NOV19 www.agrotejo.pt
ÍNDICE
EDITORIAL
ENTREVISTA / 20
À CONVERSA COM... / 32
José Pedro Salema - O Alqueva
Eduardo Oliveira e Sousa
DESTAQUE / 14
ATUALIDADES / 6
O futuro do PDR
O novo Ministério da Agricultura
OPINIÃO / 30
/ 122
Pipocas boas comó milho
/ 40 Centro Nacional de Competências para as Alterações Climáticas
/ 46 Portugal Fresh e o setor hortofrutícola
/ 56 O projeto Optimus Prime
/ 66 A estratégia dos cereais
/ 78 Modernização administrativa
/ 86
A vespa Asiática
/ 142 A responsabilidade social da Agromais
EM FOCO / 124 A floresta
/ 154 Os caminhos de Santiago
EMPRESAS / 58 Moneris e as novas regras de faturação
/ 70 Secose e a gestão do risco
O porquê e o porque não?
/ 72
/ 116
Timac AGRO e o primeiro indutor antioxidante para plantas
A vaca expiatória
/ 140
/ 150
Restolho 7 anos de atividade
Agroanalítica: pensar a floresta como as outras culturas
REALIDADES / 28
REPORTAGEM / 94
Os programas operacionais hortofrutícolas
O roteiro para a neutralidade carbónica
/ 48 A agricultura e o seu peso na economia
FICHA TÉCNICA direcção Agrotejo | Edição e Propriedade Agrotejo | Design editorial Dicas&pistas | Impressão A Persistente – Chamusca Tiragem 4000 exemplares | Depósito legal 93520/9 Largo da Imaculada Conceição 2150-125 Golegã Tel 249 979 060 Fax 249 979 069
email agrotejo@agrotejo.pt
Pedro Costa Alemão Presidente da direção da Agrotejo
Lg. Custódio Marques Montargil 2140-076 Chamusca Tel 249 760 004 tel e fax 249 760 448
www.agrotejo.pt
A agricultura e as alterações climáticaS A preocupação que todos devíamos ter em como preservar o planeta que herdamos, obriga a uma análise do que estamos a fazer em comparação com aquilo que deveríamos fazer. Começando pelos grandes ecossistemas que são fundamentais para toda a humanidade, e derivando para a nossa floresta são riquezas que temos obrigação de cuidar e preservar. A floresta tem uma importância fundamental na biodiversidade e obviamente na água. Não é culpando certas árvores que diminuímos o grande flagelo dos incêndios. As alterações climáticas a que estamos a assistir com temperaturas médias, nalguns meses, abaixo do normal e noutros em que essas médias são bem superiores, é um alerta que não podemos ignorar. O ex-secretário de Estado americano John Kerry deu uma entrevista à televisão portuguesa em que abordava com muita simplicidade a problemática das alterações no clima e suas consequências. Afirmou que os países e as pessoas não têm feito o suficiente por atenuar o problema; disse ainda que nenhum país tem cumprido aquilo a que se comprometeu ao assinar o acordo de Paris. É preocupante! A agricultura tem hoje um papel importante nesta problemática tendo em conta as várias funções que lhe são atribuídas. É evidente que a primeira será produzir produtos alimentares economicamente viáveis e terá de ser feito sem grandes agressões ao ambiente. Uma outra função será fixar população e evitar a vinda para os grandes centros urbanos com todos os seus inconvenientes ambientais. Os nossos agricultores têm sabido adaptar-se às novas realidades, mas não podem parar. O caminho a trilhar chama-se INOVAÇÃO. pub.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
1
NOV19 www.agrotejo.pt ditos&escritos
O consumidor está a valorizar muito os produtos regionais. Ondina Afonso, presidente do Clube de Produtores Continente
in Frutas, Legumes e Flores
2
Era bom que não houvesse juízos antecipados sobre o setor. Mas antes, os responsáveis dos três ministérios em causa ouvissem o setor. Luís Vasconcellos e Souza, presidente da Agromais
in Agrotejo
Espartilhar as competências tradicionais do Ministério da Agricultura entre pelo menos três ministérios é uma ideia estranha, tão estranha que só espero que possa ser genial. Francisco Gomes da Silva, professor no ISA
in Público
Agrometeorologia: aplicação da meteorologia para maximizar a produção agrícola de José Paulo de Melo e Abreu Editor: Quântica Editora
Este livro trata da ciência agrometeorologia, que identifica, descreve, explica e aplica as relações da meteorologia e climatologia com a agricultura, tendo como objetivo melhorar a quantidade e qualidade das produções vegetais e animais, preservando a sustentabilidade dos sistemas produtivos, através do aproveitamento do clima existente ou modificando-o. O livro apresenta definições e conceitos basilares, estudam-se os principais elementos climáticos e os métodos utilizados na sua medição, e as trocas de calor e de massa. Dois capítulos tratam de temas basilares da Hidrologia e Climatologia. Os capítulos restantes destinamse à aplicação prática, numa abordagem simples, mas sem se perder o rigor.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
Notas Soltas - Ainda, e sempre, a Fertilização
A Vida no Campo - Os Anos da Maturidade
de Joaquim Quelhas
de Joel Neto
dos Santos Editor: Joaquim Quelhas dos Santos
O livro reúne um conjunto de memórias pessoais, testemunha episódios relevantes da sua vida profissional, cumprindo ainda um dos principais propósitos que regeram a sua longa carreira académica: o de transmitir conhecimento, principalmente na área da fertilização, e a satisfação com que sempre desempenhou esse trabalho. O autor é professor catedrático jubilado do Instituto Superior de Agronomia (ISA), onde se licenciou em Engenharia Agronómica. No ISA criou disciplinas de Nutrição Vegetal e Fertilidade dos Solos, e de Fertilizantes e Fertilização; e do Curso de mestrado em Nutrição Vegetal, Fertilidade dos solos e Fertilização, cuja coordenação também esteve a seu cargo.
Editor: Cultura Editora
Ao fim de vinte anos em Lisboa, o escritor Joel Neto na companhia da mulher, a tradutora Catarina Ferreira de Almeida - decidiu regressar às suas origens, no lugar dos Dois Caminhos, freguesia da Terra Chã, ilha Terceira, com o objetivo de ali ficar por alguns anos, em busca do ambiente que necessitava para a produção de um romance. Vencido o prazo de regresso à grande cidade, as opções eram encontrar maneira de parar o tempo ou assumir de uma vez por todas que era ali que queria viver em definitivo. Com a família canina formada, jardim e horta bem-cuidados, paisagem estonteante e vizinhos amáveis à volta, Joel e Catarina sorriem agora com melancolia e leveza ao pensar em quão serenos serão os anos da maturidade no campo.
NOV19 www.agrotejo.pt ditos&escritos
As Plantas e os Portugueses de Luís Carvalho Editor: Fundação Francisco Manuel dos Santos
Este ensaio apresenta tradições culturais portuguesas ligadas às plantas (simbologia, romarias, artesanato, lendas, culinária, literatura, música, arquitectura), assim como informação sobre a nossa flora autóctone, árvores monumentais, parques, jardins e proteção da natureza. Luís Mendonça de Carvalho é biólogo, formado pela Universidade de Trásos-Montes e Alto Douro, é mestre em bioquímica vegetal, pela Universidade de Lisboa, na Universidade de Coimbra fez doutoramento em biologia. No seu percurso profissional tem ainda a experiência como investigador de história e filosofia da ciência (Univ. Évora).
A Empresa Agrícola - Das Folhas do Feitor à Gestão Ambiental
A Primeira Aldeia Global - Como Portugal mudou o Mundo
de Maria Inês de
de Martin Page
Abrunhosa Mansinho Editor: ICS - Imprensa de Ciências Sociais
Este livro centra-se na evolução da empresa agrícola – na sua estrutura e nos seus resultados – no decurso do século XX. Começa por um breve enquadramento histórico da agricultura, do ensino e da investigação social agrária. Da administração agrícola, tal como se configurava nos primeiros anos do século, à avaliação ambiental prevalecente no seu termo, vai todo um caminho de afinamento conceptual, de inventariação de métodos e técnicas conducentes à medição da eficiência económica do processo produtivo.
FARM EUROPE
Ao invés da decisão errada que tomou, [a Universidade de Coimbra] deveria pelo contrário promover o consumo de carne de vaca nacional, ajudando assim a reduzir a pegada ecológica das importações e, simultaneamente, a reforçar um modelo de produção equilibrado e ambientalmente sustentável.
Editor: Casa das Letras
Eduardo Oliveira
Quando Jonas foi engolido pelo «grande peixe», tentava apenas escapar para o território que é agora Portugal. Foi aqui que Aníbal encontrou os guerreiros, as armas e o ouro que tornaram possível a sua marcha sobre Roma; e Júlio César, a fortuna que lhe permitiu as conquistas da Gália e da Inglaterra. Durante a Alta Idade Média, mais a norte, os governantes árabes integraram Portugal na civilização mais avançada do mundo. Após a conquista de Lisboa, pelos Normandos, o novo Portugal levou Veneza à bancarrota e tornou-se a nação mais rica da Europa.
e Sousa, pres. da CAP
in Público
Achei que era minha obrigação dar o meu contributo para uma das mais representativas e importantes associações do país para a produção agrícola. Jorge Neves, presidente da Anpromis
in Agrotejo
HORIZON MAGAZINE
www.farm-europe.eu
https://horizon-magazine.eu
Um espaço de reflexão e de criação de uma rede entre os 28 países da União Europeia dedicada ao mundo rural.
A revista da União Europeia para a investigação e inovação.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
3
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Agromais voltou a premiar os agricultores O XVII Encontro de Agricultores da Agromais Plus decorreu em fevereiro nas instalações da Golegã e contou com a presença de cerca de 200 agricultores, bem como com a participação de representantes do setor e da região como o presidente da Câmara Municipal da Golegã, José Veiga Maltez, o diretor regional da Agricultura e Pescas da Região de Lisboa e Vale do Tejo, Lacerda Fonseca e vereadores das câmaras municipais da Golegã e Torres Novas. O encontro serviu ainda para atribuir os tradicionais prémios Agromais
4
Agromais e Plus Alqueva na Ovibeja O certame alentejano Ovibeja decorreu de 24 a 28 de abril e a Agromais e Plus Alqueva marcaram presença. A Ovibeja é uma feira dedicada ao mundo rural que acontece em Beja anualmente.
aos agricultores que se destacaram em 2018 pela sua produção e envolvimento com as organizações. Este ano foram atribuídos prémios ao “Melhor Produtor” nas culturas da batata, tomate e milho. Além destes, foram atribuídos prémios na categoria “Voluntário+” e “Agricultor Solidário”, destinado a premiar os voluntários e agricultores que, no ano de 2018, mais se envolveram e contribuíram para a divulgação do projeto Restolho. Pela primeira vez, foi atribuído o prémio “Produtor Biosférico” que destaca o agricultor que adota as melhores Práticas Agrícolas e Ambientais. Além destes, e após uma análise do mérito do conjunto dos agricultores, foi decidido atribuir nesta cerimónia o “Prémio de Carreira”, tendo em conta, a sua colaboração, cooperação e envolvimento com as nossas organizações agrícolas nas últimas três décadas. Os premiados foram: Agricultor Solidário – Sociedade Agrícola Quinta da Labruja, SA. e Fidalgo Casa Agrícola, Lda.; Voluntário + – Escola Profissional de Torres Novas; Produtor Bios– férico – João Monteiro Coimbra; Melhor Produtor de Tomate - Sociedade Agrícola Cruz do Santinho, Unipessoal, Lda.; Melhor Produtor de Batata – Sociedade Agrícola Herdade do Caldas, Unipessoal, Lda.; Melhor Produtor de Milho – José Manuel Rocha Costa e Planticeifa, Unipessoal Lda.; Prémio Carreira – Sociedade Agro-Pecuária os Raposos, S.A.G, Lda.
Renovação do cartão de aplicador de produtos fitofarmacêuticos • Se o seu cartão referir a Lei 26/2013 de 11 de abril, deverá frequentar o curso de atualização em aplicação de produtos fitofarmacêuticos no ano anterior à data de validade. • Se o seu cartão referir o Decreto-Lei 173/2005 de 21 de outubro, deve acrescentar mais quatro anos à validade que está referida no cartão e deverá frequentar o curso de atualização em aplicação de produtos fitofarmacêuticos no ano anterior a essa data de validade. Faça a sua inscrição na Agrotejo para renovar o cartão.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
Luís Vasconcellos e Souza participou na MAIZAR 2019 O Congresso MAIZAR 2019, um evento mundial dedicado ao milho, decorreu na Argentina em maio. O congresso reuniu 1.800 participantes e contou com a presença, como convidado orador, de Luís Vasconcellos e Souza, enquanto vice-presidente da CEPM – Confederação Europeia dos Produtores de Milho.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Festival Nacional da Pipoca aconteceu na Azinhaga
Jorge Neves eleito presidente da ANPROMIS Jorge Neves foi eleito para a presidência da Direção ANPROMIS – Associação Nacional de Produtores de Milho e Sorgo para o biénio 2019/2021. O diretor-geral da Agromais relembra que esta é “uma associação sempre acarinhada pela Agromais”, recordando que o Engenheiro Luís Vasconcellos e Souza foi ele próprio presidente da ANPROMIS. “Achei que era minha obrigação dar o meu contributo para uma das mais representativas e importantes associações do país para a produção agrícola”. Quando aos projetos para os próximos três anos, Jorge Neves explica que “temos neste momento aprovada em resolução de Conselho de Ministros uma Estratégia Nacional para a Promoção da Produção de Cereais em Portugal. Esse é um dos grandes desafios, o de implementarmos essa estratégia, porque há pontos importantes para a manutenção da produção de milho e outros cereais em Portugal”. A questão da água e da tecnologia são outros pontos a ter em atenção. O presidente da ANPROMIS sublinha que “sem água não podemos produzir milho, a cultura de regadio. Na questão da tecnologia e inovação na agricultura, a ANPROMIS está sempre na primeira linha a desenvolver projetos, a promover dias de campo, congressos, colóquios… está sempre na primeira linha na demonstração aos agricultores. Tudo isto é um desafio muito grande. O futuro dirá como a ANPROMIS irá evoluir”. Jorge Neves conclui que “darei o meu melhor na defesa dos interesses dos agricultores em Portugal”.
A 9 de junho de 2019 decorreu, na Azinhaga, o Festival Nacional da Pipoca e “foi um enorme sucesso”, esclarece a Agromais. Neste evento foram apresentados sete pratos, confecionados pelos alunos da Escola Profissional Gustave Eiffel, a mais de 200 pessoas. Os pratos mais votados foram: Delícia de Pipoca e Caramelo (primeiro prémio), confecionado por Patrícia Antunes e Joana Lourenço; Suspiro de Pipoca (segundo prémio), confecionado por Diogo Macedo e Luís Cabral; e Panpoca (terceiro prémio), confecionado por Tatiana Rosa e Carlos Paixão.
CERTAGRI premiado na edição nacional dos Prémios Europeus de Promoção Empresarial 2019 O projeto CERTAGRI – Rotulagem de Eficiência Hídrica e Energética dos Setores Produtivos Nacionais para uma Economia Circular, desenvolvido com a participação da AGROTEJO – União Agrícola do Norte do Vale do Tejo, foi distinguido em julho de 2019 com o 2.º lugar da categoria “Apoio ao Desenvolvimento de Mercados Ecológicos e à Eficiência dos Recursos” na edição nacional dos European Enterprise Promotion Awards (EEPA 2019). O CERTAGRI, desenvolvido pela ADENE – Agência para a Energia, em parceria com o ISA – Instituto Superior de Agronomia e com o apoio do Fundo Ambiental do Ministério do Ambiente e da Transição Energética, foi o primeiro passo na criação do “Rótulo de Produto Circular”, brevemente disponível para alguns produtos agroalimentares. Abrangendo os setores agrícola, industrial e logístico ao longo da cadeira de valor agroalimentar, visa aliar a sustentabilidade à diferenciação, através de um rótulo e ferramenta útil para a eficiência das empresas e para a escolha dos consumidores.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
5
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Maria do Céu Albuquerque assume a pasta da Agricultura
6
A ex-presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Maria do Céu Albuquerque, é a nova ministra da Agricultura, que terá o apoio do secretário de Estado da Agricultura e do Desenvolvimento Rural, Nuno Tiago Russo. O distrito de Santarém elegeu ao todo nove deputados. Sara Pelicano JORNALISTA
| As eleições legislativas do passado dia 6 de outubro reconduziram António Costa como primeiro-ministro de Portugal. Neste XXII Governo, alguns ministérios têm novos rostos no comando, como é o caso do Ministério da Agricultura. Luís Capoulas Santos foi substituído por Maria do Céu Albuquerque, que já integrava a anterior legislatura, na qual exercia funções de secretária de Estado do Desenvolvimento Regional. Maria do Céu Albuquerque, eleita pelo distrito de Santarém, deixou a presidência da Câmara Municipal de Abrantes em fevereiro deste ano para ingressar o XXI Governo. No seu currículo tem ainda a presidência da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo. A ministra da Agricultura é licenciada em Bioquímica pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e pós-graduada em Gestão da Qualidade e Segurança Alimentar pelo Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz. Foi membro do Conselho Económico e Social e do Conselho das Comunidades e Regiões AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
da Europa na Comissão Permanente para a Igualdade das Mulheres e dos Homens na Vida Local. O Ministério da Agricultura terá uma única secretaria, a saber: Secretaria de Estado da Agricultura e do Desenvolvimento Rural, que será liderada por Nuno Tiago Russo. No seu currículo consta a coordenação da Bolsa Nacional de Terras e as funções de técnico superior, desde 2017, no Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas
(IFAP). De referir ainda que, entre 2010 e 2013, foi diretor regional da Direção Regional de Agricultura e Pescas de Lisboa e Vale do Tejo e, entre 2009 e 2010, integrou a equipa do Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas. Nuno Tiago dos Santos Russo é licenciado e mestre na área zootécnica, pela Universidade de Évora, possui um curso avançado de gestão pública, pelo Instituto Nacional de Administração, e um MBA. DEPUTADOS ELEITOS POR SANTARÉM O distrito de Santarém elegeu, além da Ministra da Agricultura, mais oito deputados, nomeadamente: • Alexandra Leitão (PS); • António Gameiro (PS); • Hugo Costa (PS); • Isaura Morais (PSD); • Duarte Marques (PSD); • João Moura (PSD); • António Filipe (CDU); • Fabíola Cardoso (BE).
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
APP Notícias CAP
8
A CAP tem vindo a desenvolver um conjunto de suportes informativos online, como a renovação do website institucional da Confederação, agora bilingue, a transição do Notícias CAP para suporte digital, a constituição de uma newsletter semanal (subscrita no website) com base nas notícias publicadas, e a implementação de uma aplicação para telemóvel (smartphone) com acesso imediato aos conteúdos do Notícias CAP online. Esta aplicação (app) constitui uma ferramenta fundamental na atualidade para uma maior proximidade e imediatismo na comunicação da CAP com a generalidade dos seus públicos. Com efeito, a possibilidade de receber notificações imediatas sobre as notícias publicadas nas plataformas online permite a todos os interessados nas matérias relativas ao associativismo e ao setor agrícola de uma forma geral, manterem-se permanentemente a par de todas as notícias divulgadas pela CAP, bem como dos eventos promovidos pela Confederação. Assim, quer com smartphones de sistema Android quer de sistema iOS, é possível procurar e instalar a aplicação (app da CAP) através de uma pesquisa simples nas aplicações por “Confederação Agricultores Portugal. O próprio website da CAP disponibiliza um link que permite o acesso direto a estas plataformas: https://www.cap.pt/noticias-cap-app.
pub.
Adubador ecológico da Aziagri premiado A Aziagri, uma metalomecânica familiar localizada na Azinhaga, especializada em Estruturas Metálicas, Serralharias e alfaias agrícolas já tem resultados da sua aposta na inovação. O seu projeto de adubador ecológico venceu o 2.º Prémio de Ideias de Negócio Agriempreende. Com o objetivo de dosear adubo com alta precisão e de acordo com as necessidades reais das culturas, este adubador permite, além de uma melhor aplicação do produto, minimizando os impactos ambientais e a contaminação dos solos, a diminuição de custos dos fertilizantes, através da utilização de ferramentas informáticas (ISOBUS e GPS).
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Agricultores assinam acordo para suspensão da colheita noturna mecanizada de azeitona
10
As principais organizações do setor agrícola, nomeadamente Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal (Confagri), Casa do Azeite, Olivum, assinaram um acordo relativo à colheita noturna mecanizada de azeitona. O acordo recomenda “a suspensão preventiva da colheita noturna, sempre que exista risco para a avifauna, como medida de precaução e até que estejam concluídos os estudos científicos que permitam, no futuro, que essa colheita seja feita com o menor impacto possível na avifauna do olival”, explica comunicado da Confagri. A decisão surge após pedido da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza para a “suspensão imediata da colheita nocturna de azeitona em olivais superintensivo” e face ao requerimento apresentado pelo PAN (Partido Pessoas-Animais-Natureza), que pede “a suspensão da colheita mecanizada de azeitonas, na época de 2019/2020, entre o pôr-do-sol e o amanhecer, com base no princípio da prevenção”.
pub.
Renovação OBRIGATÓRIA de carta (CAT. F) obtida antes de julho de 1998 A “Carta de condução da categoria F” – emitida pelo IMT, que habilita o seu titular a conduzir veículos agrícolas, obtida antes de 20 de julho de 1998, deve, nos termos do n.º 2 do artigo 5.º do Decreto-Lei nº 37/2014 de 14 de março, até 31 de dezembro de 2020 ser substituída pela Licença de Condução de veículos agrícolas, pelo que os titulares da mesma devem requerer ao IMT, I.P a troca deste título.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Coudelaria Rita Cotrim aposta no turismo equestre ligado à natureza na Biosfera do Paul do Boquilobo
12
Com sede na Golegã, a coudelaria Rita Cotrim tem apostado no turismo equestre ligado à natureza. Além dos passeios a cavalo e em carros de cavalos pelos campos e pela vila da Golegã, a reserva natural e da Biosfera do Paul do Boquilobo é cada vez mais um destino procurado pelos turistas nacionais e estrangeiros que visitam a região. As maravilhosas paisagens agrícolas, a gastronomia, a história local e as tradições são algumas das experiências que a coudelaria Rita Cotrim pode oferecer. A divulgação do cavalo lusitano, a organização de eventos empresariais e festas particulares são outros dos objetivos desta empresa.
pub.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Operadores de máquinas agrícolas têm de fazer formação até 2021 O Despacho n.º 1819/2019, de 21 de fevereiro, define o curso “Conduzir e operar com o trator em segurança - COTS”, como ação de formação obrigatória para os condutores de veículos agrícolas com carta de condução da categoria B, C ou D e que não detenham licença de condução de veículos agrícolas. Esta obrigatoriedade entra em vigor a 21 de fevereiro de 2021. Os detentores de licença de condução de veículos agrícolas, obtida no âmbito de uma ação de formação realizada sob a tutela do MAFDR, numa entidade formadora devidamente certificada, já têm a formação necessária. No entanto, chamamos a atenção para os detentores da licença de condução de veículos agrícolas obtida em uma escola de condução, que para circularem na via pública estão devidamente habilitados, mas em caso de acidente na exploração agrícola haverá a necessidade de provarem que tem formação para operarem com o trator. Pelo que neste caso é aconselhável a frequência do curso referido - COTS.
Novas soluções Ascenza- DEFLEXO´s A Ascenza irá reforçar o seu portfólio de herbicidas para a cultura do milho com duas importantes soluções no controlo pré-emergente das infestantes: Deflexo Mix - Suspo-emulsão (SE), contendo 312,5 g/L ou 28,67 %(p/p) de S-metolacloro e 187,5 g/L ou 17,2 %(p/p) de terbutilazina Deflexo Ultra - Suspo-emulsão (SE) com 350 g/L de S-metolacloro, 100 g/L de sulcotriona e 17,5 g/L do safener benoxacor. Desta forma, a gama de herbicidas de milho da ASCENZA foca-se ainda mais na eficácia, flexibilidade, largo espetro de ação e seletividade.
pub.
13
NOV19 www.agrotejo.pt DESTAQUE
PAC 2021-2027 em análise
O futuro do PDR O Programa de Desenvolvimento Rural (PDR) 2014-2020 está a chegar ao fim e o momento é de discussão do próximo quadro comunitário. Ouvimos alguns especialistas nesta matéria para perceber o que poderá ser o futuro do PDR. Sara Pelicano JORNALISTA
14
| O Programa de Desenvolvimento Rural (PDR) 2014-2020 está a chegar ao fim. É tempo de balanço e perceber o que poderá ser o futuro deste segundo pilar da Política Agrícola Comum? Numa entrevista recente ao programa Faça Chuva, Faça Sol, da RTP 2, Gabriela Freitas, gestora do PDR, fez um balanço: “Por vezes as pessoas podem comentar, e já temos ouvido algum tipo de comentários, que não há os recursos nacionais suficientes para poder absorver todos os recursos da União Europeia. Isto não é obviamente verdade na medida em que não há nenhum registo de nenhum atraso de pagamento. Não há nenhuma medida que não tenha sido lançada por falta de recursos financeiros nacionais”. A mesma responsável destacou ainda que “a taxa de cofinanciamento começou por ser de 15% em termos médios, mas nesta altura foi aumentada no Orçamento do Estado de 2019 para 19% e será, de acordo com aquilo que está da Resolução de Conselho de Ministros, aprovada em 2016, aumentada para 23% nos anos de 2020 a 2023. Aquilo que está em causa é uma injeção significativa de dinheiro do Orçamento do Estado, que este ano representou cerca de 160 milhões de euros”. Os dados reportados a 30 de setembro de 2019 indicam uma taxa de execução 2014-2020 da despesa pública de 55% e no FEADER era de 58% [ver quadro]. Na fase transitória, entre quadros comunitários, Gabriela Freitas assegura que AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
“há claramente intenção e recursos de continuar a apoiar os investimentos das explorações agrícolas, na agroindústria, na floresta e nos investimentos produtivos”. Após um ponto de situação do PDR atual, Gabriela Freitas falou do futuro que se discute atualmente e, na sua perspetiva, a forma como os apoios são hoje entregues poderá sofrer alterações. “As pessoas têm de cada vez mais, e até numa perspetiva de futuro ter uma abordagem inteligente. Há uma certa flexibilidade que tem de se encontrar na busca daquilo que são os instrumentos de apoio financeiro e portanto teremos de pensar que estes apoios financeiros da comissão europeia podem fazer-se sob a forma de prémios, sob a forma de ajudas a fundo perdido, sob a forma de ajudas reembolsáveis ou até mesmo sob a forma de instrumentos financeiros como por exemplo a linha de crédito que vamos agora lançar no montante de 200 milhões de euros” [ver caixa]. A Política Agrícola Comum (PAC), criada em 1957 e posta em prática em 1962, tem sofrido adaptações ao longo dos anos e a questão que colocámos ao economista e ex-ministro da Agricultura, Arlindo Cunha, é se continua a fazer sentido a PAC? A resposta foi categórica: “Obviamente sim”. E continua: “Continua a fazer sentido porque a agricultura, pela sua importância estratégica, é uma questão prioritária. Por alguma razão os países fundadores da CEE [Comunidade Económica Europeia] firmaram o Tratado de Roma, decidiram que as questões agrícolas seriam tratadas a nível comum. Obviamente não sig-
nifica que não haja a adaptação dessa prioridade transversal às realidades de cada país. A PAC, dentro de uma matriz comum, tem hoje em dia uma enorme margem de liberdade para os países a adaptarem e a aplicarem de acordo com as suas especificidades”.
A IMPORTÂNCIA DO PDR Arlindo Cunha destaca como “crucial no processo de modernização e racionalidade da agricultura” o segundo pilar da PAC, ou seja o PDR. “Fizemos uma política agrícola muito baseada no apoio ao investimento e à implementação de novas tecnologias, mais poupadoras de recursos, mais amigas do ambiente, etc.”. O mesmo responsável considera que “em Portugal estamos a aplicar a PAC com base num modelo histórico, com base nas especificidades regionais, que vêm deste o tempo da reforma de 1992. Sabemos que hoje em dia não é assim. Precisamos de ter agricultura, o mercado não remunera plenamente, então temos uma política que complementa essa remuneração. Em economia chamamos-lhe uma falha de mercado. Este não remunera devidamente os agricultores e, neste caso, intervém a PAC. Hoje em dia, esta é a justificação para o pagamento direto da PAC, para colmatar uma falha do mercado. O mercado não paga a paisagem, não paga os contributos para o ambiente, não paga tudo aquilo que a agricultura faz pelos agricultores. Logo, faz sentido a PAC complementar essa falha do mercado. Nesse sentido, obviamente, os pagamentos diretos têm de ter uma lógica muito mais interpretativa entre setores
NOV19 www.agrotejo.pt DESTAQUE
15
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
NOV19 www.agrotejo.pt DESTAQUE
e territórios. Nesse aspeto, a PAC vai no bom caminho. Apesar de que é muito negativo que nos queiram retirar uma importante fatia do orçamento do segundo pilar. A redução total anda na casa dos 15% em termos correntes. Em termos de preços constantes de 2009, a redução pode ir para 25 a 30%. Isso é algo inaceitável. Obviamente para quem nos governa, e tem de negociar em Bruxelas, não é aceitável que num país onde o rendimento agrícola é pouco mais de metade da média europeia, nos estejam a cortar tanto no orçamento para essa modernização. Há um percurso muito longo a percorrer para a média comunitária”. 16
REDUÇÃO DE POLÍTICAS PROTECIONISTAS Francisco Avillez acompanha há muito as questões da Política Agrícola Comum. O sócio fundador da AgroGes comenta que, atualmente, “verificamos uma redução das políticas protecionistas – que quer por via dos mercados, quer por via dos pagamentos aos produtores
200 milhões de euros para a agricultura Em julho deste ano, o Governo anunciou que serão criadas linhas de crédito no montante global de 200 milhões de euros para apoiar o investimento nas explorações agrícolas e na transformação e comercialização de produtos. Estas linhas de crédito vão “permitir o acesso ao crédito bancário em condições mais favoráveis, nomeadamente, maturidades mais longas ou ainda períodos de carência mais vantajosos […], maior flexibilidade nas garantias exigidas e taxas de juros mais baixas”. Para aceder a este instrumento financeiro, os agricultores deverão cumprir os critérios definidos pelo PDR 2020 para as operações em causa. O novo instrumento financeiro – FEEI-FEADER Portugal –, previsto na regulamentação comunitária, destina-se, assim, a apoiar “pessoas individuais e coletivas que pretendam realizar investimentos abrangidos por determinadas operações do PDR 2020”. Este fundo combina recursos orçamentais do Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvimento Rural e do Fundo Europeu para Investimentos Estratégicos, tendo como objetivos “apoiar o investimento nas explorações agrícolas, em particular jovens agricultores, alavancando a ação do PDR 2020 e apoiar investimentos na transformação e comercialização de produtos agrícolas, de forma a promover a sustentabilidade e crescimento do negócio agrícola em Portugal”. O Fundo Europeu de Investimento vai canalizar os recursos através das instituições financeiras selecionadas, assegurando a cobertura de garantia até 25% das linhas de crédito que estas vão disponibilizar aos agricultores em Portugal.
“É essencial para a agricultura haver água. É este o grande desígnio nacional.”, Luís Vasconcellos e Souza – por medidas que substituem apoios diretos ou indiretos ao rendimento, por medidas que garantem uma maior estabilização dos rendimentos e gestão de riscos e apoio à promoção de aspetos de natureza ambiental”. O engenheiro Agrónomo sublinha que “deixámos de ter uma agricultura, que inicialmente foi muito protegida economicamente, por políticas que tornem a nossa agricultura mais competitiva economicamente, mais sustentável do ponto de vista ambiental e mais equilibrada em termos territoriais”. A reforma da PAC em curso tem diversos caminhos, como explica Francisco Avillez:
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
NOV19 www.agrotejo.pt DESTAQUE
“Tem-se vindo a caminhar através da alteração dos sistemas de apoio aos agricultores. Como é que isso se irá fazer? Depende. Esta PAC, com este novo modelo de organização e gestão, dá muito mais liberdade aos Estados-membros, o que lhes permite, como temos feito até agora, que se mantenha o mais defensivamente possível. Ou esta reforma pode dar passos no sentido de antecipar uma nova fase e conseguir ter uma política mais adequada ao que será a agricultura no futuro, com desafios ambientais, da saú-
18
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
de e do território, mas também com viabilidade económica”.
“VAMOS ENTRAR NO DESCONHECIDO” Luís Vasconcellos e Souza recorda que “terminámos o ciclo Luís Capoulas Santos, uma pessoa que conseguiu que o setor o aceitasse e ser aceite internacionalmente, conseguindo contrapartidas. Vamos entrar no desconhecido e ninguém sabe o que vai acontecer. O próximo quadro comunitário de apoio vai fazer-se na fase da presidência por-
tuguesa. Portugal tem de se preparar e ver quais são os interesses, dele e dos outros”. O presidente da Direção da Agromais destacou o que considera importante que Portugal defenda nesta discussão do futuro da PAC: “É essencial para a agricultura haver água. É este o grande desígnio nacional. Há zonas de Portugal que não têm água. Num clima como o português ter agricultura de sequeiro é estar sujeito a enormes riscos climáticos. Neste ano estamos a ver quantidades enormes de árvores a secar. Com um clima como o nosso temos de fazer uma opção muito ajuizada entre aquilo que é a agricultura para semear e a que é a florestal. Temos clima para determinado tipo de floresta melhor do que a Europa. Depois, o resto é sermos capazes de vender mais o nosso produto e acrescentar-lhe mais valor”. A concluir, Luís Vasconcellos e Souza alerta para “o senso que vai ter de haver por parte dos ministérios que vão ficar encarregues pela agricultura. É um setor débil, com poucos pontos fortes, mas que tem vindo a crescer de uma forma continuada e consistente. Era bom que não houvesse juízos antecipados sobre o setor. Mas antes, os responsáveis dos três ministérios em causa ouvissem o setor” .
ATUALIDADES
Comissão Europeia publica lista de 20 pragas de combate prioritário. Xylella fastidiosa é a que tem maior impacto CARLA PETULANTE AGROTEJO
Publicado no Jornal Oficial em 11 de outubro de 2019, o Regulamento Delegado (UE) 2019/1702 da Comissão enumera 20 pragas de quarentena como pragas prioritárias, incluindo Xylella fastidiosa, o besouro japonês, o besouro asiático com chifres longos, o esverdeamento cítrico e o ponto negro cítrico, cujo impacto económico, ambiental e social no território da UE é o mais grave. A seleção dessas pragas é baseada numa avaliação realizada pelo Centro Comum de Pesquisa da Comissão e pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, que leva em consideração a probabilidade de disseminação, estabelecimento e consequências dessas pragas para a União. A Xylella fastidiosa é uma das bactérias mais perigosas do mundo, causando murchidão, queimaduras na zona marginal e apical das folhas, causando a morte de alguns ramos e, por fim, a totalidade da planta, tendo um enorme impacto económico para a agricultura, jardins públicos e meio ambiente. No território da União, foram identificadas como hospedeiras várias plantas cultivadas de alto valor económico (por exemplo, oliveiras, frutos de caroço - ameixas, amêndoas, cerejas) ou plantas ornamentais de ampla disseminação (por exemplo loendro, lavanda, rosmaninho, vinca). Muitas outras espécies vegetais generalizadas continuam a ser potenciais hospedeiras no território da União. A transmissão da doença ocorre através de insetos vetores, em curtas distâncias, e pelo transporte de plantas contaminadas em longas distâncias. Foi detetada pela 1ª vez em Portugal em janeiro de 2019, na zona de Vila Nova de Gaia, em plantas ornamentais e espontâneas localizadas em espaços públicos e jardins particulares. Os serviços oficiais têm definido um programa de prospeção nacional. A DGAV alerta para que sempre que se observem sintomas suspeitos se deve contactar os serviços oficiais.
pub.
NOV19 www.agrotejo.pt
NOV19 www.agrotejo.pt entrevista
Entrevista a José Pedro Salema
20
“Uma reserva de água é uma garantia de vida” José Pedro Salema, presidente da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA) fala-nos do valor económico da barragem do Alqueva e explica a relevância destas reservas de água para o desenvolvimento equilibrado do território.
