NOVA em Folha o jornal da aefcsh. fevereiro 2021
Capa EQUIPA DE FUTEBOL 11 DA AEFCSH REFLEXÃO AUSCHWITZ-BIRKENAU 200 ANOS DE DOSTOIÉVSKI E ainda crónicas, notícias, sugestões, poemas, artigos e receitas! Um jornal d@s estudantes para @s estudantes!
FOTO DE CAPA
Autoria de Afonso Évora
NOTAS A ado(p)ção do acordo ortográfico em vigor é uma decisão individual pel@s membros da equipa, redacção e colaborador@s . Após a revisão completa do material pela equipa editorial, o conteúdo e a versão final dos conteúdos são da responsabilidade e exprimem somente o ponto de vista d@s respectiv@s autor@s.
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nova em folha fevereiro 2021
Direção
Redação & Revisão
Colaboradores
Inês Pinheiro João Martins Rita Serpa
Ana Carolina Ferreira Ana Catarina Tiago Beatriz Cabanilhas Beatriz Mateus Bruna Ferreira Diana Neves Francisca Dias
Francisco Nunes Guilherme Machado Inês Pinheiro Joana Freitas João Martins Liliana Marques Madalena Carvalho
André Porfírio Francisco Azevedo Francisco Fernandes Inês Valente Jéni Barreto João Pinho
Leonor Lopes Maria Ferreira Nuno Matela Ricardo Cruz Reis Tomás Girão
Edição Gráfica
Ana Carolina Ferreira Beatriz Cabanilhas Francisca Dias Joana Freitas Rita Serpa
Redes Sociais
Bruna Ferreira Liliana Marques Madalena Carvalho
Mafalda Carvalhal Manuel Pinto Maria Gonçalves Pedro Fernandes Rita Serpa
Maria Gonçalves Rita Serpa
NOTA Gostas de escrever? Queres ver as tuas reviews, receitas, bitaites, histórias, crónicas, etc.. num jornal d@s estudantes para @s estudantes? Envia-nos as tuas propostas até ao dia 20 de cada mês e participa nas nossas edições mensais! Ficamos à tua espera!
Jornal NOVA em Folha | Edição de fevereiro 2021 Impressão: 150 cópias | Distribuição mensal e gratuita novaemfolha.ae@fcsh.unl.pt
FICHA TÉCNICA
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Já se gues NOV o A em F o no In lha stag ram?
Índice fevereiro 2021
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Notícias AE em folha Novidades FCSH Janeiro em Resumo Equipa de Futebol 11 da AEFCSH - André Porfírio
Opinião 6 7 8 11 12 13 15
A nossa primeira experiência em Tuna: uma tarde gratificante - Leonor Lopes e Maria Ferreira Reflexão Auschwitz-Birkenau - Nuno Matela Redes Sociais e a “Democracia” de Informação Guilherme Machado Jacinda Ardern - Ricardo Cruz Reis O conforto de votar Marcelo - Francisco Sousa Nunes Quem defende os nossos valores? - Manuel Grade Pinto Democracia na América - Ricardo Cruz Reis
Crónicas 18 1 20 21 2 22 3 23 6 24
Amar, um acto político - João Pinho Engordando - Francisco Azevedo Felício, um rato lisboeta! - Inês Valente Absurdo - João Martins (Sobre)viver em pandemia - Liliana Marques O Cortiço - Inês Pinheiro
Poesia 26 27
Poemas Vários - Tomás Girão Ao espelho - João Martins
pág.
Cultura
35
Reflexão O Sufrágio Feminino - Diana Neves À espera dos vermes. Ou, o que nos dizem os Pink Floyd sobre o Fascismo? - Francisco Fernandes O Teatro é necessário? - Mafalda Carvalhal
37
Música Z.E.N. Trio - Inês Pinheiro
28 33
38
Cinema Soul: o primeiro filme Pixar com um protagonista negro - Jéni Barreto
40
Literatura 200 anos de Dostoiévski (Parte I) - Inês Pinheiro
42
Videojogos Stardew Valley - Beatriz Mateus
Lazer 43 44
Receitas - Diana Neves Palavras Cruzadas e Sudoku - João Martins
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AEFCSH
AE em folha CATARINA MOTA Podemos talvez pensar no primeiro mês do ano como uma altura de maior calmia na FCSH. Um mês de exames, com menos pessoas na faculdade e com menos atividade. Mas não foi por isso que a AEFCSH deixou de marcar a sua presença.
Janeiro de 2021 teve como grande agravante a imposição de mais restrições e de um novo confinamento para conter a terceira vaga da pandemia do Coronavírus. Confinamento esse que saiu mais uma vez mais caro aos estudantes de condição socioeconómica menos favorável. Foram muitos os obstáculos ao bom aproveitamento académico dos estudantes: desde o fecho de espaços de estudo na faculdade à cobrança de taxas para a realização de exames de melhoria e de recurso. Foi precisamente neste último ponto que a ação da AEFCSH
se
focou.
Primeiro,
com
a
realização
de
um
comunicado
pela
defesa
da
gratuitidade dos exames, que tinha sido conquistada a título excecional no final do ano letivo anterior. E, em segundo lugar, com um apelo aos estudantes para enviarem um e-mail de protesto pelo fim da taxa dos exames à Direção da FCSH.
Sendo a temática da Saúde Mental muito importante, especialmente em tempos de pandemia, a AEFCSH organizou ainda mais uma sessão das “Jornadas de Saúde Mental”, em colaboração com os serviços de Psicologia, Inclusão e Igualdade (PsII+) da NOVA-FCSH. Desta
vez,
o
tema
abordado
pela
Dr.
Olga
foi
“Manter
a
Saúde
Psicológica”,
e
os
estudantes puderam receber dicas de como cuidar de si neste segundo confinamento e ver as suas dúvidas esclarecidas.
Por último, a AEFCSH lançou a “Cozinha-AEFCSH”, um espaço onde os estudantes poderão partilhar os seus dotes culinários (saudáveis, diga-se) através de fotografias ou vídeos, e dicas para combater o desperdício alimentar. Já conta com uma receita deliciosa de puré de maçã e está à espera de muitas mais.
fica atent@ às redes sociais da ae para não perderes nenhum evento! @aefcsh.unl
@aefcsh.nova
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NOTÍCIAS
novidades fcsh Questionário Curricular - 1º Semestre Até 5 de fevereiro, estará disponível o Questionário sobre as Unidades Curriculares de 1º Semestre, que podes realizar no Inforestudante, ou aceder a partir do site da faculdade. A tua opinião é fundamental para aferir o grau de satisfação dos estudantes e melhorar os processos de ensino, ajudando os docentes, a Comissão para a Avaliação do Ciclo de Estudos e o Conselho Pedagógico a identificar os pontos positivos e os aspetos que devem ser ajustados. Preenche-o e deixa saber o que mais gostas e o que mudavas na FCSH!
Bolsas Santander COVID-19 A NOVA-FCSH, em parceria com o Santander, iniciou um programa de apoio a estudantes de licenciatura e de mestrado cuja situação tenha sido gravemente afetada pela pandemia e que, por essa razão, considerem não dar continuidade aos seus estudos. Serão atribuídas bolsas para dívidas referentes ao ano letivo 2019/2020 e para pagamento de prestações das propinas do ano letivo 2021/21 - consulta os valores e datas consideradas no site da faculdade. O período de candidaturas tem início no dia 4 de janeiro e termina a 4 de fevereiro de 2021. As informações sobre os critérios de elegibilidade e seriação, os documentos necessários à candidatura e os procedimentos estão disponíveis na Intranet.
Catálogo de merchandise da AEFCSH O catálogo de merchandise da AEFCSH já está disponível! Podes adquirir t-shirts, sweats, hoodies, palhinhas reutilizáveis, tote bags, discos desmaquilhantes reutilizáveis, ecocinzeiros e muito mais! Consulta o catálogo nos destaques do Instagram da AEFCSH (@aefcsh.nova)!
Ideias com Nota 20 A 20/20 é uma galeria digital que junta e dá a conhecer ideias, trabalhos e obras de arte de alunos e antigos alunos da NOVA-FCSH. Se estás envolvido nalgum projeto e/ou criação artística que te cative, ou se conheces ideias e testemunhos que aches importante partilhar, podes enviar sugestões para 2020@fcsh.unl.pt. Entretanto, fica a conhecer a lista atual, em https://www.fcsh.unl.pt/20-20/!
Prémio Melhor Ideia de Negócio Focando-se em projetos de impacto social e ambiental, esta parceria entre a NOVA-FCSH e o Santander pretende ser um estímulo à criação de iniciativas de negócio no âmbito das Ciências Sociais, Artes e Humanidades, junto de estudantes, diplomados, docentes, funcionários ou investigadores da Faculdade. Estão abertas as candidaturas, individuais ou em grupo, até 31 de janeiro, e incentiva-se a multidisciplinaridade e a participação de alunos de outras unidades orgânicas da NOVA e até de pessoas de fora da Universidade. Para entrar, basta delinear uma ideia que depois será desenvolvida durante o programa de aceleração com o apoio de mentores da rede NOVA Mentor Network. Efetua a tua candidatura e consulta os documentos úteis no site da faculdade!
lembrete Sabias que foi a AEFCSH a colocar à venda, por um preço de estudante, copos menstruais na NOVA FCSH? Através da parceria com a MeLuna, disponibilizamos uma alternativa saudável, ecológica e segura!
falta alguma coisa? envia as tuas propostas informativas para a próxima edição!
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NOVA EM FOLHA
janeiro em resumo 6 JAN - INVASÃO DO CAPITÓLIO Enquanto o Senado dos EUA se reunia para confirmar a vitória eleitoral de Joe Biden, uma multidão de apoiantes de Donald Trump invadiu o edifício do Capitólio, ultrapassando com notável facilidade as barreiras de segurança. Após meses de recusa dos resultados e acusações de fraude, falseadas em todas as instâncias judiciais, por parte do incumbente e perdedor, este evento sagrou o estado debilitado em que a sua governação deixou a democracia americana. Os protestantes foram lentamente conduzidos para fora do recinto por polícias de choque e elementos da Guarda Nacional. Além dos estragos materiais que causaram, houve a registar 5 mortes e dezenas de feridos.
CRISE HUMANITÁRIA EM TIGRAY O conflito na região etíope de Tigray, que opõe forças governamentais e separatistas desde novembro, está na origem da mais recente movimentação forçada de refugiados no continente africano (cerca de 300 000 pessoas). Os jornalistas, tal como as organizações de ajuda humanitária, foram impedidos pelo governo de Abiy Ahmed de penetrar nas zonas norte da província, onde os combates continuam, sendo a carência de água potável, comida e equipamento médico cada vez mais preocupante.
EVOLUÇÃO DA PANDEMIA EM PORTUGAL
É conhecida a recente evolução da pandemia no nosso país, que nos catapultou para o topo das listas de novos casos e novas mortes por milhão de habitantes. Entre os fatores desse aumento, contam-se a entrada em Portugal das novas estirpes inglesa, brasileira e sul-africana do vírus, mais contagiosas. Esta situação tem levado ao esgotamento da capacidade instalada do SNS e à pressão na campanha de vacinação que se alarga agora aos doentes crónicos maiores de 50 anos. Prevê-se a possibilidade de “integrar” o setor privado e social na alçada do SNS e mesmo o envio de doentes portugueses para hospitais europeus sob menos pressão, caso nem os hospitais militares nem os de campanha consigam dar resposta à situação.
PANDEMIA E PESSOAS EM SITUAÇÃO DE SEM-ABRIGO A pandemia de COVID-19 trouxe à tona diferentes realidades sociais, exacerbando-as e tornando-as mais visíveis, em especial nas ruas das maiores cidades. Um dos exemplos é a questão da habitação, ou a falta dela. Segundo os dados da ENIPSSA (Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo), em quatro anos, o número de pessoas sem-abrigo aumentou 157% em Portugal - o segundo maior aumento na OCDE, apenas atrás da Islândia.
20 JAN - OS PRIMEIROS DIAS DE BIDEN A 20 de janeiro, Joe Biden tomou posse como o 46º presidente dos EUA. Logo nas primeiras horas no cargo, assinou 17 documentos. O regresso ao Acordo de Paris sobre o clima foi uma das suas primeiras decisões, bem como o uso obrigatório de máscara em todas as propriedades federais. Travou a saída dos Estados Unidos da OMS e escolheu Anthony Fauci para ser o chefe da delegação norte-americana. A nível ambiental e social, cancelou também o Gasoduto Keystone, que atravessaria os Estados Unidos de norte a sul. Dissolveu ainda a Comissão 1776, que promovia uma educação nacionalista nas escolas, glorificando os fundadores do país e omitindo conteúdos sobre a escravidão de vários povos. Salienta-se ainda o travão na construção do muro na fronteira com o México, o reforço da legislação DACA, que protege os direitos de menores ilegais nos EUA, e a extensão da suspensão de pagamentos de empréstimos universitários.
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23 JAN - PROTESTOS NA RÚSSIA No dia 23 de janeiro, iniciou-se uma onda de protestos por toda a Rússia contra a detenção de Alexei Navalny, preso desde o dia 17, depois de ser retido no aeroporto de Moscovo. O advogado é um dos principais opositores do governo de Vladimir Putin e tem vindo a denunciar esquemas de corrupção, nepotismo e elevadas transferências de dinheiro dentro do regime. Em agosto do ano passado, o mesmo foi vítima de uma tentativa de assassínio por envenenamento, que acredita ter sido planeada pelos serviços secretos russos. O Kremlin, no entanto, recusou todas as acusações. Os apoiantes de Navalny organizaram manifestações, apesar de serem proibidas, e conseguiram juntar dezenas de milhares de pessoas que lutam pela libertação do ativista. Já se registaram mais de 2500 detidos, entre eles a mulher de Navalny, bem como a sua advogada e porta-voz.
CRISES POLÍTICAS NA EUROPA O conflito na região etíope de Tigray, que opõe forças governamentais e separatistas Estónia: O primeiro-ministro, Juri Ratas, assumiu responsabilidade política por um escândalo envolvendo auxílios estatais de resposta à crise económica derivada da pandemia, demitindo-se. Sucedeu-lhe agora a liberal Kaja Kallas, primeira mulher a tomar posse no cargo. Itália: Após a retirada de apoio ao executivo de Giuseppe Conte por parte do partido Italia Viva do ex-primeiro-ministro Matteo Renzi, o líder do governo italiano decidiu, no dia 26, apresentar a sua demissão ao Presidente, Sergio Mattarella. Esta fratura no executivo teve também por base os fundos de apoio à crise. Conte aguarda agora que o Presidente entre de novo em conversações com os partidos com vista a formar uma nova coligação, de modo a evitar nova ida às urnas em plena pandemia. Holanda: O governo holandês, chefiado por Mark Rutte, de centro-direita, demitiu-se em bloco após um escândalo administrativo datado de 2014, em que diversos apoios foram prestados e posteriormente retirados a 26 mil famílias. Este resultou de regulações anti-fraude aplicadas de forma altamente estrita e prejudicou principalmente famílias de imigrantes.
REFUGIADOS SEM CONDIÇÕES PARA SUPORTAR O INVERNO Um relatório da Organização Mundial para as Migrações (ONU) relatou diversas situações na Europa de refugiados sem condições materiais para suportar as temperaturas de inverno, assim como falta de condições de higiene e proteção para a pandemia de COVID-19. A situação dos refugiados europeus tem se degradado progressivamente, especialmente depois do incêndio do Campo de Moria, que desalojou 13.000 refugiados na Ilha de Lesbos, Grécia. Apesar do relatório das Nações Unidas, não existem quaisquer declarações por parte de governos ou de órgãos institucionais sobre medidas para resolver os problemas de habitação, higiene e saúde pública nos campos de refugiados.
