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NOVA em Folha | Verão 2020

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FOTO DE CAPA

Autoria de Francisca Dias @kikaod

NOTAS A ado(p)ção do acordo ortográfico em vigor é uma decisão individual pel@s membros da equipa, redacção e colaborador@s . Após a revisão completa do material pela equipa editorial, o conteúdo e a versão final dos conteúdos são da responsabilidade e exprimem somente o ponto de vista d@s respectiv@s autor@s.

ESTE JORNAL É IMPRESSO EM PAPEL 100% RECICLADO.


nova em folha verão 2020

Equipa Editorial Beatriz Cabanilhas

Beatriz Mateus Daniel Borges Diana Neves Francisca Oliveira Dias Francisco Nunes Inês Pinheiro João Martins Joana Freitas Liliana Marques Manuel Pinto Mariana Abreu

Redacção Ana Sofia Malheiro

Beatriz Cabanilhas Beatriz Mateus Carolina Ferreira Carolina Fonseca Bento Carolina Sousa Catarina Aires Daniel Borges Diana Neves Francisca Oliveira Dias Francisco Nunes Inês Pinheiro Jéni Lage João Martins Joana Freitas

Pedro Fernandes Rita Serpa Tatiana Matos

Leonor Bandeira Leonor Venade Liliana Marques Mafalda Gouveia Baptista Manuel Pinto Mariana Abreu Patricia Sampaio Pedro Fernandes Rita Serpa Rosa Pires Tatiana Matos

Edição Gráfica Beatriz Cabanilhas

Francisca Oliveira Dias Joana Freitas Joana Lopes Lourenço Liliana Marques Mariana Abreu Rita Serpa Tatiana Matos

NOTA Gostas de escrever? Queres ver as tuas reviews, receitas, bitaites, histórias, crónicas, etc.. num jornal d@s estudantes para @s estudantes? Envia-nos as tuas propostas até ao dia 20 de cada mês e participa nas nossas edições mensais! Ficamos à tua espera!

Jornal NOVA em Folha | Edição de Verão 2020 Impressão: 20 cópias | Distribuição mensal e gratuita novaemfolha.ae@fcsh.unl.pt

FICHA TÉCNICA

@novaemfolha.ae

@novaemfolha.aefcsh

Já se gues NOV o A em Folh no In a stag ram?


NOVA EM FOLHA

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AEFCSH

AE em folha Zé

Pinho

Os meses de Maio e Junho continuaram a ser marcados

Procurando fazer chegar à tutela os graves problemas que

pelo

se fazem sentir no Ensino Superior, acentuados ainda mais

contexto

estudantes continuou

à a

epidémico que NOVA

trabalhar

FCSH. para

impediu No

o

retorno

entanto,

todos

os

a

dos

AEFCSH

estudantes,

quer

pela

grave

situação

de

saúde

pública,

a

AEFCSH

e

a

AEFLUL organizaram então uma tribuna pública no dia 16

organizando iniciativas de cariz cultural, quer acentuando

de

as suas iniciativas de luta e combate aos problemas do

Superior.

junho

Ensino Superior, particularmente na nossa instituição.

asseguradas pela organização, incluindo o distanciamento físico

Maio começou com a notícia de que as melhorias de notas deste

semestre

seriam

gratuitas,

aliviando

assim

para

“desconfinar”

Todas

e

a

as

os

medidas

distribuição

de

problemas de

do

Ensino

prevenção

foram

álcool

gel

e

máscaras

descartáveis para quem necessitasse.

os

estudantes. Esta conquista foi alcançada devido à luta da

Estiveram

AEFCSH com o contributo de todos os estudantes, que

instituições do Ensino Superior que apresentaram perante

vêem assim o seu processo ligeiramente facilitado. Esta

a

ação de luta insere-se na campanha da AEFCSH O Futuro

dificuldade no pagamento de propinas e a redução no

Somos Nós - Ninguém Fica Para Trás, que ainda está a

número

decorrer, lutando por uma melhor resposta aos problemas

problemas mais sinalizados pelos intervenientes, aos quais

do Ensino Superior.

se aliam as taxas e emolumentos e a falta de resposta

Tribuna

presentes dezenas

os

seus

de

problemas

camas

nas

de

e

estudantes

das

suas

residências

de

várias

instituições.

estão

entre

A

os

dada pelo Ministério e pelas instituições à adaptação à Também durante o mês de Maio a AEFCSH organizou a

realidade do ensino à distância.

semana do Ambiente, onde os alunos puderam assistir a um

Apolónia,

A Tribuna Pública contou ainda com uma reportagem da

antiga deputada do PEV na AR, Luísa Schmidt, colunista do

debateonline com

SIC Notícias, onde Miguel Cosme, presidente da AEFCSH,

Expresso e da professora universitária e docente na NOVA

foi entrevistado.

FCSH, Iva

Pires,

relacionado

e

com

a

presença

ainda

as

assistir

alterações

de

a

Heloísa

um

documentário

climáticas

e

o

seu

Uma

vez

que

os

exames

de

melhoria

e

recurso

foram

impacto. A AEFCSH organizou ainda várias sugestões de

presenciais, a AEFCSH voltou a abrir portas no período de

leitura e música relacionadas com a temática ambiental.

exames. O balcão da Associação de Estudantes esteve então equipado com álcool gel e máscaras descartáveis

Para além da preocupação ambiental, a Associação de

para os estudantes que necessitassem. Também a própria

Estudantes organizou ainda uma semana temática com o

infraestrutura

tema da igualdade onde cada dia foi dedicado a um tema

preparada,

específico. Esta teve início com a sétima sessão de Saúde

proteção

Mental,

pessoas nos espaços, de modo a garantir o distanciamento

e

contou

igualdade

ainda

nas

suas

com

várias

várias

conversas vertentes

sobre

a

sociais,

externa

através

e da

personalizadas

interna da

FCSH já está

colocação e

da

de

limitação

a

ser

divisórias do

número

de de

físico adequado.

nomeadamente o racismo, as desigualdades internacionais e os direitos LGBTQ+.

Findo

então

o

ano

letivo,

a

AEFCSH

irá

continuar

a

trabalhar para preparar o próximo ano letivo e a receção Atendendo ao contexto internacional, a AEFCSH repudia

dos próximos alunos, bem como para continuar a defender

qualquer

os interesses dos estudantes. Posto isto, a AEFCSH deseja

forma

de

racismo,

quer

seja

este

estrutural,

sistémico ou cultural, que consideramos problemático não

votos de boas férias, com segurança para todos.

só nos EUA como também em Portugal e, portanto, nas Instituições

do

Ensino

Superior.

Como

tal,

a AEFCSH

declarou-se solidária com a luta anti-racista nos EUA e em todo

o

mundo,

divulgando

e

subscrevendo

ainda

a

iniciativa do CPPC “Pela Justiça e pela Igualdade Social: Solidariedade com o Povo dos EUA”, que decorreu no dia 9 de junho.

fica atent@ às redes sociais da ae para não perderes nenhum evento! @aefcsh.unl

@aefcsh.nova


NOVA EM FOLHA

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NOTÍCIAS

novidades fcsh A tua opinião conta! Foi disponibilizado aos alunos, por correio eletrónico, o questionário de apreciação das unidades curriculares e respetivos docentes, prática habitual no fim de cada semestre. Até 5 de julho, será possível aos estudantes deixarem a sua opinião, de forma a auxiliar “os docentes, a Comissão para a Avaliação do Curso e o Conselho Pedagógico a identificar os pontos positivos e o que deve ser ajustado.”.

Língua e Cultura Portuguesas à Distância Em parceria com o Instituto Camões e outras quatro universidades (Aveiro, Coimbra, Minho e Porto), a NOVA FCSH lançou um curso de verão que, além da lecionação da Língua Portuguesa, permitirá visitas on-line a espaços culturais. A atividade está aberta a estudantes de todo o mundo, prevendo-se uma duração de quatro semanas.

Já abriram as inscrições para a Escola de Verão A iniciativa da FCSH disponibiliza uma lista de 80 cursos, com duração de 15 ou 25 horas, de segunda a sábado nos meses de julho e setembro (mais pormenores no site da faculdade). Sem necessidade de certificação ou candidatura prévia, o público estudante e não-estudante pode optar por um ou mais cursos que lhe interesse, desde o cinema à literatura e ao ambiente, lecionados à distância ou presencialmente, conforme o caso.

Bolsas Santander-FCSH Devido à pandemia de COVID-19, muitos estudantes viram a sua situação económica afetada, sendo incapazes de saldar o pagamento das propinas. Face a isto, o Santander uniu-se à NOVA FCSH para garantir bolsas de até 250€ (licenciatura) e 300€ (mestrado) destinadas a permitir uma boa conclusão do ano letivo de 2019/2020.


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Maio e Junho em resumo 25 de maio- Morte de George Floyd Derek Chauvin, agente da polícia de Minneapolis, manteve por nove minutos o seu joelho sobre o pescoço de George Floyd, cortando-lhe fatalmente a respiração. Em reação à morte de mais um afro-americano às mãos das forças de autoridade, irromperam por todos os Estados Unidos (e noutras partes do mundo) protestos mais ou menos pacíficos, ecoando os gritos “Black Lives Matter” e “I can’t breathe”. Chauvin foi acusado de homicídio, uma rara exceção num sistema fortemente marcado pela imunidade policial.

Black Lives Matter induz renovação decorativa Das estátuas que adornam as praças e jardins do mundo, sobretudo no hemisfério ocidental, muitas celebram personagens controversas, por vezes ligadas ao passado colonial, ao tráfico negreiro ou à defesa da escravatura. O movimento BLM tem inspirado centenas de remoções destes monumentos, apelando os manifestantes para que não se ignorem as ações nefastas de vários protagonistas da História.

9 de junho- Sai o “Ronaldo” Das Finanças Mário Centeno demitiu-se do cargo de Ministro das Finanças, sendo substituído pelo até então Secretário de Estado do Orçamento, João Leão. Centeno sai depois de ter finalizado o Orçamento Suplementar, que já caberá ao seu sucessor defender na Assembleia.

15 de junho- Conflitos em Caxemira A Linha de Controlo Efetivo (Line of Actual Control) divide as zonas indiana e chinesa da disputada província de Caxemira desde 1962. Porém, pela primeira vez em 45 anos, um confronto entre forças dos dois gigantes asiáticos deixou 20 mortos do lado indiano, apesar de nenhum tiro ter sido disparado, com a China a culpar invariavelmente a Índia.

16 de junho- Braço de ferro contra o vírus Os esforços de médicos e cientistas para encontrar formas eficazes de tratamento e mitigação de sintomas do COVID-19 têm sido frutíferos. O uso de esteróides (dexametasona) deu mostras de redução da mortalidade em um terço para pacientes com ventilador e um quinto quando dependentes de oxigénio (segundo um estudo da Universidade de Oxford com doentes britânicos). Apesar dos avanços no combate contra o coronavírus, o diretor da OMS, Tedros Ghebreyesus, alertou que o mundo está a entrar numa “nova e perigosa fase” da pandemia, enquanto governos por todo o globo aligeiram as medidas de contenção com vista à normalização económica e social.

19 de junho- EUA E Brasil chegam aos milhões A 19 de junho, o total de indivíduos que estão ou já estiveram infetados com COVID-19 no Brasil atingiu um milhão. Os Estados Unidos da América haviam sido os primeiros a atingir esta marca (a 8 de maio), mas entretanto distanciaram-se para cima dos 2 000 000, com mais de 930 000 casos ativos. Neste parâmetro, seguem-se o já referido Brasil (441 000+), a Rússia (325 000+), a Índia (215 000+) e o Peru (133 000+). Os líderes ao nível de mortos continuam a ser, por ordem decrescente: EUA, Brasil, Reino Unido, Itália e França.

TRUMP VS BIDEN As sondagens atuais demonstram que mesmo em Estados antes considerados irredutíveis (Texas, Georgia, ...), o democrata Joe Biden tem a hipótese de bater o atual presidente, Donald Trump. A forma desastrosa como este lidou com a pandemia de COVID-19, os protestos anti-racismo e outras emergências antagonizaram parte da sua base de apoio.

NOTÍCIAS


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NÚCLEOS

Pack ideal para as escavações de verão Sabemos a dificuldade que é fazer a mala para as escavações de verão proporcionadas pela NOVA-FCSH e que há sempre coisas que ficam para trás. O NARQ não quer que isso te aconteça, por isso fizemos uma lista a pensar em todos os estudantes de arqueologia!

Protetor solar Chapéu Luvas Botas de biqueira de aço Roupa de escavação confortável e fresca (camisas / t-shirts largas e calças apropriadas) Lenço para proteger o nariz e a boca do pó de escavação Cantil Uma pequena mochila (para transportar o protetor, o cantil e comida para o local de trabalhos) Roupa confortável, assim como calçado e chinelos para depois da escavação Toalhas de banho e de praia Produtos de higiene Kit de primeiros socorros (nunca é demais andar prevenido!) NARQ - Núcleo de Estudantes de Arqueologia


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ARTIGOS

COMO PASSAR O TEMPO NUMA ÉPOCA EM QUE NOS FALTA TUDO MENOS TEMPO LILIANA MARQUES

Vivemos tempos difíceis, em que não sabemos o que nos espera amanhã, em que o ponto alto do dia é ver o telejornal para saber as mais recentes medidas decretadas pelo Governo ou a chamada por Zoom com os amigos. Nós, que tantas vezes nos queixamos por falta de tempo, agora que temos tempo de sobra não sabemos o que fazer com ele. Mas não desesperem, há tanta coisa que podem fazer sem precisarem de sair de casa. E é sobre esta temática que me vou debruçar neste artigo. Sempre quiseste fazer um curso online mas nunca tiveste nem tempo nem paciência? Porque não agora? Universidades de todo o mundo disponibilizaram cursos online grátis, que normalmente seriam pagos, sobre os mais diversos temas, desde bioética a programação. Deixo aqui o link para saberem mais: https://www.classcentral.com. Caso nenhum destes te interesse, tens sempre os cursos da Google, por exemplo sobre Digital Marketing. Ou podes simplesmente começar um novo hobby, como aprender uma nova língua, pintar ou aprender a tocar um instrumento. Se este semestre te deixou cansado e a precisar de uma pausa na aprendizagem, podes sempre ver uma série ou um filme, o Nova em Folha publica regularmente sugestões nas redes sociais! Porque não vais dar uma vista de olhos? Se fores mais uma pessoa de ler, não te preocupes, também temos muitas sugestões para ti, tanto nas edições do Nova em Folha, como nas redes sociais. E se não quiseres seguir as nossas sugestões, porque não lês aquele livro que tens na mesinha de cabeceira há meses a apanhar pó? Agora já não tens mesmo desculpa… Outra coisa que não podes esquecer é cuidar de ti mesmo. Aproveita para fazer mais exercício (nem precisas de sair de casa, tens diversas aplicações ou canais de Youtube, como o da Pamela Reif, com dezenas de vídeos para te ajudar na tua rotina) e para fazeres uma alimentação mais saudável. Podes inclusive aprender a cozinhar pratos diferentes e, quem sabe, talvez até te tornas num MasterChef :) Com tanto tempo, podes sempre aproveitar para arrumar e redecorar o teu quarto, ou encontrar coisas que já não usas e doá-las, ou até mesmo reutilizá-las. Por fim, e não menos importante, aproveita esta fase para dar asas à criatividade, inspira-te nas coisas e nas pessoas à volta, seja a desenhar, fotografar ou a escrever. E já sabes, no próximo ano letivo estamos a contar contigo para nos mandares o que fizeste no verão.


