NOVA em Folha o jornal da aefcsh. novembro 2021
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NOVA em Folha o jornal da aefcsh.
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Índice novembro 2021
Notícias 1 2 3 4 5 8
AE em Folha - Vasco Martins Novidades FCSH - João Martins Outubro em Resumo - Equipa de Notícias Internet em Resumo - Beatriz Mateus O luxo de não cumprir - Manuel Pinto Domesticação de animais e plantas. Impacto nas comunidades. - NARQ
Crónicas 9 12 13 14 16
Um Espírito em Falta - Michelle Caldeira O dia mundial de quem quer ser quem não é - Rita Coutinho Como um malmequer - Catarina Aires (@romanceeada) A descolonização intelectual esquecida depois da Revolução dos Cravos - Fatumata Djabula Avó - Diana Neves
Poesia 17 18 19 20 21
A minha alma não se apaga - joana (só) Inquietação - Tomás Girão Acredita - C. L. Perda de Tempo - João Martins 15. / 18. - Bia Jesus
Cultura e Lazer 25 27 31 32
Agenda Cultural: Novembro - Ana Catarina Tiago e Mafalda Carvalhal Para onde nos leva a Revolução Digital? - Diana Neves Macarrão de Atum c/Molho de Tomate - Diana Neves Para passares o tempo...
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NOVA EM FOLHA
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NOTÍCIAS | AEFCSH
O último mês de Outubro foi marcado, na nossa faculdade, pelo arranque de um novo ano lectivo com uma nova configuração – a tão ansiada retoma do ensino presencial. Ainda na primeira semana de aulas – de 27 de Setembro a 1 de Outubro – a AEFCSH participou VASCO MARTINS na recepção aos caloiros com a sua banca no pátio do campus de Berna, garantindo informações essenciais sobre a associação e a FCSH aos inovos alunos, e distribuindo, entre estes, kits de boas-vindas ao ensino superior e a esta nova fase da sua vida. lJá na segunda semana do semestre – de 4 a 8 de Outubro – foi realizada a V Feira de Núcleos, com a presença dos diversos núcleos e outros grupos de estudantes da nossa faculdade, funcionando não só como forma de expor o trabalho desenvolvido por estes organismos – tendo como central a importância da sua divulgação junto dos caloiros –, como também servindo de exemplo da ampla experiência participativa e democrática desenvolvida pelos estudantes da FCSH. Ainda durante este mês, retomamos as Jornadas da Saúde Mental no Ensino Superior para este novo ano lectivo, não só divulgando a calendarização prevista para o primeiro semestre, como também realizando, no dia 20 de Outubro, a sua primeira edição, sob o mote “Desporto e Saúde Mental no Ensino Superior”, com a participação da NOVA Desporto, já numa modalidade presencial. De notar que, após um ano lectivo atribulado e marcado pelo ensino online e pela degradação – que tanto alertamos – da saúde mental dos estudantes, consideramos estas sessões importantes pela sua aplicação prática no dia-a-dia da vida dos alunos do ensino superior. Já no dia 18 de Outubro, a AEFCSH realizou uma conversa com Maria Silva, para que ela nos falasse – numa live na nossa página de Instagram – sobre o que faz e qual o papel da Ciência Aberta, iniciativa na qual participa, nomeadamente ao nível da partilha do conhecimento científico com a comunidade e da divulgação do impacto social e económico que a ciência tem nos dias que correm. Para a semana de 18 a 23 de Outubro, a AEFCSH retomou a realização das suas semanas temáticas, desta feita com a Semana do Desporto, que implicou não só a já referida edição das Jornadas da Saúde Mental debruçada sobre o tema, como também uma planificação de um conjunto de quatro Torneios abertos à comunidade estudantil – de Futsal (dia 18), de Xadrez (dia 19), de FIFA22 (dia 19), de Ping-Pong (dia 21). Esta semana serviu não só para marcar a importância do desporto e de uma vida activa e saudável para todas as pessoas e, em particular, para os estudantes, como também foi importante para realçar a centralidade da Cultura e do Lazer na vida de todos os alunos que, não podendo apenas focar-se nos estudos e nas aulas, devem ter uma relevante componente recreativa que a AEFCSH sempre defendeu. De notar ainda, entre as iniciativas dinamizadas pela associação, a realização de um novo Workshop de Ferramentas Académicas, iniciado a 25 de Outubro, sobre “Pós-Produção Audiovisual com DaVinci Resolve 17”, sob a condução do nosso colega João Leiria. Já no dia 28 de Outubro, foi realizada uma Reunião Geral de Alunos e Alunas (RGA) Extraordinária, onde, além de terem sido aprovados os Estatutos do Núcleo de Alunos de Línguas, Literaturas e Tradução e do Núcleo de História de Arte, pudemos, por um lado, ouvir um pouco do trabalho realizado pelos representantes estudantis nos órgãos da faculdade e, por outro, fazer um balanço do início deste ano lectivo 2021-2022, dando lugar a que todos os estudantes que o quisessem procedessem a essa avaliação. Ainda um dia antes, a 27 de Outubro, e finalizando o mês, a AEFCSH realizou, no pátio do campus de Berna, uma acção de protesto sob o mote “Devolvam-nos a Faculdade!”. Se o que nos motivou a convocar esta acção se prendeu, no plano dos problemas concretos, por um lado, com um conjunto de problemas e situações que fomos recolhendo ao longo do mês (de que são exemplo turmas cujos alunos têm de permanecer em pé, pois não há lugar para se sentarem), e, por outro com a crescente limitação, por parte da Direcção da FCSH, do uso do nosso campus na sua plenitude, em todas as suas vertentes incluindo a Cultura e o Lazer – e não só para aulas e estudo –, a AEFCSH sabe que nenhuma destas questões se verificaria não fossem os problemas estruturais do ensino superior. Não fosse o subfinanciamento das nossas instituições (e o seu associado Regime Fundacional, adoptado na Universidade Nova). Não fosse a falta de participação dos estudantes nas decisões e nos órgãos de governo que as tomam nas faculdades. Não fosse a existência de um Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior limitativo da democracia nas universidades e faculdades que dá enquadramento legal a toda uma série de decisões e processos que consideramos injustos, arbitrários e pouco (senão, anti-) democráticos. Como pudemos afirmar na convocatória para esta acção de protesto, lutamos porque sabemos que não há outra resposta senão a luta. Não só para problema A ou B da nossa faculdade, mas por todos os problemas estruturais, arrastados há anos e há décadas, do nosso ensino superior. Lutámos porque sabemos que só com a luta é que conseguiríamos fazer-nos ouvir e reclamar que nos devolvessem a faculdade – seja no plano concreto do nosso campus, seja na concretização do tão desejado Ensino Superior verdadeiramente Público, Democrático, Gratuito e de Qualidade. E os estudantes da FCSH, reconhecendo nos nossos apelos a justa representação dos seus anseios, souberam cumprir o lema “uma faculdade que luta” e participaram activa, massiva e alegremente nesta acção, fechando com luta este mês de Outubro, e abrindo com luta este novo ano lectivo.
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NOTÍCIAS
novidades fcsh João Martins (adaptação) Jornadas de Saúde Mental
As Jornadas de Saúde Mental estão de regresso este semestre! Vem saber mais sobre Síndrome do Impostor no dia 17 de Novembro, às 16h, ou sobre o Voluntariado no Ensino Superior (com a Dra. Edite Oliveira do SASNOVA) no dia 9 de Dezembro, às 16h. As salas em que decorrerão os eventos serão divulgadas em breve (fica atent@ às redes sociais da AEFCSH)! Literatura Escrita por Mulheres
O V Ciclo Literatura Escrita por Mulheres prossegue com a conferência “A sonda do tempo salazarista nas crónicas de Irene Lisboa”, por Carina Infante do Carmo (Universidade do Algarve e Universidade de Lisboa). Este ciclo é uma co-organização do CHAM – Centro de Humanidades e da Biblioteca Nacional. Contando com eventos até maio de 2022, a programação completa está disponível em: https://cicloliteraturaescritapormulheres.weebly.com/ Chamada(s) para Artigos!
