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Autoria de Rita Serpa @justsomerandomshitttt
NOTAS A ado(p)ção do acordo ortográfico em vigor é uma decisão individual pel@s membros da equipa, redacção e colaborador@s . Após a revisão completa do material pela equipa editorial, o conteúdo e a versão final dos conteúdos são da responsabilidade e exprimem somente o ponto de vista d@s respectiv@s autor@s.
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nova em folha maio 2020
Equipa Editorial Ana Raquel Alves
Beatriz Cabanilhas Beatriz Mateus Daniel Borges Diana Neves Francisca Oliveira Dias Francisco Nunes Inês Pinheiro João Martins Joana Freitas Liliana Marques Manuel Pinto
Redacção Ana Raquel Alves
Ana Sofia Malheiro António Castro Beatriz Cabanilhas Beatriz Cardoso Beatriz Mateus Catarina Aires Catarina Gato Catarina Pimentel Neto Catarina Valada Daniel Bolonha Daniel Borges Diana Neves Filipa Serpa Francisca Oliveira Dias
Mariana Abreu Pedro Fernandes Rita Serpa Tatiana Matos
Francisco Azevedo Francisco Mendes Francisco Nunes Inês Leal Inês Pinheiro João Martins Joana Freitas Liliana Marques Mafalda Baptista Manuel Pinto Maria Gonçalves Maria Inês Madeira Mariana Abreu Mariana Silva Miguel Ribeiro
Paulo Gomes Pedro Fernandes Rita Serpa Sara Margarida Francisco Talita Lemos Tatiana Matos Tomás Girão
Edição Gráfica Beatriz Cabanilhas
Filipa Serpa Francisca Oliveira Dias Joana Freitas Joana Lopes Lourenço Liliana Marques Mariana Abreu Rita Serpa Tatiana Matos
NOTA Gostas de escrever? Queres ver as tuas reviews, receitas, bitaites, histórias, crónicas, etc.. num jornal d@s estudantes para @s estudantes? Envia-nos as tuas propostas até ao dia 20 de cada mês e participa nas nossas edições mensais! Ficamos à tua espera!
Jornal NOVA em Folha | Edição de Maio 2020 Impressão: 20 cópias | Distribuição mensal e gratuita novaemfolha.ae@fcsh.unl.pt
FICHA TÉCNICA
@novaemfolha.ae
@novaemfolha.aefcsh
Já se gues NOV o A em Folh no In a stag ram?
NOVA EM FOLHA
P1
AEFCSH
AE em folha Julie
Neves
O mês de Abril foi o primeiro de três mandatos em que a
No dia 12 de Abril, com as saudades da faculdade e das
AEFCSH teve que encerrar as suas portas. No entanto, mesmo
festas no campus, lançámos mais um vídeo no Youtube da
em casa, o trabalho não parou e as condicionantes causadas
AEFCSH onde estão capturados os melhores momentos da
pela
festa de abertura do CINENOVA. (Aproveita e subscreve o
COVID-19
que
trouxeram
novos
desafios
ao
Ensino
Superior e à FCSH foram encarados pela AEFCSH, tal como
nosso canal - AEFCSH TV).
têm sido sempre, com uma tomada de posição firme e com o A
reforçar das reivindicações que tem no seu programa desde o
divulgação
das
campanhas
reivindicativas
da
tua
associação de estudantes (Lutamos em Unidade e O Futuro
ano lectivo de 2017/2018.
Somos nós) chegaram aos órgãos de comunicação social e Ao longo de todo o mês e com base nas respostas do inquérito referente ao impacto do plano de contingência do surto COVID-19 na NOVA FCSH, a AEFCSH lançou nas suas redes sociais várias estatísticas sobre a condições das aulas na faculdade. No dia 9 de Abril apurou-se que 62% dos estudantes frequentava
unidades
curriculares
que
ainda
não
tinham
no dia 17 foi publicado um artigo no jornal Público com a participação do presidente da direcção da AEFCSH Miguel Cosme, que chamou à atenção para os problemas que os estudantes
a
aceder
a
bibliografia
e
outros
materiais
de
estudo. Para além disto, continuámos a recolher as denúncias e condições dos estudantes da FCSH, apresentando-as no nosso Instagram!
Logo no início do mês, a AEFCSH lançou a campanha intitulada O Futuro Somos Nós – Ninguém Fica Para Trás onde
a
sentir
relativamente
ao
surto
de
actual.
implementado o ensino à distância e 35% mostrava-se com dificuldade
estavam
COVID-19, explanando a nossa posição face ao contexto
Apesar da pandemia e da acção à distância da AEFCSH, o mês de Abril não deixa de ser o mês de luta e o mês em que temos de afirmar e defender as liberdades que foram conseguidas sentido
é
contou
com
pelos
vários
lançada
a
debates
documentário,
um
resistentes
semana e
de
conversas,
concerto
e
anti-fascistas.
Abril, o
de
20
a
visionamento
também
uma
Neste
24,
que
de
um
moldura
temática da AEFCSH para celebrar Abril.
tornou pública a sua posição perante as questões do ensino Mais importante que isto, a AEFCSH apoiou e subscreveu
superior no contexto do COVID-19. a
iniciativa
da
Associação
25
de
Abril
através
da
Nesta definiram-se 7 reivindicações concretas apresentadas
participação do apelo que esta lançou para que todos os
várias vezes à direcção da FCSH, entre as quais se encontram o
portugueses cantassem a Grândola Vila Morena à janela!
cessamento imediato da cobrança de juros de mora pelo atraso
Mesmo em confinamento, o 25 de Abril foi mais uma vez
no pagamento das propinas e a gratuitidade da realização dos
celebrado, tal como nunca deixará de ser.
exames de melhoria a todos os estudantes.
Decorreu também neste dia, uma sessão de saúde mental
No dia 6 de Abril foi divulgado o festival A Esplanada em Tua Casa lançando um call for artists para alunos e/ou antigos
no ensino superior que se debruçou sobre a gestão diária num contexto de quarentena.
alunos da FCSH que quisessem participar através de pequenos
No último dia do mês A AEFCSH lançou um pequeno Q&A
concertos a serem realizados no Instagram pessoal de cada um.
com questões concretas sobre as consequências do COVID-
O festival teve a duração de 3 dias, de dia 15 a dia 17 de Abril e
19 na vida e no ensino superior, onde verificámos que na
contou
generalidade os modelos de ensino à distância não estavam
com
a
participação
de
vários
alunos
da
FCSH
bem
como Marta Rosa e Júlio Resende como artistas convidados.
a ser eficazes. Grande parte dos estudantes que votaram conhecem alguém que foi colocado em lay off, e a maioria
A tia Lininha, o Sr. Machado e a Sara do com sabor apelaram que assistisses aos concertos e fizeram com que matasses um
dos votantes encontram-se com dificuldades no pagamento de propinas.
bocadinho as saudades das personagens que animam os dias Encontramo-nos no próximo mês, com o recapitular das
na faculdade.
várias iniciativas O festival abriu com o concerto de Wilson Lima que contou
e conquistas de Maio!
com um momento muito especial em que o artista Bispo, nos momentos finais, se juntou ao directo. Nesse dia também Dionys e
Hugo
Casaca
actuaram
com
um
concerto
nos
seus
Instagrams! O dia 16 de Abril foi marcado pela participação de Carolina Mendonça, Ricardo Pereira e Picas Maria. O último dia contou com a actuação de Bonança, Júlio Resende e Marta Rosa. Com cerca de 100 visualizações por actuação a AEFCSH
fica atent@ às redes sociais da ae para não perderes nenhum evento!
agradece a todos os que assistiram e espera que esta pequena iniciativa tenha servido para não nos esquecermos dos vários momentos musicais na esplanada do campus.
@aefcsh.unl
@aefcsh.nova
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NOVA EM FOLHA
Abril em resumo 8 e 13 de abril - Bernie sai da corrida, apoia Biden À luz de uma série de derrotas no Sul e do falhanço em obter o voto esmagador dos afroamericanos e dos jovens, Bernie Sanders retirou-se da corrida presidencial americana. Argumentando que irá continuar politicamente ativo (“While this campaign is coming to an end, our movement is not.”), o senador orientou o seu apoio para o ascendente Joe Biden, considerando-o mais apto para um confronto com Trump.
16 de abril - Bolsonaro afasta Ministro da Saúde O presidente brasileiro forçou a demissão de Luiz Henrique Mandetta da pasta da saúde, com quem mantinha diferendos acerca das recomendações da OMS e a eficácia da quarentena como medida de prevenção do coronavírus. Entretanto, o Brasil não pára de subir na tabela dos países mais afetados, registrando mortes todos os dias.
20 de abril - Netanyahu forma governo Depois de sucessivos resultados eleitorais insatisfatórios e suspeitas de corrupção, Benjamin Netanyahu convenceu o rival Benny Gantz a formar um governo de unidade nacional em Israel. Ambos os líderes são favoráveis ao plano de paz que a Administração Trump desenhou para a região.
24 de abril - Moro e Bolsonaro separam-se As relações de Jair Bolsonaro e Sérgio Moro, ministro da justiça brasileiro, azedaram no seguimento de conflitos de interesse quanto a cargos na Polícia Federal e no Supremo Tribunal Federal. O ministro apresentou a sua demissão e o presidente acusou-o de pensar “no seu ego” e não ter compromisso para com o Brasil.
28 de abril - Coronavírus supera Vietname O coronavírus tem afetado fortemente os Estados Unidos da América, que registam o maior número de infetados, acima de um milhão. Quanto aos números da mortalidade, ultrapassam já as baixas da Guerra do Vietname.
75 anos de memória O mês de abril de 1945 assistiu à libertação sucessiva dos campos de trabalho e extermínio nazis por parte das forças aliadas. A emergência pandémica atual provocou o cancelamento da maioria das celebrações, substituídas por manifestos virtuais. Heiko Maas, ministro dos negócios estrangeiros alemão, apelou a que se zele pela preservação da memória e se lute contra o negacionismo. Tal como referiu, se por cada vítima de Sachsenhausen apenas se fizesse um minuto de silêncio, o mundo calar-se-ia por duas semanas.
Comemorações do 25 de abril A pandemia de COVID-19 afetou também as celebrações do 25 de Abril. A tradicional descida pela avenida da liberdade foi cancelada devido ao risco de contágio e a sessão solene no parlamento foi alvo de aceso debate entre partidos políticos.
Desempregados por todo o mundo (ao longo do mês) 4 em cada 5 postos de trabalho no mundo inteiro foram total ou parcialmente suspensos e esperase um aumento do número de desempregados na ordem das dezenas de milhões. Para Portugal, onde já quase um milhão de trabalhadores está em layoff, o FMI antecipa uma taxa de desemprego de 13.9% (mais do dobro dos 6.5% atuais).
NOTÍCIAS
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18 de Maio:
NÚCLEOS
Dia Internacional dos Museus
Sítios a visitar a partir de casa NARQ - Núcleo de Estudantes de Arqueologia
Museu Nacional de História Natural e da Ciência:
https://museus.ulisboa.pt/pt-pt/visita-virtual
Polo Arqueológico de Viseu:
http://www.poloarqueviseu.pt/360/
Teatro Museu Dali:
https://www.salvador-dali.org/.../dali.../visita-virtual/
Musée du Louvre:
https://www.louvre.fr/en/visites-en-ligne#tabs
British Museum:
https://www.britishmuseum.org/collection
The State Hermitage Museum:
https://www.hermitagemuseum.org/.../L2dBISEvZ0FBIS 9nQSEh/...
Pinacoteca de Brera:
https://pinacotecabrera.org/virtualtour/start.html
NOVA EM FOLHA
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NÚCLEOS
Galleria degli Uffizi:
https://www.uffizi.it/mostre-virtuali
Metropolitan Museum of Art
https://artsandculture.google.com/.../KAFHmsOTE4Xyw...
Museu Solomon R. Guggenheim:
https://www.guggenheim.org/collection-online
Museu do Vaticano:
http://www.museivaticani.va/.../tour-virtualielenco.html
Museu Arqueológico de Atenas:
https://www.namuseum.gr/en/collections/
Museu do Prado:
https://www.museodelprado.es/en/thecollection/art-works
Museu do Dinheiro:
https://www.museudodinheiro.pt/360
Museu de Lisboa – Galerias Romanas da Rua da Prata in 3D:
https://my.matterport.com/show/? m=BPManXjhbCo&play=1&ts=0...
O NARQ, ao comemorar o Dia Internacional dos Museus, aproveita para ressalvar a importância da conservação do património e das entidades que visam essa mesma salvaguarda. Em momentos de crise, há um desinvestimento na cultura com o qual não devemos compactuar, reiterando a relevância do património para a produção de conhecimento histórico que, sem a devida conservação e registo, fica, inevitavelmente, perdido. Como nota final, o NARQ acentua que não pode ser deixado para segundo plano o acompanhamento arqueológico das obras e consequente salvaguarda das informações recuperadas, para bem do conhecimento histórico a ser produzido.
