NOVA em Folha o jornal da aefcsh. abril 2022
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NOVA em Folha o jornal da aefcsh.
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nova em folha abril 2022
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es o e g u F o lh a s á J em ok o VA N O a ceb a m ? F r o n ta g In s u o e/
Índice abril 2022
Notícias 1 2 3 4 4 5 7
AEemFolha - Henrique Mendonça Novidades FSCH - João Martins Março em Resumo - Equipa de Notícias Internet em Resumo - Beatriz Mateus Apresentação - N.FIL Congresso 'Buzz Politics' - NECPRI A Cicloficina Faz 4 Anos! - FCSH
Opinião | Crónica 9 11
A Exposição da Guerra - Francisco Mendes Barata Ela ensinou-nos a liberdade da partilha - Rita Coutinho
ESPECIAL "Liberdade" 12 13 14 15 20 21 23 24
Vermelho que não é sangue - Catarina Aires Memórias de um passado cada vez mais presente - Madalena Craveiro Os Opostos da Democracia - Margarida Mendes Ribeiro Uma Breve História da Noite Escura - João Martins Liberdade rima com... - Rita Coutinho Democratizar e Desenvolver o Poder Estudantil e Popular - Guilherme Machado A luta estudantil: lutar com uma geração resignada - Beatriz Mateus Manual para entender política - Rita Coutinho
Poesia 26 27 28 30
E a luz olha para nós - Maria Duran O que fazem as mulheres? - Tomás Girão Raquel, - Guilherme Machado Alguns Pensamentos - João Martins
Cultura | Lazer 34 35 37 38 40 43 44
Barreiras Invisíveis - Margarida Honório Conjunto Júlio - Achado Playlist de Abril - Tânia Pereira & João Martins Agenda Cultural: Abril - Equipa Cultural Programação Abril-Junho - CCB Caril Thai de Tofu - Francisco Mendes Barata Para passares o tempo...
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NOTÍCIAS | AEFCSH
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O mês de Março foi para a AEFCSH um mês de grande relevância e muito trabalho. Iniciámos este mês com a Cerimónia de Tomada de Posse dos Órgãos Sociais da Associação de Estudantes para o mandato 2021/2022 e organizámos, ao longo HENRIQUE MENDONÇA destas semanas, vários eventos político-culturais de grande importância, destacando sobretudo a Semana Feminista, dedicada à celebração do Dia Internacional da Mulher, e a Semana do Estudante, que este ano terminou no Dia Nacional do Estudante, 24 de Março, dia em também se celebraram os 60 anos da Crise Académica de 1962. Logo após a Tomada de Posse dos Órgãos Sociais da nossa Associação de Estudantes, iniciativa que contou com a presença de dezenas de estudantes e alguns dirigentes associativos de outras instituições, realizou-se mais um dos tradicionais churrascos da AEFCSH, onde a bifana e a imperial não faltaram. No dia 3 de Março, teve lugar na nossa faculdade um debate organizado pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), em parceria com a AEFCSH, sobre a situação Internacional e a Defesa da Paz, que contou com a participação de Ilda Figueiredo, Presidente da Direcção Nacional do CPPC, Baptista Alves, Presidente da Mesa da Assembleia da Paz, Jorge Cadima, Professor Universitário, e André Marques, dirigente associativo da AEFCSH. Para além da participação destes quatro interlocutores, o debate ainda contou com a ampla participação do público, que considerou que a guerra não é a solução para um conflito, e que apelou ao estabelecimento de negociações de modo que se encontrem soluções justas que sirvam para traçar o caminho para uma paz efectivamente duradoura. Na segunda semana do mês, celebrámos o Dia Internacional da Mulher, com a realização da Semana Feminista, que contou com palestras, debates e ciclos de cinema que assinalaram esta data histórica, e que serviram para relembrar as lutas e direitos conquistados e para promover a luta por aqueles que ainda estão por conquistar. Começámos esta semana com o ciclo de Cinema, que contou com o visionamento do documentário “Un Jour, Pina a demandé”, dirigido em 1983, pela Chantal Akerman, e com uma conversa final entre os alunos que assistiram ao documentário e o Professor Pedro Florêncio. Tivemos ainda a oportunidade de ter uma conversa, no espaço da AEFCSH, com a Sandra Benfica, membro do Secretariado e do Conselho Nacional do Movimento Democrático de Mulheres (MDM), sobre a transversalidade da violência contra as mulheres, e uma conversa com Faustina Barradas, da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), que nos veio dar o seu testemunho, enquanto resistente revolucionária clandestina, no tempo do Estado Novo e sobre a importância das mulheres e as suas conquistas no processo da Revolução de Abril. Nesta mesma semana tivemos ainda a Feira de Núcleos, que contou com a presença dos vários núcleos da FCSH, que montaram as suas bancas, no pátio da faculdade. Para terminar este mês em grande, tivemos a Semana do Estudante, que começou com a projecção do filme “Verdes Anos”, realizado em 1963, pelo cineasta Paulo Rocha. No dia 22 de Março, também no Espaço da AE, dinamizou-se uma Tribuna Pública que serviu como um espaço aberto de discussão e para esclarecer eventuais questões que os estudantes colocaram sobre os problemas que a comunidade estudantil enfrenta, nomeadamente, sobre as consequências do RJIES e do Regime Fundacional. A 23 de Março, ao final do dia, tivemos a oportunidade de realizar uma conversa entre dois exdirigentes associativos da AEFCSH, Paula Borges e Pedro Fernandes, e um dirigente associativo em atividade, José Pinho, que serviu, essencialmente para percebermos que os problemas que hoje se acentuam nas Instituições de Ensino Superior tiveram origem em tempos muito conturbados da vida nacional no que diz respeito ao Ensino, que tiveram um forte impacto na vida dos estudantes, que de forma organizada lutaram para que estes retrocessos não avançassem. Finalmente, no dia 24 de Março, fomos nós, os estudantes de hoje, que saímos à rua sob o lema «Lutaram no Passado, Lutamos no Presente» para reivindicar os nossos direitos, numa mobilização que contou com a presença de milhares de estudantes de todo o país desde o Rossio até à Assembleia da República. Este ano celebraram-se os 60 anos da Crise Académica de 1962, um marco histórico da luta dos estudantes portugueses, pelo direito de reunião e de associação, pela autonomia da Universidade e a democratização do Ensino. As lutas académicas de 1962 constituíram uma extraordinária afirmação de unidade na luta por liberdades fundamentais e outras reivindicações imediatas, que só foram conquistadas graças à união dos estudantes na luta em torno de problemas concretos que afectavam as suas vidas. Passados 60 anos os estudantes podem verificar que muitas das suas exigências permanecem por cumprir na sua plenitude. Ouvindo os estudantes e os seus problemas, a AEFCSH não se absteve de, juntamente com os estudantes, sair à rua para exigir aquilo que nos prometeram e nunca nos deram, um Ensino Superior verdadeiramente Público, Gratuito, Democrático e de Qualidade. Mais do que uma data a evocar no calendário, o Dia Nacional do Estudante foi assinalado onde começou: na rua.
AE em folha
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NOTÍCIAS
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novidades fcsh João Martins (adaptação) Já te candidataste a Mestrado?
A 1.ª fase de candidaturas a Mestrados e Doutoramentos na NOVA FCSH terminou a 29 de março (31 para as Pós-Graduações). No entanto, os estudantes que vão terminar a licenciatura no final do presente ano letivo e que pretendem ingressar num Mestrado apenas devem apresentar a sua candidatura à 2.ª fase, que estará aberta entre 18 de maio e 4 de julho, com vagas previamente fixadas e as sobrantes da 1.ª fase. Todas as informações sobre os critérios de seleção, o número de vagas e os documentos a apresentar, bem como o valor da propina, estão disponíveis no edital de candidatura de cada curso, na respetiva página do site. No próximo ano letivo 2022/23, a NOVA FCSH oferece 44 Mestrados (dos quais 8 são Mestrados em Ensino), 13 Pós-Graduações (e um Curso de Especialização) e 26 Doutoramentos . As candidaturas são realizadas online, através do portal do Inforestudante. Conselho Geral da NOVA
Já são conhecidos os resultados das eleições para Representantes dos Professores e Investigadores, Representantes dos Estudantes e Representante do Pessoal não Docente e Não Investigador com assento no Conselho Geral da Universidade NOVA de Lisboa, as quais tiveram lugar no dia 8 de março. Ao nível da representação estudantil, foram eleit@s: Eduardo Gonçalves Freitas – Lista A João Pedro Gomes Vassal - Lista A Joana Isabel dos Santos Amado - Lista A Mafalda Torcato Borges - Lista A Para consultar os resultados eleitorais completos, basta aceder a este link: https://www.unl.pt/noticias/nova/resultados-das-eleicoes-para-o-conselho-geral-da-nova A Obra de Amelia Edwards e Mary Chubb
Dia 28 de abril, realizar-se-á a sessão «Amelia Edwards e Mary Chubb: egiptólogas, viajantes, autoras. Imagens do Egipto nos séculos XIX e XX em literaturas femininas britânicas», conduzida por Guilherme Borges Pires (Univ. NOVA de Lisboa). Enquadrado no V Ciclo «Literatura Escrita por Mulheres», o evento resulta de uma parceria entre o CHAM – Centro de Humanidades (NOVA FCSH) e a Biblioteca Nacional (Campo Grande, Lisboa). É nesta última que decorrem todas as sessões, presencialmente e com entrada livre, às 18h. A programação completa está disponível em: https://cicloliteraturaescritapormulheres.weebly.com/ Ex-Responsáveis da NOVA no Governo
Elvira Fortunato, Professora Catedrática e Vice-Reitora da Universidade NOVA de Lisboa, foi nomeada para Ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do do XXIII Governo Constitucional. Já João Costa, Professor Catedrático de Linguística e antigo Diretor da NOVA FCSH, será Ministro da Educação do mesmo executivo. Dirigiu a faculdade entre 2013 e 2016, momento em que foi nomeado Secretário de Estado Adjunto e da Educação. Por sua vez, Marta Temido, antiga Subdiretora do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da NOVA, foi reconduzida como Ministra da Saúde. O novo governo tomará posse no próximo dia 30 de março. NOVA EM FOLHA
NOTÍCIAS
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março em resumo João Martins & Manuel Pinto
SISMO-VULCANISMO EM SÃO JORGE
Dada a natureza geomorfológica do arquipélago dos Açores, a atividade sismovulcânica é frequente e esperada. No entanto, desde 19 de março, a ilha de São Jorge tem experimentado um pico com mais de 10 mil ocorrências, tendo-se sentido o maior sismo no dia 29, com uma magnitude de 4 na escala de Richter. Mais de mil dos nove mil residentes já abandonaram a ilha. QUEDA DE AVIÃO CHINÊS
O voo MU7535 da China Eastern Airlines, programado para dia 21 de março, acabou no maior desastre aéreo da China nos últimos 30 anos. Por razões ainda desconhecidas, o aparelho acabou por entrar numa descida a pique, de que não recuperou, e da qual nenhum passageiro ou tripulante sobreviveu. COMEMORAÇÕES DEMOCRÁTICAS
Os 50 anos da Revolução dos Cravos só se completam em 2024, mas foi este mês que se iniciaram as comemorações, mais precisamente no dia 23 de março, véspera de a democracia ultrapassar a ditadura em um dia. A celebração dupla de meio século do 25 de Abril e de regime democrático decorrerá até dezembro de 2026, quando se assinalam os 50 anos da aprovação da Constituição da República Portuguesa, bem como do primeiro ciclo eleitoral livre, ocorrido ao longo de 1976 - legislativas em abril, presidenciais em junho, regionais (Açores e Madeira) em setembro e autárquicas em dezembro. NOVA LEGISLATURA, NOVO EXECUTIVO
Na sequência das eleições legislativas de 30 de janeiro, foi empossada, em 29 de março, a mais recente Assembleia da República. O dia inaugural da legislatura foi marcado pelos rituais protocolares e processuais de recepção dos novos grupos parlamentares e deputados estreantes. Já o governo, com os seus 17 ministros e 38 secretários de estado (menos 20% de governantes do que no executivo precedente), foi empossado no dia 30 de março. GUERRA NA UCRÂNIA
As forças russas continuaram a avançar sobre a Ucrânia ao longo de todo o mês, ao mesmo tempo que várias rondas de negociações tomavam lugar na Bielorrússia e depois na Turquia. A guerra iniciada pela Rússia já conduziu à morte de mais de um milhar de civis, incluindo pelo menos uma centena crianças, segundo a ONU, que alerta para a probabilidade de o número real de vítimas ser muito maior e para a necessidade de prestar assistência humanitária a cerca de 13 milhões de ucranianos. Até ao fim de março, já haviam fugido de suas casas mais de 10 milhões de pessoas, incluindo 4 milhões de refugiados em países vizinhos. Fontes: Deutsche Welle; Expresso; IPMA; Lusa; portugal.gov.pt; Público; SIC Notícias; 50anos25abril.pt/comissao Imagens (por ordem): Observador; Visão; Público; Observador; Kyiv Independent NOVA EM FOLHA
NOTÍCIAS | NÚCLEOS
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internet em resumo
Beatriz Mateus
App de conversão LGBTI+ retirada pela Google
O governo da Malásia, que tinha introduzido na famosa loja online de aplicações Play Store uma app com a intenção de "curar e devolver a um estado natural" aqueles que se identificam com a comunidade LGBTI+, viu a aplicação completamente removida da plataforma por violar tanto as normas da empresa como as estabelecidas para a permanência de um produto naquela. Até ao momento, a Play Store não possui um mecanismo que previna a entrada deste tipo de aplicações, pelo que apenas após queixas numerosas é possível retirar apps da plataforma. O gato-meme Stepan está a salvo em França
Stepan é um gato ucraniano que nos últimos tempos se tornou uma verdadeira sensação na internet, com milhares de seguidores nas plataformas Instagram e Tiktok. A sua fama deve-se à simplicidade do conteúdo e também à proximidade que se estabelece com a realidade de cada um. Devido ao clima bélico vivido na Ucrânia, as publicações já tinham começado a mudar, mais no sentido de atualizar o mundo sobre o dia a dia dos civis que vivem a guerra. No entanto, após não publicar durante 2 semanas, havia uma crescente preocupação online não só com Stepan, mas também com os seus humanos. Felizmente , foi confirmado a 16 de março que a família se encontrava a salvo em França, apoiados por outros influencers.