Interessad@ em ver o teu trabalho publicado? São várias as revistas académicas em que podes participar! Damos-te a conhecer algumas calls for papers que estarão a decorrer até 31 de dezembro, convidando-te a consultar os diversos regulamentos no site da faculdade A revista Forum Sociológico convida a comunidade FCSH a submeter artigos científicos sobre diversas matérias das Ciências Sociais, além de dossiês temáticos e recensões críticas de obras relevantes. A revista Face de Eva. Estudos sobre a Mulher lança um convite semelhante a investigadoras e investigadores na área dos Estudos sobre as Mulheres, Estudos Feministas e Estudos de Género. Em ambos os casos, as contribuições serão sujeitas a peer review, e aceitam-se propostas em língua portuguesa, francesa, inglesa e espanhola. Esta chamada está aberta em permanência e as propostas a serem consideradas deverão ser enviadas para: forum@fcsh.unl.pt ou facesdeeva@fcsh.unl.pt. Mais informações em: https://journals.openedition.org/sociologico/ http://www.scielo.mec.pt/revistas/eva/pinstruc.htm
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NOTÍCIAS
outubro em resumo Guilherme Machado, João Martins e Manuel Pinto
4 - VULCÃO DE LA PALMA COLAPSA
Fez, no dia 19 de outubro, um mês desde que o vulcão Cumbre Vieja, na ilha de La Palma, entrou em erupção, estando até hoje em forte atividade. Vários fluxos de lava e colapsos parciais do cone do vulcão têm posto em risco habitações, vias de acesso e a respirabilidade da ilha. A intensa atividade sísmica e a imprevisibilidade dos fluxos de lava têm levado à evacuação de várias zonas habitacionais. À semelhança do que aconteceu na erupção de 1949, o contacto da lava com a água do mar tem criado uma fajã na costa, cujas dimensões continuam a aumentar de dia para dia. 17 - OPOSIÇÃO UNIDA A ORBÁN
A vitória da oposição unida na Câmara Municipal de Budapeste em 2019 fez florescer a crença na cooperação como forma de derrubar o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, nas eleições legislativas de 2022. Para tal, a oposição unida organizou primárias, nas quais venceu Péter Márki-Zay, conservador católico, sob o desígnio de inverter a constituição de Orbán e todas as suas iniciativas no sentido de tornar a Hungria uma “democracia iliberal”. A escolha tem sido louvada, pois o Fidész terá mais dificuldades em atacar um inexperiente político, católico, pai de sete filhos e conservador, do que a candidata do centro-esquerda, mulher do ex-primeiro-ministro associado à crise financeira de 2008. De facto, as sondagens apontam um empate técnico entre Fidész e a oposição unida. É a primeira vez que existe oposição séria a Orbán desde a sua super vitória de 2010. 20 - PRÉMIO CAMÕES 2021
A escritora moçambicana Paulina Chiziane venceu a 33ª edição do maior prémio literário da Língua Portuguesa (totalizando 100.000 €), tendo sido escolhida unanimemente pelo júri. Depois de José Craveirinha (1991) e Mia Couto (2013), este é o terceiro Prémio Camões que vai para Moçambique, mas o primeiro atribuído a uma mulher africana. Para aquela que foi a primeira autora a publicar um romance no seu país (Balada de Amor ao Vento, 1990), este galardão é dedicado aos seus conterrâneos - “Eu nunca falei, nos livros, na minha voz pessoal. Mesmo nos livros em que escrevo na primeira pessoa eu estou a trazer a voz coletiva. Portanto, é todo um povo que é agraciado por este grande prémio”. 20 - COMISSÃO PARLAMENTAR INDICIA BOLSONARO
Foi publicado o aguardado relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito à gestão, por parte do executivo brasileiro, da pandemia. Após seis meses de trabalho, a comissão avança com uma acusação de nove crimes, que perfazem um total de mais de 100 anos de prisão. Desde incompatibilidade com a dignidade do cargo à violação de direitos sociais, à incitação ao crime e falsificação de documentos. No entanto, o mais grave é a ingerência do governo na pandemia, durante a qual foi estimulada a manutenção duma vida normal através do uso de medicamentos como a cloroquina. A comissão estima que medidas efetivas de isolamento poderiam ter salvo 120 mil pessoas das mais de 600 mil que já sucumbiram à doença no Brasil. Fontes: RTP, JN, Euronews, Euronews, Público, Il Manifesto, Human Rights Watch, Financial Times, Expresso, Reuters, Observador, Insider Imagens (por ordem): Reuters, BBC, Comunidades Lusófonas, CNN Brasil, Público, Human Rights Watch, SMOSH Wiki, XDA, Breezy Scroll
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NOTÍCIAS
PANDORA PAPERS
As grandes multinacionais e milionários modernos utilizam uma complexa estrutura empresarial, com empresas, holdings e fundos estrategicamente sediados em países com leis fiscais e de informação bancária particularmente fechadas de forma a reduzir os impostos pagos e a facilidade com que lhes pode ser imputada responsabilidade legal em tribunal. Estas estruturas não são ilegais per se, exceto quando utilizadas para estes fins. No entanto, não há forma de verificar essa ilegalidade devido ao controlo que os “paraísos fiscais” detêm sobre essas informações. É aqui que entra o papel do jornalismo de investigação, pois, ao expô-las, permite um escrutínio público sobre as motivações destas estruturas fiscais. Os Pandora Papers, divulgados no início do mês de outubro, contribuem para a liberdade de informação e o combate à corrupção e fuga ao fisco, ao indicarem centenas de beneficiários de contas, fundos e empresas sediadas nesses países. MULHERES NO AFEGANISTÃO
A condição feminina tem sofrido graves retrocessos no Emirado Islâmico do Afeganistão, estabelecido pelos Talibã. Praticamente todas as funcionárias públicas foram mandadas ficar em casa para sua segurança, ao passo que alunas e professoras foram retiradas das escolas secundárias e universidades. O desporto feminino foi banido, com consequências diretas sobre as praticantes, como a decapitação de Mahjabin Hakimi, atleta da seleção nacional de voleibol. A rede civil e judicial de apoio às mulheres vítimas de violência está a ser desmantelada e a sede do extinto Ministério dos Assuntos das Mulheres foi entregue ao Ministério da Virtude e Vício, responsável pela lei islâmica (sharia). A saúde de cada mulher também está em risco, pois frequentar uma consulta requer um acompanhante masculino e uma profissional de saúde feminina. Várias mulheres têm-se unido para protestar em prol dos seus direitos, vigiadas por talibãs que as insultam, disparam tiros para o ar ou usam gás lacrimogéneo, quando não as removem do local pela força, bem como aos jornalistas que registam a ocorrência. Neste contexto, multiplicam-se os apelos de ativistas afegãs e mundiais para que o novo governo de Kabul não seja acolhido pelas Nações Unidas, embora os Talibã já tenham designado um representante com o intuito de obterem o reconhecimento internacional que lhes permitiria aceder a 9 mil milhões de fundos soberanos congelados.
internet em resumo Sprinklegate
Beatriz Mateus
Este insólito caso foi protagonizado por um pasteleiro inglês, após ser proibido de usar decorações de origem americana nos seus bolos por conterem ingredientes banidos na Europa. A este protesto, o pasteleiro chamou Sprinklegate na rede social Twitter. Deixou inclusive de fazer algumas das suas mais icónicas sobremesas por sentir que perdeu a inspiração face às decorações aborrecidas legais no Reino Unido. Os converters de mp3 do Youtube deixaram de funcionar este mês
Uma atualização recente do Youtube inutilizou os softwares que permitiam aos utilizadores fazer downloads de áudios de vídeos disponíveis na rede social. No entanto, os responsáveis da mesma decidiram que esta seria uma atualização importante, por tais práticas serem consideradas uma quebra das leis de proteção de direitos de autor. Os indivíduos por trás das plataformas clandestinas tentam agora dar a volta a esta nova atualização. Estará o Facebook a considerar uma mudança de nome?
O metaverse (realidade virtual como forma de viver e comunicar completamente digital) ganhou uma maior importância graças ao isolamento causado pela pandemia. Com um medo cada vez maior dos investidores da Facebook face à diminuição de inscritos nesta rede social, que parece estar a morrer, surge agora um grande interesse em renomear a mesma, tal como em alterar o modo como os seus utilizadores comunicam.
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NOTÍCIAS
O LUXO DE NÃO CUMPRIR MANUEL PINTO c/contribuição de João Martins e Francisco Nunes
“Assistimos novamente aos frutos da penetração do partido do governo (o PiS - Lei e Justiça) no estado polaco e em particular no ramo judicial. (...) A União Europeia não se pode dar ao luxo de não cumprir nem fazer cumprir os nossos valores mais fundamentais inscritos nos tratados da UE” llA construção, num plano social-moral, duma consciência europeia tem a sua origem numa série de fatores comuns, como a herança greco-romana, a matriz moral cristã, a expansão ultramarina e formação de impérios coloniais, e o fracasso dos projetos unipessoais de hegemonia, de Napoleão a Hitler e Estaline. De facto, em modos gerais, podemos caracterizar as sociedades desde o Atlântico aos Urais pelos diferentes mecanismos de interação entre estes fatores (embora outros também existam).1 Efetivamente, a herança greco-romana (cultural mas também política, leia-se a reminiscência dum governo civil uno) e a partilha duma matriz cristã pela maioria da população contribuíram significativamente para a construção europeia no plano intelectual. Esta saiu reforçada pelo papel do “governo cristão” encabeçado pelo papa durante o feudalismo, visto como “chefe de uma vasta República Cristã” 2 que intervinha na política das monarquias com uma legitimidade indiscutível. No entanto, o desenvolvimento do Estado (de feudal a absoluto) e a divisão da igreja cristã quebraram esse papel interventivo, sem todavia terem afastado o reconhecimento tácito duma união moral dos povos europeus, o qual ressurgiria nos descobrimentos, quando todos se afirmaram herdeiros legítimos (povo escolhido) dos antigos imperadores “mundiais” romanos.