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NOVA EM FOLHA
ARTIGOS
DITACURA MANUEL GRADE PINTO
Muito se tem falado recentemente sobre a utilização de aplicações móveis de geolocalização ou Bluetooth para vigilância dos cidadãos infetados com o vírus COVID-19. Em Portugal o tema foi introduzido por uma carta aberta assinada por 150 figuras encabeçadas por Miguel Pinto Luz. A nível europeu o tema foi apresentado pela Comissão Europeia, que admite estudos para a aplicação de regras comuns de rastreio digital dos europeus. Ora, o que se segue é a opinião dum amante da liberdade profundamente preocupado com esta matéria. É necessária a aplicação de restrições à liberdade individual com vista ao bem comum. Essas restrições aplicam-se a todos e em particular aos que não são trabalhadores essenciais ou que não realizam saídas inadiáveis e têm como objetivo diminuir ao máximo o contacto entre pessoas e a taxa de propagação do vírus. Tornou-se evidente, nos últimos tempos, a ideia de que uma profunda e devastadora crise social e económica se aproxima inexoravelmente e que, perante tal estado de coisas, temos que ir reabrindo a economia que nunca foi, diga-se de justiça, totalmente fechada (as nossas medidas deixaram em funcionamento os estaleiros de obras e embora com quebras na procura, restaurantes, lojas de bricolage, grandes superfícies e possibilitaram também a saída para exercício, ao contrário de outros países). É neste contexto que quer a nível nacional, quer a nível europeu a discussão do controlo digital foi introduzida como ferramenta para tornar essa reabertura mais segura. Estamos por isso novamente perante um debate entre a segurança e poderes do estado versus liberdade e direito à privacidade.
Existem, no entanto, outras evidências, nomeadamente que os métodos propostos para o dito controlo têm sérias dificuldades técnicas, que muito provavelmente a paisagem política será, dentro de pouco tempo, diferente da atual e que as gigantes tecnológicas Google e Facebook, entre outras, não têm um cadastro limpo no que toca ao manuseamento dos dados dos utilizadores. Em primeiro lugar, qualquer uma das propostas para o funcionamento das apps tem sérias dificuldades práticas. A app, a ser criada com a tecnologia Bluetooth poderia apanhar o sinal de um vizinho e emitir alerta de contágio, quando na realidade uma ou mais paredes separam os dois. O telemóvel faria então uma ligação que o vírus não tem possibilidade de fazer. Se, ao invés, utilizar tecnologia de geolocalização um problema semelhante se apresenta mas num sentido vertical. Num prédio de 7 andares bastaria o vizinho do terceiro direito ter a app e todo o prédio seria contado como perigoso, pois não distinguiria entre prédios, andares, acessos às habitações, etc. Em segundo lugar, cabe a todos nós ponderar se num momento em que uma vigorosa crise económica e social assoma, o que levará de forma quase certa a uma maior ascensão de partidos populistas, estamos dispostos a fornecer ao estado e empresas privadas informações tão pessoais como as nossas próprias movimentações. Ver a tranquilidade com que as 150 personalidades portuguesas e o entusiasmo com que Bruxelas vangloriam o sistema imposto em Singapura (que não é uma democracia liberal) ou mesmo as alusões à resposta chinesa à crise, como que ignorando a liberdade que aos povos europeus tanto custou alcançar, é alarmante.
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NOVA EM FOLHA
A Europa deve marcar o exemplo, deixando claro que os deslizes autoritários não serão potenciados por medidas populistas nem agendas securitárias e que é possível combater a crise pandémica defendendo simultaneamente a democracia. Em terceiro lugar, deixar este manuseamento massivo de dados, nas mãos das mesmas empresas que foram descobertas na venda de informação pessoal de 50 milhões de utilizadores como o Facebook, ou a Google que admitiu partilhar dados dos utilizadores a terceiros não é da preocupação de Miguel Pinto Luz e dos restantes assinantes, nem da União Europeia? A era digital trouxe já enormes violações de privacidade e a quantidade de informação pessoal controlada pelas tecnológicas ultrapassa em muito aquela que as polícias políticas do Séc. XX alguma vez controlaram. Será então sensato, disponibilizar sem contrapartidas ainda mais informação pessoal a estas empresas? Os Estados desinteressam-se desta questão e das suas funções protetoras ressalvando-se na voluntariedade da participação, tendo sido esta apresentada como justificativa desta medida. Perante este argumento levanto duas objeções imediatas. Por um lado, tem-se ouvido que as escolhas pessoais não afetam a liberdade coletiva. Questiono-me então porque a condução de mota sem capacete é proibida? Ou a de carro sem cinto de segurança? Ou porque os maços de tabaco têm impresso “Fumar Mata”? Nenhuma destas situações afetam as liberdades coletivas, mas o Estado assume que mesmo perante as “liberdades” pessoais deve comprometer-se na defesa do cidadão. O que peço, então, é que não se abra uma exceção à regra e que o Estado cumpra a sua função de protetor, mesmo perante as ações voluntárias do cidadão. Por outro lado, mesmo que consideremos a criação desta exceção razoável, absolutamente nada garante que amanhã, pelas razões já enunciadas anteriormente, a medida assim permaneça.
ARTIGOS
Por vezes torna-se fácil descartar as preocupações de pessoas como eu, que alertamos para os perigos que se verificam na China ou em Singapura, afirmando que as situações políticas desses países são bastante diferentes das nossas. É verdade, são diferentes, mas mesmo cá na velha europa temos um Orban, uma LePen e um Ventura que rejubilariam se tivessem um precedente de controlo das movimentações internas da população. Estamos dispostos a correr esse risco? Felizmente Portugal parece ter, desde o Presidente da República ao Secretário de Estado da Saúde, homens e mulheres honestos e prudentes nos seus cargos que até agora descartaram categoricamente essa possibilidade. Resta agora saber se as suas posições são correspondidas pelo resto da europa. Uma crise sanitária necessita, antes de mais, de respostas sanitárias e não digitais. Enquanto Europa teremos, como sempre fizemos, de equilibrar a liberdade e democracia com a performance económica e interesse nacional. Cabe a nós escolher entre esse equilíbrio difícil mas com resultados certos e o caminho mais fácil com resultados incertos.
semana do ambiente 11 a 15 de maio
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NOVA EM FOLHA
POEMAS
Chão de Vidro TATIANA MATOS
À noite quando saio queria ser igual. Invisível. Invisibilidade que me transformasse num nada. Uma folha, uma flor, o chão. Um baloiço velho, uma mota parada. Mas não sou o nada, apesar de assim me sentir. Nada em mim, tudo em ti. Tu que vês em mim não o vento onde não podes tocar, mas uma garrafa de vidro que deambula à sua sorte pelo asfalto. Pegas, desfazes, partes e largas. Partes com violência e há sangue. Nas tuas mãos. Nos meus olhos. Há estilhaços e vidros pequenos que abrem fissuras do tamanho do trauma, grande, mas silencioso, porque eu não deveria sair pela noite.
Quando partes levas a esperança de um dia ser livre. A liberdade não é minha, nunca foi palavra minha. Não sou livre quando posso ser tocada por quem acha que me tem por direito. O chão ao qual queria estar reduzida, é um chão que agora tem vidros que ferem. Vidros que magoam cada vez que abro os olhos, e por isso decido fechá-los. Fechá-los-ei para sempre O chão que pisas sou eu e tantas outras, nas quais já não podes tocar, mas podes sentir a dor de o pisar. Estou morta e sou pedaços de vidros, mas sou chão onde tu não descansas, nem consegues andar porque os cacos nunca desaparecerão. E terão sempre o meu nome e o teu sangue..
NOVA EM FOLHA
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Benção ANTÓNIO CASTRO
Nos passos que damos, nas sombras, nas mãos secas, há uma sequência de gestos que se repete no meu crânio até adormecer. Nas hóstias consagradas, há a voz de homem distante que se cercou de mato e decidiu abandonar o mundo. Nos dois dedos levantados do padre, há um gesto de pecado que alivia os corações mais gastos. À porta da igreja, o tilintar das moedas num copo de plástico impõe-se ao som do órgão e às nossas gargantas. Lá dentro, o perigo de incêndio e a talha dourada.
POEMAS
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NOVA EM FOLHA
Testemunhos de uma Quaren(tuna)
CATARINA GATO, DANIEL BOLONHA, FRANCISCO MENDES, INÊS LEAL
REAL TUNA ACADÉMIA NEOLISIPO
O que fazer quando já são 3h da manhã e não consegues dormir? A quarentena tem trazido insónias a uma grande maioria das pessoas. Algumas dizem não ter sono, outras estão claramente preocupadas com o que se passa no mundo. Algumas estão a trocar os sonos e outras só dormem umas três horas por noite. O meu caso é capaz de ser algum destes, ou um mix do seu conjunto. Seja como for, a música tem parte importante no meu sono, no meu dormir e, claro, nas minhas insónias. E vocês já estão mesmo a ver: ela coloca uma musiquinha nos fones e fica ali a adormecer. Pois, mas não é nada disso. Para a adormecer o meu exercício é pensar na manhã seguinte, no acordar seguinte. Para isso, todas noites oiço todas as músicas do meu telemóvel até decidir com qual quero acordar no dia seguinte, qual será a “música do dia”. Porque a música que me acorda influencia o decorrer de todas as horas em que me manterei acordada em seguida. Se isto não é amor à música, não sei o que será. Talvez seja insónias. Ou efeitos colaterais da quarentena. Tens um aglomerado de emoções. Quereste distrair, mas não sabes o que fazer? Descobre o teu álbum favorito. Organiza a tua música! Faz playlists. Há alturas em que não nos apetece fazer muita coisa – os sentimentos acumulam- se, e às vezes, é difícil expressá-los. Portanto, aprender a tocar um instrumento novo, pode não ser aquilo que mais te apetece fazer neste momento. Não há problema! Contudo, podemos considerar que as artes, muitas vezes, servem para isso mesmo. Para nos ajudar a expressar.
Ouve novos artistas. Cria playlists que combinem com as tuas emoções. Se sentes falta dos teus amigos, descobre um álbum que te lembre deles! Enquanto integrante da Neolisipo, às vezes sinto falta dos ensaios, da dinâmica, da amizade – quando oiço o álbum ''¡Volaré! The Very Best of the Gipsy Kings'' lembro-me deles, mas também me lembro que voltaremos a estar todos juntos outra vez, a cantar a plenos pulmões músicas que “ninguém se lembra”, mas toda a gente sabe de cor. Como se faz para ouvir música sem cair na tentação de querer pegar nos nossos instrumentos inexistentes e partir para ação? Não se faz! O que se faz é arranjar-se instrumentos improvisados (A VOZ NÃO CONTA!). Vamos ignorar o tempo que se passa a pesquisar uma forma de se fazer instrumentos improvisados caseiros com objetos aleatórios que nunca imaginaríamos nós que pudesse resultar, ao invés de estar a estudar e fazer trabalhos. Isso não é o mais importante! Música! Fazer música é. Outrora existiu um velho compositor clássico cujo rumor corria que as cordas do seu violino eram feitas dos cabelos da sua (falecida) esposa! Mas não, o meu improviso não é algo assim tão mórbido. Podemos dizer que aprendi a tocar uma espécie de caixa de cereais vazia, com um rolo de papel a fazer de braço. Sim, eu fiz uma guitarra de cartão e papelão. E não, não usei fios de cabelos para as cordas, mas sim elásticos! Aprendi muito com estes instrumentos para crianças! “Para crianças”, dizem eles… Disparate! A guitarra ficou tão boa que rivaliza com aquelas que temos na Tuna!! Melhor ainda, porque tem as cordas coloridas, e o corpo que é uma maravilha, que só de olhar para ele dá vontade de comer o corpo da guitarra, os cereais, quero eu dizer.
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E é assim que eu consigo acalmar o bichinho que me obriga a parar de vez em quando, cada vez que oiço música e necessito de tocá-la, custe o que custar. Música é isto. A solução não poderia ser outra (mesmo que honestamente o instrumento não funcione, ao menos acalma o parasita musical que vive em mim). Certamente criar instrumentos caseiros é até relaxante. Vou propor isto para a Tuna. Ficam lindos, e até serve como enfeite para a nossa salinha! Até mostraria uma fotografia, mas… ocorreu um pequeno problema durante a sua utilização… não faz mal, não faz mal. Eu em breve resolvo e estará novamente “funcional”. Instrumentos caseiros, malta. Toda gente o devia fazer quando não consegue um real. Quarentena, dia 51 55(?) – já não faço ideia, honestamente. Preso em casa mais um dia… Há uma coisa de que eu sinto em falta, mas não sei bem apontar o que é… um certo vazio por aqui. Talvez pelo facto de não ter os meus instrumentos comigo! Pois, só me faltava esta… Estou num fim do mundo, um lugar longínquo e remoto e nem posso ter comigo aquilo que mais me faz falta no momento para desfrutar da paz e calmaria. E depois tenho de estudar… e estudar no silêncio! Pois sabem o que é estranho? Eu não consigo estudar com música… É horrível estudar ouvindo música. Odeio estudar com música. Não faço ideia como é que há pessoas que conseguem. Na verdade, qual é a motivação para ouvir só porque sim? Devem pensar que é porque não gosto de música? Ou porque é barulhenta e me distrai? Bem, um pouco a segunda, de certa forma. O problema é que, se eu for estudar com música, eu sei que com certeza tentarei tocar alguma das músicas. Há sempre aquela pergunta: “será que consigo tocar isto na guitarra?” E lá vou eu dar uns toques para aprender seja que ritmo for. Mas o pior de tudo nem é ceder, até porque passado um tempo canso-me e já está. Entretanto fico satisfeito, refrescado e pronto para voltar aos estudos (por uns tempos), ou o que estivesse a fazer (para além de música). O pior é isto acontecer quando não há instrumentos por PERTO! Primeiro, a minha guitarra acústica ficou sem uma corda… não vou sequer abordar esse assunto, porque a coitadinha não merecia estar aleijada.