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NOVA EM FOLHA

EM MEMORIAL

ARTIGOS

ROSA PIRES

Talvez o significado não seja tão importante quanto isso, mas é a minha forma de lhes dar o braço e tê-las assim, uma de cada lado, eu no meio e nós as três entrelaçadas a caminhar.O nome na ordem alfabética, com o pormenor do “q” e do “s”a separar-nos somente: P-q-R-s-T. Pois a vontade de as ter ainda ao alcance dos meus braços, num aperto interminável, é tão grande que a imensidão do mar não chegaria para o abarcar! Não me recordo se a uma delas cheguei, realmente, a falar da outra. Mas quis o destino que ambas se tivessem cruzado na minha vida. A uma, a T, vi-a crescer, namorar, casar, ter a filha e mais tarde separar-se definitivamente do companheiro, também ele fazia parte do grupo dos amigos e das festas nas garagens, qual discoteca improvisada na época da nossa juventude. A outra, a P, conheci-a aquando da minha mudança, já neste milénio, para a capital. Logo na altura que acabei de a conhecer, senti uma empatia quase imediata, apesar de um certo ar de indiferença que dela se desprendia, feito de propósito, quem sabe, para só se aproximar de quem ela queria. Mas, por vezes, basta um pequeno instante bafejado na azáfama diária dos nossos dias, como um sopro no pólen de uma flor que se espalha multicolor pelo ar, para que tudo mude e se torne tão importante que alguém que acabamos de conhecer começa a fazer parte da nossa vida como se sempre o tivesse feito! Ou, se calhar é esta mania minha, de fazer comparações ao juntar os pormenores: ambas tão parecidas fisicamente, apesar de diferentes!

Nas duas, que em datas tão distintas e em pontos de residência tão longínquos, nunca se cruzaram nem nunca se conheceram, a mesma ânsia de liberdade me parece a mim agora a uni-las, a procura infindável pela felicidade ou talvez um pouco de sossego... Tão parecidas na minha confusão: uma meiguice a desabrochar para quem soubesse ou a quisesse ver. Pensar na partida que as feriu, essa, não a quero ver nem parar por momentos a tentar perceber. Simplesmente o vislumbre e o jeito que as torna tão idênticas: um gesto de manusear o cabelo e o sorriso franco. Mas também aquela sinceridade pela falta de justiça, que era tão difícil calar dentro delas! Sinceridade que também não sabiam disfarçar, apesar de talvez ser essa apenas a minha opinião, era uma forma tão peculiar de serem verdadeiras e isso causava, por vezes, algum transtorno ao ser confundido com arrogância. Se calhar só agora vejo que eram tão idênticas, ou serei eu no meu mais íntimo pulsar que as quero juntar, para as manter assim tão próximas de mim? E, logo hoje, que raramente coloco rímel nos olhos, as lágrimas querem aflorar e sujar-me a cara. Vêm-me à memória, outras pessoas, das quais já não sei o nome, pois é esse o meu grande defeito: esquecer tão rapidamente os nomes de quem se cruza comigo. Como é possível, esquecer os nomes das pessoas, quando quase todas elas me tratam logo pelo nome? Ainda hoje não percebi a verdadeira dimensão desta minha tão escondida dificuldade. Porque se um dia me apanham em falta, talvez pensem: “Ah! Afinal é tudo só fogo-devistas!”


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NOVA EM FOLHA

Mas, o som das suas vozes aqui tão perto, ou a invejosa elegância dos seus passos na calçada, com tantos rostos a virarem os olhos só para as verem passar admirados … aqui tão ao alcance dos meus pensamentos, não será um ponto a meu favor? "Uma pétala perfumada...Uma lágrima salgada...Que vos posso dar eu, Amigas?" A recordação dos seus rostos talvez se esbate, e um dia já confunda o P com o “q” e o T com o “s” ou, por momentos, nem sequer pense nelas. Mas, num ponto qualquer e em qualquer lugar, ao olhar a tão desejada rua, a que volto todos os anos no verão, a da minha infância, lembro-me de como aguardo todo o ano por aquele sabor do Norte e do sol que a doira de uma forma que não vejo noutras ruas. No meu egoísmo, lá está, ainda me vejo pequena e a descê-la, mesmo que a maior parte do ano chova, e nem a alcunha porque era conhecida me faz querer não voltar lá: "olha, vem ali a esticadinha...", e depois fugiam a esconder-se quando a minha mãe me mandava à mercearia, na mesma rua, antes de chegar à vila. arecia que o mundo se limitava àquela rua, o calor do mês de agosto e o cheiro das copas dos pinheiros queimados dos incêndios, que por essa altura raiavam também, entorpecia-nos os passos, entrava-nos pelo nariz. Nem o medo de vivermos ali tão perto me fazia sentir a noção do perigo que, agora à distância, vemos pela televisão! Por vezes, a saudade que sinto, é a de ter ainda tudo e todos ao alcance das minhas mãos e as gargalhadas que soltávamos, porque o presente só dói por se tornar passado a cada instante que passa. As lágrimas talvez sequem e o sal talvez se evapore, mas a rua há de trazer-me sempre a imagem de uma, apesar de não me recordar se alguma vez a subi ou desci ao lado dela.O telefone pela manhã, no trabalho, talvez ainda toque para a outra, porque ainda guardo o número do contato da sua sala num papel já amarelecido pelo pó e rabiscado com outros… certamente, as vozes não

ARTIGOS

não mudariam, porque se de repente as ouvisse, seriam tal e qual, sem o tempo que as gasta na memória, como acontece com os nomes, porque não são escutáveis nem se entranham no nosso coração como fazendo parte do pulsar do nosso sangue! Uma com pronúncia do norte, e a outra aqui da capital, unidas no mesmo som, e assim misturadas em vários tons. O sorriso das duas a libertar-se, apaziguando a tristeza que não me permito sequer sentir. T que me dizia: "vem daí rapariga tomar um café e fumar um cigarrinho, mesmo que depois aqui em casa me apanhem, por mais que eu tente escondê-lo por baixo da mesa e o fumo a sarapantar subindo em espiral, me denuncie..." e a P que me convidava: "menina, hoje vais à sopa? É que não tenho boleia para ir a casa, o marido ligou que não pode vir..." ,depois, gastávamos o resto do tempo, antes de voltar para o trabalho, a ver as montras das boutiques e confessava-me que já não tinha casa para guardar tanta roupa! E as flores que não lhes levei, não levo, nem levarei, permanecem a florir em botões de rosa dentro do meu peito e assim as mantenho vivas, às duas, a ampararem-me agora a mim. Porque se para uma o tempo ainda se libertou recentemente dela, a outra já faz algum tempo que não lhe ouço o riso nem aquela forma tão peculiar de nos defender, mas que regressa nos meus pensamentos como se um dia fosse possível revê-la ainda nesta vida tão breve. As duas mais novas que eu apenas dois anos! No recanto sossegado da minha memória, aquele que reservo só para mim, aqui me confesso, em memorial as guardo.


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ARTIGOS

DO MEU QUINTAL PARA TÓQUIO PATRÍCIA SAMPAIO

Olá a todos! O meu nome é Patrícia Sampaio, sou aluna da licenciatura de Ciências da Comunicação e atleta de alto rendimento de judo. Para além de ser atleta de alto rendimento, estou ainda na fase de apuramento para os Jogos Olímpicos de Tóquio, que estavam agendados para julho de 2020, mas foram adiados por um ano. É certo que a situação do Covid-19 alterou drasticamente a vida de toda a gente e a minha não foi exceção. Vi a minha rotina completamente virada do avesso e, apesar de faltar muito mais tempo para os tão ambicionados Jogos Olímpicos, o meu trabalho não podia de todo cessar. Confinada em casa por três meses, eu e o meu irmão/treinador tivemos de arranjar solução e trazer todo o material possível para continuar a minha preparação em casa, no campo e isolada. O que vos venho partilhar hoje é apenas um treino que fiz num dos dias da minha quarentena, em que o objetivo era trabalhar e potenciar a minha força máxima. Confuso? Vou passar a explicar. Os números que 20/04 (acordei -> 7; aparecem junto à data são valores que meço diariamente dia seguinte -> 8) chamados “prontidão matinal” – indicam-me quão pronta estou para enfrentar o dia e envolvem parâmetros como Squat – 98kg 3x, 3x, 2x, 2x, stress, recuperação do dia anterior, etc. Aponto-os para 3x, 2x estudar que efeito cada tipo de treino tem em mim e como Bench press – 84kg 3x, 2x, 2x, 2x, 2x, 2x, 2x recupero. Bench row – 88kg 3x, 4x, 3x, 3x, 3x O treino consistiu em “apenas” aqueles três exercícios, o que pode não parecer muito, mas são percentagens bastante elevadas em relação aos meus levantamentos máximos. O objetivo neste treino era pegar máxi nas cargas correspondentes e efetuar quinze repetições no menor número de séries possível. Este foi apenas um exemplo de um dos muitos treinos que fiz em casa. Alguns deles envolviam também corridas de 30 minutos a uma hora, e muitas outras coisas cansativas de que se possam lembrar!Espero que, mesmo não sendo atletas, todos vocês tenham aproveitado a quarentena para fazer algum exercício físico e, claro, estudar muito. E como já é quase caso para dizer… Boas férias!!


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ENCONTREI-TE ANA SOFIA MARINHO MALHEIRO

Encontrei-te entre as mensagens mais quentes e as noites mais frias. Fiz de ti motivo das minhas tristezas e das minhas alegrias. Encontrei-te em vários sonhos, em vários desejos. Fiz do teu o melhor entre todos os beijos. Encontrei-te entre o choro que não me deixava gritar. Fiz de ti o meu porto seguro, onde podia descansar. Encontrei-te nas noites que passei em claro. Fiz de ti a minha queda. Fiz de ti o meu amparo. Encontrei-te ontem. Encontrei-te hoje. E espero encontrar-te amanhã. Agora falta encontrar-me também.

POEMAS


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NOVA EM FOLHA

Encontraste-me MAFALDA GOUVEIA BAPTISTA

Tenho vivido este sonho de te ver outra vez. Caiu me a realidade que vivemos no talvez. Deixo as lágrimas derramadas em cima dos porquês Agora que me encontraste mas nunca me vês. Doeu-me ouvir que me deixei levar E foram palavras comuns ditas para o ar: “Isto da distância vai continuar” E eu não quero acabar o que mal deu pra começar. Uma corrida contra o tempo Que não saberemos perder. E eu já perdida em beijos Que ainda estão para acontecer. E eu vejo-te a chegar até mim Em todos os caminhos que traço. Só quero que isto tenha um fim E que invadas o meu espaço.

POEMAS


TRIBUNA PÚBLICA NINGUÉM FICA CALADO - DESCONFINA OS TEUS PROBLEMAS

l disponíve á j o e d í V be! no Youtu


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CRÍTICAS

Midnight Gospel JÉNI LAGE

Arriscando-me a repetir diversos artigos que retratam a diversidade que esta série traz ao panorama digital, pretendo dar a visão mais pessoal e realista da minha experiência em relação à obra em si. Midnight Gospel surge de uma parceria entre o podcaster Duncan Trussell e o escritor Pendelton Ward (conhecido pela série “Adventure Time”).Se a parceria entre os dois resulta? ” Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. A estrutura dos episódios (embora não tenha visualizado todos, confesso) é semelhante: ocorre uma viagem espacial até uma realidade alternativa (dentro da própria realidade alternativa que é a série) com o objetivo de arranjar conteúdo para o podcast da personagem principal, Clancy. Os conteúdos são essencialmente criados por diversas conversas de Duncan no seu podcast, as quais englobam temas como experiências pessoais que levam ao autoconhecimento, meditação e, inevitavelmente, à morte. “Primeiro estranha-se, depois entranha-se.” Em cada aventura surgem diversos símbolos que nos remetem para um pensamento do criador. No final de cada episódio, Clancy adquire um par de sapatos diferente, o qual simboliza a aventura e a evolução da personagem enquanto pessoa e criador de conteúdos. Confesso que existe uma certa dificuldade em manter a atenção às conversas que vão sendo realizadas devido a toda a animação excêntrica e surrealista que acompanha os episódios. Porém à medida que a série se vai entranhando nos nossos corações surge uma questão: os podcasts completam a animação ou a animação surge dos podcasts? A maneira diferente como a animação é realizada é também a maneira mais real com que as conversas são retratadas. Este balanço entre explosões de cor e temas tão intensos como drogas, espiritualidade e magia tornam a série especial, cativante e confusa. É realmente difícil acompanhar a inovação, mas é isso que faz com que seja especial. Quanto maior a complexidade do tema, mais intensas se tornam as reviravoltas. No fundo, é realmente uma série que “primeiro estranha-se, mas depois entranha-se”, como tudo o que é especial na nossa vida.