Nesta dialética entre a consciência coletiva europeia e a sua construção política efetiva, a força estatal e ideologias políticas a ela associadas (que se viram reforçadas ao longo dos séculos) levaram sempre a melhor. Não tendo nunca existido uma entidade política super partes capaz de regular os diferentes interesses dos estados europeus, essa tarefa foi sendo delegada tacitamente aos confrontos armados. Apenas no final da Segunda Guerra Mundial, derradeiro conflito no qual se lançaram, com custos brutais para a realidade material da Europa, as suas principais potências, é que estas compreenderam a urgência de uma maior cooperação. Afinal, urgia resolver os problemas de abastecimento e fornecimento de energia e matériasprimas necessárias para a reconstrução do Velho Continente, levando à sobreposição sustentada do supranacionalismo sobre o intergovernamentalismo. A 9 de maio de 1950, Schuman propôs a gestão conjunta do carvão e do aço franco-alemão por uma autoridade comum e independente, à qual outros países poderiam aderir para comprar e vender estes recursos num mercado comum. A proposta foi aceite pela 1 - Jean Carpentier y François Lebrun (dirs.), “Breve historia da Europa” (1992), Madrid, 1998 2 - Paulo de Pitta e Cunha, “Tentativas históricas de União Europeia” (1963), in Integração Europeia - Estudos de economia, política e direito comunitário, Lisboa, 1993, p.14.
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Alemanha e colheu a adesão da Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Itália. Estava criada a primeira Comunidade Europeia, a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Esta representou uma limitação do poder estatal, isto é, o estado já não era soberano para determinar, sozinho e egoisticamente, as taxas aduaneiras destes recursos. Poderia, na melhor das hipóteses, fazer pressão dentro do Conselho para que este tomasse decisões favoráveis conjuntamente com a alta autoridade da CECA. Este dispositivo restritivo da soberania estatal era necessário para manter toda a estrutura da organização funcional e assegurar a realização dos seus objetivos. No entanto, apesar do supranacionalismo estar associado à União Europeia, não quer dizer que a UE seja um organismo supranacional puro - não é! Um dos princípios fundamentais do funcionamento da UE é o da atribuição, isto é, a União só detém as competências que lhe sejam atribuídas pelos estados membros. Neste sentido são delimitadas entre competências exclusivas, partilhadas e auxiliares as matérias em que se autoriza a ação da UE. Esta optou, assim, por uma via pragmática entre o supranacionalismo e o intergovernamentalismo. Os tratados fundamentais da União reconhecem os limites ao âmbito de atuação das instituições europeias. Reconhecem a diversidade
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cultural e a identidade nacional. Reconhecem a soberania estatal e a possibilidade de saída da UE. Reconhecem o princípio da subsidiariedade, segundo o qual as decisões relativas a competências partilhadas devem ser tomadas no nível político mais baixo. Reconhecem o princípio da proporcionalidade, segundo o qual a ação comunitária para um determinado fim deve ser o menos intrusiva possível na soberania estatal. E reconhecem a necessidade do funcionamento colegial da Comissão. Todavia, há uma série de princípios fundamentais intrínsecos à UE, necessários para o seu funcionamento. Porventura os dois mais fundamentais formam o binómio Princípio do Primado - Princípio do Efeito Direto. Estes princípios referem-se à primazia do direito da UE sobre o direito nacional e a sua aplicabilidade direta nos tribunais nacionais em prol dos sujeitos individuais e coletivos. Estes princípios foram altamente escrutinados para concluir se o direito da União se constitui como direito constitucional próprio, ao que o Tribunal de Justiça da União Europeia respondeu afirmativamente nos mais variados casos. Foram, além disso, confirmados noutros tantos pelos Tribunais Constitucionais italiano, francês, alemão, entre outros. Este veredito não pode ser entendido pelo seu valor
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superficial, tem de se ter em conta o quadro de profundas tensões entre a União e a Polónia sobre os mais fundamentais valores europeus, como a liberdade de imprensa, independência dos tribunais e direitos sociais de minorias. Assistimos novamente aos frutos da penetração do partido do governo (o PiS - Lei e Justiça) no estado polaco e em particular no ramo judicial. Esta decisão perverte os conceitos jurídicos mais básicos da União. Resta-nos agora partir para a ação, pois não é admissível que um qualquer estado invoque a sua ordem jurídica nacional como força de bloqueio ao projeto europeu. Angela Merkel, por exemplo, respondeu à decisão instando ao diálogo. A meu ver, o diálogo deve claramente existir, mas diálogo não pode ser negociação. Têm-se ouvido vozes que apelam à aprovação do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) polaco do lado europeu, em troca da aceitação incondicional do direito europeu nas competências delegadas. Pois eu argumento que não se deve seguir este caminho. Seria abrir um precedente para, no futuro outros países (ou os mesmos) bloquearem a União, comprometendo os seus valores em troca de objetivos
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nacionais. Seria denegrir todos aqueles valores pelos quais tantos europeus lutaram durante décadas. Seria dar uma palmada nas costas aos proto-ditadores, que ainda têm os seus PRR congelados. A União Europeia não se pode dar ao luxo de recompensar estados desviantes, sob pena de ser ela mesma desviada dos seus valores fundamentais. A igualdade e liberdade, os direitos e garantias sociais, o estado de direito - são conquistas reais que só se puderam desenvolver plenamente e ser protegidas numa Europa em paz, que aprendeu com os erros do passado. De facto, tudo o que obtivemos até agora tem fundamento nas ideias definidoras da “civilização europeia”, ligadas à ciência, à rejeição da guerra, à inviolabilidade do sujeito individual, à democracia e fraternidade como condições para o progresso. Queremos ver renascer os tempos em que cada governo define à sua medida o que significa o estado de direito ou a democracia? A União Europeia não se pode dar ao luxo de não cumprir nem fazer cumprir os nossos valores mais fundamentais inscritos nos tratados da UE, aceites incondicionalmente pela Polónia e todos os estados-membros no seu momento de adesão.
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NOTÍCIAS | NÚCLEOS
Domesticação de animais e plantas. Impacto nas comunidades. NARQ
Antes de mais, é importante definir em que consiste a domesticação. Esta é um processo biológico no qual ocorrem mudanças a nível genético, físico e comportamental, quer de plantas quer de animais, à medida que estes se tornam reprodutivamente dependentes do ser humano. Comecemos, então, por tentar compreender onde surgiu, pela primeira vez, este fenómeno. É possível responder a esta questão através do estudo de diversos fatores: as respostas plásticas devido à mudança do estilo de vida; as mudanças a nível de idade e perfil sexual; o aparecimento de espécies características de uma zona em locais mais afastados; as mudanças na cultura material; entre outros. Do estudo dos mesmos, e como resposta, obtemos que a agricultura terá sido um processo criado durante o Holoceno e não em apenas um local. Pelo contrário, teve início em pelo menos sete regiões e épocas distintas, entre elas: Médio Oriente (9500-8000 a.C.); Leste dos Estados Unidos (2000-1000 a.C.); América do Sul (8000-6000 a.C.); Ásia Oriental (7000-6000 a.C.); Nova Guiné (7000-4000 a.C.); África Subsaariana e do Norte (5000-4000 a.C.); México Central (6000-5000 a.C.). Destas cronologias é importante ressalvar que muitos dos fatores que nos dão a entender que de facto houve um processo de domesticação surgiram centenas, ou mesmo milhares de anos após o início do processo. Como referido anteriormente, a domesticação, ou melhor, os primeiros indícios da mesma, surgiram durante o Holoceno. Este período teve uma série de características que o tornaram favorável a esta evolução, nomeadamente a melhoria do clima, a retirada dos glaciares (que veio abrir ao cultivo novos terrenos), o aumento de espécies vegetais… Todos estes fatores vêm contribuir para um estilo de vida menos duro e levaram a uma maior estabilidade por parte das populações, que acabam por investir mais nas construções das suas habitações, tornam-se grupos cada vez maiores, começam a assumir um estilo de vida “semi-nómada” e, mais tarde, sedentário. No entanto,
também podemos associar estas alterações ao crescimento demográfico o qual levou à falta de mantimentos adquiridos através da caça e recolha de vegetais selvagens, ponto que nos remete ainda para as desigualdades sociais que daqui advêm. A domesticação afeta não só as comunidades humanas e o seu estilo de vida, mas também os próprios animais e plantas, que passam a ter características distintas devido à convivência com o ser humano. A relação entre ser humano e planta e/ou animal torna-se uma de mutualismo assimétrico, isto é, passamos a ter uma relação em que, apesar de ambos os elementos saírem beneficiados, o ser humano é o elemento dominante. Esta relação leva-nos, então, ao “síndrome da domesticação”, que consiste na alteração genética devido ao meio envolvente. No caso dos animais, temos o exemplo da redução de elementos perigosos para o ser humano, como os chifres, ou as mudanças comportamentais - os animais domesticados passam a ser mais dóceis, e a expressar neotenia (encurtamento de fases de maturação); no caso das plantas, temos a perda ou redução do estilhaçamento das sementes, bem como da sensibilidade aos ciclos noite-dia, entre outras mutações. Todas as características referidas anteriormente trazem benefícios para o ser humano. Até agora, abordámos este tema como se de algo longínquo se tratasse. Contudo, até hoje a domesticação quer de animais quer de plantas tem vindo a sofrer alterações, muitas delas relacionadas com a evolução da ciência. Alterações essas que advêm de um excedente de população humana com uma esperança média de vida superior à que seria natural e, principalmente, dos excedentes que parte dessa mesma população acumula e, na maioria dos casos, acaba por nem consumir/utilizar. Em suma, o aparecimento da domesticação foi quase que um instinto do ser humano para melhorar a sua qualidade de vida, o qual prevalece até hoje de um modo ainda mais acentuado e, por vezes, até mesmo cruel.