bem-vindes ao núcleo de filosofia da faculdade de ciências sociais e humanas da universidade nova de Lisboa! (N.FIL) é com muito prazer que anunciamos a criação deste núcleo, que tem como objectivo contribuir para a investigação e divulgação de diversas actividades no âmbito do nosso curso. visita-nos no instagram: @n.fil.fcsh NOVA EM FOLHA
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NOTÍCIAS | NÚCLEOS
NOVA EM FOLHA
NOTÍCIAS | NÚCLEOS
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A CICLOFICINA FAZ 4 ANOS! O que é a Cicloficina FCSH? A Cicloficina FCSH é um projeto comunitário conjunto da AEFCSH e NOVA FCSH de apoio voluntário à manutenção e reparação de bicicletas. Existe desde março de 2018 e funciona mensalmente na última terça-feira útil de cada mês entre as 18h e 19h, no piso -1 da torre B, da Avenida de Berna. E o que é a Cicloficina FCSH? Existem muitos projetos semelhantes por Lisboa (https://cicloficina.pt/category/lisboa/) e no mundo e cada um adapta-se às condições locais disponíveis. A Cicloficina FCSH baseia-se na simplicidade do sistema mecânico da bicicleta. Caracteriza-se por oferecer acesso gratuito a ferramentas especializadas, peças e acessórios de bicicletas usadas. Em cada sessão os visitantes são motivados pelos voluntários a familiarizarem-se com a sua própria bicicleta, apercebendo-se no processo de como se podem tornar responsáveis pelas suas próprias afinações, manutenções e arranjos. Quais são os objetivos da Cicloficina FCSH? O objetivo a longo prazo é favorecer a adoção da bicicleta como transporte em meio urbano. A Cicloficina FCSH é um ponto de encontro em que os voluntários e os visitantes sujam as mãos e partilham experiências na arte de pedalar e arranjar bicicletas. Não se deve confundir uma a Cicloficina da FCSH com uma loja, pois, além de não ter fins lucrativos, não queremos prestar serviços a clientes, mas sim partilhar conhecimento.
Se também tiveres materiais e/ou ferramentas que já não utilizes, podes depositar na AE para dar utilização na Cicloficina. Para mais informações, contacta: ae.fcsh@cicloficina.pt Mais informações: https://www.facebook.com/cicloficinafcsh https://cicloficina.pt/ #cicloficinaFCSH
NOVA EM FOLHA
Não percas o lançamento oficial do Journal de Escrita Criativa - Age of Inside, uma coletânea de textos, poemas e guiões produzida por alunos da FCSH! É já no dia 22 de abril, às 19h, na Livraria Snob (Tv. de St.ª Quitéria 32A, Lisboa).
OPINIÃO
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A EXPOSIÇÃO DA GUERRA FRANCISCO MENDES BARATA
A tensão aguerrida entre a Ucrânia e a Rússia irrompeu este ano após a violação axiomática da autonomia geopolítica ucraniana e do direito internacional, sob ordem do presidente da Federação Russa, Vladimir Putin. O que terá motivado esta guerra? Que esforço foi feito para impedir que este cenário bélico se tornasse real? E qual é o papel dos Estados Unidos da América e da NATO? As questões são muitas e a claridade informativa é pouca. Eu convido-vos, então, a explorar a cronografia desde a Guerra Fria à atualidade para se compreender melhor o panorama atual. O antagonismo político-ideológico entre os Estados Unidos da América e a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas na competição pela maior potência económica e nuclear, fez-se sentir logo após a Segunda Guerra Mundial, onde os EUA defendiam um modelo mais democrático-liberal dentro da realidade capitalista, enquanto a URSS defendia um regime socialista e coletivizado. llA ambição expansionista da União Soviética no Leste da Europa alertou a sociedade ocidental e a resposta americana foi então, na época da pactomania, em 1949, a assinatura do Pacto do Atlântico que originou a Organização do Tratado do Atlântico Norte. A NATO nasce, desta forma, como produto do empenho americano em estender a sua presença política e militar em formato de aliança multilateral com nações de toda a sociedade ocidental. Em 1982, apesar da conjuntura internacional, o marxismo-leninismo, conforme a interpretação estalinista, contemplava uma estagnação ideológica que originou a crise do modelo soviético. A crescente afirmação de uma corrente intelectual que, não só influenciou a política ocidental, como exigiu a liberalização da antiga União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas, ombreada ainda ao descontentamento resultante da contradição do regime ser uma potência, enquanto a sua população vivia privada do conforto material, guiou a URSS para a sua dissolução, em dezembro de 1991. O atual presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, assistiu e experienciou o conflito histórico e a dissolução do regime enquanto Coronel nos Serviços Secretos do Comité de Segurança do Estado ou ordinariamente referida como KGB. Apesar de não partilhar o ideal marxista-leninista, Putin nunca escondeu a sua admiração imperialista no que toca às ex-regiões soviéticas. Em 2021, chegou a afirmar num comunicado que a Ucrânia e a Rússia eram “um só povo” e que a intenção ucraniana de pertencer à União Europeia e à NATO era prova de que o “ocidente corrompeu o estado ucraniano levando a uma mudança de identidade forçada”. Esta intenção de integração europeia e o receio de uma eventual sanção russa, deram origem à Primavera Ucraniana em 2013, que se consumou com a destituição do governo de Viktor Yanukovych.
NOVA EM FOLHA
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Em 2014, a anexação da Crimeia e Sevastopol à Federação Russa não foi aceite pelo estado ucraniano e o secretário-geral da NATO considerou o movimento russo como sendo ilegal e uma das piores crises relacionais desde a Guerra Fria. A insurgência separatista ganha força, quando parte da região do leste declara unilateralmente a sua independência da Ucrânia e assume-se pro-Rússia. O conflito armado em abril de 2014 escala, e é então que, sob o pretexto de ajudar a população a defender a sua autonomia perante a artilharia russa, a NATO avança com a militarização de milícias paramilitares na Ucrânia. A decisão de Putin para avançar com a opugnação sobre Kiev não se justifica na sua narrativa de “desnazificação” mas sim no facto do presidente russo nunca ter aceitado o desmantelamento da União Soviética, mas a verdade é que esta presença neonazi existe e não é um mito. O Batalhão de Azov, que é uma organização paramilitar, já tem ligação oficial com o Ministério do Interior da Ucrânia e é assumidamente ultranacionalista, neonazista, supremacista branca e financiada pela oligarquia. Ora, dado o poder e palco conquistado por este tipo de milícia, até Volodymyr Zelensky por via de ameaça e pressão, foi forçado a reunir e condecorar membros destas organizações. Um grupo semelhante chegou inclusive a receber treino numa base militar canadiana.
OPINIÃO
Ao longo do tempo, o esforço incansável em prol da paz durante o período posterior à Guerra Fria perdeu credibilidade após a violação de inúmeras assinaturas. Em 1994, foi assinado o Memorando de Budapeste, que pretendia garantir a segurança relativa ao acesso à Ucrânia, uma vez que nesta altura, o país detinha o maior armazenamento de armamento nuclear que havia herdado do regime soviético. O processo de Normandia, assinado a junho de 2014, visava encontrar uma resolução pacífica para o conflito que sucedeu à anexação. O protocolo de Minsk, assinado entre a Rússia e a Ucrânia em 2015, aspirava o sucesso diplomático entre ambas as nações. O caminho mais acertado seria viabilizar o acordo político pelo cessar-fogo imediato, mas, estaremos nós demasiado agitados para que tal aconteça? A Federação Russa cumprirá, desta vez, com a sua palavra? Será a guerra o único caminho que a sociedade contemporânea encontra para dar resposta a um conflito? Até quem sabe, será a Europa o futuro palco para o descortinar nuclear da Guerra Fria entre os Estados Unidos da América e seus aliados e a Rússia? Enquanto cidadãos, devemos colocar a mão na consciência e permitir que a nossa solidariedade e compaixão conforte quem foge da guerra. A população comum e trabalhadora não fala em nome do seu regime e respetivos governantes, e por essa razão, o apoio deve ser alargado à sua máxima extensão. NOVA EM FOLHA
P 11
CRÓNICA
Ela ensinou-nos a liberdade da partilha Rita Coutinho Muitos não a conheceram nem a tiveram como professora. No início de uma licenciatura, onde o medo e a ansiedade são diários e a sensação de que não sabemos o que estamos a fazer não passa, uma professora como a professora Lucília muda tudo. Não sei se alguma vez sentiram isto, mas ao longo dos últimos anos são poucos, mas ainda assim alguns, os professores que ficam na memória. Se pensar no que significa para mim um bom professor, cada vez mais entendo que os bons são aqueles que não querem apenas que um grupo de miúdos fique a saber aquilo que eles sabem debitar todos os dias. Os bons são os apaixonados, de tal forma que não querem que paixão fique só para eles. É demasiado bonito para não se partilhar. Muitos de vocês não conheceram a professora Lucília, mas muitos foram marcados por ela também. Dizem que só se morre quando morremos na memória de alguém e a professora deixa um legado de pessoas que, não importa o que possam vir a fazer na sua vida, aprenderam a apaixonar-se. E, uma vez apaixonados, tudo o que formos fazer vai ter outro sabor. Obrigada professora. Pelo amor que partilhou. Vamos fazer questão de o partilhar à nossa volta.
