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Akadémicos 89

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Suplemento integrante da edição nº 4345 de 25 de junho de 2020 do semanário REGIÃO DE LEIRIA. Não pode ser vendido separadamente.

João Castro Ilustrador

Viver da ilustração é difícil. págs. 6 e 7

jornalismo

O que fica depois do confinamento? pág. 4 e 5


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Covidário

Dicionário humorístico para 2020 por Samuel Silva

A ABRIR

Assintomático ɐ.sĩ.tu.mˈa. ti.ku - adj.m. – Indivíduo que desconhece que transporta inquilino pouco recomendável. Cefaleia sɨ.fɐ.lˈɐj.ɐ -s.f. – Dor localizada na cabeça ou região superior do pescoço, muito comum, mas que, sentida em tempo de pandemia, transforma qualquer um num hipocondríaco.

Confinamento kõ.fi.nɐ.mˈẽ. tu - s.m. – Responsabilidade social de passar tempo (todo o tempo…) com a família. Curva kˈuɾ.vɐ - s.f. / fem. sing. de curvo. – Propriedade geométrica da pandemia que se quer o mais chata possível. Desconfinamento dɨʃ.kõ.fi.nɐ. mˈẽ.tu - s.m. - O mesmo que confinamento, mas fora de casa. Etiqueta respiratória Conjugação de s.f. e adj.f. - Formas elegantes e úteis de usar cotovelos e antebraços ao espirrar.

Grau de transmissibilidade de infeção — Valor proporcional à capacidade de interação social de um infetado com COVID-19. Máscara mˈaʃ.kɐ.ɾɐ - s. f. - Acessório do ano, que funciona como embaciador gratuito de óculos. Estás mascarado? Piada que desconfinou em fevereiro. Nova normalidade — Um normal muito anormal. Número de Casos Conjugação de s. m., preposição e s.m.pl. – Números para o totobola de 2033.

Pandemia s.f. - Doença que apresenta o passaporte carimbado em muitos países do mundo. Passeio higiénico Conjugação de s.m. e adj.m. - Desculpa para distanciamento da família durante o confinamento. Melhor quando praticado com animais de estimação. Vai ficar tudo bem! pop. Expressão vaga equiparável a dizer “já passou” a alguém magoado. Zaragatoa zə.ɾə.gə.tˈo.ə s.m. - A mais recente cura para comichão na garganta (ou, em casos limite, no cérebro).

Fonética Lisboa (padrão) Portal da Língua Portuguesa. (2020).

NASA em casa

Não perkas Texto Beatriz Sousa Cláudia Pereira Denys Yaremko Íris Mafra Vieira Luis Trujillo Mauro Chainho

Museu Calouste Gulbenkian

Com o início da pandemia, diversos museus tomaram a iniciativa de ter disponível para todo o mundo a sua visita online. O Museu Calouste Gulbenkian, dedicado à arte antiga e moderna, tem agora as suas obras acessíveis no website para quem quiser visitar. Diana, de Jean-Antoine Houdon, e Menino com cerejas, de Manet, são duas das peças que compõem a galeria deste museu. Disponível em: https://gulbenkian.pt/museu/colecoes/visita-virtual.

A NASA lançou o projeto “NASA em casa” através de uma plataforma onde disponibiliza podcasts, e-books, tours virtuais e apps com realidade aumentada. As viagens virtuais permitem conhecer telescópios da agência e visualizar a Estação Espacial Internacional. Os utilizadores podem participar em atividades como procurar novos planetas ou experienciar a cabine de um piloto. Disponível em: https://www.nasa.gov. 27 de junho, Batalha

Festival Artes à Vila 2020

O festival de música, arte e cultura regressa para nova edição de espetáculos gratuitos que promovem a música portuguesa e sonoridades do resto do mundo. A transmissão será online e em direto a partir do Mosteiro da Batalha, no dia 27 de junho, contemplando concertos, exposições, workshops e outras atividades. Para mais informações consultar https://www.artesavila.pt.

25 de junho, Teatro Miguel Franco

InMusic com Nuno Inácio

Flauta Solo da Orquestra Metropolitana de Lisboa, Nuno Inácio é o convidado da próxima edição do InMusic, organizado pela Scherzo Eventus. O InMusic corresponde a uma série de entrevistas e atuações periódicas que trazem ao palco vários artistas, como solistas internacionais e músicos portugueses. O espetáculo decorre hoje às 21h00, e conta também com a presença do trompetista Mickael Faustino.

Diretor Francisco Rebelo dos Santos francisco.santos@regiaodeleiria.pt

Apoio à Edição Alexandre Soares alexandre.soares@ipleiria.pt

Coordenadores Pedagógicos Catarina Menezes catarina.menezes@ipleiria.pt

Marta Oliveira marta.s.oliveira@ipleiria.pt

Paulo Agostinho paulo.agostinho@ipleiria.pt

Projeto Gráfico Leonel Brites leonel.brites@ipleiria.pt

Marco Gomes marco.gomes@ipleiria.pt

Maquetização Leonel Brites

Redação e colaboradores André Silva, Beatriz Sousa, Carolina Frade, Cláudia Pereira, Denys Yaremko, Eunice Rodrigues, Francisco Constantino, Inês Mendes, Íris Mafra Vieira, João Sousa, Laura Melícias, Liane Reis, Luis Trujillo, Luísa Jacinto, Margarida Policarpo, Mauro Chainho, Maria Rei Marques, Mariana Gabriel, Mariana Santos, Miriam Tormenta, Neuza Santos, Nuno Vieira, Rodrigo Pereira, Ruben Rodrigues, Samuel Silva, Sofia Morgado, Tânia Ferreira, Tiago Ribeiro e Yasmine Nicole

Descobertas arqueológicas no Castelo de Leiria

Está a decorrer a exibição das descobertas arqueológicas feitas durante as obras de reabilitação do Castelo de Leiria e da sua área envolvente. Até 30 de julho, às terças e quintas-feiras, serão disponibilizadas nas páginas do Facebook do Castelo de Leiria e do Museu de Leiria as imagens dos vários artefactos arqueológicos identificados.

Innovation Week Live Talks

A organização do Rock in Rio decidiu dar a conhecer virtualmente um pouco do que vai ser a Innovation Week, marcada para o próximo outubro no edifício LACS, em Lisboa. Os diretos serão disponibilizados às quartas-feiras, às 21h00, no Instagram do Rock in Rio. As Innovation Week Live Talks prometem oferecer uma experiência de aprendizagem focada na inovação humana para desenvolvimento pessoal e profissional. Abrangem diversas temáticas, tais como inteligência emocional, mentalidade de crescimento ou produtividade.