Fontes: The Guardian Foreign Policy The Washington Post The Moscow Times Público International Organization for Migration BBC United Nations Refugee Agency Deutsche Welle ENIPSSA UNHCR CNN Observador The New York Time
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NOTÍCIAS
EQUIPA DE FUTEBOL 11 DA AEFCSH ANDRÉ PORFÍRIO
Já conheces a equipa de Futebol 11 da AEFCSH? A contratação/renovação de jogadores abrirá no futuro, uma vez que de momento todos estamos “em pausa” devido à pandemia de COVID-19. De qualquer modo, podes verificar o horário dos treinos e planear uma adesão à equipa para daqui a uns tempos! Aqui podes ver imagens exclusivas do primeiro treino, que se realizou há algumas semanas, após oito meses de pausa devido à pandemia. Esta autêntica “luz ao fundo do túnel” prova que o desporto não se deixa travar tão facilmente. Ainda assim, todas as competições e treinos, quer da segunda divisão, à qual pertence a equipa da nossa faculdade, quer, inclusive, da primeira divisão do Campeonato Universitário de Lisboa, foram suspensas até ordem em contrário, por parte da Associação Desportiva do Ensino Superior em Lisboa (ADESL). Portanto, não sabemos quando é que o campeonato irá, eventualmente, começar... Entretanto, podes seguir a equipa de Futebol 11 no instagram (@futebol.aefcsh) e ficar a saber mais acerca do projeto, das competições passadas e dos planos para o futuro. Sente-te à vontade para lhes enviar mensagem por direct!
O primeiro treino em 8 meses
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OPINIÃO
A NOSSA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA EM TUNA UMA TARDE GRATIFICANTE LEONOR LOPES MARIA FERREIRA
Foi com muito empenho e entusiasmo que, no dia 7 de janeiro, quatro integrantes da Real Tuna Académica NeOlisipo se deslocaram à Baixa lisboeta para, de forma um pouco improvisada, cantarem as Janeiras e alegrarem alguns idosos que se encontram em condições de isolamento. Esta iniciativa partiu da Associação Mais Proximidade Melhor Vida, que, em parceria com o Voluntariado da Universidade Nova de Lisboa, nos convidou para o projeto. Com um ensaio de pouco mais de uma hora na faculdade nessa mesma tarde, foi possível aprendermos, com a ajuda de dois tunantes mais experientes que nós, as músicas que íamos apresentar – “Natal dos Simples” e “Ai Rapariga”. Apesar do pouco tempo que tivemos para ensaiar, partimos até à Mouraria, o local onde se encontravam os nossos ouvintes, com um “nervoso miudinho”, mas, ao mesmo tempo, confiantes. Lá, conhecemos a coordenadora do projeto que, muito gentilmente, nos explicou todo o processo. Este passaria por apresentar, em cinco casas diferentes, os nossos dotes musicais; nelas, estariam idosos prontos a receber um momento de carinho e animaçãoe nós, tunantes, prontos estávamos para os fazer sorrir e, quem sabe, cantar connosco. Temos uma história para atribuir a cada atuação, desde os vizinhos que nos vieram aplaudir à rua ou às janelas, até aos olhos emocionados de quem tanto tem para nos contar, destacando um momento muito especial, partilhado por uma senhora que, enquanto cantávamos, chorava, relembrando as saudades que tinha da família. É um enorme orgulho saber que em menos de dez minutos pudemos tornar o dia destas pessoas um bocadinho melhor e diferente da rotina. A verdade é que também elas nos fizeram ter um dia gratificante e preenchido, que ficará, sem dúvida, na nossa memória. Foi uma ótima primeira experiência, apesar de todas as limitações da pandemia que vivemos. Esperamos ter, assim que possível, outra atuação com a tuna, desta vez com todos os seus membros, para partilharmos mais momentos destes com outras pessoas, tornando os seus dias mais animados.
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OPINIÃO
DIA INTERNACIONAL EM MEMÓRIA DAS VÍTIMAS DO HOLOCAUSTO REFLEXÃO NUNO MATELA
27.1.45 Dois caminhos, uma Solução Final. Du(r)as vontades, uma só crença. É o fim da linha.De frente para o(s) caminho(s) que dolorosamente no(s) transporta(m) ao maior açougue da História, onde tudo é agonizante. O cheiro a carne humana queimada, o som de seres humanos fuzilados, a cor cinzenta dos rostos humilhados, o paladar amargo do ódio servido frio e forçosamente ingerido, o tacto ferido e ensanguentado de um trabalho vigoroso. O suor ácido que escorre no rosto humano do 'trabalho que liberta'. O silêncio mais profundo não consegue calar a multidão gritante e ensurdecedora, a voz humana que clama por Ti. (...) Expiração profunda. Engolir em seco o trabalho que não libertou. Porta de saída. (...) De volta àquele que foi o fim de uma linha tão longa, tão dolorosa, tão sangrenta, tão agonizante, tão ensurdecedora, tão amarga, tão suada, tão acutilante, tão dilacerante. A mais de todas. Tanto, tanto, tanto... No regresso, afigurava-se uma nova configuração daquele que outrora fora o fim de uma linha sem termo e que prolonga para a eternidade a memória que não tem ocaso. Os que entraram, 'abraçaram', forçosa e dolorosamente, 'o trabalho que liberta'. Que quem saia olhe a nova bifurcação e acolha em Si a coragem e a possibilidade de manter acesa, na tocha da memória, a chama da perpetuação.Pelos séculos dos séculos. 27.1.21, nos 76 Anos da Libertação do Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau.
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OPINIÃO
REDES SOCIAIS E A "DEMOCRACIA" DA INFORMAÇÃO GUILHERME MACHADO
A transição gradual da comunicação social e do discurso público do seio de grandes empresas de comunicação e órgãos estatais para os espaços relativamente livres e expressivos da internet tem tido efeitos profundos na forma como a nossa sociedade aborda a informação. Nos anos iniciais da internet, o engajamento com websites e forums, cada um com o seu desígnio específico e a sua própria temática e conjunto de interesses, fomentou uma abordagem à comunicação que deixou de ser unilateral - ou seja, puramente da fonte de informação para o espectador - para se tornar multilateral - em que a fonte de informação se baseia na escolha de contactar ou não com a conversa e engajar-se no discurso público. Qualquer um que tenha acesso à internet tem noção da suposta democracia de informação que a tecnologia trouxe à sociedade (o termo “democracia” é utilizado com imensas reticências, ressalvando-se problemas como a pobreza tecnológica e a exclusão digital), e da facilidade que qualquer um tem, especialmente com o fenómeno das redes sociais, em participar no processo de discussão pública. A tendência que se verifica é, portanto, a possibilidade de se construir um espaço seguro e excluído dos círculos de poder, onde a sociedade civil se pode organizar e partilhar informação fora da hegemonia dos poderes económicos e políticos. Ou, pelo menos, era esta a perspetiva nos dias de nascimento da internet. O cenário atual é muito diferente. E mais assustador. Para compreender a forma como o fenómeno atual das redes sociais e da comunicação online em geral são realidades que, no limite, significam a morte da dialética e a putrefação da democracia, temos de analisar os processos que decorrem por entre os gabinetes das grandes empresas de tecnologia: Google, Facebook e Twitter. A partir de um certo momento na história da internet, ocorre aquilo
aquilo que se pauta como o fim dos espaços de discussão e conversa online livres e independentes - a famosa democracia de informação - e a sua substituição por um fenómeno concebido por empresas como o Facebook: as redes sociais. No fundo, a rede social é a aglomeração de todos as formas de discurso e comunicação numa única plataforma. Assuntos que em tempos pertenciam a categorias e websites completamente inconciliáveis, como por exemplo Política e Cinema Italiano, coexistem, por fim, no mesmo espaço, pertencente à mesma empresa. A razão porque decorre este processo deve-se essencialmente ao crescimento acelerado do capital financeiro das grandes empresas tecnológicas, que se marca pela sua expansão e assimilação de diversos projetos, startups e pequenas empresas - estendendo o seu domínio (ou diria, monopólio) a todos os recantos da internet. A fórmula de sucesso financeiro são as redes sociais - são estes espaços que conseguem aliciar o mais simples usuário a experimentar a plataforma nem que seja uma vez, para no fim mantê-lo cativado por anos através da conveniente reunião, num único local, dos diversos assuntos que lhe interessam e discussões afiliadas. Entretanto, surge a questão dos anúncios. Seria interessante questionarmo-nos de que forma é que estas grandes empresas fazem o seu lucro. E a resposta (para além de manipulações duvidosas na bolsa de valores) está na venda de anúncios anúncios de tudo, e de todas as empresas, de qualquer produto. Na verdade, anúncios que possuem a capacidade de corresponder às mais particulares necessidades e caprichos do usuário. Toda a questão da privacidade dos utilizadores destas plataformas, que levaram Mark Zuckerberg a testemunhar inocentemente sobre as suas atividades no Congresso dos EUA, estava, em suma, relacionada com os anúncios. A única forma que
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que estas empresas têm de garantir o seu lucro é de juntarem perfis individuais para cada utilizador, que são depois utilizados para garantir que as empresas conseguem publicitar e comercializar os seus produtos de forma eficiente: se um serviço é gratuito, tu és o produto. Mas de que forma é que as redes sociais se relacionam com a questão das narrativas e do discurso público? Bem, é um facto que se estabeleceu nos últimos anos uma prevalência cada vez maior das redes sociais como ferramenta e fonte de uma boa parte do processo dialético da sociedade. Cada vez mais os perfis do Twitter e publicações no Instagram são capazes de influenciar políticas públicas, resultados de eleições e outros processos democráticos. O volume e o tráfego de informação, engajamento, comunicação e toda a forma de mensagens que transitam nas redes sociais consegue ser inacreditável. O mundo online torna-se num espelho da política e da economia do mundo através da sociedade civil - isto é, a partir da perspetiva e voz individual de cada utilizador. Como dito anteriormente, a venda de anúncios pelas empresas de comunicação aumenta progressivamente com o crescimento do contacto individual com a rede social. O utilizador é constantemente motivado a interagir, a partilhar e a participar de todas as maneiras possíveis nas conversas que lhe chegam de todos os lados nas redes sociais - e isto tem um efeito monumental na forma das mensagens e da informação. Quando a quantidade de informação e de engajamento se torna mais importante para o modus operandi das redes sociais do que propriamente a qualidade, a “embalagem” da informação torna-se superior e mais importante que o seu conteúdo. Ou seja, decorre a transição do valor intrínseco da ideia transmitida para a forma como esta é apresentada - torna-se mais fulcral captar a atenção do utilizador e garantir que este permanece ligado à plataforma do que fornecer conteúdo de qualidade. Este fenómeno tem diversas materializações por toda a internet: no Youtube, o famoso clickbait e, nos grupos de Whatsapp, as famosas fake news, capazes de sustentar governos e campanhas políticas.
OPINIÃO
Esta forma de existência das redes sociais ganha uma importância nova na política mundial quando ocorre uma aliança entre aquelas (ou pelo menos, a sua forma de engajar o público) com diferentes projetos políticos e sociais, normalmente ligados à extrema-direita. Não é surpresa nenhuma que as redes sociais sejam o principal local de transmissão de retórica extremista, populista e demagógica. A razão para a existência de uma plataforma de construção de narrativas de extrema-direita tão eficaz deve-se essencialmente ao facto de estes movimentos políticos, e em especial, as personagens que os representam, surgirem de meios afastados do poder institucional e, portanto, possuírem toda a liberdade para explorar com maior eficácia os meios alternativos de comunicação. No contexto das eleições presidenciais portuguesas, por exemplo, André Ventura foi capaz de mobilizar meio milhão de eleitores com a sua retórica “anti-sistema” a partir de um uso inteligente das redes sociais. Jair Bolsonaro, atual presidente do Brasil, elegeu-se para o mais alto cargo da nação como um completo pária dos media institucionais, recorrendo a mensagens em cadeia no Whatsapp e perfis online ao seu serviço. A questão essencial aqui não é discernir sobre os motivos socioeconómicos ou toda a atmosfera política que potenciam a ascensão de movimentos demagógicos por natureza e cuja filosofia é a subversão e a intolerância, mas sim compreender de que forma é que
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que estes são capazes de utilizar o formato da informação nas redes sociais de modo a construir as suas narrativas. A perspetiva da anti-imigração, por exemplo, é uma questão que pode facilmente ser distorcida para construir uma retórica de ódio e preconceito face a comunidades de imigrantes normalmente através da cultura do medo do terrorismo e da criminalidade -, de modo a fazer esquecer os problemas estruturais que impedem a integração plena destas pessoas. O mesmo acontece com a famosa narrativa da extremadireita (que neste momento se pode considerar como reação direta ao ativismo LGBT+) acerca da “ideologia de género”: é dito que existe uma conspiração globalista para doutrinar a juventude com o marxismo e com os “estilos de vida” LGBT+, de modo a destruir a família tradicional. Ambos estes exemplos são a evidência concreta do quão eficaz é para movimentos políticos distorcerem completamente a realidade de uma forma que interaja com as emoções mais profundas do utilizador e garanta o seu engajamento. É muito importante para a retórica de extrema-direita na internet que as emoções individuais do usuário - o medo, a incerteza, o aborrecimento, a frustração sejam canalizados de forma a revesti-lo e incluí-lo em narrativas, por mais que estas estejam afastadas da realidade. Nas redes sociais, a participação constante de diversos utilizadores e o formato cativante da informação são capazes de construir uma espécie de realidade alternativa que reside puramente nos recantos virtuais. A aliança acidental entre algoritmos das redes sociais e movimentos fascistas já foi notada pelas próprias empresas,
OPINIÃO
empresas, que agora se esforçam por conceber “normas de utilização” para “moderar o discurso”. Mas infelizmente, banir a conta do Donald Trump no Twitter não reverte os efeitos que a comunicação desenfreada, esquizofrénica e irrealista das redes sociais implantou em todo o processo de discurso público e de partilha de informação - tal é o nível desta transformação que as próprias agências de notícias institucionais adotam cada vez mais as táticas de engajamento das redes sociais. O que ocorre, em essência, é que quando a discussão pública se processa nas redes sociais, são os movimentos de extrema-direita que conseguemdominar e controlar a narrativa, atraindo um número cada vez maior de pessoas e usuários frustrados com a crise económica, social e cultural que de momento assola a democracia liberal. A ascensão destes movimentos e a sua relação com o universo das redes sociais pode servir como exemplo das consequências do que é, no fundo, o afastamento institucional da sociedade civil dos círculos de poder. É necessário que, como sociedade, haja uma reconfiguração e discussão sobre o verdadeiro significado de democracia e sobre as formas de participação civil na política e na gestão do meio. A verdade é que impedir as comunidades de se organizarem mutuamente com base na cooperação, de modo a instituir uma cultura individualista e atomizante, leva à frustração e desilusão do indivíduo, cujo único escape é de facto a internet: um espaço onde a expressão individual é bem-vinda, mas sujeita a narrativas e interesses alheios à participação democrática e plena na sociedade.