E a clássica não está de momento comigo. A cada música que oiço só vou pensando se conseguiria eu tocá-la na guitarra. Sinto falta das minhas meninas e ouvir música torna-se doloroso quando sei que não posso tocar nada do que quero! Música para todos os moods Agora, mais do que nunca, a música tem tido importância na minha vida. Estando fechado em casa há mais de um mês, os velhos hábitos de ter, mais ou menos constantemente, a música no fundo só se têm cristalizado, um pouco como o estereótipo das velhinhas que têm a televisão em casa sempre ligada para lhes fazer companhia. No meu caso, em vez dos apresentadores daqueles programas da manhã e da tarde com convidados e histórias comoventes e tal, tem sido mesmo o Spotify quem me faz essa companhia. E não é por ser da tuna que me limito a ouvir a Madalena ou o Traçadinho em “repeat”. A música de cada dia vai mudando um pouco ao sabor do vento, como imagino seja o caso de qualquer indivíduo normal que não sofra do gosto pelas tradições estudantis, mas estes últimos dias posso partilhar que têm estado sobretudo representados os Kinks desde que redescobri o álbum da Village Green Preservation Society, o Quarteto 1111, a ocasional ópera com a Maria Callas para aqueles momentos em que tenho de dar prioridade a alguma coisa que não seja a experiência de ouvir música, e o David Bowie. Este último já vem desde antes, muito antes da quarentena, é quem reservo para aqueles momentos menos felizes da vida, em que a música mais do que companhia representa alguma espécie de apoio psicológico. Mas dessa análise da música como algo mais que cadeias de sons porreiros para o ouvido já não sou qualificado para falar, certo é que ajuda, ou, pelo menos, que me ajuda a mim, a manter a sanidade neste mundo que mal reconheço desde que os seus limites se tornaram as quatro paredes do meu quarto de estudante em Lisboa, longe de tudo e de todos e em que, ultimamente, o Bowie não tem saído dos “recently played”.
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ARTIGOS
O QUE ACONTECEU COM A OMS? PAULO GOMES
No dia 14 de abril, o Presidente norte americano Donald Trump anunciou a suspensão do financiamento dos Estados Unidos à Organização Mundial de Saúde (OMS). Tal decisão foi por ele justificada pelo alegado excesso de peso da influência da China naquela, muito apesar da sua contribuição total para o orçamento da organização seja menor do que a dos Estados Unidos. Se a sua decisão foi ou não correta é algo para ser debatido e certamente será um tópico bastante controverso. De qualquer das formas, ao tomá-la, Trump lançou uma outra discussão relativa à própria organização e àquilo que tem sido a sua gerência. A OMS não está isenta de críticas e, quer queiramos quer não, pelas mais recentes experiências que teve na sua resposta à pandemia do Covid-19, pode-se questionar a sua eficiência. Por isto, não deixa de ter alguma relevância um olhar um pouco mais fundo para as fundamentações da Casa Branca no corte do financiamento, como forma de melhor se entender a gravidade das críticas. No fim do mês de março, o médico Canadiano epidemiologista e consultor sênior do Diretor-Geral da OMS, Bruce Aylward, deu uma entrevista a uma jornalista que o questionou sobre a resposta ao Covid-19 no Taiwan, após a qual ele parou durante alguns segundos, parecendo não ter ouvido a pergunta, e, de seguida, aparentou ter desligado a chamada. Quando a jornalista lhe ligou de novo, esta insistiu na mesma pergunta, ao que ele lhe respondeu “já falámos da China – e, quando olhamos para as diferentes áreas da China, elas fizeram um bom trabalho” e deu a entrevista por terminada [1]. Tal pode aparentar não ter grande relevância, mas acaba por ganhar todo um novo significado pelo uso das palavras na sua resposta, que apresentam Taiwan como uma mera região da China. Não é muito surpreendente que aquela tenha sido a sua resposta, principalmente quando se tem em consideração o facto de, à custa
consideração o facto de, à custa da opinião da China sobre o assunto, Taiwan não ser reconhecido como um estado independente pela ONU. Como consequência está igualmente excluído das restantes organizações a ela subordinadas. Por isto, embora se diga apolítica, a OMS acaba sempre por ter política em si envolvida, e tal demonstrouse bem patente aquando do surgimento do Covid19 e na sua resposta inicial. No período inicial do Covid-19, quando se concentrava maioritariamente na China, a informação disponibilizada à OMS sobre aquele provinha das fontes oficiais do governo Chinês. Daqui a organização propagava para o mundo inteiro tudo aquilo que na altura se saberia sobre o mesmo. Isto levou a que, em janeiro, tivesse declarado que não existia contágio por contacto humano. A partir daqui comunicaram também no sentido de os países não fecharem as fronteiras com os países onde o Covid-19 estivesse presente. Ambas as declarações são hoje facilmente contraditas e podem talvez ter sido mesmo prejudiciais ao mundo. Mas certamente não podemos atribuir culpas à OMS se, na altura, tudo indicava para que aquilo fosse verdadeiro pela informação disponível. Tal não foi contudo o caso, ao se verificar que Taiwan tinha enviado um e-mail no dia 31 de dezembro de 2019 à OMS, onde alertavam para a possibilidade da existência de contágio por contacto humano e onde requeriam mais informação. Tal e-mail ficou sem resposta e a sua existência chegou mesmo a ser negada pela OMS, entretanto provada após Taipei tê-lo tornado público [2]. Questiona-se então o porquê da OMS ter optado por ignorar este aviso, preferindo acreditar naquilo que o governo chinês lhes dizia, o mesmo que está constantemente a cobrir certos assuntos que lhes confiram uma má imagem, como os campos de detenção, ou “campos de reeducação” como eles uigures.
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lhes chamam, onde têm colocado muçulmanos uigures. Talvez a resposta passe pelo facto de Taiwan não ser membro da organização, nem por ela reconhecido enquanto estado independente. Se verdade, então apenas afirma a ideia de que a OMS é influenciada, até certo ponto, pela política. Se não, continua a demonstrar a existência de uma má gerência no modo como abordou a informação existente no surgimento do Covid- 19, confiando em demasia nos dados pela China apresentados. Mesmo já depois de se levantar ceticismo relativamente à informação do governo chinês, o Diretor-Geral da OMS, Tedros Adhanom, insistiu em tornar exemplo os esforços da China na contenção do Covid-19, implicando a continuação da existência de uma confiabilidade para com os dados por eles disponibilizados. Paralelamente, embora não necessite da aprovação da China para a sua inclusão [3], Taiwan tem vindo a ser excluído das reuniões de emergência da organização relacionadas com o Covid-19, apesar de ser um dos que mais rapidamente foi capaz de controlar quer o número de casos, quer o número de mortes. Isto tem levado a acusações de Taipei à organização, de colocar vidas em risco numa altura em que a cooperação global é fundamental. Pode talvez refletir-se um pouco mais sobre a má gerência da OMS quando se tem em conta o historial do seu Diretor-Geral. Tedros foi o ministro da saúde da Etiópia por 7 anos durante um governo conhecido por aprisionar jornalistas, torturar dissidentes e matar protestantes pró- democracia, apoiado pelo regime chinês. Durante esse cargo foi acusado de cobrir surtos de cólera, como apontado pelo New York Times [4], e, pouco depois de alcançar a posição máxima da OMS, nomeou o antigo ditador do Zimbabué, Robert Mugabe, como um “embaixador de boa vontade” [5]. Tudo isto acaba por nos permitir pelo menos questionar o seu julgamento, bem como o facto de estar numa posição de tamanha importância global. Analisando tudo isto percebe-se que a OMS exibiu da informação
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um comportamento irresponsável perante a gestão da informação ao seu dispor. Ademais mostrou a presença de uma vertente política dentro de si, por mais inconveniente que seja para ela admitir a sua existência. Ambos os pontos são preocupantes e é fundamental que comecem a ser abordados e pensados tanto no mundo inteiro, como no próprio seio da OMS. Trata-se de erros de uma enorme magnitude que, ao serem ignorados, arriscam a repetição de uma situação como a atual. Se, de facto, a organização quer seguir rumo ao objetivo da saúde pública mundial deve então corrigir estes erros o mais depressa possível. Se optar por seguir o rumo atual afastar-se-á cada vez mais do seu propósito inicial, passando a ser irreconhecível e perdendo, com isso, credibilidade global, algo que deve ser evitado ao máximo.
NOTAS/ REFERÊNCIAS
[1] https://www.theguardian.com/world/2020/mar/30/seniorwho-adviser-appears-to-dodge-question-on-taiwanscovid-19-response [2] https://www.cdc.gov.tw/Category/ListContent/sOn2_m9Qg xKqhZ7omgiz1A?uaid=PAD-lbwDHeN_bLa-viBOuw [3] https://www.reuters.com/article/us-china-healthtaiwan/taiwan-says-it-didnt-need-chinas-permission-forwhomeeting-idUSKBN2060JZ [4] https://www.nytimes.com/2017/05/13/health/candidatewho-director-general-ethiopia-cholera-outbreaks.html [5] https://www.washingtonpost.com/news/democracypost/wp/2017/10/25/another-week-another-scandal-attheunited-nations/
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Testemunha de mim só MARIA INÊS TEIXEIRA MADEIRA
Para quê procurar pétalas nas ondas Quando há tanto peixe no mar? Olha para mim (mas não respondas) Como podes tu me amar Sendo eu uma flor de jardim Que nasceu com a luz da Lua? Vai, esquece-te de mim! (Não vais querer que seja tua). Mesmo que te ame, não o podes Porque sou fogo a desabrochar, Deixa que me esconde e que não te inflame Foge e olvida, não me poderás amar. Só eu me conheço, sei como é… Choras o que não pôde ter acontecido Mas apanha o vento, segue com a maré, Com o tempo, enterrar-me-ás no Desconhecido.
POEMAS
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CORPOS
ANA SOFIA MARINHO MALHEIRO
Vejo corpos. Corpos pálidos, iluminados por uma vela. Corpos perdidos, à procura de algo para amar. Meros corpos, que agora se fundem num só. Meros corpos, que fazem um do outro motivo para ficar. Nunca tinha visto corpos tão rosados (nem lençóis tão amassados) e, enquanto os observo, desenham-se silhuetas na parede creme. Um corpo regozija, outro corpo teme. Teme. Porque é mais fraco. Teme. E para não se magoar, magoa. Teme. Por não saber ser sozinho. Por não saber ser acompanhado. Teme. Porque nunca foi de tal forma amado. Ai e este toque! Capaz de encurtar, num só segundo, a distância entre o Inferno e o Paraíso. Capaz de condenar, numa só noite, dois corpos ao eterno improviso. E amanhã, quando o suor se transformar em lágrimas, um corpo já não estará aqui. Não estará, e talvez nem volte. Mas levará sempre o outro consigo ainda que os separe a morte.