Sara Pelicano JORNALISTA
| Revista Agrotejo (RA) – O período de chuva tem sido cada vez menos, intensificando-se a seca. Há água para todos ou impõem-se medidas de contenção? José Pedro Salema (JPS) – O ano hidrológico que terminou a 30 setembro foi muito seco na área de influência do projeto Alqueva com precipitação acumulada de apenas 339 mm em Beja, 348 mm em Alqueva ou 362 mm em Noudar. Apesar disto, e porque Alqueva foi projetado para conseguir atravessar períodos de seca prolongada, a albufeira de Alqueva tem ainda, no início do novo ano hidrológico de 2019-2020, um armazenamento de cerca de 1.700 hm3 utilizáveis. Mesmo assumindo o pior cenário, de manutenção da situação de seca no período húmido que agora se inicia, ainda assim este volume seria suficiente para assegurar todos os pedidos de regadio, a evaporação e o caudal
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
ecológico por mais dois anos. Dito isto, a EDIA está a trabalhar num plano de contingência, para melhor gerir estes períodos mais exigentes, que fixará medidas de restrição do consumo em função do armazenamento verificado e da precipitação verificada na área de influência do projeto. RA – Quais as mais-valias de uma barragem, tendo em conta que é sempre um assunto controverso a questão de ter estes reservatórios de água? JPS – Numa palavra: regularização. Guardar água quando ela existe em abundância na natureza, tipicamente no outono e inverno, para a poder utilizar quando escasseia na natureza, essencialmente no verão. Mas existem exceções, fenómenos extremos como uma cheia em setembro ou em maio, que queremos evitar e que uma
NOV19 www.agrotejo.pt entrevista
trabalhadores envolvidos na produção) e um aumento mais moderado de consumos intermédios (116%). A produtividade da mão-de-obra triplica no ano cruzeiro. No setor agroalimentar, estima-se que em cada ano o EFMA [Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva] tem como efeito sobre a indústria agroalimentar uma expansão da produção em 250 milhões de euros a que corresponde um acréscimo de VAB de cerca de 56 milhões de euros, um adicional de emprego de quase mil postos de trabalho, mais 12 milhões de euros de impostos e uma melhoria do saldo externo que poderá ascender a cerca de 191 milhões de euros. No setor do turismo, o EFMA poderá ter um efeito em termos de produção anual que está a estabilizar em torno de 60 milhões de euros representando um acréscimo de emprego na ordem dos 150 postos de trabalho. No que respeita à produção de energia o impacto médio deverá andar em torno dos 70 a 80 milhões de euros por ano. Para o setor do abastecimento de água, entre os anos 2016 e 2033, e de acordo com o contratualmente acordado com as entidades envolvidas, é expectável que o abastecimento urbano-industrial do EFMA venha a proporcionar à EDIA um volume de receitas anual de cerca de 1,6 milhões de euros.
“Alqueva foi projetado para conseguir atravessar períodos de seca prolongada.”
RA – Quais as perspetivas de crescimento da área abrangida pela Barragem do Alqueva? JPS – O projeto da segunda fase do empreendimento de Alqueva contempla cerca de 50 mil hectares em torno das áreas já beneficiadas na primeira fase do projeto. barragem atenua substancialmente. Com as alterações climáticas temos a certeza que aumentará a frequência dos fenómenos meteorológicos extremos – secas e cheias serão cada vez mais comuns – e só as barragens nos poderão ajudar. Não temos que nos resignar aos caprichos da natureza. Uma reserva de água é uma garantia de vida. RA – Qual o valor económico do Alqueva? JPS – Em termos de produção agrícola em ano cruzeiro, com uma adesão de 80% da área intervencionada pelo sistema de rega, estima-se que o valor bruto da produção praticamente sextuplique (acréscimo de 339,7 milhões de euros face à Situação Base) e que o VAB aumente dez vezes (acréscimo de 254 milhões de euros), registando-se um aumento do volume de mão-de-obra de 214% (o equivalente a mais 7.517
RA – A construção de outras barragens no país seria estratégica? Em que medida? JPS – Sim, principalmente nas linhas de água com bacias em território português. A disponibilidade de água no verão em Portugal muda completamente as possibilidades produtivas, aumentando o valor acrescentado bruto e o emprego. Se desejamos o desenvolvimento harmonioso, é fundamental aumentar o armazenamento de água no território, seja através do alteamento das barragens existentes utilizando a folga que o assentamento dá em alguns anos de serviço ou seja através de novas barragens especialmente em bacias 100% em território português. A agricultura de regadio será sempre o maior utilizador de água, mas também a única atividade capaz de garantir uma ocupação equilibrada do território com criação de riqueza, emprego e sem fogos.
“Em termos de produção agrícola em ano cruzeiro, com uma adesão de 80% da área intervencionada pelo sistema de rega, estima-se que o valor bruto da produção praticamente sextuplique.”
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
21
NOV19 www.agrotejo.pt entrevista
lho da Europa para a instalação de 50MW de painéis fotovoltaicos em estruturas flutuantes, junto às estações elevatórias da rede primária – os principais locais de consumo de eletricidade de todo o sistema de Alqueva. Esperamos que quando esta entrevista estiver impressa o concurso público para essa construção esteja já a decorrer. Se assim for, é possível termos obras a decorrer no próximo verão e tudo operacional cerca de um ano e meio depois.
22
“Se desejamos o desenvolvimento harmonioso, é fundamental aumentar o armazenamento de água no território.”
RA – Quais os novos investimentos agrícolas que têm surgido no perímetro de rega do Alqueva? JPS – Os novos investimentos têm-se concentrado em culturas permanentes, principalmente olival e amendoal. Existe também algum interesse pelas frutícolas e por algumas hortícolas bem adaptadas à região. RA – O preço da água tem sofrido algumas alterações, mas os produtores continuam a considerar elevado. Há espaço para reduzir as tarifas? Como? JPS – O preço em Alqueva decorre do custo da distribuição que por sua vez está completamente dependente da elevação necessária e do consequente consumo de eletricidade. O tarifário foi revisto em baixa há apenas dois anos e considero que está equilibrado. RA – Como decorre o projeto fotovoltaico na Barragem do Alqueva? JPS – A EDIA conseguiu aprovar um empréstimo junto do Banco de Desenvolvimento do Conse-
pub.
RA – A EDIA apresentou o projeto URSA – Unidades de Recirculação de Subprodutos de Alqueva. Quais os objetivos deste projeto? JPS – A matéria orgânica é um elemento fundamental no solo, pois aumenta a sua fertilidade, estrutura, arejamento, capacidade de retenção de água e resistência à compactação. No entanto, nos solos do Alentejo essa matéria orgânica é cronicamente baixa e tem aceleradas taxas de mineralização com o regadio. Para promover a sustentabilidade da produção agrícola em Alqueva é fundamental considerar o solo, a base de todas as atividades agropecuárias, e desenvolver esforços para aumentar os seus teores de matéria orgânica. Com esta visão de sustentabilidade da produção agrícola este projeto visa mostrar que é possível, e tem muitas vantagens, retomar as práticas ancestrais de valorização dos resíduos para aumento da fertilidade dos solos mas, desta feita, tendo o conhecimento e a ciência como aliados. O objetivo do projeto é assim valorizar os subprodutos e resíduos agrícolas e pecuários para produção de fertilizante orgânico através da compostagem controlada. Para isto, é realizada uma mistura de vários resíduos, a sua trituração, arejamento e humidificação ao longo do processo natural de alguns meses de “cura” ao ar livre.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Frutas e legumes portugueses crescem nos mercados internacionais Entre janeiro e agosto, as exportações de frutas, legumes e flores ultrapassaram os mil milhões de euros, mais 9% em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo a Portugal Fresh – Associação para a Promoção das Frutas, Legumes e Flores de Portugal. Relativamente aos países de destino dos produtos, Espanha está do topo da lista. Até setembro, as exportações para este mercado somaram 283 milhões de euros, aumentando 6% (268 milhões no período homólogo). França, Holanda, Reino Unido e Alemanha são os países que mais compram produtos nacionais. “É muito importante que Portugal seja reconhecido como uma geografia de referência na produção de frutas e legumes. Tem, a nível europeu, algo de único: a qualidade que o Atlântico nos garante e a possibilidade de produzir mais semanas por ano, em comparação com o resto dos países da latitude Sul da Europa. Os resultados das exportações dos primeiros nove meses do ano vão ao encontro do que tem
sido o crescimento médio registado entre 2010 e 2017, de 9%, coincidente com o que registámos agora, entre Janeiro e Agosto de 2019. Acreditamos que este crescimento é para continuar”, destacou, Gonçalo Santos Andrade, presidente executivo da Portugal Fresh, à Frutas, Legumes e Flores.
23
pub.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Primeiro curso de formação de Guardas Florestais contou com 164 elementos
24
No passado dia 21 de outubro, teve início o primeiro curso de Guardas Florestais, através da Escola da Guarda Nacional Republicana, e contou com 164 formandos. O objetivo desta formação é reforçar o dispositivo do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR que conta, neste momento, com 281 Guardas Florestais ao serviço. Esta formação surge após a Resolução de Conselho de Ministros n.º 11A/2918 que autorizou a GNR a recrutar externamente efetivos para reforço das equipas de guardas florestais. Os Guardas Florestais exercem funções em matérias que por lei lhes atribui a qualidade de órgãos de polícia criminal,
pub.
desenvolvendo missões que concorrem para a prossecução do serviço da GNR, em prol da proteção do ambiente, da conservação da natureza e biodiversidade, da riqueza cinegética, piscícola
e florestal. Através do Decreto-Lei n.º 22/2006, de 2 de fevereiro, procedeu-se à consolidação institucional do SEPNA na GNR, transferindo para esta força de segurança o pessoal do Corpo Nacional da Guarda-Florestal, sendo os mesmos integrados no quadro de pessoal civil da GNR, contribuindo, desta forma, para o reforço da capacidade de vigilância e fiscalização do território nacional, no que a estas matérias diz respeito. O 1.º Curso de Formação de Guardas Florestais, com um total de 836 horas, das quais 286 em contexto de trabalho, versa matérias como a silvicultura, a caça e pesca, o armamento e tiro e a investigação de causa de incêndios.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Portugal aprende a combater fogos com Chile
Comissão Europeia cria Observatório do Mercado de Frutas e Legumes
O perito chileno Sílvio Ávila esteve em Portugal a convite da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) para partilhar o seu conhecimento no combate aos incêndios. Ao longo de uma semana de formação, os formandos aprenderam temas relacionados com a estratégia de posição no terreno e diferentes regras de segurança. Fizeram-se faixas de contenção para salvaguardar populações e infraestruturas. À Rádio Renascença, Sílvio Ávila explicou que o objetivo é “tirar o melhor rendimento das ferramentas manuais para que os operacionais não se desgastem em dez minutos” porque “um incêndio pode durar dias”. Para o especialista chileno, “falta melhorar a organização existente. Cá, em Portugal, há muitas entidades que tem que ver com incêndios florestais, mas não trabalham em conjunto. Creio que este é um problema a solucionar”. No total, participaram nesta iniciativa 500 militares da GNR e 250 agentes florestais.
O Observatório do Mercado de Frutas e Legumes foi lançado pela Comissão Europeia, em outubro, e é focado em quatro áreas: pomóideas (pêra e maçã), nos citrinos, na fruta de caroço (pêssegos e nectarinas) e no tomate. Este recurso será “atualizado regularmente com dados de mercado relativos a preços, produção e comércio, os quais serão complementados com análises de mercado, relatórios previsionais de curto prazo e perspetivas de médio prazo e com reuniões regulares de peritos de mercado para discutir o estado do mercado”, esclarece a comissão. A Comissão adianta ainda que este Observatório visa “fornecer mais transparência ao setor hortofrutícola europeu, através da disseminação atempada de dados de mercado e de análises de curto prazo” e ajudar o setor a “lidar de forma mais eficaz com a volatilidade dos mercados”. O Observatório do Mercado de Frutas e Legumes conta com um grupo de peritos, dividido em quatro subgrupos, relativos às áreas de foco mencionadas.
pub.
25
NOV19 www.agrotejo.pt REALIDADES
26
Agricultores aderem à produção de nozes Sara Pelicano JORNALISTA
O projeto de plantação de nogueiras incentivado pela Agromais DECORRE “dentro das expectativas”. O Entreposto Comercial Agrícola encontrou mais uma alternativa para os agricultores assegurarem a sua rentabilidade. AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
| O projeto de implementação de pomares de nogueiras está a decorrer “dentro das expectativas”, sublinha Luís Vasconcellos e Souza, presidente da Direção da Agromais. Atualmente, há 200 hectares plantados com nogueiras e o objetivo é chegar aos mil hectares. “A adesão dos agricultores tem sido gradual e exige um esforço de investimento elevado”, refere o mesmo responsável. No entanto, sobre este esforço financeiro, Luís Vasconcellos e Souza acredita ser recompensado porque o “negócio é rentável” e, por isso, a Agromais assim o quis demonstrar. O presidente da Agromais recorda que esta é uma cultura que se dá “maravilhosamente bem nesta zona. Existe um nogueiral difuso na zona, muita gente tem nogueiras nas suas propriedades”. As nozes representam uma aposta da Agromais, que tem feito outras, como o milho para pipocas. Estarão a ser pensadas novas áreas? “O nosso historial mostra que, no fundo, queremos fazer aquilo em que achamos que temos dimensão e onde somos competitivos. Foi verdade para o milho, para a batata de indústria, para a ce-
bola. É sobretudo nessas culturas que está a nossa aposta. Podemos ter dimensão aí [nas nozes] e seremos competitivos porque a fruta dá-se muito bem. As árvores mais velhas têm três anos. No fundo este ano já produziram alguma coisa. Um dos aspetos menos positivos da cultura é que demora mais tempo do que o olival e o amendoal a tornar-se numa cultura interessante. Mas o potencial do negócio é muito superior face às outras culturas”. Jorge Neves, diretor-geral da Agromais, recorda que, para o caso das nozes, “desde há um ano que estão a fazer prospeção de mercado internacional. O nosso país é um mercado muito pequeno, temos de criar diferenciação. No caso das commodities somos bombardeados por produtos que chegam de fora. Ou procuramos fora, ou estagnamos e minguamos. O próprio milho que é uma commodities perfeita, temos aperfeiçoada a nossa estratégia comercial, estamos agora a exportar para Espanha. Isto num país que é importador de milho. Ou seja, se conseguimos a tal diferenciação, estamos a valorizar o produto”.
NOV19 www.agrotejo.pt REALIDADES
Um ano após a publicação da Estratégia Nacional dos Programas Operacionais para o sector hortofrutícola, Como estamos?
28
Portugal, contrariamente ao desejável e à estratégia delineada, está a regredir no que diz respeito à organização da produção e a desperdiçar verbas.
Alexandra Diogo FNOP
| A 2 de novembro de 2018 foi publicada a portaria n.º 295-A/2018 que veio estabelecer as regras nacionais complementares relativas aos fundos operacionais, aos programas operacionais e à assistência financeira, previstas no Regulamento (UE) n.º 1308/2013, no Regulamento Delegado (UE) 2017/891 e no Regulamento de Execução (UE) 2017/892. Neste âmbito, foram também estabelecidas as medidas e ações elegíveis para apoio, quando enquadradas num Programa Operacional. O novo quadro normativo era aguardado há muito e existia alguma expectativa em redor do mesmo, nomeadamente no que diz respeito ao aumento do leque das ações elegíveis e a sua maior adequação à realidade do sector. Efetivamente, o número de ações disponíveis, em particular ao nível das ações ambientais, é agora superior e aparentemente estas são também mais adequadas às necessidades. Ficaram por introduzir, contrariamente ao solicitado pela produção, algumas AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
das ações de Gestão de Crises previstas pela legislação comunitária e foi ainda desperdiçada a oportunidade de estabelecer regiões para a concessão de assistência financeira nacional, apoio acrescido que funcionaria como um incremento ao desenvolvimento das regiões onde as taxas de organização continuam baixas. Esperávamos também, um processo de instrução de um programa operacional menos burocrático mas esta carga não diminuiu em nada, muito pelo contrário, e a articulação entre os vários serviços/ organismos do Ministério da Agricultura ainda manifesta várias lacunas. No entanto, a maior preocupação do sector, passado um ano, é o facto da operacionalização de algumas ações ainda estar por definir/clarificar, pois não foram publicadas todas as diretrizes que as organizações de produtores (OP) têm de cumprir de forma a poder integrar essas ações nos seus programas operacionais (PO). As incertezas continuam a ser muitas, sucedendo que as próprias DRAPs aprovam PO com ações condicio-
nadas, devido às dúvidas que também têm relativamente às elegibilidades. São necessárias orientações claras e transversais, partilhadas entre todas as estruturas que têm intervenção nestas matérias. O clima de suspeição permanente que se instalou e que a Administração pouco tem feito para contrariar, quer ao nível dos programas operacionais, quer ao nível do próprio reconhecimento das organizações de produtores, em que situações consideradas corretas numa determinada data, vêm mais tarde a ser colocadas em causa, com a consequente penalização, única e exclusiva das estruturas da produção, está a fazer com que muitas OP reconsiderem a apresentação de programas operacionais e no limite, até da manutenção do próprio reconhecimento. Portugal, contrariamente ao desejável e à estratégia delineada, está a regredir no que diz respeito à organização da produção e a desperdiçar verbas, 100% comunitárias, fundamentais para o incremento da competitividade do sector.
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
Susana Covão e Tânia Silva Agromais
Pipocas da Agromais: “Boas comó milho!”
30
| Com um grande espírito de inovação e com uma estratégia de diversificação da produção e de mercados, a Agromais avançou para um projeto novo: Milho para pipocas. A produção deste tipo de milho em Portugal era inexistente, e tudo o que era consumido no mercado nacional, seja nos cinemas, nos supermercados ou nas feiras, quer em forma de pipoca ou em embalagens de milho para fazer pipocas era importado. Com um projeto inovador em parceria com a NOS, Consulai, Prosense e Agrotejo, em 2012 fizeram-se os primeiros ensaios e a partir daí foi sempre a crescer em área, qualidade e volume. Aliando a I&D e o controlo de qualidade apostou-se num processo desde a selecção da semente aos controlos de qualidade com equipamento de ponta e de referência no sector, como exemplo o MWVT (Metric Weight Volume Tester). A criação de know-how, e a especialização deste nicho, veio contribuir para que não só os recursos disponíveis na Agromais contribuam ativamente para criar inovação nos produtos oferecidos ao mercado, como também associado à inovação se indexe a mais-valia das propriedades e finalidaAGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
O seu sabor diferenciado, aliado à técnica adquirida pelos anos contínuos de experiência com a cultura do milho, ajudou a que as Pipocas Agromais se destacassem das demais.
des do produto, assegurada pelo departamento técnico e de qualidade. O seu sabor diferenciado, aliado à técnica adquirida pelos anos contínuos de experiência com a cultura do milho, ajudou a que as Pipocas Agromais se destacassem das demais. Não obstante, veio reforçar a posição no mercado transformador de snacks, contribuindo para que a Agromais continue a liderar numa área não só altamente competitiva, com fornecedores de vários pontos do globo, mas também em crescimento contínuo. E se os snacks são agora uma das tendências de consumo a nível mundial, as pipocas, ou o milho pipoca, não só foi descoberto pelo Colombo, tendo origem na América do Sul, como também é dos snacks mais saudáveis, e diga-se, divertido para a camada mais jovem. A forma de consumo pode ser imensa, variando desde a sua forma mais pura após a expansão do grão de milho, até onde a criatividade chegar, havendo neste momento disponível no mercado pipocas com coberturas com sabor a caramelo, a bacon, queijo, pesto, trufas, entre tantos outros. Com todo o empenho e dedicação as pipocas da Agromais só poderiam ser “Boas comó milho”.
NOV19 www.agrotejo.pt À conversa com…
Entrevista a Eduardo Oliveira e Sousa, presidente da CAP 32
PAC vai dar “ênfase” às alterações climáticas A importância do regadio, fonte de riqueza e de sustentabilidade, a barragem do rio Ocreza, o futuro da Política Agrícola Comum e as expectativas face ao novo Governo são alguns dos temas abordados na entrevista a Eduardo Oliveira e Sousa, presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal.
Sara Pelicano JORNALISTA
| Revista Agrotejo (RA) – Assumiu a presidência da Confederação dos Agricultores de Portugal em 2017. Qual o balanço que faz destes dois anos e meio? Eduardo Oliveira e Sousa (EOS) – No início houve alguma adaptação da minha parte porque não estava nos meus horizontes, pelo menos de forma pré-decidida, passar por esta experiência e tem sido uma agradável surpresa porque é uma organização que tem uma representatividade muito ampla no país e tem um enorme reconhecimento e isso é mérito da organização e daqueles que antes de mim construíram o percurso que deu origem à posição que a CAP ocupa no espectro sociopolítico e socioeconómico do setor agrícola em Portugal. Um percurso destes não se faz sem pessoas, pessoas dentro da organização, e
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
isso também é agradável de constatar porque se trata de uma equipa que tem um elevado nível técnico e um elevado nível de competência e, por isso, o balanço que eu faço, é um balanço positivo. Relativamente aos resultados, esse balanço terá de ser feito pelo universo associativo e pelos agricultores em geral porque o trabalho aqui varia muito em função dos momentos que se vivem, quer sejam de caracter político, quer sejam de acontecimentos, como as secas, cheias ou acontecimentos a nível europeu, alterações de regulamento e tudo isso. RA – Quais os principais desafios que o setor agrícola irá enfrentar nos próximos anos? EOS – O primeiro desafio que temos por diante, mais imediato, é muito incerto, obscuro, e
NOV19 www.agrotejo.pt À conversa com…
ou quatro anos, e quatro anos coincide com a legislatura que agora vai começar, em que vamos ter por diante desafios de diferentes componentes e muito impactantes com aquilo que é o desenvolvimento da agricultura nacional.
são as alterações climáticas. O outro grande desafio é não sabermos ainda com que linhas nos vamos coser em termos de Política Agrícola Comum. A juntar a estas duas situações, que sendo áreas completamente distintas, ambas têm influência nos caminhos a seguir e nas escolhas a fazer, juntam-se também as dúvidas sobre a política que o novo Governo irá desenvolver em termos internos e que está relacionado com os dois assuntos anteriores. Com as alterações climáticas, por causa dos assuntos relacionados com a água; pelo lado da Política Agrícola Comum, a construção das políticas e as equipas que vão gerir todo o pacote e toda a política de transcrição para Portugal daquilo que virá a ser a Política Agrícola Comum e a adaptação dos regulamentos à nossa realidade. Eu prevejo que serão três
RA – O Programa de Desenvolvimento Rural (PDR) está em fase de análise para se iniciar um novo quadro 2020-2027. Considera que haverá uma continuidade das políticas ambientais? EOS – O PDR em Portugal tem uma componente muito importante porque 50% do envelope financeiro que vem para Portugal está associado ao segundo pilar e o segundo pilar é o PDR, onde está o desenvolvimento rural, investimentos, os apoios agroambientais e os jovens agricultores. É um pilar importantíssimo entre nós. A construção da próxima Política Agrícola Comum seguramente vai dar mais ênfase às situações de caracter ambiental e neste momento é ainda desconhecido se essa ênfase vai cair apenas no segundo pilar ou se, pelo contrário, vai reforçar o primeiro pilar. Já aconteceu no passado com a questão do greening, que não funcionou conforme tinha sido pensado e, portanto, vão surgir novas formas de relacionar a atividade agrícola e os respetivos apoios no âmbito do primeiro pilar com medidas de carácter ambiental. Não estão definidas, são os chamados eco-esquemas, que não conhecemos ainda muito bem se são voluntários, se serão obrigatórios, se são condicionantes… é uma nuvem que temos neste momento. Em relação ao PDR e ajudas diretas no âmbito do segundo pilar, a nossa esperança é de que a máquina PDR funcione melhor do que aquilo que tem funcionado ou funcionou neste quadro que agora termina. Este quadro termina agora em termos de ciclo político, mas não termina agora em termos práticos porque não há orçamento. Até haver orçamento, o PDR vai manter-se exatamente como nós o conhecemos e é preciso que haja viabilidade financeira, ano após ano, por parte do Ministério [da Agricultura].
“O outro grande desafio é não sabermos ainda com que linhas nos vamos coser em termos de Política Agrícola Comum.”
33
“Há trabalho a fazer em termos de valorização daquilo que é nosso.”
RA – Ainda assim, o que é que Portugal deve assegurar nesta discussão? EOS – No âmbito das medidas ambientais, Portugal é de alguma maneira um país amigo do ambiente em termos agrícolas porque, ao contrário da ideia que se tenta passar para a AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
NOV19 www.agrotejo.pt À conversa com…
34
“Quando estamos a dizer que é preciso desenvolver o mundo rural, não estamos a dizer que as pessoas têm de ir para o campo ser agricultor.”
opinião pública, de que a agricultura é uma atividade nociva, de que a pecuária é uma atividade nociva, a nossa prática agrícola, com algumas exceções, está muito mais do lado da moeda em que é amiga do ambiente do que do lado da moeda em que é menos amiga do ambiente. Leia-se, na menos amiga do ambiente, algumas agriculturas mais intensas que, mesmos sendo intensas, não têm de ser inimigas do ambiente e, por isso, eu não consigo dizer que tenhamos uma agricultura agressiva para o ambiente. Obviamente, no sistema extensivo, seja ele de sequeiro, seja ele de montado, seja ele de pecuária com fraca densidade, tem um impacto no ambiente muito menor do que um olival intensivo, uma cultura da vinha ou de milho regado, etc. No que diz respeito às restrições que nós receamos é ao nível do Ministério do Ambiente, principalmente associadas ao tema água, venham a ser implementadas, estamos com algum receio... ou o receio aqui vai depender da constituição ministerial: que força? que protagonismo? que pragmatismo? vão ter o ministro da Agricultura e o ministro do Ambiente nesta questão? Se forem dois ministros pró-ativos tudo se resolve. O maior problema não está ao alcance de um clique dos Homens, que são as alterações climáticas, se além
desse problema tivermos pessoas que têm entendimentos diferentes, visões diferentes, poderes diferentes, aí pode agravar-se. RA – Quais devem ser as prioridades do Ministério da Agricultura, agora gerido por Maria do Céu Albuquerque? EOS – A futura PAC e as questões ambientais associadas à gestão do recurso água são os grandes temas. Depois há trabalho a fazer em termos de valorização daquilo que é nosso. Temos de continuar a olhar para o vinho, para o azeite, continuar a encontrar valorização dos outros produtos. Temos um grande problema em mãos que é o Brexit, que de tanto se falar nele já quase nos esquecemos dele, mas é um problema principalmente para quem exporta frutos frescos e hortaliças, que não podem parar na fronteira. Vai ter de existir alternativas para essa situação. Também as negociações entre o bloco europeu e o bloco americano para ver se se evita aquilo que aconteceu recentemente, o Governo americano a introduzir taxas nos produtos agroalimentares vindos da Europa. Isso faz-se através de acordos comerciais. Os europeus às vezes não gostam muito desses acordos, mas o que é facto é que o acordo com o Canadá levou mais de dez anos a fazer-se, mas está feito e as regras agora são conhecidas. Temos alguma expectativa relativamente à postura dos respetivos parlamentares. Não podemos esquecer que os interesses do país têm de estar à frente. Espero que seja essa a postura dos políticos que nos vão governar nos próximos anos. RA – As empresas agrícolas inseridas em organizações de produtores já têm algumas diferenciações positivas, mas deveriam existir mais ou ser aplicadas de forma diferente? EOS – Os agricultores em Portugal não têm uma grande apetência, nem tradição por reconhecerem no sistema associativo a sua fortaleza. Somos todos um pouco individualistas, cada um gosta de defender a sua capelinha. Esses tempos acabaram. O agricultor em Portugal não é, por norma, um agricultor de grande dimensão e quando não se tem poder económico, quando não se tem dimensão, a consequência imediata é haver uma dissolução. Ora, a única forma de ultrapassar isso é através da fortificação e esta passa pela união. Essa união dá origem a uma economia de escala que permite melhor profissionalizar a
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
NOV19 www.agrotejo.pt À conversa com…
O primeiro desafio que temos por diante, mais imediato, é muito incerto, obscuro, e são as alterações climáticas.
36
Até haver orçamento, o PDR vai manter-se exatamente como nós o conhecemos e é preciso que haja viabilidade financeira, ano após ano, por parte do Ministério [da Agricultura].
gestão das aquisições, das vendas, das exportações, até das prestações de apoio técnico aos próprios agricultores e, por isso, eu vejo no sistema associativo, seja ele pela simples associação, seja ele pelo agrupamento ligado ao setor comercial da atividade agrícola, um enorme futuro. Se aliado a este caminho, o agricultor tiver um incentivo, que pode ser através de uma majoração, ou de um benefício fiscal de outra natureza, creio que os agricultores sairão beneficiados com isso. Mas já há ajudas e há quase que obrigações porque, por exemplo, um agricultor de tomate já não faz um contrato individual com a fábrica, ele tem de fazer um contrato com o seu agrupamento que fará o contrato com a fábrica. Esse agricultor quer queira, quer não queira, tem de pertencer à organização de produtores. Mas é bom que isto seja voluntário, mas em determinadas situações como esta do tomate, a pessoa não tem escolha. Acho que sim, nalguns setores talvez não seja necessário fazer a figura da obrigação, mas quem estiver no sistema tem de ter algum benefício para depois recolher o respetivo benefício. Além disso, isto transforma mais transparente as relações institucionais porque, por exemplo, as ajudas comunitárias que vêm para um determinado setor se foram veiculadas através de uma organização devidamente profissional, fácil de ser vistoriada, fiscalizada, com
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
competências técnicas estabelece um regime de transparência na relação e de segurança na utilização dos respetivos recursos que pode beneficiar o setor retirando do espectro dos castigos ou multas dos procedimentos por irregularidades. RA – Como entende a gestão de armazenamento de água no país? São necessárias mais barragens? É preciso mais e melhores acordos com Espanha? EOS – Começo por fazer referência a uma afirmação da Sra. ministra do Ambiente espanhola quando, há dois ou três anos, o Sr. ministro do Ambiente de Portugal, num encontro internacional, foi pedir à senhora ministra espanhola se era possível largar um pouco de mais água no rio Tejo porque em Portugal estávamos com problemas com a falta de água. A Sra. ministra espanhola respondeu de uma forma muito simples: nós já fizemos o nosso trabalho, vocês ainda têm trabalho para fazer. Do lado de Espanha, cerca de 80% da escorrências do rio Tejo estão associadas à construção de barragens, do lado português apenas cerca de 20% está sujeito a intervenção de barragens. Reconheço que o rio em Portugal tem características distintas do rio em Espanha, porque o rio em Portugal não pode, por mais barragens que se façam, constituir uma reserva com as características de que o Tejo
NOV19 www.agrotejo.pt À conversa com…
necessita. Por isso, deveria sim ser feita uma barragem na bacia do Tejo, a barragem do Alvito no rio Ocreza. Com essa construção, não é necessário estar a fazer mais barragens no rio Tejo, que não tem grandes capacidades de encaixe. Assim, no rio Ocreza ficaria um bom reservatório, que poderá minimizar os problemas da falta de água no Tejo. Eu acho que de Espanha não virá mais água, por outra razão também, é que eles não têm. O que se passa cá, passa-se em Espanha. A desertificação está avançar pela Península toda e os espanhóis, conforme disse a ministra, fizeram o seu trabalho de casa e infraestruturaram-se. Têm um transvase para fazer chegar água ao Sul de Espanha que, ao contrário do que se diz retira muito pouca água do rio Tejo. É um transvase feito muito a montante e na margem esquerda onde corre muito menos água. Esse transvase significa menos de 5% da totalidade das escorrências do rio. O que temos de fazer é gerir os nossos recursos e aí nós temos ainda em diversos locais do país capacidade de criar mais armazenamento. Infelizmente, chove menos e, portanto, esses armazenamentos vão passar muito tempo com pouca água. Mas quando ela ocorrer, eles vão armazená-la. Isto tem de ser feito com muita técnica e muita ciência porque os rios têm de manter o seu caudal ecológico, tem de haver água a chegar aos estuários, a chegar à foz. Se neste momento já nos queixamos que o abandono é intenso, que a desertificação está associada a dois fenómenos: a perda de população e desertificação física, a única forma de entrarmos num ciclo de combater esse efeito é através da intensificação da agricultura nessas regiões e isso sem água não se faz. Eu sou um acérrimo defensor de se olhar para o país e ver onde é que é possível criar armazenamentos, que se tornem estratégicos, sempre que possível com fins múltiplos para associar outras valências à potenciação da economia, tais como o turismo, o abastecimento público.
isso é muito difícil de medir e têm de ser os especialistas a olhar para esses assuntos. O único efeito visível que tenho presente, tem a ver com o sítio onde eu trabalhei durante mais tempo que é o Vale do Sorraia. Não conheci antes de existirem as barragens, mas sei exatamente o que aconteceria àquela região se não existisse a barragem. São 150 quilómetros de verde que não existiriam se não houvesse aquele regadio. Devo recordar que antes de haverem as barragens o rio Sorraia secava, havia pessoas no verão cuja profissão era fazer buracos para captar água. Com o regadio a funcionar, o rio corre, fazem-se provas de pesca com carácter mundial… tudo porque existe regadio. A água que circula em toda a região do Vale do Sorraia tem mais qualidade no fim do que no princípio, o que significa que há um elemento purificador provocado pela utilização da água no regadio, mesmo com a utilização dos adubos, e fitofármacos que os agricultores utilizam, com cada vez mais cuidado, conhecimento e técnica. RA – A PAC foi posta em prática em 1962. Continua a fazer sentido ainda hoje? EOS – É um assunto que vai obrigar o próprio setor a debruçar-se sobre esse problema. A política agrícola vai seguramente ter uma visão associada à proteção do ambiente, diferente daquilo a que estávamos habituados.
Eu sou um acérrimo defensor de se olhar para o país e ver onde é que é possível criar armazenamentos, que se tornem estratégicos, sempre que possível com fins múltiplos para associar outras valências à potenciação da economia
RA – Quais os impactos do regadio nas alterações climáticas? EOS – Na minha opinião, sempre que existe utilização de água, permite que haja mais verde no território. Se tiver campos agrícolas ocupados com culturas que estão vivas durante o verão, eu tenho água na natureza, água no ar e isso permite que haja um pouco mais de combate ao avanço da desertificação. Mas
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
37
NOV19 www.agrotejo.pt À conversa com…
38
“Temos alguma expectativa relativamente à postura dos respetivos parlamentares. Não podemos esquecer que os interesses do país têm de estar à frente.”
A política agrícola nasceu com um determinado objetivo que foi atingido e como em tudo na vida, o tempo vai passando, as coisas vão-se alterando e há que fazer uma grande análise sobre o caminho a seguir e quais são os novos objetivos a atingir com a política agrícola comum. No caso português, há situações que vão merecer ser enquadrados nesta revisão, principalmente porque não podemos de maneira nenhuma correr o risco de dissociar os apoios diretos à agricultura, daquilo que é o objetivo da agricultura que é produzir. Se há produção, tem de haver integração das ajudas da política agrícola; se não há produção, possivelmente essas ajudas terão de ter outra razão de ser, eventualmente outros valores, ou até, não havendo produção e não havendo atividade, os apoios terem de ser dirigidos para onde essa atividade existe. Esse caminho vai ter de ser feito, mas como ainda não temos a matriz do que será a nova política agrícola, também não podemos desenvolver esse trabalho que, na minha perspetiva, vai ser feito dos próximos anos. RA – Muito se tem falado do mundo rural e no último Orçamento de Estado foram apresentadas medidas para criar incentivos e benefícios para o interior. O que foi concretizado?
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
EOS – Portugal tem um enorme problema que é pensar que resolve os assuntos pela publicação de uma lei. Lembro que houve uma coisa positiva que foi criada nesta última legislatura que foi o estatuto do Empresário Rural, além do Empresário Rural Agrícola. Tenho sido um acérrimo defensor do desenvolvimento do mundo rural associado à agricultura, mas há muitas outras coisas para fazer no mundo rural desde que as pessoas lá estejam e isso está por fazer. São importantes medidas que foram agora veiculadas durante a campanha eleitoral, como seja haver impostos reduzidos para quem se instale no mundo rural, é preciso cativar as universidades para associar o conhecimento ao local onde se encontram, como acrescentar valor aos produtos que são produzidos na sua região. Havendo pessoas no mundo rural, uns a fazer agricultura, outros no comércio e outros nos serviços, há desenvolvimento rural. Quando estamos a dizer que é preciso desenvolver o mundo rural, não estamos a dizer que as pessoas têm de ir para o campo ser agricultores, eles pode ser médicos, professores, advogados. O mundo rural esvaziou-se e a única alternativa é voltarmos a povoar esse mundo rural. Não se faz num dia, mas se não se começar não se faz nunca. RA – O território florestal precisa de mais atenção? EOS – A floresta precisa de mais dimensão, porque sem dimensão, a floresta não tem viabilidade. Temos várias florestas: o montado que tem uma associação ao mundo agrícola e a floresta mais específica de árvores do género dos eucaliptos e pinheiros. Aí temos dois problemas gravíssimos associados. Na questão do eucalipto, o facto de estar mal visto, ser proibido plantar eucaliptos. Esta situação, do nosso ponto de vista errada, tem sido mal tratada politicamente. Do lado do pinheiro, os desafios são de outros género, associados à falta de rentabilidade e às doenças. As doenças estão a atacar muitíssimo o setor do pinho e não vejo o Governo a olhar para esse problema com olhos de ver. Não havendo possibilidades de aumentar a área de eucalipto e o pinheiro a não ter qualquer espécie de viabilidade, o quadro de futuro é negro nessas regiões. Por isso, é que arde. Sem pessoas, sem autorização para porem outras árvores e sem solução para o problema da própria árvore... não sei... há um buraco negro à nossa frente.