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CRÓNICAS

O Mundo Diante da minha Varanda LILIANA MARQUES

Coloquei-me à varanda e observei. Observei uma menina de cabelos despenteados, antes cuidadosamente penteados pela mãe há umas horas, mas agora, fruto da brincadeira com os amigos no parque que há ali nas traseiras de minha casa, estão em completo desalinho. Observei um senhor, nos seus 40 anos, apressado, engravatado e com um semblante sério, devido a uma reunião exaustiva de negócios que teve com os sócios da sua firma de advogados. Tantas preocupações parece ter o senhor engravatado… Vi também um par de namorados, adolescentes e claramente apaixonados, naquele jeito inocente e genuíno que só um jovem consegue ter. Tão jovens e idealistas, com uma vida pela frente, cheia de sonhos, paixões e algumas desilusões. Porém, foi uma senhora mais idosa que me chamou à atenção. Também ela, assomada à sua varanda, também ela, tal como eu, a observar os transeuntes e os moradores do bairro. Mas, surpreendentemente, quando olhou para mim vi algo nos seus olhos. Como que uma vontade de ser mais do que ver, pois estar a observar não chega, tentou ela dizer-me através daquele olhar carregado de emoção: «Vai e vive, não te cinjas a observar aqueles à tua volta, vai e vive uma vida digna de ser olhada para que, da próxima vez que eu estiver aqui, na minha varanda, seja para ti que eu olhe e imagine o que terás feito nesse dia. Vai e vive uma vida que seja digna de ser contada por algum escritor idealista e cheio de sonhos, tal como aquele jovem casal apaixonado para o qual ainda há pouco olhavas. Vai, e vive uma vida cheia de paixão, intriga e emoção, para que um dia a tua história seja relatada nos cafés e nos jornais. Vai, e vive, por ti e por mim, que já não posso fazer nada senão vir à varanda e observar os que aqui passam, e imaginar o que eles já viveram e o que ainda viverão. Vai, vive, e volta um dia para me contar a tua história.».


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CRÓNICAS

QUE SE DANEM AS PAPAS RITA SERPA

Há pessoas que sabem o que querem ser desde que dão os primeiros passos - quem sabe, talvez as suas primeiras frases tenham sido mesmo “E pronto, tome dois comprimidos em jejum ao almoço e dois antes de se deitar.” ou “Isso com o Teorema Fundamental do Cálculo vai lá!”. Não sei que papas é que comem esses bebés, mas eu, orgulhosa bebé Cerelac, disse qualquer coisa tão eloquente como “Papá papa.”. Portanto, não devia ter sido uma grande surpresa quando aos 18 anos me apercebi de que não fazia ideia nenhuma do que queria ser “quando fosse grande”. O raio das papas... A verdade é que nunca fui boa com decisões. Demorei um ano inteiro para decidir se queria Francês ou Espanhol no 7º ano, convencidíssima de que esse seria o fator decisivo para o meu futuro emprego e para a minha felicidade. Visto que o pouco que sei de francês é tão ridículo como o espanhol que tento desenrascar ali e acolá, seria de esperar que no final do meu 12º ano já tivesse aprendido a levar as minhas decisões com maior descontração. Mas não, claro que não. No 10º ano é fácil, pelo menos foi assim que me apresentaram a situação – “Se não sabes o que queres, vai para Ciências e Tecnologias para teres um bocadinho de tudo”. Eu lá comprei a dica, e digo alegremente que a t-shirt até me serviu bem, apesar de ter ficado um bocadinho justa nas disciplinas de Matemática e Físico-Química. Durante esses três anos vi cursos aqui e ali, como todos os meus amigos -devemos ter sido todos bebés Cerelac, porque não me lembro de nenhum de nós ter grandes certezas. Mas pronto, também não havia pressa, o importante era ter o máximo de cartas para jogar mais tarde - acho que nunca acreditamos bem que o secundário acaba até ao dia em que não voltamos a meter lá os pés. No final do 12º ano convenci-me, sem grandes certezas, de que queria Direito na Universidade Nova - era uma aluna mediana, gostava de um bocadinho de tudo e não sabia bem o que queria, então deixei-me ir e apostei na “Roleta Russa”: como segunda opção meti Engenharia, como terceira Ciências da Comunicação, como quarta Biologia Molecular e por aí fora. Estudei afincadamente para o exame de Português e fui descontraidamente ao exame de Matemática… mas a vida trocou-me as voltas. Não sei o que raio é que se passa com os exames para que quanto menos nos ralarmos com eles, melhor nota tirarmos. Resultado? Entrei no Instituto Superior Técnico (IST) em Engenharia do Ambiente. Para minha grande surpresa cedo descobri que Engenharia do Ambiente não era bem salvar golfinhos e unicórnios. O primeiro semestre até foi interessante – conheci pessoas incríveis (que não eram de todo os “robôs automatizados” que todo o misticismo em torno do IST me havia feito prever), comecei a escrever para o Diferencial (Jornal de debate dos estudantes do IST) [1], vivi o melhor ambiente de praxe que já presenciei praxe


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CRÓNICAS

e, bom, havia churrascos todas as semanas. O problema foram as cadeiras – nenhuma me motivava a querer saber muito mais. O que, mais uma vez, não devia ter sido tão surpreendente como foi, visto que se o “S” já me estava justo no secundário, não sei porque raio é que me fui enfiar numa t-shirt “XS”. (Atenção: o Técnico faz-se desde que se goste). Não era infeliz, mas não era feliz. Tudo me era um bocado indiferente. Até o futuro. Foi então que apostei em aumentar o meu baralho de cartas mais um pouco, até perceber melhor quem era – continuei a fazer o segundo semestre e preparei-me para os exames nacionais.Há pessoas que se mandam de cabeça e corre bem. Muitos amigos meus fizeram isso e acertaram à primeira. Outros tinham muitas certezas e acabaram por perceber que afinal não sabiam treta nenhuma. Eu não sabia treta nenhuma e pronto, caí de rabo. Não sabia. “Ah, mas de certeza que tinhas uma leve ideia!”. Não, não sabia mesmo, de todo. Um amigo meu uma vez disse-me que se se entrar numa gelataria e só houver gelado de chocolate e morango escolhes um e sais feliz, enquanto que se houver todos os teus sabores favoritos sais sempre com dúvidas. Suponho que seja o mesmo que entrar numa gelataria com imensos gelados que parecem deliciosos e que nunca provaste, porque foi mesmo isso que aconteceu. Nunca tinha sido engenheira, nem jornalista, nem política, nem professora, nem veterinária, nem bióloga... Como é que era suposto eu escolher o que queria ser? Tudo me parecia demasiado definitivo e enfadonho. Eu tinha 18 anos e já tinha de saber onde é que queria trabalhar das 9h às 18h para o resto da minha vida? Fogo, as outras papas de bebé eram assim tão caras? Fui a muitas universidades infiltradamente – procurava os horários online e sentava-me na última fila... claro que às vezes me enganava na sala e só me apercebia ameio, mas fez parte (não gostei de Direito, já agora). Li a lista de cadeiras e a descrição de muitos cursos. Chateei muitas pessoas – alunos e profissionais dos cursos em questão, amigos, professores, família… acho que nem o gato da vizinha escapou. Mas acima de tudo, aprendi a ser paciente comigo. Milhentas crises existenciais depois, acabei por decidir que queria Ciências da Comunicação dava para jornalismo e edição de textos e efetivamente tudo o que me dava gozo naquela altura era escrever no Diferencial. Ai, essa coisa das grandes certezas! Seria de esperar que por esta altura fosse mais inteligente que isso, mas não foi novamente o caso. Por obra de sabe-se lá o quê as médias ficaram loucas nesse ano. Ou mais loucas do que eu estava à espera, pelo menos. Vi a primeira fase passar e não entrei. Continuei no Técnico. Vi a segunda fase passar e entrei em Ciência Política e Relações Internacionais e bom, na terceira fase não entrei em Ciências da Comunicação por uma vaga. Foi lixado. Agora que sabia o que queria, a DGES não me o deixava ter. Gritei muito. Chorei muito. E definitivamente praguejei muito. Para que conste, eu não sabia muito bem o que era Ciência Política e Relações Internacionais - tinha algum interesse em perceber/resolver as grandes crises humanitárias mundiais e vontade de dar um pontapé no rabo do Trump e do Bolsonaro, mas nunca tinha ligado ao


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CRÓNICAS

assunto mais do que o necessário para fazer um voto consciente e amigos estrangeiros. Porém, saltei – não sabia se havia terra do outro lado, mas sabia que onde estava só me ia afundar mais. Aliás, os meus pais sentaram-se comigo no sofá e fizeram-me perceber que não tinha muito a perder. Há que dar os louros a quem realmente os merece. Felizmente, isto é uma história de final feliz, porque gostei de Ciência Política e Relações Internacionais e apercebi-me de que era um curso mais indicado para mim do que Ciências da Comunicação. É verdade que continuam a haver cadeiras chatas, mas até essas são minimamente interessantes. Não, nenhum curso é perfeito, lamento informar. Só que agora levanto-me da cama com mais energia e olho com gula para o futuro - faz mesmo diferença estar num curso de que gostamos. Fiz amizades novas e apaixonei-me pela FCSH. E acima de tudo, apercebi-me de que não sabia nada do mundo. Não que saiba agora, mas ao menos sei que não sei. A maior diferença que sinto é que no Instituto Superior Técnico vestem a camisola para tudo, seja para construir o melhor avião de papel ou para comer uma bolacha melhor do que os outros; e grande parte da comunidade da FCSH não tira a t-shirt da gaveta. O que à primeira me pareceu ser puro desinteresse, depressa se tornou em algo mais grave. A falta de emprego e de financiamento da Cultura em Portugal faz com que muitos alunos me tenham confessado que “mais vale ficar na esplanada e aproveitar, já que a maioria de nós vai efetivamente acabar em caixas de supermercado quer se esforce ou não.”. Eu sei que a situação é feia, daí ter estado receosamente à espera de um mar turbulento cheio de competição, que existe de facto em Ciências da Comunicação e em Ciência Política e Relações Internacionais, todavia existem muitas piscinas com tubarões que parecem ter desistido da corrida logo na partida. Não precisamos de construir aviões, mas não vamos sequer tentar fazer o máximo do papel que temos? Onde andam os Camões que escrevem textos tão bonitos no Instagram? No final do dia é isso, somos todos diferentes, logo é normal que tenhamos ritmos e caminhos diferentes. Sim, pode ser desesperante não ter respostas quando o mundo parece precisar urgentemente delas, mas faz parte - há coisas que não podemos apressar, nem forçar; elas hão de chegar eventualmente: só nos resta aguentar e fazer o melhor que conseguimos entretanto. Também faz parte perdermo-nos e encontrarmo-nos, construirmos caminhos e acabarmos por optar por atalhos; afinal, se nós próprios vamos mudando como é que é suposto o nosso caminho não o fazer? Isto não é nada que nenhuma mãe já não tenha dito aos seus filhos e há de certeza milhentas plaquinhas com estes clichês escritos, e ainda assim não deixam de ser verdade. Claro que só os aceitei quando concluí isso da minha própria experiência, tal como aconteceu com outros clichêzinhos a que tive, constrangidamente, de ir dando razão na vida. Precisei do ano no IST para perceber quem é que eu sou e, consequentemente, descobrir mais ou menos o meu lugar no mundo. E sabem que mais? Eu, que já fui por muitas pessoas rotulada como “a pessoa mais perdida na vida que já conheci”, acabei bem. Se sei o que é que vou mesmo fazer? Não, não sei. Tenho uma ideia que me guia minimamente e isso basta. O importante agora é continuar a fazer por ser feliz. Que se danem o raio das papas. [1] - No início do ano o meu mentor no IST tinha-me dito “Não só o curso não se faz sozinho, como é bom que se inscrevam noutra atividade que vos ligue à faculdade. Mais para a frente vão precisar de ter amor à camisola por outra razão que não sejam cadeiras passadas.”. Ainda hoje esta frase é a linha condutora da minha experiência universitária e penso genuinamente que a Universidade seria um sítio melhor se todos os alunos tivessem passado pelo meu mentor.


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ARTIGOS

Uma história presa à liberdade CAROLINA FERREIRA

I. Poeira de Guerra - O princípio do fim Era uma aldeia em despedida. Estavam todos ali a enganar um engano. Crianças e mulheres mergulhadas em esperança a dizerem adeus aos muitos que sabiam não voltar, com lágrimas de um luto antecipado que desenhavam nos olhos a angústia das entranhas, tentando afastar essa ideia longínqua e impossível do regresso com uma espécie de sorriso mal conseguido. No campo de batalha, cada bomba lançada deixava a morte atrás de si, cada tiro um rasto de sangue e fé esmorecida, quase sem vestígio, como se de um nevoeiro ao fim da manhã se tratasse. Cada som aterrador a romper a terra com a força do vento de uma tempestade era como menos um dia de vida em cada um daqueles que ainda se erguiam. Todo aquele pesadelo tornava a fome um mal menor, tal era a vastidão da dor, do fumo e da cinza nos ares. Chegaram dias em que o sol era um estranho, noites em que o silêncio era uma bênção. Não tardou que aquele ar, respirado por toda a cidade vezes sem conta, saturado de medos e desabafos, de preces e orações gastas, se tornasse num veneno cujo antídoto se encontrava junto do fim da guerra. Junto ao horizonte, lá longe, quase, quase intangível.

II. Coração de Mar* – O regresso impossível Estes olhos azuis e brilhantes cintilavam como duas pérolas no seu semblante velho, enrugado e queimado pelo sol. As suas mãos, tratadas como o rosto, pareciam chorar e gritar ao vento por repouso. Bem-Haja não as ouvia, tinha os ouvidos tapados por preocupações e previsões meteorológicas. A sua boca salgada deixava escapar, no marulhar confuso das ondas, cantigas perdidas no tempo e assobios de avô. Bem-Haja deixava-se engolir pela boca do mundo, no seu barco Ulisses, pescando o seu ganha-pão, tendo travado lutas incontáveis com as ondas desse que se mascara de monstro em noites de chuva e de vento. Sempre disse que, se nasceu no Mar, haveria de lá morrer também (terá sido esta crença que o fez regressar da guerra nos seus verdes anos?). Dizia sempre que, apesar das longas batalhas travadas com o mar, este não deixaria de ser o seu melhor companheiro. Afinal, a sua vida tinha sido dedicada a este azul sem fim. Já lhe conhecia as manhas, mas também lhe sabia todos os encantos. Passava crepúsculos e auroras perdido naquela intemporalidade e na imensidão do nada que o rodeava no seu barquito ridiculamente pequeno, a olhar para a linha que separa o céu do mar, para o sol e para a lua que chegavam a partilhar o céu amigavelmente.

