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Akadémicos 91

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Suplemento integrante da edição nº 4370 de 17 de dezembro de 2020 do semanário REGIÃO DE LEIRIA. Não pode ser vendido separadamente.

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Ricardo Dias Felner Jornalista e crítico gastronómico Há muito receituário tradicional que se vai perdendo págs. 6 e 7

centro histórico

Lojas de sempre em tempos de mudança págs. 4 e 5


2 Natal musical

A ABRIR

Em jeito de boas-vindas ao espírito natalício, o músico leiriense David Fonseca revisita os clássicos da época no álbum digital Christmas Songs – Vol. 1, lançado este mês. O registo é composto por 13 músicas, de onde se destacam versões de “Jingle Bells”, “Little Drummer Boy” e “Last Christmas”, bem como o tema “My Favourite Things”, do filme “Música no Coração”. O álbum sai do universo online para subir ao palco do Teatro Maria Matos, em Lisboa, nos dias 22 e 23 de dezembro. Nestes concertos de Natal os espectadores são convidados a contribuir com bens alimentares para o grupo de apoio União Audiovisual, que os irá distribuir por profissionais do setor afetados pela pandemia.

Adivinha o objeto

E D I Ç ÃO ESPE C I A L

Jogar em Não casa

perkas

Texto Daniel Santos, Fábio Aguiar, Fábio Sousa, Maria Carolina Gomes, Mariana Ferreira, Mariana Lourenço e Matilde Morgado

Or na me ntos de natal co m mater iais rec icl áveis is eria a melhor do que dar vida a mat

Nad éa recicláveis em família. A chave ites enfe se izarreal em criatividade. Pod al. Nat de re árvo a orar dec únicos para mos mes os r usa l síve pos é a Aind para materiais para criar lembranças ortância imp a pre sem do todos, recordan a de form o com tos obje de ção da reutiliza . reza natu contribuir para a proteção da

Caça ao tesou ro co m pr endas de Natal

a ideal Uma caça ao tesouro é o program seja r que para avivar a noite de Natal, plesmente com presentes de Natal ou sim prendas r alha esp ta Bas com chocolates. os a map num r nala assi e pela casa . As locais para que todos procurem as regras do jogo podem ser adaptad ntido gara está e cias erên pref conforme as um diferente serão em família.

Jo go “Era um a vez...”

Jo go da mím ica

ca falha Mímica é o clássico jogo que nun um o lhid num convívio familiar. É esco palavra uma a cion tema e cada jogador sele vés atra nas ape uzir trad a relacionada, para s ante rest os que é tivo obje O de gestos. em questão. elementos adivinhem a palavra ima a próx a será A pessoa que descobrir ados, vari ser em pod as interpretar. Os tem ou ais anim es, film o, mpl exe como, por profissões.

Diretor Francisco Rebelo dos Santos francisco.santos@regiaodeleiria.pt

Apoio à Edição Alexandre Soares alexandre.soares@ipleiria.pt

Coordenadores Pedagógicos Catarina Menezes catarina.menezes@ipleiria.pt

Marta Oliveira marta.s.oliveira@ipleiria.pt

Paulo Agostinho paulo.agostinho@ipleiria.pt

Projeto Gráfico Leonel Brites leonel.brites@ipleiria.pt

Marco Gomes marco.gomes@ipleiria.pt

Maquetização Leonel Brites

Redação e colaboradores Alexandra Ovelheiro, Anícia Carvalho, Beatriz Sousa, Carolina Domingos, Catarina Mendanha, Catarina Nogueira, Cláudia Pereira, Daniel Santos, Daniela Piedade, Denys Yaremko, Fábio Aguiar, Fábio Sousa, Flávio Costa, Inês Ribeiro, Iris Vieira, Juan Figueroa, Laura Gordillo, Luís Ferreira, Luis Trujillo, Maria Carolina Gomes, Mariana Bento, Mariana Cruz, Mariana Ferreira, Mariana Gabriel, Mariana Lourenço, Mariana Santos, Marta Gonçalves, Matilde Morgado,

Denominado “Era uma vez”, este jogo é uma ótima proposta para s reunir a família. Um dos jogadore uma inicia a história com “Era vez” e acrescenta as palavras que de desejar. O seguinte jogador terá e rior ante pelo dito foi que o tir repe o mod de , acrescentar mais palavras . tido sen com ória hist a constituir uma m fore se que ntes Os participa esquecendo das frases proferidas sair anteriormente perdem e devem com s ória hist de r do jogo. O contado ! taça a leva ória melhor mem

Mauro Chainho, Rita Silva, Ruben Filipe, Samuel Silva, Tânia Santos.

Com o tema natalício, cada jogador deve escolher um objeto e os restantes elementos tentar adivinhá-lo, através de perguntas com resposta “Sim” ou “Não”. Caso ninguém acerte no objeto pensado após dez perguntas, o jogador que escolheu o objeto ganha a ronda. O jogo repete-se, começando sempre pelo elemento que ganhou. Esta é uma ótima atividade para animar a noite em família até à hora de abrir os presentes.

O qu e levo pa ra o Po lo No rt

e

Trata-se de um jogo de grupo que segundo consiste em enumerar objetos, ida por hec con é nas ape que a, uma regr inventa que ento elem O . ante icip part um casa do a ra “Pa e a regra inicia com a fras to que obje um ca indi e ” Pai Natal eu levo soas pes as outr As ca. lógi essa a obedece e rior do grupo repetem a frase ante l, tentando acrescentam outro item no fina Um eta. secr ca lógi descobrir qual a ser erá pod a regr de os dos exempl dizer objetos cuja primeira letra corresponda à inicial do nome da própria pessoa.

Presidente do Politécnico de Leiria Rui Pedrosa presidencia@ipleiria.pt

Os textos e opiniões publicados não vinculam quaisquer orgãos do Politécnico de Leiria e/ou da ESECS e são da responsabilidade exclusiva da equipa do Akadémicos.

