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NOVA em Folha l Abril 2021

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NOVA em Folha o jornal da aefcsh. abril de 2021

Capa ABRIL A DESPONTAR ENTREVISTA À BANDA DREAM PEOPLE RECOMENDAÇÕES CULTURAIS E ainda crónicas, notícias, sugestões, poemas, artigos e receitas! Um jornal d@s estudantes para @s estudantes!


FOTO DE CAPA

Autoria de Inês de Jesus

NOTAS A ado(p)ção do acordo ortográfico em vigor é uma decisão individual dos membros da equipa, reda(c)ção e colaborador@s . Após a revisão completa do material pela equipa editorial, o conteúdo e a versão final dos conteúdos são da responsabilidade e exprimem somente o ponto de vista d@s respectiv@s autor@s.

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nova em folha abril 2021

Direção

Redação & Revisão

Colaboradores

Inês Pinheiro João Martins Rita Serpa Ana Carolina Ferreira Ana Catarina Tiago Beatriz Cabanilhas Beatriz Mateus Bruna Ferreira Diana Neves Francisca Dias

Francisco Nunes Guilherme Machado Inês Pinheiro João Martins Liliana Marques Madalena Carvalho

Bernardo Raposo Catarina Mota Catarina Santos Daniel Moura Diogo Reis Pereira Guilherme Lidon Guerra Inês de Jesus

Jéni Barreto Liza Basysta Mariana Sequeira NALLT Nuno Matela Paulo Gomes Tomás Girão

Edição Gráfica

Ana Carolina Ferreira Beatriz Cabanilhas Francisca Dias Rita Serpa

Redes Sociais

Bruna Ferreira Liliana Marques Madalena Carvalho

Mafalda Carvalhal Manuel Pinto Maria Gonçalves Pedro Fernandes Rita Serpa

Maria Gonçalves Rita Serpa

NOTA Gostas de escrever? Queres ver as tuas reviews, receitas, bitaites, histórias, crónicas, etc.. num jornal d@s estudantes para @s estudantes? Envia-nos as tuas propostas até ao dia 20 de cada mês e participa nas nossas edições mensais! Ficamos à tua espera!

Jornal NOVA em Folha | Edição de abril 2021 Impressão: 20 cópias | Distribuição mensal e gratuita novaemfolha.ae@fcsh.unl.pt

FICHA TÉCNICA

@novaemfolha.ae

@novaemfolha.aefcsh

Já se gues NOV o A em F o no In lha stag ram?


Índice abril 2021

pág. 1 3 6 8

Notícias AE em folha - Mariana Sequeira Novidades FCSH - João Martins 60 Taças para a NOVA: Check! - Daniel Moura Março em Resumo - Equipa de Notícias

Liberdade 11

16 19 21 23 25

Um "Mundo Melhor" - João Martins Uma Pequena Grande História do Movimento Democrático de Mulheres - Catarina Santos Demolir Ilusões: O Património e o Pensamento Guilherme Machado Para a teorização das Artes Marciais Chinesas (AMC) - Diogo Reis Pereira Greenwashing: uma perversão “marketinguiana” da Ecologia - Catarina Mota Desabafos de um estudante - Paulo Gomes O Nosso “Palácio da Ventura” - Liza Basysta

Cultura na FCSH Entrevista à banda Dream People - Guilherme Machado

37 38 41

Literatura Biblioteca de abril - Equipa do NOVA em Folha Os livros de Março em Review - NALLT Um Hino à Liberdade Sexual e Estética e um Apelo ao Respeito - Diana Neves

46 48 52 54

Dilema do Tempo - Diana Neves O Cortiço - Inês Pinheiro

Teatro O Teatro está à espreita em abril - Mafalda Carvalhal

58

Música Lista de reprodução de abril - Equipa do NOVA em Folha

Poesia 59 60 61

Fotografia 30

Fotografias de Bernardo Raposo, de Inês de Jesus e de Maria Gonçalves

Cinema e Televisão Cinemateca de abril - Equipa do NOVA em Folha Raridades do Cinema - Ana Catarina Tiago e Inês Pinheiro Crítica ao filme Rocketman (2019) - Ana Catarina Tiago Crítica à minissérie Unbelievable (2019) - Jéni Barreto

56

Crónicas 26 29

Cultura

33

Abril a despontar - Nuno Matela

Opinião 12 15

pág.

Sossego - Tomás Girão Eletrões de Sangue - Guilherme Lidon Guerra Vai à janela respirar… - João Martins

Lazer 63 64

Culinária - Diana Neves Sudoku e Cruzadex - João Martins


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NOVA EM FOLHA

NOTÍCIAS | AEFCSH

AE em folha MARIANA SEQUEIRA

Março é para a AEFCSH um dos meses mais importantes do ano, pois é dedicado à celebração do Dia Internacional da Mulher e do Dia Nacional do Estudante. Logo nos primeiros dias do mês foi realizada a quarta sessão dos Workshops de Ferramentas Académicas, com a estudante Raquel Novais, dedicada à formação para construção de um CV que vá de encontro às necessidades e à formação nas Ciências Sociais. Na sequência do lançamento do inquérito “Impacto do confinamento na comunidade estudantil da NOVA FCSH”, divulgámos os resultados do mesmo, exigindo respostas à situação da comunidade estudantil, agravada, em grande medida, pela pandemia. Concluímos que o abandono escolar, já antes existente, tornouse uma questão mais expressiva, num quadro socioeconómico de grande fragilidade, sendo a incapacidade de suportar o custo das propinas, taxas e emolumentos, uma das principais dificuldades apontadas pelos estudantes. A questão do alojamento também foi levantada, uma vez que as residências não servem toda a comunidade estudantil, empurrando os estudantes para o mercado imobiliário extremamente inflaccionado. No quadro da saúde mental, 90% dos estudantes afirmam ter sido prejudicados pelo confinamento, algo que remete para a insuficiência dos recursos humanos, nomeadamente psicólogos e outros profissionais clínicos, actualmente disponibilizados pela faculdade e pela universidade. Celebrámos o Dia Internacional da Mulher, com a realização da quarta edição da Semana Feminista, de 8 a 13 de março, cientes da importância de assinalar esta data histórica, promovendo a memória das lutas e direitos conquistados, e daqueles ainda por conquistar. A Semana Feminista, em formato completamente online, contou com as conversas “Impacto da pandemia na investigação e produção académica das mulheres”, com a presença de várias investigadoras, e do debate “Mulheres e Direitos: Pandemia, precariedade, violência e desigualdade”, com a presença da CGTP-IN, do MDM, e da Associação “O Ninho”. Exibimos também o documentário “Free Angela and All Political Prisioners”, dedicado à vida da activista norte-americana, Angela Davis. Esta semana especial contou ainda com actividades dos núcleos da AEFCSH, que sinalizaram um dia tão importante no passado, presente e futuro. Por fim, de modo a encerrar a Semana Feminista, a AEFCSH fez-se representar na iniciativa do Movimento Democrático de Mulheres, nos Restauradores, a 13 de Março.


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NOVA EM FOLHA

NOTÍCIAS | AEFCSH

Conscientes da situação, relativa à saúde mental, atravessada pela comunidade, transmitimos no Facebook a 12º sessão das Jornadas de Saúde Mental, abordando o tema “Como posso ajudar alguém durante uma crise emocional?” Realizou-se a 17 de Março uma reunião Zoom aberta sob o mote “Ouvir os Estudantes!”, no sentido de discutir os problemas do Ensino Universitário agravados pela pandemia, desde a avaliação e as aulas, passando pela saúde e pelos custos financeiros. A AEFCSH juntou-se à iniciativa da Associação de Estudantes da Escola Superior de Artes e Design, à semelhança de outras seis AEs, para uma tomada de posição conjunta em relação aos custos de frequência no Ensino Superior, traduzidos em propinas, taxas e emolumentos, que os estudantes sentem cada vez mais dificuldade em custear. Exigimos em uníssono, com estas Associações, o reforço do financiamento do Ensino Superior, o fim da propina, e também a eliminação do regime de prescrição. O combate ao abandono escolar e ao desinvestimento no Ensino Superior são, na nossa perspectiva, as lutas prioritárias para o movimento associativo. A Semana do Estudante teve lugar entre os dia 22 e 26 de Março, envolvendo a celebração do Dia Nacional do Estudante, a 24 de Março. Foi realizada uma Mesa Redonda de ex-dirigentes associativos, com o mote “FCSH: Retrospectiva sobre uma faculdade que luta”, além da realização de uma mostra fotográfica sobre o passado da luta e movimento estudantis. Ao longo da semana foram realizados quizzes sobre a luta estudantil e a origem do 24 de Março. Nessa data, realizamos uma ação simbólica no campus da FCSH, sob o mote “Está na hora de avançar, a propina tem de acabar”, anunciando ainda o dia de luta nacional do Ensino Superior no próximo 28 de Abril. Por fim, no final do mês de Março, foi promovido um torneio de League of Legends, transmitido online, que onde saíram vencedores os “Uno Dos Thresh”. Em Abril, vamos celebrar a liberdade e a democracia, e o Nova em Folha será distribuído com uma oferta especial. Fiquem atentos às novidades!

fica atent@ às redes sociais da ae para não perderes nenhum evento! @aefcsh.unl

@aefcsh.nova


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NOTÍCIAS

novidades fcsh Histórias da Revolução

15 de abril

Quase cinco décadas após o 25 de Abril de 1974, é hoje mais clara a teia de relações globais em que se inseriu. Das descolonizações africanas à radicalização social e política dos longos anos 60, passando pelo esgotamento do ciclo de crescimento económico do pós-guerra, a Revolução dos Cravos foi definida e ajudou a definir um conjunto de processos históricos que transcendem os seus limites geográficos. Com periodicidade mensal e duração indefinida, o seminário Histórias Globais da Revolução de 1974-1975 incluirá apresentações de investigações em curso, discussão de textos, projecção de materiais audiovisuais, mesas-redondas, etc.. As sessões poderão decorrer simultaneamente em qualquer uma das três instituições envolvidas na organização (IHC — NOVA FCSH, CEIS20 — Universidade de Coimbra e University of Cambridge), combinando formatos presenciais e à distância, de forma a permitir uma participação tão ampla quanto possível de académic@s, artistas e outr@s que aqui queiram apresentar o seu trabalho, bem como do público em geral. Mais informação em: https://www.fcsh.unl.pt/eventos/historias-globais-da-revolucao-de-1974-1975/. Cultura Digital

22 a 23 de abril

Em colaboração com o Instituto de História da Arte da NOVA FCSH através do cluster Arte, Museus e Culturas Digitais, o MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia apresenta a Conferência Internacional “Arte, Museus e Culturas Digitais”. O evento abre a debate o modo como as tecnologias digitais têm contribuído para a criação de novos territórios e motivado diferentes inovações na produção artística, nas práticas curatoriais e nos espaços museológicos. Considerando que os sistemas tecnológicos são também uma construção social e cultural, procura-se igualmente investigar em que circunstâncias a arte contemporânea e os museus têm formulado novos desafios e aberto caminho para desenvolvimentos na ciência. Neste sentido, reunir-se-ão várias perspetivas científicas diversificadas, dando visibilidade a trabalhos de investigação recentes ou em curso, em vários países e contextos. Para saberes mais, acede a: https://www.fcsh.unl.pt/eventos/arte-museus-e-culturas-digitais/.


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NOVA EM FOLHA

NOTÍCIAS

novidades fcsh Candidaturas 2021/2022

Na NOVA FCSH, há duas fases de candidaturas a mestrados, pósgraduações e doutoramentos, com um número específico de vagas para cada uma. Existirá uma terceira fase apenas para os cursos com vagas sobrantes. Atualmente, a 2ª fase de candidaturas encontra-se aberta, com as seguintes datas-limite: Mestrados e doutoramentos - 2 de março a 14 de junho; Pós-Graduações - 31 de maio a 30 de junho. Consulta toda a informação no site da faculdade: https://www.fcsh.unl.pt/cursos/. Pós-graduação em Cidadania Digital

Em 2021/22, a NOVA FCSH estreia a Pós-Graduação em Cidadania Digital, dedicada a explorar a importância crescente das ferramentas digitais para o envolvimento cívico, a comunicação política e a relação entre cidadãos e instituições. Mais detalhes neste link: https://www.fcsh.unl.pt/cursos/pos_graduacao_em_cidadania_digital/. Pós-graduação em Arquivística Histórica

A NOVA FCSH tem um novo curso de Pós-Graduação em Arquivística Histórica, que promove uma abordagem interdisciplinar entre a História, a Ciência da Informação e a Ciência Arquivística. Mais detalhes neste link: https://www.fcsh.unl.pt/cursos/pos_graduacao_em_arquivistica_historica/.


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NOTÍCIAS

novidades fcsh A Relembrar: “NOVA” Sinalética

Regressando, eventualmente, às aulas presenciais no dia 19 de Abril, vimos relembrar a nova sinalética na FCSH.

A NOVA FCSH procedeu à renomeação dos espaços e à instalação de um novo sistema de sinalização no campus da Avenida de Berna, respondendo às dificuldades e recomendações apontadas pela comunidade e serviços. Tanto no exterior como no interior dos edifícios, as estruturas informativas (mapas) e os painéis designativos das salas e gabinetes estão a ser substituídos, e passarão a combinar o portugês e o inglês. Às torres A e B juntam-se os edifícios C (ex-bloco B1) e D (ex-bloco B2). A designação de cada espaço tornar-seá uniforme e mais simples, eliminando-se a nomenclatura heterogénea (exs.: T6; 0.05; 103) e instituindo-se a mesma lógica geral: a letra indica o edifício, o primeiro número refere-se ao piso e os últimos dois números são a posição da sala nesse piso (da esquerda para a direita). Por exemplo, a sala B201a fica na Torre B, 2.º piso (o “a” minúsculo é utilizada para os casos em que há salas internas – como na Biblioteca ou na Divisão Académica). Dada a habituação ao sistema anterior, até ao final do ano letivo os horários listarão lado a lado a antiga e a nova designação. O novo mapa completo fica também disponível online (podes fazer o download no site da faculdade). Em detalhe, a localização dos serviços no piso 0 da Torre B, legendados com ícones.

Esta estrutura, localizada junto à entrada principal, apresenta o mapa geral da NOVA FCSH.

Painel na entrada do Edifício D, antigo Bloco 2 (B2).

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Envia as tuas propostas informativas para a próxima edição!

novaemfolha.ae@fcsh.unl.pt


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NOTÍCIAS | DESPORTO

60 TAÇAS PARA A NOVA: CHECK! DANIEL MOURA GABINETE DE DESPORTO DOS SASNOVA

De volta à pista, a NOVA apresentou-se nos dias 6 e 7 de Março em Pombal para participar no Campeonato Nacional Universitário de Atletismo. Com uma fantástica equipa composta por 11 atletas, é de ressalvar o seu sacrifício para marcar presença durante o actual período e assim representar e honrar o nome da Universidade Nova de Lisboa da melhor forma possível, com alguns dos atletas a inscreverem-se em mais do que uma prova em nome da classificação colectiva entre todas as Universidades. Apesar de uma equipa mais curta que o habitual, a dedicação destes alunos teve a sua maior recompensa bem no final da competição, após uma recontagem de todos os pontos, com a chamada da nossa comitiva ao pódio, através da conquista de um surpreendente 2⁰ lugar por equipas! Com este troféu, o novo espaço da NOVA Desporto fica ainda mais composto atingindo as 60 taças, que podem ser visitadas a qualquer momento através de uma visita panorâmica em volta de todo o gabinete!

Raquel Lourenço nos 60 metros barreiras

60º troféu da NOVA: 2º lugar, por equipas, no Campeonato Nacional Universitário de Atletismo de Pista Coberta, de 2021

Para a história, realce para a medalha de ouro e a grande prestação de Catarina Lourenço nos 60 metros planos; para a medalha de prata de Nuno Cidade do Carmo, nos 5000 metros marcha e para a sua medalha de bronze no salto com vara; bem como para as duas medalhas de prata e de bronze de Raquel Lourenço no salto em comprimento e nos 60 metros barreiras, respectivamente; e finalmente, a suada mas saborosa medalha de bronze conquistada pela Margarida Silva nos 800 metros.


