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NOVA em Folha | Fevereiro-Março 2022

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NOVA em Folha o jornal da aefcsh. fevereiro/março 2022

Capa

ESPECIAL "AMOR PRÓPRIO" SARA BARROS LEITÃO EM ENTREVISTA TOFU ESMIGALHADO & CRUZADEX FLORIDO E ainda crónicas, poemas, sugestões culturais, sudokus, ...! Um jornal d@s estudantes para @s estudantes!


FOTO DE CAPA Maria Gonçalves Pode s sem pre e nviar NOVA para e m Folha o fotog as tua rafias s /ilust serem raçõe publi s para cadas newsl na no etter ou at ssa capa! é serv Cont i r e a m c ta-no de nova s atra emfo vés d lha.ae e @fcsh .unl.p t

NOVA em Folha o jornal da aefcsh.

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novaemfolha.ae@fcsh.unl.pt

Todos os meses, aceitamos propostas de textos, poemas, críticas, receitas, crónicas, bitaites, artigos desportivos, notícias e destaques, reportagens, peças humorísticas, ... de qualquer alun@ ou docente da FCSH, as quais são posteriormente revistas pela nossa equipa editorial. Dentro

das

mesmas

datas,

aceitamos

ainda

propostas

de

fotografias,

ilustrações,

montagens, ... não só para serem incluídas na nossa edição, mas também para se habilitarem a serem incluídas na capa desse mês! Qualquer dúvida ou sugestão não hesites em contactar-nos! Ficamos à tua espera! :)

NOTAS A ado(p)ção do acordo ortográfico em vigor é uma decisão individual d@s membr@s da equipa de reda(c)ção e colaborador@s. Após a revisão completa do material recolhido pela equipa editorial, o seu conteúdo e versão final são da responsabilidade e exprimem somente o ponto de vista d@s respectiv@s autor@s.

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nova em folha fevereiro/março 2022

Direção

Redação e Revisão

João Martins Liliana Marques Maria Gonçalves

Edição Gráfica

Ana Catarina Tiago Beatriz Cabanilhas Beatriz Mateus Catarina Aires Diana Neves Francisco Nunes Guilherme Machado João Martins Liliana Marques Madalena Carvalho Mafalda Carvalhal Manuel Pinto Margarida Honório M. Beatriz Merêncio Maria Gonçalves Rita Coutinho

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Ana Carolina Ferreira Beatriz Cabanilhas João Martins Tânia Pereira Inês Silva Costa Liliana Marques Madalena Carvalho Maria Gonçalves Maura Francisco Tânia Pereira C.L Emília Carlitos Eneko Irigoyen Etérea / NECCOM João Silva Maria Linhares Martim Antero da Silva Rita São João Sofia Nunes Tomás Girão

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FICHA TÉCNICA

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@novaemfolha.aefcsh

es o e g u F o lh a s á J em ok o VA N O a ceb a m ? F r o n ta g In s u o e/


Índice dezembro 2021

Notícias 1 2 3 4

AEemFolha - Gabriel Costa Novidades FSCH - João Martins Fevereiro em Resumo - Equipa de Notícias Internet em Resumo - Beatriz Mateus

ESPECIAL "Amor Próprio" 5 7 9 11 14 15 16

Tinder, namoros virtuais e coisas estranhas sobre o amor - Rita Coutinho Amar de perto - Catarina Aires Quem vê caras, não conhece histórias: um projeto criado com e pelo amor - Rita Coutinho à descoberta de mim em troca de uma relação - Diana Neves Ao espelho - João Martins amor próprio fica-te bem - Ana Catarina Tiago Quase mulher - Rita Coutinho

Entrevista 17 23

Sara Barros Leitão em Entrevista - Etérea / NECCOM COP26: Entrevista com Bianca Castro - Guilherme Machado

Poesia 26 27 28 29 30

Deuses - Martim Antero da Silva sem título - Sofia Nunes Para a Marina. - Tomás Girão O final - Eneko Irigoyen Mente, mente - C.L

31 32 33 35

sem título - Maria Linhares Um Teimoso - João Martins Sou apenas uma mulher - Guilherme Machado sátira poética - Emília Carlitos

Cultura e Lazer 36 38 39 43 44

Agenda Cultural: Março - Ana Catarina Tiago & Mafalda Carvalhal Subcarpaţi - Margarida Honório O Homem Duplicado - Rita São João Tofu Esmigalhado - Beatriz Filipe & Madalena G. Pinho Para passares o tempo...


NOTÍCIAS | AEFCSH

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AE em folha GABRIEL COSTA

O mês de Fevereiro na FCSH foi um período de férias e de melhoria de notas. Como tal, a actividade da AEFCSH foi mais reduzida sem que, no entanto, deixasse de estar ao lado dos estudantes e ciente dos problemas que continuam a sentir. Dinamizou-se o International Buddy Program para auxiliar os estudantes internacionais a integrarem-se na nossa faculdade, onde vários colegas se voluntariaram para os ajudarem, sendo depois juntos com eles conforme o curso e as necessidades linguísticas. A AEFCSH promoveu a petição do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), lançada neste mês, defendendo a adesão de Portugal ao Pacto de Proibição de Armas Nucleares, ameaças extremas para toda a Humanidade. Respeitando a Constituição da República Portuguesa, onde está grafado, no artigo 7º que «Portugal preconiza a abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e exploração nas relações entre os povos, bem como o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos político-militares e o estabelecimento de um sistema de segurança colectiva(..)». Nos dias 22 e 23 de Fevereiro organizou-se uma Feira de Artigos Usados, na qual os estudantes puderam trazer artigos que já não precisavam para os vender na banca. A participação foi positiva, com artigos variados a serem vendidos. Em Fevereiro, demonstrou-se que a luta dá resultado! Em altura de revisão dos estatutos da NOVA FCSH, foi aprovada em sede de Conselho de Faculdade a proposta que duplicava a representação estudantil neste mesmo Órgão, passando os representantes dos estudantes de 1 para 2. Além disso, também os trabalhadores não docentes passaram a ter mais um representante, agora com 2. Consequentemente, o número de personalidades externas à faculdade foi reduzido para 2. Os novos estatutos aguardam apenas a sua homologação por parte do Sr. Reitor, o Professor João Sàágua. Apesar de ser uma vitória, a AEFCSH continuará a lutar por uma maior representatividade estudantil, algo fulcral na defesa dos direitos dos estudantes. A luta contra o actual RJIES e contra o Regime Fundacional continua! A AEFCSH lançou um apelo a todos os estudantes do Ensino Superior, que chegou a todas as Associações Académicas e de Estudantes do Movimento Associativo Estudantil do país. A AEFPIE-UL, AEESAD, AEFBAUP, AEISPA, AEFLUL e AEFMV já subscreveram e vão juntar a sua força à luta. No dia 24 de Março, dia em que se celebram os 60 anos da Crise Académica de 1962, os estudantes vão sair às ruas, manifestando-se para reivindicar o direito a um Ensino Superior Público, Gratuito, Democrático e de Qualidade, no qual se incluem três de bandeiras de luta que este apelo apontou como estruturantes no Ensino Superior nacional: Gratuitidade, Acção Social, Alojamento. Lutaram no passado, Lutamos no presente: Avançar é urgente! fica atent@ às redes sociais da ae para não perderes nenhum evento!

@aefcsh.unl

@aefcsh.nova


NOTÍCIAS

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novidades fcsh João Martins (adaptação) 2º Semestre no CAN (ALMNEG)

A NOVA FCSH preparou um documento com informações úteis para os estudantes de licenciatura que iniciam este novo semestre no Colégio Almada Negreiros. Este documento descreve de forma sucinta as localizações, horários e funcionamento dos principais serviços e espaços de estudo do CAN, incluindo mapas completos do edifício. O guia com as informações pode ser consultado e descarregado através deste link: https://www.fcsh.unl.pt/static/documentos/informacao/ColegioAlmadaNegreiros.pdf Além disso, os estudantes podem enviar as suas dúvidas ou sugestões sobre este documento e sobre o início das aulas para o endereço campolide2022@fcsh.unl.pt. 100 Anos de Ulisses

A obra emblemática de James Joyce celebrou um século a 2 de fevereiro, dia em que começou também a Mostra Bibliográfica: ULISSES DE JAMES JOYCE – 100 ANOS, no Átrio da Torre B do campus FCSH da Avenida de Berna. Até 29 de março, será possível conhecer melhor esta obra simbólica, plena de ambiguidades deliberadas e camadas de significado - um retrato de um tempo de mudança na sociedade e na cultura europeia. No seu tempo, foi atacada por muitos, que a entendiam como “obscena”, “anti-cristã” e “imoral”. Outros julgaram-na inovadora, exemplo de viragem na literatura, afastada de convenções tradicionais e focada na intimidade individual da experiência humana, tanto nas vivências mais prosaicas como nas mais singulares. Creative Approaches to Democracy Education

O projeto CANDIICE trabalha com educadores para tornar a educação para a democracia algo mais criativo, artístico, envolvente, inclusivo, tecnologicamente inovador e bem sucedido. Somos um projeto educativo ERASMUS+ que, entre 2019 e 2022, colige e produz materiais gratuitos para o ensino, atividades e formação. O nosso trabalho destina-se a todos os grupos de alunos, formais e informais, de todas as idades – com ênfase na inclusão. A equipa do projeto liga o Reino Unido, Croácia, França, Alemanha e Portugal, mas todos os outros países estão convidados a contribuir e disfrutar. A Obra de Rosario Castellanos

Dia 31 de março, Armando Aguilar de León (Univ. NOVA de Lisboa) abordará a obra da mexicana Rosario Castellanos numa sessão intitulada «Retratos en claroscuro: un acercamiento a Balún Canán de Rosario Castellanos». Este evento enquadra-se no V Ciclo «Literatura Escrita por Mulheres», que resulta de uma parceria entre o CHAM – Centro de Humanidades (NOVA FCSH) e a Biblioteca Nacional (Campo Grande, Lisboa). É nesta última que decorrem todas as sessões, presencialmente e com entrada livre, às 18h. A programação está disponível em: https://cicloliteraturaescritapormulheres.weebly.com/ Inovação Pedagógica

A Universidade NOVA de Lisboa criou o Prémio de Inovação Pedagógica com o objetivo de incentivar boas práticas pedagógicas e reconhecer o talento para formar e ensinar. Podem concorrer até 31 de março de 2022 docentes e investigadores da NOVA, de forma individual ou em equipas de até três elementos. O prémio consiste na atribuição de uma bolsa de inovação pedagógica no valor monetário de 4.500€ e até um máximo de cinco distinções honrosas no valor de 1.500€ cada. Mais informação em: https://www.fcsh.unl.pt/nova-cria-premio-de-inovacao-pedagogica/ NOVA EM FOLHA


NOTÍCIAS

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fevereiro em resumo Francisco Nunes e Manuel Pinto

1 - POÇO EM MARROCOS

Um rapaz marroquino de cinco anos, chamado Rayan Awram, reuniu atenções nacionais e internacionais após ter sido encontrado caído dentro dum poço com 32 metros de profundidade perto de sua casa. O caso rapidamente mobilizou um país inteiro, que se lançou no esforço de salvação. No entanto, e apesar de todos os esforços, Rayan não resistiu aos vários ferimentos e acabou por falecer. 4 - JOGOS OLÍMPICOS DE INVERNO

Decorreram, entre 4 e 20 de fevereiro, os Jogos Olímpicos de Inverno 2022, em Pequim. Recordamos os vários países (EUA, Canadá, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e Lituânia) que aderiram ao boicote diplomático devido às violações de direitos humanos nos campos de reeducação para a minoria étnica uigur. De destacar também a participação portuguesa, que levou uma comitiva composta por 3 atletas, tendo a sua participação sido considerada pelo Presidente da Federação Portuguesa de Desportos de Inverno como a melhor de sempre. 15 - REPETEM-SE ELEIÇÕES NO CÍRCULO DA EUROPA

Após a Assembleia de Apuramento Geral do Círculo da Europa ter decidido considerar nulas as urnas que continham os votos de 80% dos eleitores, por nelas estarem misturados votos válidos com votos inválidos (por falta ou indevida apresentação do documento de identificação), o Tribunal Constitucional (TC) deliberou sobre as queixas apresentadas por vários partidos. No acórdão resultante, o TC decidiu revogar a deliberação da Assembleia de Apuramento, nulificar a eleição no referido círculo, obrigar à repetição da eleição e negar recurso. ENXURRADAS EM PETRÓPOLIS

Desde o dia 15 de fevereiro que o estado do Rio de Janeiro, no Brasil, tem sofrido com uma tempestade responsável por, em 6 horas, descarregar a quantidade de água esperada num mês. As consequências mais pesadas notaram-se na zona montanhosa do território, nomeadamente na cidade de Petrópolis, onde houve deslizamentos de terras e quedas de árvore, obrigando à declaração do estado de calamidade. Apesar de centenas de vítimas mortais, pessoas desaparecidas e deslocados, há também muitos resgatados. TENSÕES RÚSSIA-UCRÂNIA