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
Tiago Silva Pinto CNCACSA
Sector agroflorestal cria Centro Nacional de Competências para as Alterações Climáticas
40
| As alterações climáticas (AC) são uma realidade e uma prioridade nacional face aos seus impactos presentes e futuros sobre os ecossistemas, a economia e a sociedade, enquadradas pela Convenção–Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (1992). Os estudos efetuados indicam que Portugal e a região mediterrânica se encontram entre as zonas europeias com maior vulnerabilidade aos impactes das alterações climáticas. O aumento das temperaturas, as mudanças nos padrões de precipitação, o aumento da variabilidade climática e a maior frequência e magnitude de eventos extremos hidrometeorológicos, conduzem a um aumento dos riscos potenciais e da vulnerabilidade dos nossos sistemas de produção agrícolas, agroflorestais e florestais. Por outro lado, os Centros de Competência, como estruturas que agregam os produtores, a indústria, o sistema científico e tecnológico e as autarquias, têm-se revelado determinantes para alcançar a necessária competitividade e sustentabilidade socioeconómica do sector agroflorestal nacional. Deste modo, e na sequência do desafio que foi lançado pelo Senhor Ministro da Agricultura, Dr. Luís Capoulas Santos, no passado dia 15 de maio de 2019, em Elvas, no sentido do movimento associativo se mobilizar na criação de um Centro Nacional de Competências para as Alterações Climáticas do Sector Agroflorestal (CNCACSA), que aprofunde e congregue os conhecimentos que existem sobre esta temática, a ANPROMIS, a ANPOC, a ADVID, a FENAREG, a FNOP e a UNAC decidiram aceitar este AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
O Centro Nacional de Competências para as Alterações Climáticas tem, entre outras, a missão de disseminar a informação sobre as medidas de mitigação e adaptação desenvolvidas e avaliadas, para que as mesmas cheguem mais facilmente a todos os agentes do sector agroflorestal português.
desafiante repto. Para o efeito, foram convidadas para fazer parte do Órgão de Gestão deste Centro de Competências, que ficará sediado nas instalações do INIAV, em Elvas, a Câmara Municipal de Elvas, a Agência Portuguesa do Ambiente, a Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural, o Gabinete de Planeamento e Políticas, o Instituto da Conservação da Natureza e Florestas, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Dada a transversalidade desta problemática, entendeu-se que este Centro deverá ser o mais abrangente possível, congregando assim todas as entidades que se julgue relevantes para aprofundarmos os conhecimentos que existem sobre esta matéria. Deste modo, teve lugar no passado dia 11 de setembro, em Elvas, a assinatura do protocolo de constituição e funcionamento deste Centro, o qual é atualmente constituído por 53 entidades representativas de todo o setor agroflorestal nacional. A nova estrutura vem assim reunir agricultores, investigadores e entidades tuteladas pelos ministérios da Agricultura, do Ambiente e da Ciência, em torno de uma estratégia comum para adaptar a agricultura e as florestas nacionais às alterações climáticas e mitigar os seus crescentes efeitos. O CNCACSA tem assim como principal missão a Inovação, o Desenvolvimento e a Investigação (I&D&I) para identificar a descrição dos cenários climáticos no país, avaliação da capacidade de resposta e da vulnerabilidade das AC e desenvolver e avaliar medidas de mitigação e adaptação perante a necessidade de garantir a sustentabilidade da agricultura e floresta portuguesa, nas vertentes produtivas, ambientais e sociais. É também missão deste Centro a disseminação de informação sobre as medidas de mitigação e adaptação desenvolvidas e avaliadas, para que as mesmas cheguem mais facilmente a todos os agentes do sector agroflorestal português. Por último, cabe realçar que as entidades signatárias deste protocolo se comprometem a, no prazo de 180 dias após assinatura do seu protocolo, a apresentar às tutelas respetivas das entidades gestoras de carácter público, um plano de atividades de curto, médio e longo prazo, que responda às necessidades de I&D&I para as alterações climáticas no âmbito do sector agroflorestal nacional.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Marcas sustentáveis são preferidas pelos consumidores
42
O estudo Evolving Sustainability, da consultora Nielsen, concluiu que 81% dos consumidores europeus defendem que as marcas devem apostar na implementação de iniciativas sustentáveis, confessando estarem dispostos a mudar os seus hábitos de consumo, esperam também mudanças da parte das marcas. A consultora esclarece que “o cenário traçado é de enormes consequências, particularmente associadas à utilização de plástico – produzimos anualmente mais plástico do que o peso conjunto da população global e até 2050 é esperada uma maior quantidade de plástico do que de peixe nos oceanos”, diz a consultora. 81% dos consumidores afirmam que é importante que as marcas implementem programas que melhorem o meio ambiente, contudo, o nível de preocupação ainda difere entre gerações. 85% dos Millennials (21-34 anos) afirmam firmemente que as empresas devem empenhar-se em melhorar o ambiente, contra 72% dos Baby Boomers (50-64) e 65% da Silent Generation (65+). De referir que entre 30 a 40% dos consumidores europeus revelam estar dispostos a pagar mais produtos que cumpram com determinadas normas de sustentabilidade.
pub.
Agroop considerada uma das melhores empresas de AgriTech da Europa A Agroop foi selecionada pela plataforma dinamarquesa para startups e investidores Valuer como uma das melhores empresas de AgriTech da Europa. A Agroop é a única portuguesa no ranking que distingue 22 startups europeias. De acordo com a Valuer, citada pela Vida Rural, a Agroop “é uma empresa a manter debaixo de olho”. Sobre a lista, a startup diz que reúne “as melhores empresas europeias de AgriTech que estão a utilizar data para garantir que o futuro da produção agrícola está seguro nas mãos de produtores tecnologicamente equipados”. Bruno Fonseca, CEO e co-fundador da Agroop, afirma que “é para nós uma enorme honra contribuir para colocar Portugal no mapa europeu da AgriTech. Temos confiança no nosso trabalho, mas é sempre gratificante quando o mesmo é reconhecido nacional e internacionalmente”.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Recenseamento agrícola 2019 começou a 25 de outubro O Instituto Nacional de Estatística informou que o Recenseamento Agrícola (RA 2019) abrange todo o território nacional e visa responder a questões tão importantes como: Quantas explorações agrícolas existem, que superfície e quantas parcelas possuem? Quem trabalha na agricultura? Como se distribuem as culturas e os efetivos pecuários? Como se produz e qual o nível de mecanização da agricultura? Onde e como se rega? Que métodos de produção são usados e qual a disseminação de culturas inovadoras? A este propósito recorde-se que no recenseamento anterior, realizado há dez anos, foram apuradas 305 mil explorações com uma área total que representava 51% da superfície geográfica do país. A população agrícola familiar correspondia a 793 mil pessoas. Nas culturas permanentes, o olival e a vinha representavam quase 3/4 do total.
Esta operação exigiu um longo período de preparação, com a recolha de dados no campo a iniciar-se a 25 de outubro e a decorrer até maio de 2020. Mobilizará cerca de 1 650 pessoas entre entrevistadores, técnicos superiores contratados e colaboradores permanentes do INE e terá uma infraestrutura descentralizada distribuída por 42 centros de análise, a nível nacional. Os resultados serão reportados à Comissão Europeia conforme o regulamento da União Europeia aplicável. O RA 2019 foi objeto de uma resolução específica do Conselho de Ministros (RCM n.º 40/2018). Para o sucesso desta operação é fundamental a colaboração de todos os agricultores, a quem o INE, desde já, agradece.
pub.
43
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Syngenta investe 2 mil milhões de dólares no combate às alterações climáticas
44
A Syngenta anunciou que vai investir dois mil milhões de dólares ao longo dos próximos cinco anos para ajudar os agricultores a enfrentar as crescentes ameaças causadas pelas alterações
pub.
climáticas. O investimento visa pôr em prática um novo objetivo de sustentabilidade da Syngenta, que consiste em lançar, anualmente, pelo menos dois avanços tecnológicos disruptivos no mercado, visando reduzir o impacto da agricultura nas alterações climáticas; aproveitar a sua capacidade de mitigação e ajudar o sistema alimentar a permanecer dentro dos limites planetários. Através de uma colaboração plurianual com The Nature Conservancy, a Syngenta está a desenvolver estratégias para identificar e testar inovações e tecnologias que possam beneficiar os agricultores e contribuir para resultados ambientais positivos. A colaboração baseia-se em esforços para promover a
saúde dos solos, eficiência de recursos e proteção dos habitats em importantes regiões agrícolas do todo o mundo. As metas fazem parte do compromisso da Syngenta de Acelerar a Inovação, lançado em abril deste ano, para fazer frente aos crescentes desafios enfrentados pelos agricultores devido às alterações climáticas, erosão do solo e perda da biodiversidade. Os avanços em relação a estas metas serão divulgados anualmente e auditados de forma independente. O anúncio foi, em grande medida, guiado pela condução de 150 sessões de consulta em todo o mundo para ajudar os líderes da empresa a identificar áreas prioritárias de investimento.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
EDIA quer criar “o maior projeto fotovoltaico flutuante da Europa” com 50 M€ A EDIA quer lançar um concurso para o fornecimento, instalação e licenciamento de dez Unidades de Produção para Autoconsumo (UPAC) junto às estações elevatórias da Rede Primária do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva (EFMA). De acordo com a EDIA, o objetivo é criar “o maior projeto fotovoltaico flutuante da Europa”. Em nota de imprensa, a EDIA explica “este projeto compreende a instalação de dez centrais fotovoltaicas flutuantes com uma potência instalada total de 50 MWp e ocuparão uma área com cerca de 50 hectares sobre a água, estimando-se que sejam necessários mais de 127 mil painéis fotovoltaicos que evitarão a emissão de cerca de 30
mil toneladas de CO2 por ano”. “Com uma produção estimada em 90GWh/ ano, a energia obtida pelo conjunto destas centrais fotovoltaicas seria su-
ficiente para abastecer cerca de 2/3 de toda a população do Baixo Alentejo”, acrescenta ainda a EDIA. Este será o maior projeto fotovoltaico flutuante da Europa e terá como preço base 50 milhões de euros, financiados em 45 milhões de euros pelo Banco de Desenvolvimento do Conselho da Europa e cinco milhões de capitais próprios da EDIA. A instalação destas centrais, na proximidade das estações elevatórias que consumirão a eletricidade gerada permitirá, além da respetiva descarbonização, a eliminação das perdas por transmissão e a redução de potência pedida à rede, em geral durante o verão e em especial durante os períodos de ponta.
pub.
45
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
Gonçalo Santos Andrade presidente da Portugal Fresh
O sector das frutas, legumes e flores já exporta 1.500 milhões de euros
46
| Passados nove anos da constituição da Portugal Fresh (dezembro de 2010), o sector das frutas, legumes e flores de Portugal enfrenta novos desafios. Os mercados são cada vez mais globais, exigentes e competitivos e os consumidores pretendem ter acesso a todo o tipo de produtos, ao longo de todas as semanas do ano, a valores cada vez mais baixos. Um dos principais desafios é a necessidade de um conhecimento pormenorizado de cada mercado. As características dos produtos pretendidos em cada geografia difere muito. Na Europa há realidades muitos distintas. Alemanha, Reino Unido, França, Escandinávia, Polónia, e tantos outros países que poderia referir, têm hábitos de consumo diferentes em relação a estado de maturação, à coloração, à dureza, ao calibre e às embalagens. Já para não falar de mercados como a Índia, a China, o Brasil e o México onde há diferentes requisitos conforme a região. Tentar abordar todos os mercados com a mesma estratégia comercial é um erro habitual no nosso sector. Os produtos portugueses ganharam visibilidade nos mercados internacionais principalmente devido ao enorme investimento que as empresas do sector têm efetuado em feiras internacionais, missões empresariais, ações de promoção, missões de prospeção e abertura de mercados. Nestas iniciativas, as empresas têm conseguido perceber a necessidade da proximidade aos clientes e ao consumidor final, em cada mercado. Só com um investimento continuado é AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
Tentar abordar todos os mercados com a mesma estratégia comercial é um erro habitual no nosso sector.
possível consolidar mercados e abrir outros maximizando as oportunidades comerciais. Os negócios cada vez mais têm que ser planeados do mercado para a produção e não da produção para o mercado. Se não estiverem reunidas as condições para assegurar uma adequada remuneração aos produtores mais vale não avançar com a plantação. Há que planear adequadamente todas as oportunidades de mercado, escolher bem as janelas e os mercados que podem melhor remunerar os produtos portugueses e encontrar soluções logísticas competitivas. A escala contínua a ser um fator crítico para o sucesso do sector. A oferta portuguesa é pouco concentrada e temos que rapidamente promover uma maior e melhor organização da oferta a fim de conseguirmos ter um maior poder negocial com clientes e fornecedores. O sector em 2010 registou um volume de negócios de 2.121 milhões de euros e exportou 37% (780 M€) do que produziu. Em 2018 o sector exportou 54% do valor produzido ultrapassando pela primeira vez a barreira dos 1.500 milhões de euros. Foram exportados 1.502 milhões de euros de um volume de negócios de 2.790 milhões de euros. Os principais mercados são a Espanha, a França, o Reino Unido, a Holanda e a Alemanha. A disponibilidade de mão-de-obra, o crescimento da área regada e o apoio ao investimento são três pilares fundamentais para o crescimento do sector. Só é possível ter um sector competitivo com o aumento do regadio!
NOV19 www.agrotejo.pt REALIDADES
48
Agricultura: que peso tem na economia? O economista Arlindo Cunha e o engenheiro agrónomo Francisco Avillez mostram a relevância da agricultura na economia nacional e o que poderá ser feito para a alavancar. Luís Mesquita Dias, diretor-geral da Vitacress, revela como coloca a empresa agrícola ao serviço da economia e do território.
Sara Pelicano JORNALISTA
| A base de dados sobre Portugal, Pordata, indica que, em 2018, o valor (provisório) da produção agrícola foi de 7,7 milhões de euros, um número superior ao registado em 2017 foi de 7,4 milhões de euros. Os números, mais ou menos positivos a cada ano, ainda assim revelam a importância económica da agricultura. O economista Arlindo Cunha sublinha que é “fundamental”. “Desde logo, em termos económicos é um setor especial, porque nenhum país pode ter soberania senão produzir uma parte subsAGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
tancial dos seus alimentos. Interesse estratégico, senão vital na soberania. Se formos olhar para todo o complexo agroalimentar de todas as fileiras agrícolas, florestais e pecuárias, da produção à transformação, o sector agrícola ainda representa seguramente 13% do nosso PIB, mais 15% das exportações. Logo, com um peso considerável”. E o seu valor vai muito além da economia, tendo também forte impacto nos território. “Em termos territoriais é um setor fundamental no equilíbrio dos territórios. Em certas zonas do país não temos mais nenhuma atividade capaz de fixar pessoas, a agricultura e florestas fazem-no”. Por outro lado Francisco Avillez, coordenador científico da Agro-
Ges, refere que a agricultura não tem uma importância “muito significativa” na economia nacional. “O setor agroalimentar tem mais significado. O setor primário agrícola tem pouco peso, o que não quer dizer que não venha a aumentar o seu contributo para a criação de riqueza. Tem muito a ver com o crescimento dos outros setores. A agricultura portuguesa tem economicamente de crescer. Tem, para isso de se tornar mais produtiva economicamente. Têm-se dado passos nesse sentido. Embora, não tão significativos como parece. A agricultura tem-se mantido praticamente estagnada nos últimos dez a 15 anos em termos de valor acrescentado. O que não significa que
NOV19 www.agrotejo.pt REALIDADES
não haja setores que cresceram bastante, com contributos para a exportação e desenvolvimento tecnológico e digital”. A estagnação de que Francisco Avillez fala, relaciona-a com “os apoios ao investimento e inovação. E que uma série de apoios se mantenham na mesma, nomeadamente com os níveis de ajuda
“Se formos olhar para todo o complexo agroalimentar de todas as fileiras agrícolas, florestais e pecuárias, da produção à transformação, o sector agrícola ainda representa seguramente 13% do nosso PIB, mais 15% das exportações. Logo, com um peso considerável” Arlindo Cunha
à produção, relativos a determinados tipos de agricultura. Há uma sensação de conforto que leva os agentes económicos a não sentirem necessidade de se tornarem mais rentáveis e produtivos. Havendo uma alteração na composição de apoio aos produtores, e julgo que podemos fazer agora melhor, será uma espécie de incentivo a que se responda melhor do ponto de vista da produtividade. De facto, para um setor crescer não é muito significativa a transferência de dinheiro que recebe, mas a capacidade de criação de riqueza. E, aqui, entram as produções mais competitivas, tecnologias mais eficientes, melhoria das estruturas de produção e tudo isso acaba por ser congelado por um sistema de ajudas que leva a que não haja a necessidade de mudar”, sintetiza Francisco Avillez. No lado das empresas, falámos com Luís Mesquita Dias, diretor-geral da Vitacress, refere a “balança de pagamentos” como um dos aspetos “mais relevantes”. “Durante muitos anos esteve muito desequilibrada e tem vindo a equilibrar-se. A agricultura tem tido um papel muito importante. É importante do ponto de vista económico, mas também da autossuficiência do país e independência perante qualquer tipo de limitação e convulsão externa imprevisíveis”. Para o responsável da empresa produtora de hortícolas, “o segundo aspeto tem a ver com a questão ambiental. Assistimos cada vez mais a um papel da agricultura na neutralidade carbónica. Temos tido problemas graves do ponto de vista dos incêndios, mas sabemos que tanto a floresta como a agricultura têm um papel importante na captação de CO2. Na perspetiva da impossibilidade de limitar completamente as emissões temos de encontrar formas de as compensar recuperando uma parte do CO2 que emitimos”. Luís Mesquita Dias refere ainda um terceiro aspeto: o da fixação das populações e o papel da agricultura na povoação do interior, evitanda a desertificação e o despovoamento. “Pode parecer um lugar comum, mas é válido. Exemplos AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
49
NOV19 www.agrotejo.pt REALIDADES
50
como o Alqueva mostram como uma região que estava desertificada, agora não é assim. Naturalmente não pode haver ´Alquevas` em todo o país nem provavelmente é desejável que os haja. É importante que se promova o desenvolvimento do regadio em formas mais contidas, mais pequenas, mais manejáveis e com menos investimentos, mas mais dispersadas pelo território”. Neste último aspeto, a relevância da agricultura para o desenvolvimento do território, Luís Mesquita Dias refere que “nos últimos dez anos, aumentámos em cerca de 70% a nossa população laboral, contribuímos muitíssimo para desenvolver a região em que estamos em detrimento das importações. Com isto tocamos no primeiro ponto que referi. Uma parte dos produtos, que há uns anos eram importados, neste momento são produzidos por nós. 90% do que a Vitacress faz é produzido por pub.
nós na região de Odemira. Nas práticas ambientais, temos iniciativas em curso na unidade do embalamento com planos de expansão importantes, associados à instalação de painéis fotovoltaicos. Através de formas cada vez mais sustentáveis no manuseamento do solo de maneira a que tenhamos o máximo de solo com coberto vegetal mesmo aquele que não está a produzir. Utilizando sementes como a Mostarda
“O setor primário agrícola tem pouco peso, o que não quer dizer que não venha a aumentar o seu contributo para a criação de riqueza”. Francisco Avillez
Caliente. Mesmo as terras expectantes e em pousio, não ficam simplesmente paradas, mas contribuímos para a fixação de azoto e a captura de CO2, mediante técnicas adequadas de cultivo e criação de uma área verde cada vez maior”.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Luís Mesquita Dias distinguido com prémio de Personalidade do Ano
52
O diretor-geral da Vitacress e presidente da Assembleia Geral da Agrotejo, Luís Mesquita Dias, recebeu o prémio Personalidade do Ano – Produção, no âmbito da 29.ª edição dos Masters da Distribuição. Estes galardões são atribuídos pela revista Distribuição Hoje. A Vitacress considera que “Luís Mesquita Dias tem contribuído decisivamente para o avanço e melhoria do sector agroalimentar em Portugal”, realçando-se a sua participação no mundo associativo. Na atualidade, o gestor faz parte da Direção da Centromarca – Associação Portuguesa de Empresas de Produtos de Marca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia e da Associação dos Horticultores, Fruticultores e Floricultores dos Concelhos de Odemira e Aljezur (AHSA). Luís Mesquita Dias também é vice-presidente da Portugal Fresh, presidente da Assembleia Geral da Agrotejo – União Agrícola do Norte do Vale do Tejo e presidente do Conselho Fiscal do Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (IBET), bem como membro do Conselho Consultivo do Curso do GAIN na AESE Business School e da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica do Porto (Esbuc).
pub.
DGAV toma medidas para evitar VIRUS DO TOMATEIRO A Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) publicou a Decisão de Execução (UE) 2019/1615, de 26 de setembro de 2019, na qual estabelece medidas de emergência para evitar a introdução e a propagação na União Europeia do organismo prejudicial “vírus do fruto rugoso castanho do tomateiro” (ToBRFV). A Decisão de Execução está a ser aplicada desde 1 de novembro. Uma análise do risco fitossanitário realizada em Itália demonstrou que o organismo especificado e os seus efeitos prejudiciais podem constituir um problema fitossanitário significativo para a União Europeia, em especial para a produção de Solanum lycopersicum L. e Capsicum annuum.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Agromais na Fruit Attraction 2019
SABIA QUE... já pode encomendar pipocas dos Cinemas NOS pela Uber Eats? O serviço é desenvolvido em parceria com os Cinemas NOS e está disponível desde 3 de outubro. A AGROMAIS é fornecedora exclusiva de milho pipoca para os Cinemas NOS desde 2015.
Ciente da necessidade de acompanhar as novidades e tendências de consumo de produtos hortofrutícolas, a Agromais marcou presença na Fruit Attraction, em Madrid. A presença neste tipo de certames é um dos meios utlizados para não só consolidar parcerias com os vários players com que a Agro-
mais trabalha, mas também para acompanhar a procura do mercado e ajustar as produções agrícolas nesse sentido, valorizando-as para os nossos associados. A Fruit Attraction decorre anualmente, normalmente em outubro. Este ano contou com a visita de 90 mil pessoas, 1.800 empresas, 130 países e 24 sectores.
53
pub.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
54
DGAV com competências para aprovação de produtores de sementes
ANPOC publicou a lista de variedades recomendadas de trigo duro
A Portaria n.º 256/2019, de 16 de agosto de 2019, prevê que os estabelecimentos que produzem rebentos se encontrem aprovados pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), definindo igualmente os procedimentos a desenvolver pelos operadores para esse efeito. Este diploma prevê, ainda, o registo dos operadores de sementes destinadas à produção de rebentos, incluindo quando essas sementes são provenientes de países terceiros. As novas regras estão em vigor desde setembro e este pedido de aprovação do estabelecimento tem de ser apresentado à DGAV, através de um formulário eletrónico, que fará uma visita ao local para verificar se estão garantidas as regras de higiene estabelecidas.
A ANPOC – Associação Nacional de Produtores de Cereais publicou a Lista de Variedades Recomendas de Trigo Duro para a campanha de 2019/2020. O documento resulta de um trabalho conjunto da produção agrícola nacional (ANPOC), investigação (INIAV e IPBeja) e indústria (Ceres, Germen e Cerealis) que tem como objetivo classificar anualmente as variedades de trigo mais adequadas aos interesses da indústria e da produção nacional. A Lista de Variedades Recomendada conta já com seis anos de ensaios. As classificações obtidas resultam das avaliações realizadas nos anos agrícolas de 2018/2019, 2017/2018 e 2016/2017. A ANPOC recomenda então as variedades Celta, Don Norman, Don Ricardo, Vadio e Fado.
pub.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
IACA revela que 99,8% dos portugueses come carne e peixe A Associação Portuguesa dos Industriais de Alimentos Compostos para Animais (IACA) divulgou os resultados de um estudo, realizado pela GfK, que indica que 99,8% dos portugueses come carne e peixe. “De uma forma geral, existe falta de conhecimentos sobre o setor que fabrica a alimentação dos animais”, refere a associação. O estudo indica também que “43% considera que a alimentação dos animais tem impacto na alimentação humana e 85% gostaria de ter mais informação sobre este tema”. Os resultados mostram também que 77% dos portugueses considera que a produção de alimentos para animais é uma atividade relevante para Portugal
em termos socioeconómicos. O trabalho permitiu verificar ainda que “dos 99,8% dos portugueses que come carne e peixe, 92% consome carne várias vezes por semana e 25% dos
portugueses come carne todos os dias. O peixe é consumido com menor frequência, embora estejam também em maioria (72%) aqueles que o consomem mais do que uma vez por semana. O leite tem o consumo mais polarizado: tende a ser consumido todos os dias ou não consumido de todo. Os ovos são tendencialmente consumidos entre uma a quatro vezes por semana”. O estudo da IACA mostra também que 10% dos portugueses afirmam que já ponderaram ter uma alimentação exclusivamente vegetariana ou vegan e que, destes, 69% ponderaram fazê-lo por considerar que esta pode ser uma alimentação mais saudável.
pub.
55
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
Gonçalo Duarte, Maria Rosário Fernandes, André Fonseca, Vera Zina, Sofia Conde, Manuela Branco, José Carlos Franco, Francisca Aguiar, Patrícia Rodríguez-González, José Lima Santos, Pedro Segurado, Paulo Branco, José Maria Santos e Maria Teresa Ferreira Centro de Estudos Florestais, Instituto Superior de Agronomia
Projeto Optimus Prime - Otimização de infraestruturas verdes em vales agrícolas irrigados para promoção da qualidade ambiental e biodiversidade
56
| Os sistemas agrícolas são considerados fundamentais no fornecimento de bens e serviços. No entanto, a intensificação agrícola tem conduzido à perda de espaços naturais que servem de habitat e de corredores ecológicos para diversas comunidades biológicas, bem como a um decréscimo global da quantidade e qualidade da água, levando a uma perda generalizada da biodiversidade com efeitos à escala da paisagem. No sentido de reverter esta situação, as políticas agroambientais propostas pela Política Agrícola Comum (PAC) pretendem promover a extensificação das práticas agrícolas encorajando simultaneamente a reposição dos espaços naturais, naquilo que ficou conhecido como o greening da PAC. Dentro deste contexto o papel do agricultor pós-2013 é não só o de produtor primário, mas também o de prestador de serviços ambientais, promovendo o fornecimento de água e habitats de proteção para a biodiversidade ao dedicar uma percentagem de área produtiva para Áreas de Foco Ecológico (EFAs). Embora os benefícios das EFAs em sistemas agrícolas sejam inequívocos, pouco se sabe sobre os efeitos da sua tipologia, dimensão e configurações espaciais no fornecimento de serviços ecológicos e de biodiversidade, que no geral também não são quantificaAGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
o papel do agricultor pós-2013 é não só o de produtor primário, mas também o de prestador de serviços ambientais, promovendo o fornecimento de água e habitats de proteção para a biodiversidade ao dedicar uma percentagem de área produtiva para Áreas de Foco Ecológico (EFAs).
dos. O projeto Optimus Prime pretende dar resposta a estas questões quantificando a biodiversidade e os serviços de ecossistema proporcionados pelas EFAs em sistemas de agricultura irrigada, bem como identificar as configurações de habitat que providenciam a capacidade máxima dos serviços de ecossistema. O projeto pretende ainda simular o fornecimento de água e serviços de biodiversidade para diferentes cenários futuros de alterações climáticas e de desenvolvimento agrícola, bem como proceder à análise e contabilização dos custos económicos e das compensações resultantes da implementação das políticas agroambientais. O projeto, iniciado no final de 2018, tem a duração de três anos, e é liderado pelo Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, tendo ainda a Nova School of Business and Economics (Nova SBE) como parceiro académico. Do consórcio fazem ainda parte duas associações de produtores agrícolas: a União Agrícola do Norte do Vale do Tejo (Agrotejo) e a Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Sorraia (ARBVS), desempenhando um papel fundamental na interligação com os seus associados. A área de estudo do projeto localiza-se em dois vales agrícolas: o vale agrícola do rio Sorraia, na zona de Coruche, e o vale
NOV19 www.agrotejo.pt opinião
Figura 1 – Sistema de classificação e mapa de EFAs para a área de estudo do vale do Tejo
agrícola do rio Tejo, junto à foz dos rios Almonda e Alviela na zona da Golegã, perfazendo um total de 138,9 km2. O projeto teve início com uma fase de gabinete para produção da cartografia das EFAs. No âmbito deste projeto as EFAs definem-se como elementos de vegetação que permitem manter e potenciar a complexidade estrutural da paisagem enquanto promovem a biodiversidade e o funcionamento dos serviços de ecossistema nas zonas agrícolas. Conceptualmente as EFAs foram categorizadas tendo em conta a zona onde se localizam face ao rio (zona ripária vs zona não-ripária) e à estrutura de vegetação dominante (porte arbóreo vs não-arbóreo) (Figura 1). Foram ainda aplicados dois critérios (o de temporalidade e o de área mínima) para a seleção das tipologias de EFAs a estudar. Desta forma só as manchas de vegetação com um carácter mais permanente (sem mobilizações há mais de 2-3 anos) e com uma área mínima de 200 m2 foram incluídas para análise. O mapa final das EFAs foi obtido através da classificação visual das manchas de vegetação em fotografias aéreas ortorretificadas de elevada resolução espacial e validado com recurso a verificações de campo. Numa segunda fase do projeto, que decorreu entre março e julho de 2019, foram realizadas diversas campanhas de amostragem no sentido de recolher informação relativa à biodiversidade e ao potencial para o fornecimento de serviços de ecossistema relativos a cada uma das tipologias de EFAs em estudo. Para tal, foram selecionadas as seguintes comunidades biológicas/indicadores: flora, polinizadores, formigas, aranhas, escaravelhos, aves, morcegos e serviços de predação. No total, foram amostrados 207 locais ao longo de mais de 50 dias de trabalho de campo, distribuídos de forma similar entre as duas zonas de estudo, que se tra-
duzem por exemplo em 720 colheitas de armadilhas Pitfall, cerca de 640 lagartas falsas recolhidas para análise e mais de dois milhões de registos acústicos direcionados ao grupo dos morcegos. Os locais de amostragem escolhidos visaram não só as várias tipologias de EFAs, mas também a área agrícola, abordagem que só foi possível graças à prestimosa colaboração das duas associações de produtores já mencionadas, mas também a proprietários e agricultores que disponibilizaram as suas propriedades e nalguns casos colaboraram ativamente na amostragem. O projeto encontra-se agora na fase de análise dos resultados que inclui componentes laboratoriais, identificação de espécies e identificação acústica. Nos próximos dois anos prevê-se o desenvolvimento da modelação empírica para a obtenção de conexões preditivas entre indicadores de biodiversidade e de serviços de ecossistema, utilizando cenários de alterações climáticas e desenvolvimentos agrícolas. Prevê-se ainda a análise económica de custo-benefício, tendo por base os referidos modelos e previções, mas também os esquemas de compensação preconizados pelas políticas agroambientais. Todo o trabalho delineado e programado será desenvolvido em estreita colaboração com as associações de produtores agrícolas, estando ainda planeadas ações de participação e divulgação para agricultores e a administração do sector agrícola, bem como um documento de recomendações políticas.
Figura 2 – Esquema dos grupos biológicos amostrados e da metodologia de amostragem. Mapa dos locais de amostragem em espaço agrícola e nas EFAs na área de estudo do vale do tejo. Imagens dos trabalhos de campo.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
57
NOV19 www.agrotejo.pt EMPRESAS
58
Novas regras de faturação a partir de 1 de janeiro de 2020 Há novas regras na faturação, tais como a utilização exclusiva de programas informáticos certificados pela Autoridade Tributária e Aduaneira. Comité Técnico Fiscal do grupo Moneris
| O Decreto-Lei n.º 28/2019, de 15 de fevereiro, alterou várias disposições legais em matéria de faturação, tendo como objetivos essenciais promover a simplificação legislativa e conferir uma maior segurança jurídica aos contribuintes, consolidando e atualizando legislação dispersa relativa ao processamento de faturas e de outros documentos fiscalmente relevantes, bem como harmonizando regras divergentes em matéria de conservação de documentos para efeitos de imposto sobre o valor acrescentado (IVA), de imposto sobre o rendimento das pessoas coletivas (IRC) e de imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS). Entre as referidas alterações destaca-se a obrigação de utilização exclusiva de AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
programas informáticos certificados pela Autoridade Tributária e Aduaneira (AT), por: • Sujeitos passivos com sede, estabelecimento estável ou domicílio em território nacional; e • Outros sujeitos passivos cuja obrigação de emissão de fatura se encontre sujeita às regras estabelecidas na legislação interna nos termos previstos no artigo 35.º-A do Código do IVA. A obrigação aplica-se aos sujeitos passivos que verifiquem qualquer uma das seguintes condições: • Tenham tido, no ano anterior, um volume de negócios superior a 50.000 euros ou, tendo iniciado a atividade nesse ano, o período em referência seja inferior ao ano civil e o volume de negócios anualizado relativo a esse período seja superior ao referido montante; ou
•U tilizem programas informáticos de faturação; ou • Sejam obrigados a dispor de contabilidade organizada ou por ela tenham optado. Como as condições supra elencadas não são cumulativas, basta que se verifique qualquer uma delas para que o sujeito passivo fique desde logo obrigado a utilizar programa informático certificado pela AT para emitir a sua faturação, sendo certo que, por exemplo, todas as sociedades, na medida em que estão sempre obrigadas a dispor de contabilidade organizada, independentemente de terem volumes de negócios muito reduzidos, ficam sempre abrangidas por esta obrigação. Considerando a necessidade de adaptação dos sujeitos passivos a esta obrigação, o Despacho n.º 254/2019-XXI, de 27 de junho, do Secretário de Estado
NOV19 www.agrotejo.pt EMPRESAS
dos Assuntos Fiscais (SEAF) determinou que a mesma pode ser cumprida sem penalidades até ao dia 1 de janeiro de 2020, mas a partir daquela data a não utilização de programa informático de faturação previamente certificado pela AT fica sujeita às correspondentes penalidades. Só ficam excecionadas desta obrigação as seguintes operações ou atividades: • Bilhetes de transporte; • I ngressos ou outros documentos ao portador, comprovativos do pagamento de prestações de serviços de estacionamento ou de portagens; • E ntradas em espetáculos, bibliotecas, arquivos, museus, galerias de arte, castelos, palácios, monumentos, parques, perímetros florestais, jardins botânicos, zoológicos; • S erviços prestados por sujeitos passivos que exerçam a atividade económica de diversão itinerante enquadrados nas subclasses 93211 e 93295 da Clas-
sificação Portuguesa das Atividades Económicas (CAE-Rev.3); • Transmissões de bens efetuadas através de aparelhos de distribuição automática.
COMUNICAÇÃO MENSAL À AT DOS ELEMENTOS DAS FATURAS (SAF-T) A Lei n.º 119/2019, de 18 de setembro, alterou o n.º 2 do artigo 3.º do Decreto-Lei n.º 198/2012, de 24 de agosto, determinando que a comunicação dos elementos da faturação à AT (envio mensal do ficheiro SAF-T da faturação), deve ser efetuada até ao dia 12 do mês seguinte ao da emissão da fatura. Com a publicação do Despacho n.º 411/2019-XXI, de 24 de setembro, do Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais (SEAF), clarificou-se que as faturas emitidas até 31 de dezembro de 2019, podem ser comunicadas à AT até ao dia 15 do mês seguinte e que só as faturas
emitidas a partir de 1 de janeiro de 2020 devem ser comunicadas à AT até ao dia 12 do mês seguinte. Assim, a faturação emitida durante o mês de dezembro de 2019 pode ser comunicada à AT até ao dia 15/01/2020 e a faturação emitida durante o mês de janeiro de 2020 deve ser comunicada até ao dia 12/02/2020. pub.
59
NOV19 www.agrotejo.pt A SABER...
Acordo de Princípio UE-MERCOSUL – Primeira análise dos termos do acordo Em 28 junho de 2019 os negociadores da União Europeia (UE) e do Mercosul chegaram a um acordo político no contexto das negociações do Acordo de Comércio Livre (ACL) entre a UE e o Mercosul, na parte comércio de bens (produtos agrícolas e agroalimentares) e nos temas associados, com particular importância no que respeita aos produtos agrícolas e agroalimentares para as questões Sanitárias e Fitossanitárias e Indicações Geográficas. 60
Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (publicado no www.Agroportal.pt)
| Este Acordo de Princípio deverá traduzir-se ainda em textos finais e respetivas ofertas de acesso aos mercados os quais deverão posteriormente ser sujeitos a uma ratificação política final. De uma forma sintética o acordo resulta na eliminação gradual dos direitos aduaneiros sendo eliminados em 93% das rubricas pautais relativas às exportações agroalimentares da UE para os países do Mercosul. Estas linhas correspondem a 95% do valor das exportações dos produtos agrícolas da UE. Por sua vez, a UE liberalizará 82% das importações agrícolas, ficando as importações remanescentes sujeitas a compromissos de liberalização parcial, incluindo quotas tarifárias para produtos sensíveis.
