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NOVA em Folha l Março 2021

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NOVA em Folha o jornal da aefcsh. março de 2021

Capa IN MEMORIAM MARIA ANDRÉ ENTREVISTA COM MAHOMED IQBAL DA CIL CELEBRAÇÃO DO DIA DA MULHER E ainda crónicas, notícias, sugestões, poemas, artigos e receitas! Um jornal d@s estudantes para @s estudantes!


FOTO DE CAPA

Autoria de Liliana Marques

NOTAS A ado(p)ção do acordo ortográfico em vigor é uma decisão individual pel@s membros da equipa, redacção e colaborador@s . Após a revisão completa do material pela equipa editorial, o conteúdo e a versão final dos conteúdos são da responsabilidade e exprimem somente o ponto de vista d@s respectiv@s autor@s.

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nova em folha março 2021

Direção

Redação & Revisão

Colaboradores

Inês Pinheiro João Martins Rita Serpa Ana Carolina Ferreira Ana Catarina Tiago Beatriz Cabanilhas Beatriz Mateus Bruna Ferreira Diana Neves Francisca Dias

Francisco Nunes Guilherme Machado Inês Pinheiro João Martins Liliana Marques Madalena Carvalho

Mafalda Carvalhal Manuel Pinto Maria Gonçalves Pedro Fernandes Rita Serpa

Ana Bessa Andreia Galvão Beatriz Costa Francisco Azevedo Guilherme Guerra Jéni Barreto João Oliveira

João Sousa Margarida Martins Ralo Maria João Rodrigues Mariana Baltazar NALLT NARQ Pedro Freire

Rita Madeira Sofia Marques Sofia Rodrigues Tiago Pinto Tomás Girão

Edição Gráfica

Ana Carolina Ferreira Beatriz Cabanilhas Francisca Dias Joana Freitas Rita Serpa

Redes Sociais

Bruna Ferreira Liliana Marques Madalena Carvalho

Maria Gonçalves Rita Serpa

NOTA Gostas de escrever? Queres ver as tuas reviews, receitas, bitaites, histórias, crónicas, etc.. num jornal d@s estudantes para @s estudantes? Envia-nos as tuas propostas até ao dia 20 de cada mês e participa nas nossas edições mensais! Ficamos à tua espera!

Jornal NOVA em Folha | Edição de março 2021 Impressão: 20 cópias | Distribuição mensal e gratuita novaemfolha.ae@fcsh.unl.pt

FICHA TÉCNICA

@novaemfolha.ae

@novaemfolha.aefcsh

Já se gues NOV o A em F o no In lha stag ram?


Índice março 2021

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Notícias AE em folha - Pedro Freire Novidades FCSH O NALLT está de volta! - NALLT Fevereiro em Resumo - Equipa de Notícias

15 18 20

29 30

A outra margem - Rita Madeira O cozido e os guardanapos vermelhos da avó Sofia Rodrigues Um cigarro e um copo de vinho - Diana neves O Cortiço - Inês Pinheiro

Cultura

In memoriam Maria André

Sugestões culturais para o confinamento Filmes, séries e peças de teatro para veres no conforto da tua casa - Ana Catarina Tiago

31

Islamismo em Portugal: à conversa com Mahomed Iqbal, Presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa - Guilherme Machado

Opinião 13

26 27

Crónicas

In memoriam Maria André

Entrevista 9

pág.

A escola é para quem? Pela descolonização curricular - Andreia Galvão A Questão das Drogas: uma perspetiva humanista Guilherme Machado A cultura, cabe aos viciados apoiar - Francisco Valente A Educação Patrimonial continua a carecer de investimento - NARQ

33 34

Cultura na FCSH Quero Ser Artista em Portugal - Ana Bessa Em Nome do Silêncio - Margarida Martins Ralo

38

Literatura O Regresso das Ditaduras? - Inês Pinheiro ‘Os Cu de Judas’ e As Guerras Que Não São Contadas - Guilherme Machado The Perks of Being a Wallflower - Diana Neves

41 44 46

Cinema e Televisão O Cinema Japonês: Kenji Mizoguchi - Inês Pinheiro Emma. - Ana Catarina Tiago Tiny Pretty Things - Jéni Barreto

35 37

47

Videojogos Hades: Jornada pelo Submundo - Mafalda Carvalhal

Poesia Dia da Mulher: 08 de março 21

24

Histórias-Artísticas-de-Vida: entre as cusquices e os rabiscos - Maria João Rodrigues e Mariana Baltazar Não quero as vossas flores! - Beatriz Costa

48 49 50 51

A Saudade - Tomás Girão 9 Minutos - Guilherme Guerra Isto é 2021 - João Oliveira A Vida - Tiago Pinto

Lazer 52 54

Culinária - Diana Neves Sudoku e Cruzadex - João Martins


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NOTÍCIAS | AEFCSH

AE em folha PEDRO FREIRE Para acabar o mês de Janeiro, deu-se o XI Conselho de Núcleos, com a presença da AEFCSH. Esta iniciativa contou com a presença de vários núcleos e grupos de estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas que, em conjunto com a Associação de Estudantes, contribuíram para a continuidade da discussão e partilha de ideias no seio da comunidade estudantil.

º

Na primeira semana de Fevereiro, no abrir do 2

semestre de 2020/2021, foi lançado pela AEFCSH um

comunicado, dirigido a toda a comunidade estudantil, com as informações obtidas na reunião entre a Direção da AEFCSH e a Direção da NOVA FCSH. Esta reunião teve como objetivo não só a recolha de informações sobre diversos assuntos do interesse dos estudantes, como também a defesa das posições que a AEFCSH entende que defendem os interesses da comunidade estudantil neste ano letivo tão atípico. Não podendo a preocupação com a saúde mental dos estudantes ficar para trás, especialmente em

º

tempos de pandemia, realizou-se a 11

sessão das Jornadas de Saúde Mental da AEFCSH, em parceria com

os Serviços de Psicologia, Inclusão e Igualdade (PsII+) da NOVA FCSH. Esta sessão contou com a presença

ª

da convidada especial Dr.

Carolina Ascenço e o tema abordado foi o da “Alimentação em tempos de

pandemia”. Foi lançado o inquérito “Impacto do confinamento na comunidade estudantil da NOVA FCSH” com o

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objetivo de mapear o impacto da implementação do estado de confinamento durante o 2

semestre de

2020/2021. Perante os resultados obtidos, a AEFCSH irá, conjuntamente com a direção da NOVA FCSH, com a Reitoria e com os Serviços de Ação Social, proceder à análise dos dados e lutar para responder de forma significativa e necessária aos problemas expostos pela comunidade estudantil. Foi promovido pela AEFCSH o “International Students Online Weekend”, um evento com o propósito de dar as boas vindas aos novos alunos internacionais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, onde estes puderam ficar a conhecer um pouco mais sobre a nossa Faculdade e os seus grupos de estudantes. Lançou-se, na Rádio AEFCSH, a rubrica “Trocar Seis por Meia Dúzia”, com o objetivo de dar a conhecer diferentes expressões usadas em diferentes partes do nosso país, especialmente zonas de onde são naturais estudantes da FCSH. A rubrica está disponível no canal da Rádio AEFCSH, no Spotify e Soundcloud. Para os estudantes internacionais e de Erasmus, foi dinamizado um grupo de WhatsApp com o objetivo de se conhecerem mais facilmente. No grupo estão também membros da AEFCSH, de modo a que seja mais fácil a organização de atividades e o esclarecimento de dúvidas. Conseguiu-se ainda a reactivação da rubrica de divulgação de trabalhos artísticos de estudantes da FCSH: o “D’ARTE”, e fundou-se a nova rubrica, intitulada “Cozinha AEFCSH” para divulgar receitas saudáveis e de combate ao desperdício alimentar. Por fim, a AEFCSH subscreveu o apelo do Movimento pelos Direitos do Povo Palestiniano e da Paz no Médio Oriente, direccionado à Presidência portuguesa da União Europeia.

fica atent@ às redes sociais da ae para não perderes nenhum evento! @aefcsh.unl

@aefcsh.nova


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NOTÍCIAS

novidades fcsh Erasmus + Estão abertas as candidaturas para bolsas de estágio ao abrigo do programa Erasmus+, destinadas a estudantes de todos os ciclos de estudo conferentes de grau, a partir do 2.º ano da licenciatura. Têm a duração mínima de dois meses e máxima de um ano. O Núcleo de Integração Profissional e de Antigos Alunos (NIPAA) organizará uma sessão de esclarecimento online no dia 10 de março às 14 horas - inscreve-te a partir do site da faculdade. As várias calls de candidatura ao programa de mobilidade são: call 7: de 22 de fevereiro até 31 de março de 2021; call 8: de 1 de abril até 31 de maio de 2021; call 9: de 1 de junho até 31 de agosto de 2021.

Serviços e Cantina à distância Considerando as medidas divulgadas pelo Governo no âmbito do atual Estado de Emergência, a NOVA FCSH encerrou a atividade presencial regular e os seus serviços têm funcionado em regime de teletrabalho. Os horários disponíveis e contactos de cada departamento encontram-se discriminados no site da faculdade. Destaca-se que a Cantina SASNOVA tem trabalhado apenas em regime de take-away, das 12h às 14h, com marcação prévia no dia útil anterior, das 10h às 14h, através do 217 950 380 (jantares podem igualmente ser recolhidos à hora de almoço).

Chamada para Artigos! A revista Forum Sociológico convida a comunidade FCSH a submeter artigos científicos sobre diversas matérias das Ciências Sociais, além de dossiês temáticos e recensões críticas de obras relevantes. A revista Face de Eva. Estudos sobre a Mulher lança um convite semelhante a investigadoras e investigadores na área dos Estudos sobre as Mulheres, Estudos Feministas e Estudos de Género, primando pela multidisciplinaridade, diversidade temática e pluralidade de perspectivas teóricas e epistemológicas. Em ambos os casos, as contribuições serão sujeitas a peer review, e aceitam-se propostas em língua portuguesa, francesa, inglesa e espanhola. Esta chamada está aberta em permanência e as propostas a serem consideradas deverão ser enviadas para: forum@fcsh.unl.pt ou facesdeeva@fcsh.unl.pt. Todas as informações sobre as normas de publicação podem ser consultadas em: https://journals.openedition.org/sociologico/ e http://www.scielo.mec.pt/revistas/eva/pinstruc.htm, respetivamente. As duas revistas estão indexadas nas mais notáveis plataformas académicas (SciELO, …).

“NOVA” Sinalética A NOVA FCSH procedeu à renomeação dos espaços e à instalação de um novo sistema de sinalização no campus da Avenida de Berna, respondendo às dificuldades e recomendações apontadas pela comunidade e serviços. Tanto no exterior como no interior dos edifícios, as estruturas informativas (mapas) e os painéis designativos das salas e gabinetes estão a ser substituídos, e passarão a combinar o portugês e o inglês. Às torres A e B juntam-se os edifícios C (ex-bloco B1) e D (ex-bloco B2). A designação de cada espaço tornar-se-á uniforme e mais simples, eliminando-se a nomenclatura heterogénea (exs.: T6; 0.05; 103) e instituindo-se a mesma lógica geral: a letra indica o edifício, o primeiro número refere-se ao piso e os últimos dois números são a posição da sala nesse piso (da esquerda para a direita). Por exemplo, a sala B201a fica na Torre B, 2.º piso (o “a” minúsculo é utilizada para os casos em que há salas internas – como na Biblioteca ou na Divisão Académica). Dada a habituação ao sistema anterior, até ao final do ano letivo os horários listarão lado a lado a antiga e a nova designação. O novo mapa completo fica também disponível online (podes fazer o download no site da faculdade). ao

falta alguma coisa? Envia as tuas propostas informativas para a próxima edição!


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NOTÍCIAS

O NALLT está de volta!

É verdade, o Núcleo de Alunos de Línguas, Literaturas e Tradução da NOVA FCSH está de volta! Mais renovados, atualizados e dinâmicos do que nunca. O NALLT, referente aos cursos de Línguas, Literaturas e Culturas, Tradução, Estudos Portugueses e Ciências da Linguagem, conta contigo para tornar esta experiência inesquecível. Para isso, segue-nos nas nossas redes oficiais: Facebook, Twitter e Instagram em @nallt_fcsh, os nossos principais canais de comunicação. Pretendemos esclarecer todas as tuas dúvidas, criar atividades que te deixem orgulhos@ de pertencer aos nossos cursos e, acima de tudo, tornar os próximos anos da tua vida algo de que te recordes sempre. Sabemos que este tem sido um semestre atípico e particularmente difícil para todos. Ainda assim, seremos versáteis e criativos, com o objetivo de preparar atividades que te deixem interessad@ e com vontade de participar, e sempre com o compromisso sério da transmissão de conhecimento científico, sob o lema da excelência e do rigor académicos. O NALLT pretende promover as línguas, a literatura, a cultura, a linguística e a tradução em todas as suas vertentes, fomentando o debate e a partilha de conhecimentos. Estamos sempre disponíveis para receber as tuas sugestões, opiniões e ideias, adaptando esta iniciativa unicamente a ti! Torna-te membro do NALLT e junta-te à família, as inscrições estarão abertas brevemente. O passado não se mantém iNALLTerado! Contamos contigo. A Equipa do NALLT


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fevereiro em resumo 1 FEV. GOLPE MILITAR NO MYANMAR No dia 1 de fevereiro, o exército do Myanmar derrubou o governo democraticamente eleito e prendeu Aung San Suu Kyi, conselheira de Estado e líder da Liga Nacional pela Democracia. O país de 54 milhões de habitantes no sudeste asiático tem uma história marcada por governos militares poderosos, sendo que apenas recentemente - nas eleições gerais de 2015 - as Forças Armadas permitiram uma transição para o poder civil. Numa atuação que contradiz a caminhada do país para a democracia, o comandante-em-chefe Min Aung Hlaing ocupa agora a liderança do país e declarou um Estado de Emergência com a duração de um ano. Os protestos que despoletaram nas maiores cidades do país fizeram até agora mais de 15 mortos e dezenas de feridos em confrontos violentos entre cidadãos e forças militares.

2 FEV. ARRANCA O JULGAMENTO DA MORTE DE IHOR HOMENIUK Começou o julgamento pela morte de Ihor Homeniuk, ocorrida em março de 2020. O cidadão ucraniano terá tentado entrar ilegalmente em Portugal para trabalhar, tendo falecido vítima de agressões nas instalações do SEF (Serviço Estrangeiros e Fronteiras). O Ministério Público acusa 3 inspetores do SEF de homicídio qualificado e outros crimes, sendo que estes negam vários factos e defendem-se na autópsia, que indica falta de auxílio durante mais de 8 horas após o espancamento. O caso levanta sérias dúvidas, não só sobre o SEF como também sobre os seguranças privados e a sua eventual responsabilização por falta de auxílio ao cidadão.

5 FEV. BORRELL EM MOSCOVO

No mesmo dia em que Alexey Navalny, principal rosto da oposição a Putin, foi condenado a regressar a uma cela prisional, Josep Borrell, o Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, reuniu-se com o seu homólogo russo, Sergey Lavrov, em Moscovo. A prestação de Borrel foi altamente criticada tanto por analistas como por diversos eurodeputados, que exigiram a sua demissão. Para além da visita não ter sido dotada de um mandato claro, visto que os estados-membros estão divididos quanto à aprovação de sanções devido ao tratamento conferido a Navalny, o chefe da diplomacia europeia ficou sem reação quando Lavrov se referiu à União Europeia como um "parceiro pouco confiável”. Ambas as partes acabaram por concluir que a deterioração das relações poderá ter consequências negativas e imprevisíveis. O próximo desafio para as relações bilaterais UE-Rússia será a aprovação por parte da Agência Europeia do Medicamento da vacina russa para a COVID-19, Sputnik V.

14 FEV. TRUMP ILIBADO NO SENADO Após a já esperada aprovação do impeachment na Câmara dos Representantes, este seguiu para o Senado, onde a sua aprovação era pouco provável. Apesar de pouco contestada, a acusação foi chumbada por não colher a maioria qualificada de ⅔ de que necessita. No entanto, mais de metade dos senadores votou a favor da proposta, tendo sete senadores republicanos alinhado com os democratas, o que evidenciou as linhas fracturantes do partido Republicano. Recorde-se que este processo foi encetado pelos democratas após os acontecimentos de dia 6 de janeiro no Capitólio e que o principal objetivo era a destituição de Trump para impedir que este se venha a recandidatar à presidência dos EUA.

