Em memória
RUI CARRILHO Toda a comunidade da NOVA FCSH recordará com eterna saudade a tua presença. Estimado colega e amigo, até sempre.
Notícias, crónicas e opiniões NÓS DIZEMOS AO QUE VIMOS: ESTAMOS AQUI PELOS ESTUDANTES! No passado dia 11 de Dezembro a Lista A foi reeleita para os órgãos sociais da Associação de Estudantes da FCSH. No final deste intenso processo eleitoral, marcado por uma participação positiva da comunidade estudantil e pelos diversos embates entre as três listas concorrentes, olhamos para trás com satisfação pelo trabalho realizado no ano que há pouco se finalizou – conscientes de que o que foi feito é bom, mas que é preciso e possível ir muito mais além neste segundo mandato. Aliás, foi com o objectivo de ir mais longe que a Lista A lançou a sua recandidatura. Há pouco mais de um ano atrás, a Lista A iniciou o seu trabalho como Associação de Estudantes pela primeira vez. Seguiu-se um ano que deixou bem à vista os avanços feitos para e pelos estudantes. Um ano em que a comunidade estudantil conheceu uma AE de posições coerentes, que em todas as oportunidades partiu para a luta e para a defesa dos direitos dos estudantes e de um ensino superior público gratuito, democrático e de qualidade. Uma AE que nunca recuou sempre que foi preciso afirmar a sua posição em relação a problemáticas como o RJIES, o Processo de Bolonha, as propinas, o alojamento, o regime fundacional e a Acção Social Escolar directa e indirecta insuficiente. E que acima de tudo afirmou o carácter impeditivo destas mesmas problemáticas. Não andámos à volta destas questões nem as evitámos, fizemos delas um ponto de discussão central e da sua retracção uma bandeira de luta. De maneira semelhante, debatemo-nos por resolver todo o tipo de outras questões agarradas à realidade dos estudantes da nossa faculdade. Fizemo-lo com os abaixoassinados pela melhoria das condições da faculdade, com a carta aberta sobre o estado do ensino superior que culminaram em acções na rua e na esplanada. Fizemo-lo quando apresentámos alternativas ecológicas na faculdade inteira. Fizemo-lo com a abertura de um horário fixo de balcão, com o regresso do NOVA em Folha e com a remodelação do espaço dos estudantes dentro da AE. Fizemo-lo ainda com o nosso contributo para resolução do problema da internet e da secretária virtual. Tudo isto, sempre com a representatividade e aproximação aos estudantes em mente. Temos um extenso programa com trabalho cumprido e um extenso projecto de propostas por cumprir! Se o último processo eleitoral ficou marcado pelo ressurgimento de um projecto político “apolítico” na FCSH, indicador do panorama geral de decadência do movimento associativo nacional, ficou também marcado pela percepção
da consciência democrática dos estudantes que refutaram esse tipo de programa. No início deste segundo semestre, partimos reforçados, pelo apoio dos estudantes que renovaram em nós o seu voto e por todos os outros que depositaram em nós a sua confiança, para um novo mandato que corresponderá a um novo ciclo de trabalho. Trabalho que dará mais profundidade ao apoio dado aos núcleos e grupos internos da faculdade com a criação de um novo departamento dedicado somente para esta questão. Mais profundidade também na ligação com as equipas desportivas da FCSH, assim como o alargamento do apoio que lhes poderá ser prestado. Que contará com a efectivação de um diálogo mais aberto com a Direcção da faculdade. Tudo isto e mais, acompanhado de um programa de comunicação mais abrangente que envolva a ideia de uma rádio para os estudantes e de podcasts elaborados em conjunto com o NECCOM, já em processo de realização, com o alargamento do NOVA em Folha e até a transmissão em directo das RGAs. Um programa que transpareça melhor os trabalhos de representação institucional da AE como no caso do ENDA. E ainda avançar na promoção de mais actividades culturais, lúdicas e recreativas, com o objectivo de as integrar na vida dos estudantes como parte essencial da sua formação e educação superior. Relembramos ainda o conjunto de compromissos a que ficámos vinculados com os estudantes com a proposta dos Primeiros 60 dias de Mandato e reafirmamos o seu cumprimento – 15 propostas a serem postas em práticas nos primeiros dois meses do semestre. Dentro das quais, o aumento de alternativas sustentáveis à venda na AE; a abertura de um horário nocturno do balcão da AE para estudantes inscritos em regime pós-laboral, 2º e 3º ciclos; a realização de um Churrasco de início do 2º semestre; uma Feira do Livro e ainda a realização de Semanas Culturais. E porque a defesa dos interesses dos estudantes não se ficou pelo último ano e por continuar a ser uma das grandes bandeiras da Lista A, começaremos prontamente, a realizar um levantamento de espaços disponíveis na faculdade para o seu funcionamento como Salas de Estudo. Vamos Avançar na Mudança!