Durante o mês de fevereiro, assistiu-se a cada vez mais episódios de tensão entre a Rússia e a Ucrânia. Enquanto a mobilização e exercícios militares russos se multiplicavam para lá das suas fronteiras, no interior da Ucrânia, os rebeldes pró-russos mandavam evacuar para a Rússia mulheres e crianças da região de Donbass, como consequência da crescente animosidade entre os lados do conflito. Dia 24, depois de reconhecer as Repúblicas separatistas de Luhansk e Donetsk, Putin ordenou a entrada de tropas russas no território ucraniano, acompanhadas de bombardeamentos estratégicos. Fontes: Al Jazeera, Deutsche Welle, Diário de Notícias, Expresso, New York Times, Tribunal Constitucional - Jurisprudência Imagens (por ordem): BBC, Beijing2022, RTP, Renascença, The Conversation NOVA EM FOLHA


NOTÍCIAS

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internet em resumo

Beatriz Mateus

Recriando o meme

Depois de muito secretismo e, digamos, omissões, com a entrada nos cinemas do mais recente filme do Homem-Aranha , os atores estão livres para partilhar publicações sobre as gravações. Em especial Tobey Maguire e Andrew Garfield, que voltaram a interpretar o super herói no grande ecrã, juntamente com o mais recente Homem-Aranha, Tom Holand. No passado dia 23, Holand partilhou a foto com os atores que também interpretaram o papel, recriando assim um dos memes mais populares da atualidade, com mais de 14 milhões de gostos no momento da edição deste texto. “Tinder Swindler”: O maior burlão da aplicação Tinder

No passado dia 2 de fevereiro, a série Tinder Swindler foi lançada na plataforma de streaming Netflix. Tornou-se imediatamente um sucesso, especialmente pela quantidade de conteúdo online criado com base na história do documentário. Este segue a história de várias mulheres enganadas por um homem que se fazia passar por um multimilionário e, depois de criar com elas uma relação, contava histórias de intimidação e inimigos que o queriam matar se não recebessem dinheiro. Afirmavase impedido de aceder à sua fortuna e, consequentemente, estas mulheres contraiam dívidas para o ajudar Inúmeros tiktoks e tweets tornaram-se virais após o lançamento desta série, lançando até uma nova moda na aplicação Tiktok: recriar as mais variadas reações ao pedido do burlão.

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ESPECIAL "AMOR PRÓPRIO"

Tinder, namoros virtuais e coisas estranhas sobre o amor RITA COUTINHO

Instalei o Tinder. É verdade. E antes de se rirem ou me perguntarem, com cara de muita preocupação, “Rita… porque é que fizeste isso?”, deixem-me desde já dizer que razão número 1) estava curiosa e queria deixar de ser preconceituosa em relação a estas aplicações para conhecer malta online; 2)… estávamos na quarentena e se há coisa que senti na mesma foi solidão e carência. Eu e meio mundo, apesar de não admitirem. Agora com certeza metade de vocês pararam de rir, que eu sei. Mas vá, descontraiam. Juro que o quadradinho com a chama não vos faz mal. Eu não conheço o suficiente de outras culturas, mas conheço a cultura portuguesa para perceber como muitas vezes ainda somos muito mais fechados do que pensamos em questões como as novas formas de conhecer pessoas, namorar na era do virtual e a própria questão do amor próprio e do desejo. Instalei o Tinder porque tenho 21 anos e queria sentir-me desejada. Isto pode parecer estranhíssimo para algumas pessoas, mas é algo que tem um peso enorme no amor próprio e autoestima de alguém. Ambos não dependem de outra pessoa, mas ajudam e têm um papel importante em todo o processo, pelo menos para mim. A minha cabeça sempre associou o facto de ser gorda à crença de que ninguém vai olhar para mim e achar-me bonita ou sensual. E sinceramente,

nunca me senti inserida num contexto onde me fosse possível falar abertamente sobre como me sentia em relação a esta coisa estranha que é o amor. Ensinam-nos a beleza de ver a princesa e o príncipe casarem, tocarem apenas na mão um do outro e saírem faíscas e ainda como o objetivo final de tudo é o “sim, aceito” diante de um padre. Falamnos de um amor que faz o impossível tornarse possível, mas só se esqueceram, durante décadas a fio, de representar as pessoas na sua totalidade, negras, asiáticas, gordas, mais velhas, mais novas… Não sei quanto a vocês, mas para uma Rita de 10 anos, se não via ninguém nos Morangos com Açúcar ou na Malhação parecido a mim, então era porque eu não merecia o grande amor que se encontrava na escola e o verão azul com que todos sonhavam. Entendem a dimensão do problema? NOVA EM FOLHA


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Chegando a fevereiro, gosto sempre de celebrar o dia dos namorados, o qual chamo Dia do Amor. O amor é bonito ao ponto de merecer o seu dia especial. No entanto, este ano não vi sentido em celebrar. E não, o culpado não foi o Tinder. Este ano, quando achei tão erroneamente que estava num bom espaço na minha vida a nível da minha confiança e autoestima, o universo lá teve a sua maneira de mostrar que não era bem assim. Percebi, pela primeira vez, que ninguém está 100% neste assunto. Fui obrigada a olhar com mais atenção para mim e para aqueles que me rodeiam de uma maneira a que as expectativas que a Disney criou nesta cabecinha começassem a tornar-se em coisas reais. Não se trata de deixar de ser romântica, de celebrar o amor e todas as coisas que existem nele, mas sim de perceber que dentro de uma visão a preto e branco sobre todas as coisas que parecem estranhas, existe uma paleta de cores linda à espera de ser apreciada. Trata-se de perceber que a minha amiga que namora há anos precisa de dedicar mais tempo a si mesma e àquilo que gosta de fazer. Que a minha amiga que deixou um namoro de anos, precisou de voltar a saber o que era sentir-se ela própria. Que a minha amiga que não namora precisa mesmo de poder estar sozinha para poder tomar decisões importantes na vida dela. Que eu, com a subtileza de um trator e sem nunca ter tido um namorado na minha vida, preciso de saber que tenho direito a sentir-me bem e a fazer o que me der na real gana, mesmo que isso implique situações constrangedoras e experiências que só mais tarde irão ter piada (por favor, tenho de ter histórias para contar

ESPECIAL "AMOR PRÓPRIO"

aos netos). Sabem o que é que todas temos em comum? Este ano que passou precisamos todas mais de nós mesmas do que qualquer outra pessoa. Precisamos mais de aprender a amar-nos do que a dar e a amar alguém. E isso nada nem ninguém nos ensina a fazer. Exatamente por isso, creio que hoje não podem dizer que não vos deixei aqui vários ensinamentos: primeiro, experimentem as coisas mais estapafúrdias que possam imaginar se isso for exatamente o que estiverem a precisar. Sim, incluindo o Tinder e toda uma experiência que Deus queira que te venha a correr melhor a ti do que a mim. Depois, lembra-te que entre ficções e o mundo real, mesmo que às vezes não consigamos ver, existe sempre alguém que vai entender o nosso pensamento, situação ou sentimento mais estranho ou solitário que possamos ter. Mesmo nos dias mais complicados, nunca estamos sozinhos. E por último, uma vez que já pareço aquelas lifes coaches motivacionais que na verdade não sabe do que está para aqui a falar, espero que te lembres, hoje, neste momento, de dizer uma coisa que gostas em relação em ti. Uma qualidade, uma coisa boa que tenhas feito, seja o que for. Dia do Amor ou não, todos os dias são bons dias para trabalharmos o nosso amor próprio, por mais difícil ou impossível, até, que possa parecer. Força, meus amores e amoras bonitas. Estou a mandar-vos boas energias para essa luta constante, mas completamente necessária. Agora faz favor dêem-me licença, que eu recebi uma notificação e acabei de dar match com um jeitoso no Tinder. NOVA EM FOLHA


ESPECIAL "AMOR PRÓPRIO"

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Amar de perto CATARINA AIRES | @romanceeada

Leva o teu corpo e senta-te em frente ao espelho. Ao início, sentirás receio, um sentimento algo familiar misturado com alguma repulsa. Persiste. Busca o medo que reside em ti e deixa que te prenda os pulsos e os tornozelos até saberes que não podes fugir. Não lutes. Segue a luz baça da coragem com os dedos do teu coração, chama-a, convida-a para o teu colo. Ergue o olhar e deixa-te absorver por tudo aquilo que vês no reflexo e para lá dele. És tu, quando permites ver-te sem as cercas que constróis ao teu redor, as mesmas que te distanciam de ti mesma. Conta ao reflexo tudo aquilo que te dói. Fala-lhe sobre os dias menos bons e tudo o que não fazes por ela. Conta-lhe como dás por ti na intimidade da rejeição, como deixas que o amor te escape como quem gosta da perseguição de algo que não é seu. Diz-lhe como te convenceste de que o teu amor não pode nunca ser teu. Como viveste numa ilusão destrutiva porque te ensinaram a amar alguém antes de esse alguém seres tu. Pausa. NOVA EM FOLHA


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ESPECIAL "AMOR PRÓPRIO"

Vê. Não desvies o olhar do que, por momentos, te parece feio. És tu, apesar de tudo. Fala-lhe também dos dias bons, por favor. Partilha com o reflexo aqueles dias em que sorris e todas as peças parecem cair nos sítios certos do puzzle que insistes em completar - teimosia característica de quem ainda sabe sonhar por algo mais. Conta-lhe sobre todos os teus desejos. Conta-lhe como um segredo, como algo frágil preso entre os teus dedos, pendurado nos teus lábios. Estende a mão acorrentada e pousa-a no vidro frio (está realmente frio?). És tu. Agora despe. Despe as roupas que te escondem as inseguranças, remove as máscaras que te tapam e calam. Revela ao reflexo quantos sorrisos é que temes serem falsos, e como esse medo te impede de sentir como consideras suposto, porque te pensas viver uma mentira. Diz-lhe como cada desejo te pesa como o impossível. Deixa que ela leia na palma das tuas mãos os medos que te consomem, que te corroem. Conta ao reflexo o quanto a vida é cruel e tu não aprendeste a endurecer. Que tentaste e falhaste e assumiste esse padrão como teu. Que te enganas e desistes. Que mais cruel que o mundo, és tu, para ti. Deixa que saiba o quanto não queres ser tu, porque tu nunca terás descanso. E mesmo assim, apesar de tudo, ainda sorris para lá da dor, porque também a mentira se pode mascarar da dor que acreditas merecer. Por tudo isso, desabafa. Não faz mal. Afinal, há dias assim. Há dias que pesam, em que a mentira é doce e o amor está longe. Não fujas. Respira, a coragem ainda está por aí. Enfrenta o que nunca te atreveste a reconhecer. És tu, e viveres sendo quem és será a tua maior conquista. És tu, e de ti o amor nunca fugirá, só tens de o preservar, de o confortar com o mesmo abraço forte que reservas para ti mesma, o carinho mais importante. Sentada em frente ao espelho, conta ao reflexo como não te abandonarás. És tu, contigo, uma pela outra, ambas merecedoras de amor e conforto mútuo, mesmo que por vezes também o próprio espelho pese como o impossível. Descansa. Olha o sorriso no reflexo. Não é belo? É teu, todo teu. És tu, por ti. NOVA EM FOLHA


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Quem vê caras, não conhece histórias: um projeto criado com e pelo amor

RITA COUTINHO

Foi num dos milésimos scrolls por dia que se fazem pelo Instagram que me apareceu o vídeo da Márcia. “Para ti, que és mulher, que tens uma história para contar…”, é como começa o vídeo onde a fotógrafa profissional explica o novo projeto dela e onde, de imediato, prende a nossa atenção. Numa breve explicação, que não precisa de mais palavras do que aquelas que nos são ditas, a Márcia diznos que procura ouvir mulheres com diversas histórias de superação, tendo uma missão muito clara: “O objetivo é que todas as mulheres se sintam bem com elas mesmas e que entendam que não estão sozinhas. Vamos mostrar à sociedade que juntas somos mais fortes”. Numa edição onde é dado um destaque especial ao amor próprio e à forma como todos o vivemos, a Márcia é o exemplo de uma pessoa que utiliza os seus princípios e valores pessoais e profissionais para fazer a diferença no mundo. Vemos alguém que utiliza da melhor forma que sabe e pode aquilo que tem para dar: o seu amor pela fotografia e o amor por ajudar as pessoas. “Se conseguirmos ajudar uma pessoa, já estamos a fazer a diferença”.