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NOVA EM FOLHA

NOTÍCIAS | DESPORTO

O fim de semana não terminaria sem a competição masculina do salto em altura, em que a NOVA participou uma vez mais com o actual recordista nacional absoluto e universitário Paulo Conceição, após uma longa paragem de cerca de 9 meses devido a uma lesão no tendão de Aquiles, sacrificando-se também ele pela nossa equipa, apesar de se encontrar ainda na fase final da sua recuperação total. Paulo Conceição não ultrapassou a fasquia aos 1,95m, mas fica a certeza de que a recuperação segue no bom caminho e de que muito em breve teremos novamente o recordista nacional e aluno da FCT na máxima força para lutar por novas e ainda maiores conquistas. Ao Paulo Conceição, à restante equipa e ao Professor Paulo Barrigana pela dedicação que sempre demonstra no acompanhamento dos nossos atletas, o nosso muito obrigado esperamos ver todos novamente em ação para o Campeonato Nacional Universitário de Atletismo, na pista ao ar livre. Parabéns a todos, #somosnova2021

Os alunos medalhados, no Campeonato Nacional Universitário de Atletismo de Pista Coberta, de 2021


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NOVA EM FOLHA

março em resumo Conflito interno no Myanmar

Desde que, a 1 de fevereiro, as forças armadas tomaram o poder e prenderam Aung San Suu Kyi, os protestos no Myanmar têm sido ininterruptos. Apesar de o governo militar de Min Aung Hlaing ter declarado que o país estará em estado de emergência o ano inteiro, ocorrem diariamente manifestações pacíficas por todo o país. A violenta resposta das forças de segurança já causou mais de 260 mortes civis e milhares de feridos, mas os manifestantes continuam a sair à rua. Face ao agravar dos acontecimentos e à contestação internacional, os EUA e a União Europeia impuseram sanções sobre os principais líderes do golpe militar. A 25 de março, o regime libertou mais de 600 civis dos cerca de 2000 encarcerados durante os protestos. 3 mar. Sarah Everard assassinada por agente de polícia

No dia 3 de Março, a britânica Sarah Everard, de 33 anos, desapareceu quando caminhava para casa pelas 21 horas em Clapham, Londres. Uma semana mais tarde, o corpo da mesma foi descoberto numa floresta a 90 quilómetros de distância. As autoridades já identificaram o principal suspeito - Wayne Couzens -, um agente da polícia, que apareceu nas filmagens de câmeras de segurança do local onde Sarah foi vista pela última vez. Foi acusado de rapto e homicídio, depois de se descobrirem ligações aos restos mortais encontrados. O caso de Sarah Everard motivou ainda uma vigília em honra da vítima, em Clapham Common, que juntou milhares de pessoas, especialmente mulheres revoltadas com a ainda reduzida proteção feminina contra ataques do género. O ajuntamento terminou, porém, em confrontos com as autoridades e pelo menos quatro pessoas foram detidas por não cumprirem as normas de confinamento impostas pelo Governo britânico. 8 mar. Lula ilibado

Após uma estadia de 580 dias numa prisão em Curitiba e uma ausência na disputa eleitoral em 2018, Luiz Inácio Lula da Silva teve o seu caso anulado pelo juiz Edson Fachin do Supremo Tribunal Federal no dia 8 de março - alegando que o Tribunal Regional Federal da 4ª Região havia julgado o caso de Lula fora da sua jurisdição. Todos os processos judiciais contra o ex-presidente foram transferidos para a Secção Judiciária do Distrito Federal (Brasília). A ilibação do ex-presidente tem um significado importante para a esquerda brasileira nas eleições de 2022: a anulação do processo que o condenou à prisão em 2018 garante novamente os seus direitos políticos.

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março em resumo 9 mar. Marcelo toma posse

Após a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa nas eleições presidenciais de 24 de janeiro deste ano, teve lugar, no passado dia 9 de Março, a sua tomada de posse enquanto Presidente da República. Perante a Assembleia da República e apenas algumas altas figuras do protocolo de estado, o Presidente assumiu o seu segundo mandato, tendo a cerimónia incluído ainda a habitual salva no Tejo e a visita ao Mosteiro dos Jerónimos. Um ponto de destaque foi a visita ao Porto no próprio dia, algo até agora inédito nos dias de inauguração. 15 a 22 mar. Suspensão e retoma da vacina da AstraZeneca

Diversos países europeus, entre eles Portugal, suspenderam durante uma semana a administração da vacina da AstraZeneca contra a COVID-19, depois de serem identificados alguns casos de reações adversas graves, mais especificamente o aparecimento de cóagulos sanguíneos em adultos que receberam o fármaco. Segundo a Agência Europeia do Medicamento, apenas se registaram 30 casos de episódios de tromboembolismos em cinco milhões de pessoas vacinadas. Esta pausa implicou adiar a vacinação de professores do pré-escolar e do primeiro ciclo, bem como dos utentes com mais de 50 anos com problemas de saúde e outros até aos 80 anos. Entretanto, a vacina AstraZeneca já voltou ao mercado, depois dos ensaios clínicos de fase 3 terem confirmado que não há associação aos casos de trombose. 17 mar. Biden chama "assassino" a Putin

Numa entrevista conduzida pela ABC News, Joe Biden, o recém-eleito presidente norte-americano, abordou várias questões referentes às relações entre EUA e Rússia. O momento mais repercutido da entrevista surgiu quando o jornalista questionou o presidente sobre se este considerava que Putin era um assassino, ao que Biden anuiu “I do”. A pergunta teve por base a série de tentativas de homicídio praticadas contra políticos que se opõem à governação do atual líder russo, sendo o caso mais recente o de Alexei Navalny. O executivo russo tem negado todas as acusações.

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NOTÍCIAS

março em resumo 18 mar. Cimeira do Alaska

A cimeira entre os principais líderes da diplomacia americana e chinesa no Alasca culminou em confrontações tensas por parte das duas grandes potências. Já se esperava que o encontro fosse marcado por alguma animosidade, dadas as sanções recentemente impostas por Washington com base na perda de liberdades políticas em Hong Kong. O Secretário de Estado americano acusou a China de infringir normas internacionais por via da repressão da minoria Uyghur e de ciber-ataques lançados contra os EUA. A resposta chinesa veio na voz de Yang Jiechi, líder do departamento de negócios estrangeiros do Partido Comunista Chinês, o qual defendeu o modelo de democracia chinês e se opôs firmemente a qualquer tentativa de interferência americana, negando acima de tudo que a China possa ter incorrido em violações de direitos humanos. A cimeira acabou sem uma declaração conjunta de ambas as partes, prática costumeira neste tipo de conversações. 22 mar. Justiça para George Floyd

Ao longo de duas semanas, dezenas de candidatos foram entrevistados para integrar o júri que avaliará em tribunal a atuação de um dos polícias (Derek Chauvin, acusado de vários graus de homicídio) sob cuja custódia morreu George Floyd. Os magistrados encarregues de encaminhar os procedimentos judiciais procuraram pessoas o mais imparciais e descomprometidas possível, tarefa dificultada pelo mediatismo e pressão social que rodeiam o caso. Por fim, atingiu-se um júri composto por nove mulheres e cinco homens, dos ~20 anos aos ~60, dos quais oito são brancos, quatro negros e dois se identificam como multi-raciais. O julgamento também já tem data de início marcada: 29 de março.

Fontes:

BBC ABCNews VoA News CNN CBSNews

The Guardian Jornal de Notícias Público Deutsche Welle Observador Euractiv France24 NBC News RTP

Autores:

Bruna Ferreira Guilherme Machado Francisco Nunes João Martins Manuel Pinto


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LIBERDADE

ABRIL A DESPONTAR Reflexão efetuada no âmbito da comemoração do 47º Aniversário da Revolução de 25 de Abril de 1974 NUNO MATELA

A terra estava seca. Seca. Pedia água e não lha deitaram. Nela, nada crescia. Nela, nada se dava. A custo, a terra sequiosa definhava. Tanto tempo que assim esteve. Estava a morrer. Os sinais vitais eram escassos e muito subtis. Uma pulsação baixa deixava entrever o pior cenário. Um cenário desolador, de uma secura tão marcada que fazia chorar a 'menina dos olhos tristes' e a 'senhora de olhos cansados' que não viam chegar de além-mar o 'soldadinho', qual vítima imolada para expiação da secura que a terra enfrentava. Veio a primavera. Março chegou. Depois Abril. Caiu a chuva e a semente visitou a terra. 'A lua que é viajante' trazia boas novas. A semente morreu e uma folha verde - tão frágil que era, nascia. Rompia a terra com a sua frescura. Com a vitalidade de quem acabava de sair da escuridão. Viu a luz e saiu. Porventura, achou que já era a altura. Não queria ficar fechada a mais de quarenta chaves. Lentamente, ia irrompendo do solo árido e ávido de mais água, de mais cuidado. Ali estava ela, frágil, a crescer. Depois, veio maio e junho e julho e ela ali estava. Parecia até ligeiramente indiferente à passagem dos meses e à passagem dos anos.

A folha verde não era mais a pequena folha libertada do cativeiro das trevas. Mas, para a terra seca que a viu nascer, continuava a ser a sua pequena ponta de verdura. Na verdade, era mesmo sua. Era original. Era diferente. É de folha perene. Espera a terra. Se assim não fosse, teria de a ver passar novamente por todas as etapas - demoradas que são. Sim, parece perene. Folha bem fixa ao tronco. Não cai. Mas precisa de ser cuidada. Vamos regando, para não murchar.


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UM

“MUNDO

OPINIÃO

MELHOR”

JOÃO MARTINS

Existem vários problemas com a realidade internacional em que vivemos e a sua solução não pode passar apenas pela mudança “por dentro” – a iniciativa dos Estados e das Organizações Internacionais em que tomam assento nunca se orientará para uma reforma que lhes retire a capacidade de defender o seu interesse e lhe sobreponha “ideais” universais que não controlam. De facto, a superação do problema deve estar direcionada para a alteração da própria forma como a realidade se processa e isso só pode acontecer se se mobilizarem novas mentalidades. O Artigo 2º da Carta das Nações Unidas reitera: “1. The Organization is based on the principle of the sovereign equality of all its Members. (…) 7. Nothing contained in the present Charter shall authorize the United Nations to intervene in matters which are essentially within the domestic jurisdiction of any state or shall require the Members to submit such matters to settlement under the present Charter”. Eis a norma-raiz de todos os problemas: a igualdade soberana que acarreta a não intervenção nos chamados “assuntos internos” de cada entidade que possuir soberania. É o alicerce da ordem e do direito internacionais tal como têm sido concebidos há séculos? Sim. Vale, então, a pena questioná-la? Sim. De nada valeria pensar em melhorar o mundo se, olhando para os sistemas que perpetuam os seus defeitos e impossibilitam soluções eficazes ou mudanças permanentes, não se admitisse possibilidade de os desapossar e instaurar opções melhores. Seria pensar em melhorar coisas no mundo, não o mundo em si.

E é esse pensamento pouco ambicioso que perpetua situações de violação dos direitos humanos e liberdades fundamentais – é por achar que se pode ir de acordo em acordo, de miniconquista em mini-conquista, que se alcança muito pouco e se acaba sem forças e desiludido, vendo como o “mundo está igual ao que sempre foi”. O que se resolveu num lado não ficou resolvido noutro, ou ressurgiu onde era menos esperado. Ou descobriu-se, no fim, que estava bem longe de ser erradicado... Porque é, então, a soberania a fonte dos “males” do mundo? Porque o mundo entretanto evoluiu e os Estados soberanos decidiram apostar no multilateralismo, expondo o mundo aos seus evidentes benefícios. Criaram uma arma que tem a capacidade para (e necessariamente tem de) os aniquilar. É no internacionalismo e não na soberania que residem as soluções para um mundo melhor (e é muito triste, para quem pensa como eu, ver que a História, mais uma vez, parece insistir em não avançar nesse rumo). Não existe razão de ser para a igualdade soberana quando já tivemos mais do que provas suficientes de que não traz benefícios que justifiquem o risco de guerras, egoísmo, violações de direitos humanos, inação internacional, (podia continuar).


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Além do mais, urge findar a lógica de que “assuntos internos” são tudo aquilo que se passa dentro das fronteiras de um Estado, ou que este proclama que é. Não podem existir “assuntos internos” de direitos humanos num mundo em que são reconhecidos universalmente e é suposto defendê-los. Não podem existir “assuntos internos” de racismo, homofobia, xenofobia, limpeza étnica, perseguição política, intolerância religiosa, num mundo em que mil vozes mediáticas se insurgem diariamente contra estes problemas aparentemente crónicos. Não podem existir “assuntos internos” num mundo que tem tantos interesses internacionais, que diz que os quer salvaguardar e que celebra cada avanço rumo ao “mundo melhor” (mas é impotente para o tornar numa realidade efetiva e permanente). Tudo isto não pode existir senão num mundo que se assuma hipócrita e voluntariamente imperfeito, num mundo em que os valores que se proclamam universais são desprezados nos bastidores. É necessário clarificar como acabar com a soberania, agora que se justificou porquê. Atenção: acabar com a soberania não é acabar com os Estados – esses sim têm-se provado mais úteis que desagradáveis (na versão democrática!) e são uma exigência tecnológica da atualidade. Embora pareça impossível, é preciso ser um pouco mais utópico ainda para descrever como seria um mundo com Estados não-soberanos. O Estado é uma máquina burocrática que regula e administra as interações do indivíduo com a comunidade. Nada de mal vem ao mundo se continuar a fazê-lo (sob responsabilidade perante os seus cidadãos). Deixemos de fora a discussão de quão penetrativo ou flexível deve ser o Estado (isso deverá continuar a ser uma escolha interna resultante do diálogo democrático).

OPINIÃO

O que há a retirar aos Estados é o poder de sobreporem a sua soberania à prossecução dos objetivos que a comunidade internacional definir (e já definiu) como sendo do interesse da Humanidade como um todo, sem discriminações de qualquer tipo. Estes “assuntos internacionais” devem ser entregues a organizações globais de indivíduos (não Estados) escolhidos por indivíduos (não Estados). Seriam nacionais das mais diversas proveniências estatais, que carregariam consigo um compromisso pelo bem-estar de todo o seu semelhante. No fundo, criar um “Estado” internacional, golpe mortal para a soberania. É impossível? Muito provavelmente. Prefiro dizer que é muito improvável.


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Penso só haver um caminho pelo qual se poderia construir esse mundo, onde os “interesses humanos” substituiriam os “interesses soberanos” (que raramente coincidem com os da Humanidade, ou são por ela escolhidos): mudando e formando mentalidades. É espalhando a mensagem de que o mundo está repleto de cláusulas e reservas que impedem o seu melhoramento eficaz e geral; é explorando e divulgando esses impedimentos e a forma como são replicados. Se estou aqui a ter esta discussão é porque sou um estudante privilegiado num país democrático; muitos não a têm ainda, muitos mais nem a podem ter. É também lutando para que possam que o mundo avançará. Será possível mudar as mentalidades a uma escala que conduza a ações individuais com repercussões globais? Será possível fazer chegar ao poder essa vontade de, enfim, descartar os empecilhos de uma ordem arcaica e construir um “mundo melhor”? Será possível fazer crer que a soberania é algo negativo e que, mais importante ainda, há a hipótese de a superar?