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CRÓNICAS
FILIPA SERPA
You are riding a big wave, feeling the swelling of the deep blue tide slowly lift the tail of the plank underneath your feet, the ocean’s energy flowing through the bulge, onto the board, now under your feet, scaling upwards, through your veins until it reaches your heart. You feel its boost, like your mother gently pushing you on the swing or softly kissing you off to your first day of school. Suddenly you fall, the beach sirens go off and you hear a sinuous melody. But you no longer feel the sun caressing your cheek sor the summer breeze, cold where drips linger on your skin. You now sense your bottom resting on a soft cushion, your sandy and dampen feet are now warm and guarded by rubber shells, one resting on the floor and the other on a pedal you softly press to a certain rhythm. Your fingers move along the pace of the siren’s chant. They sway graciously, like ballerinas on a stage, falling and rising slowly yet mightily. They prance on ebony and ivory and you feel the sound resonate deep along your movements. This is all you; this enchanting melody, the serene ambience that brings peace to the spirit – it is all you. You feel a sudden sense of control, producing producing aawonderful wonderfultune tunethat is that slowly grows deep and grave. Powerfully it creates a tremor, disrupting the dancers’ spectacle and dropping them to their knees. The tune now turns harsh and ruthless, hateful to your ears. Your eyes shoot open with sudden confusion. Before you can take in the world around you, you roll to the side, facing the monster that awoke you from your dreams. The beast, tiny yet uproarious vibrates on the ground, light pink like cotton candy with a luminous screen. Why is it so far away? you think, though you know why. You set your alarm a couple of qq
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CRÓNICAS
couple of feet away to force you out of bed without pressing the snooze button. Now that the fiend has been soothed, you sit back with legs crossed and arms extended behind you, supporting you like a poolside lounger, and you take in your – now clear - surroundings. Sluggishly, the dim blurs take clear shapes – the oak wardrobe before your feet, the knots and crevices on the floor under them, guiding the route to the piano you played in your dream. You notice mattress is just one or two steps away and it tempts you to climb back onto its soft and soothing belly, but you resist the urge and pull your eyes away to observe the expanding room. The walls are bright and shining with a gentle, golden kiss of the rising sun. Following the beam shooting through the windows above you, a sudden urge and swelling of energy undulates through you in an eager crescendo. You jump to your feet and onto your bed and, clutching onto a cool metal handle, you form a fist and twist your wrist. You push upwards towards the vast blue sky and the cool air greets you good morning with the sweet floral perfume of the awakening spring. A wide grin subconsciously grows on your lips as your eyes are caught at the hilltop, golden with the yawning sun. The morning dew twinkles upon verdant leaves and the blooming flora. Your eyes soften and they glitter like a schoolgirl’s as she lays sight on her first crush. You close your eyes and take a deep breath, feeling the pleasant breeze travel through your nostrils with a powerful yet gentle perfume - but it doesn’t last long. You are eager to open them again and to scrutinize the whole morning beauty. You open your eyes again, and this time they sting just slightly at the golden gleam before you – just enough to make you feel alive and to sense the sun’s energy glide through you. You close them again, take another deep breath. Open them wide, the green around you is bright and still gleaming from yesterday’s downpour. Closed – a sweet scent; Open – a vast expanse of a world ready to be explored. Energy and voltage are flowing through your every muscle and vein and you feel the sun’s warm glow now centered on your chest. It flutters thump-thump good-morning to the butterfly dancing across your rooftop and you now consciously expand your smile, exhibiting your teeth to the world. You take one, last, good look at the scenery before you and hop in place once or twice - up down, up down - before you decide to conclude your daily ritual and that you are ready to go out into the world to face new adventures. Maybe your feet will take you to greet the blackbirds and sparrows up on the hills, or to salute the chicken and horses enjoying their breakfast within the fields, or perhaps they crave a delightful frolicking with their old, blue friend down at the bay, just like in your dream. Only they know – only your feet and your heart know which adventures await you on this new and glorious day.
MÚSICA PELO AMBIENTE PLAYLIST DE MAIO • AEFCSH
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CRÍTICAS
DOIS PAPAS
Crítica de INÊS PINHEIRO ines@santospinheiro.net
“Dois Papas contrabalança crítica com redenção e oferece-nos um olhar íntimo e, acima de tudo, humano para aquele que foi uma transição histórica na Igreja.” Realizador: Fernando Meirelles Ano: 2019 Elenco: Anthony Hopkins e Jonathan Pryce Classificação: ★★★ Dois Papas foi um dos filmes da Netflix que deu entrada nos Óscares deste ano. Na altura não tive oportunidade de o ver, mas o período de quarentena permitiu-me usufruir dos tão cobiçados 30 dias grátis desta plataforma e houve que tirar partido. Vejo agora que as nomeações para os dois actores que encarnam os Sumo Pontífices foram mais do que merecidas. Anthony Hopkins surpreendeu-me por se afastar da imagem típica que sempre lhe associei desde O Silêncio dos Inocentes e não houve um momento em que estivesse a ver Jonathan Pryce no ecrã – perante o espectador temos o próprio Papa Francisco. Ambos foram estupendos, transmitindo uma intimidade (quem sabe se não também a nível pessoal) entre Bento XVI e Francisco, que não tinha idealizado no passado. A rodagem do filme concretizou-se num equilíbrio bem conseguido entre realidade e ficção. Por vezes, parece que estamos a assistir a um documentário – uma das cenas que me vem à memória é a chegada de Bento XVI ao Vaticano, saindo de Castel Gandolfo de helicóptero, quando é noticiado o escândalo com um dos seus secretários. Nesses momentos, a filmagem desgarra-se da Sétima Arte surreal a que estamos habituados, como se se tratasse de um lembrete do esmagador fundo de verdade subjacente ao filme. Outro aspeto bem conseguido foi o do aprofundamento da proximidade entre os dois Papas. Por mais que não saiba até que ponto os eventos descritos correspondem à realidade, o filme capta a humanidade de ambos e presenteia-nos com momentos verdadeiramente inauditos e, simultaneamente, marcantes, como o almoço de pizza na Capela Sistina. Ao longo de duas horas há, ainda assim, um episódio que merece destaque. A abertura do então cardeal Bergoglio sobre o seu passado na Argentina é impactante. Passa-se, no seu auge, enquanto conversa com Bento XVI em bancos frios de pedra, sob o magnífico fresco de Miguel Ângelo. Entrecortando o presente com o passado, transitamos, sucessivamente, de opulência para a devassidão e sofrimento. É um paralelo necessário, e muitas vezes posto em evidência entre aquilo que a Igreja procura defender e a forma como vive. Dois Papas contrabalança crítica com redenção e oferece-nos um olhar íntimo e, acima de tudo, humano para aquele que foi uma transição histórica na Igreja.O filme termina com humor e algo muito próximo de nós – as rivalidades desportivas, nas quais também acabamos, saudavelmente, por fazer cedências.
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Esperança TOMÁS GIRÃO
Quem tem mais incertezas? O lápis que teima em correr Ou o meu feitio, de contemplar o que escrever, Além do pôr do sol, um mar de rosas… No cais correm e pelas ruas sobem Dando voltas ao castelo também. No silêncio brincam na Praça Escondendo histórias da infância na Graça. Tanta agitação que ilude o coração, Bom seria este sonho Senão fosse a dúvida que componho Sem noção. Cidade perdida, imóvel, inquieta, Espera serenamente junto da janela A vontade de ser criança pateta, Rindo e sorrindo da vida bela… Passo sobre passo, embalados No fado que nos aconchega as esperanças, Despertaremos livres nas ruas Abraçando família e amigos.
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Sabedoria MAFALDA GOUVEIA BAPTISTA
Nunca li pensamentos, mas já adivinhei expressões. Sigo os teus movimentos e demonstro emoções. Perto nunca demais, longe deixas saudade. Faz-me querer saber mais, tens saudades da cidade? Ela tem saudades tuas e da tua companhia. De quando passavas nas ruas e iluminavas o meu dia. Volta sabedoria.
CRÍTICAS
semana da igualdade
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ARTIGOS
Vamos Todos Trabalhar, Não é? DIANA NEVES
E se, no mês em que celebramos o Dia do Trabalhador (1 de maio) fizermos, nada mais, nada menos, do que uma reflexão sobre… os medos de quem vai trabalhar. Mas não é um trabalhador qualquer. Somos nós. Os estudantes que esperam ver os seus sonhos, ambições e objetivos cumpridos. É disso que venho aqui falar. Não quero dar ordens, nem conselhos. Cada um de nós tem as suas ideias e sabe como traçar o seu futuro, uns com grandes certezas, outros nem por isso. Confesso que eu própria ainda tenho muito para aprender… e à falta de coisas maisinteressantes para fazer durante o isolamento, vim aqui mandar umas postas de pescada. Desde que entrei na FCSH que me ensinaram que o que o mais prezam, hoje em dia, é aquilo que nós fazemos. Tudo aquilo em que nos envolvemos e/ou criamos é importante. Não importa teres um 18 numa cadeira, se não sabes desenrascar-te com horários, organizares-te ou até liderar uma equipa. O mercado de trabalho atual não é de todo o mesmo que era há cinco, dez ou quinze anos atrás: são priorizadas competências diferentes, há novas competências a adquirir e conhecimentos que não pudemos dar como garantidos porque, possivelmente mais do que nunca, está tudo permanentemente a mudar. Acima de tudo, hoje torna-se difícil ter um currículo original, entre
entre as centenas que as empresas recebem; é desafiante fazer parte de um mercado exigente, com milhares de pessoas competentes e cheio de tantos talentos. É sem dúvida nenhuma difícil destacarmo-nos e mantermos a esperança de que somos nós que fazemos a diferença. Uma vez numa entrevista perguntaramme porque é que achava que devia ser eu a ficar com o lugar, em vez de todas as outras pessoas que estavam a concorrer para a mesma vaga que eu. E eu não soube responder. Talvez porque nem me interessava mesmo por aquilo a que me estava a candidatar, talvez porque, de facto, não sabia o que me poderia distinguir. Então, o primeiro passo será, sempre, ganhar confiança, independentemente da nossa área de estudo ou dos nossos sonhos. Neste mundo de loucos, sê louco também, sê ousado! Descobre o que faz de ti aquilo que és, aquilo que tens de melhor. Tornate único, torna-te capaz de te destacar neste mercado competente. Claro que, com profissões saturadas, um bocadinho de sorte também vem sempre a calhar. Às vezes é mesmo uma questão de ser a altura e o momento certos, mas isso ninguém pode controlar. Tens de saber que provavelmente vais levar muitos «nãos» na vida. Mas isso não te torna pior naquilo que fazes. Vai haver sempre aspetos a melhorar, claro. Nada se alcança sem esforço e força: nem as pessoas que se s
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que se sentam no topo se podem dar ao luxo de não continuar a lutar para serem de facto os melhores. E nunca nos podemos privar de coisas novas, afinal há uma diversidade de atividades, projetos, trabalhos em que nos podemos envolver. Há espaço para todos. O que mais vi até agora na FCSH, fora de brincadeiras pessoal, é talento. Há tanta gente com saberes, ideias e projetos diferentes. Existe tanta vontade própria. E isso é lindo. É importante para se ser bem sucedido, sendo portanto mais um dos outros passos: ter vontade. Todos temos um bocadinho para dar ao mundo. Tens o teu talento para dar, a tua essência. E há ainda múltiplas outras questões que envolvem toda aquela burocracia que nos chateia, e que, efetivamente, nos vai chatear quando procurarmos um trabalho: os recibos verdes, o ordenado mínimo, os impostos e o IRS, a segurança social, trabalhar por conta de outrem, ter um contrato de trabalho, ou ser trabalhador independente. É a realidade que vamos ter que enfrentar um dia e pode ser muito chata. Teremos que fazer escolhas. O mercado de trabalho não é perfeito, nem muitas vezes as condições laborais em que nos vão querer submeter o são. Temos que saber procurar aquilo que é melhor para nós, o que nós gostamos e aquilo a que temos direito. Cabe-nos a nós decidir o que fazer e o que podemos fazer. E mais do que isso, temos a oportunidade de fazer mais e melhor, de forma a mudar muita coisa no mercado de trabalho. Somos de facto uma geração com muito a dar.
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dar. E é aí que passamos a outra questão: a geração Z, conhecida como os «nativos digitais». Li um artigo sobre a nossa geração, e a verdade é que há sempre algo a dizer, e nem sempre é positivo. Há pessoas que nos desprezam: dizem que somos demasiado orgulhosos, egoístas, individualistas, arrogantes e até que achamos que nada é suficientemente bom para nós. E depois há as pessoas que “meio que nos veneram”. Dizem que somos uma geração licenciada, que privilegiamos as «saídas profissionais e o gosto pela área de trabalho» em detrimento do salário. Dizem que não «gostamos de esperar» para subir na carreira, e que exigimos seguro de saúde, férias e flexibilidade de horários. Caracterizam-nos como autónomos, perfecionistas, criativos, organizados, autênticos, adaptativos e ágeis em trabalho de equipa. Então, do que andam aí as gerações passadas a falar, se nós temos um mundo totalmente transformado à nossa frente? Temos de enfrentar situações, ter habilidades e conhecimentos que antes eles não precisavam de ter. Por mais coisas más que haja para nos criticar, nós estamos preparados para o mundo e para o mercado de trabalho que nos espera. Sim, estamos. Sempre com muito a aprender, mas isso não nos podem tirar.
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VI, "Mios Phoemas" SARA MARGARIDA FRANCISCO @arckeysa
Há uns dias atrás, caí de joelhos no chão e gritei alto ao céu, a chorar. Mas os pássaros não deixaram de voar, o vento não deixou de soprar, e o sol não deixou de brilhar. Encolhi os ombros num “tanto faz”, eu só queria a liberdade do verão, para presa à sombra do chapéu puder ficar. Mas, enfim, aprendi que a vida é mesmo assim, ela nunca espera ou quer saber de mim.
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ENTREVISTAS
a Feliciano Da
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PEDRO FERNANDES
Tendo estudado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa como foi o seu percurso académico como estudante e como dirigente associativo? Como era ser dirigente associativo no tempo da ditadura fascista do Estado Novo? Durante a ditadura de Salazar o Governo publicou, em 1956, o Dec-Lei 40.900 que obrigava as associações a submeter os seus dirigentes eleitos à aprovação prévia do Ministério da Educação. Todos aqueles que não fossem afetos ao regime ou que se manifestassem contra ele eram excluídos e severamente punidos: centenas foram presos ou expulsos da universidade e as suas associações encerradas. Por essa razão havia muito poucas associações de estudantes nas três únicas universidades do País. No Porto só existia a Faculdade de Farmácia e em Lisboa, o Governo tinha extinto compulsivamente, por exemplo, as Associações da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Letras cujos estudantes não desistiam, criavam pró-associações e continuavam a luta. Durante a crise de 1962, eu próprio fui vítima dessa repressão: por ter sido um dos 83 estudantes que fizeram a greve de fome na cantina da cidade universitária e no ano seguinte como presidente da Associação dos estudantes da Faculdade de Ciências, fui preso e expulso da Universidade.