Pois estás Márcia. Termos uma pessoa que pense assim já faz toda a diferença. Enchi-me de coragem e mandei mensagem à Márcia. De certa forma, senti-a próxima, o que me fez contar um bocadinho daquilo que considero ser a minha vivência que, de alguma maneira, poderia ajudar alguém. No entanto, disselhe de imediato que não sabia se a minha história era digna de um projeto desta dimensão. Já a Márcia soube de imediato que era. Combinamos um dia e, no momento em que entrei no espaço de trabalho dela, dei-lhe um abraço. Talvez dos melhores abraços que recebi nos últimos tempos. Às vezes pode parecer estranho, mas não tiramos tempo nenhum para fazer algo maior que nós mesmos ou para além daquilo que é a nossa vida. Não precisamos de coisas com grandes aparatos, bastando apenas fazer um esforço por dar um bocadinho de nós à comunidade onde vivemos. A Márcia não tem qualquer tipo de remuneração pelas fotografias, edições, montagens e sobretudo pelo tempo que dispõe para nós. Mas se lhe perguntarmos a ela , a resposta é totalmente contrária: “Eu NOVA EM FOLHA


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tenho aprendido tanto com as histórias das mulheres que aqui vêm ter comigo. E a gente chora, ri, choramos mais um bocadinho e no final eu olho para as fotografias que tirámos e tenho mesmo orgulho neste projeto, porque acho que já está a fazer a diferença que eu queria que fizesse”. O abraço que lhe dei foi um agradecimento por me deixar pertencer a algo maior que a mim mesma. Sentei-me num banco de madeira, com um pano preto de fundo e respirei. Estava nervosa. Alguma vez eu tinha jeito para tirar fotos com uma fotógrafa profissional? Alguma vez a minha imagem poderia ser mostrada como exemplo de algo para alguém? Não precisei de dizer em voz alta nenhum destes pensamentos. Como se estivesse a ler um livro, a Márcia deu-me a mão e falámos um bocadinho. Partilhámos histórias, vivências, lágrimas e amor. Havia tanto amor naquela sala que chegou a um ponto, horas depois de estarmos à conversa, onde senti que era capaz, sim, de olhar para uma câmara e simplesmente mostrar e dar de mim. A Márcia não pediu mais nada a não ser o que eu quisesse partilhar e dar ali a minha verdade e as partes boas e más dela. A sensação foi extraordinária. Senti-me, mais do que bonita ou bem, acompanhada. Não estava sozinha nisto.

ESPECIAL "AMOR PRÓPRIO"

A partir do dia 1 até ao dia 8 de março, dia da mulher, todos os dias na sua página de Instagram @marciaphotography, que conta com mais de 11 mil seguidores, vamos poder conhecer a história de dezenas de mulheres, de todas as idades, tamanhos e cores que quiseram dar-se a conhecer. Enquanto integrante do projeto, ver-me a mim e às outras mulheres tão bonitas e cruas, faz-me sentir orgulhosa em ser eu e em ser mulher. Enquanto apreciadora, espero que toda a gente consiga sentir o amor que está posto em cada detalhe deste projeto que mostra caras e dá a conhecer as histórias que talvez menos estivéssemos à espera. A ti Márcia, um mero agradecimento nunca vai chegar. Este é só o início de um dos mil sonhos que vi teres por cumprir. Obrigada por dares, tão livremente, o amor tão grande que tens em ti.

NOVA EM FOLHA


ESPECIAL "AMOR PRÓPRIO"

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À descoberta de mim em troca de uma relação DIANA NEVES

Como é que se resumem quatro anos em quatro linhas? Da timidez da virgindade ao hábito dos nossos corpos. Da amizade de todos os dias para o companheirismo de sol a sol. Tantas noites de choro, de filmes de ciúmes, de filmes no cinema-sofá, de cigarros às escondidas um do outro, de cigarros partilhados, de noites de álcool sem nunca o admitir, de noites de amor, de tardes na cama, de nudez embrulhada nos lençóis, de cansaço e suor em festivais de música, de mudanças de casa com o carro cheio, de discussões por não me compreenderes e discussões por não me deixares ajudar-te, dos ciúmes inúteis dos 17 anos à integridade sincera dos 21, dos locais mais improváveis de amor à intimidade do chuveiro. Já lá vão mais de quatro linhas, porque quatro anos não se resumem em quatro palavras. Andava à procura de mim noutra pessoa. No dia em que nos separámos fui até tua casa. Aquele caminho que sabia de cor nunca me pareceu tão sinuoso. O nevoeiro que o carro desbravava guiava-me até ao nosso final (in)feliz. Quando te vi, foi tudo natural: deste-me um beijo, um beijo suave e ternurento como se implorasses já para eu ficar; falámos dos nossos dias; tinhas uma ferida na barriga que fizeste no trabalho. Desinfetei-a. Disseste que eu estava linda com o meu novo penteado. Fizeste o jantar, sempre soubeste cozinhar bem, um dos teus talentos e que, infelizmente, não reconheces. Demasiado modesto. Eu disse que não tinha fome, mas depois logo comi. Jantámos os dois à lareira, parecíamos um casal de 60 anos. E parecia que tinha passado esse tempo. 60 anos. Estávamos cansados. Sabia que não podia continuar mais. Que precisava de me encontrar, precisava de respostas para mim. Precisava de uma liberdade que me desse espaço e tempo, ignorância e astúcia, crescimento individual, lutas significativas. Ninguém teve culpa. O que podias fazer? Eu estava perdida. Já não sabia quem era. Não sabia da minha identidade. Só sabia que tinha mudado. Nestes últimos três anos, tinha mudado. E não o sabia gerir. Precisava de mim. Unicamente. De mim. O que podia eu fazer? Tu precisavas de alguém que te pudesse acompanhar, estar contigo a qualquer momento. Eu não te podia dar mais isso. Agora, precisava disso para mim. Quando somos mais novos (não que me chame velha hoje), temos a tendência a colocar significado na ideia de: só faz sentido quando estamos juntos, quando nos completamos um ao outro. Aprendi que não é isso que acontece na realidade. Aprendi que cada pessoa é um indivíduo único dependente meramente de si. E que só é amor quando o outro nos consegue mostrar, enaltecer ou estimular a melhor versão de nós mesmos. Amor significa empoderamento, e não encaixe; significa estimulação, e não finitude. Aquilo que eu te disse mais permanece apenas na memória dos deuses, no segredo das nossas bocas, no assento quente dos sofás. Tinha-me encontrado muito antes do que pensava. NOVA EM FOLHA


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ESPECIAL "AMOR PRÓPRIO"

Depois do silêncio, pedi-te desculpa, mas tu disseste para eu não o fazer porque sempre mereci melhor. Repreendite, sabias que não era disso que se tratava, e proíbe-te de alguma vez repetires isso. Tu choraste. Em quatro anos nunca te tinha visto chorar. Silêncio fez-se novamente. Andámos às voltas. Não sabíamos o que fazer. Pedi-te desculpa e repeti, porque queria que o entendesses, que eu não ia à procura de melhor, ia à procura de mim. O cheiro da lenha, o ranger da porta, o chão frio das três da manhã, descalços e nus, ficaram todos lá, para sempre, em tua casa, eternizando os vultos da nossa memória. Eu não te perdi, eu abdiquei de ti. Eu não desisti da nossa relação, eu escolhi-me a mim. Abraçaste-me, eu chorei desesperadamente. E tu disseste-me “não faz mal”. Ofereceste-me um café. Aceitei. Era tradição. Lavámos a loiça, juntos. A espuma e a água lavando a dor dos nossos corações em mágoa. Toda uma cena que pareceria ridícula aos olhos dos outros. Ainda passeámos pela casa a arranjar assuntos, a arranjar desculpas, à procura do pó em cima dos móveis, à procura de nós nas paredes e no teu quarto onde não nos atrevemos a entrar. Despedi-me da casa, despedi-me de nós. Despedi-me dos fins de semana ao sol, do carinho dos teus braços, do aperto do teu peito, das tuas palavras e da tua voz da qual já nem me lembro. Parece que foi há tanto tempo que me seguravas na mão, que me prendias na cama de manhã, que me fazias o jantar. Parece que foi há tanto tempo que senti o teu toque… Parece que foi há tanto tempo que deixei de amar assim alguém para me poder amar a mim. Disseste-me para ter cuidado na viagem. Eu abracei-te num pranto, soluçando. Como é que ia deixar de tocar no teu corpo que era tão meu? Eu sussurrei-te ao ouvido “amo-te todos os dias menos ao domingo” e tu mandaste-me arranjar outra frase que esta tinha direitos de autor. Dizias-me sempre isso. Estivemos abraçados uns minutos, recusaste um beijo meu, então deixei-o suspenso na tua bochecha, esperando que um dia ele encontrasse o caminho até aos teus lábios. No teu peito respirei fundo e larguei-te rapidamente. Não olhei para trás, mas aquela estrada nunca me pareceu tão longa, e os meus soluços ecoavam no escuro da noite. Não sei como ficaste, não sei se ficaste a chorar como eu o fiz no banco do carro, não sei se desejaste correr para os meus braços como eu desejei fazê-lo para os teus. Afinal, sempre fomos dois meninos de 17 anos a aprender a amar. Dizem que os grandes amores sempre se encontram. Perdoa-me. Se agora tenho de me encontrar a mim. O amor é uma construção eterna, e nas mil formas de amor, o amor para mim, que veio de mim e se transforma em mim tem de ser igualmente trabalhado. Não nascemos a aprender a amar, não nascemos a gostar de nós. É um processo fruto de experiências, filho de desilusões, herdeiro de sorrisos. À descoberta de mim em troca de um nós. À procura do meu “eu” em troca da minha pessoa. À eleição do meu corpo em troca do teu. Aprendi que o ser humano se alimenta de idealizações, de ideias passadas que nos formatam a mentalidade, que nos entorpecem os sentidos, que nos prendem a imagens já acabadas, daquilo que foi, daquilo que passou. E o amor é resultado de idealizações, de formas de viver, de perspetivas, do outro, do eu, de nós. É um triunfo dos seres e a própria tragédia do humano. E como Virginia Woolf procura conhecer a entidade da vida e a essência das mentes, eu me perco no ceticismo, na banalidade dos corpos, na pressa do amor, no meu ser permanentemente em metamorfose, sempre inacabado. Afinal, é essa a entidade da vida, a incompletude do ser. Do amor que nos cresce no peito, daquele amor leve parecido a dente-de-leão, daquele que apanha boleia cruel e falso nos autocarros, daquele que nos olha fixamente. NOVA EM FOLHA


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E afinal Kundera estava enganado, porque a insustentável leveza do ser só acontece no amor, na leveza de se amar, na leveza de se incorporarmo-nos. Porque o ser é sempre insustentavelmente pesado, e o amor é sempre insustentavelmente leve. E o amor que se torna demasiado kafkiano perde todo o sentido, perde a sua leveza. Perde a sua insustentável beleza. Afinal, a descoberta de mim não se revela sempre consoladora, acarreta baixas e vítimas, deixa-me desamparadamente sós, obriga-me a apanhar um comboio às 7h da manhã em Santa Apolónia depois de uma noite em branco. Afinal, restava sempre eu. Bastava-me sempre a mim. E a solidão (dos Quatro E Meia) tornou-se privilégio na busca de mim. Daquilo que estava agora a florescer. Afinal, amor próprio é sinónimo de envelhecimento.

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Ao espelho JOÃO MARTINS

Que ser inconveniente é aquele, que bloqueia meu correto caminho? Está mal, pois não sei que faça dele ou sequer que faz ele ali sozinho... Arreda! Tu, que impedes a passagem, tu, que queimas meu tempo precioso. Tenho aonde ir - um rumo, uma viagem, O mundo chama e eu estou curioso.

Como bem vês, não posso aqui tardar, deixar partir o vigor e a vontade, perder a fé, por medo da saudade. Compreende, permite-me avançar... Mas não se move, o ser sem piedade! E eu que faço? Fulmino-o com o olhar...