IMPORTAÇÃO Os produtos sensíveis que foram objeto da fase final de negociação encontram-se assinalados abaixo, sendo os contingentes atingidos em seis etapas anuais iguais, à exceção das ramas de açúcar em que os direitos são suprimidos na totalidade na data de entrada em vigor do acordo: • Carne Bovina: contingente global de 99.000 toneladas (t), expressas em peso equivalente carcaça, com um direito de 7,5% e direito nulo para a carne Hilton Beef. AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
• C arne de Aves: contingente global de 180.000 t, com direito nulo. • Carne de Suíno: contingente de 25.000 t, com direito de 83 euros/t. • Ramas de Açúcar: acesso preferencial para ramas de cana-de-açúcar – 180.000 t para o Brasil e 10.000 t para o Paraguai, com direito nulo. • Arroz: contingente de 60.000 t, com direito nulo. • Mel: contingente de 45.000 t, com direito nulo. O acordo envolve também melhorias recíprocas nos seguintes produtos, faseadas em dez anos: • Queijos: 30.000 t com direito nulo. • Leite em pó: 10.000 t com direito nulo. • Fórmulas infantis: 5.000 t com direito nulo. O acordo permitirá, ainda, que as indústrias da UE se aprovisionem com matérias-primas de alta qualidade, mais competitivas, ao reduzir/eliminar taxas à exportação e outras medidas restritivas que o Mercosul impõe atualmente às exportações para a UE, a exemplo dos produtos da soja.
EXPORTAÇÃO O Acordo de Princípio consigna uma série de produtos-chave de interesse à exportação: vinho, bebidas espirituosas, azeite, frutas frescas (maçãs, peras, nectarinas, ameixas e kiwis, a liberalizar à data de entrada em vigor do Acordo), pêssegos enlatados, conservas de tomate, malte, batata congelada, carne de suíno, chocolates, bo-
lachas, refrigerantes. Dado o interesse de algumas das exportações nacionais, com particular expressão para o sector do azeite, vinho, frutas e produtos transformados aguarda-se a transposição na oferta Mercosul para conhecer qual a real dimensão da liberalização e o prazo em que ela será atingida. Nos produtos em causa, destaque para: • Pêra: direito atual de 10%, oferta de eliminação do direito à data de entrada em vigor do acordo. • Maça: direito atual de 10%, oferta de eliminação do direito à data de entrada em vigor do acordo. • Pêssego: direito atual de 10%, oferta de eliminação do direito à data de entrada em vigor do acordo. • Kiwi: direito atual de 10%, oferta de eliminação do direito à data de entrada em vigor do acordo. • Azeite: direito atual de 31,5% Argentina, 10% outros países. Até ao acordo de princípio estava excluído da liberalização. Prazo para liberalização ainda não especificado. • Vinhos: direito atual é de 27% no Brasil, 20% nos outros estados-membros da Mercosul. Prazo para liberalização ainda não especificado. • Carne de suíno: direito atual de 10%. Prazo para liberalização ainda não especificado. • Tomate preparado: direito atual de 14%. Prazo para liberalização ainda não especificado.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Santa Vitória investe 3,5 M€ em lagar de azeite no Alentejo A empresa de vinhos e azeites do grupo Vila Galé, Santa Vitória, inaugurou um lagar de azeite no Alentejo, no qual investiu 3,5 milhões de euros. O lagar vai servir uma propriedade de 1.620 hectares, localizada perto de Beja, onde o grupo já tem uma adega de vinhos e um hotel rural – o Vila Galé Clube de Campo. Em comunicado, o grupo Vila Galé refere que “com esta aposta, a empresa reforça
62
pub.
a sua posição na agricultura, setor no qual tem atividade desde 2002, mas também no agroturismo e enoturismo. Atualmente, o olival da Santa Vitória estende-se por cerca de 200 hectares e entre as variedades de azeitona existentes estão a Galega, Cobrançosa, Cordovil, Picual, Arbequina, Koroneiki e Arbosana. Daqui resulta azeite virgem extra de alta qualidade, comercializado sob a marca Santa
Vitória nos hotéis Vila Galé, em grandes superfícies e em lojas especializadas”. O lagar tem um pátio de receção da azeitona, cuja linha de limpeza e lavagem, pode processar 50 toneladas por hora; uma sala de extração com equipamento que pode moer até dez toneladas de azeitona por hora, uma sala com 35 depósitos de circulares com capacidade entre os 5.000 e os 30 mil litros e uma linha de engarrafamento, capsulagem e rotulagem com cadência de 1.200 garrafas por hora. O lagar será também um espaço aberto ao público, permitindo conhecer melhor este “ouro líquido” com provas de azeite. O espaço está preparado para receber grupos, eventos de empresas e demonstrações gastronómicas.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Fundo Florestal Permanente terá até 3 M€ Fenareg apresentou estratégia de longo prazo para regadio em Portugal No decorrer da Feira Nacional de Agricultura, que decorreu em junho, a Fenareg — Federação Nacional de Regantes de Portugal apresentou, ao então ministro da Agricultura, Luís Capoulas Santos, uma proposta de estratégia para as políticas públicas de regadio até 2050, estimando que será necessário investir 1.700 milhões de euros no período 20212027 para modernizar o regadio nacional.
Três milhões de euros. É este o valor máximo que o Governo vai conceder ao Fundo Florestal Permanente para reforço da contrapartida nacional para financiamento de projetos de investimento florestal. A medida foi publicada a 3 de outubro em Diário da República. “Os projetos abrangidos são financiados no âmbito do Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvimento Rural e o apoio será gerido pelo Fundo Florestal Permanente, um instrumento financeiro direcionado para a concretização dos objetivos da Estratégia Nacional para as Florestas e de outras medidas de política setorial”, refere o diploma assinado pelo ex-secretário de Estado das Florestas, Miguel Freitas.
pub.
63
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Algas marinhas podem reduzir emissões de metano
64
O livro Seaweeds as Plant Fertilizer, Agricultural Biostimulants and Animal Fodder (Algas como fertilizantes, bio-estimulantes agrícolas e forragens para animais, em tradução livre), aborda o tema das algas marinhas incluídas na alimentação alimentar, podendo reduzir as emissões de metano. Coordenado por Leonel Pereira, docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e investigador do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), este livro explora, ao longo de 12 capítulos, “a utilização de algas e extratos de algas como estimulantes de uso agrícola, reguladores de crescimento de plantas agrícolas extraídos de algas e protetores das
pub.
plantas contra pragas (fungos, insetos, etc.), bem como o uso de algas na alimentação de animais, nomeadamente na alimentação de gado bovino para a redução das emissões de metano; o uso de algas na produção de rações para a aquacultura de peixes, entre outras aplicações”, pormenoriza, segundo o site Agricultura e Mar, o especialista em algas marinhas da FCTUC. A obra, apesar de conter fundamentos científicos, “está escrita e ilustrada de modo a que qualquer público a possa ler, inclusivamente os jovens agricultores de todo o mundo”, salienta Leonel Pereira. Dependendo da espécie, do habitat e de condições como temperatura da água, intensidade da luz e con-
centração de nutrientes na água, as algas possuem óptimas características para fins muito diversos. O livro é publicado pela CRC Press do Taylor and Francis Group (USA) e surge no âmbito do projeto Interreg – Naspa (Natural fungicides against air & soil borne pathogens in the Atlantic Area), focado em criar alternativas naturais aos fertilizantes e agroquímicos sintéticos usados na agricultura atualmente.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Projeto europeu Life Reforest já está a ser implementado O projeto europeu Life Reforest visa mitigar a erosão e a perda de solo em áreas afetadas por incêndios florestais em Portugal e na Galiza e já começou a sua implementação e validação do seu sistema de micotecnossolos – uma combinação de resíduos orgânicos estabilizados e inoculados com fungos, contidos numa rede em forma de tubo composto por material biodegradável. De acordo com a revista Vida Rural, no âmbito deste projeto, cerca de 200 metros quadrados de área florestal ardida foram protegidos com mangas biodegradáveis de micotecnossolos, que irão permitir uma rápida recuperação do coberto vegetal, minimizando também a contaminação de linhas de água próximas a essas áreas. Além disso, o micotecnossolo fornecerá matéria orgânica e nutrientes ao solo, bem como sementes de plantas herbáceas de rápido crescimento para acelerar a restauração do subcoberto – eucalipto em Portugal e pinhal na Galiza -, promovendo a infiltração de água.
65
O sistema foi desenvolvido e otimizado pelas empresas galegas Hifas da Terra e TEN Tecnosuelos, com a colaboração do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da Universidade de Aveiro em Portugal e o CETIM (Espanha). O Life Reforest é financiado pelo Programa Europeu LIFE, liderado pelo CETIM – Centro Tecnológico da Corunha. Quando a fase de caraterização, formulação, desenho e desenvolvimento no laboratório da solução Life Reforest
estiver concluída, dá-se início à sua instalação no campo, para ser testada a sua eficácia em duas áreas florestais recentemente afetadas por incêndios: Oliveira de Azeméis (distrito de Aveiro) e no município de Mondariz (Pontevedra, Espanha). Até ao verão de 2021, as entidades envolvidas irão validar a eficácia do sistema relativamente à erosão do solo e à poluição das águas de escoamento, avaliando a sua replicabilidade.
pub.
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
Luís Souto Barreiros GPP
66
A estratégia dos cereais | A acentuada diminuição da produção de cereais, que se tem vindo a verificar em Portugal nas últimas décadas, e a baixa taxa de aprovisionamento do país conduziram à necessidade de desenvolver uma estratégia que invertesse esta situação. Assim, foi incumbido um Grupo de Trabalho coordenado pelo Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP) e constituído por representantes do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, (INIAV, I.P.), da Associação Nacional de Produtores de AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
a estratégia está em plena implementação, mas ainda há grandes desafios e um caminho a percorrer:
Cereais (ANPOC), da Associação Nacional de Produtores de Milho e Sorgo (ANPROMIS) e da Associação de Orizicultores de Portugal (AOP), de elaborar a referida estratégia. Em julho de 2018, o Governo através da Resolução de Conselho de Ministros 101/2018 aprovou a Estratégia Nacional para a Promoção da Produção Nacional de Cereais, que definiu três objetivos estratégicos: • Reduzir a dependência externa, consolidar e aumentar as áreas de produção; • Criar valor na fileira dos cereais;
NOV19 www.agrotejo.pt opinião
•V iabilizar a atividade agrícola em todo o território nacional. Esta Resolução do Conselho de Ministros adotou 17 medidas prioritárias, a serem implementadas pelos diferentes serviços e organismos oficiais em função da natureza de cada uma das medidas, sob a coordenação do GPP. Foi também criada uma Comissão de Acompanhamento com a missão de proceder à avaliação anual da Estratégia, composta por representantes dos ministérios da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, dos Negócios Estrangeiros, da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, do Planeamento e das Infraestruturas, da Economia e do Ambiente, bem como por representantes da ANPOC, da ANPROMIS e da AOP. Com a adoção da Estratégia, o GPP tem vindo a trabalhar na implementação das respetivas medidas, numa estreita articulação com as organizações da produção. A maioria das medidas encontra-se em preparação sendo que uma parte significativa tem como horizonte de aplicação o período de programação pós 2020. Algumas das medidas previstas no plano já se encontram totalmente operacionalizadas: como é o caso da Medida 4 - Criação da Comissão Técnica de Acompanhamento do Reconhecimento de Organizações de Produtores de Cereais (Despacho n.º 1254/2019), essencial para promover um melhor diálogo entre a administração e as Organizações de Produtores numa área crítica para o sector; e da Medida 7 - com a abertura de um concurso específico do PDR, para o sector dos cereais incluindo o arroz, onde os investimentos no redimensionamento dos arrozais passaram a integrar a VGO. Na Medida 8, foi criado o Centro Nacional de Competências dos cereais praganosos, oleaginosas e proteaginosas (CEREALTECH) peça essencial para implementar uma estratégia de desenvolvimento e inovação nestas culturas envolvendo os vários agentes da fileira. Ainda no âmbito desta medida, há que destacar a agenda Inovação para o sector do milho que já se encontra praticamente concluída estando as agendas da inovação para o arroz e para os cereais praganosos em fase avançada de desenvolvimento. Relativamente às medidas que são para implementar no presente período de programação, destaca-se ainda a Medida 15, estabili-
MEDIDAS PRIORITÁRIAS Medida 1 - Racionalizar os custos de energia, nomeadamente através de medidas de eficiência energética Medida 2 - Dinamizar a produção nacional de semente certificada e de genética nacional Medida 3 - Reforçar os meios de luta contra agentes bióticos Medida 4 - Acompanhar o processo de reconhecimento de OP Medida 5 - Simplificar o processo de licenciamento de infraestruturas hidráulicas Medida 6 - Aumentar a eficiência hídrica dos empreendimentos agrícolas, reforçando a capacidade de armazenamento de água e otimizando os processos de rega Medida 7 - Priorizar ou majorar os investimentos e redimensionar os canteiros dos arrozais Medida 8 - Reforçar a agenda de inovação Medida 9 - Promover a capacitação técnica, reforçar os meios disponíveis para experimentação e prestação de serviços no âmbito da agricultura de precisão ao nível das OP Medida 10 - Reativar a medida de apoio ligado à concentração da oferta aos produtores de culturas arvenses Medida 11 - Manter a discriminação positiva para OP no âmbito do apoio do desenvolvimento rural ao investimento Medida 12 - Reforçar as estruturas interprofissionais Medida 13 - Valorizar a produção nacional, a nível interno e externo Medida 14 - Reforçar o controlo sanitário à importação Medida 15 - Criar Fundos de carácter mutualista, no quadro da futura PAC, para minimização de riscos Medida 16 - Equacionar a possibilidade, no quadro da futura PAC, de restabelecer «apoios ligados» ao setor Medida 17 - Criar medidas agroambientais de mitigação e de adaptação às alterações climáticas, no quadro da futura PAC, nomeadamente em áreas abrangidas pelo sistema nacional de áreas classificadas
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
67
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
68
Luís Souto Barreiros GPP
zação do rendimento através do mutualismo, e a Medida 12 que visa a criação de uma Organização Interprofissional para o milho e cereais praganosos. No que se refere a esta última medida, há que destacar o arranque do projeto ValorCer promovido pela ANPOC e ANPROMIS e que visa, entre outros aspetos, elaborar os estudos necessários à criação de uma Organização Interprofissional para o sector. No que se refere à valorização da produção nacional, Medida 13, está já concluído o projeto de Decreto-lei que cria um regime nacional de rotulagem obrigatória de Origem para o arroz, à semelhança do que foi feito para o sector do leite, devendo iniciar-se em breve a sua discussão com o sector. Ainda nesta medida, há que destacar a aprovação a nível da UE de um projeto conjunto da Casa do Arroz com organizações de outros Estados-membros que visa a promoção do consumo do arroz Europeu na UE.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
Esta Resolução do Conselho de Ministros adotou 17 medidas prioritárias, a serem implementadas pelos diferentes serviços e organismos oficiais em função da natureza de cada uma das medidas, sob a coordenação do GPP.
Relativamente às sete medidas previstas exclusivamente para o próximo período de programação, o objetivo no imediato é garantir a sua elegibilidade nas novas regras. Estas medidas que vão desde a dinamização da produção nacional de semente certificada, até às ajudas diretas e medidas agroambientais serão enquadradas no novo Plano Estratégico da PAC, cujo processo de programação está em curso. Neste processo de programação e tendo em conta que poderão existir novos instrumentos, que até agora não estavam disponíveis para o sector, deverá ser avaliada a sua pertinência tendo sempre presente os objetivos e os pilares da Estratégia nacional para a promoção da produção nacional de cereais. Em suma a estratégia está em plena implementação, mas ainda há grandes desafios e um caminho a percorrer: No curto prazo a criação de uma organização interprofissional na área dos cereais (milho e praganosos) é uma medida fundamental para promover uma maior comunicação e organização ao longo da Fileira alinhando os interesses dos vários agentes (produção, indústria, distribuição, inovação). O desenvolvimento, a título experimental, de um fundo Mutualista para estabilização de rendimento e o reforço da valorização e diferenciação da produção nacional, através da promoção das marcas e da rotulagem são outras das prioridades no curto prazo. Para o futuro, o novo Plano Estratégico da PAC, que vai enquadrar os apoios a conceder no âmbito desta política em Portugal, constitui uma grande oportunidade para implementar medidas de apoio que o sector necessita e já identificadas na Estratégia.
NOV19 www.agrotejo.pt EMPRESAS
70
Os seguros como instrumento de gestão de risco Frederico Bernardino Secose – Corretores de Seguros S.A.
Os seguros de colheitas constituem um apoio crucial para os agricultores e para a resiliência do sector agrícola face às alterações climáticas e às transformações que o sector sofreu, sofre e irá continuar a sofrer. AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
| Em Bragança no passado mês de julho, caiu granizo com a dimensão de bolas de pingue-pongue. Apesar de localizados os danos não deixaram de ser consideráveis. Fenómenos do género, deixaram de ser episódicos e passaram a ser frequentes em Portugal e, como habitualmente, os “media” preocuparam-se com a questão dos prejuízos daí decorrentes e da forma como os seguros, nomeadamente os seguros agrícolas, indemnizam os agricultores. Os seguros de colheitas constituem um apoio crucial para os agricultores e para a resiliência do sector agrícola face às alterações climáticas e às transformações que o sector sofreu, sofre e irá continuar a sofrer.
A questão não é despiciente, as dimensões dos danos causados por tais fenómenos podem facilmente afetar a totalidade das culturas pondo a nu, não só os rendimentos agrícolas da campanha, mas, sobretudo a fragilidade económica das explorações agrícolas, aumentando exponencialmente o risco potencial de falência de algumas empresas. A agricultura, contudo, prossegue a sua evolução positiva num ambiente instável e gerador de vulnerabilidades a um ritmo sustentado e numa constante busca de adaptação ou mesmo de reinvenção. A chegada de novos atores com abordagens diferentes, muito apoiadas em conhecimento científico e tecnológico, aproveitando a criação de importantes
NOV19 www.agrotejo.pt EMPRESAS
zonas de regadio alteraram por completo o quadro tradicional do mundo rural em Portugal. Nunca, o sector agrícola viveu um ambiente tão fervilhante de ideias e de projetos inovadores que está a permitir alterar radicalmente a forma como a atividade é desenvolvida. Esses agricultores mantêm uma relação difícil com o risco, trata-se de investimentos de capital intensivo com payback longos, as dificuldades e os riscos inerentes a qualquer investimento aos quais teremos que adicionar as aleatoriedades climáticas e agora, os fenómenos climáticos extremos, tornam praticamente impossível assumir a totalidade dos riscos. No entanto, a questão está em aberto, quais vão ser as necessidades em termos de cobertura? Será que a estratégia será a de transferir riscos através da subscrição de apólices? Ou a opção será a de aumentar a poupança? Evidentemente, que a resposta a essas questões estará muito dependente dos seus rendimentos e da utilização que lhes for dada, mas igualmente, da evolução dos valores e dos comportamentos. A aversão ao risco é uma coisa, aceitar pagar para transferir esses riscos, é algo completamente diferente. Numa conjuntura em que os rendimen-
tos se retraem ou onde os modos de vida evoluem, as seguradoras vão ter que que se adaptar. A estratégia face à diversidade dos riscos tem que ser estruturada. Riscos climáticos (chuva, granizo ou geada), fenómenos climáticos extremos (tufões ou tempestades), riscos financeiros (variações de preços ou reduções de margens) são exemplos de toda uma panóplia de eventos a que estão sujeitos os agricultores e para os quais surgem soluções que permitem a transferência de parte desses riscos.
No entanto, as alterações climáticas são como uma das principais preocupações futuras da Agricultura, e justamente, enquanto segurados, qual a relação que os agricultores mantêm com o risco? Quais irão ser as suas necessidades em termos de coberturas? Os seguradores vão ter que assumir riscos, coisa a que, paradoxalmente, não estão muito habituados. Á imagem de alterações impostas ou desejadas que afetam a paisagem agrícola, estas mutações provocam alterações da cartografia dos riscos. Ao longo dos últimos 30 anos, o sector agrícola transformou-se profundamente. Sob o efeito da modernização dos instrumentos de produção, grande parte das pequenas explorações evoluíram e têm vindo a ser complementadas por organizações com uma dimensão superior (Organizações de Produtores e Cooperativas). A problemática da garantia dos preços tornou-se uma das prioridades para o sector agrícola que sofreu flutuações muito fortes em consequência, nomeadamente, da especulação nos mercados de futuros. Simultaneamente, as ajudas ao sector foram reestruturadas, os mercados de matérias-primas evoluíram no sentido de proporcionarem soluções e coberturas interessantes na ótica dos agricultores, no entanto, as condições económicas tornaram-se mais difíceis e exigentes fragilizando numerosas fileiras. Á medida que se implementaram reformas na Política Agrícola Comum, a rede de segurança oferecida por uma política de preços garantidos e os sistemas de estabilização das cotações, desapareceu expondo os agricultores à variabilidade dos mercados. Um risco, a partir de agora no centro das preocupações do sector a que se juntam as alterações climáticas e os consequentes fenómenos climáticos extremos, bem como os problemas sanitários. Os desafios para a Agricultura estão aí, os atores deste sector terão que estar à altura dos desafios que se aproximam e, pelo “andar da carruagem” vão ser de monta. AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
71
NOV19 www.agrotejo.pt EMPRESAS
VITALFIT, o primeiro indutor antioxidante para plantas A TIMAC AGRO desenvolveu o primeiro bioestimulante indutor antioxidante do mercado que consegue prevenir e curar o stresse oxidativo mediante a ativação do sistema defensivo da planta.
72
FIGURA 1, 2 E 3 Departamento Técnico da TIMAC AGRO
| Têm-se descrito muitas causas que afetam diretamente o correto desenvolvimento das culturas, mas são precisamente os stresses oxidativos, especialmente aqueles que atuam sobre o sistema radicular, uma das causas mais importantes, uma vez que a planta investe a sua energia a defender-se desses stresses e isso afeta a correta absorção e metabolismo dos nutrientes, reduzindo o potencial de crescimento da planta de forma considerável.
O QUE É UM STRESSE OXIDATIVO O stresse oxidativo é todo o stresse em que é gerado um desequilíbrio entre a produção de “espécies reativas de oxigénio” (ROS) e a capacidade de um sistema biológico de descodificar rapidamente os reagentes que lhe façam frente (antioxidantes) ou reparar o dano resultante. No mundo vegetal, as principais
causas do stresse oxidativo são agressões externas, tais como: stresse hídrico, tanto por excesso (inundação/encharcamento) como por defeito (seca), temperaturas extremas, salinidade, desequilíbrio de nutrientes, toxicidade por metais pesados, agentes patogénicos, herbívoros, insolação elevada, etc.
VITALFIT Numerosos estudos mostram que uma bioestimulação correta da planta é muito benéfica para prevenir e até para reverter esses stresses, permitindo assim desenvolver todo o potencial vegetativo das culturas. Conscientes desse problema crescente para o setor agrícola mundial e fruto de uma investigação constante, a TIMAC AGRO desenvolveu o VITALFIT, o primeiro bioestimulante indutor antioxidante do mercado que consegue prevenir e curar o stresse oxidativo mediante a ativação do sistema defensivo da planta. O bioestimulante líquido inovador incorpora o complexo VITALFIT, que corresponde a uma formulação exclusiva patenteada pela TIMAC AGRO à base de extratos naturais e evita o stresse oxidativo, atuando em três níveis: 1) cria um escudo antioxidante contra agressões externas; 2) retarda a senescência celular e 3) promove a sinergia de microrganismos benéficos com a planta (figuras 1 a 3).
BENEFÍCIOS PARA A CULTURA Gráfico 1 e 2
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
Com o uso de VITALFIT vamos ter plantas mais resistentes: com produção e acumu-
lação de antioxidantes, controlo dos radicais livres e outras espécies de oxigénio reativas (ROS) e atraso na senescência (envelhecimento celular). Iremos também ter plantas estimuladas: sinergia microrganismos-raiz, sistema radicular reforçado e ativação do metabolismo da planta. Há um aumento qualitativo e produtivo das culturas, resultado de uma maior eficácia dos nutrientes na medida em que, há uma melhoria da mobilização, absorção e translocação desses nutrientes para as plantas.
RESULTADOS COMPROVADOS Organismos oficiais como o Instituto Valenciano de Investigaciones Agrarias (IVIA), Universidad de Navarra ou a Universidad de Córdoba em colaboração com o Departamento I&D da TIMAC AGRO, realizaram ensaios que revelam elevados aumentos nos níveis de antioxidantes e na resistência ao stresse nas plantas tratadas com VITALFIT em relação às não tratadas (gráficos 1 e 2). UTILIZAÇÃO VITALFIT é um adubo líquido que pode ser incorporado em aplicação foliar ou fertirrigação e preferencialmente de forma preventiva. Pode ser utilizado em todo o tipo de culturas e em várias fases do ciclo conforme as necessidades, sem que haja o risco de desenvolvimento de resistências.
NOV19 www.agrotejo.pt INOVAÇÃO
74
Francisco Almeida Garrett o agrónomo que faz a tira da cortiça em sobreiros de oito anos Sara Pelicano JORNALISTA
Em 2020 o agrónomo Francisco Almeida Garrett conta tirar do seu sobral a primeira cortiça Amadia. O que há de notável no facto é fazer esta terceira tira em sobreiros plantados em 2003, seguindo as práticas do olival intensivo. Volvidos 16 anos, o proprietário está a expandir a área inicial dedicada aos seus sobreiros de rega. E já há outros interessados neste sistema. AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
| Quando em 2003 o engenheiro agrónomo Francisco Almeida Garrett preparava uma plantação de 70 hectares de olival em regime superintensivo, na sua Herdade do Conqueiro, ocorreu-lhe alocar uma área de 1,6 hectares para aí plantar sobreiros, seguindo o mesmo sistema de rega e de fertilização do olival, explorado em sistema integrado. Volveram 16 anos e, atualmente, o produtor de vinho, azeite e cortiça, que encabeça a empresa familiar Rovisco Garcia, antevê extrair a sua primeira cortiça Amadia, depois de duas tiras dos seus sobreiros em regime intensivo. Partindo da ideia que teve no início da década de 2000, Francisco Almeida Garrett, consegue, atualmente, reduzir para
NOV19 www.agrotejo.pt INOVAÇÃO
No processo tradicional um tronco de sobreiro terá de aguardar 30 anos para produzir cortiça rentável. Nessa altura, o perímetro do tronco terá de ter 70 cm, medidos a 1,3 metros do chão. A exploração durará, em média, 150 anos (em média 15 descortiçamentos). Depois do primeiro descortiçamento da cortiça virgem (desbóia), a segunda tira de cortiça (secundeira) ocorre ao fim de nove anos. O material será, então, mais regular, menos duro, embora ainda impróprio para rolhas. A terceira tira dará uma cortiça regular com costas e barriga lisas (amadia). Um montado considerado muito bom produz cerca de 40% de cortiça rolhável. Desta, 30% é a que é aproveitável para rolha natural.
metade o tempo que medeia entre a plantação do sobreiro e a tira da primeira cortiça virgem, a desbóia. Mais, o retorno do investimento também chega substancialmente mais cedo. No processo tradicional, um tronco de sobreiro terá de aguardar mais de três décadas para produzir cortiça rentável. Francisco Garrett vai consegui-lo em 17 anos e, quanto ao retorno do investimento, diz-nos o próprio que “ao fim de 20 anos, com duas tiras, este sobral está pago e a dar rendimento”. Conta-nos o produtor a propósito dos primórdios deste seu projeto que “há uns anos, quando tive problemas sanitários no montado, procurei saber quais as necessidades dos sobreiros em termos de nutrientes e não encontrei dados. Fazendo uma análise dos tipos vegetativos dos sobreiros e das oliveiras, constatei que têm ciclos muito parecidos. Desta forma, quando instalei o olival intensivo, numa ponta do terreno, decidi pôr uns sobreiros em regadio, com o mesmo tratamento das oliveiras. E resultou.
espírito empreendedor e a investigação, concorreu a disponibilidade de água e o solo adequado. Se houver calcário ativo, não vai resultar. A água, para o sistema de rega gota a gota, tinha-a o engenheiro agrónomo nas proximidades, na Albufeira do Maranhão, em Avis. Sublinhe-se que os sobreiros crescem na primavera e no outono, ficando praticamente inativos no verão e inverno. O que as faz crescer é a disponibilidade de nutrientes que seguem das raízes para as folhas. Árvores que ultrapassaram períodos de seca têm problemas no crescimento da casca. “Desta forma, estes são suprimidos”, refere o engenheiro agrónomo. “Nestas condições rego a partir de março. Se o ano for seco, como 75
Ao fim de oito anos, em 2011, a casca das árvores já tinha a dimensão legal para lhes tirar a primeira cortiça”. Refira-se que só à terceira tira a árvore está em condições para fornecer cortiça com qualidade para integrar produtos como as rolhas. Antes, serve para aglomerado para fabricar pavimentos. Para o sucesso do engenheiro agrónomo, a par com o
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
NOV19 www.agrotejo.pt no campo
76
este 2019, em outubro ainda terei de regar. O sobreiro em regime intensivo gasta muito menos rega do que outras culturas, como o olival e o amendoal”, sublinha o proprietário, referindo que “é necessária capacidade para a instalação de rega (2,500 m3 por hectare, por ano, de acordo com o produtor), regas bastante intensas, terra disponível adequada e energia. Até entrar em velocidade de cruzeiro há que investir. Dado os compassos e a densidade de árvores por hectare, os custos de extração diminuem bastante. Convém ter a árvore com o fuste direito o que futuramente pode permitir a mecanização”. Na Herdade de Francisco Almeida Garrett os sobreiros perfilam-se em fileiras ordenadas. “Passa a ser agricultura intensiva. Não é o montado. As árvores têm dois tipos de espaçamento, 7x7 e 7x3,5. Mas em 2019 já repliquei e optei por fazer 4x4. É o que aconselharia fazer hoje em dia, por diminuição de custos de operação, pois para a manutenção anual do terreno faz-se apenas uma passagem com o trator”. Ao seu sobral, o engenheiro agrónomo não o deixa entregue à sorte dos elementos. Francisco Almeida Garrett estuda o comportamento dos seus sobreiros em regime intensivo: “Fazemos parte de um grupo operacional e conjuntamente com a Universidade de Évora, entre AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
As árvores têm dois tipos de espaçamento, 7x7 e 7x3,5. Mas em 2019 já repliquei e optei por fazer 4x4. É o que aconselharia fazer hoje em dia, por diminuição de custos de operação
outros parceiros, estamos a fazer os ensaios para averiguar a qualidade, assim como a viabilidade económica deste sistema. Análises laboratoriais. Os resultados neste momento ainda não estão disponíveis”. O nosso interlocutor admite que “já houve contactos por parte de alguns outros produtores para a instalação deste sistema”. Para já, o agrónomo plantou mais “20 hectares de sobral em regime intensivo e aposta em mais 23 hectares na campanha de 2020”, plantando, para o efeito, na Herdade do Monte Novo, também nas proximidades de Avis.
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
José Lacerda FONSECA DireTOR Regional de Agricultura e Pescas de Lisboa e Vale do Tejo
A DRAPLVT E A desmaterialização de processos administrativos
78
| O setor agrícola tem vindo a ser reconhecido na sua importância estratégica, desde logo por ser a principal fonte de produção de alimentação das populações, mas também pelo importante papel do agricultor enquanto agente da sustentabilidade ambiental. Por outro lado, o papel dos apoios públicos ao desenvolvimento da atividade agrícola tem sido um fator importante para o reconhecido sucesso da agricultura portuguesa, sendo que o principal mérito deste sucesso pertence ao trabalho e iniciativa dos agentes económicos e sociais do mundo agrícola e espaço rural. A Administração Pública está assumidamente em transformação, procurando ativamente a proximidade e a parceria com a sociedade, não só do ponto de vista da transparência, da transferência do conhecimento e da inovação, mas também, e sobretudo, quanto à forma de reorganização dos seus serviços, num exigente esforço de atualização, tendo como objetivo a afirmação na primeira linha da resposta aos seus públicos e à Agricultura em geral. A desmaterialização de processos, nomeadamente no que concerne aos apoios no âmbito AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
A expectativa é de que, futuramente, estes processos possam vir a beneficiar da iAP, plataforma central de interoperabilidade da Administração Pública, orientada para a composição e disponibilização de serviços eletrónicos
dos Quadros Comunitários, é uma realidade e uma estratégia cada vez mais desenvolvida. Das mais recentes iniciativas, há a destacar a reengenharia e a simplificação de processos numa perspetiva “Simplex”, promovendo-se o atendimento e o contacto por meios eletrónicos, bem como a introdução de mecanismos de proximidade, facilitação no acesso aos processos, maior celeridade e transparência, enquanto se promove a redução dos custos de contexto, com o ajustamento a indispensáveis medidas de consolidação orçamental. Neste domínio, a DRAPLVT tem, por exemplo, trabalhado para a desmaterialização progressiva de processos. Este modelo está já implementado para a certificação de produtos alimentares para exportação e para a certificação da inspeção fitossanitária para exportação. Está ainda em franco desenvolvimento um projeto (com financiamento SAMA2020), do qual a DRAPLVT assume coordenação nacional, com vista à disponibilização de mais três processos de negócio a desmaterializar no curto prazo, com o objetivo de dar continuidade a esta vertente em tantas
NOV19 www.agrotejo.pt opinião
áreas quantas as que se revelem de interesse para o setor. A expectativa é de que, futuramente, estes processos possam vir a beneficiar da iAP, plataforma central de interoperabilidade da Administração Pública, orientada para a composição e disponibilização de serviços eletrónicos mais próximos dos cidadãos e das empresas, bem como para aumentar a segurança das interações, através do uso do cartão do cidadão ou das chaves móveis digitais nas etapas de autenticação no acesso aos balcões de atendimento, recursos hoje disponíveis de forma gratuita a todos os utilizadores do cartão do cidadão, numa ótica de conetividade e racionalização das infraestruturas públicas ao serviço do cidadão. Os princípios de simplificação e desmaterialização favorecem, por um lado, os utilizadores, e, por outro lado, a eficiência dos serviços, mas também facilitam a descentralização das atividades para o corpo associativo do setor (associações, federações, confederações), num modelo de parceria e rede estratégica de operacionalização que garante maior proximidade física aos agricultores de todo o território, qualquer que seja a sua natureza. Este é, aliás, um aspeto fundamental da evolução do setor. O trabalho em rede, sabe-se muito bem hoje, favorece o desenvolvimento, potencia a rendibilidade e garante mais e melhores resultados para todos os envolvidos. Neste contexto, são fundamentais as parcerias estratégicas com as organizações do conhecimento e investigação, as escolas, as universidades, mas também as organizações do setor. É igualmente importante o trabalho articulado com outros serviços da Administração, no nosso caso concreto, as DRAP das outras quatro regiões, e os serviços centrais do Ministério da Agricultura. O serviço público de qualidade, integrado e ajustado à procura, não pode ser feito sem a cooperação dos serviços adjacentes e das representações do setor, numa lógica de construção de redes de relação e partilha de comprometimento, e até mesmo do próprio agricultor, como no caso dos Estatutos da Agricultura Familiar ou do Jovem Empresário Rural. A DRAPLVT tem já iniciado um conjunto de contactos em rede, nomeadamente com autarquias, politécnicos e universidades, que se espera poder vir a promover linhas de diálogo e cooperação entre agentes do setor, por forma a garantir a orientação dos serviços para os propósitos e fundamentais interesses, presentes e futuros, do agricultor. Nomeadamente, pretende-se contri-
A Administração Pública está assumidamente em transformação, procurando ativamente a proximidade e a parceria com a sociedade, não só do ponto de vista da transparência, da transferência do conhecimento e da inovação, mas também, e sobretudo, quanto à forma de reorganização dos seus serviços, num exigente esforço de atualização
buir para dotar a região e os seus agentes de maior capacidade de prospetiva, planeamento estratégico setorial e transversal, através da cooperação entre agentes, antecipando problemas, oportunidades e estabelecendo parcerias estratégicas com as regiões internacionais com semelhanças edáficas e climáticas. Um outro objetivo, no âmbito destas parcerias, será o desenvolvimento de ferramentas internas de gestão, nomeadamente o levantamento da produtividade de cada trabalhador e dos respetivos departamentos, bem como a implementação de métodos de deteção e difusão das melhores práticas internas, adoção de melhores sistemas de planeamento da formação, a longo prazo, e de estratégias de motivação dos trabalhadores. Já hoje, cada trabalhador da DRAPLVT é avaliado por um vasto conjunto de métricas objetivas de produtividade e qualidade, das quais depende a sua progressão na carreira, num cenário legal em que apenas uma percentagem de 5% dos trabalhadores pode obter as melhores classificações. A modernização dos serviços passa, também, pela respetiva capacitação tecnológica, fundamental para acompanhar as mudanças do setor. O agricultor de hoje desenvolve os seus negócios com cada vez mais e melhores equipamentos de última geração e ferramentas de precisão. Nesse sentido a DRAPLVT está, também, a trabalhar num plano de desenvolvimento tecnológico, desde a informática às tecnologias de campo, por forma a diminuir custos e aumentar a eficácia.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
79
NOV19 www.agrotejo.pt INOVAÇÃO
82
Desafios ao admirável mundo novo da agricultura tecnológica e digital Sara Pelicano JORNALISTA
Vivemos numa sociedade de informação, tecnológica e digital. Recolhemos a todo o momento, uma infinidade de dados. Contudo, todas estas ferramentas só terão utilidade se adaptadas à realidade, no caso vertente ao setor agrícola que, com elas beneficia, com soluções inovadoras, criteriosas e capazes de responder a uma atividade sobre a qual pendem inúmeros desafios. As Tecnologia de Informação e Comunicação numa perspetiva agrícola são aqui avaliadas pelo docente e engenheiro agrícola Miguel Castro Neto. Isto sem esquecer a dimensão humana com o “verdadeiro guardião do ambiente, do meio rural, do solo”, o agricultor. AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
| Vivemos uma profunda transformação digital da sociedade, com expressão nos mais diversos setores e áreas de atividade. À agricultura não é alheio este admirável mundo novo. Um setor que, com as suas especificidades, exige desafios acrescidos. Recolher da terra o alimento é um processo complexo que se desenvolve, regra geral, a céu aberto, respeitando os ciclos da natureza, e onde o empresário agrícola e o técnico têm de tomar decisões praticamente numa base diária. Isto num quadro global onde os desafios impostos pelas alterações climáticas, alteram os paradigmas de ação da atividade agrícola. Também num mundo com população crescente (rondará os 9,6 mil milhões de seres humanos em 2050) e onde há que elevar as exigências alimentares, com dietas mais ricas. Face ao cenário exposto e aos desafios do presente para a agricultura, Miguel Cas-
NOV19 www.agrotejo.pt INOVAÇÃO
tro Neto, professor da NOVA Information Management School, recorda-nos que “muitas vezes as decisões são tomadas com base na experiência do agricultor”. Contudo, “se pensarmos nos meios de que dispomos atualmente para a recolha de dados, podemos pensar em ter um apoio informatizado a muitas das ações diárias, ou mesmo no planeamento das atividades”. Um apoio que, nos dias que correm, é transversal a um considerável número de situações, com objetivas vantagens na cadeia de valor: “Por exemplo, contamos com sistemas de apoio à decisão que otimizam a gestão da rega, que conseguem prever a ocorrência de uma doença na cultura; contamos com veículos que podem, sem qualquer intervenção humana, fazer a sua atividade no campos de dia ou de noite, faça sol ou faça chuva”. Cooperando com a capacidade analítica de recolher e processar dados, estão a transformação digital e o fenómeno da robotização e dos veículos autónomos. “Tudo isto combinado pode trazer-nos uma outra agricultura, completamente diferente daquela que conhecemos. Hoje, contamos com robôs que desempenham tarefas que, até à data, eram realizadas por seres humanos, desde a apanha de fruta, à colheita de rosas em estufas, à poda de árvores”, adianta o docente. Considerando que estas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) têm implícito um modelo de investimento oneroso, como podem unidades de pequena dimensão justificar investimento nestas mais-valias, é a pergunta que deixamos a Miguel Castro Neto: “Sendo isso verdade, se adotarmos os mesmo modelos que são utilizados noutros setores, nomeadamente da economia da partilha, podemos pensar em organizações a puderem ter aqui uma palavra a dizer, nomeadamente organizações”. A este propósito, dá-nos o nosso interlocutor um exemplo: “A AGROTEJO pode ser, ela própria, um elemento dessa transformação. Na sua zona de intervenção, temos eventualmente o melhor exemplo à escala nacional do que é a utilização das TIC na agricultura, como é o caso do mi-
lho, uma cultura atualmente altamente tecnológica”.
