanto, a maior afetação ocorrida nesta sepultura terá sido provocada pela Sepultura 17. Correspondia à inumação primária muito incompleta de um indivíduo adulto do sexo masculino (cota abs. no crânio: 201,55 m). Pela baixa preservação do esqueleto, não foi possível estimar a idade à morte (Simão, 2019: 18-19).

O espólio arqueológico associado era constituído por um conjunto de contas de rosário (cor branca), encontradas na cintura pélvica, e por um botão de punho (em bronze) com decoração vegetalista no anverso, e as letras AH no reverso, possivelmente as iniciais do indivíduo.

Sepultura 5

Sepultura 6

FIG. 5 – Sondagem 2, sepulturas 5, 6, 11 e 17.

Sepultura 17

Sepultura 11

0 50 cm

– Sepultura 11: encontrada a 64 cm de profundidade, correspondia a uma estrutura negativa escavada no sedimento, de planta possivelmente ovalada. Cortou a Sepultura 17 e, com exceção do feto da Sepultura 6, terá sido o último enterramento a ocorrer na sequência observada na Sondagem 2. Correspondia à inumação primária muito incompleta de um indivíduo infantil (cota abs. no pé esquerdo: 201,52 m), de idade à morte entre os três e os cinco anos (Simão, 2019: 27) (Fig. 6). Não foi observado qualquer espólio arqueológico associado a este enterramento. – Sepultura 17: detetada a 72 cm abaixo do pavimento, correspondia à inumação primária incompleta de um imaturo (cota abs. na patela: 201,47 m), de idade à morte entre os dois e os quatro anos (Simão, 2019: 37-38). Não foi observado qualquer espólio arqueológico associado a este enterramento. Esta sepultura foi cortada pela Sepultura 11 e cortou parcialmente (metade esquerda) a Sepultura 5.

2.3. Sondagem 3

Implantada com uma dimensão de 1,5 x 1,5 m, paralela à Sondagem 1. Os primeiros vestígios osteológicos humanos e algum espólio funerário, nomeadamente um botão com patine de prata e decoração floral, foram detetados no sedimento cinzento com uma elevada concentração de xisto desfeito. Foram identificadas duas sepulturas (a Sepultura 10 e a Sepultura 14) e uma Deposição Secundária, à qual se atribuiu o N.º 1 (Fig. 7).

– Sepultura 10: observada a 91 cm de profundidade, correspondia à inumação primária completa de um maturo feminino (cota abs. no úmero esquerdo: 201,28 m), de idade à morte superior a 21 anos (Simão, 2019: 25). O espólio arqueológico associado a esta inumação era constituído por um fragmento de anel e um alfinete em metal, encontrados junto às mãos sobrepostas; um colchete em metal, detetado na cintura pélvica; um botão em massa, recolhido junto ao pulso esquerdo; e um conjunto de contas de rosário (cor branca), dispersos pelo enchimento da sepultura. Aquando da definição deste esqueleto, foi detetado um outro crânio no mesmo alinhamento, mas um pouco mais a Este. Após a exumação do enterramento da Sepultura 10 constatou-se que, por baixo, existia uma outra sepultura – Sepultura 14 – que teria sido afetada aquando da abertura da cova para a colocação deste último enterramento. Constatou-se, igualmente, que o crânio observado não estava em articulação com os restantes ossos da inumação e que, possivelmente, essa interferência na pré-existência (Sepultura 14) poderá ter dado origem à Deposição Secundária 1.

2019: 34-36). O espólio arqueológico associado era constituído por um conjunto de contas de rosário (predominantemente de cor branca e, em menor número, de cor preta), concentrados na zona pélvica. Este enterramento correspondia ao mais antigo da sequência observada na Sondagem 3 e terá sido afetado aquando da abertura da cova para um enterramento posterior (Sepultura 10). Aparentemente, desta afetação terá resultado a Deposição Secundária 1.

– Deposição Secundária 1: localizada à cabeceira da Sepultura 14, era constituída por um pequeno conjunto de ossos, dos quais se destaca o crânio anteriormente referido (cota abs. no crânio: 201,34 m). A

Deposição Secundária 1

– Sepultura 14: encontrada a 95 cm de profundidade, correspondia a uma estrutura escavada diretamente no substrato rochoso (xisto); o depósito da sepultura apresentava as mesmas características que a generalidade dos sedimentos escavados associados aos enterramentos (sedimento acinzentado com lascas de xisto). De planta aparentemente sub-retangular, correspondia à inumação primária incompleta de um maturo feminino (cota abs. no fémur direito: 201,24 m) (Simão, 0 50 cm

Sepultura 14

Sepultura 10

FIG. 7 – Sondagem 3, sepulturas 10 e 14 e Deposição Secundária 1.

FIG. 6 – Sondagem 2, Sepultura 11.

ausência de orientação e organização na deposição dos vestígios ósseos levou a que fosse colocada a hipótese de corresponder a uma redução da Sepultura 14 (Simão, 2019: 34). As características do depósito eram em tudo semelhantes aos restantes: sedimento acinzentado com lascas de xisto. O espólio encontrado era constituído por contas de rosário brancas.

2.4. Sondagem 4

Implantada numa área de 1,5 x 1,5 m, paralela à Sondagem 2 e no alinhamento da Sondagem 3. A estratigrafia observada não diferiu das restantes áreas intervencionadas, mas aqui não foram detetadas quaisquer inumações, somente vestígios osteológicos humanos dispersos e alguns objetos que nos remetem para um contexto sepulcral, como, por exemplo, contas de rosário brancas e pretas e uma conta vítrea azul.

2.5. Sondagem 5

Com uma dimensão de 1,5 x 1,5m, foi implantada paralela às sondagens 1 e 3. Nesta sondagem foi identificada a Sepultura 8. – Sepultura 8: detetada a 86 cm de profundidade, correspondia a uma inumação primária muito incompleta. Apenas restavam in situ parte das costelas direitas e das vértebras torácicas, provavelmente de um maturo (cota abs. nas vértebras torácicas: 201,29 m), sem ter sido possível determinar a idade à morte (Simão, 2019: 22-23). O espólio arqueológico recolhido no seu enchimento correspondeu, unicamente, a uma conta de rosário branca.

2.6. Sondagem 6

Foi implantada numa área de 1,5 x 1,5 m, paralela às sondagens 2 e 4. Aqui, foram identificadas duas sepulturas: a Sepultura 4 e a Sepultura 13 (Fig. 8). – Sepultura 4: detetada a 87 cm abaixo do pavimento. O sedimento de enchimento apresentava algumas características diferenciadoras dos demais, nomeadamente ao nível da coloração: um sedimento arenoso castanho, e não acinzentado, com presença de caracóis para além dos ossos humanos. Correspondia a uma inumação primária completa, provavelmente de um indivíduo maturo do sexo masculino (cota abs. no fémur esquerdo: 201,33 m), cuja idade à morte seria superior a 30 anos (Simão, 2019: 14). O espólio arqueológico recolhido no enchimento da sepultura era constituído por um pequeno fragmento de faiança, e por um significativo conjunto (aproximadamente 270 unidades) de contas de rosário de dife-

rentes matérias e cores (branco, preto e azul), recolhidas na região pélvica [optou-se por recriar fotograficamente parte de um terço (ou rosário) por forma a visualizar a conjugação de contas brancas e de contas pretas, ou seja, a conjugação de Ave Maria(s) e de Pai Nosso(s) evocados aquando da reza]. Entre estas contas, destacam-se duas que ainda preservam a armação/ligação metálica original.

– Sepultura 13: detetada após a exumação da inumação correspondente à Sepultura 4, a 94 cm de profundidade (Fig. 9). Correspondia a uma estrutura negativa escavada no solo, sendo a base da cova o substrato rochoso. O sedimento de enchimento apresentava as mesmas características diferenciadoras detetadas no depósito da Sepultura 4, fundamentalmente ao nível da coloração: castanha em vez de acinzentada. Correspondia à inumação primária muito incompleta de um indivíduo maturo (cota abs. no úmero esquerdo: 201,29 m), possivelmente do sexo feminino, sem ter sido possível determinar a idade à morte (Simão, 2019: 31-33). Não foi detetado qualquer espólio associado a este enterramento.

Sepultura 13

Sepultura 4

FIGS. 8 e 9 – Sondagem 6, desenho das sepulturas 4 e 13 (à esquerda) e fotografia desta última (em cima).

2.7. Sondagem 7

A sondagem 7 foi implantada numa área de 1 x 1,5 m encostada à parede norte do imóvel, paralela às sondagens 1, 3 e 5.

Nesta sondagem foram identificadas três sepulturas: a Sepultura 7, a Sepultura 15 e a Sepultura 16 (Fig. 10).

– Sepultura 7: detetada a 78 cm abaixo do piso, onde o sedimento de enchimento apresentava as características diferenciadoras verificadas nas sepulturas da Sondagem 6 (sedimento arenoso castanho, e não acinzentado, com presença de caracóis, para além de ossos humanos dispersos). Correspondia à inumação primária completa de um adulto do sexo feminino (cota abs. no ilíaco: 201,41 m), cuja idade à morte se situou entre os 35 e os 65 anos (Simão, 2019: 20-21) (Fig. 11). O espólio arqueológico recolhido era caracterizado por um conjunto de contas brancas e por uma única conta verde. Foi ainda recolhido, junto ao crânio, um conjunto de fragmentos de vidro de diferentes cores (transparente, verde, laranja, amarelo, preto e castanho), que poderia pertencer a um adorno colocado na cabeça e/ou cabelo da mulher, bem como um brinco em bronze. Após a exumação do enterramento, constatou-se que esta sepultura teria cortado outras duas previamente existentes: a Sepultura 15 e a Sepultura 16. Ambas seriam inumações de crianças e, muito embora estivessem bastante incompletas, corresponderiam necessariamente a dois indivíduos.

15

– Sepultura 15: encontrada a 82 cm abaixo do pavimento, correspondia à inumação primária muito incompleta de um imaturo, com idade à morte entre os cinco e os sete anos (Simão, 2019: 36), representado apenas pelo úmero e pela omoplata direitos (cota abs. no úmero direito: 201,41 m), possivelmente fruto da afetação relacionada com a colocação da Sepultura 7, mais recente. O espólio arqueológico recolhido no enchimento da sepultura correspondeu, unicamente, a uma conta de rosário branca.

– Sepultura 16: detetada a 77 cm de profundidade, correspondia à inumação primária muito incompleta de um imaturo, com idade à morte entre os zero e os quatro anos (Simão, 2019: 36-37), apenas representada pelo crânio e vértebras cervicais (cota abs. no crânio: 201,48 m), possivelmente fruto da afetação relacionada com a colocação da Sepultura 7, mais recente. Não foi detetado qualquer espólio arqueológico.

FIGS. 10 e 11 – Sondagem 7, desenho das sepulturas 7, 15 e 16 (à esquerda) e foto da primeira (em baixo).

2.8. Sondagem 8

A sondagem 8 foi implantada numa área de 1 x 1,5 m, encostada à parede norte do imóvel e paralela às sondagens 2, 4 e 6.

Nesta sondagem foram identificadas três sepulturas: a Sepultura 1, a Sepultura 2 e a Sepultura 3 (Fig. 12).

– Sepultura 1: detetada a 86 cm de profundidade, correspondia à inumação primária bastante incompleta de um maturo do sexo feminino (cota abs. na omoplata: 201,41 m), sem ter sido possível determinar a idade à morte (Simão, 2019: 6). O espólio arqueológico recolhido neste enterramento consistiu num conjunto de contas de rosário brancas, detetadas na zona das costelas. De referir, também, que esta sepultura foi parcialmente cortada pela Sepultura 2.

– Sepultura 2: observada a 83 cm abaixo do pavimento, correspondia à inumação primária completa de um maturo masculino (cota abs. no fémur direito: 201,40 m), cuja idade à morte se situava entre os 21 e os 46 anos (Simão, 2019: 7-8). O espólio arqueológico associado ao

Sepultura 7
Sepultura
Sepultura 16

enterramento era caracterizado por um conjunto de contas de rosário de diferentes cores (branco, preto e azul), por uma medalha em prata dourada cuja evocação não foi possível descortinar, recolhida na zona das mãos, e por um botão de punho em bronze com decoração vegetalista.

Sepultura 3 – Encontrada a 70 cm de profundidade, correspondia à inumação primária incompleta de um imaturo (cota abs. no fémur esquerdo: 201,51 m), cuja idade à morte seria de dois meses (Simão, 2019: 12) (Fig. 13). O espólio arqueológico associado ao enterramento era constituído por dois alfinetes, provavelmente relacionados com a utilização de mortalha.

3. A IGREJA DA PRAÇA COMO NECRÓPOLE

A bibliografia indicava-nos que a Igreja da Praça não tinha chegado a ser concluída, que em 1838 teria sido transformada em cemitério, e que em 1879 teria sido intentado o recomeço das obras, tendo em vista a sua conclusão (algo que não veio a acontecer).

Foi este dado que levou a equipa de Arqueologia do Município de Moura a considerar que o projeto de requalificação do imóvel necessitaria de trabalho arqueológico, nomeadamente nos locais definidos para a abertura das sapatas necessárias para a construção do núcleo de receção e do muro de apoio ao palco (e respetivas escadas laterais).

O Padre João Rodrigues Lobato, no seu livro Amareleja, Rumo à sua História, de 1961, especifica: “Em 23 de abril de 1838, foi enviado ofício desta Câmara em que se diz que para maior utilidade deste povo, devia fazer-se cemitério no sítio da Igreja Nova (Igreja da Praça). Foram avisados os vizinhos […] para que todos concorressem para a feitoria de uma obra tão sagrada” (Lobato, 2012: 96).

Refere igualmente que, em 1879, “[…] tendo em consideração a pequenez e reduzidas dimensões da Igreja Paroquial […] foi autorizado pelo governo a intenção de acabar as obras da igreja, tendo sido […] concedidos dois contos de reis […]” (IDEM, ibidem). Ou seja, face aos dados publicados por este autor, os enterramentos teriam ali ocorrido entre 1838 e 1879. Numa tentativa de melhor perceber e enquadrar a utilização sepulcral do lugar, procedeu-se à pesquisa dos Registos Paroquiais da Paróquia de Amareleja, disponíveis (online) no Arquivo Nacional Torre do Tombo e no Arquivo Distrital de Beja.

Nessas consultas, constatou-se que, até ao início de março de 1838, as referências aos enterramentos eram, praticamente, sempre as mesmas –“[…] foi sepultado(a) em cova da(e) fábrica o corpo do(a) falecido(a)” –,

Sepultura 3 Sepultura 2

Sepultura 1

FIGS. 12 e 13 – Sondagem 8, desenho das sepulturas 1, 2 e 3 (à esquerda) e foto desta última (em baixo).

ou seja, em sepulturas pertencentes à Fábrica da Igreja (Franco, 2010: 619). O local da sepultura era variável, dentro ou fora da igreja. Por exemplo, em 1672, Luís Martins é sepultado em cova da fábrica, dentro da igreja (IDEM, ibidem), e, em 1801, Sebastiana Janeira é sepultada na capela-mor (IDEM: 638), entre inúmeros outros registos em que não encontramos qualquer alusão ao sítio.

A partir do final de março de 1838, passa a existir – na minuta redigida pelo pároco – uma outra referência: “[…] no cemitério desta Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Amareleja, do termo da Villa de Moura, foi sepultado o corpo do (a) falecido(a)”

Esta “minuta” foi replicada durante vários anos, até que em meados de fevereiro de 1869 passa a existir, no registo, a menção: “sepultado no Cemitério público”. Em 1870, a minuta passa a ser impressa, com espaços disponíveis para o pároco preencher os dados do indivíduo falecido. Pelos dados aferidos na consulta dos Registos Paroquiais, o período de utilização do local como necrópole foi de 1838-03-31 a 1869-02-14, ou seja, funcionou na Igreja da Praça durante 31 anos, uma vez que a partir de 1869 os enterramentos passam a ser realizados e registados no Cemitério Público.

No decurso do século XIX, assiste-se à produção de legislação régia que regulamenta a criação de Cemitérios Públicos, nomeadamente o Decreto de 21 de setembro de 1835, que legisla de uma forma bastante pormenorizada as regras inerentes à criação desses espaços sepulcrais: o Artigo

1.º refere explicitamente que “Em todas as Povoações serão estabelecidos Cimiterios Publicos para nelles se enterrarem os mortos”; do Artigo 2.º ao Artigo 5.º definem-se as regras para a implantação e construção destes espaços, bem como para a deposição do próprio corpo; o Artigo 6.º define que “As Camaras Municipaes designarão os terrenos […] para nelles se estabelecerem os Cemiterios […]”, entre outras disposições regulamentares.

Em suma, em 1835 é produzida legislação que decreta a obrigatoriedade de, em todas as povoações, serem criados Cemitérios Públicos, e remete para a respetiva Câmara Municipal definir o sítio. Em abril de 1838, a Câmara de Moura faz saber, via ofício, que o local escolhido em Amareleja seria a Igreja da Praça (Lobato, 2012: 96).

Existe, porém, uma discrepância nas datas apresentadas, mais concretamente de 28 dias, entre o primeiro enterramento registado como tendo sido realizado no cemitério (a 31 de março de 1838) e o envio do ofício que determina a utilização da Igreja da Praça como Cemitério (a 28 de abril de 1838). Poderá este ofício ter servido para validar e reconhecer a sua utilização como necrópole, uma vez que os enterramentos já ali tinham sido iniciados.

4. CONCLUSÃO

Os resultados desta intervenção arqueológica comprovam a utilização da Igreja da Praça como Cemitério e os dados históricos recolhidos circunscrevem cronologicamente a sua utilização em cerca de 31 anos – entre 1838 e 1869.

Das nove sondagens intervencionadas – oito delas necessárias para a construção do núcleo de receção e apoio ao visitante e uma outra justificada pela construção de duas escadas laterais de apoio ao palco –, apenas na Sondagem 9 não foram observados quaisquer vestígios osteológicos humanos (facto explicado pela cota superficial em que aflorava o substrato rochoso).

Nas restantes sondagens abertas, foram detetados vestígios osteológicos humanos: na Sondagem 4, apenas de uma forma dispersa; nas restantes, em contextos preservados.

Da intervenção realizada na Torre do Relógio, em Amareleja, exumaram-se 17 inumações primárias e uma deposição secundária, acrescendo um conjunto de fragmentos ósseos dispersos (Simão, 2019: 5). Em seis das nove sondagens foi necessário recorrer a alargamentos, uma vez que as inumações ultrapassavam os limites das áreas predefinidas, o que significou um acréscimo de área escavada de cerca de 4 m2.

O espólio arqueológico recolhido estava, maioritariamente, relacionado com a utilização fúnebre do local: de carácter religioso e/ou votivo, onde se destacam as inúmeras contas de rosário/terço, as medalhas, ou mesmo os alfinetes, provavelmente relacionados com a utilização de mortalha (Fig. 14); de adorno, como brincos, anéis e outras peças vítreas (Fig. 15); ou peças relacionadas com o vestuário utilizado pelos indivíduos sepultados, fundamentalmente botões metálicos (Fig. 16) ou colchetes. Excetuam-se os níveis que sobrepõem os enterramentos, que apresentavam alguns fragmentos de cerâmica, cronologicamente enquadráveis nos séculos XIX-XX.

Importa, também, referir que não foram detetados outros quaisquer vestígios arqueológicos que não os relacionados com a utilização do espaço como necrópole.

FIG. 14 – Objetos com simbologia religiosa, votiva.

FIG. 15 e 16 – Objetos de adorno (à esquerda) e objetos associados a vestuário (em cima).

BIBLIOGRAFIA E WEBGRAFIA

Arquivo Distrital de Beja / DigitArq (16971911) – Registo de Óbitos. Paróquia de Amareleja. Ref.ª Pt/Adbja/Prq/Mra01/003.

https://bit.ly/3QTmndI

Arquivo Nacional Torre do Tombo / DigitArq (1811-1840) – Registos de Óbito. Distrito de Beja, concelho de Moura, Paróquia de Amareleja. Ref.ª Pt/Tt/Prq/Pmra01/003.

https://bit.ly/3QS1lMx Decreto de Criação dos Cemitérios Públicos (1835) – Colecção de Leis e Outros Documentos Officiaes Publicados (1834-1836). Lisboa: Imprensa Nacional, pp. 326-328 (1835-09-21).

https://bit.ly/4nkN3Ai

Franco, Norberto (2010) – Amareleja, População e Sociedade (1600-1911). Moura: Câmara Municipal de Moura.

Harris, Edward C. (1991) – Principios de Estratigrafía Arqueológica. Barcelona: Editorial Crítica

Lobato, João Rodrigues (2012) – Amareleja, Rumo à sua História. Évora: Gráfica Eborense Saraiva, Tiago Mota (2016) – Projeto de Requalificação da Torre do Relógio da Amareleja. Memória Descritiva. Lisboa: Ateliermob. Simão, Patrícia (2019) – Igreja da Praça / Torre do Relógio (Amareleja, Moura). Relatório Antropológico de campo.

[ligações à Internet activas em 2026-07-05]

FICHA TÉCNICA

Levantamento da Torre do Relógio: António Godinho e José Branquinho.

Acompanhamento arqueológico: Rogério Henriques (Assistente Operacional); Luísa Almeida e Mário Romero (Técnicos de Arqueologia); Vanessa Gaspar (Arqueóloga).

Antropologia: Patrícia Simão (Antropóloga).

Desenhos de campo: Marta Coelho (Técnica de Arqueologia).

Fotografias: Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Moura e Vanessa Gaspar. Conservação e Restauro: Marta Coelho.

RESUMO

Síntese dos trabalhos arqueológicos realizados, entre 2021 e 2024, no acompanhamento da obra de construção dos Viadutos do Campo Grande - Lote 3, em Lisboa, no âmbito do Plano de Expansão do Metropolitano de Lisboa. Ao enquadramento histórico-arqueológico da zona de intervenção segue-se a descrição das estruturas e materiais arqueológicos mais relevantes, de cronologias que vão desde o Paleolítico Médio ao Período Contemporâneo, com especial ênfase para os finais do século XV e a 1.ª metade do século XVI.

Palavras-chave: Arqueologia urbana; Idade Moderna; Espólio arqueológico.

ABSTRACT

Summary of the archaeological works carried out between 2021 and 2024during the construction of the Campo Grande Viaducts - Lot 3, in Lisbon, within the framework of the Lisbon underground expansion plan. This article contextualises the intervention area historically and archaeologically, and goes on to describe the most relevant archaeological structures and materials from the Middle Palaeolithic to the present day, with a particular focus on the late 15th century and the first half of the 16th century.

Key words: Urban archaeology; Modern age; Archaeological assets.

RÉSUMÉ

Synthèse des travaux archéologiques réalisés entre 2021 et 2024 lors de l’accompagnement des travaux de construction des Viaducs du Campo Grande-Lote 3, à Lisbonne, dans le cadre du Plan d’Expansion du Métropolitain de Lisbonne.

Après l’encadrement historico-archéologique de la zone d’intervention, on a la description des structures et matériaux archéologiques les plus marquants, de chronologies qui vont du Paléolithique Moyen à la Période Contemporaine, avec une emphase particulière sur la fin du XVème et la 1ère moitié du XVIème siècles.

Mots Clés: Archéologie urbaine; Période moderne; Butin archéologique.

1 Arqueólogos(as), Amphora Arqueologia, Lda. Por opção dos autores, o texto não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Foi recebido para publicação em 2026-01-05.

síntese

dos trabalhos arqueológicos realizados no

Viaduto do Campo Grande, Torre Vicentina, Rampa de Garagem / / Metropolitano de Lisboa

Vítor Rafael C. Sousa 1, Rui Pina 1, Bruno Silva 1 , Guilherme Sarmento 1 e Catarina Gomes 1

INTRODUÇÃO

Os trabalhos arqueológicos descritos no presente artigo tiveram o seu enquadramento através do Projecto de Construção de Toscos, Acabamentos e Sistemas no âmbito do Plano de Expansão do Metropolitano de Lisboa - Prolongamento das Linhas Amarela e Verde- Viadutos do Campo Grande - Lote 3, cujo executante foi o Agrupamento Complementar de Empresas: Teixeira Duarte - Somafel - Viadutos do Campo Grande, também designado por Ace.

As intervenções arqueológicas (acompanhamentos e escavação manual) foram realizadas pela empresa Amphora Arqueologia, Lda. Iniciaram-se em Dezembro de 2021 e terminaram em Março de 2024.

A intervenção arqueológica realizou-se junto à antiga Estrada de Telheiras, Freguesia do Lumiar, Concelho de Lisboa (Fig. 1).

A equipa foi constituída por um máximo de cinco arqueólogos, entre o acompanhamento dos trabalhos de escavação mecânica e a escavação manual na nova rampa de acesso à garagem da Torre Vicentina, sendo os achados no local desta última o objecto do presente artigo.

O início dos trabalhos para a escavação da referida rampa ocorreu em 7 de Fevereiro de 2022. Perante o aparecimento das primeiras estruturas arqueológicas, de inícios do século XX, evoluíram da fase do acompanhamento arqueológico para a de escavação arqueológica em toda a área que iria ser afectada pela obra.

A escavação realizou-se até à cota geológica, utilizando os princípios metodológicos de Barker (1977) e Harris (1991).

1. ENQUADRAMENTO GEOLÓGICO

O local da intervenção arqueológica enquadra-se geologicamente no Miocénico (Cenozoico), nos chamados Calcários de Entrecampos (Banco Real), constituído por “biocalcarenitos com fracção detrítica abundante, às vezes argilosos, ricos de moldes e/ou fragmentos de moluscos. Passa superiormente a areias muito finas e siltitos argilosos de cor cinzenta” (Pais et al., 2006: 14).

Também nesta área aparecem as “Areolas da Avenida da Estefânia”, constituídas por areias finas, algumas vezes argilosas, argilitos e alguns bancos de biocalcarenitos.

Tanto a Norte como a Sul do nosso local de intervenção, a realidade geológica é constituída pelas argilas do Miocénico, com as chamadas “Argilas de Forno do Tijolo”, a Norte, e as “Argilas de Prazeres”, constituídas por argilas e margas de lagunas litorais, as quais vieram a constituir a matéria-prima para os fornos e olarias de fabrico de telhas, tijolos, tijoleiras e outras cerâmicas, pelo menos desde o Período Romano. Destaca-se a presença dos vestígios da antiga fábrica de cerâmica J. Lino, a cerca de 170 metros da nossa área de intervenção.

A Este-Sudeste, na direcção do Campo Grande, os solos são constituídos por aluviões e aterros.

1 – Local da intervenção arqueológica.

2. BREVE ENQUADRAMENTO HISTÓRICO-ARQUEOLÓGICO

O local de intervenção arqueológica situa-se na Freguesia do Lumiar, Concelho de Lisboa, mais propriamente junto à antiga Estrada de Telheiras, encostada ao actual edifício designado por Torre Vicentina. A presença de abundantes linhas de água ao nível do subsolo, a pouca profundidade, terá sido um dos factores preferenciais para a instalação de ocupações humanas neste local. Como prova desses elementos relacionados com a abundância de água, dentro da intervenção arqueológica foi detectada a presença de um poço e de um tanque; na envolvente directa, dois poços e mais um tanque de água.

Os vestígios arqueológicos mais antigos encontrados nesta microrregião (Lumiar - Telheiras) correspondem à presença de elementos líticos do Paleolítico Médio, encontrados quando da escavação dos pilares para a construção do viaduto da Av. Padre Cruz, junto ao Paço do Lumiar, elementos esses registados pelo primeiro signatário durante um acompanhamento arqueológico (Sousa, 2006: 7), bem como outros núcleos com ocupações paleolíticas na Quinta de São Vicente - Telheiras, na Calçada de Carriche, na Alameda das Linhas de Torres e próximo da Musgueira. Para o Neolítico, segundo os trabalhos de Félix Alves Pereira, existem materiais arqueológicos no Alto dos Pinheiros - Outeiro das Arcas (Consiglieri et al., 1993: 79).

A Proto-História, ao nível da Idade do Bronze Médio, está representada através de sondagens realizadas em 2012 no “torreão ou compartimento avançado a Sul” do Convento de Nossa Senhora da Porta do Céu, as quais detectaram a presença de uma fossa / estrutura negativa com materiais cerâmicos e líticos contextualizados, pertencentes à cronologia supracitada. Embora a distância entre este local de sondagens e a nossa área de intervenção arqueológica seja de apenas cerca de 190 m, os materiais atribuíveis a essa época, no nosso local de escavação, são escassos ou nulos. Um estudo posterior e mais aprofundado dos materiais arqueológicos colectados poderá mudar esse quadro de informação.

FIG.

A presença romana no Lumiar e em Telheiras já era conhecida. No primeiro caso, com um sítio romano / tardo-romano detectado pelo primeiro signatário no acompanhamento arqueológico da construção do viaduto da Av. Padre Cruz (Cns 23428, Portal do Arqueólogo; Sousa, 2006) e de um forno (Cns 37438, Portal do Arqueólogo), não muito distante do primeiro local citado.

Quanto à localidade de Telheiras, no ano de 2004, durante obras da Epal, foi recuperada uma pedra de lioz epigrafada, com 50 x 50 cm, a qual servia de floreira na Quinta de Alberto Rodrigues de Almeida (antiga quinta do Ti Alberto), tendo sido a mesma transportada para a Igreja Paroquial de Telheiras. Trata-se de uma pedra com dupla utilização, honorífica e funerária, dedicada ao imperador Lúcio Aurélio Vero (c. 161 a 169 d.C.) e reutilizada como monumento funerário consagrado aos Deuses Manes e ao cidadão romano, de origem grega, Aulo Maximo Eniano, provavelmente ainda em finais do século II (Salvado, 2004).

As unidades geológicas com argilas, já referidas no capítulo da Geologia, e o topónimo de Telheiras (Teleiras), já assim conhecido no século XIII, reforça a hipótese da presença de fornos de telhas, realidade confirmada pela abundante presença de telhas tardo-romanas / alto-medievais, medievais e modernas, nos nossos trabalhos arqueológicos. Após a conquista da Lisboa islâmica e moçárabe, em 1147, D. Afonso Henriques doa territórios do Termo aos nobres e às ordens religiosas que o ajudaram nesse evento militar, em recompensa dos serviços prestados.

Ao longo do Período Medieval Cristão, aparecem as primeiras referências documentais a Telheiras, nomeadamente nas inquirições de D. Afonso III, em 1220. Nesse documento constatamos que Teleiras (Telheiras) pertencia ao Mosteiro São Vicente de Fora, citando os bens de sua pertença, nomeadamente, uma adega e três vinhas; em 1258 uma almoínha, um lagar e um pombal; e em 1277 mais duas courelas de vinha. É ainda no século XIII, mais propriamente em 1266, que é criada a freguesia do Lumiar, à qual Telheiras passou a pertencer. Nos séculos XIII, XIV, XV e XVI existem informações documentais esparsas sobre quintas, terrenos e testamentos para a área de Telheiras:

– 1286: O cavaleiro João Lopes de Ulho tinha uma quinta em Telheiras (Consiglieri et al., 1993);

– 1321: o Testamento de Lourenço Pires “deixa a sua mulher a quinta de Telheiras que fica por morte desta para seus filhos” (An-Tt / DigitArq, 1321);

– 1376: D. Sancha, mulher de Mestre Pero das Leis, tinha uma quinta em Telheiras (Consiglieri et al., 1993);

– 1407: Carta de emprazamento de uma terra com suas oliveiras em Telheiras aos Cónegos Regulares de Santo Agostinho, do Mosteiro de São Vicente de Fora (An-Tt / DigitArq, 1407);

– 1439: uma Carta de Perdão a Afonso Lourenço, morador em Telheiras, por ter servido na Armada de Tanger (An-Tt / DigitArq, 1439);

– Finais do século XV: “Tanto o Lumiar como o Paço do Lumiar eram sede julgado no Termo de Lisboa […], circunscrições com magistrados e oficiais privativos para administração da Justiça” (Consiglieri et al., 1993); – 1576: “Pedro Jácome Raimundo, fidalgo, e D. Luiza, sua mulher, filha de João de Parada, vendem uma quinta e uma terra, sitas na Estrada da Luz e em Telheiras […] ao licenciado Manuel de Lemos, Juiz de Fora de Tomar” (Mantas et al., 2003: 51).

Quanto a estruturas religiosas em Telheiras, temos conhecimento que, antes da construção da Igreja e Convento de Nossa Senhora da Porta do Céu, existia uma ermida com a mesma devoção e nome, onde foi sepultada Violante Dias, em 1614, a qual deixou testamento (Mantas et al., 2003: 17).

O nosso conhecimento documental sobre Telheiras aumenta substancialmente a partir da 1.ª metade do século XVII, quando D. João de Cândia compra a Quinta do Ouvidor Mor, em Telheiras, segundo a Nova Monografia do Lumiar (Ferreira e Lemos, 2008), ou Quinta do Ouvidor Geral, Pero ou Pedro Godins, segundo a Monografia do Lumiar (Mantas et al., 2003), assunto que merece um futuro estudo e desenvolvimento.

Quem era D. João de Cândia e como chegou aqui a Telheiras? O Príncipe D. João de Ceytavaca de Cetercolas nasceu no Ceilão (actual Sri Lanka) cerca de 1578. Subiu ao trono de Cândia em 1591 com apenas 13 anos e foi deposto por um dos seus vassalos. Foi salvo por Frei Francisco do Oriente, tendo recolhido ao Colégio dos Reis Magos de Bardés, Goa, onde esteve cerca de 15 anos (Mantas et al., 2003: 15). Quando do seu acolhimento pelos franciscanos, foi baptizado e tomou o nome de D. João da Áustria (Larcher, 2008: 32). “Por ordem de Filipe I de Portugal, veio para o Convento de São Francisco de Lisboa. Foi conduzido pelos religiosos a Madrid, onde se converteu ao sacerdócio, renunciando aos Reinos de Cândia, Cota, Ceitavaca e Setecorlas. O rei fê-lo sentar-se no banco dos bispos, mandando-lhe acrescentar as rendas de 4.000 cruzados para 8.000 cruzados […] um sacerdote com toda a ostentação de um príncipe” (Mantas et al., 2003: 15).

Regressa a Lisboa e funda a Irmandade de Nossa Senhora da Porta do Céu em 1625. Compra uma quinta entre os campos de Alvalade e o sítio da Luz (Quinta do Ouvidor Mor ou do Ouvidor Geral), em 1630, para os frades da Ordem de São Francisco, seguindo a norma da Ordem Franciscana, que privilegiava a fundação das suas casas em lugares ermos e perto de cursos de água (Ferreira e Lemos, 2008: 101). Nessa quinta, no local da antiga ermida, manda construir uma igreja e um convento para os frades franciscanos, onde passam a habitar cinco religiosos. O próprio D. João de Cândia habita, alternadamente, entre o Convento de Telheiras e um Palacete que possuía na Rua da Mouraria, em Lisboa, em 1634.

O local passou a ser conhecido por várias designações: Quinta do Príncipe, Quinta de D. João, Quinta de Telheiras ou Quinta do Convento. D. João veio a falecer em 1642, com a construção do convento

quase terminada. Foi sepultado no altar-mor do convento e a sua pedra de armas encontra-se actualmente no Museu da Associação dos Arqueólogos Portugueses, no Convento do Carmo, Lisboa.

Seria fastidioso, para este artigo, citar todas as propriedades de D. João de Cândia, mas, a título de informação mais relevante, o mesmo possuía, também, casas na Rua de Santa Catarina, em Lisboa, era proprietário do Casal do Rebolo, em Almargem do Bispo, concelho de Sintra, e mandou fazer uma capela dedicada a São José no mesmo concelho, mas em local que se desconhece.

Quanto à arquitectura da igreja, a mesma é citada como sendo de boa construção. Apresenta pinturas excelentes, não constando a presença de azulejos no seu interior. No entanto, no nosso local de intervenção, a presença de diversos fragmentos de azulejos de tapete / padronagem da 1.ª metade do século XVII, descontextualizados, permite colocar a hipótese de terem pertencido à dita igreja.

Após o Terramoto de 1755, o Marquês de Pombal manda reconstruir a igreja, obra que terminou em 1768. Em 1833, o exército absolutista cerca Lisboa e D. Miguel estabelece o seu aquartelamento no Lumiar.

“Pouco tempo depois uma coluna das tropas liberais, comandadas pelo Duque de Saldanha, ocupava Telheiras, provocando a fuga espavorida dos frades do Convento das Portas do Céu” (Consiglieri et al., 1993: 83).

Seguiu-se o saque e a destruição dos bens da igreja, das quintas e do convento, de onde os sinos de bronze foram retirados e derretidos para fazer unidades monetárias.

1834 foi o ano da extinção das ordens religiosas e de boa parte do seu património passar para as mãos da Coroa. Para tal, foram feitos levantamentos do espólio interior dos edifícios, bem como das suas propriedades e, no caso da Igreja e Convento de Nossa Senhora da Porta do Céu, é aí referido o seguinte: “cerca com vinha, árvores de pevide e caroço, um bocado de canavial, três tabuleiros de horta, um poço com engenho Real corrente e seu tanque com uma pequena almocega (pequeno tanque para lavagens)” (Larcher, 2008: 45).

De 1852 a 1886, a freguesia do Lumiar esteve integrada no Concelho dos Olivais. Em 1910, deu-se o saque final à Igreja e ao Convento de Nossa Senhora da Porta do Céu e, como já não havia mais para roubar, arrancaram o vigamento do coro, as cantarias e as lápides sepulcrais e desaparecem os ossos do fundador. O convento passa a servir de habitação de pessoas carenciadas e a igreja é transformada em serralharia.

Em 1941, a igreja foi restaurada e aberta ao culto. Em 2011, foi classificada com Monumento de Interesse Público (Património Cultural, s.d.).

No seguimento da Estrada do Lumiar, na direcção do Campo Grande, ao longo do século XX, foram construídas várias casas de população humilde, tendo a construção de algumas delas afectado os nossos contextos arqueológicos. Parte desses habitantes passaram a trabalhar na Fábrica de Cerâmica de Telheiras, de J. Lino, que ficava situada junto à Quinta de São Vicente, ao lado de uma escavação de argilas que a servia. A fábrica foi destruída por um incêndio em meados do século XX.

A 2.ª metade do século XX é marcada pela voracidade da construção civil, com a destruição de imóveis históricos e sítios arqueológicos, fruto de uma legislação deficiente, a qual obliterou quase irremediavelmente a História da antiga aldeia de Telheiras, ficando a mesma reduzida a uma manta de retalhos, a qual, através deste e de outros trabalhos arqueológicos, tentamos reconstituir. De entre estes últimos atentados ao Património histórico-arqueológico salientamos, por exemplo, a destruição da capela da propriedade do Conde Barão, do século XVIII, e da capela de Santo António, na propriedade de António Francisco Jorge, bem como de prováveis sítios da Idade do Bronze, romanos e tardo-romanos, islâmicos e de diversas épocas até ao Período Moderno.

3. A ESCAVAÇÃO ARQUEOLÓGICA

Citamos neste capítulo apenas as estruturas e materiais arqueológicos mais relevantes desta escavação arqueológica, devido ao facto de se tratar de um artigo, com as limitações de espaço inerentes ao mesmo.

Na área da futura rampa de acesso à garagem da Torre Vicente, e perante o aparecimento de estruturas e materiais de inícios do século XX (e outras cronologias misturadas), alterámos a metodologia de trabalho de “acompanhamento arqueológico” para escavação manual integral em área, visto que a mesma iria ser profundamente alterada e parcialmente destruída pela escavação da rampa supracitada.