Diretora da ESECS Sandrina Milhano dir.esecs@ipleiria.pt Coordenadora do Curso de Comunicação e Media Catarina Menezes catarina.menezes@ipleiria.pt akademicos.esecs@ipleiria.pt


3 Investigadores discutem boas práticas de inclusão e acessibilidade

está –a– dar

Texto Flávio Costa, Iris Vieira e Mauro Chainho

A 6ª Conferência Internacional para a Inclusão (INCLUDiT) decorreu a 20 e 21 de novembro, em formato digital, e cumpriu com o objetivo de, numa lógica multidisciplinar, fomentar o diálogo, a partilha e a divulgação científica nas áreas da inclusão e acessibilidade. A importância de trazer temas normalmente aprofundados no espaço científico para o debate público foi considerada por Carla Freire, membro da organização, uma das razões fundamentais para a criação da INCLUDiT. Durante as várias palestras, os oradores discutiram os conceitos de acessibilidade, inclusão e inserção, alertando para a falta de apoio de que as pessoas com deficiência são vítimas. Segundo Rodrigo Santos, que desempenha cargos associativos nos órgãos nacionais da ACAPO – Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal, “a intervenção é absolutaAbertura Solene do ano letivo 2020/2021

Universidade como objetivo Texto Beatriz Sousa, Laura Gordillo e Marta Gonçalves

A passagem do Politécnico de Leiria a Universidade foi um dos temas abordados pelo presidente da instituição, Rui Pedrosa, no âmbito da Sessão Solene de Abertura do Ano Académico 2020/2021, realizada a 3 de novembro, no Teatro José Lúcio da Silva. O evento serviu, também, para assinalar o 40º aniversário da academia leiriense, contando apenas com os oradores e os participantes homenageados. O Politécnico de Leiria disponibilizou a transmissão da sessão através do seu canal oficial de YouTube. Rui Pedrosa salientou a necessidade de alterar a designação de Instituto Politécnico de Leiria para Universidade Politécnica de Leiria, enquanto requisito indispensável para outorgar o grau de doutor. No seu discurso, elegeu como um acontecimento relevante do ano de 2020 a aprovação da Universidade Europeia - Regional University Network, liderada pelo Politécnico de Leiria. O responsável da instituição recordou, ainda, o subfinanciamento crónico que se agravou ao longo de 2020 devido a um aumento significativo da despesa e a uma diminuição da receita, sobretudo nos serviços de ação social. “Este esforço para atrair e reter talento para a Região resultará em mais constrangimentos financeiros, caso não existam correções estruturais que hoje devem ser feitas em sede de discussão orçamental”, afirmou Rui Pedrosa. O atual presidente da Cruz Vermelha, Francisco George, foi o convidado principal, tendo proferi-

mente necessária para que a sociedade seja tão inclusiva como diz ser”. Eva Navarro, doutorada em Humanidades e Filologia Hispânica, reforçou, também, a importância da educação como ponto de partida para construir uma sociedade inclusiva, trazendo à discussão o ecofeminismo. “Não podemos falar de educação inclusiva se não tivermos em conta a questão da igualdade de género”, vincou a especialista. A oradora Susana Silva, licenciada em Serviço Social e pós-graduada em Ciências Criminais, deu a conhecer o Centro de Integração e Formação Socioprofissional da Cercilei (CINFORM), que contribui para mudar a perspetiva da sociedade em relação à incapacidade. Neste centro, jovens e adultos com necessidades específicas podem realizar cursos e formações, nas áreas de jardinagem, serralharia civil, carpintaria e assistente familiar/apoio à comunidade, preparando-os para ingressar no mundo do trabalho. Romeu Kazumi Sassaki, com mais de 50 anos de carreira em consultoria sobre a autonomia das pessoas com deficiência e ativista no movimento pelos direitos das pessoas com deficiência, partilhou, por sua vez, práticas de educação inclusiva no Brasil, com particular incidência nas que levaram à evolução verificada no Estado de Goiás. O Programa Estadual de Educação para a Diversidade numa Perspetiva Inclusiva, da sua autoria, conta já com oito anos de sucesso nesta região do Brasil. Para Sassaki, o objetivo é simples: “Pretendo uma educação de qualidade sem excluir ninguém”. k do a oração de sapiência intitulada “A Saúde dos Portugueses: Desafios”. O ex-diretor-geral da Saúde admitiu que a situação pandémica mundial estava longe de ser encarada como uma realidade concreta: “O Centro Europeu das Doenças não reconheceu, de início, este risco e, portanto, por simpatia, a questão não foi amiga de ter incentivado planos de contingência”. O momento solene serviu para atribuir os Prémios Investigação e Desenvolvimento Mais Inovação do Politécnico de Leiria, em áreas como as Ciências Exatas e Engenharias, Ciências Naturais e do Ambiente, Ciências Sociais e Humanidades e Ciências da Vida e Saúde. A cerimónia contou com a atribuição de quatro títulos honoríficos e com momentos culturais dinamizados pelo Conservatório Internacional de Ballet e Dança Annarella Sanchez e pela cantora Cláudia Pascoal, antiga estudante do Politécnico de Leiria. k

17 dezembro 2020

TAK Texto

Catarina Nogueira Mariana Bento e Mariana Gabriel

Carolina Vieira Uma estreia premiada pelo IndieLisboa O primeiro prémio em cinema chegou para Carolina Vieira exatamente no ano em que terminou a sua licenciatura em Som e Imagem. A antiga estudante da Escola Superior de Artes e Design (ESAD.CR), do Politécnico de Leiria, trocou Silves, de onde é natural, pelas Caldas da Rainha, uma cidade onde diz haver muito interesse e dinamismo cultural. Soube desde cedo que queria “estar ligada ao mundo artístico”, muito embora reconheça que o Algarve é uma região com pouco apelo à cultura. “A minha turma da escola secundária tinha dez alunos e a escola tinha medo de a turma não abrir por sermos poucos. Inclusivamente, a minha família não valoriza as artes”, explica. A curta-metragem “Contrafogo”, desenvolvida na unidade curricular de Projeto Final, foi a obra que garantiu o prémio conquistado na secção “Novíssimos”, este ano, na 17ª edição do festival IndieLisboa – Festival Internacional de Cinema, que teve lugar no cinema São Jorge. Nesta categoria do festival estiveram presentes várias curtas-metragens académicas e primeiras curtas com duração até 10 minutos. A obra foi realizada ao longo do período de quarentena, em Silves, junto da família e apenas com o recurso a uma câmara e um tripé. Com pouco equipamento, Carolina questionava: “Como é que posso tirar proveito do que tenho e fazer algo de que me orgulhe?”. A dualidade do fogo, por um lado a destruição, por outro a luz e a verdade, foi o mote que Carolina utilizou para retratar a família. “O filme tem apenas cinco planos, é muito primitivo, e, tal como o fogo das civilizações antigas o era, também o conceito de família é algo muito ancestral, é o nosso núcleo, molda-nos, apesar de, pelas nossas visões diferentes, também nos 'queimar'”. Miguel Valverde, professor da ESAD.CR e um dos diretores do festival, foi uma das pessoas que a motivou a participar no festival. Com o apoio da agência Portugal Film, a cineasta aguarda exposição internacional da sua primeira curta-metragem, uma das regalias de ter sido vencedora do IndieLisboa. Em 2021, Carolina planeia frequentar um mestrado em cinema, em França, pois acredita ser um país capaz de dar o apoio necessário para quem sonha com uma carreira profissional no mundo cinematográfico. “Preciso de crescer, quero conhecer outras formas de ver o mundo artístico, outras culturas e outra língua”, refere. k