Pedro Fernandes Presidente da AEFCSH
Notícias, críticas e opiniões O SUTA DE ANI DE LA MAREA UNIRE (CENTENÁRIO DA GRANDE UNIÃO) Dreptate-Fratie (Justiça-Fraternidade) são as palavras que ecoaram nas ruas da Transilvânia no dia 1 de Dezembro de 1918. O partido nacional liberal, juntamente com o rei Ferdinand e a rainha Maria, procuraram juntar todo o território e realizar o que ficou conhecido como Marea Unire (Grande União) da Roménia. Povo sempre dominado por grandes potências, tentou mostrar-se perante o mundo apelando ao nacionalismo daqueles que têm o coração romeno. A conjuntura externa, nomeadamente a queda do Império Austrohúngaro e do Império Russo, forneceu condições propicias à autodeterminação. Porém, a Roménia teve que lutar para obter reconhecimento internacional. Desta forma, a segunda guerra mundial dividiu novamente o território. As zonas perdidas não voltariam a ser recuperadas e ficou definido o país como hoje o conhecemos. Os intelectuais esforçaram-se para apelar ao sentimento nacionalista nos seus poemas, nas suas composições e nos seus discursos. Não podemos passar sem referir um membro honorário da academia romena e líder do PNL, Ion I.C. Brătianu, que ficou conhecido como a figura que lutou sistematicamente pela união dos territórios. No âmbito do seu primeiro centenário, as celebrações foram feitas a nível mundial. Os institutos culturais romenos, presentes em vários países, promoveram atividades não só para os romenos que vivem fora do seu país, no sentido de relembrar a memória e cultura romena. Hai să dam mâna cu mâna Cei cu inima română Sa-nvârtim hora fratiei Pe pamântul României!
VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES... No mês que se celebra o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, no dia 25 de novembro, se faz importante ressaltar o motivo do surgimento desta data, instituído pela ONU em 1999, para que não se esquecesse do assassinato das irmãs Maribal - Las Mariposas - vítimas da ditadura de Trujillo na República Dominicana em 25 de novembro de 1960. Neste dia as mulheres em todo o mundo saem à rua dizendo: Basta à Violência! Com os números de assassinatos de mulheres cada vez mais alarmantes em todas as partes do mundo, se faz cada vez mais urgente e necessária a mobilização para a eliminação da violência contra a mulher. Trata-se de um problema estrutural na sociedade que exige alteração de mentalidades, o que não ocorrerá sem ação, sem falar sobre, sem discutir o assunto em família, em debates escolares, levar o tema à conhecimento e debate na sociedade civil ou no plenário de uma câmara. O problema estrutual a que me refiro, significa, resumidamente, reconhecer que a violência não se trata de um infortúnio pessoal, mas que tem origem na desigualdade de gênero, que implica não só nos papéis sociais de homem ou mulher, mas também numa relação de poder, que histórica e culturalmente a sociedade designa a mulher um lugar subestimado com relação ao homem, de inferioridade e cheio de discriminação. Quanto a violência, qualquer outro fator de justificativa, como o desemprego, o alcoolismo, o ciúme, o comportamento da mulher, seu jeito de vestir ou exercer sua sexualidade que são frequentemente utilizados socialmente, não devem ser tolerados, pois acarretam dupla penalização à mulher, sofrendo além da violência, a culpabilização pela conduta do agressor, o que pode levar à impunidade dele. Vivemos dias difíceis em que há avanço de ideias em diversos
Vamos dar mão com mão Aqueles com o coração romeno Vamos fazer girar a hora da fraternidade Na terra da Roménia
Madalina Marchis
lugares no mundo que podem levar ao recuo dos direitos das mulheres, assim como dos direitos humanos em geral, com agressões em decorrência da etnia, orientação sexual, imigrantes e outros grupos sociais vulneráveis. E, em respeito ao longo caminho de defesa dos direitos humanos percorrido até então, é nossa responsabilidade estarmos atentas/os e defender todo o trabalho e sangue derramado por essas e tantas outras mulheres ao longo do tempo para que o lema “nenhuma a menos" finalmente se torne realidade.
