Suplemento integrante da edição nº 4340 de 21 de maio de 2020 do semanário REGIÃO DE LEIRIA. Não pode ser vendido separadamente.
88 Luís Osório Jornalista e escritor
Existe uma necessidade imperiosa de criar formatos inovadores págs. 6 e 7
O NOSSO TEMPO
Em Portugal, com o coração na Venezuela pág. 4 e 5
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Na Venezuela é possível visitar o Salto Ángel (nome nativo Parekupa-meru), a queda de água mais alta do mundo, com 979 metros de altura. Gerada pela queda do rio Churún, esta monumento natural situado no sudeste da Venezuela, próximo da fronteira Brasil-Guiana, integra o Parque Nacional de Canaima, constituído em 1962 e declarado Património da Humanidade pela UNESCO, em 1994. Serviu de inspiração ao filme “Up – Altamente!”, da Disney e pode ser espreitada, de todos os ângulos, mesmo sem sair de casa, através da tecnologia de vídeo em 360º. Basta aceder ao código QR.
A ABRIR
Venezuela
Taxa de crescimento anual: -1,5% (2017)
Nome oficial: República Bolivariana da Venezuela Continente: América do Sul Capital: Caracas Bandeira oficial: Três faixas horizontais de cor amarela, azul e vermelha, com estrelas brancas e um escudo
Religião predominante: Catolicismo Moeda: Bolívar Soberano (BsS) Hino nacional: “Gloria al Bravo Pueblo” Principal indústria: Petrolífera Regime político: Presidencial
Idioma: Castelhano Área: 916 445 km2 (23 estados e 1 distrito federal) Fronteiras: Mar do Caribe (norte), Brasil (sul), Guiana (este) e Colômbia (oeste) População: 31,8 milhões (venezuelanos) (2018) Densidade demográfica: 33,7 habitantes/km2
Fontes Embaixada de Portugal na Venezuela (https://www.caracas.embaixadaportugal.mne.pt/pt/comunidade-portuguesa/ movimento-associativo) Portal Venezuela Tuya (https://www.venezuelatuya.com/sociedad/index.htm) Salto Ángel https://upload.wikimedia. org/wikipedia/commons/3/36/Salto_del_ Angel-Canaima-Venezuela20.JPG
Visitar
NEWS MUSEUM
O espaço dedicado ao universo do jornalismo e da comunicação proporciona uma viagem virtual pela história recente do mundo, contada através da narrativa dos media. É possível olhar de perto objetos como o copiógrafo Gestetner ou equipamentos antigos da RTP, vaguear pelas instalações do News Museum, da sala da NewsTV à Sala da Liberdade de Imprensa, subir de elevador ao terceiro piso e observar a cronologia da história dos media ao longo dos tempos. Disponível em http://www.newsmuseum.pt/ visita-virtual/.
NÃO PERKAS Texto Catarina Nogueira Flávio Costa Inês Ribeiro Mariana Santos
Arte
BoCA BIENAL ONLINE
A BoCA é uma bienal de artes contemporâneas que, de 20 de abril a 30 de junho, se apresenta no formato online. Consiste num projeto multidisciplinar que agrupa performances e filmes de artistas, conversas diversificadas sobre sustentabilidade, pensamento, imaginação e leituras. Haverá muitos convidados e atividades para acompanhar durante este período de distanciamento social. Disponível em: http://bocabienal.org/programa/2020/ Fenómeno
COMO É QUE O BICHO MEXE?
Vale a pena ver ou rever o último episódio de "Como é que o bicho mexe", o programa criado por Bruno Nogueira que, ao longo dos últimos dois meses, animou os serões de um país em confinamento. O episódio final, que chegou a ter 175 mil pessoas a assistir em direto, mostra como uma brincadeira se tornou um verdadeiro fenómeno nacional. No instagram, em @corpodormente.
Diretor Francisco Rebelo dos Santos francisco.santos@regiaodeleiria.pt
Apoio à Edição Alexandre Soares alexandre.soares@ipleiria.pt
Coordenadores Pedagógicos Catarina Menezes catarina.menezes@ipleiria.pt
Marta Oliveira marta.s.oliveira@ipleiria.pt
Paulo Agostinho paulo.agostinho@ipleiria.pt
Projeto Gráfico Leonel Brites leonel.brites@ipleiria.pt
Marco Gomes marco.gomes@ipleiria.pt
Maquetização Leonel Brites
Fátima L. Cardoso fatima.cardoso@ipleiria.pt
Leiria
MERCADO EM CASA
Netflix
WHITE LINES
O Mercado Municipal de Leiria criou uma loja online onde é possível adquirir vários produtos frescos. A compra não deve ser inferior a 1kg por produto. A recolha é efetuada junto à entrada do Mercado de Leiria, num espaço destinado para o efeito. O pagamento é realizado no ato da entrega e as encomendas submetidas até às 12h00 poderão ser levantadas no próprio dia. A loja online coloca à disposição produtos nas áreas do peixe, carne, pão, hortofrutícolas, flores, entre outros. Disponível em: www.mercadodeleiria.pt/loja
Redação e colaboradores Ana Correia, André Silva, Andreia Correia, Carolina Frade, Catarina Nogueira, Cláudia Pereira, Davide Araújo, Emanuel Sebastião, Flávio Costa, Francisco Constantino, Inês Mendes, Inês Ribeiro, Laura Melícias, Luis Trujillo, Margarida Policarpo, Mariana Santos, Miriam Tormenta, Neuza Santos, Nuno Vieira, Rita Figueiras, Rodrigo Pereira, Ruben Filipe, Ruben Rodrigues, Sofia Morgado, Tiago Cação
Já estreou a nova série escrita por Álex Pina, criador d'A Casa de Papel. Com a participação do português Nuno Lopes, que interpreta Boxer, chefe de segurança de uma família notável de Ibiza, a série promete deliciar os fãs do trabalho do guionista, responsável por um dos grandes êxitos internacionais da plataforma de streaming.