4 Comércio local

Por calçadas históricas e espaços singulares

KAPA O balanço em tempos de Pandemia não é igual para todos. Se uns reconhecem perdas, para outros o contexto veio lembrar a importância do atendimento diferenciado e personalizado. Espaços históricos que não desistem e procuram novas possibilidades para negócios antigos. Texto e Fotos Alexandra Ovelheiro, Cláudia Pereira, Luís Ferreira e Rita Silva

torre sineira, separada da Sé por escassos metros, toca. Na rua circulam rostos que, escondidos sob as máscaras, são reconhecidos pelo olhar de quem lá passa, dos comerciantes aos transeuntes. Os que lá moram, já poucos, cumprimentam-se no seu quotidiano sem pressas. O comércio local quase parece um espetador que observa as calçadas que vão da Sé ao Terreiro. É variada a oferta de grandes espaços comerciais na cidade, muitas vezes mais cómodos do que a alternativa de percorrer ruas de calçada, sujeitas à escassa e difícil oferta de estacionamento, além do impacto provocado pelas estações do ano. Frio, chuva, calor ou vento. Mas as condições climatéricas são para muitos uma boa desculpa para ir à descoberta de comércios singulares. São lojas que existem há largos anos e, embora tenham assistido a várias situações de crise financeira, nunca fecharam as portas. No centro histórico de Leiria, as ruelas estão enfeitadas com artefactos e sonoridades natalícias. Mas são músicas diferentes aquelas que Manuel Ferreira, proprietário da Garrafeira Ferreira, costuma tocar. Aos 83 anos, é músico nos tempos livres e a prática dessa atividade reflete-se no seu espaço comercial. Ainda antes de evoluir para garrafeira, nascia em

1966 a Mercearia Ferreira, um lugar que satisfazia os clientes da época com produtos essenciais para o consumo diário de quem vivia nas redondezas. O surgimento de grandes superfícies de venda destes produtos levou Manuel a introduzir artigos de duas áreas que lhe são muito próximas, a enologia e a música. “Temos aqui garrafas de colheitas de 1937 e temos outras garrafas que não são fáceis de encontrar no mercado, como por exemplo o poncho”, sublinha. Num ambiente diversificado e invulgar, são as garrafas de centenas de formatos, cheiros e sabores que melhor caracterizam a peculiar Garrafeira Ferreira. Os instrumentos musicais contribuem para lhe conferir um toque harmonioso. Este octogenário, que ainda ensina acordeão, órgão ou cavaquinho a quem gentilmente o procurar, sente-se acarinhado por quem ali o encontra. Em tempos de crise sanitária, admite que o negócio está mal. “As pessoas têm menos dinheiro”, afirma. Mas, apesar da diminuição das vendas e da circulação de pessoas, reconhece a importância do seu espaço: “Certas pessoas vêm aqui porque sabem que vendo instrumentos. Aluguei a casa que tinha com este tipo de artigos e trouxe-os para aqui”. A Garrafeira Ferreira não vive somente de vendas, também de cultura. A música. No sobe e desce das vendas, a pandemia não é igual para todos A diminuição da faturação em tempos de pandemia e a proximidade com os clientes são, de facto, aspetos que igualmente caracterizam outro espaço comercial do centro histórico de Leiria, a Pastelaria LuziClara. “O negócio está longe de voltar ao que era antes da pandemia. Apesar de estarmos abertos todos os dias, de domingo a domingo, as pessoas vêm menos e também levam menos. Em vez de comprarem bolos às dezenas, como acontecia, levam apenas o mínimo”, refere Vasco Silva, um dos responsáveis pelo negócio e cuja motivação para abraçar este desafio reside no carinho que nutre pela tradição familiar. O cheiro que vem de dentro denuncia a confeção de bolos acabadinhos de fazer. Vasco Silva, de 34 anos, estudou arquitetura e até já pensou em abandonar a gestão da pastelaria, mas a paixão pela história de vida da sua tia-avó Luzia tem-no feito ficar com os irmãos e os pais. “Com o tempo, vou ficando a saber mais sobre a forma de vida altruísta que a minha tia levava e estar aqui a ajudar a minha família e a perpetuar esta história é muito importante para mim”, começa por contar. “Ela veio morar para este edifício para tomar conta de uma filha de uma família da alta burguesia, que tinha uma deficiência motora”, recorda Vasco. Assumindo os cuidados da pequena como a sua missão de vida, a tia-avó Luzia parece ter-se tornado numa verdadeiramente empreendedora, ainda que os recursos fossem escassos.