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amor próprio fica-te bem Dir-me-ias que amor que é amor é constante. Que não tem interrupções e que é maior do que qualquer outro sentimento. Mas até a ti é difícil amar nos dias mais difíceis. De vez em quando és a pessoa que menos suporto. Não deixa de ser amor. Gosto muito quando me fazes rir até me doer a barriga e quando fazes panquecas que até ficam boas. Gosto que queiras saber fazer tudo e que tenhas uma paixão inata por tudo o que seja arte. Nos nossos piores dias, sinto falta do teu bom humor e dos teus sorrisos. E fico com saudades de quando fazes os outros sorrir. Adoro ver-te entusiasmada quando te esmeras no guarda-roupa, mas nem sempre tens paciência e parece que a falta de vestes bonitas também te tira o brilho dos olhos. Já aconteceu dizerem-te que és bonita, inteligente, boa companhia e vi-te corar e desdizer todos os elogios. Custa-me que não acredites neles. O amor próprio fica-te bem. Peço desculpa por, em tempos, te ter deixado a tropeçar sozinha nas tuas inseguranças e por ter permitido que dependesses do amor e da aprovação (ou não) dos outros. O encorajamento deveria partir primeiro de mim, sempre. Por causa disto, disse coisas que não se dizem e fiz-te ver o mundo de forma distorcida. Fiz-te chorar – isso não se faz. Creio que nunca é tarde para pedir perdão. Devia ter posto música a tocar para dançares pelo quarto e ter-te dito mais vezes que a bombazina não passou de moda (e se passou não faz mal). Para amarmos os outros, temos de nos amar a nós primeiro. Não há uma lista de coisas a fazer para lá chegarmos e nem sei se alguém já o fez. Mas também não importa. Agora, por favor, sai de frente do espelho e vai fazer as coisas que te enchem a alma. 2019 Ana Catarina Tiago NOVA EM FOLHA


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Quase mulher RITA COUTINHO

Faz meses que não vejo brilho nos olhos Que não me consigo olhar sem cair uma lágrima de tristeza Para onde foi o amor Onde está a leveza Da mulher que sabia o que era, quem queria ser? Faz meses que não me olho no espelho, E se por acaso o olhar desviar Dá-me pena a figura da meia mulher que vejo Deste sentimento de que não há nada para amar. Sou de amores eternos, de sensações quentes, que ficam De pores do sol que aquecem, manhãs de inverno que arrefecem Sou das que ama ver uma flor só porque é linda, A flor. Espero um dia poder voltar a olhar no espelho, E tomando a peito o meu próprio conselho Quero um dia deixar de ser meia, Para ser inteira E feita de amor.

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Sara Barros Leitão em Entrevista Sara Barros Leitão nasceu no Porto, em 1990, e trabalha como actriz, encenadora e dramaturga. Em março de 2021, em pleno segundo confinamento causado pela pandemia de COVID-19, a Etérea entrevistou-a, tendo em vista a posição do trabalho artístico em Portugal e os efeitos do contexto pandémico no mesmo, assim como a vontade da atriz de deixar a sua marca no mundo. A Etérea é um projecto do NECCOM de divulgação e discussão cultural no meio universitário, feito por e para estudantes. E: Quais são as primeiras memórias que tens, por um lado ligadas à arte, seja em cima de um palco, seja a ver teatro, e por outro a tua primeira memória mais ligada ao ativismo. S: Ok, são duas coisas muito diferentes, na verdade. Estar a tentar associar arte e ativismo assim desta maneira pode parecer um bocado forçado porque, quer dizer, sobretudo nas minhas memórias elas não vêm nada próximas… E: Mas podem ser mesmo duas memórias diferentes. S: Pois, é isso. Não só são memórias diferentes, como são coisas distintas para mim. Não acho que a arte tenha de ter essa função ativista, nem o ativismo tem de estar ligado à arte. Mas, sei lá, nas primeiras memórias é muito difícil perceber quando é que as coisas começam, qual é que é o princípio das coisas, não é? A minha primeira memória ligada à arte acho que não é o teatro, é talvez a literatura porque é aquilo que é de acesso mais democrático nos dias de hoje. Eu sou de um subúrbio de uma grande cidade, onde não há nenhuma galeria de arte. Existe um fórum municipal muito mal programado, portanto só em adolescente é que começo a ter dinheiro para vir até ao Porto e comprar bilhetes de espetáculos. E preciso de dinheiro para isso, preciso de emancipação, etc., por isso as minhas primeiras memórias a sério acho que estão relacionadas com os livros e também com aquilo que os livros me proporcionam, em relação a quadros e outras expressões artísticas que eu via a partir dos livros, porque no sítio de onde eu venho o grande polo cultural é sobretudo a biblioteca, não há mais nenhuma referência. Não sei se é muito interessante esta resposta, mas pronto. Por exemplo, eu lembro-me quando vi o Guernica pela primeira vez. Eu tinha 24 anos, fui a Madrid, ao Reina Sofia, e quando entro no museu eu não sabia que ele estava lá, eu fui surpreendida. Então, quando entrei numa sala e vi o tamanho daquele quadro, comovi-me muito, sobretudo por não estar à espera, por ser uma coisa completamente inusitada. Eu conhecia o Guernica dos livros que

me tinham passado pelas mãos, já não sei em que contexto. De facto, na legenda dos livros diz lá as medidas do quadro, mas eu nunca tomei atenção a isso nem nunca materializei na minha cabeça o que é que era um quadro de, sei lá, seis metros por oito. Nunca na minha cabeça isso foi uma ideia. Então ao longo da minha vida, agora, adulta começo a ter capacidade financeira para poder viajar e ter acesso a outras coisas e poder adquirir essas coisas, esses bilhetes, e começo a aperceber-me que os livros me introduziram esses universos, mas que é muito diferente a experiência entre ver num livro e ver ao vivo. No entanto, se não fossem os livros, eu nunca teria visto certas coisas, que eu nunca vou ver ao vivo, e eles de certa maneira prepararam-me para isso sem nunca me terem tirado a capacidade de me espantar com as coisas que vou encontrando. Como, por exemplo, no ano passado fui a Milão e vi a Última Ceia ao vivo. Eu achei que a Última Ceia era um quadro, não sabia que era um fresco numa parede – não sei se vocês sabiam. Mas eu achei que a Última Ceia era um quadro deste tamanho, mas na realidade aquilo é um fresco pintado na parede de um mosteiro e foi também muito impactante ver a dimensão e aquilo tudo. Então, a primeira memória da minha vida é ver a Última Ceia pintada num quadro em cima da mesa de jantar dos meus avós, que é uma cópia da cópia da cópia. Ou se calhar a minha primeira relação com objetos artísticos é no dia do meu batismo, quando entrei numa igreja e vejo aqueles objetos todos, mesmo sem ter ainda capacidade de racionalizar o que é isso que eu estou a ver. Pronto, portanto é difícil selecionar assim a primeira memória, mas se eu tivesse de selecionar uma, eu diria que tem a ver com os livros e o acesso que eles nos dão. Um momento ligado ao ativismo: a primeira memória que eu tenho de ativismo também é difícil de selecionar, porque provavelmente se eu me esforçasse e fizesse psicoterapia, conseguia regressar (...). Se eu tivesse de identificar essa primeira memória, ela seria quando eu entrei para a escola de NOVA EM FOLHA


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ENTREVISTA

teatro, com 14 anos e encontrei um mundo que eu não conhecia e imensas pessoas extraordinárias e muito inspiradoras, que estavam politicamente muito ativas e que me deram uma visão do mundo a que eu nunca tinha tido acesso. Tudo se começa a confundir na ação política, ação reivindicativa, o ativismo... Então, talvez assim a primeira memória que eu possa selecionar tenha sido a primeira marcha do orgulho LGBT no Porto, que acontece no ano em que eu vim estudar para o Porto e dá-se com o brutal assassinato da Gisberta e isso acaba por desencadear nesse verão a primeira marcha. Eu tinha um grande amigo, que entretanto já não está cá connosco, que foi a maior referência de ativismo para mim. Era uma pessoa extraordinária, que me levou para essa marcha e foi a primeira vez que eu estive com uma multidão a manifestar-me e a percorrer ruas, a gritar, a assinar um manifesto comum. Essa é assim a primeira memória que eu tenho. E: Falaste da questão de não sobrepores a arte e o ativismo; para ti são coisas claramente distintas. Queres aprofundar um bocadinho essa ideia? S: Sim, acho que é isso. Têm dois nomes diferentes porque são duas coisas diferentes. Podem cruzar-se, podem alimentar-se uma à outra, mas não têm nenhuma obrigatoriedade de o fazer, não devem sequer fazê-lo a não ser que o objeto artístico tenha essa finalidade, não há nada que o condicione a ter qualquer tipo de ação para além daquilo que é o próprio objeto artístico. Para mim, são duas coisas muito distintas, apesar de no meu trabalho elas se poderem confundir muitas vezes – mas isso são duas coisas diferentes que se encontram naquilo que é uma terceira coisa que sou eu. Isso não significa que eu veja o mundo todo à minha luz, nem acho que todo o mundo tenha de fazer as coisas como eu faço. E: A arte não deixa de ser um fim em si mesmo, não é? S: Sim, isso é o topo da minha lista de intervenção. Acho que isso é muito importante – e não é pelo facto de às vezes eu poder fazer coisas que têm um ponto de vista mais político ou mais ativista, que faz com que eu defenda que a arte o deva ser, porque não acho. E: A próxima pergunta está, se calhar, um bocadinho mal formulada, porque vai de encontro com isso que disseste da arte e do ativismo serem duas coisas separadas, mas poderem ser juntas, ainda que não tenham necessariamente de o ser. Como é que deste por ti a ir para a frente da luta pela justiça social no sector da cultura? S: Elas são mesmo duas coisas diferentes. Eu acho é que, às vezes, acabam por ser os próprios media a confundi-las, sobretudo no meu trabalho. Quando eu faço teatro, estou a fazer teatro e quando faço uma manifestação não estou a fazer teatro, estou a fazer uma manifestação. Eu acho que as pessoas podem ser muitas coisas, não têm de ser só uma. Isso para mim

é muito claro e fico muito irritada quando em todas as entrevistas sobre o meu trabalho, em particular quando estou a falar do meu projeto, no fim acabam “Então e o setor da cultura como é que está?”. É tipo, olha está como se vê, mas eu estava a falar do meu trabalho”. Eu ocupo outros cargos, em que posso falar só do setor da cultura, mas acho que são os jornalistas que teimam em juntar as duas coisas e de repente eu fico aqui numa encruzilhada, em que parece que sempre que me ouvem falar eu tenho de estar a reivindicar coisas e a falar sobre arte ao mesmo tempo – quando, na verdade, são mesmo duas coisas distintas. Tentando responder à tua questão em particular, eu acho que lutar por melhores condições laborais na cultura é uma inevitabilidade quando se trabalha na cultura, pelo menos para mim. Porque, primeiro, há um sentido de missão, de militância em mim, sempre houve; em tudo o que me meto quero que as coisas sejam o mais justas possível. Isso tanto é no setor da cultura, como quando eu servia às mesas e me insurgia contra os meus patrões por não nos pagarem as horas extraordinárias, por não NOVA EM FOLHA


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nos darem uma comida decente, por nos pagarem debaixo da mesa e não nos fazerem contratos de trabalho. A questão é que trabalhei menos a servir às mesas do que trabalho na cultura e, portanto, dedico mais do meu tempo a lutar pela cultura do que pelos trabalhadores de hotelaria – e os trabalhadores de hotelaria estão a fazer o seu percurso sindical nesse aspeto e se eu algum dia voltar a servir às mesas certamente me junto nessa luta e passo a encabeçá-la. Porque ela é uma inevitabilidade, porque é a essência do teu trabalho. Ou seja, eu gosto de fazer arte, eu gosto de trabalhar em teatro, mas para mim é sempre um trabalho. Por muito que eu goste de fazer alguma coisa, não é o facto de eu gostar que vai deixar de ser um trabalho. Eu acho que todos devíamos encontrar trabalhos que amássemos, mas isso não pode nunca ser uma justificação para perdermos direitos em relação àquilo que é o nosso trabalho. Então, eu para executar aquilo que gosto, quero encontrar as melhores condições para isso; e isso está ligado às lutas pelos trabalhadores da cultura. Assim como quero que as pessoas que trabalham comigo tenham as melhores condições possíveis, então luto para que elas também as tenham. Por isso, lutar pelas condições do trabalho na cultura é lutar por mim e pelos meus pares, para que o resultado artístico possa ser muito melhor e não ter nenhuma preocupação, por exemplo, de proteção social ou passar recibos, etc., porque há uma forma digna que se equipara a qualquer outro trabalhador. E posso dar um exemplo muito concreto: não é por gostar muito do que faço e pelo facto da minha arte ser ou não política que eu deva, perante um banco, ter menos acesso a um crédito à habitação do que uma pessoa que trabalha numa repartição de finanças, pelo facto dessa pessoa ter um contrato de trabalho e eu não. Então, em última análise eu tenho de dormir nalgum sítio; em última análise, eu tenho de viver nalgum sítio; em última análise eu tenho de pagar a minha renda ou pagar o meu empréstimo. E portanto, por muito que eu goste de fazer arte, eu tenho de pagar a minha casa, preciso de lutar pela minha carreira contributiva, para que me dê acesso a um contrato de trabalho, para eu poder ter acesso a esse empréstimo, para eu poder não ter de estar preocupada com onde é que eu vou dormir nessa noite, para que o meu trabalho possa ser melhor realizado. Então, elas são mesmo duas coisas separadas, mas estão juntas no contexto em que, eu, para poder executar este trabalho, preciso destas condições, que ainda não estão asseguradas; então eu vou trabalhar por elas. Com isto, não quero dizer que todos os trabalhadores da cultura estejam nestas lutas, porque não têm de o estar – estão noutras, ou não estão em nenhuma – porque tentar sobreviver a trabalhar em arte em Portugal já não é coisa pouca. E: Como é que (se é que deve ser, em primeiro lugar, mas se sim, como é que) a programação cultural pode ser uma forma de intervenção na sociedade de alguma forma? Podemos chamar-lhe ativismo se quisermos, mas acima de tudo uma forma de intervir na sociedade e naquilo que acontece nela.