Presidente do Politécnico de Leiria Rui Pedrosa presidencia@ipleiria.pt
Os textos e opiniões publicados não vinculam quaisquer orgãos do Politécnico de Leiria e/ou da ESECS e são da responsabilidade exclusiva da equipa do Akadémicos.
Diretora da ESECS Sandrina Milhano dir.esecs@ipleiria.pt Coordenadora do Curso de Comunicação e Media Catarina Menezes catarina.menezes@ipleiria.pt akademicos.esecs@ipleiria.pt
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Universitários contra a pandemia Texto André Silva, Carolina Frade, Francisco Constantino e Miriam Tormenta
ESTÁ –a– DAR
O combate à pandemia trava-se em várias frentes e, no que toca à adaptação ao ensino online, os universitários responderam à chamada. “Universitários contra a Pandemia” é uma iniciativa em que jovens voluntários dão apoio escolar a alunos do ensino básico que ficaram sem o sistema de ensino presencial. Sara Amorim, estudante de Gestão Internacional, Sofia Saldanha, estudante de Política e Relações Internacionais, e Teresa Magalhães, estudante de Economia, todas na Universidade de Warwick, trouxeram para Portugal o projeto que teve origem em Espanha. Por cá, o projeto envolve 161 voluntários e cerca de 65 alunos e pretende mostrar como, juntos, podemos ultrapassar qualquer
A importância da saúde mental em tempo de isolamento Texto Laura Melícias, Neuza Santos e Sofia Morgado
A pressão do distanciamento social e do isolamento é hoje sentida por todos, pelo que é necessário perceber como combater os sentimentos negativos e manter a saúde mental. Desde 2008 que o Serviço de Apoio ao Estudante (SAPE) do Politécnico de Leiria se foca no “desenvolvimento de uma intervenção que permita, entre outros aspetos, ajudar os estudantes a otimizarem recursos de diferentes fontes de suporte social, a evitarem situações de crise e de rutura, a diminuírem vulnerabilidades, a desenvolverem formas de lidar com o stress e a retirarem o máximo proveito das suas opções vocacionais e pessoais”, explica Graça Seco, coordenadora do SAPE. No atual contexto da pandemia da Covid-19, o apoio psicológico aos estudantes desenvolve-se, agora, em três dimensões: Apoio Psicológico e Orientação Vocacional, Orientação e Acompanhamento Pessoal e Social, e Apoio Psicopedagógico dos Estudantes. Luís Filipe, psicólogo no SAPE, descreve a “mudança enorme” no seu ambiente de trabalho, em consequência da transição de uma relação presencial para o contacto online com o paciente. “As consultas estão baseadas na relação entre profissional e cliente e se não estivermos fisicamente juntos há muitas coisas que se perdem, nomeadamente a comunicação não verbal”, menciona o psicólogo. Além destas dificuldades, Luís Filipe aponta questões como a falta de resposta imediata e de confidencialidade, que não é garantida, pois “a consulta pode ser gravada ou alguém assistir”. Estes fatores alteram a dinâmica de trabalho dos psicólogos e “fazem com que um grande número de consultas não demore tanto tempo como no caso presencial”. O contacto
adversidade. Os universitários dinamizam o programa escolar dos alunos de 1º, 2º e 3º ciclos, disponibilizando o seu tempo e competências. Os encarregados de educação destacam sobretudo a disponibilidade dos voluntários em ajudar os mais novos. Para Cristina Belo e o seu filho Mateus, tratase de um projeto “extraordinário, que reúne gerações próximas numa transmissão de conhecimento académico e competências interpessoais, num contexto sem precedentes”. Do lado dos universitários, há satisfação por poder ajudar. Eduardo Loureiro, estudante Gestão na Universidade Católica de Lisboa e voluntário na plataforma, explica o quão gratificantes e descontraídas são as aulas virtuais: “Não é uma aula, não é formal: dizemos piadas, estamos relaxados e ao mesmo tempo aprendemos e desenvolvemos competências comunicacionais”. O processo de participação é simples. Quer os voluntários, quer os pais ou encarregados de educação dos alunos, inscrevem-se na plataforma online e, através dela, são colocados em contacto. k online torna as pessoas mais desconfiadas e tímidas, acabando por encontrar refúgio no email. Em tempos de crise, a também psicóloga do SAPE, Patrícia Pereira, relembra que o papel destes profissionais adquire maior relevância, pois importa “dar resposta à diversidade e heterogeneidade de pedidos dos estudantes”. Os desafios são muitos, a começar por uma comunidade académica que congrega várias nacionalidades. As consultas podem, por isso, ocorrer em diferentes idiomas. Luís Filipe constata que as pessoas, anteriormente em acompanhamento, solicitam agora consultas com mais frequência, enquanto “outras, que inicialmente até diziam não precisar, acabam por querer”. Volvidas as primeiras duas semanas de quarentena, “as pessoas começaram a sentir-se deprimidas, stressadas e ansiosas com a incerteza do que está a acontecer”, adianta o psicólogo. Patrícia Pereira corrobora a ideia do colega, salientando ser essencial “cuidar da saúde mental para eliminar alguns pensamentos mais negativos”. Para contornar a instabilidade emocional potenciada pelo isolamento e distanciamento social, aconselha-se que as pessoas “definam pequenos objetivos para realizar durante o dia e mantenham a rotina”, complementando com pausas para “equilibrar o dia entre tarefas mais exigentes e tarefas mais prazerosas e de lazer”, aconselha a psicóloga. No mesmo sentido, Graça Seco sugere a participação nos cursos online gratuitos criados pelo SAPE, que abordam várias dicas “com o objetivo de disponibilizar algumas estratégias promotoras de autocuidado, tanto ao nível da saúde física como mental”. Nesta fase inicial de desconfinamento e adaptação a novas rotinas sociais, Patrícia Pereira prevê que a sintomatologia dos quadros anteriormente apresentados se agrave, sobretudo os quadros de ansiedade, de depressão e algumas perturbações obsessivas”. Enquanto a medicina não encontra uma solução para o vírus, as novas tecnologias facilitam a comunicação e diminuem o distanciamento. k