Para o início da escavação arqueológica, subdividiu-se a área a intervencionar em quatro quadrantes distintos: Este, Central Norte, Central Sul e Oeste. No total, foram registadas 252 Unidades Estratigráficas (UE) as quais, bem como outros elementos mais aprofundados e desenvolvidos, poderão ser consultados no Relatório Final desta intervenção arqueológica (Pina, Sousa e Silva, 2023).

Constatámos, nessa fase inicial, a existência de estruturas de inícios do século XX (demolidas em 2002), bem como depósitos / lixeiras com a mesma cronologia e abundantes afectações contemporâneas, relacionadas com a construção da Torre Vicentina, dos edifícios adjacentes e de casas construídas ao longo da Estrada de Telheiras, estas últimas directamente no local da nossa intervenção arqueológica. A presença descontextualizada de materiais arqueológicos de épocas mais antigas começava a revelar um outro panorama, ainda escondido sob os lixos e estruturas contemporâneas.

4. O POÇO E O TANQUE DA ZONA OESTE

Identificámos um poço escavado nos calcários brandos e complementado, no topo, por uma estrutura pétrea pouco cuidada, cuja génese desconhecemos, mas que foi desactivado na 1.ª metade do século XX, ao qual se atribuiu a UE [102]. Esta estrutura ficou adossada ao lado Su-

ARQUEOLOGIA

doeste do tanque, UE 104, do qual falaremos mais adiante.

– UE [102] (Fig. 2): estrutura de alvenaria calcária, em estado razoável de conservação, com um aparelho construtivo composto por três fiadas de pequenos blocos de calcários e basaltos, no arranque da sua boca, e outros blocos pequenos do mesmo material a preencher os espaços onde o geológico se desagregou com a construção da vala para o poço. Apresenta alguns fragmentos de materiais de construção, que se encontram argamassados entre si por um ligante de coloração castanha-clara, com nódulos calcários brancos na sua composição. Relativamente ao enchimento desta estrutura, constatámos a existência de dois depósitos recentes, de inícios a meados do século XX (UE [101] e [144]). A escavação do poço não prosseguiu em profundidade, visto que o máximo por nós escavado ultrapassou em 60 cm a cota máxima de afectação de obra. Assim temos:

– UE [101]: depósito areno-argiloso, solto, homogéneo, de coloração cinzenta-escura, com fragmentos de plásticos, materiais de construção e industriais, cerâmicas domésticas, cerâmicas vidradas, vidros, metais e restos de fauna mamalógica, inseridos cronologicamente entre os inícios e meados do século XX. Foi interpretado como um depósito para nivelamento do espaço, quando das construções aqui realizadas durante a 2.ª metade do século XX. Este depósito encontra-se a encher a UE [102] e a cobrir o depósito da UE [144].

– UE [144]: depósito areno-argiloso, pouco compacto, homogéneo, de cor preta acinzentada, com fragmentos de plásticos, muitos fragmentos cerâmicos domésticos e industriais e fragmentos metálicos contemporâneos. Foi interpretado como um depósito de enchimento da estrutura [102], após a sua desactivação.

O poço, bem como o seu enchimento, ficou parcialmente conservado, tendo-se desmontado a estrutura pétrea do seu topo. Ficou coberto com manta geotêxtil e areia diferenciada.

Quanto ao tanque, UE [104] (Figs. 3 a 7), é uma estrutura de alvenaria em estado de conservação razoável, orientada grosso modo Este-Oeste. Tem planta rectangular, com 4 m de comprimento por 2 m de largura. A altura máxima conservada nas paredes é de 1,10 m (parede Oeste). É interpretada como um tanque para uso agrícola / “industrial” (lagar ?), sendo composta por quatro paredes com um aparelho construtivo caracterizado por fiadas sobrepostas de blocos calcários e basaltos de média dimensão, ligados entre

FIG. 3 – O tanque UE [104] durante o processo de escavação.

si por uma argamassa branca, com alguns fragmentos cerâmicos na sua composição, pouco compacta e macia.

As paredes Sul e Este possuíam, a meia altura, duas pedras de formato irregular, as quais serviam de “degrau” para acesso e saída do tanque.

A encher esta estrutura detectámos quatro depósitos distintos, a que se atribuíram as UE [108], [119], [155] e [199], que passamos a descrever:

– UE [108]: depósito areno-argiloso de coloração negra acinzentada, pouco compacto, homogéneo, com alguns fragmentos de cerâmica de construção (industrial, moderna), abundantes fragmentos de cerâmica comum (industrial, moderna, medieval), cerâmica esmaltada (inícios do século XVI), cerâmica vidrada (inícios a meados do século XVI), vidros, metal e fauna malacológica e mamalógica. Cobre a UE [119]. – UE [119]: depósito composto por um sedimento areno-argiloso de coloração castanha-escura, pouco compacto, homogéneo, com

FIG. 2 – O poço UE [102].

abundantes argamassas esbranquiçadas e estuques brancos, provavelmente resultantes da destruição parcial da parte superior das paredes do tanque, também abundantes fragmentos de materiais de construção (telhas de meia cana e tijolos vidrados) (século XVI), cerâmicas domésticas da 1.ª metade do século XVI, cerâmicas esmaltadas de inícios do século XVI e vidro decorado (provavelmente, também do século XVI). Cobre a UE [155].

– UE [155]: depósito composto por um sedimento areno-argiloso de coloração amarelada-acinzentada, pouco compacto, heterogéneo, com restos de entulho do que poderiam ser as paredes destruídas do tanque, compostas por tijoleiras ligadas com argamassas brancas e fragmentos de estuque branco, abundantes fragmentos de telhas, vidradas por excesso de cozedura e não vidradas, poucos fragmentos de cerâmicas domésticas do século XVI e de cerâmicas esmaltadas de inícios do século XVI. É interpretado como um depósito criado, possivelmente, quando da demolição da estrutura superior do tanque, fruto de nova ocupação do espaço, provavelmente na 2.ª metade do século XVI, destruindo-se as suas paredes superiores e terraplanando-se o terreno para outras funções. Cobre a UE [199]. – UE [199]: depósito composto por um sedimento areno-argiloso, de coloração acinzentada, pouco compacto, heterogéneo, com alguns fragmentos de cerâmica de construção (tijolos e telhas vidradas), muitos fragmentos de cerâmicas domésticas do século XVI, cerâmicas esmaltadas de inícios do século XVI, cerâ-

FIGS. 4 a 7 – Em cima, o tanque UE [104] após a escavação do interior e pormenor da estrutura de limpeza localizada no seu centro.

Ao centro, tanque UE [104] e poço UE [102].

À esquerda, plano final do tanque UE [104].

0 1 m

micas vidradas da 1.ª metade do século XVI, vidros, provavelmente também do século XVI, faunas mamalógica, malacológica e ictiológica, bem como fragmentos de metais (pregos). É interpretado como um depósito criado aquando do abandono da estrutura UE [104]. É coberto pela UE [155].

As paredes do tanque UE [104] apresentam sete camadas distintas de um reboco impermeabilizante no seu interior, denotando o uso continuado e os restauros do interior – UE [1001], [1002], [1003], [1004], [1005], [1006] e [1007], que passamos a descrever:

– UE [1001]: camada de argamassas brancas acinzentadas, com nódulos calcários brancos e pequenas pedras de rio. Cobre a UE [1002].

– UE [1002]: camada de argamassas brancas com alguns fragmentos cerâmicos e pedrinhas de rio. É coberta pela UE [1001] e cobre a UE [1003].

– UE [1003]: camada de argamassa impermeabilizante que apenas se encontra nas paredes do tanque a cerca de 30 cm do fundo, caracterizada por se assemelhar a opus signinum, ao ser composta por cerâmica moída e argamassa, com uma coloração rosada/avermelhada, bastante compacta e homogénea (Fig. 8). É coberta pela UE [1002] e cobre a UE [1004].

– UE [1004]: camada de argamassa branca impermeabilizante que apenas se detetou a cerca de 30 cm do fundo, caracterizada por apresentar abundantes fragmentos cerâmicos moídos na sua composição, extremamente compacta e homogénea. É coberta pela UE [1003] e cobre a UE [1005].

– UE [1005]: camada de argamassas brancas com pedrinhas e poucos fragmentos cerâmicos. Coberta pela UE [1004], cobre a UE [1006] e a UE [1007].

– UE [1006]: camada de argamassa estucada, compacta, homogénea, com uma camada de pintura a vermelho na sua superfície. Cobre a UE [1007] e é coberta pela UE [1005].

– UE [1007]: camada de argamassa branca grosseira, muito compacta, homogénea. Cobre a estrutura UE [104] e é coberta pelas UE [1005] e [1006].

Os dois rebocos a que se atribuíram as UE [1003] e [1004] selam a ligação das paredes do tanque com o seu fundo, impermeabilizando essa união. O fundo apresenta um aparelho construtivo muito semelhante ao das paredes. É composto por blocos calcários e de basalto afeiçoados na sua face visível, emparelhados entre si com um ligante branco, impermeabilizante, com bastantes fragmentos cerâmicos na sua composição, bem como fragmentos de telhas de finais da Idade Média / inícios do Período Moderno, a preencher alguns dos espaços vazios entre as pedras. Apresenta ainda um pequeno tanque de limpeza no seu centro, rebocado com uma argamassa branca, compacta, muito homogénea e fina, a que se atribuiu a UE [205].

A estrutura tipo tanque, UE [104], preenche um interface negativo com 4,5 m de comprimento por 2,5 m de largura, a que se atribuiu a UE [207], considerada como a sua vala de fundação. Esta vala possuía alguns materiais arqueológicos com cronologias diversas, sendo os elementos mais recentes correspondentes à 2.ª metade / finais do século XV.

A estrutura UE [104] foi parcialmente afectada pela obra, restando o fundo e parte da base das paredes Oeste, Norte e Sul. Foi coberta com manta geotêxtil e areia diferenciada.

5. AS ESTRUTURAS NEGATIVAS TIPO SILO / FOSSA

Foram detectadas 35 estruturas negativas, escavadas nos calcários brandos, sendo três de formato rectangular de período moderno / contemporâneo (Fig. 9).

As 32 que correspondem às ocupações antigas possuem formas circulares ou ovais e encontram-se quase integralmente destruídas pelo intenso

FIG. 8 – Argamassa impermeabilizante com semelhanças ao opus signinum
FIG. 9 – Silo / fossa registado como UE [134].

A maioria dessas estruturas negativas possuem intrusões dos Períodos Moderno e Contemporâneo, as quais podem ir até à sua base. Ressalva-se cerca de uma dezena que conservaram, como fossa, exclusivamente materiais tardo-romanos / alto-medievais, islâmicos, medievais cristãos, até aos inícios do século XVI. Essas estruturas negativas e respectivos materiais serão alvo de um estudo mais aprofundado e de futuras publicações.

A sua cronologia ainda não foi determinada. O facto de ter existido uma estrutura negativa com materiais da Idade do Bronze a pouco mais de 100 m do nosso local de intervenção, pode ser um indicador importante nesse sentido. No entanto, não foram encontrados materiais arqueológicos da Idade do Bronze neste local (talvez um ou dois fragmentos, num universo de 3615 itens arqueológicos individualizados).

A sua génese no período tardo-romano / alto-medieval parece-nos um pouco mais coerente, até pela abundância de materiais com estas cronologias. Ainda dentro desta fase alargada, a sua funcionalidade como silos terá sido abandonada, e estas estruturas terão sido transformadas em fossas para despejos diversos. Estas e outras estruturas irão merecer um estudo mais detalhado no futuro.

6. OS MATERIAIS ARQUEOLÓGICOS

Foram colectados mais de 3615 itens arqueológicos, a grande maioria constituídos por fragmentos de telhas tardo-romanas / alto-medievais, fragmentos de telhas em chacota de finais do século XV / inícios do século XVI, fragmentos de telhas pintadas de inícios do Período Moderno, para além de tijoleiras com vitrificação, cerâmicas de uso doméstico, vidradas ou não, escassos elementos líticos pré-históricos descontextualizados, algumas escassas cerâmicas romanas, cerca de 30 fragmentos de cerâmicas islâmicas (numa área onde a sua presença era desconhecida), elementos metálicos, escassas cerâmicas de importação sevilhanas e italianas da 1.ª metade do século XVI, um fragmento de azulejo hispano-mourisco, restos de fauna mamalógica e malacológica, vidros e outros elementos diversos, com cronologias que vão desde o Paleolítico Médio ao Período Contemporâneo, com especial ênfase para os finais do século XV e a 1.ª metade do século XVI.

6.1. Os elementos líticos pré-históricos

6.2. As telhas

A presença destes elementos líticos, em quartzito e sílex, é escassa (cerca de 11 elementos) e descontextualizada, aparecendo misturada com cronologias diversas.

O grande número de fragmentos de telhas, parte delas carbonizadas e com vestígios de deformações por excesso de cozedura, no caso do período tardo-romano / alto-medieval, bem como os fragmentos de telhas em chacota e outras com vitrificação dos séculos XV / inícios do XVI, bem como a presença de tijoleiras também com vitrificação e deformação por excesso de cozedura, dão-nos fortes indícios para o fabrico de telhas naquele local, desde o período tardo-romano até à Época Contemporânea (Fábrica de Cerâmica J. Lino). Neste caso, o topónimo Telheiras confirma perfeitamente uma actividade secular naquele local: ou seja, o fabrico de telhas e, provavelmente, de outros materiais cerâmicos.

As telhas tardo-romanas / alto-medievais, geralmente espessas, podem apresentar a sua superfície posterior lisa (a maioria), com sulcos digitados uso do solo no século XVI, bem como pelas destruições no século XX. Ou seja, resta-nos apenas a base dessas estruturas e pouco mais.

FIG. 10 – Plano final da escavação arqueológica

paralelos aos bordos, com sulcos digitados ondulados ou com sulcos ondulados em pente (Figs. 11 e 12).

Ainda dentro do capítulo das telhas, outro grupo numeroso é representado por telhas e fragmentos de telhas em chacota, com colorações amarelas, esverdeadas e avinhadas. São finas e com pastas friáveis, podendo ser quebradas com os dedos devido à cozedura incompleta. Corresponderão, cronologicamente, à 2.ª metade do século XV, até inícios do século XVI (Fig. 13).

6.3. O Período Romano

FIGS. 11 e 12 – Telhas tardo-romanas / / alto-medievais com sulcos ondulados digitados.

Apesar dos achados realizados na sua envolvente ao longo das últimas décadas, no nosso local de intervenção arqueológica, a sua presença restringe-se a um número de fragmentos inferior a uma dezena, todos eles também em situação descontextualizada.

6.4. O Período Islâmico

Este período cronológico, até agora inédito na área de Telheiras, está representado por cerca de 30 fragmentos cerâmicos, com cronologias que podem ir desde o Califado Omíada (?), aos primeiros reinos de Taifas, e mesmo até ao Período Almorávida.

6.5. O Período Medieval cristão e o dealbar do Período Moderno

Salienta-se a presença de um fragmento de bordo de taça em Terra Sigillata Hispânica com a forma Drag. 24-25, do século II d.C., coeva da epígrafe romana encontrada na área da igreja de Telheiras, a cerca de 100 m da nossa área de escavação.

A maioria dos fragmentos encontrava-se descontextualizada, embora uma estrutura negativa tenha apresentado, na sua base, um bordo e colo de bilha com decoração ondulada (Fig. 14), junto com fragmentos de telhas tardo-romanas / alto-medievais. Estes materiais islâmicos serão oportunamente alvo de um estudo mais aprofundado e respectiva publicação.

FIG. 14 –Cerâmica islâmica.

FIG. 13 – Telha em chacota, séculos XV-inícios do XVI. ),

Os vestígios cerâmicos do Período Medieval cristão são escassos, sendo constituídos essencialmente por algumas cerâmicas comuns e duas cerâmicas vidradas.

Realidade diferente aparece a partir do século XV, principalmente da sua 2.ª metade. Para além das telhas em chacota já anteriormente referidas, apareceu um fragmento de pega horizontal de escudela valenciana de-

FIG. 15 – Cerâmica com engobe vermelho, século XVI.

corada com reflexos dourados. A grande ocupação do espaço, para além dos períodos tardo-romano e islâmico, já referidos, surge-nos a partir de finais do século XV / / inícios do século XVI. Os fragmentos cerâmicos deste período aparecem-nos em boa parte das UE, mas a sua maior incidência, com a presença de cerâmicas finas de engobe vermelho (Fig. 15), cerâmicas vidradas sevilhanas

ou de fabrico português, cerâmicas com vidrado verde, cerâmicas com esmalte branco (pratos e tigelas / malgas) e majólicas italianas (Fig. 16), aparecem-nos nos entulhos / enchimento após desactivação do tanque UE [104], principalmente na sua base.

6.6. Os séculos XVII, XVIII e XIX

Reunimos estes três séculos neste pequeno subcapítulo, devido ao facto de a presença de fragmentos destes períodos ser claramente inferior ao século XVI e ao século XX.

Nestas circunstâncias, salientamos a presença de escassas porcelanas chinesas, algumas faianças decoradas do século XVII, e outras dos séculos XVIII e XIX, também pouco numerosas no computo geral. Quanto aos azulejos, apareceram cerca de dez fragmentos pertencentes ao século XVII (padronagem / tapete) e outros posteriores, nomeadamente do século XVIII.

A presença da azulejaria do século XVII pode estar relacionada com a presença da Igreja da Nossa Senhora das Portas do Céu e com obras que os possam ter removido, embora a documentação não cite a sua presença, o que não seria inédito. Também podem ser provenientes de alguma quinta / palacete. É matéria a ser estudada e desenvolvida oportunamente.

6.7. O século XX

O século XX está representado com fundações, valas e intrusões numerosas nas UE inferiores, com materiais arqueológicos dispersos e misturados com as mais diversas cronologias. Onde a sua presença é mais expressiva será no enchimento do poço UE [102], o qual nos apresentou um número considerável de loiças (Fig. 17), cerâmicas vidradas ou não, vidros, metais, elementos em borracha e plásticos.

7. CONCLUSÕES

FIG. 16 – Majólica italiana, século XVI.

te, as quais podem ser da transição entre os finais do Período Tardo-Romano e os inícios do Período Islâmico / Omíada. Estes elementos arqueológicos são alguns dos mais numerosos que encontrámos em quase todas as UE, inclusive à superfície.

A grande quantidade destes elementos, alguns com marcas de carbonização e deformação por excesso de cozedura, pode indicar a presença de fornos tardo-romanos / alto-medievais de fabrico de telhas na área de Telheiras, o que não seria inusitado, como verificámos ao longo deste texto.

O Período Islâmico não estava referenciado para Telheiras, ou mesmo para o Lumiar. No entanto, dentro de algumas estruturas negativas (silos / / fossas), encontrámos um número razoável de fragmentos de cerâmicas, nomeadamente cântaros e panelas com caneluras e/ou superfícies alaranjadas ou cinzentas com pinturas brancas, que podem remontar

Concluímos, assim, que este sítio arqueológico se encontrava muito alterado por intrusões e destruições recentes, bem como pelas diversas ocupações aqui registadas, pelo menos e mais intensamente no século XVI.

Durante a nossa intervenção arqueológica, constatámos a existência de alguns materiais romanos, nomeadamente um bordo de taça em Terra Sigillata Hispânica da forma Drag. 24-25, do século II d.C., infelizmente descontextualizado, e alguns outros escassos elementos de cerâmica comum.

O Período Tardo-Romano está ainda representado por fragmentos de cerâmica comum, mas, principalmente, por abundantes fragmentos de telhas espessas, algumas com decoração ondulada, digitada ou em pen-

FIG. 17 – Prato da Fábrica de Loiça de Sacavém.

aos Períodos de Taifas, Califal e Almorávida. A maioria destas cerâmicas com caneluras podem remontar aos séculos X-XII. Não foram encontradas cerâmicas vidradas para o Período Islâmico, sendo o espólio recolhido constituído por objectos de uso meramente utilitário e de construção. Estes materiais serão alvo de um estudo mais aprofundado e de futura publicação.

A presença de elementos importados, baixo-medievais / de inícios do Período Moderno, na nossa área de intervenção, verificou-se através dos materiais recolhidos com cronologias balizadas entre os finais do século XV (com uma cerâmica de importação valenciana de reflexos doura-

dos) até meados do século XVI, com cerâmicas vidradas importadas de Sevilha, mas também com cerâmicas vidradas e esmaltadas de fabrico português, ou com cerâmicas de engobe vermelho, as quais atapetavam o fundo do tanque de lagar, UE [104], revelando-nos o abandono dessa estrutura até, sensivelmente, ao 1.º quartel / meados do século XVI. O início da sua construção poderá inserir-se em data incerta da segunda metade / 4.º quartel do século XV. A estrutura desse tanque de lagar, bem como as argamassas que continha no interior da sua parede Norte, com semelhanças ao opus signinum romano, merecem um estudo futuro mais aprofundado.

FIGS. 18 e 19 – Vistas gerais do sítio arqueológico após a sua intervenção, tomadas de Noroeste-Sudeste (à esquerda) e de Sudeste-Noroeste (em baixo).

A presença de vários fragmentos de azulejos de majólica, policromáticos, da 1.ª metade do século XVII, colectados nas UE mais superficiais, parece-nos indicar um revestimento azulejar que, no campo das hipóteses, poderá estar relacionado com a Igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu, embora não seja referido nos documentos. Como segunda hipótese, todo este acervo azulejar pode ter vindo de uma antiga quinta apalaçada ou palacete existente na área. Durante o século XIX, os vestígios detectados permitem-nos perceber que o local foi ocupado por uma exploração agrícola que aqui utilizou de um poço, UE [102], diversas estruturas em alvenaria e algumas em material perecível (madeira por exemplo).

Por último, durante a 1.ª metade do século XX houve uma nova ocupação do local. Abandonada a exploração agrícola, foi entulhado e desactivado o poço UE 102, e aproveitaram-se os embasamentos das estruturas do século XIX para construir várias casas de população humilde, que aqui perduraram até à 2.ª metade do século XX, tendo essa construção afectado os nossos contextos arqueológicos.

A grande urbanização registada a partir das décadas de 70-80 do século XX, bem como a construção da Torre Vicentina, finalizaram as fortes alterações que constatámos no terreno (Figs. 18 e 19).

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A Casa Fabião (Largo de São Pedro, Leiria)

os resultados dos trabalhos arqueológicos recentes

1. INTRODUÇÃO

Os resultados dos trabalhos arqueológicos que agora se apresentam inserem-se no âmbito de um novo projecto de reabilitação urbana, em pleno centro histórico da cidade de Leiria, voltando a incidir na dita Casa Fabião (Largo de São Pedro, Leiria). O imóvel, assim apelidado por via de José Fabião, ilustre fotógrafo leiriense que também a habitou, havia já sido alvo de uma campanha anterior, quando o complexo residencial deu lugar a uma unidade habitacional distinta (Fig. 2: B). Dessa intervenção resultou a publicação de alguns dados substanciais sobre a ocupação antiga do morro de Leiria (Coelho, 2005: 121).

O acompanhamento arqueológico que nos foi possível lograr ao nível das acções de remodelação operadas recentemente, bem como o registo estratigráfico possibilitado pela abertura prévia de quatro sondagens de diagnóstico, corroborando parte da longa diacronia ocupacional, documenta, como veremos, um número muitíssimo inferior de materialidades conexas em relação a outras intervenções também desenvolvidas nas proximidades (Carvalho e Inácio, 2013: 159).

Tendo duas das nossas sondagens de diagnóstico ao solo incidido sobre o interior do próprio edifício, as remanescentes foram materializadas pela sua zona ajardinada.

Ao nível do edificado, pese embora se encontrasse prevista a realização de sondagens parietais (1 x 1 m), esse trabalho foi por nós desconsiderado. A picagem integral dos rebocos presentes nos alçados do edifício que foram alvo de demolição e reabilitação, possibilitou-nos uma abordagem maior às componentes do edifício e à sua diacronia própria, que haveria ainda de ser coadjuvada pela análise a diversos elementos cartográficos da área em destaque.

RESUMO

Nos últimos anos, diversas campanhas arqueológicas ampliaram o conhecimento sobre a diacronia ocupacional do morro do Castelo de Leiria. Nelas se enquadra a intervenção que justifica este artigo, possibilitada por novo projecto de reabilitação da Casa Fabião, assim conhecida por nela ter habitado a família do ilustre fotógrafo leiriense José Fabião.

A par da análise estratigráfica e dos materiais arqueológicos associados, o autor discorre sobre a diacronia do imóvel e as alterações que o modificaram ao longo do tempo, tendo por limites parte do complexo defensivo medieval.

Palavras-chave: Arqueologia urbana; Idade Média (cristão); Idade Moderna; Castelo; Estruturas defensivas.

ABSTRACT

In the past few years, several archaeological campaigns expanded our knowledge about the Leiria Castle hill occupation chronology. This article focusses on one of those campaigns carried out during the new rehabilitation project of the Casa Fabião, so called because it was once the home of the family of the well-known Leiria photographer José Fabião.

The author analyses the stratigraphy and the associated archaeological materials; he also writes about the building’s diachrony and its modifications throughout the years, with the medieval defensive complex serving as his study’s boundary.

Key words: Urban archaeology; Middle Ages (Christian); Modern age; Castle; Defence structures.

RÉSUMÉ

Ces dernières années, plusieurs campagnes archéologiques ont enrichi la connaissance portant sur la diachronie occupationnelle de la colline du château de Leiria. Dans l’une d’elle, se glisse l’intervention qui justifie cet article, rendu possible par une nouveau projet de réhabilitation de la Casa Fabião, ainsi connue car y a habité la famille du célèbre photographe de Leiria, José Fabião.

Outre l’analyse stratigraphique et celle des matériaux archéologiques associés, l’auteur discourt sur la diachronie du bâtiment et les altérations qui l’ont modifié au cours du temps, avec pour limites une partie du complexe défensif médiéval.

Mots Clés: Archéologie urbaine; Moyen Âge (chrétien); Période moderne; Château; Structures défensives.

1 Arqueólogo (santos.philipe@gmail.com). Por opção do autor, o texto não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Foi recebido para publicação em 2026-03-23.

De forma não sequencial e de acordo com a própria evolução da obra, os trabalhos arqueológicos em apreço foram desenvolvidos entre Novembro de 2019 e Outubro de 2022. Já depois de termos informado da sua conclusão, o promotor do novo projecto de reabilitação, tendo-o logrado por área non aedificandi associada ao Monumento Nacional que constitui o castelo de Leiria desde 1910, resolveu elevar alguns muretes ao longo da área ajardinada, tendo-se na altura colocado a hipótese de estes se terem sobreposto a possível barbacã. Como aqui procuraremos demonstrar, assinalando-se no complexo esse dispositivo defensivo onde ele efectivamente foi usado (Fig. 14), não se confirma, de forma cabal, a possibilidade aventada sobre a existência de uma barbacã imediatamente a este da muralha do castelo de Leiria.

2. LOCALIZAÇÃO

O imóvel em análise encontra-se imediatamente sobre o lado este do morro dolerítico do castelo de Leiria, privilegiando, tal como a ocupação medieval de domínio e defesa do território e as populações que em período muito anterior a precederam, o promontório perfeitamente destacado da envolvente recortada pelo rio Lis. Esta ocupação de um ponto destacado da paisagem, retirando-se proveito dos recursos em redor e da proximidade a uma via de comunicação navegável, encontra-se extremamente bem representada um pouco por todo o nosso território, de norte a sul do país. Pela equidistante proximidade geográfica, mas de igual modo nas semelhanças diacrónicas com Leiria, veja-se, por exemplo, o caso paradigmático das actuais cidades de Coimbra, a nordeste, e de Santarém, a sul.

A parcela em apreço corresponde ao início da mancha edificada desta cidade sobre aquela extremidade, interpondo-se as construções que ali subsistem com alguns dos dispositivos associados ao perímetro amuralhado do castelo medieval. Curiosamente, é hoje parte integrante e elemento delimitador de parte da própria propriedade privada associada ao imóvel em apreço.

No largo articulador com cruzeiro, por onde se faz a entrada principal para a propriedade, observa-se a igreja de São Pedro. Na sua envolvência, encontram-se ainda os primitivos Paços Episcopais, assim como os antigos Celeiros da Mitra. Dada a sua importância, assinalam-se ainda nas proximidades duas portas da antiga muralha medieval. Destas, sobre o lado sul do Largo de São Pedro, sobressai a Porta do Sol, reutilizada como torre sineira adossada ao edifício onde funcionou o Governo Civil de Leiria, encontrando-se a porta Albacara ligeiramente a noroeste.

A área em análise, em pleno centro da cidade de Leiria, pode ser identificada na Carta Militar de Portugal, escala 1:25.000, folha 297 (Fig.1). Administrativamente, faz parte da União de Freguesias de Leiria, Pousos, Barreira e Cortes, distrito e concelho de Leiria.

As coordenadas (Wgs84), retiradas a um ponto central da área edificada, são as seguintes: Latitude 39° 44’ 49.51” N; Longitude 8° 48’ 29.14” W. Em termos altimétricos, o terreno estabelece-se entre os 60 e os 94 metros.

FIG. 1 – Localização da área de intervenção na Península Ibérica e na Carta Militar de Portugal, escala 1/25 000, folha 197; vistas de satélite em aproximação a partir do Google Earth e fotografias de pormenor do imóvel.

3. O TRABALHO REALIZADO E OS RESULTADOS OBTIDOS

0 30 m

Limite da área edificada - 742 m2

Limite de propriedade - 2718 m2

Limite de propriedade terreno contíguo - 371 m2

Área total - 3089 m2

Marco de propriedade

Área ajardinada

Área construída

Sondagens diagnóstico

FIG. 2 – Plano de diagnóstico sobre planta geral do imóvel em apreço (A) e edifício anteriormente autonomizado (B).

Após a devida análise ao projecto de execução, e anteriormente ao início dos nossos trabalhos propriamente ditos, foi realizado um registo fotográfico exaustivo do edifício, bem como das distintas dependências que o compunham, salientando-se que não fora produzido para este caso concreto qualquer relatório prévio onde essas realidades se encontrassem documentadas. Com o apoio dos próprios técnicos do Património da Câmara Municipal de Leiria (Cml), inteirámo-nos sobre as intervenções arqueológicas que foram concretizadas nos espaços confinantes e, sobretudo, dos resultados produzidos, permitindo-nos nessa contextualização histórico-arqueológica pormenorizada uma programação mais eficaz dos nossos próprios trabalhos. Ficámos desde logo alertados para a primeira intervenção arqueológica no espaço imediato ao nosso, intervenção essa que é de igual modo identificada por Casa Fabião e que se reporta, como vimos, ao edifício autonomizado em relação à casa principal (Fig. 2: B).

Tivemos em conta também, ao nível da documentação consultada, o conjunto de elementos cartográficos antigos relativos a Leiria, tendo-nos sido possível contrastar a realidade presente com especificidades relevantes da própria evolução urbanística desta cidade. De igual modo, e com bons resultados pela informação aportada, realizámos pesquisa documental direccionada para a área em apreço a partir da documentação existente no Arquivo Municipal de Leiria (Amlra).

Resolvemos ainda, e no que toca aos registos que nós próprios produzimos em campo, fazer o levantamento do alçado de um muro possante em pedra seca, construído com o recurso a blocos de doleritos, muito angulosos e bem encaixados entre si, que, materializando a separação física de dois patamares bem diferenciados do antigo espaço ajardinado da casa, corrobora a profunda modelação do terreno a que toda aquela área foi sujeita. A importância desta estrutura (Fig. 16), bem alicerçada sobre um nível arenoargiloso completamente estéril, tendo

Desenho:João Patrício Arquitectos / F. S. Arqueologia.

este por correspondência a eventual acumulação sedimentar na zona de vertente do castelo de Leiria, resulta do facto de se encontrar no mesmo alinhamento da suposta barbacã, não podendo, não obstante, e como veremos mais adiante, confundir-se de forma alguma com ela. Não menos relevante, por último, foi a possibilidade de levarmos a cabo um novo levantamento topográfico (Fig. 17), que complementou e interpretou um conjunto de estruturas conotadas com o castelo de Leiria e que não se tiveram em linha de conta, pelo menos de forma tão pormenorizada, na fase de licenciamento desta empreitada. Este levantamento topográfico, sob nossa proposta, foi desenvolvido no âmbito da tentativa de resolução da acção espúria a que atrás nos referimos, levada a cabo pelo promotor.

3.1. O diagnóstico arqueológico

De acordo com o seu contexto particular, a nossa intervenção foi norteada pelo impacto do projecto de execução ao nível da reabilitação pretendida. Assim, pese embora a área significativa ocupada pelo imóvel, as acções intrusivas ao nível do solo foram muito circunstanciadas. O alcance maior da empreitada atingiu a morfologia interna do primitivo espaço habitacional, alterando-a substancialmente – ainda que preservando integralmente as paredes portantes do edifício –, bem como a área projectada a céu aberto para um parqueamento de veículos automóveis nos limites da propriedade, a noroeste.

As quatro sondagens de diagnóstico (Sond. 1 a Sond. 4), com as dimensões de 2 x 2 m de lado, materializadas com recurso a Estação Total e orientadas a norte, tiveram em conta os pontos onde a afectação da empreitada em profundidade seria maior (Fig. 2). As duas sondagens que incidiram no interior do edifício (Sond. 1 e Sond. 2), foram implantadas nos locais onde se previa em projecto a constituição de elevadores. As sondagens de diagnóstico remanescentes (Sond. 3 e Sond. 4), foram marcadas na área ajardinada da casa, sobre o seu lado noroeste, junto aos limites da rampa de acesso ao futuro parque de estacionamento, sublinhando-se que a superfície maior desse parque manteria quase inalteradas as cotas de utilização / circulação associadas ao antigo imóvel. Ao final, e sem necessidade de vir a ser ampliada pelos resultados obtidos nos pontos concretos ligados à empreitada, a área sondada compreendeu apenas 16 m2.

No que à metodologia da escavação arqueológica diz respeito, utilizámos o método estratigráfico, respeitando os preceitos teóricos defendidos por Edward C. Harris (1991). Assim, a cada depósito ou estrutura arqueológica foi dada uma Unidade Estratigráfica perfeitamente individualizada – [UE] –, procurando-se, ao final, e mediante as relações físicas entre si, a constituição de uma matriz onde toda a informação se plasmasse de forma inteligível.

Essa súmula esquemática das relações entre as várias UE possibilitou-nos uma interpretação crono-estratigráfica dos distintos contextos arqueológicos observados.

As UE foram numeradas de forma sequencial, atendendo a cada uma das sondagens. Ao depósito de superfície presente na Sond. 1 foi atribuída a UE [100], sobrepondo-se esta, neste caso concreto, à UE [101]; na Sond. 2 iniciámos a sequência pela UE [200], na Sond. 3 pela UE [300] e, como não poderia deixar de ser, na Sond. 4 pela UE [400].

Cada depósito foi registado em plano e perfil. Todos os materiais arqueológicos recuperados, etiquetados e ensacados, atendem ao acrónimo da intervenção arqueológica, bem como ao seu posicionamento espacial (por sondagem de diagnóstico) e estratigráfico (na respectiva sequência registada da sondagem de diagnóstico particular).

Procedeu-se à recolha selectiva de material apenas por níveis de depósito secundário e ligados a aterros recentes, contemplando-se no descarte exclusivamente materiais enquadráveis no período moderno e contemporâneo. Esse material, não só não aportaria mais informação sobre a caracterização dos depósitos onde ocorreram, como o seu descarte se limitou a porções de bojos que nem sequer permitiriam colagem com os exemplares representativos e recolhidos associados às mesmas produções, encontrando-se nesses casos o perfil completo ou praticamente completo da peça. A única excepção ao nível do material descartado mais antigo ocorreu sobre dois fragmentos de material de construção, provavelmente do período romano e tendo por correspondência pequenas porções de tégulas. Estes elementos, não deixando obviamente de ser significativos no registo arqueológico, serviram tão só para que pudéssemos documentar a escassez deste tipo de material pela área que intervencionámos, apontando-se aqui razões para esse facto, mas sobretudo para confirmar a sua associação a outros materiais de cronologias muito mais tardias nos depósitos onde ocorreram.

Todas as fases da intervenção arqueológica foram alvo de registos exaustivos, compreendendo estes registos fotográficos digitais de alta resolução e desenho arqueológico, neste caso levado a cabo à escala 1/20 sobre papel milimétrico. Usámos ainda processos de registo por ortorrectificação fotográfica.

Todos os planos e estruturas arqueológicas foram perfeitamente georreferenciados. Todos os planos e estruturas arqueológicas foram devidamente cotados, tendo-nos socorrido para o efeito de pontos de apoio topográficos materializados no terreno pela equipa de topografia afecta à georreferenciação das sondagens de diagnóstico.

3.1.1.

Sondagem 1

A Sond. 1 foi implantada junto à extremidade este do corpo do edifício de configuração rectangular, ao nível do seu Piso O. Neste caso concreto, tivemos em atenção o facto de aí estar contemplado um dos dois elevadores previstos em projecto, constituindo assim um dos pontos de maior impacto da empreitada, pelo necessário rebaixamento do solo. Foi a única sondagem de diagnóstico que possibilitou a identificação e registo de uma estrutura arqueológica correlacionável com uma ocupação do espaço em momento anterior, tendo por correspondência uma

porção de muro construído em pedra seca e perfeitamente orientado a norte.

Como é comum em contextos desta natureza, as cotas de base da intervenção arqueológica tiveram em conta, tal como nas restantes sondagens de diagnóstico, os limites inferiores da afectação pela obra, neste caso concreto atendendo-se ao fundo de caixa do poço do elevador. A profundidade máxima atingida em relação ao topo do nível de circulação primitivo não ultrapassou, pelo exposto, os 1,19 metros. As dimensões da sondagem de diagnóstico, com 2 x 2 m de lado, foram além das necessárias para a concretização daquela infra-estrutura.

No primitivo edifício, foi materializada num dos compartimentos esconsos dispostos em paralelo que se abriam sobre o seu alçado voltado a sul, junto à sua parede norte, julgando nós que possam ter-se constituído como áreas de arrumos e/ou armazenagem de víveres, observando-se aí o piso de circulação/utilização apenas parcialmente lajeado.

Com uma sequência estratigráfica extremamente linear, a escavação arqueológica iniciou-se pela subtracção manual de um depósito de terras heterogéneo, medianamente compacto, tendencialmente argiloso e de cor castanha. A este depósito foi atribuída a UE [100].

Com uma possança em torno dos 50 cm e comportando alguns materiais arqueológicos de Época Moderna, acreditamos que possa ter-se constituído como um nível de enchimento intencional associado a uma etapa de remodelação operada sobre o espaço, etapa essa que se ligará já com as estruturas e a compartimentação do edifício alvo de reabilitação. Trata-se do nível que se encontraria imediatamente subjacente ao piso de lajes que ainda se podia observar por grande parte do compartimento em apreço.

Sob este depósito observou-se uma camada de tons laranja, saibrenta, com cerca de 30 cm de espessura e sem qualquer material arqueológico associado, dispondo-se de forma muito regular, à semelhança do depósito que imediatamente se lhe sobrepunha – UE [101].

Cobrindo a interface associada à destruição da estrutura arqueológica que lhe subjazia, bem como o depósito onde esta foi implantada, como veremos, julgamos tratar-se de um primeiro nível de enchimento do espaço, colocado imediatamente após os trabalhos que terão comportado

a própria desconstrução dos elementos estruturais pré-existentes –UE [102]. Deverá também salientar-se que é sobre este depósito que assentava a base das estruturas de alvenaria do edifício Setecentista que se encontrava em remodelação.