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NOTÍCIAS

fevereiro em resumo 18 FEV. EXPLORAÇÃO DE MARTE Depois de quase sete meses de viagem, o robot Perseverance, enviado pela Nasa, conseguiu pousar com sucesso em Marte no dia 18 de fevereiro. Tem agora como missão detectar e armazenar sinais de vida extraterrestre do passado e recolher amostras do solo para depois enviar para a Terra. Os tubos que preservam estas amostras ficarão em solo marciano até serem resgatados por uma outra missão, apenas prevista para a década de 2030. Até lá, é possível acompanhar os avanços de Perseverance pelo Twitter, onde já postou imagens do seu novo planeta.

ATRASOS NAS VACINAS COVID-19 Depois de um ponto de partida célere, a vacinação na União Europeia está em atraso, pondo em risco milhares de vidas. No início de fevereiro, registou-se que apenas 3% dos habitantes da UE tinham recebido a primeira dose da vacina contra a COVID-19, ao contrário do Reino Unido que alcança já os 15%, ou os EUA com 10% da população vacinada. As culpas dividem-se: os especialistas apontam o dedo à União Europeia pela lentidão em assinar contratos com a indústria farmacêutica, bem como na aprovação do uso de certas vacinas; a União Europeia, por sua vez, acusa a farmacêutica AstraZeneca de não cumprir com as doses de vacinas estipuladas para os 27 estadosmembros. A produção da vacina Pfizer/BioNtech está também condicionada por questões de ajustes nos processos de fabrico. Por consequência, em Portugal a primeira fase da vacinação terá de ser prolongada por mais dois meses do que o planeado, estando só concluída em abril.

RESTAURAÇÃO DA ROTA DA SEDA

A assinatura, em dezembro, do Acordo Compreensivo de Investimento (CTI, na sigla inglesa) entre a Comissão Europeia e a China, reafirmou a ascensão desta última como principal parceira comercial da UE. No ano passado, os 27 exportaram 202.5€ mil milhões para a China, de onde importaram 383.5€ mil milhões (dados do Eurostat). No entanto, o CTI ainda tem de ser ratificado pelo Parlamento Europeu, onde a contestação é forte, muito graças ao tratamento reservado à minoria Uigur por Pequim. Para mais, as empresas europeias continuarão a sofrer discriminação nos concursos públicos do Estado chinês, e prevêem-se poucos mecanismos de controlo face aos recorrentes furtos de propriedade intelectual.

DEPORTAÇÃO DE UIGURES A comunidade Uigur na Turquia tem-se mobilizado em protestos regulares junto dos consulados chineses, requisitando a libertação de familiares detidos na província de Xinjiang, obrigados a trabalhar nos “campos de reeducação” aí erigidos por Pequim. Tradicionalmente apoiados pelo governo turco, os Uigures temem que este comece a ceder aos milhares pedidos de deportação vindos da China, da qual depende cada vez mais, tanto ao nível da economia como do fornecimento de vacinas contra a COVID19.

Fontes: ABC News Aljazeera Deutsche Welle Diário de Aveiro Dinheiro Vivo EU Observer Euronews Eurostat Expresso

NASA Público Reuters Scientific American The Guardian Voice of America World Nuclear News Wikipedia

A Equipa de Notícias Bruna Ferreira Francisco Nunes Guilherme Machado João Martins Manuel Pinto


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In Memoriam Maria André

Muitos colegas e amigos quiseram deixar aqui uma mensagem a relembrar alguém que marcou a sua vida, mas que os deixou demasiado cedo. Esta homenagem é para a Maria André, do 1º ano do curso de Ciências da Comunicação.

«A Maria era bondosa, corajosa e lutadora. Ela era competitiva e simpática. Ela era a miúda que a meio das conversas conseguia fazer referências a Hamilton. Ela era tudo isto e ainda mais: era e é minha amiga. E embora só a tenha conhecido no seu primeiro ano de faculdade, sempre senti que a conhecia há mais tempo. Ela tinha uma maneira de nos fazer sentir tão bem vindos e tão seguros com ela. Foi um privilégio poder tê-la conhecido, ser avó de praxe dela, e mais do que tudo foi um prazer ser amiga dela. Nunca imaginei perder alguém desta forma e nunca pensei ter que escrever algum texto assim, mas sinto saudades dela todos os dias. Tenho saudades tuas Maria!»

Catarina Boleto

«Obrigada por me encontrares quando estava perdida. Obrigada por me motivares todos os dias. Obrigada por me fazeres rir em todos os momentos. Obrigada pelas histórias e memórias. Agora tenho de seguir sem ti, mas não sozinha, jamais, porque para além de tudo isto, ainda me apresentaste a algumas das melhores pessoas do mundo e nunca serás esquecida. Obrigada Maria.» Beatriz Mateus «Nunca me vou esquecer da primeira vez que falámos. Sítio novo, etapa nova, muita ansiedade, mas tu fizeste-me logo sentir em casa. Não há uma única pessoa que tenha ficado indiferente às tuas palavras, ao teu sorriso, à tua luz. Ainda agora é impossível não me emocionar ao pensar em tudo o que me ensinaste, em tudo o que vivemos enquanto amigas, irmãs. No entanto, sei que a tua vida é para ser celebrada, e sinto-me uma das pessoas mais sortudas do mundo por te ter conhecido. Uns meses que pareceram uma vida toda. Vais estar sempre connosco, nos nossos corações e nos nossos sorrisos, ao partilharmos histórias que mostram o quão importante sempre serás para nós. Obrigada e até um dia.»

Carolina Duarte

«Das raparigas mais amigáveis e simpáticas que conheci na FCSH. Foi sempre um amor de pessoa.»

Luís Mendes


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«A Maria foi uma das pessoas que mais me marcou no secundário. Inteligente, assertiva, confiante e ambiciosa. A ideia de não poder partilhar a vida académica com a Maria entristece-me porque ela desejava ir para a faculdade mais do que ninguém. Passámos horas a falar sobre as nossas ambições e é por isso que vou cumprir um dos sonhos de que tanto me falou. Por ti Maria ❤» António Oliveira «Maria, uma eterna luz que encandeia e reluz até no espaço mais obscuro. Uma expressão carinhosa figurava sempre no seu rosto. Quando sorria, os seus olhos fechavam de uma maneira que se assemelhava a crescentes. Olhava para o seu redor com um entusiasmo singular, e tinha um dom especial para despoletar os diálogos mais aleatórios e interessantes com apenas umas quantas declarações, sempre repletas de referências que ela ia buscar aos seus conteúdos prediletos. O simples facto de a ter conhecido é uma experiência de vida, pois uma alma como aquela é inigualável. Uma das conversas mais marcantes que tivemos foi aquando de um dos jantares de curso, onde debatemos o tópico de energias. Ambas partilhávamos uma opinião muito semelhante, e cada vez me revejo mais nas palavras que foram trocadas. Toda a Maria é uma energia, energia esta que está presente em todos nós e move-nos com um único propósito. Tudo o que faremos, será duas vezes por ti. É com muito amor que escrevo isto, pois tu? Tu és eternamente amada pelos teus.»

Sofia Marques

«Maria. A minha companheira das aulas. Nunca me vou esquecer que foste das primeiras pessoas a falar comigo na faculdade e a "orientar-me" por lá, já que foste tu a apresentar-me aos nossos colegas e a dar-me a coragem que não tinha para ser mais social haha. Uma das minhas melhores memórias contigo foi a tarde que passamos em tua casa, onde falamos sobre tudo e todos durante horas e rimos imenso. Fiquei logo a saber imensas fofocas! Nunca me vou esquecer de ti, foi um gosto enorme ter-te conhecido, adoro-te miúda. Fly high babe.»

Ana Picado

«Alguém cuja voz emitia entusiasmo pelo que gostava. A Maria marcou-nos a todos de uma maneira ou outra.»

João Almeida


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«Para a minha Maria, Não é fácil estar a escrever-te esta carta pois sinto que não existem palavras que consigam descrever o que sinto em relação a não estares mais aqui e as saudades imensas que sinto de ti, todos os dias. Era inimaginável escrever algo assim, mas aqui estou eu. Foste cedo demais, ainda havia tantas coisas para fazermos juntos: o Bubble Tea que nunca chegámos a beber, o traje que nunca chegámos a comprar, sushis que nunca comemos e muitas conversas (para além das muitas que tivemos) que nunca mais iremos ter. Ainda faltava enganar muita gente com o nosso “namoro”. Havia ainda um mundo inteiro para descobrires, conquistas a alcançar e a felicidade a atingir. Queria estar aqui para te ver crescer e ver-te construir um futuro brilhante, que tenho a certeza que irias ter. São lágrimas o que me vem aos olhos ao escrever esta carta, pois estou a remexer em memórias e sentimentos e a ter a certeza, mais uma vez, que já não estás cá nem me vais mandar 50 mensagens seguidas a falar da maneira mais apaixonada sobre as coisas que mais gostavas. No entanto, a nossa ligação não se quebrou nem nunca se irá quebrar. Enquanto me lembrar de ti, viverás para sempre para mim! Consigo ouvir a tua voz dizer “Olá Carolina!!” de uma maneira super fofinha como se estivesses a dizer isso agora. E lembro-me perfeitamente do teu sorriso rasgado, como se aqui estivesses ao meu lado e de como era bom falar contigo, entendíamo-nos tão bem! Contigo aprendi que a vida é demasiado injusta e ninguém, muito menos uma rapariga de 19 anos com toda a vida pela frente, merece o final que tiveste. Nunca te cheguei a contar, mas muitas vezes não sabia ao certo o que te dizer quando falavas comigo sobre as dores, os maus momentos ou as idas ao hospital. Várias vezes lia as tuas mensagens uma, duas, três vezes e mesmo assim ficava sem saber o que te dizer. Não consigo imaginar nem metade das coisas pelas quais passaste. Sofri bastante nos “bastidores” porque o que eu mais queria era que vencesses esta batalha. Espero que, onde quer que estejas, tenhas um grande sofá onde te possas deitar a ver muitos animes numa grande televisão e que um dia nos possamos encontrar aí e nos possamos abraçar mais uma vez. Guarda o melhor lugar do sofá para mim! Obrigado por me teres escolhido como o teu padrinho de praxe e por me teres deixado acompanhar-te durante o teu percurso académico. Mas principalmente, OBRIGADO por seres simplesmente tu! Foste, és e sempre serás uma pessoa maravilhosa, tenho o maior orgulho em ti e quero que saibas que gosto muito, muito, muito de ti! Agora quem é que me vai recomendar os melhores animes para ver? Tenho muitas saudades tuas, das tuas mensagens, dos teus abraços, dos teus sorrisos, tenho saudades de ti e não sei como lidar com a falta que me fazes. Concluo dizendo “até já” porque nunca será um adeus. Espera por mim, um dia iremos encontrar-nos outra vez e acabar com esta saudade que parece não ter fim! OBRIGADO, mais uma vez, por me teres deixado entrar na tua vida. Até já, eterna caloira do “desculpe”, a minha querida afilhada Maria <3»

João Sousa


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ENTREVISTA

ISLAMISMO EM PORTUGAL: À CONVERSA COM MAHOMED IQBAL, PRESIDENTE DA COMUNIDADE ISLÂMICA DE LISBOA GUILHERME MACHADO

No passado dia 10 de fevereiro reuni-me, por videochamada, com Mahomed Iqbal, presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa há mais de cinco meses. Falou-me da sua vida profissional ligada à banca e ao investimento, assim como das suas raízes moçambicanas, das viagens pelo mundo e do seu serviço para com a CIL e os muçulmanos em Portugal. Mahomed Iqbal nasceu em 1959, na cidade de Lourenço Marques (Maputo) em Moçambique. Viveu na capital até aos 16 anos, tendo estudado no Liceu António Enes. Prosseguiu com os estudos depois de se radicar em Londres muito jovem, e graças à fluência do seu francês, conseguiu ingressar no Westminster College, seguindo depois para a London School of Economics, onde se formou no começo da década de 80. Descreveu a carreira da sua vida como estando ligada à banca, ao setor dos investimentos, ao desenvolvimento e às finanças. Começou a sua carreira no Banco de Financiamento Económico, no Brasil, tendo aproveitado a entrada portuguesa na CEE, em 1986, para retornar a Londres e trabalhar num banco holandês. Como disse, estava ainda na sua “fase de aprendizagem”, lembrandose do nome de todos o que conheceu ao longo da sua vida. Retornado a Portugal, trabalhou no meio do investimento bancário, ao dirigir finanças empresariais, investimento e em desenvolvimento de negócios internacionais. Apesar de uma carreira bem-sucedida no meio empresarial e financeiro, um sentido de solidariedade, comunidade e fé levou Mahomed a participar, juntamente com as suas atividades de carreira, na Comunidade Islâmica de Lisboa, que este ano fará 52 anos. Foi vice-presidente e adjunto da CIL, e depois de se afastar durante quatro anos, retornou para ocupar a presidência. Como descreveu: “a Banca estáme no sangue” e até hoje trabalha na área, mais propriamente no financiamento de projetos de infraestrutura.

Para começarmos, de que forma descreve a sua relação com a Comunidade Islâmica de Lisboa? Eu comecei na CIL como adjunto de membro da direção, e durante os três anos não faltei a nenhuma reunião. Graças a Deus, pude estar lá o tempo todo. Passei esse tempo a rezar que faltasse o diretor para que eu pudesse participar mais. Mas mesmo assim, ele foi uma pessoa com quem aprendi muito, ainda estava na fase de aprendizagem, acho eu. De seguida, candidatei-me a vice-presidente e fiz três mandatos, mas no fim do terceiro decidi sair para dar a oportunidade a outras pessoas de darem o seu contributo. Dois mandatos como vice-presidente e um como adjunto era já uma participação suficiente, creio eu. Entretanto, no ano passado aceitei o desafio de apresentar a minha candidatura a presidente, e felizmente fui eleito há cerca de cinco meses. Numa altura má, confesso… tínhamos diversos projetos planeados, e esta situação não permite que muito seja feito. Considerava-me sangue novo na altura, devido à minha ausência de quatro anos. Mas ao mesmo tempo, possuía um conhecimento profundo da CIL e das suas realidades, o que me dava um grande entusiasmo para trabalhar.


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De que forma se integra a CIL em Portugal? Existe alguma divergência? Eu acredito vivamente que a CIL, nas mãos de Abdool Vakil e das diferentes direções, esteve sempre completamente integrada na sociedade portuguesa. Nunca fomos uma organização pertencente a pessoas de fora, ou de indivíduos alheios à nossa realidade. A CIL é a estrutura para o português europeu e muçulmano, nada mais. Sempre considerámos que a CIL tem uma identidade portuguesa. E de que forma surgiu a CIL em Portugal? A CIL foi fundada há cerca de 52 anos atrás, por um grupo de estudantes moçambicanos. Antes do 25 de abril. Entre eles tínhamos o famoso Abdool Vakil e muitos outros muçulmanos habitantes em Portugal. A comunidade muçulmana de Moçambique, a comunidade maometana, é extensa lá. É formada por muitas pessoas oriundas da Índia, como os meus avós. Antes e depois da revolução muitos moçambicanos radicaram-se em Portugal. O primeiro presidente foi Sulemane Valy Mamede, que tinha uma bela visão de construir esta comunidade e de erguer uma mesquita em Lisboa. Na altura em que construíram a mesquita, o seu tamanho era injustificado visto que havia pouquíssimos muçulmanos em Portugal. Mas só a magnitude do projeto já demonstra a dimensão da visão dos criadores da CIL. Mas hoje em dia, graças a Deus, o espaço já se demonstra insuficiente para receber todas as pessoas, especialmente nas orações de sexta-feira. Após alguns anos, começámos a receber pessoas da Guiné-Bissau e da África Ocidental, dos antigos países francófonos. Naturalmente, a comunidade cresceu progressivamente, especialmente com a adição das pessoas da Índia, do Bangladesh e do Paquistão. Aos poucos, foram sendo abertas mesquitas em diversos bairros lisboetas e até em cidades como Coimbra, Porto e Faro. Naturalmente, cada mesquita tem a sua autonomia, mas a CIL acaba por ser o principal ponto do país para a comunidade muçulmana. A CIL está, de facto, sediada em Lisboa, mas tem um papel agregador da fé islâmica no país, representando e reunindo as diferentes mesquitas, com quem mantemos excelentes relações. Eu, pessoalmente, acredito que o muçulmano está plenamente integrado na sociedade portuguesa. Mantemos boas relações com a sociedade, e não temos muito uma existência marcada pelo ghetto. Temos certas concentrações, claro, locais com mais pessoas de fé islâmica, mas no geral a integração do muçulmano é boa.