UMA MULTIDÃO DE DADOS, O DESAFIO DE OS USARMOS A NOSSO FAVOR
Miguel Castro Neto
“Apesar de dizermos que os dados são o petróleo do século XXI, estes só têm valor quando são informação”.
Acresce que vivemos numa sociedade de dados. Nunca, no percurso humano, lidámos com tão grande volume de informação. Não basta, contudo, recolhê-la, há que trabalhá-la, dando-lhe uma orientação prática e com vantagens para as atividades. “Apesar de dizermos que os dados são o petróleo do século XXI, estes só têm valor quando são informação”, alerta Miguel Castro Neto. No caso da atividade agrícola, diz-nos o professor da NOVA Information Management School que, “tirando partido da transformação digital em curso, consigo ter processos de recolha de dados, do seu armazenamento, processamento e entrega dos mesmo sob a forma de informação conducente à ação. Ora, isso pode ser feito desde a fase de planeamento da atividade agrícola. Desta forma, posso antever muito melhor o que vou fazer futuramente se conseguir ter acesso a estes dados”. A questão do acesso aos dados, deixa-nos perante um desafio: Onde é que estão estes dados? De acordo com Miguel Castro Neto, “há um debate à escala global
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
83
NOV19 www.agrotejo.pt INOVAÇÃO
84
sobre a propriedade destes dados. Isto porque, muitas vezes, são as empresas que estão a capturar esses dados”. Uma nova realidade em torno das TIC que “nos prepara para o combate às alterações climáticas. Porque, estas, são uma realidade e Portugal será um dos países em que esse impacto na atividade agrícola será mais acentuado. Contudo, se tivermos mais dados e mais informação, vamos conseguir gerir melhor os recursos e minimizar os impactos destas alterações. Por outro lado, se tivermos uma agricultura rica em informação, julgo que poderemos ter, inclusivamente, um papel de informação ao cidadão. Porque hoje em dia há, de facto, falta de informação também do cidadão sobre o que é a agricultura”, sublinha Miguel Neto. Isto porque “há a associação entre a nova agricultura e a prática agrícola intensiva e, desta com uma ação insustentável. Ora, a agricultura intensiva é aquela que tira partido da melhor tecnologia disponível para obter o máximo de rendimento económico e físico. Mas nunca isso é visto como algo insustentável. O agricultor é o verdadeiro guardião do ambiente, do meio rural, do solo, porque é destes que depende o seu sustento e a sua sobrevivência”, diz-nos o engenheiro agrícola. “Quando falo da agricultura, incluo as florestas assim como a biodiversidade e a conservação da natureza. No caso das
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
“contamos com sistemas de apoio à decisão que otimizam a gestão da rega, que conseguem prever a ocorrência de uma doença na cultura; (…)” florestas hoje também temos inúmeros exemplos de como a tecnologia se lhes adequa. A mais imediata, a própria monitorização da floresta, visando o combate a prevenção dos incêndios. Uma tecnológica portuguesa, a Compta, venceu um prémio mundial de inteligência artificial com um modelo de deteção de incêndios por análise de imagens”.
TECNOLOGIA SIM, MAS TAMBÉM O CONHECIMENTO No que respeita aos apoios e incentivos à aplicação das novas tecnologias nas práticas agrícolas, diz-nos o docente que “era importante haver algumas políticas públicas que endereçassem este desafio; por um lado garantir que a tecnologia está acessível, também à aquisição e, por ou-
tro lado, um segundo desafio, o do conhecimento. É aí que encontramos as competências para que, caso existam todos os dados disponíveis, sejamos capazes de construir os modelos que permitem melhorar a tomada de decisão. Nesse sentido, julgo que deveria existir um quadro relacionado com infraestruturas e equipamentos, sem descurar esse outro pilar, o do conhecimento”. Uma realidade que poderia “ser também uma oportunidade para as próprias escolas, para as instituições de ensino superior na área, também elas próprias apostarem na robotização, nos drones, por exemplo”. A propósito de uma questão que não é de hoje, a das ameaças da tecnologia aos postos de trabalho, diz-nos Miguel Neto: “Hoje temos um problema real, o da falta de mão-deobra na agricultura. Exemplo disso, são as operações agrícolas que não se realizam e as terras abandonadas. Por exemplo, atualmente, para a agricultura extensiva conseguimos encontrar soluções tecnológicas que permitem empreendê-la numa escala impraticável no passado, garantindo a sustentabilidade e com menos recursos humanos. Porque eles não estão disponíveis, não existem”. Corolário de tudo isto, em abril de 2019, 25 países do velho continente, assinaram uma Declaração de Cooperação sobre “Um Futuro Digital Inteligente e Sustentável para a Agricultura Europeia e as Áreas Rurais”. Para o professor universitário, este passo “insere-se num movimento estrutural europeu relativamente à questão da digitalização da agricultura. Trata-se de um movimento que envolve governos, mas também as empresas, que comercializam equipamentos, e as próprias organizações de agricultores. Temos de continuar a tirar partido da tecnologia para conseguir produzir alimentos com qualidade, com segurança e ao mesmo tempo com resiliência e inclusão, que sejam para todos”. Uma visão global que para o docente também cabe na escala regional: “Acho que vai haver no muito curto prazo um reforço da relevância das produções locais. Considero que é chegado um momento de oportunidade para a Europa para conseguir acompanhar esta tendência”.
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
José Monteiro Limão Dicas e Pistas
O porquê e o porque não!
86
| Há alguns anos fui convidado para dar aulas numa reputada escola de comunicação e de marketing. O convite, feito pelo diretor da escola e amigo de longa data, deixou-me nervoso e inseguro. A razão era simples e facilmente compreensível. Afinal de contas tinha-me formado para exercer a atividade e não para transmitir o conhecimento adquirido. Se por um lado a amizade era uma condicionante para uma resposta afirmativa, por outro o desconhecimento sobre os métodos e processos de ensino, aterrorizavam-me. Não querendo rejeitar liminarmente o convite, resolvi ouvir a opinião de um antigo professor. Entre os muitos esclarecimentos, finalizei a nossa conversa fazendo-lhe a pergunta fatal: “Qual a parte mais difícil de dar aulas?” Tinha esperança que a resposta fosse de tal forma contundente que me ajudasse na decisão final. A resposta foi simples: “A parte mais difícil em dar aulas, é ensinar o óbvio! E para saberes o óbvio tens de ter conhecimento e para o transmitires tens de ser inovador e criativo.”. Ao ser desafiado a escrever sobre inovação e conhecimento, volto a encontrar-me na mesma situação e tentarei usar a resposta que então me foi dada, acrescentando uma variável que é fruto da experiência vivida, o bom senso. Todos os dias e em qualquer atividade, somos confrontados por um mundo cada vez mais complexo, mais competitivo e muito mais rápido. Periodicamente, e cada vez mais em curtos ciclos, os métodos, processos e instrumentos que habitualmente usávamos nas nossas atividades, são rapidamente descontinuados e substituídos por modelos organizacionais mais eficientes, novas formas de trabalho mais produtivas, equipamentos inovadores e materiais muito mais eficazes. Tudo em prol do aumento da produtividade e da rentabilidade do trabalho e do investimento. Vivemos este processo no dia a dia, muitas vezes sem nos darmos conta, pois somos levados a estar na “crista da onda” para podermos “surfar”, para estarmos mais competitivos ou simplesmente para estarmos comunicáveis. Acontece na televisão, onde hoje podemos ver o jogo de futebol que ocorreu ontem. Acontece nas comunicações onde nenhum de nós ainda
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
Hoje é a tecnologia que nos induz a repensar posicionamentos, a alterar sistemas produtivos, a implementar novos processos de controle e prevenção, a apostar em novas formas de comunicação com parceiros, fornecedores e clientes.
usa a primeira rede social, o “Hifive” - alguém se lembra dela? Hoje usamos o “Facebook”, mas se perguntarmos aos nossos filhos, já nenhum deles o usa porque para eles já é obsoleto e ficamos espantados sem perceber porquê... O que ontem era dado como adquirido, hoje está em causa. O que antes era topo de gama, é agora obsoleto. Da agricultura à medicina, da engenharia à comunicação, em todas as atividades económicas e até na forma como nos relacionamos, a inovação está presente e com ela a necessidade de adquirir mais competências e novos conhecimentos. Se há uns anos a expressão “globalização” entrou no dicionário, mesmo sem sentirmos o seu impacto na nossa vida profissional, hoje a conectividade e a digitalização, encarregaram-se de nos fazer lembrar, a todas as horas, que o outro lado do mundo, é já aqui, dentro da minha casa, no meu escritório ou mesmo na ponta dos nossos dedos. Se o “Whatsapp”, o “Facetime” ou o “Instagram”, aí estão para nos lembrar que é mais rápido, gratuito e eficaz comunicar com a família, fornecedores ou clientes, também as sondas, os sensores, os sistemas de gestão e os “drones”, aí estão para nos alertar da necessidade de rega, da monda que trava a praga ou mesmo para sabermos, em tempo real, as necessidades da nossa cultura para a campanha que está prestes a acabar. Os exemplos que dei parecem ser apenas sobre tecnologias, mas desengane-se o leitor. Hoje é a tecnologia que nos induz a repensar posicionamentos, a alterar sistemas produtivos, a implementar novos processos de controle e prevenção, a apostar em novas formas de comunicação com parceiros, fornecedores e clientes. Nunca como hoje a inovação faz parte da vida, de toda a vida. Mas para tirar dela o que ela nos proporciona, temos de estar disponíveis a usá-la, mas para isso temos de a perceber e para tal, temos de ter mais conhecimentos.
“Alguns homens veem as coisas como são e dizem: Porquê? Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo: E porque não?” Bernard Shaw
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
Pimenta Machado vice-presidente do Conselho Diretivo da APA
Gestão dos Recursos Hídricos no vale do Tejo e em Portugal
90
| O rio Tejo, que apresenta a maior bacia hidrográfica da Península Ibérica – 80 mil km2, ocupa cerca de um terço do território de Portugal continental, com mais de 25 mil Km2. As caraterísticas climáticas do território da bacia hidrográfica do Tejo, em Portugal, revelam-se bastante diversas, abrangendo áreas mais secas na Beira Interior, Beira Baixa, Norte Alentejo e Vale do Tejo, onde se verificam valores de precipitação da ordem dos 600 a 700 mm em ano médio, e zonas mais húmidas, na sua faixa mais a Oeste, com precipitações da ordem dos 800 a 900 mm, e, em particular, a bacia do Zêzere, com precipitações da ordem dos 900 a 1.600 mm e que chegam a ultrapassar os 2.000 mm na Serra da Estrela. Em anos secos, verificam-se valores que podem ser da ordem dos 300 mm nas zonas mais secas, não chegando aos 1000 mm mesmo na Serra da Estrela. A gestão dos recursos hídricos na bacia hidrográfica do Tejo, em Portugal, encontra-se fortemente condicionada, no caso dos caudais circulantes no seu troço principal pela depen-
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
A gestão dos recursos hídricos na bacia hidrográfica do Tejo, em Portugal, encontra-se fortemente condicionada.
dência das afluências de Espanha e, na maior parte das bacias dos seus tributários, pela fraca capacidade de regularização das respetivas afluências em regime natural. De facto, o rio Tejo, à semelhança dos outros rios da metade Sul do País, apresenta grande variabilidade hidrológica, quer sazonal quer interanual, parecendo a mesma acentuar-se nos últimos anos com a ocorrência de eventos extremos mais concentrados no tempo. Esta variabilidade traduz grandes dificuldades quer na previsibilidade das disponibilidades hídricas quer no planeamento e gestão da satisfação, com garantia adequada, das necessidades instaladas e futuras, particularmente se tivermos em conta que grande parte desses consumos se destinam à atividade agrícola, localizados naturalmente no semestre mais seco do ano hidrológico. Estas caraterísticas da precipitação refletem-se muito diretamente no escoamento superficial em regime natural, que apresenta valores entre os 150 e os 300 mm na margem esquerda do Tejo e Tejo inferior, decorrentes
NOV19 www.agrotejo.pt opinião
designadamente de elevados valores de evapotranspiração. Esta situação relativa aos recursos superficiais é acompanhada por massas de água subterrânea com produtividade variável em grande parte da área da bacia, no Maciço Indiferenciado, verificando-se situação bastante diversa no vale inferior do Tejo, com a presença de aquíferos bastante mais produtivos que têm mantido boa capacidade de resposta às captações instaladas. Os constrangimentos associados às disponibilidades hídricas do Tejo e também dos seus afluentes resultam de fatores diversos, nomeadamente, a pequena dimensão da área de cada uma das bacias hidrográficas tributárias, com exceção, apenas da bacia do Zêzere na margem direita e da bacia do Sorraia na margem esquerda. No caso desta última, acresce que aflui ao rio Tejo, já praticamente no estuário. A bacia do Zêzere destaca-se, por diversas razões, como a bacia tributária com maior significado na bacia do Tejo em Portugal. Na bacia do Tejo, em Portugal, existe uma capacidade de regularização representada em grande parte pela cascata do Zêzere (Santa Luzia, Cabril, Bouçã e Castelo de Bode), com uso prioritário para produção hidroelétrica e, no caso de Castelo de Bode, para abastecimento público a toda a parte Norte da Área Metropolitana de Lisboa. À capacidade de armazenamento do Zêzere acrescem algumas centenas de albufeiras para regadio, na sua maioria na margem esquerda do Tejo, em grande número de muito pequena dimensão, tendo maior significado os reservatórios na bacia do Sorraia (Maranhão e Montargil), que permitem uma regularização interanual das afluências naturais. Por outro lado, a crescente procura de água conjugada com uma multiplicidade de cenários de escassez e episódios de seca, potencialmente agravados pelas alterações climáticas, tem demonstrado, num número de países cada vez maior, que a disponibilidade de água tem vindo a decrescer, o que tem potenciado a procura por origens de água alternativas, com principal destaque para a reutilização e reciclagem de água. Neste contexto, a Economia Circular poderá potenciar a eficiência hídrica nos diferentes setores, sendo que o próprio Plano de Ação para a Economia Circular, refere que adicionalmente às medidas para o uso eficiente da água, a reutilização de forma
A Economia Circular poderá potenciar a eficiência hídrica nos diferentes setores, sendo que o próprio Plano de Ação para a Economia Circular, refere que adicionalmente às medidas para o uso eficiente da água, a reutilização de forma segura e eficaz em termos de custos, pode contribuir para o aumento da disponibilidade de água.
segura e eficaz em termos de custos, pode contribuir para o aumento da disponibilidade de água, aliviando a pressão sobre os recursos hídricos, em particular os que se encontram em sobrexploração. Efetivamente, a reutilização de água é essencial para a redução do consumo de água, superficial e subterrânea, e para a diminuição das cargas poluentes rejeitadas para o meio hídrico, no entanto, a sua viabilidade e fiabilidade têm de ser asseguradas, investindo-se simultaneamente no uso eficiente da água, em termos quantitativos e qualitativos. Nesse sentido, foi criado um novo regime jurídico, que regulamenta a produção de Águas para Reutilização (ApR), obtida a partir de águas residuais tratadas, bem como da sua utilização, por forma a promover a sua correta utilização e a evitar efeitos nocivos para a saúde e para o ambiente. Este novo regime foi publicado através do Decreto-Lei n.º 119/2019, de 21 de agosto, complementado com a Portaria n.º 266/2019, de 23 de agosto e segue as orientações da proposta do Regulamento Europeu para definição de critérios de qualidade para rega agrícola e define o regime de licenciamento bem como os mecanismos que visam garantir a proteção da saúde pública e do ambiente, a transparência,
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
91
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
92
Pimenta Machado vice-presidente do Conselho Diretivo da APA
o acesso à informação e a sinalética a utilizar como aspetos fundamentais para promover a confiança dos utilizadores e também do público em geral no que diz respeito à segurança da reutilização da água. Salienta-se ainda a crescente implementação do princípio da abordagem combinada no País, prevista no artigo 53.º da Lei da Água, que consiste no controlo das descargas e emissões para os recursos hídricos através do estabelecimento de valores limite de emissão (VLE) que contemplem, de forma integrada, a apreciação das caraterísticas do meio recetor e da própria rejeição. Trata-se assim de uma abordagem casuística, com necessidade de avaliação específica em função das condições de cada pressão e da envolvência local. Definem-se, por exemplo, volumes máximos para a captação e VLE diferenciados consoante a época do ano (estiagem, período “húmido”, situação de exceção) e estabelecem-se programas de autocontrolo e de monitorização do meio recetor em tempo real ou com maior frequência. Esta nova abordagem de licenciapub.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
estão em curso reuniões de trabalho no sentido de aperfeiçoar os mecanismos de articulação com Espanha
mento está já a despertar a curiosidade e interesse de vários países europeus e mesmo de regiões da China. No âmbito da operação Tejo 2018, foram revistas cerca de 50 de licenças de descarga, com base na metodologia de abordagem combinada, incluindo três unidades industriais situadas em Vila Velha de Ródão. Contudo, existe ainda um longo caminho a percorrer, não só ao nível da eficiência hídrica, em termos quantitativos e qualitativos, mas também para potenciar a reutilização de água, que deverá ser equacionada como uma nova origem de água permitindo assim diminuir a pressão sobre os recursos hídricos, que em certas situações poderá ser uma medida mais competitiva e eficaz do que a construção de novas barragens. Por último, é de referir que estão em curso reuniões de trabalho no sentido de aperfeiçoar os mecanismos de articulação com Espanha, nomeadamente em cenários mais críticos, quer na área do planeamento, quer de gestão.
NOV19 www.agrotejo.pt REPORTAGEM
A dupla função da agricultura no Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 Em junho deste ano foi aprovado em Conselho de Ministros o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050. São vários os setores que terão de tomar medidas para reduzir a emissão de gases com efeito de estufa. A agricultura será um deles e com dupla função: por um lado reduzir emissões, por outro aumentar a capacidade de sequestro. Sara Pelicano JORNALISTA
94
| O desafio é muito claro e foi estabelecido no Acordo de Paris, um acordo mundial sobre as alterações climáticas alcançado em 12 de dezembro de 2015, em Paris: limitar o aumento da temperatura média global do planeta a 2 ºC e a fazer esforços para que esta não ultrapasse os 1,5 ºC. Portugal assinou o acordo e iniciou o seu trabalho, desenvolvendo o Roteiro para a Neutralidade Carbónica (RNC) 2050, elaborado por cinco instituições – GET2C, AgroGes, Lasting Values, J. Walter Thompson e Fundação para a Ciência e Tecnologia – e aprovado em junho em Conselho de Ministros. Este roteiro abrange quatro áreas, nomeadamente: energia, transportes, resíduos, agricultura, florestas e uso do solo. A AgroGes, com a coordenação de Francisco Avillez, teve a responsabilidade de elaborar o Relatório Setorial da Agricultura no RNC em 2050. Francisco Avillez pormenoriza que “a redução de carbono levou a que todos os assinantes do Acordo de Paris, quase todos os países do mundo, se comprometam a desenvolver ações capazes de atingir esses objetivos. Uns para o fim do século; outros, como Portugal apontam 2050, outros ainda que afirmam conseguir em 2030. Essas ações têm de ser periodicamente avaliadas, logo cada país tem o seu roteiro de neutralidade carbónica. No
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
PRÁTICAS AGRONÓMICAS E TECNOLÓGICAS COM MAIOR RELEVÂNCIA FUTURA NO QUE RESPEITA À NEUTRALIDADE CARBÓNICA •u ma maior eficiência na utilização dos adubos azotados e produtos fitofármacos sintéticos, ou mesmo a sua eliminação quando compatível com a viabilidade económica dos sistemas de agricultura; •u ma progressiva eliminação da queima de resíduos de culturas temporárias e permanentes e a sua incorporação no solo ou utilização na produção de bioenergia; •u m aumento generalizado das práticas da mobilização mínima dos solos e da sementeira direta nas áreas ocupadas por cereais de sequeiro e regadio; •u ma maior eficiência no uso da água de rega; •u m aumento das áreas ocupadas por pastagens biodiversas; •u ma evolução dos sistemas de gestão de estrumes caracterizada por uma redução das lagoas e sua substituição por outros sistemas de tratamento mais carbonicamente neutros.
fundo o que se diz é: ‘À partida temos esta capacidade de sequestro, dentro de dez, 20, 30 anos, atingimos isto, até 2050 e até essa data que intervenções e atividades, nomeadamente políticas públicas devem ser tomadas””. O presidente da Direção da Agromais, Luís Vasconcellos e Souza, sublinha neste tema a importância de haver uma ação conjunta entre todos, com o prejuízo de a Europa ficar prejudicada. “Ou há uma concertação, ou passa cada um a fazer o que quer e diz que a culpa é do vizinho. A Europa se for não poluída e os outros a poluírem, passa a ser a zona menos poluída, mas poluída pelos outros. O mundo tem de tomar uma posição, mas as pessoas não são capazes de se entenderem. Há quem diga que se tem de parar tudo, mas outros continuam. A Europa, para o bem e para o mal, está a ficar diferente dos outros. Como não consegue mostrar aos outros esse modelo, acaba por não ser sustentável para o mundo”. Relativamente a Portugal, Luís Vasconcellos e Souza refere que é um país mais “asseado”, mas tem “um hiato enorme em relação às emissões gasosas das empresas industriais. Portugal não tem legislação capaz no que diz respeito a emissões gasosas. Não faz sentido que fábricas deitem mau cheiro em permanência e as pessoas nas suas casas sofram com isso. Há que enfrentar a realidade sem demagogia. Apontar: ‘O senhor emite partículas e substâncias que não devia emitir’, e levar a coisa até ao fim”.
NOV19 www.agrotejo.pt REPORTAGEM
95
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
NOV19 www.agrotejo.pt REPORTAGEM
Em Portugal, uma das grandes áreas de trabalho do RNC 2050 será na energia, “o grande setor responsável pelas emissões, no sentido lato, que envolve transportes, produção de energia, a que é gasta nas indústrias, etc. A grande preocupação é até que ponto vai ser possível, ou não, reduzir as emissões relacionadas com as atividades que utilizam energia”, afirma Fransciso Avillez. Assim, o grande objetivo é procurar e retificar o mais possível esses diferentes tipos de atividade e tentar garantir que essa eletricidade é produzida a partir de energias renováveis. “Dentro deste setor
96
FRANCISCO AVILLEZ, SÓCIO FUNDADOR DA AGROGES.
Principais vetores de descarbonização e linhas de atuação para uma sociedade neutra em carbono
a) Descarbonizar a produção de eletricidade, eliminando a produção de eletricidade a partir do carvão até 2030 e prosseguindo com a total descarbonização do sistema eletroprodutor até 2050, apostando nos recursos endógenos renováveis;
d) P romover a descarbonização no setor residencial, privilegiando a reabilitação urbana e o aumento da eficiência energética nos edifícios, fomentando uma progressiva eletrificação do setor e o uso de equipamentos mais eficientes, e combatendo a pobreza energética;
b) C oncretizar a transição energética, aumentando muito significativamente a eficiência energética em todos os setores da economia, apostando na incorporação de fontes de energia renováveis endógenas nos consumos finais de energia, promovendo a eletrificação e ajustando o papel do gás natural no sistema energético nacional;
e) D escarbonizar a mobilidade, privilegiando o sistema de mobilidade em transporte coletivo, através do seu reforço e da descarbonização das frotas, apoiando soluções inovadoras e inteligentes de mobilidade multimodal, ativa, partilhada e sustentável, bem como a mobilidade elétrica e outras tecnologias de zero emissões, a par da redução da intensidade carbónica dos transportes marítimos e aéreos, apostando na inovação, na eficiência e em combustíveis mais limpos e de base renovável, bem como, a descarbonização do transporte de mercadorias de curta e longa distância, promovendo uma cadeia logística com
c) D escentralizar e democratizar a produção de energia de forma progressiva e dando relevo ao papel do consumidor enquanto parte ativa do sistema energético;
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
NOV19 www.agrotejo.pt REPORTAGEM
geral, há dois componentes importantes, um do alojamento, construção e habitação; outro o dos transportes e aqui o consumo de combustíveis. Mesmo nas habitações, o consumo de energia para aquecer essas habitações”, esclarece o coordenador científico da AgroGes. A agricultura tem também a sua responsabilidade no que respeita à poluição por um lado e, por outro, no atingir das metas do RNC 2050. Em Portugal, em 2015, a agricultura foi responsável por 10% das Emissões de Gases com Efeito de Estufa (GEE), tendo-se verificado um decréscimo de 5% relativamente a 1990. O decréscimo
de emissões decorreu da redução de importância do sector na economia nacional e associada a decisões técnicas como por exemplo a redução de produção de algumas categorias do efetivo pecuário, à extensificação da pecuária e ao decréscimo do consumo de fertilizantes. A fermentação entérica, os solos agrícolas e a gestão de estrumes constituem as três principais fontes de emissões da agricultura. Francisco Avillez sublinha que “o setor agrícola e florestal contribuem, com uma parte que não é muito significativa, mas contribui de qualquer forma, não sendo neutro – ninguém lhe passa
uma repartição modal que minimize a intensidade carbónica e energética do sistema de transporte, reafirmando o papel do transporte marítimo e fluvial conjugado com o transporte ferroviário de mercadorias;
pela cabeça que a agricultura venha alguma vez a ser neutra nas emissões –, reduzir essas mesmas emissões e aumentar a capacidade de sequestro. No caso da floresta, tentar aumentar o mais possível a sua capacidade de sequestro. Na prática reduzir o mais possível os incêndios, porque representam uma quebra muito significativa na capacidade de sequestro. Ou seja, por um lado mitigar as emissões, por outro aumentar a capacidade de sequestro das culturas permanentes, da floresta e do solo”. Há muito trabalho que já está a ser colocado em prática, por exemplo no setor
l) E stimular a investigação, a inovação e a produção de conhecimento para a neutralidade nos vários setores de atividade;
f) P romover a transição energética na indústria, a incorporação de processos de produção de baixo carbono e as simbioses industriais, promovendo a inovação e a competitividade;
m) T ornar a fiscalidade um instrumento da transição para a neutralidade, prosseguindo com a eliminação dos subsídios prejudiciais ao ambiente, reforçando a aplicação da taxa de carbono e promovendo uma maior tributação sobre o uso dos recursos, reciclando as receitas para a descarbonização e transição justa;
g) A postar numa agricultura sustentável, através da expansão significativa da agricultura de conservação e da agricultura de precisão, reduzindo substancialmente as emissões associadas à pecuária e ao uso de fertilizantes e promovendo a inovação;
n) R edirecionar os fluxos financeiros para a promoção da neutralidade carbónica, fomentando designadamente o desenvolvimento de um quadro favorável ao financiamento sustentável e um maior envolvimento do sistema financeiro, bem como a respetiva monitorização;
h) F omentar o sequestro de carbono, através de uma gestão agrícola e florestal ativa, promovendo a valorização do território;
o) P romover o envolvimento da sociedade na transição, contribuindo para aumentar a ação individual e coletiva, a adoção de comportamentos sustentáveis e a alteração dos padrões de produção e consumo a favor da sustentabilidade, designadamente através da educação e sensibilização ambientais;
i) A lterar o paradigma de utilização dos recursos na produção e no consumo, abandonando o modelo económico linear e transitando para um modelo económico circular e de baixo carbono; j) P revenir a produção de resíduos, aumentar as taxas de reciclagem e reduzir muito significativamente a deposição de resíduos em aterro; k) D inamizar a participação das cidades e das administrações locais na descarbonização, estimulando uma abordagem integrada aos seus diferentes vetores, em particular mobilidade, edifícios, serviços e gestão de resíduos, e potenciando o papel que têm vindo a desempenhar na mitigação das alterações climáticas;
p) Promover o desenvolvimento de competências e a (re) qualificação dirigida para as novas oportunidades de desenvolvimento económico; q) Fomentar o desenvolvimento da nova economia ligada à transição energética e à descarbonização, apoiando o desenvolvimento de novos clusters industriais e de serviços, e a geração de novas oportunidades empresariais; r) P romover uma transição justa e coesa, que valorize o território, crie riqueza, promova o emprego e contribua para elevar os padrões de qualidade de vida em Portugal.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
97
NOV19 www.agrotejo.pt REPORTAGEM
QUANTO ÀS MEDIDAS DE ÂMBITO FLORESTAL COM MAIOR RELEVÂNCIA PARA UMA MAIS FÁCIL TRANSIÇÃO PARA A NEUTRALIDADE CARBÓNICA, IMPORTA DESTACAR • as relacionadas com aspetos de âmbito fundiário, fiscal e organizacional em geral, com os apoios ao investimento em novas plantações e com uma gestão sustentável da floresta; • as relacionadas com as políticas de prevenção e de combate aos incêndios baseados quer na melhoria da eficácia dos métodos atuais, quer nas medidas de prevenção baseadas num mais adequado ordenamento das cargas combustíveis, quer, ainda, num mais adequado ordenamento dos territórios rurais.
98
dos transportes, com a substituição de carros que se movem a combustíveis fósseis para outros a eletricidade. Substituir a eletricidade obtida por combustíveis fósseis, por energias renováveis, como a solar e a eólica. Na atividade agrícola, há iniciativas que podem parecer não estar relacionadas com a descarbonização, e mais com o
pub.
setor económico ou até com fatores que se prendem com uma maior eficiência dos recursos, como é o caso da agricultura de precisão, mas que dão o seu contributo. Esta, ao reduzir a necessidade de utilização dos azotados, ou da água de rega, está a reduzir consumos de energia, inputs que são geradores de emissões e, nessa pers-
petiva, está a mitigar. Francisco Avillez acrescenta ainda: “O que se faz na agricultura de conservação, como a sementeira direta, a compostagem, aumenta a capacidade de sequestro desses solos”. O coordenador científico da AgroGes conclui que “vamos comprometer-nos que iremos desenvolver um conjunto significativo de ações que contribuem para mitigar as emissões e a capacidade de sequestro dos solos. O roteiro é um compromisso em atingir determinadas metas, ao fim de um determinado número de anos, baseados em ações concretas, nestas ou naquelas áreas. Por exemplo, na pecuária, a gestão dos efluentes. Tudo o que se faça para reduzir é positivo”. O RNC 2050 conclui que uma agricultura economicamente viável, ambientalmente sustentável e carbonicamente neutra, implica medidas de política agrícola e mudanças tecnológicas e de práticas agronómicas.