21 maio 2020
Covid-19: também é preciso cuidar dos animais Texto Ana Correia, Andreia Correia e Rita Figueiras
Uma das questões frequentes durante a pandemia da Covid-19 respeita aos cuidados a ter com os animais de estimação. Apesar da recomendação de distanciamento social, é necessário passear os animais domésticos. Filipa Loureiro, tutora de um cão, residente em Viseu, diz que não mudou muito a rotina. “Se está muita gente num sítio, tento não ir com ele para lá. Tenho mais cuidado em afastá-lo das pessoas e dos outros animais. Antes de entrar em casa, limpo as patas e o pelo, se estiver molhado de brincar na relva”, revela. Já Ana Lopes, também de Viseu, dona de um felino, diz que o processo não é muito diferente, havendo especial cuidado com a desinfeção e circulação do animal por poucas divisões dentro de casa, dado tratar-se de um gato de rua. Nos passeios higiénicos, é importante ter em consideração alguns cuidados para proteção própria e do animal, principalmente se este mantiver contacto frequente com o interior da habitação. As precauções são semelhantes às que os humanos devem considerar após uma saída de casa. Inês Oliveira, médica veterinária e diretora de uma clínica em Figueiró dos Vinhos, recomenda que se usem toalhitas húmidas à base de clorhexidina para se proceder a uma correta e eficaz higienização. Até à data não existem evidências de contaminação do vírus de humanos para animais de estimação. No entanto, é de realçar que os animais podem funcionar como uma fonte de transmissão do vírus, visto que se poderá manter ativo no seu pelo durante várias horas. Por isso, devem ser tomadas medidas de higiene e distanciamento social relativamente a outros animais e pessoas. Os animais de estimação continuam a receber toda a atenção, mas com o regresso à rotina normal dos seus donos, poderão sentir ansiedade, devido à separação repentina. Alguns dos sintomas passam pela destruição de objetos, excessiva higienização do pelo por parte dos felinos, diarreia, aumento da queda de pelo, perda de apetite e dejetos ou urina pela casa. Inês Oliveira refere que “o ideal seria fazer uma espécie de desmame dessa atenção, de modo a que não houvesse tanto sofrimento na altura de regressar ao trabalho”. No entanto, caso alguns destes sintomas surjam no animal de estimação, a recomendação é de recorrer ao veterinário para evitar que a situação clínica progrida. k
4 VENEZUELA
Regresso em busca de segurança e melhores condições KAPA de vida A pandemia da Covid-19 colocou no esquecimento a crise política e humanitária vivida na Venezuela. Antes deste período de turbulência à escala global, milhares de lusodescendentes já tinham regressado a Portugal, com a esperança de terem melhores condições de vida. Entre eles, muitos são os jovens que tiveram de se adaptar a uma nova cultura, prosseguindo os estudos no nosso país. Texto Inês Mendes
equena Veneza”. É esse o significado do nome Venezuela, dado pelos primeiros colonizadores quando viram construções alicerçadas em estacas, chamadas de palafitas, por cima do rio Maracaibo. Hoje, é na Venezuela que existe a segunda maior comunidade portuguesa da América Latina, depois do Brasil. No entanto, estes números têm vindo a descer. São mais de dez mil os portugueses e lusodescendentes que regressaram a Portugal em consequência da crise económica, social e humanitária que se vive no país do petróleo. Outrora, a Venezuela já ofereceu aos seus emigrantes uma vida confortável, realidade que se alterou nos últimos anos. No presente, o bem-estar que encontraram neste estado da América Latina é apenas uma memória. Muitas são as razões que, conjugadas, levaram a fortes movimentos migratórios para a Venezuela. Enquanto o mundo ocidental ultrapassava uma grave crise petrolífera, na década de 70, a Venezuela revigo-
rava-se e transformava-se numa atração para estrangeiros que procuravam uma vida melhor. Laurinda Domingues e António Gonçalves mudaram-se para a Venezuela em 1970, depois de casarem. Tinham 24 e 26 anos, respetivamente, e uma mão cheia de sonhos. Provenientes de famílias humildes, foi neste país que encontraram uma vida confortável que lhes permitiu criar os três filhos. Cada um conseguiu, também, a possibilidade de adquirir o seu próprio negócio. António era proprietário de uma mercearia, enquanto a mulher detinha uma espécie de drogaria, sempre referida como quincalla. Laurinda Domingues recorda que, naquele tempo, o país era muito desenvolvido em relação a Portugal. “Tinha boas autoestradas, qualquer pessoa podia trabalhar e ganhava muito dinheiro. Havia segurança”, conta. O casal refugiou-se em Calle Real de Montesano, no estado de Vargas. Na altura, era uma cidade paradisíaca, à beira-mar e perto do aeroporto Simón Bolívar. Na rua onde viviam, eram visíveis as favelas construídas ao longo das montanhas. Pouco precisavam de andar para encontrar outros compatriotas no comércio local. “A Venezuela tinha muitos emigrantes. Quem tinha negócios eram, sobretudo, os portugueses, os italianos, os espanhóis e os chineses”. Memórias da revolta popular Foi com a designada década perdida, na América Latina, que as condições de vida na Venezuela começaram a piorar. A escalada de terror começou a aumentar, os saques e roubos tornaram-se uma constante. Passados 30 anos, Laurinda Domingues lembra os dias turbulentos que se viveram em fevereiro de 1989: “Houve um saqueio muito grande, roubavam todos os negócios, maltratavam os comerciantes. A maioria deles ganhou medo e foi embora, como nós. Quem nos guardou foi a Guarda Nacional. Se não fossem eles, tínhamos ficado sem nada.” A proteção das forças da autoridade foi, considera, “um elemento chave, visto que seria uma vergonha permitirem que pilhassem as lojas à frente do posto da guarda”. Naquela rua, só a quincalla de Laurinda Domingues e a loja de outro comerciante português é que se salvaram. “As pessoas que não roubaram naquela noite ficaram sem produtos para comer e fizeram uma fila no dia seguinte, na mercearia do António, para que pudessem levar tudo o que quisessem, sem pagar”, recorda. O português quis conversar com os revoltosos, na esperança de que dispersassem sem grandes tumultos. Com pesar na voz, Laurinda revela