Em memória da nossa professora Maria Lucília Marcos (1958-2022) NOVA EM FOLHA
ESPECIAL “LIBERDADE”
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Vermelho que não é sangue CATARINA AIRES | @ROMANCEEADA
Isto é sobre o ódio e o vazio sem amor. Sobre o que cada um sente no lugar da sua pequenez. Isto é sobre ti, e sobre mim e sobre sentir e ser, sem roupa de armas ou dor. Isto é sobre a guerra e um mundo pequeno aos olhos de quem tudo quer. Isto é um apelo sem voz entre tantas outras vozes que dizem basta e caiem perdidas pelas ruas esquecidas de almas em ruína. Isto é sobre o ódio, sobre o alimento do poder, sobre estes países subnutridos com falta de compaixão. Isto é sobre o pé que esmaga as gargantas esfomeadas de quem vive a contar moedas e a pensar em como sofrerá pelo bem da sua nação. É também sobre heróis do dia a dia que fazem nascer sorrisos e sobre quão frágeis esses sorrisos são quando esboçados pelos oprimidos.
Isto é sobre vislumbres de amor, coragem e dedicação; sobre o passado de um país que se libertou, sobre o vermelho que por uma vez não significou sangue, mas sim flor e liberdade. É sobre as lições que não aprendemos por mais lutas que vivamos, e como ainda não conhecemos paz quando paz é o que mais queremos. Isto é sobre um início Repetido pela eternidade E sobre um fim Que nunca terminará. NOVA EM FOLHA
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ESPECIAL “LIBERDADE”
MEMÓRIAS DE UM PASSADO CADA VEZ MAIS PRESENTE MADALENA CRAVEIRO
Não é de forma leviana que a palavra Liberdade se repete como uma oração. Agarramonos a ela com medo que nos seja roubada, ao passo que, despercebidos, investidos nas banalidades da vida, não nos apercebemos que a prece que repetimos, já nem na nossa boca está. A confiança de que a liberdade nunca mais será posta em causa faz rir o dono do destino. Dono este que recua lentamente, porém progressivamente, o tempo de volta a um capítulo que dizemos efusivamente estar encerrado. Uma sociedade conformista, que apenas recorda o passado quando já se encontra assolada pelo mesmo. O dia 25 de Abril é uma memória necessária de ser revisitada, porque o medo de cair na ciclicidade da história é premente. Ajustemos então os calendários de volta a 1974, uma revolução urge por acontecer. NOVA EM FOLHA
ESPECIAL "LIBERDADE"
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OS OPOSTOS DA DEMOCRACIA: “25 DE ABRIL” E ANDRÉ VENTURA MARGARIDA MENDES RIBEIRO
Com a celebração dos 48 anos da “Revolução dos Cravos”, somos remetidos ao último ano, em que as comemorações do 25 de Abril levaram os vários líderes políticos a comentar os feitos e as mais valias da liberdade, entre os quais André Ventura, cabeça de cartaz do partido Chega. No seu controverso discurso (característica comum à maioria das suas intervenções), Ventura declara o “luto da democracia”, afirmando que “metade do país acha hoje que está pior do que antes do 25 de Abril”. Pondo isto, restanos questionar dois fatores: primeiro, se a exposição de Ventura é baseada em factos verídicos; e segundo, caso esta afirmação seja fundamentada, quem são os portugueses que partilham desta opinião. A primeira questão, relacionada com a indiferença dos portugueses para com “Abril”, é facilmente refutada por um inquérito lançado pela Universidade Católica em março de 2022. O inquérito conclui que 75% dos inquiridos classificam o “25 de Abril” como “muito importante”. Em oposição, só 2% dos inquiridos consideram esta data “nada importante”. A “metade do país” que Ventura afirmava estar insatisfeita com o Portugal pós-Revolução dos Cravos parece estar refletida em apenas 2%. A segunda questão relaciona-se com o porquê desta percentagem populacional (por muito que reduzida) se encontrar revoltada com a mais pacífica das revoluções. Para responder a isto temos que atentar de novo para o estudo da Católica, que indica que o “25 de Abril” encontra os seus mais afincados apoiantes nas mulheres, nos jovens e nas faixas etárias mais instruídas. Ironicamente, o oposto desta análise é o eleitorado do Chega, que é composto maioritariamente por homens, faixas etárias mais envelhecidas, e com níveis de escolaridade mais baixos. Conclui-se assim que esta grande maioria defendida e representada por André Ventura pode muito bem tratar-se do seu próprio eleitorado.
Consequentemente, o inquérito também determina que a Revolução de Abril é mais valorizada pelos partidos de esquerda, sendo o Chega o partido que menos importância atribui a estas comemorações, entre os restantes de direita, com apenas 34% dos seus apoiantes a assinalarem a data como “muito importante” para a sociedade portuguesa. O político André Ventura tem-nos habituado, nestes últimos anos de voz política, a discursos duvidosos, factos falaciosos e a uma panóplia de opiniões questionáveis. Seria inesperado se a Revolução dos Cravos não se tornasse vítima das indignações do fundador do Chega, que se apresenta hoje como uma das maiores ameaças à democracia. Discursos como este apelam à percentagem da população que vê os seus ideais ouvidos pelo político de extrema-direita, cuja demanda é criticar tudo o que remeta à liberdade, direitos humanos e a um mundo melhor, fomentando ideias que contrastam fortemente com as da Revolução de Abril.
NOVA EM FOLHA
ESPECIAL "LIBERDADE"
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BREVE HISTÓRIA DA NOITE ESCURA JOÃO MARTINS
No dia 24 de março de 2022, Portugal terá vivido mais dias de democracia (17500) que de Estado Novo e ditadura militar combinados (17499). É decerto um dos momentos mais felizes da existência política do país, mas não basta olhar para o futuro e suspirar “Ah, como é bom termos chegado aqui...!”. Parece-me que a melhor forma de evitar repetições é mantermos vivos na nossa consciência os motivos pelos quais devemos rejeitar sempre qualquer “alternativa” iliberal, em qualquer forma embrionária que surja. Agradecer e imaginar o presente e o futuro é decerto essencial, uma benção, um luxo. Mas não há, penso, um garante mais eficaz de valorização da democracia que uma memória bem preservada do passado ditatorial. Logo, nada melhor que uma perspetiva histórica sobre o que foi a ditadura, em que abordemos criticamente as inúmeras razões pelas quais a devemos rejeitar sempre, além dos elementos mais enganadores, que muitas vezes originam saudosismos e sebastianismos menos felizes...
Nação”, na qual se baseavam igualmente os restantes regimes fascistas e ditatoriais que, à época, brotavam por toda a Europa. A principal base de apoio do Estado Novo residia na Igreja Católica, nos grandes proprietários, na burguesia (alta, média e baixa), nos idealistas monárquicos, integralistas lusitanos, fascistas (ligados ao movimento de Rolão Preto) e nos militares.
O Dealbar do Autoritarismo
De seguida, tudo o que era nacional deveria ser protegido, a modernidade foi diabolizada e exaltou-se a pureza e simplicidade do mundo rural (mesmo que pobre). Já a famíliamodelo era “tradicional”, católica devota, e compunha-se da mãe e esposa doméstica, virtuosa e caridosa, do pai e marido respeitado e autoritário, fonte de rendimento do agregado, e dos filhos, obedientes, puros e “alegres”. Além destes elementos, o regime enveredou pelo nacionalismo exacerbado, enaltecendo a Nação Portuguesa, o povo lusitano e suas qualidades, a História de Portugal e respetivos heróis e a “missão civilizadora” e de evangelização empreendida no Império Colonial.
A 28 de maio de 1926, o General Gomes da Costa iniciou em Braga uma revolta armada que culminou com a queda da Iª República Portuguesa, sem oposição ou resistência de nota. Iniciou-se o breve período da ditadura militar, liderada pelo General (futuro Marechal) Óscar Carmona, que ocupou o cargo de Presidente da República. Face às parcas melhorias registadas e ao défice crónico, os militares convidaram António de Oliveira Salazar, professor universitário em Coimbra, para assumir a pasta das Finanças. Porém, este apenas aceitou o cargo sob a condição de controlar os orçamentos dos restantes ministérios, exigência que se traduziu na inversão do défice e num Orçamento do Estado positivo. Este “milagre” económico granjeou ao ministro a admiração dos militares e, em 1932, foi investido como Presidente do Conselho de Ministros, ou seja, chefe do Governo.
O conjunto de valores essenciais do Estado Novo construiu-se em redor de um conservadorismo extremo, alicerçado na tríade inquestionável Deus, Pátria, Família. Em primeiro lugar, defendia-se a legitimidade e predomínio da religião católica - o Estado e a Igreja alinharam muitas das suas perspetivas, firmando a Concordata com a Santa Sé (1940), que garantia às instituições católicas apostólicas romanas um conjunto de benefícios exclusivos e privilégios vedados a outros credos, embora existisse liberdade de culto.
As Décadas de Consolidação
A nível político, a ditadura assumiu-se antiliberal, antiparlamentar e antidemocrática. Só o regime poderia defender o interesse superior da Pátria, portanto não havia necessidade de partidos políticos ou de um parlamento ativo. A As mudanças que se seguiram deram origem a um regime de Constituição de 1933 consagrou estes princípios, reforçando o carácter civil, autoproclamado Estado Novo, assente num poder executivo, nas mãos do Presidente da República executivo forte e na premissa “Tudo pela Nação, nada contra a (Carmona) e, em especial, do Presidente do Conselho (Salazar). NOVA EM FOLHA
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Por seu turno, a Assembleia Nacional, sede do poder legislativo, reduzia-se a um órgão de discussão e aconselhamento das propostas e decretos emanados do Governo. A União Nacional transformou-se no partido único, embora o seu objetivo inicial tenha sido antipartidário. Pretendia aglomerar todos os espectros políticos afetos ao regime, gerando um bloco ideológico comum mas heterogéneo que impedisse o multipartidarismo. No cenário sócio-cultural, procurou-se o enquadramento das massas, garantindo a sua adesão ao projeto político. Salazar foi alvo de mitificação e do típico culto do chefe que se tornou habitual nos restantes autoritarismos e totalitarismos europeus. O Secretariado de Propaganda Nacional mediatizou e engrandeceu as conquistas do Estado Novo, tal como a sua ideologia, mobilizando artistas e criativos de todas as áreas. Este movimento doutrinário ficou conhecido como “política do espírito” e, embora ao serviço de um regime conservador, revestiu-se de marcado modernismo, com o intuito de evidenciar um carácter renovador e um sentido de atualidade, culminantes na Exposição do Mundo Português (1940).