Presidente do Politécnico de Leiria Rui Pedrosa presidencia@ipleiria.pt

Os textos e opiniões publicados não vinculam quaisquer orgãos do Politécnico de Leiria e/ou da ESECS e são da responsabilidade exclusiva da equipa do Akadémicos.

Diretora da ESECS Sandrina Milhano dir.esecs@ipleiria.pt Coordenadora do Curso de Comunicação e Media Catarina Menezes catarina.menezes@ipleiria.pt akademicos.esecs@ipleiria.pt


u-Bike

Dois anos de movimento sustentável Texto João Sousa, Luísa Jacinto e Maria Rei Marques

Faz este mês dois anos que as primeiras bicicletas sustentáveis saíram às ruas de Leiria. O projeto U-Bike surgiu com o objetivo inicial de movimentar os docentes, não-docentes e estudantes do Politécnico de Leiria, de forma mais amigável para o ambiente. Nada desmoraliza os utilizadores da U-Bike, nem as intempéries. Os utilizadores da U-Bike sentem, no geral, que este meio de transporte trouxe várias melhorias e alterações à sua vida, como acontece com Tiago Gouveia, técnico informático da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (ESTM), que declara ter prescindido de um dos carros para dar prioridade à bicicleta. Susana Mendes, docente da ESTM, tomou a mesma opção, afirmando que não fazia sentido ter um carro parado, já que a bicicleta é suficiente para os trajetos diários entre casa e escola. Tamira Cruz, estudante na Escola Superior de Artes e Design (ESAD.CR), nas Caldas da Rainha, confessa que adora a sensação de andar de bicicleta devido “ao cheirinho, à humidade e às árvores”, mas especialmente por causa da sensação de liberdade que lhe proporciona. Como estudante de Design Gráfico e Multimédia, o transporte dos trabalhos (projetos) é o mais desafiante, mas assegura que basta protegê-los com uma capa para continuar a poder mover-se de bicicleta. À semelhança da estudante da ESAD.CR, também Pedro Costa, coordenador técnico do projeto, considera a bicicleta essencial no seu quotidiano. Faz “questão de andar de fato e ir para as reuniões de bicicleta”, de forma a que “as pessoas percebam que se

está –a– dar

Forças policiais têm novas rotinas Texto Nuno Vieira, Rodrigo Pereira e Ruben Rodrigues

O surgimento da pandemia originou novas realidades em termos pessoais e profissionais para todos. Médicos, professores e até mesmo as forças policiais adaptaram as suas rotinas e responsabilidades para responderem aos novos desafios que surgiram. O alferes da Guarda Nacional Republicana Ricardo Monteiro refere o aumento do empenho dos seus companheiros para fazer respeitar as medidas de segurança sanitária. Para além de seguirem as instruções conhecidas por todos, como lavar as mãos regularmente ou usar máscara, os profissionais da GNR prescindiram do uso da boina, abstiveram-se de cumprimentos sociais que envolvam contacto físico e aumentaram a frequência de desinfeção de balcões, secretárias e viaturas destinadas ao serviço policial. Outra das medidas implementadas foi a redução de equipas em trabalho presencial de duas para uma. Os agentes que

3 pode andar de bicicleta nas nossas cidades” de forma rápida e mais sustentável. De acordo com o site oficial do projeto, a distância total percorrida em U-Bike foi de 158 603 quilómetros. Este indicador significa que os ciclistas conseguiram reduzir as emissões de CO2 em mais de 26 toneladas, até dia 4 de março de 2020. A criação da aplicação U-Bike - IPLeiria Oficial, disponível para Android e iOS, foi algo também pensado e concebido pelo Politécnico de Leiria para complementar a utilização das bicicletas. A aplicação apresenta várias funções disponíveis, desde desbloquear a U-Bike pessoal, comunicar com os operadores de sistema, verificar se as estações para onde o utilizador se dirige têm lugares vagos ou até mesmo encontrar pontos de interesse da zona. Apesar de ser demasiado cedo para fazer alterações na U-Bike, Pedro Costa admite existirem situações a “rever e verificar”. A buzina e as luzes são os elementos que, segundo os utilizadores, mais carecem de melhorias. Susana Mendes diz já ter colocado três vezes um jogo de luzes na sua U-Bike para resolver este problema e usa ainda um apito, pois afirma que não se ouve a campainha. Depois de dois anos da implementação deste novo meio de locomoção no distrito de Leiria, são utilizadas atualmente cerca de 200 bicicletas, num total de aproximadamente 440 utilizadores, cumprindo assim a meta traçada. k

utilizam as viaturas da GNR são obrigados a usar equipamento de proteção individual, de forma a evitar o contágio entre todos. Nuno Rodrigues, sargento-ajudante, destacou o comportamento dos profissionais associados à Guarda Nacional Republicana, elogiando a “constante preocupação” de todos em respeitar as medidas de segurança instituídas. No que diz respeito à conciliação com a vida familiar dos entrevistados, ambos revelam alguma preocupação devido ao risco de contágio que existe. Cuidados como o despir da farda em locais isolados, o tomar banho imediatamente após o momento de chegada a casa e a desinfeção constante das mãos são essenciais para garantir a segurança dos seus entes mais próximos. O tempo em família ainda é uma possibilidade para estes profissionais, embora existam diversos cuidados a ter nas suas interações. O comportamento coletivo é essencial para ultrapassar esta situação e os dois profissionais destacam a responsabilidade assumida pela população e os comportamentos de contenção adotados pelos cidadãos, que são uma contribuição decisiva para ultrapassar a pandemia. k