Nota (*): Referência a dois versos da letra da música «Somos Livres», de Ermelinda Duarte


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O trabalho. Trabalho árduo: lançava as redes. Esperava. Retirava-as mais pesadas. Separava o pescado. O odor nauseabundo do peixe tinha-se embrenhado de tal modo no interior do seu nariz que a sua presença lhe era já indiferente. Perguntavam-lhe se não estava cansado. E ele, com marcas do tempo na voz, respondia que sim, que às vezes desejava adormecer no barco e acordar num lugar distante e eterno. Homem da terra e, em tempos, da guerra, mas Coração de Mar até ao fim dos seus dias, cantarolava ele, descalço, a subir a ladeira da falésia. III. Asas de Vento* – A liberdade da eternidade Ali estava ela, livre, nos seus gloriosos mantos azuis, céu e mar, a voar sublimemente. A brisa primaveril deslizava-lhe pelo bico de bronze e acompanhava o voo das suas asas brancas, cinzentas e sujas de areia e sal. A maresia libertada pela espuma esbranquiçada no rebentar das ondas fazia parte da essência desta gaivota. O seu piar esganiçado era a prova da existência de lugares assim, como aquele, de certa forma paradisíacos. A areia dourada nascida nas arribas altas e majestosas e as restantes rochas com semelhante berço constituíam o porto de abrigo destas aves. Um dia de inverno, esta criatura levantou voo, cansada de si, velha do mundo e extasiada do mar. Foi a última vez que o fez. Foi a última vez que voou. A ela parecera-lhe normal, uma manhã cinzenta e nebulosa, tal como todas as manhãs de uma estação fria e triste, onde o sol se esconde nas brumas.

ARTIGOS

A meio do seu percurso algo falhou. Sentiu-se cair, sem dor nem alegria, apenas caindo, com aquela normalidade de algo que se desvanece, como se soubesse que chegara a sua hora e que a escuridão da morte a seguraria antes da queda do seu corpo gélido na água do mar. Como se conhecesse o ciclo da vida. Bem-Haja encontrava, mais vezes do que desejava, gaivotas deitadas nos areais das praias do seu mar, corpos que pereciam, sabe Deus como e onde, e acabavam em terra. Adeus, Asas de Vento, dizia a sua voz rouca, desfruta desse teu voo que é agora sem fim e deixa a tua alma descansar nesse mundo dos não vivos. E como se a dignidade da gaivota fosse a coisa mais importante do mundo, enterrou-a em paz. IV. Em terra - O fim Bem-Haja continuava, apesar de se sentir cada vez mais fraco e cansado, a fazer pequenas pescas, pequenas idas e vindas para dentro e para fora do desconhecido, sem se aventurar tanto como noutros tempos. Já não sentia a mesma coragem do passado para enfrentar provações com firmeza. Não tinha medo, mas sabia também já não ter forças. Sabia impossível uma vitória em caso de confronto com mais uma batalha. A próxima que aparecesse, devido a um descuido qualquer, seria rapidamente por ele encarada como o fim. Um corpo um dia chegou à costa e velhos camaradas deram com ele. Estava com a pele mais enrugada do que em vida e com tons de azul e violeta devido à água gélida e salgada. Alguns golpes na testa - sabe-se lá que adversidades enfrentou dentro da casca do seu Ulisses, agora desaparecido - e braços arranhados pelas redes e pelas cordas. Foram anos a combater. E num ápice tudo se revelou efémero num mundo, mas eterno e livre no outro.


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Contemplação LILIANA MARQUES

Estou sentada à janela, A contemplar o mar, As nuvens, e os vizinhos Que estendem as toalhas no estendal Por mais estranho que pareça Estas roupas penduradas, Que nada têm de invulgar, São bonitas Ali deixadas, Molhadas pelo mar. Também eu estou molhada, Não pelo mar, Mas pelas lágrimas Estou coberta de tristeza Angústia e receios Talvez por isso, As minhas lágrimas São mais salgadas que a água que está nas roupas do estendal.

POEMAS


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CRÍTICAS

MULHERZINHAS (2019) BEATRIZ CABANILHAS

Género: Drama, Romance Título original: Little Women De: Greta Gerwig Elenco: Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Pugh, Eliza Scanlen, Laura Dern, Timothée Chalamet, Meryl Streep O romance clássico e intemporal Mulherzinhas de Louisa May Alcott, publicado primeiramente em 1868, é pela sétima vez adaptado ao grande ecrã. Nesta última adaptação há uma desarrumação cronológica propositada, começando o filme já a meio da história, o que pretende desafiar as normas convencionais da narrativa e promover uma nova, e talvez mais dinâmica, perspetiva das personagens e do romance. Apesar desta história ser já em si marcadamente muito autobiográfica, devido ao facto de Alcott se ter inspirado na sua própria família para escrever o livro, a realizadora Greta Gerwig escolhe incorporar dados complementares sobre a autora que não constam inicialmente na obra. Para além disso Gerwig aproxima mais Jo March à sua criadora, sendo que todo o filme se insere numa espécie de reflexão “para trás e para frente’’ sobre a vida da mesma, contando assim a história das irmãs March. As "Mulherzinhas" desta história são, portanto, as irmãs March: Jo, caracterizada por ser intempestiva, nela imperam os valores feministas e a inteligência ; Amy, que surge como o antagonismo de Jo, é romântica, vaidosa e infantil; Meg, a irmã mais velha, é a mais responsável e conservadora; e Beth, que representa a timidez e a fragilidade. A dinâmica entre as irmãs é um dos pontos essenciais deste filme - a linha ténue que existe entre o carinho e a inveja, o conflito e cumplicidade, pinta a relação entre estas irmãs, e consequentemente toda a ação, principalmente entre as personagens de Jo e Amy.

Utilizando esta dinâmica como ponto de partida, a ação gira em torno da pressão relacionada com o conformismo às regras da sociedade, visto que, nos é dada a oposição entre Amy que não pretende romper com o sistema e, por entender a impossibilidade de o fazer, encontra formas para tirar proveito dele; e Jo que luta para acabar definitivamente com os dogmas do passado, contrariando a atitude das mulheres conservadoras cujo objetivo de vida era “casar bem” para beneficiarem de um estatuto social elevado. O que é imprescindível retirar desta narrativa é que, ainda que estas mulherzinhas sejam diferentes, o poder feminino de cada uma não tem de ser posto em causa. Gerwig tenciona concluir que Amy é tão importante e poderosa como modelo feminino quanto Jo. As Mulherzinhas pode ser descrito como uma ode às mulheres, desde as mais simples às mais complexas - é um filme dotado de uma inteligência crítica e passível de ser pensado mesmo na contemporaneidade.


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SUGESTÕES

Sugestões de filmes La Haine, de Mathieu Kassovitz (1995) sugestão de João Martins

First they killed my father, de Angelina Jolie (2017) sugestão de Francisca Dias Um filme poderoso sobre o regime dos Khmer Rouge no Camboja, que acompanha a vida sob o regime pelos olhos de Loung (Sareum Srey Moch), uma criança de 5 anos. Uma história

Os muros de cimento e exclusão que se erguem

verídica, inspirada na obra da verdadeira Loung

no seio da sociedade, analisados num pormenor

Ung, que nos leva numa viagem onde o terror e a

tanto patético como impactante, mas acima de

esperança se misturam aos olhos de uma

tudo humano e moderno (intemporal, aliás).

criança. É ainda notável que todo o filme, embora realizado pela Angelina Jolie, tenha sido produzido por cambojanos, o que só traz legitimidade acrescida ao filme, visto que é de facto uma história contada por quem a viveu.

A vida é bela, de Roberto Benigni (1997) sugestão de Rita Serpa De uma forma brilhante, “A Vida É Bela” consegue combinar o cómico necessário para convencer uma criança de que um campo de concentração é um mero jogo inocente, com todo o sofrimento que existiu durante a Segunda Guerra Mundial. É, sem dúvida nenhuma, o melhor filme que já vi na vida (o que só por si é notório, tendo em consideração que tenho a palavra-passe do Netflix ds meus amigos). E bom, se tens dúvidas de como é que é possível rir e chorar ao mesmo tempo, este filme é um excelente caso de

Disponível para amar, de Wong Kar-Wai (2000) sugestão de Inês Pinheiro Estamos nos anos 60, em Hong Kong. Num prédio antigo e sobrelotado, sem vida privada, nasce uma relação muito próxima entre dois vizinhos, que sabem estarem ambos a ser traídos pelos seus cônjuges. No entanto, decidem manter o seu amor platónico, para não caírem nesse mesmo erro. Estilisticamente é um filme em que o realizador utiliza close-ups, fumo e uma bandasonora belíssima para nos deixar… in the mood for love.

estudo.

As asas do vento, de Hayao Miyazaki (2013) sugestão de Manuel Pinto Este filme, do mestre japonês Hayao Miyazaki, é mais um exemplar da excelência do cinema do estúdio Ghibli. Recomendo vivamente este filme por ser uma obra que combina uma excelente e emocionante história de tons muito coloridos com um filme repleto de ação, algo que outros filmes de Miyazaki não conseguem (porque não querem) fazer. Embora não seja conhecido como “O Totoro” ou “A Viagem de Chihiro” é sem dúvida um filme a não perder.

Annie Hall, de Woody Allen (1977) sugestão de Daniel Borges A obra-prima do neurótico nova iorquino que, entre os seus tradicionais planos da cidade e a familiar banda sonora jazz, conta uma história de amor talvez demasiado realista para a época. Podemos apreciar pérolas do século XXI como “Marriage Story” e “La La Land”, mas não nos podemos esquecer de que já há muitas décadas que Woody Allen tenta desconstruir e destruir o amor para ver o que continua de pé. “Annie Hall” é a “Frances Ha” do seu tempo e Alvie Singer é o adorável tolo que, apaixonando-se por ela, se apercebe que os estereótipos das mulheres raramente são verdade.

Before Sunrise, de Richard Linklater (1995) sugestão de Liliana Marques Vi este filme pela primeira vez há bastante pouco tempo e, no entanto, já se tornou num dos meus preferidos. Em Before Sunrise é-nos apresentada a história de amor genuína e bonita de Jesse e Celine, que se conhecem num comboio e decidem passar a noite juntos em Viena. Mas não se enganem, não é a típica história de amor a que estamos habituados... O filme surpreende-nos pela positiva ao nos apresentar uma ação com um diálogo complexo e cativante, sobre os mais diversos temas, que me conquistou pela sua simplicidade e espontaneidade. Aquele que poderia ter-se tornado num filme aborrecido, tornou-se num filme brilhante, que nos faz pensar e sonhar.

A Balada de Buster Scruggs, de Ethan e Joel Coen (2018) sugestão de Francisco Nunes Dos irmãos Coen não se podem esperar desilusões, muito menos quando jogam em casa no seu género predileto: os Westerns. Qual livro de contos, o filme é dividido em seis narrativas distintas, cada uma carregando uma moral que contrasta com a ausência da mesma num Velho Oeste sem lei. O lado mais perverso do que representava o sonho americano está lá todo. Muito para além de umas meras cowboyadas, estamos diante de um dos argumentos mais originais que o género encarnou nos últimos anos.


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SUGESTÕES

Sugestões de livros To The Lighthouse de Virginia Woolf sugestão de Joana Freitas Numa narrativa cuja escrita é contínua, fluida e imersiva, esta obra incontornável de Virginia Woolf aborda, entre outras questões complexas, a passagem do tempo na vida e as interacções humanas que se desenvolvem e transformam em determinados momentos, sublinhadas pelas tensões familiares entre personagens engajantes e conflitos entre a condição de mulher e de homem.

Homens Imprudentemente Poéticos de Valter Hugo Mãe sugestão de Tatiana Matos A obra "Homens imprudentemente poéticos" de Valter Hugo Mãe é um bom exemplo da sua escrita magistral, que conjuga uma prosa bem construída em harmonia com a natureza japonesa, sem perder o seu lado poético tão ímpar. Um romance que se passa no Japão e traz consigo temas como o suicídio e a morte, percepcionados não como falhas humanas, mas como uma entrega e relação com a natureza, que está sempre em harmonia com a vida destes homens poéticos.

Problemas no Paraíso de Slavoj Zizek sugestão de Daniel Borges

A Insustentável Leveza Do Ser de Milan Kundera sugestão de Diana Neves Com uma capacidade singular de pormenorizar vidas opostas e de as relacionar num ponto, num país comunista nas últimas décadas do século passado, o autor relembra uma Europa dividida e reflete-se a si próprio neste livro. Uma escrita fácil de ler, repleta de referências históricas e pensamentos profundos, esta obra deixa-nos submersos em atos banalmente humanos que espelham a grandiosidade e também a mesquinhez da nossa História.

Um Homem Chamado Ove de Fredrik Backman sugestão de Rita Serpa Quando a única pessoa de quem gostava morre, Ove vê-se perdido num mundo que não compreende e que também não quer compreender. Porém, quando uma família se muda para a casa em frente, é obrigado a encarar o mundo de outra forma. Este livro é uma leitura leve, com todas as peripécias e plot twists necessários para prender o leitor, capaz de divertir qualquer tarde aborrecida e de relembrar ao mais despistado dos seres humanos, de que existe de facto sempre uma luz ao fundo do túnel.

Cem Anos De Solidão de Gabriel Garcia Marquez sugestão de João Martins Perdido entre a realidade e o fantástico, o segundo livro mais lido da literatura em língua

Zizek a ser Zizek, num livro em que comenta o

castelhana (apenas superado pelo afamado

estado atual da política global e traça os perfis

Dom Quixote, de Cervantes) retrata o paradigma

do capitalismo extremo e do comunismo

histórico e sensorial sul-americano em todo o seu

ditatorial. Com a ajuda de Marx, Hegel e Lacan,

esplendor de simplicidade e sensação.

Slavoj consegue definir realidades sociais e

Percorrendo as gerações do disfuncional clã dos

reconhecer o problema da política entre um

Buendía, com todas as suas peripécias,

extremo e outro, mantendo sempre em mente as

desventuras e traços genéticos, recria um mundo

relações de classes e o bem social.

de festas, invenções, revolução, guerras civis, tensões sociais, exploração económica e tradição enraizada, como se de um sonho se tratasse, mantendo o leitor na expetativa constante do desfecho.