Kauanny Christine Matias
IN T E RNA T IO N STUD AL EN TS , WE COU 'R E N T IN G ON YOU !
OLÁ 2º SEMESTRE E BEM-VINDOS ESTUDANTES
CHURRASCO 14 DE FEVEREIRO QUINTA ÀS 17H30
BIFANAS E CACHORROS VEGAN CERVEJA, SIDRA E SUMOS MÚSICA AMBIENTE E KARAOKE
Poemas e
outras palavras Não tenho um poema preferido. Encontro-me numa busca permanente, mas não o consigo encontrar. Quando sinto que estou mais perto esconde-se novamente. Não há um único que me faça estremecer a alma ou que sare as feridas do meu coração. Começo a achar que o meu poema preferido não são palavras cuidadosamente encadeadas repletas de significados profundos. Começo a achar que o meu poema preferido és tu. Com toda a tua falta de palavras cuidadosamente pensadas e encadeadas. Porque és capaz de me estremecer a alma e sarar o coração só com um toque nas minhas mãos. És tu o meu poema preferido, ainda que às vezes as tuas rimas possam falhar.
Notícias, crónicas e opiniões VEMOS, OUVIMOS E LEMOS, NÃO PODEMOS IGNORAR É bastante evidente que os recentes protestos dos coletes amarelos em França já extravasaram os limites do pacífico e deixaram de se restringir ao custo dos combustíveis. Há um claro alargamento da contestação à própria presidência de Macron e a todo o sistema político e económico. Isto seria pouco preocupante caso houvesse a certeza da absorção e da capacidade de resposta à contestação pela democracia francesa, mas o contexto é assustadoramente específico. Macron foi o mal necessário para derrotar Le Pen. É o presidente do voto útil e foi o último recurso para que o fascismo não subisse ao poder em França. Ora, como é sabido, a extrema-direita já aproveitou e continuará a aproveitar focos de descontentamento e desordem para abanar como puder o regime democrático. Como as frentes populares dos anos 30 (e mesmo considerando a enormes diferenças que as separam da atualidade), governos de voto útil estão constantemente expostos à ameaça do extremo ao qual se opõem. O problema reside aí: Macron representa a ordem neoliberal estabelecida, as elites financeiras e o privilégio. É o expoente máximo da globalização e da ultraliberalização económica. Boa parte do eleitorado votou Macron para derrotar a extrema-direita. Acontece que a agenda de Macron é aquela contra a qual Le Pen tem um discurso mais vincado. Se a esse discurso se acrescentar o descontentamento social resultante de medidas de Macron, a juntar à já complexa questão da imigração, a extrema-direita não fará menos do que capitalizar tudo isso a seu favor e deixar a França vulnerável aos seus avanços. A França às mãos de Le Pen seria catastrófica e não apenas para si própria. Apesar de não ser a Alemanha, a França é claramente um centro nevrálgico da Europa e muito em específico da União Europeia politicamente falando. Um triunfo da Frente Nacional em França seria uma vantagem gigantesca para todos os outros extremismos de direita na Europa, quer existam com força e/ou estejam instalados, quer