ENTREVISTA

E que razões existem para uma integração tão boa? Eu creio que o muçulmano médio em Portugal quer ser identificado essencialmente como um português de fé muçulmana. O muçulmano quer claramente seguir o sharia, mas não existem contradições. E o Islamismo em Portugal? Será de facto, uma fé pouco expressiva em Portugal? Ou é apenas alvo de pouca atenção? O Islão em Portugal é muito pequeno. São 50 mil pessoas, se não me engano, há quem saia e há quem retorne, mas no geral é este o número. Não creio que o Islão seja uma realidade escondida em Portugal. Existem diversos profissionais e empresários muçulmanos perfeitamente integrados no tecido empresarial português, graças a Deus, o que demonstra que de facto o Islão está presente. A experiência islâmica acaba por se assemelhar à comunidade Hindu ou judaica, por exemplo, com quem mantemos fantásticas relações. Que efeitos teve o 11 de setembro e a “Guerra Contra o Terror” na CIL? Efetivamente, o Islão recebeu mais visibilidade no rescaldo do 11 de setembro, sem dúvida alguma. A comunidade sempre esteve aberta, o interesse era reduzido. Mas nos anos 2000, começou a surgir um maior interesse pelo Islão. Tenho amigos portugueses que me pedem o Alcorão em português, e descrevem a boa imagem que a CIL tem em Portugal.


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De facto, houve impactos negativos e positivos. No momento imediato do atentado, a reação para com o Islão em Portugal foi tendencialmente negativa. Essencialmente devido ao facto de que as pessoas não sabiam distinguir o terrorismo da fé islâmica - duas realidades completamente distintas. Quando falam de nós, referem-se sempre a terroristas islâmicos, mas depois quando estamos a falar do IRA ou do ETA, ninguém os intitula de “terroristas católicos”: A verdade é que a própria fé islâmica repudia o assassinato e o terrorismo. Há um ditado no Alcorão, que diz: “Se matas uma pessoa, matas a humanidade inteira. Se salvas uma pessoa, salvas a humanidade inteira.” Este é o verdadeiro ensinamento do Islão. E o mais interessante é que entre as religiões abraâmicas existem diversos pontos em comum. Jesus é o meu profeta também, e eu acredito na Virgem Maria, no Moisés e no Abrãao. Na verdade, celebro o sacrifício de Abraão, é uma das festas que nós no Islão temos. Para além do fim do Ramadão. Para concluir, o principal malefício foi de facto, a desconfiança no Islão, que conseguimos rebater através de eventos, debates e conversas na mesquita, de modo a mostrarmos uma imagem honesta do Islão. Pudemos também, através da atenção renovada ao Islão, mudar e conceber de melhor forma a imagem do muçulmano em Portugal. Quais são as diferentes origens da CIL? Tendo em conta que há pessoas oriundas de antigas colónias e outras que vêm de países mais afastados da vida cultural portuguesa. Gostava de tentar perceber de que modo é que a CIL é importante para estas pessoas. É verdade. Existem pessoas não inseridas na lusofonia com dificuldades em adaptação. Mas é interessantíssimo que esta realidade verifica-se apenas na primeira geração de imigrantes. Os seus filhos, que frequentam a escola, possuem excelentes capacidades de integração. A maior barreira, é no fim, a língua - mas eles esforçam-se. Acredito que os filhos dos imigrantes de países como o Bangladesh, com uma língua e cultura diferentes, terão muito mais oportunidades de integração. E a razão é porque os portugueses permitem-no. A minha experiência própria mostra que são um povo hospitaleiro e comunicador que faz sempre o melhor para conseguir contactar com estas comunidades. Estes imigrantes trazem um grande valor contribuem para a Segurança Social, que precisamos imenso, e fazem diversos serviços importantes.

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E na nossa comunidade são estas pessoas que trazem um repertório cultural e de experiências extremamente valiosas. No Islão e na nossa congregação, tratamo-nos igualmente e de forma a garantir a integração de todas estas pessoas - nunca ninguém me reservou um lugar durante o culto, nem a mim nem ao Abdool Vakil. No Médio Oriente muitas das atuais formas de cisão e guerra civil ou política definem-se por linhas de interpretação do islamismo - os sunitas e os xiitas. Esta divisão encontra-se presente também na CIL? A nossa congregação é maioritariamente frequentada por sunitas. Mas obviamente, os xiitas são mais do que bem-vindos, e eles vêm mesmo à mesquita. A relação entre xiitas e sunitas em Portugal é excelente. Temos relações frutíferas tanto com os xiitas tradicionais como com a Comunidade Ismaelita, liderada espiritualmente pelo Príncipe Aga Khan. Nas festas de que lhe falei, celebradas pelos muçulmanos, temos recorrentemente a visita e assistência da Comunidade Ismaelita. Se não me engano, existe o projeto de erguer uma mesquita xiita em Sintra. Em todo o caso, recebêlos-emos de braços abertos e estamos dispostos a ajudar em tudo o que for necessário.


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Como funcionam os processos internos da CIL? Existe uma democracia de trabalho e direção que permite todos estarem envolvidos? Ou existe um grupo de pessoas com mais envolvimento nas atividades? Não poderíamos sequer organizar a CIL de tal forma. Há muita gente, e nem todos se podem envolver com tanta intensidade. Existe a estrutura da Direção, que naturalmente, é responsável por gerir o equipamento social e pela manutenção da sala de culto. Sempre em consulta e cooperação com outras mesquitas e agregações da fé. O presidente tem quatro vicepresidentes, um tesoureiro, dois vogais e um secretário e sub-secretário. Mas a verdadeira ação faz-se através das comissões, que conseguem fazer um trabalho magnífico com a sociedade, de gerir e promover eventos e ações benéficas para a CIL e para a comunidade portuguesa no geral. Durante o Natal abrimos as instalações de modo a servir refeições gratuitas e participamos em todo o tipo de ações de caridade social. Para finalizar, o que gostaria de dizer, como homem muçulmano, ao típico português cristão? Gostaria de convidar o português a procurar conhecer melhor e aprofundar mais o seu conhecimento do Islão e da sua comunidade. A nossa mesquita está completamente aberta a todos, e aceitamos qualquer visita. Somos uma comunidade, e acima de tudo, uma religião muito aberta. Peço que reflitam e compreendam as verdadeiras diferenças entre o Islão e aquilo que, infelizmente, é conhecido como o terrorismo islâmico.

No fim da entrevista, o Mahomed aceitou a minha proposta de uma possível visita física à Mesquita, com direito a almoço e a um tour.

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A ESCOLA É PARA QUEM? PELA DESCOLONIZAÇÃO CURRICULAR ANDREIA GALVÃO

A escola pública foi, é e será, para milhares de estudantes, uma janela para o mundo, um gerador inigualável e um mecanismo fundamental na luta pela igualdade e justiça social. É inegável, no entanto, o modo como continua a empurrar milhares de estudantes para fora das nossas instituições de ensino superior, as nossas universidades. São diversas as condicionantes que geram tal fenómeno social, sendo mais evidentes as socioeconómicas que são declaradas pelo obstáculo constituído pela propina, a real consubstanciação da elitização do ensino superior. Este valor tem vindo a aumentar desde o valor simbólico com que foi proposta, sofrendo drásticos aumentos (por exemplo, aumentando 21, 5% entre 2003 e 2012- de 852 euros para 1036), tornandose um valor incomportável para a maioria das famílias (ressalva-se o facto de Portugal ser o país em que as propinas são principalmente suportadas pelo elo familiar, impondo-se como 64 % deste orçamento). Este fator dificulta ainda mais a acessibilidade deste setor a grupos socialmente minoritários e desfavorecidos. Se olharmos para o panorama afrodescendente em Portugal rapidamente identificamos esta correlação entre precariedade e origem étnica que se explica pela longa história colonial e imperialista portuguesa. Este passado gera profundas assimetrias no acesso a condições essenciais, perpetuando barreiras geracionais e impedindo reconhecer, confrontar e resolver o racismo estrutural embrenhado na sociedade portuguesa contemporânea.

A forma atual como concebemos os currículos escolares, o modo como olhamos para a História nacional refletem ainda essa visão antiquada, pouco inclusiva sobre a nossa nação. Impera trazer as nossas escolas para o século XXI, olhá-las de forma atual e tornar a construção curricular um espaço de disputa entre grupos hegemônicos e grupos subalternos. Segundo Sonia Carbonell (2012, p. 25) a produção do olhar possibilita que os educandos possam abrir-se “[...] à aprendizagem, eles vêm para a sala de aula com um olhar que é, por um lado, um olhar receptivo, sensível e, por outro, é um olhar ativo: olhar curioso, explorador, olhar que investiga e olhar que pensa” . Surgiu daí a questão de descolonização curricular (que não implica, de modo algum, apagar o conhecimento europeu ou substituí-lo), com a missão de pluralizar o conhecimento. Os currículos escolares também serão mais justos, criando oportunidades para que o ambiente escolar seja muito mais plural e democrático. A proposta de diálogo no ensino pode promover um repensar crítico sobre as imagens irreais construídas sobre África, à medida que compreende que os sujeitos educandos, jovens e adultos, podem atuar criticamente sobre a realidade e transformá-la.


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Mayana Nunes, escritora nigeriana, classifica a descolonização curricular como “o resultado dos esforços teóricos e epistemológicos dos povos subalternizados/colonizados da América Latina, Ásia e África em mostrar que existe toda uma produção de conhecimentos historicamente invisibilizada em favor de uma ciência europeia ocidental que se construiu como a única capaz de produzir saberes objetivos, neutros e que se propõem enquanto universais.” Evidencia-se, portanto, a luta contra a visão eurocêntrica das sociedades africanas, que nega o reconhecimento do seu passado histórico-cultural antes do seu contacto com a cultura ocidental. Estas narrativas perpetuadas pelo sistema educativo português tendem sistematicamente a uma exclusão e inferiorização das pessoas racializadas, reforçando processos de assimilação de uma ideia de “hierarquia racial”. Encontramos frequentemente nos manuais escolares discursos pedagógicos que sustentam uma naturalização da escravatura e das relações opressivas e de dominação. O colonialismo (“Descobrimentos”) é um processo exposto como uma missão civilizatória, que dá “novos mundos ao mundo”. Esta construção social falaciosa e eurocêntrica apoia-se numa estratégia da história que numa estratégia de silenciamento da opressão, dominação e violência colonial. Marta Araújo e Silvia Rodrigues “verificaram que é também comum o silenciamento da luta política pela libertação”, sendo que os manuais escolares reproduzem a desumanização enquanto apresentam os outros seres humanos como seres passivos, incapazes de reagir a situações de violência, de pensar politicamente e de responder a relações de poder.

OPINIÃO

É altura de olharmos para o sistema educativo e questionarmo-nos se é este o caminho que queremos traçar para o nosso futuro. Refletir sobre o que significa educação verdadeiramente emancipatória que é para todos e para todas, independentemente da sua etnia, do seu género, da sua condição socioeconómica. A luta por um ensino, público, gratuito, democrático e inclusivo nunca se mostrou tão urgente. Fontes: “Estudantes Do ISCTE Protestam Por Melhores Condições.” Esquerda, www.esquerda.net/artigo/estudantes-do-iscteprotestam-por-melhores-condicoes/71222. Redação, da. “Descolonização Do Currículo: Por Uma Escola De Mundos Plurais.” Portal Lunetas, 27 Jan. 2021, lunetas.com.br/descolonizacao-docurriculo/.


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A QUESTãO DAS DROGAS: UMA PERSPETIVA HUMANISTA GUILHERME MACHADO

A legalização da canábis é um assunto político. Algo que se refere aos diversos exemplos de opressão e perseguição de consumidores de canábis, mas também das comunidades pobres ou de poucos meios económicos, que por entre as rotas mundiais de narcotráfico, internas e supranacionais, se desagregam perante a onda de criminalidade e disrupção socióeconómica da perseguição às drogas e a todos os envolvidos na sua existência. Há que possuir o conceito de que a violência e o sofrimento humano que rodeiam o narcotráfico - como por exemplo, nos milhares de mortos que a guerra contra as drogas deixou na América Latina - são consequências de uma abordagem às drogas (e não apenas à canábis) que historicamente baseia-se em preconceito, perseguição e concepções científicas erradas ou incompletas. O mercado das drogas é um elemento da sociedade que responde ao que se pode considerar como uma procura inerente às comunidades humanas pelo entretenimento - uma busca de abstração psicológica e de perceção que pode ser traçada à produção milenar de cerveja já nas sociedades pré-clássicas e a uma produção de vinho que pode ser, por exemplo, datada ao Levante por volta do IV Milénio a.C. Numa economia de mercado, a procura por drogas leva ao surgimento de um mercado para a satisfazer, o qual é historicamente definido a partir do momento em que os governos iniciam um processo de perseguição às drogas e, acima de tudo, aos seus consumidores. O preconceito ligado à canábis possui diversas vertentes na sociedade considerada ocidental, e um deles é a perfilização racial, um elemento essencial da história americana e da relação do Governo Federal dos EUA com minorias racializadas e imigrantes. A história da canábis nos EUA está extremamente relacionada com a imigração de mexicanos pela fronteira sul dos EUA e da sua colocação em postos de trabalho nas grandes propriedades latifundiárias da Califórnia a partir dos finais do século XIX.

A canábis é de facto uma planta que pode crescer naturalmente e cujo uso já se conhece desde o III Milénio a.C. na China e na Índia, chegando à América através das pessoas escravizadas pela rota portuguesa e espanhola do tráfico de escravos . A verdade é que as drogas mais popularizadas durante a segunda metade do século XX são descendentes ou mesmo continuações de substâncias entorpecentes naturais, utilizadas por comunidades há milhares de anos em todo o mundo. As folhas da coca eram mascadas e adoradas por comunidades indígenas da América pré-colombiana, e estas foram adotadas também por europeus, tendo sido utilizadas para produzir vinho e para diversão das classes altas em jantares nas grandes cidades. A questão da criminalização da canábis é fulcral para a compreensão de toda a política de drogas do século XX. Drogas consumidas por etnias não-brancas, comunidades pobres e/ou imigrantes e, no geral, por pessoas ostracizadas, servem de ferramenta institucional para a criminalização da própria existência destas pessoas. O argumento pode ser refutado com o facto de que a escolha de consumir e/ou interagir com drogas reside puramente numa simples escolha dicotómica, o que é uma profunda desonestidade intelectual - uma que se assemelha à pobreza ser uma escolha. Os fatores sociais e económicos, mas também psicológicos e de saúde, que interagem entre si para levar um indivíduo ao consumo de drogas, são vários. Logo, se o consumo de drogas é o fruto de diferentes e até ambíguos fatores que se manifestam na existência individual, a criminalização do ato em si não serve como ferramenta de impedimento da propagação e da destruição que as drogas (a toxicodependência) podem trazer a pessoas e a comunidades. Mas também é um facto que é difícil comparar o consumo de substâncias com objetivos espirituais, religiosos e de lazer por comunidades ao longo da história, com a epidemia de opióides que em 2017 matou 115.000 pessoas em todo o mundo.