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OPINIÃO
JACINDA ARDERN, A LÍDER DE QUE O MUNDO PRECISA RICARDO CRUZ REIS
Em outubro de 2020, enquanto por todo o mundo se dava destaque à hostilidade existente nos debates entre os dois principais candidatos à presidência dos Estados Unidos, na Nova Zelândia os debates entre a Primeira-Ministra Jacinda Ardern e a Líder da Oposição Judith Collins foram caracterizados por um clima cordial e até de troca de elogios, o que pode fazer da Nova Zelândia um “antídoto contra o populismo”. Neste artigo, vamos discorrer sobre como tem sido o percurso de Ardern como Primeira-Ministra e a popularidade que tem conquistado, tanto na Nova Zelândia como no estrangeiro. Eleita líder do Partido Trabalhista a apenas sete semanas das eleições legislativas, Jacinda Ardern conquistou os neozelandeses com a sua energia, informalidade, inteligência e carisma, conseguindo o segundo lugar nas legislativas de setembro de 2017. Alcançou para o seu partido um dos melhores resultados em 12 anos (36,9%), aumentando o número de deputados (de 32 para 46) e impedindo a hecatombe a que estava fadado (antes de ser eleita líder, os trabalhistas detinham apenas 24% das intenções de voto). Apesar do segundo lugar, Ardern, aproveitando o facto de o partido vencedor (Partido Nacional) não ter conquistado a maioria absoluta, coligou-se com os populistas do NZ First, com o apoio parlamentar dos Verdes. Assim, foi empossada Primeira-Ministra. Alguns meses após tomar posse como Primeira-Ministra, ganhou destaque ao tornar-se a segunda chefe de governo grávida em funções (a primeira foi Benazir Bhutto, em 1990) e ao levar a sua filha à Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro de 2018. No discurso feito na Assembleia Geral, defendeu o multilateralismo, o carácter bondoso da Nova Zelândia e o combate às alterações climáticas, contrastando com o discurso cheio de chauvinismo e hostilidade feito pelo então Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no dia anterior. Mas foi no seu segundo ano como chefe de governo, a 15 de março de 2019, após os Atentados de Christchurch, que Ardern começou a assumir-se como uma protagonista na arena internacional lançando, em maio, a cimeira "Apelo por Christchurch" de combate ao terrorismo cibernético, reunindo mais de 30 países (entre eles Portugal) e gigantes da tecnologia como o Facebook e a Amazon. Também ficou marcado a visita feita pela Primeira-Ministra a Phillipstown, Christchurch, envergando um traje tradicional muçulmano e a legislação pelo controlo de armas. No seu terceiro ano de mandato, em março de 2020, Jacinda Ardern decretou o confinamento e o fecho de fronteiras para conter a pandemia COVID-19. A tomada de medidas rápidas e eficazes e a proximidade que manteve com os neozelandeses através das redes sociais fizeram com que, mais uma vez, Ardern fosse notícia como um exemplo bem-sucedido no controlo à pandemia. Com uma projeção internacional da Nova Zelândia a uma escala nunca antes vista e um maior investimento no estado de bem estar, Jacinda Ardern levou o seu Partido Trabalhista a uma histórica vitória em outubro de 2020, conquistando a maioria absoluta (50% dos votos e 65 deputados em 120) e fazendo com que o seu parceiro de governo, o NZ First, perdesse representação parlamentar. Em novembro, apesar da maioria absoluta, Jacinda Ardern resolveu renovar o acordo parlamentar com os Verdes, garantindo um governo maioritário para os próximos três anos. Para além das suas críticas aos populismos emergentes, Jacinda Ardern tem, também, denunciado as violações aos direitos humanos às minorias étnicas da China e aos Rohingya, em Myanmar e apoiado o multilateralismo no combate às alterações climáticas e ao terrorismo. Em suma, o estilo de liderança de Jacinda Ardern tem demonstrado que o populismo tem uma adversária à altura.
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O Conforto de Votar Marcelo FRANCISCO SOUSA NUNES
Dois-mil-e-vinte-e-um pede Marcelo. O Presidente dos afetos caminha tranquilamente para a reeleição, ainda que, em contraste com as excentricidades com que preencheu os finais do milénio transato, se afigure hoje de modo mais simples e comedido. Até ver, dispensamse mergulhos entre tágides camonianas ou um serviço próprio de car-sharing. Ao estilo de 2016, Marcelo Rebelo de Sousa apresenta-se com uma das candidaturas mais modestas em termos de despesas, atrás de João Ferreira, André Ventura, Ana Gomes e até do sujeito liberal cujo nome olvidamos frequentemente. A razão para tal não é menos óbvia que a sua vitória. O apreço pelo atual Presidente beneficia de uma consensualidade tamanha no seio da sociedade portuguesa, que mesmo os opositores que se lançaram para cumprir calendário partidário se veem impotentes na hora da crítica. A crença de que este elevado grau de consenso resulta de um défice democrático pouco convence, visto que este constitui inclusivamente um vestígio de tempos mais tolerantes (e toleráveis). Ainda assim, não nos devemos guiar pelo hábito e familiaridade no momento de escolher quem presidirá à República, colocando de parte o devido escrutínio. As críticas a Marcelo incidem pouco sobre a substância e muito mais sobe o estilo, o que por si só não deixa de ser revelador. E por isso os ataques ao excessivo afeto e presença mediática se tornam tão insignificantes quanto o próprio carinho presidencial. A maior proximidade do incumbente representou a antítese do estilo do antecessor, descrito de forma exímia por Ana Gomes, não fosse esta também candidata à Presidência da República. Toda esta afetividade acabou por ter por ponto baixo as célebres instâncias em que um ou outro mamilo foram apanhados a descoberto, situação que revolta apenas quando não tem lugar em local próprio, como a mais digna baía de Cascais. O excessivo grau de carinho não é somente apontado quando se dirige ao povo, mas também quando o seu recetor se trata de António Costa e do governo socialista. Facto pouco relevante para o eleitorado do PS, que esmagadoramente optará por Marcelo, e aparentemente também de pouca significância para os habitués sociais-democratas. Órfã de liderança há quase meia década, sobeja apenas à direita imputar a sobrevivência da Geringonça num candidato fundador do seu campo ideológico em Democracia. Resta-nos relembrar
relembrar que Marcelo vetou quase tantos diplomas num mandato quanto Cavaco Silva em dois, sendo que o ex-Presidente coabitou com José Sócrates num deles. Assim, o principal trunfo de Marcelo é a estabilidade. Perante a atual crise económica e social, que não se quer também política, apenas o atual Presidente dá garantias de que a o cargo se mantém um reduto de moderação e sensatez. Até mesmo quando é exaustivamente reclamada a falta de atuação, Marcelo está em regra a respeitar as competências e autonomia dos órgãos com responsabilidades nas devidas matérias. É esse o exercício e a interpretação correta da sua função de moderador, no respeito pelos limites ao poder e influência legítimos do Presidente. A virtude de um Presidente da República assenta na capacidade de entender o tempo e o espaço para exercer a sua magistratura de influência, evitando ao máximo criar atritos ou conflitos jurisdicionais. Visto que este discurso panegírico ainda não me valeu qualquer cargo na Casa Civil, é-me possível para já identificar os momentos em que efetivamente a prestação de Marcelo pecou por contenção, como no recente caso do cidadão ucraniano assassinado às mãos de três agentes do SEF. O mesmo pode ser reconhecido, apesar de valorizar o facto de Marcelo se ater às competências presidenciais, em relação à sua conivência automática perante determinadas nomeações para cargos públicos, de que são exemplo as farsescas eleições para as CCDR’s (Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional), ou a total carência de nojo na transição de Centeno do Ministério das Finanças para o Banco de Portugal. Apesar de tudo, quando vivemos tempos em que trocámos a valorização da experiência e da cooperação por trincheiras e bolhas informáticas, consola poder eleger um candidato apreciado brandamente pelas massas, e não qualquer outro que provoque uma irrupção eufórica, cega e divisionista. Marcelo sobressai como prova de que a decência pode subsistir nas instituições, e pouco depende do uso ou não da câmara frontal na hora da foto. Enquanto isso, os seus principais adversários oferecem uma alternativa de mundo pós-verdade que, bem ou mal intencionada, em nada contribui para ultrapassar o momento fraturante e de crise que atravessamos. Que todas as fake news fossem sobre vichyssoise…
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Quem Defende os Nossos Valores? MANUEL GRADE PINTO
A sobrevivência é a função mais elementar de qualquer comunidade política, que em última análise é definida pela capacidade de resistir fisicamente às agressões dos seus vizinhos. São vários os episódios históricos que evidenciam a importância deste princípio basilar. Em Portugal, nas últimas décadas, a Revolução do 25 de Abril e a adesão à União Europeia (UE), constituíram momentos-chave na definição da nossa política de defesa, a qual se tem orientado no sentido de reajustar as Forças Armadas (FA) às sucessivas alterações das necessidades da defesa. Se no período final do Estado Novo estas estavam centradas na Guerra Colonial e no aprontamento de massas infindáveis de soldados rasos para servirem no Ultramar, os anos 90 trouxeram um enquadramento inédito. A implosão da União Soviética (URSS) catapultou os Estados Unidos para a posição de potência hegemónica indisputável, pelo que o papel das forças armadas converteu-se na integração de exrepúblicas soviéticas na NATO e no apoio aos Estados Unidos no seu papel de “polícia mundial”, à época tido como benigno. Este estado de coisas em muito se deveu às teorias kantianas de paz democrática e à ideia de Francis Fukuyama do fim da história pela “vitória” do modelo democrático liberal. Os efeitos práticos desta conjuntura foram o fim do Serviço Militar Obrigatório (SMO) e a perceção, mais ou menos generalizada, da segurança da nossa existência enquanto país. O século XXI, no entanto, ficou desde logo marcado pela materialização da oposição à hegemonia norte-americana através dos ataques de 11 de Setembro de 2001. Estes deitaram por terra qualquer noção de “fim da história” e de “paz democrática”, pelo menos, num mundo em que apenas cerca de metade dos países eram democráticos. Assim, este choque com a década anterior deveria ter sido suficiente para forçar uma análise compreensiva do papel das instituições militares no mundo moderno. Porém, essa reflexão não se teve e o SMO foi substituído definitivamente pelo serviço voluntário em 2004, com o qual atravessámos a crise económica global, a ocupação da Crimeia pela Rússia, a crise de refugiados de 2015 e agora a crise pandémica. Acontecimentos estes acompanhados por tendências de aumento relativo do poder russo, chinês e iraniano.
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Parece-me que o abandono do SMO em 2004, sem uma ponderação profunda sobre o sistema a substituí-lo, foi um erro. Não quero, com isto, instar à conscrição obrigatória e universal, nem a uma “consolidação” do Dia de Defesa Nacional (DDN). Defendo antes um maior investimento no material e treino das nossas unidades especiais, por oposição ao grande número de efetivos gerados por modelos universalizantes. Penso também que os deveres militares dos portugueses deveriam ser flexibilizados, promovendo-se outros modelos de convocatória, e diversificados, abordando outras áreas do serviço ao país, que não a militar. Isto é, reconheço que o SMO pode não ser a melhor solução para a nossa realidade, mas penso que as mais-valias que este trazia para a nossa defesa (grandes números de efetivos) devem ser substituídas com um maior investimento e especialização das forças profissionais, a ser acompanhadas pelas referidas atualizações do DDN. Todavia, a minha maior preocupação recai sobre o crescente número de portugueses que tomam a existência nacional e, pior ainda, os valores patentes na nossa ordem jurídica liberal, por garantidos. Na Suécia, por exemplo, o SMO foi recuperado em resposta à crescente ambição russa no leste europeu e ao perigo que esta representa. Assim, mais que urgir à recuperação do SMO em Portugal ou querer reivindicar a reformulação do DDN, procuro principalmente relembrar os leitores que a nossa ordem jurídica liberal, construída sobre os escombros da carnificina que foi a Segunda Guerra Mundial, não pode ser vista como inalterável, invulnerável, inviolável nem em expansão infinita. Tal ordem produziu um ambiente seguro, fruto do qual muitos jovens aderiram a uma retórica de desvalorização dos deveres militares. Esta, colide com o ideal duma cidadania responsável, ciente da cena internacional e em particular da necessidade permanente de defesa da ordem liberal europeia, que tanto nos custou a edificar. Em suma, a UE enquanto comunidade política (e ordem jurídica aberta, inclusiva e solidária) composta por vários estados-membros independentes, mas comprometidos na sua segurança comum tem que ser capaz de se defender de ameaças externas e pressões de ordens iliberais. A proteção dos nossos amplos direitos sociais, dos quais é originária a retórica relativa aos deveres militares por parte dos jovens, é um alvo em constante movimento que precisa dos recursos militares necessários e em particular da consciência generalizada de que os nossos deveres são o último reduto do Estado Social interventivo, aberto e inclusivo. A manutenção de um mindset direcionado para a constante redução dos deveres no contexto atual já referido é, no mínimo, irresponsável, e deve ser contrariada se queremos uma sociedade europeia capaz de se defender de ameaças, pressões e crises futuras. Por agora, apenas alguns países europeus (aos quais se juntou recentemente a Suécia) como a Alemanha, a França, a Holanda e os países bálticos, aperceberam-se deste equilíbrio necessário entre deveres e direitos para a longevidade do projeto europeu.
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DEMOCRACIA NA AMÉRICA? RICARDO CRUZ REIS
No passado dia 6 de janeiro, o mundo assistiu chocado à tentativa de golpe de Estado popular nos Estados Unidos, semeada pelo então ainda Presidente Donald Trump. A dissidência materializou-se com a invasão do Capitólio por apoiantes do Presidente Trump. Qual Luís Bonaparte que, estando no final do seu mandato como Presidente da República Francesa, em 1851, ensaiou um “auto-golpe de Estado”, dissolveu a Assembleia Nacional e plebiscitou a implantação da sua ditadura, bem como a elaboração de uma nova constituição, que restaurou o Império bonapartista na sua pessoa. Mas será que o clima de polarização da sociedade norteamericana vem de agora? Será que está relacionado com a malformação do sistema de governo e da constituição? Aquilo que temos visto desde a vitória de Biden não é a inovadora e florescente Democracia da América. É a atitude de um Presidente, à boa maneira de Nicolas Maduro e Recep Tayyip Erdoğan, segundo a qual tudo é fraudulento se não for a seu favor. Quando a sua vontade não é cumprida a bem, é cumprida a mal e a todo o custo. O ataque ao Capitólio e a ameaça ao Secretário de Estado da Geórgia, por parte de Donald Trump mostram isso mesmo. Para uma Democracia poder funcionar plenamente necessita dos seguintes elementos: 1. Eleições livres e justas, reconhecidas pela comunidade internacional; 2. Respeito pelas regras do jogo democrático; 3. Separação e interdependência de poderes; 4. Sistema multipartidário; 5. Comunicação social isenta, ou o menos parcial possível; 6. E, o mais importante de tudo, apoio popular generalizado. Estarão estes elementos imunes ao populismo?
Eleições livres e justas, reconhecidas pela comunidade internacional
Em termos de transparência eleitoral, apesar de serem reconhecidas como seguras pela comunidade internacional, a verdade é que, nas últimas duas eleições presidenciais (2016 e 2020) foram levantadas várias suspeitas de fraude, como a alegada interferência russa em 2016, os “votos ilegais” e a já referida ameaça ao Secretário
referida ameaça ao Secretário de Estado da Geórgia por parte do Presidente, em 2020. Já antes, em 2000, as dificuldades no registo de cidadãos negros na Flórida e o fim da recontagem dos votos nesse estado deram que falar. Verdadeiras ou não, só o facto de serem levantadas suspeitas de fraude eleitoral revela uma preocupante descrença nas autoridades eleitorais e no próprio funcionamento da Democracia.