que o marido correu um grande perigo: “Os revoltosos começaram a rodear António, com o intuito de lhe fazer mal. De novo, a Guarda Nacional interveio e evitou o pior, conseguindo escoltar o meu marido para o posto, sem que ocorresse nenhum incidente.” O episódio ditou a vinda do casal para o seu país de origem. Chegaram à Venezuela sem nada e tiveram de sair à força, com menos ainda. Nancy Gomes, especialista em relações internacionais e comentadora em assuntos da América Latina, explica que, “em 1989, a consequente deterioração económica e social na Venezuela traduziu-se no caracazo, uma autêntica revolta popular em protesto pelo aumento dos impostos decretado na segunda Presidência de Carlos Andrés Pérez”. O caracazo resultou em “alguns episódios de vandalismo por parte de alguns setores da população” que, sobretudo em Caracas, se manifestaram devido ao aumento do preço dos transportes e à consequente inflação imposta. A situação foi de tal maneira grave que obrigou à intervenção do Exército, terminando com essa onda de tumultos através da violência e de um banho de sangue. Suspeita-se que tenham morrido milhares de pessoas. A partir da segunda metade dos anos 80, abrandou significativamente o número de emigrantes portugueses a escolher a Venezuela como país de destino. A também investigadora do Observatório de Relações Exteriores (Observare), da Universidade Autónoma de Lisboa, contextualiza esse fluxo: “Não é que a Venezuela deixasse de ser atrativa para os portugueses, mas, nessa década, Portugal também aderiu à Comunidade Europeia, em 1986, e o projeto Europa dava outros incentivos à emigração portuguesa”. Saída forçada De uma geração mais jovem, Mariana Benítez, 45 anos, recorda a sua infância com um sorriso e uma certa nostalgia. “Vivia no paraíso”, em Puerto Piritu, uma cidade situada na costa, banhada pelo mar. “Naquela altura, a insegurança era muito menor do que agora. Mesmo muito menor. Ainda podíamos brincar nas ruas sem grande perigo”, lembra. Maria Benítez, o marido e as duas filhas fizeram parte dos cerca de quatro milhões de venezuelanos que, desde 2015, tiveram de abandonar o país. Saíram em 2017, deixando os seus parentes para trás. Não foi
5 uma decisão fácil, mas foi necessária. “Os últimos meses na Venezuela foram os mais complicados, mas para comprar comida”, refere. Conseguir bens de primeira necessidade é, como conta, um desafio para a população venezuelana. A única opção que têm é ficar horas em filas à frente de supermercados e mercearias, à espera que chegue a sua vez para poderem comprar os bens essenciais para a sobrevivência. Muitas vezes, a espera é inglória e são obrigados a voltar para casa sem nada nas mãos, porque os supermercados esgotaram todos os seus produtos. “É a lei da sobrevivência”, assegura. Para fugir ao caos e à instabilidade que se tornou insuportável, Mariana Benítez veio, em 2017, com a família para Pombal, no distrito de Leiria, onde tem parentes. De início, ficaram a viver em casa de conhecidos, mas rapidamente Mariana e o marido conseguiram arrendar um apartamento e arranjar trabalho. “A adaptação foi progressiva. A parte mais complicada foi o inverno. Esse foi o primeiro choque”, afirma. A diferença da língua, que ao início era uma dificuldade, cedo foi ultrapassada, e a família já se habituou ao português. Apesar disso, o castelhano continua a estar muito presente no quotidiano familiar. Uma das maiores preocupações de Mariana Benítez enquanto vivia na Venezuela era zelar pela segurança das filhas. Foi-lhes sempre permitida uma vida normal enquanto adolescentes. No entanto, os cuidados eram redobrados. As saídas à noite eram uma inquietude. “Com que tranquilidade uma mãe permite que a filha saia livremente para uma festa e chegue às 2 horas da manhã? Dá medo. E se a roubam? Se lhe tiram o telemóvel? Se a seguem?”, recorda. Para que estas situações fossem acauteladas, Mariana Benítez ia sempre levar e buscar as filhas aos lugares de convívio. Mas, mesmo assim, o perigo continuava a ser uma constante, principalmente à noite. Além dos problemas económicos e políticos que a Venezuela enfrenta, a lusodescendente considera que a mudança de mentalidade das camadas mais jovens é consequência da profunda crise em que mergulhou o país. “Mesmo que mudasse o Presidente, tinham que passar décadas para que esta situação melhorasse, porque a mentalidade das pessoas mudou. Os jovens só conhecem o tipo de vida fácil, o roubar, o que o governo lhes dá. Não interessa de onde vem o dinheiro”, desabafa, desgostosa com a alteração dos valores da sociedade jovem. Essa transformação é corroborada com factos históricos, como menciona Nancy Gomes: “A Venezuela, desde 1914, no início da guerra, entrou numa fase muito positiva pela descoberta dos poços petrolíferos. A própria cultura do país definiu-se também a partir desta bonança. Havia muito dinheiro, que moldou uma cultura do facilitismo”. Com a chegada ao poder de Hugo Chavéz, em 1999, os ventos da bonança sopraram de novo. A situação favorável permitiu o aumento do emprego e das reformas sociais planeadas pelo Presidente. A especialista refere que “a economia e as expetativas da população giravam à volta da riqueza gerada pelo petróleo. Portanto, não houve uma profunda alteração de mentalidades, mas sim da cultura do próprio país derivada da indústria petroleira e dos seus benefícios económicos”.