25 junho 2020

Covid-19 reinventa léxico Texto Laura Melícias, Neuza Santos e Sofia Morgado

A realidade de pandemia em que nos encontramos trouxe consigo a necessidade de reinventar e reapropriar vocabulário usado no dia a dia. Assim, foram-se integrando novas palavras e reformulando outras, como é o caso de “confinamento”, “ventilador”, ou até “paciente zero”, alargando o léxico da Covid-19. A necessidade de alargar e adaptar sentidos da linguagem surge para “etiquetar as realidades e ideias que vão surgindo, para que possam ter vida própria no discurso e facilitar assim a circulação dessas ideias e realidades”, explicita o docente e linguista no Politécnico de Leiria Romain Gillain. Inês Conde, professora na mesma instituição de ensino e investigadora na área da análise do discurso, subscreve esta ideia, admitindo que “o ser humano tem necessidade de encontrar recursos para atribuir sentido às suas experiências, que, por sua vez, lhe permitam quantificá-las, organizá-las, agrupá-las em categorias e torná-las, de algum modo, compreensíveis e geríveis”. A linguagem, nomeadamente a que é usada nas conferências de imprensa diárias, é crucial para atualizar a situação do país face à pandemia. Trata-se de “um veículo através do qual o conhecimento é produzido, distribuído e consumido” e é por isso que, segundo a professora, “a representação da pandemia, em vários suportes e contextos, constitui uma forma reguladora de normalidade, com impactos reais no presente e nas experiências e ações humanas a uma escala global, no presente e num futuro próximo”. Algo a ter em consideração é, também, a maior repetição de palavras já existentes, como “pacientes” e “quarentena”. Romain Gillain explica que tal sucede porque “a maior ou menor frequência de uso de uma palavra depende do maior ou menor espaço dessa realidade ou ideia no mundo real”. Para além de este novo mundo pedir palavras com novas conotações, o vírus impôs uma ideia de mudança social e de reinvenção do quotidiano. Os cidadãos foram transformados em “agentes sociais”, que não só refletem como governam os seus próprios comportamentos, nomeadamente o uso de máscara, os corretos “hábitos de higienização” e os “passeios higiénicos” com distanciamento físico. Por sua vez, o vírus passou a ser conhecido como “inimigo invisível”, sendo-lhe atribuída identidade e personalidade e afirmando-se como perigoso e mortal. Inês Conde esclarece que a operação de lhe dar nomes e características “permite ter a sensação de que podemos lidar com ele racionalmente”. O tempo, neste período de emergência, ganhou igualmente vários significados. Para uns, ficou suspenso, o comércio estagnou e expressões como “o país parou” passaram a ser recorrentes. Para outros, o tempo pareceu não ser suficiente para salvar vidas e garantir a saúde de todos. Especialmente para as famílias, o tempo significou abrandamento e sincronização com os mais queridos e foi utilizado para usufruir com os filhos. Contudo, no meio da ânsia por novidades estatísticas, o tempo também “passou a ser contabilizado ao minuto, na constante atualização do número de casos”, aponta Inês Conde. k


4 atualidade

Jornalismo em tempo de pandemia KAPA O Akadémicos entrevistou quatro jornalistas e tentou perceber de que forma é que os últimos três meses de crise sanitária influenciaram o setor de informação. Olhares de quem trabalha em contexto regional, nacional e internacional. Texto Liane Reis e Tânia Ferreira

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té ao início da atual crise sanitária, as reflexões sobre o estado do jornalismo apresentavam um ponto mais ou menos consensual: o jornalismo está em mudança, já partiu do seu antigo porto seguro, mas ninguém sabe concretamente para onde vai. Se as previsões em relação ao futuro do jornalismo são muitas (novas narrativas e fontes de financiamento, mais imagem, novos dispositivos de comunicação, etc.), o certo é que o prazo de validade desta ideia de procura de um novo porto seguro ainda não expirou e os seus pilares continuam válidos. Esta temática, que vem monopolizando a atenção dos demais agentes do setor da informação, cruzou-se, nos últimos três meses, com uma outra questão que até pode influenciar a procura da estabilidade futura: o impacto que a pandemia da Covid-19 vem exercendo sobre o jornalismo e as suas rotinas noticiosas.

Em Portugal, como no resto do mundo, os jornais, os sítios noticiosos, as televisões e as rádios reduziram a presença de jornalistas nas redações para cumprir as regras de distanciamento social. Os jornalistas têm saído menos para a rua, equacionando-se os trabalhos com maior ponderação. Evitar o contacto presencial com as fontes de informação implica, no caso da rádio ou da televisão, uma menor qualidade do áudio e da imagem e dificulta a interação. Não havendo contacto direto e físico com as fontes, a possibilidade de aprofundar os assuntos diminui. E, provavelmente, a qualidade da informação apurada também. No limite, obriga a uma mais atenta verificação da informação por parte dos jornalistas. Por outro lado, assistiu-se a um aumento do ritmo de trabalho e da produção de conteúdos. Não há dúvida de que entre o teletrabalho e a precaridade laboral circulam outras tantas questões que afetam, atualmente, os jornalistas e o mundo da informação. Das novas tecnologias ao teletrabalho Até que ponto é que a crise pandémica mudou mesmo a forma de trabalhar dos jornalistas? O impacto sentiu-se de igual forma em todas as redações? No caso das novas tecnologias, por exemplo, instrumentos fundamentais para minimizar os efeitos da distância social, as opiniões convergem ao considerar que as rotinas já não dispensavam, no período pré-pandemia, as suas potencialidades. Para Ana Matos Neves, jornalista da Lusa e correspondente em Bruxelas, as mudanças forçadas pela pandemia não exigiram grande adaptação do ponto de vista pessoal. O impacto sentiu-se mais ao nível do trabalho em equipa: “Assim que o governo belga anunciou medidas restritivas para o combate à pandemia, a delegação da Lusa em Bruxelas começou a funcionar exclusivamente em teletrabalho. Foi necessário adaptarmo-nos enquanto equipa ao facto de comunicarmos apenas por meios digitais (e-mail, WhatsApp, telefone). Acresce que tivemos de adaptar a forma como contactamos com as fontes e como acompanhamos os eventos, com recurso à tecnologia”. Da mesma forma, Jacinto Silva Duro, jornalista do Jornal de Leiria, refere que não houve grandes mudanças na forma como o trabalho se realiza, a não ser as idas à redação, que deixaram de ser obrigatórias: “A principal alteração consistiu na substituição das reuniões físicas na redação pelo uso de meios online (Zoom, WhatsApp). Nunca tivemos um distanciamen-