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
Anabela Trindade Presidente do Comité Nacional do Programa Man & Biosphere
EEAGRANTS – Uma oportunidade para as Reservas da Biosfera
100
| A Rede Mundial de Reservas da Biosfera, associadas ao Programa MaB da UNESCO, tem atualmente 701 Reservas da Biosfera localizadas em 124 países. Destas, 11 são em território nacional. As Reservas da Biosfera são territórios onde se ensaiam iniciativas de promoção e utilização sustentável dos recursos endógenos em cooperação com as populações e os atores de desenvolvimento local para encontrar modelos de funcionamento inovadores e capazes de serem replicados noutras áreas. Por esta razão, são muitas vezes apelidadas de áreas piloto ou laboratórios vivos de sustentabilidade. Os grandes desafios que se colocam atualmente às Reservas da Biosfera portuguesas são a transmissão do seu significado e da importância da sua existência, o aumento da sua visibilidade, a necessidade de utilizar novas formas de coAGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
ANABELA TRINDADE
municar, o reforço do envolvimento de todos os atores locais e a promoção da qualidade e atratividade destes territórios. Neste contexto, o Conhecimento, a Capacitação e a Comunicação são os três domínios essenciais à afirmação da identidade das Reservas da Biosfera. A conservação e gestão do território classificado deve assentar num sólido conhecimento científico e técnico do património natural quanto à sua distribuição geográfica, relevância, tendência populacional, estatuto de conservação, entre outros. A identificação e valoração dos serviços prestados pelos ecossistemas e do potencial de utilização sustentável dos recursos endógenos presentes no território pode contribuir para o surgimento de abordagens inovadoras e de novas atividades económicas e sociais, e o consequente aumento da empregabilidade e inclusão social. Também a valoração destes serviços é
NOV19 www.agrotejo.pt opinião
um aspeto crucial na elaboração de um plano de desenvolvimento sustentável à escala dos territórios das Reservas da Biosfera, contribuindo para uma tomada de decisão mais adequada aos valores naturais e patrimoniais presentes e para uma análise de tendências evolutivas. Por outro lado, uma maior compreensão dos valores patrimoniais e das oportunidades que estes encerram ajudará a um uso integrado e multifuncional destes territórios. Assim, é imprescindível capacitar a sociedade, e em particular os gestores e decisores, com o conhecimento adequado para poder encontrar as soluções e as respostas fundamentadas para os problemas específicos que se lhes deparam no quotidiano e assim contribuir para o desenvolvimento sustentável do território onde se inserem. A sensibilização e a participação da sociedade é outro dos eixos fundamentais na implementação de uma Reserva da Biosfera, com a consciencialização da população e dos visitantes destes territórios, apelando a uma cidadania ativa em torno dos princípios de uma classificação UNESCO. O objetivo é dar a conhecer o património natural, cultural, imaterial e o seu valor, e com isso alterar atitudes, opiniões e padrões de comportamento, aproximando a população local da conservação do património e aumentando o seu envolvimento e participação nos objetivos da Reserva da Biosfera e na melhoria da sua própria qualidade de vida. Através do Programa Ambiente, Alterações Climáticas e Economia de Baixo Carbono (Programa Ambiente) integrado no Memorando
101
A sensibilização e a participação da sociedade é outro dos eixos fundamentais na implementação de uma Reserva da Biosfera.
de Entendimento assinado entre Portugal e os países doadores dos EEAGrants (Mecanismo financeiro do espaço económico europeu), no dia 22 de maio de 2017, vai ser possível financiar a 100% e alocar ao projeto”‘Promover o desenvolvimento dos territórios das Reservas da Biosfera portuguesas, enquanto laboratórios vivos de sustentabilidade” 2.200.000 euros. Trata-se de um projeto inovador que vai possibilitar o desenvolvimento de várias tipologias de ações concretas (exemplo: ações de formação, promoção e divulgação, festivais da Biosfera, projeto de ciência cidadã, visitas de campo, seminário) e a edição de materiais (exemplo: filmes, exposições itinerantes, mapas com percursos interpretativos, sistema de indicadores, plano de sensibilização, plano de comunicação, planos de desenvolvimento sustentável) que servirão de ferramentas de trabalho para uma melhor gestão e implementação do conceito de Reserva da Biosfera nos 11 territórios UNESCO. O projeto é uma oportunidade para a valorização destes territórios e de afirmação da classificação UNESCO como sinónimo de diferenciação pela qualidade e pela excelência. AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
George Collier lead commercial Tomato Breeder – Heinz Seed
Mudança climática – Perspetivas do Melhoramento Genético
102
| As alterações climáticas são um tema fulcral, na atual produção agrícola mundial. Quando falamos de alterações climáticas, podemos destacar fenómenos de variações de temperatura mais extremadas, tempestades mais intensas e secas mais severas. Mesmo alterações mais ligeiras podem influenciar os ciclos biológicos e alterar o tipo de agentes patogénicos, insetos e infestantes que atacam as culturas. O melhoramento genético, pela sua natureza intrínseca, é uma ferramenta muito útil para servir de base a uma adaptação a par da mudança, chave para uma agricultura mais sustentada. O papel do melhorador/geneticista é estar focado nas necessidades atuais e antecipar as futuras, num prazo de cinco a dez anos. Quais são os principais desafios que a cultura do tomate para indústria enfrenta em Portugal, decorrentes também das mudanças climáticas e ambientais, e que podem afetar a sua viabilidade num futuro próximo? Ao nível da fertilidade do solo e da sua sanidade, existem já muitas preocupações decorrentes de uma intensificação e falta de rotações adequadas, resultando por exemplo, solos excessivamente compactados e com muito baixo teor de matéria orgânica. Futuras mudanças, resultantes de fenómenos de seca agravados, do aumento do nível das cotas do mar, e a concorrência crescente de outras culturas, podem “empurrar” a cultura do tomate para solos mais marginais e com teores de salinidade mais elevados. Algumas espécies de tomate selvagem originárias da América Central e do Sul têm apresentado boa tolerância a níveis altos de salinidade em vários estudos de investigação. Por enquanto, o uso destas linhas em cruzamentos para a obtenção de novas variedades, tem sido ainda muito restrito no plano comercial, devido à sua natureza complexa e eventuais inter-relações negativas em outros aspetos. Contudo a compreensão dos mecanismos genéticos intrínsecos, pode abrir portas a novos conceitos e novos marcadores moleculares envolvidos em genomas que possam garantir maior nível de resistência a fenómenos exógenos mais adversos à cultura. AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
Os geneticistas podem, por exemplo, estudar o vigor e a rusticidade dos sistemas radiculares de algumas destas espécies, que ajudam a entender a melhor adaptação destas plantas a situações que seriam muito limitantes ao desenvolvimento das correntes variedades mais usadas nesta cultura. Sistemas radiculares mais fortes, traduzem-se também numa melhor capacidade de absorção de nutrientes, e no uso mais eficiente da água de rega. Nos atuais programas de melhoramento de porta enxertos para o uso em culturas de tomate de estufa, algumas destas ferramentas já estão a ser utilizadas. No tomate de indústria ainda não existe viabilidade económica para tal. Porém, os melhoradores devem considerar a importância do vigor dos sistemas radiculares, como uma das características mais valiosas na obtenção de melhores variedades, com plantas mais resistentes e adaptadas a situações de cultura mais adversas. Variedades mais robustas, inseridas em programas culturais que deem mais atenção a uma utilização mais cuidada do solo, podem ajudar a manter e até aumentar os níveis de produção, mesmo em situações ambientais menos favoráveis. Em adição aos fatores abióticos, já está previsto e existem evidências reais, que a pressão dos insetos vai ser mais intensa e suscetível de causar impactos reais na cultura (recordemos os ataques severos da mosca branca e ácaros eriofídeos, no ano de 2017, em Portugal). Mudanças subtis nos padrões “normais” de temperaturas, podem criar condições para habitats mais favoráveis ao desenvolvimento de insetos e até à atividade de populações, inclusive, no período de Inverno. Esta pressão, traduz-se logo em custos adicionais para os produtores, quando as ferramentas/produtos inseticidas, estejam disponíveis no mercado, ou na sua ausência, em grandes perdas nas produções. No tomate, numerosas viroses são também transmitidas por insetos, tais como, o TYLCV (Tomato Yellow Leaf Curl Virus – vírus do enrolamento) ou o TSWV (Tomato Spot Wilt Virus – vírus do bronzeamento), vetorizados, quer
NOV19 www.agrotejo.pt opinião
pela Bemisia Tabaci (TYLCV) quer por Trips/ Frankinella spp (TSWV). Ambas viroses, podem ter efeitos devastadores nas culturas do tomate encontrando-se já presentes em numerosas regiões de produção, ou em áreas adjacentes. Muitos melhoradores, tentam incorporar resistências presentes nas espécies de tomate selvagem, em variedades comerciais. Algumas destas fontes de resistências, têm tipicamente contagens muito altas de Trichomas glandulares, nos tecidos superficiais das plantas, os quais produzem compostos com efeitos inseticidas servindo de barreiras naturais aos insetos vetores. Por sua vez, os habitats mais favoráveis à expansão dos vectores/insectos, também por si contribuem para um maior risco de quebra de resistências genéticas, quer pela maior agressividade dos vetores, quer por quebras da resistência genética causadas por uma maior pressão dos níveis de infestação. Por exemplo, altas temperaturas do solo, acima dos 28ºC, criam condições mais favoráveis à infestação por nemátodos do género Meloidogyne, e quebra de resistência do gene Mi(N), associado. Tipicamente, para os Melhoradores, as resistências genéticas comandadas por um único gene proporcionam uma solução rápida para o problema em questão. Contudo, numa perspetiva mais abrangente, com as alterações climáticas é importante considerar uma aproximação horizontal aos novos desafios, incorporando meios diversos de resistência (com base em genes múltiplos), para fazer face à crescente pressão de fatores abióticos e bióticos, numa perspetiva de médio e longo prazo. Mudanças ao nível da pressão das infestantes, resultam também em parte de alterações do ambiente e do clima. Assim, podemos antecipar diferentes padrões de desenvolvimento das infestantes mais comuns e mesmo expansão das regiões de desenvolvimento para novas espécies invasoras.
O melhoramento genético, pela sua natureza intrínseca, é uma ferramenta muito útil para servir de base a uma adaptação a par da mudança, chave para uma agricultura mais sustentada.
Variedades Melhoradas de Tomate, de crescimento vegetativo mais rápido e robusto, numa fase inicial, podem atempadamente “abafar” ou contrariar, o desenvolvimento de plantas infestantes. Também é importante considerar, que muitas dessas plantas infestantes, servem de hospedeiras e podem funcionar como repositório de insetos e patógenos, que muito afetam as culturas. Outro exemplo é a crescente pressão das infestantes parasitas, tais como a Orobanche spp (vulgar “Rabo de Raposa”), que por si só, requer um maior foco nos programas de melhoramento, pois é uma espécie invasora presente em numerosas áreas de produção de tomate para industria. Por forma a obter uma estratégia eficaz, os Melhoradores têm também de antecipar e otimizar as prioridades e também devem ter a capacidade de introduzir modelos com um maior número de variáveis. Há que lembrar, que a variedade é uma das “peças do puzzle”, ou seja, é uma das variáveis do sistema. Por isso, um constante fluxo de informação, de diálogo e partilha de experiências e vivências, é essencial entre todos os intervenientes do sector, seja Melhoradores, Técnicos, Empresas de Serviços, Produtores e Indústria. Igualmente é importante apoiar a investigação multidisciplinar para a criação de ferramentas e modelos tecnológicos que possam conferir uma maior e melhor adaptação das novas variedades a situações climáticas menos favoráveis. Juntos, e com uma ação integrada, poderemos garantir um sector mais são e estável, no Tomate de industria. Aproveito esta oportunidade para felicitar os produtores, técnicos e industriais, em Portugal, pelos resultados tão positivos alcançados nesta Campanha de 2019, a qual tive a ocasião de presenciar, aquando da minha visita aos Campos de Ensaios da HeinzSeed / Nextera. pub.
103
NOV19 www.agrotejo.pt EMPRESAS
104
Produtos inovadores impulsionam crescimento da agricultura biológica HUBEL VERDE
A utilização de fertilizantes cada vez mais sustentáveis vai, aos poucos, fazendo parte do portefólio das empresas de fatores de produção.
| Fertilizantes que utilizam como princípio ativo um fungo micorrízico, um bioestimulante formulado à base de extrato de algas e um preventivo de queimaduras solares à base de açúcares e zinco, são alguns dos exemplos dos produtos inovadores, com os resultados mais relevantes distribuídos pela Hubel Verde. Solos mais saudáveis, maior produtividade com, consequentemente, maior valor comercial devido à colheita de produtos de melhor qualidade, e uma considerável redução da necessidade de aplicação de produtos químicos, são alguns dos pressupostos que fazem de produtos como o MycoUp, Algaman B e Sugarplex Reflexo, inovações muito amigas do ambiente e impulsionadoras de culturas cada vez mais sustentáveis.
GANHA O SOLO, O PRODUTOR E O AMBIENTE Apresenta cada vez mais resultados ao nível da produtividade agrícola em larga escala e desempenha um papel chave no aporte de recursos à planta. Falamos dos fungos simbióticos micorrízicos arbusculaAGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
res de alto grau de eficiência e estabilidade biológica, inseridos nos fertilizantes da marca Symborg. Estes atuam diretamente promovendo uma intensa colonização micorrízica do sistema radicular das plantas, o que promove uma série de benefícios para o solo, para as plantas e para o ambiente. Pode parecer exagero atribuir-lhe a classificação de produto perfeito, mas a verdade é que os biofertilizantes que contêm estes microrganismos estão muito perto desse patamar. Garantem uma nutrição equilibrada, aumentam a atividade fisiológica da planta, fomentam a atividade fotossintética, e o uso eficiente da água, aumentam a área de absorção do sistema radicular e promovem uma melhor qualidade dos frutos. Em demonstrações de campo realizadas pela Hubel Verde, o MycoUp comprovou a sua eficácia em culturas tão diferentes como pequenos frutos, milho, batata doce, amendoim e tomate, resultando em aumentos de produção na ordem dos 15% em explorações de norte a sul de Portugal.
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
Susete Matos Agromais Plus | Daniel Murta EntoGreen
PROJETO ENTOVALOR E A VALORIZAÇÃO DE SUBPRODUTOS
106
| Por mais eficiente que seja a produção de géneros alimentícios existem sempre perdas ao longo da sua cadeia de produção e distribuição. Assim, a preparação dos produtos agrícolas para o mercado implica a produção de quantidades significativas de subprodutos e produtos não conformes, para os quais deverá ser dado um destino adequado, o que poderá conduzir a custos acrescidos. Cerca de 30% da produção alimentar a nível mundial é desperdiçada e enviada para aterro ou para compostagem, com consequente perda de nutrientes, um importante recurso ambiental e económico. Além disso, a ausência de soluções “orgânicas” compatíveis com as necessidades de fertilizantes nas culturas implica, anualmente, um aporte de fertilizantes químicos nas parcelas agrícolas. O projeto EntoValor, financiado no âmbito do Portugal 2020 (POCI-01-0247-FEDER-017675), iniciou-se em 2016 e desde então tem trabalhado no sentido de aplicar novas abordagens na valorização de subprodutos hortícolas. Este projeto, que conta com a participação da Agro-
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
O projeto EntoValor tem trabalhado no sentido de aplicar novas abordagens na valorização de subprodutos hortícolas. figura 1
mais Plus, é liderado pela EntoGreen, uma empresa que se dedica ao desenvolvimento de soluções ambientais, tendo investido os últimos anos na criação de um sistema de valorização de nutrientes assente em insetos. Desta forma, o projeto EntoValor utiliza os insetos, em particular larvas da Mosca Soldado Negro (Figura 1), como motor da conversão dos nutrientes presentes nos subprodutos vegetais, e que de outra forma não seriam usados em novas fontes nutricionais, tanto para plantas como para animais. As novas fontes nutricionais para animais consistem na utilização das larvas como fonte proteica e de óleo na alimentação de aves, trabalhos que foram realizados no âmbito deste projeto com o envolvimento da Rações Zêzere e do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV). Por outro lado, as novas fontes nutricionais para os solos, que são geradas pelo processo, são basicamente o resultado da decomposição dos vegetais pelas larvas, decomposição muito rápida quando comparada com a composta-
NOV19 www.agrotejo.pt opinião
gem convencional, pois é completa em cerca de 15 dias.
PRODUÇÃO E UTILIZAÇÃO DE FERTILIZANTES Do processo de bioconversão, além de se gerarem fontes nutricionais para animais (as larvas) também são gerados fertilizantes orgânicos (os substratos), uma excelente fonte de nutrientes para os solos e para as plantas. Assim, quando falamos de circularidade de nutrientes não falamos só de nutrientes para os animais. O objetivo do EntoValor é produzir como output do seu processo um fertilizante biológico, resultado de vermicompostagem. Ao produzir em fábrica, de forma controlada e acelerada, oferecemos maiores garantias de qualidade e controlo do processo. Sendo o fertilizante obtido o resultado de uma digestão completa, é perfeitamente estável e está pronto a ser aplicado nos solos. Este fertilizante será peletizado, facilitando a sua distribuição tanto em campos hortícolas como em pomares de árvores de fruto ou em prados permanentes, conferindo aos solos os nutrientes, estrutura e matéria orgânica que lhes permite nutrir adequadamente as plantas e reter maiores quantidades de água. Os campos de demonstração feitos até ao momento, em parceria com a Agromais Plus (batata e milho) e com o INIAV, em estufa (alface, tomate e azevém), foram muito promissores. A Agromais Plus realizou o ano passado vários campos de demonstração preliminares em talhões experimentais de batata (Variedade Brooke) com estes novos fertilizantes orgânicos de insetos, tendo sido observado, por comparação com talhões controlo com um valor nutricional equivalente veiculado por fertilizante mineral, um aumento da produção média por hectare em cerca de 9,5 toneladas (cerca de 16%), e um maior calibre das batatas obtidas. Foram estes resultados animadores que fomentaram a realização de novo campo de demonstração em 2019.
O recurso a fertilizantes orgânicos obtidos pela bioconversão de subprodutos vegetais por insetos é uma solução de base biológica que pode ser utilizada na ótica da economia circular no sector agroalimentar.
lar sobre a utilização de subprodutos vegetais como fonte de fertilizantes orgânicos de insetos, sob o mote de devolver à terra o que a terra nos dá. No entanto, não podemos devolver à terra um subproduto sem que o mesmo seja estabilizado, podendo assim ser incorporado no solo, sendo este trabalho feito de forma muito rápida pelos insetos, num processo 100% natural. Como é sabido os fertilizantes orgânicos contribuem para a estrutura do solo e para a retenção de água e são uma excelente fonte de nutrientes, mas convém perceber até que ponto a sua incorporação poderá beneficiar a produção de batata e tomate, duas das principais produções hortícolas do Ribatejo.
CAMPO DE DEMONSTRAÇÃO EM BATATA E TOMATE O campo de demonstração de adubação de talhões de batata (variedade Brooke) teve lugar no Casal das Freiras, Golegã (Figura 2), com a colaboração de José Carlos Luz. Já o campo de demonstração de adubação de talhões de tomate (variedade H1015) teve lugar na Herdade do Caldas, Vila Franca de Xira (Figura 3), com a colaboração de João Geada.
ADUBAÇÃO A adubação do campo de demonstração de batata consistiu na comparação de três adubações diferentes. No primeiro talhão foi utilizada uma dose de 550 Kg/ha de um adubo binário com 350 Kg/ha de um adubo simples, no segundo talhão 4.000Kg/ha de composto orgânico, enquanto no terceiro talhão se fez uma adubação mista entre as duas adubações, com metade da dose de cada (mineral e orgânico). Todas as adubações foram calculadas para terem aproximadamente a mesma dose de azoto por hectare (Tabela 1).
Tabela 1 – Adubação do campo de demonstração de batata
CAMPO DE DEMONSTRAÇÃO DA UTILIZAÇÃO DE FERTILIZANTE ORGÂNICO VERMICOMPOSTO POR LARVAS DE MOSCA SOLDADO NEGRO A adaptação às alterações climáticas, com o consequente foco na economia da água e saúde do solo, e a emergente preocupação com a sustentabilidade ambiental são a pedra basi-
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
107
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
Susete Matos Agromais Plus | Daniel Murta EntoGreen
Tabela 2 – Adubação do campo de demonstração do tomate
Já o campo de demonstração de fertilização em talhões de tomate resultou numa menor produção de tomate por hectare quando se aplicou a fertilização orgânica face à mineral, que pode ser explicada pela maior quantidade de unidades fertilizantes da adubação do agricultor. Contudo, houve uma menor percentagem de verdes e de podres, e um maior valor de Brix, de cor e de licopeno no talhão onde houve aplicação do fertilizante orgânico de inseto (Tabela 4).
CONCLUSÃO
Tabela 3 – Resultados campo de demonstração batata 108
Tabela 4 – Resultados campo de demonstração tomate
O recurso a fertilizantes orgânicos obtidos pela bioconversão de subprodutos vegetais por insetos é uma solução de base biológica que pode ser utilizada na ótica da economia circular no sector agroalimentar, podendo, além de contribuir para a sustentabilidade do sector, substituir parcialmente a utilização de fertilização mineral, obtendo-se resultados positivos e que podem justificar a utilização destes compostos na prática agrícola futura. Apesar dos resultados obtidos este ano terem sido bons, não superaram os obtidos em 2018, ficando ainda por estudar o efeito que a utilização dos fertilizantes orgânicos tem na estrutura dos solos e por conseguinte nas produções realizadas no mesmo talhão agrícola em anos e culturas subsequentes. ______________
Por seu lado, a adubação dos talhões experimentais de tomate consistiu na comparação da adubação feita pelo agricultor, que também incluía a utilização de um fertilizante orgânico comercial, com a adubação feita com o fertilizante orgânico de inseto obtido durante o projeto EntoValor, tendo, neste caso, sido feitos apenas dois tratamentos (Figura 2).
RESULTADOS O campo de demonstração de fertilização de talhões experimentais de batata resultou na produção de cerca de 50,9T/ha, tanto na fertilização mineral como na orgânica. No entanto, obtivemos uma produção de cerca de 55,8T/ha quando fizemos uma combinação de ambas as fertilizações, o que corresponde a um aumento de aproximadamente 9% da produção de batata por hectare. Além disso, o peso específico dos tubérculos, e a percentagem de matéria seca também foram superiores quando combinamos ambas as abordagens de fertilização (Tabela 3).
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
os fertilizantes orgânicos contribuem para a estrutura do solo e para a retenção de água e são uma excelente fonte de nutrientes.
AGRADECIMENTOS Agradecemos o financiamento obtido no âmbito do projeto EntoValor (POCI-01-0247-FEDER-017675) e a participação dos agricultores diretamente envolvidos nos campos de demonstração e de todos os colaboradores que contribuíram para o desenvolvimento do projeto ao longo dos últimos três anos. Trabalho desenvolvido no âmbito do projeto EntoValor, que tem um consórcio formado por: EntoGreen, Agromais Plus, Consulai, Rações Zêzere e INIAV.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Agricultura e floresta nas prioridades do XXII Governo Constitucional
110
O XXII Governo Constitucional tomou posse a 26 de outubro e ficou claro que nesta legislatura “não há mais tempo a perder” na reforma da floresta e afirmou que “a atual legislatura será mesmo decisiva para transformar o panorama florestal do país, de modo a evitar tragédias futuras”. O executivo compromete-se a prosseguir a reforma da floresta, defendendo que, “num quadro de alterações climáticas, é essencial adotar medidas de adaptação da floresta, que permitam uma maior resiliência do território, e sobretudo reduzir o perigo de incêndio, através da diminuição da carga de combustível e da sua continuidade”. No seu programa, o Governo apoia o consenso técnico que aponta para a necessidade de “criar uma floresta ordenada, biodiversa e resiliente, conjugada com
um mosaico agrícola, agroflorestal e silvopastoril, capaz de prestar diversos serviços ambientais e de sustentar as atividades económicas que lhes estão associadas, reduzindo significativamente a severidade da área ardida”. Na tomada de posse, o Governo deixou igualmente a promessa de que haverá menos fertilizantes químicos e mais agricultura orgânica, com recurso a mais tecnologia. Neste sentido, pretende-se fomentar a agricultura de precisão para se assegurar uma aplicação eficiente de fertilizantes e uma gestão eficiente da água e energia. Quanto aos fertilizantes, propõe-se ainda aumentar um uso de produtos mais orgânicos e reduzir progressivamente os sintéticos. A agricultura tradicional não será esquecida como meio de fomentar a “coesão e resiliência do território. Em
muitas zonas do país, a presença de uma agricultura tradicional, mais próxima da natureza, que assegure a ocupação e vitalidade das zonas rurais, em íntima ligação com outras atividades, desde o turismo ao artesanato”. A alimentação animal não ficou esquecida e o Governo promete apostar na investigação, desenvolvimento e aplicação de tecnologias mitigadoras associadas à alimentação animal, além da promoção de soluções integradas de tratamento dos efluentes agropecuários, associadas à recuperação de biogás para produção de energia. No programa do Governo pode ainda ler-se que está prevista “a promoção da incorporação de fontes de energia renovável na atividade agrícola, nomeadamente a bioenergia com sobrantes da exploração agrícola e florestal”. Em suma, as prioridades deste Governo para uma agricultura e um território rural sustentáveis passam por aspetos como “o apoio ao regadio eficiente e resiliente, como fator de promoção da competitividade e da previsibilidade da atividade económica, a medidas para proteger a produtividade dos solos, facilitar o acesso à terra, promover a estruturação fundiária nos territórios de minifúndio, assegurar a viabilidade da agricultura familiar, estimular o empreendedorismo rural e a organização da produção e promover novas formas de comercialização e de distribuição de proximidade”.
Vendas de fitofármacos descem 17% No Relatório de Vendas de Produtos Fitofarmacêuticos, da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, consta que houve um decréscimo de cerca de 17% nas vendas de fitofármacos em 2017, relativamente ao ano de 2016, atingindo assim o valor mais baixo desde 2002. Segundo o documento, “o quantitativo de vendas de produtos fitofarmacêuticos ocorrido durante o ano de 2017 em Portugal totalizou 8.106.841 quilogramas, expressos em substância ativa”. Os fungicidas totalizaram cerca de 52% do total das
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
vendas, das quais o enxofre perfez cerca de 21%, correspondendo a 40% do valor total de fungicidas comercializados e cerca de 70% dos fungicidas inorgânicos comercializados. A venda de herbicidas representou cerca de 23% do total das vendas e os inseticidas/ acaricidas, que passaram a incluir os óleos minerais dada a sua especificidade de utilização exclusiva como inseticida, 11 %. Os restantes produtos fitofarmacêuticos representaram cerca de 14% do total do volume de produtos fitofarmacêuticos vendidos.
pub.
NOV19 www.agrotejo.pt ACTUALIDAES
Produção de batata de regadio e tomate para a indústria cresceu
De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE) no seu Boletim Mensal da Agricultura e Pescas, de outubro, estima-se que a batata de regadio e o tomate para a indústria deverá aumentar 15%. No documento, é referido que “a apanha da batata de regadio tem decorrido, desde o início do Verão, sem incidentes, prolongando-se em algumas regiões do litoral Centro e do Ribatejo e Oeste além do previsto, face ao aumento de produtividade e à maior dificuldade de escoamento daí decorrente. Este facto, conjugado com o aumento da área plantada, face a 2018, levou a um aumento generalizado de produtividade, em alguns casos resultante de um maior número de tubérculos por planta, noutros devido ao maior calibre das batatas. A produção deverá aumentar 15% em relação à campanha anterior, situando-se próxima das 430 mil toneladas”. Além do aumento de produção, estes dois produtos apresentam-se este ano com maior qualidade, quer ao nível do peso específico, quer na diminuição da percentagem de tubérculos com defeitos. No que respeita ao tomate para a indústria, a colheita decorreu entre a primeira semana de agosto e a primeira semana de outubro. Refere o Boletim Mensal da Agricultura e Pescas, de outubro de 2019, que “a calendarização das entregas à indústria foi escrupulosamente cumprida, tendo a colheita mecânica desta cultura beneficiado do tempo seco. O aumento da produção deverá ascender a 15% face a 2018, ultrapassando 1,4 milhões de toneladas, numa das campanhas com mais elevada produtividade desde que existem registos estatísticos sistemáticos”. Quanto ao estado sanitário do tomate entregue à indústria, “no geral” era “bom” com “teores adequados de licopenos (responsáveis pela cor vermelha do tomate) e graus Brix elevados”.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Musgos têm um papel importante na gestão de solos queimados
112
Uma investigação do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) e do grupo de Planeamento e Gestão do Zonas Costeiras (CZPM) do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da Univer-
sidade de Aveiro conclui que os musgos têm um papel fundamental na conservação do solo afetado por um incêndio florestal e, por isso, o seu crescimento deve ser estimulado. Os musgos não só
ICNF alerta para crescimento da população de javalis O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) considera que as populações de javalis em Portugal estão a aumentar porque se tem verificado o crescente avistamento de animais desta espécie e o aumento dos pedidos de abate. O ICNF esclarece que “este fenómeno tem correspondência com o que se tem vindo a verificar em praticamente todos os países europeus ao longo dos últimos dez anos”. O Governo está atento a este fenómeno e, para controlar o aumento da espécie, determinou a implementação de um plano de correção do número da população de javalis, em articulação com as organizações do sector da caça. Foram também publicados dois editais extraordinários para correção da densidade de javalis. As causas para a proliferação dos javalis são várias e passam, por exemplo, pelos incêndios e a seca, bem como a sua
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
elevada capacidade de reprodução e de adaptação a diferentes ambientes. O Instituto está também a elaborar um estudo sobre a biologia do javali, através de observações diretas e indiretas nas zonas de amostragem previamente definidas. Para este fim, o ICNF recorda que “a obtenção de resultados consolidados implica a observação e acompanhamento das populações existentes ao longo de um ciclo, durante as quatro estações”.
previnem a erosão dos solos como retêm a humidade e conservam a fertilidade da terra. O estudo, publicado na revista Ecological Engineering, foi destacado pela Comissão Europeia na newsletter Science for Environment Policy. O trabalho da Universidade de Aveiro, realizado no âmbito do projeto RECARE, compreendeu a monitorização, ao longo de um ano, da encosta de uma plantação florestal ardida, na qual ocorreu uma colonização espontânea de musgos nas primeiras semanas após o incêndio florestal. Os investigadores quantificaram a escorrência superficial induzida pela chuva, assim como a perda de sedimentos e de matéria orgânica, em parcelas de solo com diferentes frações de musgo na
Equiapara renova Real Automóvel Clube de Espanha A Equiapara ruma a Espanha para mais uma importante obra internacional, a renovação integral dos 10.000 m2 de pisos equestres, do Real Automóvel Clube de Espanha (RACE), em Madrid. De entre as várias empresas especialistas em infraestruturas equestres que concorreram a esta empreitada, a Equiapara foi a escolhida e irá fazer a instalação dos pisos exteriores com tecnologia Ebb & Flow. O RACE é por tradição e história um dos melhores clubes desportivos de Espanha, que oferece aos seus sócios atividades automobilísticas e desportivas que vão desde o golf ao hipismo, sendo palco de referência de várias provas nas modalidades de ensino e obstáculos.
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
sua cobertura. De acordo com notícia do site Agricultura e Mar, estes parâmetros foram correlacionados com a evolução do coberto vegetal ao longo do primeiro ano após incêndio e mostraram que o desenvolvimento de uma cobertura anual média com 67% de musgos permitiu reduzir a erosão anual em 65% (de 1.150 para 400 quilogramas de solo por hectare). O investigador Flávio Silva refere que “o solo é um compartimento ecológico estratégico que está nas prioridades da agenda de políticas europeias, sendo a sua conservação fortemente encorajada”. O investigador, autor do trabalho a par com os investigadores do CESAM Diana Vieira e Jacob Keizer, e de Els van der Spek, da Universidade de Wageningen (Holanda), garante que “os musgos podem ser encarados como ‘engenheiros’ de ecossistema naturais que constituem o primeiro passo para a preservação da
fertilidade dos solos, proporcionando todas as condições para o desenvolvimento da biodiversidade subsequente”. Flávio Silva afirma ainda que “os musgos são espécies pioneiras em solos recentemente ardidos, embora a sua proliferação dependa de condições ambientais específicas”. O investigador acrescenta ainda que “os musgos são espécies vegetais cosmopolitas e desenvolvem-se muito bem em solos pobres e, por isso, a sua proliferação é fácil e rápida, requerendo apenas alguma humidade e luz solar baixa ou moderada. Como são tolerantes a contextos de seca extrema, embora pareçam mortos quando sujeitos ao calor, basta alguma humidade para que se reabilitem, e os esporos também continuam viáveis”. No mercado já existe musgo a ser comercializado em esporos com várias espécies. Os investigadores recomendam que a
utilização de musgos para prevenção da erosão pós-incêndio inclua esses esporos ou fragmentos triturados de musgo seco, a baixo custo adicional, nos lotes de misturas de sementes já habitualmente utilizados em medidas de estabilização de emergência pós-incêndio. Flávio Silva recorda que, normalmente esta técnica de sementeira “é aplicada por hidro-sementeira [mistura de água com as sementes e outros componentes que promovem a estabilização do solo] ou por helicóptero como se tem feito nos Estados Unidos”. Os investigadores aconselham que “se devem identificar previamente as áreas mais críticas sujeitas a erosão e fazer a aplicação da sementeira apenas nessas áreas. Como os musgos se desenvolvem rapidamente, eles retêm o solo e a humidade necessários para o desenvolvimento posterior de plantas vasculares”.
113
pub.
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
Luís Vasconcellos e Souza presidente da Direção da Agromais
A vaca expiatória
116
| Em meados do passado mês de Setembro ficámos todos muito impressionados com a notícia da interdição, decretada em direto para as televisões pelo reitor da Universidade de Coimbra, do consumo de carne de vaca nas cantinas universitárias. Seria campanha eleitoral, seria uma medida de gestão económica, perguntavam-se as pessoas? Não, disse o reitor. Nada disso, teria até sido a pedido dos alunos que tal medida foi tomada… Mas quais alunos? Quantos foram? Quem representam? Estavam mandatados para tal? Terão sido “cunhas” dos alunos nesse sentido? Será que terá havido alguma ponderação da decisão? Julgo que não, julgo que não terá havido uma análise séria e profunda das origens das emissões de gases com efeito de estufa que são imputáveis à Universidade de Coimbra. Se assim o tivesse feito talvez a questão pudesse ter tido um outro desfecho. A instalação de um ou mais funiculares para darem acesso à Alta de Coimbra, funiculares esses que substituíssem as muitíssimas centeAGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
Luís Vasconcellos E SOUZA
Como é que sem ruminantes será possível evitar incêndios de enormes proporções nesse território?
nas de veículos ligeiros e pesados que diariamente para aí se deslocam, seria seguramente a solução ambientalmente mais correta e apropriada, tendo em vista a diminuição das emissões de gases com efeito de estufa gerados pela comunidade da instituição universitária conimbricense. Mas o Sr. Reitor não quis alterar os hábitos poluidores da sua comunidade, optou antes por uma deriva muito mais fácil: o deixar de consumir uma vaca por semana, vaca essa que emitiria menos de 0,25% dos gases diariamente emitidos pelos diferentes veículos ligados ao transporte da “população universitária”. Trataram a vaca como uma vaca expiatória, coitada…. Pressinto que com medidas destas e com estes sinais a zona Centro venha a ter enormes problemas num futuro próximo. Como é que sem ruminantes será possível evitar incêndios de enormes proporções nesse território? Como vão fazer? Gostava que explicassem…
NOV19 www.agrotejo.pt EMPRESAS
118
Geofólia – Uma resposta para a gestão e certificação ISAGRI
A Isagri chegou a Portugal em 1992 e tem pautado a sua presença no país pelo carácter tecnológico e em constante mudança, características transversais a tudo o Grupo empresarial, com sede em França.
| A Isagri Portugal, filial da multinacional Group Isagri com sede em França, vê neste momento a sua atividade em franco crescimento. Atualmente conta com 2.200 funcionários e um crescimento anual de 20 %. Estes valores permitem desenvolver aplicações e sistemas inovadores para a Gestão Agrícola e Pecuária.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
Esta tem sido a nossa missão nos últimos 36 anos. Começando em Portugal em 1992, é em 2004 que o Grupo cria a filial portuguesa, que acompanha o crescimento em Espanha, Itália e outros países para onde o Grupo se está a expandir. Os últimos três anos foram pautados por uma aposta no desenvolvimento tecnológico onde se privilegiou, para o futuro das nossas aplicações, a intuição e facilidade de utilização, baseada na mobilidade e arquiteturas colaborativas, de forma a permitir a intervenção de todos os atores na cadeia do processo. A nova plataforma da Isagri espelha claramente este desenvolvimento. Surgiu em Portugal no início de 2017 com a ambição de facilitar o dia-a-dia do agricultor. Com recurso às mais modernas tecnologias e a adaptabilidade a diferentes API’s, está atualmente dotada de todos os recursos para um acompanhamento de campo do ponto de vista técnico (cartografia, georeferenciação,cartas NDVI, estações meteorológicas Méteus Isagri móveis e integradas) e de rastreabilidade de grande grau de exigência. A possibilidade de registar num aplicativo que não necessita de ligação à Internet para armazenar informação, resolveu os problemas que a grande
maioria dos agricultores tinha (não existir Internet na exploração). Este sistema permite guardar histórico offline e descarregá-lo mais tarde quando o acesso à Internet estiver disponível. O Geofolia, sistema adotado pela Agromais e Agrotejo, foi visto por parte das organizações de produtores, como a solução para responder a todas as questões consideradas por certificadoras. Com várias referências a nível nacional no que diz respeito a Organizações de Produtores, o Geofolia permite agora algo que até aqui era visto como uma necessidade, trabalhar de forma cooperante entre o agricultor e a organização de produtores. Descrevendo sucintamente o sistema, a organização adquire a solução técnica e todos os associados poderão a posteriori adquirir uma licença económica para gerirem os custos associados a toda a produção (mão-de-obra, fitofármacos, máquinas...). Estes últimos não são visíveis pela organização de produtores, mas sim pelo agricultor. A necessidade desta componente é hoje essencial para a realização económica dos produtores. Vivemos numa época em que necessitamos de gerir os custos e os lucros. Só assim o agricultor pode prosperar na sua atividade. Temos observado ao longo destes anos, a procura deste tipo de soluções pela geração atual de agricultores, que tem apresentado um crescimento constante. O retorno do nosso trabalho tem sido extremamente positivo. Trabalhar para o agricultor é o que nos move há 36 anos, e é assim que tencionamos continuar a crescer.