“Começou a recolher receitas nas redondezas e a vender o que confecionava localmente, sobretudo junto de famílias de uma classe social mais alta, como em São Pedro de Moel. Toda a gente queria ser a primeira a receber a minha tia, para poder escolher os bolos”, afirma orgulhoso o sobrinho-neto. Com 12 anos, a mãe de Vasco veio ajudar a tia Luzia na confeção dos bolos. A pastelaria foi oficialmente fundada em 1991. Antes, porém, a tia Luzia já contava com cerca de 40 anos de serviço caseiro, onde o passa-a-palavra era o segredo do sucesso. Desde 2012 que a mãe de Vasco e a irmã se empenham na confeção dos produtos, enquanto o pai e ele próprio se ocupam do atendimento. Tal como nos tempos do serviço caseiro da tia Luzia, o atendimento e a relação com os clientes parecem ser hoje a alma do negócio. E nem a distância social que a pandemia impôs perturbou essa relação. “Nos meses de confinamento em que as pessoas não podiam sair das próprias casas, fomos levar onde podíamos, já que temos clientes de longa data e uma relação muito próxima, que queremos preservar”, sublinha Vasco Silva. Um cenário totalmente distinto é o da casa CIL – Carlos Infante Lacerda, a loja de eletrodomésticos mais antiga de Leiria, cuja data de origem remonta ao primeiro vinténio do século XX. “Apesar de estarmos a atravessar uma fase complicada, atrevo-me a dizer que devo ter vendido mais este ano do que no ano passado. Sobretudo, nos meses de confinamento, as pessoas com receio de ir para o shopping, ligavam-me a perguntar se tinha determinado equipamento. Além disso, como passaram mais tempo em casa, aproveitaram para fazer pequenos biscates”, afirma Rui Pombeiro, de 43 anos, o atual responsável pelo espaço. Carlos Lacerda foi o principal sócio do estabelecimento, tendo aberto a sociedade a mais dois colegas. “Um deles chamava-se Rodrigo Faustino, patrão do meu pai. O outro foi o meu próprio pai, que mais tarde viria a ser o único responsável, tendo tido oito eletricistas ao seu encargo”, conta o proprietário, filho de Francisco Pombeiro. No número nove da rua D. Dinis, a montra é composta por um conjunto de pequenos eletrodomésticos. Mas nem sempre foi assim. Outrora, a loja vendeu outro tipo de produtos para além do seu negócio central, o material elétrico e as instalações em obras. Isso aconteceu na sequência de uma intervenção para requalificação do edifício: “Fizemos obras e encontrámos tabuadas, réguas, material elétrico e outros materiais de escritório”. Hoje, o mesmo espaço originou a casa CIL – Comércio e Instalações, LDA, que, apesar da concorrência das grandes superfícies e das empresas de construção civil, consegue manter o seu negócio devido ao serviço externo de instalações, por exemplo em escolas, empresas ou em trabalhos solicitados pela Câmara. Mas as restrições que a crise sanitária impõe e o seu impacto na economia não são ignoradas por Rui Pombeiro. Pelo contrário, o responsável pela casa CIL gosta de animação nas ruas e de movimento: “Não gosto que uma loja feche na rua. Pode parecer que não me afeta, mas a verdade é que isso faz com que menos pessoas passem por aqui. Por isso, é importante dinamizar as ruas com atividades”. Apostar na personalização Corre a tarde de um dia de outono e Ana Paula Moreira, atual proprietária da Chapelaria Liz, já vendeu dois chapéus para senhora, o que em tempos anteriores seria uma realidade diferente, uma vez que


5 este tipo de comércio era sobretudo procurado por homens. Tudo começou com a vinda de uma família natural de São João da Madeira, localidade conhecida pelo fabrico de chapéus, para a cidade de Leiria. As charretes e os burros eram os meios de transporte da época em que a chapelaria abriu as portas, em 1928, sendo este o ano da primeira fatura encontrada. Maria Assunción Moreira, mãe de Ana Paula, era prima dessa família aveirense e acabou por continuar o negócio, juntamente com o seu marido, Manuel Moreira, no final da década de 80. O balcão de atendimento mantém-se original desde a abertura das portas, ainda que em 2012 o espaço tenha sofrido algumas modificações de forma a melhor conjugar na loja tradição e modernidade. O cheiro da pele de que é feito o calçado exposto caracteriza o pequeno, mas acolhedor, espaço, onde “quem vem pela primeira vez fica espantado com a quantidade de artigos que temos em poucos metros quadrados”, refere a empresária. A chapelaria aposta atualmente na comunicação digital, na alta qualidade dos artigos e na sua personalização. “Acontece por vezes pedirmos ao fornecedor que altere determinado modelo de acordo com o que o cliente quer e é aí que nos destacamos”, conta. Parece que a tendência atual é que os homens ficam calvos mais cedo e Ana Paula, de 49 anos, tem sentido uma procura particular dos chapéus pelas camadas mais jovens, sobretudo quando o tempo frio se começa a fazer sentir. O sangue novo da cidade A Barbearia Vitória, precisamente na rua que lhe dá nome, é o lugar onde se apara a barba e se corta o cabelo há mais anos em Leiria. Foi aqui que Tomé Pereira seguiu os cortes do pai e continuou o negócio de família até 2017, altura em que um problema de saúde o fez sair. Fred Rocha, jovem barbeiro de 24 anos, procurava exatamente um espaço de convívio entre rostos lisos e enrugados de gente com mais ou menos idade quando percebeu que a Barbearia Vitória seria o lugar ideal para continuar o seu ofício enquanto barbeiro. “Nada substitui os cumprimentos dos vizinhos que aqui passam. É um ambiente mais livre e genuíno”, admite enquanto acena a quem espreita. Hoje, quer manter o estatuto de barbearia mais antiga por mais 100 anos. “Quando vim para aqui a maior parte dos clientes era mais velha, ou seja, assim que este público desaparecesse, o negócio estaria em risco de terminar. Hoje tenho mais clientes jovens, através de parcerias que procuro, ao mesmo tempo que tento dinamizar através das redes sociais e modernizar pequenas coisas no espaço”, conta Fred. Mais do que fazer cortes clássicos e cuidar da barba de quem para por ali, Fred procura uma conversa amigável com os clientes. “Com a pandemia, as conversas perderam-se. Antes, não havia marcação, as pessoas entravam e, entretanto, os jovens estavam a falar com os idosos e juntos debatíamos assuntos do dia-a-dia”, confessa com saudade. A riqueza e a singularidade das histórias que moram dentro dos espaços comerciais do centro histórico de Leiria são a fonte de inspiração para todos os dias dezenas de comerciantes abrirem as suas portas a quem procura o contacto mais direto possível com o produto que quer comprar. k