aparentem ser esporádicos e pouco significativos (como em Portugal), quer estejam a cozer em lume brando. A cozer em lume brando, dir-se-ia, está em Espanha. Nas eleições da Andaluzia já se evidencia um crescimento da extremadireita. Considerando as semelhanças históricas e políticas que temos com Espanha (e também as diferenças), não deixa de ser apreensiva esta ainda tímida mas importante ascensão (como, de resto, é qualquer outra da extrema-direita). A este ponto seria ingénuo pensar-se que Portugal é totalmente imune a fascismos ou extremismos conservadores e/ou nacionalistas. Existem, às claras ou pela calada, e vão fazendo um discurso apoiado numa retórica antiparlamentar que já existe e numa longa tradição de passividade que já nos caracteriza. Certo é que a questão da imigração tem muito mais importância noutros países europeus, onde se inclui o país vizinho, e que a atual situação política portuguesa é algo invulgar no contexto europeu atual, tanto pela solução parlamentar que apoia o Governo, como pela estabilidade relativa do sistema político, onde não se assistiu a perdas de importância dos partidos tradicionais comparáveis às de outros países europeus nem à criação e ganhos de importância de novos partidos em sua substituição. No entanto, é perigoso pensar-se que estamos vacinados contra populismos com 48 anos de fascismo e devido à estabilidade relativa do sistema político português atual. A democracia portuguesa continua frágil, pouco participativa e enraizada e é constantemente confrontada com a descrença nas suas instituições mais elementares, assim como com uma perpetuação da ignorância e desinformação em relação a certos assuntos essenciais. Existe, portanto, margem para o avanço da extrema-direita. Falta-lhe o contexto propício.
Carolina Sousa
COPO DE CAFÉ REUTILIZÁVEL REUSABLE COFFEE CUP 2.50 €
DESCONTOS NAS BEBIDAS QUENTES NA CANTINA/BAR
DISCOUNTS ON HOT DRINKS AT THE CAFETERIA / BAR
Notícias, crónicas e opiniões
20 FEVEREIRO
10H - 18H / SALA 0.06, ED. I&D
NOVA FCSH
Teste rápido de VIH, sífilis e hepatites B e C Gratuito, anónimo e confidencial Preservativos gratuitos Para quaisquer informações, contactar ae@fcsh.unl.pt ou @AEFCSH.UNL
Acção dinamizada pelo Espaço Intendente. Contactos: 919 613 092 espaco.intendente@gatportugal.org m.me/GAT.Espaco.Intendente
NOVA
Stories
“Naquela manhã, acordei com um sentimento poderoso a pulsarme no peito. Um sentimento tão forte, que parecia rebentar-me as veias, que parecia arrancar-me a alma do corpo. Sentia um rasgar, um despedaçar voraz que atravessava o meu ser como um raio. Sentia-me explosiva. A minha pele ardia, como se a minha cama estivesse em chamas. Sentia-me bem. Naquela manhã, acordei
com
esperança.
Uma
esperança
enganadora,
manipuladora e indescritivelmente maliciosa (ou, devo dizer, deliciosa?). Ela fazia-me vibrar como há muito o amor não me fazia. Eu tinha-O esquecido. Finalmente, eu conseguira apagar aquele
amor
incorrespondido
da
minha
memória.