to social, o que nós tivemos, temos e todos têm é distanciamento físico”. Jacinto Silva Duro constata que a essência do trabalho se mantém, pois continua a andar-se “com o computador, telemóvel e máquina fotográfica às costas, com horários de trabalho muito alargados e difusos”. O teletrabalho aplica-se, também, aos jornalistas e Anselmo Crespo, subdiretor da rádio TSF, considera que a principal vantagem em tempos de confinamento e distância social consiste na “demonstração clara de que os jornalistas e as empresas de comunicação social se conseguiram adaptar a uma nova realidade, continuando a cumprir a sua principal missão – informar –, mas a partir de casa”. Organização do trabalho e informação online No jornal Região de Leiria, a reunião de preparação de cada edição processa-se, agora, em videoconferência. Carlos Almeida, jornalista do semanário, salienta que, depois desse momento, começa a troca de e-mails, telefonemas e mensagens via Messenger entre os jornalistas. A versão online do jornal é articulada da mesma forma, mas a um ritmo diário. As rotinas de trabalho, afirma, mantiveram-se semelhantes, embora adaptadas a um contexto de teletrabalho. Talvez se tenha notado um “maior investimento pessoal dos jornalistas, atendendo à importância de informar o público”. O cenário é o mesmo no outro semanário da cidade do Lis. “Não houve uma grande modificação a não ser o local onde nos sentamos: no sofá de casa. De resto, continuou tudo praticamente igual, com partilha de ideias, avaliação da pertinência dos temas, troca de contactos, divisão de trabalhos, etc.”, assevera Jacinto Silva Duro. A mudança mais significativa no Jornal de Leiria incidiu na dinâmica da informação online e daquela em formato impresso, uma vez que os profissionais mais vocacionados para a segunda tiveram de se adaptar rapidamente ao primeiro modelo. O trabalho de equipa foi fundamental numa redação constituída por oito elementos, onde as escalas de serviço apenas se processam no contexto da informação online. “Havia jornalistas mais vocacionados para o online que tiveram de ensinar os restantes a operar nesse formato. Apenas temos escalas de serviço para o online. Cada um de nós, após os dois primeiros meses de confinamento, onde houve duplas de trabalho, tem de fazer turnos de seis horas, ao mesmo tempo que faz o trabalho normal para a edição em papel”, assegura Jacinto Silva Duro. As rotinas de um correspondente no estrangeiro são, no entanto, diferentes e esse fator decorre, sobretudo, do meio onde se desenvolve a atividade. Em Bruxelas, por exemplo, o trabalho da delegação da Lusa “é muito rígido em função da agenda das instituições europeias, e isso não mudou”, sublinha Ana Neves. A antiga estudante do Politécnico de Leiria nota, porém, que em tempos de pandemia existe mais imprevisibilidade nessas rotinas: “Acabamos por nos organizar dia a dia e, por vezes, hora a hora, tendo em conta essa agenda, que inclui, agora, reuniões por videoconferência e conferências de imprensa à distância por meios digitais, entrevistas através de plataformas como o Zoom, ou por telefone, e reportagens em moldes semelhantes”. As novas tecnologias possibilitam “um novo normal”, como refere Anselmo Crespo, aludindo ao facto de que nunca, como agora, “se fizeram tantas videoconferências, se trocou tantas mensagens escritas e se recorreu a tantas aplicações diferentes para coordenar o trabalho diário”.


5 Do ponto de vista das escalas de trabalho, na TSF, houve a “necessidade de alocar quase toda a redação a tratar um único tema, ainda que cada um na sua área”. Mas a maior alteração decorreu do teletrabalho e da preocupação em proteger a saúde dos trabalhadores. “As equipas tiveram de se habituar a trabalhar com pessoas na redação e outras em casa, com uma rotatividade muito maior. Pessoas que não editavam passaram a editar, enfim, foi necessário fazer mudanças de monta”, afirma Anselmo Crespo. Imprevisibilidade, aumento da informação e noticiários monotemáticos A imprevisibilidade e o aumento do volume de informação parecem ser alguns dos elementos mais diferenciadores do atual período de crise sanitária, com relevante impacto na vida daqueles que fazem chegar as notícias ao público. Ana Neves não tem dúvidas em afirmar que a produção diária da agência Lusa quase triplicou e que mais de metade do que acontece num dia não está previsto. Para a correspondente, a duração dos eventos em Bruxelas é outra consequência do atual momento que vivemos: “Em abril, tivemos uma reunião do Eurogrupo que durou mais de 16 horas, espaçadas entre diferentes dias. Este tipo de encontros decorre à porta fechada e as informações são dadas aos jornalistas pelos porta-vozes ou na conferência de imprensa final”. Ana Neves nota que “tem havido uma necessidade de reforçar os diferentes horários dado o volume de trabalho”, apesar de admitir que esse é um cenário difícil em redações pequenas e com poucos jornalistas. A agência Lusa, sustenta, tem tido “um importante papel nesta matéria, uma vez que constitui um suporte para muitos meios de comunicação social neste período mais difícil”. Anselmo Crespo destaca, por sua vez, que o aumento exponencial da procura de informação indica que “as pessoas confiam mais nos jornalistas do que nos post do Facebook, mesmo aquelas que passam a vida a dizer mal do jornalismo que se faz em Portugal”. O jornalista da TSF considera que, em tempos de pandemia, ficou claro que as pessoas confiam nos jornalistas. O sentimento de urgência informativa provocado pela crise sanitária e, sobretudo, por algo desconhecido, além do grau de incerteza que ainda domina a sociedade, alimentam, na opinião de Carlos Almeida, esse aumento exponencial da procura de informação. “O vírus viralizou a busca de notícias. Informar perante um novo e desconhecido fenómeno implica estar atento a todo o tipo de informações que o possam ajudar a explicar. Penso que, agora, a curva da procura de informação achatou”, sublinha o jornalista do Região de Leiria. A constatação de que, no período de confinamento, se registou um pico de informação, já normalizado em função dos fluxos pré-estado de emergência, é uma observação igualmente partilhada por Jacinto Silva Duro. Porém, no Jornal de Leiria, a produção online sofreu alterações que parecem ter chegado para ficar: “A rotina de produção para o online e o esquema de escalas de serviço sete dias por semana ficaram estabelecidos. Já não haverá retrocesso. Aumentámos o fluxo de informação dos concelhos do Norte e do Sul do distrito de Leiria, além dos da Alta Estremadura, que é a nossa área de cobertura principal”. Mas o aumento de informação não apresenta um caráter uniforme, é proporcional ao pulsar da sociedade. Logo, se existem setores da vida social que reduziram ou encerraram por completo a atividade, então essa tendência tem impacto no fluxo informativo, que

é menor ou quase nulo, como se verificou no desporto e na cultura. Áreas como os apoios sociais e, sobretudo, os cuidados de saúde e tudo o que está relacionado com a dinâmica da pandemia (números de casos, contágios, equipamentos, etc.) são as grandes responsáveis pelo aumento da produção noticiosa. A outra face do pico informativo relacionado com a pandemia remete, também, para noticiários e coberturas jornalísticas monotemáticas. Durante quase dois meses, todo e qualquer assunto acabou por estar relacionado com a pandemia. Na opinião de Anselmo Crespo, a razão é simples: “Sob qualquer critério de notícia a pandemia era o tema mais importante. E, não só as pessoas mostravam uma enorme apetência por informação sobre o vírus, como é obrigação do jornalismo – enquanto serviço público – informar sobre um tema que mudou as nossas vidas de uma forma tão radical”. Mas, tal como o fluxo de informação parece estar a regressar ao níveis pré-pandemia, também as grelhas informativas monotemáticas estão a esgotar o seu prazo de validade. Como afirma Jacinto Silva Duro, “o público está cansado desse tema e anseia por coisas novas e por uma certa normalidade”. Insistência na reflexão O mundo digital já tinha obrigado os jornalistas a estarem sempre ligados, algo que a pandemia acentuou em determinadas áreas que normalmente não mereciam tanta atenção. Mas a principal conclusão que se retira deste período de crise sanitária consiste, como nota Anselmo Crespo, na progressiva diminuição do tempo de reflexão para escrever uma peça jornalística, cruzar e confirmar testemunhos, aprofundar outras fontes e assuntos. “Isso somado à escassez de recursos humanos nas redações, torna tudo ainda mais difícil. Como é que isso se resolve? Quando as pessoas perceberem que a informação é essencial em democracia. E que tem que ser paga”, sustenta o subdiretor da TSF. Carlos Almeida defende, por outro lado, que não só o processo jornalístico mudou como também a realidade reportada, isto é, o objeto das suas narrativas. E acrescenta que se tornou evidente que informar é uma tarefa dependente e em estreita ligação com uma preparação ética que extravasa a mera publicitação de factos.