Na altura por que se batia o movimento associativo? Quais eram as reivindicações? Como era feita a luta? Os estudantes lutavam por uma maior autonomia das universidades, pelo direito de associação, pela sua representação nos órgãos da Universidade e pela democratização do ensino. Queriam, ainda, reforçar o movimento associativo através da criação de estruturas associativas de coordenação entre as três universidades do País. A crise de 1962 e a greve às aulas foi desencadeada pelas associações face à proibição pelo governo do Dia do Estudante cujo lema era «a unidade de hoje pela unidade de amanhã». Eram reivindicações que no contexto de agora podem parecer pouco ambiciosas, mas integravam-se no contexto de então da luta contra o regime fascista e causaram o repúdio do Governo.
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Qual foi a importância do movimento associativo para o combate e resistência fascista? De que forma a luta estudantil contribuiu para a construção do 25 de Abril? A luta nas universidades contra a ditadura nunca deixou de existir e as crises de 1962, e depois a de 1969, não foram acontecimentos isolados, mas sim oculminar de décadas de luta contra a ditadura em que importantes movimentos ocorreram, quer de estudantes quer de professores. Mais de um milhar de estudantes foram presos e expulsos. Neste contexto é justo e inquestionável destacar o papel determinante que o Partido Comunista teve na politização e mobilização dos estudantes, bem como no desencadear e na condução das crises académicas de 1962 e 1969, procurando manter o caracter unitário da acção. Isto permitiu o alargamento da base de apoio e o reforço do movimento associativo, simplesmente pelo facto de muitos dirigentes das Associações serem militantes do Partido Comunista. Nesse sentido, a luta dos estudantes contra o fascismo contribuiu para criar as condições que estiveram na origem da Revolução de Abril. Também é incompreensível não situar a luta dos estudantes no contexto do movimento operário e democrático de oposição à ditadura que, então, se vivia em Portugal. Nomeadamente, com as eleições legislativas de 1968 e com as numerosas greves dos trabalhadores.
ENTREVISTAS
Acha importante continuar a assinalar e a relembrar a Revolução nos meios estudantis? Porquê? É fundamental que os estudantes não esqueçam o que significou o 25 de Abril? As novas gerações, que já nasceram em liberdade, dum modo geral, desconhecem o que foi o regime fascista e a importância que a Revolução dos Cravos teve para o povo português. Por isso, e na falta de informação nos manuais escolares que os esclareçam, muitos sócios da URAP (União de Resistentes Antifascistas Portugueses) têm ido, todos anos, a muitas Escolas do 2º e 3º ciclos por todo o País, falar aos estudantes sobre a Revolução dos Cravos. A Democracia não é um dado adquirido, e quem esquece a história corre o risco de vê-la repetirse.
CANÇÕES DA REVOLUÇÃO PLAYLIST DE ABRIL • AEFCSH
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CONCURSO DE ESCRITA MENÇÕES HONROSAS
MELHOR TEXTO Catarina Pimentel Neto
Catarina Valada
Francisco Azevedo
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Cigarros de Mentol CATARINA PIMENTEL NETO
Acordou atrasado. Não é que tivesse horas para estar nalgum lado ou horário a cumprir, mas estava atrasado no dia, já perdera a manhã e, como há muitas semanas, não havia pequeno, só almoço. De repente estava no teatro, se alguém lhe perguntasse como tinha chegado ali teria dificuldade em jurar resposta, tinha saído de casa, posto os fones, e o caminho até ao comboio, a troca para o metro, os passos e as esperas das passadeiras eram já tão mecânicos. A soundtrack conduzia a mente em fugas do real e o corpo lá se conduzia sozinho até aos compromissos com a realidade. Entrou no teatro, cumprimentou o porteiro com um aceno e um movimento de boca de como quem diz bom dia, mas sem sair nenhum som. Foi pelos corredores despidos que levam até às salas de ensaio, entrou numa que era toda espelhada numa das faces e que num dos cantos da face oposta tinha um piano, que parecia ainda mais preto em contraste com o castanho escuro do resto da sala. Sentou-se ao piano, caneta aberta, folhas em branco, só com as linhas de pauta, que a pareciam fazer ainda mais vazia, por serem estranhas assim nuas de chaves e notas. Nada. Ajeitou o banco, as luzes, endireitou as folhas, pegou na caneta, esticou as costas. Nada.Pegou no casaco que tinha deixado no bengaleiro, apalpou-o, tirou o maço, o isqueiro e uns trocos para o café. Uma pausa, uma pausa havia de pôr a cabeça a mexer, depois ia ser o resto do dia, de seguida, pensava para si próprio enquanto a máquina da entrada chiava e suava vapores para tirar um café que, com tanto sinal de esforço, se esperava melhor do que realmente é.
CONCURSO
MELHOR TEXTO
Pegou no copo de papel e foi encostar-se à parede exterior do teatro, bebericava o café que tinha de quente o que tinha de mau, e pensava como se tentava enganar até a ele mesmo Pausa, que pausa? Acordaste há 1h, olhaste para o trabalho à espera que ele te dissesse o que tinhas de fazer, percebeste que não sabias o que estavas a fazer e fugiste. Chama as coisas pelos nomes, isto é uma fuga! compor fugas…Que belo músico este que anda na fuga da composição em vez de a compor fugas… O café acabou, olhou para o maço e escolheu o único cigarro que tinha. Cada dia que passava sentia mais que iam descobrir que era uma fraude, que iam perceber que as análises e relatórios tão elogiados, as interpretações tão bem cotadas, as conversas tão elucidadas tinham sido meros acasos, tinham sido momentos de iluminação, tinham sido consequência de orientações, sem as quais não saberia para onde se virar. Era uma fraude, e vinham tirar-lhe o diploma do conservatório, retirar-lhe os louvores e os aplausos, vinham dizer-lhe que os professores e as professoras se tinham enganado e não deviam ter estado à espera de grandes coisas dele, vinham dizer-lhe que já não podia ser músico e que lhe era pedido que não tocasse em mais uma tecla que fosse. Deu mais um bafo. Não podia ser, ninguém podia saber, quem sabe podia viver uma vida inteira a passar-se por capaz? A dançar entre conversas e falar só quando dominasse o assunto, a compor o suficiente para parecer que sabia muito mais quando aquilo era tudo o que tinha para dar, a dominar uma parte de tal forma que não lhe fosse exigido saber mais nada, assim poderia sentir o peso esmagador da sua ignorância sozinho, um dia haveria de morrer e ninguém tinha como saber que
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tinha fingido a vida inteira. Um ruído impositivo interrompeu-lhe o pensamento. Era um camião do lixo, fora de horas, nunca tinha visto um fazer uma ronda de dia, talvez por isso nunca tivesse estado tanto tempo a olhar para uma recolha de lixo. Depois da surpresa que este evento lhe causou, simplesmente por acontecer fora do horário habitual, começou a admirar o trabalho daqueles homens. Ali, a olhá-los deu por si a invejá-los. Riu-se sozinho, num sorriso repuxado para a esquerda e com o cigarro ainda entre os lábios, tinham-lhe oferecido o trabalho com que sempre sonhara e ele estava ali parado a cobiçar a vida dos recolhedores de lixo. De repente os recolhedores estavam como que num segundo plano, desfocados, pelos olhos que perceberam que a mente já não estava preocupada com a imagem, e que ele fixava um ponto que não saberia nomear se o inquirissem. A vida dele podia ser assim, como a daqueles homens. Uma hora para acordar, para entrar e sair ao trabalho, para jantar em família, para adormecer e as mesmas horas para fazer o mesmo no dia seguinte. Apostava que os recolhedores de lixo não levavam o trabalho no pensamento quando saiam, acabava a hora e eram livres de pensar o que quisessem, o trabalho só os incomodaria quando chegasse novamente a hora dele e não tomava a vez da hora da família, do jantar, da televisão, do sono. Sentia-se capaz de dar tudo naquele momento por um trabalho de picar o ponto, das nove às cinco, um trabalho que fosse um sustento e não uma vocação, um trabalho de que quisesse fugir, e a que fugia ao fim de cada dia, em cada folga. Outra fuga, desta só pensada. Voltou para dentro e sentou-se ao piano, marreco e sem ter em mente as insistentes correcções de postura que o faziam, por reflexo, endireitar-se sempre que via o instrumento. Olhou outra vez para aquelas
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aquelas folhas, ainda não tinha nada para lhes dizer, talvez não tivesse de ser ele a começar a conversa… Tirou da pasta uma folhas gastas, a que endireitou as pontas que começavam a dobrar, num gesto que se assemelhava a uma carícia. Colocou-as no suporte e admirou-as por uns segundos antes de começar a tocar. Mal os seus dedos se aperceberam de que melodia se tratava começaram a dançar sem precisar de verificar as notas, conheciam aquele ritmo, sabiam qual era o próximo passo, eram com as teclas como um casal de muitos anos, que, desde a primeira valsa no copo-de-água até aí, dançavam sempre que a música que tinham tomado como sua passava. A partitura estava ali para ele olhar para ela, não a seguia, mas gostava de a ver, e ali ficava a contemplá-la enquanto os dedos a diziam. Não sabia se este amor ia ser a sua morte ou a sua alegria, mas sabia por certo que lhe era completamente fiel, que aquele desejo que tivera ao sabor do cigarro era a sua fraqueza a pedir-lhe que lhe fosse fiel a ela, prometendo-lhe que com a resignação viria o descanso que um coração atribulado por uma paixão nunca poderá ter.
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Fosse esta a primeira vez que fazia esta oferta a si próprio e talvez tivesse cedido, mas estava calejado, já tinha considerado abrandar este amor, moldá-lo à sua medida, uma que coubesse nos seus receios. Ainda estava no conservatório quando começou a escrever jingles para uma agência publicitária, tinha conseguido o lugar com a ajuda de um amigo que lá andava para, como ele dizia, fazer uns trocos fáceis e ajudar com as despesas dos estudos. Nenhum deles sonhava com aquilo, mas, precisando de trabalhar, sempre era música. Quando acabou o curso quis sair, queria fazer música e não usá-la para vender, sabia-o com toda a certeza, mas conseguia ouvir ecoar na sua cabeça as incertezas que isso trazia. A certa altura não sabia se o assustava mais a ideia de não conseguir ganhar a vida como músico, ou o compromisso que seria viver de uma paixão, a que teria de se entregar totalmente, sem hora de saída ou de entrada, que ocuparia a hora da família, do jantar, da televisão, do sono, e a que a sua mente não fugiria em folgas ou fins-desemana. Por fim fez o que se faz quando se ama, sem nenhuma garantia de retorno, de sucesso ou de felicidade, entregou-se como um todo sem saber se a sua totalidade chegava. Não tenho nada para te dar hoje, suspirou como se se dirigisse ao piano esperando o seu perdão, como se tivesse desiludido o seu amor. E como se de um grande amor se tratasse, amanhã lá estariam, todas as teclas no mesmo lugar, à espera do que ele tivesse para lhe entregar. Desceu a rua, luminosa como só de noite, nenhum sol poderia competir com os leds que chamavam todos a não deixar o dia terminar, que os convidavam para cada café, cada boate, cada espectáculo disponível. Iluminado também ele, ia distraído, com os olhos nas estrelas, de néon, até que ouviu uma música tão calma que não parecia bater certo ali.
CONCURSO
Olhou para baixo, este concerto não tinha placa iluminada a marcar o lugar, era só um sem-abrigo e a harmónica que beijava. Tocavam uma daquelas músicas que conheceu jovem, mas que não eram da sua juventude, era de outras, mais antigas, mas que mal a ouvira sentira um enamoramento, como quando se vê uma mulher bonita com quem se conversa a noite toda e nos sabemos apaixonados, sem mesmo saber que vida vive para além daquele lugar e daquela conversa. De repente a mulher bonita esvaneceu-se e a sua mente era mais um daqueles outdoors, onde se reproduzia o anúncio de cigarros que pedira emprestada a melodia para informar os compradores que agora pode ter o prazer do costume com um toque de menta. Piscou os olhos, como se a memória do ecrã publicitário o encandeasse e cerrou os dentes enquanto inspirava fundo. Era tudo, tinham comprado tudo, até aquela melodia que descobrira a pouco e pouco, cada vez mais profundamente, cada vez mais envolvido, até ser tão sua que se a cantasse todos acreditariam que a tinha escrito ainda antes de nascer, e que agora o lembrava de cigarros de mentol. Queria pegar nos trocos que tinha no bolso e atirá-los ao semabrigo para que parasse de tocar, queria proibir aquele anúncio de passar mais, queria que mais nenhuma música bonita pudesse ser usada para vender fosse o que fosse. Expirou, uns metros à sua frente estava um quiosque, sentiu os trocos nos bolsos, Um maço desses aí, apontou, Dos de mentol?, É. Tacteou o casaco à procura de lume, acendeu um cigarro, e assistiu àquele concerto. Bateu palmas, ainda com o cigarro entre os dedos, soprou um fumo mentolado, e deixou os trocos que não tinha deixado no quiosque no copo do artista.