Arctic Monkeys, Live at the Royal Albert Hall Não traz nada de novo, mas sabe a fresco

17 dezembro 2020

KAPAS Texto

Daniela Piedade Mariana Cruz e Ruben Filipe

Live at the Royal Albert Hall é o nome do novo álbum do grupo britânico liderado por Alex Turner, os Arctic Monkeys. O disco foi gravado a 7 de junho de 2018, no concerto realizado no Royal Albert Hall, em Londres, e lançado a 4 de dezembro de 2020. Todos os lucros realizados no dia do concerto foram doados à War Child UK, uma instituição que visa ajudar crianças afetadas por conflitos de guerra. Está disponível em todas as plataformas digitais e é composto por 20 faixas. A gravação teve lugar durante a digressão do álbum Tranquility Base Hotel & Casino e apresenta os grandes sucessos da banda, que marcam 15 anos de história, e de onde se destacam os temas Do I Wanna Know, 505, She Looks Like Fun e Pretty Visitors. São faixas que integram álbuns como Tranquility Base Hotel & Casino, AM ou Favourite Worst Nightmare. Com a evolução da pandemia, que veio agravar a escassez de recursos da War Child UK, os Arctic Monkeys decidiram avançar com a venda deste álbum para que, mais uma vez, os seus lucros sejam entregues à instituição. A compilação, com a duração de cerca de 90 minutos, vem mostrar o lado mais energético dos artistas britânicos, que relembra os inícios da banda. No entanto, a adição de novos instrumentos, a par da voz mais madura de Alex Turner, trouxe mais profundidade à interpretação e mostrou a experiência de palco deste grupo. O novo disco veio trazer um sentimento de conforto e companhia aos fãs que, em tempos de pandemia, passam mais tempo em casa. O facto de ter sido gravado ao vivo permite, contudo, imaginar que estamos no concerto da banda e talvez esquecermos, por um bocadinho, que continuamos num ano tão invulgar como o de 2020. k


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O grande problema é que muitas vezes se confunde jornalismo gastronómico com SENTADO posts do Instagram ou do NO MOCHO Facebook

curiosidade que eu tenho por conhecer coisas novas, sejam lugares ou sabores. Acho que o jornalista tem de ter essa sede de conhecimento. A maneira como abordo o jornalismo gastronómico é a maneira como abordo uma investigação ao José Sócrates. Se eu quero conhecer alguma coisa, encaro a coisa com seriedade e procuro conhecer todos os ângulos desse assunto, sobretudo nos artigos que faço para o Expresso. Tenho feito para o Expresso trabalhos mais longos, que me permitem ter essa disponibilidade. A outra coisa que é comum ao jornalismo generalista e à escrita gastronómica é escrever. Para escrever bem sobre comida, é preciso saber escrever bem e é preciso gostar de escrever.