NOV19 www.agrotejo.pt NO CAMPO
120
AGROGLOBAL 2020: “Queremos continuar a incentivar uma presença criativa de empresas e também dos visitantes profissionais” Sara Pelicano JORNALISTA
A Agroglobal regressa a 9, 10 e 11 de setembro de 2020 e a organização do certame quer “incentivar uma presença criativa de empresas e também dos visitantes profissionais”, afirma Joaquim Pedro Torres, organizador da Agroglobal. AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
| Revista Agrotejo (RA) – Qual o balanço que faz da Agroglobal (AG)? Joaquim Pedro Torres (JPT) – Um balanço muito positivo, atestado por uma presença sempre crescente de expositores e visitantes, na sua larga maioria, profissionais do setor. Podemos também falar de uma dimensão cada vez mais internacional pois são cada vez mais as empresas e profissionais de Espanha, França, Itália e não só. A edição de 2018 foram três dias intensos, um verdadeiro congresso de agricultura a três dimensões, com cerca de 400 expositores, onde milhares de pessoas tiveram a possibilidade de confrontar as mais modernas soluções apresentadas pelas empresas, debater perspetivas para o setor, avaliar tecnologias, estratégias
e experiências concretas, num ambiente descontraído e de forte partilha de conhecimento. Sinto que a AG pode tornar-se no evento mais representativo da agricultura do sul da Europa. RA – A edição de 2020 o que pode trazer de novo? JPT – Os preparativos estão ao rubro. Queremos que cresça, de forma controlada. Queremos resolver ou pelo menos melhorar alguns problemas estruturais e ajustar os temas de acordo com as tendências do sector. Queremos continuar a incentivar uma presença criativa de empresas e também dos visitantes profissionais. Vamos fomentar o negócio transformando o espaço AG num grande Business
NOV19 www.agrotejo.pt NO CAMPO
Centre. Negócio no sentido da procura de sinergias entre os diferentes agentes que levem à criação de valor. Podem crer que no espaço AG existem as mais diversas capacidades e necessidades, que são complementares e que podem ser potenciadas. RA – Que importância tem para o setor agrícola? JPT – As exigências de um mercado a “mil à hora” obrigam a uma permanente atualização em toda a cadeia de produção. Num primeiro nível a AG constitui um palco importante para os players do setor darem a conhecer as suas armas. Num outro contribui para mostrar a dimensão tecnológica e profissional de uma agricultura que a muitos surpreendeu. Os media e o poder político aproximaram-se do setor, aproximaram-se mais empresas, investidores e com eles novas cabeças e novas ideias criando uma espiral de crescimento com resultados à vista e ainda com muito para dar. A AG vai querer continuar na primeira linha deste movimento em que empresas e agricultores constituem um verdadeiro bloco cimentado, obviamente, por interesses económicos comuns mas também orgulhosos pela sua quota-parte num melhor desempenho da economia do nosso país. RA – A Agroglobal é um espaço de debate e reflexão. Quais os temas que urge discutir e que necessitam de uma resposta rápida? JPT – O debate como diz urge. E já começou! Na edição de setembro do Agroglobal News auscultámos a opinião de várias per-
121
sonalidades sobre o estado da nação agrícola. Vale a pena ler. Lá também estavam os tópicos da “linha editorial” AG 2020. Aproveitar ao máximo a água. Precisamos de mais água pois esta é o denominador comum de uma agricultura competitiva. Atender à agricultura das zonas desfavorecidas com cuidados redobrados. Ambiente, ordenamento do território, trabalho são valores inestimáveis e só a agricultura os pode preservar de forma continuada. Defender e ordenar uma floresta produtiva, responsável por uma elevada percentagem das nossas exportações. Aproximar a comunidade científica e o setor produtivo para a utilização de ferramentas e tecnologias que aumentem competitividade. Avançar na cadeia de valor dos produtos agrícolas e florestais e valorizar a marca
Portugal. Exigir dos organismos públicos nacionais e europeus um desempenho rápido, pragmático e construtivo. Comunicar tudo o que fazemos e como o fazemos a uma opinião pública “intoxicada” por quem pouco sabe do setor e que se move por interesses de popularidade, utilizando meios que lhe são colocados ao dispor de forma desproporcionada. Na realidade hoje não somos muitos, mas somos muito importantes para uma população cada vez maior. Por outro lado vamos “manter os pés na terra” e os problemas das diferentes áreas de produção, as suas soluções as suas tendências também vão estar em cima da mesa. Esperamos por si em setembro em Valada do Ribatejo. pub.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
Tiago Brito Agrotejo
Vespa asiática – uma ameaça cada vez mais real
122
| A vespa velutina ou vulgarmente designada por vespa asiática é uma espécie de vespa proveniente de regiões tropicais e subtropicais do norte da India, do leste da China, da Indochina e do arquipélago da Indonésia. Entrou na Europa em 2004, em França, possivelmente através de um carregamento marítimo proveniente da China. A sua proliferação foi relativamente rápida tendo avançado para os países vizinhos. A vespa velutina terá chegado a Portugal em 2011, tendo entrado pela zona da Galiza – Espanha, em Viana do Castelo, e encontra-se de ano para ano a conquistar novas zonas do país, de Norte para Sul. Os dados mais recentes mostram que terá chegado ao território do Médio Tejo existindo vários avistamentos de vespas e ninhos. No passado mês foram, inclusivamente, identificados ninhos na região de Lisboa. O seu tamanho é maior do que a vespa comum, possuindo cabeça preta com face laranja ou amarelada. O corpo é castanho-escuro ou mesmo preto com um segmento no abdómen amarelo-alaranjado na parte dorsal. As asas são escuras e as patas têm uma tonalidade castanha com as extremidades amarelas. Muitas vezes é confundida com a vespa europeia não só pelo seu tamanho, mas também pelo formato e tamanho dos ninhos. Os ninhos das vespas velutinas possuem dois tamanhos. A partir de janeiro/fevereiro a rainha fundadora começa a construir um ninho primário. Este ninho tem aproximadamente o tamanho de duas bolas de ténis – cinco a dez centímetros de diâmetro – e contêm a rainha e dezenas de vespas obreiras. Durante a primavera, o ninho
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
Devido ao crescimento exponencial da comunidade de vespas, a sua maior atividade de predação ocorre neste período até ao início do outono.
começa a crescer em número de obreiras, sendo o ninho primário abandonado e construído um ninho secundário, que normalmente próximo do primário. Este ninho secundário é definitivo e bastante maior que o anterior, apresentando uma forma redonda ou em pera, podendo atingir cerca de 50 a 80 cm de diâmetro. Por norma estes ninhos encontram-se por norma a mais de dez metros de altura no topo de árvores. Devido ao crescimento exponencial da comunidade de vespas, a sua maior atividade de predação ocorre neste período até ao início do outono. Este período pode ser mais alongado caso haja temperaturas amenas durante o outono. Ainda no princípio do outono dá-se a fecundação das futuras rainhas (rainhas fundadoras) e, quando as temperaturas começam a decrescer (outubro/novembro), estas rainhas iniciam a sua hibernação no solo. Cada ninho secundário poderá gerar 150 novas rainhas que após hibernação e na primavera seguinte irão gerar 150 novos ninhos. Estas vespas são uma espécie predadora essencialmente de abelhas e outros insetos polinizadores, tendo implicações não só para a apicultura, mas também para a agricultura em geral. Além destes efeitos pode igualmente ter consequências em termos de saúde pública. Embora não se tratando de uma espécie de vespas mais agressivas do que as comuns, são altamente agressivas quando se sentem ameaçadas ou se sentirem o ninho ameaçado, podendo realizar perseguições de várias centenas de metros. Desta forma é importante que, se algum exemplar for avistado ou se algum ninho for identificado, sejam informadas as autoridades competentes. Esta comunicação pode ser realizada através do contacto direto com a Proteção Civil local, Junta de Freguesia ou a GNR através do número SOS Ambiente e Território (808 200 520). Pode ainda fazer o registo de avistamentos de espécies ou ninhos através do site www.sosvespa.pt Em caso algum deverá tentar destruir os ninhos identificados pelos próprios meios. Isto porque além de poder ser altamente perigoso para a sua integridade física, a incorreta destruição poderá significar o desdobramento de um ninho em vários, o que levará à maior propagação da vespa no território.
NOV19 www.agrotejo.pt em foco
Sobre a Floresta
Francisco Gomes da Silva
124
Professor no Instituto Superior de Agronomia
|S OBRE
O “QUANTO DE CADA UM DE NÓS” É FLORESTA
Qual a verdadeira dimensão da importância das florestas para o nosso país? Esta questão tem sido colocada vezes sem conta a diversos atores e, com variantes menores, é respondida de forma unânime no seu sentido – a floresta é muito importante, da maior importância, para o nosso país. No entanto, a coberto desta importância unânime, escondem-se por vezes perspetivas e opiniões nem sempre convergentes. Há pouco tempo, alguém me dirigiu esta pergunta de uma forma diferente, permitindo-me fugir à resposta do costume: quanto de nós, portugueses, é floresta? Faça-se o exercício simples de avaliar em quantos momentos do dia cada um se pode gabar de estar a mais de dez metros de pelo menos um “produto/servi-
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
Por solicitação da AGROTEJO procuro, neste texto, refletir sobre alguns aspetos relacionados com a questão florestal em Portugal. Não é uma reflexão exaustiva nem de pormenor, pretendendo apenas contribuir para a discussão, eventualmente inútil, de algumas das dimensões que emergem quando falamos de floresta.
ço” proveniente, em parte ou no seu todo, da floresta. Para referir apenas exemplos de algumas das “exposições à floresta” a que todos estamos sujeitos: a remoção de CO2 e a produção de oxigénio no ar que respiramos, os materiais de construção (estruturais ou de revestimento), o mobiliário de casa ou do escritório, os livros e os jornais e revistas que nos rodeiam, o papel onde escrevemos e onde ainda arquivamos, muitas (e cada vez mais) das embalagens de que usufruímos, as árvores à beira das estradas ou das linhas de caminho-de-ferro que percorremos, as garrafas rolhadas com cortiça em exposição nos cafés e restaurantes onde paramos, alguns dos tecidos que utilizamos, alguns adereços com que nos enfeitamos – tudo isto é floresta. Esta lista, a que muitas outras coisas poderiam ser acrescentadas, seria já de si moti-
NOV19 www.agrotejo.pt em foco
Faça-se o exercício simples de avaliar em quantos momentos do dia cada um se pode gabar de estar a mais de dez metros de pelo menos um “produto/ serviço” proveniente, em parte ou no seu todo, da floresta.
–p orque as fileiras de base florestal originam cerca de 70 mil empregos diretos e cerca de 25 mil indiretos. E o dizer do pin na lapela alterar-se-ia para “somos mais floresta”. E a história não se fica por aqui. Somos ainda muito mais floresta pelo papel insubstituível que ela desempenha na proteção e recuperação dos nossos solos, na regulação do regime hidrológico (através da correção do regime torrencial, promovendo a infiltração, limitando a erosão e protegendo linhas de água), na promoção e preservação de habitats e da biodiversidade, na construção de paisagens mais ou menos complexas e de espaços de lazer e recreio. Continuamos a ser floresta também porque, em cada português, há um perito florestal de serviço pelo menos três a quatro meses por ano, enquanto duram os incêndios, que enchem os espaços da comunicação e das nossas preocupações enquanto sociedade: são os exóticos eucalipto e pinheiro contra as espécies autóctones sob o olhar atento das espécies invasoras, são os interesses mais ou menos ocultos que estragam a “nossa” floresta, é a ciência contra o “achismo” conveniente, são as “árvores-bombeiras” e as “cabras-sapadouras”, é o “pinhal de Leiria” reconvertido em montado… E dificilmente conseguiríamos terminar esta lista. Permito-me ainda realçar, pela atualidade do tema e para terminar, o papel insubstituível da floresta no sequestro de carbono, numa economia que pretende caminhar no sentido da sua neutralidade carbónica. Neste domínio, hoje em dia “somos todos 100% floresta”.
vo para nos levar a todos a andar com um “pin” na lapela que dissesse “eu sou floresta”. Mas somos mais floresta do que esta lista indicia. Somos mais floresta: – porque ela ocupa cerca de 3,2 milhões de hectares do nosso território (36% da superfície total); – porque a partir dela são anualmente produzidos mais de dez mil milhões de euros de valor acrescentado bruto, correspondendo a cerca de 13% do VAB industrial e a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional; – porque dela resulta um saldo anual da balança comercial (de matérias-primas e produtos transformados) positivo de 2,6 mil milhões de euros, em que as exportações representam mais de 10% no total das exportações nacionais;
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
125
NOV19 www.agrotejo.pt em foco
126
No que acima ficou escrito encontramos, de forma desarrumada, constituintes das três grandes dimensões usualmente utilizadas na descrição da importância da floresta: a economia, o ambiente e a sociedade. Prometo que, da próxima vez, torno a arrumar tudo de acordo com os cânones!
SOBRE FLORESTA E ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO – É A ECONOMIA, ESTÚPIDO! Ao refletir sobre a questão florestal em Portugal, cada vez é mais evidente que, além das três dimensões atrás referidas (os pilares da sustentabilidade), há uma quarta dimensão que se vem autonomizando: a dimensão do ordenamento do território, indissociável da coesão que se pretende para o território nacional. De facto a floresta é, para o bem e para o mal, um elemento estrutural no ordenamento do nosso território, pelo simples facto de uma parte muito significativa desse território estar ocupado por floresta. Esta é, aliás, a dimensão mais convocada para as discussões públicas em épocas de incêndios e no seu rescaldo. Como garantir que temos a “floresta certa” no lugar certo, sabendo que “o ótimo é inimigo do bom”? Certamente enviesado pela minha formação de base, penso que esta questão só
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
De facto a floresta é, para o bem e para o mal, um elemento estrutural no ordenamento do nosso território, pelo simples facto de uma parte muito significativa desse território estar ocupado por floresta.
pode ser resolvida através da economia, devidamente apoiada por legislação inteligente. Ora, aquilo que temos nos nossos tempos, é a “ausência de economia” em grande parte do território e uma tendência legislativa no mínimo pouco inteligente. Nesta matéria, como noutras, é preciso ter muito presente que a Floresta em Portugal é privada. Goste-se ou não deste facto, é assim e é determinante ter em devida conta que assim é. As decisões que têm guiado os seus proprietários sobre “o que fazer” e “como o fazer” têm sido sempre profundamente racionais de um ponto de vista económico: se existem opções com rentabilidade (ou utilidade) apercebida, essas são as escolhas que prevalecem. Se não existem (por questões de localização, de falta de escala, de falta de acesso aos mercados e à tecnologia, ou outras quaisquer), ou se o risco a elas associado é demasiado elevado, o “abandono” é a opção certa. E este simples princípio explica o ordenamento do território que temos. A par desta “falta de economia”, e já retomaremos este ponto, o grosso da legislação que se tem produzido sobre a matéria é pouco inteligente. E porquê? Porque, além das boas intenções do legislador, a legislação redunda quase sempre numa de duas coisas: ou na restrição do acesso a algumas opções tidas como rentáveis (menos economia, portanto), ou no aumento dos custos sobre economias já de si inexistentes. É caso para dizer, certamente com algumas exceções, que se vai juntando a fome à vontade de comer. Como endereçar, então, o problema de forma a estimular soluções eficazes no território? Do meu ponto de vista, por três vias, alcançáveis através de políticas públicas articuladas e inteligentes: – em primeiro lugar evitando que, por via legislativa, se “proíbam” as atividades que apresentam competitividade no enquadramento económico existente; – em segundo lugar estimulando as atividades, muitas delas de base florestal, em torno das quais existe um mercado que funciona, mas que tende a remunerar de forma insuficiente os recursos envolvidos; trata-se pois de viabilizar, através de apoios públicos, atividades que, de per si, não são viáveis apesar do mercado existente; – em terceiro lugar, o Estado tem que assumir, de forma clara e desavergonhada, o seu papel de “gestor das falhas de mercado”
NOV19 www.agrotejo.pt em foco
competências políticas em matéria florestal no ICNF deixou de estar sob a alçada do Ministério da Agricultura, passando em exclusividade para o Ministério do Ambiente. Ou seja, num momento em que cada vez é mais consensual em Portugal que a “política florestal” deve estar crescentemente ligada à “política agrícola e de desenvolvimento rural” (pois a generalidade dos atores são os mesmos), parte-se para um experimentalismo político e administrativo que só pode ser lido à luz de uma qualquer cedência da nossa política caseira. Note-se que na reunião de Outubro do Conselho Agrícola, onde ainda marcou presença o ex-ministro Luís Capoulas Santos, um dos pontos essenciais em discussão foi a questão florestal. É o que temos.
SOBRE FLORESTA E O PRÓXIMO QUADRO COMUNITÁRIO
128
quando estamos em presença de atividades geradoras de “bens públicos”; isto é, compete ao Estado, em defesa de um conjunto de “valores” que a sociedade preza, remunerar devidamente os fatores necessários para a sua “produção”. Não tenho muitas dúvidas que, em vastas áreas do território nacional, que correspondem estatisticamente a “espaços florestais”, é este último foco que deve prevalecer.
SOBRE FLORESTA, DESCENTRALIZAÇÃO DE COMPETÊNCIAS E TUTELA POLÍTICA Assistimos, ao longo dos últimos anos, à transferência de competências florestais para as Autarquias, para as Comunidades Intermunicipais e, mais recentemente, para as CCDR. Atrevo-me a dizer, com o risco de chocar mentes mais sensíveis ou mais modernas, que Portugal está cada vez mais longe de ter uma Política Florestal de âmbito nacional. E isso é mau? No meu entender, sim. É possível que esta minha leitura seja uma leitura “de velho do Restelo”, mas é a que tenho: vamos passar a ter um sem número de opções de política, desconexas e avulsa, que não auguram nada de bom para a floresta. Acresce que, e pela primeira vez desde há muitos anos (desde sempre?), o que restava de
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
Nesta futura-nova-PAC tudo aponta para que as florestas ganhem um protagonismo crescente, nomeadamente pelo contributo que, se bem geridas, podem dar para o alcançar de algumas metas políticas centradas na qualidade dos recursos naturais, no ambiente e no clima.
Estamos em plena discussão do próximo quadro comunitário de apoio e, com ele, da nova Política Agrícola Comum. Nesta futura-nova-PAC tudo aponta para que as florestas ganhem um protagonismo crescente, nomeadamente pelo contributo que, se bem geridas, podem dar para o alcançar de algumas metas políticas centradas na qualidade dos recursos naturais, no ambiente e no clima. Não tenho dúvida de que este próximo quadro poderá vira a constituir, com um conjunto de instrumentos mais integradores dos espaços florestais (no âmbito das soluções a encontrar para os eco-esquemas do primeiro pilar e das medidas de caráter ambiental do segundo pilar), uma oportunidade interessante para a floresta em Portugal. No entanto, e para que tal aconteça, é necessário que a negociação em curso, pela parte portuguesa, o queira e que o consiga. A desagregação das competências “tradicionais” do Ministério da Agricultura e a sua afetação a diferentes responsáveis políticos não aponta, a meu ver, para que essa integração de políticas venha a ser uma realidade. Se no território os proprietários florestais se “confundem”, na maioria das vezes, com os agricultores e as soluções para alguns dos problemas associados à “desertificação” desse território passam por tentar reaproximar estas duas atividades económicas, parece-me pouco inteligente que a nível político de segreguem as responsabilidades pelo desenho dos instrumentos das políticas públicas que poderão apoiar essa aproximação. Esperemos para ver.
NOV19 www.agrotejo.pt em foco
AGIF: Escutar os territórios e promover a boa governança de todos os intervenientes
130
Sara Pelicano
Qualificar os intervenientes, a sua capacitação técnica, a forma como o sistema se governa, atuar em proximidade às populações, prevenir e informaR. Assim se sumaria a atividade da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais. Criada após um ano trágico de incêndios em Portugal, 2017, esta entidade chega assente em dois pilares: A proteção do território, pessoas e bens e a ação direcionada para o fogo em espaço rural. Sobre tudo isto falÁmos com Paulo José Mateus, vogal do Conselho Diretivo da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (Agif).
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
JORNALISTA
| O ano de 2017 foi trágico na já longa história dos incêndios rurais em Portugal. Há dois anos, de acordo com dados da Pordata, arderam perto de 540 mil hectares, quando somados os povoamentos agrícolas, florestais e matos. Mais de cem pessoas perderam a vida em consequência direta dos incêndios. Estes extrapolaram o quadro rural, assumindo contornos de incêndios urbanos. Em em 2018, o Governo avança com o diploma que cria a Agência para a Gestão Integrada dos Fogos Rurais (AGIF), entidade que passa a ter competências ao nível do planeamento, da integração e interação entre entidades envolvidas, como a Autoridade Nacional de Proteção Civil, a Guarda Nacional Republicana, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, assim
NOV19 www.agrotejo.pt em foco
como outras entidades privadas, como é o caso dos produtores florestais. Uma entidade que visa vencer as debilidades no sistema de combate aos incêndios, nomeadamente as que se prendem com a qualificação dos atores, a sua capacitação técnica, a própria forma como o sistema se governa, a proximidade às populações, a prevenção e a informação. Na prática a AGIF, ainda em processo de instalação, assegura a implementação e a governança do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR), à escala nacional, intermunicipal e municipal. Isto com uma missão assente em dois pilares, a proteção do território, pessoas e bens dos incêndios rurais e a ação direcionada para o fogo em espaço rural. Num plano mais abrangente, este Sistema pretende valorizar a floresta, a prevenção de incêndios e a valorização dos territórios do interior do país, assim como cuidar dos espaços; modificar comportamentos e gerir de forma eficiente o risco. Uma missão transversal, de ligação e de grande abrangência que Paulo José Mateus, vogal do Conselho Diretivo da AGIF sintetiza: “É uma entidade muito recente, criada em janeiro de 2019. A AGIF nasceu na dependência do primeiro-ministro. O seu foco principal passa por suportar todas as entidades de forma a evitar que se repita o que aconteceu em 2017. Tem uma missão que inclui o planeamento, a coordenação e a avaliação estratégicas de todo um Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais. É um sistema que está também a ser criado, consubstanciado na resolução 157/A do Conselho de Ministros, com duas linhas de ação fundamentais, uma direcionada para a proteção de pessoas e bens e outra direcionada para o fogo em espaço rural, na floresta”. A propósito destes dois pilares, Paulo Mateus, sublinha que “há a necessidade de equilibrar os pratos na balança. Porque se só olharmos para a componente proteção civil, toda a outra área, que é a raíz do problema, relacionada com a paisagem e com o espaço rural, estaremos a deixar essa outra vertente mais debilitada. Esta missão da Agência é conseguida através da integração das políticas públicas, sejam elas as do Ambiente, da Agricultura, da Proteção Civil ou do Turismo”. Desta forma, a AGIF vem injetar conhecimento no Sistema. “A falta de conhecimento do Sistema é um problema muito vincado nos relatórios das comissões. Há que capacitar os agentes que
Tem uma missão que inclui o planeamento, a coordenação e a avaliação estratégicas de todo um Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais.
estão do lado da proteção civil, assim como os que estão no setor agrícola. E, aqui, incluo também as questões do pastoreio. Todas elas são atividades que carecem de qualificação”. Olhar para a Agência para a Gestão Integrada dos Fogos Rurais implica um entendimento “em sentido lato. No fundo, o que isto traduz é que as atividades na paisagem têm de ser integradas de forma a minimizarmos os riscos de incêndio. Essa gestão integrada prende-se com o cuidar do território, o controlo das ignições, as campanhas de sensibilização e a forma como os agentes interagem uns com os outros. No fundo, há que agregar tudo aquilo que tem influência no território. Diria que é absolutamente essencial essa minimização do risco acontecer com a valorização da economia”, sublinha o vogal do Conselho Diretivo da AGIF. Na prática, como pode esta gestão integrada prevenir e simultaneamente capacitar os territórios? De acordo com Paulo Mateus, “a floresta é de todos. As pessoas vivem nos territórios, são detentoras do espaço. Por exemplo, junto dos proprietários, temos de perceber quais são as vontades, as suas expectativas. Mesmo aqueles que estão fora têm uma expectativa para o seu território. Depois há que aproveitar as boas iniciativas que vão existindo nos territórios, acompanhá-las, acarinhá-las, para que se possam expandir”. Para o responsável da AGIF, “a transformação tem de se fazer de dentro para fora. As imposições que chegam de cima, sem ter em conta as especificidades dos territórios, normalmente não funcionam. Naturalmente que o Estado perante estas vontades o que tem de fazer é facilitar, perceber os caminhos e suportá-los”.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
131
NOV19 www.agrotejo.pt em foco
132
UMA GESTÃO INTEGRADA E EM DIÁLOGO Um diálogo que levará “ao incremento da gestão dos territórios. Quando falo na gestão, não me refiro apenas à atividade florestal, mas também à agricultura, à pastorícia, às atividades relacionadas com o recreio. O Estado deve alavancar essas dinâmicas. Há territórios neste momento que estão muito ligados à água, com as suas barragens e todo um conjunto de atividades a elas associadas que é preciso harmonizar. Depois, há todo um espaço rural que deverá estar devidamente compartimentado para não termos no futuro as continuidades de combustível que alimentaram os grandes fogos. Pode dizer-se que há muitos territórios que estão abandonados, que não há gente. Mas continua a estar lá gente. Mais, temos inúmeros exemplos mundo fora de territórios onde não há gente e são bem geridos”. A propósito das continuidades de combustível florestal e das monoculturas de espub.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
há todo um espaço rural que deverá estar devidamente compartimentado para não termos no futuro as continuidades de combustível que alimentaram os grandes fogos.
pécies como o eucalipto e o pinheiro bravo, Paulo Mateus, não obstante sublinhar que “essas matérias estão na alçada do instituto de gestão das florestas”, dá-nos a sua perspetiva pessoal: “Não é a espécie que se torna perniciosa é a forma como a usamos. Dou um exemplo, o milho. A sua cultura não tem nada de mal. O que pode ter, no caso concreto para os solos, é a forma como exploramos a cultura do milho, mais ou menos intensiva. Do ponto de vista dos incêndios, o facto de termos grandes manchas florestais, sobretudo com pouca gestão, independentemente de serem o eucalipto ou o pinheiro bravo, o problema está na forma como fazemos essa gestão. Esta é que tem de ser alterada. Tem de ser vista numa lógica de ruralidade. Temos de compatibilizar e diversificar atividades que permitam fazer o comportamento racional do espaço, sem uma floresta contínua, com combustível que favoreça a redução dos incêndios. Agora, ter o espaço compartimentado com matos, se eles não forem bem geridos, por exemplo, com a pastorícia, não vai resolver o problema. Sobre a atividade da AGIF neste ano de 2019, Paulo Mateus refere que “com as entidades do sistema [Autoridade Nacional de Proteção Civil, a Guarda Nacional Republicana, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas], assim como o Exército, o IPMA, a Polícia Judiciária, os bombeiros, bem como as esferas privadas, como os produtores florestais, em suma uma multiplicidade de entidades, foi elaborada a proposta do Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais, que vai entrar em consulta pública e nele estão plasmadas as questões que já referi. Um plano que agrega tudo aquilo que é a proteção de pessoas e bens, assim como a gestão de incêndios rurais. Contudo, não se substitui a uma estratégia nacional para a floresta nem aos planos diretores municipais para ordenamento florestal”.
NOV19 www.agrotejo.pt em foco
As câmaras municipais e a gestão do território florestal
134
Sara Pelicano
| Golegã e Mação são duas realidades distintas, se por um lado no primeiro a floresta tem pouca expressão, ocupando apenas 8% da área agrícola, por outro, em Mação ocupa lugar predominante (80% do território). José Veiga Maltez, presidente da Câmara Municipal da Golegã, diz que “a nível nacional, é lamentável, sabermos, que o nosso país, face à Europa, seja o único, onde se tem constatado uma redução da área florestal, sendo urgente inverter esta situação. A demagogia e a desinformação, sobretudo sobre a floresta industrial, concorrem para comprometerem e adiarem uma atividade económica importantíssima para Portugal, além de porem em risco o combate à erosão nos terrenos, o seu bom aproveitamento da pluviosidade, além de algumas características ideais e necessárias, que se vão esvanecendo, como a pureza do ar e o seu grau higrométrico. Infelizmente, sobre a floresta em Portugal, os decisores têm sido politicamente corretos, mas politicamente irresponsáveis, contribuindo, assim, também, para um ‘interior’ mais desertificado, limitando-se a proferirem palavras vãs, que não promovem produtores, empresários,
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
JORNALISTA
A floresta é parte importante do território de muitas autarquias nacionais, sobretudo na região centro do país. Falámos com os autarcas de Golegã e Mação que nos dão a sua visão sobre o património florestal.
prestadores de serviços, enfim, postos de trabalho. São incapazes de ‘pegar o touro pela cara’, livrando-se da responsabilidade, que não outra, a de discutirem a vertente florestal, com isenção, seriedade e credibilidade. Mantêm-se no ‘limbo’, numa atitude amorfa, que irá comprometer muitos dos valores económicos, ambientais e sociais das próximas gerações”. Quanto ao Ordenamento do Território, José Veiga Maltez recorda que “só recentemente se começou a compreender a diferença entre urbanidade e ruralidade, já que há poucas décadas, muitos dos planeamentos sobre o território, eram precipitados, não potencializando o que existia, além de não preservarem os recursos, que hoje todos aceitam serem limitados. Um território, que se foi ordenando per si, por uma plataforma naturalmente sustentada, pelo tipo de economia de então, que ao longo da segunda metade do último século começou a ser desordenado por transformações socioeconómicas e pela tecnologia, desprezando, ainda, as características identitárias e culturais de cada espaço, de cada região, em muitos casos. Também aqui, os decisores políticos, há pouco mais de quatro
NOV19 www.agrotejo.pt em foco
décadas atrás, não conheciam com profundeza o alvo das suas propostas e intervenções”. O ordenamento do território é uma das vertentes que o levam a defender a regionalização “como processo na resolução de questões estruturantes, que deveriam deixar de ser efetuadas pela Administração Central, sustentada, entre outros, por um deputado que vive nas Beiras e é cabeça de lista no Algarve ou por outro que sempre viveu nos Açores elegendo-se para encabeçar uma candidatura de uma cidade de Trás-os-Montes. Neste País, nomeadamente no que tange ao ordenamento do território, terá, cada vez mais, de existir uma cumplicidade entre quem decide e quem vive no terreno, enfim, uma responsabilidade mútua. E um eficaz ordenamento do território, que Portugal merece, só pode ser conseguido através de uma relação de proximidade e de respeito pela génese de cada comunidade”.
“a nível nacional, é lamentável, sabermos, que o nosso país, face à Europa, seja o único, onde se tem constatado uma redução da área florestal (...)”
URGE A GESTÃO ADEQUADA O presidente da Câmara Municipal de Mação, Vasco Estrela, recorda como no final de 1980, início da década de 1990, a floresta dava um forte contributo económico para a região. Mas hoje a realidade é bem diferente e o autarca recorda que urge ter uma gestão adequada deste território. “É fundamental haver uma devida gestão da floresta, sob pena de tornar todo o território ingerível. Aquilo que se tem vindo a verificar ao longo dos anos, e que infelizmente os incêndios vêm confirmar, é que sem a devida gestão da área florestal não há qualquer tipo de viabilidade na floresta”. O grande desafio é gerir agora um território com muitos proprietários, mas onde não há pessoas nem animais que fazem a manutenção do mesmo. “O concelho de Mação tem 80 mil prédios rústicos. Para gerir este território com esta imen-
“É fundamental haver uma devida gestão da floresta, sob pena de tornar todo o território ingerível.”
José veiga maltez
sidão, em que os proprietários não estão presentes no dia-a-dia para tomar decisões, torna-se importante fazer aquilo que temos defendido há muito tempo e que passa pela implementação efetiva de Zonas de Intervenção Florestal (ZIF)”. Deste modo, o autarca considera ainda que será possível ganhar escala porque, muitas vezes, tratam-se de pequenas parcelas de terra. Por fim, Vasco Estrela deixa um apelo: “É importante olharmos para estes territórios e perceber que aqui já não existem pessoas com força e capacidade, nomeadamente financeira, para fazer face a esta realidade de uma floresta e de um território desordenado e que se nada for feito serão pasto para incêndios ano após ano”.
Vasco Estrela
pub.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
135
NOV19 www.agrotejo.pt EMPRESA
A Vitacress e o Desafio da Sustentabilidade
136
Luís Mesquita Dias diretor-geral da Vitacress
Cada vez mais a agricultura e as florestas são vistas como essenciais para garantir a sustentabilidade do planeta pela sua capacidade de resgate de CO2 da atmosfera, eventualmente mais rápida e eficaz do que o sucesso que as economias têm em reduzir as suas emissões. | Ao mesmo tempo que isso acontece, a cadeia de valor cada vez coloca mais pressão sobre os produtores. Consumidores e retalhistas continuam apostados em reduzir preços reduzindo as margens da produção para níveis também eles “insustentáveis”. É assim difícil conjugar o aumento de custos a que as práticas de cultivo mais sustentáveis muitas vezes obrigam e os preços de
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
venda cada vez mais baixos que nos são exigidos. É difícil, mas não é impossível quando se acredita que não há alternativa e que o objetivo é não só meritório como sinónimo de sobrevivência da espécie. O impossível não existe e “o que tem que ser, tem muita força!” É assim que na Vitacress estamos empenhados em olhar para toda a nossa cadeia de valor, atuando energicamente em cada fase do processo. No Roteiro Nacional para a Neutralidade Carbónica, são cinco os pilares sobre os quais se deve essencialmente atuar: Energia, mobilidade, resíduos, práticas agrícolas e economia circular. Sendo o último muito abrangente e estando muitas vezes integrado nos primeiros, tentarei dar alguns exemplos do que estamos a fazer em cada um dos primeiros quatro. Quanto à energia, o estudo preliminar que fizemos da nossa pegada de carbono revelou que 65% dos GEE por nós emitidos provêm do consumo de eletricidade na unidade de embalamento e na rega das culturas sendo os restantes 35% resultantes da atividade logística inerente à operação. Centrámos assim os nossos esforços na redução de consumo de eletricidade através da colocação de painéis fotovoltaicos no edifício resultante da nova expansão que agora se prepara. Ao mesmo tempo, a crescente digitalização dos campos per-
mitirá otimização das regas com poupança de água e do inerente consumo de eletricidade. Quanto à mobilidade, estamos a trabalhar com os nossos operadores logísticos avaliando a possibilidade de utilização de reboques duplos, transportes combinados de retorno e partilha de transportes internacionais com outros produtores da região garantindo sempre que possível o uso de camiões completos. Quanto aos resíduos, trabalhamos intensamente com várias universidades em projetos colaborativos de conversão das folhas que resultam do desperdício de fábrica em produtos de alimentação humana e animal (Projeto MobFood) ou em conversão desses resíduos em energia reutilizável por nós próprios. Entretanto, os trabalhos de redução de material de embalagem procedem a bom ritmo. Quanto às práticas agrícolas, estamos a proceder ao alargamento da área por nós detida ou alugada facilitando as rotações e pousios, mas evitando neste caso deixar as terras desprotegidas, privilegiando a sua cobertura verde com culturas adequadas para o efeito como é o caso da mostarda caliente. Reservamos 10% da nossa área à promoção da biodiversidade, outros 10% à produção biológica e estamos em processo de conversão de convencional em biológico de mais 10% da área total. Com este conjunto de práticas e todas as outras que resultarão de projetos em curso com várias universidades de Norte a Sul do País temos a consciência de estar a prestar um bom serviço à economia local, ao ambiente e à legítima aspiração do acionista RAR em ter um retorno adequado do seu investimento, consolidando a presença e imagem que a marca Vitacress tem vindo a construir. Essa construção de marca é, em si própria, uma garantia importante para a sustentabilidade do negócio. Dela depende a fidelização dos consumidores com quotas de mercado em crescendo e o reconhecimento da diferenciação dos nossos produtos num setor em que essa diferenciação nem sempre é fácil, mas que um sólido e fundamentado reforço da marca ajuda a reconhecer.