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MENÇÃO HONROSA
O Velho Barbeiro FRANCISCO AZEVEDO
Há um velho barbeiro no fundo da minha rua, que faz a barba dos homens com um bisturi. Foi o barbeiro do meu pai e do pai dele e do pai dele, foi o barbeiro de todos os homens da minha família. Será também barbeiro dos meus filhos e dos filhos deles e dos filhos deles, que ainda estão para nascer, como todos os filhos de todos os filhos que ainda estão para nascer. O velho barbeiro, de velho que é, na cara já só tem rugas, não se vê nariz, nem lábios, nem olhos. Há muitas gerações que não se lhe conhece a voz, que não se lhe conhece uma palavra, que todos os homens chegam a uma hora de um dia certos da semana, se sentam e saem de barba feita, muito bem feita, feita como noutro lado não se faz. Paga-se o que se tem a pagar, um preço que nunca disse a ninguém, que sempre se soube, assim como sempre se soube a que horas aparecer. Não há um homem à espera sentado (até porque na barbearia há apenas uma bancada com coisas da barba, a cadeira que é nossa por uns minutos e o barbeiro velho), nem há umhomem à espera à porta. Todos na aldeia sabiam a que hora ir, todos eram atendidos na hora, todos se despachavam à hora certa. Ninguém sabia bem a idade do barbeiro, ninguém lhe perguntava por respeito, por temerem serem ignorados, por não saberem como falar dessas coisas de idade. Havia rumores de que tinha duzentos anos, havia rumores que era tão velho como o tempo, havia rumores de que os barbeiros iam mudando, mas o método não. Hoje ninguém se dá a rumores, a fome é muita para nos pormos com conversetas sem sentido nem razão, que especular a vida dos outros é p’ra gente com dinheiro e tempo, e aqui na terra nós só temos tempo para trabalhar. Vamos lá, saímos lavados e limpos, não precisamos de falar
falar de quem faz o seu trabalho assim, impecavelmente. De tempos a tempos, vinha gente da cidade para conhecer este misterioso barbeiro de anos e anos e anos, vinham para saber a sua idade, ou saber o seu segredo, vinham cá para incomodar um homem que só queria cortar barba, só queria cortar a barba das pessoas certas à hora certa. Os cães da aldeia, vadios, todos o eram, pois ninguém tinha dinheiro nem paciência para cães, afugentavam essa gente, mal os cheiravam no cimoda rua, mal lhes sentiam as águas de colónia e os perfumes caros, mal ouviam os pneus e os motores dos carros e logo corriam para afugentar aquela gente cusca, que procurava fazer uma história, às custas da vida pobre de um homem, de uma aldeia. O meu pai, deus o tenha, contava sempre a mesma história em dias de ir ao barbeiro. Naquele dia, enquanto púnhamos as ovelhas a pastar, auxiliados pelos vadios, ele começava a contar a sua história. Antes de o velho barbeiro nada havia por estes lados. Não havia sobreiros, não havia azinheiras, a cortiça não existia, as pessoas não existiam por isso. Não corria o rio que hoje serve de alimento às plantas que naquelas terras crescem e se fazem grandes e se fazem úteis, antes
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antes não havia pasto e não havia pastores, nós, manueis, desde sempre pastores, desde sempre gente que guia as ovelhas, não havíamos nestas terras. Antes do barbeiro que é tão velho como o tempo, não havia cães vadios, não havia lavadeiras, não havia gentes endinheiradas com herdades, não havia cearas, não havia o calor abrasador do verão, nem o frio frio do inverno. Antes do barbeiro que se dizia ter duzentos anos de velhice, não havia o que quer que fosse por aquelas terras. As arvores só cresceram depois do barbeiro se instalar, o rio só por ali começou a passar nessa altura, os animais e as gentes só chegaram já o velho barbeiro tinha a sua barbearia montada, uma bancada para as coisas da barba, uma cadeira que era dos homens por uns minutos. O meu pai contava esta história sorrindo, era uma trapaça qualquer que mistificava a idade do velho barbeiro. Nenhum homem podia ser mais velho que os rios e os sobreiros, que nós, os manueis pastores, que as lavadeiras, que os cães vadios, e as cearas e as herdades. Nenhum barbeiro poderia ter todo aquele poder; nem os reis tinham esse poder, dizia-lhe eu, ofendido por o meu pai me querer passar a perna, me gozar daquela forma. Meu pai sorria, não me gozava, dizia que um dia perceberia. Assobiava e depois de guardas as ovelhas no lugar delas, ia ao barbeiro feliz. Eu ia para casa, chateado, para alem de me gozar, faziame estúpido, que não o percebia por ser criança. Desde que tenho uns pelitos mais escuros debaixo do nariz, que vou ao barbeiro. Um dia acordei, sabia que era o meu dia, e por volta das dezoito horas fui ao barbeiro. Era verão, o dia não morreria até quase às vinte e duas, então os homens ficavam na converseta a discutir a idade do barbeiro, no tasco. As mulheres tinhamno discutido durante o dia, enquanto lavavam a roupa dos ricos das herdades, enquanto lhes levavam as roupas lavadas e secas. Eu fui ao barbeiro, tinha no bolso as moedas certas, senteime, o velho deitou-me a toalha branca sobre a roupa, apertou-a no pescoço e pôs uma toalha pequena e dobrada no meu ombro direito, espuma
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espuma na cara toda, embora só tivesse pelos no bigode, com o bisturi tirou a espuma, o bigode. Não disse nada, não perguntei nada, não precisei. Ele fez uma vénia, não precisou de me mostrar nenhum espelho, sabia que estava com a cara perfeita, e ainda de costas curvadas ele esticou o braço, sem levantar a cabeça, recebeu as poucas moedas que lhe havia colocado nas mãos. Ainda hoje é assim. Nunca cortou ninguém, nunca faz mal uma barba, não se sabe o porquê de usar um bisturi, não se sabe o porquê do que quer que fosse. Vamos ao barbeiro à hora certa no dia certo, porque é hábito, não há uma razão, além do hábito. Acordávamos um dia e sabíamos que era o primeiro dia de ir ao barbeiro, todas as semanas do resto das nossasvidas, naquele dia da semana, vamos ao barbeiro, como as ovelhas vão ao mais verde dos pastos, como os cães vadios vão aos lixos rezar a sua sorte, como o rio corre o seu curso. Todas as gentes são importantes, todas as pessoas têm o seu valor e o seu poder. Eu posso ser apenas o manuel pastor, filho de manuel pastor, neto de manuel pasto, e pai de manuel pastor, mas sem a minha pessoa, sem meu pai, sem meu avô, e sem meu filho, não haveria ovelhas a que tirar o leite dos tetos, a que tosquiar a lã da pele branca das ovelhas brancas e da pele negra das ovelhas negras; sem as lavadeiras, sem as mulheres e as mães, sem as mulheres e as filhas, não haveria as roupas lavadas dos ricos, não haveria ricos; sem o barbeiro, não haveria o rio e os sobreiros e azinheiras e não haveria os pastos e os pastores, as lavadeiras e os ricos. Sem esta gente toda, nada haveria, e o velho barbeiro, cuja idade nos foge a todos, o velho barbeiro que tem a idade do tempo, o velho que corta a barba a todos os homens com um bisturi, uma vez por semana, a dia certo, a hora certa, durante toda a vida desses homens, se esse velho barbeiro não existisse, nada aqui existiria, nada aqui à volta existiria, nada existiria.
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MENÇÃO HONROSA
Síndrome do Impostor CATARINA VALADA
Talvez um dia tenha corrido por campos abertos, sem nada se não um sorriso. As memórias emergem de quando em vez, de tempos em que a abençoada ignorância me embalava no seu colo. Não sei até que ponto somente as imagino. Sei lá se as flores das minhas recordações são espasmos involuntários da mente que corre a mil à hora. E que mente outros tantos. E como caio eu na mentira do passado solarengo que não sei se tive. Como me bato e rebato sobre quem não sei se fui e quem podia ter sido não fosse perder o rumo sem ter dado conta. Perdi quem sou como quem deixa as chaves de casa no comboio. Já passou. É inútil correr, é inútil chorar. E inerte fico na plataforma pois me convenci de não há para onde ir. Pois me inebriei no vitimismo de quem nunca faz, somente lhe acontece. Como pesa nos ombros a vida de quem não tem culpa de nada. E enquanto escrevo a narrativa do desfortúnio, o tempo passa. E o brilho de outros tempos, eclipsado, enquanto espreitava o mundo cheio de nada do outro lado da rua. Sei lá se me levaram o entusiasmo ou se eu própria lhe dediquei o cortejo fúnebre do cansaço. De quem é a culpa se sou eu que pinto quadros a duas cores, negro e escuro? Se sou eu a dar o primeiro dos vinte e um tiros em nome de quem podia eu ter sido? Sou eu que uivo feita carpideira, debruçada no meu próprio caixão. Fui eu que escondi a chave dos meus próprios grilhões e choro a mágoa de quem vê o céu recortado. Sei lá se me habituei à gaiola pelo comer que chega a horas certas. Sei lá se foi homicídio o que pratiquem contra mim mesma sem perceber a faca na minha própria mão.
Ou sei lá se cometo difamação premeditada, protestando que não sou quem nunca sequer podia ter sido. Ou que sou sem dar por isso, pois queimo os olhos a fitar o sol, à espera que volte o eclipse que pode nem sequer ter acontecido, enquanto há um mundo do outro lado da rua. Sei lá, não vi. É a lata de quem tem o que os outros não têm, faz o que os outros não fazem e prega aos sete ventos a titânica desgraça em que não vive. Sou eu, a Hipocrisia, por medo, terror ou fobia, escolhe tu. Talvez jogue às escondidas com quem podia ter sido, temerosa por não lhe chegar aos calcanhares. E afasto-a de mim, fingindo ignorância. É mais fácil varrer inconvenientes para debaixo do tapete. Cá estou eu, impostora, dona e senhora da minha teatral mentira, sem mais nada a que chamar de meu. E agora digo este monólogo, sozinha, no palco que estas duas mãos enrugadas construíram e hoje tanta substância tem quanto o ar que falta a quem se engasga às portas da morte. Sei lá. Deixa-me em paz. É a birra de quem não dorme desde que acordou para a vida.
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A DESPERSONALIZAÇÃO NA EVOLUÇÃO MARIA GONÇALVES
17 de julho do ano (deixo a decisão ao critério do leitor e da sua consciência).
Só mais um dia de tantos outros que a história humana já viveu, é apenas mais um dia onde o sol nasce forte no horizonte, pronto para nos dar uma chance de começar de novo, de tentar mais uma vez, de amar mais um bocadinho. Mas desta vez o panorama é diferente e o mundo, assim como o universo e todos nós, mudou. Joana acorda pronta para mais um dia de trabalho, é jornalista numa revista ambiental, segundo esta o seu sonho não era mudar o mundo, não queria ser uma heroína individual, queria sim mudar as pessoas, para que estas, juntas, pudessem mudar o mundo. É sábado de manhã, e com a sua caneca habitual, que agora espalha o forte aroma a café pelo quarto, e com o coração quente (talvez o café seja afinal a cura para todos os males), prepara-se para escrever no seu diário. Há rotinas que nunca mudam, e os vários diários que já havia escrito e que se acumulavam agora numa caixa junta à sua cama eram a prova disso. Pegou no seu diário e na sua caneta da sorte (há crenças que são intemporais) e dirigiu-se à varanda, encarando a grande cidade que se erguia à sua frente, e refletiu, e refletiu, e refletiu. Eternidades se passaram, os metros chegavam e saíam, as pessoas corriam, outras andavam, uma ou outra sorria, outros perdiam-se nos seus pensamentos, mas o seu corpo permanecia imóvel. E como se a suavidade de uma pena tocasse no seu rosto inesperadamente, esta saindo do seu transe começou a escrever:
''Querido pai, Hoje escrevo-te para confirmar que a saudade permanece (e sempre irá permanecer). Escrevo-te porque vejo um pouco da tua alma em todo o lado, quando ligo a televisão e está a dar o teu programa favorito, ou quando tenho um dia tão mau que só me apetece resmungar o dia todo (como tanto gostavas que eu fizesse porque dizias que me dava caráter e força para me tornar a mulher que desejo ser), e vejo um pouco da tua alma e sinto falta da tua presença quando tenho medo. E hoje escrevo-te porque tenho medo, porque queria um abraço teu, um ''vai ficar tudo bem'', o teu sorriso de esperança, as tuas palavras de força, porque embora a incógnita indecifrável seja o que acontece quando deixamos este corpo humano tão frágil e incerto, tenho a certeza que estás mais feliz agora do que serias aqui. Hoje escrevo-te porque o mundo já não é o mesmo que conheceste. Porque há duas semanas que sofremos com as temperaturas mais altas de que há registo. Porque enfrentamos os piores incêndios, consequentes das temperaturas descontroladas. A maioria da agricultura já foi destruída pelos fogos e a maioria que sobrou está demasiado desgastada. Já não ouço os pássaros como antes pai, a maioria não sobrevive a estas temperaturas e muitos não têm escolha se não procurar outros locais para viver. O céu não é como o azul puro e limpo que me contavas da minha infância pai, hoje o céu é marcado por uma névoa quase impercetível mas presente de poluição e as empresas nunca produziram tanto como hoje.