Tinha
demorado, mas, ao fim de uma pequena eternidade, era livre para me amar outra vez, sem amar outro em primeiro lugar.
cadeados rebentaram, numa detonação premeditada pelo meu subconsciente. Naquela noite, voltei a lembrar-me Dele. Voltei a recordar o meu coração que continuava a gostar Dele; que ainda gostava Dele. Aliás, tudo voltou: o seu olhar, o seu sorriso, o seu cheiro. Conquistando os meus pensamentos, a imagem turva da sua tez morena, da sua misteriosa personalidade, abriu todas as
Foi assim que a esperança me invadiu pela manhã, impetuosa como a maré cheia que fustiga a rocha deserta, cobrindo-a de fulgor. Uma esperança que nada traz de bom. Uma esperança que traz escondida na espuma densa daquela maré, a ilusão de um amor correspondido que nunca o poderá ser. Como eu odiava aquela esperança traiçoeira, que tanto abalava o meu mundo, que tanto me fazia sorrir, que tanto me fazia sofrer. Como eu sentia que podia controlá-la, sem sequer chegar perto dela! Era escusado. Ela dominava-me como um deus que domina as suas criações, possuidoras da consciência de existirem, mas inconscientes da sua subsistência submissa, irrevogável e consciente,
tão
inconsciente,
tão
dos meus olhos brilhantes. Queria desprender-me daquilo, soltarme, alforriar-me daquela esperança que me iria arruinar, outra vez. Olhei-me no espelho da casa-de-banho minúscula. Aquele brilho no olhar assustava-me e fascinava-me, ao mesmo tempo. Levei as mãos à cara, como duas conchas carregadas de água, para tirar aquele ar apaixonado do meu rosto luminoso. Fi-lo num número de vezes que achei absurdo para aquele tipo de tarefa, a fim de apagar aquele fogo das minhas bochechas. De nada serviu. A esperança continuava lá. Raios partam! Era inútil. Tudo era inútil contra aquela força que me envenenava o coração.
de espírito. Emborquei uma chávena de chá preto e bebi um café curto. Uma combinação explosiva que tentei combater com outra igual. Fogo apaga fogo. Funcionou. Pelo menos, funcionou enquanto aquela peçonha me enchia o estômago, numa velocidade alucinante. Funcionou, portanto, durante quatro minutos e meio. Foi o suficiente para me fazer voltar à minha vida presente. Hoje, não era dia para recordar o passado. Não podia ser.
gavetas mentais que eu selara para o desmemoriar. Raios!
Tão
me coberta de areia fina, tão fina que se prendia até nas pestanas
O pequeno-almoço não existiu. Não poderia alimentar tal estado
Infelizmente, durante aquela noite, a amnesia foi-se. Todos os
imperecível.
articulações que pude e expirei fundo demasiadas vezes. Sentia-
coisa
nenhuma…
O caminho até ao trabalho foi excitante. Toda a cafeína se traduziu numa condução digna de filme, com buzinadelas variadas, infracções infinitas e um pé no acelerador quase impossível de acompanhar. Foi simultaneamente perigoso e tranquilo. Percebi que não era só a cafeína a fazer efeito. A teimosia da esperança foi aquela que vi quando olhei os ponteiros do relógio do trabalho: dez minutos mais cedo que o normal. Perigoso, sim. Por outro lado, tinha tempo para fazer uma chamada que talvez me fosse salvar o dia (ou a vida). Revistei a minha mala, à procura do maldito telefone, e, assim que o encontrei, marquei o número que sempre me fazia voltar à realidade: a minha melhor amiga. Experiente nestas questões amorosas (e com orgulho), só ela me poderia resgatar do naufrágio emocional que estava prestes a acontecer. Não
Levantei-me da cama com uma rapidez descomunal. Era
atendeu. Tinha o telemóvel desligado. O meu coração tornou-se
imperativo expulsar aquele sentimento de dentro de mim, deixá-
pedra. Teria que resolver esta tempestade sozinha. Inspirei fundo
lo acomodar-se na cama, sozinho, até que se extinguisse. Sacudi
e entrei no escritório.