Do seu blogue “O Homem que Comia Tudo”, que já deu origem ao livro com o mesmo nome fica a questão: o que é que este homem ainda não comeu? Ou Jornalista e crítico gastronómico o que é que este homem não come? Ainda não comi muita coisa e, cada vez que leio mais e estudo mais esta área, percebo que há ainda tanta Os estudantes optam muitas vezes por comida sim- coisa por provar. Podemos pensar que uma seleção ples, rápida e barata. Que sugestão deixaria aos es- das melhores coisas vem ter contigo, porque as pessoas sabem que tu gostas desta área e fazem-te chegar tudantes para os livrar do ramen instantâneo? O ramen instantâneo é difícil de substituir em casa. É comida, mas não é verdade. Estou constantemente a Jornalista, crítico gastronómico um dos meus pratos favoritos, é verdade. É viciante. descobrir pratos novos incríveis, combinações de saMas um bom ramen leva mais de vinte e quatro horas bores incríveis, produtos incríveis, e essa é também e autor do blogue e do livro a fazer, entre preparações, cozer os ossos do porco… a beleza desta área que parece não ter fim. Estamos O Homem que comia tudo, porque aquele caldo mais denso e espesso é feito com sempre a ser surpreendidos por sabores novos. ossos de porco muitas horas na panela. É muito difíRicardo Dias Felner explica como cil de fazer. Mas por exemplo, uma das coisas que se A cozinha tradicional portuguesa ainda o surgiu o seu gosto pela área da fazia muito na faculdade onde eu era estudante era surpreende? massa e más massas. Então a ideia é fazer na mesma Surpreende, não tanto como eu gostaria, porque há gastronomia. Ao Akadémicos, massa, que é simples, rápido e barato, mas deixá-la muito receituário tradicional que se vai perdendo, dá conta dos desafios da crítica cozer menos tempo e, eventualmente, não inventar que vai saindo dos menus dos restaurantes, mesmo muito com molhos, pôr só um bocadinho de alho, dos restaurantes de cozinha tradicional. Por razões gastronómica, mas também salsa, umas alcaparras, umas azeitonas e fica ótimo. diversas. Uma tem a ver com o facto de os produtos deixa dicas para estudantes Outra coisa que os estudantes gostam muito e que é hoje em dia serem cada vez mais iguais. Ou seja, se eu rápido, mas nem sempre bem feito, é um bife, seja car- sou agricultor vou produzir uma espécie específica de cozinheiros: como melhorar ne de vaca ou carne de porco. O problema é quando se alface porque eu sei que é mais resistente, quem diz um bife ou cozer uma massa. deixa a água cozer a carne na frigideira. Então basta alfaces diz couves, e depois vou fazer a receita tradium truque, que é tirar a água a meio da preparação, cional com uma couve que eventualmente já não é a quando estamos a fritar o bife. Tiramos aquela água original. Estou a dar um exemplo aleatório, mas esta é que fica ali, escorremos e voltamos a aquecer muito uma das razões pelas quais muito desse receituário se Texto Anícia Carvalho, Juan Figueroa, Luís Trujillo, Samuel Silva a frigideira. Tem de estar bem quente, e voltamos a vai perdendo, porque os produtos também se vão unifritar. Entremeada de porco é provavelmente a coisa formizando e se vão perdendo. A outra razão é porque as pessoas que faziam esse receituário vão morrendo barata e rápida mais saborosa que eu conheço. Crítico gastronómico e foodie assumido. Quando é e, lamentavelmente, a nossa edição de livros de cozique percebeu que tinha uma ligação especial com Temos no Politécnico muitos estudantes originários nha é fraca, muito fraca, comparativamente com o a comida? do Equador. Qual é a sua opinião sobre a cozinha que existe em inglês e noutros países. Foi construída com o tempo. Foi na faculdade, em latino-americana? Coimbra. Foi aí que eu comecei a cozinhar. Na altura Tenho provado, sim, tenho provado alguma cozinha A variedade da cozinha portuguesa é enorme e a da vivia com uns amigos que não cozinhavam ou cozi- latino-americana, menos do que eu gostava. Mas a pastelaria ainda mais. Qual é o local onde não connhavam muito mal. Então, se queria comer qualquer minha primeira experiência foi com cozinha do Gua- segue passar sem trazer um doce regional? coisa mais decente e fugir às cantinas, tinha de ir ao temala. Não sei se já provaram alguma vez. Eu estava Embora goste de doces, não sou tanto de doces supermercado e começar, eu próprio, a fazer as coisas. em casa de uma família da Guatemala em Londres, como de salgados. Gosto, por exemplo, dos doces do Rapidamente comecei a estudar um bocadinho mais tinha lá ido estudar durante uns tempos, e durante Algarve com figo, alfarroba, aqueles queijinhos de as receitas e a fazer umas coisas mais sofisticadas, uma semana comi partos da Guatemala e adorei. Sou figo. Obviamente gosto de toda a doçaria chamada, nada de especial. Mas foi assim, foi pela prática. Mais grande fã da maneira como eles misturam os pimen- digo erradamente, conventual, que é muito à base tarde, no jornal Público, era jornalista, cobria várias tos, os feijões, as frutas, o picante. Sou grande fã de de ovos e açúcar. Em geral a doçaria portuguesa é áreas, desde o crime, a justiça, emigração, e havia lá picante. Calculo que o Equador seja um bom sítio para muito doce. Tem vindo a descer o nível de açúcar, um crítico gastronómico, o David Lopes Ramos, que comer picante. Não há cá nenhum bom restaurante modernizando-se no sentido de acompanhar a tendência da união europeia, que tem sobremesas mais me começou a levar para os restaurantes e a ensinar equatoriano, pois não? Que pena, senão já lá estava. leves e com menos doce. Mas também gosto dos ovos muitas coisas sobre a gastronomia. Aí as coisas começaram a ficar um bocadinho mais sérias. Refere em nota biográfica que a sua carreira jornalís- moles, gosto dessas coisas todas. E depois gosto datica incluiu trabalhos sobre “bandos armados, José quela pastelaria tradicional de loja, a bola de Berlim, Há algum alimento ou prato de que não gostava em Sócrates, embargos de obras, nudistas e muitos ou- o pastel de nata. O pastel é realmente genial. Não é criança e que esteja agora entre os seus preferidos? tros temas pouco epicuristas”. Como é que, a partir por acaso que se tornou um sucesso internacional: a conjugação da massa estaladiça com o interior creHá. Por exemplo, não gostava de feijão verde e muito daí, surgiu o foco na escrita gastronómica? menos de sopa de feijão verde e, hoje em dia, é das Há duas coisas que são comuns no jornalismo, seja moso. Come-se quase em duas dentadas. É um dos minhas preferidas. Faço aqui em casa e gosto bastante. ele gastronómico ou não, uma delas é a extrema meus bolos favoritos.

Ricardo Dias Felner


7 quem eu gosto. Outra coisa é estar ali a avaliar e a dizer o que é que estou a achar da refeição. Isso é uma coisa que eu faço depois, à posteriori, e é melhor assim.

