POEMÁRIO POESIA E ALIMENTAÇÃO
“Ó subalimentados do sonho! A poesia é para comer.”
Natália Correia
MISCELÂNEA DE SABORES ÍNDICE
Eugénio de Andrade
Os Frutos
3
Amoras
3
Mário Henrique Leiria
A nêspera
4
Matilde Rosa Araújo
Jantarinho
5
Àlvaro de Campos
Dobrada à moda do Porto
6
Vinicius de Moraes
Feijoada à minha moda
7
Não comerei de alface a verde pétala
8
Ana Luísa Amaral
Ervilha
9
Leite - creme
10
Pablo Neruda
Ode à cebola
11
Isabel Allende
Devorando o mundo
12
Carlos Drummond de Andrade
País do Açúcar
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Vasco Graça Moura
Pois eu gosto de lombo e feijoada
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Frutos Pêssegos, peras, laranjas, morangos, cerejas, figos, maçãs, melão, melancia, ó música de meus sentidos, pura delícia da língua; deixai-me agora falar do fruto que me fascina, pelo sabor, pela cor, pelo aroma das sílabas: tangerina, tangerina.
Amoras O meu país sabe a amoras bravas no verão. Ninguém ignora que não é grande, nem inteligente, nem elegante o meu país, mas tem esta voz doce de quem acorda cedo para cantar nas silvas. Raramente falei do meu país, talvez nem goste dele, mas quando um amigo me traz amoras bravas os seus muros parecem-me brancos, reparo que também no meu país o céu é azul.
3
A nêspera Uma nêspera estava na cama deitada muito calada a ver o que acontecia
chegou a Velha e disse olha uma nêspera e zás comeu-a
é o que acontece às nêsperas que ficam deitadas caladas a esperar
4
Jantarinho
Maria fazia sopa Num tachinho de alumínio José estrelava os ovos Em frigideira de barro.
Abanava o abaninho O fogo que já ardia No brincar aos jantarinhos De José e de Maria.
- Onde está a hortelã? Perguntava-lhe a Maria - Está aqui ao pé da água O José lhe respondia
- Onde está o sal? Perguntava-lhe o José. - Numa caixinha de estrelas. Está mesmo aqui ao pé.
Abanava o abanico O fogo que já ardia No brincar aos jantarinhos De José e de Maria.
5
Dobrada à moda do Porto Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo, Serviram-me o amor como dobrada fria. Disse delicadamente ao missionário da cozinha Que a preferia quente, Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria. Impacientaram-se comigo. Nunca se pode ter razão, nem num restaurante. Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta, E vim passear para toda a rua. Quem sabe o que isto quer dizer? Eu não sei, e foi comigo… (Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim, Particular ou público, ou do vizinho. Sei muito bem que brincarmos era o dono dele. E que a tristeza é de hoje). Sei isso muitas vezes, Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram Dobrada à moda do Porto fria? Não é prato que se possa comer frio, Mas trouxeram-mo frio. Não me queixei, mas estava frio, Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
6
Feijoada à minha moda (excerto) Amiga Helena Sangirardi Conforme um dia eu prometi Onde, confesso que esqueci E embora - perdoe - tão tarde
(Melhor do que nunca!) este poeta Segundo manda a boa ética Envia-lhe a receita (poética) De sua feijoada completa. […]
Os elementos componentes De um saboroso refogado Tais: cebolas, tomates, dentes De alho - e o que mais for azado
Tudo picado desde cedo De feição a sempre evitar Qualquer contato mais... vulgar Às nossas nobres mãos de aedo
Enquanto nós, a dar uns toques No que não nos seja a contento Vigiaremos o cozimento Tomando o nosso uísque on the rocks.
Uma vez cozido o feijão (Umas quatro horas, fogo médio) Nós, bocejando o nosso tédio Nos chegaremos ao fogão […]
7
Não comerei da alface a verde pétala Não comerei da alface a verde pétala Nem da cenoura as hóstias desbotadas Deixarei as pastagens às manadas E a quem mais aprouver fazer dieta.
Cajus hei de chupar, mangas-espadas Talvez pouco elegantes para um poeta Mas pêras e maçãs, deixo-as ao esteta Que acredita no cromo das saladas.
Não nasci ruminante como os bois Nem como os coelhos, roedor; nasci Omnívoro; dêem-me feijão com arroz
E um bife, e um queijo forte, e parati E eu morrerei, feliz, do coração De ter vivido sem comer em vão.
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E descascar ervilhas ao ritmo de um verso
E descascar ervilhas ao ritmo de um verso: a prosódia da mão, a ervilha dançando em redondilha. Misturar ritmos em teia apertada: um vira bem marcado pelo jazz, pas de deux: eu, ervilha e mais ninguém
De vez em quando o salto: disco sound o vazio pós-moderno e sem sentido Ah! hedónica ervilha tão sozinha debaixo do fogão!