Oriana Benítez, de 21 anos, mudou-se de Barcelona, em Anzoátegui, para a cidade de Pombal. Já tinha visitado Portugal, mas admite que a adaptação “foi um bocado complicada porque não falava a língua”. As saudades marcam o seu quotidiano. “Sinto falta das pessoas, de sentir que pertenço a um lugar. Tenho saudades dos abraços da minha avó, do clima e das praias quentes”, confessa. Também Laura Gordillo, de 20 anos, teve uma adaptação difícil. Veio de Caracas e fixou-se em Leiria, depois de uma passagem por Valença do Minho, onde residem os pais. Sofreu xenofobia e “muita incompreensão pela situação que os venezuelanos passam”, mas gosta de viver em Portugal. Apesar das saudades, reconhece: “Encontrei aqui o que a Venezuela não me pode oferecer”. Com outra experiência, Martin Gonçalves, de 18 anos, chegou a Portugal há 6 meses vindo de Caracas e diz que a adaptação “foi bastante boa”. Conta que tem “muitas saudades do clima, das amizades e da comida”, um sentimento partilhado por Natalia Fernandes, de 20 anos, também de Caracas: “Cheguei à Madeira com 18 anos. Não podia ter-me adaptado melhor, mas sinto falta da alegria, amabilidade e do humor que os venezuelanos conservam, além dos meus familiares e amigos”
dos produtos são diariamente alterados, dependendo da flutuação do dólar. Se o dólar subir de manhã, à tarde já há outro preço. Se o dólar baixar, os preços continuam iguais. A Venezuela está completamente dolarizada”, explica a lusodescendente. Prevê-se que a crise instalada na Venezuela esteja longe de terminar. O autoproclamado Presidente do país, Juan Guaidó, continua na sua luta pela remoção do atual regime e pelo afastamento de Nicolás Maduro da Presidência da Venezuela, mas parece faltar o apoio da população, que se revela esgotada. A ideia de que o líder da oposição detém o apoio da comunidade internacional e dos EUA já está ultrapassada, o que compromete a mobilização da população. “Juan Guaidó perdeu muita força e já não consegue mobilizar tantas pessoas. A sua coragem vinha muito da convicção de que os EUA o estariam a apoiar, o que não aconteceu. A coragem dele acaba por ser comprometida porque sozinho não consegue”, reforça Nancy Gomes, acrescentando que “não há dúvida que, se as forças armadas apoiassem uma solução que indicasse a saída de Nicolás Maduro e a chegada ao poder de um governo de transição, o atual Executivo iria abaixo”. Por enquanto, Laurinda Domingues e António Gonçalves tentam resolver problemas relacionados com o aluguer dos seus estabelecimentos localizados na Venezuela, sem conseguirem comunicar com a imobiliária que os representa. Por não voltarem ao país há cerca de três anos, correm o risco de perder todo o dinheiro que ainda lá têm depositado, além de que pretendem dar o apartamento onde viveram a pessoas amigas, desfazendo o vínculo material que ainda os une àquele país. O deslumbramento que sentiram quando chegaram à “pequena Veneza”, há 48 anos, é hoje substituído pelo desapontamento: “A Venezuela é um país de quinto mundo”. Mariana Benítez e a família vão acompanhando as Em Portugal, mas atentos ao outro lado do notícias que chegam da Venezuela. Sempre que posAtlântico sível, enviam medicamentos e bens à família que lá Mantendo o contacto com a família que ficou na Ve- ficou, numa tentativa de melhorar o seu conforto. E nezuela, Mariana Benítez descreve a situação difícil por cá vão ficando, mesmo que o seu coração ainda que se tem vivido nos últimos tempos. “Os preços pareça estar do outro lado do Atlântico. k
Jordan Santos Dos areais da Nazaré ao topo mundial
21 maio 2020
TAK Texto
Nascido no Canadá, mas atualmen- Davide Araújo te a residir na Nazaré, terra que o Emanuel Sebastião Tiago Cação viu crescer, Jordan Santos, de 28 anos, é um ícone no futebol de praia. Outrora estudante do Externato da Nazaré, estreou-se aos 17 anos em campos arenosos, a convite da equipa nazarena “O Sótão”. As habilidades em campo, aliadas ao esforço coletivo da equipa, garantiram-lhe o primeiro lugar no pódio nacional. A partir daí, começou a ser convocado para a seleção nacional. Carregando o número cinco às costas, o craque ganhou dois campeonatos do mundo ao serviço da equipa das quinas. “O campeonato do mundo de 2015, ganho em nossa casa, e o de 2019, no Paraguai, foram dos títulos mais saborosos que tive”, assume Jordan. Ao nível individual, e já ao serviço do Sporting Clube de Braga, para além de conquistar o título europeu três anos consecutivos, Jordan alcançou o expoente desejado por qualquer atleta de alta competição. Em 2019, foi considerado o melhor jogador de futebol de praia do mundo, guardando esse marco histórico com bastante orgulho: “É sempre um motivo de orgulho e de felicidade, e é sinal de que o trabalho que venho a desenvolver está no caminho certo”.