17 dezembro 2020

Já foi a algum restaurante com três estrelas Michelin? Se não, a qual gostaria de ir? Três estrelas, curiosamente, acho que não. Gostava de ir ao Asador Etxebarri que eu julgo que não tem três estrelas Michelin. É um restaurante do País Basco que cozinha tudo com grelha. O próprio chef fabricou À medida que foi ganhando noto- a sua grelha, ele próprio arranja a sua madeira para riedade no ramo sentiu um trata- cozinhar os alimentos. É uma cozinha muito simples, mento diferenciado por parte dos com produto muito bom, muito fresco. É aquele sítio onde eu queria ir e irei brevemente. restaurantes? Sim, embora eu evite expor-me publicamente. Quando vou a um restau- Neste mês de dezembro, transformou a experiênrante para fazer crítica, eu vou em cia da cozinha em reuniões digitais em modo sumodo anónimo. Ou seja, eu dou um pper club dedicadas ao picante. Como é que surnome falso, porque eu entendo que giu a ideia? uma crítica só é rigorosa e minima- Bem a ideia é muito simples, eu estava a fazer cursos mente isenta se nós nos fizermos pas- de escrita e cultura gastronómica presenciais, mas, sar pelo cliente normal. Se vou a um entretanto, com o COVID, decidimos deixar de fazer restaurante como jornalista de comi- presencialmente e passar a fazer através do Zoom por da, e se o chef e os empregados sabem conferência virtual. A malagueta é um assunto de que que eu vou nessa condição, é muito eu gosto muito. Como muito, há muito tempo. Comenatural que eu não tenha uma expe- cei a estudar o assunto a fundo e achei que podia ser riência como tem um cliente normal. interessante, neste momento em que muita gente está Se houver um erro na cozinha, que aborrecida com as suas rotinas e com as suas comidas, acontece muitas vezes, ou algum erro ter alguma coisa que acelerasse os batimentos cardíaem algum prato, e se eu for um cliente cos e desse alguma emoção à nossa vivência muito normal, se calhar aquilo passa, se eu caseira. Vai acontecer um na próxima semana e já esfor um jornalista ou um crítico gastro- gotou. Em janeiro, vamos ter outra sessão com o mesmo tema. Vamos cozinhar em conjunto e, ao mesmo nómico, se calhar volta para trás. tempo, eu vou falando sobre picantes, molhos, pickles, Qual é que foi o seu maior desafio pós, etc. Em fevereiro, vou fazer uma outra conferênenquanto jornalista gastronómico? cia através da internet, mas essa é só dedicada à escriTalvez tenha sido quando o editor do ta gastronómica. Expresso me pediu para fazer um artigo sobre o bacalhau. Penso que foi no Se soubesse que o mundo ia acabar amanhã, qual ano passado. E eu fiquei extremamen- seria a sua última refeição? te assustado porque já foram escritos É fácil, porque é a minha comida preferida. Eu sei que centenas de artigos sobre o bacalhau a como muito frequentemente, mas, nesse caso, eu caem Portugal, bons artigos escritos por pricharia. É bacalhau cozido com batatas, grão, couve bons jornalistas. Então fiquei a pen- e ovo cozido. Nessa última, eu teria assim um bacasar: o que vou dizer mais sobre o ba- lhau topo de gama, com uma cura espetacular, coucalhau? Foi uma grande empreitada, ves acabadas de apanhar, ovos biológicos dos bons. de norte a sul do país, a experimentar Parece fácil, parece um prato extremamente simples, alguns restaurantes clássicos de ba- mas ter tudo a ir à mesa quente, com os pontos de cocalhau. Fui às fábricas para conhecer zedura ideais, o bacalhau bem demolhado, etc. não é como é feito o processo de cura e etc. fácil. Mas seria isso, bacalhau cozido. Estamos muito No seu livro menciona: “Ser maluquinho da comida Foi uma grande empreitada, essa. Bacalhau é aquela coi- habituados ao que comíamos quando éramos pequeé uma doença crónica que se agrava quanto mais se sa que toda a gente conhece. nos e acontece muito isto: as coisas de que nós mais come e mais se sabe sobre comida”. Consegue desgostamos muitas vezes não são as mais sofisticadas, ligar o modo crítico e aproveitar uma refeição sem a De que modo é que o ciberespaço, as redes sociais e mas são aquelas que ficaram na memória, aqui numa tentação de a avaliar? em geral os novos media, têm influenciado o jorna- gaveta para sempre. Em Leiria come-se tão bem, tem Para mim, não é um problema fazer as duas coisas ao lismo gastronómico? Têm tido impacto? tantos restaurantes bons. É uma coisa impressionanmesmo tempo. A minha crítica é uma crítica técnica às Têm. Não diria que é uma coisa típica do jornalismo te. Não sei o que é que acontece aí nessa cidade, nesvezes, mas é sobretudo uma crítica de: ‘estou a gostar gastronómico. O grande problema é que muitas vezes sa região, mas eu sou grande fã da comida de Leiria. de estar aqui neste restaurante ou não?’. Embora, para se confunde jornalismo gastronómico com posts do Até acabei de comprar umas morcelas de arroz, que é mim, seja sempre o mais importante numa crítica, mui- Instagram ou do Facebook. Muitas vezes posts que são uma coisa que eu adoro comer quando vou aí. tas vezes a comida pode até nem ser incrível, mas o anfi- pagos pelas marcas ou restaurantes e de pessoas que trião do restaurante pode ser uma pessoa extremamen- não são jornalistas, são pessoas que escrevem sobre o Neste Natal que se prevê atípico, que prato típico não te bem-disposta. O restaurante pode ter um ambiente assunto. Para quem lê, talvez muitas vezes haja essa faltará na sua mesa? a que eu acho muita graça. E, portanto, as críticas posi- confusão. Depois entro nesse grande grupo difícil de Vou-me repetir, parece que só como bacalhau cozido. tivas são sítios onde eu naturalmente me sentiria bem classificar de chamados influencers. Por exemplo, já Mas, sim, vai ser bacalhau cozido. É sempre feito aqui, como cliente. Outra coisa é dizer se eu gosto de ter de tenho escrito a elogiar uma marca de azeites ou de a preceito. Não há, e muito menos no Natal, bacalhau estar a esmiuçar com as pessoas que estão comigo ou vinhos, seja do que for, e depois um amigo meu ligar ultracongelado demolhado de fábrica. É tudo democom o dono do restaurante, ou com o chef, o que aca- a dizer ‘Ah agora és patrocinado pela marca tal!’. Não lhado aqui em casa, que é completamente diferente. bei de comer. Disso não gosto, de facto, e evito. No fim sou. Simplesmente escrevi um post porque realmente É preciso apenas aprender a demolhar. Para mim, é das refeições, às dez da noite, os chefs estão cansados, gosto daquela marca de um azeite que eu comprei ou uma experiência completamente diferente ter o baos cozinheiros estão cansados, os empregados estão de um vinho que eu comprei com o meu dinheiro. Há calhau demolhado. Roupa velha sempre, sempre. E é cansados, não é a melhor altura para fazer uma crítica muita confusão nessa área e calculo que, para quem sempre uma competição para ver se fica melhor do ou dizer mal de um prato. De maneira que não é para queira guiar-se pelas redes sociais e perceber quem é que a do ano passado. Não sei se fica ou não, mas temim um problema ir como crítico. Tenho prazer à que está a falar sem ter uma agenda escondida ou pa- nho a ideia de que, no final, dizem sempre: ‘Ah esta mesma. Normalmente vou com amigos ou pessoas de trocínios escondidos, não seja fácil. está ainda melhor do que a do ano passado’. k


8 6ª edição dos Prémios Ciências do Desporto Estão abertas as Texto Laura Melícias, Neuza Santos candidaturas para e Sofia Morgado a 6ª edição dos Prémios Ciências do Desporto. A iniciativa reconhece os melhores trabalhos de investigação Texto Catarina Mendanha, realizados nas diferentes áreas das Denys Yaremko ciências do dese Inês Ribeiro porto. O objetivo é contribuir para a reflexão sobre as problemáticas deste âmbito, assim como para a análise de dados recentes, fundamentais para as decisões do sistema desportivo nacional. Este ano, as temáticas a concurso são: Fisiologia e Biomecânica do Desporto, Economia, Direito e Gestão do Desporto, e ainda História e Sociologia do Desporto. Os trabalhos deverão ser enviados para o endereço gab.estudoseprojetos@comiteolimpicoportugal. pt, até dia 30 de abril de 2021.