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CRÓNICAS
um espírito em falta MICHELLE CALDEIRA
Aos vinte anos, obtive um diploma de conclusão do Ensino Secundário com média de dezanove valores. O futuro abria-se diante de mim e a minha família e amigos opinavam sobre que curso e universidade deveria escolher. Considerei os clássicos de “prestígio”, como Direito, que alimentam uma visão absolutamente redutora do mundo académico e colocam o valor do conhecimento essencialmente na utilidade que este possui no mercado de trabalho. No entanto, decidi escolher Tradução, uma área já presente no meu dia a dia; uma atividade que praticava a pedido de alguns familiares e de que sempre gostara. Era uma “às” em línguas... Portanto, não seria essa a opção correta? Durante todos os momentos em que considerei escolher a universidade ideal, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa esteve presente como uma possível primeira opção — maioritariamente por ter conhecimento de que, lá, a igualdade e o progresso imperavam como valores primários. Tinha consciência de que não existiria qualquer ataque à minha pessoa ou até mesmo à minha identidade. Diziam-me que era o lugar onde me sentiria mais confortável e respeitada enquanto rapariga trans, e foi com a promessa de que a NOVA FCSH não toleraria qualquer tipo de discriminação que decidi embarcar nesta aventura. Mas, em grande parte, a faculdade falhou.
Neste contexto, é necessário salientar que muitas das promessas feitas por alguns amigos que estudavam na FCSH foram realmente cumpridas. Tanto os docentes como os auxiliares estão sempre dispostos a ajudar, preocupando-se verdadeiramente com as necessidades dos alunos; a aprendizagem, sendo uma prioridade de qualquer professor, reforça o ensino de excelência que a faculdade oferece a toda a comunidade estudantil. Ao comparar os docentes do curso de Tradução com os de de outras universidades próximas, sou capaz de encontrar vantagens da minha escolha. No entanto, os aspetos positivos tornam os negativos mais óbvios. Ter professores que se preocupam, depois da aula, em saber como estou por terem estranhado o meu silêncio, que me oferecem boleias, que me disponibilizam os seus contactos e que, por vezes, até me oferecem dinheiro para almoçar é algo inestimável… Contudo, todas estas condutas só contribuem para realçar o caráter preocupante da mentalidade fechada de outros.
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NOVA EM FOLHA
Algo que tem de ser dito sobre o curso de Tradução é o seguinte: há uma certa divisão entre os docentes que ensinam componentes teóricas do curso e os que se dedicam à vertente prática. Trata-se de uma espécie de constatação de que a prática da profissão difere em muito da teoria — o que acaba por ser feito não é o que se encontra nos livros, mas sim o que os clientes querem. No mundo do trabalho, «o cliente tem sempre razão». mContudo, há aqui um problema: em disciplinas onde se estuda gramática, linguística e a norma – mesmo sendo sabido que o uso da língua deveria ser estudado e não ditado –, existe uma rejeição de tudo o que não esteja “correto”. É compreensível, talvez até louvável, que se queira definir bases linguísticas, mas é incrivelmente desmoralizante ouvir formas do português em que acreditamos e que as pessoas ao nosso redor utilizam serem descritas como uma “perversão”. Além dos muitos momentos que vivi com docentes, em que o “correto” se sobrepôs à individualidade de cada um, é o tratamento por parte da administração que mais me tem incomodado. Vou para o meu quinto ano de licenciatura, o que poderá ser visto como uma falha minha enquanto aluna. Mas o que dizer, então, das oportunidades que me foram dadas? Que dizer do ano e meio que “perdi”?
CRÓNICAS
Depois de ter sido expulsa de casa pela minha mãe e de não ter um sítio onde pudesse viver, os Serviços de Ação Social da NOVA rapidamente se disponibilizaram a acolher-me de setembro a junho. A oportunidade era perfeita — a bolsa de estudos que me fora oferecida cobria grande parte do custo da renda (cerca de metade do valor) e estava perto do campus. Todas as condições pareciam estar reunidas para terminar a licenciatura, certo? ll Entretanto, a pandemia instalou-se. O ensino online tornou-se a nova realidade e, com a sua chegada, pudemos verificar que as condições nas residências eram menos que ideais. É frustrante não ter um bom acesso ao Youtube ou à Netflix nos nossos quartos, mas é dez vezes mais frustrante ter vozes que se arrastam, vídeos que encravam constantemente, chamadas que “caem” e apresentações que não podemos fazer porque, se nos atrevemos a falar ao microfone, tudo colapsa. Abordei, tal como a Associação de Estudantes, o assunto da velocidade da internet perante a universidade, tendo-nos sido prometido que a questão seria tratada “em breve”. Encontrome numa residência desde 2018 e esse “em breve” nunca se concretizou; parece tratar-se de uma promessa para quando o problema for já irremediável.
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NOVA EM FOLHA
Como aluna que entrou na universidade com média de dezanove valores, tive a oportunidade de me reunir com o antigo Diretor, que se encontrava todos os anos com os alunos de cada curso que tinham entrado com média superior. Mas, terminado o seu mandato e eleito um novo Diretor, muitos dos problemas que nos garantiam serem temporários ainda se mantêm. llllO nosso antigo Diretor falou-me do ambiente de solidariedade e espírito de comunidade presente na nossa faculdade, intitulando-o de “um espírito fcshiano”. Mas, com a entrada no meu quinto ano, perguntome: quanto desse espírito partirá de necessidade? É cansativo assinar mails com o meu nome social apenas para que a administração e certos docentes me respondam recorrendo ao meu antigo nome. É chocante que, semanas depois de fazerem graves comentários depreciativos sobre pessoas trans, identificando-as com predadores e negando o seu direito de utilizar as casas de banho que necassitam, certas figuras políticas sejam convidadas a discursar na nossa faculdade, apenas porque os seus partidos têm “representação parlamentar”. Por fim, é frustrante, ser colocada, vezes sem conta, junto de rapazes em residências, tendo-me sido dito, ainda que apenas informalmente, que as instâncias de administração não se sentiam confortáveis em colocar-me junto de raparigas.
CRÓNICAS
Onde está o espírito fcshiano de igualdade, apoio mútuo e inclusão? Este está presente nos professores, que me ajudaram nos momentos em que dispunha de má conexão à Internet, telefonando-me para que, através do telemóvel, pudesse ouvir a aula; está presente nos meus colegas, que, depois de afirmar que me chamo Michelle, simplesmente assentiram, tratando-me como quero ser tratada; e está presente nos funcionários, quer os da cantina, que já me conhecem e já sabem que vou querer a refeição macrobiótica, ou os seguranças, que me cumprimentam sempre que entro no Campus da Avenida de Berna. Não está presente, no entanto, nas burocracias e “deveres” administrativos, nem no facto de, apesar de existir uma lei que diz que deva ser tratada como me identifico (38/2018 – Direito à autodeterminação de género), a minha identidade ser ignorada. Esta é a minha faculdade, e adoro-a mais do que tudo – as tshirts e sweatshirts com o logótipo da NOVA são algo que uso com orgulho; mas há mudanças a fazer, especificamente em aspetos que ameaçam transformar o que deveria ser um espaço de conforto num em que temos de nos esconder e que, por isso, passaremos a odiar.