Em tempos de Covid-19, os atletas das várias modalidades desportivas são confrontados com a necessidade de adaptar os seus regimes alimentares e desportivos. Jordan não foge à regra, continuando os seus treinos de condição física em casa. No entanto, não descarta as idas ao areal, cumprindo sempre as regras do distanciamento social. Com as competições nacionais e mundiais atualmente suspensas, Jordan continua com a mesma ética de trabalho e dedicação que lhe permitem estar no topo da sua modalidade. Volvido o período de quarentena, as restrições ainda são muitas, mas a forma física possibilita pensar num regresso em boas condições: “Apesar do ritmo competitivo em confinamento ser sempre diferente, acho que, se fosse para voltar a competir hoje, estaria em condições ideais para o fazer”. k
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Somos um país que saberá SENTADO encontrar NO MOCHO soluções para as suas crises Luís Osório Jornalista e Escritor
Foi diretor de diversos órgãos de comunicação social e é também autor de diversos programas de televisão. Jornalista e escritor, Luís Osório conta com um vasto leque de publicações da sua autoria. Para o seu mais recente livro 30 Portugueses, 1 País, entrevistou 30 personalidades e deixou-as falar sobre o país que somos. Na sua opinião, um país “de contrastes e paradoxos”, mas “extraordinário”. Texto André Silva, Carolina Frade, Francisco Constantino e Miriam Tormenta
Pensou sempre seguir uma carreira em jornalismo? Sempre tive a ideia de ser jornalista, sim. Desde que me conheço. Quando era miúdo, com uns oito anos, ia ajudar o Sr. Correia numa papelaria na Rua de Sampaio Bruno, no bairro onde nasci, em Lisboa. Ajudava na venda de jornais e tinha o sonho de um dia estar no outro lado.
Foi nomeado e ganhou diversos prémios ao longo da sua carreira. O que guarda desse reconhecimento? Guardo os prémios – com exceção do Sete de Ouro e do Prémio Gazeta Revelação, que perdi algures em mudanças de casa. Lamentavelmente nunca os consegui encontrar.
Num dos seus livros, Quanto tempo - uma criança no olhar, refere que as suas forças e fragilidades lhe foram conferidas à distância pelo seu pai, que sempre foi ausente. Que influência tem a ausência de um progenitor na vida de uma criança? Terá certamente influência, mas não consigo responder de uma maneira tão geral. Em mim, teve uma forte influência. Curiosamente, não consigo, com toda a sinceridade, dizer que foi mais negativa do que positiva. O meu pai foi ausente, nunca ajudou a minha mãe no que quer que fosse. Porém, nunca deixou de ser uma referência, era um homem poderoso, um homem forte e por quem eu sempre tive admiração. Não o amei como a um pai, mas admirei-o sempre muito como uma referência.
É também comentador político. De um modo geral, considera que as gerações atuais estão cientes do que é a vida política do nosso país? Penso que sim. As gerações atuais nasceram em liberdade e num mundo globalizado. Ao mesmo tempo são gerações preparadas. Nunca existiram tantos licenciados e doutorados. O que acontece é outra coisa: por um lado, desinteresse; por outro, falta de informação. As duas coisas parecem paradoxais, mas são verdadeiras. Tornámo-nos mais individualistas, mais desinteressados. No entanto, há coisas que estão a acontecer e que são positivas. O combate contra as alterações climáticas, por exemplo. E isso é política.
São da sua autoria diversos programas televisivos, como Portugalmente e Zapping. Qual a importância destes formatos, tendo em conta a época em que foram emitidos? Serviram, por um lado, para provar que era possível aparecerem novas pessoas a fazer televisão. E nesses programas trabalharam comigo Tiago Rodrigues, Nuno Costa Santos, José Mário Silva, Rita Ferro Rodrigues, Luís Filipe Borges e até Pedro Mexia. E, por outro, para experimentar formatos novos e testar a criatividade, pensar o mundo e a televisão com um olhar diferente. A esses dois programas está associada Teresa Paixão, atual diretora da RTP 2. Foi ela a convidarme para os dois projetos. E a convidar-me com carta branca para pensar os modelos como quisesse. Foi uma enorme prova de confiança.
No seu entender, qual seria a importância de introduzir na escola novas abordagens acerca do tema? Teria de ser pensado. Porém, parece-me fundamental que os currículos e disciplinas não cristalizem. O mundo está a mudar muito rapidamente e a escola deve estar preparada para isso, adaptar-se a isso. Todos os dias somos “bombardeados” por notícias, nem sempre verdadeiras. Como vê a relação entre as novas tecnologias e o jornalismo na atualidade? A sua pergunta já inclui uma perversidade. Se não são verdadeiras, não são notícias. São apenas mentiras. A relação é de adaptação. O mundo mudou rapidamente: o jornalismo está a adaptar-se a este culto da rapidez e da superfície e sobretudo ao culto da soberania do consumidor.
Existe a necessidade de criar conteúdos inovado- Atualmente dedica mais tempo à escrita do que ao res, quer em televisão, quer noutro tipo de plata- jornalismo. Em que momento sentiu que preferia a escrita de um livro à redação de textos jornalísticos? formas proporcionadas pelas novas tecnologias? Existe uma necessidade imperiosa de criar formatos Na minha vida as coisas não funcionam assim. Deixo inovadores. Há, com certeza, ideias novas e projetos que a vida me leve e dedico-me totalmente ao que em muito interessantes, mas se quer que seja absoluta- cada momento faço. Gosto de escrever uma reportagem, gosto de dirigir um projeto jornalístico, gosto mente sincero digo-lhe que esperava mais e melhor.