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Achas que a programação cultural deve ter esse cariz mais marcadamente político? E se sim, como? S: São duas coisas diferentes, ou seja, falar na programação cultural como intervenção na sociedade não é a mesma coisa que falar da programação cultural na sociedade de uma forma política, porque programar projetos culturais é por si uma forma de intervir na sociedade, de dialogar com ela, mesmo que esses projetos culturais falem sobre o abstrato, sobre o mar, sobre a beleza, sobre a contemplação. E isso não acho que seja coisa pouca e é uma forma de intervir na sociedade e no dia-a-dia das pessoas, na forma como se desafia as pessoas a olharem para o seu quotidiano de uma outra maneira. Quando colocamos a palavra “política” nisto, parece que aquilo que estamos a querer dizer é na verdade que tenha um ponto de vista mais panfletário ou mais assumidamente partidário ou seja o que for. Mas na verdade, eu acho que isso é uma má interpretação do que é a palavra “política”, porque, para mim, a política é aquilo que são os assuntos do ser humano, aquilo que nos interessa a todos – são as nossas atividades coletivas e até individuais. São as atividades humanas, na verdade. Por isso é que a forma como amamos também é um ato político; a forma como nos correspondemos também é um ato político, tudo isso são atos políticos, porque é a forma como nós interagimos. Eu acho é que o discurso do que é que é política ficou, nos últimos tempos, demasiado centralizado – se quisermos – num edifício, que é a Assembleia da República, num tipo de profissões, que são os políticos, num tipo de canais, que são os canais de informação. Mas, quer dizer, por exemplo, a RTP2 faz uma programação política pelo facto de apresentar desenhos animados em canal aberto, para pessoas que não têm acesso ao Canal Panda – e isso é um ato político, que é pensar nas crianças deste país e naquilo que queres programar para elas e não esperares que as pessoas tenham de pagar a NOS ou a MEO. Isso é um ato político. É uma programação cultural, num canal aberto do Estado que tem essa responsabilidade. Tudo o que a RTP2 nos mostra, os filmes, as séries, sem precisar de ser sobre política, é uma programação que é também um ato político. Tentando responder de forma mais concreta, eu acho que tem de haver espaço para tudo e, sobretudo, tem de haver espaço para a liberdade. A partir do momento em que nós começamos a dizer o que é que deve ou não deve, entramos num caminho muito sinuoso do qual eu não quero fazer parte. Porque, se por um lado ele nos pode servir numa primeira instância porque serve os nossos posicionamentos pessoais e aquilo que nós achamos que o mundo é e deve ser, por outro lado, quando o mundo vira 180 graus e as coisas são usadas ao contrário, aí fica muito perigoso. Se eu digo que uma programação cultural deve servir para despertar consciências das pessoas para as alterações climáticas, para a igualdade, etc., eu vou ter de assinar por baixo no dia em que for o oposto e me disserem “sim, mas hoje a programação cultural tem é de servir para caminharmos para uma sociedade mais fascista ou mais homofóbica...”. Como é que eu NOVA EM FOLHA


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vou dizer que não é isso que eu quero? Quer dizer, só pode servir quando me serve... Então eu não quero isso. Eu quero, na verdade, que todos os programadores culturais deste país tenham total liberdade para as suas programações culturais e que possam ser escrutinados por elas e que, a partir do momento em que ocupam esse cargo, haja total liberdade para, em praça pública, nos meios de comunicação, todas as pessoas poderem elogiar ou criticar aquela conduta. E se, enquanto sociedade, nós acharmos que aquele tipo de posicionamentos tem censura, não dá liberdade aos artistas, tem uma agenda por trás que é uma agenda que vai contra os direitos humanos, então acho que enquanto sociedade temos que ter a liberdade de imprensa para podermos escrutinar, para podermos através dos métodos democráticos tirar essa pessoa desse lugar e colocar outra, e tudo isso são intenções que eu acho que são muito saudáveis para uma sociedade. Acho que se nós não permitirmos sequer que essa pessoa chegue a esse lugar e faça isso, então esse problema não se vai pôr e nós vamos estar a perder uma oportunidade para pensar sobre isso, o que eu acho que é uma pena. Se a programação cultural tem algum tipo de responsabilidade, eu acho que tem; e todos nós enquanto sociedade civil também temos responsabilidade sobre essa programação cultural. E: De onde é que vem a desvalorização da arte em Portugal e porque é que continua a existir? Onde é que isso depois se manifesta? Ou seja, quais as suas consequências? A precariedade, a possibilidade de isso levar a uma diminuição dos artistas em Portugal etc. Porque é que as pessoas deixam de se sentir seguras a seguir a arte e a cultura profissionalmente e o que é que nós podemos prever num país sem artistas? S: Bom, isso são muitas perguntas. Vou tentar desmontar essa pergunta em várias, porque são mesmo muitas coisas. Começaste por dizer de onde é que vem a desvalorização da arte

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e da cultura e talvez comece por distinguir “arte” e “cultura” enquanto duas palavras e duas acepções distintas. Cada vez mais, tenho dúvidas que o ministério da cultura se devesse chamar ministério da cultura, porque as palavras são importantes e questiono-me sobre isso. Esta questão foi-me trazida por uma poetisa que eu gosto muito, que é a Regina Guimarães, que é uma mulher incrível, ativista também por todas as causas, e ela tem esta tese que defende que o ministério da cultura se devia chamar qualquer coisa como “ministério das artes, das letras e do património”. E para mim, quando ela me contou isto, não achei que fosse uma questão assim tão pertinente, mas cada vez mais percebo que talvez o seja. Isto porque a cultura, em última análise, pode ser por exemplo a agricultura. Na acepção da palavra cultura vem também o culto e o cultivar a terra, os tempos de fazer cada coisa, se quisermos até o culto num sentido quase sagrado e religioso, e entra também aquilo que nos define como sociedade, o peso que nós carregamos do que veio antes de nós e com o qual temos que lidar, para o bem e para o mal, nomeadamente festas e romarias, um património de canções, e, até, as próprias touradas. Ou seja, tudo isto cabe dentro do que é a palavra “cultura”. E, por isso, de alguma maneira, há muitos equívocos quanto ao que é que deveria ser o ministério da cultura ou não. Porque ele tem isto tudo. Então, porque é que os ranchos folclóricos não são abrangidos pelo ministério da cultura, ou de que maneira é que o ministério da cultura tem responsabilidade sobre os ranchos folclóricos? Ou, por exemplo, o que é que distingue um artesão que faz cestas de vime, todas iguais, em que ele na verdade tem a técnica, mas não tem a arte, porque ele não inova as cestas? Ele simplesmente reproduz um conhecimento e por isso é que ele é artesão e não artista. O artista pode dominar a técnica, deve dominá-la, mas aquilo que ele faz é repensar, ele ativa na sociedade. Ou seja, se eu aprendesse a técnica de cestos, não seria artista por reproduzir esses cestos; eu seria artista por pensar “o que é que eu faço com esses cestos, de que maneira é que eles me servem hoje em dia, que discurso é que eles produzem? ” e não apenas a continuação de um património. Dizer “desvalorização da arte” não é a mesma coisa que dizer “desvalorização da cultura”, são duas coisas diferentes. Ao mesmo tempo, não nos podemos esquecer de onde é que vimos e nós vimos de um país que viveu mais anos em ditadura do que em democracia e isso não é também coisa pouca. Estamos neste momento a caminhar para um quase igual nos anos de democracia, mas nós temos um passado de cinquenta anos altamente opressor, altamente ditatorial, que como em quase todas as ditaduras do mundo vê na arte, mas sobretudo na cultura, uma forma de propagar ideologia e de restringir pensamento. Eu não concordo com a desvalorização da cultura, porque, na verdade, o que nós temos enquanto identidade do nosso passado é uma grande valorização da cultura. Até, na criação de novos símbolos culturais, nomeadamente o galo de Barcelos, os trajes de Viana do Castelo, as casas portuguesas, o fado. São tudo produtos do NOVA EM FOLHA


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Estado Novo, para uma ideia de portugalidade que até nem existia, mas que precisava de ser criada enquanto símbolo identitário e cultural, para que as pessoas sintam que pertencem a algum desses sítios, para que seja mais fácil controlar o que é essa identidade portuguesa. E o que nós vemos hoje, em movimentos de extrema-direita, não concordo nada que seja uma desvalorização da cultura, é o contrário: é uma tentativa de apropriação desses símbolos e daquilo que é a nossa cultura. Até, em última análise, para defender o casamento heterossexual em detrimento do casamento homossexual, porque na nossa cultura, o casamento homossexual não existe; há uma valorização do que é que é uma família tradicional. E a ideia da família tradicional é também um produto cultural, desde logo na Santíssima Trindade. Esta ideia de se um casal heterossexual, cisgénero, branco, com um filho, com dois filhos – tudo isto são produtos culturais que nós consumimos. Para falar de desvalorização da cultura, eu discordo mesmo. Também não acho que haja uma desvalorização da arte. É preciso perguntarmo-nos qual é essa desvalorização da arte. Porque aquilo que nós vemos é também uma série de discursos que não entendem que a arte é uma atividade em constante questionamento e mutação e que o próprio questionamento sobre os objetos artísticos é também ele uma manifestação artística. Nomeadamente, será que devemos repensar os nossos museus? Será que devemos tirar os símbolos coloniais? Há uma sobrevalorização tal de alguns objetos artísticos, que não permitimos sequer que sejam questionados. Mais uma vez, depende da agenda que nós temos. Por um lado, há uma grande incompreensão sobre aquilo que é o trabalho de um artista e há essa desvalorização, porque vivemos num mundo altamente utilitarista, em que não se consegue compreender para que é que servem certas coisas e a arte é uma delas. É muito difícil para uma parte das pessoas entender para que é que serve a arte. E, sobretudo, quando essas pessoas têm 50 anos de um regime fascista que não promove a arte livre em comparação com outros países, nomeadamente no Norte da Europa onde a arte não era censurada, e pelo contrário, era estimulada. Aí há um entendimento da população sobre a arte e sobre os artistas muito diferente de países onde a Inquisição teve uma predominância muito grande e onde existiram regimes fascistas e ditatoriais. Eu acho que isso tudo contribuiu para uma incompreensão das pessoas sobre a função da arte. Para que serve, o que fazem os artistas, porque é que nós temos de lhes pagar. Ao mesmo tempo, como as condições de vida são tão más e as pessoas são tão pobres, o acesso que elas têm aos equipamentos culturais não existe. Não nos podemos esquecer que até há 50 anos, a nossa taxa de analfabetismo era imensa, só agora começamos a reverter isso. Tudo isso contribui para que as pessoas vivam uma vida plena de sofrimento. Eu acho que a igreja católica cristã contribui para essa ideia de que todos temos de sofrer por alguma coisa, tudo tem de ser muito sofrido. E isto provoca que as pessoas não sintam que têm direito a

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pensar, ao lazer, à abstração, à contemplação. Acham que precisam apenas de trabalhar e sofrer o resto da vida e só assim vão encontrar uma vida de plenitude no futuro. Tudo isto faz com que seja muito difícil, politicamente, inscrever num Orçamento do Estado valores mais altos para a Cultura, porque somos também um país estruturalmente pobre. Temos problemas tão graves como a corrupção, e apesar de sermos um dos países mais quentes da Europa e com mais dias de sol, somos um dos países com maior pobreza energética, etc.. É difícil explicar às pessoas que não têm dinheiro para aquecer as suas casas, que vamos aumentar o apoio dado aos artistas. E: Como foi estar tanto tempo com o trabalho artístico em pausa, sem a esperança de regressar? S: A primeira coisa a fazer é pagar esses projetos porque aquilo que estamos a viver hoje em dia é uma situação sem precedentes, é uma calamidade, uma questão de saúde pública. Então, acho que são duas questões: a primeira é a falta de apoios, a resposta dada pelo Governo; por outro lado, é sermos negacionistas ao ponto de acharmos que o nosso trabalho é mais importante que a saúde pública. Por isso, em relação à segunda questão, no sentido de quando é que regressamos, como é que fazemos, como é que isto se opera, o meu posicionamento é muito claro: eu sou profissional de cultura, não sou profissional de saúde pública. Eu não faço ideia de como é que se lida com uma pandemia, por isso confio. Se tivermos de parar um ano sem arte, ninguém vai morrer por não ter acesso a objetos artísticos. Sejamos honestos, nós, por muito que gostemos do nosso trabalho, não salvamos vidas. Eu acho que podemos salvar vidas no sentido filosófico, a saúde mental, mas não é assim tão importante. Por isso, cabe aos artistas adaptarem-se. Se os professores, os médicos, as repartições públicas alteraram a sua forma de trabalhar, então os artistas também têm de alterar a sua forma de trabalhar. Politicamente, responde-se a isto pagando-se às pessoas independentemente de ser cancelado ou não. Porque, em última análise, nós temos de pagar às pessoas para que elas possam cumprir aquilo que lhes pedimos, que é ficar em casa. Aos médicos para ir salvar vidas, às empregadas de limpeza para esterilizar os espaços que vão receber os doentes, aos professores pagamos para que fiquem em casa dar aulas, aos alunos damos forma de ter aulas e aos artistas pagamos para que eles fiquem quietos. Portanto, tudo tem que ser pago. Isso exige que haja por parte das entidades públicas e privadas o pagamento de todas as coisas que estão contratualizadas e por parte do Governo que haja apoios sociais. E: Como vês a tensão entre a autonomia plena dos artistas e uma certa orientação temática das próprias entidades e programadores culturais que impõe determinadas linhas temáticas nos concursos? S: Acho que essa tensão é saudável porque promove o NOVA EM FOLHA