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A forma como a toxicodependência se materializa atualmente pode ser comparada à experiência histórica do alcoolismo - uma droga que ao longo da história se fez sentir em vários setores das sociedades, mas cujos efeitos mais nefastos eram nos bairros operários do século XIX, verdadeiros antros de pobreza, prostituição, criminalidade e decadência. Também podem ser encontradas epidemias, como o crack nos anos 80 e recentemente os opióides (heroína, fentanil), em diversas camadas sociais, mas a verdade é que afetaram especialmente zonas e comunidades de renda socioeconómica baixa. De facto, pode ser considerado que a pobreza e a decadência económica são fatores essenciais para a proliferação do tráfico e do consumo de drogas. Por outro lado, devem ser evitados determinismos no que toca à toxicodependência. O consumo de substâncias e a busca pela abstração através das mesmas parece existir como uma constante nas sociedades humanas, seja através da cerveja na Mesopotâmia, da canábis na África précolonial ou do MDMA nas cidades europeias do século XXI. Mas quando a política de drogas vigente desde a segunda metade do século XX, exacerbada pela administração de Nixon e de Reagan nos EUA, se baseia no controlo da oferta (ou seja, a caça e perseguição aos cartéis de droga e traficantes em geral) e no completo esquecimento institucional das condições que levam à toxicodependência e à procura de drogas em primeiro lugar, não podemos deixar de considerar que estas foram um fracasso. Na medida em que desde a presidência de Richard Nixon no início da década de 70, cuja prerrogativa era o combate à criminalidade e às drogas, o narcotráfico internacional tem crescido todos os anos e tem-se mantido lucrativo e expansivo para os seus donos. Na verdade, o mercado das drogas cresceu como qualquer mercado com uma clientela fixa e leal cresceria, veja-se aliás a forma como empresas como a General Motors, a Standard Oil, a Goldman Sachs e a Microsoft cresceram de forma acelerada. O mercado das drogas é ainda beneficiado pela inexistência de regulações, na medida em que a competição pode ser combatida através da exploração da força de trabalho (como por exemplo, os plantadores de folha de coca na Colômbia) e especialmente, através do uso da violência: contra a competição e contra os próprios aparelhos do Estado que tentam reprimir o negócio.

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Em países como o México, que vivem numa guerra contra as drogas que já vitimou milhares de pessoas, não só a economia mas também as esferas do Estado estão completamente direcionadas e enquadradas pela procura de drogas dentro do país e do outro lado da fronteira - nos Estados Unidos da América. Se a política geral e internacional no que toca às drogas baseia-se no proibicionismo e na guerra, sem qualquer atenção para com as condições que levam ao crescimento do mercado, a violência, a pobreza e a decadência de locais e regiões envolvidas na produção ou no consumo, o mercado aumenta progressivamente e não cessa perante aquilo que é a busca infinita pela abstração. O que acontece no fim é a constante guerra institucional do Estado e dos seus aparelhos contra, não só o mercado das drogas, mas também contra a própria sociedade civil. As consequências desta realidade são inalienáveis. Outro aspecto essencial na compreensão dos processos que levaram ao surgimento de grandes rotas de produção, exportação e abastecimento de mercados de droga é a perseguição institucional do autocultivo de substâncias.


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Não há dúvida de que quando o cultivo natural de substâncias como a canábis é perseguido, a produção e o abastecimento de canábis será feito apenas por pessoas com os meios e a dedicação para o fazer. A relação com a canábis transita da produção pessoal para um mercado, puramente devido à atuação do Estado. Por fim, também a repressão contínua da utilização de quaisquer drogas naturais fomenta o surgimento de alternativas sintéticas e cada vez mais elaboradas a nível técnico, que por sua vez tornam o próprio consumo cada vez mais inseguro. Um exemplo é o surgimento de canábis sintética (uma substância perigosa) devido à perseguição da canábis e o desenvolvimento de processos mais complexos para a produção de cocaína - com base nas folhas de coca. A solução, como está de certeza tácita neste texto, consiste em controlar a procura. Mas a procura não é um simples elemento social que pode ser controlado facilmente,como já foi referido, a procura surge através de condições socioeconómicas que transcendem o próprio ambiente do tráfico e consumo de drogas. Infelizmente não estamos numa situação em que a simples legalização do mercado das drogas e do seu consumo possa resolver todas as contradições sociais da epidemia de drogas. A legalização do mercado da cocaína, por exemplo, poderia resolver a questão da violência, mas nada faria para resolver todos os restantes problemas sociais que se erguem pela existência deste mercado numa sociedade que em si é desigual e economicamente insustentável - um mercado cuja base é a exploração de trabalhadores na América Latina em todos os passos da produção, e o consequente aproveitamento das fragmentações socioeconómicas das comunidades consumidoras. O fluxo de drogas para bairros e comunidades pobres continuaria, e a pobreza e a decadência manter-se-iam como fatores essenciais para o crescimento deste mercado, por mais que fosse legal. Independentemente da política que é utilizada para resolver este problema estrutural da nossa sociedade, apenas através de saúde pública, cuidados, ajuda, cooperação e inclusão social e económica é que poderá ser iniciado um processo de combate à epidemia das drogas.

OPINIÃO

O fracasso da criminalização faz-se sentir atualmente não apenas nos problemas fulcrais que se notam em todo o lado, mas também através de administrações que começaram o processo de legalizar a canábis e até mesmo de descriminalizar a posse e o consumo de todas as drogas. Medidas progressistas como estas são de facto um passo na direção certa, mas pouco fazem perante todas as estruturas culturais, sociais, económicas e políticas que desde o começo do século XX orientam a sociedade para a criminalização e o preconceito puritano contra tudo o que se assemelhe ao mero contacto com substâncias psicotrópicas. A descriminalização que existe em Portugal, por exemplo, é também contraditória exatamente devido a estas componentes culturais da nossa abordagem como sociedade às drogas: o consumidor é medicalizado e processado pelos aparelhos estatais como se fosse um criminoso. Para consumidores toxicodependentes de drogas pesadas com altos níveis de overdoses, como a heroína e a cocaína, o acesso a apoio médico é essencial, mas não suficiente a nível institucional. Para consumidores de canábis, uma droga que nunca matou ninguém e que é consumida de forma regular por boas camadas da população, a única solução possível é a legalização e a promoção do auto-cultivo de modo a garantir que a dinâmica mercado-público seja substituída por uma relação natural e orgânica entre indivíduo e a erva. Há que haver um processo institucional de transição económica para uma sociedade em que possam existir drogas, e em que talvez exista até um mercado legalizado, mas na qual a verdadeira abordagem às substâncias seja humanista e desprovida de preconceitos e perseguições.


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A Cultura, Cabe aos Viciados Apoiar FRANCISCO AZEVEDO

Uma medida não pode ser responsável ou irresponsável. A sua condição de existência não suporta tais categorizações. Uma medida é uma medida: será resultante de uma qualquer vontade política e uma possível resposta a um dado problema, que terá, certamente, os seus efeitos. Estes podem ser nefastos e, por isso mesmo, devem ser interpretados, compreendidos, medidos e explicados. Além do mais, antes da promulgação de uma qualquer medida ou lei, deve-se procurar compreender os vários efeitos que podem daí resultar. Calcular os efeitos é algo que está inerente à ideia de medida política, caso não fosse, deixar-se-ia as coisas como estão. A crescente acumulação de conhecimento, permite-nos calcular melhor alguns desses efeitos. Vejamos um exemplo prático: Se um dado Executivo procurar aumentar a natalidade, pode, por exemplo, oferecer um carrinho cheio de artigos de bebé (comida, fraldas, brinquedos, roupas), retirando às mães e pais um conjunto de encargos financeiros. Poderiam ir por outra via, como por exemplo proibir a venda de preservativos e outros métodos contracetivos. Haveria certamente muitas gravidezes indesejadas, mas a natalidade aumentaria.. Ambas poderiam ser uma forma de alcançar o objetivo último do Executivo – aumentar o número de nascimentos anuais -, mas certamente que haveria outros efeitos para além deste. Ao tomar determinadas decisões, um Governo deve procurar compreender os vários efeitos que surjam da sua ação. Recorramos a mais um exemplo. Decisões devem ser tomadas acerca dos ditos “comportamentos aditivos”, nunca sob forma de punição (há que louvar o que se fez com a toxicodependência neste país), mas sim com ajuda médica e psicológica, caso os indivíduos as procurem. Se um toxicodependente, uma alcoólica, uma pessoa viciada em sexo, acorrer ao SNS, deve ter toda a ajuda que pudermos disponibilizar. Podemos discutir se as categorizações acima referidas se enquadram na nossa concepção de doença, ou, até, se esta é a mais “correta”, mais adequada, mas joguemos com as regras que temos. Não é com isso que este pequeno texto se prende. Este texto prende-se com a ideia abjeta de se criar uma raspadinha para “ajudar a cultura”. O jogo é um vício. A raspadinha, uma forma de jogo, é um vício. É um vício que afeta, especialmente, os mais pobres (Balsa, Casimiro; Vital, Clara; Urbano, Cláudia, 2015). A decisão política de criar uma raspadinha, cujas receitas reverterão para a conservação de património, é abjeta. É ainda mais abjeta a declaração dada pela Ministra da Cultura, Graça Fonseca – “Para que cada cidadão se sinta parte da missão nacional de preservar o património. Fazer com que cada um de nós se sinta parte de algo que tem de ser de todos. 2021 será também o ano de envolvermos todos nesta missão nacional” (citação retirada do JN, "Raspadinha" do Património lançada a 18 de maio; 02/02/2021).


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OPINIÃO

Esta ideia não passa de uma perversão. Aos que jogarem na raspadinha, serão congratulados o sentido patriótico e cultural, sabendo que os jogadores o fazem por vício ou motivações outras que não este sentimento. Às vozes de oposição a esta medida, serão feitos ataques às suas posições, por (implicitamente, claro) desvalorizarem esta ação patriótica de preservar o património: serão posições anticultura. Não estou, com isto, a dizer que alguém vá, de facto, argumentar que uma posição como a minha é de um antipatriota. Não me tomem por parvo. Apenas que a lógica subjacente àquela declaração, é a de que os jogadores estarão a cumprir o seu papel de membros da nação, cuja função, neste caso, é apoiar o Estado na preservação do nosso legado histórico-cultural, sob forma de um jogo viciante; os que a criticarem,fazem-no a esta mesma mesma demonstração de patriotismo. A tomada desta medida é pouco responsável. A declaração da Ministra é simplesmente irresponsável. Não quero entrar em discussões sobre a liberdade, e se esta consiste na possibilidade de jogar na raspadinha. Mas há algo que gostaria de deixar escrito. O Estado não deve promover determinados comportamentos aditivos - os ditos vícios. O Estado português, com esta medida, não está a promover a preservação do património nacional, está a condenar os pobres à pobreza. Não sejam ignorantes ou tenham a má-fé de dizer que cabe ao jogador dizer que não. Se se tratasse apenas disso, não existiriam vícios. Construindo uma medida errónea, o Ministério da Cultura forneceu mais uma ferramenta aos portugueses para que estes gastem o seu dinheiro em algo que não precisava de existir, um vício. Não sou quem quer que seja para julgar se esse dinheiro é bem gasto ou não. Não posso condenar quem o faz; não condeno. Mas condeno um Estado que promove este tipo de comportamentos, oferecendo mais uma forma (não esqueçamos como se dá o financiamento da Santa Casa) de ceder ao vício. Forma essa que não é um tratamento. Cabe a este Estado e às suas instituições ajudar os seus constituintes, isto é, os seus cidadãos. Não é certamente através de políticas destas que se está a melhorar a vida cultural da população; a conservação do património não deve ser feita através da promoção de comportamentos aditivos. Referências Balsa, Casimiro, Vital, Clara e Urbano, Cláudia. 2015. Perfil do jogo e dos jogadores em Portugal. Com base nos resultados do III Inquérito Nacional à População Geral, Portugal 2012. Lisboa: Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências.


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A Educação Patrimonial continua a carecer de investimento? NARQ

O ano de 2021 começou há poucas semanas e já recebemos más notícias: o património continua a ser destruído. Seja pela agricultura intensiva no Alentejo que tem enchido páginas de alguns jornais, seja pela mesquita presente (ou não) na Sé Patriarcal de Lisboa, ou pelo abandono em que se encontra a Torre da Péla no Martim Moniz. A notícia mais recente é referente à sentença dos dois indivíduos que vandalizaram uma rocha com gravuras pré-históricas em Foz Côa. Em 2017, dois indivíduos consideraram pertinente desenhar uma bicicleta e escrever uma sigla na mesma rocha onde se encontra o Homem de Priscos. Esta gravura é famosa por conter a primeira representação de uma masturbação. Para além disto, o arqueossítio do Foz Côa é classificado como Património da Humanidade pela UNESCO. Os arguidos confessaram o crime, denotando que não sabiam que naquela rocha se encontrava uma gravura daquela importância. Foram, em janeiro de 2021, absolvidos. Mas não é sobre a sentença que esta opinião se vai debruçar. No que iremos debruçar, é a falta de investimento na educação patrimonial. Afinal de contas, os absolvidos afirmam não fazer ideia da importância do local.

Em dezembro de 2020, a empresa SPIRA, com a colaboração da NOVA SBE e da Fundação Millennium BCP, realizou um estudo sobre o valor do património cultural. O estudo evidencia a existência de um crescente desinteresse da população pelo seu património, especialmente nas faixas etárias mais jovens. E nós poderemos dar várias opiniões sobre causas. Primeiro, existe um profundo desinteresse na articulação da disciplina de História com visitas ao património local e nacional. De igual forma, com ou sem pandemia, nota-se cada vez menos investimento na cultura, especialmente a nível regional. Por fim, notase um profundo desinteresse em conservar e valorizar a memória dos monumentos e sítios e comunicá-la à população. Se um indivíduo, uma população conhecer o seu património e saber como o valorizar, menos casos como o de Foz Côa acontecerão.


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DIA DA MULHER: 08 DE MARÇO

HISTÓRIAS-ARTÍSTICAS-DE-VIDA: ENTRE AS CUSQUICES E OS RABISCOS MARIA JOÃO RODRIGUES E MARIANA BALTAZAR Apresentação do Capítulo III de Corpos na Trouxa. Histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio de Shahd Wadi.

Numa viagem de volta à sua terra natal, Ramallah, Shahd Wadi partiu a câmara que levava consigo e com a qual tirara várias fotografias. No último dia, ao revê-las, emocionada, apagou tudo. Ainda assim, percebeu que tinha que arranjar outra maneira de escrever sobre esta viagem. Esta sua tese é a história recontada por mulheres palestinianas, onde as suas narrativas ilustram como o “conflito” Israel-Palestina veio e continua a tentar apagar um povo que sobrevive. Porém, é raro as vezes que encontramos a palavra conflito. Segundo a autora, conflito significa luta entre dois iguais, semelhantes; o que aqui acontece é que há um ocupante e um ocupado - há forças desiguais. Shahd não resiste e recorre à comparação de Israel, enquanto um homem viril, e a Palestina, uma mulher indefesa. A história que se segue está sempre, portanto, relacionada com o poder, seja ele colonial ou patriarcal. E é neste sentido que a autora sente a necessidade de ir ao encontro de outras histórias, destas histórias orais contadas por mulheres na primeira pessoa. São estas mulheres, as mulheres palestinianas, que através das suas histórias de vida perpetuam a memória, a pertença a uma identidade coletiva e a cultura de um povo. O terceiro capítulo da tese de Shahd Wadi nada mais é senão a descrição sociográfica das trajetórias de vida das mulheres palestinianas.

A própria autora refere: “Utilizarei o termo “histórias-artísticas-de-vida” para falar dos objetos de arte que narram estas vidas. Estas histórias-artísticas-de-vida habitam simultaneamente o passado e o presente; o verdadeiro e o imaginado; o facto e a ficção, o ser e o saber – habitam a Palestina.” (Wadi, 2013). Estas histórias, símbolo de resistência do povo palestiniano, que sofreu uma das mais cruéis limpezas étnicas da atualidade, vêm, então, lembrar e reafirmar a memória do povo palestiniano, enquanto identidade própria. O enfoque da autora recai sobre estas mulheres, donas de histórias de vidas, donas do seu ser no mundo (Wadi, 2013), como já enunciado. Mas é intencional: socorre-se das histórias destas mulheres, que eram desprezadas porque “(...) mulheres contando umas às outras histórias é considerado coscuvilhice (...)” (Holt,1996:85); segue, pois, o esforço em dar visibilidade aos seus problemas e relatos que tanto se tentou ignorar. Mais uma vez, vítimas da violência patriarcal, só com a emergência do movimento feminista palestiniano foi recuperada esta herança matrilinear (Wadi, 2013) contada oralmente, como uma fábula, “entrelaçando a história com a ficcção” (Wadi, 2013).