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maior” da Nação, surgindo, igualmente, novos impostos e aumentando-se as taxas alfandegárias. A neutralidade na Segunda Guerra Mundial beneficiou esta conjuntura e incrementou significativamente as reservas de ouro do país, permitindo a estabilidade monetária e financeira, plasmada no equilíbrio das contas do Estado e na receita positiva. Este fenómeno continua a ser invocado como um dos principais trunfos do Estado Novo, associado à boa gestão governativa, mas de pouco serviam tais reservas de ouro num país em que os apoios sociais eram praticamente inexistentes fora da função pública e as massas operárias e camponesas viviam abaixo do limiar da pobreza. De acordo com o seu elogio da ruralidade, o regime, apoiado nos grandes proprietários, empenhou-se na construção de barragens, na povoação das zonas do interior, na arborização, no fomento da vinha, da batata, do azeite, da cortiça, entre outras culturas. Ao mesmo tempo, deu-se início a vários programas de obras públicas, desde a construção e reparação de estradas, pontes e barragens, à expansão das redes telegráfica, telefónica e elétrica e ao alargamento e modernização dos portos e aeroportos. Outros projetos, como o erigir de hospitais, escolas, edifícios públicos e universitários, bairros operários, estádios, prisões, quartéis, estaleiros e a recuperação de monumentos e património complementaram este impulso construtor.
As mais claras tendências fascizantes do Estado Novo surgiram no decorrer e rescaldo da Guerra Civil Espanhola, quando foram criadas organizações milicianas como a Legião Portuguesa e a Mocidade Portuguesa. Esta última, obrigatória para os jovens, propunha-se a doutriná-los nos preceitos do regime e nos valores do bom português patriota e católico. Da mesma forma, a educação estandardizada vinculou-se aos Em conjunto, a agricultura e as obras públicas absorveram princípios da moral cristã e do nacionalismo corporativo, grande parte do desemprego, reforçando o apoio ao regime. expulsando-se os professores insubmissos. Não obstante, continuaram por colmatar as desigualdades gritantes entre proprietários agrícolas e trabalhadores A supervisão da população e da sua assimilação com o Estado sazonais, e entre grandes industriais e proletários Novo ficou ao encargo da censura, que filtrava a imprensa, o subordinados. Uma população pobre mas investida no seu teatro, o cinema, a rádio, etc. em busca de mensagens trabalho "honesto" em prol da Nação seria sempre, para os subversivas ou contrárias ao regime, e da PVDE/PIDE, polícia ideólogos salazaristas, uma população correta e feliz. Poderia estatal que prendeu, torturou e assassinou milhares de mesmo dizer-se que ao Deus, Pátria, Família só faltava opositores. A sua ação alastrou-se à vida quotidiana das acrescentar Trabalho. Curiosamente, foi uma ideia que apenas pessoas, permanentemente receosas da sua rede de ocorreu a certos saudosistas, 47 anos depois. informadores. O campo de concentração do Tarrafal é apenas o mais conhecido exemplo da crueldade das autoridades Já no parco setor secundário, assistiu-se ao condicionamento oficiais, seguindo-se localizações simbólicas como o Forte de industrial, a partir do qual o Estado controlava todas as Peniche ou o Aljube. atividades das empresas fabris, desde a sua venda e compra por estrangeiros à aquisição de maquinaria. Este curso de ação O corporativismo foi implementado enquanto sistema de pretendia garantir, numa época de crise mundial, a tutela organização económica, almejando a conciliação de interesses nacional sobre o setor e a regulação da produção e da e objetivos entre os indivíduos de determinado ramo de concorrência. Geraram-se, assim, vários obstáculos à atividade e as entidades patronais. Garantes da “paz social” e modernização e à produtividade, enquanto a concorrência era da concórdia, estes organismos coletivos permitiam ao regime eliminada pela constituição de grandes monopólios controlar a economia e as relações laborais. Instauraram-se concentradores de indústrias (como a CUF do Barreiro). também os princípios do intervencionismo e da autarcia, no sentido de alinhar os interesses económicos com o “interesse Em relação aos trabalhadores da indústria, comércio e serviços NOVA EM FOLHA
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(exceto função pública) e respetivos patrões, o Estatuto do Trabalho Nacional (1933) definiu que uns se deveriam agrupar em sindicatos nacionais e outros em grémios, por sua vez reunidos em corporações. No seio destas negociavam-se contratos coletivos de trabalho, normas e cotas de produção, preços e salários, sempre sob mediação apertada do Estado. Retirava-se, em simultâneo, aos operários o direito à greve ou ao lockout e à associação em sindicatos livres, o que suscitou alguma resistência, prontamente reprimida. Finalmente, em 1930, promulgou-se o Ato Colonial, em que se expressava o carácter civilizador histórico da colonização portuguesa e se defendia a inalienabilidade dos territórios ultramarinos. No seu decorrer, aumentou-se o controlo metropolitano sobre as colónias, meras fornecedoras de matérias-primas e recetoras de produtos transformados, e limitaram-se as relações das mesmas com outras nações. Para mais, os “nativos” permaneceram fortemente excluídos da “civilização” dos colonizadores.
que vinha com décadas de atraso. Como agravante do atraso do país, a emigração aumentou substancialmente, fruto do sobrepovoamento, da estagnação económica e das políticas repressivas e bélicas do Estado Novo. Focando-se na próspera Europa Ocidental, o fluxo migratório distinguiu-se pelo recurso frequente à clandestinidade, visto serem várias as barreiras interpostas pelas autoridades contra a saída do país, em especial para com os jovens em idade militar, e saldou-se num fator de estabilização interna. De facto, os emigrantes, cujo nível de vida aumentava substancialmente, enviavam avultadas remessas que representavam boa parte das receitas do país, enquanto a pressão sobre o mercado de trabalho se aligeirava. Ainda assim, os ideais democráticos absorvidos nos destinos de emigração, a compreensão do atraso económico e cultural português e o foco dado à cidade (cosmopolitismo limitado) contribuíram para a fragilização do regime.
Os Resultados do Iliberalismo
Na era dos “Trinta Gloriosos”, Portugal encontrava-se firmemente sob o jugo do Estado Novo. A cada ano, o regime tornava-se mais anacrónico, potenciando o isolamento crescente do país e o seu subdesenvolvimento face às restantes nações industrializadas. Olhando para o mundo rural, o rendimento agrícola português encontrava-se muito abaixo da média europeia, amputado por práticas agrárias arcaicas, pela distribuição insustentável das terras, pela proteção dada aos grandes latifundiários apoiantes do regime e pela pobreza generalizada da população, cujas condições de vida eram frequentemente degradantes. Começou-se a dar maior importância ao setor da indústria após a Segunda Guerra Mundial, mas apenas nos anos 60 se estabeleceu como prioritário sobre a agricultura. As políticas autárcicas do regime visavam a redução da dependência das importações estrangeiras, organizando-se em Planos de Fomento: no primeiro (1953-58) criaram-se algumas infraestruturas básicas como estradas, caminhos de ferro, etc.; no segundo (1959-64) investiu-se nos setores-base siderurgia, refinação, celulose, químicos, etc. - e a economia nacional começou a sua abertura aos mercados mundiais Portugal co-fundou e integrou a EFTA (Associação Europeia de Comércio Livre) em 1960; no plano Intercalar (1965-67) e no III Plano (já empreendido sob Marcello Caetano) o arranque cimentou-se, o investimento interno e externo incrementouse e os grandes grupos empresariais e financeiros consolidaram-se. Porém, o subdesenvolvimento era crónico e outras variáveis, como a Guerra Colonial e a repressão política, obscureciam os eventuais méritos de uma política industrial
A urbanização é outro dos cenários típicos do Portugal da segunda metade do século XX, tendo sido empreendida em ritmo crescente, de forma a absorver o forte êxodo rural que assomava às grandes cidades. Insuficiente e precária, não impediu a proliferação dos bairros de lata, dos engarrafamentos, da insuficiência das infraestruturas e serviços, da degradação social, entre outros, embora os setores de atividade nos centros urbanos se tenham desenvolvido grandemente, tal como os média (controlados pela censura). Ora, depois de a democracia (ou antes, os apelos universais à “liberdade”) sair vitoriosa da Segunda Guerra Mundial, o Estado Novo viu-se pressionado a demonstrar alguns sinais de NOVA EM FOLHA
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liberalização, convocando-se eleições legislativas e presidenciais. Em 1945, o MUD - Movimento de Unidade Democrática e, em 1949, o general Norton de Matos, assumem-se como forças de oposição à ordem instituída, mas, por falta de condições, acabam por retirar as suas candidaturas. O processo eleitoral constituiu uma farsa que aguçou as autodefesas da ditadura opressiva, conduzindo a mais repressão. O maior sobressalto, todavia, chegou em 1958. Repetindo a experiência liberalizadora, o Estado Novo enfrentou desta vez a entusiástica campanha presidencial do general Humberto Delgado, que afirmou as suas intenções de finalizar o regime ditatorial e de demitir Salazar, seu líder. Oficialmente, o almirante Américo Tomás, candidato próregime, venceu com larga maioria, mas o exemplo de Delgado, exilado e depois assassinado, minaram a imagem do Estado Novo, que nunca mais se aventurou pelos volúveis caminhos da liberdade. Outro crítico acérrimo dos procedimentos e opressão dos salazaristas foi D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, cujo destino foi também o exílio.
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o alívio da repressão social, cultural e política, com a abertura económica ao estrangeiro - visada no III Plano de Fomento e nos acordos de 1972 com a CEE - e com a redesignação puramente superficial dos principais órgãos ligados à ditadura: a União Nacional passou a Ação Nacional Popular, a PIDE a Direção Geral de Segurança (DGS), a Censura a Exame Prévio, etc..
Porém, a esperança da democratização foi rapidamente frustrada, logo após as eleições manipuladas de 1969, que reconduziram o Presidente Américo Tomás. Tudo permaneceria igual ao nível da liberdade, o que conduziu a protestos da Ala Liberal - conjunto de deputados liberais encabeçado por Sá Carneiro, Pinto Balsemão e Magalhães Mota - e, em especial, da massa estudantil, cujas manifestações foram contrariadas por cargas policiais e prisões. Caetano aproximou-se das fações conservadoras, afetas à manutenção da ditadura, e reverteu certas concessões. Piorando a sua situação, o novo governante insistiu no prolongamento da Guerra Colonial, um impasse que ceifava milhares de vidas portuguesas (e A comunidade internacional reagia levemente face à tirania do africanas) e absorvia recursos imensos e essenciais. regime português, acolhendo-o na NATO, em 1949, e na ONU, em 1955. No entanto, o país continuou bastante isolado, mal A contestação à autoridade ditatorial e o desejo de uma querido pelo seu governo autoritário e iliberal e pela sua democracia com liberdades individuais e cívicas grassou pela insistência em manter um império colonial. Esta posição sociedade, mas também pelas fileiras dos militares. Um fragilizada ficou bem patente em 1961, aquando da ocupação exemplo deste último caso é a publicação de Portugal e o de Goa, Damão e Diu pela União Indiana, à qual apenas o Futuro, livro de António Spínola, um dos principais generais despojado Portugal reagiu, e do estalar da guerra nas colónias portugueses, que afirmou pela primeira vez não existir solução africanas. militar para o conflito colonial. Ao mesmo tempo, no Exército, formou-se o Movimentos dos Capitães, depois conhecido Toda esta conjuntura foi herdada em 1968 por Marcello como MFA (Movimento das Forças Armadas), que viria a Caetano, sucessor de um Salazar há anos doente, enfim morto organizar e executar com sucesso uma revolução, em 25 de em 1970. Iniciou-se a Primavera Marcelista, que começou com abril de 1974.