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NOVA EM FOLHA
CRÓNICAS
O dia mundial de quem quer ser quem não é Rita Coutinho
Todos os dias acordo a desejar ser outra pessoa. Queria um cabelo mais encaracolado, uns olhos mais verdes, um nariz mais pequeno, um corpo mais magro. Todos os dias acordo a desejar ser alguém que não sou. Muitos de vocês acharão normal e identificar-se-ão com a forma como me sinto. No entanto, todos os dias acordo a desejar não me sentir tão sozinha. Estamos fartos de ouvir a conversa sobre doenças mentais. Quando digo estamos, falo especificamente daqueles que não as entendem e acham que existe um limite de quanto um ser humano deve falar sobre o tema. No entanto, devo dizer, com total ironia, caso algum de vocês ache por sinal que estou a falar a sério, que lamento muito estarem fartos de ouvir falar sobre algo que todos os dias, mata, espiritual ou literalmente, seres humanos ao redor do mundo. Todos os dias acordo de espírito morto, enquanto outra pessoa no mundo não volta a acordar pela mesma razão que eu. Isto parece complexo? Claro. Mas não somos nós, humanos, senhores e senhoras da complexidade de todas as coisas que por aí andam? Não somos nós os inventores de toda a complexidade que existe em assumir a responsabilidade e a culpa em relação a algo que não temos absolutamente culpa alguma? Tenho culpa por todos os dias querer ser Marta, Carla ou Sofia, em vez de ser a Rita? O dia mundial da saúde mental celebrou-se há pouco tempo e o mesmo fez-me pensar como, infelizmente, aquelas pessoas que só sabem reclamar da vida às vezes têm um bocadinho de razão. Os que celebram o dia mundial da saúde mental, são os mesmos que, quando um amigo ou familiar se aproxima e diz que não está bem, o conselho que dão é para terem calma, respirar fundo e dizerem ainda que não há nada que não passe. O problema é que o tempo para nós não é o mesmo. As coisas não são coisas que pareçam que algum dia vão passar e cada dia que passa o que parece é que nos enterramos mais em algo que confortavelmente desconhecemos. Essas pessoas que nos dizem que não há nada que não passe, são as mesmas que chegam ao final de um dia completamente infelizes com a vida que levam e com quem são. Por isso pergunto: não acordamos todos em certos dias a desejar ser quem não somos? Acredito que sim. Mas talvez esteja na altura de ajudar-nos mutuamente a mudar isso. Aqui hoje proclamo o dia 10 de outubro como o dia mundial de quem acorda a querer ser quem não pode. E nos outros dias todos, que nos preocupemos devidamente com a nossa saúde mental, ou com a saúde de alguém que precise de nós. Depois digam-me se resulta.
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NOVA EM FOLHA
CRÓNICAS
como um malmequer CATARINA AIRES | @romanceeada
Hoje, pela primeira vez em muito tempo, não escrevo sobre ti. Escrevo para ti. Para falar de mim. Venho falar-te da montanha que tenho tentado subir, de todas as colinas que já desci, dos vales onde caí. No fundo, venho falar-te um pouco sobre esta terra onde me deixaste, onde eu tive de viver até querer viver. Durante muito tempo, o vento agreste foi tudo o que eu senti. Picava-me os olhos, secava-me a pele e, nos piores dias, derrubava-me a casa, enterrando-me debaixo dos escombros. Eu lá ficava, respirando o pó que me sufocava, que me tomava como sua. Deitada na miséria, contava os segundos até o teu regresso, deixando-me esquecer que o que eu vivia era um coração partido, e corações partem-se na solidão – tu nunca voltarias a atravessar aquela porta. Eventualmente, também o chão se cansava e expulsava-me sem cerimónias, fazia-me rastejar. Eu emergia como uma sombra envelhecida, cinzenta do pó ou da tristeza. Mas mesmo acima da miséria, tudo me parecia igual. O céu lá fora era carvão e a chuva era ácido que cavava sulcos no meu telhado refeito. A terra era infértil e rejeitavame, enquanto eu rejeitava outro tipo de vida.
Como vês, não morremos só quando deixamos de respirar. Há tantas pequenas mortes, tão subtis – não é de admirar que a ignorância das pessoas as faça pedir sorrisos a alguém que se encontra a passar por uma. Durante muito tempo, o vento agreste foi tudo o que eu senti, e pequenas mortes foi tudo o que vivi. Sabes que tudo poderia ter sido evitado? Se ao menos eu soubesse que tudo o que eu precisava era apenas do meu amor. Descobri-o há uns dias. Não sei quanto tempo permaneci no vale, presa no poço para onde me atiraste. Não te vou contar quantas vezes caí ao tentar sair, dos meus braços cansados, dos meus joelhos esfolados. Não te vou contar sobre as vezes que pensar em ti me fez desistir. Conto-te apenas que, há uns dias, abriu-se um buraco no meu céu de carvão e, com cautela e algo nervosa, segui o raio de luz, como um animal ensinado a desconfiar da bondade.
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CRÓNICAS
A descolonização intelectual esquecida depois da Revolução dos Cravos Fatumata Djabula
Depois de 48 anos de ditadura, Portugal teve a oportunidade de fazer renascer o país enquanto nação democrática e justa. Um dos objetivos para esse renascimento era a descolonização, garantindo a independência ou reconhecimento das colónias africanas que Portugal controlava e/ou explorava há séculos. Algumas dessas colónias encontravam-se num movimento anticolonial há mais de uma década, o que, independentemente da discordância de alguns, ajudou a colocar um ponto final ao Estado Novo. Mas Portugal trabalhou para descolonizar as mentes dos portugueses? Salazar gostava de dizer que todo o território português (incluindo as antigas colónias, que a certo ponto tiveram as suas designações alteradas de “colónias” para “províncias” de modo a escapar à pressão europeia) estava ao mesmo nível, que Portugal era um país multicultural - embora as pessoas negras residentes das colónias nunca terem sido tratadas da mesma forma que as pessoas brancas da metrópole. Sendo Portugal um país europeu mais desenvolvido do que as antigas colónias, após a democratização do país, recebeu imigrantes dos agora designados de PALOP, sendo a língua um facilitador que os ligava. E, pela primeira vez, foi possível criar um país etnicamente multicultural, em território contínuo onde, em teoria, todos os cidadãos deveriam ser tratados da mesma forma aos olhos da lei, ou seja, tecnicamente, por todas as instituições que gerem a sociedade. Mas, tirando a liberdade que as antigas colónias alcançaram e as mudanças na lei portuguesa, nada mais foi feito. Provavelmente, “nada” é um eufemismo para as medidas políticas que Portugal tomou para se democratizar. Contudo, no final do dia, nada substancial foi realmente feito – o racismo que iria permanecer, não foi uma prioridade. Libertar os países africanos e determinar legalmente a igualdade de todas as pessoas foi suficiente para apagar séculos de opressão praticadas pelos portugueses brancos do passado? As mudanças legais, independentemente de serem importantes, apenas resolveram a superfície dos problemas. Hoje em dia, podemos dizer que não é geralmente aceite pela sociedade portuguesa ser vocalmente e violentamente racista, mas a maioria das pessoas não se irá envolver quando veem ações dessa espécie. Em geral, diria que o racismo é visto como atos individuais e (quase) nunca (isto referente a pessoas “comuns”) como um problema sistemático. Isso traduz-se para: “todas as pessoas brancas têm um privilégio como resultado de uma opressão contra pessoas negras”, algo que tira as pessoas brancas de uma zona de conforto. A ideia de um racismo institucional ou sistemático é
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NOVA EM FOLHA
CRÓNICAS
muitas das vezes negada por pessoas brancas, porque as coloca numa posição de contabilidade pelos comportamentos como “pequenos” atos racistas, expressões usadas ou simples ignorância que resulta em estereótipos, violência colonialista na educação e a forma como as instituições prejudicam e nunca protegeram crianças negras e a sua saúde mental, desde o momento que nascem até à sua morte. Isto, numa sociedade racista, pode ser causado pelas suas instituições, sendo Portugal considerado um dos países europeus com mais brutalidade policial contra pessoas negras e/ou imigrantes). Sumarizando um pouco o anterior parágrafo, a aceitação da existência de um racismo institucional põe “em cima da mesa” o facto de, enquanto sociedade, serem reproduzidos comportamentos que nos são instituídos e penetrados, desde o momento em que nos é possível, como seres humanos, “entender” a realidade social, fazendo do racismo, algo que pode ser praticado por todas as pessoas (problematizando uma face “escondida” que ainda não é bem aceite em ser titulada como racismo, tal como a sua descredibilização em relação aos seus efeitos). A educação é a melhor ferramenta para a mudança Como na maior parte dos países democráticos, em Portugal é obrigatório que as crianças estudem até aos 18 anos, equivalente ao 12º ano de escolaridade (apesar de nem sempre ser um processo respeitado, nem das instituições fazerem suficiente esforço para que seja cumprido). Esta educação pode ser descrita como colonialista e eurocêntrica, já que ronda imenso na expansão marítima portuguesa, ainda intitulada de “Descobrimentos” (causando já em si um desconforto, visto que Portugal não descobriu territórios: estabeleceu contacto com locais já habitados) e quase nunca fala sobre a escravatura. Quando é o caso de se falar, dá uma ideia de desconexão com a expansão marítima, ou refere-se a ela com pouco detalhe e informação.