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Não somos 7 biliões de pessoas no mundo, o número já aumentou para quase 11 biliões e o ar puro já não é como antes porque a necessidade de construir mais e mais prédios para habitação não para de crescer, e se isso significa que o lucro não para de crescer, então as suas construções também não. A produção alimentar está a tornar-se insuficiente para alimentar toda a população, e a maioria da população, por ainda comer carne, está a sujeitar a que os animais sejam tratados de formas desumanas para conseguirem produzir carne suficiente para venda. Os desastres ambientais têm acontecido um pouco por todo o mundo, e serão cada vez mais frequentes, alertam os cientistas. As cidades nunca estiveram tão desenvolvidas, mas também nunca tiveram tantos carros e tanta poluição. A política nunca esteve numa crise tão grande, com uma desconfiança crescente face à despreocupação com a situação ambiental que vivemos, e os protestos crescem todos os dias, ouvese rumores no meu jornal que está para perto uma revolução. Ah! Como me esqueci de te escrever que fui visitar a tua terra na semana passada, e deparei-me com a ausência de vida humana, pois a maioria dos pequenos negócios não sobreviveu face à oferta das grandes empresas, e as pessoas são forçadas a procurar outras formas de sobreviver. Perdi conta ao número de animais que já foram extintos, seja pela destruição de habitats, pela incapacidade de adaptação a esta nova realidade de temperaturas tão negativas ou tão altas, ou pela despreocupação humana generalizada em preservá-los. Os níveis médios da água do mar subiram imenso, e os glaciares tornam-se cada vez mais uma raridade difícil de preservar, e a ilha de lixo que pairava no oceano há uns anos duplicou de tamanho, e muitos animais aquáticos acabaram por morrer presos em todo aquele lixo, acabando por dar à costa meses mais tarde. A ausência de Natureza faz-se sentir cada vez mais, e os parques da cidade, que um dia tão tomados por garantidos, tornam-se agora relíquias onde a maior parte da pessoa tenta recuperar aquilo que a cidade lhes roubou.
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Pai, gostaria que estivesses aqui para ver. Para veres a forma como a medicina nunca esteve tão avançada, como tivemos o prazer de descobrir mais e mais sobre o espaço, como a informação nunca circulou tão depressa, onde o 5G é agora uma realidade fixa, como a cidade nunca foi tão movimentada e a produção nunca foi tão rápida e fácil. No entanto, porque é que eu sinto que toda esta evolução na verdade é apenas um reflexo da nossa capacidade de destruição? Nunca fomos uma raça tão egoísta, tão gananciosa, tão cruel e desligada com a Natureza como somos hoje pai, e a forma como deixámos escapar por entre os dedos aquilo que realmente importa. Porque deixámos que o consumismo nos consumisse, porque queremos sempre mais, e mais, e mais, e no entanto nunca chegamos a ter realmente nada. Porque nos tornámos números em série numa linha contínua de produção, porque nos despersonalizámos, afastámo-nos da nossa essência, porque nos tornámos frios e desligados do mundo das pessoas que nos rodeiam. Porque o tempo tornou-se um inimigo que não conseguimos controlar e a crise ambiental tornou-se um problema que não conseguimos solucionar. A Natureza virou-se contra nós porque nunca estivemos com ela, porque aqueles que gritaram e tentaram foram silenciados pelas forças produtivas e ninguém nunca se pronunciou sobre isso. Somos a sociedade que vive do consumo, que acredita que é ele que nos dá sentido. Declarámos uma guerra à Natureza que saberíamos que íamos perder, e perdemos pai. Porque a Terra não é apenas a Terra, é a nossa casa. E mais do que nossa casa, a nossa Mãe e porque estou cansada de ouvir a frase ''estamos a matar a terra'' quando na verdade a única coisa que estamos a matar é a nossa raça. Que tolos egocêntricos somos por pensarmos que a Terra, no seu perfeito equilíbrio e ao mesmo tempo constante mudança, precisa de nós para sobreviver, quando somos nós que precisamos tanto dela para viver.
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Porque cada vez que demos um passo em frente do consumo e do egoísmo, demos um passo atrás na nossa permanência aqui, pois a Terra, após a nossa partida, irá eventualmente regenerar-se, mas nós já teremos partido, por reflexo das nossas necessidades demasiado insaciáveis que nos fazem esquecer que não há nada mais bonito e essencial que experienciar a Natureza, e que tanto temos a aprender com ela. A pergunta que paira no ar é se ainda vamos a tempo pai, se ainda conseguimos salvar o que resta com salvação. Se ainda vamos a tempo de daqui a 10 anos poder experienciar as maravilhas naturais que sonhamos em visitar. Será que a resposta é incerta, ou simplesmente nos recusamos a ouvi-la, como recusámos estes anos todos a ouvir a Terra? E as suas necessidades? Tenho saudades tuas pai, e tenho saudades de saber o que o futuro me reserva. E tenho medo. E hoje choramos porque poderíamos ter agido mais cedo. Choramos porque não somos números, nem somos robôs, no entanto todos fomos substituídos por eles e as nossas emoções são cada vez mais inválidas numa sociedade que as encara como uma desaceleração dos níveis de produção. Choramos porque sabemos e reconhecemos todos aqueles que tinham o poder e o dinheiro para agir, e poder fazer algo, decidiram permanecer em silêncio. Pai, se isto é fruto da nossa evolução, podemos por favor começar de novo, assim como o sol nasce e eventualmente se põe, podemos nós também reverter as nossas atitudes? Podemos tornar-nos humanos outra vez, e viver em paz com a Natureza, reconhecendo-a como nossa aliada e a nossa maior prioridade, e não apenas mais algo para dominarmos? Será possível que as pessoas reconheçam os seus erros e os seus hábitos que deixam um rasto de destruição, e que decidam finalmente acreditar que a sua atitude pode mudar o mundo? Que a esperança e ação de uma pessoa num lado, inspira e causa uma reação em outro?''
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As lágrimas deixavam a sua marca na folha de papel e a tinta da caneta encontrava-se no fim. Joana levanta-se, absorta em toda a dureza da realidade que acabara de escrever, e olha para o céu. Pede um desejo, não sabe ela bem qual, nem a quem, nem o porquê. Não acreditava em nada, mas tinha esperança e fé em tudo. Embalada pela luz do sol que batia suavemente na sua cara e a relembrava das pequenas necessidades da vida, o cantar de um passarinho destaca-se no meio do ruído constante e frio da cidade, e é como se o mundo parasse. Como se naquele momento, absorta pela Natureza, tudo aquilo fosse um pesadelo e que eventualmente acordasse, num campo de flores, rodeada pelo ar puro, num mundo onde nem o brilhar do sol apagasse o azul do céu. E naquele segundo, envolta em esperança, acreditou com toda a sua força que ainda houvesse uma solução, e que os nossos erros se tornassem reflexo da nossa mudança.
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Desnudar PHOEBE
Que pena, que pena que é, Que Desse corpo lânguido, Que tanto seguras de pé, Não transpareça a Tua alma, Nem metade do que ela é Que orgulho é esse que carregas, Que peso a Ti tanto impões. Por que segues cambaleando, Tu, Por que mordes a Tua perna, uma, outra, Outra e outra vez. Que temes? Que Te vejam? Eu vejo. Sabes o que vejo? Pudesse Deus Te dar os olhos pelos quais Te vejo. Que visão. Não receeis dar-me o que guardas em Ti – Não receeis essa nudez, fria, que tanto queres desnudar. Sabes que Te amo? Amar é uma palavra forte, eu sei Não gosto de a dizer, mas pesa-ma na garganta Sabes que me dóis? Bolas, se dóis Temo que doas tanto que deixe de Te conseguir amar. Mas Tu não Te dás. Mas eu dispo, e dispo, desfolho cada parte do meu ser Desejoso de Te ver também. Não, para – não Te tapes Quero ver. O que temes? Deixa-Te cair, eu seguro-Te. São três da manhã e a tinta acaba-se-me Seca-se-me já a voz, Não consigo falar-Te. Não consigo chegar a Ti. Tu temes essa nudez crua que Te pertence Mas, amor, Tu não me deixas envolver-Te. Não me deixas ver-Te E isso dói-me. E choro Porque percebo que não Te amas Porque nunca, em momento algum, Te despes dessa nudez falsa, que carregas Mas que vejo desejosa de brilhar.
CONCURSO
Sabes o que desejo? Que digas sem medo, Sem dor, sem peso nenhum, essas palavras que Te atravessam a garganta, Que Te cortam, que Te ulceram o peito Que dão alento ao teu fôlego, sem o saberes. Que temes?, diz-me. De que tens medo? Sossega, eu estou aqui. Eu ouço-Te. E vejo-Te – se Te vejo… E desembrulho-Te com o pensamento na esperança de que Te deixes desembrulhar Porque o meu pai dizia, velho poeta, onde foste, que o amor só chega aos que se deixam Desembrulhar. Porque a nudez, o frio que sentes no corpo - eternamente abrasado por dentro – Faz desflorar toda a ventura. E sabes, amor, todo o homem apaixonado é venturoso Porque no amor encontra a verdadeira desventura de se dar. Mas ainda me dóis, E trovejo, agora, chovo sem cessar. Porque, mesmo que me dê, Tu ainda tens medo de Te dar. E assim vives Tu – Alegre, de peito cheio, inteligente, Saturada de homéricas qualidades, Mas pesada Presa Eterna e consecutivamente embrulhada. Antes de me despedir, de deixar eternamente que me seque a caneta com Que Te escrevo estas linhas Promete-me uma coisa Promete-me que, logo à noite, Pensas em mim E que, também Tu, pela força do pensamento, Me desembrulhas E, se tentares
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Fechar os olhos, O que vês? Essa luz, essa pequena luz, Que brilha sem brilhar, Que queima sem arder, Sou eu. Que vês? Amor, sou teu. Que Te guardem quentinha as memórias dos nossos beijos Que Te aconchegue antes de adormeceres o eco dos meus sussurros Que não me canse, nunca, de Te dizer Que Te amo E que me dóis, não por não me amares - sei que me amas – Mas por teres medo de Te dares. Confia em mim A verdadeira desventura desta vida reside aí – Na ventura de nos darmos a conhecer, De aprender a engolir a nudez pálida, imperfeita, De ao frio e à morte nos oferecer Porque, mesmo sendo esta flor desfeita, Há beleza em desnudar as entranhas geladas do nosso ser. Mas que pena, que pena que é, Que desse Teu corpo lânguido, Que tanto seguras de pé, Não transpareça a Tua alma, Nem metade do que ela é.
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BIBLIOTECA CATARINA AIRES
Há uma biblioteca a crescer dentro de mim. É composta por intermináveis corredores de prateleiras de livros e sinto-a em constante crescimento com o passar dos dias. Há também alguns livros que flutuam, que eu embalo entre o coração e a mente, e outros mais solitários que sempre souberam onde pertencem – normalmente escolhem assentar no coração; são sempre os mais tristes. Tenho livros de todos os tamanhos e géneros e sei tudo sobre cada um, mas não sou a autora de nenhum. Quem os escreveu, deixou-os cá dentro e depois partiu, deixando para trás os nossos momentos em palavras escritas com um tipo de carvão que só se encontra nas arestas dos pedaços de um coração estilhaçado. Quem me vê não acredita no peso que carrego todos os dias, no fardo em que ler se tornou. Quem me vê não repara na sombra das letras projetadas na minha pele, não vê os tremores que me percorrem os dedos e as suas pontas escurecidas. Quem me vê não compreende o amor amargo que sinto por cada doce palavra que escrevo nas páginas amachucadas dos meus livros. Quem me vê pergunta porque é que escrevo, se me dói tanto. Estes livros que escrevo não têm lugar nas minhas prateleiras, escrevo- os para tentar queimar aqueles que me foram deixados. Tento escrever livros de reconciliação, que me dêem a liberdade para queimar os que levo dentro de mim. Tento escrever porque preciso de me aquecer, porque livros de angústias, fechados com medo, são feridas que me gelam até aos ossos.
Por vezes, quando caminho pela escuridão dos corredores da minha biblioteca e olho para os livros que fizeram de mim a sua casa, ouço o meu nome partilhado entre suspiros. Avanço lentamente e acaricio as lombadas gastas como se de tesouros se tratassem. Visualizo as histórias que cada um conta, revivo cada momento, passo horas lá dentro. Pergunto às palavras quando é que ganharam espinhos, quando é que se tornaram tão afiadas, e elas dizem-me baixinho que foi durante a queda; pergunto às páginas porque é que não ardem e elas respondem que ainda não tenho o fogo certo. Ninguém me falou destes livros que levamos no peito e se fundem com os nossos ossos, ou que as palavras que antes eram conforto também poderiam fazer-me sangrar. A vida, afinal, é assim; criamos bibliotecas dentro das outras pessoas e sofremos por aquelas que elas criaram em nós. Sofremos pelas marcas que deixaram, pela permanência destas histórias que nos enchem e nos prendem e lentamente nos enterram sob o seu peso. Aprendemos a viver com estas histórias que deviam ser esquecidas, histórias previsíveis de finais tristes e sem lições de vida que nos reconfortam, porque a verdade é que nem sempre há lições de vida a tirar de cada dor vivida. Por vezes, só restam as mágoas e as suas várias sombras que dançam no escuro, pelo ar gelado da biblioteca.