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As Várias Faces da Liberdade
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O Movimento das Forças Armadas, organizador do 25 de Abril e sob a alçada do qual se processou a transição democrática, propôs um programa assente nos chamados “três D”: democratizar, desenvolver e descolonizar. Neste sentido, libertaram-se os presos políticos, acolheram-se os exilados, desmantelaram-se as estruturas repressivas da ditadura (PIDE-DGS, Legião Portuguesa, …), destituíram-se os governantes salazaristas, autorizou-se o multipartidarismo e a fundação de sindicatos livres e, desde logo, constituiu-se um Junta de Salvação Nacional, composta por personalidades como Spínola ou Pinheiro de Azevedo, pertencentes a todos os ramos das forças militares. A êxtase da mudança alastrou pelas massas, que efusivamente celebraram o primeiro 1 de maio - Dia do Trabalhador - em democracia.
Até aos anos 40, o colonialismo português tinha seguido o modelo de exclusivo imperial aplicado também pelos restantes impérios europeus. Todavia, a partir da década de 50, as forças opostas da condenação internacional e do imperialismo autoritário obrigaram a uma revisão das políticas coloniais. Começou-se a professar uma filosofia de inclusão de todos os “povos nativos” na nacionalidade portuguesa. Instalou-se ainda mais ideia de que os portugueses não colonizavam com o intuito de explorar os subjugados, mas antes para os civilizar, educar, converter e assimilar. Incentivou-se a partida de nacionais da metrópole para as colónias, aumentando a população caucasiana, investiu-se em infraestruturas, na agricultura, nos minérios e na indústria, concedeu-se mais autonomia e aceitou-se maior investimento estrangeiro. Os dois anos que decorreram desde 25 de abril de 1974 até à
Aliás, o Estado Novo nunca reconheceu a existência de uma guerra, considerando que os movimentos independentistas não passavam de forças terroristas e que os territórios não eram colónias, mas províncias integrais a Portugal. Ainda assim, diversos movimentos de libertação reconhecidos internacionalmente lutavam pela independência dos vários territórios coloniais. Alguns dos seus líderes foram inclusive recebidos pelo Papa Paulo VI, provando até onde já chegara o isolamento e desprestígio internacional de Portugal. Assim chegamos ao dia 25 de abril de 1974, quando forças militares comandadas da Pontinha por Otelo Saraiva de Carvalho deram cumprimento à “Operação Fim-Regime”. Encontrando pouca resistência fiel ao regime autoritário e num clima de total adesão popular, a Revolução dos Cravos saldouse numa retumbante vitória para a Liberdade. Após a rendição de Marcello Caetano ao general António de Spínola, começou o percurso democrático português que ainda decorre.
promulgação da nova Constituição da República Portuguesa, em 25 de abril de 1976, ficaram conhecidos como PREC Processo Revolucionário Em Curso. Poderia prolongar esta reflexão e abordar de forma igualmente crítica os desenvolvimentos e vicissitudes destes tempos conturbados. Porém, a bem da brevidade e para não fugir ao objetivo central deste texto, não o farei. Espero ter conseguido iluminar os aspetos principais da “Noite Escura” que cobriu Portugal durante 47 anos, 10 meses e 28 dias, e assim contribuído para uma comparação favorável à democracia que, dia 24 de março de 2022, ultrapassa essa marca temporal (e esperemos que dela se afaste cada vez mais, sem perigos de retrocesso). Contudo, esse é um exercício intelectual que deixo inteiramente ao critério de quem lê. Obrigado pela atenção.
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Liberdade rima com... RITA COUTINHO
O 25 de abril vai, este ano, dar-nos uma segunda feira livre. Enquanto alguns gostarão de marcar a data fazendo parte das celebrações que já são permitidas realizar, outros talvez aproveitem a ocasião para descansar ou fazer algo que normalmente não tiram o tempo necessário para fazer. A liberdade também é isto, o tempo, que podemos tornar nosso para o poder aproveitar da melhor forma. E que melhor forma de o aproveitar do que com um pedacinho de cultura? Aqui deixo 3 sugestões de algo que podes fazer nos 3 dias de fim de semana: - Filme "O Herói de Hacksaw Ridge": este filme de 2016 já foi visto cerca de 12030 x, todas elas por mim. Se existe um filme que eu associo a liberdade, este é um deles. Sabemos que o cenário é o de guerra e que os EUA têm a tendência de fazer o papel de bonzinhos quando não o são, mas este filme é sobre muito mais. Este filme fala sobre o companheirismo, a bondade, os valores e princípios, a religião. Fala sobre tudo aquilo que a liberdade pode tirar, mas também aquilo que a liberdade pode dar, se todos respeitarem a liberdade uns dos outros. A sério, um dos melhores filmes DE SEMPRE. - Série "Valéria": quando se fala em 25 de abril e em liberdade talvez a maioria acaba por pensar de imediato em algo relacionado com um cenário completamente contrastante do que aquele que esta série apresenta. No entanto, a minha liberdade está completamente representada nesta série espanhola maravilhosa. Ser jovem, ter dúvidas, não saber o que fazer, amar algo e não saber se somos suficientemente bons a fazê-lo, ter dúvidas, ter opiniões e mudá-las todos os dias, amar quem seja, desejar quem seja... Estão a ver não é? A liberdade é mesmo uma coisa bonita. - Livro "Apartamento Partilha-se": sabem daqueles momentos da nossa vida onde chega a um ponto onde não há mesmo nada que esteja certo ou bem? A Tiffy e o Leon sabem. Em quase 400 páginas que passam com a sensação de que tempo nenhum passou na verdade, a estória destes dois seres humanos que acham que fizeram tudo errado e tentam voltar a ter aquilo que seria algo normal. Este livro ensinou-me que a maior liberdade de todas é a de amar e de podermos ser amados em retorno. Vou sempre recomendar este livro a toda a gente, sobretudo àqueles que se esquecem de como é bom sermos livres para amar. Bom fim de semana alargado meus pássaros, livres. (ahah que lamechas, mas a liberdade tem destas coisas). NOVA EM FOLHA
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DEMOCRATIZAR E DESENVOLVER O PODER ESTUDANTIL E POPULAR GUILHERME MACHADO
A luta estudantil pode parecer, por vezes, como uma disputa complexa e repleta de nuances e sobreposições de poder e de controlo. De um lado temos uma comunidade estudantil, que neste momento vive níveis históricos de abstenção da vida política da Universidade e Associações de Estudantes, que em muitos casos servem como comissões de festas e órgãos de canalização dos estudantes para as camadas de poder do sistema académico e de educação. Do outro, temos toda a estrutura do sistema de educação, as suas reitorias e conselhos pedagógicos, os nepotismos que definem o preenchimento dos quadros, e todo o corpo legal e regulador da União Europeia e do Acordo de Bolonha. As condições concretas da reivindicação por democracia interna, igualdade de acesso e o fim das propinas assemelham-se a um confronto entre uma turba desorganizada, e um sistema forte e apoiado pela classe política e empresarial. Há poucas dúvidas sobre o declínio da organização estudantil em Portugal. O movimento explodiu entre 1961 e 1976, na órbita de uma atmosfera generalizada de contestação em centros universitários franceses, alemães e norte-americanos. Entrou numa certa dormência durante a década de 80 - com o renascimento da praxe e da formação das primeiras associações académicas - e teve a sua última grande batalha como frente organizada durante a década de 90, contra o aumento da propina pelo governo de Cavaco Silva. Os acontecimentos do começo da década de 90 podem ser facilmente ignorados numa história de decadência das organizações revolucionárias e radicais e a ascensão da política estudantil institucionalizada pelas Universidades e pelo Estado, mas a vitória do governo social-democrata em aumentar o valor das propinas criaram um precedente em todos os governos que se seguiram - do PS e do PSD - de conseguir ultrapassar a barreira reivindicatória dos estudantes e passar legislação anti-estudantil sem grandes oposições concretas e organizadas. Desde então, tem sido difícil galvanizar um esforço coletivo e liderado pelas AEs no sentido de criar uma frente unida que seja capaz de se servir dos canais políticos institucionais para resistir à legislação anti-estudantil. Acho que há dois grandes motivos por detrás deste fosso radical entre os movimentos do PREC e da década de 60 e a comunidade estudantil nos anos que se seguiram. O primeiro está no próprio tecido social da comunidade estudantil e os impactos que este tem na organização do ensino e na vida política universitária. Pode parecer impressionante perante a tradição dos movimentos revolucionários derrotados no PREC, esquecidos depois da Constituição de 76, e enterrados pela História nas décadas seguintes - mas os movimentos estudantis da década de 70 tiveram uma série de importantes vitórias que tiveram o resultado de paradoxal de adormecer o movimento estudantil nas décadas que se seguiram. As reivindicações estudantis deste período podiam ir do radicalismo marcusiano e influenciado pelo maio de 68, à simples luta pela democratização do ensino como ferramenta de atenuação dos contrastes sociais e económicos do país acabado de sair do Estado Novo. A própria constituição do movimento tinha de ir neste sentido: em 1963, na Universidade de Coimbra, na Universidade de Lisboa e na Universidade do Porto, as percentagens de estudantes que vinham de um grupo social ligado à propriedade, ao comércio e ao aparelho de Estado eram respetivamente, de 41,9%, 42.5% e 41.5%. Nas três Universidades os trabalhadores assalariados não passavam dos 5%. Este corpo estudantil dominado pela burguesia e pelas elites urbanas conseguia galvanizar-se pelo seu reduzido número, mas também fraturava-se pelas aspirações radicais de alguns e o compromisso político de outros. Faz sentido, então, que as premissas de revolução total do ensino e da sociedade com base no sujeito revolucionário da juventude fossem colocadas de lado em prol de um compromisso no sentido de abertura das Universidades às classes e comunidades mais marginalizadas. NOVA EM FOLHA
