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Poema de Leandro Jardim. 1990


APRESENTAÇÃO O bordado faz parte da nossa cultura. É uma marca que identifica a ilha, tal como sucede com o vinho. A sua presença suplanta as barreiras da ilha para se postar em mesa ou cama nobre. Foi criado em meio pobre mas a sua presença é quase sempre em mesa nobre.


A afirmação do bordado como mercadoria no sistema de trocas da ilha com o exterior aconteceu apenas a partir da segunda metade do século XIX. Esta situação é considerada como uma iniciativa de Miss Phelps que lhe terá aberto o caminho do mercado britânico. Foi só a partir deste momento que o bordado, até então uma actividade para uso e consumo caseiro, se assume como um produto de grande procura e valorização pelo mercado estrangeiro. Isto motivou uma profunda transformação. Apareceram os exportadores especializados no seu comércio, provocando uma mudança radical no sector produtivo. A garantia e continuidade do processo será garantida pelas casas dos bordados. Ao mesmo tempo aprimorou-se tecnicamente o produto e regulou-se o trabalho da agulha de acordo com as exigências da nova clientela ou da moda. Ao mesmo tempo o acto de bordar deixa de ser uma forma de lazer para se transformar numa actividade de subsistência e lucrativa, que é, por vezes, exercida a tempo inteiro. Antes que o homem oitocentista descobrisse o bordado madeirense este mantinha-se como uma actividade caseira e quase sempre restrita ao consumo familiar. Bordava-se para fruição própria ou para presentear familiares e amigos. A tradição do enxoval de casamento era muitas vezes o motivo de tão paciente dedicação ao trabalho da agulha. Deste modo raras eram as peças que saíam do circuito familiar. Estávamos perante um bordado ancestral que seguia a tradição, adequando-se as formas ao gosto e criação individual.

Interior casa de bordados. Fotografia de Museu Vicentes A partir de meados da centúria oitocentista o aparecimento das Casas de Bordados e o interesse cada vez maior de ingleses, alemães e sírios pelo


comércio do bordado conduziu à passagem do processo artesanal para o industrial. Os clientes definem o tipo de encomendas, enquanto as casas disciplinam o trabalho, as técnicas e os materiais. O bordado deixa de ser uma livre criação da bordadeira, entrando num processo de laboração que começa com o traçado das linhas e os desenhos ajustados à solicitação do mercado. Aqui a criação está no desenhador, ficando a forma final dependente da maestria das mãos da bordadeira. Sendo este um trabalho feminino a sua concretização ocorre em casa de forma a poder conjugar-se a azáfama caseira diária com o trabalho da agulha. Para a maioria dos madeirenses o bordado surgiu como a tábua de salvação em face da situação difícil da agricultura da ilha em meados do século XIX. A crise económica, provocada pela situação da viticultura, obrigou à procura de novas formas de sobrevivência alternativas, de que o bordar será uma delas. O quotidiano da ilha transformou-se levando a que a mulher se prendesse cada vez mais à casa e ganhasse importância social. As lides da casa passaram a ser companheiras da arte de bordar. Na voz dos inúmeros visitantes, que ao calcorrearem a ilha se aperceberam desta realidade, este é mais um motivo de atenção. Por todo o lado é evidente o amontoado de mulheres que bordam.


Mulheres bordando. Fotografia de Museu Vicentes

A presença do bordado no quotidiano é evidenciada por todos e até o próprio madeirense tem consciência disso. A jovem bordadeira é alguém de prestígio que rapidamente se afirma pela ostentação dos lucros do seu novo labor. Por outro lado o acto de bordar tornou-se comum e não apenas para o sexo feminino, pois segundo a quadra popular: Borda o pai, borda a filha e borda a mãe. No meio rural o contacto com o bordado faz-se através dos agentes e caixeiros que calcorreiam todas as localidades à descoberta destas ágeis mãos capazes de dar forma e relevo aos desenhos das peças. Na cidade as casas de vinhos cederam lugar às dos bordados e a animação comercial transfere-se para novos cenários e arruamentos. No porto os navios, nomeadamente os chamados vapores do Cabo, são assediados por minúsculas embarcações onde os bomboteiros exibem as toalhas bordadas.


O século XX anunciou-se como uma época de prosperidade com origem no bordado. Todavia as duas guerras mundiais(1914-19 e 1939-45) acabaram com esta ilusão. Perderam-se mercados, encerram-se muitas das casas e a concorrência do bordado doutras regiões, nomeadamente oriental, não deu tréguas. Mesmo assim o bordado manteve-se na economia local, sendo juntamente com o vinho a marca indelével que identifica a Madeira. E enquanto houver que valorize o trabalho da agulha o bordado madeirense não morrerá, ficando na memória dos visitantes como a recordação perdulária da sua visita. Ainda hoje, passado os momentos de fulgor da produção e comércio do bordado, a ilha continua a ser identificada por ele e pelo vinho. Apenas mudou a possibilidade de acesso a estas autênticas obras de arte, que no dizer de Horácio Bento de Gouveia, são as nossas Lágrimas correndo mundo.


A HISTÓRIA DO BORDADO Ao contrário do que possa parecer a História do bordado não se esgota na Madeira e tão pouco ela se resume ao período decorrente da sua afirmação a partir de finais do século XIX. Tudo isto porque o bordado não é apenas criação madeirense e o trabalho da agulha ocupou sempre o sexo feminino nos cinco continentes. Segundo a tradição o berço do bordado situa-se no Oriente, Médio Oriente e Rússia. E parece que esta actividade se perde nos anais da História. Em 1964 o achado arqueológico de um caçador do “CroMagnon”, datado de cerca de 30.000 AC revelou-nos o primeiro registo fossilizado de um pano bordado com pontos à mão. Todavia, o primeiro bordado que se preserva em pano é chinês e data de 3500 AC. A China foi um dos espaços de afirmação da arte de bordar, que remonta à dinastia Shang(1766-1122 AC. ) e tornou-se muito popular na dinastia Ming(13681644). Bordado chines


No Mediterrâneo a divulgação do bordado esteve a cargo dos assírios, egípcios, gregos e romanos. São inúmeros os registos arqueológicos onde é possível testemunhar a importância do bordado para as civilizações do mediterrâneo. Note-se que para os Gregos o bordado é considerado uma invenção da deusa Minerva. O cristianismo, por força da necessidade dos trajes de culto bordados a ouro, defendeu e divulgou a arte de bordar em todo o mundo sob a sua influência. Roma, como sede do papado, transformou-se a partir do século XVI num dos mais importantes centros do trabalho da agulha, por força da exigência das vestes de cerimónia do papa e cardeais. O cristianismo encarregou-se de divulgar esta arte em todo o lado onde chegou e os conventos femininos foram centros de relevo no incentivo da tradição de bordar. Em toda a Europa, cristã ou não, era conhecido o trabalho da agulha, popularizando-se o bordado no século XVIII. Os séculos XVII e XVIII são considerados a época de ouro do bordado europeu., numa vasta área que vai desde a Itália à Holanda, passando pelos países eslavos. A segunda metade do século XIX foi marcada por uma profunda transformação com a mecanização do trabalho através da máquina de bordar, que foi uma séria ameaça para o bordado à mão de regiões como a Madeira. Ainda nesta centúria tivemos uma maior divulgação dos motivos através da divulgação dos desenhos em revistas, o que veio contribuir para o estabelecimento de padrões da moda. Esta divulgação de desenhos impressos terá começado no século XVI com a publicação dos primeiros livros sobre o tema. O bordado aplicado nas peças de vestuário era uma tradição que desde a Idade Média estava ligada à realeza e nobreza. Os bordados em seda e ouro são o adorno principal das peças de vestuário, alcançando, por isso, elevado preço. A tradição diz-nos que estavam reservados para oferta a reis, imperadores e príncipes. Em Portugal a arte de bordar está presente desde tempos muito recuados afirmando-se em algumas regiões como Viana do Castelo, Guimarães, Castelo Branco, Nisa, Caldas da Rainha e Tibaldinho. A presença na Madeira de povoadores oriundos das diversas regiões do país, mas de forma especial do norte, das áreas de grande tradição do bordado, deverá ter contribuído para que se alargasse aos novos espaços de ocupação no Atlântico. Um dos grupos significativos destes povoadores era oriundo de Viana do Castelo. Deste modo a tradição de bordar deverá ser tão antiga quanto o povoamento da ilha, uma vez que os primeiros portugueses que


pisaram o solo madeirense foram dignos representantes de uma tradição cultural que projectou a sua terra de origem. Bordado de uma das regiþes referenciadas: Viana do castelo