Respeito pelas regras do jogo democrático
Apesar das várias emendas, a verdade é que a constituição norte-americana está demasiado ultrapassada e ainda vive numa mentalidade do século XVIII. No entanto, o problema não está na constituição, mas no seu sistema de governo presidencialista, com os poderes executivo e legislativo com legitimidade própria e igualmente poderosos, e no seu sistema eleitoral maioritário uninominal. Com esta arquitetura das instituições, vemos que, se o Presidente não tem maioria no Senado, podem ser bloqueadas nomeações, por exemplo, para o Supremo Tribunal de Justiça, como veremos mais adiante. Por outro lado, se o Presidente não tem maioria na Câmara dos Representantes, podem ser apresentadas pelo Speaker da Câmara (que age como um lider da oposição de facto) propostas contrárias às do Presidente. Um bom exemplo disso foi a relação entre Bill Clinton e Newt Gingrich, em matéria de reforma do estado-social e reforma fiscal; e entre Donald Trump e Nancy Pelosi, sobre política externa e combate à pandemia. Se, ainda, a Câmara dos Representantes e o Senado tiverem maiorias diferentes, muita da legislação aprovada na Câmara, pode ser chumbada pelo Senado. Os melhores exemplos atuais são o Equality Act de 2019, que proíbe a discriminação com base na orientação sexual e identidade de género e os dois impeachments a Trump. As maiorias contrárias também podem levar à banalização do processo de destituição do Presidente. Actualmente, o impeachment deixou de ser um mecanismo de responsabilização criminal e passou a funcionar como uma mera moção de censura, à boa maneira dos países parlamentaristas, como podemos ver pelos dois processos a Trump e a tentativa de impeachment a Joe Biden, cerca de trinta horas após tomar posse, pelos negócios do filho Hunter com a China e
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tomar posse, pelos negócios do filho Hunter com a China e a Rússia enquanto o pai era Vice-Presidente. Algo diferente acontece nas repúblicas semipresidenciais e nos países parlamentares,pois aí existe um governo que necessita do apoio maioritário do Parlamento e, mesmo que muito fragmentado, os governos são estáveis e duradouros, como podemos ver em países como a Alemanha, os Países Baixos, a Finlândia e, num maior grau, na Bélgica. No entanto, isso não impede a existência de alianças informais entre partidos, que concorrem entre si, como existe, por exemplo, na Noruega ou na Suécia, em que, no caso de vitória dos partidos de esquerda ou de direita, o partido maioritário é convidado a formar governo e os restantes, ou se juntam ao governo, ou providenciam apoio parlamentar. Contudo, na eminência do crescimento dos populismos, as alianças ideológicas podem ser quebradas, como aconteceu na Suécia em 2019 quando, face ao crescimento dos populistas Democratas Suecos e a impossibilidade das alianças formarem governos maioritários, os Liberais e os centristas agrários surpreenderam ao romper com a aliança de direita e anunciando apoio parlamentar ao governo de esquerda, para evitar a subida dos populistas ao poder.
Separação e interdependência de poderes
Para além disso, o facto do poder executivo ser investido numa única pessoa, nos EUA (os secretários exercem o poder delegado), faz com que um cargo que deveria projetar a unidade nacional, sirva para a destruir. Desde os atentados de 11 de setembro de 2001 que não existe um verdadeiro apoio bipartidário ao Presidente, representando o poder executivo e poder legislativo maiorias opostas.
Sistema Multipartidário
Acrescentando a tudo isto, o sistema bipartidário e o seu sistema eleitoral maioritário uninominal fazem com que haja uma polarização mais forte do que em países multipartidários, pois a conquista dos partidos do sistema por parte de outsiders (Trump no Partido Republicano e Bernie Sanders no Partido Democrata), faz com que todo o sistema seja questionado, e não reformado, como seria desejável. O sistema eleitoral maioritário, devido ao facto de permitir que apenas uma pessoa represente o seu círculo eleitoral, faz com que a escolha dos eleitores esteja condicionada entre os candidatos à esquerda e à direita do centro, deixando os outros partidos como o Partido Libertário e o Partido Verde com pouca relevância eleitoral, pois os apoiantes do primeiro tendem a votar taticamente no Partido Republicano e os segundos no Partido Democrata.
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Isto faz também com que membros de outras organizações, como Alexandria Ocasio-Cortez, membro do Socialistas Democráticos da América, ou Bernie Sanders, afiliado ao Partido Progressista de Vermont, tendam a concorrer pelos partidos do sistema (no caso dos dois, pelo Partido Democrata), com o objetivo de influenciarem os mesmos. Tal como Alexandria OcasioCortez chegou a admitir, se os Estados Unidos fossem outro país, muito provavelmente que Ocasio-Cortez e Joe Biden seriam de partidos diferentes, assim como, por exemplo, Donald Trump e George W. Bush. Provavelmente, Ocasio-Cortez seria membro de um partido de esquerda progressista como o LIVRE, ou populista como o Podemos; Biden de um partido de centro-direita como o PSD ou o Ciudadanos; Trump de um partido populista de direita como o CHEGA ou o Vox e Bush de um partido conservador de direita como a CDU alemã. Este exercício reforça que, num sistema multipartidário, é muito mais fácil conter os avanços populistas pois estes estão devidamente localizados num partido próprio, e não dispersos num grande partido. Em Portugal, a fundação do CHEGA veio a demonstrar isso mesmo, com vários ex-membros do PSD e do CDS-PP a apoiarem e a aderirem a este partido. Mesmo que estes países tenham chefes de Estado com poderes meramente formais ou pouco extensivos, estes servem melhor do que ninguém aquela que deve ser a sua função principal: serem o espírito da nação, como já dizia Charles de Gaulle, pois não dispõem de poderes divisivos. Mas se o problema fosse só este, estaríamos melhor, pois, para além disto, ainda existe um mecanismo legal de fraude eleitoral (o gerrymandering) e a falta de transparência no financiamento privado das campanhas. O gerrymandering é uma prática que consiste no desenho dos círculos eleitorais pelas autoridades estaduais de maneira a beneficiar ou a prejudicar um partido. Por exemplo, o Estado A elege 12 congressistas para a Câmara dos Representantes, por isso, o Estado vai desenhar 12 círculos eleitorais. O Governador do Estado é membro do Partido X e o Partido Y elegeu 8 dos 12 lugares a voto nas eleições anteriores. Para beneficiar o seu partido vai, tendo em conta os censos e os resultados da última eleição, redesenhar os círculos com o objetivo de isolar os eleitores do Partido Y ao mínimo de círculos possível e simultaneamente “espalhar” os círculos que tendem a votar X para que o seu partido tenha o maior número de congressistas eleitos possível. Isso faz com que o Partido X eleja 10 dos 12 lugares, mesmo que só tenha tido 40% nas eleições, relegando o Y para apenas 2 lugares, mesmo que tenha tido 60% nas eleições. Os melhores exemplos são o 4.º distrito congressional de Illinois, redesenhado para isolar a comunidade
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Illinois, redesenhado para isolar a comunidade hispânica tendencialmente democrata, e o 3.º distrito congressional de Maryland, para favorecer o Partido Democrata. No que toca à falta de transparência no financiamento privado das campanhas, apesar de haver um limite máximo de 2800 dólares individuais, o problema está relacionado com o ainda poderoso lobby das grandes empresas financeiras e industriais. Um bom exemplo é o líder republicano no Senado, Mitch McConnell, ferrenho opositor do Acordo de Paris, que terá recebido, desde 2012, mais de 1,5 milhão de dólares da indústria petrolífera e de gás, de acordo com o The Guardian. Contudo, as campanhas de Bernie Sanders e de Kamala Harris, financiadas exclusivamente por pequenas contribuições individuais, mostram que ainda há esperança na eleição de políticos descomprometidos com os grandes interesses económicos e financeiros. Adicionalmente, a composição do Supremo Tribunal de Justiça, com 9 membros, nomeados vitaliciamente, é outra razão para a desadequação da constituição norte-americana nos dias de hoje, pois, como pudemos constatar durante a presidência de Trump, a composição é extremamente partidarizada (6 republicanos contra 3 democratas). Para além disso, ainda se acrescenta o facto do líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, ter permitido a nomeação de Amy Coney Barrett a mês e meio das presidenciais e proibido a de Merrick Garland, em 2016, a nove meses das eleições. A nomeação de juízes relativamente novos (com 50 anos ou menos) fará com que estes exerçam uma enorme influência na política norte-americana durante os próximos, pelo menos, 30 anos, pois ainda existem juízes que foram nomeados por George H. W. Bush (Clarence Thomas nomeado em 1991) e Bill Clinton (Stephen Breyer nomeado em 1994). Essa influência pode ir desde os direitos LGBT+ até à imigração, passando pelo aborto e pelo sistema de saúde. Também existe o facto do colégio eleitoral ter uma sobrerepresentação dos estados mais rurais, tendencialmente republicanos, o que faz com que o vencedor do voto popular não seja o mesmo do colégio eleitoral. Testemunhá-mo-lo em 2000, quando Al Gore (democrata) ganhou cerca de 500 000 votos populares a mais do que George W. Bush (republicano), mas com a vitória a ir para o último (271 votos do colégio eleitoral contra 266 de Gore). O mesmo se sucedeu em 2016, quando Hillary Clinton (democrata) ganhou cerca de de 3 milhões de votos populares a mais do que Donald Trump (republicano), mas com a vitória a ir para o último (304 votos do colégio eleitoral contra 227). Já em 1824, 1876 e 1888 tal tinha acontecido.
Comunicação social isenta, ou o menos parcial possível
Analisando a comunicação social, vemos uma partidarização bastante preocupante, com uma Fox News declaradamente republicana e conservadora, a casa dos media de direita, e uma CNN liberal e progressista. Aqui, o problema não é o apoio de um meio de comunicação social a uma ideologia ou a um partido, pois tal existe, por exemplo, no Reino Unido, nomeadamente no apoio de jornais a determinados partidos; o problema é a dimensão desse apoio. Sendo
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Sendo ainda a televisão o mais importante meio de comunicação de massas, o facto de nós termos programas e jornalistas que, frontalmente, afirmam ser contra uma ideologia, mostram parcialidade (criticaram ferozmente os protestos George Floyd, mas mostraram compreensão perante os invasores do Capitólio) e atacam opositores políticos, revela uma violação grave dos princípios mais básicos do jornalismo, como a imparcialidade. Até os artistas são partidarizados. Como só há um grande partido à esquerda do centro e um grande partido à direita do centro, os artistas tendem a apoiar e/ou a identificarem-se como democratas ou republicanos. Bons exemplos disso são Arnold Schwarzenegger e Clint Eastwood, ambos republicanos, e Meryl Streep e Oprah Winfrey, ambas democratas, provocando uma partidarização até na cultura.
Apoio popular generalizado
Por fim e, possivelmente, mais importante, para uma democracia funcionar necessita de um apoio popular generalizado às instituições democráticas. Como nós vimos acima, a competição entre poderes, o financiamento privado das campanhas eleitorais e o bipartidarismo institucionalizado fazem com que qualquer pessoa possa ascender à mais alta magistratura da Nação, seja alguém com uma carreira política consolidada, seja um outsider egocêntrico com um projeto autoritário de exercício do poder. Desde que tenham um dos maiores partidos ao seu dispor e o apoio de grandes empresários, o céu é o limite, já a Democracia… As acusações de fraude eleitoral e a invasão do Capitólio demonstram que, apesar de representarem apenas uma parte da população, o apoio não só às instituições como à própria Democracia está a ser questionado, e isso é muito perigoso, bem como uma porta de entrada para a subida dos populismos (de direita e de esquerda) ao poder. Apesar de, em setembro de 2019, no Reino Unido, termos visto o primeiro-ministro Boris Johnson a suspender o Parlamento britânico para lidar com o Brexit, nós vimos amplas manifestações populares contra essa suspensão, mostrando que, mesmo quando há um descrédito das instituições democráticas, não há um descrédito da própria Democracia, e só aí se vê a sua vitalidade. Quarta-feira, 20 de janeiro de 2021, Trump deixou a presidência com um país dividido praticamente ao meio, 73 pessoas perdoadas nos últimos dias (incluindo o seu antigo estratega Steve Bannon, às contas com a justiça) e dois impeachments. Em suma, o mandato de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos não foi apenas um fenómeno passageiro, foi um teste às fragilidades e contradições da constituição americana e o agudizar das desigualdades que vão influenciar toda uma geração. Acabou Trump, por agora, mas o trumpismo ainda mal começou.
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CRÓNICAS
Amar, um Acto Político JOÃO PINHO
No século XX os planos do amor e da política eram inseparáveis – de inúmeras relações amorosas, umas reforçavam os valores conservadores da família e de uma relação desigual, enquanto outras, tanto no conteúdo como na forma, iam precisamente contra as correntes sociais que as sufocavam. Se assim era, poderíamos pensar que, tendo em conta os inúmeros direitos que foram conquistados entretanto, seria possível discutir, actualmente, o amor independente de qualquer análise política. No entanto, não acredito que seja o caso. Tal seria considerar que chegámos, no nosso caminho como comunidade, a um ponto de equilíbrio, assente num tempo e numa sociedade imutáveis. Partindo de uma perspectiva política, acredito que ainda não tomámos consciência, como colectivo, de um aspecto fundamental do tempo presente. Quando alguém diz que não quer ter filhos, tem essa posição no contexto actual: como cidadão de um mundo global e numa sociedade cada vez mais progressista que dá espaço à mulher para controlar o tempo e o esforço do seu corpo. Quando alguém se questiona o que é o amor, deve tomar consciência de que a sua reflexão tem de tomar outros moldes: “o que é amar no século XXI?”. Naturalmente, não tenho as respostas (nem pretendo dá-las), mas existem cada vez mais fatores que me levam a acreditar , tomando consciência das desigualdades sociais e económicas existentes a uma dezena de passos de onde me encontro a escrever esta reflexão, que o acto de amar implica um conjunto de tomadas de posições políticas e, consequentemente, sociais – são planos inseparáveis. Por outras palavras, amar continua a implicar uma tomada de posição em relação ao mundo que nos rodeia. Amar alguém, não olhando esse amor como um sentimento efémero, e, consequentemente, não exigindo ao indivíduo uma reacção imediata, coloca-o numa posição antagónica relativamente à diversidade dos estímulos actuais, que já não se cingem à metrópole - quero parar para amar, afastado desta poluição.
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CRÓNICAS
Amar é parar em relação à velocidade desenfreada de uma sociedade altamente consumista, caracterizada por uma comunicação rápida, frenética e emocionalmente débil; no entanto, tal não implica parar politicamente, no sentido da inacção ou da ambiguidade - de uma mítica neutralidade suíça. Amar, na realidade, consiste em exigir à comunidade a que pertencemos uma mudança de rumo. Recuso-me a amar com base num mensageiro algorítmico e aparentemente imparcial! Abraço a ideia de amar na rua, símbolo de excelência da democracia: amar num parque, exigindo mais espaços verdes, afastados da poluição sonora e visual dos carros, da publicidade, das marcas; de amar num teatro ou numa sala de cinema, exigindo investimento na cultura além dos míseros, arredondados e gordos 0% e o reconhecimento da classe artística como central na construção de uma sociedade democrática e reflexiva; de amar uma obra literária na sala de estar, exigindo uma mudança radical nas políticas neo-liberais da habitação, de forma a garantirme o direito a uma residência condigna (os jovens valem bem mais do que dez metros quadrados e uma casa-de-banho para se limparem da insegurança e ansiedade causados por um mundo cada vez mais incerto, guiado por estatísticas e probabilidades). Em suma, amar com tempo exige uma vida quotidiana que não se resuma à existência, durante oito horas diárias, dentro de um cubículo de uma consultora, cujo trabalho esgotante e competitivo, na sua forma mais degradante ao nível intelectual, nos desumaniza: retira individualidade e, ao mesmo tempo, o sentimento de pertença a um projecto colectivo. Amar é uma reivindicação, porque como acto nunca se esgota na pessoa com quem partilhamos directamente as nossas emoções; contrariamente, ocorre num espaço físico, num contexto social e político, resultando num acto de comunidade entre duas pessoas. A verdadeira realização, depois do reconhecimento dos sentimentos, encontra-se precisamente em abraçar os dois planos complementares (o amor e a política). Assim, o verdadeiro amor é aquele que põe em causa os dogmas da sociedade, que se nega a acreditar que se limita a uma interacção líquida e ilusoriamente confortável dentro de categorias estereotipadas e tecnocráticas, resultantes de uma filtragem prévia, através de produtos reluzentes e de mensagens animadas e simplistas, denotando um vazio anómico. Contrariamente, à sociedade exige-se o retorno de um choque desconfortável e necessário entre duas visões densas do mundo e do ser humano que só o tempo poderá clarificar, e do qual resulta o amor entre duas pessoas: nós, jovens, precisamos deste sentimento cada vez mais; precisamos de viver, de nos apaixonarmos e de não termos medo da política, do confronto, das diferenças. Nota: o autor opta pela regra ortográfica anterior ao acordo vigente.