NOV19 www.agrotejo.pt empresas
138
Efeitos de alterações climáticas na produção de milho grão na zona da Golegã Sandra Pires sandra@hidrosoph.com
Jorge Camões jorge@hidrosoph.com)
| A Agromais questionou a Hidrosoph sobre os possíveis impactos das alterações climáticas na zona da Golegã e esta é uma das respostas concretas que os dados nos oferecem. Se as alterações climáticas e os seus possíveis efeitos sob o nosso modo de vida interessam a todos, elas são um tema particularmente relevante para os agricultores uma vez que a sua atividade é muito dependente do clima. Os aumentos previstos da temperatura e a alta concentração de CO2 na atmosfera poderão traduzir-se em ganhos de produtividade, mas provavelmente terão que ser acompanhados de aumentos na disponibilidade de água e nutrientes. Mudanças
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
nos padrões do clima poderão implicar alterações nas espécies de infestantes, pragas e doenças a que as culturas estão sujeitas, bem como nos ciclos culturais. O aumento da frequência e severidade de fenómenos extremos como as secas e as inundações colocará desafios consideráveis à produção agrícola. A temperatura é o fator determinante para o desenvolvimento da cultura, quando a disponibilidade de água e nutrientes, a densidade de sementeira ou o número de horas de luz não modificam os seus efeitos. As consequências do aumento da temperatura dependem da gama de temperaturas ideal para o crescimento e reprodução da cultura. Se as temperaturas excederem o limite superior, observamos reduções da produtividade. Se estiverem abaixo do limite inferior, o desenvolvimento fenológico da cultura abranda. Como sabemos, o milho desenvolve-se de forma rápida quando
a temperatura é alta e de forma lenta quando a temperatura é baixa. Um período de tempo quente na Primavera leva a um desenvolvimento das plantas mais rápido que o normal, enquanto o tempo fresco durante a fase de enchimento do grão atrasa a data do ponto negro e a de colheita. A quantificação do “tempo quente” ou “tempo fresco” é feita através do cálculo do tempo térmico ou acumulação diária de calor, a que geralmente se chama de graus dia (GDD). Este índice, que para o milho pode ser determinado para a gama de temperaturas entre os 10ºC e os 30ºC, foi calculado com base diária para uma série meteorológica estimada de 44 anos. Os dados foram obtidos para a região da Golegã a partir do sistema Agri4Cast do Joint Research Centre (JRC) da Comissão Europeia. Este organismo, conhecido pelas suas publicações de previsões de colheita para as principais culturas dos
NOV19 www.agrotejo.pt empresas
Estados Membros, suporta o Programa Temático de Segurança Alimentar da União Europeia. Fornece também dados sobre o impacto das alterações climáticas na agricultura aos decisores da Política Agrícola Comum. Os dados de GDD diários foram divididos em duas séries de 22 anos (1975-1996 e 1997-2018), para as quais se calculou a média em cada dia do ano. O gráfico mostra as diferenças entre os valores médios diários das duas séries, onde o aumento de GDD diário da série de 1975-1996 para a série de 1997-2018 é representado a laranja e a redução é representada a azul. No período mais comum para a campanha de produção de milho grão, parece ser sobretudo na Primavera e no princípio do Outono que, nos últimos 22 anos, a cultura do milho acumulou mais GDD em relação ao período anterior. Os dados parecem indicar que as Primaveras têm sido mais quentes, tendo como consequência ciclos de produção do milho mais curtos (cerca de uma semana nos últimos 22 anos). Durante o Verão, altura em que a cultura acumula um maior número de GDD em cada dia, as diferenças parecem ser menores mas sem um padrão claro. No princípio do Outono, o maior número de GDD acumulados poderá influenciar a secagem do grão e provocar a antecipação das datas de colheita. No mesmo gráfico representámos os GDD diários para 2019 calculados a partir dos dados da temperatura registados na estação meteorológica da Agromais instalada na Golegã. É natural uma maior variabilidade, porque representa apenas um ano, mas de imediato ressalta à vista o facto
O Irristrat™ é, desde 2011, o mais completo sistema de apoio à decisão para a gestão da rega e monitorização das culturas. Desenhado para dar apoio às operações culturais com base em informação de valor obtida em tempo real, o Irristrat™ é uma ferramenta de fácil utilização e acesso simples. No Irristrat™, é possível aceder ao número de GDD calculados diariamente, ao acumulado de GDD para uma determinada fase do desenvolvimento fenológico da cultura e definir o número de GDD esperado para cada fase, de forma a alterar os parâmetros de gestão da rega em conformidade. [Agrotejo2019_GDDIS] – https://agri4cast.jrc.ec.europa.eu/DataPortal/
de o número de GDD diários durante o mês de Maio parecer ter sido em muitos dias superior aos valores médios obtidos nas duas séries, o que é compatível com esta tendência de aumento de GDD diários na Primavera. Para respostas a esta e outras questões relacionadas com os riscos das alterações climáticas na região da Golegã, é fundamental que os produtores contem com a academia e com as empresas de base tecnológica que operam na região. Os fenómenos extremos de temperatura e precipitação tendem a monopolizar a nossa atenção, mas também as alterações de fundo, silenciosas e pouco percetíveis à
escala da vida humana, podem impedir o bom desenvolvimento das culturas. É difícil contrariar os fenómenos extremos, mas novas variedades poderão ser adaptadas às alterações climáticas de fundo. Serão também necessárias alterações na tecnologia e práticas culturais que facilitem a adaptação dos produtores e dos sistemas de produção a estas alterações. Será ainda indispensável o fortalecimento da capacidade de adaptação dos agricultores, através de políticas e linhas de financiamento que promovam uma melhor gestão do solo, da água e da biodiversidade no contexto das alterações climáticas. pub.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
139
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
Alexandra Fernandes Agrotejo
Restolho – 7 anos de atividade
140
| Muito haverá ainda por fazer mas, é facto que, ao longo do tempo temos vindo a cumprir, com alguma distinção, os objetivos a que no ano de 2013 nos propusemos e que passam sobretudo por duas vertentes: – pela colheita no campo de produtos que de outra forma não teriam nenhuma valorização comercial pelos motivos conhecidos: calibre, pequenos cortes etc. – pela vertente “pedagógica” que, quer nas ações de divulgação em escolas e colheita no campo, faz sentir a todos os que participam no projeto, o quão complexa é a atividade agrícola e a quota parte de responsabilidade, que todos temos, enquanto consumidores, com as escolhas diárias que fazemos e que levam a que anualmente muitos produtos fiquem no campo. Se por um lado, as colheitas efetuadas nos permitem combater as perdas do sector agrícola por outro permitem-nos fazer chegar aos Bancos Alimentares da nossa área de inserção –Abrantes e Santarém – produtos hortícolas que não são habitualmente doados nas campanhas da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares que decorrem ao longo do ano, devido à sua maior perecibilidade. A “vertente pedagógica” é talvez para nós, que trabalhamos no sector e que acompanhamos este projeto diariamente, a que se torna mais gratificante. E porquê? Porque conseguimos de uma prática solidária, fazer entender que o que fica no campo não é muitas vezes por falta de qualidade, mas por questões que têm a ver AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
O projeto Restolho – Uma segunda colheita para que nada se perca! completa sete anos e o balanço é muito positivo.
com as características intrínsecas aos próprios produtos, tais como o calibre. Efetivamente, na natureza e na agricultura nem todos os produtos são prefeitos em cor, em tamanho e em forma como desejaríamos que fossem, porque há um sem número de fatores que não controlamos e que influem diretamente nessas características. E no campo os voluntários são sensíveis a esta questão, compreendem-na e transmitem a mensagem. São já mais de 4.500 voluntários que recebemos em campos Restolho! É também nestas ações que fazemos questão de fazer sentir que a atividade agrícola não é uma atividade que os avós ou algum familiar longínquo algures na sua árvore genealógica teve como atividade de tempo livre. A agricultura é a base da vivência de todos nós e há quem muitas vezes se esqueça disso. Os alimentos que são consumidos à refeição existem porque alguém semeou, tratou, regou e colheu… e isso é um facto indiscutível! Respeite-se essa atividade e todos os que nela trabalham. Mas muito há ainda a fazer… A Comissão Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar, de que o Restolho faz parte enquanto elemento do painel consultivo, tem vindo a desenvolver um excelente trabalho. Como objetivos a atingir: o diagnóstico, avaliação e monitorização da situação em Portugal, a identificação de boas práticas, sistematização de indicadores das várias medidas, envolvimento da sociedade civil, criação de uma plataforma eletrónica para a gestão interativa dos bens alimentares com risco de
NOV19 www.agrotejo.pt opinião
desperdício e propor medidas para a redução do desperdício alimentar relativamente aos vários sectores da cadeia agroalimentar.
RESTOLHO 2019 Foi sobretudo um ano de reorganização interna, de abreviar logísticas e transferência de competências (que passaram a estar sobre a alçada da Agromais) e estabelecimento de parcerias concretamente com o Município da Golegã, a quem agradecemos e que passa a efetuar os transportes dos alimentos para os Bancos Alimentares. Recebemos em campo a Escola Superior Agraria de Santarém, ATL Município da Golegã, Nielsen, Comitiva CDS-PP, Escola Alexandre Herculano de
São já mais de 4.500 voluntários que recebemos em campos Restolho!
Santarém, a Universidade Católica de Lisboa, Colégio Maristas de Carcavelos, grupo José de Mello. Até ao final do corrente ano iremos ainda receber a Escola Profissional de Torres Novas. Uma vez mais um agradecimento sentido, aos produtores que continuam a colaborar connosco nesta “aventura”. Em 2019: Hortícolas Casal da Avó, Sociedade Agrícola da Quinta da Labruja, Joaquim Antunes Barroso e Agro-Cartas. Não sendo esta a nossa principal função enquanto empresas (Agrotejo, Agromais e Plus) ou colaboradores, o Restolho tem crescido com a “carolice” de todos nós. Em jeito de balanço, ficam os números de sete anos de trabalho. pub.
141
NOV19 www.agrotejo.pt ATUALIDADES
Na Ovibeja, a pipoca foi solidária À semelhança do ano anterior, a Agromais e a Plus Alqueva realizaram a campanha da “Pipoca Solidária” na feira da Ovibeja. Nesta ação foram angariados 848.33 euros que reverteram na totalidade para o Banco Alimentar de Beja.
Agromais recebeu alunos do ISA
142
Golegã acolheu 1.º Encontro do Projeto WE FUTURE Nos dias 15 a 21 de julho, na Golegã decorreu o 1.º Encontro do Projeto WE FUTURE: youth transforming Europe. O projeto é financiado pelo Erasmus+, resultante de uma parceria entre o Graal (Portugal), a École Citoyenne (França) e o Centrul de Voluntariat Cluj-Napoca (Roménia). Neste encontro abordaram-se os objetivos do desenvolvimento sustentável, a problemática dos plásticos, a perda da biodiversidade e as alterações climáticas, entre vários outros temas. A Agromais deu ao encontro alguma doçura, contribuindo com pipocas, disponibilizadas para todos os participantes. O projeto WE FUTURE envolve jovens de três países: Portugal, França e Roménia que pretende potenciar o contributo desta camada da população na construção de sociedades mais igualitárias, inclusivas, solidárias e sustentáveis. No quadro deste projeto, prevê-se a realização de três encontros internacionais, de cinco dias cada, que serão espaços de reflexão e debate sobre temas como direitos humanos, justiça social, paz, diversidade, igualdade de género e sustentabilidade ambiental. O segundo encontro decorrerá em dezembro de 2019, em Toulouse, e o último, no verão de 2020, em Cluj-Napoca. Está ainda previsto que os 18 jovens participantes nestes Encontros desenvolvam iniciativas de sensibilização nas suas comunidades. Os objetivos deste projeto passam “pela valorização da diversidade cultural, religiosa e linguística, pelo desenvolvimento de um sentimento de pertença a uma Europa única e a uma humanidade comum. O aprofundamento da compreensão crítica e problematizadora dos desafios globais; aquisição de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores alinhados com o respeito pelos direitos humanos, pela justiça social, pela paz, pela diversidade, pela igualdade de género e pela sustentabilidade ambiental; e participação em processos colaborativos na procura de alternativas que contribuam para a superação de problemas coletivos, locais e globais”.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
A promoção do conhecimento é uma das preocupações da Agromais e, por isso, tem as suas portas abertas a quem quiser saber mais sobre o mundo rural e agrícola. Nesse sentido, recebeu 22 alunos do Instituto Superior de Agronomia (ISA), que durante um dia tiveram oportunidade de conhecer as operações do Universo Agromais. Os alunos foram recebidos pelo Diretor-geral, Jorge Neves, na sede da Agromais, em Riachos, onde puderam percorrer as instalações de receção, armazenagem e expedição do milho, bem como tomaram conhecimento do processo
de funcionamento da secagem do mesmo. Seguidamente, visitaram a Azinhaga e a Hortejo, para conhecerem as instalações de receção, armazenagem e embalamento do milho pipoca, cebola e batata. Para terminar os alunos visitaram alguns campos, no qual puderam observar algumas culturas, tais como, batata, milho, nogueiras e tomate convencional e outro em modo biológico. Ainda no campo, foi possível verem alguns sistemas de rega e equipamentos de monitorização da água no solo.
Agromais apoia os Bombeiros Voluntários Na Festa do Bodo a Agromais angariou 370 euros para os Bombeiros Voluntários da Golegã. Esta é mais uma iniciativa que cumpre com o nosso compromisso de responsabilidade social.
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
Rui Almeida diretor executivo da Consulai
O papel dos consultores na inovação interativa
144
| A Revolução Digital na agricultura é atualmente uma realidade, mas, no entanto, importa que os benefícios da digitalização estejam disponíveis e que tragam um real impacto na comunidade agrícola em geral. De facto, a digitalização representa uma enorme oportunidade para transformar dados em informação útil, tornando-se uma verdadeira ferramenta de apoio à decisão. Mas sabendo que no setor agrícola temos agricultores mais recetivos e adaptados a esta revolução, a maioria dos 12 milhões de agricultores da União Europeia precisará do apoio de técnicos e consultores de aconselhamento agrícola (advisors), para adotar diferentes tecnologias e tomar decisões adaptadas ao seu contexto agrícola específico. A realidade atual diz-nos que a velocidade do desenvolvimento de soluções tecnológicas e inovadoras está totalmente desfasada com a velocidade a que estas soluções são aplicadas e incorporadas, tanto na agricultura como na silvicultura, gerando indicadores dececionantes no que respeita ao impacto da inovação no tecido empresarial agrícola e florestal. E os advisors têm aqui um papel crucial!
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
RUI ALMEIDA
a digitalização representa uma enorme oportunidade para transformar dados em informação útil.
Um estudo recente realizado pelo SCAR-AKIS (Standing Committee of Agricultural Research on Agricultural Knowledge and Innovation Systems) procurou abordar o futuro dos serviços prestados pelos advisors, onde se recomenda que mais técnicos e consultores de aconselhamento agrícola estejam envolvidos em projetos de inovação interativa para estimular o diálogo entre agentes das diferentes fileiras do setor, e a implementação de resultados. Os advisors têm um impacto claro nas decisões dos agricultores e silvicultores e devem desempenhar um papel fundamental na ligação entre a academia e a aplicação do conhecimento. Enquanto o termo ‘aconselhamento’ até recentemente se referia apenas a uma determinada recomendação no contexto de transferência linear de conhecimento, recomenda-se neste estudo que os advisors devam também desenvolver as competências necessárias para assumir um papel mais interativo nos projetos de inovação – inovação interativa. E esta é uma transformação/ adaptação que tem vindo a ser desenvolvida pelos advisors em Portugal, tornando o seu papel cada vez mais complexo, mas também mais
NOV19 www.agrotejo.pt opinião
relevante. Um advisor é atualmente um agente de mudança, que reconhece as necessidades dos agricultores, entende as diferentes soluções inovadoras disponíveis e tem uma visão de toda a cadeia de valor. Num processo de inovação interativa, pode e deve ter um papel relevante em todas as suas fases: 1) Identifica necessidades ou oportunidades de inovação; 2) Promove o contacto e a interação com diferentes agentes que possam incorporar soluções e conhecimento; 3) Age como facilitador de inovação; 4) Desenvolve ações de disseminação e de transferência alargada de conhecimento. Neste contexto, foi identificada, por parte da Comissão Europeia, a necessidade de por um lado capacitar tecnicamente os advisors para que estejam aptos a compreender e a lidar com as novas soluções tecnológicas inovadoras disponíveis, e por outro de capacitá-los de competências sociais, explorando e melhorando as suas capacidades de gerar mudança em contexto de inovação, de influenciar positivamente a tomada de decisão dos agricultores e de promover o diálogo entre os diferentes agentes. Estas necessidades deram origem a dois projetos Europeus do Horizonte 2020, em que a Consulai é parceira, que pretendem responder a estes dois desafios: O projeto Europeu FAIRshare pretende contribuir de forma determinante para capacitar os técnicos e consultores de aconselhamento agrícola e suas organizações na utilização efetiva de ferramentas e serviços digitais atualmente disponíveis na Europa, potenciando a adoção das mesmas numa agricultura mais produtiva e sustentável. O projeto Europeu i2connect pretende desenvolver as competências dos advisors para a inovação interativa, identificando e partilhando casos de sucesso, ferramentas e métodos no contexto
Os advisors têm um impacto claro nas decisões dos agricultores e silvicultores.
Europeu, promovendo igualmente uma maior interação entre os advisors de toda a Europa. Estes projetos europeus pretendem melhorar e fortalecer o papel dos advisors na inovação interativa, dotando-os de competências técnicas ao nível da inovação e das soluções tecnológicas, mas também no que respeita à sua capacidade de promover a cooperação entre diferentes agentes para aumentar o impacto da inovação no nosso setor. São desafios complexos para os advisors, mas a verdade é que também eles terão de estar capacitados para responder à revolução digital, num contexto de inovação interativa. É um desafio que por certo será vencido. Nem que seja de forma também ela inovadora!
pub.
145
PERSISTENTE
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
Ana Paula Nunes COTHN
AgroInov, um projeto para transferência de boas práticas – Instituto Politécnico de Santarém/Escola Superior Agrária (IPS/ESA); – Instituto Politécnico de Castelo Branco / Escola Superior Agrária (IPCB / ESA); – Agrotejo – União Agrícola do Norte do Vale do Tejo. Esta parceria propôs um plano de ação de dois anos, durante o qual realizou workshops, publicações técnicas, promoveu roteiros de Inovação com elaboração de catálogos entre outras atividades que visam a divulgação de técnicas de produção otimizadas e práticas de conservação da biodiversidade, procurando inovar no setor agrícola e zonas rurais.
148
Oficina técnica de mecanização. Alcobaça, 2019
| O AgroInov, projeto no âmbito da medida 20.2.4 – Assistência técnica RRN – Área 4 (Observação da agricultura e dos territórios rurais) do PDR2020 propôs promover a participação e o trabalho entre os agentes do desenvolvimento rural e a transferência de boas práticas e novos conhecimentos. Assim, tem como objetivos: – Atualizar as necessidades de inovação; – Compilar a informação de resultados de projetos no setor hortofrutícola; – Transferir conhecimento ao setor através da realização de workshops e reuniões temáticas entre os diversos agentes e as entidades que detêm conhecimento da produção e divulgação de publicações técnicas; – E stabelecer redes entre parceiros através da criação de sessões de trabalho com entidades nacionais e internacionais que dispõem de inovação aplicada à realidade nacional, contribuindo para o desenvolvimento rural; –V alorizar a inovação e divulgar práticas promotoras de biodiversidade nas explorações agrícolas. Este projeto tem como parceiros: – C entro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional – Centro de Competências (COTHN-CC); – I nstituto Superior de Agronomia (ISA); AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
Cadernos técnicos realizados no âmbito do AgroInov
Seminário sobre o aranhiço vermelho em fruticultura. Alcobaça, 2019
Calendarização do Plano de Ação Data de início 2018-01-01 Data de conclusão 2019-12-31 Um outro aspeto muito importante deste projeto é a elaboração da Agenda de Investigação e Inovação para o setor hortofrutícola. Esta agenda está muito orientada com os objetivos da fileira hortofrutícola para os próximos dez anos e que passam essencialmente pelo equilíbrio da balança comercial, a criação de valor na fileira e o aumento do consumo das frutas e hortícolas nacionais e finalmente o aumento da sustentabilidade e competitividade da produção nacional num cenário de alterações climáticas. Nesta fase a agenda encontra-se a ser trabalhada pelo Conselho de Estratégia e Inovação do Centro de Competências (COTHN-CC) para a fileira hortofrutícola e deverá ser colocada a discussão publica durante o mês de novembro.
Colóquio sobre a Drosophila suzukii. Fundão, 2019
Colóquio Brexit: Impactos, desafios e oportunidades. FRUTITEC, Lisboa 2019
3.º Roteiro Inovação dedicado à fruticultura. Feira dos Frutos, Caldas da Rainha 2019
NOV19 www.agrotejo.pt OPINIÃO
António Lourenço
Agro Analítica | Antoniolourenco@agro-analitica.com
Porque não pensar a floresta como pensamos as outras culturas?
150
| Nos últimos anos, temos assistido ao aparecimento de um conjunto diversificado de novas ferramentas capazes de medir, registar e recolher dados, oferecendo uma análise cada vez mais precisa a quem toma decisões. Sendo estas ferramentas transversais a todas as culturas, estamos perante uma nova oportunidade para compreender os desafios da floresta. Os sistemas agroflorestais têm um papel de extrema importância no nosso território, quer seja pela diversificação do risco na exploração agrícola, pelo elevado peso económico que a floresta tem em algumas explorações extensivas, ou ainda pelo seu importante valor ambiental. Na floresta estamos perante novos desafios: a mortalidade e declínio do montado de sobro, a reduzida taxa de sucesso de adensamentos e instalação de novos povoamentos, o aparecimento de novos problemas fitossanitários, a diminuição da produtividade que se está a verificar a médio/ longo prazo e no aparecimento do regadio na floresta. E esta realidade coloca-nos novas questões. Será a chegada do regadio um sinal de que estamos a percorrer um caminho já desbravado nas restantes culturas agrícolas? Será necessário passar a olhar para os problemas com maior detalhe e precisão? Será mais seguro compreender melhor a variabilidade espacial que existe nas parcelas antes de investir? Será que existe margem para redução de custos? Através destes processos é possível perceber como se distribuem os sobreiros nas parcelas, quais são as condições mais favoráveis ao seu desenvolvimento, onde se localizam os sobreiros secos e quais os fatores que mais estão a contri-
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
Os sistemas agroflorestais têm um papel de extrema importância no nosso território, quer seja pela diversificação do risco na exploração.
buir para a sua mortalidade. Mas, acima de tudo, é possível criar um conjunto de dados que nos ajudam a perceber a dinâmica e distribuição espacial dos fatores limitantes das parcelas.
PORQUE É QUE NÃO SE INICIOU A ADOPÇÃO DESTES NOVOS PROCESSOS NO MONTADO DE SOBRO? Muitas vezes me pergunto porque ainda não se deu início a estas novas formas de atuar na floresta. Será pelo facto do horizonte temporal produtivo ser mais alargado? Será pelo facto de as margens serem mais reduzidas quando comparadas com outras culturas? Será pelo facto de os agricultores considerarem que o sistema é estável e que não permite uma resposta rápida? Será pela falta do retorno de investimento no curto prazo? Ao olhar para o cenário da floresta e para muitas questões dos agricultores, percebemos que há necessidade de respostas. Os constrangimentos na floresta aguçaram-nos a curiosidade para investigar as dinâmicas ao nível da exploração e para ir à procura de relações e interações de fatores capazes de explicar o que está a acontecer. Parece-me que agora se reúnem mais facilmente as condições para que se possam juntar os resultados da investigação com a dinâmica presente em cada exploração.
QUE ABORDAGEM UTILIZAMOS NA AGRO ANALÍTICA? No momento da plantação ou adensamento (regada ou não), é possível identificar exatamente as zonas das parcelas onde existem condições para adensar; as zonas onde muito provavel-
NOV19 www.agrotejo.pt opinião
mente não existem condições para a presença de sobreiros no longo prazo e, por fim, as zonas onde é possível corrigir algum fator limitante para assegurar o sucesso de um adensamento. Não só poupamos no investimento como temos maior certeza de que o valor aplicado tem uma maior taxa de sucesso. As aplicações podem ir da geolocalização de sobreiros secos, que conduz a uma marcação no campo mais célere (ficando o agricultor com a base de dados da localização das árvores cortadas em cada ano), à identificação de árvores com problemas fitossanitários, passando por correcções nutricionais do solo de uma forma mais precisa e eficiente, à criação de um sistema de informação geográfica da exploração e criação de indicadores em cada unidade de gestão. Nas grandes culturas agrícolas já se iniciou este processo em resposta a algumas adversidades com impacto na variabilidade espacial e temporal da produção agrícola, tais como as alterações climáticas, a volatilidade dos preços, o aparecimento de novas pragas e doenças e a diminuição de margens no negócio agrícola. Imaginando que um gestor florestal tem um orçamento anual para aplicar em adensamentos de sobro, corte de matos, podas e adubações, porque não perceber onde realmente se vai maximizar o retorno desses investimentos? Essa perceção possibilita que o gestor tenha na sua mão exactamente os indicadores que permitem gerir o sistema, perceber como evolui a sua exploração, criar métricas e compreender a evolução temporal do seu activo que é a floresta.
COMO É QUE TUDO ISTO SE PAGA A CURTO E LONGO PRAZO? ESTA ACABA POR SER A PERGUNTA-CHAVE Existe a noção generalizada de que, fazendo-se um investimento nestes processos, é depois di-
151
Só através da recolha de informação é possível começar a ter consciência do retorno deste processo –na recolha de dados topográficos e na dinâmica de fluxos de água.
fícil ou até mesmo impossível ir buscar retorno imediato na gestão operacional. Não é necessariamente verdade. O retorno ganha-se através da percepção do sistema e do seu funcionamento. Só através da recolha de informação é possível começar a ter consciência do retorno deste processo na recolha de dados topográficos e na dinâmica de fluxos de água, por exemplo, bem como na distribuição da textura e fertilidade do solo e na distribuição geográfica das árvores. A combinação destes factores e o estudo da interacção entre eles é a forma mais acertada de responder a estes desafios. Se podemos afirmar com certeza que é um enorme desafio compreender a floresta, podemos também garantir que há (cada vez mais) ferramentas à nossa disposição para nos ajudarem a fazê-lo. Mais que mãos: cabeças à obra! pub.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
NOV19 www.agrotejo.pt SABERES
Caminhos de Santiago Alentejo e Ribatejo – Um segredo bem guardado! António Ceia da Silva presidente do Turismo do Alentejo e Ribatejo
O Alentejo e o Ribatejo são terras de gentes, jeitos e paisagens únicas. O PERCURSO dos Caminhos de Santiago, que percorrem dezenas de quilómetros por esta região, salvaguardando a essência do itinerário religioso, histórico-cultural e dA natureza, é sobretudo um convite.
154
| Convite a uma viagem repleta de inúmeras surpresas e de mistérios prontos a ser desvendados; convite à descoberta de duas regiões que oferecem história e cultura, reveladas na sua gastronomia, na arte e na arquitetura; convite a explorar uma riqueza que se dá a conhecer nas marcas de um tempo que se preservou e de uma modernidade que lança as pontes para o futuro. Nos nossos Caminhos, desfrutamos de todos os seus recantos ao ritmo da natureza e temos a oportunidade de conhecer “um segredo bem guardado”, que atravessa dois territórios muito distintos. Diferem nos costumes e tradições, na forma de viver das gentes, na cor das paisagens, nas experiências que proporcionam. Mas ainda que diferentes, partilham uma genuinidade e singularidade que as tornam únicas e que as diferencia de todas as outras que ajudam a definir as fronteiras do País. AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
NOV19 www.agrotejo.pt SABERES
O VERDE DAS LEZÍRIAS As planícies tornam-se Lezíria no Ribatejo, com o verde a ocupar o espaço então dominado pelos dourados. Às Lezírias, juntam-se as charnecas, terras de arroz que o Tejo banha com maior intensidade, e os bairros, com os seus cereais cor de ouro. Os pastos são verdejantes, saciando a fome a rebanhos e servindo de palco às “danças” de manadas de toiros bravos e cavalos. Uma cultura marcada pelos trajes e pelas danças, como o fandango, que já se dançava no século XVIII por nobres e populares, nas festas e feiras, e que se baila ao som de acordeões, pífaros, gaitas-de-beiços, harmónios e clarinetes, tendo o campino como protagonista, com o seu colete vermelho e barrete verde. Do seu património fazem parte os azulejos, painéis de um colorido que esconde cinco séculos de história e embeleza exteriores e interiores; o pão saloio, o tomate e o arroz, ingredientes de uma gastronomia única, a arte da cestaria e o trabalho das madeiras para a tanoaria, que traduz a união com a natureza. Vindos de sul, quase a terminar o Caminho Central na nossa região, apresenta-se a Golegã, ponto de paragem obrigatório para quem atravessava o norte da lezíria ribatejana. Uma antiga tradição, admite que a origem da Golegã foi uma albergaria para viajantes e peregrinos, servida pela capela dedicada a Nossa Senhora da Albergaria. Terra de cavaleiros e cavalos, vale a pena conhecer o Centro Cultural Equuspolis, com a sua Biblioteca do Cavalo, o Fórum Manuel Fernandes, o Museu Municipal Mestre Martins Correia, a Casa-Estúdio José Relvas ou o maior ecossistema aquático representativo de zonas húmidas interiores, a Reserva da Biosfera do Paul do Boquilobo. Esta Reserva, de acordo com a estratégia da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo na promoção dos territórios e os seus valores enquanto destino de caminhadas, surge o percurso circular com cerca de 10km. O percurso de Mato de Miranda, está sinalizado no terreno em ambos os sentidos, em diversos suportes, e conta com um desnível acumulado de 134 metros e uma duração de três horas.
FESTAS, FEIRAS E ROMARIAS Os Caminhos de Santiago Alentejo e Ribatejo são mais do que uma viagem, são uma aventura que marca, que fica, e uma descoberta que se guarda.
O calendário das festas no Alentejo e Ribatejo é rico. Rico em animação, rico em música, rico em cor. Das ruas engalanadas para o efeito, decoradas a preceito, aos palcos montados para receber a música que não pode faltar, os Caminhos permitem que os visitantes conheçam as tradições festivas, que se apresentam de formas muito variadas e até surpreendentes, da festa total, que envolve e mobiliza a comunidade, como é bom exemplo a Feira do Cavalo, na Golegã, que remonta ao século XVIII, até 1972 conhecida como Feira de São Martinho,
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
155
NOV19 www.agrotejo.pt SABERES
156
data a partir da qual passou a Feira Nacional do Cavalo. Aqui, apresentam-se todos os criadores e transacionam-se os melhores puro-sangue lusitanos, vendidos para o mundo inteiro. A Golegã há muito que passou a ser a Capital do Cavalo e, aqui, em novembro, o peregrino tem a oportunidade de vivenciar este marcante evento, através de ralis, raids, jogos equestres e exibições, exemplares de um dos mais belos animais do mundo: o Cavalo!
A GASTRONOMIA REGIONAL A riqueza gastronómica de Alentejo e Ribatejo dispensa grandes preâmbulos.
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
Aqui, os adjetivos ficarão sempre aquém da experiência que se tem à mesa, incapazes de se erguer à altura dos sentimentos que a mesma proporciona. Porque a passagem por estas paragens inclui sempre uma outra viagem, a dos Sabores! À mesa, por tradição, não podem faltar o pão e vinho. Bons vinhos, e melhores pães, são uma certeza que acompanha o viajante, ou não fossem estas terras vitivinícolas. Por isso, nada melhor do que experimentar, erguer o copo e brindar ao Caminho! Por terras ribatejanas, a ementa não é escolha fácil. A começar pelas entradas, com o chouriço de carne assado na brasa, os enchidos de vinho, a morcela assada, a farinheira e os queijos de cabra, vaca e ovelha, mais ou menos curados, a conquistarem o paladar. Vem depois a Sopa da Pedra, agora sem a dita, ou a igualmente farta de Feijão com Couves, às quais se junta a Sopa de Peixe ou a Sopa de Cagarrinhas. Segue-se o Magusto com Bacalhau Assado ou a Fataça frita com açorda de tomate, as Enguias à Ribatejana, e a carne, o Naco de Boi, o Cabrito Assado, as Favas com Chouriço ou as Iscas com Elas. Percorrer estes Caminhos, esconde a promessa de uma aventura, de descobertas inusitadas, do desvendar de uma história que a memória preservou, uma história que se desenrola a cada paragem. É reviver essa história nas marcas que o passar do tempo não foi capaz de apagar, é transformar o viajante no espetador de uma narrativa que se conta no património material e imaterial, nas terras, vilas e curiosidades, na gastronomia, nas gentes e nos seus costumes. Os Caminhos de Santiago Alentejo e Ribatejo são mais do que uma viagem, são uma aventura que marca, que fica, e uma descoberta que se guarda. São uma experiência única que ultrapassa a vivência comum e nos transporta para o imaginário, para o convívio intergerações, com o próximo, e que, mais do que uma peregrinação, constitui um marco nas nossas vidas que jamais esqueceremos e que se quer repetir! Junte-se a Nós e faça os Caminhos de Santiago Alentejo e Ribatejo!
NOV19 www.agrotejo.pt SABERES
158
O cingeleiro de Riachos Mafalda Borralho da Luz António Júlio Pereira Jorge Associação para a Defesa do Património Histórico e Natural da Região de Riachos
Nas linhas seguintes, recorda-se o mundo rural, as suas gentes e tradições.
17 a 27 de Julho AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo
| Riachos sempre foi uma terra intimamente ligada à fertilidade dos campos que a envolvem. Desde que há memória, sempre foi uma terra de agricultores. A dois passos dos férteis campos de Golegã e da lezíria ribatejana, muito, graças à existência do rio Almonda e à proximidade do rio Tejo, mulheres e homens assalariados das grandes quintas e casais cultivaram todo o campo fértil da região (terras de aluvião) e até os solos menos produtivos, como são as terras da charneca. Mulheres e homens tinham como único meio de vida a faina do campo, trabalhando de sol a sol por conta dos grandes proprietários e lavradores. Muitos daqueles homens conduziam e procediam à lavragem e preparação das terras para as sementeiras com as juntas de bois dos seus patrões. Eram os chamados boieiros, um ofício considerado distinto pelos conhecimentos, experiência e muita perícia que a própria profissão exigia. Naturalmente, percebemos, que pela nobreza da profissão todos estes homens, que antes já tinham sido moços, ansiavam um dia ser cingeleiros. Isto é, ter a sua própria junta de bois. Por falta de informação escrita é difícil de precisar, concretamente, ou até mesmo aproximadamente, em que época da nossa história surge em Riachos a figura do Cin-
geleiro, ou tal designação, e a informação oral perdeu-se no tempo e não chegou aos nossos dias. No entanto, é facto histórico conhecido que, antes do reinado de D. Manuel I, ordenaram os Castros “…que se construam currais em Toxa1, junto do riacho2, pelo menos para vinte cingeis”. A construção dos currais para 20 cingeis3 implicou o advento de numerosos boieiros e seus familiares e surgiu mais um pequeno povoado: Currais do Riacho. Mais tarde Toxa e Currais do Riacho unem-se e formam uma única povoação denominada por Riacho. Cingel significa uma junta de bois, à qual, etimologicamente, a palavra cingeleiro está associada. Em documentos antigos, registos de casamento, nomeadamente, surge Cingeleiro com grafia diferente escrito com “S” em vez de “C” - Singeleiro - atualmente escreve-se Cingeleiro. O Cingeleiro já dos nossos dias, sabemos e podemos afirmar que, foi uma figura ímpar na estrutura social e económica de Riachos. Era ele que, antes da mecanização agrícola, amanhava os campos com a sua junta de bois da qual, obviamente, era proprietário, distinguindo-se, assim, do boieiro, pela posse dos animais, tratava-os como se fizessem parte da sua família dando-lhes um nome, ajeitava-os a seu modo, cuidava da sua saúde e alimentação como se de uma
NOV19 www.agrotejo.pt SABERES
159
autêntica preciosidade se tratasse, situando-se muitas vezes o palheiro dos bois, junto à sua habitação. Estes homens agricultores de Riachos, tinham caraterísticas muito próprias que se foram alicerçando ao longo dos tempos, influenciando a sociedade e cultura riachense e acima de tudo o tecido socioeconómico e a estrutura fundiária da propriedade. O agricultor riachense, tinha algumas geiras de terra suas ou arrendadas, onde desenvolvia a sua actividade agrícola. No entanto este homem laborioso alugava a sua força de trabalho, os seus bois e alfaias, aos donos de grandes quintas e propriedades de Riachos e da região circundante. Para complementar estes trabalhos, e a busca incessante de uma vida melhor, tentava rentabilizar ao máximo a sua junta, fazendo fretes: serviços de transporte de certas mercadorias e produtos agrícolas, como por exemplo, em determinada época relativamente distante, o transporte de casca de sobreiro da estação de Riachos para as fábricas de curtumes de Alcanena. Com o passar dos anos o Cingeleiro, não sendo inicialmente um grande proprietário, vai crescendo dando origem a Casas Agrícolas de grande dimensão, onde este passa a ser proprietário de várias juntas de bois, tendo boieiros e moços a trabalhar para si. O Cingeleiro torna-se assim um interessante caso de estudo, pela sua importância na economia agrícola da região, pela sua forma de trabalhar, de lidar e de tratar do boi de
mulheres e homens assalariados das grandes quintas e casais cultivaram todo o campo fértil da região
trabalho, envolvendo muitas vezes a sua família nesta dinâmica, entregando-se ao seu ofício com grande rigor e brio, sendo, por isso, muito respeitado pelos agricultores da região. O gado bovino foi durante sécu-
los preponderante para a atividade agrícola, que com o fenómeno do mutualismo, congregou criadores deste gado, na Sociedade dos Cingeleiros, da qual os primeiros estatutos conhecimentos são de 1921, perdendo-se na memória dos tempos a época da sua fundação. O objetivo desta sociedade mutualista era o “socorrer pecuniariamente os sócios quando morra algum boi”4. Agora em Riachos, terra que já foi calcorreada por tantas e tantas juntas de bois, só por ocasião da Festa da Bênção do Gado, voltam a ser vistas nas nossas ruas, estimando-se que a última junta a trabalhar em Riachos, tenha sido por volta do início do último quartel do século XX e o último homem Cingeleiro, faleceu em 2019 com 93 anos de idade. Face à importância desta figura, que é património histórico e cultural, o Museu Agrícola de Riachos, atribuiu à sua nave principal a designação de Sala do Cingeleiro, onde está reunido um riquíssimo espólio relacionado consigo, com o boi de trabalho e com toda a atividade agrícola por estes desenvolvida, e na rotunda à entrada da Vila de Riachos para quem vem do lado da Cidade sede do Concelho – Torres Novas, ergueu-se no ano 2001 um monumento ao Cingeleiro que evoca a conhecida e muito antiga Lenda do Senhor Jesus dos Lavradores. ______ Toxa – Pequena povoação já de certa importância riacho – Rio In Subsídios para a história de Riachos - Jornal “O Riachense” 8 de Abril de 1985 4 In Castelo Velho -Revista Nº 2 - Ed. ADPHNR, 2003 1 2 3
AGROTEJO união agrícola do norte do vale do tejo