Assim Foi Temperado o Aço de Nikolai Ostrovski sugestão de Pedro Fernandes

Eu, MalalaA minha luta pela liberdade e pelo direito à educação de Malala Yousafzai e Christina Lamb sugestão de Beatriz Cabanilhas

Depois de sofrer graves ferimentos numa das

Esta é a história de Malala, uma voz cada vez

frentes da guerra civil russa, Ostróvski, na altura

mais conhecida em todo o Paquistão por lutar

com 20 anos, começa a perder a vista e vê-se

pelo direito à educação de todas as raparigas,

condenado à imobilidade. Foi nessas difíceis

tendo-se tornado inclusivamente num alvo para

condições que escreveu Assim Foi Temperado o

os terroristas islâmicos. É também a história do

Aço, romance que se baseia em factos e

pai que nunca desistiu de a encorajar a seguir os

personagens reais e cujo protagonista, Pável

seus sonhos numa sociedade que dá primazia

Kortchaguine, se inspira na vida do próprio

aos homens, e de uma região dilacerada por

Ostróvski.

décadas de conflitos políticos, religiosos e tribais. Um livro que nos leva numa viagem extraordinária e que nos inspira a acreditar no poder das palavras para mudar o mundo.


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Depois de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas de Ricardo Adolfo sugestão de Mariana Abreu A história de uma família portuguesa que foge para o estrangeiro à procura de uma vida melhor, testemunhando de perto as dificuldades com que os emigrantes se deparam, desde a língua, à geografia local e aos novos sabores. Uma narrativa simples que nos conduz para o mundo da exclusão, para a problemática da emigração, e que nos faz questionar se, por vezes, não é necessário nos perdermos, para que nos possamos encontrar novamente.

Apresentação do Rosto de Herberto Helder sugestão de Inês Pinheiro DApresentação do Rosto foi publicado em 1968 e apreendido pela censura. Felizmente, é-nos agora possível recuperar a obra de Herberto Helder, numa edição que tem em conta alterações pensadas pelo autor.Percorremos o poeta, na busca pela “(...) imagem plena e real da sua condição de homem”, palavras do próprio. Tantos anos volvidos sobre o ano da fatídica censura e, mesmo assim, testemunhamos como os nossos dias estão aqui presentes:

«Na

América, há uma estupenda ferocidade à volta do criminoso e do seu crime. / (...) / Trata-se afinal, segundo parece, de um problema complicado: política.

».

O excerto em questão

pertence a ‘As Metáforas’ e espero que s

SUGESTÕES


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CRÓNICAS

ATÉ UM DIA, FCSH CATARINA AIRES

Este ano a primavera foi breve, penso eu, enquanto passo os olhos tímidos pela paisagem do outro lado do vidro. Ainda fazia frio da última vez que forcei um pé à frente do outro pelo caminho rotineiro de casa até à faculdade. O que achava eu que me esperaria até ao fim do meu último ano do curso? Com certeza ninguém diria que eu sentiria falta daquela rotina em particular, daquelas horas passadas sentada em frente a um professor, a contar os tique-taques do relógio que quase parecia tirar prazer da minha impaciência. Certamente, não senti falta do cansaço que se apoderava de mim no final de cada dia, do stress que me adormecia a ponta dos dedos, das interações desconfortáveis (e inevitáveis) de quem vê alguém com quem não deseja, de todo, falar. Mas a primavera foi breve este ano. Pelo menos para nós, estudantes. E, apesar de não poder dizer que senti falta do vento das 9 horas da manhã – ou 10, ou de fim de tarde, ou seja qual for a hora em que me encontrava na rua, porque o vento sabe, com relativa facilidade, abafar os lamentos de quem gosta de ter o cabelo no lugar, e recordemos brevemente os dias de chuva e os fins trágicos de muitos dos nossos guardachuvas –, a verdade é que a primavera devia fazer parte do nosso último ano. E fez, mas só do lado de fora das janelas das nossas casas. Durante este tempo, só soube que fez vento quando o ouvia rir-se de mim numa rajada especialmente forte que embatia contra a janela, enquanto tentava ouvir a professora pelo Zoom. A verdade é que nada mudou lá fora, sem ser, claro, a nossa presença. O sol nascia, o sol punha-se, também a lua continuava a desempenhar o seu papel, e os dias foram ficando mais longos, mais quentes. Também academicamente, nada mudou. O que achávamos nós que nos esperaria até ao fim do nosso último ano do curso?

@ROMANCEEADA

Mais tempo livre? Talvez, mas não. Bem sei que tivemos todos de nos adaptar a estes tempos estranhos e podia ter corrido melhor, mas, bem ou mal, o tempo foi-se passando. O tempo foi-se passando mais rápido do que pareceu, e agora acabou. Chegámos ao fim, sussurro eu para o subtil reflexo visível na superfície do vidro. Encosto a mão contra o vidro, cobrindo o espaço onde o sol se vê, pequenino, no céu, e sinto-a a aquecer debaixo do calor de um dia disfarçado de verão. Ainda fazia frio a última vez que percorri corredores estreitos ou subi, a custo, os infindáveis degraus das nossas familiares torres. Hoje, quando saio à rua, faz calor e vou de manga curta. Mas raramente saio à rua. É seguro dizer que partilhamos todos um peso de melancolia de quem acabou o curso sem se aperceber? Talvez a entrega do nosso último trabalho nos tenha relembrado, ou um amigo entusiasmado demais que quis celebrar por mensagens esta nossa meta atingida.


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No entanto, acabámos assim o nosso curso e nada mudou sem sermos nós, que estamos prestes a receber os nossos diplomas. Mas e as despedidas? Para onde podemos reservar as nossas despedidas? Acabou no conforto das nossas casas. Acabou atrás do ecrã. Acabou sem um último abraço a todos aqueles que nos marcaram ao longo deste caminho que foi tanto exaustivo e difícil como incrível e inesquecível. Acabou e nem todos subimos ao último andar das torres; porque sim, poucos de nós precisamos de lá ir, mas todos queremos. Faz parte da experiência. As salas de aula pequenas, as cantinas divididas, a biblioteca cheia, a adorada esplanada – todos aqueles espaços que foram tão nossos durante os últimos anos –, a verdade é que não teremos outra oportunidade de os percorrer como os estudantes que já não somos. Podíamos ter passado os nossos dias a contar os minutos para o fim das aulas, ou a queixar-nos da falta de condições, de decoração, por vezes de papel higiénico (ou, no meu caso, de cadeiras sem mesinha para esquerdinos), mas fizemo-lo porque tudo isto, imperfeito como era, era nosso. Claro, foi passageiro, uma breve estadia, e um local que nunca se lembrará de nós, as paredes não guardarão as nossas histórias – mas as pessoas com quem criámos laços nesse local, sim. As memórias somos nós que as levamos, e de certa forma terão de ficar sempre algo incompletas. A despedida ficará sempre quase feita. Não faz mal sentir tristeza pela perda dos vários cenários que ficaram por concretizar. Não faz mal sentir falta das pessoas que não vimos nos últimos meses e talvez não vejamos nos próximos tempos. Mas não deixemos que isto nos desmotive, que nos impeça de guardar momentos para uma despedida improvisada. Talvez não seja como imaginámos, mas muitas coisas na vida não o serão. Não faz mal. A próxima vez que nos virmos, quer seja na nossa FCSH, quer seja noutro local, vamos celebrar esta meta atingida, vamos guardar estes laços criados.

CRÓNICAS

E para os que não concluíram o seu curso este ano, os que ainda estavam só a começar a conhecer os cantos à casa, não se deixem desiludir pelo que está em falta, pelo que podia ser melhor. Lutem por melhorar tudo aquilo que está ao vosso alcance, estimem o que é vosso enquanto o é. No fim, deixará sempre saudades.


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You Have the Right to... JOÃO MARTINS

Sempre que efetua uma detenção, um polícia norte-americano é obrigado a informar o suspeito que tem o direito de se manter calado - “You have the right to remain silent” é decerto uma frase familiar. Parece, no entanto, que certos setores e elementos das forças de autoridade aplicam o primeiro dos Miranda Rights menos como um direito e mais como uma obrigação, fazendo-se de indiferentes quando os sujeitos que abordam insistem em não permanecer em silêncio. George Floyd manifestou-se - “I can’t breathe” -, mas os agentes que o assassinaram preferiram ignorar este apelo. Longe de ser uma estreia, esta situação sagrou o culminar de uma série de péssimas interpretações dos direitos dos cidadãos que as forças policiais juram proteger. A onda de protestos que se seguiu e a resposta brutal de polícia e militares têm dominado a atenção internacional. Em poucos momentos foram as redes sociais tão rápida e profusamente inundadas de vídeos chocantes, manifestações de solidariedade e repúdia, comentários inflamados, polémicas contraditórias - elas que costumam abundar em todos estes adornos. Não será porventura o momento certo para emitir julgamentos peremptórios - no futuro, em ambiente menos polarizado, distinguir-se-ão melhor os culpados e as vítimas, apesar de alguns já sobressaírem com uma clareza perturbadora. O foco merece ser direcionado para uma outra face do assunto, impossível de repisar em demasia: os problemas estruturais e humanos da polícia nos Estados Unidos. Apesar dos milhares de vidas que as autoridades reclamaram só na última década, são outros os números mais impressionantes: os da responsabilização criminal dos agentes abusadores, puramente residuais (35 polícias desde 2005, sendo aproximadamente 1000 todos os anos os cidadãos que morrem às mãos da polícia).adores

Este duplo dilema - mortes excessivas e impunidade policial - tem origem em múltiplos fatores, encabeçados pela inadequação do treino dos futuros agentes, ensinados a temer quem protegem, a agir preventivamente antes que a ameaça conjeturada se possa consumar. São vários os mecanismos que operam esta lavagem quase espiritual, desde exercícios que incentivam puxar o mais rápido possível da arma, mesmo que o suspeito pareça desarmado, a ações de formação que incutem nos agentes a ideia de que são “predadores” com licença para matar em nome de um bem maior. Desde 1996 que a lei americana permite aos departamentos de polícia adquirir material de guerra - apetrechos (coletes, coldres, cintos, etc.), armas de fogo, veículos blindados -, medida que auxiliou a eternamente florescente indústria de armamento dos EUA. A militarização das forças policiais beneficia uma atitude ainda mais agressiva, principalmente quando confrontadas com protestos lotados e com franjas menos pacíficas. Empoderada a um extremo bélico, a autoridade sente-se mais protegida e utiliza com frequência meios que facilmente suprimem manifestações incómodas. O gozo de imunidade qualificada no cumprimento das funções permite a muitos dos agentes que aplicam os métodos que lhes transmitiram na academia com o equipamento militar que lhes foi atribuído, escapar à responsabilização legal. Para piorar a situação, os sindicatos de polícia imobilizam decisões e projetos políticos recorrendo a ameaças de inação, molduras legais favoráveis aos abusadores, ou discriminação face a dissidentes (polícias que decidem denunciar o comportamento excessivo de outros). Para um agente, torna-se incómodo e perigoso não compactuar com as violações institucionalizadas, prática,


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e difícil não sentir a invulnerabilidade que, na prática, o eleva sobre a restante população. Isto conduz à raíz da questão, que não se prende com meios ou proteções externas, mas com a própria natureza cultural dos Estados Unidos. A violência endémica nas comunidades mais desfavorecidas (maioritariamente afroamericanas), conjugada com o poderoso apego à posse individual de armas de fogo (que pressupõe uma maior incerteza se um suspeito terá uma consigo no momento, ou não), são os dois tons dominantes num corpo social que, para se defender da violência que gera, recorre e sanciona uma proteção policial violenta. A carreira nas forças de segurança é aliciante para as camadas belicistas da sociedade, pois dá acesso a um uso legitimado, e largamente impune, da força. Quem tenha uma paixão por armas e técnicas de defesa ou uma visão dicotómica da sociedade, vestindo o uniforme de “bom” para declaradamente combater os “maus”, vê na polícia uma arena segura para se exercitar. Este perfil, impróprio para qualquer autoridade pública, é ainda mais prejudicial quando se trata de policiar um povo multicultural, zeloso dos seus direitos e liberdades e educado na desconfiança constitucional de um poder central forte. As forças policiais são o suporte de qualquer Estado, dependente da ordem e da paz interna que estas asseguram. O comprometimento dos agentes para com as suas funções é essencial, mas devem ser evitadas confusões: um polícia é um servidor público, não um vigilante a soldo do contribuinte; não patrulha para deter suspeitos ou erradicar o mal pelas suas próprias mãos, mas sim para dissuadir o crime e valer a cidadãos em necessidade. Os laços entre polícia e população são fundamentais - é preciso que uma população se queira policiada. Enfrenta-se um sério problema se os cidadãos passam a temer as suas próprias autoridades, para mais se é em democracia que se afirma viver. A polícia americana tem provado ao longo de décadas que nem todos os seus efetivos estão à altura de fazer valer este pacto, preferindo uma abordagem securitária radical que já vitimou milhares, em especial

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especial afro-americanos. Cada cidadão tem vários direitos quando é abordado pela polícia, não apenas os que o agente lhe cita enquanto o imobiliza. O direito a viver, acima de todos, mas também o de um tratamento decente, de um julgamento justo, de um advogado. Se um agente de autoridade viola estes direitos, ou nega que sejam exercidos, deve ser invariavelmente punido. Se a lei salvaguarda quem age em autodefesa, proteções especiais como a imunidade qualificada são desnecessárias, a não ser que já se saiba que a violência irá exceder o que é justificável. Num ambiente civilizacional em que polícias inseguros, na defensiva, treinados para disparar sem fazer perguntas ou segurar um suspeito sem ter em conta se consegue respirar, se refugiam por detrás de muralhas sindicais, profissionais e morais quase inamovíveis, não se pode viver com segurança - tanto menos se se pertence a um grupo “de risco” (expressão que faz sobressair o ridículo quando aplicada num contexto de ação policial). Nos diversos e peculiares Estados Unidos da América, palco de conflitos sociais e raciais permanentes, líderes mundiais na produção de armas e no equipamento policial de nível militar, onde uma metralhadora é considerada uma boa prenda de Natal e um afroamericano em mil pode esperar ser morto pela polícia, a forma como as autoridades atuam e são responsabilizadas em caso de incumprimento dos seus deveres tem de ser seriamente repensada. F https://www.statista.com/topics/1287/firearms-in-theO N T E S

us/https://www.amnestyusa.org/issues/deadly-force-policeaccountability/https://www.youtube.com/watch? v=km4uCOAzrbMhttps://www.youtube.com/watch? v=Wf4cea5oObYhttps://www.youtube.com/watch?v=zaD84DTGULo