o cabelo comprido mais vezes que o costume. Estalei todas as
NOVA
Stories
O dia correu pessimamente mal. Os processos que deveria ter revisto continuaram empilhados no centro da enorme secretária, mesmo atrás do meu computador portátil. Aqueles que deveria ter
arrumado,
por
estarem
concluídos,
mantinham-se
acondicionados, junto à janela alta, entre a estante clássica e a poltrona velha, desejosos de inundar o chão cerejeira flutuante. Os que deveria ter iniciado o quanto antes chamavam desesperadamente por mim, organizados no lado direito desta
telemóvel estremeceu. Uma mensagem. Finalmente, ela ligou a merda do telemóvel! Estendi o braço até à mesa-de-cabeceira. De
certeza
que
ela
iria
ligar;
e
provavelmente,
estaria
entusiasticamente sobressaltada. Apenas com metade do cérebro a funcionar, abri a mensagem: ‘Olá! Tudo bem?’. Não percebi. Ela não escreveria tal coisa. Fiz um esforço para ler o nome do remetente. ‘Ele’. E tudo começou de novo...”
minha mesa de trabalho. A única coisa que fui capaz de fazer o dia todo foi ordenar as pastas digitais, tradutoras dos meus anos de trabalho, e ver, uma, duas, três, quatro, cinco, 67 mil vezes, a única fotografia que tinha Dele no meu computador. Isso e tentar falar mais nove vezes com a minha melhor amiga, que teimava em não ligar o já natural aparelho limitador da liberdade individual. Foi terrível. Há vários anos que não tinha um dia tão ameaçador como este. E tudo começou porque, naquela noite, soube-te livre. Soube-te livre e logo me voltei a conhecer encarcerada, presa a esse sentimento que me atrai para ti. Maldita seja a esperança! Maldito seja o amor! Maldito sejam todos os sentimentos que me fazes sentir! Fazes-me afundar num navio repleto de emoções e nem te apercebes disso. Sufoco com a vontade que tenho em te dizer o quanto gosto de ti, o quanto te quero. Mas, antes disso, ainda me afogo num ódio que préanuncia esse amor. O esforço, oh, o esforço! O esforço que eu faço para que nada disto transpareça para o meu olhar, para o meu sorriso, para o meu comportamento. O desespero que sinto em querer fazê-lo transparecer e não poder. A raiva que se apodera de mim, por gostar de ti. O medo em perder-te, em verte fugir da minha vida se soubesses disto. Como esta esperança é um vírus que me tortura… O jantar sabia-me a amargura. ‘Pelo menos, sabe a alguma coisa’ era a resposta do meu consciente a cada colherada de sopa. Eram dez e meia da noite e só agora é que eu tinha sido capaz de comer. Mas foi a única empresa que consegui completar. Eram onze da noite e já o meu corpo descansava na cama esperançosa. Os meus pensamentos corriam-me a mente, hiperactivos, sem chegar a lado nenhum. Estava quase a adormecer quando o meu
Vitória Côrte-Real
INSTITUTO PORTUGUÊS DO SANGUE E TRANSPLANTAÇÃO
RECOLHA DE SANGUE 3 de Abril - 15h às 19h Piso 7, Torre B - NOVA FCSH
NOVA Reviews não decidiu editar as três camadas em separado – como aliás, é muitas vezes hábito nas bandas sonoras de videojogos –, mas sim compor novas músicas que as combinam e até incluem novo material sonoro. O resultado? Faixas que reflectem na sua estrutura a dinâmica do videojogo, sendo audíveis as três camadas, mas de forma artística e interessante. A versão mais extensa da banda sonora editada contém 29 músicas, distribuídas em 2 CD que cobrem as principais músicas
também a amantes de música electroacústica, pela capacidade que tem de reter as melodias principais do videojogo, acrescentando habilmente muitos efeitos de equalização, alterações nas intensidades e destacando motivos vocais ou de outros instrumentos musicais. É uma música ciberpunk interessante, pois na própria forma como a música é apresentada ao ouvinte podemos encontrar uma certa ideologia punk. A liberdade individual do jogador que afecta a condução da música, atribuindo-lhe