A camada de regularização conotada com a UE [101] viria a sobrepor-se ao topo da estrutura arqueológica aludida, visivelmente truncada na sua extremidade meridional. A esta estrutura, sem que possamos atribuir-lhe uma cronologia ou enquadramento precisos, foi atribuída a UE [102]. O depósito que se lhe sobrepunha encontrava-se de igual modo sobrejacente à camada onde deverá ter sido aberta – sem evidências físicas assinaláveis desse facto – a vala de fundação desse muro. A este depósito, último na sequência observada e atingindo cerca de 35 cm de espessura – sem o termos escavado na totalidade –, foi atribuída a UE [103].

Com correspondência aos limites inferiores da nossa escavação, e de onde provêm os fragmentos cerâmicos mais antigos, traduz-se por um sedimento homogéneo, de características argilosas e cor castanha. Acreditamos que o mesmo, em associação à única estrutura arqueológica registada, poderá ter sido parcialmente subtraído, criando-se em concomitância as interfaces de destruição sobre essa estrutura, muito provavelmente aquando da etapa ligada à construção do primeiro imóvel reconhecido para esta zona, ou seja, no século XVIII.

Com 50 cm de largura e 30 cm de altura, tendo sido registado em 1,31 m de extensão, a porção de muro em destaque encontrava-se preservada por duas fiadas de pedras de substrato calcário dispostas sobre os seus lados menores, à face, com o preenchimento dos pequenos espaços vazios entre elas a fazer-se por intermédio de elementos pétreos de menores dimensões. Visivelmente destruído sobre a sua extremidade sul, este muro é, infelizmente, no nosso contexto de análise, uma estrutura avulsa.

Não obstante, não podemos deixar de supor a possibilidade deste se relacionar, de alguma forma, com estruturas similares do período romano recentemente assinaladas por intervenções arqueológicas no Largo de São Pedro e no interior do próprio recinto amuralhado do castelo (Carvalho, Almeida e Pinto, 2022: 191).

3 – Sond. 1 ao final dos trabalhos de escavação arqueológica.

FIG.

Este muro associa-se a um depósito que evidenciou materiais mais antigos do que aqueles que os níveis de aterro que se lhe sobrepunham revelaram, fazendo ambas as realidades prova de uma ocupação humana anterior deste espaço e não necessariamente sincrónica. Assim, e se por um lado nos parece bastante plausível a sua associação com outras estruturas do período romano identificadas nas imediações, como vimos, os escassos fragmentos cerâmicos exumados do depósito onde este foi firmado – UE [103] – corroboram uma ocupação pré-romana desta área, conotando-se os escassos materiais que o atestam, como tentaremos abordar em ponto próprio deste trabalho, com produções enquadráveis ainda na primeira metade do 1.º milénio a.C.

3.1.2. Sondagem 2

Tal como a precedente, a Sond. 2 viria a materializar-se por um ponto preciso do edifício onde o novo projecto de reabilitação contemplava um segundo elevador. Estabeleceu-se ao nível do Piso 1, na parte central do seu corpo rectangular, alicerçando-se, como o comprovámos, sobre um possante nível de enchimento contemporâneo.

Muito embora tenha sido a sondagem onde o volume de inertes que resultou da sua escavação foi maior, tendo em conta as cotas para a necessária ancoragem daquele equipamento, a sua escavação não proporcionou dados de significativa relevância. Identificou-se sim um conjunto de depósitos que comportaram material arqueológico de cronologia recente, denunciando uma etapa tardia para a sua constituição. Sobressaem, acima de tudo, elementos de componentes de sistemas eléctricos em porcelana – fichas eléctricas, casquilhos... –, por certo conotados com uma etapa de ocupação do imóvel anterior e que traduzem, assim julgamos, uma etapa de remodelação operada sobre o espaço interno do edifício.

Em termos estratigráficos, assinala-se um conjunto de três unidades distintas, duas associadas a dois possantes depósitos de inertes que serviram como material de regularização e alteamento do espaço, uma terceira associada à própria superfície de utilização / circulação do espaço onde a sondagem foi materializada. Assim, foi atribuída a UE [200] a um piso de “cimento”, com cerca de 2 cm de espessura, sobrepondo-se o mesmo ao primeiro nível de enchimento observado, um depósito extremamente arenoso, com cerca de 80 cm de espessura, comportando, como já referimos, e a par do material arqueológico aludido, alguns elementos pétreos e material de construção. A este depósito foi atribuída a UE [201].

Após a remoção do primeiro depósito de enchimento identificado e facilmente escavável, foi registado um outro nível de enchimento, bastante heterogéneo e tendencialmente argiloso, diferenciando-se também

e ao final dos trabalhos.

FIG. 5 – Em baixo, Sond. 2, durante a escavação arqueológica
FIG. 4 – Em cima, plano final e perfil estratigráfico da Sond. 1.
matriz estratigráfica

pela cor, variando entre o castanho e o cinzento, comportando, de igual modo, o mesmo tipo de material que o antecessor. Escavado em profundidade até ao limite das cotas de afectação pretendidas, tendo-se detido a escavação a cerca de 1,5 m de profundidade, subtraiu-se deste último depósito cerca de 75 cm. Enquadrando-se em ambos os casos com as paredes de alvenaria do edifício primitivo que se dispunham em torno de dois dos lados da sondagem, foi-lhe atribuída a UE [202].

3.1.3. Sondagem 3

A Sond. 3 foi implantada na área ajardinada do imóvel em apreço, sensivelmente sobre a sua extremidade noroeste, a meio do patamar inferior. Sabia-se de antemão que a subtracção de terras neste ponto não se verificaria pela empreitada, mantendo-se sim as cotas do terreno inalteradas para o parque de estacionamento automóvel para ali projectado. Parece-nos mais do que evidente que, quer a Sond. 3, quer a Sond. 4, esta efectivamente sobranceira à muralha do castelo de Leiria, ficaram enquadradas por patamares artificiais existentes nesta área, e que terão tido como objectivo vencer o desnível criado pela extremidade este do morro do castelo. O preenchimento desses patamares artificiais com material de aterro encontra-se perfeitamente documentado pela sequência estratigráfica por nós observada nesta área, como veremos.

A profundidade atingida neste ponto, tendo em conta o que anteriormente expusemos em relação às cotas de afectação da empreitada, não foi além de um metro de profundidade.

O material arqueológico compulsado, dando conta dessa regularização artificial e relativamente recente deste espaço, compôs-se de pequenas porções de fragmentos cerâmicos de fábrica tardia. Não se registou nenhum fragmento de cerâmica e/ou outro material arqueológico que não tenha sido produzido em Época Moderna, ou já mesmo em Época Contemporânea.

A grande modelação do terreno a que esta área foi votada alia-se à materialização de muros recentes, construídos com recurso a elementos da geologia local, alguns extremamente possantes e servindo como clara divisão e contenção de terras entre patamares.

Simples e linear, a sequência estratigráfica registada na escavação da Sond. 3 apenas documenta a utilização do espaço enquanto zona ajardinada alargada conotada com o edifício de habitação em apreço. Assim, à camada de terras vegetais, sem qualquer material arqueológico associado,

FIG. 6 – Em cima, plano final e perfil estratigráfico da Sond. 2.
FIG. 7 – Em baixo, Sond. 3, no início e ao final dos trabalhos de escavação arqueológica.

com uma espessura de 30 cm, em média, foi atribuída a UE [300].

Imediatamente subjacente, foi registado um possante nível de aterro, tendo o mesmo acabado por ser subdividido, em face de algumas particularidades, nomeadamente a cor dos próprios sedimentos, em duas unidades estratigráficas distintas. A UE [301] foi o primeiro dos depósitos identificados, compondo-se de um sedimento tendencialmente argiloso, de cor castanha, com material arqueológico, mormente cerâmica comum e vidrada, de feitura recente.

Imediatamente subjacente à UE [301], surgiu um depósito ligeiramente mais argiloso e de cor castanho-clara, pressupondo-se a sua formação com os mesmos fins, comportando o mesmo tipo de materiais arqueológicos, em momento imediatamente anterior à unidade precedente. Apenas parcialmente escavado, foi-lhe atribuída a UE [302].

3.1.4. Sondagem 4

Implantada no ângulo noroeste do patamar superior da área ajardinada da casa, junto ao caminho de acesso ao castelo e onde doravante se verá constituído o acesso para o parque de estacionamento automóvel que servirá o novo condomínio, a Sond. 4 foi a única, por esse mesmo motivo, onde se atingiu o substrato rochoso de base. Nesse ponto, muito próximo ao perímetro amuralhado do castelo de Leiria, era perfeitamente notório o corte operado no afloramento onde a muralha se estabeleceu, tendo alguns destes blocos angulosos, que se terão desprendido da superfície rochosa, sido mesmo identificados ao nível de base desta sondagem.

Tal como a precedente, também neste ponto não foram identificados quaisquer contextos arqueológicos, nem durante a sua escavação, com uma estratigrafia registada extremamente simples, nem durante a fase de acompanhamento arqueológico que posteriormente nesta zona realizámos, na etapa de constituição do acesso rampeado ao futuro estacionamento.

O material arqueológico compulsado, ainda que apresente alguma relevância patrimonial, escasso e composto por porções muito diminutas de cerâmica, essencialmente, encontrava-se notoriamente em depósito secundário. Com algumas reservas, poderá relacionar-se com produções ligadas a uma etapa tardia da Idade Média, sendo de igual modo assinalável no conjunto uma pequena porção de tégula.

A sequência estratigráfica, salvo a excepção ao nível de base da sondagem, é em tudo idêntica à que já havia sido observada na abertura da Sond. 3, no patamar inferior. Assim, e imediatamente subjacente ao depósito de terras vegetais ligadas à área ajardinada, com cerca de 30 cm de espessura e a que atribuímos a UE [400], foi registado um segundo depósito – UE [401] –, comportando neste caso um sedimento tendencialmente argiloso onde se recolheu escasso material arqueológico, ao qual voltaremos em ponto próprio. Apresentando uma possança em

de escavação arqueológica.

FIG. 8 – Em cima, plano final e perfil estratigráfico da Sond. 3.
FIG. 9 – Em baixo, Sond. 4, no início e ao final dos trabalhos

torno dos 50 cm, foi por nós interpretado como mais uma camada de aterro com vista à regularização do terreno em declive, ainda que neste caso com a inclusão de material mais antigo.

A camada de base, a que foi atribuída a UE [402], foi por nós interpretada, sem grandes reservas, como de formação geológica, comportando um sedimento amarelo, saibrento, solto, onde pontuavam alguns blocos de pedra angulosos que, visivelmente, tal como outros que no local se encontravam, se tinham desprendido da parede rochosa imediatamente a oeste, a mesma superfície onde a muralha do castelo de Leiria naquele ponto visivelmente assenta.

3.2. O acompanhamento arqueológico

O acompanhamento arqueológico levado a cabo no âmbito deste projecto de reabilitação urbana incidiu sobre duas vertentes fundamentais. A primeira, inevitavelmente ligada às pré-existências, tendo por base as realidades diversas associadas ao próprio imóvel, a outra directamente ligada ao registo estratigráfico permitido ao nível do solo, ambas necessariamente requeridas pelas implicações da própria empreitada. Após o diagnóstico arqueológico concretizado, num primeiro momento, procurámos identificar eventuais elementos patrimoniais que pudessem ter sido reaproveitados nas paredes portantes da construção primitiva, assim como a relação entre possíveis construções diacrónicas. Em ambos os casos, o universo de análise, como facilmente se depreenderá, acabou por ser muito limitado, tendo em conta o conjunto de pré-existências alvo de incidência, assim como das porções ao nível do solo atingidas. Não obstante, foi-nos possível observar que o edifício primitivo e parte significativa das suas distintas componentes se manteve. Os registos do seu esqueleto pétreo, alvo de trabalhos de picagens integrais sobre as camadas que o revestiam, denunciam a utilização sistemática da pedra calcária local, tendo-se optando por blocos irregulares de média dimensão e apenas ligeiramente afeiçoados, excepção feita aos elementos esquadriados empregues nas molduras dos vãos. O edifício que constitui a Casa Fabião, assim como as suas dependências, foi construído com o que poderemos designar por “pedra nova”. Traduz, pois, uma construção robusta de alvenaria pétrea ordinária e argamassada, mormente ao nível dos seus elementos portantes, ressalvando-se, por outro lado, a presença de tabiques ao nível das divisões internas do edifício, na sua larga maioria. Há efectivamente uma diferença assinalável entre as paredes portantes da construção primitiva e dos corpos que lhe terão sido acrescentados já em Oitocentos, comportando as primeiras construções muros muito mais possantes.

FIG. 11 – Em baixo, acompanhamento arqueológico do acesso em rampa ao futuro parque de estacionamento. Extremidade noroeste.

matriz estratigráfica
FIG. 10 – Em cima, plano final e perfil estratigráfico da Sond. 4.

Demais, tivemos oportunidade de acompanhar, presencial e integralmente, todos os rebaixamentos operados no terreno afecto a esta propriedade, com especial atenção ao que foi concretizado sobre a sua extremidade noroeste. Nesse espaço a céu aberto, onde previamente uma das nossas sondagens de diagnóstico havia sido aberta (Sond. 4.), foi subtraído em rampa parte do depósito de aterro que aí se encontrava, assim como o que nos pareceu tratar-se de um muito provável depósito de origem coluvionar, este cobrindo já o substrato rochoso de base. A destacar ainda, tal como documentado para outras zonas da envolvente do castelo de Leiria, ocorrências certamente resultantes da movimentação de blocos pétreos, nalguns casos de generosas dimensões, conotados com a própria erosão do morro dolerítico do castelo.

3.3. O material arqueológico

Composto na sua larga maioria por fragmentos cerâmicos conotados com produções tardias, centradas em Época Moderna, o material arqueológico compulsado resulta, sem excepção, de níveis de depósito secundário. Tal como o referimos, grande parte desses depósitos correspondem a níveis de aterro relacionados com etapas de remodelação operadas ao longo da diacronia da Casa Fabião e do respectivo logradouro. A única excepção em relação a esta realidade prende-se com a

UE [103], depósito apenas parcialmente escavado e do qual resultou a amostra de materiais mais antigos, tendo, de igual modo, ali sido firmada a única estrutura arqueológica identificada, mas cuja cronologia, ainda assim, dela se distancia.

Em traços gerais, a par da cerâmica comum, encontrámos pequenas porções de vidrados de chumbo e faianças na maioria desses depósitos. No que concerne à cerâmica comum tardia, traduz-se, na sua essência, por vasilhame utilitário de guarda e confecção de alimentos, sobressaindo as porções de potes (UE [100]: 1 a 5), panelas (UE [202]: 49 a 52) e respectivos testos (UE [202]: 47, 48). Alguns fundos planos terão correspondência com pequenos contentores de líquidos, sobressaindo destes formas associadas a púcaros (UE [100]: 7; [301]: 65).

Dentro do conjunto de material vidrado, destacam-se de igual modo algumas porções de alguidar (UE [100]:13), de potes (UE [301]: 56), UE [100]: 14), e das suas respectivas tampas (UE [100]: 14]. As pequenas porções de faiança, atendendo-se essencialmente às características das suas decorações (Casimiro, 2013: 362), enquadram-se em produções perfeitamente balizadas entre os séculos XVII-XVIII (UE [301]: 61 e 62) e os séculos XIX-XX [UE 301]: 57 e 59).

Diversas peças de porcelana ligadas a componentes eléctricos foram também recolhidas em um nível de enchimento observado na sondagem 2 (UE [201]: 18 a 41), acreditando nós que testemunhem, uma vez mais,

uma etapa de remodelação ocorrida na Casa Fabião que, provavelmente, se estendeu ao nível do próprio piso de circulação, substituindo-se o soalho do primeiro piso do imóvel por outro tipo de materiais, altura provável da constituição do aterro.

Em associação a um exemplar de fauna malacológica presente na camada superior da Sond. 4 (UE [401]: 71), um fragmento de

FIG. 12 – Parte do conjunto de materiais arqueológicos exumado no decurso da intervenção arqueológica.

Em cima, UE [101] e UE [103].

Ao centro, UE [201] e UE [202].

Em baixo, UE [301], UE [401] e UE [202].

bordo em aba plana de panela, onde o colo bem assinalado e arranque do bojo lhe acentuam um claro perfil em S, de pastas pouco depuradas (UE [401]: 69), associando-se a um fragmento de fundo em “pé de bolacha” (UE [401]: 70), poderão constituir testemunhos, deslocados, de transição entre os fins da Idade Média e os inícios do período Moderno. O espectro cronológico da amostra de materiais arqueológicos é ainda ampliado pela presença de dois fragmentos de rebordo de tégula romana, inclusos nos mesmos níveis de aterro que comportavam material tardio: UE [401].

De igual modo presente no que nos parece tratar-se de um depósito secundário, UE [103] – pese embora comporte o material arqueológico mais antigo por nós identificado, depósito esse onde se alicerçou um troço de muro, UE [102], de provável cronologia romana, a par de um fragmento cerâmico perfeitamente incaracterístico, UE [103]: 17 –, exumaram-se duas porções de bojo com bordo apontado, evidenciando-se colo alto, troncocónico e ligeiramente estrangulado, variando ligeiramente o diâmetro da sua abertura entre os 19,8 cm e os 21 cm. Sobressai em ambos os fragmentos o alisamento muito cuidado de ambas as superfícies; num dos casos, apresentando-se as pastas e superfícies alaranjadas (UE [103]: 16), no outro pastas e superfícies cinzentas (UE [103]: 15).

Trata-se, aparentemente, de cerâmicas manuais, com a modelação às mãos do oleiro evidenciada, variando a cor da sua superfície e do seu núcleo de acordo com o ambiente a que foram posteriormente sujeitas no processo de cozedura.

O número de fragmentos a que atrás nos reportámos, e que poderão enquadrar-se, genericamente, como veremos, em produções da Idade do Bronze, é incomensuravelmente inferior ao volume da amostra colhida na primeira intervenção da Casa Fabião (Fig. 2: B).

Recorde-se que aí, segundo o relato publicado (Coelho, 2005: 121) – ainda que não nos seja possível qualquer leitura sobre a localização precisa do contexto, as cotas de intervenção atingida ou a estratigrafia associada, porquanto não foram publicadas –, de um único depósito associado ao plano de diagnóstico arqueológico recolheram-se 4841 fragmentos cerâmicos. Ao que tudo parece indicar, serão cronologicamente coevos em relação ao conjunto formado pela nossa pequena amostra.

O perfil das nossas duas peças tem correspondência com potes, vasilhame usado para armazenagem de alimentos sólidos. Esta forma foi também o conjunto mais expressivo recolhido na intervenção arqueológica de 2001 na Casa Fabião (IDEM, ibidem).

Pese embora devam ser atendidas as devidas diferenças regionais, com uma aparente longa diacronia deste tipo de formas, são muitos os paralelos onde vasilhame de características semelhantes, inserto em cronologias precisas da Idade do Bronze por sítios diversificados dessa ocupação no nosso território, tem vindo a ser encontrado. Meramente a

título de exemplo, veja-se o conjunto da Praça da Figueira, em Lisboa (Silva, 2013: 47), ou o conjunto que João Luís Cardoso e Júlio Roque Carreira designam por “vasos de colo alto com ligeiro estrangulamento”, relativamente a uma porção oriunda da Gruta da Ponte da Lage, em Oeiras (Cardoso e Carreira, 1996: 344). Atenda-se também, como não poderia deixar de ser, aos materiais cerâmicos estudados por Raquel Vilaça no âmbito do projecto de investigação que levou a cabo na Beira Baixa, com particular ênfase nos povoados da Idade do Bronze Final, dos quais se destacam, no concelho de Idanha-a-Nova, os sítios da Moreirinha, Alegrios e Cachouça (Vilaça, 1995). De igual modo, devemos nós relevar o conjunto de materiais recuperados em contextos de estruturas negativas (fossas / silos?) intervencionadas em São Manços (Évora), no sítio do Casarão da Mesquita 3, tendo aí, inclusivamente, sido permitida a determinação por datas de radiocarbono para o conjunto cerâmico, enquadrando-o no Bronze Pleno (Santos et al., 2008: 83). Assinalam-se, neste caso particular, não só as semelhanças a nível formal com os nossos dois exemplares, mas, de igual modo, com o largo conjunto recolhido na intervenção arqueológica de 2001 a que atrás nos referimos, devendo, não obstante, salientar-se que, no caso concreto deste acervo, segundo Rui Coelho (2005: 129), parecem testemunhar “uma nova dinâmica que se afirma a partir dos séculos IX e VIII a.C.”. Sobre o que foi referido anteriormente, e atendendo efectivamente a elementos particulares que uma diacronia por vezes encerra, julgamos que se poderá extrapolar para o caso concreto do Centro oeste o que Raquel Vilaça defende para a Beira Interior. Ou seja, também aqui, tal como, inclusivamente, manifestado para períodos ainda mais antigos, “processos culturais de convergência, de cruzamento e de hibridização” terão

FIG. 13 – Parte do conjunto do vasilhame cerâmico exumado no decurso da intervenção arqueológica da UE [103].

certamente ocorrido no Bronze Final (Vilaça, 2013: 213), comportando materialidades bem vincadas que se lhes poderão associar. No caso da Beira Interior, entre outros objectos, são as cerâmicas tipo Cogotas, tipo Carambolo e tipo Baiões 1 que atestam a permeabilidade desses processos. É de supor, dada a própria localização de Leiria, que este território estivesse ainda mais permeável a fenómenos de cruzamento e, concomitantemente, de hibridização, como aliás já sublinha Rui Coelho (2005: 129) em relação à sua geografia. Demais, julgamos que terá contribuído para a reflexão plasmada no parágrafo anterior, o trabalho recente desenvolvido ao nível da produção oleira no estabelecimento fenício de Santa Olaia (Figueira da Foz), mormente pelas dúvidas levantadas ao nível do raio de influência conotado, por palavras nossas, com a sua “produção local de raiz orientalizante” (Almeida et al., 2021: 164). Em bom rigor, Leiria e o seu território poderão perfeitamente encontrar-se dentro dessa área de influência, parecendo-nos inclusivamente que alguns materiais exumados na primeira intervenção na Casa Fabião, pelo que nos foi dado a observar, são muito próximos daqueles de Santa Olaia que foram sujeitos a análise laboratorial.

Parece-nos, por último, que será também possível a associação entre este conjunto de materiais arqueológicos, na fronteira entre os fins da Idade do Bronze e os inícios da Idade com Ferro, com outras evidências que têm vindo a ser identificadas no morro do castelo de Leiria, mormente a que se reporta a um troço de um “dispositivo defensivo” recentemente descoberto (Carvalho, Almeida e Pinto, 2022: 191).

4. O COMPLEXO RESIDENCIAL

A par do edifício residencial propriamente dito, assumindo este uma configuração rectangular e orientando-se segundo o eixo este-oeste, com a extremidade ocidental a encaixar-se perfeitamente pela zona de vertente do morro do castelo, observámos um conjunto de estruturas conexas, nomeadamente aquelas que se localizam na área ajardinada e que, nalguns casos, constituíram parte das infra-estruturas de apoio à habitação. Estas incluem uma cisterna, com cobertura em abóbada de berço, construída já com o recurso a betão, junto ao seu ângulo sudoeste, alguns casebres que terão servido de arrumos às alfaias usadas na manutenção da área ajardinada, bem como uma fonte enquadrada por um tanque de configuração rectangular, também ele em betão. Correspondem a elementos tardios do complexo. Foi também aproveitando o espaço ocupado por um conjunto de edifícios anexos sobre o lado este desta casa, que um dos descendentes da família Fabião aí edificou uma nova unidade habitacional. A relação entre estas duas unidades, à data, não destoa significativamente, em planta, do que já se encontrava representado na cartografia da cidade desde finais do século XIX, sendo já perfeitamente visíveis, quer o edifício prin-

cipal, quer as dependências de que aqui falámos, numa fotografia de inícios do século XX (Coelho, 2005: 133).

O edifício residencial principal, assim como a área ajardinada que o serviu, alongada sobre a própria configuração do perímetro amuralhado do castelo de Leiria, a oeste, embora tenha sofrido alterações significativas ao longo do tempo, estruturais e funcionais, manteve-se, como veremos, de pedra e cal na sua génese.

Tendo em conta a análise aos elementos cartográficos da cidade de Leiria, onde, com maior ou menor rigor na representação, se pode observar parte da sua evolução urbanística, é notória, no espaço que nos ocupa, a presença de um edifício anterior ao que tratámos. A representação, que tem origem nos levantamentos com fins militares conotados com a Guerra Peninsular, dá conta de uma construção de configuração quadrangular, com pateo, localizada junto ao íngreme caminho de acesso à entrada do castelo e voltada ao Largo de São Pedro. Nessa cartografia, nalguns casos envolta em polémica em relação às datas de produção e reprodução, essa casa mais antiga aparece com a indicação de pertença a Dª. Mª. Cândida. Referimo-nos, em concreto, à planta da cidade de Leiria de 1816, que terá sido levantada pelo Major Brandão de Sousa, às ordens do coronel engenheiro Serra. Segundo Ricardo Charters d’Azevedo (2011: 10), Maria Cândida Pereira da Silva Barbo Alardo, era filha de João Pereira da Silva Barbo Alardo, Fidalgo da Casa Real, do Conselho de Sua Majestada, Governador e Capitão Geral de Moçambique, Cavaleiro da Ordem de Cristo e familiar do Santo Ofício, Vereador de Leiria em 1764, Bacharel em Cânones pela Universidade de Coimbra e Morgado de Caldelas. A importância desta família terá justificado, ainda nessa data, a alusão à proprietária desta habitação. Não deixa de ser curiosa, por outro lado, a indicação de pertença da mesma casa, assinalada com a letra P, a um dos filhos de D. Maria Cândida, coronel João Pereira da Silva Fonseca, que figura em uma planta datada de 1809 e abarcando o perímetro amuralhado associado ao castelo de Leiria. Segundo Charters d’Azevedo (2011: 5), faz parte de um lote de perto de meia centena de mapas de lugares em Portugal, levantados durante a Guerra Peninsular e posteriormente arquivados no gabinete de guerra britânico. Terá sido levantado pelo capitão Francisco Pedro de Arbués Moreira, por determinação do marechal Beresford, tendo depois sido levado para o Reino Unido aquando da retirada do seu exército.

1 Cerâmicas vinculadas ao I milénio a.C., residuais para os dois primeiros tipos nos contextos arqueológicos portugueses e com origem exógena. As cerâmicas de tipo Cogotas, enquadráveis na Idade do Bronze e reportadas ao universo mesetenho de “Gogotas I”, correspondem, na generalidade, a recipientes diversos com superfícies

decoração por pintura a vermelho e com representação de motivos geométricos. A cerâmica de Tipo Baiões (Santa Luzia), produzida durante o Bronze Final nos limites do actual território português, encontra-se sobretudo centrada na Beira-Alta, sendo caracterizada pela decoração incisa pós-cozedura. polidas ou mesmo brunidas, por vezes apresentando decoração incisa e puncionada. Já as de tipo Carambolo, tidas como produções de finais da Idade do Bronze e inícios da Idade do Ferro, são características do Baixo Guadalquivir, encontrando-se também nas áreas adjacentes. Destacam-se pela

A casa, muito danificada em 1811, dadas as destruições operadas na cidade pelo exército francês durante a Guerra Peninsular e ocorrências da sua retirada após a terceira invasão, terá sido vendida uns anos depois do falecimento de Dona Maria Cândida.

Se o hiato entre a morte de Dona Maria Cândida e a aquisição deste imóvel por José Fabião, reconhecido fotógrafo retratista de Leiria, foi para nós, durante algum tempo, completamente opaco em relação aos seus proprietários, a consulta de novas peças cartográficas da cidade e de alguns projectos de licenciamento de obras particulares resguardados no Arquivo Municipal de Leiria (Amlra), com um acervo documental a recuar ao ano de 1752, haveriam de revelar alguns dos seus nomes e enquadrá-los cronologicamente.

A planta do antigo castelo de Leiria, levantado e desenhado por Henrique dos Santos Rosa, Major de Engenharia, à qual adiante regressaremos, datada de 1884, anota a divisão da propriedade por essa altura, encontrando-se a porção que nos importa nas mãos de José Jacintho, com a parcela oeste, de encontro às muralhas. Terá sido adquirida por este certamente em data muito próxima, tendo em conta que aí expressamente se faz alusão à compra ao seu antigo proprietário, Dr. José Manuel. Por outro lado, algumas plantas de situação de finais de Oitocentos para licenciamento de obras particulares no Largo de São Pedro para aí construir residência, em requerimento que o cidadão Joaquim Ferreira elabora junto da Câmara Municipal de Leiria, o nome do proprietário anterior da Casa Fabião é revelado. No conjunto de processos iniciados por Joaquim Ferreira, logo em 1895 e com o intuito de construir a sua casa sobre o lado oposto do caminho de acesso ao castelo de Leiria, é perfeitamente legível o nome de Francisco José Pinto sobre a parcela que nos importa (Cota: OP - 00002); este, por sua vez, já viúvo, detém outros processos com o seu nome no mesmo arquivo – infelizmente já não relacionados com a (re)construção da sua casa –, um dos quais, datando de 1920, conotado com um pedido para colocação de um cano de esgotos a partir do seu prédio, sito no Largo de São Pedro ao castelo, ligando-o “com um cano que paça no dito Largo, vindo do Quartel de artelharia 2” (Cota: OP - 00008).

De Francisco José Pinto são reconhecidos, ainda no mesmo acervo documental, processos relativos a construções e reconstruções de habitações “de pedra e cal”, com o respectivo pedido de licenciamento requerido junto da Câmara Municipal de Leiria entre os anos de 1911 e 1913, nalguns casos apensando os desenhos do projecto e a menção ao mestre de obras (José Silva, por exemplo, para um processo de 1913), com vista ao seu aluguer (Cota: OP - 00006).

Sobre este ponto preciso de análise, a confrontação dos vários elementos cartográficos disponíveis para a cidade de Leiria revelou-se extremamente importante. Alguns excertos dessa cartografia, que nós aqui apresentamos para melhor alicerçar a nossa narrativa, evidenciam uma ampla remodelação operada sobre a zona de implantação do imóvel em apreço entre a primeira e a segunda metade do século XIX. Vejamos: o imóvel primitivo associado a Dona Cândida já se encontra represen-

tado na forma que o referimos em planta da cidade datada de 1816, representação essa que se ligará certamente mais à sua própria ruína; posteriormente, Francisco José Pinto figura como proprietário em planta de terceiros relativa a uma obra particular já no final de oitocentos, sendo também nessa condição que para aí instrui processo de licenciamento em 1920, ano de nascimento de José Fabião; posteriormente, a casa, com a configuração que chegou até nós e que a este último mais tarde haveria de pertencer, está representada em planta da cidade datada de 1918-1919.

Será legítimo pensarmos, mesmo perante todas as evidências, que terá sido Francisco José Pinto a proceder à (re)construção do imóvel que mais tarde Fabião adquiriu, mantendo, como parece inequivocamente confirmar-se, as partes estruturantes do edifício primitivo. Ainda que essa etapa construtiva seja evidente, há um pormenor que nos chamou imediatamente a atenção para o edifício concreto que aqui nos importa. Observámos o que nos pareceu tratar-se de uma interrupção abrupta no desenho do alçado voltado ao Largo de São Pedro. Esse corte abrupto, com a cimalha perfeitamente descontinuada, podendo ver-se também a espessura em positivo pelo ressalto vertical deixado da parede mestra, poderá conotar-se com uma interface de destruição mantida numa etapa de remodelação posterior, sendo, por essa altura, o imóvel ampliado com novas construções para a extremidade oeste. Estaria esta interface ligada ao episódio da destruição operada em Leiria pela soldadesca francesa no ano de 1811 (?). Tudo nos leva a propor essa possibilidade. Essa maior alteração estrutural, sem aparentemente ter deixado rasto nos arquivos municipais, terá ocorrido, muito possivelmente, entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX.

Assim, quer a análise cartográfica, quer a análise in loco dos distintos elementos que compõem o complexo edificativo, dão clara nota da manutenção de um imóvel de configuração tendencialmente rectangular, de planta em U, com cerca de 40 x 18 m, destacando-se não só a espessura das paredes portantes, com 90 cm, como a regularidade que estas apresentam na compartimentação interna. Será de salientar ainda o que nos parece tratar-se de um apontamento assinalável de engenharia e arquitectura, traduzido por dois corpos torriformes, dispostos sobre os dois ângulos do alçado sul, que lhe terão servido, quiçá, como contrafortagem. Crível ainda a manutenção, mesmo à época, de uma varanda corrida entre estes dois elementos. Sem nos estendermos ao nível das dinâmicas internas deste edifício, é de salientar que as mesmas, pese embora tenham mantido estruturalmente a sua génese antiga, foram profundamente alteradas nos períodos subsequentes, mormente pela utilização sistemática de compartimentações em tabique.

Ao rés-do-chão, esconso e constrangido, escasso também nos compartimentos que lhe estão associados, tendo estes, muito provavelmente, servido inicialmente como áreas de armazenagem de bens alimentares, continuarão a sobrepor-se outros dois andares, ainda que em termos de volumetria, sobretudo pela orografia onde se encerra, se assemelhe mais a um edifício de dois pisos. A cobertura, que terá sido também muito

afectada pela destruição a que o edifício foi sujeito, terá tido obrigatoriamente de adaptar-se à etapa de remodelação de Oitocentos, mormente às novas construções a oeste. Dessa destruição, chegaram até nós alguns apontamentos arquitectónicos do complexo residencial primitivo, nomeadamente a série de “óculos cegos” ovalados, dispostos de acordo com o ritmo próprio das varandas e a cimalha, que enquadramos no século XVIII.

5. O SISTEMA DEFENSIVO DO CASTELO DE LEIRIA

E A CASA FABIÃO

O castelo de Leiria, ao qual se associa o seu perímetro amuralhado, não difere de outros complexos medievais similares no nosso território, sendo constituído por três núcleos perfeitamente distintos (Gomes, 2004: 43). Fundado por D. Afonso Henriques, o castelo de Leiria reflecte, não essa etapa particular nas materialidades que se lhe poderiam associar, mas as sucessivas construções e remodelações operadas sobre um imenso palimpsesto. Os inícios dessa fortificação cristã são mesmo precedidos, em cerca de 3000 anos, pelas primeiras evidências da ocupação humana no espaço que esta viria a ocupar. Perfeitamente compartimentado (Fig. 14), o complexo defensivo associado ao castelo divide-se entre o topo do morro dolerítico amuralhado, encerrando aí um pequeno centro de comando fortificado com alambor e torre de menagem (núcleo A), esta já construída ao tempo de D. Dinis, observando-se imediatamente sobre o lado norte e a uma cota intermédia, um segundo reduto reservado ao contingente militar (núcleo B). Um terceiro e derradeiro núcleo, estabelecido a uma cota inferior e bem mais expressivo no que à sua área concerne, abarca a “vila medieval” intramuros com a sua cerca, encerrando esta alguns dos edifícios mais emblemáticos desse período, onde sobressai a Igreja românica de São Pedro, por exemplo (núcleo C).

Uma aproximação estratigráfica rigorosa, inédita, com vista à determinação das sequências construtivas, suportada de igual modo por resultados arqueológicos, foi levada a cabo recentemente (Ginja, 2017a) e com resultados assinaláveis sobre a pequena fortificação que o primeiro núcleo encerra e que vários historiadores, por óbvios motivos, designam por “último reduto” (Gomes, 2004: 45).

Os limites particulares da Casa Fabião ocupam, desde o Largo de São Pedro, uma área substancial da circunscrição associada à extremidade ocidental do núcleo da “vila medieval”. A totalidade do imóvel enquadra-se, pois, na linha de fronteira das muralhas do castelo, do reduto militar e da própria cerca da vila. A sudoeste, com um distanciamento de cerca de 35 m em relação à muralha do castelo, a propriedade arranca a partir da face interna da cerca, estendendo-se por cerca de 120 m, em paralelo ao primeiro muro aludido e atingindo em continuidade praticamente os limites do reduto militar, a norte, onde a distância entre os limites da propriedade e da muralha que o circunscreve é de apenas cerca de 10 m.

Aqui chegados, importa referir o seguinte. A construção, por parte do Promotor do empreendimento, de um conjunto de muretes à revelia do próprio projecto de execução e das leis protectoras do Património cultural, que legalmente o impediam por se tratar de uma área non aedificandi do Monumento Nacional, tendo nós já por essa altura informado sobre a conclusão dos nossos trabalhos, levou a Câmara Municipal de Leiria, entidade que testemunhou a ocorrência, a exigir que se empreendesse um conjunto de acções que visassem, não só a certificação dos impactos dessa acção espúria, como a reposição topográfica do terreno ao momento imediatamente anterior à sua construção. Um pequeno relatório da situação de referência, que tivemos oportunidade de apresentar à Tutela, de acordo com o que nos foi possível observar sobre o sucedido, deu conta que não teria existido afectação directa de eventuais estruturas ou contextos arqueológicos sobre a linha de construção deste murete, que acompanha em extensão os limites da própria propriedade, a oeste.

FIG. 14 – Planta esquemática interpretada dos distintos núcleos associados ao castelo de Leiria. 1. Torre de Menagem e Alcáçova; 2. Igreja de S.tª Maria da Pena; 3. Paços do Castelo ou da Rainha; 11. Porta e Torre Buçaqueira; 14. Porta da Traição.

10. Porta de Albacara.

4. “Casa Fabião”; 5. Igreja de S. Pedro; 6. Antigos Paços Episcopais; 7. Cerca da Vila; 8. Portas de Pêro Alvito; 9. Porta do Sol; 12. Caminho de acesso ao Castelo a partir do Largo de S. Pedro; 13. Cubelo; 15. Barbacã. 0 50 m

Isto porque esse muro novo havia sido alicerçado, com elementos pétreos cimentados, imediatamente sobre a superfície do terreno, ou seja, sem a constituição de qualquer vala de fundação.

A ilegalidade completamente escusada relatada anteriormente levantou, desde logo, um conjunto de questões. Teria a construção do muro novo incidido directamente sobre pré-existências não documentadas, e estariam estas conotadas com o sistema defensivo do castelo de Leiria nalguma das suas fases?

Tendo em conta a informação bibliográfica colhida, as peças cartográficas analisadas e a perscrutação no terreno na procura de respostas – por área entretanto liberta da densa vegetação que a cobria –, ainda que a resposta cabal só pudesse advir dos resultados obtidos numa ampla campanha arqueológica, todos os indícios parecem apontar para uma resposta negativa. Negativa ao nível, atente-se, apenas do que se conhece do sistema defensivo deste castelo e das partes que o compõem na sua evolução, aproveitando nós para sublinhar, uma vez mais, que a ocorrência de evidências materiais cronologicamente anteriores no seu entorno é hoje, como vimos, um dado adquirido.