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Relembro com pesar o vazio inocente que antes existia no lugar destas prateleiras, aquele que existia antes deste vazio cheio de conflito. Relembro um tempo em que não associava as palavras à tristeza que carrego atrás da pele, pois nunca uma biblioteca teria perdido o seu encanto não fosse esta metáfora. Nunca as palavras teriam perdido o poder de me reconfortar, nunca nenhuma se teria afiado para me golpear onde dói mais. Por vezes, quando o sol cai e posso misturar-me com a escuridão que a noite traz, enrosco-me nos cobertores e tento aquecer-me. Ouço o batimento lento do meu coração e pergunto-me se sempre bateu tão lento, ou se está cansado como eu. Sonho com um tempo em que não era feita de uma biblioteca de feridas nem de sombras dançantes ou vazios cheios de amargura. Sonho com um tempo em que um livro era apenas um livro e não um pedaço de mim, em que ninguém usava as arestas do meu coração para escrever, pois sangue nunca teria sido carvão se a tristeza não fosse tão facilmente maleável.
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ESPERANÇA NO AMANHÃ MARIANA SILVA
Nestes tempos que correm, em que atravessamos esta fase em que nunca pensámos estar, o ser humano está a ser posto à prova vinte e quatro horas por cada dia que passa. Foi de um dia para o outro, sem darmos conta do que realmente estava a acontecer nas nossas vidas, que reaprendemos a viver e que reaprendemos a amar, mesmo que à distância. Todos os dias são, para nós, um desafio. A vida que outrora vivemos não é mais a vida que nos vemos agora obrigados a viver. Em tempos, através de abraços, beijos ou apenas a presença física, mostrávamos o nosso amor e agora esse mesmo amor é provado se mantivermos a distância, porque é neste momento que a nossa maior prova de amor para com quem amamos é ficar longe deles. Esta nossa nova realidade mostrou-nos o poder das palavras, poder esse que muitos desconheciam, porque simplesmente insistiam não ser bons com elas. No entanto, nesta altura das nossas vidas, não temos nada mais para além de palavras. Ontem um abraço demonstrava o carinho e o amor, hoje demonstra egoísmo e irresponsabilidade. Vivíamos numa realidade em que o tempo faltava e agora queixamo-nos de não saber o que fazer com tanto tempo que temos. É irónica a maneira como as nossas vidas, em tempos, foram tão ocupadas, algumas delas em que nem restava tempo para família e amigos e é num momento como este, em que temos tanto tempo, que percebemos que famílias e amigos são sem dúvida melhor forma de ocupar o nosso tempo, estamos a valorizá-los precisamente quando não os podemos ter por perto.
É um facto que nos deixa a pensar na forma como encaramos a vida e na forma como estabelecemos tão erradamente as nossas prioridades. Vivemos num mundo novo, onde os antigos hábitos, que faziam de nós pessoas afetivas e acolhedoras, precisam de ser rapidamente esquecidos. Nunca pensámos que a melhor forma de demonstrar o amor pelos nossos passasse a ser estar à distância dos mesmos. Deixámos de estar todos juntos para trazer a mudança, porque a mudança que agora precisamos só chega até nós se todos nos mantivermos sozinhos. As pessoas protegem-se por todo mundo e ele voltou agora a brilhar, os pássaros voltaram a cantar, está tudo pronto para podermos voltar a brilhar com ele. Reaprendemos a viver, mas também aprendemos a valorizar as pequenas coisas que temos na vida, aprendemos a reaprender. Aprendemos de uma forma improvável a ser unidos, deixámos de ser 8 biliões no mundo em que cada um seguia o seu próprio caminho para sermos 8 biliões que lutam separados para seguirem um único caminho. Queremos voltar para um mundo onde podemos tornar a viver sem medo, onde podemos amar sem ser à distância e onde podemos abraçar de novo quem amamos. Queremos ser estes imensos 8 biliões de pessoas que lutam todos os dias para que o nosso mundo seja o melhor lugar para se estar e ser também os 8 biliões que merecem viver nele e que conseguem fazê-lo sem, por isso, tirar a vida que ele conquistou na nossa ausência.
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NOVA EM FOLHA
CONCURSO
O QUE É ÉISSO QUETANTO TANTO SENTES? O QUE ISSODO DO AMOR, AMOR, QUE SENTES? SARA FRANCISCO
Já não tenho dedos para contar as vezes que magoei as pessoas. Contudo, eu nunca contei as vezes que me magoaram a mim, nem quero tentar relembrá-las porque quando o faço volta a doer-me o peito. Há pessoas que contam as vezes delas como se fossem piolhos, há espera de chegar a um número tão grande para, finalmente, poderem desistir. Justificam-se dizendo que não querem sofrer por amor. Mas cá para mim, elas nem sabem o que é o amor! No entanto, eu sei, e tenho vindo a aprender cada vez mais sobre ele ao longo do tempo. “O que é isso do amor, que tanto sentes?” perguntaram-me um dia os olhos do meu gato enquanto me observavam, na altura não disse nada. O amor não é só aquilo de que se fala. O amor não nos traz apenas sorrisos aos lábios e borboletas ao estômago, também nos traz algumas garrafas de irritação que, bebidas sem moderação, facilmente se revertem em raiva e fazem com que uma ou outra lágrima escorregue pelas nossas bochechas, mais ou menos rechonchudinhas, como se de um parque de diversões a nossa cara se tratasse. O amor magoa de vez em quando e, às vezes, traz-nos até algumas decepções. Um pequeno empurrão emocional aqui, uns leves beliscões nos sentimentos acolá e, muito raramente, um murro grande no estômago, que faz com que as borboletas de outrora se salvaguardem nas nossas gargantas impedindo-nos de dizer alguma coisa.
Mas, na sua essência, o amor não é mau. O amor é o passeio de fim de tarde com os nossos pais, é o dar banho ao cão e acabar dentro do chuveiro com ele, é o abraçar daquele amigo que só vemos aos sábados à noite no Bairro Alto, são as lutas de wrestling que tínhamos com os nossos irmãos quando éramos mais pequenos, é o olhar da nossa professora do ensino primário quando nos vê com 20 anos, é o correr contra o vento gelado no inverno e o nadar no atlântico nos dias quentes do verão, é o gritar das letras de uma canção, são os beijos soprados pelo ar e os suores e cabelos perdidos nos lençóis das nossas camas, é o cair no chão, esfolar os joelhos, e vir alguém de compressas e frasco de betadine nas mãos e de sorriso na cara para nos ajudar. O amor é algo demasiado complexo, compõe-se de alegrias e de tristezas, de dor e de alívio, de momentos bons e de momentos maus, mas momentos todos eles imprescindíveis para o resultar de uma relação movida pela sua força, seja ela qual for, porque a verdade é que o amor chega a todos, e não apenas a alguns, nas mais variadas formas e feitios. Sei disto porque já amei muita coisa, muito ser, muita gente, e sei que tu também. E, portanto, é importante compreender que nenhum dos momentos pelos quais passamos deve ser esquecido, dado que em todos eles lá estava este sentimento de mãos dadas connosco. Os momentos do passado apenas devem ser ultrapassados, nunca apagados, porque a memória deles é o que fortalece uma relação e, por conseguinte, a vida, que é feita delas. “Mas afinal, o que é que ele é? O que é o amor?” insistiu o olhar curioso do meu animal de estimação. Enfim, não se explica, só se sente, por isso é que existem tantos poetas.
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NOSTALGIA DE VERÃO DIANA NEVES
A meio de um pôr do sol lindo, estacionada no meio de uma estrada, pensava no que iria fazer este verão. Lembrei-me das listas que, sucumbindo de uma elaboração cautelosa e cuidada, costumava escrever sobre objetivos em vão. Descobri, contudo, que o verão foi falindo. Já não é tão longo, nem tem brisa ferrada, como o meu velho eu de 14 anos tinha perceção. As horas tornam-se escassas e despindo, tão simples, os dias de sol e de preguiça descarada, tornam-se curtos, com tanta brutidão. O trabalho substitui as brincadeiras, demolindo de repente, a infância numa adulta atribulada que tem ambições lá no alto, mesmo enquanto lava o chão. As tardes de praia são breves, mas não se vão extinguindo. É obrigatório estar com os amigos mesmo com a cabeça cansada, pois é tão aconchegante ter abraços de exceção. As noites quentes de amor vão escapulindo, por entre horas de uma aurora cronometrada. Ter tempo para descansar é uma ostentação. Mas nunca deixo de sonhar, mesmo fugindo, de passar acordada a madrugada. E depois voltamos, a Faculdade proíbe procrastinação.
CONCURSO
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NOVA EM FOLHA
CONCURSO
The Painting TALITA LEMOS
I tried to clean up the space before inviting you in. Hit the cobwebs on each corner with a broom and blew out the dust covering every surface there was to be covered. Painted over the mould and filled the space with flowers to hide the smell of decay. Stood in front of the mirror and pinched my cheeks, so it would seem there was still a little bit of life inside of me. Put my hair up in a bun with a loose tendril falling over each side of my face. Mother would always tell me how it brought out the beauty in my eyes. I would argue that all it did was bring out the sadness behind them. I fixed my teeth and rehearsed a smile. The widest anyone has ever seen me wear. Blamed DNA for the half-moons under my eyes and learned to disguise pain with laughter. Poured my thoughts into a journal but kept running out of pages, so I took to writing them down on my skin. Patched up the holes on my sleeves, so only I would know what lies underneath. But the flowers died. New mould formed over the fresh coat of paint. The spiders returned to claim back their corners and in time, so did the stench. Trying to keep the dust away brought tears to my eyes and an itch to my throat. And there was no beauty in those eyes to behold. The half-moonssupporting them deepened and the color in my cheeks matched the one on the walls. The patches on my sleeves tore open with every move and the words on my skin kept rewriting themselves, no matter how hard I tried to scrape them off.
Praying to the void gave me bruised knees and a sore throat. Halfheartedly avoiding paths that could send me to both ends of the same gun. I pricked my finger on the spindle of a spinning wheel, but it didn’t put me to sleep. Had sleeping pills for dinner and yet my mind kept me awake. Blinded by scorching tears, I got no answer from above. And I won’t look for it below. I’ve been in those shoes before. So much for a fast learner. I’m no stranger to these patterns. Should’ve practiced my lines, should’ve turned on the light. Wasn’t I afraid of the dark? When did I find solace in what I couldn’t see? When did my light bulb begin to flicker? When did its light become so dim? How have I become so dim? I know better than to drag you down with me. I’m sorry you couldn’t stay for tea. But I’m not the wind and you’re not the leaves. And there’s no hero meant for me. You’re better off without me and I’m better off alone. I’ll lock the door behind you once you cross the threshold. I boarded up the windows, so don’t bother breaking in. Please, forgive me. But it’s time for you to leave.
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RECEITAS
Panquecas Vegan de Manteiga de Amendoim MARIANA ABREU
Ingredientes
1 colher de sopa de farinha de linhaça; 3 colheres de sopa de água; 250 mililitros de bebida de amêndoa; 170 gramas de farinha de aveia; 2 colheres de sopa de manteiga de amendoim; Pepitas de chocolate negro
Preparação
1. Para fazer o ovo de linhaça, coloca numa taça pequena a colher de sopa de farinha de linhaça e as 3 colheres de sopa de água e mexe. Deixa repousar por 10 minutos e mexe novamente até se formar uma massa pastosa. 2. De seguida, coloca numa liquidificadora o ovo de linhaça, a bebida de amêndoa, a farinha de aveia e a manteiga de amendoim, e mistura bem até obteres uma massa homogénea. 3. Adiciona as pepitas de chocolate ao preparado da massa e mexe bem, sem triturar. 4. Posteriormente, aquece uma frigideira anti-aderente e, com uma concha da sopa, coloca uma porção da massa. Deixa cozinhar até começarem a aparecer bolhas. Depois, vira a panqueca e deixa-a durante mais três a cinco minutos na frigideira.
Para passares o tempo...
1. Cidade onde se localiza o Museu da Memória dos Direitos Humanos. 2. Museu inglês de arte moderna localizado na antiga central elétrica de Bankside. 3. Museu espanhol onde se encontra a obra 'Guernica', de Pablo Picasso. 4. Abreviatura do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. 5. Museu holandês onde se encontra a obra 'A Leiteira' de Johannes Vermeer. 6. Museu russo onde se encontra a obra 'O Regresso do Filho Pródigo', de Rembrandt. 7. Abreviatura do museu português onde se encontram localizados os 'Painéis de São Vicente', de Nuno Gonçalves. 8. Museu português instalado no Palácio dos Carrancas, no Porto. 9. Cidade onde se encontra a Galeria Uffizi. 10.Museu francês situado numa antiga estação ferroviária.