ciberpunk de 2016 que segue os eventos de Deus Ex Human Revolution, explorando de forma mais intensa uma narrativa de conflito social entre naturals (humanos) e augmented (humanos ciberneticamente modificados). Nesta nova aventura do augmented Adam Jensen, o jogador tem a possibilidade de explorar uma visão futurista das cidades de Dubai, Praga ou Londres, proposta nos espaços urbanos onde a cibernética é o elo de ligação entre a contemporaneidade e uma evocação da arte renascentista – fusão que os produtores apelidam de “cyberrenaissance”. A música, composta por Michael McCann, Sascha Dikiciyan e Ed Harrison combina uma instrumentação orquestral, para representar musicalmente os naturals, com a electrónica
utilizadas no videojogo. As mais marcantes, pela diversidade sonora e intensidade temática são, por exemplo, os temas das personagens “Dr. Koller”, onde podemos ouvir uma música electrónica com ritmo de bateria bem característico da estética punk (ou não fosse a personagem um guitarrista de punk rock); “Janus”, uma misteriosa personagem hacker que é identificada com uma música electrónica conduzida pelos efeitos de equalização constantes e passagens melódicas ambientes que representam o ciberespaço por onde navega; o local “The UTULEK Complex: Golem City” onde, por ser um gueto para augmented, começa com uma melodia em cordas friccionadas e voz que resvala para a electrónica e ritmos percussivos agressivos, descrevendo musicalmente como estes ciborgues, que outrora foram vistos como o futuro da humanidade, são agora uma
um papel análogo ao de um intérprete de uma banda sonora construída por camadas, pode ser visto como uma espécie de música electroacústica de forma aberta. Assim, é ele quem conduz (ciber, vem do grego que significa “possuir uma habilidade para pilotar ou conduzir”) a música, ou seja, também ele se torna um ciberpunker da própria música ciberpunk que ouve. Mas a música em CD é outro produto. E este é, em última instância, algo já “acabado” e pronto a ser consumido. À música do videojogo, podemos atribuir uma espécie de estatuto de música ciberpunk natural, onde o ouvinte participa na sua produção. À do CD, talvez a atribuição de música ciberpunk augmented seja adequada, pelo facto de ser uma versão 2.0 do produto inicial, mas onde o ouvinte já não tem um papel tão activo (ele é “controlado/conduzido” pela “música/ cibernética”). Mas, ao contrário da narrativa
que simboliza os augmented. O modo como a música é utilizada no jogo, tem a particularidade de se modificar sempre que o jogador entra num novo espaço, mas também de acordo com a forma como joga. As três camadas que a constituem – a primeira para ambientar a exploração, a segunda que surge quando o jogador se aproxima do perigo e a terceira para quando combate com inimigos –, sobrepõem-se umas às outras, tornando o ambiente sonoro muito dinâmico, imprevisível, e ao mesmo tempo funciona como uma pista sonora que o avisa das ameaças. Mas a experiência de audição de um disco é diferente. Contrariamente ao que poderíamos esperar, a equipa de Deus Ex
ameaça para a sociedade (existe até, a título de curiosidade, o recurso a uma amostra de bateria cujo padrão rítmico é praticamente o mesmo que Brad Fiedel criou para caracterizar o ciborgue assassino em The Terminator); ou a cidade de Praga, um espaço que ao longo da narrativa vai ficando cada vez mais perigoso e onde os conflitos nas ruas entre a polícia e os augmented intensificam-se, algo que transparece bastante na música “Prague”, que começa com um ambiente electrónico calmo, espacial e reverberante, mas que vai evoluído para um muito mais agitado e com recurso a frequências oscilatórias que nos remetem para as sirenes da polícia. O disco recomenda-se aos jogadores, mas
de Deus Ex que separa os naturais dos augs numa mankind divided, eu não acho que faça sentido escolher um ou outro, nem tem lógico pensarmos numa “cyberpunk music divided”, pois são experiências diferentes que se complementam muito bem. Qual é o meu veredicto final? Ouçam as duas facções antes de escolherem um lado da luta pelo derradeiro som ciberpunk.
[Crítica à música do videojogo e da edição em CD]
Deus Ex Mankind Divided é um videojogo
André Malhado
Â
NOVA
Stories