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21 maio 2020
KULTOS Texto Nuno Vieira Rodrigo Pereira Ruben Rodrigues
Tiger King: Murder, Mayhem and Madness
de falar, de ensinar, de escrever livros, de encenar peças de teatro e de muito mais coisas. Em cada momento deixo que a vida se encarregue de me mostrar o caminho. Mas sim, é verdade… quero escrever romances, tenho muitos fantasmas na cabeça, fantasmas a que preciso de dar liberdade.
Há coisas que estão a acontecer e que são positivas. O combate contra as alterações climáticas, por exemplo. Publicou recentemente 30 Portugueses, 1 País, livro que fala sobre o Portugal dos dias de hoje, com depoimentos de diversas personalidades nacionais, como António Costa ou Simone de Oliveira. De que modo têm estes 30 portugueses influência no nosso país e no seu desenvolvimento? Uns mais, outros menos, têm influência no que somos. Pelos lugares que ocuparam, pelas canções que deles cantámos, pelas ideias que trouxeram ou por aquilo que influenciaram positiva e negativamente. De entre tantas possibilidades, em termos de reconhecimento e influência, como foi feita a escolha destes 30 portugueses? Para mim era importante que a escolha fosse paritária. Falei com 15 mulheres e 15 homens. Depois não podia escolher nenhuma personalidade que já estivesse incluída no meu primeiro livro - também de entrevistas, 25 Portugueses, da Editorial Notícias. Em terceiro lugar existia um fator importante: as conversas eram públicas. Todas as semanas encontrava-me com uma personalidade no Hotel Porto Bay
Liberdade, do meu amigo e parceiro nesta iniciativa, Bernardo Trindade. Logo, as escolhas foram também em função das diversas disponibilidades, mas seria uma escolha sempre subjetiva. Pediu a outros portugueses para lhe mostrarem a sua visão sobre o país. Do seu ponto de vista, em que situação se encontra Portugal dos dias de hoje? Portugal é um país extraordinário. Um país de contrastes e paradoxos. Como costumo dizer, fomos a pátria dos grandes descobridores, dos que partiram rumo ao desconhecido, mas também dos que ficaram a dizer mal dos que partiam. Somos um país com uma história extraordinária e que saberá encontrar soluções para as suas crises permanentes. Soubemos melhorar, depois de um período terrível, mas a pandemia levou-nos outra vez para trás. Contudo, ninguém duvide de que estamos unidos e que daremos a volta. Sempre com coisas pequeninas, sempre com dificuldade em lidar com opiniões diferentes das nossas, mas generosos e orgulhosos do que somos – mesmo que o cinismo nem sempre o deixe mostrar. k
Traduzida como “Máfia dos Tigres”, em português, estreou na primeira semana de quarentena e é uma das séries documentais mais faladas da Netflix. Trata-se de um documentário sobre as centenas de tigres, leões e outras espécies exóticas mantidas em cativeiro no quintal de Joe Exotic, em Oklahoma, nos Estados Unidos. A personagem Joe Exotic, de 50 anos, ou, como se autoproclama, Tiger King, é o administrador do Zoo em conjunto com alguns amigos amantes de animais exóticos. Tiger King destaca-se por ser uma pessoa fora do comum, tornando-se uma celebridade na América devido ao facto de manter estes animais selvagens em exibição, mas também por travar frequentes lutas judiciais contra protetores dos animais. A sua grande rival é Carol Baskin, dona de um santuário de tigres e defensora dos direitos dos animais. Com o decorrer dos episódios, percebe-se que o exótico Joe pode encaixar no perfil de um indivíduo perturbado. A transformação do personagem sugere esse sentido. No princípio, preocupa-se muito com os seus animais. No final, apenas é movido pela ânsia de ser famoso. A série é muito interessante, pois apresenta um personagem diferente do habitual: retrata uma pessoa do interior dos EUA, considerado um “redneck”, gay, num casamento a três e com uma fixação por tigres e armas. A essa fixação soma-se uma vontade gigantesca de ser famoso. A maneira séria com que o documentário aborda cada personagem é também um ponto importante, uma vez que, apesar das coisas bizarras que os indivíduos fazem, o modo como são representadas não assenta em juízos críticos ou ridicularizantes. Isso permite perceber o quão perdidas as pessoas estão na tentativa de serem famosas, ao ponto de cometerem crimes para atingir os seus objetivos. Apesar de tudo, o programa tem alguns defeitos, como o facto de a narrativa, no princípio, ser bastante inconstante por mudar o foco várias vezes, tornando-se confusa. Podiam explorar-se mais algumas personagens, como Doc Antle, antigo membro da máfia que estava envolvido nas atividades que Joe realizava no Zoo. Além disso, a série cria um clima de suspense e tensão que, no final, acaba por apresentar um desfecho inconclusivo. Fica a sensação de que há um excesso de informação, muitos pormenores para assimilar, pelo que poderia ter sido mais interessante acrescentar um ou dois episódios. O documentário apresenta imagens fortes, com violência e maus tratos de animais, podendo ser algo perturbador para espetadores mais sensíveis. k
8 Região de Leiria unida na construção de viseiras Texto Laura Melícias, Neuza Santos e Sofia Morgado
Em parceria com várias empresas da região, o Politécnico de Leiria começou, no início da pandemia, um projeto de fabricação de ventiladores, mas rapidamente percebeu a importância de produzir também viseiras de proteção individual. O objetivo, como refere Bruno Horta, estudante e responsável pelo Movimento Maker, passou por encontrar uma solução que “colmatasse a necessidade e que conseguisse proteger o maior número de pessoas”. Com a possibilidade de usar as impressoras 3D disponíveis no Centro para o Desenvolvimento
Rápido e Sustentável do Produto (CDRSP), a instituição começou a “fazer algumas versões de sistemas de viseiras que já existiam na Internet”, conforme explica Artur Mateus, responsável pelo projeto e coordenador do CDRSP, unidade de investigação do Politécnico situada na Marinha Grande. Os materiais utilizados para as viseiras foram essencialmente o PET (um tipo de plástico) e o polipropileno, para os suportes da cabeça, que, segundo o coordenador, “devem servir de proteção direta a líquidos e sólidos”. Bruno Horta explica que foi necessário “imprimir alguns modelos e testá-los”, no início do processo de produção, para garantir que não magoavam os utilizadores, assim como ajustar o projeto para a fabricação na indústria de moldes. O fundador do Movimento Maker refere que as “indústrias forneceram os seus
CONCURSO DE FOTOGRAFIA DIGITAL - ESTG A Escola Superior de Tecnologia e Gestão (ESTG) do Politécnico de Leiria lançou um concurso de fotografia digital, no âmbito das comemorações do Texto 30º aniversário. A Luis Trujillo iniciativa destina-se Ruben Filipe apenas a utilizadores do Instagram, a partir dos 14 anos. Para participar é necessário enviar um e-mail para gire. estg@ipleiria.pt, indicando o nome, a idade, nome de utilizador do Instagram e o e-mail. A submissão da fotografia é feita através da sua publicação no perfil pessoal com a hashtag #30anosestgpleiria. Devido às medidas de contenção e prevenção da Covid-19, o prazo estende-se até ao dia 30 de setembro e a melhor fotografia será premiada com uma impressora 3D.