FORMAS DE VESTIR E DE SE EXIBIR O bordado está directamente ligado ao vestuário e desde o momento que o Homem sentiu a necessidade de cobrir o corpo surgiram os tecidos, elaborados a partir de diversos produtos e com o recurso a diversas técnicas de confecção, com aplicações de bordado. Na Madeira as formas de vestir obedeceram ao padrão dos locais de origem dos colonos e às disponibilidades do meio e mercado. Aqui cultivou-se o linho e do pastoreio resultou também a lã. Ambos os produtos foram a matéria prima do vestuário rural. De acordo com um relatório da indústria da Madeira em 1862 existiam 559 teares de linho e lã. A maior incidência destes ocorria em Santana e Calheta, com 160 e 165 teares respectivamente. No Funchal a concentração de teares era menor, pois o porto abria-lhe a possibilidade de acesso aos panos de importação. A animação comercial provocada pelo comércio do açúcar de depois o vinho atraíram os vendedores de tecidos da Flandres ou Inglaterra. A riqueza propiciada por ambos os produtos conduziu a que o luxo chegasse também à Madeira, sendo as sedas, os brocados e as peças ricamente bordadas uma presença na casa das principais famílias madeirenses. Um testemunho desta opulência surge em 1566 com o assalto francês à cidade em que estes levaram um valioso saque, referindo a propósito Gaspar Frutuoso que a cidade estava ... mui rica de muitos açúcares e vinhos e os moradores prósperos, com muitas alfaias e ricos enxovais, muito pacífica e abastada, sem temor nem receio do mal que não cuidavam. Desde o século XV que a coroa procurou promover a cultura da seda mas não obstante D. Manuel haver afirmado em 1485 que a dita ilha é muito disposta para se nela fazer seda parece que as previsões não se cumpriram e de certeza que a maioria da sede que se usou na ilha era importada. O vestuário do homem integrava as bragas, a camisa, gibão, sainho, calças, pelote, saio, jaqueta, roupeta ferragoulo, tabardo, capa. A isto juntava-se o calçado de sapatos em bico e botas de couro. Para cobrir a cabeça temos as carapuças. A mulher usa como roupa interior a camisa e fraldilha e um vestido que cobria todo o corpo. O calçado era semelhante ao do homem, apenas na cabeça acontecia um especial cuidado que as diferenciava. As crianças das famílias pobres da cidade e meio rural parece que tinham sido esquecidas quanto à indumentária. Os mais pequenos andavam totalmente nus e os outros vestiam apenas uma camisa branca todo esburacada.


O enxoval de uma casa por norma era muito modesta reduzindo-se a poucas peças de vestir, de abafo e dormir. Esta situação resultava do preço dos tecidos e dos parcos meios das famílias pobres. Perante isto restavalhe pouco que vestir e a moda era palavra vã. A indumentária resumia-se ao fato de ir à missa e ao de trabalho. O segundo vestia-se até se romper e mesmo assim era remendado. Deste modo procurava-se disfarçar os remendos com casacos(as) compridos(as). A estas peças juntavam-se a carapuça, considerada de origem africana, e raras vezes os sapatos. Os adornos não faziam parte deste enxoval. Todavia na casa das famílias mais destacadas a situação era distinta. As festas, os saraus dançantes, os piqueniques eram momentos de exibição da moda, seguindo os modelos franceses e ingleses com tecidos importados. A isto juntava-se a riqueza dos adornos diversos. Este contraste é bastante evidente para os forasteiros.


A partir do século dezoito temos informações muito claras sobre a indumentária da cidade e do meio rural. As descrições e gravuras dos visitantes estrangeiros são um testemunho precioso desta realidade. Assim o traje do vilão era baseado numa jaqueta sem mangas que cobria uma camisa de estopa grosseira, calções de linho apertados a partir do joelho, a que se juntava na cabeça uma carapuça e botas de cano dobrado. Esta descrição condiz com o testemunho de J. Foster(1772) e inúmeras das gravuras conhecidas. Já no meio urbano o povo vestia-se à imitação da burguesia e nobreza, sendo a distinção na qualidade dos tecidos e presença de adornos. John Barrow em 1792 diz-nos que os lojistas e trabalhadores mecânicos vestiam chapéu, sapatos e meias e um casaco comprido para esconder os remendos das calças, trajando as mulheres de fato negro e capacete na cabeça.

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O século XIX inicia uma revolução no modo de vestir, optando-se pela simplicidade e aspecto prático da indumentária, ao mesmo tempo que se iniciou a caminhada para a uniformização do vestuário. Ao mesmo tempo impõe-se a moda vinda de França que apenas conquista adeptos entre as classes abastadas, uma vez que o traje popular continua a manter as mesmas cores e formas. Assim, o homem veste camisa branca de linho ou estopa, calções e colete, carapuça e bota chã. Os calções e colete podem ainda ser de cores distintas mas a tendência é para o branco. A


indumentária da mulher consistia de camisa, saia listada, corpete, capa, carapuça e bota chã. Alguns testemunhos dos autores nacionais e estrangeiros atestam que o vestuário não era uniforme. A ideia de “farda” parece ser recente. Vestiase de acordo com as disponibilidades das lojas de fazendas que procuravam adequar-se às modas trazidas pelos ingleses. Por outro lado estas descrições são fruto de uma mera observação dos sítios visitados, não uma visão global de toda a ilha. Apenas três destes textos mostram esta evidência. Em 1772 o ilhéu, segundo George Forster, vestia do seguinte modo: Os trabalhadores no Verão, usam calças de linho, camisa grosseira, um grande chapéu e botas; alguns trajavam um casaco curto de tecido e uma grande capa que muitas vezes trazem dobrada, ao braço. As mulheres usam saia, corpete curto ou casaquinho, bem justos às suas formas, o que constitui um vestido simples e muitas vezes nada deselegante. Também possuem curta mas ampla capa e as solteiras atam os cabelos ao alto da cabeça, não usando qualquer véu. No século XIX temos dois outros testemunhos distintos sobre o modo de vestir. Em 1812 Nicolau Caetano Pitta: as mulheres do campo usam saias azuis debruada com vermelho, um capote curto, geralmente vermelho ou azul claro, justo ao corpo, os quais formam uma vestimenta simples e às vezes não deselegante, e uma capa curta vermelha debruada com uma tira azul e um barrete pontiagudo azul; as que são solteiras amarram o seu cabelo no alto da cabeça, sobre a qual algumas não usam cobertura. Os trabalhadores usam calças de linho, uma camisa grosseira, um barrete azul, botas brancas, jaqueta curta feita de tecido azul e no Inverno usam geralmente capas compridas, as quais, quando não chove levam sobre o ombro.


Em 1840 Paulo Perestrelo da Câmara nota o aspecto particular do traje madeirense o que desperta a atenção estrangeira: Os trajes dos camponeses são muito diversos de outro qualquer país, e os estrangeiros principalmente notão-lhe um gosto bizarro e extravagante. Consiste pois, em um par de ceroulas largas, franzidas, mui curtas, que só chegão do embigo acima do joelho, muito semelhante aos calções turcos; chamão-lhe cuecas e em geral são de serapilheira da parte do Norte, e de pano de linho na do Sul; botas de canhão, amarellas, com um bico arrebitado, como o das sandálias chinesas; uma camisa de pano de linho, um gibão de cor e um funil de pano azul com um bico comprido, com duas orelhas, o qual unicamente tapa a coroa da cabeça. O traje das mulheres também não deixa de ser curioso e simples. Começa por quasi nunca usarem de calçado senão nas igrejas ou em ocasiões de festejos; um saiote que pouco lhe desce dos joelhos, de uma fazenda de lã fabricada no país a que chamão mafaruje, tingida com casaca de amoreira; um colete de cor mui pequeno, por fora da camisa, uma capinha encarnada, e igual funil ao que usão os homens, ainda diminuto, o qual para se sustentar na cabeça é necessário ser preso com alfinete ao cabelo. Chamão-lhe carapuça. Nos séculos XVII e XVIII o mercado madeirense foi alvo de profundas alterações por força da influência britânica, sedimentada através de vários


tratados. Em 1703 o tratado de Methuen consolidou a hegemonia dos panos ingleses no mercado português. Durante o século XVII era comum os madeirenses trocarem os vinhos por peças de roupa, muitas vezes já usadas, e tecidos. Esta prática, testemunhada por muitos dos ingleses que por cá passaram e deixaram o registo escrito das suas memórias, evidência a carência que se debatia a cidade em termos de vestuário. A chegada ao meio rural dos tecidos de importação acontecia por meio dos adelos, na sua maioria de Gaula.