Para clarificar, não vejo como um problema o estudo desta época ou destes eventos. A questão reside na forma como estes eventos são estudados (usando uma linguagem retrógrada, quase como se estivessem a usar a linguagem colonialista do século XV) e como uma parte sua tão importante sendo a escravatura que teve um impacto enorme na forma como Portugal e os países colonizados se desenvolveram - é tirada da análise histórica do ensino obrigatório. Para concluir, Portugal é um país que se intitula de “o pioneiro da descoberta do novo mundo”, reivindicando nenhuma da responsabilidade atual pela escravatura, tal como pelo racismo que foi criado pela anterior. Como um país multicultural, o governo e os partidos esquerdistas deveriam considerar a erradicação deste problema “antigo” como uma prioridade. Contrariamente, essa resolução continua a ser adiada, enquanto pessoas reais morrem e sofrem em consequência disso. A responsabilização e contabilidade que é pedida a Portugal, é nada mais do que mudanças na educação e genuína reconstrução das instituições que ainda mata e maltrata pessoas negras e “olha para o outro lado” quando crimes de ódio e discriminação acontecem.
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Avó
NOVA EM FOLHA
CRÓNICAS
DIANA NEVES
Avó, não sabes as saudades que tenho do teu ser. Não é culpa tua, já não me conheces, não o ias adivinhar. E esse véu, que te privou de ti mesma e te afastou de nós, rogo-lhe mil pragas em vão, sabendo que vai continuar a magoar-me. O teu olhar desconfiado fita-me, pois agora sou uma desconhecida para ti. Destituis-me da figura que era antes e de quem tu cuidavas, de forma tão bruscamente carinhosa, como quem não quer admitir que ama alguém. Mas não te podes largar do sangue que corre nas veias, da ternura íntima e da história e vivência que ficou agora, largada ao acaso, para quem da família vier e quiser contar. Para sempre será nossa, e permanecerá comigo, embora se esmoreça aos poucos da tua memória. A tua postura perdura nos calos das mãos, como gravuras que resistem ao tempo e demarcam um passado de trabalho pesado no campo. A tua timidez subsiste nos retratos espalhados pela mesa de cabeceira, já enevoados do pó, à espera de que alguém se lembre deles, mas inquietos por evocarem um monumento íntimo do teu nome. Os recantos da casa escrevem agora a tua biografia: o sofá com a mesma manta cinzenta, as teias de aranha atrás do móvel, o desfile de fotografias dispersas (para não repetir) pela sala que já parecem mais ilustrações de uma vida diferente e os ramos de flores que vão povoando a mesa de jantar. Não te aflijas, isto nem é dirigido para ti, a não ser ao meu coração, agora cego de arrependimento e melancolia. Não te aflijas avó, tu não tens culpa, de te teres esquecido de mim. Diana Neves
Outubro 2021
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NOVA EM FOLHA
POEMAS
A minha alma não se apaga joana (só)
Nem de dia nem de noite a minha alma se apaga. (nem de dia nem de noite, quando os sonhos rolam tal fita de filme num ecrã), A minha alma não se apaga, Enquanto a lua o cabelo me afaga. Já há uns meses que os mistérios cósmicos da vida em mim brotaram: furando a terra com toda a força, pelo Sol e pela Lua acordada, tudo de novo acordaram. Como sementes germinantes – nada disto sendo como dantes. A Terra, moldada pela Água, nutre-se e frui sem pudor. (tal como o que aos meus labirintos mentais ocorre, ao curar o sufocante ardor). Sonha sonha, minha criança sonha (eu sonho, sonho tanto que do peito tudo me sai) – Porque as sensações são o alimento do coração, tal como os mistérios cósmicos da vida o âmago da mais sublime emoção.
NOVA EM FOLHA
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Inquietação TOMÁS GIRÃO
Há muito tempo deixei de ouvir o coração por uma calorosa relação, de dois grandes amigos e incríveis namorados. Perdi-me nos jardins proibidos, pensando na melhor razão para salvar esta paixão que nos deixa rendidos. Cheguei ao fundo da estrada cansado e sem nada. Procurei no meu coração tudo o que havia, sem noção: Amar chega a ser doloroso Mas também é amoroso, dependendo da coragem que cada um tem.
POEMAS
NOVA EM FOLHA
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POEMAS
Acredita C. L.
Antes de ti não sabia o que sentir, Criava na minha cabeça formas de fugir. Rotina de uma mente prisioneira, Em que a dúvida era minha parceira. Desde então, dormir tem sido algo raro, Impossível, são muitas noites em claro. Tento escondê-lo, mas não aguento, Tenho algo para te mostrar, um sentimento. Ouvi-o antes de te ver, Tive logo curiosidade em saber. Em dias que nada me apetece fazer, Urge em mim uma vontade de to dizer. Não queria parecer que outros imito, Ou que digo algo de esquisito. Mas o meu saber não é infinito, Então é a isto que me limito.
É muito para se ouvir, Mas vou tentar resumir. Última vez que o direi, não será, Sempre que quiseres, eu estarei lá. Inverno, primavera, verão e outono, Contigo aqui, nunca me questiono, Apesar de algumas vezes perder o sono. Por muito que tu empurres, E algumas asneiras até sussurres, Rir sempre foi o melhor remédio, Assim, seremos nós dois contra o tédio. Mesmo que tu me tentes magoar, Idiota que sou, não vou notar, E mais ainda te irei amar.
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NOVA EM FOLHA
POESIA
perda de tempo JOÃO MARTINS
Houve um tempo em que me perderia Por raparigas como tu. Um tempo em que vagueava pelas ruas da cidade, de preferência desertas, e fazia dançar os pensamentos ao som do vento. Depois, colhia-os desse aroma libertador que é o Inverno. Havia um tempo em que me perdia de propósito, com vontade. Só não conseguia fugir de mim e de raparigas como tu. Um tempo em que lia poesia sem preconceito e não havia sintetizadores na música que escutava. Na verdade, cantava baixinho algum tema mais moderno. Há um tempo que não escrevo, que não procuro e não descubro. Sinto alívio e despreocupação. Mas lembro-me do vento frio e da poesia, e tenho vergonha deste tempo perdido em que já não consigo elogiar raparigas como tu. Maldito tempo! Estou cada vez menos eterno...
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NOVA EM FOLHA
POESIA
Bia Jesus
15. As Cinzentas estão na pradaria, lá detrás das valas, onde sensatas amornam os sapatos de cada diáspora. As bengalas entornam o trago hospitaleiro/forasteiro. Inóspito perecer. As Cinzentas crismam no entardecer. Grisalho falcão queimado na plenitude. Meneios feios e viradas descendentes. Ensopadas na magenta seca. Encapuçadas no arame farpado. As Cinzentas ceifam a ternura, ceifam o feito da porcelana em que caio, ceifam este desfecho no seio e no desmaio.
18. É morte lenta, onde a poeira assenta na parte de dentro do meu centro parte cabedal parte osso quente, Cabral vil valado pardo que sente. Uma absorção do meu réptil camuflado, uma cabeça transversal onde caberia toda a corrente que não foi açoitada, onde caberia tendas entre ventos rompantes, e me deixam à mercê do sarnoso olhar de estranhos a mim, que espumam ódio bebível e bem recebido pelo meu goto.
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Teatro
Elogio da Loucura (partir da obra de Erasmo de Roterdão) - A Barraca (Teatro Cinearte) autoria e direção: Hélder Mateus da Costa e Maria do Céu Guerra 23 de setembro a 14 de novembro Quinta e Sexta às 19h30 Sábado às 21h30 Domingo às 17h
O célebre ensaio de Erasmo de Roterdão serve de inspiração ao mais recente espetáculo de Hélder Mateus Costa e Maria do Céu Guerra. A apreciação satírica dos abusos da doutrina católica e das práticas corruptas da Igreja Católica, nomeadamente a venda de indulgências, marca Erasmo como um dos impulsores da Reforma Protestante, um facto que Hélder Mateus Costa refere na apresentação deste espetáculo. Já a atriz Maria do Céu Guerra salienta que a loucura dificilmente se define. O Duelo A partir da obra de Henrich von Kleist) - CCB (Centro Cultural de Belém) direção cénica: Carlos Pimenta 25 de novembro às 21h 26 de novembro às 19h e 21h
A partir da obra “O Duelo” de Henrich von Kleist surge a peça encenada por Carlos Pimenta e interpretada por Miguel Loureiro. Do cenário composto por imagens projetadas à solidão do ator em cena, onde se centra toda a atenção, esta peça aborda, segundo o ator, “a questão jurídica absoluta de Deus, perante a justiça do homem”, refletindo, neste sentido, sobre o(s) sentido(s) da justiça.
