Skip to main content

NOVA em Folha | Dezembro 2020

Page 1

Capa


FOTO DE CAPA

Autoria de Maria Antónia Dale antonia-dale4@hotmail.com

NOTAS A ado(p)ção do acordo ortográfico em vigor é uma decisão individual pel@s membros da equipa, redacção e colaborador@s . Após a revisão completa do material pela equipa editorial, o conteúdo e a versão final dos conteúdos são da responsabilidade e exprimem somente o ponto de vista d@s respectiv@s autor@s.

ESTE JORNAL É IMPRESSO EM PAPEL 100% RECICLADO.


nova em folha dezembro 2020

Direção

Redação

Colaboradores

Edição Gráfica

Inês Pinheiro João Martins Rita Serpa

Beatriz Cabanilhas Beatriz Mateus Daniel Borges Diana Neves Francisca Dias Francisco Nunes Inês Pinheiro

Joana Freitas João Martins Liliana Marques Manuel Pinto Pedro Fernandes Rita Serpa

Ana Sofia Malheiro Andreia Galvão Francisco Azevedo Guilherme Limas Machado Maria Maia Maura Francisco

NARQ Patrícia Vergamota Raquel Reis Samuel Nobre Tiago Pinto Tomás Girão

Beatriz Cabanilhas Francisca Dias Joana Freitas Liliana Marques Rita Serpa

NOTA Gostas de escrever? Queres ver as tuas reviews, receitas, bitaites, histórias, crónicas, etc.. num jornal d@s estudantes para @s estudantes? Envia-nos as tuas propostas até ao dia 20 de cada mês e participa nas nossas edições mensais! Ficamos à tua espera!

Jornal NOVA em Folha | Edição de dezembro 2020 Impressão: 150 cópias | Distribuição mensal e gratuita novaemfolha.ae@fcsh.unl.pt

FICHA TÉCNICA

@novaemfolha.ae

@novaemfolha.aefcsh

Já se gues NOV o A em F o no In lha stag ram?


NOVA EM FOLHA

P1

AEFCSH

AE em folha MARIA JOÃO FALCÃO Na continuação das iniciativas realizadas em Outubro, no mês de Novembro a AEFCSH dinamizou, nos dias 14 e 15, a segunda edição do festival online A Esplanada em Tua Casa, organizou a Semana da Saúde e Ambiente de 16 e 20 de Novembro que contou com palestras online e visualização de vídeos sobre o tema da sustentabilidade e apoiou a realização da III Feira de Núcleos, realizada em formato online, permitindo aos novos alunos conhecer os vários núcleos da faculdade. Neste mês houve ainda o lançamento da iniciativa D’Arte, que pretende dar a conhecer artistas e projetos da comunidade estudantil. Foi criado o server de discord da AE, onde os gamers da FCSH se podem conhecer e conviver, tendo este sido essencial para a dinamização do torneio de League of Legends onde participaram várias equipas. O mês de Novembro foi também um mês de lutas, tendo sido realizadas pela AEFCSH duas concentrações: uma na Avenida de Berna, mesmo em frente à faculdade, que contou com cerca de 50 estudantes, no âmbito da campanha Náufragos do Ensino Superior, que protestou face às dificuldades vividas pela comunidade estudantil da FCSH no início do ano lectivo agravadas pela pandemia, e face à falta de condições materiais na faculdade, nomeadamente espaços de estudo; outra

concentração teve lugar em frente à Assembleia da República, contando esta com o apoio

da AEFLUL, da AAFDL e AAUL e onde compareceram cerca de centena e meia de estudantes do Ensino Superior, sob o lema O Futuro Está em Risco. Esta ação visou protestar contra a falta de financiamento público no Ensino Superior e os problemas daí provenientes, ao qual o Orçamento de Estado para 2021 não dá resposta. Em contexto pandémico agravaram-se, em função da crise económica, problemas e discriminações sentidas pelos estudantes: o pagamento de propinas, taxas e

emolumentos;

a

profunda

escassez

de

residências

públicas;

a

falta

de

espaços

de

estudo

adequados para as necessidades dos estudantes, entre outros. A FCSH entrou no mês de Dezembro a meio da campanha das três listas candidatas aos órgãos sociais da