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“(...) As mulheres palestinianas – e de outras culturas – transmitem as suas histórias no paradigma de herança, ou seja, as mulheres narram o passado através da descrição das paisagens, das habitações, das vilas, dos vizinhos, do trabalho, das celebrações, da comida e de outros momentos marcantes para a vida da família e da comunidade, bem como de objetos do quotidiano. Transmitem as suas histórias através da música, da preparação da comida e de remédios caseiros tradicionais, e servindo-se de linguagem coloquial.” (Wadi, 2013). A autora segue, portanto, um debate sobre a imaginação. Shahd entende a imaginação como uma força, um símbolo de resistência. O imaginário é, pois, a fronteira entre o que é real e o que não o é. É não cedermos à ideia de que há uma única possibilidade. Imaginação trata-se de um espaço de liberdade onde se parte da realidade, carregando sementes de curiosidade sobre uma outra realidade ou várias paralelas. A falta de imaginação é opressora, tal como a impossibilidade de imaginar. A arte surge, assim, neste contexto, como reflexo destas vidas, acompanhada de uma perspetiva feminista e assente numa estrutura de resistência: “A produção artística como extensão da memória e ferramenta para narrar vidas” (Wadi, 2013). A pergunta que se segue é, então: Serão estas mulheres, através desta sua arte, deste seu ato de resistência, feministas informais? Neste capítulo não estão apenas presentes as histórias que a autora decidiu incluir. Fotografias, poemas, cantos e tantas outras formas de expressão foram reunidas e compõem estas suas “Histórias contadas à distância”, sendo com elas que se finaliza o capítulo. “Utilizar a arte como ferramenta útil para contar vidas não só permite ultrapassar as restrições sociais da sociedade palestiniana e falar sobre a história do próprio corpo, mas também surge precisamente porque a arte é simplesmente a própria linguagem das criadoras para falar sobre o eu, e é a linguagem mais ouvida.” (Wadi, 2013).

DIA DA MULHER: 08 DE MARÇO

Raeda Saadeh, Rapunzel (2010) “A foto é justamente uma representação perfeita da palavra palestiniana sumud, uma palavra muito utilizada para descrever um certo tipo da resistência especificamente palestiniana: é habitualmente traduzida como “firmeza” e “constância”; por outras palavras, sumud é a estabilidade da resistência, persistência: é “oficar”, “resistência na resistência”.” (Wadi, 2013). As diferentes linguagens artísticas foram a maneira que a nova geração de mulheres encontrou para continuar a tradição narrativa. Através da arte, enfrentam as diferentes opressões, seja a ocupação e a hegemonia de Israel, seja a cultura sexista e patriarcal. Ao longo desta tese, são-nos apresentadas Mulheres e o que as suas formas de arte têm em comum: afinal, as autobiografias que compõem o trabalho de Shahd Wadi caem na inevitabilidade de se tratarem também de relatos políticos.. A reafirmação da identidade palestiniana de muito se serviu, pois, destas narrativas, destas mulheres que sobreviveram e quiseram contar a sua história.


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Agora, híbrida, a identidade do povo palestiano resiste reinventando-se, por via da arte, por via dos seus contos, por via de toda uma geração pós1948 (ano em que se deu o Nabka), que se reúne e assume a sua posição social e o seu lugar político numa Palestina fragmentada e forçada a naturalizar um ambiente de guerra. Daí resulta uma crise humanitária fomentada por chefias de Estado como o atual governo norte-americano. O trabalho de Shahd Wadi não se resume só à escrita desta tese; ele é construído pelo confronto com uma realidade que persiste. Aqui reencontramos verdades, mesmo com toda a subjetividade inerente. Não é só a linguagem jornalística que nos fornece uma percepção da realidade; sem a arte, comunicar nunca teria tanto impacto. Obrigada às mulheres palestinianas por contarem as suas histórias de vida, por se mostrarem, por serem um símbolo de resistência e luta. Não estão sozinhas. Obrigada Shahd Wadi por nos trazeres estes relatos e dares voz e visibilidade ao ativismo destas mulheres, do povo palestiano, de uma história que quer ser apagada mas sobrevive.

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Bibliografia: Wadi, Shahd. 2013. Corpos na Trouxa. Históriasartísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio. Tese de Doutoramento em Estudos Feministas orientada por Professora Doutora Adriana Bebiano e Professora Doutora Maria Irene Ramalho apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. [pp.120-172]

"Obrigada às mulheres palestinianas por contarem as suas histórias de vida, por se mostrarem, por serem um símbolo de resistência e luta. Não estão sozinhas. Obrigada Shahd Wadi por nos trazeres estes relatos e dares voz e visibilidade ao ativismo destas mulheres, do povo palestiano, de uma história que quer ser apagada mas sobrevive."


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Não quero as vossas flores!

Um manifesto de uma mulher cansada de viver num man’s world

BEATRIZ COSTA

Nos últimos anos, a luta feminista tem ganho cada vez mais expressão pública. Vivemos em tempos onde se nota um retrocesso dos direitos da mulher – algo espelhado com o surgimento de personagens políticas que, com frases como Grab them by the pussy, insistem em regredir anos de progressos deixados pela geração de feministas anterior, como Donald J. Trump e Jair Bolsonaro. Ao contrário do que a maioria possa pensar, o Dia da Mulher é uma data que carrega uma forte origem operária, cuja primeira manifestação histórica antecede o famoso fenómeno do incêndio na fábrica nova iorquina Triangle Shirtwaist Company, que ceifou cerca de 125 vidas femininas. Dois anos antes da tragédia, a 26 de fevereiro, 15 mil mulheres marchavam pelas ruas dessa mesma cidade a exigirem melhores condições de trabalho. Hoje é dia 8 de março de 2021, e ainda na semana passada assistimos a episódios que só vêm reforçar a importância e urgência de uma forte mudança das mentalidades face à conceptualização do feminino, da mulher e de todas as teias que a rodeiam. Começando pelo Projeto PROMOVA - Conferências “As Mulheres e o Emprego: Um Tema do Homem”, da autoria da CIP, de qual não podemos ignorar a ironia cega dos homens em questão, que ao tentarem combater e “desmaterializar o Dia da Mulher” ao “celebrá-lo como um legado histórico e não como um dia de luta”, apenas enfatizam o problema central de que não há mulheres suficientes em cargos de gestão (e que as poucas que existem continuam a ver a sua voz silenciada). Estes senhores acharam por bem desenvolver uma plataforma de discussão sobre um assunto que envolve diretamente o público feminino – o que trava a ascensão de mais mulheres a cargos de gestão – a responder a essa pergunta, excluindo-as da mesa de discussão. O machismo no dia-a-dia é um bicho papão invisível aos olhos adormecidos, discreto e camuflado, mas constantemente presente em todos os momentos das vidas das mulheres. A objetificação do corpo feminino foi tema de falar nesta semana antecedente à data de comemoração do Dia Internacional da Mulher, com tristes ocorrências, como o anúncio do restaurante “pap’açôrda”, cuja imagem de uma mulher com um seio descoberto, tapado apenas por um copo de vinho, é grotescamente utilizado como isco numa campanha publicitária que procura atrair a atenção masculina. Como se precisássemos de mais um exemplo da objetificação nojenta a que o corpo feminino é submetido diariamente, não deixando de ser interessante a receção social, uma vez que os mesmos seios que são tão fortemente julgados em praça pública, quando reafirmados como uma apropriação da mulher, quer através de “decotes” ou de uma mãe a amamentar no exterior, são aceites e normalizados se forem representados como uma mera mercadoria aos olhos do male gaze. E como se um incidente não fosse suficiente, temos ainda a publicidade da Control, famosa marca de preservativos, cuja última estratégia de marketing nas redes sociais lhe saiu cara. Com o slogan machista “Acabas sempre por lhe dar a volta”, aproveitou-se a visão misógina de que a mulher não é nada mais do que um objeto sexual, cujos desejos são constantemente ignorados e cujo corpo é, como já vimos anteriormente, mercantilizado e apropriado em infelizes propagandas de teor sexista. Nunca é tarde para relembrar que “Não é Não, sempre”, quer a vítima tenha dito sim primeiro, mas mudado de ideias depois, quer esteja inconsciente, quer seja prostituta ou virgem; não é sempre não.


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DIA DA MULHER: 08 DE MARÇO

A chamada third wave feminism (ou feminismo de terceira geração) não é algo que tenha aparecido ao acaso, nem um fenómeno místico e incompreensível a que assistimos no século XXI. Trata-se apenas de um grito por ajuda de metade da população mundial. Com o seu nascimento no início da década de 1990, esta nova vertente do movimento feminista tem o propósito de continuar a luta que as sufragettes e as nossas avós começaram por nós. Primeiro foi o direito ao voto, depois foram as restantes leis de cariz igualitário que nos proporcionaram os degraus para nós subirmos hoje em dia. No entanto, isso não foi tudo e está longe de ser o suficiente, quando ainda metade da população mundial continua a ser oprimida desde a nascença pelos mesmos alicerces socio-culturais que constrangiam a mulher na sociedade vitoriana e que violentaram a mulher portuguesa no Estado Novo. Não está tudo bem e de nada nos vale que nos ofereçam flores no 8 de março se a mentalidade não condizer com respeito e equidade para com o sexo feminino. A luta continuará sempre e a nossa memória está com todas as mulheres que juntas acreditaram, acreditam, lutaram e ainda lutam pela esperança de um mundo mais justo e onde a mulher tem direito a um lugar na mesa. Pois como a Marina já o dizia (e bem): “Mother Nature's dying Nobody's keeping score I don't wanna live in a man's world anymore”.

Feliz Dia Internacional da Mulher!


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CRÓNICAS

A OUTRA MARGEM RITA MADEIRA

Uma comoção líquida verte sobre o peito da Terra. Todo o mundo é silêncio, todos os lugares são deserto. Todo o amor aguarda o reencontro dos corpos que o conduzem, com a sua cerimónia ancestral. A alegria de uma cidade cheia é só memória e saudade. Chove tanto que o mundo parece, por momentos, um estômago menos vazio e o roncar pesado dos nossos medos é afagado pela canção da água a embater sobre o chão. Longe daqui um homem percorre o rio solitário do seu trabalho. Viaja de queixo erguido sobre a água, com o olhar posto sobre o horizonte, alçando a esperança sabe-se lá até que futuro. Equilibra-se, confiante, sobre um pequeno barco branco que rasga impiedosamente a corrente branda. Carrega uma nobreza humilde no rosto vincado pelo tempo. É discreto, mas não tímido. É um certo tipo de simplicidade de quem encolhe os ombros enquanto sorri ternamente. Do outro lado do rio, algumas casas ostentam, distantes, o seu mistério. Invocam uma atenção comedida, interpelam-nos com um aceno. Repousam, mudas, num abandono servil, numa espera acomodada ao olhar de quem passa, sobre a água ou sobre a terra. Ao nosso olhar, devolvem sobretudo um silêncio provocador. Seduzem-nos sabendo que jamais nos aproximaremos, lembram-nos a vida que deixamos suspensa na outra margem. A vida que podia ter sido. A vida que não será. A distância violenta e inexorável de dois caminhos que correm infinitamente paralelos e, que por rigidez das regras, nunca se tocarão. Há pessoas que se esforçam para esquecer a memória dessa outra margem. Dedicam-se fiel e empenhadamente à vida prática, aos afazeres quotidianos e cíclicos do sono, da fome, da reprodução material da vida. Há outras que fazem do dia uma possibilidade de evasão. Há pessoas que estão sempre a partir para outro lugar. Há pessoas que vivem na viagem, como nómadas desencantadas com o mundo. E de tanto sonharem com a outra margem, aprendem a leveza da flutuação. Caminham sobre a água. Existem para dentro, assim como as outras, mais práticas, mas fazem uma implosão em tudo diferente. Ao findar de cada dia, este homem regressa, lentamente, a casa. O que o move não é a mera necessidade, há nele qualquer coisa que estilhaça a contingência. Ele, que habita o ponto médio entre as duas margens, vive na liberdade de repetidamente poder regressar a esse lugar indefinido, a um presente que se abre constantemente ao por vir. Beija a mulher, abraça os filhos, senta-se à mesa para jantar. É terno e bondoso, mas simultaneamente desapegado e só, até nos momentos de convívio. É encarado com autoridade, mas está psicologicamente distante dos que ama. Não é consultado nem conselheiro. Existe, forte e terno, como uma miragem. E parece pertencer-se a si próprio mais que a ninguém. E parece renascer todos os dias ao sair de casa, com o amanhecer, num perpétuo retorno ao rio. Ele aprendeu a vida que há no intervalo. Talvez um dia atravessemos o rio a nado ou aprendamos, como este homem, a fazer dele a casa entre a vida e o sonho, até ao ponto de não sabermos já onde começa um e onde acaba outro. Always in the middle, always in between.


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O COZIDO E OS GUARDANAPOS VERMELHOS DA AVÓ SOFIA RODRIGUES

Sei que não te lembras, ainda eras miúda, era aos domingos. A avó dizia que os domingos eram dias da família e eu com 10 anos dizia que os domingos eram dias de festa. Tu tinhas 2 aninhos na altura, claro que não te lembras. Íamos eu, tu, a mãe, o pai, o tio João e tia Marília com os filhos deles. O tio Miguel ia sozinho (antes de conhecer a Rosa, sabes, ainda não lhe consigo chamar tia, mas essa história fica para outro dia), mais uns primos em segundo grau, filhos dos filhos dos irmãos dos avós. Por estes dias já nem sei onde anda essa gente toda! Por volta do meio-dia começava a chegar uma família atrás da outra, já tinha a avó o cozido pronto, ou a feijoada, circulava sempre em volta destes dois. A mesa estava sempre posta com guardanapos vermelhos, lembro-me que a avó adorava aqueles guardanapos. E era o único dia em que nos deixava tocar nos copos de cristal. E disto aposto que te lembras, sempre que íamos tu e eu lá almoçar durante a semana ela dizia “Nem se atrevam a abrir o armário dos copos de cristal!”. Mas o domingo era especial. Houve um almoço em que o tio João partiu um dos copos da avó, quando vi a cara dele parecia tão assustado como quando era novo e a avó lhe puxava as orelhas por andar sempre a arreliar (lembras-te como ela dizia arreliar?) os irmãos mais velhos. Para além dos copos, lembro-me como se fosse ontem, a avó punha sempre o garfo do lado direito e a faca do lado esquerdo, sabes que só há uns anos é que percebi porquê? O nosso primo, o Dinis, comia com os talheres trocados e aquilo era a maneira que ela tinha de lhe mostrar que, às vezes, temos de olhar para as coisas não como “Eu estou a fazer errado”, mas sim “Quem me diz que não são os outros que estão todos mal?”. Quer dizer, isto sou eu a interpretar, se calhar a avó simplesmente achava graça a gozar connosco. De qualquer forma, lembrei-me de te falar destes almoços porque vi um dos filhos da tia Marília hoje na rua, nem o reconheci, acreditas como o tempo passa? Tenho tantas saudades destes almoços. Agora mal nos vemos, a avó já não está cá para nos juntar, os guardanapos vermelhos já se acabaram, os copos de cristal estão a apanhar pó na cristaleira e diria que o Dinis já deve ter aprendido a ser igual a todos nós e a comer com os talheres nas mãos certas.Mas lembro-me tão bem da mesa onde nos sentávamos todos. Agora os domingos são iguais aos outros dias todos, lá se foi a festa…


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CRÓNICAS

UM CIGARRO E UM COPO DE VINHO Diana Neves

Há momentos em que precisamos de parar e respirar. Há um ano que o mundo se viu obrigado a parar e a respirar, mas as nossas mentes nunca o deixaram de fazer, não cessaram de trabalhar. É nestes intervalos em que o cérebro para, e a nicotina de um qualquer Marlboro que estejas a fumar se insurge com um monte de sensações e epifanias. [Atenção: isto não é uma ode ao ato de fumar, nem se deve ler como um incentivo para tal, mas mais como um tom poético, metafórico e até irónico.] Estamos no segundo confinamento das nossas vidas e embora tenhamos ganho algumas ferramentas e aprendizagens do primeiro, este veio trazer mais um ambiente desafiante. Falo enquanto jovem e estudante universitária: eu sabia que a minha experiência académica ia passar depressa (não passa sempre rápido aquilo que nos sabe bem?), mas não sabia que me ia ser tirada. Os anos na FCSH estão a escapar-me das mãos, e não é de ânimo leve. Li vários artigos que expressam a possibilidade de existirem sequelas, como sintomas de depressão e ansiedade, depois de termos Covid. Eu estive em isolamento por caso positivo durante dez dias e, apesar de não ter tido sintomas, pergunto-me agora se a onda de irritabilidade, tristeza e ansiedade que me exacerba os sentimentos nestes últimos dias advém de ter tido Covid, ou do confinamento em que estamos, ou de qualquer outro nível de stress e preocupação que me tem vindo à cabeça sem eu sequer me aperceber. Contudo, também sei que o facto de o ensino à distância (ainda que tenha esforço e dedicação da parte de certas instituições, mais do que de outras) tem levado à decadência da saúde mental de milhares de jovens e crianças. Infelizmente, esta é uma saúde que agora se encontra tão fragilizada quanto negligenciada e esquecida, e tem de ser tida em conta e tratada com determinação e urgência. Isto porque há jovens que não têm o melhor ambiente em casa e pessoas que os possam guiar e orientar.