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SUGESTÕES

Playlist de Verão LEONOR SÁ BANDEIRA

On Melancholy Hill Gorillaz

Automatic Driver La roux, Tyler The Creator Remix

Bound 2 Kanye West

Alright Supergrass

Lust for Life Girls


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Por favor, aguarde aqui a sua vez CAROLINA SOUSA

Sou operadora de caixa de supermercado – frase que em Março só não me dava bilhetes VIP para concertos da Madonna porque foi tudo cancelado. Não é que já não saiba que a humanidade nos brinda com o mais vasto buffet de estupidez que é possível existir, mas há tanta variedade que erradicaria facilmente a fome de palermice em todo o mundo caso ela existisse. Nós vemos muitas coisas, mais do que queríamos ou é saudável alguém ver (basta pensar que estávamos lá quando decidiram transformar os carrinhos de supermercado em Arcas de Noé de feijão em lata e papel higiénico). Nem a duração de todos os diretos do Bruno Nogueira combinados chegariam para partilhar o manancial de parvoíce a que nos expomos. Entretanto, já se esqueceram que os trabalhadores essenciais são, realmente, essenciais. Caso disso é o Senhor Armindo (nome fictício), com quem aqui há dias tive um duelo de lógica aristotélica de fazer o próprio Aristóteles ressuscitar. Após estar perigosamente perto do cliente da frente, vamos dizer, a 50 centímetros, como tinham aquelas réguas da Maped que usávamos no oitavo ano, o Senhor Armindo (nome fictício) achou que as minhas advertências não mereciam a sua adesão. Sendo assim, lançou um raio de luz sobre mim e sobre todos nós quando me disse que, uma vez que estava em cima da marca do chão que diz “por favor aguarde aqui a sua vez”, estava a cumprir. Vamos lá ver: se eu estivesse a falar com uma embalagem de iogurte, ou mesmo um saco de batatas, esperaria uma resposta deste nível intelectual. Como presumi que o meu interlocutor era 1- uma pessoa e 2- proprietário de cérebro, nunca esperei esta conclusão. Mas o Senhor Armindo (nome fictício) tem razão: se eu atropelar uma velhota porque vou a 90 numa localidade mas tiver o cinto posto, também estou a cumprir. É tudo uma questão de perspectiva. 1-0 para o Senhor Armindo (nome fictício). Expliquei que a distância entre a marca e o local de pagamento tem de estar vazia. O argumento foi o mesmo. É como se quem tem o pé sobre a marca do “por favor aguarde aqui a sua vez” ficasse provido de completa imunidade ao bicho. Querem uma vacina? Investiguem estes meninos. O raciocínio destes meus interlocutores e o facto de, quando são chamados à atenção, se ofenderem de tal modo que fazem crer que as suas progenitoras foram altamente vilipendiadas, fazem-me questionar várias coisas. Uma delas é a vontade que estas pessoas têm de viver. À partida, e ao que parece, é virtualmente zero. O seu desprezo pelo espaço chega a ser quase pedir para a COVID-19 ser atraída para os campos magnéticos da sua estupidez. Se algum dia precisarem de dinheiro, vendam só os pulmões no OLX, porque claramente não precisam deles. Para rematar, se calhar enviava um grande beijinho a todos os que acham que medidas restritivas para evitar o contágio são autoritárias e que toda a gente, sem excepção, vai cumprir e pensar pela própria cabeça. Conheçam o Senhor Armindo (nome fictício) e multipliquem por mil. Depois, multipliquem por todos os dias do ano. Boa sorte para permanecerem vivos e aquele abraço à parcela da população que actualmente leva mais vistas: os epidemiologistas.


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Estreias de Cinema Adiadas eTelevisão Portuguesa DIANA NEVES

Em tempos de confinamento, vinham a calhar novos filmes para assistir! No isolamento social, durante a pandemia do Covid-19, o trabalho dos artistas ajudou-nos a manter a sanidade mental, ocupou-nos o tempo, ligou-nos através de ecrãs, livros, e mesmo museus virtuais. Tendo-nos apercebido disto ou não, a verdade é que as artes são componente essencial das nossas vidas, e de uma maneira ou de outra, espelham a sua época, mentalidade e sociedade, refletem os preconceitos, problemas, avanços, amores, vitórias, histórias e mitos da Humanidade. E têm um papel no nosso mundo. Infelizmente, a situação de crise de saúde pública adiou muitos planos artísticos: filmes, palestras, apresentações de stand-up comedy; proibiu visitas a museus, exposições de arte. É algo compreensível e, nestas circunstâncias, foi a melhor decisão a tomar. Contudo, apesar de várias entidades jornalísticas se empenharem na divulgação de listas de filmes (como nós já fizemos), de os canais de televisão diversificarem o seu panorama e guia de programas, e arranjarem alternativas para continuar a dar às pessoas formas de entretenimento e/ou aprendizagem, ou os correios poderem fazer entregas de livros, ou os museus organizarem visitas online,… o que é certo é que a cultura, a arte pararam de certa forma, se não totalmente. Neste artigo, trago as estreias de cinema que foram adiadas e, se possível, as novas datas agendadas e a situação geral no mundo do cinema. Os cinemas da cadeia Nos fecharam a 16 de março deste ano, tendo recentemente aberto algumas salas ao longo do país, sob inúmeras regras e condições, como capacidade limitada e distanciamento entre os lugares. Enquanto que os museus e monumentos abriram dia 18 de maio, aos cinemas e teatros, salas de espetáculo e auditórios foi a vez de abrirem dia 1 de junho. Apesar de alguns cinemas menores nunca terem fechado e, por outro lado, outros terem falido, espera-se agora um regresso a uma nova normalidade ainda sob várias normas. Devido à pandemia da Covid-19, os Globos de Ouro em Portugal foram cancelados e adiados para 2021. A gala da SIC e da CARAS que premeia celebridades portuguesas em diversas áreas de entretimento e espetáculo irá anunciar a nova data de acordo com as próximas circunstâncias que se forem vivendo. Depois de 73 anos com celebração anual, o festival de Cannes deste ano foi cancelado. Contudo, tudo indica que Spike Lee continuará como Presidente do Júri em 2021. A City, Conventions in the Yard é responsável por organizar sessões de Drive In Comic Con Portugal, que iniciaram dia 1 de junho, com o filme «O Meu Espião». Uma iniciativa nova em Portugal que contribui para relembrar êxitos da cultura pop e cujas sessões poderão projetar antes estreias..


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Agora, quanto às nossas estreias: ❖ Da 5 Bloods estreou 12 de junho na Netflix ❖ A Marvel lançou o novo calendário para as estreias dos filmes dos nossos heróis:

• Black Widow – 6 de novembro de 2020 • Eternals – 12 de fevereiro de 2021 • Shang-Chi: Legend of the Ten Rigns – 7 de maio de 2021 • Doctor Strange in the Multiverse of Madness – 25 de março de 2022 • Thor: Love and Thunder – 18 de fevereiro de 2022 • Black Panther 2 – 8 de maio de 2022 • Captain Marvel 2 – 8 de julho de 2022 • The New Mutants – indefinido

❖ A Wonder Woman: 1984, da DC Comics, deixou de ter data de estreia de 5 de junho para 14 de agosto deste ano.❖ O 25º filme da saga de Bond, No Time To Die, tem nova estreia para 26 de novembro de 2020.

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❖ O filme de animação Minions: Rise of Gru e o tão esperado A Quiet Place 2 foram adiados por tempo indeterminado. ❖ A tão adorada saga Fast and Furious vai ter o seu nono filme com estreia a 1 de abril de 2021. ❖ As gravações de Blossoms, Missão Impossível 7 e de Official Competition, respetivamente, em Itália e em Espanha, foram canceladas. O filme com Tom Cruiseestá previsto estrear no final de 2021. E o filme com Penélope Cruz e António Banderas (Official Competition) espera-se estrear para o próximo ano também. ❖ Da Disney: Nightmare Alley, os remakes em live-action de Mulan, The Little Mermaid e Peter Pan and Wendy foram adiados indefinidamente. ❖ The Nightingale, que ia juntar as irmãs Fannig, e o The Last Duel foram adiados para 2021.

Por fim, é importante falar um bocadinho de trabalhos portugueses. Neste caso, trago a minissérie exibida na SIC, É P´ra Amanhã, realizada por seis jovens e que se focou na sustentabilidade ambiental. Estreou dia 17 de maio e, a partir daí, foi exibida todos os domingos de manhã, até ao passado dia 14 de junho. Esta série documental foi composta, portanto, por cinco episódios, cada um deles focando-se numa área diferente: alimentação (17 de maio), energia e mobilidade (24 de maio), economia (31 de maio), política (7 de junho) e educação (14 de junho). Com planos aéreos a mostrarem paisagens lindas, muita música portuguesa como «pano de fundo», entrevistas e testemunhos de adolescentes, professores, políticos, agricultores, esta série que juntou seis jovens numa aventura pelo país, reuniu formas diversas de aplicar a palavra «sustentabilidade» em várias partes da sociedade e provou como as soluções que já estão a ser postas em andamento, e outras que se planeiam para um futuro próximo, conseguem realmente pôr em prática uma forma de vida sustentável, nas freguesias e concelhos portugueses. Assuntos ambientais são dos mais relevantes e urgentes nos dias de hoje, dado que no meio de manifestações antirracistas, no auge da luta contra a Covid-19, e na proximidade de crises económicas, temas e soluções ambientais não devem ser deixados para trás. Muito pelo contrário, estão na corrida pela atenção dos líderesmundiais, como um problema grave que põe em causa toda a vida no planeta. A série contou com a mão de Teresa Carvalheira (produção), Luís Costa (coordenação), Edgar Rodrigues (design), Pedro Serra (realização), Verónica Silva (comunicação) e Francesco Rocca (gestão). Em todos os pontos de realização do projeto, os seis elementos tiveramo cuidado de planear as suas viagens, chegar às pessoas e utilizar os recursos que tinham de forma sustentável também, à medida do seu ideal coletivo. Um exemplo disso, foi terem usado maioritariamente transportespúblicos, em vez de carros individuais com os quais emitiriam uma quantidade imensurável de CO2. Com uma linguagem acessível, temas pertinentes, soluções viáveis, fáceis e económicas, os responsáveis por este projeto souberam exatamente como chegar à população (fizeram um trabalho impecável), não tendo sido o horário atribuído pela SIC para a exibição da série, menos favorável à oportunidade de uma maior audiência. Isto prova que aos jovens devem ser dados apoios e oportunidades para realizarem projetos televisivos, cinematográficos ou de qualquer área artística, relevantes atualmente e com valor artístico e cívico. Disso exemplo foi É P´ra Amanhã.


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É IMPORTANTE NÃO ESQUECER. É IMPORTANTE AGIR DIANA NEVES

ILUSTRAÇÃO: FRANCISCA DIAS

Nenhum dos agentes foi devidamente interrogado ou penalizado pelos seus atos. Alguns continuam a exercer a profissão. Mas ser polícia não é desculpa para assassinar alguém, muito menos usando pretextos racistas. Cada caso foi um caso. Mas todos foram dar ao mesmo motivo: racismo puro. E estes são apenas alguns exemplos dos milhares que já se sucederam ao longo do século passado e nas primeiras décadas do século XXI. A Lei e as autoridades policiais devem cumprir o seu dever de zelar pelos civis, pelos seus direitos e proteção, promovendo a liberdade e a igualdade; não lhes cabe tratar com desrespeito e brutalidade qualquer indivíduo durante a sua detenção ou em qualquer contacto que tenham com eles. A brutalidade policial é uma realidade. O privilégio branco é uma realidade. E a segjjjjjjjjjregação

George Floyd foi morto pela polícia a 25 de maio de 2020, nos Estados Unidos. Breonna Taylor foi morta pela polícia a 13 de março de 2020, nos Estados Unidos. Eric Garner foi morto pela polícia a 17 de julho de 2014, nos Estados Unidos. Trayvon Martin, de 17 anos, foi morto pela polícia a 26 de fevereiro de 2012, nos Estados Unidos. O polícia foi dado como inocente. Elson Sanches, de 14 anos, foi morto pela polícia a 4 de janeiro de 2009, em Portugal. O polícia foi absolvido do caso. Igor (cigano) foi morto por um polícia em 2012, em Portugal. Toninho Tchibone foi morto por um polícia em 2009, em Portugal. segregação racial é também, AINDA, uma realidade. O racismo institucional é uma realidade. E não só nos Estados Unidos. É também aqui, em Portugal. Porque não conta só dizer que a escravatura foi abolida em 1865 nos EUA ou em 1869 em Portugal. Contam todos os atos de segregação, discriminação, maltrato e subjugação que as comunidades negras viveram ao longo deste último século pelo mundo. É preciso olhar em redor e reconhecer que existe o tal dito white privilege. A maioria de nós, enquanto pessoas brancas, nunca nos sentimos oprimidos ou maltratados ou postos de parte devido à nossa cor de pele. O privilégio branco nasceu do decorrer da História, que permitiu dar a pessoas brancas privilégios e representações que aos negros não foram concedidos. E a concedidos.


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verdade é que a comunidade negra fora dos seus países de origem não tem uma voz que a represente, e é confrontada com aparências que não são a dela. Os documentários que têm assolado a Internet mostram sobretudo, devido aos acontecimentos recentes, como, nos Estados Unidos, indivíduos negros são mais propensos a serem mortos ou maltratados por agentes e como se criou um sistema judicial e policial que aprisiona um número altíssimo de pessoas negras comparado a pessoas brancas, que são usadas em trabalhos prisionais alimentando a riqueza das prisões privadas. Só este facto é: uma violação aos direitos básicos humanos, pondo em causa a abolição da escravatura; uma ofensa à democracia; uma manifestação de racismo puro. E Portugal não está isento de culpas. Portugal foi o maior país traficante de escravos no comércio transatlântico, e se continuarmos a recorrer à narrativa mística do império português (tão enraizada no nosso ensino e mentalidade desde o Estado Novo) a situação fica pior. Temos que desmascarar a história do colonialismo porque foi algo que não foi bonito, mas cruel e bárbaro para as populações africanas, com o genocídio e a exploração que sofreram por séculos. O colonialismo levou à atual marginalização e discriminação, sobretudo de pessoas africanas ou afrodescendentes e lusodescendentes, no nosso país. Em 2018, com o livro Racismo no País dos Brancos Costumes, Joana Gorjão Henriques deixa bem claro as formas de racismo em Portugal, face a imigrantes do Leste, imigrantes africanos, ou lusodescendentes negros. Em Portugal, a segregação racial e a discriminação evidenciam-se no facto de: estarem dez vezes mais africanos nas prisões do que portugueses;

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os arrendatários preferirem alugar casas a brancos do que a negros; comparativamente à população portuguesa, a maioria da população negra em Portugal viver em casas sobrelotadas e/ou degradadas; as gerações jovens da comunidade negra têm maiores taxas de abandono escolar ou seguimento de vias vocacionais; nos empregos haver preferência pelos brancos, e pelo facto de praticamente não existirem figuras negras em papéis importantes nomeadamente no governo, no ensino, nas empresas; em 15 anos terem morrido dez jovens às mãos de agentes policiais.