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E de facto, na década de 90, encontramos indícios de uma certa democratização, quando as origens sociais dos estudantes são mais variadas: na Universidade do Algarve em 1995/6, mais de 20% dos diplomados vinham das camadas dos empresários, dirigentes empresariais, profissionais liberais e funcionários de Estado. Enquanto que 20% eram filhos de operários, outros 20% eram filhos de empregados de escritório e 17.6% eram filhos de professores. Este é um exemplo de uma comunidade estudantil que pela ação da sua luta, foi capaz de entrar em compromisso com o poder vigente e alterar visivelmente as condições da vida Universitária e do Ensino em Portugal. O segundo fator é um corolário histórico do primeiro, sendo que uma comunidade estudantil tendencialmente democratizada e a instauração de propinas ainda pouco proibitivas para o acesso ao Ensino teve um impacto nas próprias capacidades de organização e de combate, quando esta mistura na mesma Universidade dezenas de experiências sociais distintas em conjunto com a extensa negociação entre estudantes e Estado levou a que o movimento estudantil português abandonasse as questões fulcrais e profundas da questão do Ensino: a descolonização e democratização do conhecimento, a criação de novos espaços políticos de atuação dos estudantes e a natureza do nosso sistema económicos e das relações sociais de poder na base do sistema de ensino. Tal como a esquerda revolucionária portuguesa teve de se adaptar a um quadro político institucional, abandonando a luta revolucionária, também os estudantes tiveram de proteger os poucos avanços que fizeram com um tácito compromisso com o Estado e com a autoridade. O terceiro fator é a progressiva transferência dos canais políticos soberanos e autónomos do Estado português que durante o PREC permitiram uma negociação relativamente igualitária entre estudantes e Universidades para as camadas superiores da burocracia da União Europeia e do sistema de ensino superior pós-Bolonha. É outra grande verdade inalienável das condições de luta atuais: se as AEs decidissem criar agora uma frente unida e declarar guerra ao Estado, ocupando faculdades e exigindo o fim unilateral da propina, estas ações seriam primeiramente esmagadas pela polícia de choque, para serem depois derrotadas politicamente num Parlamento que não está em Lisboa, mas sim em Bruxelas. O contexto quotidiano da nossa luta não tem de acontecer apenas pelas ações espalhafatosas de manifestações que acontecem com autorização do sistema que combatemos. A educação democrática feita de estudantes para estudantes, assim como a criação espontânea de novos canais de expressão da angústia e da revolta numa prática concreta e disruptiva do poder são formas de combater este Golias que impede o movimento de avançar com as suas reivindicações. Escolhemos lutar pelo fim da propina como forma de não termos de fazer a autocrítica necessária para compreender de onde vem a nossa necessidade de luta e os mecanismos por detrás das nossas reivindicações. E quando eventualmente, num ciclo político qualquer, o Parlamento tiver a misericórdia de acabar com as propinas, eu pergunto: e o que sobra? O que fica disto tudo? Deixaremos de pagar para estudar, mas os entraves sistémicos que impedem a verdadeira democratização do conhecimento e os contrastes de classe que não desaparecem não vão atenuar este sistema de ensino injusto. Em vez de desterritorializarmos a nossa luta como pura potencialidade que combate o controlo da academia e das elites das nossas fontes de conhecimento, construir-nos-emos como sujeito estruturante da sociedade capitalista e neoliberal. Vamos negociar com os responsáveis pela necessidade de lutarmos, e no caminho perderemos o nosso espírito reivindicativo e a capacidade que pertence quase unicamente à juventude de construir experiências associativas e políticas renovadas e que rompam com a realpolitik que impede verdadeiros avanços. NOVA EM FOLHA
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A luta estudantil: lutar com uma geração resignada BEATRIZ MATEUS
Vinda de uma vila pequena no interior do país onde nada muda há gerações, cresci com a ideia que quando algo estava mal tinha de me moldar à volta e fazer o melhor possível da situação. Quando os professores ou a função pública faziam greves, na minha zona o normal era os adultos usarem esse dia para irem semear batatas, apanhar a azeitona… A luta não era para eles e aquilo que diziam era que nada ia mudar. Cresci assim, com a certeza que pessoas comuns do dia a dia nada poderiam fazer para mudar. A opção seria sempre esperar que os próximos eleitos para o governo fizessem algo melhor. Neste ambiente, quando me falavam no ensino superior, era sempre tudo muito sério e tudo muito bem feito, não havendo espaço para falhar ou para desleixo. Não me disseram que não iria ter residência, não me disseram que a propina seria capaz de arruinar uma família financeiramente, não me disseram que não ia ter espaço na sala de aula, não me disseram que não teria espaço para estudar ou espaços de lazer… Esqueceram-se de me dizer muita coisa, mas principalmente que haveria algo a fazer. Aprendi desde que entrei para a faculdade que a luta existe, ainda que por vezes silenciosa. A luta existe nem que seja nas discussões ao almoço ou na esplanada entre cafés e cigarros, quando os amigos partilham que não têm dinheiro para a propina e que mesmo tendo a bolsa as coisas são impossíveis e que alguns vão ter mesmo de desistir do seu curso. E no meio desta conversa há uma normalização de tudo isto, das salas sem condições, dos aumentos dos preços na cantina, porque foram tirando tudo sem permitir que lutássemos de volta. Hoje, quando tentamos chamar colegas para uma manifestação, existe toda uma discussão para descobrir se a luta vale a pena. Justificam a propina mas ao mesmo tempo queixam-se da infraestrutura
que a propina deveria estar a tomar conta. Queixam-se desta falta de espaço, mas sem querer lutar pelo seu espaço, ouve-se “que posso fazer? não sou eu que mando”, normalizou-se o pagamento pelas folhas de teste, pagamento pelos exames em qualquer época, normalizou-se toda e qualquer taxa e taxinha e há queixas todos os dias de algo que está mal, mas quando chega a hora de lutar…não é problema nosso, não somos nós que controlamos. Eu cheguei a esta faculdade sem interesse pela luta, com medo até de sofrer por lutar de volta. Mas conheci os poucos corajosos da minha geração que nunca tiveram medo e que se levantaram mesmo quando estavam sozinhos ou com sorte, 5 de uma só vez. Eles ensinaram-me que os estudantes unidos não podem ser ignorados por muito que nos queiram calar. Não tive de pagar 1060€ de propina porque quando cheguei ao ensino superior já a tinham reduzido para 871€ e hoje em dia pagamos 697€. Espero, como todos os meus colegas, que o ensino seja um dia de novo gratuito e universal para todos os jovens que nele desejam ingressar. Estes números mostram o lado mais concreto desta luta, mas em universidades por todo o país a mudança vai chegando. Por isso lutem, se tiverem de começar sozinhos é normal, mas saibam que o vosso gesto vai inspirar o resto, e que um dia serão 5 e no futuro serão centenas. Peço que para além de não desistirem de vocês mesmos, não desistam dos vossos colegas e não desistam de um ensino, democrático, gratuito e universal. NOVA EM FOLHA
ESPECIAL "LIBERDADE"
P 24
MANUAL PARA ENTENDER POLÍTICA RITA COUTINHO
Falar de política é sempre algo que me deixa desconfortável, porque sinto sempre que não tenho conhecimento suficiente para dar determinadas opiniões. Acho que a informação deve sempre ser uma preocupação e que para falar de algo, devemos ter conhecimento prévio no assunto . No entanto, foi recentemente que percebi que a política tem mais a ver com sentimentos do que aquilo que eu pensava e que às vezes, não existe teoria que explique a Panóplia de Pensamentos que acontece naquela Assembleia da República (eheh virão o que fiz aqui? Vá, riam-se lá um bocadinho). Primeiro, deixem-me dizer-vos que até hoje não entendi o que fazem os mil e um partidos que temos em Portugal. Só quando fui votar agora em janeiro é que descobri que existe um chamado Volt. Com todo o respeito para com os apoiantes do Volt, mas é só a mim que já me parece um bocadinho piada? Não falo da ideologia porque aí a conversa é outra. Sinceramente malta, 2022 e ainda temos de explicar que partidos políticos não são o Benfica ou o Sporting e que uma coisa são ideologias e outra é apoiar o fascismo em pleno século XXI. Vamos chamar a coisa pelo nome sim? É neste ponto que acho que a política tem muito a ver com sentimentos. Sabem quando estamos ao pé de uma pessoa que faz algo que é tão contra aquilo que acreditamos que simplesmente ficamos envergonhados e queremos ir embora, mesmo que não tenhamos feito nada de mal. Ou vá, vou até colocar as coisas num exemplo mais simples: sabem quando as pessoas escrevem “há” de haver sem “h”? Uma pessoa simplesmente sabe e sente o quão errado é. Desde 2020 ouvimos uma jovem da minha idade dizer que não era feminista, vimos povos de diferentes culturas e etnias serem completamente repudiados e excluídos, vimos a credibilidade e capacidade de alguém estar a frente de um partido ser posta em causa pela cor do batom que utilizava… Todas estas coisas, que parecem tão erradas, fazem-nos sentir desta forma porque somos os privilegiados que viveram para ver o dia onde a democracia existe há mais tempo do que existiu o sistema salazarista. E mesmo assim, tudo isto acontece. Por isso, amigos que começaram por não entender nada de política ao iniciar esta conversa, acontece que se calhar percebem mais do que pensavam. A questão principal da política está em perceber que a democracia, aquilo que pode ter mil e uma imperfeições, mas que nos permite adaptar e melhorar, só prospera se quem vive nela fizer algo para a manter. Começa por olhar para aquilo que sentes que é errado e que tu consegues controlar. E parabéns, fazes mais do que alguns políticos que vemos.
NOVA EM FOLHA
Para comemorar esta data memorável e o facto de, em Portugal, a democracia ser já uma realidade mais prolongada do que a ditadura, o NeF organizará um número especial da nossa newsletter Boas NOVAs, dedicado à liberdade e à democracia. Tens algum texto, poema, bitaite, ilustração, ... relacionado que gostarias de partilhar com a comunidade FCSH? até ao dia 15 de abril, envia as tuas contribuições para
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NEWSLETTER ESPECIAL
25 DE ABRIL
POESIA
P 26
E a luz olha para nós MARIA DURAN
Vira-se a casaca e abana-se o pó. É primavera, quase. E a luz olha para nós, cúmplice De todas as escolhas que não fizemos. Limpam-se as janelas e batem-se os tapetes, Os corredores dos outros cheiram a limão e madeira velha. Estamos em casa, ou não estamos. Os velhos nomes ganham nova vida, E aos novos já se adivinha a cara e a voz antes de os Conhecer. Há esperança, ou pelo menos expetativa, Ou pelo menos medo, e sabe-se isso. Saber o que se têm Não é menos do que nada. Douram-se os crepúsculos pensando Nos crepúsculos do verão. E, entretanto, os cães ladram de manhã. As sombras continuam a encostar-se às paredes brancas. Há pássaros bravos a voar entre as gaivotas. Será primavera, não demora muito.
NOVA EM FOLHA
POESIA
P 27
O que fazem as mulheres? TOMÁS GIRÃO
Nas ruas passeiam caladas, Sabemos lá o que pensam Quando sorriem afastadas Dos homens que as chateiam. O que fazem as mulheres Escondidas nos seus quartos Perfumados de saberes Inesperados e molhados? O que fazem elas despidas De ética e conservadorismo Numa noite de amigas Que deixam homens no abismo?