Constituindo-se como elementos de análise fundamental, como já demonstrámos, a produção cartográfica sobre a cidade de Leiria e, em concreto, sobre a área antiga associada ao seu perímetro amuralhado medieval, mormente aquela produzida, para o que aqui importa destacar, em momento conotado com as invasões francesas e datas imediatamente posteriores, permite-nos uma visão perfeitamente clara sobre este sistema defensivo, cuja expressividade máxima terá ocorrido no século XV (Gomes, 2004: 51), mas também das partes de que o compunham e ainda, nalguns casos, mesmo apontamentos sobre o seu nível de preservação. Por outro lado, ganham redobrada importância como elementos de análise e confrontação os próprios esboços que as permitiram, porquanto comportam sempre um maior número de anotações. Edifícios de carácter público e privado, com a inclusão do nome dos seus destacados proprietários, alusão ao aproveitamento que era da-

FIG. 15 – Planta do castelo de Leiria e planta da cidade de Leiria, datadas de 1816 e 1884, respectivamente, assinalando-se estruturas do sistema defensivo medieval e muros que a elas se acoplaram posteriormente.

do aos terrenos, arruamentos, referência à tipologia de elementos precisos do próprio sistema defensivo, como a barbacã, por exemplo, surgem nos levantamentos de campo perfeitamente anotados, passando apenas parte desta informação para a versão final da peça cartográfica. Seleccionámos, com vista a uma leitura diacrónica do espaço que nos importa, tendo presente a importância das informações que aí se assinalam, dois elementos cartográficos distintos, um do primeiro quartel do século XIX, elaborado em 1816, e uma planta do antigo castelo de Leiria, levantado e desenhado por Henrique dos Santos Rosa, Major de Engenharia. Este segundo elemento, perfeitamente datado de 1884, encontra-se à guarda dos arquivos do Exército Português (Cota: 6777-5-64-73). A composição que se apresenta na Fig. 15 comporta estes dois elementos cartográficos.

A confrontação entre as duas plantas permite-nos tecer as seguintes considerações, corroborando algumas das nossas interpretações sobre a área de logradouro associada à Casa Fabião e, concretamente, sobre parte das materialidades aí presentes. Assim, não só a reparação da extremidade da cerca medieval na sua ligação com a muralha do castelo, a sudoeste, teria sido concluída em momento anterior à feitura da carta de 1884, uma vez que aí se encontra já perfeitamente representada, como é evidente também, na extremidade oposta e em reaproveitamento de um troço dessa cerca, troço esse que comporta um cubelo e uma torre quadrangular, a construção de um muro de divisão de propriedade.

Por outro lado, o nome de um dos proprietários a que já aludimos, José Jacintho, sobrepõe-se ao de Dona Maria Cândida; de relevar que a propriedade contígua, a oeste, pertença de José Manuel (Dr.), foi também ela adquirida mais tarde por Jacintho. A referência à junção das duas parcelas de terreno numa única propriedade, tal como acabou por chegar até nós, pode ler-se em uma das anotações sobre a área em apreço, na planta de 1884: “Terrenos particulares de José Jacintho por compra ao Dr. Jose Manoel”

Foi precisamente uma porção do único troço visível do muro representado em 1884, que mais tarde se tornaria o logradouro integral da Casa Fabião, que nós acabámos por registar (Fig. 16). Pese embora algumas interpretações completamente desprovidas de sentido o tenham conotado com eventuais reminiscências do próprio sistema defensivo medieval, não só os trabalhos de diagnóstico por nós realizados nesta zona nos pareciam já desmentir esta suposição, como a negação da mesma acaba por ganhar ainda mais consistência pela análise aos elementos plasmados no registo cartográfico aludido.

A representação do Major Henrique dos Santos Rosa, pese embora os meios usados à época, não peca por falta de rigor, evidenciando-se ainda hoje a ligação no terreno deste muro de divisão, com pequeno nicho religioso incorporado, com a face voltada a este do torreão quadrangular, torreão esse que, tal como o pequeno cubelo mais a oeste, configuram elementos assinaláveis dos limites associados à propriedade privada do Monumento Nacional.

6. NOTA FINAL

A conjugação de um número diversificado de dados decorrentes das intervenções arqueológicas que foram e têm sido desenvolvidas nos limites associados ao próprio morro do castelo de Leiria, continuará a aportar, certamente, bons resultados. Em abono da verdade, a própria edilidade local tem vindo a empreender, através de uma série de encontros, a promoção do seu Património arqueológico, incentivando o debate e a constituição de novas linhas de investigação científica sobre a dilatada ocupação humana que o mesmo encerra. Não nos tendo sido permitida a frequência dessas acções, por motivos de vária ordem, acreditamos que este nosso contributo possa ser usado como parte desse processo maior em construção, o qual, como vimos, ultrapassa amplamente os limites desse morro.

Dessas novas linhas de investigação, voltamos a aludir àquela que poderá correlacionar alguns objectos cerâmicos recuperados na zona, sublinhando mesmo os que nós aqui apresentámos, com aqueles que poderão ter sido produzidos nos fornos cerâmicos recentemente descobertos no povoado fenício de Santa Olaia.

Se os nossos dois fragmentos cerâmicos mais antigos, que corroboram a presença humana no morro do castelo de Leiria nos limites impostos pelo primeiro milénio a.C., contribuírem para essa mudança de paradigma, porquanto poderão corresponder a produções adstritas a Santa Olaia, já terá valido a pena.

FIG. 16 – Reminiscências do muro representado na planta do castelo de Leiria, inserto ainda hoje na propriedade da Casa Fabião

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Sécs. XV-XVI (?)

Séc. XVIII

Séc. XIX (< 1884)

Séc. XX

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Séc. XXI (2022)

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[ligações à Internet activas em 2026-07-05]

ABSTRACT

Disaster Archaeology has emerged as a subfield of Forensic Archaeology, focussed on the application of archaeological methods to the investigation and recovery of evidence in mass disaster contexts, with emphasis on the identification of victims and the understanding of human cultural responses to catastrophic events. This essay examines the concept, definition, and scope of this line of research based on the specialised English-language literature, highlighting contributions from various authors. In addition, possible applications of this approach in the Brazilian context are discussed, taking as reference widely documented events such as the dam failures in Brumadinho and Mariana (Minas Gerais), the fire at the National Museum in Rio de Janeiro, the landslides in the mountainous region of that state, and the major floods recorded in southern Brazil.

Key words: Disaster Archaeology; Forensic Archaeology; Methodology; Brazil.

RESUMO

A Arqueologia de Desastres tem emergido como um subcampo da Arqueologia Forense dedicado à aplicação de métodos arqueológicos na investigação e recuperação de vestígios em contextos de desastres em massa, com ênfase na identificação de vítimas e na compreensão das respostas culturais humanas a eventos catastróficos. Este ensaio examina o conceito, a definição e o escopo dessa linha de pesquisa com base na literatura especializada em língua inglesa, destacando contribuições de vários autores. Além disso, são discutidas possíveis aplicações dessa abordagem no contexto brasileiro, tomando como referência eventos amplamente documentados, como os rompimentos de barragens em Brumadinho e Mariana (Minas Gerais), o incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, os deslizamentos de terra na região serrana desse mesmo estado e as grandes inundações registradas no sul do país.

Palavras-chave: Arqueologia de desastres; Arqueologia forense; Metodologia; Brasil.

RÉSUMÉ

L’Archéologie des Catastrophes est apparue peu à peu comme un sous-domaine de l’Archéologie Médico-légale destiné à l’application de méthodes archéologiques dans la recherche et la récupération de vestiges dans des contextes de catastrophes de masse, avec une insistance sur l’identification de victimes et sur la compréhension des réponses culturelles humaines à des événements catastrophiques. Cet essai examine le concept, la définition et la portée de cette ligne de recherche se basant sur la littérature spécialisée de langue anglaise, mettant en relief des contributions de divers auteurs. Outre ces aspects, sont discutées de possibles applications de cette approche dans le contexte brésilien, se référençant à des événements largement documentés, tels les ruptures de barrages à Brumadinho et Mariana (Minas Gerais), l’incendie du Musée National à Rio de Janeiro, les glissements de terrain dans la région montagneuse de ce même état et les grandes inondations relevées dans le sud du pays.

Mots Clés: Archéologie des Catastrophes; Archéologie Médico-légale; Méthodologie; Brésil.

1 Núcleo de Antropologia Forense (Nuaf) da Perícia Forense do Ceará (Pefoce) e Coordenador do Laboratório de Entomologia Forense e Ciências Forenses Integradas (Lefci) do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da Universidade Federal do Ceará (Npdm-Ufc), Brasil (arqueologiasobradinho@gmail.com).

2 Supervisor do Nuaf da Pefoce e Pesquisador do Lefci do Npdm-Ufc, Brasil (werneckfrota@gmail.com).

3 Supervisor do Núcleo de Psiquiatria Forense (Nupsifo) da Pefoce e Pesquisador do Lefci do Npdm-Ufc, Brasil (moreirafilho@ufc.br).

digging up the present!

Essay on Disaster Archaeology concept,

definition, and its field of practice as a subfield of Forensic Archaeology

Sebastião Lacerda de Lima Filho 1, Marcos Tadeu Ellery Frota 2 , Renato Evando Moreira Filho 3, April M. Beisaw 4, F. Donald Pate 5 , Nicholas Márquez-Grant 6, Martha Judith Hernández Velasco 7 , Allysson Allan de Farias 8 e Manoel Odorico de Moraes Filho 9

Dedicated to the cherished memory of Professor Dr. Richard A. Gould (“Dick”), an indefatigable advocate of Disaster Archaeology, whose commitment, intellectual rigor, and enthusiasm were instrumental in advancing this field of research worldwide. The authors also dedicate this essay to all those whose lives have been tragically lost in disasters of varying scales. We express our deepest respect and gratitude to the emergency responders, support teams, and professionals who work tirelessly in rescue operations, protection efforts, and the provision of emotional care during times of crisis and upheaval.

4 Professor of Anthropology, Vassar College, Poughkeepsie, New York (Usa) (apbeisaw@vassar.edu).

5 Emeritus Professor of Archaeology, College of Human Sciences and Culture, Flinders University, Australia (donald.pate@flinders.edu.au).

6 Associate Professor in Forensic Anthropology, Cranfield University (Uk) (n.marquezgrant@cranfield.ac.uk).

7 Docente de tiempo parcial del Instituto Tecnológico Superior de Perote (Itspe), México (hernandezmartha25769@gmail.com).

8 Coordenador do Laboratório de Bioarqueologia Translacional (Labbat) do Npdm-Ufc, Brasil (allyssonallan@gmail.com).

9 Coordenador do Npdm-Ufc e do Programa de Pós-Graduação em Medicina Translacional da Faculdade de Medicina da Ufc, Brasil (odorico@ufc.br).

Article received for publication on 2026-03-20.

INTRODUCTION

Disaster Archaeology represents a particularly coherent and necessary intersection between traditional archaeology and the urgent demands of forensic investigation, emerging as a specialized subfield of Forensic Archaeology dedicated to the analysis of catastrophic events and traumatic episodes that result in mass loss of human life. As outlined in the English-language literature, Disaster Archaeology is not limited to the recovery of artifacts or ancient structures; rather, it applies rigorous and systematic archaeological principles to document contemporary disaster scenes, prioritizing both the identification of victims and the reconstruction of the cultural narratives that emerge around such events (Beisaw, 2018; Gould, 2007).

The origin of the concept dates back to 2005, when researcher Dr. Amanda Laoupi, affiliated with the National Technical University of Athens- Centre for the Assessment of Natural Hazards and Proactive Planning (Canah), in Greece, established Disaster Archaeology as an autonomous interdisciplinary field. In her formulation, it is a science that integrates the humanities, environmental education, risk management, and mitigation policies, analyzing the impact of natural hazards on human societies over time. This approach seeks to identify hidden patterns in archaeological landscapes to inform contemporary strategies for disaster preparedness planning, which includes the preservation of cultural heritage (Laoupi, 2016 and 2005).

Dr. Laoupi´s comprehensive perspective includes defining the dynamics and impacts of disasters in the evolution of human civilization, as well as analyzing the types, frequencies, and magnitudes of latent hazards within archaeological contexts. It also includes investigation of adaptive processes developed by past societies. Such an approach differs from Forensic Archaeology’s focus on the immediate recovery and identification of victims (Plens and Souza, 2022; Laoupi, 2019a-b).

An integrated and dynamic perspective allows Disaster Archaeology not only to respond to contemporary events but also to use the archaeological record as a source of evidence for understanding historical patterns of catastrophes. The analysis of indirect data – such as stratigraphic sequences and sedimentary records associated with extreme events –makes it possible to map the spatiotemporal distribution of disasters, contributing to the construction of interpretative models that may influence strategies for prevention, mitigation, and rapid response to future disaster events.

Despite 20 years of scholarship since Laoupi’s initial introduction, Disaster Archaeology remains an emerging field in need of theoretical and methodological consolidation, particularly concerning the delineation of its fundamental concepts, operational boundaries, and direct relationship with Forensic Archaeology and other sciences applied to catastrophic events. Although different authors have contributed to

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Disaster Archaeology represents a particularly coherent and necessary intersection between traditional archaeology and the urgent demands of forensic investigation, emerging as a specialized subfield of Forensic Archaeology dedicated to the analysis of catastrophic events and traumatic episodes that result in mass loss of human life.

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expanding its scope and applications, conceptual variations and distinct approaches persist, reflecting both the interdisciplinary nature of the field and the complexity of the disaster contexts in which it operates. In this paper, the authors seek to compile and critically discuss contributions to Disaster Archaeology to trace how the concept has been defined and reinforce the main axes that structure this field of investigation. We begin with a synthesis of the principal definitions and domains of activity to outline conceptual foundations and potential applications with case studies from extreme events that occurred in Brazil.

A SYNTHESIS OF THE DEFINITION, SCOPE OF PRACTICE, AND RESEARCH FIELD OF DISASTER ARCHAEOLOGY

Although the term, general definition, and direct field of application of Disaster Archaeology emerged as early as 2005 through the preliminary discussions conducted by the Greek archaeologist Amanda Laoupi (2005, 2011, 2016, 2019a-b), its scope and application in the study of and collaboration in human, social, and natural disasters only diversified and achieved broader international visibility through the field and analytical investigations conducted by Professor Dr. Richard A. Gould of the Department of Anthropology at Brown University (Usa). Richard A. Gould, in his seminal work Disaster Archaeology, published in 2007 and subsequently expanded through later contributions, defined this approach as a practice involving the empirical and meticulous use of archaeological science combined with ethical and emotional sensitivity toward victims and their families. This perspective differs from conventional archaeology in its humanitarian and forensic focus on events involving mass fatalities.

Gould emphasizes that while traditional archaeology seeks primarily to understand the human past for academic purposes, Disaster Archaeology also addresses immediate practical needs, such as the identification of victims and the investigation of disaster scenes. To achieve this, it employs forensic techniques – particularly those developed within forensic archaeology, forensic anthropology, and taphonomy – in order to ensure precise and legally valid results. Operationally, the discipline can therefore be characterized as the application of scientific field archaeology skills following mass-fatality disasters, aimed at documenting and recovering physical evidence, including human remains. These activities contribute directly to victim identification and repatriation processes, as well as to determining the circumstances that occurred at the disaster scene (Gould, 2013 and 2007). While traditional archaeology seeks to learn about what happened in the past, Disaster archaeology seeks to bring closure to the communities whose members have become victims. This aligns Disaster Archaeology more closely with concept of forensic.

According to Soren Blau (2005) forensic anthropology accomplishes disaster victim identification through the integrated application of archaeological and anthropological methods. This maximizes the recovery of human remains in contexts associated with crimes or natural disasters. Bodies are often buried by debris and need to be recovered using archaeological attention to layers of contexts and attention to small fragments of evidence that may help identify a body. Personal objects like watches and necklaces may be more informative than anthropological assessment of human remains. In some cases, the anthropological assessment of body parts will allow for the distinction of one individual from another.

Kenneth Ames, president of the Society for American Archaeology (Saa), is among those who have formally recognized Richard A. Gould as one of the principal founders of what has become known as Disaster Archaeology. Gould, a professor of Anthropology at Brown University in the United States, combined his scientific consistency and humanitarian orientation to aide in recovery of people and objects from contemporary catastrophe scenarios.

Among the historical contexts that contributed to the consolidation of this field are the methodological reflections produced Gould’s disaster work began in the aftermath of the September 11, 2001, attacks, which led to the collapse of the World Trade Center towers in New York City. He then trained students and disaster responders at the site of the Station Nightclub fire in West Warwick, Rhode Island, in 2003. The success of these two projects led to the creation of a non-profit Forensic Archaeology Recovery Group (Far), which offered their services to emergency response groups throughout the northeastern United States and investigated several missing persons cases by doing fieldwork in search of unmarked graves (see Mires and Gold, 2015). Through these projects, Gould and his associated stimulated others to undertake methodological reflections on the application of archaeological methods to contemporary disaster scenarios (Boutilier, 2005).

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Forensic Archaeology and Anthropology, adapting methodological tools such as systematic excavation, taphonomic analysis, spatial mapping, and the study of evidence distributions to scenarios in which time constraints, cultural sensitivity, and scientific precision are critical factors.

“ [Disaster Archaeology] can be understood as a logical extension of

Disaster Archaeology a new subfield linked to Forensic Archaeology gradually consolidated in order to assist authorities with the investigation of disaster contexts. This approach demonstrates how archaeologists, forensic anthropologists, criminal investigators, and professionals from law enforcement and rescue teams can employ archaeological methods – such as systematic excavation, spatial analysis, and stratigraphic recording – to reconstruct events, identify victims, produce forensic evidence, and contribute to the broader understanding and mitigation of catastrophes of social, cultural, or natural origin. It is important to note that Forensic Archaeology has gained increasing public visibility, partly due to the popularization of television series such as CSI, Bones, The Coroner, and Cold Case (Plens, 2026). However, disaster archaeologists operate directly in catastrophic scenarios, both criminal and natural. Although they may encounter evidence useful for police investigations, this is not necessarily their primary objective. Their central purpose is to interpret the disaster in its entirety and to recover human remains and personal objects – such as wedding rings, accessories, or clothing – that may provide information about victims and assist families and survivors in the processes of mourning and memory reconstruction (Gould, 2011, 2007).

Thus, Disaster Archaeology possesses relevance that extends beyond the academic study of the past, constituting also a form of direct scientific intervention for the benefit of contemporary society (Gould, 2013; Boutilier, 2005). In this sense, the field can be understood as a logical extension of Forensic Archaeology and Anthropology, adapting methodological tools such as systematic excavation, taphonomic analysis, spatial mapping, and the study of evidence distributions to scenarios in which time constraints, cultural sensitivity, and scientific precision are

critical factors. The definition proposed by Amanda Laoupi, developed in her works of 2005 and 2016 and further expanded in 2019, broadens this perspective by incorporating wider sociocultural and environmental dimensions. In her approach, disasters are not understood solely as disruptive events but also as catalysts for processes of cultural evolution, involving dynamics of vulnerability, exposure, and social adaptation. Accordingly, the scope of Disaster Archaeology encompasses both natural disasters – such as earthquakes, tsunamis, hurricanes, landslides, and floods – and anthropogenic or cultural events, including terrorist attacks, industrial accidents, and shipwrecks, in which Archaeology can contribute to reconstructing pre-disaster, disaster, and post-disaster dynamics (Laoupi, 2019a-b; Beisaw, 2018; Gould, 2007).

Regarding this conceptual discussion, April M. Beisaw (2018), in her course Archaeology of Disaster, argues that natural disasters become cultural phenomena when they involve human decisions related to risks to life, livelihoods, and property. Where hurricanes, tsunamis, tornados, earthquakes, and other disaster-related events occur but do not cause humans to suffer losses, these are simply natural events. If disasters are inherently a human experience, Archaeology is a more obvious method for the investigation of cultural responses to risks over time. For example, in times and places where human communities could migrate away from risks disasters may have been much less frequent than in cultures where land is privately held and serves as a main aspect of family wealth. In such cultures disasters may have to be endured over and over again. Archaeologically the material record can show abandonment after a disaster or the need to rebuild in place and allow for an assessment of just how much disaster a community can survive. Similarly, Okamura and collaborators (2013), in the article The Great East Japan Earthquake and Cultural Heritage: Towards an Archaeology of Disaster, argue that natural disasters can also be understood as archaeological events, since they produce material records subject to scientific investigation. Earthquakes, tsunamis, and other catastrophes leave sedimentary traces, destroyed structures, abandoned settlements, and redistributed artifacts, allowing the reconstruction of past disaster episodes. Moreover, such events frequently generate significant impacts on cultural heritage, affecting museums, archives, archaeological sites, and historical collections. In the case of the earthquakes and tsunamis that affected Japan in 1995 and 2011, hundreds of cultural assets were damaged or destroyed, requiring emergency rescue and heritage conservation operations (Okamura et al., 2013). This integration is also evident in reviews such as that of Ian Hanson and James Fenn (2024), who analyzed the contributions of Archaeology and Forensic Anthropology to the process of disaster victim identification. The authors emphasize that the combined use of these methods maximizes the recovery of human remains and associated material elements, while also enabling the mapping of distributions and documentation of spatial contexts, often in buried or dispersed scenarios. Hanson and Fenn argue that Forensic Archaeology, by focusing on

the definition of evidence and the recovery of spatial distributions, provides essential support for investigative processes. To illustrate this contribution, they present case studies demonstrating its utility in diverse scenarios, including atrocity crimes, aviation disasters, and explosions, in which multidisciplinary analysis provides evidence concerning event sequences, temporality, and taphonomic impacts (Hanson e Fenn, 2024).

Natasha Powers and Lucy Sibun, in their contribution to The Oxford Handbook of the Archaeology of the Contemporary World (Powers and Sibun, 2013), define Forensic Archaeology as the application of archaeological methods and theories within a criminal context, integrating paradigms such as “context” into forensic science. The authors note that although this field is frequently associated with the recovery of bodies at recent crime scenes, it also extends to the documentation and reconstruction of events from the recent past, aligning directly with Disaster Archaeology when dealing with contexts of mass death resulting from conflicts or catastrophes. Powers and Sibun also highlight the rapid development of the discipline during the late twentieth century, marked by processes of testing, recognition, and methodological standardization. They further emphasize its multidisciplinary nature, incorporating different fields of knowledge – such as geophysics and chemical analyses of bone – while adapting to the flexibility required in crime scene investigations (Powers and Sibun, 2013).

In the Brazilian context, although the international literature still remains relatively limited regarding the direct applications of Disaster Archaeology, certain events clearly demonstrate the potential of this approach. The collapse of the tailings dam in Brumadinho, Minas Gerais, in 2019 – considered the largest humanitarian disaster and occupational accident in Brazilian history – required extensive forensic anthropology operations for the identification of 259 of the 270 victims (Furtado et al., 2024; Silva et al., 2024; Moreira Araújo et al., 2022). Similarly, the rupture of the Mariana dam, in 2015, also highlighted the need for integrated approaches involving Archaeology, Forensic Anthropology, and disaster management (Silva et al., 2024; Carvalho, 2019).

Another relevant example occurred in 2018 with the fire at the National Museum of the Federal University of Rio de Janeiro, which mobilized scientific teams to rescue archaeological and paleoanthropological collections, highlighting specific challenges related to the preservation of cultural heritage in disaster contexts (Reis et al., 2025; Mendes et al., 2022; De Mello, 2020).

Natural events further reinforce this relevance. The landslides that occurred in the mountainous region of Rio de Janeiro in 2011 resulted in hundreds of deaths and demonstrated the importance of systematic technical-scientific approaches for the recovery and documentation of victims in mass burial scenarios (Pereira et al., 2013; Dourado, Arraes and Silva, 2012).

Similarly, recurring floods in southern Brazil – including the historic flood of Porto Alegre in 1941, the 2008 disaster in the Itajaí Valley in

Santa Catarina, and the extreme events recorded in 2023 and 2024 in Rio Grande do Sul – demonstrate the potential application of Disaster Archaeology to materially document the impacts of such catastrophes and contribute to risk-mitigation strategies (Costa et al., 2024; Miamoto and Uehara, 2022). In this context, the institutionalization of Disaster Archaeology in Brazil would represent not only a methodological advancement but also a strengthening of the Forensic Sciences as an integrated investigative system.

In summary, Disaster Archaeology emerges as an interdisciplinary field that combines scientific rigor, humanitarian sensitivity, and analytical capacity to understand complex catastrophic events. By integrating methods from Archaeology, Forensic Anthropology, Forensic Medicine, Forensic Entomology, Taphonomy, and other related disciplines, this subfield provides essential tools for the systematic recovery of evidence, the identification of victims, and a broader understanding of the social and cultural impacts of disasters. Thus, its consolidation in Brazil should not be understood merely as a disciplinary expansion but as a structural strategy to improve institutional responses to mass-fatality events, strengthen interdisciplinary cooperation, and ensure technically consistent, ethically responsible, and socially committed approaches that uphold the dignity of victims.

CONCLUSIONS

Disaster Archaeology has consolidated itself as an indispensable subfield of Forensic Archaeology, articulating rigorous archaeological methods with humanitarian and interdisciplinary perspectives directed toward the investigation of catastrophic events. In this context, its practice prioritizes the identification of victims, the reconstruction of cultural narratives associated with disasters, and the production of knowledge capable of contributing to strategies for mitigating future risks. Initially outlined by Laoupi (2005), particularly in its sociocultural and environmental dimensions, and later operationalized by Gould (2007) and Okamura et al. (2013) from a more directly forensic and humanitarian perspective, this approach extends beyond the simple recovery of material remains. By incorporating analytical tools such as forensic taphonomy, spatial analysis, and international Disaster Victim Identification (Dvi) protocols, Disaster Archaeology broadens its investigative scope to encompass both natural disasters and anthropogenic events, promoting an integrated approach that combines scientific rigor, ethical responsibility, and sensitivity to the human consequences of catastrophes.

Within the Brazilian context, recent events clearly demonstrate the potential applications of this field of research. Episodes such as the collapse of the tailings dams in Brumadinho (2019) and Mariana (2015), the fire at the National Museum of the Federal University of Rio de Janeiro (2018), the landslides that occurred in the mountainous

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has consolidated itself as an indispensable subfield of Forensic Archaeology, articulating rigorous archaeological methods with humanitarian and interdisciplinary perspectives directed toward the investigation of catastrophic events. In this context, its practice prioritizes the identification of victims, the reconstruction of cultural narratives associated with disasters, and the production of knowledge capable of contributing to strategies for mitigating future risks.

“ Disaster Archaeology

region of the state of Rio de Janeiro (2011), as well as large-scale floods recorded in southern Brazil at different times – such as those in 2008, 2023, and 2024 – highlight the relevance of Disaster Archaeology for improving technical and scientific responses in mass-fatality scenarios. Under such circumstances, the application of archaeological and forensic methods contributes not only to the systematic recovery of evidence and human remains but also to the preservation of affected cultural heritage, while enabling identification processes that provide answers and a degree of emotional closure for victims’ families.

Thus, the institutionalization of Disaster Archaeology in Brazil – through cooperation among archaeologists, forensic anthropologists, forensic medicine professionals, and emergency response agencies – represents a fundamental strategy for strengthening the Forensic Sciences in the country. By integrating different fields of knowledge into a coordinated effort of investigation, documentation, and disaster analysis, this field contributes not only to the resolution of past events but also to the production of knowledge applicable to the prevention and management of future risks. In this sense, the consolidation of Disaster Archaeology within the Brazilian scientific landscape aligns with the international development of the discipline, reaffirming its potential as an analytical, humanitarian, and socially engaged instrument in addressing the challenges posed by a world increasingly marked by frequent and complex disasters.

ACKNOWLEDGMENTS

The authors would like to thank Professor Dr. Cláudia Plens (Department of Archaeology - Lato Sensu Specialization Course in Forensic Anthropology and Human Rights / Federal University of São Paulo-Unifesp), Dr. Elaine Cunha (Coordinator of the Center for Forensic Anthropology and Archaeology - Naf, of the Scientific Police of Rio Grande do Norte - Pci), Professor Dr. Janyra Oliveira-Costa (Forensic Entomology Laboratory of the Institute of Forensic Medicine - Iml, Scientific Police of the State of Rio de Janeiro) and Professor Dr. Rodrigo César Farias (Forensic Entomology Laboratory - Paraíba Scientific Police Institute - Ipc-Pb) for the valuable discussions and reflections shared on the importance of Archaeology, Forensic Anthropology, and Forensic Entomology within Brazil’s forensic and scientific policing systems. We also extend our thanks to Dr. Nilo Nobre and master’s student Lucas Porto (Bioarchaeology / Federal University of Ceará - Ufc) for

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Arqueologia do Isolamento Sénior

ética, memória e metodologias de registo

Casimiro 1, João Sequeira 2, Joel Santos 3 ,

1. INTRODUÇÃO

Será que o abandono e o isolamento sénior são apenas um problema social? E se fosse possível também abordá-los arqueologicamente? Em Lisboa, ainda que este fenómeno seja frequente em todo o país, no contexto de intervenções arqueológicas associadas à reabilitação urbana, os arqueólogos deparam-se com casas onde tudo permanece no lugar: a cama feita, medicamentos na mesa de cabeceira, loiça por lavar. Não se trata de ruínas antigas nem de depósitos arqueológicos centenários, mas de habitações de pessoas recentemente falecidas, sem herdeiros diretos, suspensas entre a vida e o abandono.

O envelhecimento demográfico constitui uma das transformações mais significativas das sociedades contemporâneas (Camarano, 2016). Em Portugal, tal como noutros países europeus, o aumento da esperança média de vida tem sido acompanhado por um crescimento expressivo do número de pessoas idosas a viver em situação de isolamento. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2024, pessoas com mais de 65 anos correspondiam a 24,3 % da população, o que compara diretamente com 9,7 % da população em 1970, e com uma projeção para 2100 de 37,3 %, mais de um terço da população portuguesa (ver https://bit.ly/4dWXe9D). Se considerarmos que a mesma projeção estima que em 2100 a população portuguesa diminua de 10,75 milhões para cerca de 8,5 milhões, a importância desta temática ganha uma dimensão preocupante. Em 2024, estimava-se que cerca de 500 mil pessoas idosas viviam sozinhas, com maior expressão nas freguesias do interior norte e centro do país, o que representava cerca de 5 % da população portuguesa (ver https://bit.ly/4flbpIb). Este fenómeno, frequentemente descrito em termos estatísticos, traduz-se também numa realidade material concreta. Como mencionado, após o falecimento dessas pessoas, diversas casas que permanecem fechadas devido à falta de herdeiros diretos estão repletas de objetos, memórias e vestígios de vidas que deixaram de ter quem as reivindique.

RESUMO

Em Lisboa, ainda que o fenómeno seja frequente em todo o país, intervenções arqueológicas associadas à reabilitação urbana revelam casas onde tudo permanece no lugar: a cama feita, medicamentos na mesa de cabeceira, loiça por lavar. Não se trata de ruínas antigas nem de depósitos arqueológicos centenários, mas de habitações de pessoas recentemente falecidas, sem herdeiros diretos, suspensas entre a vida e o abandono. São ambientes recentes, densamente carregados de significado, cuja destruição iminente coloca uma questão fundamental: devem estes espaços ser ignorados como lixo contemporâneo ou reconhecidos como contextos arqueológicos relevantes? Este artigo parte desse debate para propor uma reflexão sobre a Arqueologia do isolamento (ou mesmo do abandono) sénior.

Palavras-chave: Arqueologia urbana; Arqueologia do isolamento sénior; Teoria arqueológica; Metodologia.

ABSTRACT

In Lisbon, archaeological interventions during urban rehabilitation works often reveal homes where everything is in its right place: the bed is made, the medication is on the bedside table, the dirty dishes are on the sink. These are not old ruins or century-old archaeological deposits, but the homes of recently deceased people without direct heirs, suspended between life and abandonment. These recent environments are loaded with meaning and their imminent destruction raises a fundamental question: should they be ignored as contemporary litter or acknowledged as relevant archaeological contexts? This article stems from this debate to propose a reflection about the Archaeology of old age isolation (albeit abandonment).

Key words: Urban archaeology; Old age isolation Archaeology; Archaeological theory; Methodology.

RÉSUMÉ

A Lisbonne, bien que le phénomène soit fréquent dans tout le pays, des interventions archéologiques associées à la réhabilitation urbaine révèlent des maisons où tout reste à sa place : le lit fait, des médicaments sur la table de chevet, de la vaisselle à laver. Il ne s’agit nullement de ruines anciennes ni de dépôts archéologiques centenaires mais d’habitations de personnes récemment décédées, sans héritiers directs, suspendues entre la vie et l’abandon. Ce sont des milieux ambiants récents, densément chargés de sens, dont la destruction imminente pose un problème fondamental : ces espaces doivent-ils être ignorés en tant que déchets contemporains ou reconnus comme des contextes archéologiques pertinents ?

Cet article part de ce débat afin de proposer une réflexion sur l’Archéologie de l’isolement (voire de l’abandon) des séniors.

Mots Clés: Archéologie urbaine; Archéologie de l’isolement des séniors; Théorie archéologique; Méthodologie.

1 Universidade de Stirling (Escócia).

2 Universidade de Coimbra.

3 Universidade de Leicester (Inglaterra).

4 Cidheus - Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades, Universidade de Évora.

5 Cota 80.86.

Por opção dos autores, com exceção de João Sequeira, o texto segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Foi recebido para publicação em 2026-05-12.

O presente trabalho foca-se no contexto de intervenções urbanas em Lisboa, onde estas casas surgem frequentemente durante trabalhos arqueológicos de diagnóstico ou de acompanhamento de obra. Chamados a avaliar estruturas e estratigrafias, os arqueólogos deparam-se, inesperadamente, com espaços domésticos abandonados cuja aproximação não se enquadra nos parâmetros tradicionais da disciplina. Não se trata de contextos antigos, nem de depósitos arqueológicos convencionais, mas de ambientes recentes, densamente carregados de significado, cuja destruição iminente coloca uma questão fundamental: devem estes espaços ser ignorados como lixo contemporâneo ou reconhecidos como contextos arqueológicos relevantes?

Este artigo parte desse debate para propor uma reflexão sobre a Arqueologia do isolamento (ou mesmo do abandono) sénior. Argumenta-se que estes contextos, embora recentes, constituem arquivos materiais de elevado valor interpretativo, permitindo aceder a dimensões da vida quotidiana, do isolamento, da solidão e da memória que dificilmente seriam captáveis por outras vias. No entanto, a sua abordagem levanta dilemas éticos significativos, nomeadamente quanto à ausência de consentimento dos antigos moradores, à natureza íntima dos vestígios e à legitimidade da intervenção arqueológica.

Simultaneamente, estes contextos provocam desafios metodológicos que exigem o desenvolvimento de estratégias específicas de registo. A aplicação de metodologias tradicionais, baseadas na escavação, na recolha sistemática e na inventariação exaustiva, revela-se não só impraticável face às exigências da Arqueologia de contrato, mas também desajustada face à natureza destes espaços e às questões éticas a eles associadas. Torna-se, assim, necessário conceber formas de documentação que privilegiem o contexto, a relação entre objetos e a experiência sensorial do espaço, em detrimento da análise isolada de artefactos.

Deste modo, o presente artigo tem dois objetivos principais. Por um lado, discutir os dilemas éticos associados à Arqueologia de casas recentemente habitadas por idosos que viviam em isolamento, propondo um enquadramento assente na responsabilidade social e na ética do cuidado. Por outro lado, apresentar uma abordagem metodológica adaptada a estes contextos, baseada no registo não intrusivo, na análise de conjuntos e na valorização da dimensão sensorial. Através desta dupla abordagem, procura-se demonstrar que a Arqueologia do isolamento sénior não só é possível como necessária, desde que conduzida com rigor, sensibilidade e consciência ética.

2. A ARQUEOLOGIA DO PASSADO RECENTE E O ISOLAMENTO DOMÉSTICO

Nas últimas décadas, a Arqueologia tem vindo a expandir significativamente os seus limites cronológicos, epistemológicos e metodológicos, integrando progressivamente o estudo de contextos pertencentes ao chamado passado recente ou mesmo ao presente. Esta transformação não

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O presente artigo tem dois objetivos principais. Por um lado, discutir os dilemas éticos associados à Arqueologia de casas recentemente habitadas por idosos que viviam em isolamento, propondo um enquadramento assente na responsabilidade social e na ética do cuidado. Por outro, apresentar uma abordagem metodológica adaptada a estes contextos, baseada no registo não intrusivo, na análise de conjuntos e na valorização da dimensão sensorial.

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resulta apenas de um alargamento temporal da disciplina, mas também de uma reformulação mais profunda do que se entende por Arqueologia e do seu papel na sociedade contemporânea. Como tem sido internacionalmente discutido, a Arqueologia deixou de ser exclusivamente uma ciência dedicada ao estudo de vestígios antigos para se afirmar como uma disciplina centrada nas relações entre pessoas, objetos e espaços, independentemente da sua cronologia (Latour, 2007; Lucas, 2021; Casimiro et al., 2023; Sequeira, 2026).

Neste contexto, a Arqueologia Contemporânea surge não apenas como um campo de estudo, mas também como uma prática crítica e reflexiva que questiona as fronteiras tradicionais entre passado e presente. A materialidade contemporânea, longe de ser considerada irrelevante ou demasiado recente, é entendida como portadora de significados complexos, envolvendo memória, identidade, poder e exclusão social. Como sublinhado em trabalhos recentes, a Arqueologia Contemporânea não pode ser neutra nem meramente descritiva, uma vez que opera sobre realidades que continuam a afetar diretamente as comunidades atuais (Casimiro, Santos e Sequeira, 2025). Os problemas sociais são um dos conceitos centrais em Arqueologia Contemporânea e, muito embora o presente trabalho trate do isolamento/abandono, temas como problemas ambientais, habitação ou dependência têm vindo a ser abordados (Santos, 2024; Casimiro et al., 2024; Corrêa, 2025).

O abandono em Arqueologia é muitas vezes associado à formação de sítios arqueológicos e tem sido frequentemente entendido como um

momento de rutura, que marca o fim da ocupação de um espaço (Schiffer, 1996; Cameron e Tomka, 1993). No entanto, em contextos contemporâneos e, mais especificamente, nas casas de idosos, o abandono deveria ser interpretado de forma diversa, como um processo, muitas vezes prolongado e desigual, que envolve decisões individuais, dinâmicas familiares e condicionantes estruturais. Este processo pode assumir múltiplas formas, tais como abandono progressivo associado à institucionalização em lares, esvaziamento seletivo ou completo por familiares, ou abandono súbito após a morte, quando não existem descendentes ou redes de apoio que reclamem os bens. Este artigo trata precisamente de situações associadas à última das formas. Estes espaços domésticos abandonados constituem, assim, contextos particularmente ricos do ponto de vista arqueológico (Buchli e Lucas, 2001). Funcionam como verdadeiros arquivos biográficos, nos quais os objetos não se apresentam como elementos isolados, mas como parte de redes de relações que refletem práticas quotidianas, hábitos de consumo, crenças religiosas e estratégias de sobrevivência emocional. Ao contrário de outros contextos arqueológicos, em que a fragmentação e a deposição secundária dificultam a leitura, estas casas preservam frequentemente uma organização espacial relativamente intacta, permitindo uma abordagem contextual densa e relacional. A análise de casas recentemente abandonadas permite, assim, aceder a dimensões ocultas da vida social, nomeadamente às práticas de cuidado, abandono e exclusão. Contudo, a proximidade temporal que confere riqueza interpretativa a estes contextos é também o que os torna complexos. Ao contrário dos sítios arqueológicos tradicionais, os espaços domésticos contemporâneos não pertencem a um passado distante e anonimizado. Pelo contrário, são frequentemente reconhecíveis, familiares e profundamente enraizados nas experiências sociais/emocionais dos próprios arqueólogos. Como tem sido mencionado em diversos trabalhos, a Arqueologia Contemporânea colapsa a distância entre sujeito e objeto de estudo, obrigando o investigador a confrontar-se com a sua própria posição enquanto agente social e político (Moura et al., 2025).

Neste sentido, o isolamento doméstico de idosos ocupa um lugar particularmente sensível na Arqueologia do passado recente. Não se trata apenas de estudar objetos deixados em suspensão temporal, mas de lidar com vestígios de vidas marcadas por solidão, vulnerabilidade e, frequentemente, invisibilidade social. Estes contextos situam-se numa zona liminar entre o Património e o lixo, entre a memória e o esquecimento, desafiando as categorias tradicionais da disciplina. Como demonstrado em trabalhos recentes em Portugal, muitos destes contextos são destruídos sem qualquer registo, precisamente por não se enquadrarem nas definições convencionais do que constitui Património arqueológico (Casimiro et al., 2023).