A riqueza aliada à oferta de tecidos de importação de preços excessivamente elevados conduzia ao luxo nos diversos estratos sociais. A coroa intervêm no sentido de travar a ostentação no vestuário. Em 1686 D. Pedro fez publicar uma pragmática contra isso. Aqui o principal alvo era “todos os bordados que chamam de seda”, que não podiam levar prata ou ouro, e “todas as rendas que se chamam bordados”. Já em 1749 D, João V condescende com algumas peças de vestuário bordadas: “poderá usar-se roupa branca bordada de branco ou de cores, contudo porém que seja bordado nos meus domínios, não de outra manufactura.”. Todavia em


1780 as leis sumptuárias no concelho de Machico determinavam que a nobreza e homens da governança não podiam usar botões bordados. As leis sumptuárias, ao atacarem as peças de vestuário bordadas, evidenciam que esta era uma tradição comum a todo o reino e que abrangia muitas das peças de vestuário masculino(camisas, calções, etc.)e feminino(saia, colete, manto, capa, etc.). A partir da Revolução Liberal o comércio de venda a retalho dos tecidos tornou-se livre destas peias sumptuárias, o que deverá ter contribuído para uma reafirmação do bordado nas peças de vestuário.


DO BORDADO CASEIRO AO BORDADO INDUSTRIAL O bordado está presente na ilha desde os primitivos tempos do povoamento. A tradição de bordar, do local de origem destes povoadores, acompanhou-os na travessia atlântica e instalou-se no novo espaço. Deste modo desde o início do povoamento que se borda na ilha. Borda-se em linho, algodão, seda e organdy para se fazerem toalhas de mesa, peças decorativas, jogos de cama e peças de vestuário, nomeadamente feminino. A leitura dos testamentos revela-nos que muitas


daquelas peças de vestuário passam de pais para filhos, não apenas pelo valor sentimental, mas também, pela raridade das peças e riqueza do bordado. O mais antigo testemunho sobre a maestria do bordado madeirense surge em finais do século XVI no volume das “Saudades da Terra” que Gaspar Frutuoso dedicou à Madeira. A propósito do casamento de Isabel de Abreu, da Calheta, com António Gonçalves, o autor refere que as delicadas mulheres da ilha da Madeira, que (além de serem comummente bem assombradas, muito formosas, discretas e virtuosas) são estremadas na perfeição deles e em todalas invenções de ricas coisas, que fazem, não tão somente em pano com polidos lavores.... O bordado Madeira manteve-se por muito tempo no segredo das arcas das suas criadoras. Era trabalho de inestimável valor que por isso mesmo não podia ser vendido, apenas era de usufruto familiar, prenda de enxoval ou legado por morte. Por muito tempo o bordado foi considerado um produto não vendável, que raramente saia do circuito familiar.

Os estrangeiros que escreveram sobre a ilha até meados do século XIX não fazem referência ao bordado. Aquilo que chamava a atenção eram as flores artificiais feitas pelas freiras do Convento de Santa Clara. No relato das três viagens(1768, 1772, 1776) de James Cook não surge qualquer referência ao bordado mas sim às ditas flores. O Convento de Santa Clara foi uma referência para a maioria dos estrangeiros que visitaram a ilha entre os séculos XVII e XIX. Era local de romagem obrigatória. Aqui, para além da doçaria, realçava-se as flores de


penas, para muitos o principal “souvenir” da Madeira. A juntar a tudo isto temos em princípios do século XIX uma verdadeira atracção para os visitantes, a madre Maria Clementina. Nos conventos femininos, como o de Santa Clara, o bordado era também uma actividade que ocupava as freiras nos momentos de lazer, mas a maioria dos estrangeiros apenas se detém nas flores artificiais e na doçaria. A conjuntura madeirense da primeira metade de oitocentos, demarcada pelos conflitos europeus, guerra de independência das colónias, associada aos factores de origem botânica (oidio-1852, filoxera-1872) conduziram ao paulatino degenerescimento da pujança económica do vinho. Como corolário, desse inevitável processo, sucedem-se as fomes, nos anos quarenta, e a sangria emigratória nas décadas de 50 e 80, para o continente americano, onde o madeirense vai substituir o escravo nas plantações. Por um período de mais de setenta anos a confusão institucional e económica alarga-se ao domínio social e alimentar. Assim sucedem-se novos produtos de importação do Novo Mundo que ganham uma posição de relevo na culinária madeirense. Destes destacam-se o inhame e a batata. A par disso definem-se políticas de reconversão e ensaios de novos produtos com valor comercial (tabaco, chá,...). É nesta conjuntura difícil que se afirma o bordado. Até meados do século XIX não existe referência à venda ou exportação do bordado Madeira. E nas diversas descrições das actividades artesanais não aparece o bordado, como se poderá constatar na memória de 1822 de João Pedro Drumond ou no livro publicado em 1841 por Paulo Perestrelo da Câmara. Foi, na verdade, com a exposição das indústrias madeirenses realizada no Palácio de S. Lourenço desde 1 de Abril de 1850 que se descobriu o bordado. Foi a partir daqui que se procedeu ao aproveitamento capitalista, assumindo-se como um produto de grande rentabilidade económica. A exposição foi organizada pelo então Governador Civil, José Silvestre Ribeiro, com o objectivo de promover junto dos madeirenses e visitantes as diversas indústrias e artesanato do arquipélago. A escolha de Abril deveu-se ao facto de este ser o mês em que havia maior número de estrangeiros na ilha. O sucesso desta exposição industrial madeirense parece que se ficou pela valorização comercial das obras de artesanato expostas, nomeadamente o bordado.


02p42 Foto de José Silvestre Ribeiro Graças ao empenho pessoal do governador a exposição foi um sucesso e a mais completa amostra das potencialidades sócio-económicas do arquipélago. No caso dos bordados o relatório sobre a exposição não podia ser mais elogioso: ...bordados em seda a matiz com guarnições de froco, de mastro, e de ouro, em diferentes quadros, tudo feito com muito asseio e beleza. Bordados de passe em filó, bem acabados e de bom gosto. Bordados brancos diversos de muito merecimento. Como forma de incentivo aos expositores distribuíram-se medalhas e louvores. No sector dos bordados e lavores tivemos duas medalhas a premiar os bordados brancos de Luísa e Carolina Teives. O interesse britânico por esta exposição foi enorme, recebendo a Madeira convite para estar presente em Londres na exposição universal que decorreu no ano seguinte de 1851. Mais uma vez sob o impulso do Governador Civil, José Silvestre Ribeiro, a Madeira apresentou um rico bordado feito pela senhora Breciano com reprodução de flores da Madeira, flores de penas das freiras do Convento de Santa Clara. Os comentários às peças presentes foram auspicioso: bordados a branco que foram geralmente aplaudidos e considerados de uma perfeição inexcedível. Estas exposições podem ser consideradas um marco na afirmação do bordado no mercado local e londrino. O primeiro registo referenciado das exportações é de 1849 e dá conta do envio para Lisboa de esguião de Linho bordado, mas foi nas exportações para o mercado britânico, a partir de 1854