25 junho 2020

“As fontes mudaram, a qualidade da informação também. Não só foi mais difícil obter informação sobre uma nova realidade, como se tornou necessário estar bem ciente da necessidade de seguir códigos deontológicos associados à profissão, para não ceder à pressão do medo e da emotividade, própria destes contextos”, refere o jornalista do Região de Leiria. A questão da componente ética e deontológica adquire, de facto, pertinência no momento em que o público parece cada vez mais colocar a questão da velocidade noticiosa no mesmo patamar da qualidade da informação reportada. Mesmo se uma franja relevante de leitores considera o imediatismo um valor hegemónico, Jacinto Silva Duro garante que outros tantos segmentos de público querem “temas bem tratados, bem escritos, bem verificados, bem interpretados e bem contextualizados”. No fundo, “querem saber mais do que o primeiro impacto”, querem “coisas com as quais se identifiquem, querem ler histórias de pessoas”. Este tipo de audiência mais exigente coabita, efetivamente, com uma outra mais orientada pela velocidade do online, que “não lê ou deturpa o que lê, quando lê, ou que nem sequer sabe que o que lhes aparece no feed do Facebook, LinkedIn, Twitter ou Instagram”, afirma Jacinto Silva Duro, acrescentando: “A preguiça intelectual, num tempo de tanta informação, é uma constante”. Uma outra perspetiva que combina duas realidades, a do jornalista profissional e a do jornalista cidadão, é a que mais chama a atenção da correspondente da agência Lusa. Para Ana Neves, os jornalistas não só têm de reportar a aplicação de medidas restritivas do ponto de vista social e sanitário, como têm de as cumprir. “Os jornalistas estão a viver esta crise sanitária e económica num duplo papel: enquanto profissionais e enquanto cidadãos. Diria que o principal desafio reside aí. Mesmo que tentemos ‘desligar’, por vezes é difícil exatamente por esta dualidade de papéis”, comenta a jornalista responsável pela cobertura de assuntos europeus. No final, ficam as marcas de um tempo singular, quer do ponto de vista pessoal como profissional. “Experiência única”, “admirável telemundo novo”, “semelhante aos incêndios de 2017” ou “muito desafiante e gratificante” são algumas das expressões utilizadas para definir a experiência de um jornalista em tempo de pandemia. k


6 de ansiedade e pode correr mal... Por isso… nem quero sequer estar a pensar numa coisa destas. Eu acho que nem me metia numa coisa assim. Se acontecesse, iria correr muito mal, era só isso.

Na internet toda a gente tem SENTADO a hipótese NO MOCHO de tentar João Castro Ilustrador fazer guiões. Ter algum programa… Gostava de estar envolvido nisso. Ilustração, eu acho que vou fazer sempre, porque já ganhei o gosto. Mas se eu acho que daqui a 10 anos vou estar a fazer isto? Provavelmente não.

Tem 21 anos, nasceu no Porto. Com formação em multimédia, acabou por abrir uma loja de vinhos na baixa da cidade, o negócio que lhe permite pagar as contas. No tempo que sobra, dedica-se à ilustração e à sátira do quotidiano. João Castro, mais conhecido no Instagram por by.castro, tem hoje mais de 30 mil seguidores, mas não gosta de selfies, nem que lhe chamem influenciador.

Achas que é devido aos temas que trabalhas que preferes não revelar a tua imagem? Acho que não. Não é de todo. Eu nunca fui muito de me fotografar, mesmo quando era novinho. Nunca fui muito de expor a minha cara na Internet. Quando eu criei o Instagram sempre foi com o objetivo de expor os meus trabalhos. Desde que tenho esta conta, há três ou quatro anos, acho que só tive uma foto minha, por isso… obviamente que gostava que estivesse ligado a mim e se tiver de me mostrar, eu mostro. Mas irá ser sempre coisas pontuais, nunca tipo uma selfie. Também acho que as pessoas estão mais interessadas em saber o que eu faço do que na minha pessoa.

Achas que o Instagram, através da internet, é a solução ideal para quem é tímido? No geral, eu não sou uma pessoa muito tímida. Isto também pode ser uma forma de me proteger. Na internet, sim, toda a gente tem a hipótese de tentar. De certa forma é tudo uma estratégia de marketing, seja ou não Texto João Sousa, Maria Rei Marques e Luísa Jacinto pensada, mas há pessoas de quem gosto, artistas e múIlustrações instagram.com/by.castro sicos, que se expõem demasiado e o interesse começa a desvanecer. Eu gosto muito do Bruno Nogueira, nunca foi uma pessoa de se mostrar muito, ou seja, sempre que ele aparece, que está a falar, O que querias fazer quando eras mais novo? programas de rádio, o que for, Pensava em ser biólogo. Sempre gostei de animais e do eu tenho curiosidade em saber mar. Também quis ser jogador de futebol e essas coi- o que ele vai dizer, mas há pessas todas. Queria fazer alguma coisa relacionada com soas que estão constantemente o futebol ou mesmo só com desporto. Depois andei a comentar e a mostrar-se com muitos anos sem saber o que fazer, também sempre fotos, a expor-se a nível mediágostei de escrever, ou seja, letras. Aliás, se não tivesse tico, o que se torna aborrecido. ido para Artes teria ido para Letras. Fui para Artes. Foi aí que as coisas começaram a crescer para mim. Sem- Se te convidassem a entrar numa pre tive o gosto de criar coisas, mesmo quando ainda sala com os teus 39 mil seguidores, não sabia como as executar a nível técnico. como é que te apresentarias? Não entrava. Tinham de me pagar bem pago e, mesmo Sonhas em fazer ilustrações para o resto da tua assim, não sei, mas eu não entrava… Imagina, quando vida? Que mais gostarias de fazer? tu segues uma pessoa, esperas sempre alguma coisa Não me vejo a fazer isto para o resto da vida. Isto pode dele e eu não consigo viver com isso, com a preocuabrir portas para outras coisas. Gostava de poder fazer pação de as pessoas viverem à espera de algo de mim. outras coisas… Não me importo de passar mais uns anos Para já, não conseguia estar a falar para 39 mil pesa fazer desenhos, mas gostava de ter a oportunidade de soas, não faz parte de mim. Depois, eu sofro um pouco