A dificuldade de enquadramento destes espaços também se reflete legalmente. O Regulamento de Trabalhos Arqueológicos, embora intencionalmente abrangente, continua a privilegiar metodologias e contextos associados a uma Arqueologia mais tradicional, deixando numa zona

A Arqueologia do isolamento doméstico de idosos insere-se plenamente nas preocupações da Arqueologia Contemporânea, ao articular dimensões materiais, sociais e políticas. Mais do que um exercício de documentação, trata-se de uma prática interpretativa que questiona os limites da disciplina e a sua relação com o presente. Estes contextos obrigam a repensar não apenas o que estudamos, mas como e por que o fazemos.

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de ambiguidade práticas emergentes que não implicam escavação ou recolha sistemática de espólio (Casimiro et al., 2023). Este desfasamento entre prática e enquadramento legal torna-se particularmente evidente no caso das casas abandonadas, onde, na maior parte das vezes, a intervenção arqueológica ocorre no âmbito de acompanhamentos de obra, sem que exista um reconhecimento explícito da sua relevância enquanto contextos arqueológicos (Henriques e Filipe, 2025).

Assim, a Arqueologia do isolamento doméstico de idosos insere-se plenamente nas preocupações da Arqueologia Contemporânea, ao articular dimensões materiais, sociais e políticas. Mais do que um exercício de documentação, trata-se de uma prática interpretativa que questiona os limites da disciplina e a sua relação com o presente. Estes contextos obrigam a repensar não apenas o que estudamos, mas como e por que o fazemos.

É precisamente nesta interseção entre materialidade, proximidade temporal e responsabilidade social que a Arqueologia do isolamento sénior se afirma como um campo de investigação relevante. No entanto, essa relevância não pode ser dissociada dos desafios éticos que levanta, nomeadamente no que diz respeito à legitimidade da intervenção e à forma como estas vidas são representadas. É neste ponto que a discussão se desloca inevitavelmente para o domínio da ética, onde a Arqueologia deixa de ser apenas uma prática de conhecimento para se afirmar como uma prática de cuidado e responsabilidade, que vamos aprofundar em três estudos de caso.

3. CONTEXTOS EMPÍRICOS:

CASAS DE IDOSOS ABANDONADAS

O presente artigo, como mencionado, utilizará três estudos de caso que foram identificados no centro histórico de Lisboa. Estes contextos surgem no âmbito de acompanhamentos arqueológicos, onde a atenção está formalmente dirigida para estruturas e estratigrafias mais antigas, mas onde, com frequência, se encontram espaços domésticos abandonados, preservando ainda a materialidade da sua última ocupação humana e não-humana.

Os casos apresentados neste artigo são deliberadamente anonimizados e construídos a partir de observações recorrentes em diferentes contextos, constituindo exemplos analíticos que permitem explorar padrões de abandono, práticas domésticas e tensões éticas associadas à sua documentação.

Num dos casos observados, o espaço doméstico apresentava-se aparentemente intacto, sem sinais evidentes de esvaziamento após o falecimento da inquilina, heteronimizada como Dona Clotilde. A cozinha mantinha os utensílios organizados, com a louça ainda disposta nos escorredores e os alimentos parcialmente consumidos armazenados em armários e no frigorífico (Fig. 1). No quarto, a sua cama permanecia feita, com vestígios claros de uso recente, e na mesa de cabeceira acumulavam-se medicamentos, copos de água e pequenos objetos pessoais. Este tipo de contexto sugere um abandono abrupto, não só associado à morte súbita, como é o caso desta senhora, mas também à institucionalização, sem acompanhamentos de processos posteriores de reorganização doméstica. Ao contrário de outros cenários, não se verificava aqui uma mediação ativa por parte de familiares ou herdeiros. O espaço permanecia numa espécie de suspensão temporal, em que a última ação quotidiana parecia interrompida, mas não concluída. Do ponto de vista arqueológico, este contexto apresentava elevado potencial interpretativo, na medida em que preservava relações espaciais e funcionais entre os objetos. A organização da casa permitiu reconstruir rotinas, percursos e gestos, desde as práticas alimentares até aos regimes de medicação. No entanto, esta mesma integridade intensificava a dimensão ética da intervenção, uma vez que o espaço mantinha um elevado grau de intimidade e reconhecimento. A entrada neste espaço doméstico foi marcada por uma sensação imediata de familiaridade, difícil de dissociar da própria experiência pessoal dos arqueólogos envolvidos. A organização da casa, os objetos dispersos e os pequenos gestos inscritos na materialidade quotidiana, tais como fotografias da Dona Clotilde colocadas em diferentes divisões,

uma chávena associada ao consumo regular de chá adoçado com mel, embalagens de rebuçados para a tosse, a presença constante de terços e livros de oração e os bonecos que detinha, construíam uma narrativa íntima, reconhecível e próxima (Fig. 2). Não se tratava de um contexto estranho ou distante, mas de um espaço que remetia para práticas e rotinas partilhadas por muitas outras casas contemporâneas. Esta familiaridade produziu um efeito de identificação que ultrapassava a observação analítica, obrigando à tomada de consciência sobre a proximidade entre sujeito e objeto de estudo, para além do desconforto óbvio com o que parecia demasiado familiar. Num segundo caso de estudo, o espaço doméstico evidenciava um padrão distinto, marcado por um esvaziamento parcial e seletivo. Determinados objetos, frequentemente associados a valor económico ou utilitário, tinham sido removidos, enquanto outros permaneciam no local. Ao contrário do caso anterior, a escassez de representações fotográficas dos inquilinos não provocou a necessidade de pseudonimizar

FIGS. 1 e 2 – Armário e bonecos em Casa da Dona Clotilde.

os agentes humanos, principalmente devido à presença de elementos de forte carga simbólica ou emocional, tais como objetos religiosos católicos e outros dedicados ao fanatismo futebolístico. Em ambos os conjuntos, a quantidade de objetos era considerável. O encontrar destes vestígios não pareceu algo aleatório. Pelo contrário, refletia decisões específicas sobre o que devia ser preservado, reutilizado ou abandonado. Por outras palavras, o que tinha sido rejeitado contava uma história muito mais rica. Os objetos deixados correspondiam precisamente àquilo que concentrava maior densidade emocional, tornando-se difíceis de integrar em novos contextos domésticos. O fanatismo religioso foi deixado para trás, o fanatismo futebolístico também. O isolamento surgia, assim, não como negligência, mas como uma forma de gestão da memória emocional. Arqueologicamente, este tipo de contexto revelava a importância de considerar não apenas os objetos presentes, mas também os ausentes. A ausência torna-se um dado interpretativo fundamental, permitindo inferir relações familiares, hierarquias de valor e estratégias de desapego. Aqui vivia um casal e a experiência arqueológica foi marcada por uma tensão entre duas esferas simbólicas aparentemente distintas, mas materialmente coexistentes. A presença simultânea de uma forte devoção católica, expressa por meio de imagens religiosas, terços e objetos devocionais, e de um conjunto significativo de objetos associados ao Sport Lisboa e Benfica, incluindo memorabilia e elementos decorativos, produzia um contraste que era simultaneamente evidente e profundamente humano (Fig. 3). Mais do que oposição, esta coexistência revelava formas complementares de pertença, fé e identidade, que foram deixadas propositadamente para trás por quem esvaziou a casa. Para nós, arqueólogos, a leitura deste espaço implicou um esforço de interpretação que não reduzisse estas dimensões a categorias simplistas, mas que reconhecesse a complexidade das práticas quotidianas. A experiência foi, neste caso, menos marcada pela familiaridade direta e mais pela necessidade de compreender como diferentes sistemas de significado podem coexistir no mesmo espaço doméstico, estruturando rotinas, afetos e formas de lidar com a vida e a solidão.

O terceiro contexto observado caracterizava-se por uma acumulação extrema de objetos, frequentemente associada a

FIGS. 3 e 4 – Duas religiões e acumulação.

práticas de retenção e reaproveitamento. Nestes casos, os espaços domésticos encontram-se densamente preenchidos com materiais heterogéneos, incluindo embalagens, objetos descartados, restos de consumo e itens recolhidos do exterior. Longe de constituir apenas um fenómeno patológico, esta acumulação pode ser interpretada como uma resposta a condições de isolamento social e de insegurança material (Santos, 2025). Os objetos deixam de ser apenas instrumentos funcionais para se tornarem elementos de companhia, de memória e de controlo do ambiente doméstico. A distinção entre lixo e Património dissolve-se, passando todos os objetos a ser potencialmente significativos. Este contexto gerou uma reação distinta, caracterizada por um desconforto inicial associado à densidade material e à aparente ausência de critérios convencionais de organização (Fig. 4). Segundo relatos de vizinhos, a ocupante recolhia sistematicamente objetos do exterior, acumulando-os no interior da habitação sem proceder à sua remoção. Uma vez mais, a ausência de representações fotográficas da inquilina teve um efeito de desumanização: nunca se sentiu a necessidade de dar um nome a quem ali tinha vivido. Esta prática de recolha frenética de objetos resultava num espaço profundamente saturado, no qual a distinção entre objeto útil, objeto descartado e resíduo se tornava difusa. Para os arqueólogos, a experiência foi marcada por uma tensão entre a tendência inicial de classificar esta realidade como desordem ou patologia e a necessidade

de suspender esse julgamento, reconhecendo a possibilidade de outros sistemas de valor e de relação com a materialidade. O desconforto não resultava apenas das condições físicas do espaço, mas também da confrontação com formas de vida que desafiam normas sociais dominantes, o que obriga a uma reflexão crítica sobre os limites da interpretação arqueológica e sobre o risco de reproduzir estigmas por meio da análise. Independentemente do tipo de abandono, um elemento recorrente nos contextos analisados é a presença de objetos que atuam como âncoras identitárias. Entre estes destacam-se artefactos religiosos (imagens, terços, água benta), objetos associados a práticas culturais específicas (por exemplo, memorabilia desportiva) e fotografias familiares. Estes objetos desempenham um papel fundamental na manutenção de uma continuidade identitária e de estratégias de combate à solidão (Santos, 2025), especialmente em contextos de isolamento. Funcionam como mediadores entre o indivíduo e o mundo exterior, permitindo estabelecer ligações simbólicas com comunidades, crenças e relações afetivas. A sua presença recorrente sugere que, mesmo em situações de abandono social, existe um esforço ativo de construção e preservação de sentido. Arqueologicamente, estes elementos permitem articular micronarrativas, ligadas à experiência individual, com macronarrativas mais amplas, relacionadas com práticas culturais e dinâmicas sociais. No entanto, a sua interpretação exige cautela, evitando leituras simplistas ou essencialistas. Os casos apresentados demonstram que as casas habitadas por idosos não podem ser entendidas apenas como depósitos materiais. São, antes, paisagens emocionais, onde os objetos, os espaços e as ausências se articulam na construção de narrativas complexas sobre vida, solidão e morte. Do ponto de vista metodológico, estes contextos desafiam diretamente abordagens tradicionais baseadas na classificação tipológica e na seleção de artefactos. A densidade material impede uma análise exaustiva, exigindo estratégias de registo que privilegiem a compreensão global do espaço e das relações entre objetos.

4. METODOLOGIA: REGISTAR SEM ESCAVAR

A abordagem metodológica adotada neste estudo parte do princípio fundamental de que os contextos domésticos contemporâneos, particularmente aqueles associados ao abandono sénior, não podem ser analisados através dos modelos tradicionais da Arqueologia. A escavação estratigráfica, a recolha sistemática de artefactos e a inventariação exaustiva revelam-se não apenas impraticáveis nestes contextos, mas também conceptualmente inadequadas. Ao contrário de depósitos arqueológicos convencionais, estas casas preservam ainda relações espaciais, funcionais e afetivas entre objetos, cuja destruição através de metodologias intrusivas implicaria uma perda irreversível de informação.

Neste sentido, a metodologia desenvolvida aproxima-se de propostas já exploradas no âmbito da Arqueologia Contemporânea, nomeadamente no trabalho de Buchli e Lucas (2001) em torno de uma casa de habi-

A abordagem metodológica adotada neste estudo parte do princípio fundamental de que os contextos domésticos contemporâneos, particularmente aqueles associados ao abandono sénior, não podem ser analisados através dos modelos tradicionais da Arqueologia. [...] Implica uma mudança significativa no foco da análise, do objeto individual para o sistema de relações no qual este se insere.

“ “tação social, que demonstraram que a análise de contextos domésticos recentes não depende da escavação, mas da capacidade de interpretar a materialidade em relação ao seu contexto social e espacial, sem recurso a desmontagem desses contextos. Tal como nesses estudos, o objetivo não é a catalogação exaustiva de objetos, mas a reconstrução de práticas quotidianas e de formas de vida a partir da sua materialização.

A intervenção nestes espaços baseia-se, assim, num conjunto de estratégias de registo não intrusivas. A documentação é realizada sobretudo através de fotografia sistemática e registo de vídeo contínuo, permitindo captar não apenas os objetos presentes, mas também a sua disposição, as suas relações e o contexto espacial. Este tipo de registo privilegia a leitura do espaço como um todo, em detrimento da análise isolada de artefactos, permitindo preservar a integridade das assemblagens e das narrativas que delas emergem.

A organização do registo segue uma lógica espacial, estruturada por divisões domésticas, nomeadamente cozinha, quarto, sala, casa de banho, entendidas como unidades analíticas fundamentais. Em cada espaço, a atenção centra-se em conjuntos de objetos que revelam práticas específicas, como a preparação de alimentos, o cuidado do corpo, a prática religiosa ou a gestão da saúde. Por exemplo, a presença articulada de chávenas, recipientes de mel e rebuçados para a tosse, como foi identificado no primeiro caso de estudo, permite inferir hábitos alimentares e estratégias de cuidado pessoal, enquanto conjuntos de medicamentos e objetos religiosos podem indicar rotinas associadas à doença e à fé. Esta abordagem implica uma mudança significativa no foco da análise, do objeto individual para o sistema de relações no qual este se insere. A relevância de um artefacto não é determinada pela sua tipologia ou pelo seu valor intrínseco, mas pela sua posição numa rede de significados

e práticas. Neste contexto, a ausência de determinados objetos, resultado de processos de esvaziamento seletivo, assume também um papel interpretativo central, permitindo compreender decisões familiares, hierarquias de valor e estratégias de gestão da memória. Importa salientar que esta metodologia não procura a exaustividade. Pelo contrário, assume a incompletude como uma condição inerente e necessária da análise. A impossibilidade de registar todos os elementos presentes, seja por limitações temporais, legais ou éticas, obriga a uma seleção baseada em critérios de relevância interpretativa. Esta seleção não constitui uma limitação metodológica, mas uma escolha consciente, alinhada com a necessidade de minimizar a intrusão e preservar a dignidade dos contextos analisados, a par da exequibilidade da intervenção. Outro elemento fundamental desta abordagem é a integração da dimensão sensorial no registo arqueológico. Para além da documentação visual, são consideradas as perceções relacionadas com o cheiro, a luz, a temperatura e o estado de conservação dos espaços. Estas dimensões, frequentemente negligenciadas na Arqueologia tradicional, revelam-se essenciais para compreender a experiência vivida nesses ambientes e a forma como a materialidade contribui para a construção de atmosferas específicas, muitas vezes associadas a isolamento, abandono ou cuidado.

A metodologia adotada reconhece, assim, que a Arqueologia do isolamento sénior não pode ser reduzida a um conjunto de técnicas, mas deve ser entendida como uma prática interpretativa situacional, que articula registo material, sensibilidade etnográfica e reflexão ética. Ao privilegiar a documentação contextual, a análise relacional e a não intrusão, procura-se desenvolver uma abordagem capaz de responder à complexidade destes contextos, evitando, simultaneamente, a sua redução a meros objetos de estudo.

Deste modo, mais do que propor um modelo fechado, esta metodologia apresenta-se como um conjunto de princípios orientadores, adaptáveis a diferentes contextos, mas sempre centrados na ideia de que, perante espaços tão próximos e carregados de significado, a Arqueologia deve privilegiar o cuidado sobre a exaustividade e a compreensão sobre a apropriação que os próprios arqueólogos estão a fazer do espaço.

5. ÉTICA: ENTRE AUTORIZAÇÃO LEGAL E LEGITIMIDADE MORAL

Importa esclarecer que a intervenção nestes contextos se encontra plenamente enquadrada do ponto de vista legal. Todas as ações foram realizadas no âmbito de trabalhos arqueológicos autorizados pela tutela, mediante a submissão e aprovação de um Pedido de Autorização de Trabalhos Arqueológicos (Pata), conforme previsto na legislação em vigor. Estes contextos surgem, na sua maioria, associados a processos de reabilitação urbana, nos quais a presença de arqueólogos é obrigatória e institucionalmente regulamentada. Acresce que, nos casos analisados, não foram identificados descendentes ou herdeiros legais que pudessem reivindicar a posse dos bens existentes no interior das habitações, encon-

trando-se estes, do ponto de vista jurídico, numa situação de ausência de titularidade reconhecida. No que respeita à proteção de dados, importa ainda referir que o ordenamento jurídico português não reconhece personalidade jurídica a indivíduos falecidos, não existindo, portanto, direitos de personalidade aplicáveis após a morte. Deste modo, a recolha e o tratamento de informação associada a estes contextos não configuram, em termos estritamente legais, uma violação de direitos individuais. Mas então, se está tudo de acordo com a lei, porque é que nos sentimos desconfortáveis?

Nos contextos aqui analisados, a intervenção arqueológica decorre num enquadramento formal claro: há autorização, não há oposição por parte dos familiares e os procedimentos são cumpridos. Legal e profissionalmente, não há conflito. Contudo, a entrada nestes espaços não é neutra. O desconforto surge precisamente quando tudo parece estar de acordo. Este desconforto não é um problema pessoal nem uma falha de adaptação por parte dos arqueólogos. Emerge da própria situação ética. O desconforto não resulta da dúvida sobre o que fazer, mas da perceção de que aquilo que está em causa eticamente não se esgota numa autorização.

A presença de objetos íntimos, a organização do espaço doméstico e os sinais de uma vida recentemente interrompida introduzem uma dimensão que não se encaixa plenamente nas categorias da prática arqueológica convencionada.

A Arqueologia Contemporânea tem respondido a estes desafios através de abordagens situacionais, que entendem a ética como dependente de contextos específicos, relações e decisões concretas (Tarlow, 2001; González-Ruibal, 2018). Esta perspetiva permite lidar com a complexidade e reconhecer a dimensão política da prática. No entanto, especificamente nos casos aqui discutidos, os limites desta abordagem ética tornam-se evidentes. Nas casas de idosos abandonadas não há interlocutores, nem conflitos explícitos ou posições a negociar. A decisão de avançar é aparentemente simples, mas ainda não está resolvida do ponto de vista ético. E, em muitos casos, nunca vai estar. Não estamos perante um dilema clássico entre alternativas. Estamos perante situações em que qualquer ação é, simultaneamente, necessária e insuficiente. Intervir é inevitável, mas não é neutro. O desconforto assinala precisamente isso. A responsabilidade ética não termina com a decisão nem com o cumprimento das normas (Santos, 2026). Registar, documentar ou autorizar a destruição de um espaço não resolve a questão ética. Apenas a suspende indefinidamente. Fica sempre algo por resolver, seja ligado à intimidade dos contextos, à ausência de consentimento ou à impossibilidade de representação.

Defendemos que a responsabilidade ética, neste sentido, não se cumpre nem se conclui. Acompanha a prática. Reconhecer isto não implica suspender os trabalhos nem significa também deixar de entrar na intimidade de quem já não se pode pronunciar, mas, enquanto arqueólogos, devemos recusar a ideia de que agir resolve o problema. Implica aceitar que, mesmo quando tudo está feito, nem tudo ficou resolvido eticamente.

6. DISCUSSÃO: ENTRE MATERIALIDADE, VULNERABILIDADE

E RESPONSABILIDADE

A análise dos contextos apresentados demonstra que a Arqueologia do isolamento sénior não pode ser entendida apenas como uma extensão cronológica da disciplina, mas antes como um campo que exige uma reconfiguração profunda dos seus pressupostos teóricos, metodológicos e éticos. Estes espaços domésticos, situados na fronteira entre o passado recente e o presente, não se enquadram nas categorias tradicionais de sítio arqueológico, desafiando simultaneamente as noções de Património, lixo e memória. A sua relevância não decorre da sua antiguidade ou raridade, mas da sua capacidade de revelar dimensões frequentemente invisibilizadas da vida social contemporânea, nomeadamente a solidão, o abandono e a fragilidade das redes de cuidado. Do ponto de vista metodológico, estes contextos evidenciam os limites das abordagens tradicionais baseadas na escavação e na recolha metódica de artefactos. Como demonstrado, a preservação das relações espaciais e funcionais entre objetos é essencial para a compreensão das práticas quotidianas, o que torna a intrusão física não apenas desnecessária, mas potencialmente destrutiva. A opção por metodologias de registo não intrusivas, centradas na documentação visual, na análise de conjuntos e na leitura contextual do espaço, não deve ser interpretada como uma adaptação circunstancial, mas como uma reformulação consciente da prática arqueológica face a contextos específicos. Neste sentido, a incapacidade de registar exaustivamente deixa de ser uma limitação e passa a constituir uma condição epistemológica, reconhecendo que a totalidade é, nestes casos, não só inalcançável, como também indesejável. Contudo, esta posição também é ética. A decisão de não escavar, de não recolher ou de não registar exaustivamente não resulta apenas de limitações práticas, mas também do reconhecimento de que a intervenção tem consequências que não podem ser totalmente neutralizadas por meio de leis ou de códigos éticos. Simultaneamente, os casos analisados demonstram que a materialidade destes espaços não pode ser dissociada da sua dimensão emocional, e do impacto nos próprios arqueólogos. A familiaridade observada em alguns contextos, o contraste simbólico entre práticas aparentemente divergentes e o desconforto gerado por situações de acumulação extrema revelam que a Arqueologia do passado recente implica um envolvimento afetivo que desafia a ideia de distanciamento analítico. Este envolvimento não deve ser entendido como um obstáculo à produção de conhecimento, mas como um elemento constitutivo da interpretação, que, no entanto, exige uma reflexão crítica constante sobre os seus limites e implicações. Estes contextos resistem a ser plenamente enquadrados pelos modelos tradicionais da prática arqueológica. O desconforto descrito anteriormente não é, portanto, apenas uma reação individual, mas sim um indicador de que algo pode permanecer fora do controlo metodológico e ético.

“

A análise dos contextos apresentados demonstra que a Arqueologia do isolamento sénior não pode ser entendida apenas como uma extensão cronológica da disciplina, mas antes como um campo que exige uma reconfiguração profunda dos seus pressupostos teóricos, metodológicos e éticos.

Estes espaços domésticos, situados na fronteira entre o passado recente e o presente, não se enquadram nas categorias tradicionais de sítio arqueológico, desafiando simultaneamente as noções de Património, lixo e memória.

“

A leitura destes contextos implica reconhecer também a solidão não apenas como um fenómeno social, mas como uma realidade material. Como tem sido demonstrado, a solidão manifesta-se através de configurações espaciais, práticas quotidianas e estratégias materiais que procuram compensar a ausência de relações (Santos, 2025). Nos casos analisados, esta dimensão torna-se particularmente evidente, seja na organização dos espaços domésticos, seja na presença de objetos com forte carga simbólica, seja nas práticas de acumulação. Estes elementos não ilustram apenas formas de vida individuais, mas constituem evidência material de experiências de isolamento e de tentativas de mitigá-las. É neste ponto que a dimensão ética se torna central. A ausência de consentimento, a natureza intrusiva da intervenção e os riscos associados à representação destes contextos evidenciam a necessidade de ultrapassar uma conceção da Arqueologia enquanto prática neutra e meramente descritiva. Como argumentado anteriormente, a legitimidade da intervenção não pode ser sustentada apenas pela autorização legal, mas deve ser enquadrada numa lógica de responsabilidade social. A Arqueologia do abandono sénior obriga, assim, a repensar o papel do arqueólogo, não apenas como produtor de conhecimento, mas também como mediador entre memória e esquecimento.

Neste sentido, a articulação entre micronarrativas, visíveis nos gestos quotidianos materializados nos objetos, e macronarrativas, relacionadas com dinâmicas sociais mais amplas, como o envelhecimento demográfico e a fragilidade das redes familiares, constitui um dos principais contributos deste tipo de abordagem. Ao trabalhar simultaneamente nestas duas escalas, a Arqueologia Contemporânea tem a capacidade de transformar histórias individuais em indicadores de processos estruturais, sem, no entanto, reduzir a complexidade das experiências vividas. Importa, contudo, reconhecer que esta capacidade interpretativa também comporta riscos. A tentação de generalizar a partir de casos específicos, de construir narrativas excessivamente coerentes ou de instrumentalizar estas histórias em nome de uma agenda social deve ser pensada. A força destes contextos reside precisamente na sua ambiguidade, na coexistência de práticas contraditórias e na impossibilidade de uma leitura totalizante. A Arqueologia do isolamento sénior não nos oferece respostas fechadas, mas levanta questões fundamentais sobre a forma como as sociedades contemporâneas lidam com a velhice, a dependência e a morte.

Neste enquadramento, a decisão de intervir ou de não intervir assume um significado ético incontornável. Se, por um lado, a destruição destes contextos sem registo implica a perda irreversível de informação sobre vidas raramente documentadas, por outro, a sua análise exige uma atenção constante à dignidade dos indivíduos envolvidos e à forma como as suas histórias são representadas. A Arqueologia encontra-se, assim, perante um dilema que não pode ser resolvido através de normas rígidas, mas que exige uma prática reflexiva, consciente das suas implicações e limitações.

Deste modo, a Arqueologia do isolamento sénior pode ser entendida como um campo de experimentação disciplinar, onde se cruzam questões de método, teoria e ética. Ao confrontar a disciplina com contextos de elevada proximidade temporal e emocional, obriga-a a repensar os seus fundamentos e a assumir o seu papel enquanto prática social. Mais do que objetos de estudo, estes contextos constituem um desafio à própria Arqueologia, questionando não apenas o que se estuda, mas também como e por que se estuda.

7. CONCLUSÃO

A Arqueologia do isolamento sénior, tal como aqui proposta, evidencia a necessidade de repensar profundamente os fundamentos da disciplina quando confrontada com contextos do passado recente. Longe de constituírem meros resíduos contemporâneos, as casas abandonadas por idosos revelam-se espaços densos de significado, onde a materialidade preserva não apenas práticas quotidianas, mas também relações sociais, afetos e formas de lidar com a solidão e a vulnerabilidade. Estes contextos obrigam a deslocar o foco da análise do objeto isolado para o conjunto

relacional e da descrição material para a interpretação das experiências humanas que essa materialidade agrega.

Do ponto de vista metodológico, a abordagem tradicional baseada na escavação e na inventariação exaustiva parece-nos inadequada face à natureza destes espaços. A adoção de estratégias de registo não intrusivo, centradas na documentação visual, na análise de conjuntos e na leitura contextual, não constitui apenas uma adaptação técnica, mas uma reformulação epistemológica que reconhece a importância da relação entre objetos, espaços e práticas.

Contudo, é ao nível ético que a Arqueologia do abandono sénior coloca os desafios mais significativos. A coexistência entre autorização legal e a impossibilidade de consentimento individual, a intrusão em espaços de elevada intimidade e o risco de exposição de vidas vulneráveis exigem uma reflexão crítica sobre o papel dos arqueólogos. Neste sentido, a proposta de uma abordagem orientada pela ética do cuidado permite enquadrar a prática arqueológica como uma forma de responsabilidade social, capaz de resistir ao apagamento destas vidas sem as reduzir a objetos de estudo, sabendo que nunca seremos eticamente exaustivos. Em última instância, estes contextos colocam à Arqueologia uma questão fundamental que ultrapassa o domínio técnico ou teórico: que tipo de disciplina queremos ser quando o passado que estudamos ainda é reconhecível, próximo, e, em muitos casos, desconfortavelmente familiar? A resposta a esta questão não reside apenas na forma como registamos estes espaços, mas também na forma como escolhemos olhar para eles e no que decidimos fazer com esse olhar. Mesmo quando a intervenção é necessária e justificada, isso não elimina o desconforto que a acompanha, apenas o torna visível. É nesse desconforto, mais do que na sua resolução, que se define a responsabilidade ética da Arqueologia nestes contextos.

REFERÊNCIAS

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https://doi.org/10.1179/pua.2001.1.4.245

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C

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Da Consagração Arqueológica à Decadência

Intelectual

porque escrevemos o óbvio?

Santos 1, Susana Pacheco 2, João Sequeira 3,

Casimiro 4 , Afonso Leão 2 e Ricardo Coelho 5

PREÂMBULO

No dia 7 de maio de 2026, dois dos autores do presente texto foram informados da não aceitação da sua proposta de comunicação intitulada “O Texto como Contexto: proposta de análise arqueológica de Walden” (ver caixa na página seguinte), submetida ao V Congresso da Associação dos Arqueólogos Portugueses (doravante Aap), a realizar em Braga entre os dias 18 e 21 de novembro de 2026.

A mensagem eletrónica inicialmente recebida limitou-se a informar os autores da não aceitação da comunicação, sem apresentar qualquer fundamentação científica adicional (Fig. 1-A). Nesse sentido, foi enviado um pedido de esclarecimento à comissão executiva do Congresso, solicitando informação relativamente aos critérios que estiveram subjacentes à decisão (Fig. 1-B).

Em resposta, foi transmitido o seguinte parecer da comissão científica: “Proposta rejeitada. Ultrapassa claramente definições consagradas do que é Arqueologia, propondo como arqueológico o que é de outras ciências” (Fig. 1-C).

Na sequência deste episódio, e das discussões que o mesmo suscitou entre vários investigadores, surgiu o presente texto, que, ainda que partindo da não aceitação, não tem como propósito a sua discussão, mas sim refletir sobre algumas questões mais amplas relacionadas com definição disciplinar, autoridade epistemológica, interdisciplinaridade e pluralidade teórica na Arqueologia portuguesa contemporânea.

RESUMO

Tendo por base a não aceitação de uma proposta de comunicação a apresentar ao V Congresso da Associação dos Arqueólogos Portugueses, programado para novembro de 2026, os autores refletem sobre algumas questões mais amplas, relacionadas com a definição disciplinar, autoridade epistemológica, interdisciplinaridade e pluralidade teórica na Arqueologia portuguesa contemporânea.

Palavras-chave: Arqueologia Contemporânea; Teoria arqueológica; Deontologia científica; Associação dos Arqueólogos Portugueses.

ABSTRACT

Following the refusal of a paper to be presented at the V Congress of Portuguese Archaeologists Association, scheduled for November de 2026, the authors reflect on some broader issues relating to subject-matter definition, epistemological authority, interdisciplinarity and theoretical plurality in contemporary Portuguese Archaeology.

Key words: Contemporary Archaeology; Archaeological theory; Scientific deontology; Portuguese Archaeologists Association.

RÉSUMÉ

Prenant pour base le rejet d’une proposition de communication à faire lors du Vème Congrès de l’Association des Archéologues Portugais, programmé pour novembre 2026, les auteurs réfléchissent à certaines questions plus larges en lien avec la définition disciplinaire, l’autorité épistémologique, l’interdisciplinarité et la pluralité théorique dans l’Archéologie Portugaise contemporaine.

Mots Clés: Archéologie Contemporaine; Théorie archéologique; Déontologie scientifique; Association des Archéologues Portugais.

1 Universidade de Leicester (Inglaterra).

2 Unl-Fcsh - Universidade Nova de Lisboa-Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Cfe-Htc - Centro de Ecologia Funcional-História, Territórios e Comunidades.

3 Universidade de Coimbra.

4 Universidade de Stirling (Escócia).

5 Investigador independente.

Por opção dos autores , com exceção de João Sequeira, o texto segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Foi recebido para publicação em 2026-05-16.

FIG. 1 – E-mails trocados com a comissão executiva do V Congresso da Associação dos Arqueólogos Portugueses:

A. Com a não aceitação da comunicação;

B. Solicitando esclarecimento sobre os critérios dessa decisão;

C. Com a respetiva resposta.

Proposta de comunicação apresentada ao V Congresso da Associação dos Arqueólogos Portugueses

Título:

O Texto como Contexto: proposta de análise arqueológica de Walden

Resumo:

Este trabalho propõe uma análise arqueológica de Walden; or, Life in the Woods (1854), de Henry David Thoreau, não enquanto fonte histórica do século XIX, mas como artefacto cultural dotado de estrutura, organização interna e materialidade própria. Partindo do princípio de que a arqueologia se ocupa da análise de produções materiais humanas, independentemente do seu suporte, o livro é aqui abordado como um contexto estruturado passível de descrição estratigráfica, análise formal e interpretação relacional.

A investigação centra-se na organização interna da obra: divisão em capítulos, sequências temáticas, recorrências lexicais, articulação entre descrições espaciais, práticas quotidianas e formulações reflexivas. Estes elementos são tratados como componentes de uma assemblage textual que constrói um espaço habitável e produz determinadas disposições afetivas associadas ao isolamento. Em vez de utilizar o texto como testemunho documental de práticas exteriores, analisa-se como a própria estrutura narrativa organiza materialmente a experiência da solidão. Metodologicamente, procede-se à identificação de unidades textuais equivalentes a contextos arqueológicos, à análise das relações entre essas unidades e à observação de padrões de repetição, intensificação e deslocamento temático. A obra é, assim, tratada como campo de investigação em si mesma, permitindo examinar como uma configuração discursiva produz espacialidade, temporalidade e emoção. Esta abordagem inscreve-se num debate mais amplo sobre a expansão do conceito de materialidade na disciplina arqueológica. Ao propor uma leitura estritamente arqueológica de um texto literário, o estudo questiona os limites tradicionais do registo material, demonstrando que a análise estrutural e relacional pode ser aplicada a produções culturais não escavadas, mantendo, contudo, procedimentos metodológicos próprios da arqueologia. Deste modo, o texto é analisado por meio de princípios analíticos comparáveis aos aplicados em contextos escavados, privilegiando relações internas, a organização estrutural e a formação de padrões interpretáveis como evidência material.

Autores: Joel Santos e Susana Pacheco

INTRODUÇÃO

O V Congresso da Aap apresenta-se publicamente como um espaço de “reflexão crítica sobre a Arqueologia em Portugal”, promovendo igualmente “a sua divulgação científica enquadrada nos pressupostos da Ciência Aberta” (https://congresso.arqueologos.pt/). Estas formulações não deveriam ser meramente decorativas. Elas representam, pelo contrário, um posicionamento institucional explícito relativamente ao papel que um congresso científico deverá desempenhar no contexto académico contemporâneo: incentivar debate, fomentar pluralidade metodológica,

estimular renovação teórica e criar condições para circulação aberta de conhecimento.

A própria história da Aap reforça essa ideia. Fundada em 1863, a Aap continua a ocupar “uma posição de destaque no panorama da salvaguarda do património português e sua divulgação”, promovendo igualmente “palestras, encontros, debates, workshops e colóquios sobre os mais variados temas da investigação actual” (https://congresso.arqueologos.pt/). Os seus estatutos estabelecem como finalidade da instituição “promover o desenvolvimento da investigação no âmbito da Arqueologia e História, agrupando e incentivando as pessoas e entidades que a realizam” (Artigo 2 dos Estatutos e Regulamento Interno da Associação dos Arqueólogos Portugueses). A formulação é particularmente relevante porque não define limites epistemológicos rígidos para a investigação arqueológica, nem propõe qualquer modelo teórico exclusivo ou normativo. Pelo contrário, sublinha investigação, incentivo, cooperação e relação.

Da mesma forma, o próprio enquadramento do Congresso insiste na ideia de reflexão crítica, o que implica necessariamente a possibilidade de questionamento. Pensamos dizer o óbvio, quando afirmamos que nenhuma disciplina científica se desenvolve exclusivamente através da repetição de modelos rígidos. A história da Arqueologia demonstra precisamente isso. A disciplina foi permanentemente redefinida através da incorporação de novas metodologias, novos objetos de estudo, novos enquadramentos filosóficos e novas aproximações interdisciplinares (Hodder e Hutson, 1991; Trigger, 2006; Harris e Cipolla, 2017). Em diferentes momentos históricos, aquilo que era considerado marginal, excessivamente teórico, inadequado ou “não arqueológico” acabou frequentemente por transformar-se em parte integrante da própria disciplina (Shanks e Tilley, 1987; Olsen, 2010).

A Arqueologia contemporânea e a sua relação com outras disciplinas, como a proposta de comunicação tentava debater, dificilmente pode ser compreendida fora dessa dinâmica de expansão conceptual. Nas últimas décadas, assistiu-se à consolidação de áreas como Arqueologia da contemporaneidade, Arqueologia do conflito, Arqueologia do corpo, Arqueologia sensorial, Arqueologia das emoções, Arqueologia das materialidades recentes, Arqueologia do abandono, Arqueologia das paisagens industriais ou Arqueologia das migrações, entre muitas outras (Buchli e Lucas, 2001; González-Ruibal, 2008; Tarlow, 2012; Graves-Brown, Harrison e Piccini, 2013; Hamilakis, 2013). Em praticamente todos estes casos, a disciplina expandiu-se precisamente através do diálogo com áreas tradicionalmente associadas à Antropologia, Sociologia, Geografia, Filosofia, Estudos Literários, Psicologia, Estudos da Memória ou Teoria Crítica (Hodder, 2012; Olsen et al., 2012; Harris e Cipolla, 2017). E, contudo, esta abordagem não é recente. Desde o século XIX que a Arqueologia dialoga com Geologia, Antropologia Física, História, Arquitetura, Química, Física ou Biologia. A interdisciplinaridade nunca representou uma ameaça à Arqueologia,

mas, pelo contrário, é uma das condições fundamentais da sua existência e desenvolvimento intelectual.

E é precisamente neste contexto que a formulação utilizada no parecer de rejeição por parte da comissão científica do V Congresso da Aap adquire particular relevância. Naturalmente, existem inúmeras razões legítimas para rejeitar uma proposta científica. Uma comunicação pode revelar fragilidades metodológicas, insuficiência bibliográfica, ausência de clareza conceptual, inadequação temática, limitações empíricas, problemas argumentativos, ou simplesmente não se enquadrar nos objetivos específicos de um evento científico. Todas essas possibilidades fazem parte do funcionamento normal da avaliação académica. Contudo, o parecer transmitido aos autores não assentou em qualquer dessas dimensões. A proposta não foi rejeitada por falta de rigor, ausência de fontes, fragilidade metodológica ou insuficiência analítica. O fundamento apresentado foi outro: a alegação de que o trabalho “ultrapassa claramente definições consagradas do que é Arqueologia, propondo como arqueológico o que é de outras ciências”

A escolha desta formulação levanta questões que, estas sim, “ultrapassam claramente” o caso concreto da comunicação recusada. Em primeiro lugar, porque introduz a ideia de que existem “definições consagradas” da Arqueologia, suficientemente estáveis, consensuais e delimitadas para funcionarem como critério de exclusão científica. Em segundo lugar, porque pressupõe que determinados objetos, métodos ou problemáticas pertencem legitimamente a “outras ciências”, não podendo, por isso, ser utilizados ou reinterpretados arqueologicamente.