AEFCSH, sendo estas a lista A, a lista I e a lista R, tendo-se procedido à votação das

mesmas nos dias 3 e 10 de Dezembro, onde a lista A acabou por sair vencedora em todos os órgãos: obtendo 56% dos votos na eleição da Mesa da RGA e 59% na Direção e conseguindo, através do Método de Hondt, eleger o seu primeiro e segundo candidatos para a composição do Conselho Fiscal (onde obteve 58% dos votos), que ficaram com o cargo de Presidente e VicePresidente. Contando com 22% dos votos, a lista R elegeu ainda o seu primeiro candidato, ficando este com o cargo de Secretário do Conselho Fiscal. No dia 9 de Dezembro realizou-se mais uma sessão das Jornadas de Saúde Mental no Ensino Superior, em colaboração com o PsII e no dia 16 ocorreu a tomada de posse dos Representantes dxs Estudantes no Conselho Geral da Universidade Nova eleitos, onde a FCSH passou a contar com uma representante, a estudante Joana Freitas.

fica atent@ às redes sociais da ae para não perderes nenhum evento! @aefcsh.unl

@aefcsh.nova


NOVA EM FOLHA

P2

NOTÍCIAS

novidades fcsh Opções Livres de 2º Semestre Enriquece o teu currículo com a participação em projetos de investigação ou unidades curriculares que te dão outra perspetiva e competências. As inscrições para as UC’s do 2.º semestre decorrem de 5 a 13 de janeiro de 2021 e podem ser realizadas no Inforestudante. A escolha destas opções, listadas no site da faculdade, está sujeita à aprovação pelos coordenadores dos cursos.

Questionário Curricular - 1º Semestre Está já disponível o Questionário sobre as Unidades Curriculares de 1º Semestre, que podes realizar no Inforestudante, ou aceder a partir do site da faculdade. A tua opinião é fundamental para aferir o grau de satisfação dos estudantes e melhorar os processos de ensino, ajudando os docentes, a Comissão para a Avaliação do Ciclo de Estudos e o Conselho Pedagógico a identificar os pontos positivos e os aspetos que devem ser ajustados. Preenche-o e deixa saber o que mais gostas e o que mudavas na FCSH!

Catálogo de merchandise da AEFCSH O catálogo de merchandise da AEFCSH já está disponível! Podes adquirir t-shirts, sweats, hoodies, palhinhas reutilizáveis, tote bags, discos desmaquilhantes reutilizáveis, ecocinzeiros e muito mais! Consulta o catálogo nos destaques do Instagram da AEFCSH (@aefcsh.nova)!

Acesso Aberto na Comunidade FCSH O Grupo de Trabalho para a Ciência Aberta da NOVA FCSH preparou um questionário que visa avaliar o conhecimento e práticas de Acesso Aberto, a fim de responder de forma adequada às necessidades de informação e formação da comunidade. O preenchimento do formulário é anónimo e leva cerca de 15 minutos e será possível até dia 18 de janeiro de 2021. Deixa o teu contributo em: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSeMIyqnFhoAysR1Klb08fOBKbn89UWa 55k8rPMoprYWV_FjNg/viewform

Bolsas Santander COVID-19 A NOVA FCSH, em parceria com o Santander, iniciou um programa de apoio a estudantes de licenciatura e de mestrado cuja situação tenha sido gravemente afetada pela pandemia e que, por essa razão, considerem não dar continuidade aos seus estudos. Serão atribuídas bolsas para dívidas referentes ao ano letivo 2019/2020 e para pagamento de prestações das propinas do ano letivo 2021/21 - consulta os valores e datas consideradas no site da faculdade. O período de candidaturas tem início no dia 4 de janeiro e termina a 4 de fevereiro de 2021. As informações sobre critérios de elegibilidade e seriação, documentos necessários à candidatura e procedimentos estão disponíveis na Intranet.

Cursos de Ano Novo A começar a 11 de janeiro, serão disponibilizados 35 cursos de 25 horas propostos por professores e investigadores altamente qualificados da NOVA FCSH - consulta a lista publicada no site da faculdade. Procuram ir ao encontro das expectativas do público a que se destinam, podendo integrar quer um projeto de formação contínua, quer um suplemento educacional.

lembrete Sabias que foi a AEFCSH a colocar à venda, por um preço de estudante, copos menstruais na NOVA FCSH? Através da parceria com a MeLuna, disponibilizamos uma alternativa saudável, ecológica e segura!

falta alguma coisa? envia as informativas edição!