Pranto de Maria Parda, de Gil Vicente - Teatro Nacional D. Maria II P 26 | CULTURA encenação: Miguel Fragata até 5 novembro O Inesquecível Professor - Teatro Nacional D. Maria II autoria: Pedro Gil 11-20 novembro Lear (de William Shakespeare) - Teatro Nacional São João encenação: Nuno Cardoso 6-20 novembro Exposição de Amantes - Teatro do Bairro Alto encenação: Raquel André 5-12 novembro Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa - CCB (Centro Cultural de Belém) autoria: Sara Barros Leitão 4-7 novembro Música
Ninguém nos vai tirar o sol Teatro Maria Matos Joana Espadinha 8 novembro
Ciclo O Cinema e o Desejo Centro Cultural Malaposta organizador: Filipe Raposo 5 de novembro às 20h30 A Mulher que Viveu Duas Vezes (1958) realização: Alfred Hitchcock 6 de novembro às 16h30 (cine-concerto) Marinheiro de Água Doce (1928) realização: Charles Reisner e Buster Keaton 6 de novembro às 20h30 Cinema Paraíso (1989) realização: Giuseppe Tornatore
Concerto Centenário José Saramago Teatro São Luiz Orquestra Metropolitana de Lisboa 16 novembro Cinema
Cinepop - Fórum Lisboa O Cinepop está de regresso ao Fórum Lisboa com alguns dos grandes clássicos do cinema!
7 de novembro às 16h Star Trek: The Motion Picture
14 de novembro às 16h 5 de dezembro às 16h From Russia with Love
After Hours 28 de novembro às 16h 12 de dezembro às 16h Star Trek II Die hard 19 de dezembro às 16h Willow
NOVA EM FOLHA
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PARA ONDE NOS LEVA A REVOLUÇÃO DIGITAL?
CULTURA
REFLEXÕES SOBRE OS EFEITOS SOCIOECONÓMICOS DA TECNOLOGIA NO SÉCULO XXI
NOTAS SOBRE A OBRA A RIQUEZA DOS HUMANOS, DE RYAN AVENT
DIANA NEVES
O século XXI tem sido pautado por uma época de mudanças como nunca antes se deram na História. Os avanços tecnológicos que têm tido influência na sociedade e na economia, e, consequentemente, no mundo do trabalho, constituem uma verdadeira Revolução Digital, cujos efeitos socioeconómicos se assemelham, em vários aspetos, à revolução industrial. Sabemos que a Revolução Industrial e a Revolução Tecnológica não chegaram a todas as pessoas de forma igual. Ainda hoje, comprovando que os esforços foram insuficientes, nos Países em Desenvolvimento há populações sem acesso a saneamento ou eletricidade, enquanto nos países ricos nos deleitamos com sofás confortáveis, com televisões, telefones, carros e outros privilégios. Ryan Avent, economista norte-americano, escreve na sua obra A Riqueza dos Humanos (ou, no seu título original, The Wealth of Humans), que a revolução digital está a impor-se a três níveis: a automação (descartando milhões de empregos); a globalização (criou milhões de empregos globais) e a facilitação das funções de trabalhadores qualificados (por exemplo, um médico consegue atender muitos mais doentes com o apoio tecnológico do que conseguia há trinta anos atrás).
Do vapor aos ecrãs: uma revolução em marcha dlfdA Revolução Digital implica que, mais uma vez, as instituições sociopolíticas e o sistema económico se reorganizem para conseguir ir ao encontro das exigências de um mercado de trabalho em transformação. Ao repetir a História, estas mudanças voltam a medir na balança o peso das formas de organização social e económica que pendem mais para o capitalismo e outras que se afiguram mais para o lado do comunismo, questionando prós e contras das duas ideologias, face à demografia, contexto e valores sociais de cada país e cultura. Durante a Revolução Industrial e, mais tarde, durante o século XX, os movimentos sindicalistas fizeram a sociedade civil ouvir as reivindicações dos trabalhadores: melhores salários, menos horas de trabalho, segurança... Foi a mobilização política da classe operária que fez surgir as bases da rede de proteção social atual. No entanto, foi uma luta que, hoje, está a perder fogo e participantes. As desigualdades socioeconómicas continuam evidentes, os salários estagnaram desde há quase trinta anos, e os avanços tecnológicos têm vindo a tornar empregos inúteis. E os governos e empresas não apresentam planos posteriores e soluções para os trabalhadores desempregados, originando um excedente de mão de obra no mercado de trabalho. Continuam a existir outros problemas sem resolução, como o desemprego jovem ou a resignação dos desempregados a uma vida precária e sem motivação profissional, o que foi agravado pela crise de 2008. E, mais recentemente, com os movimentos de extrema-direita a emergir em vários pontos do globo; o capitalismo a concentrar os lucros no grupo do 1%; e a pandemia que destabilizou ainda mais as vidas das pessoas, sobretudo, a classe média e os mais pobres, a sociedade tem pela frente um desafio que exige cada vez mais uma solução mutuamente planeada e elaborada a nível mundial. É necessário um plano que consiga conjugar governos, políticas, económicas e metas financeiras para proceder à redistribuição do capital humano para que o mundo do trabalho não entre em colapso. Contudo, como a História nos veio a comprovar, e como é evidente o desequilíbrio em que a sociedade se mostra estar atualmente, como refere Avent: os grupos que mais beneficiam da economia em mudança não costumam ser recetivos à partilha da sua riqueza.
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NOVA EM FOLHA
CULTURA
A formação académica e o mercado de trabalho: três anos a pagar propinas, um diploma em mãos, um trabalho precário, e continuo em casa dos pais
O mercado de trabalho privilegia cada vez mais a especialização (daí a pressão desnecessária que os jovens sofrem na sua formação). Se bem que a recompensa fica aquém dos esforços para especialização, visto que os salários dos licenciados estagnaram e não se revela ser uma fonte em que os jovens possam confiar completamente. Ou seja, ter um diploma mostra, claro, ser mais benéfico, mas nem por isso tem evidências práticas nos salários, o que se torna desmotivador depois de passar quatro, cinco, seis anos (ou mais) a pagar propinas. Como querem que haja mais estudantes licenciados ou mestres se as propinas continuam a ser um entrave à educação superior? O que, consequentemente, joga os jovens com menos condições económicas para trabalhos, normalmente, mais mal pagos. Não que isto seja um facto sem exceções, até porque com o mercado de trabalho difuso que existe atualmente, as empresas e empregadores continuam a contratar frequentemente e a despedir frequentemente, e as áreas de trabalho encontram-se em pontos que antes era impossível. É importante estabelecer que, no mundo em que vivemos hoje, um diploma não garante um emprego fixo nem muito bem remunerado a um jovem. Além disto, a sociedade continua a evoluir freneticamente ao nível tecnológico, pondo em mesa outro facto a ser considerado: os jovens são mais preparados para ter uma carreira mutável e em permanente formação devido aos constantes avanços e mudanças.