Estas duas ideias revelam uma conceção particularmente rígida de fronteira disciplinar. Mais do que discutir a validade específica de uma proposta, o parecer parece pressupor a existência de um território epistemológico relativamente fechado, policiado através da distinção entre o que pode ou não ser considerado Arqueologia legítima. Esta visão entra em tensão não apenas com tendências internacionais da disciplina, mas também com os próprios princípios publicamente afirmados pela Aap e pelo seu Congresso. Uma associação científica que declara promover reflexão crítica, divulgação científica e abertura dificilmente pode sustentar simultaneamente uma conceção estática da produção de conhecimento.

É precisamente essa tensão que motiva o presente texto. Insistimos, o objetivo não consiste em reivindicar aceitação retroativa de uma comunicação, nem em transformar este episódio numa polémica pessoal. O que aqui se pretende discutir é algo mais amplo: de que forma determinadas conceções de autoridade epistemológica continuam a operar na Arqueologia portuguesa contemporânea, e quais as consequências dessa postura para o desenvolvimento intelectual da disciplina. Porque a questão fundamental não é “qual a definição de Arqueologia?”, mas “quem é que possui legitimidade para definir essa resposta e com base em que critérios?”

PORQUE ESCREVEMOS O ÓBVIO?

Enquanto escrevíamos este texto, apercebemo-nos várias vezes de que estávamos, no fundo, a escrever o óbvio. Discutimo-lo entre nós. Questionámos inclusivamente se faria sentido produzir um artigo inteiro para afirmar algo aparentemente tão simples: que a Ciência não se constrói através de “definições consagradas”, que a interdisciplinaridade não ameaça a Arqueologia, e que nenhuma comissão científica deveria funcionar como mecanismo de censura ou policiamento epistemológico. Parecia-nos evidente.

Contudo, rapidamente percebemos que existe um problema fundamental na Arqueologia portuguesa: se estas ideias fossem verdadeiramente óbvias, então situações como aquela que motivou este texto simplesmente não deveriam acontecer. Não deveriam surgir no parecer de uma comissão científica. E, muito menos, no contexto de uma associação que afirma publicamente defender reflexão crítica, pluralidade e Ciência Aberta.

Se aconteceu, é porque existe espaço institucional e intelectual para que aconteça. Mais ainda: ao longo dos dias seguintes, várias reações de colegas e investigadores revelaram precisamente essa normalização. “Cada um tem as suas batalhas”; “Pois, é isto que temos”; “Não vale a pena comprar guerras”. Nenhuma destas frases foi dita com malícia. Pelo contrário. Foram frequentemente expressões de solidariedade genuína. Mas talvez seja precisamente isso que torna a situação mais inquietante. Porque revelam até que ponto determinadas formas de conservadorismo epistemológico se tornaram expectáveis, quase naturais, dentro de certos espaços académicos.

Esta situação levanta uma questão inevitável. Ou concordamos que a Arqueologia deve efetivamente ser protegida através de “definições consagradas” e, nesse caso, talvez aquilo que aqui escrevemos não seja assim tão óbvio, ou então consideramos estas formulações problemáticas, mas escolhemos tolerá-las passivamente como parte normal do funcionamento institucional. E talvez isso seja ainda mais preocupante. Porque a normalização da cegueira intelectual raramente acontece através de grandes declarações programáticas. Acontece através do silêncio, da resignação e da aceitação gradual de que determinados debates “não valem o incómodo”.

Por isso, óbvio ou não, pareceu-nos fundamental escrever este texto. Não porque a situação concreta seja excecional, mas precisamente porque não o é. Porque enquanto ideias como “definições consagradas” continuarem a funcionar como mecanismos legítimos de exclusão científica, alguém terá inevitavelmente de insistir no aparentemente evidente: que a Arqueologia nunca cresceu através do medo da contaminação intelectual, mas precisamente através da coragem de ultrapassar as fronteiras que, em cada momento histórico, pareciam impossíveis de atravessar. Talvez precisamente por isso valha a pena regressar às palavras utiliza-

“A Arqueologia nunca cresceu através do medo da contaminação intelectual, mas precisamente através da coragem de ultrapassar as fronteiras que, em cada momento histórico, pareciam impossíveis de atravessar.

“

das no parecer. Porque as palavras importam. E, neste caso, cada uma delas transporta uma determinada visão da Ciência, da autoridade e da própria Arqueologia.

Quando a Arqueologia se torna dogma

A primeira palavra é “consagradas”. Consagrar significa legitimar através da autoridade, da tradição ou da aceitação institucional. O termo pertence historicamente ao universo religioso, jurídico e político. Consagram-se dogmas, altares, reis ou constituições. A Ciência, pelo contrário, há muito que deixou de se definir pela consagração, mas pela possibilidade permanente de revisão dos seus próprios pressupostos. O tempo em que a Academia era parte integrante do universo religioso remonta à Idade Média. Apesar de ainda reter nomenclatura (magistratura, reitor, ou universidade, como exemplos), durante séculos, o mundo académico modificou-se, tornando-se laico, logo, antidogmático. Precisamente por isso, a ideia de “definições consagradas” torna-se profundamente inquietante quando utilizada como critério de exclusão científica. Porque uma definição consagrada é, por natureza, uma definição protegida da transformação. E uma disciplina que começa a proteger-se da transformação aproxima-se perigosamente da dogmatização e dificilmente se pode considerar como tal. Talvez por isso a formulação utilizada no parecer revele algo mais profundo do que uma simples discordância metodológica. Ela revela uma clara relação com a prepotência pseudocientífica. Aqui não se trata de capacidade de argumentação, demonstração ou debate crítico, mas a prepotência entendida como capacidade de delimitar aquilo que pode ou não ser pensado legitimamente dentro da disciplina.

Não deixa de ser curioso que exista aqui uma inversão particularmente significativa. A Arqueologia, enquanto disciplina, passou décadas a questionar mecanismos de autoridade, processos de legitimação e construções institucionais da verdade. Questionou narrativas nacionais, hierarquias culturais, classificações coloniais, categorias patrimoniais e modelos

universais de interpretação (Shanks e Tilley 1987; Hodder e Hutson, 1991; Meskell, 1998; Smith, 2006). E, contudo, perante determinadas propostas teóricas, parece por vezes reproduzir exatamente aquilo que historicamente procurou desmontar: a criação de ortodoxias protegidas através da autoridade institucional.

Mais ainda: a ideia de “consagração” implica inevitavelmente uma divisão entre centro e periferia disciplinar. Entre aquilo que já foi autorizado e aquilo que permanece suspeito. Entre os temas considerados suficientemente arqueológicos e aqueles que devem continuar fora das fronteiras legítimas da disciplina. Por isso, a questão não é apenas epistemológica. É também política. Porque definir o que “é” Arqueologia significa simultaneamente definir quem possui legitimidade para produzir conhecimento arqueológico, quais perguntas podem ser colocadas e quais formas de pensamento deverão permanecer fora da disciplina. E é precisamente aí que reside o problema mais profundo da expressão “definições consagradas”. Não é absolutamente pelo facto de existirem tradições disciplinares que a Arqueologia se arrisca a parar no tempo, porque essas tradições existirão sempre. Não podemos é aceitar a tentativa de essas tradições se transformarem em fronteiras.

O medo da contaminação intelectual

Se a ideia de “definições consagradas” revela uma determinada relação com autoridade e ortodoxia, a segunda parte do parecer revela algo igualmente inquietante: o medo da contaminação intelectual. A formulação “propondo como arqueológico o que é de outras ciências” pressupõe que os objetos de estudo pertencem disciplinarmente a áreas específicas do conhecimento, como territórios fechados, relativamente estáveis e cuidadosamente policiados. Como se memória pertencesse à Psicologia, corpo à Antropologia, textualidade aos Estudos Literários ou emoções à Sociologia. Como se os fenómenos humanos respeitassem fronteiras departamentais.

Contudo, e precisamente porque o óbvio afinal não é assim tão óbvio, importa insistir: poucas disciplinas são tão estruturalmente interdisciplinares quanto a Arqueologia. Desde o século XIX que a Arqueologia depende profundamente da Geologia, Química, Física, Antropologia, História, Arquitetura, Biologia e Geografia. Mais recentemente, passou igualmente a dialogar com Filosofia, Fenomenologia, Teoria Crítica, Estudos da Memória, Estudos Afetivos, Sociologia da Materialidade e Estudos do Corpo, entre tantas outras disciplinas. Não é porque tenha perdido a sua identidade disciplinar, mas precisamente porque os fenómenos humanos nunca puderam ser compreendidos através de isolamento epistemológico. A interdisciplinaridade não representa ausência de rigor. Representa o reconhecimento da sua enorme complexidade. Aliás, se levássemos verdadeiramente a sério a ideia de que a Arqueologia apenas pode estudar aquilo que “lhe pertence”, a própria disciplina tornar-se-ia praticamente impossível. O que seria então exclusivamente

Porque o óbvio afinal não é assim tão óbvio, importa insistir: poucas disciplinas são tão estruturalmente interdisciplinares quanto a Arqueologia. [...Não] porque tenha perdido a sua identidade disciplinar, mas precisamente porque os fenómenos humanos nunca puderam ser compreendidos através de isolamento epistemológico.

“ “

arqueológico? A cerâmica? A estratigrafia? Os líticos? Mesmo esses elementos dependem continuamente de metodologias, conceitos e interpretações produzidos através do diálogo com outras áreas científicas, como a Geologia, por exemplo.

Existe aqui uma contradição particularmente significativa. A Arqueologia expandiu-se precisamente através da capacidade de ultrapassar fronteiras disciplinares. Grande parte das abordagens hoje plenamente legitimadas, como a Arqueologia da Paisagem, Arqueologia Fenomenológica, Arqueologia do Corpo, Arqueologia das Emoções, Arqueologia Sensorial ou Arqueologia da Contemporaneidade, nasceram precisamente em espaços inicialmente considerados excessivamente teóricos, híbridos ou exteriores à disciplina. Talvez por isso o problema não é, nem nunca foi, a interdisciplinaridade. O problema surge quando determinadas formas de pensamento desestabilizam modelos institucionalmente (e mentalmente) confortáveis daquilo que a Arqueologia “deve” ser.

As fronteiras epistemológicas raramente, para não dizer nunca, são protegidas apenas pelo rigor científico. Na maior parte das vezes são protegidas por hábitos institucionais, hierarquias académicas e receio de transformação disciplinar. E é precisamente por aí que este episódio se torna mais revelador. Não por causa da rejeição de uma proposta concreta, mas porque expõe determinadas práticas dentro da Arqueologia portuguesa: o paradoxo entre uma disciplina que publicamente se apresenta como crítica, aberta e interdisciplinar, e práticas institucionais que continuam a operar através da proteção de fronteiras epistemológicas relativamente rígidas. Porque o verdadeiro empobrecimento e consequente decadência de uma disciplina não começam com o conflito intelectual. Começam quando determinadas perguntas deixam de poder ser feitas.

CONCLUSÃO

O presente texto começou com a rejeição de uma comunicação, com o parecer assinado em nome de uma comissão científica na qual constam os nomes de alguns dos arqueólogos mais reconhecidos do nosso país (https://congresso.arqueologos.pt/organizacao-v/). Contudo, rapidamente se tornou evidente que aquilo que estava verdadeiramente em causa ultrapassava largamente a aceitação ou não aceitação de uma proposta em concreto.

Na sequência da redação deste texto, foi igualmente enviado um pedido de esclarecimento à comissão científica do Congresso, procurando identificar a autoria da formulação presente no parecer e abrir espaço para eventual contraditório ou resposta no âmbito de um debate científico aberto e transparente (ver Fig. 2). Como seria de esperar, até à data de submissão do presente artigo não foi recebida qualquer resposta. O texto segue, por isso, sem o desejável contraditório que seria expectável numa cultura de Ciência Aberta.

É importante esclarecer que o presente texto não pretende transformar em alvo individual a pessoa responsável pelo envio da mensagem eletrónica contendo o parecer. Essa pessoa limitou-se a transmitir institucionalmente uma decisão e formulação produzidas pela comissão científica do Congresso. Seria muito redutor se o problema discutido neste texto se transformasse numa responsabilidade individual isolada, e que as conceções epistemológicas e práticas institucionais que permitiram e legitimaram a produção de um parecer com este conteúdo continuassem a persistir e não viessem questionadas.

O problema não reside na existência de discordância teórica. Essa é inevitável e diríamos mesmo desejável em qualquer espaço académico intelectualmente vivo. O problema surge quando determinadas formas de exclusão deixam de assentar em discussão metodológica, rigor analítico ou debate conceptual e passam a apoiar-se numa ideia relativamente abstrata de “definições consagradas” da disciplina. Porque, nesse momento, a questão deixa de ser apenas científica. Passa a ser epistemológica, institucional e, inevitavelmente, política.

FIG. 2 – E-mail dos autores a sugerir a possibilidade de contraditório ou resposta a este artigo no âmbito de um debate científico aberto e transparente.

“

disciplina que passou décadas a questionar ortodoxias, narrativas autorizadas, hierarquias de legitimidade e mecanismos institucionais de exclusão parece, por vezes, correr o risco de reproduzir internamente aquilo que historicamente procurou desmontar.

“ Uma

Ao longo deste texto, procurámos expor como a Arqueologia nunca se desenvolveu através da proteção rígida das suas fronteiras, mas sim através da capacidade de as questionar. Grande parte das abordagens hoje plenamente integradas na disciplina nasceu em espaços inicialmente considerados marginais, excessivamente teóricos, híbridos ou exteriores à Arqueologia. A história da disciplina demonstra que aquilo que num momento foi considerado “não arqueológico”, mais tarde, transformou profundamente a própria Arqueologia.

Essa talvez seja precisamente a maior ironia de todo este episódio. Uma disciplina que passou décadas a questionar ortodoxias, narrativas autorizadas, hierarquias de legitimidade e mecanismos institucionais de exclusão parece, por vezes, correr o risco de reproduzir internamente aquilo que historicamente procurou desmontar. Importa sublinhar novamente que defender pluralidade epistemológica não significa defender ausência de critérios científicos ou éticos. A Arqueologia necessita de rigor, argumentação sólida, clareza metodológica e debate crítico. Mas o debate crítico implica precisamente a possibilidade de confronto intelectual. Uma disciplina segura de si própria não teme aproximações interdisciplinares, novas perguntas ou propostas conceptualmente desconfortáveis.

Pelo contrário, reconhece nelas a possibilidade de transformação e crescimento. Uma disciplina sem debate teórico está morta. Talvez por isso o verdadeiro problema nunca tenha sido a interdisciplinaridade, nem sequer determinadas abordagens teóricas específicas. O verdadeiro problema surge quando a Arqueologia começa a confundir tradição com limite, consenso com ortodoxia e autoridade científica com capacidade de decidir aquilo que pode ou não ser pensado legitimamente dentro da disciplina. Nenhuma Ciência permanece intelectualmente viva quando se fecha em si mesma. Permanece viva através da discussão, do conflito, da revisão permanente dos seus próprios pressupostos e da coragem de aceitar que as suas fronteiras nunca estão definitivamente concluídas.

Ao escrevermos, reconhecemos a sensação desconfortável de estar simplesmente a repetir o óbvio. Parece-nos óbvio que a Ciência não se protege através do dogma. Parece-nos óbvio que a interdisciplinaridade não ameaça a Arqueologia. Parece-nos óbvio que nenhuma comissão científica deveria funcionar como mecanismo de policiamento epistemológico. Parece-nos óbvio que uma disciplina intelectualmente viva depende precisamente da possibilidade de questionar os seus próprios limites.

E, contudo, se foi necessário escrever este texto, então talvez o óbvio não seja assim tão óbvio. E é talvez por isso que determinadas ideias precisam de continuar a ser repetidas. Repetidas vezes sem conta. Repetidas até se tornarem verdadeiramente evidentes. Repetidas até deixar de existir

BIBLIOGRAFIA

Buchli, Victor e Lucas, Gavin (eds.) (2001) –Archaeologies of the Contemporary Past London: Routledge.

González-Ruibal, Alfredo (2008) – “Time to Destroy: An Archaeology of Supermodernity”. Current Anthropology. The University of Chicago Press. 49 (2): 247-279. https://doi.org/10.1086/526099

Graves-Brown, Paul; Harrison, Rodney e Piccini, Angela (eds.) (2013) – The Oxford Handbook of the Archaeology of the Contemporary World. Oxford: Oxford University Press. https://doi.org/10.1093/oxfordhb/9780199602001.001.0001

Hamilakis, Yannis (2013) – Archaeology and the Senses: Human Experience, Memory, and Affect Cambridge: Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/CBO9781139024655

Harris, Oliver e Cipolla, Craig (2017) –Archaeological Theory in the New Millennium: Introducing Current Perspectives. London / New York: Routledge.

teórico está morta. [...] Nenhuma Ciência permanece intelectualmente viva quando se fecha em si mesma.

Permanece viva através da discussão, do conflito, da revisão permanente dos seus próprios pressupostos e da coragem de aceitar que as suas fronteiras nunca estão definitivamente concluídas.

“ “ Uma disciplina sem debate

espaço institucional para pareceres assentes em “definições consagradas”. Repetidas até que a Arqueologia deixe de temer perguntas que ainda não sabe exatamente como responder.

Gostávamos de terminar precisamente como começámos: com o óbvio. O verdadeiro risco para uma disciplina científica nunca foi a dúvida. Foi sempre o conforto intelectual de se acreditar que já não se precisava dessa dúvida.

Esperemos que passe a ser óbvio para todos.

Hodder, Ian (2012) – Entangled: An Archaeology of the Relationships between Humans and Things Malden: Wiley-Blackwell.

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Trigger, Bruce (2006) – A History of Archaeological Thought. 2nd ed. Cambridge: Cambridge University Press.

[ligações à Internet activas em 2026-07-05]

RESUMO

O autor segue as encomendas de guadamecis feitas pela Inquisição de Lisboa aquando da renovação do palácio de Estaus, a sede do Santo Ofício, em inícios do século XVII.

O nome de António Nunes, mestre guadamecileiro lisboeta nascido entre 1550 e 1570, aparece em três encomendas de centenas de obras em couro dourado.

Palavras-chave: Artes decorativas; Couro; Inquisição; Século XVII; Património.

ABSTRACT

The author follows up the orders of guadamecis placed by the Lisbon Inquisition during the renovation of the Estaus Palace, the headquarters of the Holy Office, at the beginning of the 17th century.

The name António Nunes, master guadamecis artist from Lisbon born between 1550 and 1570, appears in three orders for hundreds of works in gilded leather.

Key words: Ornamental arts; Leather; Inquisition; 17th century; Heritage.

RÉSUMÉ

L’auteur suit les commandes de cuirs de Cordoue faites par l’Inquisition de Lisbonne au moment de la rénovation du palais de Estaus, siège du Saint Office, au début du XVIIème siècle.

Le nom de António Nunes, maître peaussier lisboète né entre 1550 et 1570, apparaît dans trois commandes de centaines d’œuvres en cuir doré.

Mots Clés: Arts décoratifs; Cuir; Inquisition; XVIIème siècle; Patrimoine.

Os Guadamecis no Palácio da Inquisição, no Rossio Lisboeta, em Inícios do Século XVII

1 Investigador do Artis-Instituto de História da Arte, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa (frankleather@yahoo.com / www.frankleather.com). Por opção do autor, o texto não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Foi recebido para publicação em 2026-03-31.

A HISTÓRIA DA ARTE E A PRODUÇÃO DE GUADAMECIS

AHistória da Arte publicada apresenta-se limitada, errada ou omissa na consideração do couro trabalhado pela técnica islâmica ibérica denominada guadameci. Há imensa falta de obras, dado que os séculos não foram cuidadosos no manusear de material perecível, nem apreciadores daquele que, face à mudança de modas e aplicações, perdeu relevo nos interiores abastados ou no uso quotidiano. A falta de registo escrito é deveras acentuada, e só um exercício persistente, longo e demorado permite ter em mãos estéticas e documentação. Apesar de tudo, temos dados consistentes do recurso a guadamecis nos palácios da corte e nobreza, e como frontais de altar em igrejas, nos séculos XVI-XVII, sobretudo a sul de Coimbra – dados esses que tenho vindo a deixar comentados em vários artigos e livros (Caldas e Pereira, 2017; Pereira; 1992; 1993; 1995; 1996; 1998a; 1998b; 2000a; 2000b; 2002; 2004; 2007; 2008; 2009a; 2009b; 2010-2011; 2012a; 2012b; 2012c; 2012d; 2013a; 2013b; 2013c; 2013d; 2013e; 2013f; 2015a; 2015b; 2016a; 2016b; 2016c; 2017; 2018a; 2018b; 2018c; 2020; 2021a; 2021b; 2021c); servem para colmatar lacunas – ou fazer dissipar a bruma, pois, afinal, o deserto era aparente e está florido –, e também deixar a arte registada no trabalho de ateliê – como artífice, entendo que não podermos dar ênfase total à arte sem saber o básico, servindo ainda para relevar a paciência e argúcia dos mestres do passado. A par destes escritos, há ainda um vídeo realizado pelo Museu de Alberto Sampaio, em Guimarães (https://bit.ly/4nf0str), mais explícito na vertente prática, e ilustrando a mão-cheia de guadamecis clássicos existentes em Portugal.

CÓRDOVA, O GRANDE CENTRO PRODUTOR E EXPORTADOR

Além de satisfazer a demanda espanhola, sabemos que o Vaticano importou de Córdova uma imensa quantidade de guadamecis em 1556, onde não faltava a heráldica: “pintados a lo grutesco; y en las esquinas de cada paño, en su parte alta, habían de llevar dos medallones; y en el centro, un escudo con las armas pontificias sostenido por dos ángeles” (Torre Vasconi, 1952: 21 e 22); mesmo muito resumida, fica-se a saber que a pintura dos guadamecis incluía anjos e o Brutesco, e daí podermos integrar tal decoração no visionar dos guadamecis do Renascimento. Em inícios do século XVII, outra encomenda foi ainda maior: entre cobertas de parede, estavam “4000 piezas de guadamecil de oro y azul, que componían treinta camas, las cuales le habían sido encargadas por el Nuncio de S. S. para el Sacro Palacio de Roma” (IDEM: 24-26), sendo ambos itens relevantes das exportações da maior cidade ibérica produtora de guadamecis. Graças a Jean-Pierre Fournet, somos informados que as importações espanholas já não existem (Fournet, 2019: 77), apesar da parca documentação que as refere. Possivelmente graças às possessões da Coroa de Aragão e à fuga dos “mouriscos” de Espanha, a produção em Itália foi-se estabelecendo e ganhando poder no século XVI. Centrado em Veneza, um óptimo catálogo (CORAMI…, 2022) – cuja capa é um guadameci mudéjar espanhol do século XVI inicial – esclarece-nos sobre a manufactura italiana. Publicado uns anos antes, um livro bilingue (italiano-inglês) de três museólogas mostra guadamecis de Lazio, Umbria e da cidade de Florença, com excelentes fotos de detalhe e inventário de punções – semelhantes às clássicas de Portugal e Espanha (Nimmo, Paris e Ressotto, 2008).

Portugal está também considerado como importador de guadamecis cordoveses, tendo havido avultadas compras para a corte joanina: em 1525, por Rodrigo Afonso, “guadamecilero del señor rey de Portugal, vecino de la ciudad de Lisboa” (Torre Vasconi, 1952: 20-21; Nieto Cumplido, 1973: 78; Pereira, 2013f; 2017: 39-44), e em 1552, por Miguel de Cabreira, funcionário da corte de D. Catarina; este documento, apenas publicado por mim num livro patrocinado pela Câmara Municipal de Córdova (Pereira, 2017: 45-51), foi-me revelado por Alícia Córdoba Deorador, técnica do Arquivo Histórico cordovês, a quem devo ainda a paleografia dos três documentos de peças destinadas a Portugal (o primeiro é datado de 1515, e comissionado por D. Sancho de Noronha,

conde de Faro). Já antes destas três encomendas, em 1513, uma carta redigida pela segunda esposa de D. Manuel, Maria de Aragão e Castela (Córdova, 29 de Junho de 1482 - Lisboa, 7 de Março de 1517), mostra que de Córdova vieram guadamecis para Lisboa: “O licenciado António de Córdoba, nosso físico, mandou fazer em Córdoba certos guadamecis para nós e proveio que os trouxessem a vosso poder, rogamos que os façais chegar a Lisboa” (carta ao comendador Ochoa de Isasaga) 1. Maria de Aragão e Castela era filha de Isabel I e Fernando II, os Reis Católicos. Esta carta explicita que o médico da rainha foi a Córdova tratar da encomenda – tanto quanto pude investigar, parece ser a mais antiga referência feita à famosa manufactura cordovesa; podemos admitir que a produção lisboeta não tinha a qualidade requerida pela soberana, ou que esta já sabia da fama de Córdova e preferiu aí requerer tal luxo de interiores cortesãos.

A ARTE DO GUADAMECI EM PORTUGAL

E AS ENCOMENDAS DA IGREJA

1 Devo a Pedro Pinto (investigador do Cham- Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa) ter-me feito chegar a referência a este documento.

Poderíamos considerar a hipótese do uso de guadamecis por parte da hierarquia eclesiástica nacional, atraída pela pujança ornamental e simbólica dos “couros dourados”. Daí que a leitura de Viver e Morrer nos Cárceres do Santo Ofício, de Isabel Drumond Braga, tenha sido uma luz propiciadora de uma visão alargada da produção guadamecileira e dos seus clientes.

A autora cita dois documentos da Inquisição de Lisboa (Braga, 2015: 29), relativos às obras realizadas em 1608 e 1612 no Palácio de Estaus, a sede do Santo Ofício, incluindo o pagamento de guadamecis por duas vezes a um tal António Nunes. Nas notas de rodapé (IDEM: 276, notas de rodapé 36 e 37), informa a autora que se trata de “ANTT, Conselho Geral do Santo Ofício, Livro 364, fólio não numerado”. Graças ao Serviço de Investigação do Arquivo Nacional-Torre do Tombo, pude conseguir esses dois fólios (além de outro, de 1613) referentes ao recurso a couros dourados no palácio de Estaus.

Depois de obter a paleografia, o primeiro documento, datado de 16 de Setembro de 1608, permite saber que o bispo Dom Pedro de Castilho – “Inquisidor Geral em estes Reinos e Senhorios de Portugal etc.” – deu ordem de pagamento a Simão Lopes (presume-se ser o contabilista da Inquisição) para entregar a António Nunes “setenta e um mil seiscentos cinquenta e cinco reis pelos guadamecis que fez para a Casa do Conselho Geral da Inquisição” (Fig. 1).

Noutro documento, o guadamecileiro assinou o acto, a par de Francisco de Burges como escrivão da Inquisição (Fig. 2). Não sabemos o número de rectângulos em guadameci que teve de executar, qual o seu ornamento, e se seriam cobertas de parede (que é o mais provável); se sim, então as paredes teriam de ter pregos onde fixar as argolas costuradas no topo dos guadamecis.

FIG. 1 – Antt, Conselho Geral do Santo Ofício, Livro 364, fólio não numerado, imagem 1.

António Nunes, 71$655

O Bispo Dom Pedro de Castilho, Inquisidor Geral em estes Reinos e Senhorios de Portugal etc., mandamos a vós Simão Lopes que tireis da arca das três chaves setenta e um mil seiscentos cinquenta e cinco reis para com eles pagardes a António Nunes guadamecileiro; os guadamecis que fez para a Casa do Conselho Geral da Inquisição em que se montou a dita quantia e por esta com seu conhecimento como de vós os recebeu feito pelo escrivão de vossa receita e por ele assinado vos serão levados em conta os ditos setenta e um mil seiscentos cinquenta e cinco reis. Em Lisboa dezasseis de Setembro de mil seiscentos e oito, Bartolomeu Fernandes a fez.

O Bispo Dom Pedro.

FIG. 2 – Antt, Conselho Geral do Santo Ofício, Livro 364, fólio não numerado, imagem 2.

Recebeu António Nunes guadamecileiro de Simão Lopes os setenta e um mil seiscentos e cinquenta e cinco reis conteúdos na provisão atrás do Ilustríssimo Senhor Bispo Inquisidor Geral com os quais ficou pago e satisfeito dos guadamecis que fez para a Casa do Conselho Geral e porque os recebeu assinou aqui comigo Francisco de Burges (?) que o escrevi. António Nunes. Francisco de Burges (?)

Mais tarde, em 6 de Novembro de 1612, António Nunes recebeu “trinta mil reis, à conta do que se lhe está devendo dos guadamecins que fez para a Casa do Despacho” (Figs. 3 e 4). Trata-se de uma nova encomenda, pois antes ele tinha assinado ter recebido “setenta e um mil seiscentos cinquenta e cinco reis” para a Casa do Conselho Geral, em 1608; aqui trata-se da Casa do Despacho. O escrivão é Domingos Simões.

FIG. 3 – Antt, Conselho Geral do Santo Ofício, Livro 364, fólio não numerado, imagem 7.

Para os guadamecil para a Casa do Despacho a António Nunes,

30.000O Bispo Dom Pedro de Castilho, Inquisidor Geral em estes Reinos e Senhorios de Portugal, Capelão Mor e do Conselho do Estado del Rei Nosso Senhor etc., mandamos a vós Simão Lopes que do dinheiro que tendes em vosso poder e por nosso mandado se tirou da arca de três chaves para as obras desta Inquisição deis a António Nunes Guadamecileiro trinta mil reis, à conta do que se lhe está devendo dos guadamecins que fez para a Casa do Despacho. E por esta com seu conhecimento de como de vós os recebeu feito pelo escrivão de vossa despesa e assinado por ambos vos serão levados em conta os ditos trinta mil reis. Dado em Lisboa aos seis dias do mês de Novembro. Domingos Simões o fez de mil e seiscentos e doze anos.

O Bispo Dom Pedro.

FIG. 4 – Antt, Conselho Geral do Santo Ofício, Livro 364, fólio não numerado, imagem 8.

Recebeu António Nunes Guadamecileiro os trinta mil reis conteúdos na provisão atrás do Ilustríssimo Senhor Bispo Inquisidor Geral os quais recebeu de Simão Lopes à conta dos guadamecins que fez para a Casa do Despacho. E porque os recebeu e se houve por entregue deles assinou aqui comigo. Domingos Simões o escrevi. António Nunes. Domingos Simões.

Noutro documento – Figs. 5 e 6 –, com data de 10 de Setembro de 1613, o mesmo bispo fez o pagamento de outro montante ao mesmo mestre: “quatro mil seiscentos reis, que se lhe devem do guadamecim azul que fez para a mesa dos Revedores”; dois dias depois, o escrivão e o guadamecileiro assinam o recibo desse pagamento relativo ao “pano de guadameci que fez para a mesa”.

Sabemos, pois, que foi realizada uma coberta de mesa – aparece noutros raros inventários chamada “sobremesa” – para o palácio; a sua cor (dominante, presume-se) era o azul e, construída ao tamanho da mesa, essa sobremesa deveria incluir vários rectângulos de couro assim trabalhado; incluiria as sanefas pendentes e teria as dobras dos cantos.

FIG. 5 – Antt, Conselho Geral do Santo Ofício, Livro 364, fólio não numerado, imagem 3.

Do guadameci para a mesa dos Revedores, António Nunes, 4600 O Bispo Dom Pedro de Castilho, Inquisidor Geral em estes Reinos e Senhorios de Portugal Capelão Mor e do Conselho do Estado del Rei Nosso Senhor etc., mandamos a vós Simão Lopes que do dinheiro que tendes em vosso poder, e por nosso mandado se tirou da arca de três chaves pagueis a António Nunes Guadamecileiro quatro mil seiscentos reis, que se lhe devem do guadamecim azul que fez para a mesa dos Revedores e por esta com seu conhecimento de como de vós os recebeu feito pelo escrivão de vossa despesa e assinado por ambos vós serão levados em conta os ditos quatro mil seiscentos reis. Dada em Lisboa aos dez dias do mês de Setembro. Domingos Simões a fez de mil seiscentos e treze anos.

O Bispo Dom Pedro.

FIG. 6 – Antt, Conselho Geral do Santo Ofício, Livro 364, fólio não numerado, imagem 4.

Recebeu António Nunes Guadamecileiro, morador nesta cidade os quatro mil seis centos reis conteúdos na provisão atrás do Ilustríssimo Senhor Bispo Inquisidor Geral os quais recebeu de Simão Lopes por se lhe estarem devendo do pano de guadameci que fez para a mesa dos Revedores e porque os recebeu e se houve por entregue deles assinou aqui comigo. Domingos Simões o escrevi. Lisboa doze de Setembro de 613. António Nunes. Domingos Simões.

2 António Nunes vivia, ou trabalhava, nessa rua; num próximo artigo esclarecerei a fonte de informação.

E quem eram esses “Revedores” ou qualificadores? A sua “tarefa institucional consistia na análise de textos a imprimir, de teses e lições universitárias, ou na análise de informações ou ditos, proferidos por incriminados pelo tribunal inquisitorial, e cujo conteúdo os inquisidores-juízes pretendiam se apreciasse o grau de desvio, sob o ponto de vista da ortodoxia da Fé, ou da doutrina da moral católica” (Torres, 1994: 124). Quanto às três encomendas a António Nunes, um documento camarário, datado de 1611, pode ajudar-nos a decifrar o número total de rectângulos em guadameci. Afirma-se nessas taxas: “Não valerá mais uma pele dourada de guadamecins, medida pelo padrão da cidade, sendo de Córdova, ou a melhor da terra, que 120 réis, e sendo vermelha ou branca 80 réis. Uma pele pintada, com figura ou história, não valerá mais que 150 réis” (Viterbo, 1892: 64-65). Além da produção local – “medida pelo padrão da cidade” (havia um tamanho oficial) –, Lisboa recebia guadamecis cordoveses, havendo obras com pintura figurativa (“Uma pele pintada, com figura ou história”). Interessa-nos aqui o preço de cada rectângulo (“uma pele dourada de guadamecins”), cuja medida deveria rondar uns 50 x 70 cm: “a melhor da terra, que 120 réis, e sendo vermelha ou branca 80 réis”, esta provavelmente com padrões mais usuais (aqueles “ao brocado”?). Há que ter em conta que, na feitura do guadameci, usavam-se geralmente várias cores – incluindo o fundo em folha de prata (geralmente coberta com a “douradura” / verniz dourado) –, raramente uma só; por isso, a referência a uma só cor (“vermelha ou branca”) deve ser em princípio à tonalidade dominante. Ora António Nunes recebeu, da primeira encomenda, em 1608, 71.655 réis; tal significaria uns 700 rectângulos – sabendo que uma coberta de parede teria entre 20 a 50 rectângulos, a encomenda constaria de umas 18 peças. Em 1612, foi-lhe entregue a quantia de 30.000 réis, podendo-se imaginar que eram uns 300 rectângulos, talvez 12 cobertas. E em 1613 fez o pano para a mesa, recebendo 4.600 réis – o que significará que o guadameci era composto por uns 46 rectângulos, cobrindo uma grande mesa. Há que ter em conta que os panejamentos e “sobremesa” tinham bordas na mesma técnica, e o seu tamanho era menor. E como seria feito o transporte de tais obras? O Palácio de Estaus não era longe da Rua dos Douradores 2, e os guadamecis podiam ser levados em arcas grandes, recorrendo a um veículo movido a força muar; isso implicava dobrar os guadamecis pelas costuras, para que tais “panos d’armar” – a designação é partilhada com os têxteis de parede – coubessem nas arcas. Considerando-se a encomenda para um local tão emblemático e representativo, é de admitir a hipótese de ter incluído a heráldica clerical ou figuras do Cristianismo – e aí teríamos o ornamento em “imaginária”, a par daquele mais usual “ao brocado”; neste caso, a inspiração dos mestres do ofício era retirada do mundo natural (cardo, romã, flor-de-lis, pinhas e alcachofras, faixas floridas, folhagem aparentada ao acanto e medalhões de arcos contra-curvados duplos, criando um padrão). No caso

de ter figuras, então terá havido, eventualmente, a participação de algum pintor de arte sacra (a técnica pictórica é a mesma), a menos que o guadamecileiro fosse versado nesse aspecto mais exigente. A drástica falta de guadamecis em Portugal obriga a recorrer à produção espanhola (ART…, 1992; ARTE…, 1998) para entender a presença destes dois elementos pictóricos em frontais de altar e cobertas de parede.

Já noutro livro anterior, Isabel Drumond Braga referiu que “Os guadamecis constituíam uma herança muçulmana da Época Medieval. Porém, continuaram a ser realizados ao longo dos séculos XVI a XVIII e não se limitaram à Península Ibérica” (Braga, 2012: 152); esta frase encontra-se inserida nos comentários à presença de guadamecis em inventários de cristãos-novos presos nos cárceres da Inquisição – pois que o inventário das posses e o “sequestro de bens” (entenda-se de pessoas com riqueza) era decorrente da prisão pelo Santo Ofício. Por outro lado, sendo herança muçulmana, os guadamecis mais antigos mostram a continuidade com o legado estético do al-Andalus – nomeadamente nas bordas (enlaçados e entrançados), um elemento mais repetitivo e, digamos, pronto-a-usar –, mas com pouca probabilidade em se encontrar na produção do século XVII.

As obras do Palácio de Estaus decorreram no salão (e nas antecâmeras e galerias anexas) e foram dirigidas pelo arquitecto régio Diogo Marques Lucas; os escultores / pedreiros tiveram direcção de António de Évora. O historiador de arte Vitor Serrão escreveu a propósito: “Sabemos, por exemplo, que se comprou a um mestre de azulejos genovês, Pietro Petruzzi, a azulejaria do salão, e a um alemão, Duarte Holster, os vitrais das janelas, além de ornamentos de ferragem, guadamecis e mobiliário” (Serrão, 2018: 808). Dois pintores, Domingos Vieira Serrão e o seu colaborador Jerónimo de Aguiar, foram contratados “para ambos afrescarem o dito salão e, além disso, pintarem a galeria, com brutescos, e decorarem outros espaços da sede do Santo Ofício, junto ao Rossio. As obras dos dois pintores maneiristas (que agiram em regime de ‘parceria’ para ‘pintarem a galleria, salla e antecâmara dos ditos Estaos’) decorreram entre Janeiro e Abril de 1608, por encomenda do Bispo Inquisidor D. Pedro de Castilho, e envolveram altos custos, um total de 180.000 rs […]. Nestes salões do Palácio dos Estaus foram gastos altos quantitativos em ouro e tintas para a pintura, incluindo vários ‘arratéis de azul’ que veio de Sevilha. Também coube aos dois artistas ‘pintar o tecto da casa da torre que estava defronte de São Domingos’, correspondente aos aposentos do Inquisidor” (IDEM). Assim, vemos os guadamecis enquadrados na rica ornamentação de Lisboa nos alvores de 1600, no palácio-sede do Santo Ofício, o braço do poder eclesiástico. Seria a primeira vez que o palácio tinha guadamecis? Atendendo ao seu uso por todo o país, tanto como ornamento civil como de igrejas – incluindo guadamecis historiados em frontais de altar –, não é de descartar a possibilidade de se utilizarem tais panejamentos nos salões de edifícios da Inquisição durante decénios, anteriores e posteriores às datas referidas. A par dos guadamecis – permanecemos na sua época áurea, iniciada no século XV –, há que ter em conta o uso mais frequente da cadeira em

couro lavrado: depois dos modelos de prumadas rectas e espaldar largo (as “cadeiras d’espaldas”), lavradas à goiva com recriações baseadas na rica herança andalusí (califal e posterior), estavam a aparecer modelos mais leves, já com gravações renascentistas. A mudança de usos do edifício / palácio ocorreu após o terminar da Inquisição, em 1807; será duvidoso os guadamecis terem-se mantido em uso até tão tarde – não porque se estragavam, mas porque as modas de então já não requeriam tais panejamentos de parede. Depois do incêndio de 1836, foi construído no local – Praça do Rossio – o Teatro Nacional D. Maria II, inaugurado em 1846.