O que faz a mulher portuguesa Sentada em cima da mesa Com um body preto E com uma garrafa por perto? O que fazem elas, atrevidas E completamente livres Num campo de flores de cores magníficas? O que os homens não percebem, E se um esforço fizerem, Entenderão a sensualidade De ser mulher em liberdade. NOVA EM FOLHA
P 28
POESIA
GUILHERME MACHADO
Raquel, Só contigo vivi semanas que se fizeram em tardes e manhãs que se faziam em noites; tudo em ti era pele que eu tocava com leves gestos, a nossa respiração, e um orgulho metódico que cantávamos em interjeição. Raquel, eras um mistério de uma ponta à outra, Seguraste o meu afeto e deixaste-o à solta, Mas nem tudo o que é bom se parece com um crime, e nem sempre serão as noites serenas e sem nuvens, mas na cama morre toda a aspiração sublime, num fado ilusório que nos faz reféns. Raquel, Nem tudo é um sonho que nos ilude, que nos evade sem explicação, há momentos em que me deixo num impasse muito rude, porque nesta tarde de inverno só nos falta intenção, isto quase que se parece com uma adaga do tempo, que persegue os nossos pés entrelaçados; fiz-te um sermão apaixonado e lento, que uniu por segundos os nossos corpos alados. Se morresses ontem, Eu faria das tuas cinzas um pó tão fino que me magoaria, na tua campa dançaria num êxtase medieval, em canções tão loucas que me acusariam de histeria, Raquel, se a tua voz fosse da altura de toda a verdade, correria nú pelas linhas de metro desta cidade, iria pedir moedas num museu encerrado, fugiria dos meus demónios algures neste prado. NOVA EM FOLHA
P 29
POESIA
Mas Raquel, E as nossas promessas? E os teus motivos de ser? Nada. Sou-me apenas como dúvida do teu parecer, vivo-me simplesmente como vicário do teu prazer, Raquel, nem sempre são as mentiras ambíguas pela obsessão, Por vezes controlam-nos como opressão, Fazem-se histórias e contos que nos permitem dormir, e o mundo inteiro despertar. Mas nós aqui, sem nos querermos levantar. E da tua face faria um cavalete, onde pintaria as sombras do teu eyeliner, as marcas da tua testa, cada suspiro da tua sesta, encontraríamos no abstrato, deste sereno e belo retrato, aquilo que não víamos em concreto, mesmo que neste canvas seja a tua pele um mero deserto, acho que já me esqueci do teu nome. Às vezes a única resposta é lidar, mas nos momentos em que não há nada para salvar, ou nas noites insólitas que não sabemos viver, há uma luz que nos guia e nos faz humanos, apesar dos sinais da tua vida que eu já não sei ler, ou, Raquel, pela verdade que agora encontraste para o teu ser. Mas sentámo-nos então, à beira do lago da Gulbenkian e começámos a cantar, tão erradamente que trocámos os versos da canção, Raquel, os teus olhos lembravam-me caravelas no mar, em busca de novos portos cheios de ouro e açafrão e menti a mim mesmo mais uma vez, pois precisava de motivos para um amor de altivez. NOVA EM FOLHA
POESIA
P 30
Alguns Pensamentos JOÃO MARTINS
A vida trouxe-me o que me deu e eu vivo do que ela me trouxe, Recebendo do que me for dado. Muito obrigado. --Hakuna Matata! Carpe Diem! A lógica da batata? E a vida idem --A que cheira o choro? Quando estás a chorar, o que cheiras no ar? Para o saberes, tens de parar :) --Eu era feliz e sabia... Feliz como quem o ignorava E ora perdeu parte da vida, Enquanto que de mim não resta nada.
NOVA EM FOLHA
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P 34
CULTURA
Barreiras Invisíveis MARGARIDA HONÓRIO
A abundância dos salons, o negligé dos espaços auto-geridos por artistas, a frieza do white cube e a indefinição do novo institucionalismo. Quando falamos de artes plásticas, ao longo do tempo, todos estes modelos de espaços foram usados como intermediário entre o público e as obras de arte. Nem sempre foram, obviamente, modelos rígidos, e o novo institucionalismo trouxe tipologias de espaço altamente variadas ao panorama expositivo. No entanto, embora este modelo tenha sido apelidado de “novo”, não pode fugir da palavra que se lhe segue, o “institucionalismo”. Há um aspeto que se mantém ao longo dos anos, apesar das mudanças referidas: a barreira invisível entre o público e a arte. Mesmo que seja exposta em diferentes sítios segundo diversos modelos e em épocas distintas, esta barreira mantém-se. Muitos artistas lutam por abatê-la, e alguns até com sucesso, como os que trabalham com o espaço público. Os artistas de rua estão tradicionalmente comprometidos com causas políticas, pois a sua própria tradição de ocupação do espaço público é um ato ilegal, e também por isso chegam mais perto da população. Refiro-me à proximidade entre arte de rua e público porque este não guarda uma “distância respeitosa” destas obras, e porque se considera mais no direito de opinar sobre ela, o que representa uma relação mais saudável entre o mundo da arte e o seu público. Quem penso que também consegue uma relação mais próxima e direta com o público são os artesãos e os artistas folclóricos. Ao contrário dos artistas de rua, que expõem no espaço público, as peças dos artesãos e dos artistas folclóricos conseguem chegar muitas vezes à intimidade dos lares. Poderá ser também porque esta tem uma relação mais estreita com uma cultura específica que se estende para além do mundo das artes, enquanto que muitas vezes a arte contemporânea desenvolve uma relação maior com o próprio mundo da arte e da sua história, de forma autorreferencial. A arte contemporânea parece estar intimamente ligada a um certo modo de expor, despojado e austero, que assegure uma suposta neutralidade do espaço na sua intervenção no encontro do público com a obra. No entanto, como sabemos, não há escolhas neutras. Este ambiente e as suas especificidades condicionam muito a forma como nos relacionamos com os objetos de uma exposição. Muitas vezes, promovem até esta barreira invisível entre o público e a arte. Há alguma agressividade num espaço tão despojado em que, por ser obrigado a estar constantemente de pé, o público raramente tem ocasião de parar, sentar, descansar e contemplar. O receio de trazer objetos aos espaços da arte contemporânea que possam condicionar a forma como nos relacionamos com as obras acaba por determinar escolhas que podem comprometer igualmente este olhar. NOVA EM FOLHA
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CULTURA
A C H A D O Conjunto Júlio O Conjunto Júlio lançou, dia 25 de março de 2022, o seu single em todas as plataformas de streaming e, sob o nome Achado, é a estreia da banda no cenário musical alternativo português.
No seguimento da “Se é que se pode chamar tournée”, em 2021, contando com a mistura de João Maria Gorjão, vem a público o lançamento de um dos temas que a banda apresentou na mesma.
Falando de Achado, é Fernando Pessoa quem coloca as palavras no papel, através do seu poema “Os Colombos”, sendo esta a tentativa de o musicar. O tema remonta tanto à modernidade de King Krule e Connan Mockasin como ao rock clássico de The Rolling Stones. Soma-se ainda a ambiguidade trazida por uma letra cujo assunto é difícil de decifrar e, para corresponder a tal, são as mudanças na energia do tema que servem de chave. Esta estreia, que conta com uma produção caseira, é apenas o primeiro passo de um projeto que está a ser desenvolvido a passos largos.
NOVA EM FOLHA
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CULTURA
BIOGRAFIA O jovem quarteto nasceu em 2021 e conta com Tomás Simões (baixo), Francisco Sanona (guitarra), João Maria Gorjão (guitarra, voz e piano) e Vasco Brito (bateria), tendo Lisboa como base. O Conjunto, que surgiu de um aglomerado de viagens à isolada Torre Fundeira em tempos de pandemia, conjuga influências que vão desde o rock clássico dos anos 70 ao pop-rock psicadélico moderno, enquadrando-se na música alternativa portuguesa após realizar a sua primeira mini-digressão. A banda começou, no início de 2021, com uma abordagem totalmente instrumental, após ser selecionado para a final do Concurso de Bandas de Palmela, onde acabou por conquistar o segundo lugar e, depois disto, viu na poesia portuguesa uma oportunidade a agarrar nos tempos que se seguiriam. Ao longo do final de 2021, decorreu então a “Se é que se pode chamar tournée”: uma série de 8 concertos na Área Metropolitana de Lisboa, entre os quais a Festa do Avante, o Festival Emergente, no Capitólio, um concerto nas Punch Sessions, no Titanic Sur Mer e um concerto em nome próprio na Cine-Incrível Almadense. Para tal, apresentaram um conjunto de canções nas quais se basearam, a nível lírico, em poemas de grandes poetas e poetisas como Florbela Espanca, António Botto, Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa, musicando-os através das suas influências com uma personalidade muito própria. Neste momento, acabam de lançar o seu primeiro single – Achado (2022) –, produzido por João Maria Gorjão, que assenta no poema “Os Colombos”, de Fernando Pessoa, e marca o primeiro passo do trabalho que se irá seguir. Spotify: https://open.spotify.com/artist/6mHDq5e8OtDyLTOmF3YbID?si=AMcxQyELTaqmh_SFc5mKjQ Bandcamp: conjuntojulio.bandcamp.com Instagram: @conjuntojulio Facebook: @conjuntojulio
CONTACTOS Francisco Sanona // +351 910 382 663 // conjuntojulio@gmail.com
NOVA EM FOLHA
ira & João M Pere a r tin nia s Tâ
P 37 | CULTURA
Playlist de Abril
) a ti e ri d a a r a p a d r e u q e a d , o xi a b a r a p a mi c e d : a d a d n e m o c e r m e d r o (
TOURADA
PEDRA FILOSOFAL
LIBERDADE
ABANDONO
TROVA DO VENTO QUE PASSA
GRÂNDOLA, VILA MORENA
QUAL É A TUA, Ó MEU
CANÇÃO DE EMBALAR
EU VIM DE LONGE, EU VOU PRA LONGE
A CANTIGA É UMA ARMA
TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM
LEMBRA-ME UM SONHO LINDO
QUE FORÇA É ESSA
VEJAM BEM
TERRA DOS SONHOS
E DEPOIS DO ADEUS
FERNANDO TORDO
ADRIANO C. DE OLIVEIRA
JOSÉ MÁRIO BRANCO
SÉRGIO GODINHO
MANUEL FREIRE
ZECA AFONSO
GAC-VOZES NA LUTA
ZECA AFONSO
SÉRGIO GODINHO
JOSÉ MÁRIO BRANCO
ZECA AFONSO
JORGE PALMA
AMÁLIA RODRIGUES
ZECA AFONSO
FAUSTO
PAULO DE CARVALHO
NOVA EM FOLHA
AGENDA CULTURAL: ABRIL Ana Catarina Tiago
Francisco Mendes Barata
O AMOR É UM SOM Teatro São Luiz encenação/adaptação: Joaquim Horta 23 a 30 abril Segunda a Sábado às 19h30 Domingo às 16h00
P 38 | CULTURA
Mafalda Carvalhal
Teatro
No ano passado, o livro homónimo de Margarida Tengarrinha já tinha estado em cena no Museu do Aljube. Para quem ficou triste de não ter tido lugar, ou para quem não deu conta, o texto adaptado por Joaquim Horta está de volta, desta vez no São Luiz. Celebra-se a liberdade com um importante testemunho da vida de clandestinidade e resistência durante a ditadura salazarista. Citando a programação do Teatro, “Margarida Tengarrinha nasceu em Portimão em 1928 e estudou Belas Artes em Lisboa, onde conheceu aquele que haveria de ser o seu companheiro e pai das duas filhas, o pintor José Dias Coelho, membro destacado do Partido Comunista Português. Com ele, trocou uma vida confortável de filha da burguesia pela vida difícil da clandestinidade. A seguir ao 25 de Abril de 1974, foi deputada do PCP, eleita pelo Algarve”.