tuas propostas para a próxima


P3

NOVA EM FOLHA

novembro/ dezembro em resumo 3 de novembro - Eleições presidenciais NorteAmericanas Após a vitória do ex-vice-presidente dos Estados Unidos Joe Biden nas eleições, foram rápidas as acusações de fraude eleitoral por parte dos apoiantes e da campanha de Trump. Foram desde logo intrometidos vários pedidos de recontagem e ações legais ao nível estadual e federal. Uma a uma, no entanto, essas iniciativas foram confirmando o inevitável: as eleições ocorreram regularmente e Joe Biden foi o justo vencedor. Depois do Supremo Tribunal da Pensilvânia recusar a rejeição dos votos por correspondência, foi o Supremo Tribunal Federal a dar o golpe final, ao recusar ponderar uma iniciativa texana que alegava inconstitucionalidades na forma como o poder executivo alargou o voto por correspondência no Wisconsin, Michigan, Pensilvânia e Georgia, estados-chave que asseguraram a vitória de Biden.

4 de novembro - Conflito na Etiópia Após anos de tensão, agravada pela pandemia, estalou o conflito na região de Tigray, opondo o governo de Abiy Ahmed, Nobel da Paz em 2019, e os separatistas da Frente Popular de Libertação de Tigray (TPLF), durante duas décadas a força dominante na política nacional. O governo declarou vitória, mas vários focos de resistência continuam acesos. Os jornalistas, impedidos de entrar na zona de combate, têm assistido “à distância”. Já a ajuda humanitária aos milhares de refugiados resultantes da “guerra civil”, só pôde passar a partir de 12 de dezembro e apenas para as áreas controladas pelo governo.

30 de novembro - Lei policial em França Depois de grandes manifestações e contestação popular, o parlamento francês deixou cair um projeto de lei que proibia (com multas de milhares de euros) a filmagem de polícias em ação “com a intenção deliberada de os prejudicar” fora de serviço. Os receios de que o diploma facilitasse a violência policial excessiva frustraram o que se tem interpretado como uma tentativa do Presidente Macron para reunir apoio eleitoral na direita.

3 de dezembro - Desmantelamento democrático Em Hong Kong assistiu-se, no final do mês de Novembro e início de Dezembro, ao desmantelamento da rede pró-democracia, com as prisões de Joshua Wong, organizador das manifestações, Ivan Lam e Agnes Chow. O “partido” democrático encontra-se assim num aparente beco, com o cerco de Pequim fechando-se cada vez mais sobre a cidade.

8 de dezembro - Vacina contra a COVID-19 A primeira injeção contra o SARS-CoV-2 foi administrada no Reino Unido, seguindo-se a aprovação do regulador americano e da União Europeia. Nesta última, os planos de vacinação indicam 27 de dezembro como data de início da inoculação. Portugal começará em janeiro, sendo a vacinação gratuita, universal e facultativa: https://www.sns.gov.pt/noticias/2020/12/04/plano-devacinacao-contra-a-covid-19/. Entretanto, a COVID-19 atingiu uma estação de pesquisa chilena na Antártida, sagrando a sua presença em todos os continentes do globo.

Brexit: impasse ou renegociação? Após quatro anos de negociação, a União Europeia (representada pela Presidente da Comissão, Ursula von der Leyen) e o Reino Unido alcançaram um acordo comercial para substituir o elo económico comunitário entre os 27 e o ex-membro. Parafraseando Churchill, não é ainda o fim, nem mesmo o princípio do fim, mas talvez seja o fim do princípio (do Brexit). Antes de mais, Boris Johnson terá de fazer passar o plano pelo Parlamento britânico.

NOTÍCIAS


P

NOVA EM FOLHA

NOTÍCIAS

Our Future of Change RAQUEL REIS

Duas estudantes de 17 anos iniciam um movimento global, liderado por jovens, contra o tráfico humano, que recruta 300 embaixadores de mais de 30 países