OPINIÃO

Não. Sinceramente, não. Mas libertar este pensamento, esta vontade, abre caminho para uma reflexão sobre formas melhores e mais exequíveis de melhorar o mundo, muito provavelmente menos radicais. O importante não é perceber já como organizar um novo mundo (as propostas que enumerei são aliás bastante irrelevantes e nada, nada, definitivas). O importante é começar a pensar e a partilhar a ideia de que o mundo atual carrega sérias falhas. Ou seja, tudo o que aqui descrevi precisa de ser seriamente repensado e refinado. Talvez não seja irracional dizer que é impossível e nunca acontecerá. É utopia da mais pura, não o escondo. Porém, pessoalmente defendo que é pior não dizer as coisas que se acham impossíveis, nem que seja para lhes dar uma existência intelectual (que com infinita sorte pode ter algum futuro). Frente à insignificância a que está mais que certamente fadado o meu discurso, não me resta senão repetir, meio como consolo, meio como lamento: este é um mundo hipócrita e voluntariamente imperfeito. Será para sempre?…


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OPINIÃO

Uma pequena grande história do Movimento Democrático de Mulheres CATARINA SANTOS

O Movimento Democrático de Mulheres (MDM) é fundado em 1968 em Lisboa, por um grupo de mulheres resistentes antifascistas, dispostas a lutar pelos seus direitos e emancipação de forma organizada. Não se limitaram, no entanto, a lutar exclusivamente pela emancipação feminina: “eram um movimento onde existia muita acção reivindicativa numa luta de carácter geral”, como descreve Luísa Amorim, antiga dirigente do MDM, tomando posições contra a guerra colonial e o fim do regime do Estado Novo. Nascido ainda no tempo da ditadura, o MDM foi uma organização clandestina por vários anos, mas tal não o impediu de organizar diversas iniciativas políticas relacionadas com a luta feminista, como por exemplo actividades realizadas em torno do dia 8 de Março - Dia Internacional da Mulher . Organizaram o seu primeiro Congresso em 1973, com cerca de 250 participantes vindas de vários pontos do país. Estas mulheres tinham como reivindicações a libertação das presas políticas, o fim das discriminações laborais, denunciavam as desigualdades sentidas no sistema educativo opressivo do Estado Novo, a exigência do direito ao aborto legal, o fim da guerra colonial, entre outros. A revolução de Abril e a liberdade que dela adveio deram novas perspectivas e horizontes ao movimento feminista português. O MDM interveio activamente na fundação e solidificação da democracia portuguesa, abraçando os ideais da revolução em prol da construção de uma sociedade mais justa, democrática e igualitária. Muitos foram os avanços no que toca à conquista de direitos das mulheres nos 46 anos da nossa democracia, mas estamos ainda muito longe de alcançar a igualdade plena como manda a Constituição Portuguesa. O MDM tem uma longa história no que toca à reivindicação da emancipação feminina e na luta dos direitos das mulheres, tendo sido um dos movimentos pioneiros em Portugal a fazê-lo. Nos seus 40 anos de vida, o MDM marcou a sua intervenção no espaço público português com a luta feminista, pela democracia, pela paz e solidariedade, provando-se assim essencial para a luta de todas as mulheres portuguesas.


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DEMOLIR ILUSÕES: O PATRIMÓNIO E O PENSAMENTO GUILHERME MACHADO

O Padrão dos Descobrimentos foi edificado em 1960, 500º aniversário da morte do Infante D. Henrique, pelo governo de Oliveira de Salazar. O monumento tem 56m de altura e, na paisagem dos jardins Belém, junto às águas cristalinas do Tejo, impõe-se como um dos pontos obrigatórios de passagem para turistas e visitantes. Nos seus detalhes de betão e lioz, o Padrão evoca a memória de algumas das figuras mais importantes do período de Expansão Ultramarina - liderados epicamente pela representação do Infante D. Henrique. Porém, existe a perspetiva de que este monumento não é uma mera comemoração centenária de um marco temporal dos “Descobrimentos”, mas sim uma lembrança constante do legado de escravidão, pobreza e exploração deixado pelo Império. A verdade é que um monumento desta magnitude não pode ser ignorado e é importante que se tenha uma abordagem crítica da verdadeira narrativa e pensamento que rodeia a sua existência - e acima de tudo, a forma como este património e a sua mensagem são relevantes para as problemáticas atuais do racismo institucional, da desigualdade e de toda a discussão que procura conceber de que forma devemos abordar o nosso património e legados culturais. É singularmente óbvio que o Padrão dos Descobrimentos não surgiu de uma espontaneidade da força criativa da população portuguesa - havia um objetivo e um enquadramento cultural concreto que definiu os esforços para erguer tal monumento. Nos anos 50 e 60, o Estado Novo português encontrava-se num momento de renovação de imagem.

No seguimento da Segunda Guerra Mundial e da derrota da Alemanha Nazi, o regime procurava sobreviver numa arena mundial marcada pelo repúdio às formas do fascismo e do autoritarismo que haviam marcado a sua génese. Nestas cruciais décadas que antecederam o 25 de abril, o governo salazarista concentrou diversos recursos na manutenção do seu poder e do domínio das classes privilegiadas no Estado Novo - latifundiários e monopólios nacionais. E nesta atmosfera de consolidação de poder, surgiu o ímpeto de erguer novas infraestruturas que demonstrassem os avanços na gestão do Estado salazarista. Monumentos como o Cristo-Rei apareceram nestes anos interessantes da história portuguesa como um autêntico objeto que encarnava a tríade cultural do regime: Deus, Pátria e Família; mas acima de tudo, sob a forma de ferramentas de cimentação do estatuto e prevalência da agenda cultural salazarista e da ideologia do Estado Novo. Também a realidade dos domínios ultramarinos portugueses é um elemento importante da narrativa do regime: a lógica salazarista concebia as possessões ultramarinas como extensões do território soberano, que Portugal tinha o dever de desenvolver como parte íntegra do país. Durante o Imperialismo Europeu do século XIX e do começo do século XX, as potências colonizadoras europeias construíram, em conjunto com os seus Impérios, narrativas de desenvolvimento e progresso industrial para justificar o que se pautou, no fundo, por uma exploração do continente africano.


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O Estado Novo, marcando uma soberania das forças de direita ligadas ao aparelho colonial e às Forças Armadas, herdou da I República esta concepção ideológica das colónias e utilizou-a para a cimentação do imaginário nacional e da identidade portuguesa. No espaço limitado do Estado Novo, a narrativa da glória passada e das investidas heróicas dos navegadores portugueses revestia de um autêntico romantismo uma realidade objetiva de pobreza, abusos de poder e de exploração de comunidades indígenas e de povos africanos. O Padrão dos Descobrimentos surgiu nesta linha de pensamento institucional que pretendia colocar no centro do discurso público e das concepções de identidade a imagem histórica dos Descobrimentos - forma de pensar que ainda não se ultrapassou, passados quase cinquenta anos do fim do Estado Novo. Ainda o passado colonial português detém uma posição no imaginário português que ofusca as atrocidades associadas à política ultramarina e impede que decorra na sociedade um processo de discussão sobre o verdadeiro significado dos acontecimentos históricos e o valor associado aos seus monumentos. Recentemente, Ascenso Simões, deputado do PS na Assembleia da República, afirmou que o contacto com a memória salazarista devia ser cortado e que, portanto, urgia demolir o Padrão dos Descobrimentos devido ao que representa para o Estado Novo. Esta forma de abordar o património tem a sua origem no modus operandi de movimentos sociais como o Black Lives Matter e em toda uma onda de sublevação popular que culminou na destruição de estátuas de pessoas ligadas ao colonialismo e à história da expansão ultramarina em países como o Reino Unido.

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Considerados ataques ao património histórico, estes atos são tangenciais a uma forma de abordar o passado colonial que se despe dos conceitos de romantismo nacional e expansionista. Analisa-o como um sistema político e económico de exploração de recursos e de mão-de-obra que causou fraturas no tecido social e nas linhas étnicas, as quais produzem consequências na organização sócio-económica da atualidade. A reação perante o património, que não apenas evoca como celebra figuras históricas ligadas a estas formas de opressão histórica é, portanto, de violência. O que de facto sucede é que nas sociedades são erguidos monumentos que, por diversas vezes, são elementos da narrativa de um grupo limitado de pessoas - são construções e imagens edificadas de forma não-democrática. Tal como os grandes monumentos mesopotâmicos podem expor a identidade de uma antiga civilização, também monumentos erguidos por um regime político podem ser as vozes de uma mensagem de grandeza. Mas a característica que ambas as formas de expressão partilham é a sua sujeição a uma ideologia concreta que, por vezes, abriga relações de poder e de exploração. Um monumento dedicado a contar a história da expansão gloriosa de um povo pode, de facto, servir como uma imagem cultural e civilizacional de grande mérito; e como um símbolo de um trauma coletivo para outro grupo de pessoas. Não podemos, portanto, ignorar as sérias implicações que surgem de não discutir a questão do colonialismo e da sua influência histórica - assim como o debate sobre como deve o património histórico ser preservado e discutido de forma democrática e inclusiva.


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Se deixarmos de lado as perspectivas culturais dos povos escravizados, das comunidades indígenas vítimas da desagregação do seu modo de vida e dos milhões de mortos associados à expansão colonial, não estamos a fornecer ao nosso património uma abordagem e análise justas e verdadeiras. A questão de destruir monumentos deve ser tratada com um certo cuidado. Por um lado, deve procurarse debater com grande intensidade as razões que poderiam justificar a destruição de património. Apagar as evidências materiais da história deve ser evitado ao máximo e, como sociedade, devemos tentar preservar o nosso passado. Portanto, é possível que a discussão tenha de abandonar o desejo de destruir um passado traumático e transformar-se numa discussão inclusiva sobre o nosso pensamento cultural e abordagem de eventos históricos que trazem consequências sociais e económicas sentidas até aos dias de hoje. Os monumentos podem ser utilizados para celebrar ativamente figuras históricas, que é, sem dúvida, o que o Padrão de Descobrimentos faz - celebra os navegadores dos Descobrimentos e as suas façanhas. Mas o património histórico, à luz de uma abordagem justa e científica, pode servir como uma mensagem para a posterioridade, fornecendo dados concretos sobre formas as que os mundos político e económico podem assumir, e as consequências verdadeiras destes atos. Antes de destruirmos os nossos monumentos, é imperativo que destruamos as nossas ilusões sobre o Império Português e sobre o passado colonial - só assim se pode conceber o património sem que a discussão oscile entre a desonestidade intelectual e a demolição completa.


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Para a teorização das Artes Marciais Chinesas (AMC) DIOGO REIS PEREIRA, 3º ANO DE HISTÓRIA

A busca por teorizar uma definição rigorosa e abrangente das Artes Marciais Chinesas (AMC), bem como de todas as respetivas ramificações, aplicações, dificuldades e benefícios, compõe um corpo de estudos produzidos sob diversas perspetivas que vêm fomentar um academismo volvido sobre este campo de análise. Não obstante, escopo de um debate imenso, as AMC têm sentido uma forte dificuldade em penetrar nestes meios que poderiam providenciar uma história mais verossímil, metodológica e rigorosa, deste mundo lato de informações, conceitos e premissas, algumas destas, inclusive, contraditórias e mal difundidas ainda nos dias de hoje. Arte ou Ciência, horizonte de estudos históricos e sociológicos, bem como económicos e políticos, ou uma simples atividade com pendor bélico, a verdade é que o Kung Fu tem milhares de anos de história ainda por estudar e desenvolver. A nível internacional não posso deixar de destacar nomes como Paul Bowman, Hugh Griffiths e Benjamin Judkins que, subjugando as dificuldades enumeradas, conseguiram conceber uma revista científica centrada neste universo na Universidade de Cardiff. Afastando-me do campo académico e internacional, e virando-me para o quadro português, tenho ainda de destacar o papel importante de figuras como Mário Lameiras, Pedro Rodrigues, Vítor Casqueiro, Augusto Pinto e Rolando Martins, entre tantos outros, que deram e continuam a dar o seu tempo e esforço, a despeito das dificuldades da vida contemporânea, para a divulgação do Kung Fu.

No quadro de definição de ‘Arte Marcial’, é necessário o leitor, desde já, compreender que apesar da perceção, sentimento ou algum tipo de relação com o objeto em análise, teorizar um conceito abrangente a todo este domínio é muito difícil e, dependendo de cada um, subjetivo ou não. Na realidade, aquém do belicismo que o termo intrinsecamente acarreta, temos nas mãos uma premissa que reflete campos da filosofia, religião e expressão individual que, na maioria dos ensaios, ficam por desenvolver. Se Peter Lorge, por um lado, vê as AMC como as várias habilidades e práticas que originaram os métodos de combate e que incluem as demais performances religiosas ou atividades de promoção de saúde que não têm um elo de ligação com a aplicação direta no combate, e Paul Bowman, por outro, relativiza a definição desta expressão a duas posições – uma mais literal virada para a guerra, como uma ‘Arte’ desse tipo, sendo a segunda remetida para a matriz mais suave da cultura e tradição – a verdade é que ambos reduzem a simbologia e o sentido da sentença a um nível inferior ao pretendido. Fazendo já uma separação, importa referir que, comparativamente a um desporto de combate, uma Arte Marcial deve ser incluída numa sistematização onde estejam incorporados os eixos necessários para que Mestre, Instrutores e Alunos tenham um ensino uniforme e rigoroso: as ditas áreas técnicas (marciais), esferas do conhecimento histórico, cultural, filosófico, energético e, subsequentemente, da medicina, que complementam e elevam esta a um campo maior e mais profundo relativamente ao domínio do primeiro.


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As questões sobre esta matéria apresentam-se, de facto, ambíguas na historiografia, esta que é escrita de forma a diferenciar todos estes campos e domínios. Contudo, como tenho vindo a realçar, é um lapso que não deve ser efetuado. De grosso modo, uma ‘Arte Marcial’ é mais do que uma simples confraternização de técnicas militares e esferas sociais, culturais e religiosas. Na verdade, noventa porcento do significado desta expressão situa-se na primeira parte desta sentença (Arte), subjugando por completo o pendor marcial que os restantes dez porcento acarretam na segunda fração da premissa (Marcial). Em suma, do que antecede a esta conclusão, parece-me legítimo afirmar que uma Arte Marcial, conceito sensível a interpretações, pode ser definido na sua génese como o domínio bélico de técnicas pressupostas para a defesa, ataque e contra-ataque, sejam estes elaborados corpo-a-corpo ou através de armas. Fruto da continuidade da prática e da respetiva evolução, os campos elementares e complementares da filosofia, religião, cultura, energia e medicina vieram enriquecer o Kung Fu e, no fundo, as Artes Marciais Chinesas, com novas competências e habilidades que as elevam a um novo nível ainda por clarificar. Bibliografia: BOWMAN, Paul, “Introduction: (De)Constructing Martial Arts (Studies)” in Deconstructing Martial Arts, Cardiff, 2019, Cardiff University Press, pp. 1 – 14. LORGE, Peter, “Defining Martial Arts” in Chinese Martial Arts: From Antiquity to the twenty-first century, Nova Iorque, 2012, Cambridge University Press, pp. 3 – 9.

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Greenwashing: uma perversão “marketinguiana” da Ecologia CATARINA MOTA

“You’re bright, you’re ambitious, your finger is in the pulse of Peoria, and ever since you fibbed your way out of your first spanking, you’ve realized there’s a useful vacuum in the part of your brain where shame usually resides. May we suggest a career in greenwashing, the hottest new trend in dissembling for profit?” Assim começa o artigo “Greenwash!”, da edição marçoabril de 1991 da Mother Jones Magazine. É a melhor descrição para a imoralidade que é o greenwashing é impossível. O greenwashing pode ser definido como uma apropriação que empresas, organismos governamentais e não-governamentais e até organizações internacionais fazem da Ecologia. Foi um termo cunhado final dos anos 80, remetendo para a palavra brainwashing, e percebe-se porquê. O que acontece é uma tentativa de encobrir todo o dano ambiental realizado no passado por estas instituições com um “manto verde”, com o objetivo de se absolverem de qualquer responsabilidade e, mais importante, destacar o seu lado amigo do ambiente. Uma das primeiras vezes em que este termo foi utilizado foi justamente para descrever uma ação “verde” do Banco Mundial. Em 1989, após uma reunião em Washington, Barber Conable, o então Presidente do Banco Mundial, anunciava um novo pacote financeiro para estudos de análise do impacto ambiental de outros projetos em largaescala também financiados pela organização,

como barragens, autoestradas, redes de irrigação, entre outros. Ora, toda a atenção dada à aparente consciência ecológica do Banco Mundial tinha como objetivo ofuscar quatro décadas de financiamento a projetos de desenvolvimento económico para os chamados Low-income countries, que em nada tinham tido em conta a sustentabilidade. Virando-nos para as empresas, sabemos que há um pequeno grupo de multinacionais que são dos principais poluidores mundiais. Observando o caso da Coca-cola, temos um exemplo de greenwashing gritante. É uma empresa cujas práticas, ao longo do tempo, se têm tornado cada vez mais nefastas para o ambiente e para as populações dos países mais pobres. Até há alguns anos, a empresa vendia o seu produto em garrafas de vidro, que eram depois devolvidas ao local onde tinham sido vendidas, para serem preenchidas e vendidas novamente. Arrisco-me a dizer que era uma cadeia de produção relativamente verde. No entanto, assim que a Coca-cola se apercebeu que era mais rentável utilizar garrafas de plástico descartáveis, foi um ápice até que as de vidro desaparecessem. O custo ambiental e social desta política, que pretendia o aumento do lucro nos países mais pobres, cuja indústria da reciclagem não era tão desenvolvida como a dos mais ricos, foi enorme. Pessoas sem emprego foram empurradas para as lixeiras, onde se acumulavam cada vez mais garrafas de Coca-cola, que por elas eram recolhidas e vendidas mais tarde a preços mínimos.