que começou a delinear-se um promissor mercado para o bordado Madeira. As primeiras exportações acontecem por iniciativa de Miss Elizabeth Phelps, filha de Joseph Phelps, um destacado mercador de vinhos que se havia instalado no Funchal em finais do século XVIII. Ela foi responsável pela propaganda do bordado madeirense junto de algumas famílias, mas também teve uma intervenção activa no ensino do trabalho da agulha. Em meados da centúria a mesma com outras senhoras funchalenses criou uma escola lancasteriana feminina. Aqui, para além do ensino básico, sem recurso à palmatória, ensinava-se as jovens a trabalhar com a agulha. Este ensino das técnicas do bordado inglês influenciou de forma decisiva o bordado Madeira nos primeiros anos, de tal forma que Émile Bayard afirmava que este era também conhecido como bordado inglês. A ligação de Miss Phelps ao bordado madeirense tem dado lugar a alguma confusão. É comum dizer-se que foi esta donzela britânica que introduziu o bordado na ilha. Pelo que atrás ficou dito parece estar demonstrado que o bordado já existia na ilha muito tempo antes da sua chegada e que o seu contributo mais significativo foi o de divulga-lo à sociedade britânica, abrindo as portas para um promissor mercado. Na segunda metade do século XVIII a ilha assumiu um outro papel com a revelação da Madeira como estância para o turismo terapêutico, mercê das então consideradas qualidades profiláticas do seu clima na cura da tuberculose, o que cativou a atenção de novos forasteiros. A tísica propiciounos, ao longo do século dezanove, o convívio com poetas, escritores, políticos e aristocratas. Não obstante a polémica causada em torno das possibilidades deste sistema de cura a ilha permaneceu por muito tempo como local de acolhimento destes doentes, sendo considerada a primeira e principal estância de cura e convalescença do velho continente. Foi a presença, cada vez mais assídua, deste doentes que provocou a necessidade de criação de infra-estruturas de apoio: sanatórios, hospedagens e agentes, que serviam de intermediários entre os forasteiros e proprietários de tais espaços de acolhimento. Este último é o prelúdio do actual agente de viagens. Então o turismo, tal como hoje o entendemos, dava os seus primeiros passos. E foi como corolário disso que se estabeleceram as primeiras infra-estruturas hoteleiras e que o turismo passou a ser uma actividade organizada e com uma função relevante na economia da ilha. E mais uma vez o inglês é o principal protagonista. No passado foram as condições do meio que fizeram da ilha um dos principais motivos de atracção turística. Hoje o turista é outro e por isso também as exigências são diferentes. Assim aos motivos ambientais aliam-


se os culturais, passando os dois a andar de braço dado. No fundo é a simbiose do “grand tour” europeu com o turismo terapêutico insular. Nos últimos anos a Madeira adquiriu uma posição desusada no “ranking” da comunidade cientifica. A ilha continua a fascinar cientistas e visitantes. O clima, o endemismo, as particularidades do processo histórico, o protagonismo na História do Atlântico fazem dela, ontem como hoje, um pólo chave para o conhecimento científico. Hoje a ilha é tema de debate nos diversos areópagos científicos e cada vez mais se sentem o apelo da comunidade cientifica para o seu conhecimento e divulgação. Em certa medida esta próxima realidade vai ao encontro daquilo que foi a História do arquipélago. Na verdade, o passado histórico da ilha, relevado quase sempre pelos aspectos económicos e sociais, esquece uma componente fundamental da inovação e divulgação tecnológica que transformou a rotina das tarefas económicas e revolucionou o quotidiano dos nossos avoengos. Mais do que isso, o madeirense, além de exímio inventor — na inevitável tarefa de encontrar solução para as questões e dificuldades do dia a dia —, foi também um eficaz divulgador da sua tecnologia. A Madeira foi a primeira terra revelada do novo mundo, escala para a navegação e expansão dos produtos europeus no mundo atlântico. Com o século XVIII a ilha transforma-se em escala obrigatória das expedições científicas que fizeram saciar a curiosidade inata do Homem das Luzes. A partir de meados do século XIX os visitantes ingleses passaram a dar atenção ao bordado. Assim, entre 1853-54, Isabella de França no diário da visita que fez à ilha dá conta de forma clara da presença do bordado na indumentária madeirense. Na romagem de Santo António da Serra, em Outubro, refere um homem com casaca azul recamada de magníficos bordados a ouro. Quanto ao vestuário feminino destaca um corpete de fustão amarelo ou material semelhante muito bem bordado a ponto branco. E na inevitável visita a Maria Clementina no convento de Santa Clara desperta-lhe de novo a atenção o bordado da camisa: ...tinha um peitilho franzido em volta do pescoço, de cassa tão fina e clara que mostrava a extremidade bordada da camisa a despontar por baixo [...]. Na mão sustinha um lenço bordado, da mesma casa,... À medida que o produto foi ganhando mercado em Inglaterra surgiram os primeiros intermediários, de que temos referência de Robert e Frank Wilkinson como os primeiros ingleses envolvidos neste negócio. As relações comerciais entre a Madeira eram desde o século XVII assíduas, fruto da ligação madeirense ao processo de afirmação colonial britânica, onde o porto do Funchal foi um dos centros de apoio no Atlântico. Deste modo a presença de ingleses eram frequente no Funchal e o seu valor comercial alargava-se a todos os produtos com valor mercantil. Deste


modo, os britânicos, por força destas circunstâncias, são os primeiros a interessar-se pelo comércio do bordado. A valorização do bordado como mercadoria de exportação teve implicações directas no processo de fabrico. Primeiro assinala-se a necessidade de recrutamento de cada vez mais mão-de-obra de forma a atender às solicitações. Assim, em 1862 temos mais de mil bordadeiras em toda a ilha. Paulatinamente o bordado vai conquistando novos mercados, fruto da divulgação que dele fizeram os britânicos, nomeadamente nos roteiros e literatura de viagens. Esta fama ultrapassou as fronteiras e chegou à Alemanha. As primeiras peças de bordado foram conduzidas em 1881 por iniciativa de Otto von Streit, que se havia fixado no Funchal em Novembro de 1880, na busca da cura para a tísica pulmonar. A sua presença marca o início da intervenção alemã que perdurará até 1916, altura em que Portugal entrou na primeira Guerra Mundial. A intervenção dos industriais e comerciantes alemãs foi importante em termos do bordado madeirense, com algumas inovações técnicas. A partir da década de oitenta os alemães provocaram uma verdadeira revolução no processo de fabrico do bordado. A primeira alteração ocorreu ao nível dos tecidos e das linhas. A linha azul, usada até então, é substituída pela linha branca. Ao mesmo tempo introduziu-se uma nova técnica de aplicação directa dos desenhos sobre o tecido, acabando-se com os desenhos alinhavados por baixo. Sucede, ainda, que os desenhos eram até então criação das bordadeiras, mas como esta nova técnica os desenhos eram feitos e estampados no tecido antes de ser entregue às bordadeiras e para facilitar o processo introduziram-se as máquinas de picotar. Esta situação está documentada em 1906 por artigo publicado por João Mota Prego no Heraldo da Madeira: (...) o comércio alemão transformou esta indústria numa verdadeira riqueza para a ilha. Pouco a pouco, foi removendo as dificuldades inerentes a um pessoal trabalhador boçal como é a mulher do campo; compreendeu bem o que podia exigir dela, não lhe pediu desenhos nem ideias, simplificou-lhe a preparação do trabalho e aproveitou-lhe o que realmente ela podia dar; a parte meramente mecânica, material. Procurou os desenhos fornecendo-lhe já estampados nas fazendas e exigindo-lhe apenas uma execução minuciosa e perfeita. Esta técnica obrigou ao estabelecimento de casas comerciais no Funchal com a função de proceder ao trabalho de preparação e à distribuição do tecido e linhas pelas bordadeiras. Junto destas actuavam os caixeiros que procediam à entregue dos panos e que os depois os recolhiam bordados.


Toda a tarefa de acabamento, lavagem, engomar e embalar dos bordados estava reservada à casa no Funchal. Casa bordados alemã

Os industriais e as casas alemãs Os alemães intervêm no comércio do bordado a partir da década de oitenta, fazendo-o entrar no circuito internacional através do porto franco de Hamburgo. A Casa Grande de Otto Von Streit começou por enviar os bordados em bruto para Hamburgo, onde eram depois preparados para a exportação com destino aos Estados Unidos da América, facultando aos alemãs um fácil controlo dos ciclos produtivo e comercial. Assim, se por qualquer motivo o trabalho das bordadeiras não satisfizesse os seus interesses procuravam outros mercados de mão-de-obra, uma vez que eram detentores dos padrões usados. A situação de 1916, fruto das represálias da guerra, foi duplamente prejudicial para a ilha, pois a fuga destes não os impediu de continuar o seu comércio de bordado, mas apenas desviou a atenção para novos mercados de mão-de-obra barata. A presença da comunidade alemã a partir das duas últimas décadas do século XIX era importante, disputando mano a mano com os ingleses o domínio da Madeira. A ilha era neste momento um espaço aberto de


acolhimento de inúmeros europeus, incluídos os alemãs, que procuravam no clima ameno a cura para a tísica pulmonar. E foi do seio deste grupo que surgiu muitas vezes empreendedores comerciantes e industriais. No sentido de melhorar o serviço de acolhimento aos doentes avançou-se com um projecto de construção de sanatórios. Deste modo em 1903 o príncipe Frederico Carlos de Hohenlohe foi o promotor da iniciativa. Mas o Governo Português, por influência dos britânicos, foi forçado a rescindir a concessão outorgada à dita companhia dos Sanatórios, mediante uma indemnização pesada, travando-se definitivamente a plena implantação no Funchal. O afrontamento das duas comunidades deverá ter pesado na pronta fuga dos alemães em 1916 e nos dois bombardeamentos à cidade do Funchal, a 3 de Dezembro de 1916 e 12 de Dezembro de 1917. Não obstante a animosidade britânica, os alemães conseguiram firmar uma posição de destaque no comércio do bordado entre 1890 e 1914. Esta hegemonia tornou-se notória a partir de 1895, altura em que a Alemanha recebeu 33173 Kg de bordados, contra os 2751 Kg da Inglaterra. Note-se que estes valores não reflectem a realidade no sentido de que estavam excluídos os bordados enviados para o porto franco de Hamburgo, um dos principais destinos das exportações.