As estudantes do último ano do ensino secundário da escola de Sturgis West em Massachusetts, Lauren Bridgwater e Abigail Jones, tinham a certeza de que queriam fazer a diferença durante a quarentena, mas nunca esperaram que as suas vozes alcançassem cerca de 300 comunidades em 30 países por todo o mundo. Lauren e Abigail começaram a aprender sobre o anti-tráfico por meio do Her Future Club da sua escola, que angaria fundos para apoiar a Her Future Coalition na sua missão de fornecer programas de reabilitação, educação e emprego para sobreviventes de tráfico humano na Índia. Os esforços do clube culminaram, no seu penúltimo ano do ensino secundário, com uma reportagem no CNN Internacional para o My Freedom Day: um evento que teve lugar no dia antes da sua escola ter fechado inesperadamente para o resto do ano. As estudantes juntaram-se e fundaram a Our Future of Change: uma vertente global da Her Future Coalition, liderada por jovens, com o objetivo de educar alunos em todo o mundo sobre a prevalência do tráfico humano e incentivá-los a envolverem-se na lutra contra o mesmo. Desde Maio de 2020, a Our Future of Change recrutou uma equipa de 300 embaixadores em 30 países e angariou cerca de $3.000 para apoiar os programas da Her Future Coalition. Our Future of Change tem representates nos Estados Unidos da América, Canadá, Marrocos, Itália, Bangladesh, Índia, Turquia, Paquistão, Vietname, Emirados Árabes Unidos, Inglaterra, Portugal, Brasil, Tunísia, Jordânia, Filipinas, Qatar, França, Quénia, Alemanha, Nigéria, Indonésia, México, Malásia, Sri Lanka, Albânia, Uganda, Myanmar, Coreia do Sul, África do Sul e Gana. Os embaixadores assumem uma grande variedade de funções: planeamenteo de eventos e angariação de fundos, redação de artigos, design de imagens para promoção de eventos e divulgação, para encorajar mais estudantes a aderir ao movimento contra o tráfico humano. «Our Future of Change abriu-me os olhos para a questão do tráfico humano e permitiu-me ficar mais consciente do mesmo na minha própria comunidade. Antes da OFOC, eu estava ciente deste problema, mas era ingénua em como isso impacta a minha própria cidade e estado. A Carolina do Norte e a cidade onde vivo experienciam enormes problemas com o tráfico de pessoas, sobre os quais eu não fazia ideia. OFOC educou-me sobre este assunto e ofereceu-me maneiras de ajudar em primeira mão. Esta tem sido não só uma experiência educacional, mas também uma que me permitiu conectar com tantos outros indivíduos apaixonados pela causa e que estão a trabalhar para o mesmo objetivo! Em geral, a OFOC teve um impacto positivo não só em mim, mas em muitos outros e, por isso, estou muito grata por fazer parte desta organização!» - Madison Smith, Embaixadora da OFOC da Carolina do Norte, EUA. As co-fundadoras Abigail e Lauren planeiam expandir este movimento para unir mais estudantes e inspirá-los a fazer a diferença. Para mais informações, visite-nos em ourfutureofchange.org, ou envie-nos um email para ourfutureofchange@gmail.com. Para marcar uma reportagem, ou entrevista, pode também contatar-nos através do número 774-238-0440 ou 508-918-8105.


NOVA EM FOLHA

P

NOTÍCIAS

Os Media vs o Povo em Angola MAURA FRANCISCO

A cobertura da manifestação contra o desemprego, que terminou em tragédia, foi motivo de uma grande controvérsia para os telespectadores angolanos que, apesar de pode ser devido ao agravamento e agitação por parte do povo manifestante, se deve à duplicidade da narrativa entre o povo angolano e a forma como o evento acabou por ser moldado pela Televisão Pública de Angola (TPA). Perante o pico da pandemia do Coronavírus, o povo de Luanda extremamente reivindicativo e no desespero de ter a sua voz ouvida no sábado, 24 de outubro, mobilizou-se numa manifestação agitada contra os grandes níveis de desemprego e o elevado custo de vida no país. Angola vive, desde o ano de 2014, até ao presente dia, uma crise económica e financeira devido à queda das exportações de petróleo. Apesar da promessa de um ciclo económico de crescimento, feita pelo presidente João Lourenço eleito em 2017, o povo angolano sobrevive com um salário mínimo de 21 454,10 kwanzas (60 euros mensais) assim como com preços exorbitantes, até para os produtos mais simples e necessitados.

A taxa de desemprego angolana em 2019 era de 31,8%, com uma estimativa de 4 milhões de angolanos desempregados. No contexto pandémico de 2020, houve um acréscimo de 4% nesta tax,e o número de desempregados eos custos de vida só têm aumentado. O desespero da população, ao viver a falsa promessa de uma Angola melhor, levou à manifestação do dia referido, mas pouco pode dizer-se da receção e atendimento às necessidades do povo. “Jovens da UNITA provocam arruaça e destruição de bens públicos” marcaram os headlines da Televisão Pública de Angola. O desespero de um povo foi intitulado como um ato de desordem, o caos da necessidade de autossustento como rebeldia contra o mandato de proibição de ajuntamentos de mais de 5 pessoas, devido ao contexto da pandemia. É inquestionável a importância da imparcialidade dos media para uma democracia. Onde os media moldam os acontecimentos a favor do interesse político, é impossível os telespectadores terem uma noção concreta da realidade. Após vários feridos e alegadas mortes, a cobertura televisiva não só secundariza a causa, como montou e incentivou a marginalização das vidas perdidas na tentativa de dar sua a voz.