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Engordando
CRÓNICAS
FRANCISCO AZEVEDO
Estava parado em frente de uma parede branca. Tinha a pila numa mão, o prédio apoiava-se na outra. Estava bêbado, tinha estado a beber diretamente do gargalo de uma garrafa de uísque barato. Um cão apareceu, vindo, pareceu-me, de lado nenhum. Simplesmente apareceu, com o pelo sujo, cheio de pó, parecia o cão de um qualquer guardador de rebanhos, daqueles que tocam as ovelhas, que as mantêm em linha. Tinha uma corda ruça no pescoço, talvez se tivesse escapulido, talvez viesse desde o campo a fugir ao trabalho, a fugir à escravidão que um velho camponês lhe impôs, que o acaso lhe impôs, que a vida lhe impôs, desculpem-me a redundância. Guardei-a nas cuecas, fechei a braguilha, apertei o cinto e esfreguei os olhos. Talvez a bebedeira me fizesse ver cães agora, mas não, ele estava mesmo lá, com o pelo escuro e sujo. Dei-lhe uma festa na cabeça, afastei-me, comecei a caminhar para casa, sabia o caminho de cor, o cão não, portanto seguiu-me. Cambaleando, vociferei uns “sai!”, “vai-te!”, “raio do cão!”, mas ele não me largou. Ainda tentei dar-lhe um pontapé, mas esparramei-me no chão, que me chamava desde meio da garrafa. Ele nem se mexeu. Levantei-me com dificuldade e acabei por chegar a casa. Vivia num terceiro andar, o que se tornava especialmente inacessível em noites como esta. O cão subiu sem qualquer dificuldade, seguiu-me paciente, enquanto eu andava quase empedernido, parando por vezes e agarrando-me ao corrimão, até eu o deixar entrar. Fechei-nos dentro da minha casa, abri uma caixa que tinha no frio, com feijão, pu-la no chão, deitando-me no sofá de seguida. Acordei e não havia nem cão nem feijão. A porta estava fechada, trancada, estranhei. A caixa estava vazia no chão, parecia pronta a usar, nada suja, esperando que a enchesse de novo com comida. Deveriam ser umas três da tarde, meti-me à chuva, que caía da cabeça alta do chuveiro, esfreguei-me com o sabão que me deu um cheiro novo, levando o cheiro a surro pelo ralo abaixo, para o esgoto, a última prova do dia anterior. Saí à rua. Tinha de sair, pois o mundo não está para lidar com as nossas dores, não quer saber dos nossos sentimentos, mesmo que hoje os pais não batam nos filhos, mesmo que hoje queiram ser amigos dos filhos, lhes deem as mãos, lhes aparem os golpes; mesmo que hoje nas empresas haja departamentos inteiros que se dedicam às dores e maleitas dos empregados, mesmo que lhes digam que eles importam, mesmo que lhes perguntem se está tudo bem; mesmo que os políticos se ponham na rua a falar com as gentes, mesmo que haja psicólogos e psiquiatras nos hospitais, a verdade é que as nossas dores não importam, o que importa é fazer mais. Saí à rua para mais um dia. Estava a começar a engordar, especialmente na zona da barriga. Era notório o crescimento, alargava a minha circunferência, a minha roupa apertava, o mundo apertava com ela, pesava cada vez mais sobre o peito, talvez fosse a roupa, talvez fosse do mundo, provavelmente era a minha cabeça, onde imaginava a roupa e o mundo a apertarem-me o peito. De fones nos ouvidos e cigarro nos lábios, lá fui caminhando, desviando-me dos corpos dos outros, desviando-me das personalidades e dos pensamentos dos outros. Sabia que era normal demais para ficar preso nestes, com uma cara normal, com roupa normal, com um cheiro normal, com um andar normal, e da mesma forma que aos normais não os prendo nos meus pensamentos, certamente não fiquei preso no dos outros. Passei por um velhote, teria os seus setenta anos, talvez menos, provavelmente menos, deveria estar mal conservado, efeito de uma vida dura. Era magro e careca, e fazia um espetáculo de revolta, apontando para um jornal, gritando: “Olhem para esta vergonha, olhem para isto! Vocês andam a matar gente nova,vocês andam a matar miúdos e andam por aí sem quererem saber o que fazem! Vocês metem-me nojo vocês são nojentos!”. Cala-te velho louco! - ouviu-se entre os gritos do velho louco. Não parei para olhar a notícia que ele envergava no alto, notícia que nele foi a faísca para a os seus gritos de fogo. Segui, matando gente nova, segui matando miúdos, segui igual. Reparei que tinha o atacador desapertado. Pousando o pé em cima de um banco, apertei os atacadores, enquanto a cinza quente do cigarro se me encostou à ganga das calças, marcando-a. Só senti quando já me estava a queimar, resto de tabaco e petróleo queimado, cinzento de morto, a queimar-me a pele e as calças, praguejei. Segui o meu caminho, com um buraco novo nas calças, a voz de um velho louco lá ao fundo, de fones nos ouvidos e um cigarro novo na boca.
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CRÓNICAS
FELÍCIO, UM RATO LISBOETA! INÊS VALENTE
Vive um rato na Tomás Ribeiro que, das poucas vezes que se apresenta, dá pelo nome de Felício! No entanto, gera-se uma certa frustração, pois quando o chamam ele não aparece. Passo a explicar o porquê. O Felício é um rato muito seletivo e só se dá com betos! Caso apresentem alguns dos traços típicos de um beto, ele talvez inspecione o vosso quarto e estude a vossa aparência, mas poucos de vós acabarão por convencê-lo e preencher todos os seus critérios. No meu caso, o Felício nem se deu ao trabalho de me estudar ou entrar no meu quarto, sentiu logo o cheiro a norte e não viu na despensa produtos do el corte inglês (só marca branca doutros supermercados). Como dizia, nem se deu ao trabalho, preferiu passar uma sexta-feira no ginásio, já que no sábado ia comer a casa dos pais da namorada. Tenho a dizer-vos que este rato até com a alimentação se preocupa - acham que o apanham com manteiga de amendoim ou queijo? Ele não pode engordar, sendo que o pouco queijo que come é Beaufort ou Gorgonzolla, nunca o vosso Mozzarella marca Continente! (Isto quando não tenta ser vegan). Este rato tem que continuar a passar por baixo das portas, ou então como é que esperam que ele mantenha o estatuto social? Acham que bastava alugar um quarto para viver no Saldanha?
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Absurdo
CRÓNICAS
JOÃO MARTINS
O Homem é o absurdo. Um ser que nunca soube o que é, que nunca saberá. Um ser que nada entende e tudo discute. Um ser que duvida e acredita cegamente. Um ser que invoca a certeza que é não ter certeza de nada. Um ser como os outros, que morre. Uma criatura que se agita com a morte. Uma criatura que não se conforma com a Natureza que o criou. Uma criatura que imagina para sobreviver, mas não concretiza. Uma criatura que se divide e mutila constantemente. Uma criatura como nenhuma outra, que vive para a morte. O Homem é o absurdo. Nos curtos anos de que dispõe, lança-se selvaticamente na procura de uma ideia: a Felicidade. Um conceito que toma várias formas: Poder, Sucesso, Paz, Amor, Imortalidade. Mas o Homem não possui a capacidade de definir qualquer uma destas faces, embora nunca desista de tentar fazê-lo. O absurdo impõe-se. Este ser, esta criatura inteligente e dotada, perante um mundo ao seu dispor, escolhe perder-se numa demanda pelo ininteligível. Anula-se no desejo de possuir o inatingível, o que nunca experimentou, mas quer ardentemente. Experimente-se fazer a seguinte pergunta ao Homem: Porque desejas a Felicidade? Que outra resposta pode surgir que não: “Para ser feliz”? Como não notar o absurdo desta circularidade? Como não entender o inútil e o despropósito deste vazio? Como acreditar que algo senão o nada pode nascer do nada que isto é? Eu não saberia… Porque sou Homem. Eu sou o absurdo.
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CRÓNICAS
(Sobre)viver em Pandemia LILIANA MARQUES
Vivemos num tempo que nos desafia, num período conturbado em que não sabemos o que esperar. Vivemos momentos difíceis em que o amanhã é incerto e as dúvidas e receios são mais que muitos. Mas é mais difícil para uns que para outros. Digo isto da minha posição de pessoa privilegiada, que tem um teto por cima da cabeça, uma situação económica relativamente estável e forma de pagar os estudos e um “support system” com que posso contar em caso de necessidade. Mas sejamos sinceros, nem todos se encontram nesta situação. Milhares de pessoas não têm sequer um teto onde se abrigar, estão expostas não somente ao vírus como aos próprios elementos. Milhares de mulheres, vítimas de abusos e violência doméstica, viram a sua situação agravada pela pandemia, sendo sujeitas a permanecer em casa, sem forma de escapar a esta situação degradante e precária. Não sabem o que fazer. Sentem-se cada vez mais encurraladas. Estão a surgir movimentos como o Código Máscara Vermelha, que começou na Argentina e tem vindo a ser adotado por outros países como o Brasil, em que basta alguém pedir uma máscara vermelha em qualquer farmácia e está automaticamente a sinalizar que é vítima de violência doméstica e que precisa de ajuda. A violência, e em particular a violência doméstica, não pode ser ignorada, principalmente neste período de pandemia, que tem provocado um aumento bastante significativo no número de vítimas. Tantas vezes ouvi aquele ditado popular “entre marido e mulher não se mete a colher”, ou a típica desculpa esfarrapada de que aquilo que acontece entre paredes não nos diz respeito. Tretas. Não podemos continuar com esta mentalidade retrógrada de que não temos nada a ver com isto, que não somos responsáveis pelo agravar da situação e que não há nada que possamos fazer. Porque é este tipo de mentalidade que leva a que as vítimas tenham medo de expôr a sua situação, têm receio de ser atacadas e culpabilizadas por uma sociedade com uma mentalidade fechada que mais prontamente as responsabiliza pela sua situação do que as ajuda, quando tudo o que estas sobreviventes precisam é de um ombro amigo, proteção e uma linha de apoio que garanta a sua segurança. Apelo a que nunca nos esqueçamos de descer do nosso pedestal de privilégio e saibamos olhar para baixo e ver que nem todos se encontram na mesma situação. Usemos o nosso privilégio para ajudar aqueles que não têm quem os ajude.
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CRÓNICAS
O CORTIÇO INÊS PINHEIRO
O cortiço é uma colmeia cilíndrica, feita, como o próprio nome indica, de cortiça. Sendo o lar de artificies engenhosos, escolhi-o para intitular esta nova secção de crónicas, pois simboliza, para mim, a beleza da simplicidade e a dedicação que, neste caso, está por detrás da criação de algo tão delicioso como o mel. Espero que estes textos, que vêem o mundo de forma irónica e crítica, mas sempre esperançosa, permitam – a mim e aos leitores – reflectir e agir, para que possamos vir a construir algo tão singularmente belo como um favo cheio de mel.
I. CONVERSA FIADA
Há já algum tempo que comecei a detectar uma tendência deveras alarmante: o que é feito da conversa fiada? Acredito que a “prima” deste fenómeno já seja do conhecimento geral, estando, quiçá, secundarizada há tanto tempo que as novas gerações a desconheçam. Refiro-me, claro está, à conversa propriamente dita, que se tornou num autêntico fóssil vivo. Ao longo dos próximos parágrafos, focar-me-ei na primeira, por considerar essencial recuperar o ímpeto coscuvilheiro que garantia a qualquer anciã saber mais sobre a vida dos seus vizinhos do que os próprios. Proponho-vos, neste sentido, que reflictamos seriamente sobre este problema que assola a nossa sociedade. A única condicionante a este exercício é não sermos saudosistas, pois uma coisa é certa, o “antigamente” não foi de certo melhor! Contudo, estamos a tornar o nosso presente verdadeiramente pobre, e penso que tomar de embalo o Ano Novo nos pode dar mais força para a mudança. Devo dizer que não sou uma grande conversadora, o que já por si indicia a gravidade da situação: se alguém calado está a dar pela falta das conversas de etiqueta, é porque estamos mesmo desconcertados. O ano de 2020 já lá vai e desde finais de Dezembro que sinto ter começado a pairar no ar um certo movimento sub-reptício para fazer desse passado um tabu. No entanto, vamos ter de o contrariar, para desbravar caminho até à raiz do problema que temos em mãos. Como não sou apologista de olvidar o que quer que seja, é um esforço duplamente gratificante.
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CRÓNICAS
Podemos colocar como hipótese que foram as máscaras as culpadas – temos este terrível hábito de ter sempre um lugar à mesa para a culpa –, mas não creio que as nossas armaduras anti-víricas sejam a fonte do fim da conversa. Aliás, são um excelente tópico para darmos azo à maledicência, que por sinal não foi bem aproveitado. Tudo aponta para que o cerne da questão esteja… no puro e simples desinteresse pelo próximo, ou pelo menos na inutilidade da palavra quando comparada com a rapidez e facilidade com que se sabe tudo através de um ecrã. Nunca vivi num mundo sem telemóveis ou computadores, mas acompanhei, com a devida atenção que uma criança dá a estes assuntos – e não é pouca! – a universalização dos ditos instrumentos, até que na minha adolescência já dei pela falta de conversas verdadeiras. Não nos será possível percepcionar o descrédito da conversa em simultâneo com o novo diálogo global? É um paradoxo interessante, mas passível de ser desconstruído. No fundo, quanto mais pessoas temos para conversar, menos o fazemos porque a escolha se torna insuportável. E qual será a solução? Não podemos retroceder no tempo, nem esquecer os progressos. A minha recomendação é que sejamos mais comedidos na nossa utilização do digital, o que será um desafio hercúleo, tendo em conta que estamos tão dependentes do mesmo. No início do ano temos o hábito de desejar… pois bem, eu desejo que possa chegar ao final de 2021 saturada das conversas fiadas! Espero que o estado do tempo recupere a ribalta nos “dois dedos de conversa”, que os cafés rebentem com “politiquices” e que os quiproquós do quotidiano retomem o seu lugar ao sol. Com alguma sorte, de um ano a esta parte, estarei a escrever sobre as malditas conversas fiadas e a apelar ao intelectualismo, que tanta falta nos faz. Nota: texto escrito de acordo com a antiga ortografia.
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VÁRIOS
TOMÁS GIRÃO
Nem sempre é fácil Conjugar o que sentimos Com a paixão que temos Em escrever o que é difícil. São emoções, unicamente sensações Compostas por versos mal escritos Que vibram corações. Mas são sonhos! De cima para baixo, da esquerda para direita E o que fica é o nome do poeta, E, por isso, ele é pateta. Não se escreve, Não se pensa. Vive-se! Vida?
Vida? Pode ser dita como arte ou escrita em tons de saudade, que presa a pétalas de verdade anda em volta da mente. Vida? É o que sonhamos e no choro perdemos e amamos.
Contemplar
Ser e não escrever. Escrever e não ser. É em si uma questão Que desassossega o meu coração. Escrever e não viver. Viver e não escrever. Poderia dizer que se descrevem Uma à outra também. Da qual posso ter maior razão? Se ambas no seu profundo se confundem, fazendo de mim pura imaginação e poeta das letras que me pedem… Ao luar e sem descrever vejo-me, alegremente, como poeta e coloridamente um profundo pateta…Porque viver é escrever A flor não rimou e ditou o amor, E, em segredo, à beira rio Confessei-lhe o momento sem compor E ela sorriu…. Escrever é viver. Viver é escrever. Eis o segredo da alegria E o bom de viver em harmonia.