Casa bordados alemã

A afirmação da comunidade alemã no comércio do bordado só foi possível com a presença de um influente grupo directamente implicado no fabrico e exportação do bordado. Em 1912 o negócio estava assegurado


por seis casas: Wilhelm Marum (1898), Georg Wartenberg, R. Kretzschomar, Otto von Streit, Dutting & Gaa, Wolflenstein & Horwitz. A saída dos alemães em 1916 foi compensada com a chegada dos sírios que rapidamente dominaram o mercado do bordado madeirense até 1925. Aqui, o mercado norte-americano que desde 1910 vinha ganhando importância, domina as exportações. Mas o século XX, uma esperança segura para o comércio do bordado, trouxe à ilha mercadores franceses, ingleses e americanos.

Máquina picotar


A cada vez maior procura de bordado implicou as necessárias inovações técnicas devidas aos alemães e o aumento da mão-de-obra no bordado, através do recrutamento no meio rural e do aperfeiçoamento da rede de agentes de distribuição e recolha. O facto de os panos a bordar serem apresentados às bordadeiras já estampados com os desenhos facilitou a adesão de muitas mulheres a esta actividade que poderia ser partilhada com a vida diária. Os primeiros anos do século XX foram ainda marcados pela concorrência desenfreada. Internamente envolveu os industriais envolvidos no fabrico e comércio do bordado, enquanto externamente a Madeira teve que competir com os mercados produtores da Boémia, Alsácia, Irlanda e Suiça No caso da Suiça, o processo de mecanização em curso desde a década de sessenta do século XIX, trazia vantagens acrescidas, uma vez que reduzia drasticamente os custos de produção. A única garantia para a Madeira continuava a ser os custos baixos da mão-de-obra, que permitia manter o produto competitivo. Mesmo assim em 1909, segundo Vitorino Santos, é evidente um incremento do bordado madeirense: Cada vez se borda mais na Madeira, multiplicam-se os estabelecimentos de venda de bordados, e têm também aumentado, em número e em trabalho, as principais casas exportadoras com oficinas de preparação de roupas bordadas. Esta concorrência interna é considerada prejudicial à manutenção da qualidade do bordado e pode ser o princípio do seu fim: ...é tamanha a concorrência e procura de bordados e de operárias, que não podem prevalecer as exigências de bom acabamento na grande produção de trabalhos encomendados à indústria rural, resultando daqui uma depreciação que com o tempo deverá desacreditar esta bela indústria madeirense. As inovações tecnológicas no sentido da mecanização do processo de fabrico do bordado, que ocorreram a partir da segunda metade do século XIX, não impediram a Madeira de manter a procura do seu bordado, não só pela qualidade do trabalho, mas acima de tudo pelo baixo custo da mão-de-obra que foi durante muito tempo a garantia concorrencial face ao processo de mecanização do processo noutras regiões.


A CRISE DO BORDADO A situação mundial da primeira metade do século XX, provocada pelas duas guerras mundiais (1914-19, 1929-35) condicionou a evolução do mercado do bordado. A guerra isolou a ilha, impedindo-a de contactar com os mercados fornecedores de matéria-prima ou consumidores do bordado. Mas pior que isso foi a crise económica que lhe andou associada e que condicionou o poder de compra dos potenciais clientes do bordado. E, como o bordado madeirense era considerado um produto caro, não era fácil encontrar saída para a sua produção. A primeira guerra mundial afugentou os alemães e trouxe-nos os sírios que consolidaram as exportações para o mercado americano, que se afirmou como a principal esperança. Sucedeu, entretanto em 1929 o golpe fatal com o “crush” da Bolsa de Nova York que arrastou os Estados Unidos para uma das piores crises da História. E esta situação abalou fortemente o comércio do bordado Madeira. A crise do mercado norte-americana foi contrabalançada com a valorização do mercado brasileiro que se manterá até 1956. O movimento autonomista dos anos vinte manteve-se atento aos bordados e nos planos de autonomia dedicava espaço ao debate e defesa do bordado regional, que continuava a ser considerado uma indústria


fundamental, que mais não seja na preservação da identidade regional. A verdadeira autonomia tardou muito tempo a ser alcançada, dando aos madeirenses a possibilidade de encontrar soluções para o problema desta actividade. Perante tais condições de crise do bordado o governo da ditadura, saído da Revolta de 28 de Maio de 1926, estabeleceu algumas medidas de apoio a esta actividade. A 9 de Setembro o Governo permite a importação de tecidos de seda e linho para o bordado em regime de drawback. A mesma medida alarga-se em 1928 aos fios de tecido. Os anos trinta foram muito complicados para a sociedade madeirense e a sobrevivência do bordado. Deste modo o governo saído da Revolta da Madeira de 4 de Abril de 1931 procurou intervir na salvaguarda do sector abrindo a 20 de Abril uma linha de crédito de mil contos a favor da indústria.


Edifício do IBTAM Em 1935 o sector dos bordados continuava a ser um sector sob a vigilância e especial protecção do governo, tal como o refere Salazar em carta que escreveu ao Dr. João Abel de Freitas, Presidente da Junta Geral. Assim a juntar-se à criação do Grémio para o sector em 1936, tivemos no ano imediato a isenção de direitos de importação e de todas as imposições locais sobre a matéria prima necessária à industria do bordado. Nos anos quarenta, de novo o período da guerra provocou redobradas dificuldades ao sector dos bordados e à economia familiar, uma vez que neste momento as mulheres estavam quase por completo entregues ao bordado e os homens ao vime. Ao mesmo tempo a emigração para o


Brasil, Venezuela, África do Sul e Austrália veio a dar o golpe mortal na indústria. Primeiro saíram os homens, deixando todos os afazeres do casal a cargo da mulher que passa a dispor de menos tempo para bordar. Depois foi a restante família que se foi juntar, fazendo diminuir drasticamente a mão-de-obra disponível. No post guerra tudo fazia indicar que o mercado do bordado da Madeira estava definitivamente perdido e que dificilmente retornaria aos tempos dourados de princípios da centúria. Neste contexto surgiram novas dificuldades nos anos sessenta provocadas pela instabilidade económica dos principais mercados: Estados Unidos da América, África do Sul e Rodésia. A tudo isto havia que juntar a concorrência dos bordados à mão da China, Filipinas, Tailândia e Coreia, e à máquina da Suiça e Hong Kong. A Revolução do 25 de Abril de 1974 aconteceu num dos mais difíceis momentos da História do bordado da Madeira e apenas o processo autonómico a partir de 1976 conduziu à definição de uma política para o sector. Em 1977 foi criado o Instituto do Bordado e Tapeçarias e Artesanato da Madeira (IBTAM) com o objectivo de intervir no sentido da valorização, preservação e promoção do artesanato madeirense. Das actividades do IBTAM nos últimos anos destacam-se a criação da marca Bordado Madeira, o Núcleo Museológico do Bordado e o Centro de Moda e Design.

Museu do Bordado-aspecto


Hoje, passados os anos difíceis da segunda metade do século XX, a perspectiva é de crescimento, não obstante a tendência para a diminuição e envelhecimento da mão-de-obra.