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Um trabalho perigoso e com um pagamento muito baixo. Paralelamente a estas ações vergonhosas, a Coca-cola tem-se revestido de verde e anunciado com grande pompa e circunstância a construção de painéis publicitários que absorvem CO2, o lançamento de grandes projetos de tratamento de águas residuais, ou doações avultadas para iniciativas de proteção ambiental. Como se tudo isto apagasse o mal feito. O problema é que apaga, pois o greenwashing é perverso a esse ponto. E por vezes, nem precisamos de olhar para as políticas destas gigantes multinacionais para perceber isto. Basta ir ao supermercado. Infelizmente, enquanto consumidores, caímos muitas vezes em armadilhas “verdes”. Inúmeras técnicas de marketing são utilizadas para nos levarem a pensar que um certo produto é amigo do ambiente, quando não o é – desde o uso e abuso de palavras como “orgânico” ou “eco-friendly”, à utilização desmedida de embalagens de cor verde. E como normalmente ninguém tem tempo para passar a pente fino o cadastro de todas as marcas que consome, nem para analisar as artimanhas linguísticas daquilo que lhe é apresentado, acabamos por continuar a dar o nosso apoio a empresas poluidoras, quando pensamos que estamos a fazer precisamente o contrário. Também há todo um aproveitamento circunstancial da Ecologia pelo Marketing. Até posso adivinhar que no próximo dia 22 de abril, Dia Internacional da Terra, haverão campanhas e promoções “verdes”, com o único propósito de atrair consumidores para a marca. Enquanto cidadãos, também temos de estar atentos ao greenwashing político. Talvez nos lembremos da iniciativa Clean Coal aquando da campanha presidencial norte-americana de 2008, fazia equivaler o investimento em captura de CO2 com redução de emissões.

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Mais recentemente, promessas vazias e pouco concretizáveis do “Green New Deal” e outros, quer nos Estados Unidos da América, o segundo maior poluidor mundial, quer na União Europeia, o terceiro maior, fazem transparecer uma grande importância dada à conservação do ambiente, quando na verdade não é o que se verifica. Posto tudo isto, é preciso apertar a regulamentação do greenwashing. Embora já haja várias iniciativas, selos, certificados, nomeadamente ao nível europeu, promotores de boas práticas de marketing e de negócios verdadeiramente verdes, as empresas não podem continuar impunes. 2021 parece ser um ano promissor, com algumas propostas europeias neste sentido, e com legislação como a EU Sustainable Finance Taxonomy a já ter sido aprovada no Parlamento Europeu. Mesmo assim, é preciso continuar a exigir mais regulamentação das empresas por parte dos Governos, para que se possa de vez acabar com o flagelo do greenwashing. Falando dos Governos em si, é imperativo aumentar o escrutínio daquilo que supostamente é feito em nome do ambiente. Organizações não-governamentais, movimentos e cidadãos devem continuar a denunciar as meias-medidas ambientais que são tomadas e bater o pé, exigindo propostas ambientais e climáticas concretas e levadas a cabo em tempo útil.


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Desabafos de um estudante PAULO GOMES

Desde os tempos do meu secundário sempre pensei na faculdade como um imenso espaço de abertura, um lugar onde eu finalmente conheceria pessoas com interesses semelhantes aos meus e com os quais poderia debater uma grande variedade de temas durante horas sem fim. Durante muito tempo carreguei comigo tal perceção, até que finalmente entrei no ensino superior e me deparei com a terrível realidade que este me oferece. Todas as ilusões e pensamentos que tinha sobre a universidade, nomeadamente de ser um espaço aberto e inclusivo, rapidamente se dissiparam, e em vez do entusiasmo e ânimo que esperava aquilo que obtive foi reserva, cautela e revolta. Um dos grandes problemas que tenho vindo a identificar ao longo dos meus estudos na FCSH trata-se da existência de uma clara falta de tolerância ideológica entre o corpo estudantil que a compõe, o qual, talvez pelo facto de, na sua maioria, parecer ser composto por indivíduos que pregam uma dada ideologia, acaba por formar uma autêntica bolha avessa a qualquer opinião contrária. Algo que desde o início dos meus estudos tenho vindo a sentir é exatamente um enorme desconforto sempre que me encontro numa situação em que pretendo expressar aquilo que penso, por conta de um medo (mesmo que inconsciente) de ser indevidamente rotulado de todo e qualquer chavão em que se possa pensar, seja ele fascista, machista, sexista ou racista, ou qualquer outro ista.

Podem-me muito bem dizer que isto que estou aqui a expressar é apenas uma opinião, e eu aceito isso como verdade. Sim, é verdade que este sentimento pode ser, sem dúvida alguma, infundado, ou uma descaracterização da realidade, mas esta opinião e receio não surgiu do nada. Se o tenho é porque várias foram as vezes em que testemunhei, no ambiente desta faculdade, uma total incapacidade de se ter qualquer tipo de debate saudável em que os dois lados estejam realmente a querer entender aquilo que o outro diz. Pelo contrário, deparo-me com “pseudodebates” que mais não servem senão para distorcer as palavras do “outro”, ou para identificá-lo como o inimigo e para “ganhar” estatuto. Nunca num debate que se preze qualquer um dos lados deve entrar a achar-se o dono da razão, caso contrário condena o mesmo ao falhanço imediato, passando o tempo todo meramente a tentar reforçar a sua ideia préconcebida de que estava correto ao invés de ouvir o que o lado oposto tem para dizer.


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Um debate não deve ser, como estamos habituados a pensar, um concurso para provar quem está correto, ou uma oportunidade para rebaixar o oponente, mas sim uma reflexão e discussão de ideias, em que não exista uma conceção prévia de antagonismo entre o “eu” e o “outro” e em que os dois lados se respeitam mutuamente. Lamentavelmente, ao constatar a triste realidade nesta faculdade, é com dificuldades que verifico a existência de debates reais. Aquilo que vejo efetivamente é a divisão dos estudantes (e mesmo dentro de turmas) em grupos restritos, dentro dos quais comunicam, sim, as suas opiniões de forma saudável, mas não fora deles. O problema disto é que os grupos em si tendem a ser criações advindas de opiniões específicas que os indivíduos que os compõem detêm. Neste sentido, a formação dos mesmos nada mais faz senão reafirmar a ideia dos seus membros de que eles, e mais ninguém, são os donos da razão, contribuindo assim para o deterioramento de qualquer possibilidade que possa existir de alguma vez virem a ter um debate no real sentido da palavra. Claro, dizer que esta é a realidade com todos os estudantes da faculdade seria imensamente injusto para com os meus colegas, uma vez que eu mesmo me dou com muitos que possuem opiniões praticamente opostas às minhas, mas, em geral, isto é aquilo que verifico suceder nas relações entre os demais estudantes desta instituição e é, em grande parte, por isto que eu acabo por sentir a tal reserva, cautela, e consequente revolta que descrevi no início. Muitos dos aqui matriculados gostam de falar da importância da tolerância para com os outros, mas é com enorme tristeza que verifico tamanha negligência quando se trata da tolerância ideológica, o que leva a que um grupo considerável de indivíduos não se sinta, de facto, plenamente integrado na faculdade, mas que, pelo contrário, se sintam excluídos.


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O Nosso “Palácio da Ventura” LIZA BASYSTA

Acho que todos devem conhecer o poema (que estudamos no secundário) “O Palácio da Ventura”, de Antero de Quental , em que um cavaleiro exausto vagueia pelo deserto à procura do seu palácio de sonhos. Assim que o encontra, porém, descobre que está completamente escuro e vazio por dentro. Talvez esse poema seja a mais adequada metáfora para descrever a nossa realidade como estudantes universitários, principalmente nos dias de hoje. Cheios de expectativa, afundamo-nos neste mundo académico, iludidos pelos sonhos e ideais que a sociedade nos têm transmitido. Acreditando fielmente no seletivismo que o mundo académico nos confere, ignoramos as falhas no seu funcionamento e encaramo-lo como se apresenta e não como ele realmente é. Mas assim que entramos para o seu interior tudo se torna claro. O seletivismo que está na sua base revela-se tanto limitador como desigualitário, manifestando-se, por um lado, na falta de profissionais e, por outro, no esquecimento e menosprezo daqueles que não têm condições financeiras para prosseguir com os estudos. Quantos de nós já não se depararam com professor@s a lecionar unidades curriculares que não são da sua área de especialização, devido à falta de profissionais nas universidades? Quantos de nós já não ouviram algum amigo ou conhecido a dizer que não prosseguirá os estudos porque não conseguirá pagar as propinas? E o que dizer sobre NÓS, que permanecemos neste mundo universitário? Acordamos já cansados só por acordar e, quando a lucidez derruba sobre nós a realidade incerta do mundo à nossa volta, só queremos voltar a dormir, afundando-nos num mundo bizarro, mas salvaguardado pela inconsciência. Este sentimento de desespero e ansiedade que nos rodeia aumenta com o passar do tempo e manifesta-se na nossa motivação. Refletindo sobre isso, questionei-me: “Como seria o ensino superior se não existissem tais problemas?”; mas nunca desfrutando um fruto só podemos imaginar o seu sabor, pelo que desta utopia incansável só podemos supor algumas visões. Uma universidade livre de preconceitos! Uma variada escolha de curso e unidades curriculares, com professor@s a lecionar aquilo que realmente é a sua paixão! Uma universidade igualitária e justa, que oferece voz aos seus integrantes! Uma universidade que abre os horizontes e oferece oportunidades! Será que um ensino superior assim é possível? Quem sabe… Mas se ao depararmo-nos com o vazio do nosso “Palácio da Ventura” não o tentarmos iluminar e preencher com os nossos sonhos materializados, nunca saberemos!


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CRÓNICAS

Dilema do Tempo DIANA NEVES

O dilema do Tempo é não saber contar o tempo.

Nunca fui pessoa de fumar, ou melhor, nunca me deu a curiosidade. Cheguei a ficar enjoada quando permanecia muito tempo em cafés ou discotecas. É um ato enganoso: meio sujo, por fora da sua exterioridade, mas com uma aura bela de eminência e sublimidade – não fossem aquelas fotografia lindas de mulheres como Joan Didion, Audrey Hepburn ou Cate Blanchett com uma total elegância a segurar o cigarro, o cheiro característica a infiltrar os seus longos dedos e sem se importarem, porque sabem que sustentam o mundo no seu peito. O cigarro transformou-se num sinal de poder, mas nunca de poder e essência. Por trás dessas fotografias, a preto e branco ou com cores vivas, existem mulheres com uma personalidade arrebatadora. Peguei nas chaves do carro e ia direta e rapidamente aos típicos afazeres na vila – comprar um carregador de telemóvel … malditas tecnológicas, se fosse ir comprar flores num mundo com a estética de Call Me By Your Name, este texto ficava com uma dimensão imagética invisível mais bonita. – escondendo o segredo em mim que iria gastar 4,70 euros num Chesterfield blue. «Caixa ou soft?» Indignada por não saber o que queria e meio reticente, respondi: «soft…» Que o mal para a saúde seja menor, soou essa voz inocente dentro de mim. «E um isqueiro também, se faz favor.» Saí quase a correr, como se o meu eu adolescente de 15 anos me estivesse a olhar e a repreender por cair naquilo que achava um ato tão repugnante e castigável. Sabia que não ia ser sempre assim: que não ia recusar sempre um cigarro quando me oferecessem em festas ou cafés, ou que nunca ia evitar gastar cinco euros num maço que, provavelmente, me dura um ano. O dilema do Tempo é não saber contar o seu tempo. Tenho saudades daquilo que me faltou. Das garrafas que faltaram abrir ou das velas que não foram acesas; do que não chegou a expirar ou a atingir a validade. Do que não me intimidou o paladar ou do que não me deslumbrou o olfato. Dos sítios que eu não me vi e me iam tirar o fôlego; ou das desilusões que, com caráter obrigatório, não chegaram a acontecer. Do olá que eu não dei e do adeus que eu não recebi. Das vozes que eu não pude ouvir e dos gritos que eu não pude largar. O dilema do Tempo é não saber contar o seu tempo.


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CRÓNICAS

O sino tocou a sua badalada – odeio estes sinos – enquanto eu me sentava lá sozinha no passeio numa estrada modestamente deserta, no topo da serra que se tornou aconchegante e privada no centro da sua vastidão e proeminência. Creio que esses sinos, que tocam de hora em hora, eram para orientar as gentes da aldeia. Acho que agora há só muito barulho para qualquer pessoa ouvir os sinos. Banalizaram-se os relógios de pulso – que já são mais acessório do que utensílio – e os relógios de bolso já perderam o seu encanto há uns bons anos, quando os mais ricos detinham as horas na algibeira do casaco, comandando o homem e o firmamento, e os mais pobres se guiavam pelos passos que contavam na sombra do chão. Para estes últimos e para mim, felizmente, o sol, sempre o foi um amigo. Mas tal como o sol vem, também precisa de descanso e se renega às necessidades mundanas do ser humano, procrastinando e deixando-nos desnorteados, já que o tempo decidiu apoderar-se da direção e do expediente da vida. Em casa da minha avó, o relógio de cuco ainda canta. É dos únicos cantos que sobram, atualmente. E os ponteiros ainda fazem aquele tictac barulhento, incomodo e penetrante ao avançar no círculo infinito; na hora da sesta, é o único barulho que, agora, se ouve. Pus Viagem, de Tiago Bettencourt, a tocar no Spotify – uma amiga recomendou-o – e então, tudo ficou bem, já não tinha de ouvir os sinos da capela a relembrar-me das horas. O dilema do Tempo é não saber contar o tempo. Os pássaros já se foram embora, na magnificência dos bandos que não tiveram vergonha de nos abandonar, deixar-nos na estrepita algazarra dos carros, das discussões de café, do choro das crianças em casa. Privam-nos da sua melodia, da sabedoria das suas asas que os leva sempre onde estão bem. Gozam connosco, por não sabermos fazer o mesmo. Gozam connosco, e sabem que é problema nosso. O dilema do Tempo é não saber contar o tempo. Agora, estão todos ocupados na decadência do tempo, nas reminiscências das horas e nas réstias que o dia deixa caridosamente – pobrezinhos de nós – para que ainda o possamos aproveitar. Mal nos admitimos que isto é culpa nosso. Agora, andam todos de olhos postos no chão, de passo apressado, sem bom dia ou obrigada, que o «tempo» (continuemos assim a incriminá-lo) já não lhes permite dizer – mal de nos se chegarmos atrasados ao trabalho, porque o pior que nos acontece é sermos despedidos.


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CRÓNICAS

O dilema do Tempo é não saber contar o tempo. A minha pele arrepia sempre que saio da cama no inverno, mesmo sabendo que eu agradecia que a geada não me entrasse pelo corpo, visto que não demoro muito tempo a vestir-me. Aparecem-me marcas na roupa de eu tanto suar durante o verão, mesmo sabendo que eu o acho feio e já não tenho tempo de ir trocar, porque tenho que ir trabalhar. Às vezes fico zangada porque não cheguei a tempo do autocarro, e outras vezes agradeço por ter um tempo com pessoas que não vi há bastante tempo. Parece que só o ser humano conta o tempo, e que Tempo só se virou contra ele. A ironia do ser humano é depositar tanta ordem na vida e cair na incompetência de saber valorizá-la. O tempo do cigarro já passou, e tão depressa que parecia a medo. Já nem há fumo que fuja fugaz da ponta apagada da maléfica palhinha de nicotina. Já são 15h18. É tempo de renovar o Tempo.


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CRÓNICAS

O CORTIÇO INÊS PINHEIRO

Livremente Sós?