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AO ESPELHO JOÃO MARTINS
Que ser inconveniente é aquele, que bloqueia meu correto caminho? Está mal, pois não sei que faça dele ou sequer que faz ele ali sozinho... Arreda! Tu, que impedes a passagem, tu, que queimas meu tempo precioso. Tenho aonde ir - um rumo, uma viagem, O mundo chama e eu estou curioso. Como bem vês, não posso aqui tardar, deixar partir o vigor e a vontade, perder a fé, por medo da saudade. Compreende, permite-me avançar... Mas não se move, o ser sem piedade! E eu que faço? Fulmino-o com o olhar...
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O SUFRÁGIO FEMININO DIANA NEVES
Não é a primeira vez que esta história está a ser contada. Ignorada por uns e esquecida por outros, é narrada por muitos. Porém, escondida nos escombros da vergonha de assentos do parlamento, ainda circula no sangue das herdeiras que a carregam ao peito e sobre ela não descansam…
O voto
Janeiro foi mês de eleições. Houve uma pluralidade de ideias e diversos candidatos que concorreram a Belém, esperando arrecadar o voto da maioria dos portugueses. No entanto, este voto não foi sempre universal e, em Portugal, só foi conquistado em 1974, de forma livre. Uma data bastante tardia comparada com outras nações. Não foi assim há tanto tempo, e é esperado que não sejam esquecidas as lutas de homens e mulheres que sofreram muito e sacrificaram ainda mais para que nós, hoje, tenhamos o direito de votar. Este direito não deve ser dado como garantido, porque a Democracia é frágil e, nos dias que correm, mais que nunca, assistimos à expansão e ao surgimento de forças políticas extremas que tomam em seu auxílio os mais fáceis instrumentos para crescerem. A luta pelo sufrágio universal não se fez às custas «do povo» só em território nacional. Em tempos distintos e de maneiras diferentes, pacífica ou revolucionariamente, o voto teve de ser conquistado nos países de todo o mundo. E eu venho aqui falar de um voto mais específico. O sufrágio feminino. Sabemos que desde a Antiguidade, em civilizações como a Grécia Antiga, já havia sufrágio, obviamente com muitas e demasiadas condicionantes, e naturalmente, restringido ao sexo masculino. Durante séculos, o homem manteve as posições mais relevantes na sociedade, os cargos mais altos e as funções do comando da vida social. A mulher por outro lado, desde sempre, continuou confinada aos papéis tradicionais de mãe e esposa. As suas funções eram procriar, educar os filhos e dedicar-se a uma vida submissa face ao marido. Permaneceram sob a guarda do pai, do irmão, do marido ou de qualquer outra figura masculina que detivesse os seus pertences e, infelizmente, o direito sobre a sua vida. Sempre lhes disseram o que fazer e como o fazer, e mais que tudo, o que não podiam fazer. No mundo, não existia a palavra «mulher» se significasse mais do que mãe e esposa. Esqueceram-se que «mulher» é todo um ser complexo, com direitos, sonhos e liberdades únicas. E excluíram-na das urnas. «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades» (Luís de Camões), e o poder das mulheres foi mudando. Aos bocadinhos. E ainda hoje, não foi completamente conquistado… Esta foi uma luta dura, dolorosa. E ainda o é. Cheia de nódoas negras, assassinatos, reprimendas, sacrifícios, choro, sorrisos e segredos.
Suffragette (2015), de Sarah Gavron
As Sufragistas, ou no título original, Suffragette (2015) é um drama histórico que aborda o movimento sufragista de mulheres da classe trabalhadora, em Londres, em 1912. Após anos a tentar argumentar pacificamente com os membros do Parlamento Britânico, para lhes concederem o direito ao voto, estas mulheres foram desprezadas e insurgiram-se novamente, dessa vez num movimento político mais radical, na ameaça da clandestinidade. Com o argumento de Abi Morgan e realizado por Sarah Gavron, a autora consegue captar bem o perigo do avanço do movimento, quanto mais não fosse pelas reuniões ilegais, os segredos e os atos de violência. Juntando atrizes talentosas desde Carey Mulligan (a interpretar a protagonista Maud Watts), Helena Bonham Carter (Edith Ellyn) e Meryl Streep (Emmeline Pankhurst), o filme destaca a falta de condições que as mulheres tinham de sofrer num trabalho precário - sobretudo, tendo em conta que trabalhavam mais que os homens e recebiam menos - e os olhares, a respiração, a pressa e as fugas destas mulheres para não serem presas. Todos os detalhes são precisos e trabalhados, desde
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trabalhados, desde os cenários, os figurinos e até mesmo o CGI (os efeitos visuais, por assim dizer), quando usado, é bem aplicado. A longa metragem marca-se por uma fotografia escura que acentua a atmosfera pesada da própria história e todo o sofrimento e sacrifício que se fixam na pele e nas feições das personagens. Contudo, notam-se algumas falhas na narrativa, com o enredo a avançar demasiado depressa, faltando em pormenores e explicações; todavia, no seu todo está uma história que aglomera várias vertentes daquilo que foi o movimento das sufragistas e o que lhes tocou a nível pessoal:desde os maridos a tirarem-lhes os filhos e a expulsarem-nas de casa, até deixarem de ter dinheiro para um quarto, por exemplo; ou social: principalmente com os olhares julgadores na rua e por parte dos vizinhos, não esquecendo o facto de terem sido despedidas. «What gave you the right to stand in the middle of a riot, watch women be beaten and do nothing? (…) the law means nothing to me; I’ve had no say in making the law. (…) we break windows, we burn things, because war is the only language that men listen to. Because you´ve beaten us and betrayed us, and there is nothing else left». Estas expressões são parte do guião do filme, numa cena entre Maud e o inspetor que a interrogava. As operárias britânicas foram vítimas da brutalidade policial, foram presas e torturadas em nome de algo maior que elas. Acontecimentos como a explosão na casa de campo vazia de David Lloyd George e o ativismo fatal de Emily Davison no Epsom Derby foram reais. Quando o filme está prestes a conhecer o seu final, as cores fundem-se num vídeo documental a preto e branco no funeral de Davison. O mais profundo desejo que, por direito e justiça, fazia destas mulheres sufragistas era serem representadas, terem o mesmo direito que o irmão, o primo, o tio, o marido, o pai ou o patrão. Mas havia algo nelas que era mais íntimo e mais honroso: era trabalhar para que as gerações vindouras de mulheres não tivessem de passar o que elas passaram e fossem livres para exercer os seus direitos e ter voz numa sociedade, definitivamente, patriarcal.
O exemplo da Nova Zelândia
Em 1893, celebrava-se na Nova Zelândia o dia em que as mulheres puderam votar pela primeira vez (depois de vários requisitos, petições e argumentos desde 1880). A Nova Zelândia tornou-se o primeiro país em todo o mundo a conceder este direito às mulheres. Porém, só em 1919, as mulheres puderam ser eleitas para o Parlamento, e apenas em 1933 é que uma mulher, Elizabeth McCommbs, efetivamente foi eleita para esse lugar. Em 2020, a Nova Zelândia tem pela primeira vez uma mulher maori como Ministra dos Negócios Estrangeiros. A primeira-ministra neozelandesa, Jacinta Arden, tem recebido vastos elogios pela sua liderança no país (desde 2017) e principalmente face à pandemia da Covid-19. É uma prova inegável do poder de liderança, empatia, discernimento e capacidade de decisão das mulheres nos cargos governativos. É um exemplo para o presente e o futuro e uma lição para o passado.
1893. As mulheres neozelandesas foram votar depois de petições que exigiam esse direito.
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O voto das mulheres em Portugal e as limitações na ditadura salazarista
Durante a Primeira República Portuguesa (1910-1926) legislou-se que todos os portugueses com mais de 21 anos que soubessem ler e escrever e os chefes de família, sem especificar o sexo, poderiam votar. Foi neste período que surgiram as primeiras, mas fracas faíscas do movimento do sufrágio feminino em Portugal, que acabou por revelar-se muito mais forte noutros países, como o Reino Unido que esteve na vanguarda do movimento sufragista na Europa. Nas eleições para a Assembleia Constituinte de 1911, e dando azo à lacuna na lei, Carolina Beatriz Ângelo, defendendo-se enquanto médica, alfabetizada, viúva e, por isso, chefe de família, tornou-se a primeira mulher a votar em Portugal, graças ao juiz João Baptista de Castro que a incluiu no recenseamento editorial: “Excluir a mulher (…) só por ser mulher (…) é simplesmente absurdo e iníquo e em oposição com as próprias ideias da democracia e justiça proclamadas pelo Partido Republicano. (…) Onde a lei não distingue, não pode o julgador distinguir (…) e mando que a reclamante seja incluída no recenseamento eleitoral.” Não obstante, Beatriz Ângelo reivindicava também por outros direitos das mulheres, nomeadamente o salário igual aos homens para a mesma profissão, o direito a gerir os próprios bens, o direito à educação, e a proteção no trabalho, na família e na maternidade. Face a esta situação, em 1913, determinaram-se como "eleitores de cargos legislativos os cidadãos portugueses do sexo masculino maiores de 21 anos (…), que estejam no pleno gozo dos seus direitos civis e políticos, saibam ler e escrever português, e residam no território da República Portuguesa". Em debate no Parlamento, em 1913, o deputado Matos Cid afirmou que a mulher "tendo um espírito retrógrado, exerceria influência nefasta na vida política", defendendo ainda a sua religiosidade e a tradição do seu papel de esposa, que poderia causar discussões políticas no espaço familiar da casa. O senador Feio Terenas disse: "A mulher é, em geral, um espírito fraco, que vai ao confessionário, que ouve o seu diretor espiritual e as missões dos jesuítas e padres reacionários. Felizmente que nós estamos sendo livres desta praga, mas nem por isso podemos confiar na presente geração das mulheres ignorantes e fanatizadas". Em 1931, passaram a poder votar apenas as mulheres com o ensino secundário ou o ensino superior feito e "as mulheres portuguesas, viúvas, divorciadas ou judicialmente separadas de pessoas e bens com família própria e as casadas cujos maridos estejam ausentes nas colónias ou no estrangeiro". Em 1933, voltaram-se a mudar os critérios para as mulheres votarem. Em 1968, a lei promulgou que apenas os cidadãos, ou cidadãs, que não soubessem ler ou escrever é que não podiam votar. A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas são exemplos de associações feministas do século XX, em Portugal, que lutaram pela igualdade de direitos entre géneros. Contudo, Portugal esteve 48 anos sob as cortinas do Estado Novo, impedindo a população de expressar os seus ideais políticos e de tomar decisões e escolhas livremente. As mulheres que puderam votar neste período foram escolhidas em prol da preservação do estado salazarista, de modo a servir o regime. A minha avó, Laurinda Silva, foi analfabeta toda a sua vida. Trabalhou no campo e às vezes o almoço era só uma fatia de broa e uma sardinha miúda. Aos sete anos já sabia cozer pão e ia sozinha para a serra com um rebanho gigante de ovelhas. Aos 20 anos, casou com o meu avô e teve filhos. Nunca pôde ver-se representada, num país agrário, atrasado, sob um governo de ditadura que escondia a pobreza da população e claramente, como é sabido por todos, impedia o desenvolvimento de eleições livres. Só em 1974, é que disseram à minha avó que ela podia votar. Em 1974, o voto tornou-se verdadeiramente universal em Portugal.
O direito ao voto das mulheres, no mundo
Depois de dar os seus primeiros passos, o movimento sufragista foi também dando os seus frutos. Contudo, as datas aqui referidas como ano em que os países reconheceram o direito de voto às mulheres ficaram marcadas por várias restrições e limites, e por isso, o voto universal, como o conhecemos hoje, foi sofrendo alterações e alargando a sua abrangência depois de décadas. Na Europa, foi a Finlândia o primeiro país a reconhecer o voto feminino, em 1906. Foi apenas após a Primeira Guerra Mundial, e depois de anos em movimentos de luta, que outros países pelo mundo (mesmo as primeiras repúblicas, como os EUA ou França) foram concedendo o direito de voto à população feminina: Reino Unido em 1918, EUA em 1920, Índia em 1949, Suíça em 1971… Pioneiras no movimento sufragista, as mulheres no Reino Unido e nos Estados Unidos começaram a lutar pelo sufrágio feminino ainda no século XIX.
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No Reino Unido, destacaram-se rostos como Emily Davison e Emmeline Pankhurst que liderava a Women´s Social and Political Union, e que tomaram as rédeas do movimento, partindo para meios radicais (como o filme Suffragette assim conta), de modo a ganhar uma dimensão mediática que não tinham através dos protestos pacíficos, o que contribuiu para que mais mulheres se juntassem à luta. «Deeds not Words» (ações, não palavras) era o seu lema! Neste país, as sufragistas eram frequentemente presas, pelo que depois de dias a fazer greves de fome eram libertadas. Mas continuavam a atacar propriedades e a causar distúrbios em reuniões e assuntos do governo, sem nunca querer magoar pessoas, mas pretendendo chamar a atenção da população e dos líderes. Nos EUA, o movimento das sufragistas começou a surgir sob várias formas, desde os protestos a músicas e a livros. Começou em Nova Iorque, em 1848, com a liderança de Susan B. Anthony e Elizabeth Cady Stanton. No entanto, foi todo um conjunto de mulheres desde a classe trabalhadora à elite, mulheres de cor e imigrantes que, herdando as raízes do ativismo contra a escravidão, participaram nesta luta e que foram sendo excluídas da história, contada à maneira da população branca nos EUA. Neste país, foi concedido o direito de voto às mulheres em 1920. «Ain't got no home, ain't got no shoes Ain't got no money, ain't got no class Ain't got no skirts, ain't got no sweaters Ain't got no perfume, ain't got no love Ain't got no faith» Ain´t Got No/I Got Life, de Nina Simone (1968) Numa letra dedicada aos afro-americanos nos Estados Unidos, à infelicidade e à injustiça de lhes ter sido retirado as raízes de um país e de uma família, uma cultura e os seus direitos, aqui persistem, imortalmente, uns versos conectados àquilo que a mulher era considerada em tempos. Simultaneamente, conseguimos detectar uma ênfase, neste texto e neste âmbito, a relembrar que as mulheres de comunidades negras em países estrangeiros, foram deixadas de fora da luta pelo sufrágio feminino, esquecendo uma minoria que precisava - e, infelizmente, ainda precisa - de representação nos cargos governativos, na esfera mediática e até nos assuntos mais banais da vida quotidiana. Depois de os Estados Unidos concederam o voto às mulheres, milhares de eleitores afro-americanos, de Ilustração de uma música por Herman Parley e ambos os sexos, e ainda imigrantes de outras etnias, foram impedidos de ir às Alfred Bryan que apoiaram as sufragistas. urnas. Só nos anos 60, com o movimento pelos direitos civis, é que o voto nos EUA lhes foi alargado.
Direito de voto das mulheres (a partir dos créditos do filme Suffragette)
Austrália – 1902 Noruega – 1913 Rússia – 1917 Áustria, Alemanha e Polónia – 1918 Brasil – 1932 Turquia – 1934 França – 1944 Itália – 1945 China – 1949 México – 1953 Jordão – 1974 Nigéria – 1976 Qatar – 2003 Foi só há cinco anos, em 2015, que foi prometido às mulheres na Arábia Saudita que podiam votar.