AS CASAS DE BORDADO

Interior casa de bordados. Fotografia Museu Vicentes

Era verdade que os ingleses contribuíam hoje, como nenhum outro povo, para o turismo na Madeira e fora até uma inglesa que tornara conhecidos, no estrangeiro os bordados da ilha. Mas os alemães, que também gostavam de viver no Funchal e lá tinham deixado muitas quintas e melhoramentos, haviam dado à indústria uma expressão inteligente, valorizando-a e enriquecendo-a cada vez mais. Se não fosse a questão dos sanatórios, que, hoje, todos lamentavam, e que obrigara os alemães a abandonarem a Madeira, a indústria dos bordados estaria próspera como nenhuma outra. Os sírios, que, depois, se instalaram na ilha ou já lá tinham os seus agentes, haviam estragado o negócio, criando uma tal barafunda que, hoje, ninguém se entendia. Os bordados desvalorizaram-se, empobrecendo a economia da Madeira. Tudo estava; não havia industrial que se encontrasse satisfeito” [Ferreira de Castro, Eternidade, sd.(1933?)]

O mercado do bordado na Madeira foi marcado ao longos dos últimos cento e cinquenta anos por uma elevada instabilidade que denuncia a fragilidade da indústria no mercado mundial. Para isso contribuiu, não só, a conjuntura internacional, mas também, a precariedade das casas de


bordados criadas por estrangeiros, nomeadamente ingleses, alemães e sírios. A cada grupo corresponderá uma forma de intervenção e mercado distintos. Os ingleses foram os primeiros a intervir no processo. Mas foram os alemães que deram o impulso decisivo na diversificação dos mercados. O seu avanço foi travado apenas por influência dos ingleses e acabou por ser interrompido com a Primeira guerra Mundial. Estes transmitiram os seus negócios aos sírios. A partir de 1890 processa-se uma profunda transformação através da afirmação das casas de bordado em detrimento dos exportadores. A diferença está que estes últimos se limitavam a adquirir o bordado às bordadeiras, enquanto os segundos passam a intervir directamente no processo produtivo dando às bordadeiras o tecido já com os desenhos estampados. Para isso montaram uma rede de agentes em toda a ilha, que procedia à distribuição dos panos e depois recolhiam já bordados. Esta mudança incrementada pelos alemães conduziu à afirmação das chamadas Casa de Bordado. No primeiro quartel do século XX são referenciadas as seguintes casas: A. J. Fróes, Casa Bradwil, Casa Grande, Casa Hougas, Casa Maru, Casa Suiça, Companhia Portuguesa de Bordados, H. C. Payne, Hamú, José Clemente da silva, Mallouk Bros, M. R. Silva Diniz, Wagner, Schinitzer, União Madeirense de Bordados, Casa Americana. A guerra reflectiu-se de forma directa nas casas de bordados, como nos elucida A. Marques Caldeira (1964): Haviam antes da guerra de 1914 diversas Casas de Bordados de propriedade alemã entre elas algumas que acima mencionamos e que cessaram a sua actividade no período da primeira Conflagração Mundial. Terminada a guerra, algumas destas fábricas passaram à posse de firmas americanas, orientadas no Funchal por súbditos sírios que, aparentemente, deram certo movimento ao comércio e bordados abandonando depois essa indústria, à excepção de alguns que ainda se encontram a dirigir diversas firmas no Funchal, exportadoras de bordados da Madeira. Mesmo assim em 1923 são referenciadas 1000 casas de bordado, o que atesta a vitalidade da indústria. O peso das pautas aduaneiras levou a partir de 1924 à saída dos sírios que entregaram as suas casas aos madeirenses, passando o sector para o controlo dos madeirenses. Mesmo assim nos anos seguintes manteve-se o número elevado de empresas do sector. Em 1953, um relatório do Grémio do sector anota a existência de 103 casas, mas sucede que 61 destas não ultrapassam os 50 contos de exportações mensais, sendo assim casas de pequena dimensão. Apenas 12 casas facturavam mensalmente mais de sete mil contos.


Casa de bordados Em 1969 são referenciadas 88 casas de bordados de que se relevam as mais importantes: António Gomes de Oliveira Sucr., Arte Fina, Brazão & Freitas Lda, C. A. Pereira Lda, Exportadora Insular de Bordados Lda, Ferreira Ornelas & Cª Lda, G. Farra & Cª Lda, Imperial de Bordados lda, João C. Silva, João Eduardo de Sousa Lda, Leacock Bordados Lda, Madeira Art Hand Embroidey & Cª Lda, Madeira Superbia Lda, Maria Lubélia Kiekeben, Miguéis Lda, Nóbrega Irmãos, Patrício & Gouveia Sucs Lda, The Madeira House Cª Lda. A política de associação e classe do Estado Novo também atingiu a indústria dos bordados. Assim pelo decreto–lei nº. 25643 de 20 de Julho


de 1935 foi criado o Grémio dos industriais de Bordados da Madeira, com a missão de orientar a indústria no campo da produção e comércio. Tal como enuncia um folheto publicitário do Grémio de 1958 a defesa dos interesses do sector estava assegurada, pois não se repetiram na vigência do grémio, as crises periódicas que, no passado, tanto afligiram a economia da indústria e dos seus trabalhadores. De acordo com a portaria 8337 foi estabelecida uma taxa sobre o valor das exportações e as vendas locais para acudir às despesas da agremiação. Foi com os fundos resultantes desta taxa que se construiu a sede, o actual edifício do IBTAM, inaugurado nos anos cinquenta. Aqui o grémio dispunha de armazéns para reserva de tecidos e linhas, situação que é ainda hoje garantida no mesmo edifício. O grémio, para além da função reguladora do sector, actuava no sentido da defesa do sector, promovendo o ensino do bordo às jovens, com as escolas criadas em Câmara de Lobos e Machico. Ao mesmo tempo estabelecia os preços mínimos da mão-de-obra baseada numa unidade de medida conhecida como pontos industriais. De acordo com o relatório que citamos, entre 1935 e 1958 houve uma melhoria significativa na valorização do trabalho da bordadeira, passando-se de 35 centavos por 100 pontos para 2420 em 1958. Esta melhoria atingiu também as 750 operárias das Casas que em 1935 recebiam entre 3$00 a 6$00 de salário e passaram a auferir em 1958 entre 11$00 e 20$00. A missão do Grémio é definida no boletim de propaganda do mesmo, do seguinte modo: À indústria de bordados cumpria, naturalmente, como actividade integrada na organização corporativa, ordenar a produção, valorizar o trabalho conferir novos direitos aos trabalhadores, defender a qualidade dos produtos, possibilitar a criação de novos mercados de consumo, dignificar o comércio e promover a expansão das vendas. O 25 de Abril de 1974 destronou o regime e as estruturas económicas criadas como seu sustentáculo. Os grémios do regime deram lugar às Associações, surgindo no caso do Bordado Madeira a Associação de Produtores de bordado Tapeçarias e Artesanato e Obra de Vimes da Madeira. O sector do bordado conta com 44 empresas, maioritariamente de matriz familiar: Abreu & Araújo Lda, Adília Liliana Fernandes Santos, AibordaBordados da Madeira Lda, Alegria Verissimo Nunes de Abreu, António G. Jardim Sucrs Lda, António Gomes D’Oliveira, Sucrs Lda, Atelier de Bordados lda, Bordal- Bordados da Madeira Lda, Bordados Cruzeiro do Sul Lda, Bordados Maga Lda, Botama-Fábrica de Bordados e Tapeçarias


Lda, Brazão & Freitas lda, Décio da Silva, Elma Cristina Muller Camara, Freitas & Cardoso Lda, Fernandes & gouveia Lda, Gouveia & Alves Sucrs Lda, Henke Lda “La Bela Cobra”, Idalina & Gouveia Lda, Imperial Bordados Lda, Ivo da Silva, Isabel Anacleta Vieira dos Santos Teixeira, J. A. Teicxeira & Ca Lda, João Baptista Ribeiro, João Caldeira Leal & Ca Lda, João de Sousa Viola Lda, João Eduardo de Sousa Lda, Lino & Araújo Lda, Luís de Sousa Lda, M. P. Gouveia, Madeira Supérbia Lda, Manuel Hugo Luís da Silva & Filhos Lda, Maria Alice G. Abreu Lda, Maria de Fátima Andrade Zilhão, Maria Nunes Lda, Mundo Novo Coop. De Bordados da Madeira Lda, Patricio & Gouveia Sucrs Lda, Paiva & Sousa Sucrs Lda, Rosa Maria Fernandes da Silva, Silva Andrade & Ca Lda, Soebol-Sociedade Exp. De bordados Lda, Sociedade de Fabricantes de Bordados Lda, Teixeira & Mendoça Lda, Telo- Fab. E Exp. Bordados da Madeira Lda. A defesa do bordado foi uma das atribuições do Grémio dos bordados desde 1935. Para isso criou-se por decreto-lei de 8 de Dezembro de 1938 a obrigatoriedade de o bordado para venda dispor de um selo de garantia. Com a criação por decreto regional do IBTAM em 1977 veio a atribuir uma nova dinâmica e intervenção do Governo Regional no sector. A defesa da qualidade do bordado continuou a ser uma aposta definindo-se a partir de 200 o uso do selo holográfico como forma de evitar a sua falsificação. Por outro lado a aposta na inovação levou o Governo Regional a criar o Centro de Moda e Design. Dos seus objectivos fazem parte a aposta na criação de novos produtos, servindo-se das tecnologias de ponta, com a introdução do Design, Imagem e Marketing. A partir daqui abriu-se uma nova oportunidade para o sector do bordado. E hoje é evidente que o bordado Madeira conquistou um lugar cativo na moda, surgindo vários estilistas madeirenses que apostaram com sucesso na utilização do bordado no vestuário.