Há um ano atrás, escrevi sobre como era viver numa situação em que as liberdades nos eram retiradas. Era um assunto muito debatido na altura, pois os constrangimentos trazidos pela pandemia pareciam-nos inconcebíveis e, olhando para o passado, creio que havia um factor ainda mais importante do que a nossa incredulidade. Penso que acreditávamos, colectivamente, num fim relativamente próximo, mas esse desejo não se verificou e não aparenta estar prestes a concretizar-se. Por mais saturado que o indivíduo comum esteja, é necessário relativizar o que cada um de nós atravessa e compreender como o esforço é necessário, porque as consequências que resultam da negação, ou da desvalorização, são infinitamente piores. É este o meu pensamento diário. Desligo a televisão, porque se tornou incomportável ouvir o mesmo durante vinte e quatro horas, ininterruptamente. Volvido um ano, a minha reflexão de Abril já não radica na pandemia. Seria impossível retirá-la da equação, por isso mantémse presente, mas o problema que levanto é mais de fundo e ainda não foi encarado com a devida seriedade. É a liberdade uma quimera? Possivelmente, pois não somos livres agora, não o fomos no passado e questiono-me se o seremos no futuro. Numa liberdade utópica, cada um seria “livre” para fazer o que quisesse. Porém, tal cenário não é possível, nem desejável, uma vez que acarretaria problemas irresolúveis para a vivência em sociedade. Para efeitos prácticos, descartarei este nível de livre-arbítrio. O dilema prende-se com a tirania do imediatismo abjecto, que nos despe de massa crítica. As fronteiras entre o privado, a nossa casa, e o público, o nosso trabalho, atenuam-se. Temos de estar constantemente disponíveis, temos de estar a par de tudo e todos, e temos, acima de tudo, de gostar deste modo de vida, alimentando-o com regularidade mecânica. Esta tendência – durante muito tempo não passou disso mesmo, uma “tendência” incorpórea – ganhou uma dimensão avassaladora no último ano. É um problema global, este que aqui exponho, mas não universal, sendo por isso importante reter as discrepâncias abissais entre o mundo das reuniões virtuais e o da pobreza extrema, já que de fora quase não parece possível coabitarem. Regressando ao título: “Livremente Sós?”, até que ponto somos livres quando se impõem reuniões, mensagens e publicações – as terríveis publicações, ou pior ainda, os anglófonos posts! – como se a porta de nossa casa não existisse? Pior ainda, existe uma solidão inerente ao vício digital. Os que participam desalmadamente enganam-se, pois os mil e um amigos são como um vazio. Os que não dão seguimento ao jugo, também estão mal acompanhados. O que nos reservará um futuro tão massificado? É preciso pensar demoradamente sobre este assunto, se ainda o conseguirmos fazer.


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BERNARDO RAPOSO

Nunca mais à prisão perpétua da nossa Liberdade

INÊS DE JESUS

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Entrevista à banda Dream People GUILHERME MACHADO

Em fevereiro reuni-me com membros da banda portuguesa Dream People. Entre o sarcasmo e o gracejo que acompanharam a chamada por Zoom, discutimos a música e o caminho musical deste grupo - a sua história e as suas experiências.

Francisco: Somos os Dream People. Eu sou o Francisco, sou vocalista - é esse o meu instrumento. Faltam dois de nós aqui: o João, o baixista, e o Bernardo, o nosso guitarrista e teclista. Nuno: Sou o Nuno, sou o guitarrista e estou no Técnico a estudar informática. Diogo: Sou o baterista, percussionista e tudo o que possa significar o batuque. Sou também a cara bonita da banda. Falem sobre a história da banda. Como surgiu este projeto? Francisco: Bem, estávamos em 2018 e tinha umas músicas escritas. Nós nem nos conhecíamos uns aos outros, mas eu pus um anúncio no Facebook à procura de um parceiro para fazer música. Por acaso, o Diogo (que entrou na banda apenas no ano passado) respondeu ao anúncio a sugerir o Nuno. Juntámo-nos e compusemos a música Caroline. Depois de gravarmos juntos, concorremos a um concurso e tivemos a oportunidade de gravar um EP.

Na busca de mais instrumentistas para gravar, fizemos anúncios, de onde surgiram o Bernardo, o João e, eventualmente, o Diogo. Então esta banda surge imediatamente durante a gravação de um EP, não houve concertos antes? Nuno: É interessante, porque antes de eu responder ao anúncio do Francisco, nós já tínhamos tido uma banda chamada Alce no passado, e chegámos a gravar algumas coisas mas no fim não funcionou. Francisco: Agora fala o Diogo sobre os concertos, para ficarmos todos com a ribalta. Diogo: Olha, eu entrei na banda em março de 2020, exatamente no momento em que confinámos. Nesse momento o que aconteceu foi o sucessivo cancelamento de todos os concertos e ensaios que tínhamos planeado. Os espaços de apresentação têm imensas dificuldades nesta pandemia - marcam concertos e em duas semanas algo muda na lei que leva-nos a cancelar novamente. Felizmente, no meio disto tudo, conseguimos uma oportunidade fantástica. Vamos representar Portugal no International Live Music Conference em Londres, já em março deste ano. Vamos tocar remotamente, mas vão passar o vídeo da nossa performance numa conferência repleta de agentes e managers - o que é uma grande oportunidade. Mas ainda podemos esperar concertos para quando a situação pandémica estiver mais controlada? Francisco: Estamos no processo de encontrar possíveis locais para concertos no final deste verão. Não vamos agoirar.


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Bem, esta pergunta pode ser muito abstrata: mas gostava de saber, tendo em conta que esta banda surge de uma certa oportunidade concreta, se existe algum conceito por detrás da banda. Ou estão ainda na construção de uma imagem própria? Francisco: Lançámos o EP, e agora vamos fazer o álbum, e portanto, acredito que a segunda descrição aplica-se melhor. Estamos ainda a desenvolver a nossa abordagem à música e a criar a nossa personalidade. No EP acho que tínhamos ainda pouca personalidade. No álbum temos algo mais coeso e definido que mostra melhor quem somos. É agora que estão a fazer o vosso debut: a vossa revelação. Diogo: É interessante que seja eu a responder a esta pergunta, tendo em conta que eu e o João entrámos na banda quando o trabalho para o álbum já estava feito, e portanto tivemos pouquíssima voz neste projeto. Entrámos no grupo com o objetivo de regravar e melhorar o que já estava feito. Não me chateia nada, porque acho que o disco é extraordinário, mas no futuro creio que teremos algo melhor e mais expressivo. E agora, a famigerada pergunta sobre o método. Qual é a vossa abordagem à composição e à criação de música? Nuno: Sinceramente, creio que varia muito de acordo com o momento em que estamos. Por vezes alguém aparece com uma ideia pessoal, que “reciclamos” e a partir dela construímos algo novo. Isso acontece mais comigo, com o Francisco e com o Bernardo, creio eu. Mas ainda recentemente estivemos num retiro e tocámos e criámos como banda, o que também correu muito bem. Acho que no futuro, vamos valorizar mais as ideias de grupo, o que acontece menos devido à impossibilidade de nos reunirmos todos nesta situação atual. Francisco: No fundo, pegamos em ideias individuais e transformamo-las em algo criado pela banda. Nuno: Há pouco perguntaste se já tínhamos uma identidade de banda. Acho que ainda não atingimos o nosso potencial, mas agora temos dois membros novos e diversas coisas planeadas, acho que estamos ainda à espera de saber como vai correr.

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Como é que funciona a relação entre os membros da banda? A nível artístico e pessoal? Francisco: Agora fala o Diogo, que ele está de fora. Diogo: Bem, a ideia que tenho é do Nuno e do Francisco serem uma espécie de John Lennon e Paul McCartney. Eles têm as grandes ideias e os conceitos importantes, enquanto que o Bernardo age mais como um George Martin, que agarra nas criações das pessoas e transforma-as em coisas mais polidas. Agora com os membros novos temos de ver como será. Vou agora darte uma insider information. O Francisco e o Bernardo são os que andam mais às turras, têm as opiniões mais fortes e entram em confronto muitas vezes. O Nuno tem um papel moderador e pacifíco, a moderar as discussões, juntamente com o João, mesmo que ele seja mais reativo. Eu ainda não tive a oportunidade, mas quando possível, também andarei às turras. Eu creio que no final o que procuramos entre as discussões é a melhoria do produto artístico. Vocês lançaram no dia 12 de março um disco novo. Gostava de saber se existe alguma “história” ou projeto por detrás do disco. Planearam esta criação ou está mais próximo de ser uma coletânea de músicas? Francisco: Creio que em termos de sonoridade o disco tem uma vertente aleatória e mista, mas em termos de letras acho que há um tema em comum que se reflete pelo título do álbum: Almost Young. Que representa esta transição da adolescência para uma certa idade adulta e as experiências em comum que temos com esta realidade.


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Agora, uma pergunta mais “política”. Sentem que no cenário musical atual em Portugal e especificamente, a situação dos artistas neste país, há um espaço para a vossa banda? Nuno: É uma coisa que já discutimos muito em grupo. Há pouquíssimos apoios para bandas novas em Portugal. Os meios de comunicação estão essencialmente centrados ao redor de poucas empresas e poucos géneros: temos imensas bandas com uma grande qualidade em Portugal que se encontram no mesmo nicho que nós, uma espécie de rock alternativo. Há um público e existem bandas, mas faltam formas de conseguirmos chegar às audiências. Creio que no final, não há espaço para todas as bandas. Francisco: Mas acho que apesar de haver poucas oportunidades na situação atual, existe sempre a possibilidade de nos orientarmos para um público estrangeiro. As nossas letras são em inglês e vamos ao ILMC, o que eu acho que mostra um pouco a nossa índole. O Inglês nas letras é com o objetivo de apelarem a um público estrangeiro? Nuno: O compositor das letras é o Francisco, e creio que estão em inglês porque saem melhor para ele. Diogo: Eu acho que se estivéssemos a agir estrategicamente, faríamos música em português, tendo em conta que há mais apoios para bandas nacionais. Francisco: Mas nós não criamos música estrategicamente, creio eu. Agora, gostava de ouvir-vos a falar sobre a minha música favorita: a “People Think”, com a qual fiquei obcecado. Francisco: Sinceramente nem me lembro muito bem de todo o processo. Eu estava apenas a fazer sons no Logic (um programa para criar música) e estava a tocar no teclado do computador, logo nem estava muito engajado na criação. Mas destas experiências na aplicação surgiu o ritmo da música - era um arpeggio caso não saibas. Obrigado eu não sabia. Francisco: A música começou a ganhar substância, e em grupo construímos o produto final.

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Diogo: Temos de perceber que o Francisco é o tipo de pessoa rara que consegue fazer música mesmo sem formação profissional. Ele senta-se a experimentar e sai uma música completa. E quem é o dançarino no videoclipe? Diogo: É o João Reis Moreira, dançarino do Conan Osiris, que esteve na Eurovisão. Nuno: Todo o processo de encontrar um dançarino foi de loucos. Tínhamos connosco, a Andreia, que estava a dirigir o vídeo. Tínhamos tudo planejado, incluindo a localização e todos os instrumentos para gravar. A questão é que o dançarino que ia atuar apanhou COVID-19 na semana antes do videoclipe. Faltavam quatro dias para gravarmos o vídeo e estávamos sem dançarino. À última da hora, a Andreia conseguiu trazer o João para o projeto, que gostou imenso da música. Fez um trabalho incrível e conseguimos fazer um videoclipe do qual estamos extremamente orgulhosos. Temos de agradecer imenso à Andreia e a toda a equipa de produção. Por fim, gostava muito de saber quais são as vossas principais influências artísticas. Francisco: Como banda, não creio que existam influências essenciais. Mas todos nós estamos individualmente influenciados por grandes figuras. Acabamos por entrar numa conjugação de todas as nossas influências. Nuno: Com The Doors a situação era parecida, todos eles tinham uma experiência musical diversa, mas em conjunto encontravam uma identidade. Creio que é o nosso caso. Francisco: Tenho uma grande influência do pós-punk, como Joy Division. Por outro lado, creio que The Doors define muito a minha abordagem musical. Ainda tenho pelo meio algumas influências aleatórias, como Carpenters. Eu não gosto de criar músicas que estejam despidas de emoção, acho que é destas bandas que surge a minha vontade de lutar contra a esterilidade das músicas. A música tem de trazer vida às pessoas.


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Nuno: Eu e o João temos um gosto praticamente semelhante: gostamos muito de Radiohead e da cena indie e alternativa. Adoro músicas lentas e suaves, o que acho que se adequa muito à banda - como dream pop. O Bernardo, por outro lado, é uma enciclopédia da música. Desafio-te a ires a um gerador aleatório de bandas e experimentares perguntar se ele conhece para perceberes o conhecimento dele. O Bernardo, que por acaso até tem outra banda, está também muito inserido no post-rock e no prog rock, como Emerson, Lake & Palmer, King Crimson e Genesis. Ele tem este gosto pela complexidade e monumentalidade da música progressiva. Diogo: Depende da altura da minha vida, isto tem variado imenso nos últimos anos. O meu background até há uns anos atrás estava muito definido pelo heavy metal. Só em si o conceito é muito abstrato, mas incluo rock pesado, como Led Zeppelin. Ao longo de muitos anos de aprendizagem de bateria este registo tem-me influenciado muito. A verdade é que nos últimos tempos, tenho procurado encontrar coisas mais melodiosas e até mais complexas em termos musicais. Tenho-me afastado do metal e entrado em contacto com Sun Gazer, e em especial, Jim James. O Bon Iver tem um disco chamado 22, A Million que eu acho absolutamente espetacular, mas o seu repertório em geral agrada-me muito. Mas, tal como o Francisco, tenho um ponto fraco por melodias calmas e canções do género “cheesy” da década de 80. Esta capacidade que temos de encontar um ponto em comum de vários géneros e influências diferentes atraiu-me muito para esta banda. Para finalizar, como vai ser o vosso futuro? O que têm em mente? Nuno: Atualmente, estamos a levar as coisas com calma, mas vamos tentando obter as nossas oportunidades e criar música. Creio que o futuro é essencialmente continuarmos a tocar música e a fazer as coisas aos poucos. Os Dream People (pelo menos os três membros que conheci) são um grupo de jovens interessante e com muita energia criativa. Por entre uma conversa agradável e cheia de pequenos desvios à entrevista, com imenso valor para discutir a música prog do José Cid, fui relembrado da potencialidade criadora da nossa geração e da simples beleza de ver um grupo musical a surgir. No dia 12 de março, foi lançado o segundo EP da banda: Almost Young, e os músicos prometem concertos e projetos fantásticos.