Recuso-me a sucumbir aos antidepressivos, porque acho que ainda não cheguei nem precisei desse medicamento. Aliás, junto com todos os outros comprimidos, coloco-os numa caixa de perversidade e proibição de entrada no meu corpo. Mas, questiono-me se não era preferível pedir ajuda profissional psicológica, face à qual não tenho nada contra: contar toda a minha história de vida a uma cara desconhecida e esperar uma resposta e uma ajuda que (ainda que com falta de carinho íntimo) me fosse imparcial,aplicando-se isto a qualquer faixa etária. Porém, a minha teimosia acaba por se revelar uns antolhos de primeira, o que alude ao meu desejo de autonomia extrema quando só preciso de uma palavra alheia de carinho. Por isso, obriguei-me a parar e a respirar. Refletir por mim própria aquilo que é melhor para mim e o que posso fazer para enfrentar o confinamento que é tão desafiante quanto frustrante para o que considero…toda a gente. Uns lidam melhor que outros, e às vezes gostava de ter a resistência e a resiliência que tantos demonstram face a tudo aquilo que lhes acontece (de mau ou de bom) e outras vezes gostava de ter a calma calorosa que me torna intocável àquilo que me chega. [Atenção: isto não é um pedido de socorro, mas um desabafo entre muitos, vindos de dores e reflexões do confinamento.]


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Conforta-me saber que não estou sozinha nos meus pensamentos e nas minhas desgraças, apesar de tudo de bom que deseje aos outros. Reconhecer que é uma caminhada que percorremos em conjunto, é consolador. Durante o ano passado, cometi o erro de me envolver em tantos projetos e atividades que a minha cabeça e o meu trabalho já não davam para aguentar tanto peso e pensar em tanta coisa ao mesmo tempo. Percebi que tenho que escolher aquilo que me dá mais gosto de fazer, e sobretudo que tenho de estabilizar os níveis de trabalho, de aprendizagem e de atenção a um dado tema que me interesse (por mais que me perturbe conhecer certos funcionamentos e desgraças do mundo, é importante educarmo-nos por vontade própria), com o devido tempo de relaxamento e de lazer. Há dias em que não tenho vontade de sair da cama, prefiro dormir o dia todo; e outros em que a minha procrastinação está num grau que eu desconhecia e passo horas sem fazer nada. E isso é completamente válido. Algo que eu aprendi é que todas as formas de sofrimento são válidas, e a dor pode ser partilhada (ainda que nunca compreendida na sua plenitude pelo outro, porque cada experiência é única e cada pessoa lida com ela de forma diferente). O importante é perceber como consegues ultrapassar os teus desafios, não precisando de ser de forma igual à dos outros, muito menos tens que te comparar com terceiros. Há dias em que não me apetece falar com ninguém, ou descarrego nos outros e sinto-me culpada. E há outros em que tenho das melhores conversas com essas pessoas. É um tempo peculiar, aquele que estamos a viver. E não faz mal ter dias maus desde que se compense com dias bons. Parte de nós refletir sobre a forma como estamos no momento, mas mais que nunca é necessário pedir ajuda. Não faz mal tirares uns dias para ti, mas não afastes os que estão perto de ti e querem o teu bem, ou não te inibas de procurar aqueles que vão saber melhor como te ajudar nestas alturas. Rodeia-te de boas ideias, pessoas que te estimulam criativa e intelectualmente, pessoas que te dão carinho, formas de aprendizagem que te sejam produtivas, e aquilo que te dê liberdade de pensamento e liberdade interior, dentro do quadro daquilo que é possível.

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Espero que tenha dado um desabafo concreto e uma palavra de conforto àqueles que se sentem como eu. Vocês sabem tudo aquilo que podem fazer para ocupar o tempo e tornar o confinamento produtivo e até nalguma forma confortável, não vale a pena eu estar a massacrarvos com isso, sabendo de toda a informação à solta para tal. A nossa força parte da nossa consciência. E se isso não for possível, os outros podem dar-te um bocadinho dessa força. Regenerar-nos e fazer as pazes internamente é uma parte da reconciliação que temos de fazer connosco próprios para sobreviver a estes tempos. Lá fora está a chover torrencialmente e o vento até faz ranger as janelas, e estou a pensar se onde vocês estão chove também ou se têm o calor do sol. Peguem na vossa chávena de café, ou em papel e caneta, ou vão dar uma corrida, mas reflitam e cuidem de vocês. Neste momento, só queria um cigarro e um copo de vinho, mas tenho plena consciência que tenho de cuidar de mim. [Considerei deixar este texto em anónimo, pelo tema ser frágil e pela sua intimidade. Mas decidi não o fazer, para mostrar que por trás de todas as regras, sofrimento, esforço daqueles que trabalham todos os dias na linha da frente e força daqueles que ficam em casa para que isto passe, e atrás dos números que aparecem na televisão, há pessoas, há nomes nos quais estes aspetos se concretizam. E além de generalidades, estatísticas e normas, há caras e há histórias.]


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O CORTIÇO As Convicções Profundas

INÊS PINHEIRO

«Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida.» - Fernando Pessoa (ortónimo) in Crónica da vida que passa… O Jornal, n.º 2, 5-4-1915.Retirado do livro Não Cites Pessoa em Vão, organizado por Vasco Silva, E-Primatur, 2018

Não sei se Fernando Pessoa alguma vez pensou que viria a ser tão citado, desenhado e repensado. Melhor dizendo, o repensar talvez lhe tivesse surgido como uma possibilidade, pois deu azo a que tal se sucedesse com a sua heteronímia. Ainda, assim, por certo o escritor nunca sonhou em ter as suas palavras em sacos, cadernos, lápis ou borrachas, assunto sobre o qual devo admitir não ter uma convicção profunda, pois eu própria guardo alguns souvenirs deste género. Contudo, creio que tanta citação, utilizada de forma quase abjeta, tem o condão de banalizar a escrita, e isto sim escrevo-o convictamente. Felizmente, é-nos possível contrariar esta tendência, se “não citarmos Pessoa em vão”. Durante alguns anos, não tinha convicções profundas, porque as encarava como dogmas e não pretendia viver segundo esses constrangimentos inabaláveis. Quando olhava à minha volta, a percepção com que ficava era de que ninguém vivia segundo a tal premissa das máximas indiscutíveis, pois ora apregoavam que o faziam, quando na verdade eram a incongruência em pessoa; ora assumiam que fazê-lo era absolutamente descabido. Como somos, em parte, o produto da nossa envolvência, devo ter captado este cenário como peça da minha construção humanista inicial. Quando olhamos para a Sociedade, vemos que aqui as convicções logram de um palco maior, com indivíduos e associações a hastearem bandeiras de valores. Porém, se aumentarmos a nossa focagem para ser mais fina, percebemos que no que toca à coerência e integridade, aí ficam muito aquém. Pessoa expôs esta falácia generalizada numa formulação particularmente reveladora: a superficialidade peca por “arder tão mal ante a Verdade e a Vida”. Não vemos esta fogueira a lançar mais fumo do que chama, actualmente? Quando a lenha não pega e só há fumo negro, espesso e sufocante, a solução é abrir a porta para deixar o ar frio da rua entrar, e a nuvem nefasta sair. Mas parece haver dificuldades em abrir portas hoje em dia. Face a tanta dissimulação, mantive a minha posição de não ter convicções profundas, até que me apercebi que só esta tomada de posição era… uma convicção em si mesma. Esta constatação obrigou a um reajustamento, tendo no fim chegado à conclusão de que as convicções eram as vítimas desta história, o que forçosamente me levava a ter de me remendar perante elas. Penso ter conseguido cumprir o último ponto, mas creio que de resto as desgraçadas continuam a ser defraudadas sem dó nem piedade. Tanta integridade que anda por aí! A Esperança que tenho, neste momento, já foi pintada por George Frederic Watts em 1886. Com a melancolia da figura acentuada pelas cores mais suaves desta segunda versão da obra, a Esperança cega toca uma lira com uma única corda, e aproxima-se do instrumento para ouvir a melodia que se desvanece. O sentimento é esse mesmo, apesar de desejar que não o fosse. É um desalento saber que tenho convicções, mas não sou superficial, porque cuidar delas e defendê-las é uma luta constante contra aqueles que fazem uso das mesmas para enganar os outros com o seu cinismo. Tenho Esperança, é verdade, e como é bela na sua solidão! Mas seria infinitamente melhor se esta fosse partilhada, amainando a tempestade para conseguirmos ouvir aquela única corda a reverberar…


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CULTURA | SUGESTÕES CULTURAIS

Filmes, séries e peças de teatro para veres no conforto da tua casa ANA CATARINA TIAGO

É verdade que o ecrã do computador nunca poderá substituir a emoção do palco, mas já faltou mais para estarmos todos juntos em concertos novamente. Enquanto aguardamos melhores dias, a cultura está, como sempre, aqui para nós.

Os Filhos do Rock (2013) - RTP Play

Vamos recuar até aos finais dos anos 70 e “viajar” ao longo de toda a década de 80. O país vê-se mergulhado nos cabelos volumosos, nas roupas coloridas e na música que não para de ser criada. Esta é a vida da geração que viu crescer o rock português. Os Barões são uma banda ficcional, mas que de ficcional não têm nada. Contam a história das bandas portuguesas que trazemos connosco, como os Xutos, os Heróis do Mar ou os GNR. A série está dividida entre Lado A e Lado B e pode ser vista gratuitamente na RTPPlay.

Sopro, de Tiago Rodrigues - TNDMII

Cristina Vidal faz do D. Maria II sua casa há mais de 25 anos e é uma das últimas ponto do país. Pela primeira vez, saiu de trás do pano para nos contar as suas memórias e as histórias que a habitam. Sopro dá voz a quem é uma incógnita para o público, mas que tão bem guarda esta arte do Teatro. Estará disponível na sala online do TNDMII até ao dia 12 de março e tem o custo de 3€.


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CULTURA | SUGESTÕES CULTURAIS

Quarentena Cinéfila - Medeia Filmes

Como forma de se manter perto dos espectadores, a Medeia Filmes, em colaboração com a Leopardo Filmes, lançou a Quarentena Cinéfila no primeiro confinamento, ainda em 2020. Um ano depois e de volta a casa, a programação continua com a III Fase – Raridades. Entre 1 e 18 de março, podemos encontrar cinco filmes, no site da Medeia Filmes, em streaming gratuito: O Território, de Raúl Ruiz; John McEnroe: O Domínio da Perfeição, de Julien Faraut; Chuva de Julho, de Marlen Khutsiev; Carneiros, de Grímur Hákonarson; Movimento em Falso, de Wim Wenders

Mantenham-se atentos à próxima edição do NOVA em Folha, onde vamos fazer discutir alguns destes filmes!


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CULTURA | CULTURA NA FCSH

Quero Ser Artista em Portugal ANA BESSA

Em criança desenvolvi uma crença hiperbólica que defendia que uma das piores coisas que se poderia dizer aos pais era “Quero ser artista”. Não é que tivesse parentes que abusassem do poder que lhes atribuía a genética para tentarem delinear o meu percurso ou influenciar as minhas escolhas, a discussão lá em casa sempre se resumiu ao típico dilema de ser artista em Portugal. Desde que me conheço como pessoa, sempre pretendi uma carreira profissional na música e poder mostrar o material que tenho desenvolvido e aprimorado há 9 anos. Contudo, estou em Línguas, Literaturas e Culturas, primeiro pela necessidade de ter o tão aclamado Plano B, o porto seguro/base de aterragem do artista, e, depois, porque descobri uma paixão também na literatura que procuro incorporar nas minhas letras e composições. A desvalorização cultural que atravessamos sempre me atribuiu uma dualidade sensacional que ora se baseava numa desmotivação periódica por falta de oportunidade, ora rompia numa necessidade corajosa de ser boa ao ponto de ser inegável e alguém ter de me ajudar a fazer algo sobre isto. Esta falta de investimento, apoio e meios de promoção, obrigam a que não seja possível contratar a arte independente a full-time. Muitos de nós estudamos e trabalhamos, geralmente em áreas que estão longe de estar relacionadas com a arte em questão, o que dificulta o aperfeiçoamento do produto, a própria gestão emocional dos acontecimentos e, por fim, o facto de um resultado próspero reivindicar uma persistência megalómana que deveríamos ter para ontem, se houvesse tempo para tudo. O processo em si também é turbulento, existe um elevado jogo de egos no ramo que valem o que valem e dificultam a abrangência do meio. Cada um tem de saber fazer o seu malabarismo da melhor maneira que sabe e suporta, talvez com a gestão de tempo na mão esquerda, a falta de apoio ou qualquer perspetiva de estabilidade na mão direita e o balanceamento psicológico no ar, sendo de conhecimento geral que é, dos três, o que voa melhor. Existe ainda um critério que se sobrepõe aos restantes na fase de eliminação, isto é, escolher entre criar de acordo com as fórmulas gastas e pré-estabelecidas que resultam, ou trazer algo de inovador (sendo, por si só, um termo também debatível), podendo acabar por se virar contra nós e cair no vácuo das inúmeras lacunas da cultura nacional ou, na melhor das hipóteses, iniciar uma nova discussão sobre o assunto. “Já Não Sabe Onde Anda” é o meu primeiro lançamento a solo. A canção visa representar a sensação de se estar preso a um quotidiano entediante e cíclico, corrompendo a criatividade individual e colocando-nos à mercê de um sistema estandardizado e automatizado. Procurei espelhar a minha própria deambulação artística naquilo que me rodeava e reprimia, filtrando a angústia do desconhecido em mais uma tentativa de ser artista em Portugal.


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Em nome do silêncio MARGARIDA MARTINS RALO

“Em nome do Silêncio”, porquê? É um blog, onde as palavras silenciosas se personificam na arte da escrita: da prosa e da poesia. O meu gosto pela escrita tornou-se palavra viva a 18/03/2017, com a publicação do meu primeiro texto “Uma insónia cheia do teu vazio”. Em fevereiro de 2019, publiquei a minha primeira poesia intitulada “Poesia-me a alma”. Entre os mais recentes poemas “(Des)amar-te”: Esquece, Ama e … “Sofre, poesia amada que o desamar é madrugada: Lenta, Fria E delicada” Deleitei-te a alma? Procura pelas minhas palavras, todas as sextasfeiras às 18h30 em: https://emnomedosilencio.blogs.sapo.pt/


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R E G R E S S O D A S D I T A D U R A S ? INÊS PINHEIRO

Recentemente, os termos “populismo”, “ditadura”, “totalitarismo” e “autocracia”, entre outros, têm andado nas bocas do mundo. Paralelamente, mas em comparação com estes, fala-se da Democracia, nomeadamente sobre qual será o seu estado actual, apontando-se, nesse sentido, para a sua decadência. Por terras lusitanas, é particularmente actual e premente falarmos sobre este assunto. Não só já atravessámos um longo período dictatorial – há menos tempo do que pode por vezes parecer – como estamos a viver uma época em que um partido disruptivo, o Chega, está a ganhar espaço, palco, voz e expressão. Definir o Chega conceptualmente é difícil e dúbio: será um partido de extrema-direita, ou de um populismo de direita radical? Os académicos dividem-se nesta questão. Cas Mudde, um cientista político holandês, que se foca nas dinâmicas extremistas e populistas, afirmou há dois anos atrás que “a atenção dada ao Chega não deve ser exagerada” – tê-lo-emos feito nas últimas eleições? Creio que não. Tendo, sumariamente, apresentado estas premissas, que nos alertam para o devido enfoque nas ditaduras, o assunto merece uma recomendação de leitura: O Regresso das Ditaduras?, de António Costa Pinto (Fundação Francisco Manuel dos Santos · Janeiro de 2021). Este pequeno livro, que não ultrapassa as 100 páginas, foi escrito tendo em vista o público em geral e por isso não entra em pormenores conceptuais e teóricos exaustivos. A obra está estruturada de forma clara e linear: começa com um ponto de situação: estaremos perante o regresso das Ditaduras? Em números absolutos, a resposta terá de ser inequivocamente afirmativa, pois «entre antigas e novas, as ditaduras dominam hoje mais de um terço do mundo». A utilização do termo “regresso” suscitou-me algumas dúvidas, pois sabemos que há ditaduras que nunca desapareceram, como a chinesa, que completou no ano passado 71 anos. Mas, esta escolha de palavras prender-se-á, por certo, com a terceira vaga de democratização, de finais do século XX, que se estendeu a grande parte do globo. De seguida, define-se o conceito que constitui a espinha dorsal do ensaio: a ditadura, que se trata de «um regime político no qual há uma elite política que governa através de meios que não os de eleições livres e justas». O autor salienta que há outras linhas a partir das quais podemos traçar distinções, mas que a ausência do fator “eleições livres e justas” é fulcral e transversal a todos os tipos de ditaduras: fascistas, comunistas, militares, entre outras.