A mudança
Atualmente, a luta pelos direitos fundamentais das mulheres que combatem a desigualdade de género está na ribalta. As mulheres de todo o mundo estão a unir-se num único movimento para mostrar que, embora de lugares diferentes, sofrem de males semelhantes. O paradigma atual da desigualdade de género encontra-se nos locais de trabalho, com os salários ainda desiguais entre homem e mulher que desempenham a mesma função; no assédio e na posição de superioridade do homem face à mulher (não dizendo que o sexo feminino não tem estas atitudes também, porém em discrepância inferior ao homem); nos guiões cinematográficos que reduzem e desprezam os papeis femininos, impedindo as mulheres de mostrarem valor e talento; nas cadeiras dos parlamentos, das autarquias, dos governos e das organizações internacionais que ainda são ocupados por mais homens do que mulheres e na obrigatoriedade de comparação a modelos inconcebíveis e utópicos de beleza. Kate Sheppard, Ângela Davis, Carolina Beatriz Ângelo, Bell Hooks, Emily Davison, Gloria Steinem e muitas mais foram, e ainda são, idolatradas no seio do feminismo e do ativismo pela igualdade de género. Ao longo da história várias mulheres mantiveram-se na vanguarda da literatura, música, liderança, cinema, arte e ciência, imprimindo os seus nomes nos livros, documentos e arquivos históricos. E hoje, dezenas de mulheres são reconhecidas pelo seu trabalho
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reconhecidas pelo seu trabalho e pelas suas capacidades, bondade, empatia e conhecimentos. Estas mulheres lutam para que o sexo feminino deixe de ser, em diversas formas, oprimido socialmente. We need to remember across generations that there is as much to learn as there is to teach.– Gloria Steinem Votar é um direito e dever cívico, que nos foi concedido sob as lágrimas e a tortura de uns. É poder ter uma voz, uma representação e uma escolha a fazer. Votar espelha os nossos valores e princípios e a vontade de sermos ouvidos, mas exige informação e pesquisa. O movimento sufragista das mulheres, estando dentro da luta feminista, fez com que, desde o século XIX, se começasse a questionar o sistema e a estrutura social, consoante o que este lhes permitia fazer ou não, e ansiando por direitos e modos de tratamento igual aos homens. Começando por direitos de participação política e nas funções públicas, avançando para a liberdade sexual e a maternidade consciente. Na verdade, foi todo um movimento coletivo e poderoso que ainda conduz as algumas das mudanças mais significativas da sociedade, traduzindo-se na ânsia pela: libertação de padrões de beleza; igualdade salarial no mesmo trabalho; oportunidade de ocupar cargos políticos e tomar decisões políticas em igual medida ao sexo masculino; direito ao aborto; combate ao assédio sexual e fim da violência doméstica, física ou psicológica. E os homens são convidados a participar neste movimento, assim como é seu dever também lutar pela igualdade de géneros: «I have seen my father´s role as a parent being valued less by society. Despite my needing of his presence as much as my mother´s. I´ve seen young men suffering from mental illness, unable to ask for help for fear it would make them less of a men, in fact, in the UK suicide is the biggest killer of men between twenty to forty-nine eclipsing road accidents, cancer and coronary heart diseases. I´ve seen men make a fragile and insecure distorted sense of what constitutes male success. Men don´t have the benefits of equality either. We don’t often talk about men being imprisoned by gender stereotypes, but I can see that they are» – Emma Watson, na campanha de HeForShe nas Nações Unidas, em 2014 A sociedade, assim como os tempos, são feitos de mudanças que vivem de lutas e sobrevivências. A memória histórica coloca-nos o desafio de escolher entre a abstinência e a frugalidade de um passado duro, ou tratar com reverência e louvor aqueles que abdicaram de tanto para nós termos o que temos. A resiliência e o compromisso fizeram com que tempos revolucionários passassem mais depressa, ainda que pautados pelas complexidades necessárias, mas cabe-nos a nós não deixar cair por terra os objetivos conquistados há anos atrás, e sim avançar na luta por uma sociedade mais justa e igual. Assiste-se agora a um movimento quase «contracultural» que não só exige os direitos iguais entre géneros, como questiona se determinadas culturas têm o direito de retirar esse direito (passo o pleonasmo) a cidadãs e membros da mesma. Até que ponto podemos julgar uma cultura diferente da nossa e até que ponto essa cultura pode determinar aquilo que dá e tira, em termos de direitos fundamentais aos seus elementos? É aceitável, nos dias de hoje, que em tantos países as meninas ainda não tenham acesso a uma educação completa? E que este fator continue ao «abrigo dos costumes» de uma cultura diferente da nossa? Este é só um exemplo. É necessário que não deixe de existir uma pulsão forte e atroz na malha das instituições e nos meandros das ruas das cidades, nas mentes das pessoas que as cobrem e regeneram, para que todos os países, independentemente das suas culturas, concedam direitos fundamentais aos seus habitantes. “You have to act as if it were possible to radically transform the world. And you have to do it all the time»Angela Davis
Sugestões:
Woman (2018), série documental de Gloria Steinem Woman (2019), documentário de Yann Arthus-Bertrand e Anastasia Mikova Women, Race and Class (1981), obra de Angela Davis
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À ESPERA DOS VERMES. OU, O QUE NOS DIZEM OS PINK FLOYD SOBRE O FASCISMO? FRANCISCO FERNANDES Aluno do curso de Ciências da Comunicação
Em 2021, o célebre The Wall fará 42 anos. O décimo primeiro álbum de estúdio dos Pink Floyd, lançado em 1979, é quase tão jovem (embora muitos anos tenham já passado) quanto a nossa democracia — e mais jovem ainda é o filme que dele foi feito, por Alan Parker, em 1982. As palavras de Roger Waters, escritas e cantadas num tempo em que o fascismo camisa-preta de Oswald Mosley tinha ainda terreno na sociedade britânica e em que as políticas thatcherianas se preparavam para avançar triunfalmente sobre o leite (invocando-se a revogação do School Milk Act) e a escola pública, não foram tanto uma sentença — como melhor teriam sido —, do que a denúncia de um passado, o diagnóstico de um presente e a narração inadvertida de um porvir.
The Wall fala, pois, de um pai que nunca regressou da guerra e de um filho que nunca regressou de si. Talvez seja este um bom ponto de partida: a impossibilidade de regresso. Entre tantas outras coisas, The Wall é a viagem ao íntimo de uma pessoa cuja empatia se perdeu com a perda daqueles que tinham como função a sua transmissão. É, portanto, uma viagem à distância — a distância de um sujeito que permanece longe do meio social, primeiro pela ausência do pai, depois pelo controlo total da mãe, pela disciplina da escola, pela futilidade das relações que estabelece. Pink, o nosso protagonista, adaptando a célebre expressão de Jean-Luc Godard, não é um homem só; é só um homem. E, nessa condição, tudo, como o seu século provou, é possível. É, portanto, justo dizer que The Wall é a viagem ao íntimo de um homem frágil, distante, que não compreende mais do que não é compreendido, esmagado pelos «espaços vazios» de uma vida que preenche com esse muro, a metáfora final para a impossibilidade de regresso e, antes, de acesso. Assim se despede Pink do «mundo cruel», construindo paredes altíssimas para não ver e não ser visto, para não ouvir e não ser ouvido, com, cada dia, «mais um tijolo» que a história, na forma da guerra, a mãe, na forma da clausura, a escola, na forma da subordinação, e ele próprio, em sua própria forma, vão oferecendo. O muro que dá nome ao álbum não é só a imagem desse homem distante e isolado em si, mas também, necessariamente, do tempo e do espaço que esse homem, como tantos a si semelhantes, quererão construir.
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O ponto de viragem fundamental na vida de Pink — se considerarmos a ideia de construção do muro como um longo processo temporal, talvez anterior a si — é a descoberta da natureza política do seu mundo. Esse homem «velho», para quem «nada mais é divertido», que se tornou «comfortably numb», desperta perante a impressão física, palpável, imediata da ação política; e, então, o muro, que media a distância entre si e o outro na vida social, passará a medir essa distância politicamente. The Wall diz-nos, assim, que toda a psicologia latente na primeira parte resultará, como a recorrente adaptação de músicas, na construção do animal político da segunda. Esse animal político, Waters mostra-o sem problemas, é o fascista. Pink, já por trás do muro, diz-nos que tem uma «forte urgência para voar», «mas não tem para onde ir». Enfim o descobre, na imagem de um pensamento político radical, violento, desumano, nessa explosão interior de uma vida volvida no afastamento e na indiferença. Como em O Conformista (1970), de Bernardo Bertolucci, a figura do fascista não é um demónio vazio ou a incorporação daquilo que podemos tomar como o mal (embora muito perto deva estar), mas a consequência de um indivíduo tomado profundamente pela sua natureza individual — e, portanto, sem empatia. Tanto O Conformista como The Wall darão redenção aos seus protagonistas, nesse ato de humanismo fundamental que teria necessariamente de concluir a sensibilíssima construção da psicologia humana a que se propõem; mas isso não ocorre sem julgamento. E o julgamento que ambos fazem é tanto o da sociedade, como aquele por que, interiormente, os protagonistas estão obrigados a passar. Isto é dizer que Waters e Bertolucci destroem os seus fascistas pela criação de consciência: consciência de quem são, do que foram, do que fizeram e, principalmente, do que os levou até ali.
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Quarenta e dois anos depois de The Wall, cinquenta e um de O Conformista, o que nos levou até aqui? Ouçamos, novamente, as palavras de Roger Waters. A radicalização política de Pink dá lugar aos segmentos musicais mais bruscos. A melancolia comum da primeira parte, o desespero nas vozes que cantam a distância do protagonista, deixam de existir, substituídos pelos sons radicais do discurso político dos camisas-negras. Discurso messiânico, claro está, porque nunca movimento semelhante o foi sem designação expressa da providência. E discurso histórico, disciplinado, militarista, das grandes causas. Na música Waiting For The Worms, a expressão total do radicalismo político em The Wall, a voz de Waters pergunta-nos: «Queres ver a Grã-Bretanha a governar novamente, meu amigo? / Tudo o que tens de fazer é seguir os vermes». Seguir os vermes pelos quais Pink, em «perfeito isolamento», por trás do seu muro, tanto tempo esperou; vermes que, tomando o corpo de ideias e preconceitos, regurgitados por figuras públicas duvidosas e líderes políticos efervescentes, se vão infiltrando no tecido social vulnerável, pobre, desempregado, desinformado, sem respostas, e nas mentes frágeis, distantes, isoladas, ladeadas de muros, que o constituem. Esperar pelos vermes não é só o ato político por excelência do radicalismo, é a sua condição fundamental de existência. É a invasão da indecisão pelo discurso decisivo, da indiferença pelas grandes certezas, do medo pela segurança, da cobardia pelas verdades absolutas — da madeira velha pelo caruncho. Isso nos explicaram The Wall, O Conformista e tantas outras obras, da ficção à ciência política, de vários tempos. Mas não nos explicaram tudo, porquanto parte do nosso tempo a nós cabe interpretar. O isolamento, a distância, a ausência de empatia, a incompreensão, o erguer dos muros sempre lá estiveram, disponíveis como sempre, à espera dos vermes; preciso é dizer, mais do que nunca, quem os libertou. Ou então as palavras de Jonas Mekas: «No fim, as civilizações morrem porque ouvem os seus políticos e não os seus poetas.»
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O Teatro é Necessário? MAFALDA CARVALHAL
O Teatro é necessário? É curioso como uma questão tão descomplicada nos parece tão difícil de responder dentro do espetro delimitado pela afirmação e negação total. Esta dificuldade provém da falta de um significado claro das palavras que integram a pergunta ou, num outro olhar, de um horizonte plural do mesmo. Desde os primórdios da humanidade, tornou-se indispensável catalogar, fragmentar e rotular, pelo que tudo e todos se submeteram a definições, sejam elas científicas, psíquicas ou de qualquer outra ordem. No entanto, perante a constante mudança a que estamos sujeitos atualmente, esta ação, que radica de certo modo numa necessidade, tem-se tornado mais difícil. Falemos de Teatro, para uma melhor ilustração. Afinal o que é o Teatro? No seu sentido original, o “local onde se vê” (Theatron), é o lugar no qual se representam obras dramáticas, dramáticas, ou se dão espetáculos. Contudo, o Teatro tem outras aceções. Define-se, tradicionalmente, como a arte de pôr em cena um texto dramático. Para Peter Brook (1991), é uma outra vida, mais visível e legível porque concentra, num espaço e tempo reduzido, uma variedade de acontecimentos de relevo, sendo a peça fulcral a matéria humana. Michel Corvin (1991) diz-nos que é um simulacro, Antonin Artaud (1938) que é um delírio. Salienta-se, então, uma diluição das fronteiras artísticas, que resulta numa maior dificuldade em categorizar este domínio tão amplo. O Teatro é parte integrante da identidade nacional. Possui um inestimável valor cultural. Vários edifícios como o Teatro Garcia de Resende e o Éden-Teatro são classificados como Imóveis de Interesse Público, do mesmo modo que o Teatro Nacional São João e o Teatro Nacional Dona Maria II são monumentos nacionais. O Teatro vive, muitas vezes, na história da nação através da procura da novidade no conhecido e no desconhecido, na exposição de novas correntes de pensamento e no retorno a realidades que ainda permanecem presentes nos dias de hoje. Concomitantemente, expande-se por uma longa cronologia, transmitindo as inquietações, reflexões e impulsos de uma sociedade que se envolve numa continuidade cíclica. Como diz Pedro Barbosa no seu livro “Teoria do Teatro Moderno”: «Há uma lei que diz que a história nunca se repete duas vezes da mesma maneira. E uma outra lei (será a mesma?) diz que a História ciclicamente se repete». Por outro lado, devemos ter em conta a relevância do Teatro na mudança social e no progresso da sociedade. Em 2015, a NPR (National Public Radio) transmitiu um debate que tinha como mote a problemática da aquiescência de entrada de refugiados sírios nos Estados Unidos. Nesse debate fez-se referência ao facto da família de Anne Frank não ter recebido permissão para viver no país, fazendo a ponte entre a realidade atual e a de há quase 100 anos. Isto levou Amy Fritsche, atriz e professora assistente da renomada Kent State University, a pôr em palco "Irena 's Vow”, uma peça teatral sobre uma enfermeira polaca que salva 12 judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Amy apaixonou-se por esta peça e decidiu representá-la no sentido de alertar o público sobre situações atuais como o próprio mais
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caso dos refugiados sírios. Por sua vez, os “Monólogos da Vagina” (1996) de Eve Ensler angariaram mais de 17 milhões de dólares para uma organização que luta contra a violência contra as mulheres. Bertolt Brecht, um dos maiores dramaturgos do século XX, explica que o principal objetivo do Teatro não é entreter e evocar emoções, mas sim transmitir a mensagem pretendida e levar o público a refletir e a tomar ação, deixando o espectador de ser passivo. No âmbito pedagógico, o Teatro promove o desenvolvimento de uma multitude de apetências: a imaginação, a concentração, a confiança, a memorização, o espírito crítico, assim como a comunicação e a coesão social, na medida em que estimula o desenvolvimento de valores e práticas que permitem aos membros de uma comunidade acompanhar a intensa mudança dos dias de hoje. A sua incorporação na educação dos mais jovens é indubitavelmente benéfica até porque o Teatro é, por excelência, uma atividade coletiva que se pode desenrolar em qualquer ambiente, convencional ou não-convencional, e que depende primordialmente da voz e do corpo. Vários autores tecem duras críticas relativamente à capacidade da escola formar indivíduos mais críticos, reflexivos e emancipados, argumentando que esta instituição parece estar mais ao serviço de um sistema que apenas tem em vista a produtividade e competição, ao invés de procurar promover a cooperação e o desenvolvimento das competências pessoais e sociais dos seus alunos. É de referir que o Orçamento de Estado para a cultura (e não nos esqueçamos que este inclui não só o teatro, mas o cinema, a música, a arqueologia, entre outros) é inferior a 1%. Trata-se de uma suborçamentação considerável, até porque o Teatro dificilmente vive sem investimento público e sem ancoradouro da sociedade, dependendo dos vários concursos de apoios a projetos como o da DGARTES, de patrocínios e, um pouco, da bilheteira. Por detrás de um espetáculo, encontram-se meses de trabalho, se a dita companhia tiver esse privilégio, por parte de toda a equipa técnica e criativa, que terão de ser remunerados. Com o surgimento do cinema e os preços consideravelmente altos dos bilhetes, o Teatro passou a ser frequentado por uma minoria. Porém devo dizer que, através de inquéritos aos espetáculos ao vivo, o Instituto Nacional de Estatística concluiu que a média do número de espectadores por cada exibição de teatro tem aumentado, pouco a pouco, desde o início do século XXI, pelo que atingiu os 134,7 em 2001 e 194,8 em 2017. Salienta-se, também, a pretensão do governo em dar primazia à «reestruturação do setor através de modelos orgânicos flexíveis e eficazes, desconcentração das competências de tutela patrimonial e de apoio à criação, estímulo do trabalho em rede entre a Administração Central e Local e entre os agentes públicos e a sociedade civil e redefinição das regras e procedimentos de concessão de apoios». Não obstante estes pontos, é clarividente que em Portugal há falta de escolas artísticas e abundância de impacientes crónicos. As escolas e as famílias regem-se por um sistema que não estimula o ensino cultural como devia. A carência de projetos criativos, de eventos culturais e de construtores de arte provém da falta de consumidores, do incentivo da população mais jovem a desenvolver sensibilidade artística. Neste sentido, passo a citar um excerto da mensagem do Dia Mundial do Teatro de Sabina Berman (2018): «o teatro - que exige a presença de seres humanos diante de outros seres humanos - é maravilhosamente adequado à tarefa de nos salvar de nos tornarmos algoritmos. Abstrações puras.». A necessidade do Teatro é fruto da sensibilidade artística de que tanto carece a população portuguesa, e que espera ser cultivada no futuro, onde não haja falta de decisores políticos, de investimento e de uma sociedade que vê a cultura como um bem essencial.