O capital social: um património imprescindível em perigo
Hoje, nos mais variados locais de trabalho, valoriza-se, acima de tudo, o capital humano: o património cultural e a matéria de conhecimento que os trabalhadores adquirem criando todo um ambiente e «formas de fazer» nesses trabalhos. Os trabalhadores são aqueles que têm a capacidade de criar algo novo e de melhorar, tendo assim um papel inalcançável no sistema económico. Quando esta cultura extravasa do contexto laboral e se incumbe na sociedade, enriquece o património de competências, conhecimentos, experiência e informação nessa sociedade. Mas por que continuam os salários estagnados ao longo de mais de vinte anos? E por que a subida de posto ou encargos não se revela merecedora de aumentos salariais significativos em muitos dos casos? O capital social é construído a partir da informação e conhecimento que circula pelas pessoas, atualmente, sobretudo, via redes sociais, e a partir das instituições que geram valores e princípios, que regem os comportamentos das comunidades. Este capital social pode representar um fator de sucesso individual e coletivo nos ambientes laborais, se for criado e usado a seu favor. E isso pode significar um valor maior do que as tecnologias e máquinas que o mercado de trabalho tanto gosta de pôr num pedestal intocável. Contudo, tal como o autor reflete: enquanto o capital social vive na cabeça das pessoas que fazem funcionar a economia, os seus benefícios são canalizados de forma desproporcionada para os donos do capital financeiro. Essa discrepância é uma fonte de grandes problemas económicos. Tendo em mãos mais uma dinâmica de transformação semelhante à da Revolução Industrial do século XIX, agora, o sociedade irá (e terá) de definir o papel do Estado e os deveres e direitos das empresas e dos trabalhadores, consoante o contexto digital que está a delinear novos contornos sociais. Acima de tudo, é preciso uma discussão séria que envolva economistas, líderes, empregadores, trabalhadores sobre a distribuição de riqueza (financeira e social), que a tecnologia está a criar, dentro dos países ricos e entre as economias ricas e em desenvolvimento. Com isto, impõem-se questões que envolvem o facto de as tecnologias tornarem o trabalho humano supérfluo e como, posteriormente, criar crescimento económico. E, como tal, o grande desafio dos líderes e das instituições governamentais será garantir o rendimento das pessoas num futuro (brevemente) digital e criar uma entidade reguladora que coordene a passagem de trabalhadores de setores em desaparecimento para novas atividades, com formação gratuita, já que a sua se tornou redundante. Enquanto criamos inteligência artificial e megacomputadores,
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que chegam a uma percentagem extremamente reduzida da população global, alargamos o fosso financeiro entre países ricos e pobres e impedimos outros avanços restringindo o potencial de pessoas pela falta de acesso a materiais para atuarem. O que se tem verificado é que a constante automação leva a que os trabalhadores desalojados procurem empregos com baixos níveis de qualificação, e assim os salários continuam a descer.
A nossa casa está a arder: ineficiência dos governos e das organizações Outra questão importante são as mudanças climáticas. Ainda que o livro em que me baseio para escrever este texto tenha sido escrito em 2016, já eram evidentes, nesse ano, os problemas climáticos que enfrentamos. E hoje, sabemos que não é com uma fórmula mágica digital que vamos orientar o futuro a favor dos trabalhadores e do planeta. Se a tecnologia for usada em função da valorização do trabalhador, da diversificação do trabalho e da criação de postos de trabalho, em torno de uma transição justa de setores poluentes para empregos e áreas sustentáveis, teremos um uso justo e acautelado dessa tecnologia. A «riqueza dos Humanos» só é possível se houver Riqueza Planetária; um espaço onde trabalhar; trocas recíprocas e cuidado mútuo entre nós e o ambiente onde vivemos; um sistema económico justo, que coloque os trabalhadores e o planeta no centro em vez do lucro. Num livro com 336 páginas, há uma mera referência ao «emprego verde» em duas páginas, sobre um dos temas e problemas que provavelmente é o maior que enfrentamos atualmente. Onde está o capítulo da Revolução Digital e Tecnológica pelo Clima, Ryan?
«Economia de biscates»: e os negócios tradicionais? A economia de biscates, como o autor lhe chama, nasceu com as aplicações e sistemas como a Uber ou o eBay, que permitiram criar rendimentos além do emprego normal, e transformou o mercado e o sistema económico através da Internet. Contudo, se a automação nestes nichos continuar a crescer exponencialmente, as pessoas deixam de ter as suas funções, perdendo dinheiro. Além disso, com o surgimento destes negócios, o comércio local, como os táxis, são setores afetados, e por isso, o que estes sites proporcionam em benefícios aos consumidores, retiram aos negócios tradicionais.
Planeamento urbano: mais de metade do meu salário vai para habitação, Sr. Ministro dflO planeamento urbano, mais uma vez na História, surge como luta de classes. Sabe-se que as cidades têm políticas locais que permitem ou não construir em altura, que permitem ou não reabilitar certas zonas, etc. Quando os custos de habitação sobem exponencialmente nas cidades, é a classe do 1% que beneficia ao conseguir permanecer em bairros e edifícios seguros e de qualidade. E são as famílias de classe média ou baixa que são marginalizadas, tendo de se mudar para locais onde o seu (pequeno) salário permite uma réstia de sobra em relação ao que gastam em habitação. São precisas políticas de inclusão, de restauração de bairros precários e habitações degradadas, é preciso construir habitação social e é preciso garantir que as cidades conseguem albergar a população crescente, sem discriminar pessoas. Além disso, em Portugal, é preciso criar políticas laborais e de fortalecimento do interior, restabelecendo áreas propicias a bem-estar e qualidade de vida. Enquanto o poder de compra não se alargar à maior parte da população, será impossível movimentar e fazer crescer a economia, continuando a haver crises gravíssimas.
Imigração: sim ou não? Enquanto isso, o mundo debate-se moralmente em saber quantos imigrantes aceitar no mundo rico, uma questão hostil para as economias ricas que defendem ainda que os pobres aprenderão sozinhos a ser ricos. E enquanto há oportunidade de o mundo rico passar capital social às economias emergentes, as sociedades do Norte Global preferem manter-se agarradas ao seu comodismo. Enquanto não assumirmos a responsabilidade histórica de ajudar os países mais pobres, vai continuar a haver ondas de migrações, de pessoas à procura de uma vida melhor. Nos últimos dois séculos, os países pobres ainda sofrem de uma grande disparidade de índice de crescimento em relação
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às economias ricas. A colonização deixou governos e economias fracos, corrupção, lutas sociais, falta de recursos e de poder autónomo nos países pobres. É nosso dever ajudar a corrigir o que causámos.
O que fazer? Hoje, é essencial aumentar salários, dar oportunidades de educação para que as pessoas exerçam o seu potencial total de capacidades na sociedade, acabar com os trabalhos precários, melhorar as condições laborais. A economia de um país deve estar atenta às necessidades e às qualidades específicas da sua sociedade, desde a regulamentação de construção de habitação a medidas de melhoria da produtividade dos trabalhadores; desde o benefício da imigração em economias ricas à existência de instituições fortes para o regulamento da economia. A política económica capitalista baseia-se em formas de exclusão para manter o status quo de uma percentagem mínima de população: desde restrições à migração ao nimbysmo (que restringe o desenvolvimento urbano aumentando a marginalização de bairros), e à concentração dos maiores salários naqueles que menos contribuem. Os governos e empresas devem trabalhar não só para responder às exigências do mercado de trabalho, mas também zelar pelo bemestar e riqueza (e subsistência no mínimo) dos seus trabalhadores. Mudanças nos sistema económico não exigem só dinheiro, exigem renovação de mentalidade. E enquanto as economias e os seus governos não puserem as pessoas à frente do lucro, as sociedades vão continuar a ser assoladas por crises gravíssimas. lSó por si, este livro não apresenta uma teoria nem uma solução prática para os problemas e as desigualdades sociais que o sistema económico agrava. Mas é um bom instrumento para pensar a economia, a sociedade e os nosso valores, para além de qualquer ideologia sociopolítica. Acima de tudo, é o eleitor que tem o poder de orientar as prioridades políticas sob a sua vida económica. Diana Neves
Outubro 2021
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Receita D I A N A
N E V E S
Infelizmente, não dá jeito andar a trazer todos os fins de semana a comida da mãe para Lisboa, embora os congelados já entupam a gaveta da arca... E aquela preguiça do fim do dia ou a falta de paciência para os cozinhados elaborados são naturais em nós, jovens universitários, que só pensamos no próximo trabalho por entregar ou numa tarde no Arco do Cego, com aquele fino fresquinho na mão. Não obstante, aqui vai uma dica de chef para quando precisares!
Macarrão de Atum c/Molho de Tomate atum e massa, a famosa combinação amiga d@s estudantes INGREDIENTES 300 g de macarrão
2 tomates picados
2 latas de atum
polpa de tomate
6 dentes de alho picado
orégãos a gosto
pimenta a gosto
sal
1 cebola grande picada
azeite
PREPARAÇÃO 1 - Numa panela, deixa cozer o macarrão. 2 - Enquanto coze, começa a confecionar o molho: noutra panela, faz um refogado com o azeite e o alho e a cebola picados. 3 - Acrescenta o atum e os tomates picados ao refogado e tempera com a pimenta, o sal e os orégãos. 4 - Adiciona a polpa de tomate e deixa cozinhar durante alguns minutos. 5 - Quando o macarrão estiver pronto, escorre a água e mistura ao refogado até toda a massa estar bem envolvida pelo molho e o atum.
Para passares o tempo...
Horizontal
2. "Cause shade never made anybody less …" 5. "We'll always be together / Together in … dreams" 6. "Naptel … / Tudo na vida rima se prestares atenção" 7. "All my … have been used up / On another love" 8. "Hu, ha, Dsching, Dsching, … Khan / He Reiter, ho Reiter, he Reiter, immer weiter" 9. "He’s the boogie … bugle boy of Company B"
Vertical
1. "Ground Control to … Tom" 3. "Apesar de …, amanhã há-de ser outro dia" 4. "It’s a … / Nothing but a …"
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