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Procede-se, depois de desconstruídos e diferenciados os vários tipos de regimes dictatoriais, a uma análise da relação entre as ditaduras e as instituições políticas, desde a “pessoalização” do poder nos ditadores, com a existência, ou não, de partidos únicos; ao governo, parlamento e eleições. Poderíamos pensar que as ditaduras têm estes elementos por mero cuidado com a imagem, mas cada um deles encerra uma função que vai para além do “verniz” – este é um aspecto particularmente interessante. Claro está, a repressão e coerção, ambas com um capítulo inteiramente dedicado à sua expressão nos regimes em análise, são dois elementos indissociáveis de uma ditadura, que vive instaurando o medo, a violência e a vigilância constantes. Actualmente, o autoritarismo está em mutação e «confunde-se muitas vezes com uma erosão dos regimes democráticos, cujos contornos ainda são incertos». É neste âmbito que o autor aponta exemplos dos nossos dias, uns de democracias que estão a ser erodidas por forças da direita radical, como o Brasil de Jair Bolsonaro, outros de (quase) ditaduras bem próximas de nós, veja-se a Hungria de Orbán – esta ainda uma “experiência híbrida”. No capítulo em que conhecemos casos de estudo, são-nos apresentados três exemplos de “autoritarismos competitivos”: a Turquia de Erdogan, a Rússia de Putin e a China de Xi Jinping. Como conclusões, destacam-se pontos de continuidade e outros de mudança, em relação às ditaduras do passado. Por um lado, os regimes dictatoriais actuais têm uma menor carga ideológica, mimetizam mais as democracias e adaptam-se ao capitalismo. Por outro, continuam a personalizar o poder e reprimem, censuram e controlam, a informação e as liberdades. Sendo indicado para todos os leitores, acredito que O Regresso das Ditaduras? possa constituir uma leitura ainda mais dirigida para os alunos da minha área de estudos: a da Ciência Política e Relações Internacionais. Para estes, permitam-me deixar uma pequena nota: neste livro, encontrarão menções a autores com os quais estarão familiarizados como Sean Muller, Carl Friedrich, Jennifer Gandhi, Michael Mann, Adam Przeworski e Joseph Schumpeter, entre outros; bem como conceitos basilares: “ditadura”, “democracia”, “fascismo”, “ideologia”, ou outros relativamente recentes, como os de “regimes híbridos”, “autoritarismos competitivos” e “democracias iliberais”. Nesse sentido, acredito que a leitura deste novo livro de António Costa Pinto pode ser uma boa forma de estruturar pensamentos e argumentos, servindo também como um suporte de literatura especializada nesta matéria. Sem prejuízo do que escrevi no último parágrafo, gostaria de terminar com um repto que diz respeito a todos. Quando a minha irmã, ou eu, terminamos um livro, temos por hábito falar sobre o que nos ficou da leitura. O mesmo se passou quando acabei de ler O Regresso das Ditaduras?. Recapitulei-lhe, sumariamente, o que tinha pensado para este artigo, e no final perguntou-me: “E as Ditaduras Narcisistas?”. Fui apanhada de surpresa com esta questão, e respondi-lhe, a meias palavras, que dessa classificação ainda não se tinham lembrado, ao que me retorquiu: “Então, o que é que foi a de Hitler?”. A minha irmã não é politóloga, é tão só uma criança de dez anos. Classificar as ditaduras de narcisistas é pensar realmente sobre este assunto, é vê-lo não só pelo que é, mas pelo que esconde. Temos, imperativamente, de estar atentos, todos nós sem excepção, por isso instruamo-nos e precavamo-nos, pois as ditaduras já cá estão e muitas nunca nos deixaram. Texto escrito de acordo com a antiga ortografia


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‘OS CUS DE JUDAS’ E AS GUERRAS QUE NÃO SÃO CONTADAS GUILHERME MACHADO

O génio rabugento e cínico de António Lobo Antunes é dos elementos mais reconhecíveis da literatura portuguesa contemporânea. Um psiquiatra de uma família de poucos amigos, onde todos os filhos de um médico se tornaram doutores reconhecidos na comunidade, Lobo Antunes fornece os seus retratos crus da existência humana, com o ceticismo negro de quem a Pátria, o amor e a vida deixou para trás, com os resquícios materiais da vida social - por entre as propriedades em Setúbal e os lares de Alvalade n’O Manual dos Inquisidores. Se há indivíduo a quem podemos, portanto, pedir uma descrição da Guerra Colonial, contada com a abstração dura de um veterano traumatizado por entre contos épicos de ser um alferes em Luanda e um sobrevivente na mata angolana, é claramente, a António Lobo Antunes. Os Cus de Judas são a epopeia que escarnece do seu herói e escapa das armadilhas egoístas de um texto semi biográfico. Antunes não tem medo de descrever sem pudor a corrupção do oficialato e a decadência individual e coletiva dos soldados destacados nas matas do Chiúme, e das esplanadas e bairros de lata da capital. A própria guerra desenvolve-se nesta obra como um perfeito absurdo, que se desdobra sobre o sofrimento humano e a destruição material, levando o sujeito do romance a deparar-se com a própria degradação da família, do país e da identidade perante os horrores presenciados como médico de combate. O estilo de escrita é delirante e a mais simples e pacata situação é digna da descrição crua e metafórica que Lobo Antunes domina naquele que é dos primeiros livros da sua carreira. Mesmo que o livro não possa ser definido como um “Diário de Guerra”, a morte e a destruição assumem o lugar de elementos categóricos do sofrimento individual do sujeito, e desnudam aquelas que são as guerras escondidas dos anais da história: o que decorre na nossa mente.


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DE ONDE VIEMOS E PARA ONDE VAMOS? THE PERKS OF BEING A WALLFLOWER, DE STEPHEN CHBOSKY DIANA NEVES

A beautiful song called «Landslide». When we got out of the tunnel, Sam screamed this really fun scream, and there it was. Downtown. Lights on buildings and everything that makes you wonder. Sam sat down and started laughing. Patrick started laughing. I started laughing. And in that moment, I swear we were infinite. – p.42.

Alienamo-nos do mundo quando ficamos retidos nas páginas de um livro, quando a nossa dimensão de vivência passa a ser o espaço entre linhas e parágrafos e absorvemos as palavras como respiramos o ar. The Perks of Being a Wallflower, a primeira obra literária de Stephen Chbosky, não só nos transporta de volta para os tempos de secundário (ou de liceu, como preferirem chamar), ao estilo americano – com a disputa entre os mais populares; as mesas de cantina solitárias vs. as que já pertencem a grupos específicos; o aperto dos corredores constrangedores e mortíferos da escola; os jogos de futebol com todo pessoal académico a assistir – como demonstra uma sensibilidade muito maior e profunda por várias questões da vida. A inconveniência deste livro – e, por isso mesmo, a sua melhor função – é conseguir manter-nos atentos a uma história que tem tanto de incómodo como de belo, e chegar ao âmago (com um caminho longo de 231 páginas) de algo mais intenso e violento emocionalmente. Sem vergonha na sua escrita, o autor não poupa a reservas ou rubor naquilo que quer falar. É bem detalhado nas descrições de situações ou sentimentos e, por não esconder nada, detém uma decência e uma integridade únicas, especialmente se tivermos em mente o objetivo final do livro. Adaptado para filme – The Perks of Being a Wallflower (2012), realizado pelo mesmo autor que escreveu a obra – este romance é apto para todas as idades, tendo, contudo, a sua incidência maior num determinado público-alvo. Stephen Chbosky já tinha trabalho em algumas longasmetragens, porém este é o seu trabalho próprio em livro e em filme. Nada retira o poder de imaginação do leitor, para além de todos os pormenores que são muito maiores em número e em exposição na obra literária do que na obra cinematográfica. No entanto, estando o filme ao dispor de criar ele mesmo um universo para as quatro partes em que está dividida a obra escrita, dá-nos sensações até meio palpáveis da história em si. Algumas das músicas que são idolatradas pelos


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personagens têm lugar no filme, assim como todo um cosmos que personifica as emoções sentidas, os problemas do dia a dia, até a monotonia do protagonista, e coloca em órbita toda uma série de situações, abalos, aprendizagens e experiências com as quais chegamos a identificar-nos. Charlie está no seu primeiro ano da «high school» e, ao mesmo tempo que tenta lidar com um tipo de vazio que tem por dentro e com os dramas na família, vai descobrir, ao longo deste livro, todas as experiências que nos surgem na adolescência: ir a festas e a encontros, conhecer novos amigos, drogas, sexo. Charlie tem um gosto e um dom para as «mix tapes» e, ao longo desta jornada, faz uma amizade inegavelmente única com Sam e Patrick. [Em acrescento: no filme, Charlie, Sam e Patrick ganham as performances fenomenais de Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller.] Além de nos comunicar as virtudes e o caráter sui generis dos anos da nossa adolescência, durante os quais o nosso maior desafio é crescer individual e socialmente, mas também cometer muitos erros, este livro leva-nos a querer «participar» (como está lá escrito). Não vou expor demasiado daquilo que aprendi com esta obra, porque penso que cada pessoa (que ainda não teve oportunidade para a ler, ou para ver o filme – ainda que dê uma experiência diferente) terá de fazer um exercício só seu de refletir as lições que este livro fornece, e adequálas a si mesma. Há etapas que se fecham e outras recomeçam, e é estranho olharmos para trás no tempo, porque há tanta coisa que muda: as roupas que usamos e de que gostamos, as nossas opiniões, a nossa forma de lidar com as pessoas, aquilo que gostamos de saber, ver ou fazer. A minha etapa do secundário fechou-se há dois anos e há tantas coisas que eu me arrependo de não ter feito e outras que preferia ter feito diferentemente. É essa introspeção que precisamos de fazer de vez em quando, para percebermos onde as escolhas que fizemos nos levaram e como queremos que o nosso rumo seja diferente agora. Um diferente bom resulta de decisões astutas e uma atitude perspicaz, e que vamos ganhando ao longo do nosso crescimento pessoal. Aprendi como não basta ficar à margem dos acontecimentos. Temos de pesquisar, incluir-nos neles, ter uma opinião e atuar sobre eles. É aquilo a que o autor chamava participar. Deixar de ter uma atitude passiva, levantarmo-nos do lugar da plateia e fazer parte da peça. Daqui resultam histórias para um dia contar, erros e conquistas, aprendizagens e recaídas. Mas é isso que nos faz viver.


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CULTURA | LITERATURA

Por fim, mas não menos importante, é preciso compreender que as nossas raízes familiares tiveram e têm um papel importante e edificante no nosso ser. As vivências da nossa infância e adolescência são as que deixam mais marcas, por vezes invisíveis, e as pessoas que temos à nossa volta desde pequenos têm uma influência graúda na forma como crescemos, nas manias que ganhamos, nas palavras que mais dizemos ou no modo como nos comportamos. No entanto, é nosso dever sabermos ser resistentes (e saber o porquê de o termos de ser) ao longo do nosso desenvolvimento enquanto ser individual. Se não formos resilientes e conscientes nunca vamos saber distinguir aquilo que nos faz bem ou não, e como devemos agir perante o outro e lidar até connosco próprios. Faz bem perdoar e saber largar, manter vínculos e distinguir os precedentes que nos foram benéficos ou lesivos. Assim como nos é essencial traçar algo para nós, da nossa própria construção, feitio, enquanto domínio interventivo do nosso único crédito. A estirpe da nossa essência está em nós, com aquilo que vivemos e interiorizamos sozinhos sem a interferência ou ascendência de ninguém.

I was suddenly very aware of the fact that it was me standing up in the tunnel with the wind over my face. Not caring if I saw downtown. Not even thinking about it. Because I was standing in the tunnel. And I was really there. And that was enough to make me feel infinite. – p.230


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C I N E M A

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J A P O N Ê S

KENJI MIZOGUCHI INÊS PINHEIRO

Kenji Mizoguchi é considerado “O melhor dos realizadores japoneses. Ou, simplesmente, um dos melhores realizadores do mundo.” (Jean-Luc Godard). Nascido na capital japonesa, Tóquio, a 16 de Maio de 1898, o cineasta veio a morrer com apenas 58 anos de idade. A sua carreira, apesar de precocemente interrompida, conta com um repertório vasto e diverso, uma vez que Mizoguchi percorreu a transição do cinema mudo para o som, com os “talkies”, e do preto-e-branco para a cor.

O estilo de Mizoguchi é verdadeiramente inconfundível, pois o realizador fez dos longos takes e da manipulação das sombras uma imagem de marca. Contudo, o epíteto de “Cineasta das Mulheres” é, talvez, aquele que melhor o caracteriza. Nos seus filmes, Mizoguchi explora as dificuldades e injustiças das protagonistas femininas, bem como a sua capacidade de resistência. Sobre Mizoguchi, extraordinariamente, Tag Gallagher afirmou o seguinte: “se não fosse japonês, os seus filmes seriam provavelmente rotulados de anti-japoneses”, prendendo-se esta acepção com a visão do realizador, claramente progressista, mas não desligada dos motivos tradicionais do Japão. Como primeira introdução na obra de Mizoguchi, sugiro um dos seus filmes mais conhecidos: O Conto dos Crisântemos Tardios.


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O CONTO DOS CRISÂNTEMOS TARDIOS

ZANGIKU MONOGATARI

1939 · 137 min. Realização de Kenji Mizoguchi · Argumento de Yoda Yoshikata Com Shôtarô Hanayagi, Kôkichi Takada, Gonjuro Kawarazaki

Estamos em 1888, no Japão, prestes a passar mais de duas horas numa viagem entre Tóquio e Osaka, graças à mestria dos takes longos e profundos de Mizoguchi. Os nossos olhos começam por ser levados através de uma série de divisões, cada uma cuidadosamente organizada na maneira japonesa à qual nos acostumámos. Perto do coração da casa, testemunhamos a abertura de cortinas, seguida de um sumptuoso desfile de fatos, máscaras, maquilhagem exuberante quando, por fim, tudo culmina numa actuação teatral bastante efusiva. Estamos na casa da família Onoe. A tradição do teatro Kabuki é uma de danças dramáticas e apaixonadas, e essa pode muito bem ser a razão pela qual Mizoguchi nos contou a história do amor proibido de Kikunosuke (Kiku) e Otoku com o clássico Kabuki como pano de fundo. O teatro floresceu durante o período Meiji, tendo o realizador agarrado essa deixa para filmar outros dois filmes, depois d’ O Conto dos Crisântemos Tardios. Contudo, apesar de não deixarem de ser excelentes, os predecessores não atingiram a qualidade quase etérea da primeira obra-prima. O pai de Kiku é não só o chefe da família Onoe, como também uma figura importante para a comunidade da área circundante, devido à sua riqueza e elevado status social, enquanto actor principal da companhia de teatro Kabuki. Contudo, a sua fama é desprovida de real substância, tendo crescido meramente à custa de uma influência esmagadora, não de mérito. Para desmascarar o “mascarado”, apenas podemos contar com Otoku, a ama de leite da família, que expõe as suas fracas, e reais, capacidades. Despedida e ostracizada depois de ter cometido o terrível crime da Honestidade, Otoku encontrou conforto nos braços de Kiku, mas a um custo tremendamente elevado para ambos… O papel das mulheres – um tema que, como já foi referido, atravessa o repertório de Mizoguchi – é uma peça-chave desta longa-metragem. A feminilidade não é nem fraca, nem descartável, como o pai de Kiku tenta fazer entender, e as atuações marcantes dadas por Kakuko Mori (Otoku) e Shôtarô Hanayagi (Kiku) – cuja personagem tem uma carreira como actor de Kabuki, que atinge o seu auge graças a uma interpretação de um papel feminino – são a prova viva do quão poderoso e belo é o papel das mulheres neste filme.