ANTÓNIO NUNES, GUADAMECILEIRO DE LISBOA

Voltando à encomenda, quem era esse guadamecileiro António Nunes, mestre lisboeta? Para ter autorização para trabalhar, teria de ser mestre e com provas dadas no ofício. Podemos considerar que nasceu nos anos de 1550-1570, formado nalguma das dez oficinas existentes na capital.

Nas datas de 1608 e 1613, Portugal estava sob domínio filipino, e é nessa época que António Nunes é pago pela Inquisição – tendo em conta a quantidade de guadamecis, é de admitir que a encomenda foi iniciada muitos meses antes.

Tal como todos os “oficiais mecânicos” (termo genérico para artífices e mestres das artes decorativas e belas-artes), António Nunes seguia as obrigações do Livro dos Regimentos lisboeta, de 1572; nesse famoso livro, o regimento dos guadamecileiros – capítulo XXVIII – é deveras explícito nos requisitos práticos, contrariamente aos regimentos espanhóis desse século (Pereira, 2017: 55-67), mas não chega para se aprender a elaborar um guadameci: um regimento nunca é um manual, antes um conjunto de obrigações formais entre artífices, e entre estes e o governo da “Casa dos Vinte e Quatro”

Um próximo artigo trará um pouco de claridade aos bastidores de um ofício de luxo, permitindo-nos saber que, além de António Nunes, havia outros artífices a trabalhar – leia-se informar – com o Santo Ofício no distanciamento face aos hereges, isto é, teriam de ser “puros de sangue” e chegavam a funcionar como os “bufos” do pré-25 de Abril.

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Um achado fortuito na Fundação de Serralves

Por opção do autor, o texto segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990.

. 1 – Seixo de quartzito com marcas de levantamento. G rtz an I qua leva

Introdução

Este pequeno artigo tem como objetivo dar a conhecer um achado de superfície – um seixo de quartzito com marcas de levantamento –feito na zona do prado, no interior da Fundação de Serralves. Este achado foi realizado numa zona que o Plano Diretor Municipal (Pdm) do Porto classifica como conjunto ou imóvel de valor patrimonial, estando também classificada como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 31-G/ /2012, Diário da República, 1.ª série, n.º 252, de 31-12-2012.

Enquadramento geográfico

A Quinta de Serralves/Fundação de Serralves está localizada na união das freguesias de Lordelo do

Ouro Massarelos, concelho e distrito do Porto. É limitada pelas Ruas de Serralves, D. João de Castro, Gil Eanes, Bartolomeu Velho, Largo de D. João III e Avenida do Marechal Gomes da Costa, tendo a seguinte coordenada central: Longitude: -8.656479; Latitude: 41.159605 (Figs. 2 e 3).

Enquadramento geomorfológico

Após consulta da folha 9-C da Carta Geológica de Portugal (Costa e Teixeira, 1957), verificou-se que a zona onde foi recolhido o artefacto está classificada como área de depósitos de praias antigas e terraços fluviais. Segundo a já referida carta, é classificada com o acrónimo Q2, terraços localizados entre os 60-70 m de altitude (Fig. 4).

Na Carta Geotécnica do Porto, editada pela Câmara Municipal do Porto, a zona está referenciada como um terraço fluvial (excerto da carta gentilmente cedido pela geóloga Paula Carminé, a quem desde já agradeço) (Fig. 5).

De uma forma muito simplista, o litoral portuense e arredores está dividida em três unidades morfológicas e sedimentares distintas: 1. Relevo marginal: áreas de colinas com relevo acima dos 130 m de altitude;

FIGS. 2 a 5 – Localização aproximada do achado na Carta Militar de Portugal, folha 122 (2), em imagem retirada do Google Earth (3), na Carta Geológica de Portugal, folha 9-C (4) e em excerto da Carta Geotécnica do Porto (5).

Foto:Rui Pinheiro.

2. Depósitos fluviais: zona/áreas de fraco declive situadas entre os 130 e os 50 m de altitude, onde ocorrem os depósitos de fácies fluvial; 3. Áreas situadas a altitudes inferiores a 50 m, áreas estas onde ocorrem os depósitos de fácies marinha.

Estes depósitos, quer os terraços fluviais, quer as áreas de depósitos de praias antigas na área em estudo, genericamente são datados do “Plio-Plistocénico” (Monteiro-Rodrigues, Gomes e Cunha-Ribeiro, 2016).

Descrição do achado/peça

Como anteriormente referido, a peça foi recolhida no interior da quinta de Serralves, na área conhecida como prado.

A peça estava à superfície do terreno e é constituída por um seixo de quartzito de morfologia alongada, subovalada. Este é um núcleo com marcas de diversos levantamentos por percussão direta, apresentando as seguintes dimensões: comprimento = 7,8 mm; largura = 5,6 mm; espessura = 3,1 mm.

Insere-se numa tradição de indústria macrolítica regional, que tem uma longa perduração temporal neste território (Fig. 6).

Contextualização

Após uma breve pesquisa no Portal do Arqueólogo, no Pdm da cidade do Porto e em outras fontes, facilmente é possível constatar que, nesta área geográfica – zona estuarina do rio Douro –, existem várias referências, a Norte e a sul do Douro, quanto à existência de estações arqueológicas da Pré-História antiga e recente, bem como a achados avulsos de material lítico na zona.

Assim, na área situada a Norte do rio Douro, união de freguesias de Aldoar, Nevogilde e Foz do Douro, e na união de freguesias de Lordelo do Ouro e Massarelos, temos: Cns 4964 – Período: Paleolítico; Descrição: referência à identificação de artefactos de tipologia paleolítica, cuja dispersão se verifica do Castelo do Queijo ao molhe sul do porto de Leixões; Cns 15715 – Período: Mesolítico; Descrição: “Sítio de ar livre, em estratos arenosos, cujos materiais apontam para uma cronologia mesolítica. As camadas geológicas onde os materiais foram recolhidos encontram-se preservadas, apesar de o sítio se localizar em meio urbano. A estação foi detectada

na sequência dos trabalhos de acompanhamento das obras de construção de um Parque de Estacionamento, a realizar no âmbito do evento Porto 2001. Os primeiros artefactos foram recolhidos num corte efectuado pelas máquinas, tendo-se implantado uma área de escavação a partir daquele. Embora os materiais arqueológicos não se localizem in situ, o facto de não se apresentarem muito rolados, pressupõe que a sua localização original deveria ser dentro do perímetro da obra” (Património Cultural, IP); – Cns 42255. Período: Idade do Bronze; Descrição: “Em trabalhos arqueológicos recentes foi identificado um sítio arqueológico da Idade do Bronze caracterizado pela presença de estruturas negativas, a maioria diz respeito a buracos de poste e estruturas tipo ‘fossa’” (Património Cultural, IP);

– Cns 42069. Período: Indeterminado; Descrição: “No decurso de trabalhos arqueológicos realizados na Travessa da Igreja de Nevogilde, 338, das sondagens realizadas, apenas a sondagem 1 revelou a presença de 3 artefactos líticos, ainda que não in situ: dois macrolitos com levantamentos e um peso de rede. Foram igualmente exumados materiais de cronologia contemporânea. Os trabalhos de acompanhamento permitiram recolher mais um elemento lítico com indícios de levantamentos e outro peso de rede” (Património Cultural, IP);

– Cns 3753. Período: Idade do Ferro; Descrição: “Castro provavelmente romanizado” (Património Cultural, IP);

– Cns 4245. Período: Idade do Bronze; Descrição: “O sítio das Areias Altas foi pela primeira vez identificado por Russell CORTEZ (1952; 1984) nos inícios da década de 1950, encontrando-se implantado numa área aplanada, a uma altitude média de 23 m e a cerca de 600 m da actual linha de costa. O autor refere-se à presença de um provável ‘fundo de cabana’ ou ‘montureira’ escavada num depósito aluvial, a que se associavam artefactos líticos

sobre seixo de tradição ‘asturiense’, diversos tipos de recipientes cerâmicos enquadráveis na Pré-história recente – nomeadamente tronco-cónicos, com e sem asa lateral, ovóides, ovóides com pé cónico, entre outros – conchas de moluscos e ‘rojões’ em bronze, considerando tratar-se de um provável povoado da Idade do Bronze. A intervenção arqueológica realizada na Rua de Sá de Albergaria no âmbito de um projecto de construção, permitiu a identificação de contextos correlacionáveis com o referido sítio arqueológico: estruturas em negativo, fundamentalmente do tipo ‘fossa’ e do tipo ‘buraco de poste’, em associação com uma componente artefactual enquadrável na Pré-história Recente. As estruturas foram detectadas sobre o topo da formação areno pelítica de cobertura, com excepção da Estrutura 3, que se registou sobre o topo de um provável depósito coluvionar sobrejacente à referida formação e que inclui um elevado número de materiais cerâmicos e líticos de características semelhantes aos exumados no interior das estruturas. Do ponto de vista da sua distribuição espacial, constatou-se um maior número de ‘fossas’ na área SE do terreno e, em contrapartida, um maior número de ‘buracos de poste’ na área NO. Apesar de se ter registado algumas estruturas afectadas pela utilização recente do terreno, a maioria apresenta-se bem preservada. Do ponto de vista morfológico, é de salientar a presença de ‘fossas’ maioritariamente de planta subcircular, perfil esférico, fechado e muito fechado e base aplanada. Relativamente aos seus enchimentos, é de salientar a presença de níveis bem preservados onde concorrem diferentes tipos de categorias artefactuais com paralelos aos identificados por Cortez e a complexidade de alguns contextos. Destaca-se a presença de um considerável conjunto de conchas de moluscos, dominado por espécimes de lapas, tendo-se proporcionado o seu estudo biológico e a obtenção das primeiras datas do sítio arqueológico, que corroboraram a sua inserção cronológica

FIG. 6 – Desenho do seixo de quartzito.
Desenho: Rui Pinheiro.

na primeira metade do II milº AC. Foi realizada uma sondagem no local nos anos 50 do século XX” (Património Cultural, IP);

– Cns 13026. Período: Indeterminado; Descrição: “Estação de ar livre descoberta durante uma intervenção que se desenvolveu em dois lotes urbanos contíguos entre si, embora o acesso a cada um deles se faça por ruas distintas. As sondagens localizam-se na área envolvente aos edifícios principais de cada um dos lotes, em zonas de jardim ou em áreas calcetadas. Nelas foram identificados materiais de pedra lascada e cerâmica. Em termos geográficos, trata-se de um pequeno morro de topo aplanado a uma cota de cerca de 33 m. A área envolvente encontra-se profundamente urbanizada, sendo que, este processo foi principalmente acelerado nas últimas décadas” (Património Cultural, IP);

– Cns 4613. Período: Paleolítico; Descrição: “Russel Cortez realizou uma pequena sondagem, em 1932, com o intuito de verificar a importância da jazida” (Património Cultural, IP);

– Rua de Fez, n.º 31. Período: Pré-História. Descrição: Durante o mês de agosto do ano de 2025, foi realizada uma sondagem de avaliação arqueológica onde foi detetado um paleossolo que estava sobre um terraço marinho. Desta sondagem foram recolhidos diversos instrumentos líticos, tais como pesos de rede, núcleos e lascas, entre outros. Estes instrumentos são feitos sobre seixos de quartzito (informação gentilmente cedida pelo arqueólogo Óscar Teixeira).

A Sul do Rio Douro, na freguesia do Canidelo, também temos diversas jazidas com vestígios da Pré-História, quer recente quer antiga.

– Cns 39657. Período: Indeterminado; Descrição: “As gravuras rupestres do Cabedelo foram identificadas casualmente em 2002, num conjunto de penedos localizados perto a estrada e alvo do efeito das marés e das alterações do areal. Trata-se de um conjunto de gravuras feita por abrasão, dispersas por quatro penedos, em diferentes planos e com uma orientação a poente. Um rochedo de superfície aplanada apresenta dois largos círculos concêntricos, um segundo rochedo apresenta uma espiral e dois penedos apresentam antropomorfos: um com dois elementos humanos e outro apenas com um associado a fossetes. Não será consensual a antiguidade destas representações. G. Guimarães refere a tradição oral que se refere a um penedo deste conjunto como ‘pedra de escorregar’. Atendendo à sua localização é plausível que, cobertas pela areia, possam existir mais elementos de arte rupestre. O local vem referenciado no PDM de Vila Nova de Gaia com o código A017” (Património Cultural, IP);

– Cns 4614. Período: Paleolítico; Descrição: “Russel Cortez realizou em 1932, uma sondagem” (Património Cultural, IP); – Cns 41142. Período: Pré-História, Moderno e Contemporâneo; Descrição: “Consiste num extenso promontório aplanado junto à foz do rio Douro, que exibe uma longa e diversa ocupação humana. No entanto, tratando-se de um espaço de interesse económico, as antigas ocupações humanas encontram-se bastante descaracterizadas. A ocupação mais antiga deste espaço está representada pela presença de objetos em pedra lascada, produzidos com recurso em matéria local. Continuamente, as condições de implantação deste espaço potenciaram a construção de uma série de equipamentos de cariz militar e industrial, como um farol de época moderna nos séculos XVII d.C. ou XVIII d.C. Já no contexto das guerras liberais, este espaço foi fulcral nos conflitos envolvidos na conquista da cidade do Porto. Onde foi erguido um reduto fechado de formato poligonal, com um fosso armado com 4 canhoneiras e uma plataforma de morteiro. Esta estrutura foi no século XIX d.C. transformado no Forte das Pedras Altas. Como o topónimo indica no século XX d.C., até finais da década de 1990, este espaço veio a ser utlizado como um complexo industrial, orientado para Seca do Bacalhau. Onde no seu auge estiveram simultaneamente operacionais uma dezena de edifícios, que albergavam as diversas facetas da vida industrial neste espaço” (Património Cultural, IP). Nos últimos anos, com a realização de vários trabalhos arqueológicos – tendo o autor do presente artigo sido signatário numa série deles –, foram detetadas no local jazidas com material lítico de cronologia Pré-Histórica e estruturas negativas tipo “fossa” da Idade do Bronze.

Sérgio Monteiro-Rodrigues e outros (Monteiro-Rodrigues, Gomes e Cunha-Ribeiro, 2016), num artigo publicado em 2016, referem uma série de locais/jazidas no litoral de Vila Nova de Gaia onde foram identificados artefactos líticos talhados. Dois deles estão localizados na freguesia do Canidelo:

– Salgueiros. Salg1. Salgueiros 1; Descrição: Coluvião superficial;

– Salgueiros. Salg. Praia de Salgueiros; Descrição: Coluvião superficial.

De uma forma muito sumária, com esta pequena listagem podemos constatar que, na zona estuarina do rio Douro, uma série de jazidas arqueológicas comprovam que esta área geográfica tinha uma ocupação humana com alguma expressão na Pré-História.

Quer a Norte, quer mais recentemente a Sul do rio Douro, este território está a sofrer um profundo processo construtivo que, naturalmente, irá provocar o desaparecimento dos poucos vestígios existentes desta ocupação do Homem na Pré-História.

Conclusão

Apesar de ser apenas um achado isolado de superfície, sem uma contextualização cronostratigráfica segura, este seixo de quartzito com marcas de levantamentos não deixa de ter alguma importância.

Com o seu aparecimento, é possível continuar a mapear a dispersão dos vestígios de cronologia pré-histórica a Norte e a Sul da foz do rio Douro, e assim tentar compreender a mancha de ocupação deste período histórico nessa zona estuarina.

Referências bibliográficas

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Monteiro-Rodrigues, Sérgio; Gomes, Alberto e Cunha-Ribeiro, João Pedro (2016) –“Os Artefactos Líticos Talhados do Litoral de Vila Nova de Gaia: caraterização genérica, contextualização geoarqueológica, problemas e perspetivas”. Estudos do Quaternário Braga: Apeq. 15: 99-116. https://bit.ly/4fnwOQW Cartografia

CARTA MILITAR DE PORTUGAL (1999) –Folha 122, Escala 1/25 000, Série M888. Lisboa: Serviços Cartográficos do Exército. CARTA GEOTÉCNICA DO PORTO (2003) –2.ª ed. Porto: Câmara Municipal do Porto. CARTA GEOLÓGICA DE PORTUGAL (1957) –Folha 9C Porto, Escala 1/50 000. Lisboa: Serviços Geológicos de Portugal.

Fontes eletrónicas

GOOGLE EARTH – http://earth.google.com/ Património Cultural, IP –Pesquisa de Sítios Arqueológicos, https://arqueologia.patrimoniocultural.pt/ [ligações à Internet ativas em 2026-07-10]

Monte da Salsa / Salsa 1 (Brinches, Serpa)

um novo complexo religioso?

Marco Valente 1 e Maria João Marques 2

1 Arqueólogo. Vice-Presidente da Iccira (International Cultural and Creative Industries Regulatory Authority).

2 Arqueóloga. Investigadora Independente.

Por opção dos autores, o texto não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990.

Em virtude da execução de trabalhos arqueológicos (prospecções de diagnóstico, acompanhamento arqueológico e posteriores sondagens), a cumprir no âmbito de uma intervenção agrícola relacionada com o arranque de olival e sua posterior plantação nos prédios rústicos Herdade da Casa Branca e Herdade da Salsa, correspondendo, na sua totalidade, a uma área de aproximadamente 75 hectares, foram identificadas pelos signatários realidades significativas, que julgamos merecedoras de uma primeira divulgação preliminar.

A estação arqueológica originalmente foi dada à estampa por José Leite de Vasconcellos, na revista O Archeologo Português, referindo o surgimento de um “[…] mosaico do género opus vermiculatum; também apareceu uma columna e vários objectos artísticos de pedra” (Vasconcellos, 1899-1900: 231).

José Fragoso de Lima teria visitado o local, assinalando “[…] este autor que o muro da horta do Monte era construído em tijolo romano, de várias formas (ainda que abundassem as circulares), e que também se encontravam na zona vários pedaços de mármore

e granito trabalhados e uma pedra de mó” (segundo Larrazabal Galarza, 2009: 6).

Os trabalhos de Abel Viana, em 1954, na villa da Salsa, permitiram-lhe recuperar uma estátua de Esculápio, tendo identificado um conjunto de dolia com a inscrição impressa: [cruz] ECLESIESCEMARIE / LACANTENSIA AGRIPI, “um notável exemplo da evolução da villa na Antiguidade Tardia, com a sua reconversão em património eclesiástico” (Fabião, 2020: 454).

Em virtude da realização da Carta Arqueológica de Serpa, no decorrer dos trabalhos de prospecção foram encontrados materiais romanos, assim como alguns fragmentos vidrados cor de mel, que poderiam revelar uma ocupação da villa em Época Islâmica, nomeadamente entre os séculos X e XI. Em Setembro de 2007, numa zona de ruínas de antiga malhada, ao instalar-se um

carregador de azeitonas, os trabalhos de Teresa Nunes da Ponte revelaram uma série de estruturas adossadas, interpretadas como local de possíveis funções funerárias ou de contenção de líquidos (Ponte, 2011).

Entre Outubro de 2008 e Abril de 2009, uma série de intervenções arqueológicas (sondagens de investigação), enquadradas no Projecto de Minimização de Impactes sobre o Património Cultural Decorrentes da Implementação do Bloco de Rega de Brinches(Bloco A), promovido pela Edia - Empresa de Desenvolvimento e Infra-Estruturas do Alqueva, S.A., da responsabilidade de Javier Larrazabal e Sandra Ribeiro, comprovou o aparecimento de diversos vestígios arqueológicos, pertencentes a uma villa tardo-romana 1 (Larrazabal Galarza, 2009).

1 “O aparecimento de fragmentos avulsos de Terra Sigillata Itálica e Gálica fundamenta a ocupação do lugar já desde o século I d.C. Contudo, as primeiras fases de ocupação detectadas remetem para os séculos II-finais IV / / primeira metade do V d.C., e confirmam a utilização produtiva do espaço localizado a poente da

actual instalação agro-pecuária.

As fases mais recentes (V-VI d.C.) evidenciam uma ruptura drástica com os anteriores modos de vida, testemunhada através da ruína generalizada dos edifícios e da nova dedicação funerária do espaço” (Larrazabal Galarza, 2014: 137).

FIG. 1 – Elementos patrimoniais da Herdade da Salsa e Casa Branca.

Durante os nossos trabalhos de prospecção, iniciados a 21 de Abril de 2024 (quer de diagnóstico quer contínuos, ao longo do desenrolar dos trabalhos), foram revelados alguns aspectos dignos de registo – que serão abordados em artigos e estudos mais aprofundados futuramente. Podemos destacar uma asa de ânfora produzida nas oficinas de CVRVCVNTIN (Figs. 2 e 3), da qual existem alguns paralelos, como os encontrados na Alcáçova de Mérida ou na Boca do Rio (Fabião e Guerra, 2016: 98) 2

Os trabalhos de acompanhamento revelaram, durante a escavação de vala para a rede de rega, a existência de um muro preservado, aparentemente com um piso mais a Norte e um derrube para Sul, e com um opus aparentemente de cronologia romana (Figs. 4 e 5).

FIGS. 2 e 3 – Asa de ânfora com marca de oleiro e o respectivo desenho.

Foram efectuadas duas sondagens de diagnóstico: uma no local de implantação deste muro, e outra no que pareciam ser os alicerces de uma outra edificação contígua. Com as chuvas torrenciais sentidas entre finais de Junho e inícios de Julho de 2024 em Brinches, foi identificado um recipiente anfórico, que se encontrava aparentemente fracturado in situ na sua quase totalidade.

2 “Apesar de ser uma marca pouco frequente, regista uma notável dispersão geográfica, estando atestada em Roma (CEIPAC 1881), Óstia (CEIPAC 1882 e 27357), Inglaterra (CALLENDER, 1965: 118) e no Mediterrâneo oriental, concretamente na Síria (LAGÓSTENA BARRIOS, 2001 / CEIPAC 27360), e conta ainda com outra ocorrência no território

português: na villa de Vilares de Alfundão, Ferreira do Alentejo (NORTON et al., 1994: 186). Conhece-se também a versão abreviada desta marca, sob a forma de CVRVC, encontrada em Conimbriga (ALARCÃO, 1976: 89, Pl. XXII, n.º 56)” (Fabião e Guerra, 2016). E agora este, encontrado durante os trabalhos por nós efectuados na Villa da Salsa.

A sondagem n.º 1, de um metro por um metro, foi efectuada de forma a se poder recuperar esse dito recipiente e algum eventual contexto preservado que pudesse estar a ele associado.

A sondagem n.º 2, de 2,8 x 4 m, foi efectuada assim para Este e Oeste da vala, de forma a melhor caracterizar o contexto em si.

Na Fig. 7, podemos observar um piso em opus de que terão sido arrancadas, em momento tardio, pelo menos três grandes lateres (os negativos podem ser observados em primeiro plano), muito possivelmente para serem reutilizados.

FIGS. 4 a 7 – Vestígios de muro e pavimento (4); vestígios de muro, pavimento e derrube (5); recipiente anfórico fracturado recuperado da sondagem n.º 1 (6); e aspecto da sondagem n.º 2 (7).

Desenho: Marco Valente.

Com o decorrer da intervenção e remoção de níveis de aterro, fomo-nos apercebendo de alguns contextos dignos de registo.

Numa área que se afigura como tanque de imersão de baptistério, foram recuperadas centenas de falanges de animais (maioritariamente de médio e pequeno porte). Estes estavam depositados sobre o esqueleto em conexão de uma cabra ou ovino (material em estudo actualmente), deposta de forma intencional neste tanque.

Foram recuperadas algumas placas de mármore finas (que, cremos, poderiam ser de revestimento do tanque / baptistério, à semelhança de um outro in tervencionado em Mértola) e restos de argamassa. Estes estão a ser estudados presentemente por colegas da Universidade de Évora / Laboratório Hércules.

Um outro tanque mais simples surgiu um pouco mais a Norte e revelou uma estrutura que, na base, teria tido lateres de pequeno tamanho (ficaram ainda presentes os negativos na argamassa). As paredes terão sido revestidas, mas, como todos esses alçados estavam completamente picados, não foi possível averiguar em que material teria sido efec-

tuado esse revestimento. Uma estrutura semi-rectangular, que envolvia todo o recinto e da qual apenas ficou preservada a primeira fiada de alicerces pétreos, parece configurar a delimitação de uma área onde os catecúmenos poderiam ser igualmente banhados.

FIGS. 8 a 11 – Fase de escavação, vendo-se, no topo, à esquerda, o local onde foram arrancados os três grandes lateres (8); pormenor dos trabalhos de escavação e registo do que será um baptistério da Antiguidade Tardia (9); deposição intencional de ovino ou caprino na base do tanque (10); e segundo tanque, mais simples na sua configuração (11).

Após a remoção dos lateres da base, foi picada uma área rectangular de função indeterminada. No passado, este tanque mais pequeno tinha sido afectado por uma vala que o atravessava parcialmente. De entre os itens recuperados do interior deste tanque, cumpre-nos destacar uma colher metálica cerceada e dobrada, como que assinalando assim a morte funcional do objecto em questão.

Estes elementos foram escavados e colocados a descoberto algumas centenas de metros mais a Sul do local onde Abel Viana teria escavado umas termas e recuperado uma estátua de Esculápio (o “boneco”, na expressão de alguns populares que escutamos nos nossos trabalhos). Teremos assim uma evidência mais – para além dos dolia com as inscrições relacionadas com a ECLESIESCEMARIE / LACANTENSIA AGRIPI – da ocupação religiosa deste espaço, à semelhança do sucedido com imensas outras villae, como, por exemplo, São Cucufate, na Vidigueira.

A villa da Salsa, assim como todos os demais contextos que ainda se encontram preservados no subsolo, mereciam um programa de recuperação, escavação, musealização e inclusão em Roteiros (como o Roteiro das Paisagens Sacralizadas que presentemente delineamos na tese de Doutoramento em Arqueologia de um dos autores - MV).

Santiago Macias inclui-a nos três sítios que poderiam ser musealizados e divulgados em turismo cultural sustentável, para Serpa. Carlos Fabião, em 2020, afirmava que “O Monte da Salsa é, sem dúvida, um local que mereceria maior atenção e a realização de trabalhos arqueológicos que não somente algumas minimizações pontuais de impactes que ali têm sido feitas nos últimos anos” (Fabião, 2020: 454).

Agradecimentos

Aos colegas Dr. Fábio Vivas e Andreia Rosa, membros da equipa que auxiliaram nos trabalhos de prospecção, acompanhamento e escavação arqueológicos. Aos Drs. Noel Moreira e Patrícia Moita, pelo estudo que estão a efectuar às argamassas e mármores do local através do Laboratório Hercules / Universidade de Évora. Ao Doutor Nelson Almeida, que, conjuntamente com alunos seus da Universidade de Évora, se encontram a efectuar estudos de Zooarqueologia dos restos animais recuperados durante a execução das sondagens arqueológicas.

O estudo pormenorizado de todos estes materiais e outros encontra-se a decorrer, esperando os autores que, em conjunto com os demais colegas, consigamos disponibilizar os resultados à comunidade científica e em geral a breve trecho.

Bibliografia

Alarcão, Jorge de (1988) – Roman Portugal Warminster: Aris & Phillips. Vol. II, Fasc. III. Alarcão, Jorge de (1990) – “O Domínio Romano”. In Alarcão, Jorge de (coord.). Portugal das Origens à Romanização. Lisboa: Editorial Presença, pp. 342-441 (Nova História de Portugal, vol. I). Antunes, Ana Sofia; Soares, António M. Monge; Deus, Manuela de e Soares, Rui Monge (2017) –“Monte do Bolor 3, Monte do Pombal 2, Salsa 3 e Torre Velha 3: contextos de planície da I Idade do Ferro do Alentejo Interior”. In Jiménez Ávila, Javier (ed.). SIDEREUM ANA III. El río Guadiana y Tartessos. Mérida: Consorcio de la Ciudad Monumental, Histórico-Artística y Arqueológica, pp. 159-185 (Serie Compacta, 1).

Deus, Manuela de; Antunes, Ana Sofia e Soares, António M. Monge (2009) – “A Salsa 3 (Serpa) no contexto dos povoados abertos do Bronze Final do Sudoeste”. In Pérez Macías, Juan A. e Romero Bomba, Eduardo (coord.). IV Encuentro de Arqueología del Suroeste Peninsular Huelva: Universidad de Huelva, pp. 514-543 (Collectânea, 145).

Fabião, Carlos (1993) – “A Romanização do Actual Território Português”. In Medina, João (dir.). História de Portugal. Lisboa: Editorial Estampa. Vol. 1, pp. 212-280.

Fabião, Carlos (2020) – “As Villae romanas da Lusitânia Ocidental: velhos problemas e novas abordagens”. In Ángel Martínez, Rafael et al. (coord.). Actas del Congreso Internacional “Las Villas Romanas Bajoimperiales de Hispania”

Palencia: Diputación Provincial de Palencia, pp. 451-470.

Fabião, Carlos e Guerra, Amílcar (dir.) (2016) – Marcas de Ânforas Romanas da Lusitânia (do Museu Nacional de Arqueologia de Lisboa ao Museu Nacional de Arte Romano de Mérida) Lisboa: Union Académique Internationale / / Academia das Ciências de Lisboa, Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa (Corpus Internationale des Timbres Amphoriques, Fascicule 19).

Larrazabal Galarza, Javier (2014) –“A villa romana do Monte da Salsa (Brinches, Serpa): uma aproximação à sua sequência ocupacional”. In Silva, António Carlos et al. 4.º Colóquio de Arqueologia do Alqueva: o Plano de Rega (2002-2010). Évora: Edia / Drcalen, pp. 137-144 (Memórias d’Odiana, 2.ª Série, 14).

Lima, José Fragoso de (1944) – “Localização da Cidade Romana de Serpa”. Boletim da Casa do Alentejo. Lisboa: Casa do Alentejo. 99-A: 31-32.

Lima, José Fragoso de (1951) – “Aspectos da Romanização no Território Português da Bética”. O Arqueólogo Português. Lisboa: Museu Nacional de Arqueologia. 2.ª Série. 1: 171-211. https://bit.ly/43d5aPn

Lima, José Fragoso de (1988) – Monografia Arqueológica do Concelho de Moura. Moura: Câmara Municipal de Moura.

Lopes, Maria Conceição; Carvalho, Pedro C. e Gomes, Sofia M. (1997) – Arqueologia do Concelho de Serpa. Serpa: Câmara Municipal de Serpa.

FIGS. 12 e 13 – Perspectivas da colher metálica cerceada e dobrada (possível morte funcional primária).

Vasconcellos, José Leite de (1899-1900) –“Da Lusitânia à Bética”. O Archeologo Português Lisboa: Museu Nacional de Arqueologia. 1.ª Série. 5: 225-249. https://bit.ly/4dPVFM5

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Viana, Abel (1955) – “Notas Históricas, Arqueológicas e Etnográficas do Baixo Alentejo”. Arquivo de Beja. Beja: Câmara Municipal de Beja. 12 (1-4): 3-35.

Relatórios

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Larrazabal Galarza, Javier (2009) – Minimização de Impactes Sobre o Património Cultural Decorrentes da Implementação do Bloco de Rega de Brinches (Bloco A). Monte da Salsa, Relatório Final. Vila Nova de Gaia: Empatia Arqueologia.

Larrazabal Galarza, Javier e Ribeiro, Sandra (2009) – Relatório. Trabalhos de alargamento e desmontagem de estruturas. Vila Nova de Gaia: Empatia Arqueologia.

Marques, Maria João (2024) – Prospecção Arqueológica de Diagnóstico. Herdade de Aguadalte e Herdade da Salsa - Brinches, Serpa Miguel, Lúcia (2011) – Minimização de Impactes Sobre o Património Cultural Decorrentes da Execução do Bloco de Rega de Brinches (Fase de Obra)- Sub Bloco das Navegadas - Monte da Salsa 1 Cruz Quebrada - Dafundo: Era Arqueologia SA. Ponte, Teresa Ricou Nunes (2011) – Monte da Salsa (Brinches, Serpa). Relatório das intervenções arqueológicas efectuadas em Setembro de 2007

Periódicos

JORNAL DE MOURA (1942) – “A Herdade da Salsa (Estação Romana na freguesia de Brinches, entre Moura e Serpa”. Ano 22, n.º 743.

[ligações à Internet ativas em 2026-07-10]

Dois prováveis monumentos megalíticos inéditos?

(União de Freguesias de Salvador e Santa Maria da Feira, Beja)

Marco Valente 1 e Agustín Ortega-Esquinca 2

1 Arqueólogo. Vice-Presidente da Iccira (International Cultural and Creative Industries Regulatory Authority).

2 Arqueólogo. Investigador Independente.

Por opção dos autores, o texto não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990.

Alertados pelo nosso exímio colaborador do projecto do Roteiro das Paisagens Sacralizadas, Sr. António Morgado Leão (Monte dos Bispos, Nossa Senhora das Neves), acerca da eventual presença de dois elementos megalíticos inéditos nas proximidades de Beja, deslocamo-nos com ele ao local, de forma a verificar a plausibilidade dessas informações.

Uma possível anta 1, que foi utilizada pelo tio do proprietário como cabana onde guardava os cães. Em redor dos esteiros da câmara e do corredor, o dito tio do proprietário ergueu uma pequena estrutura em madeira, que esteve edificada desde as décadas de 70-80 do século XX até cerca de 2022, ocultando desta forma a estrutura da anta em si.

1 Atribuímos-lhe a designação de “Anta do Monte Cailogo”, uma vez que são as ruínas de um monte próximo e o microtopónimo mais perto deste local.

FIG. 3 – Esteios da câmara da anta ainda erguidos no local.

FIGS. 1 e 2 – O Sr. António Morgado Leão em frente ao que resta da câmara do monumento funerário (1) e vestígios da pequena cabana em madeira que aproveitou os esteios do mesmo (2).

Nos inícios da década de 1990, o proprietário quis edificar um poço e tentou primeiro perto da anta, mas, uma vez que aí a água era pouca, ele aterrou essa primeira tentativa de poço com parte dos esteios da câmara e os esteios de corredor que ainda estavam erguidos no local.

A cerca de 600 metros para norte-nordeste deste local, terá existido (igualmente segundo informes orais) um segundo monumento megalítico, que foi destruído pelo plantio de amendoal – pelo que observamos em imagens de Google Earth, até Maio de 2012 ainda estaria relativamente intacto. No interior deste segundo eventual monumento megalítico, quem o fotografou registou igualmente um elemento pétreo que lhe pareceu diverso dos demais, visto que aparentava “ter olhos”. Estaríamos assim na presença de um possível idoliforme?

Após informação acerca destes novos dados e eventuais monumentos megalíticos, o próximo passo será o de alertar o proprietário para a existência do primeiro monumento, que ainda se encontra relativamente preservado, para que fique protegido de uma eventual implantação de cultivo intensivo ou superintensivo neste local. Será importante também para intervenções e estudos futuros, como para a inserção em Roteiros, nomeadamente no Roteiro das Paisagens Sacralizadas

Agradecemos ao Dr. Manuel Casteleiro de Goes pela utilização das fotos por ele efectuadas em finais da década de 90 do século XX (Figs. 6 a 9 da presente notícia).

Bibliografia de referência

De Goes, Manuel Casteleiro (1998) – Beja. XX Séculos de História de uma Cidade. Beja: Câmara Municipal de Beja. 2 vols.

FIGS. 4 a 7 – Local de implantação da anta e seu entorno imediato (4); zona de aterro da primeira tentativa de abertura de poço onde foram depositados esteios da anta (5); o Monte Cailogo e a anta (círculo vermelho), sendo visíveis esteios erguidos. Foto de finais da década de 1990 (6); e aparente alinhamento de um segundo monumento megalítico (7).

FIGS. 8 a 10 – Aparente idoleiforme, repousando sobre demais elementos pétreos (8); detalhe do aparente idoleiforme “oculado” (9); e croqui do mesmo (10).

Fotos 6 a 9:
Manuel Casteleiro de Goes.

Workshops 50Layers

Cristina Gameiro 1, Sérgio Gomes 1, Rui Gomes Coelho 1 ,

Sara Simões 1 , André Tomás Santos 1 e Sara Cura 1

1 Equipa do Projeto 50Layers.

Por opção dos autores, o texto segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990.

Oprojeto 50Layers - 50 Camadas de uma Revolução (2023.10940.25Abr), financiado pela Fct - Fundação para a Ciência e a Tecnologia no quadro do concurso O 25 de Abril e a Democracia Portuguesa, encontra-se sediado na Flul - Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa / Uniarq- Centro de Arqueologia e conta com a colaboração da Flup - Faculdade de Letras da Universidade do Porto / Citcem - Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória e da Fluc- Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra / / Ceaacp - Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património.

A organização de workshops temáticos foi uma das tarefas propostas em sede de candidatura. Em março de 2025, na Flup, tendo a Educação como tema, teve lugar o primeiro encontro. O segundo workshop decorreu no dia 9 de janeiro de 2026, na Flul, em Lisboa (Figs. 1 e 2). Intitulado Descolonização, Democracia e Arqueologia, reuniu cerca de 30 participantes, entre profissionais de Arqueologia e alguns estudantes que discutiram os temas relacionados com a descolonização, num sentido lato, da Arqueologia. A abertura do encontro coube à Professora Cleia Detry, subdiretora da Uniarq, que se encarregou de endereçar as boas-vindas a todos os participantes, enfatizando o regozijo deste centro

de Arqueologia por ser a instituição proponente do projeto 50Layers.

Os investigadores responsáveis apresentaram as linhas gerais do projeto e coube a Rui Gomes Coelho, membro da equipa do 50Layers, expor os pressupostos teóricos que serviram de enquadramento ao workshop (Fig. 3).

Como podemos responder aos desafios de hoje, no quadro da descolonização da Arqueologia? Foi a pergunta que orientou as intervenções nos quatro painéis temáticos. Sara Simões e Regis Barbosa circunscreveram-se ao contexto laboral, salientando as enormes conquistas obtidas de 1974 aos nossos dias, mas reconhecendo divisões classistas que continuam a afetar a produção do conhecimento arqueológico. Daniela Matos e Rui Gomes Coelho abordaram os “Legados Coloniais”, referindo que é necessário desfazer desigualdade em relação a comunidades e coleções. A representação social foi o tema explorado por Sara Brito, que se focou nas questões de género, e por Agatha Floriano, brasileira e aluna do mestrado de Arqueologia da Fluc, que, participando remotamente, nos falou da (ainda) falta de representatividade social. Bons exemplos

de Trabalho em comunidade foram apresentados por Miguel Serra e Maria de Fátima Palma que, respetivamente, nos apresentaram as atividades que têm desenvolvido em Serpa e Mértola, provando que é possível construir novas relações com as comunidades (Fig. 4).

Este workshop encerrou com a discussão, que envolveu todos os participantes, em torno da questão: o que é a descolonização da Arqueologia no contexto dos valores de abril? (Fig. 5). Os vários temas abordados geraram uma saudável discussão entre os interlocutores presentes na sala, com destaque para: 1) a questão da “objetificação” dos outros e dos próprios corpos, com enfâse na questão da exposição e re-enterramento (ou não) de restos biológicos humanos; 2) o carácter extrativista e de acumulação de objetos que ainda caracteriza a maioria das intervenções arqueológicas; e 3) uma abordagem de temas fundamentalmente eurocêntrica, perpetuando relações de desigualdade racial, étnica e social.