ORLANDO (de Virginia Woolf) Teatro Nacional D. Maria II texto: Cláudia Lucas Chéu encenação: Albano Jerónimo 31 março a 9 abril Terça a Sábado às 19h00 Domingo às 16h00 Orlando de Virginia Woolf chegou ao palco do Teatro Nacional Dona Maria II, com uma nova face. Segundo o ator e encenador, a peça é “fiel em praticamente 90%” à obra de Virginia Woolf. No entanto, as questões de género e de orientação sexual são também enquadradas no massacre LGBT ocorrido na cidade americana de Orlando em 2016, estabelecendo-se um ponto de convergência entre uma das grandes obras de Virginia e mais um dos inúmeros atos de ódio e agressão à comunidade LGBT que ficará vincado na história dos Estados Unidos.
QUADROS VIVOS DE CARAVAGGIO Igreja de São Roque encenação: Ricardo Barceló 31 março a 3 abril Quinta a Domingo às 21h30
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Cinema 3º CAPÍTULO DO CICLO «ÉRIC ROHMER OU O GÉNIO DO MODERNO CINEMA FRANCÊS» Cinema Nimas 31 março a 28 de abril Neste 3º Capítulo, passarão no grande ecrã os quatro filmes que compõem os belíssimos e já clássicos Contos das Quatro Estações do realizador francês Éric Rohmer, onde regressamos às histórias de amor, ao guarda-roupa colorido, às relações e aos diálogos peculiares a que Rohmer nos habituou. Os filmes - Conto de Primavera, Conto de Inverno, Conto de Verão e Conto de Outono - serão projetados repetidamente ao longo do mês, pelo que se aconelha a consulta dos horários disponíveis no site da Medeia Filmes (medeiafilmes.com). Imperdível, este fecho de ciclo, iniciado já no ano passado!
Exposições BORDALO EM TRÂNSITO Museu Bordalo Pinheiro até 30 novembro Terça a Domingo das 10h00 às 18h00 Esta exposição de longa duração visa revisitar Bordalo no seu tema de eleição e apresenta-se como uma proposta de releitura sob a perspetiva presente.
IMAGEM EM FUGA Atelier-Museu Júlio Pomar até 10 abril Terça a Domingo das 10h00 às 18h00 Nesta mostra de Júlio Pomar, Menez e Sónia Almeida pretende-se pensar a forma como a obra dos três artistas se intercruza.
Música LUÍSA SOBRAL - FESTIVAL LIVE IN A BOX Teatro São Luiz 14 abril às 22h00 Às 22h do dia 14 de abril sobe ao palco do São Luiz Luísa Sobral, que se apresenta em quarteto para celebrar os 10 anos de carreira. O Festival Live In A Box nasceu em pleno confinamento para trazer para os ecrãs dos telemóveis o aconchego da música lusófona; agora, em 2022, é transportado para o palco, como devem ser todos os concertos.
CLÃ - 30 ANOS DE CARREIRA Musicbox 26 de abril às 22h00
INQUIETA ANSIEDADE Museu Bordalo Pinheiro até 8 maio Quarta a Domingo das 10h00 às 18h00 A exposição junta Amadeo de Souza Cardoso, Almada Negreiros, Paula Rego, Júlio Pomar, entre muitos outros artistas de renome nacional e internacional, visando apresentar ao público as suas obras de arte moderna e contemporânea. NOVA EM FOLHA
OS MODOS DOS MUNDOS Crystal Pite, Teatro Praga, Marlene Monteiro Freitas, Miguel Loureiro, Hermeto Pascoal, Virgínia Rodrigues entre muitos outros
Os próximos meses no CCB marcam a plenitude da retoma da atividade cultural, agora que a pandemia parece ter, finalmente, dado tréguas. A programação continua seguir o mote Mundos, criado para a temporada 2021/2022, aberta às diferentes formas de entender o mundo. A programação de abril a junho é marcada por uma continuada aposta na dança e na apresentação de obras de grandes coreógrafos contemporâneos no Grande Auditório. É o caso de Revisor (29 e 30 abril), criação da canadiana Crystal Pite com o dramaturgo Jonathon Young e a companhia Kidd Pivot, um híbrido de dança e teatro que foi descrito pelo jornal The Guardian como «fascinante, tanto pela articulação inventiva dos corpos individuais quanto pela dinâmica afinada do elenco». O alemão Moritz Ostruschnjak regressa ao CCB com YESTER:NOW (8 e 9 abril), que aborda temáticas como a propaganda e a violência a partir da ubiquidade da cultura pop. Já a grega Kat Válastur apresenta Eye, Lash! (20 e 21 maio), no qual a coreógrafa e performer irá encarnar vários arquétipos e personas femininas.
Neste trimestre, retomamos ainda o ciclo HOTSPOT: Solos Internacionais de Dança com espetáculos de dois ícones da dança contemporânea atual que têm influenciado de uma forma marcante a paisagem da dança internacional na última década – Jefta van Dinther com On Earth I’m Done: Mountains (24 e 25 junho) e Marlene Monteiro Freitas com Guintche (25 e 26 de junho). No teatro, há uma nova criação de Miguel Loureiro – BOOM! (8, 9 e 10 abril) – versão integral da peça The Milk Train Doesn’t Stop Here Anymore, de Tennessee Williams. Um espetáculo sobre a redenção, o erotismo, o misticismo, a doença e o fim dos caminhos. Há ainda uma grande aposta na nova obra do Teatro Praga, em parceria com a Orquestra Sinfónica Metropolitana – A Sagração da Primavera (17 e 18 de junho). Entendendo-se esta obra como um marco na história das artes performativas, e tendo em conta o seu peso simbólico, A Sagração da Primavera do Teatro Praga segue a vontade de trazer história para o palco e entender como ela reverbera na contemporaneidade. Na música erudita, mantêm-se as parcerias com a Metropolitana e o Teatro Nacional de São Carlos, que trazem diferentes mundos culturais para o palco do CCB. Na Páscoa, a Orquestra Metropolitana de Lisboa apresenta o Concerto da Paixão (14 abril). A representação do sofrimento de Cristo na Cruz é assumida neste concerto por três compositores temporalmente distantes entre si: Joseph Haydn (1732-1809), Johannes Brahms (1833-1897) e Frank Martin (1890-1974). Iremos ainda ouvir uma das mais amadas obras de Brahms – Um Requiem Alemão (24 abril) – pelo Coro do Teatro Nacional de São Carlos e pela Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP). A OSP irá ainda dedicar todo um concerto à obra de Luís de Freitas Branco (8 maio). A música de câmara terá um especial destaque com recitais de Raquel Cravino e Cristiano Holtz (1 abril); Ensemble Pulcinella (3 abril); Folefest Ensemble (22 abril); Ophélie Gaillard e o Quarteto Tejo (29 abril); Jill Lawson (6 maio); Marta Menezes (13 maio); Tatiana Samouil e Frank Braley (15 maio). Mantemos a parceria com o Museu do Fado, através do ciclo Há Fado no Cais, com concertos dos fadistas Jonas (22 abril), Gisela João (13 maio) e Vânia Duarte (9 junho). Todos estes concertos realizam-se não só presencialmente como serão transmitidos na plataforma da BOL, numa continuada aposta no mundo digital. Continuamos com o ciclo de conferências Políticas da Estética: O Futuro do Sensível, que traz ao CCB alguns dos mais marcantes pensadores contemporâneos, conectando a estética, a política e a reflexão ecológica, neste trimestre com palestras de Sandra Laugier (21 abril), Catherine Larrère (12 maio), Alain Caillé (26 maio) e Jean-Marie Schaeffer (23 junho). Entre abril e maio propomos ainda o ciclo de conferências Visualidades Negras, durante o qual se irá pensar sobre as questões de representação numa ótica de descolonização. Com a participação da antropóloga brasileira Heloisa Pires Lima (6 abril), do cineasta norte-americano Billy Woodberry (13 abril), da professora norte-americana Deborah Willis (27 abril), do curador canadiano Kenneth Montague (4 maio) e da professora norte-americana Ruth Wilson Gilmore (18 maio). A Garagem Sul vai manter um programa de exposições intenso. Sound it. Rádio Antecâmara, com curadoria de Alessia Allegri e Pedro Campos Costa e instalação sonora de João Galante, abre novas perspetivas sobre o ambiente construído, questionando e expandindo o seu sentido. É por meio de diálogos entre arquitetos, artistas, designers, e nas conversas com poetas ou paisagistas, entre os interlúdios feitos de sons e de música, que a Rádio Antecâmara observa mais de perto a nossa contemporaneidade. Já a exposição Os Novos Novos, com curadoria de André Tavares, destaca o trabalho de cinco ateliers de arquitetos portugueses — rar.studio, fala, Diogo Aguiar Studio, Ponto Atelier, Barão-Hutter — que constroem um retrato das preocupações, objetivos e processos de trabalho de hoje, naturalmente diferentes de outros arquitetos e arquiteturas que precederam o nosso tempo.
A atenção à infância na Fábrica das Artes será uma constante, com a apresentação de espetáculos internacionais – Loo (28, 29 e 30 abril) da companhia catalã Ponten Pie e 9 (3, 4 e 5 junho) da companhia canadiana Cas Public e do teatro belga Kopergietery –, mas também com o encerramento do ciclo Sete / Novos Criadores das Infâncias e ainda a estreia de um novo espetáculo de Margarida Mestre e Rui Ferreira, Balada das vinte meninas friorentas, que parte de um poema com o mesmo nome de Matilde Rosa Araújo. E, cereja no topo do bolo, destaque para a presença da música brasileira com o extraordinário Hermeto Pascoal e o seu Grupo (3 junho) e a figura singular que é Virgínia Rodrigues (14 maio), esta última integrada na continuação da Carta Branca a Jonathan Uliel Saldanha. Portanto, presenças muito fortes nas áreas da música, do teatro, da dança, do pensamento e da reflexão, da arquitetura e da bolsa criativa para a infância.
P 43 | LAZER
Receita
CARIL THAI DE TOFU F r a n c i s c o
M e n d e s
B a r a t a
INGREDIENTES 200 g de tofu 175 ml de leite de coco 1 pimento-vermelho 1 ramo de coentros 1 tomate 1 cebola 3 dentes de alho 1 colher de chá de açafrão-da-índia 1 colher de sopa de caril sal q.b. (é aconselhado servir com arroz branco)
PREPARAÇÃO 1 - Picar o alho, a cebola, o tomate e os coentros. 2 - Cortar o pimento e o tofu em cubos de, mais ou menos, 2 cm. 3 - Verter um fio de azeite na frigideira e refogar a cebola e o alho. 4 - Adicionar o caril e o açafrão e deixar tudo aloirar. 5 - Adicionar o tomate e o pimentovermelho e envolver os ingredientes. 6 - Adicionar o tofu e o leite de coco. 7 - Deixar cozinhar o tempo necessário para cozer os legumes. 8 - Retirar a frigideira do lume e salpicar com coentros. NOVA EM FOLHA
Para passares o tempo...
Vertical
): a i g o l o i c o S e d a d i r a g r a M a d s a t s o p o r p s a n o d a e s a b (
1. O que se obtém ao juntar Scary, Sporty, Baby, Ginger e Posh? 2. Estes primatas estão bem longe dos trópicos. 4. Só há uma direção rumo aos guilty pleasures! 6. A banda favorita do Buda. 7. É uma da manhã! Não, são duas da manhã!
Horizontal
3. Italianos com assinatura dinamarquesa. 5. Lá vão as pedras, rebolando pela encosta. 8. Que são esses? 9. Caramba, fui mandado parar pelos senhores agentes da …
Consegues adivinhar que bandas se escondem por detrás destas descrições?