Várias entidades, como o Comité Anti Tortura Europeu, já consideraram Portugal dos países europeus com mais violência e racismo policial, e com maior taxa de discriminação perante os afrodescendentes e os estrangeiros imigrantes. Para além de que, tanto em Portugal como nos EUA, ou noutras partes do globo, aos negros não lhes é permitido crescer profissionalmente, nomeadamente nas artes (e pelo contrário, aos brancos concede-se uma grande facilidade de abertura e oportunidade do mercado). A população negra tem a sua História censurada e subordinada à História branca. Quando a escravatura foi abolida nas colónias portuguesas, foram os proprietários de escravos que receberam indemnizações, e os escravos entraram num ciclo vicioso de pobreza, marginalização, e difícil acesso à saúde, habitação, voto, participação política. Por exemplo, no século passado, no outro lado do atlântico, moradias e bairros onde habitassem pessoas brancas tinham um valor monetário muito superior aos bairros definidos onde os negros deviam viver. É por esta e outras razões que há uma grande disparidade entre a riqueza branca e negra. Racismo e violência policiais não podem ser aceites no século XXI. Após a morte de George Floyd, manifestações e protestos emergiram nos nos


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Estados Unidos e pouco depois no resto do mundo. Com Donald Trump na presidência (cuja campanha, em 2016, se orientou sob formas racistas, xenófobas, sexistas), sem apoio à causa Black Lives Matter e com várias provas de polícias a manifestar racismo e falta de dignidade e respeito para com os manifestantes (prenderem manifestantes pacíficos, deitarem litros de água dos mesmos para o chão, lançarem gás e dispararem balas de borracha em protestos calmos) dificulta-se o avanço do movimento e propicia-se o aumento da violência. Também em Portugal se têm seguido manifestações e protestos em defesa da causa BLM. Porém, recentemente, a vandalização de estátuas no espaço público tem sido apontada pelos media como o efeito mais grave destas mesmas manifestações. É errado. Mas a permanência de estátuas e monumentos que mistificam a colonização portuguesa como contribuição para a globalização e grandiosidade do país, isso sim, é um erro. As manifestações BLM têm uma essência pacífica, tal como a maioria dos seus intervenientes. Estas manifestações devem reter a nossa atenção, ser levadas a sério e atendidas o mais rápido possível. Património é importante, mas é capaz de se limpar; vidas humanas não se «limpam». É tempo de dar a indivíduos negros sentenças justas e tratamento adequado nas prisões e nas ruas quando são parados numa operação stop, quando são interrogados por polícias. Porque não pode haver duas justiças, uma para negros e uma para brancos. Casos de pessoas brancas que saíram ilesas de crimes graves contra pessoas negras que levam penas perpétuas por possuírem marijuana sem cadastro anterior, não podem existir. Não se relaciona etnia com criminalidade, mas sim contexto anterior pessoal (como as vantagens ou não que uma comunidade recebe) com criminalidade: ser negro não é ser criminoso.

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É tempo de dar aos negros o direito a uma habitação condigna e o direito de não lhes ser negado o espaço onde querem habitar. É tempo de tratar as crianças negras nas escolas de forma igual às brancas, com as mesmas oportunidades de aprendizagem. É tempo de cuidar das comunidades negras como parte íntegra de qualquer sociedade onde se insiram, de lhes conceder qualquer direito básico humano e cívico igual aos outros cidadãos. É tempo de deixar fazer da cor de pele uma barreira. É tempo de deixar fazer do racismo uma opinião. É um problema grave, crónico nas nossas sociedades, passível de resolução, mas que depende da ação de todos, da educação, de uma nova mentalidade. O racismo sistémico existe, nas instituições, escolas, tribunais, empresas, gerado ao longo da história: temos que o examinar e eliminar. É tempo de cada pessoa branca prestar o devido respeito a uma pessoa negra e viceversa. A luta pela igualdade de direitos e justiça não é uma luta negra, é uma luta de todos. Para além de donativos, há várias petições que podem assinar: www.change.org/p/andy-beshear-justice-for-breonnataylorhttps://www.charge.org/p/federal-bureau-ofinvistigation-disbarment-of-george-e-barnhill https://www.charge.org/p/justice-for-tony-mcdade

Há vários documentários que podem assistir: 13th Hi Privilege. It´s me, Chelsea When They See Us Explained - The Racial Wealth Gap

E há várias fontes jornalísticas portuguesas que se focam no racismo em Portugal (para além das americanas que fornecem estudos estatísticos e cuidados de dados racistas nos EUA). Eduquem-se. Unam-se. Lutem.


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D O M I N G O

NÚCLEOS

UM FILME PARA CADA DIA DA SEMANA SUGESTÕES DO NARQ

As Above, So Below (2014) Terror/Thriller (1h40 min.)

Scarlet Mallow, uma jovem estudante de Arqueologia Urbana, junta-se a um grupo de exploradores para desvendar os mistérios das catacumbas subterrâneas da cidade de Paris. A área por que se irão aventurar é conhecida como “Cidade dos Mortos” e esconde segredos que ninguém imaginava. S The Pyramid (2014) Terror/Thriller/Ação (1h30 min.)

Uma equipa de arqueólogos americanos, liderados por Miles Holden, descobre uma pirâmide diferente de todas as outras, enterrada sob o deserto do Egito há mais de cinco mil anos. Quando se aventuram nas suas profundezas, para desvendar os seus estranhos mistérios, o grupo percebe que está impedido de sair. T E R Ç A

F E I R A

A Múmia (1999)

Aventura/Ação (1h50 min.)

Em 1926, um grupo de arqueólogos liderados por Rick O’Connell, Evelyn e Jonathan está empenhado em encontrar a cidade perdida de Hamunaptra. Sem o esperar, Evelyn lê um texto do livro de Amon-Dei e acaba por despertar Imhotep, um sacerdote do Faraó Seti que foi mumificado vivo. Imhotep, sedento de vingança, liberta consigo as dez pragas do Egito.

O Mito (2005)

Aventura/Ação/Comédia (1h20 min.)

Q U I N T A

No ano de 221 a.C. o imperador da China, Qin Shihuang, mandou construir a sua tumba real, em cujo interior foram encerrados o soberano, centenas de pessoas que trabalharam na construção e um tesouro. O arqueólogo Jack e o cientista William embarcam numa viagem que os levará ao impressionante túmulo e que conectará Jack a uma surpreendente história da sua vida passada. F E I R A

S Á B A D O

EF GE U I NR DA A

QF U A EI RR T AA

The Exodus Decoded (2006) Mistério/Documentário (93 min.)

Simcha Jacobovici lidera um grupo de arqueólogos que investigam a veracidade por trás do livro bíblico do Êxodo, onde tentarão interpretar os segredos do Mar Vermelho e das Dez Pragas do Egito.

A Lenda do Tesouro Perdido (2004)

Aventura/Ação (2h10 min.)

O historiador e descodificador Ben Gates tem dedicado toda a sua vida à busca de um tesouro ligado à Declaração da Independência dos Estados Unidos. Durante uma expedição, porém, é traído pelo seu colega, Ian Howe e tem que impedir que o tesouro caia nas mãos erradas.

Os Caçadores da Arca Perdida (1981) Aventura/Ação (1h55 min.)

O arqueólogo Indiana Jones precisa de encontrar a Arca da Aliança, uma relíquia bíblica que contem as placas dos dez mandamentos. Segunda a lenda, esta relíquia torna o seu portador invencível, portanto, Indiana Jones tem que chegar primeiros que os nazis, que também cobiçam tal objeto.

SF EE XI TR AA


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SUGESTÕES

Seis Sugestões de Leitura para o Verão CAROLINA FONSECA BENTO

Finalizado o semestre, finalmente tens tempo livre para te dedicares à leitura. Sejam clássicos intemporais, ou textos contemporâneos cujo autor nunca ouviste falar, a tua escolha pode vir a surpreender-te! Emma, Jane Austen (1816) A Sociedade dos Sonhadores Literatura inglesa. Romance. Coming of age. Involuntários, José Eduardo Jane Austen é sempre uma ótima escolha. Neste caso, selecionei um dos seus clássicos, Agualusa (2017) Emma, um romance de amadurecimento, do inglês “coming of age”, do século XIX.

O livro explora o crescimento de Emma Woodhouse, uma jovem herdeira, em direção à maturidade sentimental e emocional, cuja carência é explicada por um pai pouco autoritário e deslumbrado pelas qualidades da filha, pela perda prematura da mãe e por uma preceptora demasiado condescendente. Esse crescimento é feito sociais que Emma vai construindo e pelas feito através das relações respetivas lições que lhe proporcionam. Mais do que romances, os livros de Jane Austen são retratos da sociedade britânica do século XIX. O comportamento das personagens é maioritariamente explicado pelo contexto socioeconómico e cultural em que se se circunscrevem. Pelos temas centrais de crescimento feminino e pelas suas protagonistas profundamente complexas, Austen é uma das autoras fundamentais e incontornáveis da literatura.

Literatura angolana. Política. Utopia. A narrativa de Agualusa gira em torno da temática do sonho e das relações que os personagens têm com ele: o jornalista Daniel Benchimol sonha com pessoas que nunca conheceu, Moira Fernandes faz arte com os seus próprios sonhos e Hossi Keley é protagonista de sonhos alheios. Uma vez unidos, o seu objetivo comum torna-se um libertar um grupo de jovens ativistas (entre os quais se encontram a filha de Daniel e o sobrinho de Hossi), da prisão em que o regime angolano os colocou, por terem protagonizado uma manifestação pacífica. São as personagens que tornam esta estória numa das leituras mais bonitas e peculiares. No fundo, a obra é uma utopia, um sonho por um país livre e democrático e uma sátira política ao atual sistema político angolano.

Literatura norte-americana. Romance. Young adult. No que podia parecer apenas um romance juvenil, Eleanor & Park surpreende-nos com o amor florescente entre dois inadaptados, denotando também problemas sociais importantíssimos, como o bullying e a violência doméstica. As famílias dos dois adolescentes não podiam, de facto, ser mais diferentes: a família de Eleanor é numerosa e disfuncional, enquanto a de Park é amorosa e estável. Eleanor encontra em Park a segurança que nunca sentiu personagens verdadeiramente as duas personagens são ambas bastante próximas de nós, pois identificamo-nos com elas, exprimindo sentimentos que todos já devemos ter sentido pelo menos uma vez na vida: Park com o seu desejo de passar despercebido e Eleanor com as inseguranças que tem sobre o seu corpo. No meio do caos das suas vidas, nasce esta paixão linda e comovente de se ler, brilhantemente desenvolvida pela escrita de Rowell.

Literatura inglesa. Romance. Mistério. Jane Eyre é considerada uma das obrasprimas da literatura inglesa. Conta a estória da protagonista homónima que, ultrapassada uma infância desprovida de amor, alcança a tão desejada independência quando é aceite para o posto de preceptora em Thornfield Hall. Apaixona-se pelo dono da propriedade, Mr. Rochester, amor esse que é correspondido, mas profundamente afetado por um terrível segredo segredo que se esconde entre as paredes de Thornfield Hall. Muito mais do que um romance, Jane Eyre é uma estória de emancipação feminina, de busca pela liberdade e de uma luta interior profunda entre o que o coração pede e o que a consciência aceita. À época, foi uma das primeiras prosas a focar-se no crescimento psicológico e emocional da heroína. A obra tem, ainda, uma atmosfera recheada de suspense e mistério, o que a destaca das demais e a torna numa leitura interessantíssima e tocante.

Eleanor & Park, Rainbow Rowell (2012)

O Cão dos Baskervilles, Sir Arthur Conan Doyle (1902)

Literatura inglesa. Crime. Mistério. Suspenses são sempre uma boa ideia para uma leitura de verão. Por isso, este livro da saga “Sherlock Holmes” é perfeito para te dedicares enquanto te espreguiças na toalha. Nesta pequena mas cativante estória, Holmes e Watson investigam a misteriosa morte de Charles Baskerville, dono da mansão Baskerville onde se acredita pairar uma terrível maldição que conduz os seus herdeiros à perdição. Enquanto os moradores da localidade acreditam que o acidente foi motivado pelo temível temível cão negro sobre o qual paira a lenda, Watson e Homes estão determinados a investigar o crime e a descobrir se o próximo herdeiro, Henry Baskerville, terá o mesmo destino.Mais uma vez, é um clássico, cuja leitura nos transporta diretamente para o centro desta investigação, cujos contornos são tudo menos comuns e prendem a nossa atenção de início ao fim.

Jane Eyre, Charlotte Brontë (1847)

As Serviçais, Kathryn Stockett (2009)

Literatura norte-americana. Feminismo. Racismo. Provavelmente conheces a adaptação ao cinema de 2011, mas nada como ler o livro para compreender realmente a profundeza da estória. Um belíssimo testemunho de luta contra a segregação racial e defesa da emancipação feminina nos Estados Unidos. Apesar de se basear na década de 1960, de maneira alguma esta história se torna datada: muito pelo contrário, é capaz de ser dos clássicos dos clássicos modernos mais bem conseguidos. Numa escrita simples e cativante, As Serviçais conta-nos os medos, inseguranças e provações que as empregadas domésticas afroamericanas passaram, e que nunca se devem esquecer nem menosprezar. Também nos ensina que o amor suplanta quaisquer estereótipos e que lutar pela nossa dignidade é tudo o que realmente importa.