Estás no Instagram, não usas o Facebook. Equacionas outras formas de partilha do teu trabalho, mais diretas no contacto com o teu público? Não para os 39 mil, mas pequenos workshops, coisas mais diretas ou outras formas de entrares em contacto? Eu já fui convidado para algumas coisas, para workshops, mas para já, não. Nunca aceitei porque não me sinto confortável a aceitar essas coisas. Eu ando a pensar fazer uma exposição algures no final deste ano, se tudo correr bem, mas não é um objetivo prioritário. Também temos agora o vírus. Neste momento também não sei como é que isto vai correr e da forma que vai crescer, se é que vai crescer. Também há que ter noção e fazer as coisas com tempo. Fui a Leiria porque achei que era uma coisa interessante e nova. Se acontecerem futuramente outras coisas em que eu ache que possa ser benéfico, não hesitarei. Se eu achar que é só por exposição, não vou aceitar. Não é uma ambição tua teres 100 mil seguidores até ao final do ano? Não. Se tu quiseres ter um crescimento mais rápido, tu fazes publicações que resultam. Iria falar de temas que resultem, disto e daquilo. Faço as coisas que acho que têm piada para mim, nem sequer penso se vai resultar. Atenção, eu não vou ser hipócrita, há coisas que eu faço que sei que vão resultar, mas isto é da ideia. Tenho uma ideia e depois pode ou não resultar, mas a maioria das coisas que faço é por gosto, não por números. Quando só se pensa em números, o trabalho piora e o trabalho piorando nunca vai dar números. Há quantos anos estás no Instagram como ilustrador, como By.Castro? Com o nome “By.Castro” há meio ano, há 7 meses que criei este nome, mas eu antes era… já nem sei como me chamava. Sempre utilizei o Instagram para expor trabalhos meus, tudo a nível de edição, nunca criei para me expor como pessoa, nem tenho Instagram pessoal, nem nada dessas coisas. Combinar a escrita com a ilustração é um exercício lúdico, espontâneo, ou exige preparação, dedicação e trabalho aturado? Quando comecei a fazer ilustrações andei a tentar perceber o que poderia resultar com o Instagram. Eu trabalho com o rato, para o trabalho ficar consistente. Tudo o que faço é com o rato, o que é um bocado esquisito. Por isso, tentei fazer a coisa esteticamente mais simples e ao mesmo tempo mais apelativa para as pessoas, porque um utilizador normal no Instagram não quer perder tempo a olhar para uma imagem e passar 30 segundos a percebê-la. No início, a nível criativo, foi um bocado frustrante. Hoje em dia, já não, já é uma coisa muito natural. Neste momento é fácil para mim desmontar um texto complexo e grande numa ideia simples para uma ilustração. Obviamente que eu compreendo que para quem é um ilustrador a sério (que eu nem me considero um ilustrador a sério) que possa ser um bocado chato ver o meu trabalho, porque são pessoas que de facto dedicam muito tempo à ilustração, que é uma coisa que eu não faço. Eu dedi-


7 co mais tempo à conceção da ideia do que propriamente à execução da ilustração. Como é que te inspiras para cruzar a comédia com a sátira social e até o traço desenhado com as tuas palavras. Falaste no Bruno Nogueira, que outras referências tens? Cá em Portugal tenho poucas. Não por achar que os portugueses não têm qualidade, mas porque sempre tive interesse no que se faz lá fora. O mercado é maior, há mais pessoas, há mais concorrência e, havendo mais concorrência, a qualidade tem de subir. Cá, gosto muito do Bruno Nogueira e do Ricardo Araújo Pereira. São as pessoas que eu tenho como inspiração. Lá fora, a nível de ilustradores, gosto muito do Joan Cornella, o expoente máximo, para mim, é ele e depois tenho Bill Burr, o Louis C.K… Humoristas, basicamente. Num perfil que foi publicado no P3, do jornal Público, referiste que gostas de ‘’pegar em situações estereotipadas e muito generalizadas’’. Desconstruir tabus, o que significa isto para ti? O que eu faço, muito resumidamente, é pegar numa coisa que as pessoas fazem, pegar na cena mais cliché de todas e expô-la. Eu não acho que estou a desconstruir nada, só acho que estou a expor a coisa de uma forma mais ligeira, de certa forma, a satirizar a situação. É isso que eu faço. Pegar em situações normais, que toda a gente faça, e comunicar isso da forma mais simples possível, para as pessoas perceberem que de facto somos todos a mesma coisa… somos todos a mesma coisa. Então os teus 39 mil seguidores não te fazem achar que és 'o maior'? Podem existir pessoas, que possam ou não achar isso, mas isso é problema deles. A minha atitude de agora é exatamente a atitude que eu tinha há três anos. Eu continuo o mesmo que era antes. Não sou influencer, odeio que me chamem isso. Hoje em dia, o que importa é ‘’parecer’’. Por isso é que eu concordo, apesar de achar que não vai andar para a frente, que o Instagram devia retirar os likes, para que as pessoas olhem para o trabalho e não para os números. E foi como te disse, as pessoas hoje querem parecer uma coisa, o que é importante, o conteúdo pessoal, perde-se muito no processo. Faço a minha cena. Quem gostar, gosta. Quem não gostar, não gosta. Independentemente de ter 40 mil pessoas ou 3 ou 4, vou continuar a fazer aquilo que eu ache que é bom. Se as pessoas gostam ou não, é com elas.