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pensamento e o debate e esse é o sítio mais saudável onde podemos estar. Acho que é uma não questão ao mesmo tempo, porque tem a ver com o sítio onde tu procuras o financiamento para os teus projetos. Na história do mundo, sempre foram os mecenas a decidir o que é que tu ias pintar - essa democratização só aconteceu muito tarde. Por isso é que nós não temos esculturas de trabalhadores a tirar batatas da terra; quem pagava queria ver-se a si próprio pintado. Agora há uma democratização que vem de muitas formas. Por exemplo, se tu quiseres realizar um filme, podes até usar a tua câmara. Se quiseres fazer um álbum, não tens que pagar uma viagem para ir para Abbey Road e gravar lá. Sim, podes tentar fazê-lo, mas há uma grande democratização no acesso às coisas e bastantes formas de teres acesso à Internet e a um computador e criares a tua própria plataforma. Esse acesso nunca foi tão democrático na história do mundo. Tu dependes muito menos de curadores, programadores, etc.. Cada vez mais encontras esse lugar de muita democratização. Agora eu acho que esses debates são feitos por pessoas que ainda vêem as coisas de forma muito linear. As formas de financiamento do trabalho de um artista vão além da DGArtes e dos concursos europeus, que têm um tema ao qual tenho de corresponder porque preciso do dinheiro e tenho de o ter por ser artista. Esse é um ponto de partida errado. Tu não tens de receber dinheiro só por seres artista. Eu acho que ele tem sempre de justificar o seu trabalho se quiser um rendimento,sobretudo se for público. Sou completamente contra a ideia de um rendimento universal, sobretudo esta ideia de que devia haver um rendimento para os artistas só porque são artistas. Não acho que os artistas sejam nenhum ser especial em relação a outro. Entendo que há especificidades no seu trabalho e que a sociedade deve proteger os artistas do mercado capitalista, mas isso é muito diferente de achar que eles devem ser financiados só porque existem. Acho que trabalhar com

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dinheiros públicos é uma enorme responsabilidade e acho que os artistas têm essa responsabilidade em si. Em última análise, cabe aos artistas a perversidade com que encaram os desafios e acho que há muitas outras questões de censura que existem ao nosso lado. Por exemplo, há uns anos em Espanha aumentaram o IVA dos espetáculos, mas não o dos legumes. E houve uma companhia que vendia cenouras e as pessoas podiam ir ver o espetáculo. E esta é a forma de os artistas perverterem o sistema. Se és contra uma linha temática, perverte-a. Se te dão uma linha temática e não te vês a trabalhar sobre ela, podes sempre pervertê-la. É também para isso que servem os artistas, para através da sua ação e do seu trabalho perverterem as coisas. E: Tens alguma sugestão cultural que relacione a política e a arte? S: Sugiro que se veja e se acompanhe o trabalho de um modo geral do Teatro du Soleil, em Paris. Não é o Circo do Solei, é o Teatro du Soleil. É dirigido pela Ariane Mnouchkine há 5 anos e tem um projeto artístico completamente inovador e transformador. Tem umas 50 pessoas contratadas, trabalham de forma horizontal, todas ganham o mesmo, é um caso quase de cooperativa num trabalho muito político. Ela tem também uma associação em que emprega artistas em exílio político, por causa de guerras ou outras questões. E, por isso, na companhia dela há pessoas que vêm desde a Síria, ao Egito, ao Congo. Pessoas um pouco de todo o mundo. Mesmo antes de ouvirmos falar dos refugiados, já ela fazia um espetáculo sobre os refugiados do Mediterrâneo que tem uns 20 anos. Tem também uma companheira que escreve grande parte dos textos que ela faz e, então, é o exemplo de uma companhia em questões políticas e a forma como trabalha é também política, pela forma como paga e como se organiza.

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COP26

QUATRO MESES DEPOIS

entrevista com Bianca Castro

A Bianca tem 20 anos e é ativista do Fridays for Future. Esteve presente na conferência de Glasgow em novembro. Antes de ir para a cidade escocesa, colaborou na organização da greve climática de Estocolmo e partiu depois para Londres para participar nos protestos contra a Standard Charter - uma empresa que já investiu dezenas de biliões de dólares na área dos combustíveis fósseis. O Fridays for Future organiza diversas ações contra o sistema financeiro e extrativista, mas o ponto alto da organização aconteceu com a mobilização e ações dentro da Conferência de Glasgow. A conferência já acontece anualmente há 26 anos e reúne num único espaço dezenas de países, empresas e organizações sob o pretexto de discutir sobre as alterações climáticas - a conferência em Paris de 2014 foi o catalisador do Acordo de Paris. Na conferência do passado mês de novembro os trabalhos culminaram no Acordo de Glasgow. O que faziam os ativistas durante a Conferência? Em Glasgow tivemos duas semanas intensas com reuniões diárias logo pela manhã com todos os membros do FFF presentes na cidade. O tópico de discussão era com base no que havia acontecido na conferência e a partir disso planeámos ações e protestos. As Greves grandes e principais estavam planeadas há já algum tempo, mas o que decorria dentro da conferência era também um motivo para nos mobilizarmos de forma espontânea de acordo com a sua organização (ou desorganização). As coisas estavam feitas de modo a que era difícil saber as horas certas de alguns acontecimentos e reuniões, o que dificultava o nosso trabalho de ativismo. Mas não havia um planeamento prévio da conferência que os ativistas pudessem consultar? Havia. Então não era suficiente. Não. Porque aquilo a que os ativistas tinham acesso era maioritariamente insignificante perante as grandes questões da Conferência (é algo que posso elaborar mais à frente). Nós no FFF fomos a Glasgow com um passe de observador - o mesmo que era dado às ONGs - o que no fundo significa que não observámos nada. Os plenários estratégicos e importantes estavam fora do nosso alcance. Ir à COP para ativistas significa ser o espectador de uma autêntica feira de Greenwashing. Só sabíamos dos plenários importantes através de outras fontes. Consegues dar-me um exemplo de um plenário seguido de uma ação espontânea durante a COP?

Um exemplo é o assunto dos combustíveis fósseis. É impressionante, mas o texto final da conferência de Glasgow foi o primeiro em 26 anos a definir os combustíveis fósseis como uma causa para a crise climática. O plenário que levou à inserção dessa ideia no texto foi frequentado por mais de cinco centenas de delegados de empresas de combustíveis fósseis da Europa e da América, mas durante a conferência a ideia mais proeminente era a de que no texto final seria reiterada a necessidade de acelerar a eliminação do uso de combustíveis fósseis - algo que seria um marco na história da luta contra as alterações climáticas. Porém, à última hora, propostas oriundas maioritariamente das delegações da China e da Índia fizeram alterar esta frase para a “diminuição progressiva do uso de combustíveis fósseis”. Descobrimos sobre isto pela manhã e ia haver um plenário à tarde para discutir o assunto, do qual estávamos efetivamente excluídos - mas fizemos uma ação em cima da hora (a maior que organizámos dentro do espaço da conferência) a exigir o cancelamento desta alteração. Quantos ativistas estavam na COP? Eu estive a pensar nisso recentemente. Acho que do FFF estavam cerca de duas centenas de ativistas. Mas no geral, estiveram umas quantas centenas de ativistas de todo o mundo. A contar, por exemplo, com a delegação indígena, que foi a maior da história da COP. Não é possível saber ao certo nem conhecer todos, mas na ação que organizámos na rua conseguimos reunir cerca de 150 mil pessoas - com ativistas de todo o mundo e organizado com o movimento laboral da cidade de Glasgow e com o apoio da população da cidade. No fim de contas, a presença NOVA EM FOLHA


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de ativistas era significativa. Mas as suas vozes não foram ouvidas. E nos plenários? Quem participava? Essencialmente políticos e delegados de cada país. Alguns plenários permitiam a participação de ativistas, principalmente membros seletos de algumas ONGs com passe de observador. Os plenários dos países mais poluidores, como os do Norte Global, eram por norma os menos acessíveis. Com sorte, nestes plenários mais exclusivos eram permitidos um ou dois membros de ONGs - os plenários mais decisivos estavam fora do nosso alcance. Temos ouvido falar sobre o conceito de greenwashing e o seu uso para descrever a COP 26 pelo movimento climático. Poderias explicar o que significa e de que modo se aplica a esta conferência? De forma sucinta, greenwashing é a promoção de discursos de propaganda sobre ser “verde” ou “ecológico” e “sustentável” quando isto não é o que acontece de todo. Esta prática faz o público acreditar que o sistema extrativista e capitalista fóssil é sustentável e que não são necessárias mudanças. Aplicando o conceito à COP, acredito que foi um verdadeiro festival de greenwashing. Entrar na cimeira assemelhava-se a entrar numa feira, como a Futurália. Existia um espaço com bancas de cada país (mas nem todos os países estavam representados dessa forma: Portugal não tinha uma banca) onde ofereciam brindes, cafés e tinham o objetivo de construir uma ideia de sustentabilidade do país. Era quase uma competição com o objetivo de ver quem melhor consegue fingir ser “verde”. Havia, por exemplo, um pavilhão da União Europeia com um filme a passar recorrentemente em que se falava dos passos tomados pela UE no combate às alterações climáticas - como o progressivo abandono de combustíveis fósseis. Esta banca, como todas as outras, tinha eventos secundários maioritariamente acessíveis sobre estes assuntos, mas uma investigação mais aprofundada demonstrava que nem tudo era tão inocente. Um exemplo foi a reunião organizada pela banca da UE sobre hidrogénio verde, organizada pela Hydrogen Europe, um grupo de lobbying na área do hidrogénio verde constituído por empresas como a Shell e a Total. O objetivo da reunião era efetivamente vender esta “solução” do hidrogénio verde com o apoio e organização das suas principais empresas - outro exemplo foi a reunião sobre o mercado do biometano organizada pelas principais empresas de gás natural da Europa. Estes eventos secundários abertos aos ativistas eram essencialmente organizados pelas empresas maioritariamente responsáveis pela continuação do caos climático. A conferência, patrocinada por estas empresas, serviu de veículo para as promessas vazias de sustentabilidade das maiores empresas mundiais (Microsoft, Apple, ...) numa autêntica campanha de RP.