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ARTIGOS

“A TUA CARA” LEONOR VENADE

Em finais de março, já a FCSH tinha fechado há duas semanas, apercebi-me de que o nosso futuro seria mais restrito, e com essas restrições vinha também a temida máscara. Na altura lembro-me de ir a uma farmácia com a minha avó e a senhora que estava à nossa frente (que presumo que tivesse que ir trabalhar) queria comprar uma máscara. Assim que a farmacêutica desencantou uma daquelas máscaras, que na altura eu associava aos hospitais, lembrei-me do quão desconfortáveis eram… depois dessa memória invadir a minha mente, ouço quase que em forma de sussurro a farmacêutica dizer: “São sete euros e ‘qualquer coisa’...”. Inicialmente não pensei em nada, pois pensava que a senhora teria pedido um remédio qualquer, mas assim que a tímida farmacêutica teve que repetir o total, percebi que estaria apenas a referir-se ao valor de uma máscara fina, verde, que poderia apenas ser utilizada uma vez. Em menos de um segundo tenho a certeza que a minha expressão facial se alterou completamente, que ultraje! Uma mascarazinha, para não dizer outra coisa, que teria que ser descartada após uma utilização, custava tanto quanto duas refeições na cantina! Para mim era impensável. Cheguei a casa 10 minutos depois, ainda atordoada. Uma pequena pesquisa na internet instruiu-me sobre a utilização de máscaras e as diferentes máscaras, a N-95, a máscara cirúrgica, a bico de pato, a de algodão, a de TNT, enfim, há infinitas possibilidades. E pronto, foi o suficiente para me meter ao trabalho. Inicialmente o plano era fazer máscaras para a minha família, mas à medida que ia fazendo e mostrando aos meus amigos comecei a perceber que seria algo que seria não só necessário, mas também uma espécie de “acessório de moda”. No início não sabia coser com a máquina, mas felizmente a minha irmã mais nova tinha 3 cursos de costura, uma caixa cheia de restos de tecidos e paciência para fazer os primeiros protótipos comigo. De um dia para o outro passamos de duas máscaras por dia, para dez máscaras. A meio do processo, já em abril, a minha irmã decide abandonar este projeto, o que não só fez com que eu ficasse chateada com ela durante uma semana, como me obrigou a aprender a coser. Quem me conhece sabe que quando meto algo na minha cabeça, tenho que fazê-lo até ao fim, e foi o que eu fiz.

Comecei por fazer umas máscaras para o meu namorado, depois para os meus pais, para os meus irmãos (para a minha irmã também, sim…) e quando achei que já dominava a matéria comecei a vender para amigos, depois amigos de amigos e passado cerca de três semanas já tinha vendido quase cinquenta máscaras. Quase todos os dias alguém me perguntava onde é que vendia as minhas máscaras online, várias disseram para publicar no meu instagram, mas não sei porquê, algo me dizia para esperar (e na verdade não me apetecia fazê-lo na minha página, ups). Entretanto começou a aproximarse as datas dos exames e não conseguia deixar de pensar nas máscaras, sempre que podia fazia uma ou duas, lia livros enquanto cortava tecidos, já se tinha tornado uma obsessão. Durante todo o tempo da quarenta fui aperfeiçoando a minha “arte de coser”. Fiz um casaco, um scrunchie, uma camisola, até foi bastante produtivo. Mas acima de tudo deixei de passar 8 horas no telemóvel ou a jogar no computador, ou a ver filmes. Passei a deitar-me a horas normais, e não às quatro da manhã e ganhei uma espécie de “entusiasmo pelo dia seguinte”, podemos dizer que encontrei uma ‘mini paixão’. Onde estou agora, perguntam vocês, bem, o meu lado de comerciante emergiu e fui falar com uma velha amiga que tinha já um negócio relacionado com a costura, e com uma outra amiga que é mestre no design gráfico e bum, surgiu “a tua cara!”. Uma marca inovadora (não só de máscaras, mas também de carteiras de proteção para as mesmas), eco-friendly e que vende artigos totalmente feitos à mão, com entregas para todo o país. Procuramos não só educar as pessoas sobre a boa utilização das máscaras, como também regularizar e facilitar o seu uso. A máscara foi desenhada para ser o mais confortável possível para pessoas com e sem óculos e a bolsa foi desenhada devido à necessidade de um sítio para pôr a máscara, sem a contaminar e mantendo-a o mais segura possível. Um dos nossos grandes objetivos é ainda reduzir os impactos ambientais que o uso explosivo de máscaras está a começar a provocar, pelo que todos os nossos produtos são feitos de tecido, para poderem ser lavados e reutilizados.Por enquanto esta história acaba aqui, mas espero ter mais para contar no futuro, portanto, sigam-nos no Instagram em @a.tua.cara e protejam-se!


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ARTIGOS

Invocação INÊS PINHEIRO

Se recuássemos 450 anos encontraríamos Camões debruçado sobre o manuscrito da epopeia portuguesa, voltando-se para as suas musas em busca de inspiração. O poeta procurava “Um estilo grandíloquo e corrente”, que também me parece adequado para os nossos dias – sejamos grandes! O Humanismo incentivou Camões a desejar “uma fúria grande e sonorosa”, que apenas as Tágides poderiam conceder. Essa força cantou os nossos feitos, no entanto, o mundo nunca esteve concertado com Camões, nem connosco – a força escapou e agora ataca pelo exterior. Mother of Muses unleash your wrath Terá a Mãe das Musas libertado a sua fúria sobre nós? Quando a razão é demasiado crua para lidar com a realidade há tendência para nos refugiarmos numa explicação irreal. O caos parece ter-se, não só instalado, como tendo-o feito confortavelmente, enquanto o mundo recolheu ao domicílio, um lugar cada vez mais inóspito quando lidamos com ele, qual Deus omnipresente. Entrei em Janeiro a pensar que o Brexit seria desestabilizador... como é uma memória distante! Ainda assim, o Reino Unido lá foi… não imaginava que a fúria da Musa fosse tão forte ao ponto de temer o contacto físico com os outros, mas se há algo que o primeiro ano de faculdade me ensinou bem é que Sócrates tinha razão, devo admitir que “só sei que nada sei”. As imagens de sofrimento e desespero povoaram os ecrãs, que nos cercam como Orwell escreveu. Amedrontaram-nos incessantemente, decalcando a pandemia no nosso âmago, mas o mundo não parou nem as Musas conseguem fazê-lo parar.O medo é poderoso, porém, a injustiça também. Saímos da prisão de olhos postos no racismo corrosivo, outra vaga de ira.

Imprudência? Talvez… mas invariavelmente justificada, pois há questões que não podem passar em claro. Angela Davis foi publicada, novamente, em Portugal, com os seus ensaios de A Liberdade É Uma Luta Constante. Ao ler, pensei como abordava tantos temas sob múltiplas vertentes que me deixava com mais questões do que quando comecei, porém há algo com que estou de acordo: “A suposição de que a liberdade negra era a liberdade para o homem negro criou uma espécie de fronteira em redor da luta negra que já não deve existir.”. Davis apela à adesão à luta contra os abusos de Israel e cinge-se a tal. No entanto, tenho esperança de que saibamos alargar o nosso apoio a todas as causas que precisam de nós, afinal há raízes comuns em civilizações diferentes, podem é ter nomes diferentes. Things I can’t see – they’re blocking my path As engrenagens da vida têm-se mantido ativas, não podemos ser ingénuos ao ponto de pensar que não. De números dúbios a dessincronização governamental, o que mais nos escapa? As perguntas amontoam-se quando penso nas origens do problema e na forma como está a ser abordado. O caminho é sinuoso e está envolto em nevoeiro, por isso as respostas demoram, mas acredito que chegarão. Vejo o racismo, a pobreza, a fome. Vejo-os por todo o lado, mas esconde-se muito mais por detrás desse mal, há algo que os mantém vivos há séculos e séculos. Podemos destruir o que quisermos, mas não acredito que isso ilumine sequer o problema, uma vez que quando se procura nos escombros, dificilmente se vê no meio de tanto pó.


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Show me your wisdom – tell me my fate Com tanta fúria e segredos é difícil continuar então, quando precisei de ajuda, voltei-me para a Musa, que se materializa sob todas as formas e feitios, mas acima de tudo pela Arte. Encarei-a de frente para que não me escapasse nada, numa altura em que o presente parecia tão negro que só me interessava o destino longínquo ou o passado enterrado. No meio do caos, desejei calma e ponderação, afinal não será esse sempre o caminho mais propício? Sim, para mim é. Soube que não estava sozinha em pleno Mosteiro dos Jerónimos, nas palavras de alguém para o qual olho com tamanha admiração, pelo seu conhecimento e sensibilidade, que nem pretendo ser como essa pessoa, quero é ser eu. E pensar que seríamos demasiado diferentes? Os preconceitos pregam-nos partidas… Put me upright – make me walk straight A fúria da Musa não cessou. Ressurgiu em dose redobrada e enclausurou alguns dos que mais adoro. Entretanto, já não me deixo sucumbir, pois numa frente está a Musa e noutras tantas a vida de milhões que precisam de atenção; os jogos políticos que tento descortinar e prever; a cultura a reajustarse, e para a qual contribuo. Sim, demorou mas agora caminho com segurança e conjugo mil e uma facetas. Forge my identity from the inside out Há que ler e cultivar-me. É-nos pedida uma “opinião” sobre todos os assuntos, porém, apenas considero ter algo a dizer sobre uma mão cheia deles. Parece uma identidade muito reduzida se a medirmos pelo que se vê pelo exterior. Pois bem: por mais que demore, a minha identidade contruir-se-á por dentro, pensei com outro livro nas mãos. Também há pareceres no silêncio, mas esses são mais difíceis de escutar.

ARTIGOS

You know what I’m talking about Amanhã, o primeiro objeto a entrar na mala é a máscara, senão não me aceitam em lado nenhum. Segue-se o gel, para dar o golpe final nas mãos desgastadas pela lavagem e depois a carteira, só depois – sabem do que estou a falar. A rotina foi alvo de mudança, por isso falo do que se alterou e do que ainda falta fazer. Há quem não pare: Putin já assegurou a sua permanência à frente da Rússia até 2036; os polacos dirigiram-se às urnas; do outro lado do Atlântico faz-se campanha no Norte; Moçambique é atacado pelo Daesh; o Iémen morre à fome numa das ondas de sofrimento que rebentam pelo globo. Não é altura para perder o rumo, mesmo que o futuro não seja auspicioso. Está invocada a minha Musa. Foi ela que atiçou o fogo? Não, este incêndio foi obra do Homem, nós é que nos engamos a nós próprios. Felizmente, a Musa perdoa os equívocos e guia o poeta para, quem sabe, talvez um dia voltarmos a cantar como Camões. Por agora, oiçamos Bob Dylan: Mother of Muses unleash your wrath Things I can’t see - they’re blocking my path Show me your wisdom - tell me my fate Put me upright - make me walk straight Forge my identity from the inside out You know what I’m talking about Mother of Muses, Rough and Rowdy Ways (2020)


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Receitas MARIANA ABREU

Brownies de Avelã (sem Glúten) o chocolate em pedaços e a manteiga num INGREDIENTES 1. Colocar recipiente, e levar ao lume em banho maria. Quando o 200 g de preparado estiver totalmente derretido, retirar do calor e chocolate negro deixar arrefecer um pouco. (mínimo 70%); 2. Triturar muito bem a avelã em cru. 3. Abrir os ovos, separar as gemas das claras e bater as 125g de claras em castelo, juntando umas pedrinhas de sal quando manteiga sem começarem a espumar. Bater até fazer picos bem firmes e sal; ou amarelo; reservar. 225g de açúcar mascavado 4. Quando a mistura de chocolate e manteiga arrefecer um pouco, envolver o açúcar, e depois a avelã triturada e as 100g de miolo de avelã com pele; gemas, uma de cada vez, mexendo bem entre cada adição. Sal grosso; Finalmente, envolver as claras em castelo na mistura. 5 ovos; 5. Verter o preparado numa forma forrada com papel vegetal e levar ao forno pré-aquecido a 180º C, na prateleira do Açúcar em pó q.b para polvilhar.

P R E P A R A Ç Ã O

meio, durante 40 a 45 minutos. 6. Deixar o bolo arrefecer e, por fim, desenformar e polvilhar com açúcar em pó.

Bruschetta de Espinafres e Queijo Brie

INGREDIENTES

1 Pão Chapata Grande; 200 g de espinafres; 2 dentes de alho; 1 tomate maduro; q.b fatias de queijo Brie; q.b azeite; q.b sal e pimenta.

1. Em primeiro lugar, aquecer o forno a 180 ºC. 2. Cortar em fatias um pão chapata para levar a tostar na chapa. 3. Levar uma frigideira ao lume, com o azeite e o alho, e acrescentar os espinafres, temperando com sal e pimenta. 4. Deixar cozinhar um pouco e escorrer os espinafres com a ajuda de uma peneira. 5. Retirar o pão da chapa quando pronto e começar a montar as bruschettas: cortar um tomate maduro e um dente de alho ao meio e esfregar no miolo do pão para que ganhe sabor. 6. Dispor depois os espinafres em cima do pão, cortar as fatias de queijo brie e cobrir os espinafres com as mesmas. 7. Repetir o mesmo processo para as restantes fatias de pão e levar ao forno até o queijo gratinar.

P R E P A R A Ç Ã O


Para passares o tempo...

1. Prato típico da Coreia do Sul, preparado com vegetais envoltos numa pasta de farinha de arroz, açúcar e especiarias. 2. Prato mexicano que consiste em tortilhas de milho, recheadas normalmente com carnes, vegetais, feijão e abacate. 3. Prato indonésio de carne cozida com leite de coco e uma pasta de especiarias moídas (gengibre, curcuma, cidreira e alho). 4. Prato tradicional do Peru confecionado à base de peixe branco cru, sem gordura e sem músculos, marinado em sumo de limão. 5. Prato típico da Arábia Saudita, à base de arroz com galinha, passas, amêndoas e condimentos variados. 6. Caldo húngaro com carne bovina picada em cubos, com farinha, cebola e especiarias. 7. Arroz iraniano preparado com lentilhas, cebola caramelizada e acompanhado com frango. 8. Rolinhos de peixe cru, arroz e algas, típicos do Japão. 9. Muito consumido em diversos países do Médio Oriente, trata-se de uma pasta feita à base de grão-de-bico. 10. Caldo vietnamita à base de massa de arroz, carne e legumes.


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