25 junho 2020

Eu simplesmente faço. Tento sempre gozar com as coisas, por isso as pessoas não podem ver as minhas coisas como sendo uma coisa ativista. Aquilo que eu faço não é consciencializar ninguém. Se houver quem o faça, ok, mas não é isso que eu quero. Eu quero fazer as pessoas rir e ficarem deprimidas ao mesmo tempo. Percebes? Esse é o meu objetivo, rires e chorares ao mesmo tempo. Mas se eu não fizer isso, ok na mesma. Ninguém me paga para isto. Então e como é ser ilustrador em Portugal? É muito mau, mas não é só ser ilustrador, é ser tudo. Não há apoio? Achas que os portugueses apoiam a tua arte? Eu não me posso queixar. Sei que neste momento tenho muito. Há pouca gente que tenha este engagement. Mas eu não posso olhar para mim, tenho de olhar para quem não tem, ou seja, para quem tem menos. Se para mim é difícil, para essas pessoas também é difícil. A culpa não é dos portugueses. Eu faço uma t-shirt que custa 25€, imagina, eu não posso vender t-shirts a 10€. E quem é a pessoa que vai dar 25€ por uma t-shirt? Não vão dar, porque não têm poder económico. Muitas dessas pessoas queriam comprar ou gostavam de ajudar, mas não têm como. Tenho noção que viver da ilustração é difícil. Viver da arte é difícil, ponto. Se eu vivesse da ilustração ia estar sempre muito preocupado no final do mês, percebem? Como é que é lidar com o público? De certeza que já te chamaram muitas coisas ou te tentaram intimidar? Como é lidar com isso? Em posição fetal na cama, a chorar. Desligas do insulto? Não, não. Choro mesmo. Deito-me na cama a chorar. Debaixo do duche, de vez em quando, mas sim, a chorar eu resolvo estas coisas. É o que é. Eu tento ser forte, mas não consigo. Estou a brincar. Simplesmente não ligo. Antes ligava, antes ligava muito até, ficava a pensar “porque é que me fizeram isto? Eu até sou bom rapaz”, mas hoje em dia… fiz uma cena a gozar com a Sagres, recebi ódio e disse “estas pessoas estão a dar ódio por uma coisa tão estúpida como isto, eu não posso ligar a estas coisas”. Acho que foi aí que deixei de ligar ao que me dizem.

Como é que surgem as ideias para as tuas publi- Falaste, no início, que podia haver a hipótese de cações? fazeres uma exposição. Que outros projetos tens Falo de temas atuais. Tento conciliar com as minhas para o futuro? opiniões. A nível criativo, costuma ser algo um bo- Ando a pensar em juntar alguns ilustradores… um cado espontâneo, mas há dias em que eu estou sem ou dois e fazer um livro. Mas se calhar era só para ideias. Ainda assim, tenho coisas apontadas. Escre- mim, sou muito egocêntrico [risos] e então fica para vo muitas coisas no telemóvel. Se achar alguma coi- mim. Estou a brincar, mas eu gostava de fazer um sa engraçada, anoto e depois mais tarde vejo e, se livro. Gostava de fazer um minilivro, tipo 12/13 págostar, faço alguma coisa sobre isso. ginas, uma coisa pequena. Já tive o convite e já tive a ideia de fazer com um ou outro. Tenho muita diQual é a tua opinião sobre o papel cívico das tuas ficuldade em trabalhar com pessoas e com buroilustrações? Podem, ou não, intervir na sociedade? cracias. Por isso, se realmente achasse que consigo Eu espero que nunca intervenham, era um péssimo trabalhar com a pessoa e que o que a pessoa faz não sinal. Não quero, nem olho para isso sequer. Há pes- destoa muito daquilo que eu faço, ok. Se não, irá ser soas, como por exemplo o Diogo Faro, que abordam sozinho. Era uma coisa que eu gostava mesmo de temas e dão a sua opinião e são muito mais coerentes. fazer. Fora isso, não sei, não tenho planos. k

White Lines Ibiza com um travo português

kultos Texto

White Lines é a nova série de suAndré Silva cesso da Netflix produzida por Carolina Frade Álex Pina, também criador de A Francisco Constantino Casa de Papel e Vis a Vis. Para além Miriam Tormenta de contar com a atriz Laura Haddock, o elenco é composto por alguns portugueses, como Nuno Lopes, que interpreta uma das personagens principais, e, assumindo papéis secundários, Paulo Pires e Rafael Morais. A série não tem sido alvo das melhores apreciações dos críticos, contudo, conseguiu chegar ao primeiro lugar do top diário de visualizações em países como Portugal, Áustria, Rússia, Alemanha, Índia e Arábia. White Lines estreou em maio, contém dez episódios, cada um com aproximadamente 55 minutos, e um dos segredos da sua popularidade no mercado mundial de séries pode bem ser a participação de atores de várias nacionalidades. A narrativa passa-se em Ibiza, para onde Zoe (Laura Haddock) decide viajar em busca de respostas ao mistério que rodeia a morte do seu irmão mais velho Axel (Tom Rhys Harries), um DJ famoso. Longe da sua vida calma em Manchester, é na ilha espanhola que encontra os antigos amigos do irmão, num cenário de disputas, festas e droga. Lá, cruza-se com Boxer, o chefe de segurança da família Calafate, uma das mais poderosas de Ibiza, interpretado por Nuno Lopes, e um importante elemento para o desenrolar da história. Apesar das apreciações medianas dos críticos em relação à série, a prestação do ator português não tem passado despercebida, chegando a ser destacada pela maioria dos especialistas. A preparação do ator para o papel, que, de acordo com entrevista à revista New in Town (NiT), incluiu dezenas de aulas de castelhano e inglês, além de treino no ginásio, parece ter compensado. No global, a série apresenta vários motivos para ser interessante, desde os locais paradisíacos e as noites mágicas que Ibiza oferece, até aos próprios atores e à premissa da história. Contudo, no desenrolar dos acontecimentos, a narrativa torna-se confusa, deixando em certos momentos o espectador “perdido”. A fragilidade emocional da personagem principal, Zoe, não ajuda neste processo, sendo difícil a quem assiste rever-se e sentir empatia perante os seus comportamentos e experiências. Além disso, a série adota uma perspetiva extrema e incoerente da vida dos moradores em Ibiza, generalizando imagens pouco realistas de como é viver nesta ilha, uma vez que a retratam como sendo um local de traficantes de droga. k