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Biblioteca de abril Espelhos

de Eduardo Galeano

Resumo

Título original: Espejos Tradução: Helena Pitta 1.ª Edição: 2018 Nº de páginas: 440 ISBN: 978-972-608-323-8 Disponível em: https://antigona.pt/products/espelhos

“«Volta ao mundo em seiscentos relatos», segundo o autor, Espelhos é uma história universal da aventura humana, uma geografia negra das suas vilezas e um luminoso compêndio da nossa dignidade e coragem ao longo dos séculos. É também um volumoso álbum de família em que espreitam os que não ficaram no retrato oficial — os invisíveis e os sem-voz — e outros que, bem emoldurados, são agora vistos a uma nova luz, sem o photoshop dos vencedores. Neste livro, desfilam eras — da Antiguidade Clássica à Guerra Fria —, acontecimentos — da Suméria a Chernobyl — e, sobretudo, as epopeias de «homenzinhos presos nas engrenagens da era industrial», de povos indígenas espoliados e de vencidos condenados a erguer monumentos aos seus verdugos, bem como a eterna odisseia da escravatura, da opressão das mulheres e da destruição do planeta. Nesta história de que não reza a História, Eduardo Galeano revela-nos, sobretudo, retratos corajosos de desobediência, as insurreições e a grandeza dos mais fracos.” SUGESTÃO DE JOÃO MARTINS

A História da Pide

de Irene Flunser Pimentel

Resumo

1ª Edição: Outubro de 2007 Edição/reimpressão: Fevereiro de 2016 Nº de páginas: 608 ISBN: 978-972-759-956-1 Disponível em: https://www.temasedebates.pt/produtos/f icha/a-historia-da-pide/198364

“Um importante trabalho sobre a nossa história mais recente, a levar-nos aos calabouços da PIDE, aos meandros do poder político, ao lado mais negro da ditadura. A Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), criada em 1945, a partir da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, 1933-1945), e a sua sucessora, Direção Geral de Segurança (DGS), instituída em 1969, constituíram a polícia política do regime ditatorial que vigorou em Portugal até 1974. A PIDE/DGS serviu, por um lado, para intimidar e, deste modo, prevenir a contestação pública ao regime e, por outro lado, para destruir toda a oposição organizada contra o Estado Novo. Na presente obra analisa-se a forma como a polícia política reprimiu todos aqueles que revelavam qualquer dissidência social, política e até religiosa; como se estruturava e quais eram os seus método; quantos e quem foram os detidos políticos; como era a vida nas prisões da PIDE/DGS e o julgamento político nos tribunais plenários; quais eram as relações entre a polícia política e o aparelho judicial político; e, por fim, descreve a forma como a DGS soçobrou no dia 25 de abril de 1974.” SUGESTÃO DE INÊS PINHEIRO


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OS LIVROS DE MARÇO EM REVIEW NALLT

Apesar da situação que assola o mundo atualmente, o universo literário continua a brindar-nos com o seu melhor, lutando para não estagnar. Novos autores fazem o seu nome ressoar, a diversidade continua a emergir, e as editoras portuguesas esforçam-se para nos trazer fenómenos internacionais. De agora em diante, vamos dar-vos a conhecer os novos lançamentos que andam a dar que falar, mês após mês! Hoje deixamo-vos algumas das novidades de março, por ordem cronológica, tanto a nível nacional como mundial. What's Mine and Yours - Naima Coster

Lançado a 2 de março Para começar em grande, trazemos-vos um romance escrito por uma autora Afro-Dominicana-Americana. Este aborda não só uma multiplicidade de temas, como raça, vício, classe social e luto, mas também como os mesmos afetam a vida de várias gerações de duas famílias. É um livro que apresenta personagens tão interessantes e reais que não as conseguimos largar. Um livro do qual cada pessoa pode retirar algo diferente. Um livro que coloca em cima da mesa assuntos sobre os quais devemos discutir mais ativamente. Com o intuito de fomentar alguma curiosidade, eis uma declaração de uma das personagens, "It's only our life if we say so. Otherwise it belongs to them." Avisos de Conteúdo: uso de drogas, luto, bullying, aborto. Klara and the Sun - Kazuo Ishiguro

Lançado a 2 de março O vencedor de um Prémio Nobel da Literatura, Kazuo Ishiguro, lança a primeira obra desde a premiação, e é uma que promete! Com uma protagonista, Klara, que é uma "artificial friend" e observa o mundo a partir do interior de uma loja, à espera do momento em que alguém a escolha, este é um romance que explora questões importantes como: o que faz uma pessoa humana? O que significa amar? Como é que as crenças individuais de cada pessoa podem mudar o mundo? Com temas como solidão, perda e propósito, encontramos um livro que se desenrola lentamente, mas que impacta emocionalmente o leitor. Avisos de Conteúdo: perda, solidão.


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O Rei Perverso - Holly Black

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Lançado a 8 de março Já alguma vez vos aconteceu começarem uma saga de livros e descobrirem que apenas o primeiro está traduzido em Portugal? Pois com O Príncipe Cruel não têm de se preocupar! O segundo volume da trilogia The Folk of the Air saiu este mês, e a publicação do terceiro, e último, está também confirmada. Em O Príncipe Cruel seguimos duas irmãs que são levadas para o mundo dos Fae contra a sua vontade, descobrindo as motivações que regem os poderosos do Reino. Após uma grande revelação no final do primeiro livro, O Rei Perverso está repleto de conflitos, traições, e um romance que ficará para a história. Avisos de Conteúdo: morte, bullying, abandono, rapto, abuso. Heartstopper - Alice Oseman

Lançado a 11 de março O primeiro volume de Heartstopper, a saga de novelas gráficas que apaixonou o mundo inteiro, chegou por fim a Portugal. Abordando temáticas como o amor LGBTQ+ e distúrbios alimentares, é um livro que promete deixar-vos “quentinhos por dentro” e com vontade de abraçar quem vos é próximo. Segue dois adolescentes, Charlie, que foi forçado a expor a sua sexualidade, e Nick, um dos mais populares jogadores de rugby da escola. Conhecendo-se por acaso, acabam por revelar trazer ao de cima o melhor um do outro. Por vezes, por mais sombria que a vida nos pareça, está um caminho de luz mesmo debaixo do nosso nariz. Avisos de Conteúdo: homofobia, bullying, relação abusiva.


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Firekeeper's Daughter - Angeline Boulley

Lançado a 16 de março Ninguém diria que Firekeeper's Daughter é o debut de Boulley pela escrita usada e o mundo rico que criou. Um thriller para jovens adultos centrado numa adolescente, Daunis, que pretende erradicar a corrupção da sua comunidade de Americanos Nativos Ojibwe, de modo a proteger a mesma. Uma leitura cheia de camadas, recheada de momentos tensos, e que lida com diversos temas, desde hockey a homicídios, dando sempre a conhecer ao leitor um pouco mais sobre a Tribo Ojibwe e as suas tradições. Recomendado tanto para jovens como para adultos. Avisos de Conteúdo: uso de drogas, menções a overdose, homicídio, luto, rapto. Segredo Mortal - Bruno M. Franco

Lançado a 25 de março Não podíamos deixar de incluir um lançamento de um autor nacional. Segredo Mortal é a última novidade na nossa lista, mas não de todo a menos importante! Um thriller policial que tem como pano de fundo a nossa querida capital. Esta encontra-se submergida em água naquele que é intitulado o "Desastre de Lisboa", cheias massivas que destroem a cidade e levam centenas de vidas. No entanto, será que foram realmente fruto de um desastre natural? Ou farão parte da agenda de quem está por trás do cenário aterrador que é encontrado na praia? Com uma escrita que apaixona, não nos vamos querer separar dos inspectores Leonardo e Marta. Porém, será que estes vão sobreviver à verdade? Avisos de Conteúdo: violência, homicídio, desastres naturais. Esperamos que estejam tão entusiasmados com estes lançamentos quanto nós! Para saberem mais sobre o mundo literário, existe toda uma comunidade dedicada ao mesmo. Um dos membros do NALLT, a Carolina Duarte, tem uma página no Instagram que se insere nesse universo @lookingforcaarol - dêem uma vista de olhos!

Obrigado e até ao próximo mês!


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UM HINO À LIBERDADE SEXUAL E ESTÉTICA E UM APELO AO RESPEITO Reflexão sobre o livro Foder? – Do que (não) falamos quando falamos de sexualidades?, de Bel Olid DIANA NEVES

Porque é este livro importante? «A ti e a mim, que transformamos em festa o campo de batalha» é a dedicação desta obra de Bel Olid. Publicado em outubro do ano passado pela editora Pergaminho, Foder? – Do que (não) falamos quando falamos de sexualidades?, é a prova do tão pouco que sabemos sobre o sexo, sobre o género e sobre a sexualidade. A democracia promete muitas conquistas, leis e mudanças que nem sempre consegue cumprir. Ou melhor: consegue abrir-lhes espaço, mas as pessoas parecem não o querer expandir. Falta-nos admitir determinados assuntos que já estão empregues na cultura portuguesa. Não acontece tudo lá fora. Cá dentro temos pessoas a precisar de compreensão, pessoas que «fogem à norma», como a autora refere, e que marginalizamos consciente ou involuntariamente. Ainda nos esgueiramos a temas importantes e a problemas sociais que fazem parte da nossa história recente – não história nacional, mas algo que acontece em todas as nações. Em Portugal, determinados temas são ainda tabus (assim, como em muitas culturas nesta sociedade gigantesca que é o mundo). Uns são introduzidos com cautela e há toda uma aura de diplomacia e sensatez no que toca a aprofundá-los.

Com ilustrações fenomenais que transformam as páginas deste livro num museu de arte, e enquanto ainda é um tabu falar de sexo (abertamente) na cultura portuguesa, esta obra peculiar vem abrir portas ao debate e à discussão e, especialmente, ao esclarecimento de tudo aquilo que temos de abordar quando falamos de sexo/sexualidade. Percebemos, ao longo da obra, a genuína (e recente) ambiguidade que desabrocha do termo sexualidade, e de como ainda pouquíssimas pessoas têm a consciência aberta para o desvendar, e ainda mais difícil aceitá-lo. A autora não se acobarda nas palavras, aliás é bastante radical nesse aspeto (ou melhor, direta), e sem pudor ou moralidade, é sincera e concisa, num assunto que assim o exige, para que a consciência coletiva possa esculpir novos caminhos de entendimento e aceitação no mundo.


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Bel Olid é frequentemente aclamada pela crítica e reconhecida em diversos prémios pelos seus romances, livros de contos e livros infanto-juvenis; escreve também vários ensaios sobre questões importantes da atualidade, afirmando-se como ativista e feminista. Colabora com órgãos de comunicação social, é tradutora e professora de tradução em Barcelona. Os capítulos do livro estão especialmente desenhados para desmistificar conceitos e ideias em algo que é puramente mais simples ou em algo que é reveladoramente mais complexo. A aprendizagem que este livro me proporcionou foi das aquisições com maior concretização e emancipação que tive desde que esta pandemia me proibiu de fazer tantas outras coisas. Ainda bem que não me tirou os livros, porque neste momento, são a forma mais próxima de conhecimento empírico que tenho de aprender. Foi uma experiência um tanto catártica ao compreender que o meu conhecimento de alguns assuntos vinha indexado à total ignorância de outros. Foi preciso reconfigurar muitas bases e noções que eu pensava já ter adquirido e dado como certas. E deixem-me dizer-vos que no final nunca me senti mais satisfeita. Um dos pontos positivos de Foder? é levar-nos ao constante questionamento sobre os nossos saberes, o que nos favorece para uma postura crítica, e continuamente curiosa, não só quanto ao tema do sexo, mas que diga respeito a todas as mudanças no mundo, declarando que não devemos nem podemos dar como certa uma matéria ou um saber. Do que fala o livro? De um lado temos a tradição cristã, que reduz o ato sexual à finalidade da reprodução e nos incute a ideia da obrigatoriedade de termos um parceiro com quem nos reproduzir. É muito comum até na comunicação social ou na esfera cinematográfica, dar-se visibilidade a casais monogâmicos (e só heterossexuais – ainda que se esteja a evoluir nesse assunto) e com o único desejo de constituir família. E de outro temos a nossa educação: desde pequenos que nos ensinam que a sexualidade, ou o sexo, é algo íntimo, privado, algo em que até nos devemos conter. Contudo, estamos perante uma cultura hiper-sexualizada, em que somos permanentemente expostos a imagens, vídeos, publicidade, conversas que nos tornam o alvo de uma generalização da sexualização que apela à hegemonia dos «dois sexos» e à restrição da heterossexualidade. Com tantas vozes que nos rodeiam (pais, professores, livros, pornografia, filmes…), Bel Olid critica o facto de não ouvirmos o nosso corpo e o nosso prazer. Há um dogma criminoso que nos prende ao prazer nos genitais, o que banaliza o corpo e reduz o sexo ao ato de reprodução, quando, pelo contrário, o sexo nasce a partir de um desejo partilhado de prazer: esse prazer que advém de diversas partes do corpo que descartamos, ou que nos ensinam a descartar. Esta sacralização dos genitais determina os nossos papéis na sociedade, aquilo que nos é esperado fazer ou como devemos agir, por termos um genital feminino ou um masculino. E isto não se tem alterado, embora tenhamos cada vez mais material ao nosso dispor para libertar o conhecimento e a perspetiva que temos do sexo. Bel Olid confessa preferir falar de sexualidades que, apesar de mais complexas, administram todo um universo de formas pessoais de viver o sexo. Sabemos hoje, ou aprendemos, que estabelecer um sistema binário de sexos (aquele que inclui dois sexos biológicos) está errado. Existem, por exemplo, as pessoas intersexo (e questiono-me o porquê de esta palavra não estar sequer no corretor do word). Desta forma, admite-se que até a ciência que institui o sistema de sexos, se baseia numa construção social que ignora outras questões.


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Algo que fica bem explícito neste livro é a diferença entre sexo biológico, identidade de género, expressão de género e orientação sexual. O ser humano sempre teve a necessidade de criar narrativas para explicar acontecimentos da vida e designar e nomear tudo em categorias e secções para lhe ser mais fácil enfrentar e compreender a realidade. Mas nem sempre essa realidade é aceite, e infelizmente dentro destas categorias, há milhões de pessoas que têm sido discriminadas pela forma como se manifestam na sua sexualidade, o que depois abarca outras áreas da vida. Se um homem fugir à norma social ao vestir uma saia, élogo considerado homossexual: isto prova como possuirmos a genitália de um dos sexos afeta o modo como nos devemos comportar. Um homossexual é, por sua vez, considerado «menos homem». Se chegarmos mais longe, temos de compreender que há pessoas que estão a ser assassinadas devido à escolha de uma identidade e expressão de género e a uma orientação sexual que fuja à norma. O Brasil é um país onde se tem assassinado mais transsexuais em todo o mundo: isto é um ato de opressão à liberdade sexual, à liberdade de expressão e à democracia. Há pessoas bissexuais, transexuais, pansexuais, heterossexuais, homossexuais, assexuais. Qualquer forma de amor é válida, qualquer forma de orientação sexual é válida; mas todos os dias, há pessoas a estrangularem dentro de si, porque cá fora há uma sociedade com milhões de pessoas que não as entendem, que as marginalizam, que as humilham, só porque saem da norma. Estes «rótulos» não são estáveis e podem mudar a qualquer momento. Acima de tudo, qualquer pessoa deve ser encorajada a expressar-se livremente, e a sentir desejo pelo seu igual ou oposto, ou os dois, ou nenhum, sem ser apedrejada pelos preconceitos dos outros e a maldade das culturas. Sendo a maioria dos filmes restritos a casais heterossexuais, e onde há uma romantização – ou talvez degradação – da própria imagem do ato sexual, e sendo a pornografia comercial o pior modelo a seguir – mas seguido por muita gente -, são várias as plataformas e os motivos que Olid menciona e que provam que a maioria das pessoas desconhece o funcionamento, os locais e as possibilidades de prazer do seu corpo e do parceiro/a/s, baseando-se na falsidade daquilo que veem nos sites, nas televisões, no cinema. Não fosse a autora uma mulher, uma parte significativa deste livro foca a vivência feminina na esfera do sexo como vítima de repressão e de restrições: desde há milhares de anos, e desde cedo, é-nos dito onde devemos ir buscar desejo e prazer, ou não. No quarto capítulo, é referido como a disparidade orgásmica, entre idades e entre homem e mulher, é bastante significativa, mas aceite como normal, tendo outros problemas a ela associados. Por exemplo, a mulher aceita que pode não ter um orgasmo durante o sexo – ao ponto de fingir um – enquanto o orgasmo masculino é obrigatório e determina até o fim do ato sexual – quando isso não é bem assim. E, por outro lado, o homem é pressionado a ter uma ereção sob pena de não haver sexo ou prazer partilhado. Esta questão vai muito além do panorama sexual, e mostra como, atualmente, ainda nos submetemos aos papéis tradicionais de homem e mulher, às restrições e às possibilidades que podemos esperar sobre aquilo que podemos sentir e fazer e até reivindicar.