AS BORDADEIRAS

Bordadeiras. Fotografia Museu Vicentes

Minha Madeira ou meu encanto Por ti quanto e sou profano Jóia que Deus num dia santo Deixou cair no oceano Como tu não há nenhuma E nas noites sonhadoras Bordam das ondas a espuma Os dedos das bordadouras. (canção de MAX(1918-1980)


Em todos os momentos da História do bordado a referência mais comum prende-se com a bordadeira. É ela, que com mãos de fada, dá o toque de beleza aos pontos do bordado. A sua maestria, dedicação e sacrifício são motivo constante de panegírico e admiração por todos os que descobrem o bordado. Preservou na ilha a ancestral tradição de bordar e, antes que em meados do século XIX, interviessem os estrangeiros a dominar o circuito de produção e foi ela que criou os desenhos que tão graciosamente esculpia à linha sob o pano. O incansável labor da bordadeira, em delongas noites, está testemunhado nas peças bordadas que encantam naturais da ilha e visitantes, embelezam quem veste as suas peças de vestuário, engrandece as recepções e repastos e enriquece o aconchego dos lençóis e travesseiros. A marca indelével do seu trabalho está presente em todo o lado. O quadro da bordadeira sentada em frente do casebre que a abriga durante a noite é uma imagem frequente na retina dos visitantes da ilha desde finais do século XIX. A este labor isolado junta-se outra imagem dos grupos de mulheres que se juntam à beira de caminhos e atalhos. Por toda a ilha era habitual estes ajuntamentos de mulheres casadas, donzelas, idosas e crianças, cujas mãos bordam mas o pensamento está no quotidiano próprio e alheio. Borda-se mas também discorre-se sobre a vida de um e de outro. Raras vezes alguém entoa uma cantiga popular, daquelas que andam de boca em boca, ou se ouvem na rádio. O bordado é o testemunho da arte da mulher madeirense, como também das dificuldades quotidianas. Borda-se, não por prazer, mas por necessidade de forma a garantir-se o magro sustento da casa. A sobrevivência do bordado continua ainda hoje a depender do seu paciente labor. Durante muito tempo foi uma actividade garantida pelo seu paciente labor e dedicação. Ela tinha liberdade de escolha dos tecidos, linhas e padrões a bordar. Concluído o trabalho calcorreava a cidade ou ia de porta em porta a oferecer o seu lavor por uns magros tostões que garantissem a sua sobrevivência e da família. Muitos estrangeiros, que foram cativados por estas autênticas obras de arte testemunham-no, referindo que era aqui que se encontrava o melhor bordado feito na ilha. As exigências das exportações conduziram ao aparecimento de novos agentes no processo, implicando uma mudança radical na confecção do produto. A bordadeira perdeu o controlo do processo, passando a actuar como mero executante do bordado sobre tecidos já estampados. Em troca receberá uma magra recompensa contabilizada em pontos. A precariedade e instabilidade deste trabalho estão evidenciadas num inquérito feito à situação das indústrias da Madeira em 1888:


As obras de verga e bordados são todas de indústria caseira. Estes produtos vêm para cidade, ou directamente pelos produtores, ou por agentes que os vão buscar ao produtor, e os pagam por preços que realmente espantam; só a indústria caseira pode fazer destes milagres. Quando o produtor os vem trazer à cidade, vende-os aos negociantes especiais que tratam deste negócio, e por preços sempre baixos. É este quem faz os preços da venda aos passageiros em trânsito, aos que invernam na ilha, ou os manda de conta própria para os mercados de Inglaterra e Brasil, e alguns outros; preços que lhes dão lucros altamente remuneradores. Embora o trabalho da bordadeira seja ancestral a primeira referência ao número de mulheres dedicadas ao bordado surge só em 1863 no relatório de Francisco de Paula Campos e Oliveira sobre as indústrias do arquipélago. Aqui considera-se o bordado já como uma indústria caseira muito importante que ocupa 1029 mulheres em toda a ilha. Não obstante esta ser uma actividade caseira usual era na cidade e freguesias vizinhas do recinto urbano que se notava uma maior incidência de mulheres dedicadas a esta actividade. Apenas o Funchal e Câmara de Lobos totalizam mais de 97% do total. Isto resulta certamente da proximidade do local de venda e de ainda não estar montada a rede de distribuição e recolha organizada pelas casas comerciais. Deste modo o Norte da ilha não assumia ainda qualquer importância nesta actividade.

Bordadeiras BORDADEIRAS- 1863


CONCELHO Funchal C. de Lobos Ponta de Sol Calheta Santa Cruz Porto Moniz S. Vicente Total

BORDADEIRAS POPULAÇÃO Nº % Nº 844 4,7 17677 152 10 7 8 4 4 1029 0,9 110.249

900 800 700 600 S. Vicente

500

Porto Moniz

400

Santa Cruz

300

Calheta

200 100 0

Ponta de Sol C. de Lobos Funchal

Bordadeiras em 1863

O período que decorre da segunda metade do século XIX até meados do seguinte foi marcado por um movimento ascendente de mão-de-obra feminina indispensável para a afirmação do bordado. O relatório das indústrias feito por Vitorino Santos para o ano de 1906, em plena época de afirmação desta indústria, evidência esta realidade, apresentando um total de 32.000 bordadeiras. O Funchal e Câmara de Lobos, com 58% continuam a dominar, mas as bordadeiras estão presentes em todos os concelhos.


BORDADEIRAS- 1906 CONCELHO BORDADEIRAS POPULAÇÃ Nº % (em O relação (1910) população) Funchal 12.400 28,3 43710 C. Lobos 6.100 34,9 17467 Ponta de Sol 2.300 Calheta 4.500 24,6 18270 Machico 600 5 11824 Santa Cruz 3.500 21,3 16358 Porto Moniz 400 9,5 4201 S. Vicente 1100 13,5 8121 Santana 800 8,5 9339 Porto Santo 300 12,9 2311 32.000 18,8 169783 TOTAL

20.000

Porto Santo

Santana

S. Vicente

Porto Moniz

Santa Cruz

Machico

Calheta

Ponta de Sol

C. Lobos

0

Funchal

10.000

BORDADEIRAS EM 1906

Para o demais período do século XX os dados que dispomos sobre o número das bordadeiras são avulsos. Note-se que o mais elevado valor destas acontece em 1950 com a presença de 60.000 mulheres dedicadas ao bordado, o que representa 21,2 % da população. A informação disponível diz-nos que o valor médio de bordadeiras era de cerca de trinta mil. Os últimos dados de 1983 apontavam para 33.000 e no primeiro ano do novo milénio o seu valor ronda apenas...... A distribuição geográfica das bordadeiras nas décadas de setenta e oitenta do século XX demonstra que houve uma mudança na configuração


geográfica dominante em épocas anteriores. Assim o Funchal e C. de Lobos perdem em favor de concelhos como a Ribeira Brava e Machico.