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família

Parentalidade em tempos de crise Aprender fora

Texto Laura Melícias, Neuza Santos da sala de aula e Sofia Morgado

Últimas

A Unidade de Ensino a Distância (UED), do Politécnico de Leiria, Texto disponibiliza uma Margarida Policarpo plataforma de curMariana Gabriel sos online abertos, Tiago Ribeiro a UP2U, sobre diversos temas. Os cursos disponíveis na plataforma são totalmente gratuitos e podem ser usufruídos em horários e locais livres. Os cursos, “eProfessores do presencial para o online”, “Gestão de tempo”, “Ansiedade quem és tu?”, “Como cuidar da saúde mental”, entre outros, estão abertos a toda a comunidade académica do Politécnico de Leiria em up2u. ipleiria.pt. Curso de Suporte Avançado de Vida A Escola Superior de Saúde do Politécnico de Leiria, em parceria com a Ocean Medical, criou o curso de Suporte Avançado de Vida (SAV), que decorrerá no Campus 5 (junto ao Hospital de Santo André), no Centro de Simulação Avançada, e tem como objetivo geral o desenvolvimento de competências em reanimação cardiopulmonar (RCP). Tem a duração de 16 horas, divididas por dois dias, com um valor de inscrição de 390€ e destina-se a estudantes ou licenciados em Medicina e Enfermagem. Os cursos irão decorrer em três períodos distintos: 20 e 21 de julho, 21 e 22 de setembro e 23 e 24 de novembro de 2020. Ações COST Foram aprovadas recentemente 45 novas Ações COST, estando a ser recolhidas manifestações de interesse para integrar o Comité de Gestão destas novas ações até dia 30 de junho. A European Cooperation in Science and Technology (COST) tem como missão apoiar a criação de redes de cooperação transnacional entre investigadores em toda a Europa, para que de uma forma livre, aberta e em conjunto desenvolvam as suas ideias e iniciativas. Estas redes, denominadas COST Actions, possibilitam avanços no desenvolvimento do conhecimento científico e a capacitação dos seus participantes. Para mais informações consultar a página do site da FCT dedicada à COST: https://www.fct.pt/apoios/cooptrans/ cost/index.phtml.pt.

Num período em que o mundo abrandou o ritmo em prol dos cuidados de saúde e em que o confinamento passou a ser obrigatório em muitos países, mudar as rotinas tornou-se essencial. Pais e educadores deparam-se com um desafio novo que antes era mais fácil de gerir: como conciliar a vida profissional e ajudar os filhos na vida escolar durante a quarentena? Em teoria, pode parecer simples estruturar toda a agenda de teletrabalho e auxiliar os mais novos. Porém, é um desafio tanto para aqueles que continuam a ter de se deslocar para o local de trabalho e deixar os filhos em casa, como para os que se adaptaram a uma nova forma de atividade laboral. O medo e o stress passaram a caminhar lado a lado, aliados à insegurança e à incerteza. Helena Camelo, psicóloga clínica, afirma que um dos maiores desafios é “tranquilizar os filhos e passar uma mensagem positiva, ter a capacidade de gerir o distanciamento físico entre avós e netos”. Os progenitores, alerta, acabam, agora, “por se tornar profissionais, professores e pais, além de realizarem todas as tarefas de casa e, por isso, sentem que estão a falhar em todas as áreas.” Magda Rodrigues, educadora de infância e mãe de Anaís, de 3 anos, confessa que as rotinas diárias foram quase todas alteradas, para os pais e para as crianças. “Nas primeiras duas semanas foi muito difícil. Quando estou a trabalhar, não consigo ter tempo de qualidade com a minha filha, nem o pai. Tentamos revezar-nos na atenção que lhe damos”, acrescenta. A creche de Anaís fechou e a instituição tentou manter contacto com as crianças através das plataformas digitais. No entanto, Magda revela que a resposta da entidade “ficou um pouco aquém das expetativas, sobretudo nas atividades sugeridas”.

Apesar das dificuldades iniciais, a gestão familiar dentro de casa começou a tornar-se mais fácil após as primeiras semanas de isolamento. Helena Camelo recomenda que “os pais tentem efetuar uma autogestão entre o casal, através de muita comunicação e compreensão dos limites de cada um. Ao estarem em constante comunicação, partilhando sentimentos, conseguem minimizar situações de stress para a criança e para eles mesmos”. Nas primeiras semanas de confinamento, Magda confessa que se sentia “esgotada”, tendo conseguido, depois, minimizar os efeitos da nova rotina. No início, as “birras” de Anaís eram frequentes, mas após o primeiro mês estabilizaram, como se “tivesse adquirido um novo padrão de comportamentos familiares”, relata a mãe. A dança revelou-se uma boa estratégia para acalmar a pequena Anaís, aliada a momentos de meditação e outras pequenas atividades que ajudam a entreter as crianças. Partos sem apoio familiar Além das preocupações em manter os filhos ocupados e motivados para as aulas, aumentam também as angústias das recém-mamãs ou das que irão entrar em trabalho de parto durante a epidemia. Nos hospitais, as novas regras afastaram o acompanhamento presencial. A segurança da mãe e do bebé está em primeiro lugar, ainda que esse apoio presencial seja fundamental para a estabilidade emocional da gestante. Marta Amado é mãe de Constança de 4 anos e, agora, da bebé Leonor, nascida no passado mês de abril. “O meu maior receio era que tanto eu como a bebé pudéssemos ficar infetadas com a Covid-19, o que levaria ao afastamento das minhas duas filhas”, revela. A falta de apoio da família foi bastante sentida por Marta. Outras adaptações foram necessárias para o procedimento do parto, como a utilização obrigatória de máscara, a diminuição do tempo de internamento, que “foi reduzido de 72h

para 48h” e “o encerramento temporário de alguns serviços, como, por exemplo, o registo de nascimento e a prestação de cuidados de saúde,” afirma. Tal como Magda Rodrigues, também Marta se sente esgotada e declara que anda um “pouco mais frágil, ansiosa e Texto angustiada com as inEunice Rodrigues certezas do futuro”. Inês Mendes A psicóloga HeleYasmine Nicole na Camelo, também especializada em formação de pais, garante que “não é errado [os pais] admitirem que estão exaustos ou cansados” e é “fundamental fortalecer os laços afetivos, de amor, carinho e muita compreensão”. Em Portugal, o momento é de descofinamento, mas com receio do que o futuro reserva. Helena Camelo não tem dúvidas em afirmar que esta experiência irá “refletir-se nas personalidades dos nossos filhos”, ressalvando, ainda, os pontos positivos: “Os pais conseguiram parar o botão de piloto automático, puderam conhecer melhor os seus filhos. Aprenderam a escutá-los e a ler nas entrelinhas”. k

a fechar

InfoPraia InfoPraia é uma aplicação desenvolvida em virtude da pandemia para evitar a afluência excessiva às praias portuguesas. Desenvolvida pela Agência Portuguesa do Ambiente, disponibiliza informação Texto atualizada relativaMariana Lourenço mente à ocupação Mariana Santos das praias através de uma sinalética de cores (verde, amarelo e vermelho). É também possível consultar a qualidade das águas e as características, equipamentos e serviços disponíveis em cada praia. Disponível na Play Store e App Store.

ON LINE

Wattpad Wattpad é uma biblioteca online em constante crescimento, ilimitada em quantidade de livros e histórias gratuitas. Através desta plataforma digital é possível encontrar mais de 10 milhões de histórias dos escritores preferidos do público e milhões de aspirantes a escritores, os quais podem partilhar as suas histórias. A aplicação dispõe de inúmeras parcerias com editoras e empresas dos media, o que cria a possibilidade de as narrativas de sucesso se tornarem publicações físicas.


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