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A apontar um ponto negativo neste clássico de Mizoguchi, e mesmo este não é propriamente pejorativo, teria de ser o grande contraste que retém em relação às expectativas dos espectadores contemporâneos. As cenas são longas e forçam-nos a mantermo-nos atentos à lentidão da câmara, pois Shôtarô Hanayagi era um actor de teatro, e apenas através dos planossequência tinha liberdade para representar como se estivesse no placo. Num cenário a preto e branco, a mise-en-scène construiu-se adotando maior distância, para acentuar a representação teatral que, nas palavras de João Bénard da Costa “permitiu a Mizoguchi cristalizar o máximo de energia”. Esta descrição não corresponde ao filme que o público, em geral, procura actualmente, não me iludo em relação a isso. Ainda assim, entendendo e procurando ultrapassar a dificuldade com que estes longos planos a preto-e-branco são recebidos, podemos contra-argumentar atestando a elegância e musicalidade que acompanham todas estas cenas, nas quais cada segundo é filmado de tal forma que conseguimos sentir a tristeza do casal, a amargura e o doloroso adeus. Podemos ainda sublinhar como revisitar o Japão que Mizoguchi nos mostra nos permites conhecer melhor o actual, trazido pela globalização. Falar, ou neste caso escrever, sobre algo de que gostamos tem tanto de fácil como difícil, porque as palavras surgem mais rápido do que a velocidade da caneta. Kenji Mizoguchi, falando sobre o Cinema, e a sua vida no fundo, disse que “Os filmes não são feitos por decisão consciente, mas por paixão interior”. O mesmo se aplica a quem os vê: não se ama o Cinema conscientemente, é algo intrínseco e inexplicável. Para aqueles cujo interesse pela obra de Mizoguchi foi despertado, podem ver O Conto dos Crisântemos Tardios, bem como outros filmes do cineasta japonês, na plataforma Filmin. Para os cinéfilos, não poderia deixar de mencionar a edição especial da Leopardo Filmes, com 9 cópias restauradas e um livro sobre o realizador (no qual me baseei para o introduzir).

Dedicado aos meus Pais, que sempre incentivaram o meu amor pela Sétima Arte, e me ofereceram um presente verdadeiramente mágico que combina duas paixões: o Cinema e o Japão.


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CULTURA | CINEMA

EMMA. ANA CATARINA TIAGO

Realizado por Autumn de Wilde Argumento de Eleanor Catton (baseado no romance de Jane Austen) Com Anya Taylor-Joy, Johnny Flynn e Callum Turner Duração de 124 min. Lançado em Abril de 2020 (em Portugal)

“Emma. são duas horas de duelos interiores para crescer e ser melhor.”

Se Wes Anderson tivesse realizado Marie Antoinette (2006) de Sofia Copolla, teríamos Emma. (2020). O mundo visual do realizador pode ser encontrado na palete de cores pastel, nos frames frontais e centrados, na simetria e nas expressões faciais exageradas. O ritmo do filme está bem marcado nos movimentos mecânicos, nos olhares repentinos e na entoação pausada das palavras, com as ocasionais flutuações de tom. Tal como em Moonrise Kingdom (2012), os cenários muito trabalhados transportam-nos para uma casinha de bonecas e, à semelhança de Grand Budapest Hotel (2014), o guarda-roupa cuidado tem um papel importante na direção de arte bem definida (o que levou a que, por vezes, estivesse historicamente incorreto). De Wilde também se inspirou claramente em Anderson quando dividiu o filme por capítulos, ou quando usou títulos e subtítulos em letras grandes e enquadradas nos planos. Para além das personagens propriamente ditas, são também figuras essenciais os padrões das cortinas e dos figurinos, a banda sonora (na qual há um instrumento emparelhado com a personalidade de cada personagem), os penteados compostos e as icónicas toucas.Este retrato caricaturado do privilégio tem tanto de cómico como de dramático e, mesmo nas cenas mais sentimentais e sentidas, a seriedade que o momento exigiria é rejeitada e dá-se apenas o caos. A audiência acaba por, inevitavelmente, tomar parte nos conflitos e sente da mesma maneira o constrangimento, a tristeza e a alegria.


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CULTURA | CINEMA

Emma., trata-se de um filme muito moderno, com um olhar crítico sobre alguns aspetos da sociedade do século XIX, mas que não foi feito para ser realista. Por muito que o teatro das aparências fosse bem montado, quando estavam nos quartos fechados e sozinhas, as pessoas oitocentistas eram tão humanas como nós: também se questionavam e tinham dúvidas para as quais muitas vezes não há respostas. Dois séculos depois, parece que pouco mudou. Só que agora já não há bailes. Emma. são duas horas de duelos interiores para crescer e ser melhor.


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CULTURA | TELEVISÃO

TINY PRETTY THINGS

O MUNDO ALTAMENTE COMPETITIVO DA DANÇA JÉNI BARRETO

Série de televisão da Netflix Com Kylie Jefferson, Lauren Holly e Casimere Jollette Duração dos episódios: aproximadamente 60 min. Lançado em dezembro de 2020 Tiny Pretty Things traz-nos um mundo completamente disfuncional, competitivo e repleto de competição, dor e sofrimentos em torno de uma paixão que é dançar. Além de um elenco cuidadosamente escolhido de bailarinos profissionais, que interpretam os atores principais da série, o enredo gira à volta de um assassinato de uma das alunas mais brilhantes da escola, nas vésperas de estrear o bailado “Aurora”. As narrativas que envolvem a série merecem uma exploração mais detalhada. No entanto, não existe essa possibilidade porque os episódios que pertencem à primeira temporada são condensados num espaço de tempo aceitável (cerca de 50 minutos). Os fãs aguardam ansiosamente por uma segunda temporada. A primeira narrativa que merece destaque retrata um distúrbio alimentar de um dos alunos da instituição. A segunda apresenta um conjunto de negociações entre a própria academia de dança e um clube noturno para a prestação de serviços sexuais das alunas sem o consentimento das mesmas. A terceira está relacionada com a representação da homossexualidade no mundo do ballet e como ainda é vista por parte da sociedade. Para além de retratar um ambiente com o qual não estamos familiarizados, apresenta uma beleza quase rara na maneira como nos capta para as diversas coreografias e técnica típica do ballet. Embora tenhamos visto dança como representação artística audiovisual em filmes como Work it ou Feel the Beat , nunca uma série nos mostrou com tanta profundidade o lado tão negro e realista do mundo do ballet e a pressão a que os bailarinos são sujeitos na competição de alto nível do mundo do espetáculo.


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NOVA EM FOLHA

CULTURA | VIDEOJOGOS

HADES: JORNADA PELO SUBMUNDO MAFALDA CARVALHAL

A fervorosa paixão entre Orfeu e a sua musa, Eurídice, ainda que desejada e admirada por muitos, é objeto de uma tragicidade caraterística dos mitos gregos. Não obstante a morte prematura de Eurídice, Orfeu é um dos poucos que, dotados de capacidades extraordinárias e, neste caso, de um dom musical inigualável, ousaram aventurar-se pelos lugares mais recônditos do submundo, vivendo para contar a história. Munido da sua lira e inconformado com a sua infeliz realidade, rompeu com a própria natureza do Reino de Hades, deus dos mortos, despojando-o da sua tão afamada implacabilidade. A produtora americana independente SuperGiantGames tira proveito do caráter atroz e de certo modo inexpugnável desse mesmo reino para desenvolver o seu mais recente jogo: Hades (2020). A sua história, fortemente alicerçada na riqueza narrativa mitologia grega, segue Zagreu, filho de Hades, que, à semelhança de Orfeu, procura escapar ao submundo. Ao contrário de jogos lançados em anos transatos como Transistor (2014) e Pyre (2017), Hades herda muitos dos aspetos fundamentais de jogos roguelike: organiza uma continuidade aleatória de salas/câmaras, baseia-se fortemente no combate corpo-a-corpo e fundamenta-se numa lógica de mortes sucessivas. Parafraseando as palavras da IGN (Imagine Games Network), ampara-se numa situação semelhante à de Sísifo que se sujeita a uma repetição continuada da sua árdua tarefa. Concomitantemente, a ciclicidade do jogo insere-se numa evolução gradual das capacidades da personagem e na continuidade narrativa dos diferentes enredos, dando um novo aspeto àquilo que era uma das fórmulas triunfais na indústria gaming desde o começo dos anos 80. Com um guião composto de 300 mil palavras, Hades é aclamado pela sua complexa rede de diálogos, onde mesmo as decisões mais insignificantes são pensadas pelos criadores e utilizadas na interação com as personagens. A atenção ao detalhe é um dos fatores cruciais para o sucesso do jogo, ajudando a pequena equipa da SuperGiantGames a distinguir-se das produtoras de grande orçamento e a formar uma comunidade sólida de fãs. Neste sentido, Hades teve o devido reconhecimento, vendendo 700 mil cópias no early access e 300 mil nos primeiros 3 dias do seu lançamento, sendo também considerado um dos melhores jogos de 2020 pela TIME, Polygon, Giant Bomb, entre outras renomadas revistas e websites. Demonstrou-se não só um jogo bastante completo em termos de jogabilidade, narrativa, design artístico e música, mas acima de tudo um projeto acarinhado por aqueles que o conceberam e por uma vasta extensão de jogadores que se aventuram, todos os dias, pelas inúmeras salas do Reino de Hades.


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POESIA

A SAUDADE TOMÁS GIRÃO

SAUDADE ALFACINHA

Sinto falta das ruas e de como elas são com tantas pessoas presas àquela paixão. Passando por Alfama vejo o seu interior, aconchegado na cama, compreendendo o amor. Correm nelas, os putos, servindo os sonhos com risos de pinga-amor: -"Maria, toma uma flor". Preso àquela paixão, tenho Lisboa no coração, perfumado pelas castanhas, saboreando o sol nas ruas.

O ESPELHO DA SAUDADE Meu amor, escrevo-te uma carta de longe e tão perto sem rimar os sorrisos, as tranças ou o mar esperados nesta poesia pacata. Os dias correm, as horas voam e os meses, que teimosamente insistem em ficar, também perguntam porque não passam. As saudades perduram num coração apaixonado e, ao seu jeito resmungão, irrita-se com o mundo e com o Costa por não estar ao lado de quem gosta. Nas saudades encontrei os sonhos, os contos, os textos nunca dantes escritos ou compostos com flores à beira mar alegremente esperados.


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9 MINUTOS GUILHERME GUERRA

Nisto analisei uma poça de prata Onde nadava sábia uma pena O silêncio dos pássaros acena Aos marinheiros da nova regata. Na lâmina os clamores de metal Degeneram a nossa existência Húmidos os dedos de frutescência Onde a inocência sorri marginal. Velhos os fetos, esses sabem tudo Movo a génese na frágil platina De nada valem os retos estudos Toda a história será sempre pouca Somos a gaivota que imagina Encontrar nas árvores a voz rouca. 04/07/2020

POESIA


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NOVA EM FOLHA

ISTO É 2021 JOÃO PEDRO LOUREIRO DE OLIVEIRA

Dias cinzentos Dias escuros, melancólicos e tristes. Dias sem dias… A noite é o dia. Uma semana cinzenta, chuvosa, infeliz Sozinha, abandonada, fria… Uma semana sem graça e emoção. O tempo não passa O relógio não trabalha As nuvens pararam O sol? Fugiu. O mundo bloqueou. Fechou-se dentro de si. O dia não existe Viver é apenas respirar e existir. Os barulhos não existem A diversão não é palavra Sorrir? Não se aprendeu o que é. Isto é 2021! O tempo presente Um mundo imaginado em utopia, tecnologia e alegria Motivação, regozijo… Realidade? 2021 não existe Porque nós não vivemos Só existimos Ou pelo menos… tentamos.

POESIA


P 51

NOVA EM FOLHA

A VIDA TIAGO PINTO

Na verdade, estamos apenas A escrever páginas, vivendo, E o tempo folheia-as, por si. A vida, algo celeste em papel, É um livro orgânico e efémero Cuja fração de frases é incerta. A lombada foi feita (à nascença) De papel ou de pano roto, Consoante a saúde do indivíduo. Por certo, uns escreverão Infindos parágrafos de arrasar. Outros não terão sequer o prefácio. Haverá sempre quem produza Aventuras de cair o queixo, Melodramas e autênticos thrillers. Dependerá das vontades, De um contexto multifacetado E da Sorte que cada um coletou. Limitamo-nos a escrever, a fio. Bem ou mal, que importa Se o único leitor é o tempo? Porque jamais iremos ler (acredito) Essa obra de nossa autoria Que – quando lida – desaparece.

POESIA


P 52

NOVA EM FOLHA

Receitas

DIANA NEVES

Bolo de Banana Vegan

INGREDIENTES

2 xícaras (chá) de farinha de trigo branca 1 xícara (chá) de açúcar 1 colher (chá) de canela em pó 1/2 de xícara (chá) de óleo vegetal ¾ de xícara (chá) de leite de soja (amêndoa ou aveia) 2 bananas amassadas 1 colher (sopa) de fermento em pó (caso a farinha não contenha já)

1. Pré-aquecer o forno a 210ºC, untar a assadeira com um fio de óleo e polvilhar com farinha. 2. Usando uma batedeira ou varetas próprias misturar num recipiente a farinha, o açúcar e a canela. 3. Adicionar o óleo, o leite de soja, a banana (já previamente amassada e desfeita) e o fermento e mistura até se tornar homogéneo. 4. Colocar a massa na assadeira e, a gosto, decorar com amêndoas ou nozes por cima. 5. Deixar no forno cerca de 40 minutos.

P R E P A R A Ç Ã O

Massada de Peixe

INGREDIENTES

600 g de peixe para cozer 250 g de massa cotovelos 1 dl de polpa de tomate 1 lata de tomate em cubos 1 cebola 2 dentes de alho 1 folha de louro 0,5 dl de azeite Coentros picados q. b. Sal e pimenta q.b.

P R E P A R A Ç Ã O

1. Descascar e lavar a cebola e os dentes de alho e picá-los ,colocando-os num tacho com um fio de azeite e deixando refogar até lourar e amaciar. 2. Adicionar ao refogado a polpa e o tomate em cubos, a folha de louro, um ramo de coentros, sal e pimenta, misturando e deixando assentar à medida que refoga. Juntar 1L de água e deixar ferver, juntando depois o peixe (sem peles nem espinhas), deixando a cozer durante vinte minutos. Retirar o peixe e deixar amornar. 3. Juntar a massa e deixar cozinhar durante 12 minutos. Juntar, de seguida, o peixe e deixar a massa terminar de cozer. Retirar e servir com os coentros.


Nova em Folha apresenta...

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Para passares o tempo...

Horizontal:

1. O verso "Água fria da ribeira" pertence ao filme português "... da Roupa Branca". 5. Obra-prima de Gabriel García Márquez: "Cem Anos de ...". 6. Pequeno herói gaulês das bandas desenhadas de Goscinny e Huderzo. 7. Mestre da Sétima Arte japonesa, célebre pelos longos takes e pela manipulação das sombras: ... Mizoguchi. 8. Autor de fantasia com paixão linguística: J. R. R. …

Vertical:

2. Testemunho da vida de uma jovem judia, escondida durante o jugo nazi: "... de Anne Frank". 3. "Those ... Men in their Flying Machines" - clássico da comédia aerotransportada. 4. Romance de António Lobo Antunes acerca da experiência na Guerra Colonial: "Os ... de Judas".


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NOVA em Folha l Março 2021 by AEFCSH NOVA - Issuu