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No quinto capítulo, é mencionado como se normalizou o slut shaming, para envergonhar, humilhar ou desprezar mulheres que exprimam a sua sexualidade, tendo em conta que a feminilidade está associada ao desinteresse sexual, a ter sexo somente por amor e não desejo de prazer e que, no futuro, uma das suas funções seja satisfazer as necessidades do marido e reproduzir-se. Há um conformismo inerente aos hábitos, em vez de procurarmos melhor e querermo-nos desfazer deles. Se focarmos neste caso, às mulheres é esperado contentarem-se com menos prazer, a esperar pelo momento certo para perderem a virgindade (o que para os rapazes é suposto fazerem-no o mais rápido possível), e a desejar constituir família com um parceiro para a vida. De todas estas condicionantes resulta um prazer limitado e uma liberdade ameaçada. Outra fatalidade na imagem da mulher e do seu papel na sociedade referido no livro, é o facto de revistas, filmes, fotografias e até a pornografia mainstream contribuíram para um estereótipo de mulher cada vez mais magra, pálida e quieta/passiva. Isto não só nas relações sexuais como na sua participação no quotidiano social. Se estendermos esta opressão a todas as pessoas, percebemos como tanto homem e mulher, desde a infância, são educados para ter determinados atributos físicos, alguns impossíveis de adquirir, mas que continuam a ser uma exigência da sociedade. Os modelos de beleza são temporais e culturais, mas hoje, estão todos tão obcecados com os cânones estéticos dominantes que se esquecem de cuidar do próprio corpo e perceber o que é melhor para ele e como os fazem sentir. Os corpos têm sido regidos por normas rigorosas, estereótipos controladores, sujeitos a um padrão de beleza hegemónica e utópica. Este processo não é recente, porém, tem nascido um ativismo moderno pela destruição da pressão estética, o que inclui a eliminação da hipersexualização de mulheres negras e a sua visibilidade em meios como a publicidade, o cinema, a moda. Foder? engloba vários estudos na sua pesquisa sobre a atratividade dos corpos, as suas componentes, tendências e razões, e ainda como tudo isto pode ser destruidor de autoestima ou como parceiros afetivo-sexuais veem outras características na pessoa que os atrai mais do que a aparência física. Qualquer prática sexual, sem preconceito, deve, contudo, exigir um consentimento e a livre participação de todas as pessoas que nela intervêm, bem como as condições e as vantagens dessa prática. Para que isto aconteça é preciso haver comunicação entre os elementos e, mais que tudo, respeito. Se juntarmos alguma inovação ao processo, tanto sexo casual se torna mais divertido e respeitador, como relações de longa duração deixam de estagnar e reinventam as suas formas de amar. Uma das vantagens, e alicerces, do livro é ser educativo, e certas páginas tornam-se mesmo panfletos informativos sobre várias destas questões. Três páginas foram dedicadas a explicitar situações em que não há consentimento para uma relação sexual; e quatro páginas listaram uma série de circunstâncias que podem ser sinais de alerta numa relação afetivo-sexual de qualquer duração. Penso que foram das mais importantes da obra. A autora reforça constantemente que qualquer ação sexual que tenhamos com alguém e que não tenha o consentimento e o entusiasmo dessa pessoa, é um ato de abuso, agressão e/ou violação, e nas palavras da mesma: «um delito contra a liberdade sexual». Atualmente, um dos grandes males da sociedade é terse criado uma cultura da violação – o que cria, principalmente, uma masculinidade tóxica – que conscientemente ou não, faz com que pessoas envolvidas em relações não consensuais as achem aceitáveis ou normais. Não são poucos os casos de violação por parte de maridos, amigos, familiares ou pais; de abuso e assédio em locais de trabalho; de adolescentes humilhadas e violadas por rapazes. E no cúmulo da perversidade estão sistemas que não penalizam os violadores, desacreditando muitas das vezes as vítimas e deixando-as sem qualquer apoio.


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CULTURA | LITERATURA

Bel Olid chegou a exemplificar um grupo que acusa as mulheres que não querem ter relações sexuais com os maridos como sendo uma violação dos direitos desses maridos. A autonomia sexual, nesta obra, é elogiada como o caminho ideal para podermos concretizar uma liberdade sexual, em que cada pessoa tem consciência e é responsável pela sua experiência de prazer e pelo seu bem-estar e saúde, tendo sempre em mente a liberdade, os direitos, os limites e o bem estar da pessoa, ou pessoas com quem partilha essa experiência. Desde romper com os tabus sobre os acessórios sexuais, até à formação de uma linha de possibilidades e de aceitação de sexualidades diferentes, é declarado que se deve apostar numa educação sexual mais livre e aberta, no âmbito familiar e escolar – que não se limite a ensinar a usar um preservativo ou a prevenir a gravidez e as doenças sexualmente transmissíveis. Esta educação deve ser implementada e organizada de forma a dar a conhecer, sem preconceitos ou constrangimentos, o coito, as zonas erógenas, as formas de expressão e orientação sexual, e por aí adiante, sendo assim, capaz de ajudar a criar adultos mais conscientes e honestos nas suas escolhas, sem medo de as terem e admitirem, e de ao mesmo tempo manterem a sua saúde sexual. Disto faz parte manter os jovens a par da realidade LGBTQI+. Mas antes disso é preciso que os adultos de agora desconstruam tabus e desmistifiquem mitos e ideias preconcebidas e intolerantes. A rejeição e a ignorância levam ao medo e à repressão, mas a educação e o conhecimento podem levar à sensibilização, à liberdade, integridade e inclusão. A pornografia comercial é cada vez mais visualizada, e por pessoas cada vez mais jovens, influenciando aquilo que aceitamos como desejável ou as práticas que devemos ter, incutindo sobretudo estereótipos errados de sexualidade e de sexo. Uma educação sexual deve desmascarar e desconstruir as cenas construídas na pornografia. Ao mesmo tempo que discriminamos sexualidades e reprimimos relações afetivo-sexuais, o espaço público está coberto de uma hipersexualização nociva e da idealização e mercantilização das relações sexuais. E ao mesmo tempo que se banalizam os encontros sexuais, as relações duradouras sofrem de uma dessexualização viciada. Em todas estas situações, nem o prazer sexual nem o amor estão a ser respeitados ou mesmo valorizados, mas encarados com negligência e falta de proatividade. Isto, se considerarmos, acima de tudo, o quanto se vulgarizou o amor, como acaba tão depressa num polo ou, no oposto, como nos prendemos a um falso amor para a vida. E como a rejeição, em vez de abraçada e descomplexificada, tem sido temida e opressora, impedindo-nos de mudar comportamentos e procurar algo novo e melhor. Por isso, com a premissa de desconstruir preconceitos, mitos e ideias erradas, profundamente enraizadas no dogma social, a obra de Bel Olid vem mostrar vulnerabilidades e opressões, abrir horizontes, oportunidades e mentes, de uma maneira profunda, direta e inteligente. É necessário revolucionar as ideias que rondam a estética, o amor e a sexualidade, e aceitá-la como algo que nos deve dar prazer, sempre exigindo de nós uma responsabilidade sábia e consciente.


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CINEMATECA DE ABRIL Variações (2019)

SUGESTÃO DE RITA SERPA

Realizado por João Maia Com Sérgio Praia, Filipe Duarte e Victoria Guerra Duração de 109 min.

Sinopse: No final dos anos 70, Variações perseguia o seu sonho de se tornar cantor e compositor, apesar de não ter conhecimentos musicais. A persona de António Variações foi a de um artista excêntrico e popular que teve uma carreira fulgurante, precocemente interrompida pela sua morte em 1984.

Capitães de Abril (2000)

SUGESTÃO DE ANA CATARINA TIAGO

Realizado por Maria de Medeiros Com Stefano Accorsi, Maria de Medeiros e Joaquim de Almeida Duração de 125 min.

Sinopse: Um retrato do golpe de Estado de 1974, que derrubou a ditadura de extrema-direita em Portugal. Este foi o primeiro filme realizado por Maria de Medeiros.


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Non, ou A Vã Glória de Mandar (1990)

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SUGESTÃO DE JOÃO MARTINS

Realizado por Manoel de Oliveira Com Luís Miguel Cintra, Diogo Dória e Miguel Guilherme Duração de 110 min.

Sinopse: Episódios que abrangem toda a história militar de Portugal são contados através de flashbacks, pela voz de um soldado português numa colónia africana, em 1973.

Mon Oncle (1958)

SUGESTÃO DE INÊS PINHEIRO

Realizado por Jacques Tati Com Jacques Tati, Jean-Pierre Zola e Adrienne Servantie Género: Comédia Duração de 116 min.

Recomendação: Mon Oncle (O Meu Tio, em português) é um premiado e conhecido filme de um dos maiores nomes do cinema cómico francês. Como personagem principal temos o sempre presente Sr. Hulot (Jacques Tati), que parte numa visita à sua irmã, cunhado e sobrinho. As peripécias, inevitáveis com o Sr. Hulot, surgem pela incapacidade do visitante se adaptar ao modo de vida dos seus familiares, que vivem de forma absolutamente artificial. Quando vi este filme pela primeira vez, retirei dele mais graça do que reflexões sobre a nossa vida, mas agora penso que para além das lágrimas que nos traz aos olhos, também podemos estabelecer um paralelo com a actualidade. Qual a fronteira entre a Liberdade e as Tecnologias?


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RARIDADES DO CINEMA Quarentena Cinéfila - Raridades ANA CATARINA TIAGO E INÊS PINHEIRO

A Quarentena Cinéfila denomina uma iniciativa da Medeia Filmes, em parceria com a Leopardo Filmes, que se iniciou com o primeiro confinamento geral em Portugal, decretado devido à pandemia de COVID-19 que estamos a atravessar. Terminámos recentemente a Parte IV do ciclo de cinema Raridades, que trouxe aos nossos “pequenos ecrãs” caseiros obras cinematográficas de grande envergadura, mas de difícil acesso. Selecionámos aqui dois filmes, que foram exibidos no passado mês de Março, partilhando com os nossos leitores o gosto que temos pelo cinema. Marlen Khutsiev, um cineasta a (re)visitar Inês Pinheiro

O cinema dificilmente se pode conhecer de uma ponta à outra, mas essa impossibilidade faz parte do seu encanto. Não só está em constante desenvolvimento, como não existe um caminho unívoco a percorrer – por mais listas de “filmes a não perder” que façamos. Assim sendo, descobrir novos realizadores é uma das etapas mais estimulantes na nossa construção enquanto amantes da Sétima Arte. Escolhi, de entre um vasto leque de opções, debruçar-me mais demoradamente sobre o filme Chuva de Julho, do realizador russo Marlen Khutsiev. Em primeira instância, este era um nome que me era desconhecido, o que suscitou desde logo interesse e curiosidade.

Chuva de Julho

Iyulskiy Dozhd (Июльский дождь) um filme de Marlen Khutsiev argumento de Marlen Khutsiev e Anatoli Grebnev direção de fotografia de German Lavrov com Yevgeniya Uralova, Aleksandr Belyavskiy, Yuri Vizbor, Aleksandr Mitta e Alla Pokrovskaya Drama · Longa-metragem · União Soviética · 1967 · 107 min.


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Marlen Khutsiev é atualmente considerado um dos maiores nomes da História do Cinema, a nível mundial. Este cineasta nasceu em Tbilissi, na Geórgia, no ano de 1925. Formou-se no VGIK, a escola de cinema de Moscovo, tendo obtido o seu diploma em Realização à data de 1952. O seu repertório cinematográfico não é tão extenso como seria de esperar para um realizador que se manteve no activo até chegar à casa dos 90 anos de idade, mas há uma razão para essa décalage: o interregno foi muitas vezes forçado, nomeadamente por razões políticas. Ao procurar conhecer melhor este realizador, deparei-me com um cenário inesperado: mesmo entre os estudiosos e críticos, o cinema de Khutsiev permanece um “achado”, de tão único que é. O filme Chuva de Julho (1967) foi filmado depois de A Porta de Illych (1962) ter sido retirado das salas e reformulado pela censura, sob o título Tenho Vinte Anos (1965). Numa década de 60 conturbada pelo omnipresente crivo do então Secretário-Geral do Partido Comunista da URSS, Nikita Khrushchev, Marlen Khutsiev viu os seus filmes receberem uma ínfima parte do reconhecimento que mereciam. Chuva de Julho é um filme belíssimo, que alia a irreverência à delicadeza. Encerra em si mesmo um desconforto latente, um pensamento contra-corrente que começava a escapar a pouco e pouco, tendo sido talvez este simbolismo a raiz dos problemas que a longa-metragem enfrentou. Temos extensas panorâmicas, mas também passeios pelas ruas de uma Moscovo curiosa, que está repleta de árvores, carros e elétricos. Uma capital viva, mas intelectualmente automatizada, com centenas de pessoas a andar com um propósito que lhes foi imposto. A câmara dá atenção aos pormenores: os gestos, as expressões faciais, o que fica por dizer nos diálogos e o que esse silêncio realmente significa e nos quer transmitir. O enredo não é claro. De facto, numa primeira visualização trata-se de uma trama ambígua, o que apenas acrescenta ao refinado sentido estético. Começamos com o início do fim: uma chuva torrencial força Lena, a nossa personagem principal, a abrigar-se, conhecendo Zhenya. Testemunhamos, também, o dia-a-dia de Lena, as suas reuniões com os amigos e o seu namorado, Volodya, bem como a sua vivência familiar. Contudo, apelidar a dinâmica de Chuva de Julho de “triângulo amoroso” seria redutor, principalmente porque creio que o filme é um relato individual e esse é um dos aspectos mais inovadores, para a época. Zhenya e Volodya são motores de questões, dúvidas e desencantos, representando um conflito interior entre o desconhecido e a dissimulação familiar. Termino esta reflexão com uma das minhas interpretações sobre este filme. Até que ponto não será Chuva de Julho uma forma de Khutsiev ter racionalizado a desestalinização? As razões estão na obra em si: desde a passagem das ruas apinhadas de pessoas, com os cartazes de propaganda ao fundo, até à soturnidade da noite, onde a ruptura foi entrando em marcha. Mas também estão no cineasta: Marlen é, afinal, a junção dos nomes de Marx e Lenine, o pai do realizador morreu numa purga estalinista e, ainda assim, Khutsiev afirmou numa entrevista, aquando do Lisbon & Estoril Film Festival (LEFFEST), de 2014, que “quando condenaram o culto da personalidade de Estaline, a dessacralização da sua figura traumatizou-me”.


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CULTURA | CINEMA

Marlen Khutsiev faleceu em 2019, mas ainda testemunhou parte do reconhecimento que lhe tem vindo a ser prestado, nomeadamente na supramencionada edição do LEFFEST. Podemos, no entanto, continuar a (re)visitar os seus filmes, pois é isso que torna os artistas imortais. Reflexão sobre o filme Movimento em Falso de Wim Wenders Ana Catarina Tiago

Movimento em Falso Falsche Bewegung

um filme de Wim Wenders argumento de Peter Handke e Wim Wenders, a partir da obra de Goethe, “Wilhelm Meister’s Apprenticeship” direção de fotografia de Robby Müller e Martin Schäfer com Rüdiger Vogler, Hanna Schygulla, Ivan Desny, Marianne Hoppe, Hans Christian Blech, Nastassja Kinski e Peter Kern Drama · Longa-metragem · Alemanha · 1975 · 1h43min. Movimento em Falso é o segundo filme da Trilogia da Estrada, feita nos anos 70 pelo realizador alemão Wim Wenders. Nesta composição de cores quentes e sons nítidos, o jovem Wilhelm percorre a Alemanha, indo de Bonn a Frankfurt e acabando na montanha Zugspitze, em busca de si próprio. Um desejo insaciável de escrever toma-lhe o corpo e leva-o a cruzar-se com artistas de rua itinerantes, neta e avô, uma atriz que avistara na estação de comboios e que reencontra no destino, um aspirante a poeta e um homem solitário e deprimido. Wenders queria retratar a realidade (e fê-lo belissimamente): as pessoas, os sítios, a contemplação do comum. Influenciado pela nouvelle vague e pelas pinturas de Hopper, os seus filmes são poesia pura. O romantismo do séc. XVIII de Goethe não poderia nunca prever uma adaptação ao existencialismo que Wenders projeta numa Alemanha Ocidental cansada e que procurava recentrar-se culturalmente, não sabendo ainda como viver depois do nazismo. O próprio título é curioso: a lentidão que atravessa o filme talvez possa ser explicada pela cautela em não se fazer um movimento em falso que possa deteriorar o destino que, por si só, já não se espera promissor.