Últimas

Academia Electrão A Electrão - Associação de Gestão de Resíduos está a promover a Academia Electrão, um concurso que pretende premiar projetos inovadores na área da economia sustentável. As engenharias, as tecnologias, a imagem e a arte podem ser a base das ideias que devem considerar a gestão de equipamentos elétricos, pilhas e acumuladores e embalagens usadas. Todos podem participar, em especial os estudantes das instituições de ensino superior e os centros de investigação. As candidaturas estão abertas até 14 de maio de 2021. Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) O Centro de Informação INA lançou nova edição de cursos online gratuitos, de curta duração, dedicados ao Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD). Os cursos podem ser frequentados até 31 de dezembro e versam sobre temáticas como “RGPD para Cidadãos Atentos” e “RGPD para Implementadores na Administração Pública”. Ambas as formações são de frequência gratuita e dispensam inscrição prévia. Estão disponíveis na Plataforma NAU – Ensino e Formação à Distância para Grandes Audiências.

Ouve já em akademicos.ipleiria.pt/contrakapa

ACADEMIA

Dissertação de estudante do Politécnico de Leiria premiada pelo Instituto Nacional para a Reabilitação A antiga estudante da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria, Ana Rita Pereira da Conceição, foi distinguida pelo Instituto Nacional para a Reabilitação (INR), na área das Ciências Sociais e Humanas, pelo seu contributo com a tese de mestrado intitulada “O acesso aos cuidados de saúde primários: a perceção das pessoas com deficiência visual”. A cerimónia de entrega do prémico aconteceu no dia 3 de dezembro no Campeonato Nacional Universitário de Karting

Politécnico de Leiria iniciou época desportiva Texto Catarina Nogueira, Mariana Bento e Mariana Gabriel

O Politécnico de Leiria terminou em terceiro lugar o Campeonato Nacional Universitário de Karting. Apesar de a classificação contemplar apenas a vertente individual, os quatro estudantes-atletas em representação da academia leiriense alcançaram em Évora, a 4 de dezembro, 26 pontos. Dinis Fialho terminou em quarto lugar da hierarquia geral, a cerca de 12 segundos do terceiro lugar do pódio e a mais de 20 do novo campeão nacional, Paulo Pereira. Dinis Fialho completou as 16 voltas da Final A em 20:33.189 minutos. “Lutei pelo título de campeão e realizei uma competição muito positiva. Estou feliz com o quarto lugar da classificação geral”, afirma o estudante da Escola Superior de Tecnologia e Gestão (ESTG). Daniel Vieira (ESTG) também alcançou a qualificação para a Final A, tendo

âmbito da celebração do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, evento organizado pelo INR através da plataforma YouTube. O prémio para as Ciências Sociais e Humanas distingue o trabalho académico que mais contribua para a produção de conhecimento sobre deficiência e inclusão. Durante o evento, foi abordada a importância da acessibilidade em sítios web, o contributo do emprego para a inclusão social das pessoas com deficiência, tendo sido apresentada a Estratégia Nacional para a Inclusão das Pessoas com Deficiência 2021-2025. Ana Rita Pereira da Conceição destacou alguns dos problemas que as pessoas cegas enfrentam: “Os resultados da minha dissertação mostram desafios no acesso aos cuidados de saúde primários, que resultam maioritaria-

mente em algumas perdas de informação importantes, de autonomia e de privacidade”. O evento contou com a participação de várias personalidades, nomeadamente da Secretária de EstaTexto do da Inclusão das Catarina Mendanha, Pessoas com DefiDenys Yaremko ciência, Ana Sofia e Inês Ribeiro Antunes, que, como figura principal, apresentou as três sessões e o documento de orientação para a promoção dos direitos e inclusão das pessoas com deficiência. As sessões estão disponíveis no canal de YouTube do INR. k

a fechar

terminado em 11º lugar com o tempo Batalha, sendo os custos suportados de 20:53.357 minutos, mais 40 segun- pelos próprios atletas. Como forma de dos que o vencedor. Na Final B, Ricardo minimizar o valor, existe um protocoNeves (ESTG) superiorizou-se à concor- lo entre o kartódromo da Batalha e o rência e venceu a prova em 15:30.303 Politécnico que regula a utilização do minutos (15º da geral), enquanto João espaço por parte da academia leiriense. Trincadeiro (ESTG) conquistou o seO “nacional” de karting foi a quinta gundo lugar (16º da geral), a menos de competição realizada pela Federação um segundo de Ricardo Neves. Académica de Desporto UniversitáVolvida a fase de qualificação, os rio no âmbito da época desportiva atletas foram organizados em duas 2020/2021, depois dos campeonatos provas: a Final A, onde se decidia o títu- nacionais de badminton, ténis de mesa, lo de campeão universitário (16 voltas), xadrez e ténis, modalidades considerae a Final B, que não concorria para a das de baixo risco quanto aos níveis de disputa do troféu (12 voltas). transmissão da Covid-19. k A Associação Académica da Universidade do Minho (AAUM) sagrou-se camSpeechbot peã nacional universitária de karting, Com uma versão conquistando o primeiro lugar nas progratuita, a aplicação vas masculina e feminina. Participaram Speechbot ajuda 37 atletas-estudantes, 29 na competição quem não gosta masculina e quatro na prova feminina. assim tanto de ler Nesta modalidade do calendário naou simplesmente cional do desporto universitário, cada não tem tempo estudante-atleta é responsável pelo seu para isso. Capaz de equipamento (luvas, capacete, fato), potransformar livros, dendo também ser disponibilizado graartigos e notícias em audiolivros, é tuitamente pela organização, a quem bastante útil para Texto compete ceder os karts para promover Carolina Domingos, usar diariamente. a equidade entre os participantes. No Mariana Santos Com esta aplicação caso dos estudantes do Politécnico de e Tânia Santos é possível manter-se Leiria, os treinos ocorrem nos kartóinformado enquanto dromos do distrito, sobretudo no da

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se pratica desporto, conduz ou cozinha. Disponível gratuitamente na App Store.

Night Sky Para as pessoas interessadas em saber mais sobre o céu e os planetas, a aplicação Night Sky é uma das mais úteis. Quase como um planetário pessoal, permite identificar planetas, estrelas, constelações e satélites. Basta direcionar o iPhone ou iPad para o céu noturno e ficar a conhecer o que há de mais bonito no espaço. Disponível gratuitamente na App Store.


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