ÚLTIMAS
BFK IDEAS 2020 A iniciativa “Born from Knowledge” pretende reunir as melhores ideias de negócio de estudantes ou investigadores de instituições de ensino superior. As propostas de negócio devem visar a criação de produtos, processos ou serviços de base científica e tecnológica. Os participantes podem candidatar-se até 30 de setembro e a apresentação das ideias ocorre entre novembro e dezembro. Mais informações em www. bornfromknowledge.pt.
serviços de forma gratuita com a participação de 2 a 4 mil pessoas, permitindo um aumento de produção para cerca de 100 viseiras por hora”. Para Artur Mateus, as empresas que estão a enfrentar problemas económicos podem aproveitar agora esta oportunidade de mercado: “Se nós comprarmos em Portugal este género de materiais, estamos a ajudar cada casa e cada lugar”. Bruno Horta concorda com o coordenador do CDRSP, acrescentando que isso contribuiria, em simultâneo, “para a resolução dos problemas de escassez de equipamento e manutenção da economia portuguesa”. O responsável pela iniciativa considera que o projeto concorreu para o fator “de união, porque as pessoas ficam motivadas por uma causa maior”, contribuindo ao doar elásticos e acetatos para a fabricação das viseiras.
Impasse no desporto universitário Texto Davide Araújo, Emanuel Sebastião e Tiago Cação
Até novas indicações do Governo, o desporto universitário encontra-se parado, fruto dos procedimentos tomados para o combate à pandemia da Covid-19. A Federação Académica de Desporto Universitário (FADU) redigiu um comunicado, no passado dia 13 de abril, onde confirma a paragem de todas as modalidades desportivas, pelo menos, até ao final do corrente ano letivo. As competições internacionais foram adiadas para 2021. A coordenadora técnica da área do desporto do Politécnico de Leiria confirmou que ainda não existem condições para uma retoma das provas em segurança. Segundo Cândida Bairrada, ficaram por iniciar 28 provas de diferentes modalidades. Os campeonatos nacionais de futsal, em masculinos e femininos, encontram-se a meio da competição, não havendo ainda uma decisão quanto à definição dos campeões da época desportiva em curso. Em jeito de balanço, Cândida Bairrada destaca a participação do Politécnico de Leiria nas modalidades de atletismo, karting e andebol feminino, cujas performances dignificaram a instituição e prometiam resultados encorajadores antes da paragem devido à pandemia. As representantes do Politécnico de Leiria seguiam no terceiro lugar da classificação no âmbito do andebol feminino, enquanto a equipa de atletismo havia somado quatro me-
Muitas pessoas “nem dormiam durante a noite para estarem a imprimir”, revela. A mobilização das indústrias e das pessoas permitiu a produção de viseiras distribuídas “não só aos hospitais, mas também a minimercados, talhos e todas as pessoas que não podem estar em casa e têm de assegurar os serviços mínimos”, informou Bruno Horta. k
dalhas no Campeonato Nacional Universitário de Pista Coberta, realizado em Braga no início de fevereiro. Já as duas equipas leirienses em competição no nacional Universitário de Karting, compostas por seis estudantes, conquistaram os 3 º e 4 º lugares da classificação geral. A prova foi realizada em dezembro, no Kartódromo Euroindy – Batalha, e contou com a organização dos Serviços de Ação Social do Politécnico de Leiria e da Federação Académica do Desporto Universitário (FADU). Quanto ao futuro, o comunicado da FADU confirma que ainda não há uma decisão em relação à continuação dos campeonatos de cada modalidade. No entanto, permanecerá atenta ao “desenvolvimento da situação no nosso país”, nomeadamente no que concerne a “recomendações e medidas das autoridades”, para poder definir, quando possível, o início das atividades desportivas universitárias. k
A FECHAR
CALENDALL Calendall é uma plataforma lançada durante o recente período de quarentena, com a finalidade de reunir informações sobre os diversos eventos que estão a decorrer quer nas redes sociais, quer em outras platafor- Texto Cláudia Pereira mas online. É uma Inês Ribeiro espécie de agenda e está dividida em várias categorias, tais como moda, saúde, dança, música e desporto. Tem informações adicionais sobre horários, canais e plataformas onde se podem encontrar os programas, eventos e demais iniciativas. Disponível em: https:// www.calendall.com/pt.
ON LINE
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