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CULTURA | CINEMA

A ideia de viagem pode trazer a noção de controlo aos perdidos, que se lançam estrada fora em busca de uma solução que esperam encontrar no fim, mas há limites para a total transformação da identidade individual. A esta conclusão junta-se a aceitação (algo ambígua) de que não pode ser saudável a negação da nossa existência em comunidade. Ou, quiçá, nos devamos deixar de cair na tentação de encontrar explicações para tudo e passemos a fazer como o realizador nos ensina – e bem: contemplemos, deixemos de pensar em demasia. A compreensão da alma deve ser honesta e não pudemos fugir da eventual brutalidade das conclusões tiradas. Não sei se foram as paisagens lindíssimas, se a fotografia, ou se a banda sonora que incluía Bach, que melhor traduziram o individualismo quase estoico e o afastamento do mundo para encontrar na solidão inspiração para criar. Rapidamente aprendemos que não são precisas palavras quando há sorrisos tímidos e olhares embevecidos. É com frames tirados de livros e espaço para respirarmos o ar da montanha que esta raridade nos toca no espírito e, numa nota menos reflexiva, nos faz querer possuir todo o guardaroupa. Algo que a Quarentena Cinéfila me trouxe, e acredito que a muitos outros também, foi a oportunidade de conhecer Grandes filmes. Capitular aqui a palavra “grandes” é propositado, pois pretende distinguir a “grandeza” corriqueira e frequentemente exagerada, da que encontramos nas obras exibidas neste ciclo de Raridades. Estas últimas pertencem a um cinema mais profundo, de quem vive esta arte como se precisasse dela de forma tão indispensável como o ar que respiram, parafraseando Claude Chabrol. Foi, portanto, com entusiasmo e interesse que desfrutei desta iniciativa, e é com redobrada vontade que aguardo a abertura das salas de cinema, para regressarmos à experiência única no grande ecrã. Inês Pinheiro Foi em março do ano passado que vi o meu primeiro filme do Wim Wenders, graças à maravilhosa iniciativa da Quarentena Cinéfila. Apaixonei-me por Lisbon Story (1994) e rapidamente mergulhei nos restantes filmes que foram sendo postos em exibição. Ganhei um gosto novo ao cinema, assunto que tanto me interessava, mas que tanto desconhecia. Citando Monty Python, “Always look on the bright side of life” e, neste caso, há que agradecer por ter agora a longa filmografia de Wenders na minha vida. Tenho um carinho especial pela luz e pelos tons, pelos diálogos curtos e pelas pausas para apreciar a vista, tendo sido, por isso, um prazer debruçar-me sobre o quente e cru Movimento em Falso. Ana Catarina Tiago


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CULTURA | CINEMA

CRÍTICA AO FILME

ROCKETMAN (2019)

ANA CATARINA TIAGO

Realizado por Dexter Fletcher Argumento de Lee Hall Com Taran Egerton, Jamie Bell, Richard Madden Duração de 121 min. Lançado em maio de 2019 (em Portugal) «Rocketman é mais do que uma biografia de Elton John - é uma desconstrução de quem queremos ser aos olhos do mundo e de quem somos quando ninguém está a ver.»

Elton Hercules John senta-se numa cadeira de uma reunião de Alcoólicos Anónimos e, progressivamente, abre-se para contar como e quando se perdeu, terminando com os olhos num futuro com mais luz. O filme é uma composição de memórias que se interligam por sentimentos misturados. Se, no início, Elton surge exuberantemente mascarado, ao longo da sua história vão desaparecendo os adereços e com eles se extingue o disfarce com que tivera vivido nos últimos anos, enganando-se a si próprio quanto ao rumo da sua vida. Despido da maquilhagem e das lantejoulas, a honestidade crua sobressai e o cantor é confrontado com os seus entes mais queridos, que o relembram da sua importância e do seu propósito. “Quando é que me abraças?”, frase proferida pelo seu eu criança para a figura em que se transformara, é no fundo uma note to self para que não se esqueça de que, mais do que validação externa, é de amor próprio que precisamos e que, muitas vezes, temos as prioridades trocadas. Destruímo-nos por dentro em nome da aprovação dos outros e esquecemo-nos de nós.


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CULTURA | CINEMA

A cena em que, a meio de um dos concertos que Elton dá, os pés do público se levantam no ar traduz a elevação que a música nos pode trazer, sem que mais nada se passe no mundo além dos corpos em movimento e em convergência. Da mesma forma, libertamo-nos quando deixamos de ver o mundo por óculos alheios e quando paramos de exercer sobre nós a pressão para não sermos demasiadamente autênticos. A ideia de que há a possibilidade de afugentarmos os outros com a nossa realidade faznos perder o sentido de identidade. Rocketman apela a que não esqueçamos quem nos ama e a que não deixemos de ser os nossos maiores fãs. Dancemos, então, corredor fora e celebremos a melhor coleção de óculos de sol que o guarda-roupa de um filme já viu!

ROCKETMAN


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CULTURA | TELEVISÃO

CRÍTICA À MINISSÉRIE UNBELIEVABLE (2019) Baseado em factos reais, com interpretações excecionais. JÉNI BARRETO

Minissérie da Netflix · Crime · Drama 1 temporada · 8 episódios · 2019 Criada por Susannah Grant, Michael Chabon, e Ayelet Waldman Com Kaitlyn Dever, Toni Collette e Merritt Wever “ESTA É UMA DAS MELHORES SÉRIES QUE VI ATÉ HOJE.”

A minissérie original da Netflix não poderia ter sido mais bem realizada. Conta com apenas 8 episódios, de uma hora cada, e é inspirada no trabalho jornalístico de Ken Armstrong e T. Christian Miller, vencedores de um Pullitzer. A protagonista é Marie Adler, uma rapariga de 12 anos inserida num programa de apoio ao acolhimento de jovens, que passou por várias famílias de acolhimento até encontrar um estabelecimento de apoio no estado de Washington. Em 2008, Marie reporta à polícia um caso de violação, ocorrido a meio da noite. As autoridades não acreditam nela e acusam-na de ter forjado o ataque. O que leva o violador em série a escapar impune, acabando por cometer o mesmo crime várias vezes nos anos seguintes, sempre em localidades diferentes. Em 2011, duas detetives unem o seu trabalho e pesquisa para apanhar este violador, que iniciou os seus crimes três anos antes. Unbelievable é sobre o trabalho destas duas detectives para chegar à verdade.


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CULTURA | TELEVISÃO

Esta é uma das melhores séries que vi até hoje. Fiquei completamente vidrada do primeiro ao último episódio, não só pelo desempenho dos atores mas também pelos pormenores do enredo que são cuidadosamente explorados e analisados. O contraste entre um polícia que tortura psicologicamente a vítima, acusando-a de falso testemunho, perante a sua incompetência e as duas detetives que recorrem a todos os meios possíveis para apanhar o culpado, não parando um segundo até que este esteja na prisão, são os dois pontos mais fortes da narrativa. Em súmula, o trauma é explorado em profundidade, assim como as mazelas que deixa em cada uma das vitimas.Um 9 em 10 na minha opinião.

Um 9 em 10, na minha opinião.


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CULTURA | TEATRO

O Teatro está à espreita em abril MAFALDA CARVALHAL

O Teatro em Portugal sempre garantiu a sua sobrevivência às condições mais adversas. Vendendo a sua arte a modo de caixeiro-viajante, tornou-se rotina trabalhar a troco de recibos verdes e de meia dúzia de tostões oferecidos pela mão do Estado. Para além do mais, o último ano veio apertar com a já precária situação do Teatro, pelo que agora, mais do que nunca, é crucial apoiar a Cultura e as peças que regressam aos palcos, dia 19, após quase 3 meses de teatros a portas fechadas. Apesar de ser ainda um pouco incerto o que se espera num futuro próximo, principalmente no que diz respeito à organização dos programas culturais, algumas das companhias de maior dimensão já deram notícias sobre os seus planos para abril, por isso, trazemos aqui algumas sugestões para o mês de abril. Freud e a Visita Baseada em Le Visiteur de Éric-Emmanuel Schmitt, o Teatro da Comuna traz ao palco a peça que irá marcar o fim da carreira de João Mota enquanto ator. A peça enquadra-se no contexto da Segunda Guerra Mundial e segue a figura de Sigmund Freud aquando de uma visita inesperada que irá despoletar uma reflexão sobre alguns temas transversais a uma linha existencialista no que se refere à realidade em que a personagem se insere. Schmitt considera de elevada importância a liberdade de interpretação do espectador no que concerne à natureza desta visita e das questões que suscita. Neste sentido, afirma que Le Visiteur se trata de uma peça filosófica, cujo principal propósito é dar a pensar ao mesmo tempo que a sentir. Data: 21 de abril a 30 de maio Local: Teatro da Comuna


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CULTURA | TEATRO

Paranormal 2021 Após o seu êxito em 2007, a peça Paranormal de Miguel Falabella regressa à cena portuguesa no ano 2021. Joaquim Monchique veste mais uma vez as roupagens do Professor Adamastor, uma figura caricata que apresenta uma vocação para as práticas sobrenaturais, nomeadamente, para a encarnação de espíritos. Por desventura, a personagem perde controlo das suas ligações espirituais e o espectador vê-se perante 16 personagens distintas que trazem ao monólogo um forte elemento cómico. A programação de Paranormal 2021, apesar de inicialmente prevista para o mês de janeiro, foi cancelada a partir do dia 15, regressando agora no mês de abril. Data: 21 de abril a 30 de maio Local: Teatro Villaret Catarina e a beleza de matar fascistas Desde meados do século XX que a família de Catarina é herdeira de uma estranha tradição: a de matar fascistas. Embora esta prática se foi cumprindo escrupulosamente durante gerações, no ano de 2028, Catarina recusa-se a matar o seu primeiro fascista. Ao pôr em causa tudo o que está subjacente aos valores e crenças desta família, a peça faz emergir várias questões sobre a natureza da própria justiça, vingança e da forma como ambas, muitas vezes, se tornam difusas. Da mesma maneira, alimenta-se de um conjunto de discussões que atravessam uma realidade onde extrema direita populista está mais forte do que nunca. A nova peça de Tiago Rodrigues toca em diversos pontos transversais à atualidade, levando o espectador a questionar-se sobre a legitimidade (ou não) da violência em determinados contextos e sobre um futuro que, embora hipotético, poderá tornar-se realidade. Ainda que fosse parte do plano inicial trazer Catarina e a beleza de matar fascistas a Lisboa durante o mês de abril, o Teatro Nacional Dona Maria II suspendeu, de momento, a sua programação, afirmando atualizar o seu programa cultural no dia 5 de abril. Data (provisória): 8 a 25 de abril Local: Teatro Nacional Dona Maria II


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CULTURA | MÚSICA

LISTA DE REPRODUÇÃO DE ABRIL

Grândola Vila Morena

de Zeca Afonso SUGESTÃO DE RITA SERPA

Lembra-me Um Sonho Lindo

de Fausto

SUGESTÃO DE JOÃO MARTINS

No Teu Poema

de Carlos do Carmo

SUGESTÃO DE INÊS PINHEIRO

É Apenas Fumaça - Margarida Tengarrinha sobre a vida na clandestinidade

Episódio do podcast Fumaça SUGESTÃO DE ANA CATARINA TIAGO


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Sossego TOMÁS GIRÃO

Tudo o que quis na vida foi procurar-lhe um sorriso, dar a conhecer neste livro a necessidade que preciso: Dar asas ao coração tímido, que esconde nas letras o choro, as alegrias e os gritos de revolta dum pequeno e simples miúdo, Outrora de cabelos encaracolados como as sossegadas ondas do mar, que não só trazem a paz mas os sonhos além deste pedaço de terra ou de ar. Do Mississípi aos campos da Escócia, sou dono da minha eterna liberdade, que paira sobre o sol de Lisboa e a harmoniosa pacatez sertaginense. A vida é curta e no que puder quero vivê-la ou escrevê-la do modo como sei: satisfeito e grato por ela.

POESIA


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POESIA | PROSA POÉTICA

Eletrões de Sangue GUILHERME LIDON GUERRA

Ela não sabe o que é o cinema de rostos nus e caídos nos braços, não sabe o poema líquido nos cantos da boca, não sabe a bela agonia em pontas da dança do cisne, não sabe a escultura despida em todas as estações, não sabe o universo de tempo derretido que é Dalí nem o cachimbo que não é um cachimbo. Talvez até saiba os cálculos, mas jamais o impulso de desafiar as leis do pesar sem cair de um Pavilhão de Portugal - ah como não sabe - como não sabe o que é o Cinema Paradiso de Morricone invadir a divisão e pegar em cada nervo seu, levando cada um a um canto diferente deste mundo — e ter consciência disso — ela... Ela é a censura do sensível, a morte dos sentidos na espuma redundante dos olhos salgados e a arder. Quando vigia, a lágrima não nasce, as faces enrijecem e racham sem ruir. Passamos a ser estátua fixa em vez de escultura viva. Ainda assim, mesmo de pedra, seremos melhores que ela. A máquina não tem como saber. A máquina corta os beijos e a nudez dos contornos. E eu gosto das máquinas, não das pessoas que as julgam sonhadoras.


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VAI À JANELA RESPIRAR... JOÃO MARTINS

Tive uma boa ideia! Eureka! Há que a materializar: pego na caneta e, incompleta, uma ode surge a flutuar! Mau princípio, péssima tara... “Pensar, Desejar, Escrever” Rotina infame que não pára de lentamente me corroer. Bom seria se, no momento, em vez de me atirar em vão ao fero e ingrato sentimento conseguisse dizer só: NÃO! Travava-se a desilusão por demais garantida a quem produz, no sonho da paixão, má prosa e versos muito aquém...

POESIA


31/03, 21H ZOOM

GAME TIME! WE HAVE PREPARED A FUN NIGHT OF GARTIC PHONE AND QUIZZES! ALL YOU HAVE TO DO IS SIGN IN A TEAM WITH 2 FRIENDS AND SHOW UP! Yes, the winning team will get a prize!


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Receitas

DIANA NEVES

Pão de Abóbora

INGREDIENTES

1 abóbora de pescoço (aproximadamente 260 g); 1 ovo; 2 colheres de sopa de açúcar; 1 colher de chá de sal; 4 g de fermento; 400 g de farinha; 30 ml de óleo vegetal; Sementes de sésamo.

P R E P A R A Ç Ã O

1. Descasca a abóbora e corta-a em fatias finas. 2. Cozinha a abóbora numa panela com água a ferver durante quinze minutos, com o tacho tapado. 3. Escorre a água e coloca a abóbora numa tigela, esmagando-a com um garfo. 4. Adiciona o ovo, o açúcar, o sal e o fermento e vai amassando até o fermento se dissolver. Depois adiciona a farinha e o óleo, e amassa mais até ter uma massa uniforme. 5. Cobre a massa com um pano e deixa-a crescer até, pelo menos, duplicar de tamanho. 6. Sobre uma superfície enfarinhada, abre bem a massa e faz um rolo. 7. Corta o rolo em pedaços, formando com eles uma bola cada um, e cobre essas bolas com película aderente por 30 minutos. 8. Faz um pequeno buraco em cada bola de massa e insere lá as sementes de sésamo. 9. Podes fritar os pãezinhos numa panela tapada ou então irem ao forno até dourarem.

Quiche de Tomate com Rúcula

INGREDIENTES

1 base de massa quebrada; 300 g de tomate de lata em pedaços com ervas; 1 cebola; 100 g de queijo flamengo; 4 ovos; 3 dl de leite; 3 colheres de sopa de azeite; Sal e pimenta a gosto.

P R E P A R A Ç Ã O

1. Numa frigideira, aquece o azeite e aloura a cebola. 2. Adiciona o tomate com ervas e deixa refogar. 3. Junta o queijo em cubos e retira do lume. 4. Num recipiente à parte, mistura os ovos e o leite e tempera com sal e pimenta. 5. Numa forma própria para tartes, forra com a massa e pica o fundo com um garfo. Verte o preparado do tomate com queijo e de seguida com a mistura de ovo e leite. 6. Vai ao forno pré-aquecido a 190ºC durante, aproximadamente, 45 minutos. 7. Deixa a quiche dourar e serve-a com rúcula.


Para passares o tempo...

Vertical:

1. Cantautor que se referiu ao 25 de Abril nos seguintes termos: "Foi bonita a festa, pá / Fiquei contente". 2. Abril trouxe a ... a um país que não a conhecia há muito. 3. Depois da Revolução bem-sucedida, o país ficou a cargo da Junta de ... Nacional. 5. Chefe do Estado Novo, deposto a 25 de Abril de 1974 - ... Caetano. 6. Muitas foram as ruas de Lisboa bloqueadas por este icónico carro blindado, construído pela Bravia.

Horizontal:

4. Flor que se imortalizou como símbolo da liberdade e de Abril. 7. "Grândola, Vila Morena" (de Zeca Afonso), segunda canção-sinal das operações do MFA, foi transmitida às 00:20h na Rádio ... 8. Capitão de Abril representado numa das paredes exteriores do campus da FCSH (Av. de Berna) - ... Maia.


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NOVA em Folha l Abril 2021 by AEFCSH NOVA - Issuu