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Não aconteceram plenários organizados por ativistas? No último dia foi organizado um plenário popular (People’s Plenary) que, apesar da sua informalidade, reuniu 750 pessoas e deixou mais de 200 numa fila para entrar. A reunião serviu essencialmente para ouvirmos os testemunhos de pessoas do Sul Global e maioritariamente afetadas pelas alterações climáticas. Este plenário culminou com um ``walk-out'' da conferência que se juntou na rua a uma manifestação com centenas de milhares de pessoas. Podias desenvolver a dinâmica que existia entre as empresas e os ativistas? Os ativistas estavam em minoria? Houve instâncias em que a sua voz foi ouvida? E as pessoas indígenas? De uma forma sucinta, acredito que as empresas fósseis foram melhor recebidas na conferência do que os jovens ou até pessoas com mobilidade reduzida (não havia acesso para pessoas cadeirantes, aconteceu o caso de uma delegada israelita que não conseguiu ir à conferência devido a isso). A indústria fóssil foi melhor recebida do que qualquer pessoa que tivesse realmente de ser ouvida naquela conferência (nomeadamente as pessoas de áreas mais afetadas pelas alterações climáticas). Eram também a maior delegação de longe, com cinco centenas de representantes de mais de cem empresas fósseis e petrolíferas. A minha pesquisa fez-me chegar à conclusão que as empresas tiveram uma delegação maior do que Porto Rico, Paquistão, Bahamas e Índia todos juntos. Apesar da inacessibilidade da conferência as pessoas nas ruas faziam-se ouvir e às pessoas mais afetadas, que já lutam há anos para fazerem parte da mesa onde se tomam as decisões importantes que até hoje têm sido reservadas a governos e a grandes empresas. Esta conferência ilustrou-se como a mais inclusiva da história apesar da sua grande exclusividade: desde quarentenas obrigatórias e caríssimas, à desigualdade de distribuição de vacinas e à não atribuição de vistos devido a vacinas não reconhecidas pelas autoridades britânicas. Delegados do Afeganistão foram impedidos de ir à Conferência porque viram os seus vistos recusados sem qualquer justificação. No final, os ativistas que conseguiram ir à conferência estavam em corpo mas não eram capazes de ter uma voz - tínhamos acesso ao greenwashing, a um espaço para carregar telemóveis e alguns plenários menos importantes. No caso das comunidades indígenas, a delegação deste ano foi a maior de sempre. Mas as comunidades indígenas, que protegem 80% da biodiversidade mundial, foram completamente ignoradas e excluídas. Um dos principais pontos da organização de rua pautou-se por oferecer uma voz na rua às pessoas que deviam ter tido uma voz lá dentro. Conseguirias explicar o que são as “áreas e pessoas mais afetadas”? NOVA EM FOLHA


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Nós costumamos utilizar o termo MAPA (Most Affected Peoples and Areas), que se refere sucintamente não apenas aos países, mas às próprias comunidades que estão na linha da frente da crise climática. Isto significa que habitam áreas muito vulneráveis aos efeitos da crise climática, mas que são ao mesmo tempo os que menos contribuem em termos de emissões. Existe também a dimensão da exploração sistemática dos recursos naturais destes países e regiões por parte das empresas do Ocidente, o que leva a que estas comunidades tenham menos meios para lidar com estes efeitos. Num dos discursos que foram feitos durante as manifestações na rua, uma das ativistas constatou que os ativistas do Norte Global aprendem sobre as alterações climáticas através da leitura e do estudo, enquanto que os ativistas do Sul Global aprendem com base nas suas experiências diárias - estas pessoas sentem na pele os efeitos da crise que está nas suas casas, comunidades e cidades. Parece que existiram duas “COP26”. Uma feita do poder institucional dos grandes Estados e empresas, e outra construída na rua pelas pessoas. Quais eram as grandes discrepâncias entre estas duas esferas da COP? Uma das coisas que mais me tocou foi o facto de em todos os momentos da cimeira ter sido possível ouvir cânticos, protestos e filas de pessoas para entrar. Neste sentido, um contraste imediato pode ser feito entre a monotonia do poder institucional e a energia e vigor dos ativistas e das pessoas envolvidas nos protestos. Esta cimeira, como qualquer outra, foi feita para falhar, mas sinto que a capacidade de protesto e organização das pessoas na rua foi o seu melhor aspecto. Lá dentro nós sentíamos uma certa incapacidade de conseguir fazer oposição e protesto, enquanto que a rua era este lugar onde estavam sempre a acontecer grandes manifestações, protestos e discursos extremamente importantes.

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Não sei o que seria uma “mobilização eficaz”. Mas posso dizer que o movimento saiu de lá mais unificado com as experiências de cada ativista que pudemos conhecer e ouvir durante o decurso da cimeira. Eu e muitos ativistas (principalmente do Norte Global) deixámos a COP como pessoas e ativistas mais ricos com o conhecimento, ideias e experiências de pessoas que raramente conseguimos ouvir. Um exemplo foi a reunião da delegação indígena com o Fridays for Future - ao falarmos com as pessoas e representantes das comunidades mais afetadas, creio que fortalecemos o movimento climático. Em termos políticos, eu tenho uma opinião ligeiramente controversa entre os restantes ativistas, mas eu acho que qualquer protesto que seja organizado no interior da cimeira, com a autorização dos poderes envolvidos, não terá qualquer impacto. Estamos literalmente a protestar com autorização do poder que queremos combater - se tivesse qualquer impacto político, não seria autorizado. Por outro lado, acho que as manifestações com verdadeiro impacto político são as que acontecem na rua, como a que tivemos na rua com 150 mil pessoas.

O que consideras que é uma “cimeira feita para falhar”? Para começar, considero que qualquer cimeira com o objetivo de resolver esta crise climática nunca terá sucesso porque está a acontecer dentro dos aparatos de poder do sistema responsável pela crise. Já para não falar do financiamento de empresas como a Shell e a BP, que são algumas das mais responsáveis pelo agravamento da crise climática. Os eventos da conferência a que podíamos assistir eram feitos pelas mesmas empresas que temos de desmantelar. Os próprios resultados da cimeira demonstram isto. Se formos ler o Pacto de Glasgow, na secção que se refere às compensações monetárias às comunidades mais afetadas prometidas anos antes, é afirmado que sentem muito por este dinheiro ainda não ter chegado, sem fornecer passos a dar para garantir que estas são efetivamente feitas.

De que forma os compromissos feitos na COP26 são insuficientes perante os problemas atuais? Acreditas na palavra destes governos e instituições? Há um artigo escrito pelo Diogo Silva que se chama “Vira a COP e toca o mesmo”, que creio que descreve muito bem o problema central de qualquer uma destas cimeiras. No documento final, por exemplo, está escrito que “reparam na importância para alguns do conceito de justiça climática”, o que nos leva a perceber o quão vazios são os seus compromissos e a sua compreensão dos problemas e efeitos da crise climática e da necessidade de justiça climática. Outro exemplo são os apoios para mitigação dos efeitos da crise climática, que ficaram em segundo plano novamente, em conjunto com o financiamento prometido já no Acordo de Paris, quando dizem que sentem um “profundo pesar” por este não se ter concretizado e “apelam” aos países ricos que o façam até 2025. Ou seja, discute-se muito sobre o papel da Índia e da China na alteração do documento final, mas não reconhecemos a incapacidade de países como os EUA ou o Reino Unido de darem um passo em frente para a justiça climática. No final, os objetivos fixados nesta conferência não vão conseguir limitar o aquecimento global nos próximos anos a 1.5Cº, segundo estudos científicos, estes compromissos que saem de Glasgow vão levar a um aquecimento de 2.4Cº. Sabemos que a crise climática não é um problema de amanhã, é um problema de hoje que afeta milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas estes passos continuam a ser adiados em promessas vazias e compromissos insuficientes, naquilo que é uma sentença de morte para milhões de pessoas.

Parece-te que as manifestações e a própria COP foram capazes de mobilizar eficazmente o movimento climático?

o entrevistador foi Guilherme Machado NOVA EM FOLHA


POESIA

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Deuses MARTIM ANTERO DA SILVA

Existe um Homem de olhos azuis que se assenta atrás de mim. Chega sozinho e parte de mãos dadas, É simpático, faz-me chorar Amo-o. E por ele mato-me Para que não restem dúvidas A poesia não faz festas A poesia é para matar.

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Hoje acordei, E pareceu- me que o país tinha menos cor. Na rua cheirava a retrocesso Haviam sinais invisíveis, mas nem tanto Que alertavam para o perigo Do encanto das medusas. O medo congelava-me o corpo A esperança mantinha-me viva Com o fogo lutador que ardia no meu coração Era a coragem que desconhecia que tinha Que me dizia: " Está na hora de agir!" Está na hora de iluminar mentes ruídas Chama-nos a batalha Para a imensidão de sótãos Cobertos por teias de aranha que mais parecem labirintos De tanta falta de limpeza e uso de pensamento. É difícil, mas não impossível Lutar para limpar e trazer de volta a consciência De uma vida merecedora de verdadeira liberdade.

Sofia Nunes

POESIA

Almas solitárias, Caminham no vazio do rumo, Na tenra idade ficam destinadas, A ser invisíveis, desprezadas. Interagem, sorriem... Mas são tidas como vagarosas, Despidas de personalidade, Nuas de interesse alheio. Dizem que não têm sentimentos, São quem têm as mais profundas feridas. Querem amor, afeto, amizade... Mas esses afundaram nas trémulas águas. Tudo é uma ilusão, Ao invés de conquistarem a felicidade, Dominam a arte da solidão. Têm talento para o abandono. Vivem desesperadas, penadas, chorosas Oh pobres almas, Que vivem no cansaço do sofrimento, Como se cura a vossa dor?

Sofia Nunes NOVA EM FOLHA


POESIA

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Para a Marina. TOMÁS GIRÃO

No teu poema és a bailarina que dança perdida, nos campos como menina, sem horas mas divertida. O tempo passa e ela dança, Não se farta e não se cansa. Sorri e não deixa de dançar Porque é seu gosto, dançar. Corre o céu azul pelos campos, dá voltas e contravoltas e não se perde nos passos, que encantam os seus olhos. Lembro-me desse dia, era tarde mais perfeita para escrever uma poesia e nunca ficou perfeita.

Não é preciso escrever, dizer ou pronunciar que era ela a mulher que me sabia amar. Sou muito tímido, mas sou destemido para me juntar e com ela dançar. Não acertei com os passos, sou o maior trapalhão, mas pouco me importei sentindo conforto no coração. Ainda não sei dançar, mas com ela soube que queria ficar. Mesmo sendo só olhar E nas tardes vê-la dançar.

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POESIA

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O final ENEKO IRIGOYEN

À minha frente, vejo-o, Quieto, sereno e sentado. Sem grande alarido, Chama-me. Caminho nervoso, Com rumo, mas como se não o tendo. Sento-me ao seu lado, inquieto. Porque é isto sempre tão penoso? Uma estranha calma me inunda, Percorre todos os meus vasos. “Já chega de tantos custosos passos” Chama-me. Aceito o que em frente tenho Sem qualquer tipo de tumulto Que o fim, que longe sempre esteve, Chega na forma deste elegante vulto. Não o ressinto, nem me agoira, Apenas fico triste por quem me ame, Mas agora chegou a hora, De que o final por fim me chame.

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POESIA

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Mente, mente C.L

Por vezes a mente mente, Mas apenas momentaneamente, E não de forma permanente. No entanto, é fácil ser-se crente, De que não se merece ser gente. Porque por mais que a gente tente, Este tipo de mentiras surgem de repente, Como que uma surpresa realmente surpreendente. Escorrem do corte de uma ferida recente, Emergem das profundezas de algo que se sente. Mas, por muitas mentiras que invente, Há que sorrir e lhe fazer frente, Fingir coragem e ser valente, Esconder lágrimas por detrás de um rosto sorridente. É que a mente raramente mente, verdadeiramente. Normalmente, são mentiras de que não sabe sobre o que mente.

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POESIA

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MARIA LINHARES

Num folgo, somos como tudo é bonito. Nunca expomos, mais bonito é. Noutro folgo, desconectados. Afogados do querer. Tudo desnivelado, parados a querer correr. Ciclo vicioso. Sensação estranha. Isto, que sempre nos apanha. Cansados de tentar. Vítimas do querer. Só à espera de um natural acontecer.

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UM TEIMOSO JOÃO MARTINS

Teima que a vida é bela, que vale a pena vivê-la e que é grande a alma. Teima, corajoso, que é ela que traz alegria, e satisfazê-la é um serviço que a acalma. Continua sentindo e teimando que o esforço e a fé constantes não são suicídio lento e estupidez. Continua teimando, casmurro, e serás tolhido pela evidência quando chegar o fim, quando for a tua vez.

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Sou apenas uma mulher GUILHERME MACHADO

Escrevi-te choros que te dei por telefone, Roguei-te pragas da minha greve de fome, E ainda te pus entre os sopros da minha balada, Sorvi o café com a tua cara bem estampada, Nas paredes, Que guardam os feitiços da tua solidão, Corri desalmada, Para que me apanhasses, Sorri cansada, Como tua puta que não pagaste, E deste-me hotel, Onde eu pude esconder as lágrimas, Porque as putas tristes não choram, Por serem o sonho todo de quem as quer, Somos ingratas, E figuras de um menestrel. E, na esplanada, Fiz-me mulher para te amar, Não sou desnaturada, Sou solidez no teu pesar, Corri no átrio, Para ver se te apanhava, Homens bons não fogem, São filhos de uma adaga, E no fim das contas, Sou apenas uma mulher.

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POESIA

E, mesmo sendo o nosso leito um grande calor, Não deixo de sentir que sou anestésico à tua dor, Todo o coração se cansa de estar só, E cada fantasia é estatueta para ser pó, Somos um segredo, Que escondes da tua mente, Sou um brinquedo, Que controlas tão sereno, E, nesta esplanada, Sou gigolô para a tua vaidade, Sou tua moça assombrada, Um amuleto desta cidade.