As irmãs recuperadas ainda em anos 20 o prazer da partilha: cebola, azeite blues desconcertantes, metamorfose em refogados rítmicos
(Debaixo do fogão só o silêncio frio)
9
Leite-Creme
Mostrar-te leite-creme é um prazer - e fácil: açúcar à colher, leite a ferver, em poalha a farinha e muito grácil.
Na cozinha, os teus olhos: duas chávenas meias de razão. As palavras totais e todas claras.
Não te posso, infinita, proteger, evitar-te fogão. Mentir-te sobre, às vezes, minha filha, a vida: um batedor sem varas.
Só deixar-te poalha de farinha: amor em Via-Láctea.
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Ode à cebola (excerto)
Luminosa redoma pétala a pétala cresceu a tua formosura escamas de cristal te acrescentaram e no segredo da terra escura se foi arredondando o teu ventre de orvalho. Sob a terra foi o milagre e quando apareceu o teu rude caule verde e nasceram as tuas folhas como espadas na horta, a terra acumulou o seu poderio mostrando a tua nua transparência, e como em Afrodite o mar remoto duplicou a magnólia levantando os seus seios, a terra assim te fez cebola clara como um planeta a reluzir, constelação constante, redonda rosa de água, sobre a mesa das gentes pobres. […]
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Devorando o mundo (excerto)
Nasci com a boca aberta… entrando neste mundo suculento de pêssegos e limões e sol maduro e esta rosada e secreta carne de mulher; este mundo onde a ceia está no hálito do deserto sutil nas espécies do mar distante que flutuam no sonho tarde da noite.
Nasci em alguma parte entre o cérebro e a romã saboreando as texturas deliciosas de cabelo e mãos e olhos, nasci do cozido do coração, do leito infinito, para caminhar sobre esta terra infinita.
Quero alimentar-te com as flores de gelo desta janela de inverno, dos aromas de muitas sopas, do perfume de velas sagradas que por esta casa de cedro me persegue. Quero alimentar-te com a lavanda que se desprende de certos poemas, e da canela de maçãs assando, e do prazer simples que vemos no céu quando nos apaixonamos. […]
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País do açúcar (excerto) Começar pelo canudo, passar ao branco pastel de nata, doçura em prata, e terminar no pudim? Pois sim. E o que bóia na esmeralda da compoteira: molengos figos em calda, e o que é cristal em laranja, pêssego, cidra vidrados? A gula, faz tanto tempo, cristalizada. […]
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Pois eu gosto de lombo e feijoada, pois eu gosto de lombo e feijoada, favas e grão, e tudo o que indigesto me faz sentir um cidadão honesto na hora prandial e bem regada
do tinto das colheitas a que presto a vénia palatal e reiterada, sem esquecer qualquer bacalhoada, troixas de ovos, pudins e tudo o resto
que até pode provar-nos que algum deus afinal sempre existe e é cá dos meus e às vezes me aproxima do vinicius.
e pode mesmo ser que não se morra assim da grande bouffe à tripa-forra, e se faça um soneto a esses vícios…
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OS POETAS
EUGÉNIO
DE
ANDRADE,
poeta
português, nasceu na Póvoa de Atalaia a 19 de Janeiro de 1923 e morreu no Porto a 13 de Junho de 2005.
MÁRIO HENRIQUE LEIRIA, poeta, escritor, tradutor, pintor, crítico de arte e editor português. Nasceu a 2 de janeiro de 1923, em Lisboa e morreu a 9 de janeiro de 1980, em Cascais.
MATILDE ROSA ARAÚJO, escritora portuguesa, especializada em literatura infantil. Nasceu 20 de junho de 1921, em Lisboa, e faleceu 6 de julho de 2010, em Lisboa.
VINICIUS
DE
MORAES,
poeta,
dramaturgo, jornalista, diplomata, cantor e compositor brasileiro. Nasceu a 19 de outubro de 1913, Gávea, Rio de Janeiro, e faleceu a 9 de julho de 1980, Rio de Janeiro.
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ANA
ÁLVARO DE CAMPOS, heterónimo
LUÍSA
AMARAL,
poetisa
portuguesa, tradutora e professora de
de Fernando Pessoa.
Literatura e Cultura Inglesa e Americana na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Nasceu a 5 de abril de 1956, em Lisboa, e faleceu a 5 de agosto de 2022, no Porto.
ISABEL ALLENDE é uma escritora chilena/norte-americana.
Entre outras
obras, é autora de A Casa dos Espíritos
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, foi
.Nas Nasceu a 2 de agosto de 1942), em
um poeta, farmacêutico, contista e cronista brasileiro, considerado por muitos o mais
Lima, Peru
influente poeta brasileiro do século XX. Nasceu a 31 de outubro de 1902, Itabira, Minas Gerais, e morreu a 17 de agosto de 1987, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Basil. 31 de
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VASCO GRAÇA MOURA, um escritor, tradutor e político português. Nasceu a 3 de janeiro de 1942, na Foz do Douro, e faleceu a 27 de abril de 2014, em Lisboa
Escrever é igualzinho a comer mel de engenho com farinha. João Cabral de Melo Neto
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