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA DAS BORDADEIRAS(1977-1981)

1977 % Funchal 30,6 C. de 23 Lobos R. Brava 17,2 Machico 10,6 Santa Cruz 7,6 Calheta 4 S. Vicente 1,9 Santana 1,9 Ponta de 2,5 sol Porto 0,7 Santo Porto 0 Moniz

1978 % 30,2 23,3

1979 % 29,0 26,5

1980 % 27,0 26,7

1981 % 27 26,7

16,8 11,3 6,9 4 2,3 2,2 2,1

15,6 11,2 6,5 4,1 1,9 2,2 1,9

16 11 6,1 4,9 2,4 24 2,2

16 11 6 4,9 2,5 2,4 2,2

0,8

0,9

1,1

1,1

0,1

0,2

0,2

0,2

35 30 25 20

Porto Santo

Ponta de sol

Santana

S. Vicente

Santa Cruz

Machico

R. Brava

C. de Lobos

0

Funchal

5

Calheta

10

Porto Moniz

15

Em plena euforia da indústria do bordado, que ocupava mais de trinta mil mulheres, o aparecimento de epidemias como a colera morbus em 1911 teve


reflexos evidentes na indústria. Note-se que em 1910 a despesa com a mão-de-obra havia sido de 760.000$00, descendo no ano imediato para 480.000$00, o que reflecte uma diminuição acentuada da mão-de-obra disponível, uma vez que não se assinalou qualquer alteração no valor dos pontos pagos e tão pouco houve uma quebra da procura. No primeiro registo da mão-de-obra relacionada com o bordado de 1862 surgem apenas dados sobre as bordadeiras, mas em1906 diferencia-se estas dos demais trabalhadores das casas de bordados, que neste momento são 2000. Aqui incluía-se todos os profissionais necessários para a última fase do processo de preparação do bordado a exportar e os que se ocupavam da preparação dos desenhos e tecidos a entregar às bordadeiras. Esta situação quer significar que a instalação e pleno funcionamento das casas de bordados ocorreu apenas a partir da década de sessenta do século XIX. A técnica de produção de bordado, imposta pelos alemães a partir da década de oitenta do século XIX, retirou à bordadeira o domínio exclusivo do processo de fabrico. Entrou-se num ciclo de produção em que intervêm diversos agentes, como os desenhadores, estampadores, agentes, verificadoras e engomadeiras. Ao lado da bordadeira caseira surgiu a profissional que trabalha nas casas de bordados. Esta realidade é-nos dada por Victorino Santos(1907): Há nesta ilha duas classes de bordadeiras perfeitamente distintas: a das bordadeiras rurais e a das bordadeiras profissionais. As primeiras existem disseminadas por todo o distrito, embora muito mais intensamente na costa do sul da Madeira e na ilha do Porto Santo, e as segundas residem principalmente no concelho do Funchal e sobretudo nas freguesias de Santa Maria Maior e S. Gonçalo, onde se produzem os mais finos bordados de todo o distrito. A estas juntam-se ainda outros trabalhadores que intervêm no processo. Todavia este grupo é diminuto. Em 1922 eram 2500 que trabalhavam nas 70 casas, enquanto em 1968 as 88 casas empregavam apenas 450 e estavam servidas de 1500 agentes. Um dos aspectos que chama à atenção de todos que descrevem esta indústria e elogiam o trabalho primoroso das bordadeiras é o baixo preço do seu trabalho. Já em 1863 a bordadeira era entre, todas as actividades que se ocupavam as mulheres, a mais mal paga sendo apenas de 100 reis no Funchal, enquanto as demais recebiam salários médios superiores a 300 reis. Esta situação é testemunhada em 1901 por José Cupertino Faria:


Não há muitos anos que os trabalhos da bordadeira eram muitíssimo mal pagos; e, não obstante as agências que uma sociedade alemã estabeleceu por toda a ilha, estas continuam a sê-lo da mesma forma. A forma de pagamento do trabalho às bordadeiras sofreu alteração a partir dos anos vinte do século XX. Até então o trabalho era pago ao palmo, passando desde esta data a ser feito ao ponto, fazendo-se a contagem com o curvímetro.


curvímetro A persistência de um pagamento baixo do trabalho da bordadeira de casa resulta do facto de este ser um trabalho executado nos intervalos das lides caseiras ou nas longas noites, não sendo, em muitas casos uma actividade que as ocupasse o dia inteiro. Deste modo os magros centavos dos pontos eram sempre bem vindos. Note-se que em 1952 os 47.252 contos contemplavam mais de cinquenta mil famílias em toda a ilha, o que representava 18% do total da população. CONCELHOS

Funchal C. de Lobos R. Brava Ponta de sol Calheta Porto do Moniz S. Vicente Santana Machico Santa Cruz Porto Santo

DESPESA MÃO-DEOBRA CONTOS

16.293 10.305 7.251 2.202 3.494 263 1.503 1.380 4.837 5.118 582

FAMÍLIAS Nº

19.095 5.270 4.020 3.042 4.950 1.276 2.465 3.132 4.305 5.475 587

POPULAÇÃO 1950

93.983 27.420 2o.762 15.735 24.078 6.422 12.521 15,543 22.218 28.070 3.017


Porto Santo

Santa Cruz

Machico

Santana

S. Vicente

Porto do Moniz

Calheta

Ponta de sol

R. Brava

C. de Lobos

Funchal

18.000 16.000 14.000 12.000 10.000 8.000 6.000 4.000 2.000 0

DESPESA DE MÃO DE OBRA EM CONTOS

A protecção e apoio aos profissionais do sector aconteceu já em 1894 com a criação da Sociedade José Júlio Rodrigues de Protecção às Bordadeiras Madeirenses. Sobre esta associação de beneficência pouco se sabe. A partir de Dezembro de 1907 por iniciativa dos alemãs. Nesta data as casas Wilhelm Marum, R. Kretzchan, George Wartenberg criaram uma Caixa de Socorros para os cerca de dois mil trabalhadores que empregavam. Todos eles passam a usufruir de assistência médica e de medicamentos gratuitos, sendo os fundos para a manutenção deste serviço resultantes do desconto mensal de 50 réis por trabalhador, feito por cada casa. O alargamento deste sistema de protecção social só sucedeu a partir de 1946 com a criação da Caixa de Previdência. O Grémio dos Industriais dos Bordados, criado em 1935, teve também uma acção de relevo no apoio ao sector e às bordadeiras. Em Câmara de Lobos e Machico criaram-se escolas infantis que permitiram o ensino do trabalho da agulha a mais de 691 crianças. E, mais tarde em 1961, apoiouse as bordadeiras através da construção de um bairro residencial com 30 moradias.


Bairro do grémio. Funchal O século XX foi marcado pela dispersão os madeirenses por diversos destinos de acolhimento. A crise e as dificuldades provocadas pelas guerras mundiais e pela situação de abandono e subdesenvolvimento conduziram a esta forte pressão da emigração, nomeadamente nos anos cinquenta e sessenta. Muitos madeirenses rumo ao Brasil, Venezuela e África do sul em busca de melhores condições de vida. Primeiro saem os homens, mas depois acompanham-nos os restantes elementos do casal. A todo o lado onde chegou a mulher madeirense chegou também o bordado. A arte e tradição do bordado são-lhe inseparáveis. No caso do Brasil é conhecido o facto de nos anos cinquenta existir um apelo e promoção da imigração das bordadeiras madeirenses para o Brasil. No Rio de Janeiro, S. Paulo, Santos e Ceará é notória a presença bordado madeirense. No morro de São Bento, em Santos o bordado já não tem a qualidade dos anos sessenta e está em vias de desaparecimento. Todavia em Itapajé, no Ceará em Fortaleza, mantém-se vivo. Aqui a cidade é conhecida como a capital do bordado, porque o mesmo é uma das principais actividades económicas.


Na Venezuela, os testemunhos de muitas das mulheres madeirenses que saíram da ilha nos anos cinquenta revelam que não se perdeu o hábito de bordar, havendo casos em que se enviavam as peças desde o Funchal e que depois eram devolvidas já bordadas. A homenagem ao trabalho da bordadeira, insistentemente louvado por todos os que conheceram o seu trabalho, só aconteceu a 30 de Junho de 1986 com a inauguração da estátua do escultor Anjos Teixeira nos jardins do IBTAM. Aqui não poderá esquecer-se a homenagem de Maria Soledade em “os Bordados da Madeira”(1957): Bordadeira, eu me curvo reverentemente, perante a tua figura de mulher madeirense e te destaco como símbolo do trabalho feminino, apontando-te a todas as mulheres portuguesas como motivo de orgulho e de carinho !...

2004-bordado  

Poema de Leandro Jardim. 1990 APRESENTAÇÃO O bordado faz parte da nossa cultura. É uma marca que identifica a ilha, tal como sucede com o vi...

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