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CULTURA | MÚSICA
Z.E.N. TRIO INÊS PINHEIRO
O nome deste grupo - Z.E.N. Trio - encerra dois significados, por um lado, Z.E.N. é um acrónimo formado com as iniciais dos nomes dos três músicos: a pianista Zhang Zuo, a violinista Esther Yoo e o violoncelista Narek Hakhnazaryan. Simultaneamente, zen é a filosofia com que o trio se entrega à música, em particular a música de câmara. Os três músicos são amigos, e essa proximidade é, certamente, um elo que torna aquilo que criam tão ímpar, e em perfeita união. De forma arrojada, mas sem nunca perder a harmonia, os Z.E.N. Trio conseguem dar-nos uma música clássica diferente, com elegância e paixão, transparecendo a coesão intrínseca do grupo. A sua obra dispensa palavras, tudo o que querem dizer está na sua melodia. Até à data, os Z.E.N. Trio contam com dois álbuns lançados. O primeiro, de 2017, é Brahms and Dvořák Piano Trios. O segundo, de 2020, é Burning Through The Cold. Neste último, o repertório é marcadamente russo e arménio, contando com compositores como Arno Babajanian e Dmitri Shostakovich. Sublinho a transição final, da penúltima para a última faixa. Estamos na Dança do Sabre, o último acto do ballet de Aram Khachaturian - Gayane (1942), que se trata de um movimento rápido e serpenteante. Terminamos a Dança, não com exagero, extasiados e ainda levados pelo crescendo deste arranjo de Ruben Asatryan. Com alguns segundos de silêncio, somos levados a atravessar pouco mais de 6 minutos de uma acalmia triste e bela, pela mão do arranjo de Gayane Hakhnazaryan, a mãe do violoncelista Narek, trata-se de Vocalise, Op. 34, No. 14 de Rachmaninoff. Finalizo notando que, ironicamente, nenhum dos álbuns é propriamente zen. Mas a inquietação com que ficamos é desafiante e curiosamente relaxante. Resta, portanto, ouvir e desfrutar!e
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CULTURA | CINEMA
SOUL: O PRIMEIRO FILME PIXAR COM UM PROTAGONISTA NEGRO JÉNI BARRETO
Título: Soul - Uma Aventura com Alma Realização: Pete Docter e Kemp Powers Argumento: Pete Docter, Mike Jones e Kemp Powers Elenco original: Jamie Foxx, Tina Fey, Graham Norton Género: Animação, Comédia, Aventura Duração: 100 min. Data de estreia: 25 de Dezembro de 2020 (Portugal) Disponível em: Disney +
A nova aposta da Disney-Pixar tem sido alvo de bastantes críticas positivas, por parte da comunidade de fãs, por apresentar características únicas que a distinguem de todos os filmes já realizados. No entanto, foram também tecidas observações mais negativas. A título individual, podemos ver, por exemplo, como Luísa Semedo e Marco Mendonça foram duas das pessoas que mostraram a sua opinião relativamente ao filme, no Facebook. Referiram que a intenção evidente de criar uma personagem negra e de lhe dar voz através de uma ator negro não foi uma questão sensível em Portugal, embora tenha sido em países como a França, o Canadá, o Brasil ou os Países Baixos. «Todas as personagens do filme, incluindo as personagens negras, foram dobradas por atores e atrizes brancos e brancas. Bem sei que se trata de um filme de animação, e que as vozes nem sempre têm de corresponder às caras, mas fiquei a pensar: quando as personagens são brancas, também acontece serem atores e atrizes negras a dobrar? Não.», escreveu Marco numa publicação na sua conta de Instagram. Na minha opinião, o avanço que se realizou ao apresentar um filme com um protagonista negro e o cuidado que se prestou ao realizar dobragens com atores que conseguem compreender esta inovação de um modo mais pessoal, não foi respeitado em Portugal. Em grande parte, este desrespeito, além de para com os atores, verifica-se também no caso do realizador e argumentista que conferiu a sua visão para o filme explorando o universo da música Jazz (que foi inicialmente desenvolvido em Nova Orleães pelas comunidades negras) e da família de Joe, o protagonista do filme, que sempre esteve ligada à música, chegando a passar dificuldades para manter o sonho vivo.
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CULTURA | CINEMA
O protagonista vive uma dicotomia entre o que faz e o que gostaria de fazer, no fundo, entre o que é e o que pretende ser, explorando temas como o Destino e o Acaso. Sendo professor de música jazz, Joe, sempre sonhou com o próximo passo da sua carreira mas nunca o conseguiu ver realizado, até que lhe chega a oportunidade de atingir o seu sonho. Curiosamente, quando está prestes a fazê-lo, embarca numa viagem espiritual onde compreende que não viveu a sua vida valorizando as coisas boas que continha, mas sempre atrás de algo mais. Dizem que o mais bonito de uma viagem não é destino, mas sim a viagem em si. Joe teve uma viagem rodeada de momentos e pessoas boas que nunca compreendeu, porque acreditava que a felicidade só chegaria quando cumprisse a sua “missão”. Na sua viagem espiritual, Joe conhece uma alma que nunca chegou ao ponto de se conhecer o suficiente, tentando diversos caminhos mas nunca sentindo que fosse o seu. Esta alma, denominada 22, sofre com as inseguranças e palavras dos seus mentores, explorando a maneira como a pressão de escolher um caminho pode levar a uma confusão de sentimentos, auto-estima baixa e julgamentos desmedidos. Do ponto de vista técnico, a animação foi feita de uma maneira soberba. Os pormenores gráficos permitem-nos avaliar a cor do submundo, as formas e feições das personagens estão cuidadosamente retratadas e o ambiente da cidade foi conseguido na perfeição. A banda sonora faz jus ao histórico do Jazz, apresenta um gênero desconhecido e por vezes desvalorizado, com uma beleza e complexidade imensas. O filme, que estreou no dia 25 de dezembro e que impressionou grande parte dos fãs de filmes de animação, conta com a voz de Jorge Mourato (que é Jamie Foxx), José Nobre (Donnell Rawlings), Pedro Penas (Angela Bassett) ou Pedro Leitão (Daveed Diggs).
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CULTURA | LITERATURA
200 ANOS DE DOSTOIÉVSKI PARTE I INÊS PINHEIRO
Fiódor Mikhailovich Dostoiévski foi um escritor russo, aclamado pelos seus romances e contos. A escrita de Dostoiévski é única, pois tem a capacidade de penetrar nos recantos mais sombrios da natureza humana, enquanto, paradoxalmente, se enche de luz e de esperança. O dualismo metafórico entre escuro-claro, tornou o escritor uma das figuras mais influentes nas correntes literárias suas contemporâneas e mesmo naquelas que o precederam. É de tal forma um vulto marcante, que a sua relevância se estende para além da literatura, pois mesmo áreas como a teologia e a psicologia se socorrem das ideias do escritor. Fiódor Dostoiévski nasceu a 11 de Novembro de 1821 (30 de Outubro no Calendário Juliano, adotado à época pelo Império Russo), em Moscovo. Assim, neste novo 2021 assinalam-se os 200 anos do nascimento de um dos maiores nomes da literatura universal. Celebraremos este marco ao longo deste ano, contando com referências selecionadas das obras de Dostoiévski, às quais se somarão reflexões sobre a sua escrita, o seu impacto, e a forma como a vida deste escritor russo influenciou o pensamento mundial. Iniciaremos o nosso périplo pelo legado de Dostoiévski com uma sugestão de leitura, quiçá menos conhecida: Noites Brancas, publicado pela primeira vez em 1848. As Noites Brancas de Dostoiévski são aquelas noites belas e singulares, que nos impelem a passear pelas ruas e que nos enlevam por quase não haver uma ruptura entre claro e escuro. No fundo, o dia continua, de forma harmoniosa, pela noite dentro. Atualmente, não podemos vivê-las na sua plenitude, mas a nossa imaginação consegue estar lá. É precisamente neste mundo irreal que o narrador habita, sendo que graças às noites brancas sonhadores como ele podem materializar o que apenas havia reinado na sua imaginação, pois são momentos únicos que tornam real o amor que a mente cria. Este pequeno livro lê-se de uma assentada, e não se presta propriamente às críticas sociais que encontramos noutras obras de Dostoiévski. O mote desta obra é o romantismo fugaz, que se nos atravessa e rapidamente se esvanece. O livro está dividido em quatro noites e uma única manhã, acompanhando o amor do Sonhador, personificação do autor. Esta personagem, um idealista, é descrito como alguém que vive sozinho com os seus sonhos, o que torna a sua existência melancólica e triste, pois não consegue ser feliz sem um amor verdadeiro.
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CULTURA | LITERATURA
O Sonhador conhece todos os recantos de São Petersburgo. É mais próximo dos esconderijos do que dos habitantes desta cidade, pois é nos lugares mais recônditos que nascem magníficos cenários, que alimentam a sua prolífica imaginação. Numa noite branca, o Sonhador encontra a jovem Nástenka a chorar à beira rio. O cavalheirismo do primeiro abre portas à amizade e daí evolui para um amor quase celestial. Toda a história se desenrola, maioritariamente, a dois, com apenas mais duas personagens secundárias. A rapidez da ação, inevitável e necessária, é um espelho da efemeridade das noites brancas e dos sonhosreais que não podem durar para sempre. Enquanto lemos, sentimos o tempo a esgotar-se e o final fatídico a aproximar-se, mas esse não será aqui revelado… As Noites Brancas conheceram uma nova edição, em Maio do ano passado, pela mão da Relógio D’Água e com tradução directa do russo, por António Pescada. Esta editora já publicou um número considerável de obras de escritores russos, contando Dostoiévski com 10 delas. Para 2021, antevê-se o lançamento de "Recordações da Casa dos Mortos”, pelo mesmo tradutor. Em celebração dos 200 anos de Dostoiévski, a editorial Presença publicará 10 obras deste escritor, tratando-se de re-edições com traduções feitas também a partir do russo, por Nina Guerra e Filipe Guerra. Manter-nos-emos atentos a estas novidades, ficando desde já a lembrança e recomendação, para preencher os nossos tempos em casa com um pouco de literatura russa!
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CULTURA | VIDEOJOGOS
STARDEW VALLEY BEATRIZ MATEUS
Stardew Valley é um jogo de simulação criado por Eric Barone, mais conhecido por ConcernedApe, em 2016, jogo que inicialmente foi completamente desenvolvido pelo próprio Barone. O Stardew Valley inicia-se com o falecimento do avô da personagem principal, que lhe deixa uma quinta numa vila remota, para onde a personagem se muda quando se cansa da vida na cidade. O jogo em si não tem objetivos fixos, e as “missões” são mais uma forma de tutorial do que um meio para atingir uma vitória tradicional. Existem várias formas de jogar o jogo, sendo agricultor, pescador e mineiro apenas algumas delas, no entanto o jogador pode até mesmo fazer tudo ao mesmo tempo. Este jogo tem também a possibilidade de ser jogado por até 4 jogadores em simultâneo que partilhem uma quinta, ou que são convidados para a quinta de um dos jogadores. A razão pela qual o jogo se tornou ,logo em 2016, um êxito foi a calma e versatilidade do mesmo Como não há prazos a cumprir ou regras rígidas, é um mundo que espera por nós sem verdadeiros males. Como jogadora, posso dizer que o pior é mesmo a JojaCorp e mesmo eles são facilmente derrotados. Neste contexto pandémico, Barone agracia os jogadores com uma das maiores atualizações do Stardew Valley até à data: a atualização 1.5, que para além das habituais melhorias de qualidade nos traz novos NPC’s, novos itens, novas sementes, novos colecionáveis, novas missões, entre muitos outros. E falando em pandemia, sendo este um jogo que pode ser jogado com amigos, recomendo convidarem alguns e experimentarem esta aventura todos juntos. Fecho dizendo que se ainda não deram uma vista de olhos a este jogo, tentem, não se vão arrepender, farão imensos novos amigos em Stardew Valley.
Receitas
Diana Neves
Massa com Camarão, Tomate, Natas e Cebolinho
INGREDIENTES
1 embalagem de miolo de camarão cozido 300 g de massa fusilli Sal e pimenta preta q.b. 200 ml de natas 200 ml de polpa de tomate Queijo parmesão ralado q.b. Cebolinho fresco q.b.
1. Descongelar o miolo de camarão. 2. Cozer a massa em água, temperando com sal a gosto, e quando estiver pronta deixar escorrer a água num escorredor próprio. 3. Juntar as natas com a polpa de tomate e envolver bem deixando cozinhar por cinco minutos, acrescentando a massa ao molho. À medida que se mistura, temperar com pimenta preta. 4. Por fim, juntar o miolo de camarão e misturar, já com o fogão desligado. 5. Polvilhar a gosto com queijo parmesão ralado e cebolinho fresco picado.
P R E P A R A Ç Ã O
Feijoada vegan prática sem tofu
INGREDIENTES
1 cebola picada 3 cenouras em rodelas 1 courgette em cubos 200 g de cogumelos frescos laminados 400 g de feijão vermelho cozido 1 lata grande de tomate pelado 2 copos de vinho branco Sal grosso e pimenta q.b. Coentros frescos q.b. 1 fio de azeite 1/2 malagueta picada)
P R E P A R A Ç Ã O
1. Colocar um fio de azeite num tacho em lume brando e deixar aquecer. Logo de seguida, refogar com a cebola picada até esta ficar transparente. 2. Cortar a cenoura e a courgette e adicionálas ao tacho. 3. Juntar o vinho branco e a polpa de tomate, envolver, tapar o tacho e deixar cozinhar em lume médio por 10 minutos. 4. Juntar o feijão e os cogumelos, temperando com sal, pimenta e coentros a gosto. 5. Tapar o tacho e deixar cozinhar por 20 minutos. 6. Servir com arroz ou batatas cozidas, por exemplo.
Para passares o tempo...
Vertical:
1. Peixe mais abundante nas zonas fluviais de cascata, onde as águas são revoltas e bem oxigenadas. 3. Antepassados reptilários das aves atuais. 4. Sofreste um acidente grave! Se tiveres este tipo sanguíneo, estás safo de certeza (és recetor universal).
Horizontal:
2. Na escala musical original, inventada pelo monge Guido d'Arezzo no séc. XI, a nota "Dó" tinha outro nome. Qual? 3. A escala geológica de Mohs classifica os vários minerais em termos de ... 5. Avião com duas estruturas alares dispostas uma por cima da outra (visão comum no início do século XX). 6. O hino francês intitula-se “La ... ” 7. Planeta do sistema solar com maior diâmetro.