E, apesar de haver amor, E, no final do dia, Nos beijos de elevador, Ao telefone conto-te como sofrer sem atuar, Por entre os gritos de prazer, Com a mudez de uma porta, Nos segredos que não sei manter, Carregar o mundo todo e o seu azar, Abro a janela. Ser bruxa queimada e espantalho de horta, E deixo que a brisa me consuma, O sexo que compras, Como fiz com teu corpo numa tela, O meu coração que veio em oferta, E guardas vantagem no vazio da pluma. As palavras tontas, Mas não há amor no teu silêncio. Para ti, a minha vida aberta. Nem o há nesta esplanada onde me mostras como troféu, Para ti, Ou nas palavras que hesitas em proferir, Fiz-me mulher, Não há anjos que me amem no céu, Para te amar. Ou dias em que me vás preferir. E agora olho para ti, Despido nesta cama, Fiz-me mulher para te sofrer, E corpo teu para me esconder, Não há melodias neste hotel, Nem poesia no meu bordel, Há apenas o teu corpo num estendal, Os nossos dias na memória, Teus filhos icónicos de um missal, Há poesia neste hotel. E eu que me fiz desgraçada Para me matar. NOVA EM FOLHA


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POESIA

sátira poética EMÍLIA CARLITOS

Pensando... - Bem me parecia! Não estava nada a ver o Thomas Moore (Tomás Moreira) a escrever sobre Carnaxide, sabia lá ele o que era Carnaxide. Claro que há as instituições partilhadas, hierarquias e formas embrionárias de estatismo: Carnaxide não são as américas dos índios, nem nada que se pareça a uma selvajaria, no entanto é uma realidade que o autor inglês desconhece. Nobres com nobres e o povo que se vire, como nos convém, caro Miguel. Repressão em sentido próprio, o sol nascer todos os dias... Há coisas que nunca mudam, como te tenho dito. - Tremenda confusão conceptual esta em que me encontro! Se para pensar o ser humano de uma forma optimista tenho de ser considerado utópico, seja! O meu pai era reaccionário, e nasceu em Carnaxide... E o pai do meu pai também o era, mas esse era um pensador analfabeto, e também criador de guaxinis. Somos todos, Miguel... Criadores de guaxinis? Não, pensadores analfabetos. Sempre vossa e sobriamente, Emília Carlitos.

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AGENDA CULTURAL: MARÇO Ana Catarina Tiago & Mafalda Carvalhal

Fantasmas - Teatro Cinearte texto: Henrik Ibsen encenação: Rita Lello 27 janeiro a 13 março Quinta e Sexta às 19h30 Sábado às 21h30 Domingo às 17h Mais uma vez, a peça Fantasmas de Henrik Ibsen é divulgada numa das edições da Agenda Cultural do NOVAemFolha. Após a sua exibição, em maio, no Teatro Carlos Alberto, no Porto, com a encenação de Nuno Cardoso, Fantasmas passa pelo teatro A Barraca (Cinearte), às mãos de Rita Lello enquanto encenadora. Assim sendo, reconhecemos o interesse atual desta obra, cuja intenção original passa por tecer um comentário mordaz à moralidade do século XIX. Vida de Artistas (de Noel Coward) Teatro São Luiz encenação: Jorge Silva Melo companhia: Artistas Unidos 23 de março a 10 de abril Quarta e sexta às 20 Domingo às 17h30 Conta com a interpretação de Nuno Pardal, Américo Silva e Rita Brutt.

Teatro CONCHICHINA - Teatro São Luiz texto: Afonso Cruz adaptação/encenação: Sandra Barata Belo 3 a 6 de março Quarta e sexta às 20h Domingo às 17h30 Cochinchina, encenada por Sandra Barato Belo, encerra a trilogia de cartas de amor e morte que passou pela adaptação das obras Morreste-me de José Luís Peixoto e Carta de uma Desconhecida de Stefan Zweig. Desta vez, partiu-se da obra Princípio de Karenina de Afonso Cruz, contando com a interpretação de Margarida Vila-Nova, Vítor D’Andrade e Patrícia André, e música original de Samuel Úria. A peça fala-nos de escolhas, do inquietante de famílias imperfeitas… Trata um relato da carta de um pai, que se desloca do Portugal conservador dos anos 60 para a Conchichina, na Ásia Oriental, dirigida à filha que não conheceu. O Amor é um Som Teatro São Luiz texto/encenação: Carla Vasconcelos direção: Luísa Cruz 3 a 20 de março Quarta e Sexta às 19h30 Domingo às 16h Estreia de Júlio Isidro no teatro.


P 38 37 | CULTURA

Fotografia Retratos Contados de Ruy de Carvalho Teatro Politeama 1 março a 15 março Na primeira metade de março, o Teatro Politeama dá casa à exposição que retrata a vida do ator Ruy de Carvalho desde a infância à atualidade e a sua carreira enquanto um dos mais notáveis e acarinhados atores portugueses. A propósito da exposição, o próprio, que apesar de 95 anos já feitos ainda mantém o espírito jovem, expressa que a energia e a juventude se conservam dentro de nós e que, por isso, sempre se viu rapaz.

Cinema

Olhares sobre a Irlanda Cinema Nimas 25 fevereiro a 16 março Com a estreia do filme biográfico de Kenneth Branagh a 24 de fevereiro, o cinema Medeia Nimas propõese a exibir 9 filmes que levam o espectador a percorrer a Irlanda e o cinema irlandês. Entre os filmes presentes neste ciclo, de nome “Olhares sobre a Irlanda”, destacam-se A Filha de Ryan (1970), inspirado no Madame Bovary de Flaubert e inserido no contexto da Iª Guerra Mundial e O Homem Tranquilo (1952), um clássico de John Ford que conta a história de um ex-pugilista que regressa ao seu país de origem, a Irlanda, com a intenção de usufruir de uma vida pacata na casa que em tempos foi da sua família. Susan Sontag - Imagens de Pensamento Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema 4 março a 31 março A Cinemateca exibirá um ciclo de cinema dedicado à obra cinematográfica da escritora, filósofa e cineasta Susan Sontag. Este ciclo compõe-se de um conjunto de títulos da própria autora, complementando-se ainda com filmes de outros realizadores, que permitem melhor compreender o pensamento e gostos de Sontag, nomeadamente: o posfácio em vídeo do filme Passion, Scénario du film ‘Passion’ de Jean-Luc Godard e os filmes Peregrinação Exemplar de Robert Bresson e O Ano das Treze Luas de Rainer Werner Fassbinder.


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CULTURA

Subcarpaţi MARGARIDA HONÓRIO

Subcarpaţi são uma banda romena fundada em 2010 por MC Bean, sendo ele também integrante da banda Șuie Paparude. Os nomes de ambas as bandas remontam às origens da Roménia, sendo que o próprio nome Subcarpaţi , ou Sob os Cárpatos, em português, refere-se à cordilheira montanhosa do leste da Europa que tem a sua maior área na Roménia. Atravessando o coração do país, esta cordilheira é um traço forte da sua identidade e com grande impacto na sua história. Os Cárpatos estão repletos de parques protegidos pelo interesse nacional e florestas virgens de faias classificadas como património mundial pela UNESCO. Habitadas por algumas das maiores populações europeias de ursos, lobos, linces e camurças, estas montanhas são cenário de muitas lendas mitológicas que povoam a cultura romena. Șuie Paparude faz referência a uma divindade da mitologia romena à qual se deveria pedir que chovesse em tempos de seca. MC Bean, com os Șuie Paparude e os Subcarpaţi, traz a herança histórica do folclore romeno para a atualidade, adaptando-o aos ritmos da música eletrónica e do hip-hop. Os Subcarpaţi pretendem, como muitas outras bandas portuguesas e internacionais atualmente, valorizar a cultura do seu país e mostrar como podemos, sem nos alienarmos das nossas raízes culturais, criar música num mundo cada vez mais globalizado. O conceito de identidade cultural está muito presente naquilo que os Subcarpaţi criam e os seus versos são maioritariamente dirigidos aos jovens da Roménia. Sem quererem que o seu discurso se torne nacionalista, sentem necessidade de lhes mostrar a música folclórica do seu país, pois sentem-nos um pouco alienados do valor cultural que as suas raízes comportam. Penso que esta é uma questão que não é exclusiva da Roménia, sendo que em Portugal existiram já outras bandas criadas com o mesmo intuito. Podemos facilmente relacionar estas intenções às que fundaram a banda Diabo na Cruz, recentemente dissolvida, em 2019. Jorge Cruz, membro da banda, mencionou um sentido de objetivo cumprido na razão que o levava a deixar o grupo. Os Diabo na Cruz surgiram numa altura em que poucas bandas portuguesas cantavam em português e poucos portugueses iam a um concerto celebrar estes laços com a sua cultura popular. Atualmente, as bandas portuguesas que surgem com reinterpretações de fados e músicas folclóricas multiplicam-se. Esta tendência pode ser considerada uma moda e os Subcarpaţi juntam-se à causa, por amor ao que sentem como o seu património cultural. NOVA EM FOLHA


CULTURA

P 39

O HOMEM DUPLICADO

ODACILPUD

RITA SÃO JOÃO

Saramago morreu. Deixou-nos a irreverência da sua pontuação e a força das suas palavras, ao percorrermos os dedos pelas folhas sentimos a dureza das mesmas, que tão subtis são aos olhos. Mais forte do que isto, assinalo o quadro tão bonito que vemos a ser pintado à nossa frente, cada pincelada na tela em branco é como um passo a caminho do sonho; ou melhor, como um mural a ser pintado, com a força do colectivo que o rodeava; isto porque tem a magia, e fá-lo de forma tão humana, de conseguir demonstrar-nos a distância que existe e se acentua entre nós e o nosso próprio semelhante, ao mesmo tempo que pinta as excepções à regra. Deixou-nos o seu legado como intelectual de Abril, como resistente antifascista desde muito novo, que sempre participou na oposiçãoà ditadura e que lembra a sua própria literatura como uma das tantas conquistas que Abril nos trouxe. Daí ser o homem duplicado, escritor e comunista, o que funcionava quase como uma simbiose que lhe permitiu percorrer o mundo, levando a outros tantos a sua reflexão sobre a situação do mesmo, ao mesmo tempo que contribuía fortemente para a afirmação da língua portuguesa como idioma de referência na cultura mundial. São 100 anos de um homem que nos deixou, mas não nos deixou a sós. Que viveu e aprendeu com o seu colectivo, que sem a sua condição e consequente militância não teria dado vida à sua mensagem da forma como o fez. Recordo hoje o homem que viveu duplicado e, mais ainda, o homem que nos ensinou a sonhar. Daí ser tão crucial escrevermos sobre ele, porque tanto escrevemos e aprendemos por sua causa. No âmbito das comemorações do centenário do Nobel da Literatura, a Juventude Comunista Portuguesa organizou um concurso literário com o lema “Que seria de nós se não sonhássemos?”, no qual podemos, em forma de homenagem, celebrar este homem e todo o seu legado. Deixo aqui a nota e o apelo para a participação no mesmo, terminando as submissões no próximo dia 1 de Abril. NOVA EM FOLHA


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Receita

P 43 | LAZER

Tofu Esmigalhado B e a t r i z

F i l i p e

&

INGREDIENTES 1 cebola 2 dentes de alho azeite gengibre (em planta, não em pó) arroz 1 embalagem de tofu (+/- 180 g) 1 colher de sopa de manteiga de amendoim 1 colher de soupa de maple syrup 2 colheres de soupa (ou +) de soja 1 lima espinafres 1 cenoura laminada

PREPARAÇÃO 1-

Picar a cebola, os dentes de alho e

o gengibre, e pôr a refogar com azeite numa frigideira/tacho.

2-

Colocar o arroz a cozer num tacho

à parte.

3-

Esmigalhar o tofu. Misturar a

manteiga de amendoim, o syrup e a soja num recipiente. Mexer bem e, depois, embeber o tofu.

4-

Adicionar ao refogado, juntando a

cenoura e os espinafres. Espremer a lima por cima.

5-

No fim, envolver com o arroz, servir

e degustar.

M a d a l e n a

G .

P i n h o


Para passares o tempo...

Vertical

1. Uma flor batizada em nome de um grego egocêntrico. 3. A flor que dá o título de “Ilha Azul” ao Faial. 5. A flor que adorna o chá. 7. Uma flor/erva também chamada de rosmaninho, conhecida pelo seu aroma agradável.

Horizontal

2. A flor da liberdade (para @s portugues@s). 4. Uma flor que pede para não a esquecermos quando fala inglês. 6. A flor utilizada no fabrico do ópio… 8. Uma flor que talvez bem-me-queira, pois embora o pareça, não é um malmequer. 9. A flor do amor, da paixão, do tango. Olé! 10. Uma flor que pode chegar aos 2 metros e cujo nome rima com “Madalena”.

Qual é a primeira flor em que pensas ao imaginar a Primavera?


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NOVA em Folha | Fevereiro-Março 2022 by AEFCSH NOVA - Issuu