Em Coimbra, na Fluc, dia 7 de abril, decorreu o terceiro workshop, com o título Pluralidade, Democracia e Arqueologia (Figs. 6 e 7). Estiveram presentes cerca de 30 participantes e, após a abertura por André Tomás Santos (Fig. 8), seguiu-se a apresentação do projeto 50Layers e o enquadramento deste workshop no mesmo pelos responsáveis do projeto, Cristina Gameiro e Sérgio Gomes (Fig. 9). Posteriormente, foram discutidas persistências e mudanças e os novos desafios à pluralidade da Arqueologia.

As várias intervenções procuram explorar e refletir sobre a pluralidade como princípio fundador da prática arqueológica. A Revolução de Abril trouxe consigo a promessa de uma sociedade mais aberta e mais justa, empenhada na diminuição das desigualdades socioeconómicas, raciais e de género. Mas de que modo tal se refletiu na forma como fazemos Arqueologia? Atualmente, quem participa na construção do conhecimento sobre o passado? Que narrativas são privilegiadas e quais permanecem silenciadas? Concluímos que há maior representatividade socioeconómica, mas as desigualdades raciais continuam quase tão presentes como há 50 anos.

José Luís Monteiro apresentou-nos a sua história de vida, intimamente ligada ao Centro de Arqueologia de Almada, numa altura em que a profissionalização em Arqueologia era pouco comum. Jussara Lima, recém mestre em Arqueologia, contou-nos que, no seu percurso como estudante do ensino secundário numa escola na área metropolitana de Lisboa, assistiu ao empurrar de estudantes racializados para cursos profissionais. Os dados mostram-nos que atualmente existe paridade de género; contudo, os homens ainda ocupam mais cargos de poder. Este é mais um aspeto que nos demonstra que não podemos “sentar-nos” à sombra das conquistas alcançadas. Escassas semanas após a aprovação na Assembleia da República das alterações à lei da autodeterminação da identidade de género, Mara Agosto lembrou-nos de alguns desafios com que se deparam as pessoas não binárias, até no decurso do seu percurso académico. Lembrou-nos a necessidade de combatermos todo o tipo de essencialismos, não só ao nível do género no campo político e social, mas de todo o real e, designadamente, dos objetos de estudo a que nos dedicamos. Como problematizado pela autora, poderemos reduzir o megalitismo a uma tipologia de monumentos funerários que pontuam paisagens em abstrato? Podemos sequer falar em megalitismo?

Cinquenta anos depois, a pluralidade enfrenta novos desafios. As redes sociais e a inteligência artificial tendem a definir o tom do diálogo, a promover discursos únicos e polarizados, homogeneizando opiniões e reduzindo a complexidade do debate. Este fenómeno afeta também a Arqueologia, condicionando a forma como comunicamos, investigamos e imaginamos o passado. Que espaço resta para a diversidade de vozes, métodos e interpretações num contexto que favorece a ausência de debate real, e promove uma espécie de uniformidade passiva imposta pelos algoritmos das omnipresentes redes digitais?

Ana Amor partiu da historiografia e desconstrução de duas conceções e interpretações muito repetidas em torno de representações antropomórficas da Pré-história Recente – a “deusa mãe” e o conceito de “ídolos” –, para questionar alguns dos motivos que levam à cristalização de grandes narrativas em Arqueologia, e ao papel dos investigadores na construção de identidades arqueológicas. Entre eles, destaca-se a necessidade de sustento de outras teorias (por exemplo, o difusionismo), mas também a relação destas grandes narrativas com preconceitos dos próprios investigadores (não só enquanto respostas ao ambiente político e social em que se inserem, mas também a apreensão generalizada em admitir incerteza) e, ainda, a sua influência e credibilidade na criação destes axiomas.

Sara Cura centrou a sua intervenção na ausência de pontes duradouras entre a investigação arqueológica financiada publicamente e as comunidades que vivem nos territórios estudados (Fig. 10). Argumentou que comunicar não é apenas divulgar resultados, mas iniciar uma conversa que

transforma ambas as partes: a ciência ganha em consistência e pluralidade, as comunidades ganham acesso a um conhecimento que lhes pertence. Neste cenário, o problema não reside na falta de vontade dos investigadores em estabelecer essas pontes e trazer pluralidade à disciplina, mas nas condições estruturais do sistema científico português, que não avalia nem financia o trabalho de comunicação e envolvimento público de forma adequada.

Tânia Casimiro e João Sequeira mostraram-nos formas de dar voz a comunidades tornadas invisíveis e periféricas através da utilização de metodologias da Arqueologia para estudar e registar as suas condições de vida, e com isso impactar a sociedade que de muitas formas é indiferente e alheia à real diversidade dos modos mais precários de habitar os territórios (Fig. 11).

Conceição Lopes fechou a iniciativa com um testemunho que dá conta do seu percurso, iniciado nos anos 1980 quando, ao assinar o seu contrato com a Câmara Municipal da Vidigueira, se tornou a primeira arqueóloga municipal do país.

Neste workshop perguntámos: de que forma é que os ideais de abril nos desafiam a pensar a pluralidade na Arqueologia? Como podemos lutar contra a uniformização e construir uma prática arqueológica genuinamente plural e democrática? Não temos respostas definitivas, mas acreditamos que a discussão dos temas e o debate gerado nos

aproximou de formas de fazer Arqueologia que são mais inclusivas, diversas e plurais.

Agradecemos a todos os presentes a participação nos debates animados dos dois workshops, esperando que ambas as iniciativas tenham proporcionado material para reflexão.

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ArqueoLoci em 2026

iniciativas para a valorização do turismo arqueológico em Portugal

1 Coordenador do Centro de Arqueologia de Lisboa / Departamento de Património Cultural / / Direção Municipal de Cultura / Câmara Municipal de Lisboa.

2 Instituto Politécnico de Bragança, Icomos Icahm - International Scientific Committee on Archaeological Heritage Management e Ictc - International Cultural Tourism Committee.

3 Secretária-geral do Icomos Ictc; Consultoria Teiduma.

4 Comunidade Intermunicipal do Ave.

5 Grupo de Trabalho da ArqueoLoci - Rede Portuguesa de Turismo Arqueológico.

Por opção dos autores, o texto segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990.

AArqueoLoci - Rede Portuguesa de Turismo

Arqueológico tem vindo a consolidar o seu papel enquanto plataforma de articulação entre investigadores, profissionais do Património, agentes turísticos e comunidades locais, promovendo o turismo arqueológico como instrumento de valorização cultural, desenvolvimento territorial e sensibilização patrimonial.

Na sequência das atividades desenvolvidas nos últimos anos, 2026 ficou marcado, neste primeiro semestre, pela realização de diversas iniciativas de divulgação científica, debate e capacitação, destinadas a fomentar a reflexão crítica em torno da gestão, comunicação e interpretação do Património arqueológico.

Colóquio “Sensibilização e Articulação com Agentes Económicos do Sector do Turismo Arqueológico”

O Centro de Arqueologia de Lisboa (Cal), em articulação com a ArqueoLoci - Rede Portuguesa de Turismo Arqueológico, promoveram a realização deste evento multidisciplinar, dedicado à visibilidade que a atividade arqueológica e os seus resultados podem alcançar junto da comunidade, em particular quando integrados em projetos de promoção turística. Com efeito, desde os anos 80 do século XX que a inclusão obrigatória da Arqueologia nas boas práticas de gestão territorial e urbanística, por via legislativa, fez aumentar exponencialmente os recursos patrimoniais e informativos decorrentes desta prática, por todo o território nacional. Todos os intervenientes, públicos ou privados, foram convocados para supor-

tar os investimentos que visem a salvaguarda do Património histórico-arqueológico, no âmbito de um qualquer projeto que incida sobre um local onde potencialmente existam vestígios arqueológicos, independentemente do fim que os mesmos venham a conhecer, que poderá ser a sua obliteração mediante registo, a sua integração, ou simplesmente a sua oclusão após registo. Concluído este investimento obrigatório, existem, contudo, promotores privados que, além de suportarem os trabalhos arqueológicos legalmente exigidos, também pretendem legitimamente tirar proveito desse mesmo investimento, e como tal dispõem-se a integrar e valorizar as realidades arqueológicas com que se depararam, mais ou menos inesperadamente, sendo já numerosos os bons exemplos de espaços, sobretudo hoteleiros, mas não só, onde é feita a divulgação dos resultados das intervenções e estudos realizados no âmbito de projetos de investimento privados. Foi este o desafio lançado a um conjunto de palestrantes, convidados a partilharem as suas experiências com outros agentes e interessados por esta dinâmica e dimensão económica que o Património arqueológico também pode alcançar. Este colóquio teve lugar no auditório do Padrão dos Descobrimentos, no dia 7 de março (Fig. 1), tendo contado igualmente, na sua Organização, com o Departamento de Desenvolvimento e Formação

da Câmara Municipal de Lisboa (Cml), que geriu as inscrições, e atribuiu os Certificados de Presença a todos os palestrantes e participantes. Tratou-se de um evento gratuito, aberto a toda a comunidade, que contou com a presença de 44 participantes, de entre 80 inscrições no total. O evento teve início com uma sessão de abertura conduzida pela Professora Ana Catarina Sousa, Vice-presidente do Património Cultural IP, pelo Dr. Bruno Parreira, Vice-presidente da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa, e da Dr.ª Laurentina Pereira, Diretora Municipal de Cultura da Cml (Fig. 2).

António Marques 1, 5, Alexandra Vieira 2, 5, Sofia Fonseca 3, 5 e Paulo Costa Pinto 4, 5
Foto: Arquivo Cal-Cml, 2026.

Os trabalhos propriamente ditos tiveram início de seguida, através da Dr.ª Sofia Fonseca que, a partir do Abu Dhabi, por via telemática, apresentou a Carta Internacional do ICOMOS para o Turismo Cultural e o Património (2022), destacando a sua tradução para português como instrumento fundamental para a sua disseminação no espaço lusófono (Fig. 3). A apresentação abordou os seus princípios e objetivos, bem como a sua relevância para a construção de modelos de turismo mais sustentáveis, inclusivos e orientados para as comunidades. Num segundo momento, foram exploradas formas de aplicação prática da Carta, através de estudos de caso que ilustram a integração entre Património, turismo e desenvolvimento local. Seguiu-se, durante o período da manhã, a apresentação presencial de cinco trabalhos, designadamente: “Gestão de Sítios Arqueológicos Afetos ao Património Cultural, I.P: dados, balanços e desafios”, por Florbela Vitorino, Isabel Pinto e Jorge Sampaio, do Património Cultural, I.P.; “O Programa Revive e o Desafio da Arqueologia”, por Leonor Picão e Fernando Teixeira, do Turismo de Portugal; “Time Travellers: um desafio e muitas conquistas na divulgação do Património Arqueológico”, por Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, fundadoras e guias da empresa Time Travellers; “Paisagem Ancestral do Guadiana: valorização dos recintos cerimoniais como projeto de território”, por Miguel Lago e Mafalda Capela, da empresa Era Arqueologia; e “Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros, Lisboa: 30 anos de portas abertas ao mundo”, por Jacinta Bugalhão, do PC.IP, e Ana Filipa Brás, Maria Mântua Garcia e Joana Carrondo, do Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros / Fundação Millennium Bcp. No período da tarde, foram igualmente apresentadas cinco comunicações, também focadas na rentabilização e promoção publica do Património arqueológico, com evidente retorno público e científico, para a comunidade e para os diferentes agentes interventores. Os trabalhos tiveram reinício com a apresentação “Património em Transformação: o Convento do Beato e o Quarteirão Pombalino da Suíça na dinamização económica e turística”, por Ana Penisga e Raquel Seixas, da empresa Clay Arqueologia; “Hotel Alaia no Porto: desafios de integração e valorização de vestígios arqueológicos em espaços semi-públicos”, por Vítor Fonseca, da empresa AP - Arqueologia e Património; “Check in no Hotel Áurea Museum: um sítio arqueológico com passado e futuro”, por Nuno Neto, da empresa Neoépica, Lda., e Ana Gomes, do PC.IP; e, por último, “Lisboa Romana- Felicitas Iulia Olisipo: o Património romano

como ativo”, por António Marques e Cristina Nozes, do Cal.

Seguiu-se uma discussão (Fig. 4) na qual ficou patente a falta de diálogo e de concertação planeada entre os agentes patrimoniais, neste caso, sobretudo equipas de Arqueologia, e os demais agentes que vão igualmente assumir responsabilidades, relativamente a uma determinada realidade arqueológica. É ainda necessário trabalhar-se e promover-se uma maior aproximação entre os diferentes interventores, no sentido de integrar e articular as várias dimensões necessariamente envolvidas. Podemos, todavia, concluir que este evento resultou num momento de partilha de experiências, em vários pontos do país, em que, mais uma vez, ficou patente a especial sensibilidade e disponibilidade das equipas de Arqueologia para integrarem nos seus projetos, decorrentes de intervenções sobretudo de salvaguarda, esta vertente mais pública e mesmo turística, que dá uma relevante visibilidade à Arqueologia, enquanto agente que também pode e deve contribuir para a dinamização cultural, económica e social dos diferentes territórios.

Iniciativas digitais

A ArqueoLoci tem igualmente apostado na divulgação de recursos e conteúdos digitais dedicados ao Património arqueológico, procurando aproximar a Arqueologia das comunidades e dos agentes turísticos, através da dinamização de dois ciclos de iniciativas online: o “Ciclo de Webinars ArqueoLoci - Turismo Arqueológico (2026)” e o “Ciclo de Webinars Turismo Arqueológico - Experiências de Operadores Turísticos (2026)”. O primeiro desses ciclos é dedicado à discussão de temas relacionados com gestão, interpretação, acessibilidade e comunicação de sítios arqueológicos visitáveis. Reúne investigadores e profissionais nacionais e internacionais, permitindo a partilha de experiências, metodologias e estudos de caso associados à valorização do Património arqueológico através do turismo. O ciclo contou já com a participação de Sofia Fonseca, secretária-geral do Icomos Ictc e consultora da Teiduma, que apresentou a comunicação “Dos Princípios à Prática: aplicar a Carta do ICOMOS para o Turismo do Património Cultural à gestão e comunicação do

Fotos:
Arquivo
Cal-Cml, 2026.

turismo arqueológico”. A comunicação analisou alguns dos princípios fundamentais desta Carta aplicados à gestão de sítios arqueológicos visitáveis, com destaque para a proteção e conservação do Património, a gestão sustentável da visitação e a importância da interpretação e mediação cultural na construção de experiências turísticas mais informadas e significativas. Foram ainda abordadas questões relacionadas com a participação das comunidades locais e a integração de medidas de sustentabilidade e ação climática, evidenciando a necessidade de desenvolver modelos de turismo arqueológico mais responsáveis, equilibrados e resilientes.

Outra das sessões foi conduzida por Paulo Costa Pinto, membro do grupo de trabalho da ArqueoLoci, com a comunicação “Visitar a Arqueologia: motivações e discursos na visita a sítios arqueológicos”. Paulo Costa Pinto registou o contraste entre o número de sítios arqueológicos elencados em portais públicos e o número dos que são visitáveis. Abordou depois a necessidade de ter um outro paradigma na visita a estes sítios, que não são todos um “cartaz turístico”, mas que devem todos poder ser compreendidos enquanto âncoras de identidade. Lembrou John Urry, referindo a necessidade de integrar a dúvida no discurso em turismo arqueológico, assegurando clareza sem faltar à busca da verdade.

No âmbito destas iniciativas digitais, foi igualmente promovido o Ciclo de Webinars Turismo Arqueológico - Experiências de Operadores Turísticos (2026)”, centrado na apresentação de projetos e práticas desenvolvidos por operadores turísticos que trabalham diretamente com o Património cultural. Este desafio de dar voz aos agentes turísticos envolvidos na valorização do Património arqueológico foi lançado pela Casa das Palmeiras, tendo motivado a criação de um novo ciclo de webinars, organizado de forma intercalada com o programa anteriormente existente. As sessões procuraram evidenciar diferentes abordagens à construção de experiências turísticas associadas à Arqueologia, à narrativa patrimonial e à mediação cultural, reforçando o papel do turismo na divulgação e valorização do Património.

A primeira sessão realizou-se online no dia 20 de

maio de 2026 e foi dedicada ao Património arqueológico e ao turismo cultural no concelho de Mangualde, contando com as intervenções de Rafaela Alves, do grupo de trabalho da ArqueoLoci, e de Joana Travessas, da Casa das Palmeiras - Nature Houses & Pedagogic Farm. A apresentação “O Património Arqueológico do Concelho de Mangualde” destacou a riqueza arqueológica do território, evidenciando vestígios de ocupação humana desde a Pré-História até à Idade Média, incluindo monumentos megalíticos, testemunhos da presença romana e vestígios medievais relevantes para a compreensão da evolução histórica e identidade cultural do concelho. Por sua vez, na comunicação “O Alojamento Turístico como Divulgador do Património Arqueológico”, Joana Travessas destacou a importância do Património enquanto recurso diferenciador, capaz de promover a coesão territorial e atenuar a sazonalidade turística, particularmente nas regiões do interior.

A apresentação evidenciou ainda a responsabilidade e a oportunidade dos alojamentos turísticos na promoção do Património local, incentivando estadias mais prolongadas e potenciando benefícios económicos e sociais para as comunidades locais, reforçando o turismo enquanto motor de desenvolvimento sustentável.

A chamada para contribuições mantém-se aberta, prevendo-se ainda a realização de mais dois ou três webinars neste âmbito até ao final do ano.

Próximas atividades da ArqueoLoci

As próximas iniciativas já agendadas incluem, no dia 15 de junho de 2026, a sessão “Tecnologias Digitais na Divulgação do Património Arqueológico: o projeto Pannonias Dol”, apresentada

por Gerardo Vidal Gonçalves. Em setembro, Sara Cura apresentará “Comunicar Arqueologia. Da Investigação ao Público: a comunicação de Ciência como base do turismo científico em Arqueologia”. Já em novembro de 2026, Nova Barrero Martín, do Museo Nacional de Arte Romano, dinamizará a sessão “Destino Augusta Emerita: un viaje al finis terrae del Imperio”.

No âmbito das Jornadas Europeias de Arqueologia 2026, que decorrem entre os dias 12 e 14 de junho de 2026, a ArqueoLoci promove a iniciativa digital “Visitas Virtuais a Sítios Arqueológicos”, dedicada à divulgação do Património arqueológico através de visitas guiadas virtuais em vídeo (Fig. 5). Disponibilizada online no dia 14 de junho, através do website e do canal de YouTube da ArqueoLoci, esta ação pretende explorar a relação entre Arqueologia e turismo, promovendo a divulgação de vídeos pré-gravados centrados em sítios arqueológicos, experiências de visita, turismo cultural e boas práticas de mediação patrimonial.

As próximas atividades decorrerão em Serpa, com dinamização de Miguel Serra, e em Guimarães, por Paulo Costa Pinto.

Em suma, as atividades desenvolvidas no primeiro semestre de 2026 reforçam o compromisso da ArqueoLoci com a divulgação de boas práticas e a promoção de modelos de turismo cultural mais conscientes, sustentáveis e participativos. Paralelamente, estas iniciativas têm contribuído para aproximar a investigação académica, os profissionais do setor e o público em geral, promovendo uma reflexão alargada sobre o papel do Património arqueológico nas dinâmicas contemporâneas do turismo cultural.

EVENTOS

30 Jun. - 3 Jul. 2026, Lisboa (PORTUGAL) 5th Roman Period Working Group Meeting International Council for Archaeozoology | https://tinyurl.com/2dhxftrs

3 - 4 Jul. 2026, Azaruja (PORTUGAL) Simpósio Museus Comunitários e Desenvolvimento (G)Local | https://simposio-mcdgl.uevora.pt/ ...............................................

23 - 25 Jul. 2026, Lisboa (PORTUGAL)

Internacional Synposium on Museology and Conservation: “Between exhibition gallery and storage - redesigning museum conservation practices” | https://tinyurl.com/2yevwamv ...............................................

26 - 29 Ago. 2026, Atenas (Grécia) 32nd Annual Meeting of the European Association of Archaeologists | https://tinyurl.com/35tv2yj9

31 Ago. - 4 Set. 2026, Poznan (Polónia) 21st World Congress of the Union of Prehistoric and Protohistoric Sciences (UISPP): “Archaeology in Motion: past lessons, future responsibilities” | https://uispp2026.syskonf.pl/ ...............................................

4 - 6 Set. 2026, Glasgow (Escócia) 13th Biennial International Conference in Conflict Archaeology | https://foc2026.co.uk/ ...............................................

19 Set. 2026, York (Inglaterra) Society for Medieval Archaeology Conference | https://tinyurl.com/nt2kn36b ...............................................

28 Set. - 2 Out. 2026, Madrid (Espanha) 34th Congress of the Rei Cretariae Romanae Fautores | https://rcrfmadrid2026.webflow.io/

30 Set. - 3 Out. 2026, Almería (Espanha) VIII Congreso de Arqueología Medieval (España y Portugal) | aeam.cam8.almeria@gmail.com

5 - 6 Out. 2026, Roma (Itália) 20th International Conference on Archaeology and Archaeometry | https://tinyurl.com/yc8haxxv

8 - 9 Out. 2026, Tavira (PORTUGAL) Jornadas Arqueológicas da Rede de Museus do Algarve | jornadasarqueologicasdarma@gmail.com ...............................................

14 - 16 Out. 2026, Bari (Itália) Metrology for Archaeology and Cultural Heritage | https://www.metroarcheo.com/ ...............................................

23 - 24 Out. 2026, Lisboa (PORTUGAL) Congresso 90 Anos - Grupo de Amigos de Lisboa: Lisboa, o tempo e a gente | https://tinyurl.com/yfacxr6p ...............................................

26 - 27 Out. 2026, Lisboa (PORTUGAL) International Conference on Archaeology | https://tinyurl.com/mswbpj6r ...............................................

30 - 31 Out. 2026, Guimarães (PORTUGAL) Colóquio “As Artes no Condado Portucalense e no Reinado de D. Afonso Henriques (868-1185)” | https://diaumdeportugal.guimaraes.pt/

4 a 6 Nov. 2026, Porto (PORTUGAL)

Congresso Internacional Genius Loci: lugares e significados | https://tinyurl.com/7cwt2np4

18 - 21 Nov. 2026, Braga (PORTUGAL) V Congresso da Associação dos Arqueólogos Portugueses | https://congresso.arqueologos.pt/

24 - 26 Nov. 2026, Porto (PORTUGAL) X Congresso de História Local: conceitos, práticas e desafios | https://tinyurl.com/4duccpd8 ...............................................

25 - 28 Nov. 2026, Mérida (Espanha)

23rd International Congress on Ancient Bronzes: Recovery, Conservation and Display of Bronzes | https://tinyurl.com/4da3nfmn ...............................................

12 - 15 Mai. 2027, Iasi (Roménia) 15th Experimental Archaeology Conference | https://tinyurl.com/jnmj5kac ...............................................

24-28 Mai 2027, Granada (Espanha) 7th International Conference Archaeometallurgy in Europe | https://aie2027.org/ ...............................................

15 - 18 Set. 2027, Ghent (Bélgica) Conference Architectural Salvage: Histories of commerce and guardianship | https://architecturalsalvage.ugent.be/en

[todas as ligações à Internet apresentadas estavam activas em 2026-07-10]

Retrato, vós não sois meu!

José d’Encarnação

[Catedrático de História, aposentado, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra]

Por opção do autor, o texto não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990.

Ao celebrarmos mais um centenário de Camões, pouco nos preocuparemos em saber como ele era fisicamente.

Habituados a vê-lo representado com uma venda no olho direito, porque dessa vista cegou numa contenda; testa larga, sinónimo (como se diz) de inteligência, curta cabeleira, bigode e pêra, qual era costume então, camisa de folhos a dar-lhe a dignidade nobre… decerto jamais nos preocupámos a levantar a questão: que retrato é esse do nosso vate? Imaginado ou real? Houve, um dia, alguém que lhe pediu que pousasse para o retratar na tela?

A questão não se terá levantado, porque o importante é a obra – tanto lírica como heróica – e se Luís

Vaz de Camões tinha 1,65 m ou mais de altura, a sobrancelha carregada ou o nariz afilado constituem, de facto, aspectos deveras secundários.

Confesse-se, porém, que neste centenário importaria levantar a questão. Foi o que fez a historiadora de Arte Doutora Raquel Henriques da Silva, quando se decidiu a analisar toda a documentação disponível a esse respeito, com amplíssima colaboração das mais variadas entidades museológicas e não só: Retrato, vós não sois meu! – um livro bonito, como não podia deixar de ser, editado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda em Junho de 2025, que tem como subtítulo Retratos e Autorrepresentações sobre o Corpo de Camões com um Prolongamento a Fernando Pessoa. Trata-se do resultado da investigação, ora revisto, que a autora apresentou, a 26 de Junho de 2018, nas provas para obtenção do grau de Agregada em História da Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. O «fascinante assunto» interessou-a tanto que confessa ser possível ainda voltar a dele se ocupar. Vamos esperar que sim. Aliás, já eficazmente complementou a exposição de livros que José Augusto Cardoso Bernardes estudara para a Camoniana de D. Manuel II, apresentada, em 2015, na galeria da Fundação Calouste Gulbenkian. Começa-se pelo retrato de Camões, gravura de A. Paulus para o livro, de Manuel Severim de Faria, Discursos Vários Políticos (Évora, 1624), que apresenta bem curiosa legenda à boa maneira latina, que traduzo: «Consagrada às Musas e à Posterio-

ridade. A LUÍS DE CAMÕES, cavaleiro lusitano, celebérrimo poeta, aluno enciclopédico das Humanas Letras pelas delícias das Graciosas Musas e também obsequiado pelos favores da pacífica Palas, no qual muito feliz engenho e adversa Fortuna combateram. GASPAR SEVERIM de Faria deu e dedicou a verdadeira efígie, gravada em placa de bronze para que quem já o orbe ocupou pela fama, pela presença ilustre» (p. 14).

E se, na pág. 16, Raquel Henriques da Silva, como que em jeito de universal desafio, reproduz o bem curioso desenho colorido de Olivia Denisse, de 8 anos, a representar Camões, em 2024, o certo é que a sua análise se desdobra eloquentemente pelas páginas seguintes, com elevada sabedoria e a dar conta de que, afinal, essa ideia de termos um retrato fiel de Luís de Camões constitui, de facto, se não uma utopia, pelo menos dela não ficaremos muito longe.

«Camões pintado» é, no fundo, o tema principal da obra. Demora-se a autora em Domingos António de Sequeira, autor da tela «A Morte de Camões», situando-o no seu tempo; atenta nas «Variações camonianas de Francisco Metrass» e na obra «Camões e as Tágides», de Columbano Bordalo Pinheiro, para concluir, de certo modo, esse panorama com a explicação da tela, de António Carneiro (1872-1930), «Camões lendo Os Lusíadas aos frades de S. Domingos». Escreve, por exemplo, em relação à referida tela de Domingos Sequeira: «O velho morrente de Sequeira é Camões transmutado em símbolo da crueldade da História – que, em 1580, deixou morrer na miséria quem lhe inventara a imortalidade mítica – e da morte da Pátria que […] ele acabara de saber que se afundara em Alcácer-Quibir. […] O quadro era símbolo também do funesto presente em que Portugal mais uma vez estava ameaçado de morte e expulsava os que se haviam empenhado na sua regeneração. Por isso, aquele Camões é uma espécie, eventualmente involuntária, de autorrepresentação do próprio Sequeira, que vivera aventurosamente a “mudança dos tempos” servindo Junot, sendo preso por isso, celebrando a constituição e os Constituintes, afinal empurrado para um exílio de onde não voltaria» (p. 37-38).

Silva, Raquel Henriques (2025) – Retrato, Vós Não Sois Meu! Retratos e Autorrepresentações sobre o Corpo de Camões com um Prolongamento a Fernando Pessoa. Lisboa: Imprensa Nacional- Casa da Moeda. 96 pág. Isbn: 978-972-27-3252-9.

E, mais adiante (p. 47), Raquel Henriques da Silva perora: «[…] Rememorando a decadência da Pátria e a morte de Camões, pobre e abandonado, Sequeira e Garrett dotavam de dimensão mítica o sacrifício deles próprios, obrigados a exilar-se, fugindo de uma Pátria que resistia à Revolução Liberal»

Sobre Francisco Metrass (1825-1861), cumpre dizer que estanciou em Paris em 1845, 1847 e 1853, tendo pintado, em 1855, o quadro «Inês de Castro pressentindo os assassinos», actualmente no Museu Nacional de Arte Contemporânea, em Lisboa. Sugere a autora (p. 52) que «a descoberta de Camões» terá então acontecido em Paris. Tal descoberta e esse quadro devem, a meu ver, relacionar-se com as litografias dessa data referentes à vida de Inês de Castro – uma delas mostra mesmo os assassinos atrás dum reposteiro, à espera que D. Pedro a deixe só – patentes no Solar de Pancas, em Alenquer 1 «Se Sequeira representou a morte de Camões como dupla morte da Pátria (em 1580 e em 1823) e Metrass se apropria do seu corpo e do seu rosto autorretratando-se nele, Camões e as Tágides (1894), de Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), introduz questões bastante diversas», acentua a autora (p. 56), porque as comemorações do III Centenário da Morte de Camões, em 1880, vão enaltecer um Camões épico, susceptível de ajudar a erguer o País em prol da regeneração da Pátria, pois, recorde-se, a posse das colónias de África estava

1 Ver Encarnação (José d’), «Amor de perdição», Duas Linhas, 2026-06-02. Disponível em https://tinyurl. com/7pja68pm

ameaçada «por países mais poderosos». Assim, o Camões que se diverte com as Tágides é mostrado num ambiente que reflecte, sem dúvida, o célebre Déjeuner sur l’Herbe¸ de Édouard Manet (1863) e «Columbano representa Camões como um alter ego capaz de deslocalizar o presente, enriquecendo-o com uma dimensão mítica que o compensava das insuficiências do tempo prosaico e ameaçado que lhe era dado viver» (p. 62).

Numa altura em que o Museu de Artilharia (hoje, Museu Militar) se tornou, de certo modo, «um elo fundamental do culto camoniano», José Malhoa (1855-1933) foi convidado a compor seis telas. Destaca Raquel Henriques da Silva o retrato Camões, pela primeira vez «de pé e corpo inteiro», «traje de fidalgo da época» (p. 65). E, segundo a historiadora, há «semelhanças» entre o Camões de Malhoa e o de Columbano: «Ambos são fortes presenças masculinas, transbordando de energia física e erótica» (p. 71).

De António Carneiro (1872-1930) se ressalta o quadro Camões lendo os Lusíadas aos frades de S. Domingos (fig. 26, p. 74), que Raquel Henriques da Silva relaciona com a inauguração, em 1925, do espaço autónomo em que o pintor passou a trabalhar, uma verdadeira «oficina».

Confessa a historiadora, no Epílogo, que, em relação aos retratos de Camões, lhe interessou compreender como cada um dos pintores «se autorrepresenta», «de que modo Camões foi, para os pintores seleccionados, uma espécie de alter ego, numa conversa íntima e numa relação profícua “com os destinatários” da obra» (p. 78).

Termina, de certo modo, Raquel Henriques da Silva a sua incursão pela análise de um outro retrato, o de Fernando Pessoa por Almada Negreiros, referindo – em contraposição, digamos assim, ao que analisou sobre os vários retratos de Camões – que «o que Almada fez foi esvaziar o rosto de carne, torná-lo um invólucro cismador em que os óculos, o bigode, o laço e o chapéu foram tornados ícones de motivos reais. Em conjunto, participam na absoluta desrealização do poeta que não teve corpo» (p. 81).

Na verdade, real ou não, o retrato mais divulgado de Camões continuará a ser o que, no século XIX, Luís de Resende executou, a sanguínea, a partir de original de Fernão Gomes, que se representa na contracapa desta obra (Fig. 2).

Obra de que se deu aqui mui pálida ideia do seu real interesse histórico, susceptível (espera-se) de que incite à sua leitura atenta – que bem merece.

novidades

Arruda, Ana Margarida; Tente, Catarina; Silva, Rodrigo Banha da e Nogales, Trinidad (coord. cient.) (2025) – Olisipo Entre Mares. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa (Congresso Internacional. Livro de Atas).

Vilaça, Raquel (coord.) (2026) –Arqueologia nos Territórios da Literatura Textos de Ana Margarida Arruda, André Tomás Santos, Gonçalo Cruz, José d’Encarnação, Mário Jorge Barroca e Raquel Vilaça. Coimbra: Lápis de Memórias.

Oliveira, Jorge de; Rocha, Leonor e Almeida, Nelson (eds.) (2026) –Conservação e Recuperação de Monumentos Megalíticos: nos 30 anos da re-ereção do Menhir da Meada (Castelo de Vide).

In memoriam Víctor S. Gonçalves Évora: Câmara Municipal de Castelo de Vide / Universidade de Évora (Seminário Internacional. Livro de Atas). https://tinyurl.com/v6ya23wv

FIG. 2

novidades

Verhagen, J. W. H. P.; Waagen, J.; Brandsen, A.; Queffelec, A.; Visser, R. M. e Taelman, D. (eds.) (2025) – Advances in Digital Archaeology. Proceedings of the 2023 conference Computer Applications and Quantitative Methods in Archaeology - 50 years of synergy. Sidestone Press. https://doi.org/10.59641/d4g5a1b2c3

Piercy, Robin C. M.; Green, Jeremy N.; Green, Susan; Matthews, Sheila e Teixeira, André (eds.) (2025) – The Shipwreck of the Santo António de Tanná (1697): The history and archaeology of a Portuguese frigate in the Indian Ocean Oxford: Bar Publishing (BAR International Series, 3251). 2 vols

Vieira, Alexandra; Duffin, Christopher e Braga, Cristina (2026) – Proceedings of the International Conference on Amulets: Research and Studies on Amulets. Braga: Museu D. Diogo de Sousa / Museus e Monumentos de Portugal. https://tinyurl.com/2t7nzsnz

Blasco, Marta; Christensen, Marianne; Meza, Abigail e Pérez, Gilberto (coord.) (2025) – Hueso, asta, diente y marfil vistos desde sus perfiles biológico, tipológico y tecnológico: una perspectiva iberoamericana Ciudad de México: Universidad Nacional Autónoma de México. https://tinyurl.com/ytxua6zu

Ioannides, Marinos; Martins, João e Cantoni, Lorenzo (2026) –Digital Heritage and Cultural Tourism: Memory twins as tools for sustainable engagement. Springer Cham (Serie Advances in Digital and Cultural Tourism Management).

Munilla, Glòria (ed.) (2026) –Explicando el Pasado: Arqueología, educación y sociedad. Barcelona: Edicions de la Universitat de Barcelona.

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novidades

no

Isabel Cristina Ferreira (coord.) (2026) – As Ordens Militares. Do Convento e da Guerra para o Mundo. Textos selecionados do IX Encontro sobre Ordens Militares. Palmela: Gabinete de Estudos sobre a Ordem de Santiago / / Município de Palmela. 2 vols.

Rouillard, Pierre (dir.) –

La Méditerranée Occidentale (VIIIe-IVe siècles av. J.-C.) Paris: Presses Universitaires de France.

Ripollés Alegre, Pere Pau; Fernández de Palencia, Manuel Gozálbes e Cerdà Insa, Pablo (2026) –Moneda Ibérica: siglos VI-I a. de C. València: Universitat de València

Martins, José António (2025) –O Foral Novo ou Manuelino de Coruche de 1513: estudo, investigação, recolha de documentação e transcrição. Coruche: Município de Coruche.

Margarida; Pinho, Joana Balsa de e Santos, Joaquim Rodrigues dos (coord.) (2025) – Património Fortificado: teoria, prática e memória. Lisboa: Caleidoscópio.

REVISTA DE MUSEUS (2026) – N.º 5 (número especial). 50 Anos de Liberdade e Democracia nos Museus. Lisboa: Museus e Monumentos de Portugal, EPE.

Mestre, Victor e Aleixo, Sofia (2026) –O Tempo no Tempo:
Quarteirão Cultural de Loulé. Lisboa: Caleidoscópio.
Fernandes,
Valla,

REVISTA DE GUIMARÃES (2024-2025) –Vol. 134-135. Guimarães: Sociedade Martins Sarmento.

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FACULDADE

FICHEIRO EPIGRÁFICO (Suplemento de «Conimbriga») 289 INSCRIÇÕES 948-949

ARQUEOLOGIA & HISTÓRIA (2026) – N.º 74-75. Susana Correia (1955-2021) In Memorium. Silos, Matamorras e Covas de Pão: armazenamento medieval e Moderno em Portugal. Lisboa: Associação dos Arqueólogos Portugueses.

FICHEIRO EPIGRÁFICO

FIC (220

SABUCALE - Revista do Museu do Sabugal (2025) – N.º 15. Sabugal: Município do Sabugal.

ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL (2025) –

Série 5, Vol. 7, N.º 2. Vila Nova de Famalicão: Museu da Indústria Têxtil da Bacia do Ave / Ticcih Portugal - Associação Portuguesa de Património Industrial.

A UDOSEUROP

DEPARTAMENTODEHISTÓRIA,ESTUDOSEUROPEUS,ARQUEOLOGIAEARTES

COIMBRAOSEUROPEUS,ARQUEOLOGIAEARTES 2026

Cooim

ICHEIRO EPIGRÁFICO (2025) – N.ºs 285-290. Coimbra: Instituto de Arqueologia da Universidade de Coimbra (suplemento da revista Conimbriga). https://bit.ly/4bjXTST

Arqqu de Coi revvis https:///b

APONTAMENTOS DE ARQUEOLOGIA E PATRIMÓNIO (2026) – N.º 19. Lisboa: Era Arqueologia / Nia-Núcleo de Investigação Arqueológica. https://tinyurl.com/2pmb9uxt

INVENIRE - Revista de Bens Culturais da Igreja (2025) – Série 3, N.º 2. Lisboa: Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja.

MUNDA (2026) – 2.ª Série, N.º 4. Coimbra: Grupo de Arqueologia e Arte do Centro.

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ESTUDOS ARQUEOLÓGICOS DE OEIRAS (2025 e 2026) –N.ºs 36 e 37. Oeiras: Câmara Municipal de Oeiras. https://eao.oeiras.pt/index.php/DOC/article/view/439 e https://eao.oeiras.pt/index.php/DOC/article/view/440.

MIDAS - Museus e Estudos Interdisciplinares (2026) – N.º 22. Évora: Centro Interdisciplinar de História Culturas e Sociedades da Universidade de Évora. https://doi.org/10.4000/15h9s

MUSA - Museus, Arqueologia e Outros Patrimónios (2026) – N.º 6. Setúbal: Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal / Associação de Municípios da Região de Setúbal.

PYRENAE - Revista de Prehistòria i Antiguitat de la Mediterrània Occidental (2026) - Vol. 57, N.º 1. Barcelona: Universitat de Barcelona.

https://doi.org/10.1344/pyrenae2026.vol57num1.1

ISLENHA (2025) – N.º 76. Funchal: Governo Regional da Madeira, Direção Geral da Cultura.

PATRIMÓNIOS - Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia (2025) –Vol. 17, N.º 101. Vila Nova de Gaia.

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ANAIS LEIRIENSESEstudos & Documentos (2026) – N.º 20. Leiria: Hora de Ler.

PORTVGALIA (2025) –Nova Série, Vol. 46. Porto: Departamento de Ciências e Técnicas do Património. Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

https://ojs.letras.up.pt/index.php/Port/issue/view/966

Povoado Pré-Histórico de Leceia (Oeiras)

Cena do quo diano rela va ao processamento de cereais

500 Sítios

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Dossiê especial na Al-Madan n.º 20 (2016). 127 páginas

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N.º 3 (1984) - https://doi.org/10.5281/zenodo.10092011

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