P

NOVA EM FOLHA

A narração de factos e o jornalismo investigativo esperado foi substituído por uma narrativa alternativa, e de pouca sensibilidade, para os milhões de jovens desempregados, que enfrentam não só a pandemia do coronavírus, mas também a falta de meios de sobrevivência. A reportagem inclui entrevistas aos condutores nas estradas, impedidos de guiar por causa do ajuntamento da população na rua, que não estão a par da situação, mas falha em dar voz aos manifestantes e em representar a reivindicação do povo juvenil recém-formado ou desmotivados para tal. Foram detidos cidadãos, e também jornalistas, enquanto exerciam a sua profissão, a quem a Polícia não só apagou imagens captadas da manifestação, como os submeteu a agressões (Maka Angola, 2020). A liberdade de imprensa, por direito, garante a liberdade, que não pode ser sujeita a qualquer tipo de censura prévia, quer política, ideológica ou artística. É relevante destacar a importância da liberdade no sector comunicacional, para que se possam tomar decisões livres, motivadas pela ética jornalística e não pela censura policial e política. O papel das emissoras nacionais é cada dia mais desvalorizado, quando não se sabe se o que se recebe é a verdade, ou simplesmente o que o povo deve acreditar, como nos tempos mais remotos de ditadura. As redes sociais, como o Twitter e o Instagram, têm-se tornado fontes de maior confiança em Angola, para os jovens. João Lourenço (Presidente de Angola) no discurso de vitória às eleições políticas em 2017: “Vamos corrigir o que está mal e melhorar o que está bem”

NOTÍCIAS

Como pode um país melhorar o que está mal, quando não é recebida a voz do povo concernente às suas necessidades e descontentamentos? Como pode um país melhorar o que está mal quando o interesse político é maior que a voz do cidadão? Quanto mais quando a sua voz é marginalizada pelas emissoras nacionais. Fontes: https://www.makaangola.org/2020/10/statementon-the-violation-of-pressfreedom/https://www.jornaldenegocios.pt/economia/ mundo/africa/angola/detalhe/angola-aumentasalario-minimo-garantido-em-30-para-60euroshttps://observador.pt/2020/08/14/desempreg o-em-angola-sobe-para-327-no-segundo-trimestrede2020/https://www.instagram.com/tv/CGveexHDD0V /? igshid=ec6u96gyenm9https://www.portaldeangola.c om/2020/10/26/movimento-ameaca-voltar-as-ruasse-houver-julgamento-de-manifestantes-detidos/


P

NOVA EM FOLHA

NOTÍCIAS

Presidenciais de Janeiro FRANCISCO NUNES

Já são conhecidos todos os candidatos a Presidente da República. As eleições decorrerão no dia 24 de janeiro de 2021, e a maioria já iniciou ações de campanha, entrevistas e algumas trocas de acusações. Eis os seus percursos profissionais: Ana Gomes

Ex-diplomata e ex-eurodeputada. Liderou a missão diplomática portuguesa durante o processo de independência de Timor-Leste. Foi eleita deputada ao Parlamento Europeu nas listas do Partido Socialista em 2004, tendo sido reeleita por duas vezes.

andré ventura

Deputado-único na Assembleia da República eleito pelo Chega, partido que fundou. Foi militante do PSD, tendo sido inclusivamente cabeça-de-lista do partido em Loures para as eleições autárquicas de 2017.

joão ferreira

Deputado ao Parlamento Europeu desde 2009, eleito pela coligação CDU. Em 2013 e 2017 foi também cabeça-de-lista da CDU para as eleições autárquicas em Lisboa, ocupando atualmente as funções de vereador.

marcelo rebelo de sousa

Atual Presidente da República, eleito em 2016. É professor catedrático de Direito e presidiu o Partido Social Democrata entre 1996 e 1999. De 2005 a 2015 obteve grande notoriedade enquanto comentador político, primeiro na RTP e posteriormente na TVI.

Marisa Matias

Deputada ao Parlamento Europeu desde 2009, eleita pelo Bloco de Esquerda. Em 2005 foi cabeça-de-lista do BE para as eleições autárquicas em Coimbra. Candidata-se à Presidência da República pela segunda vez, tendo obtido 10,12% dos votos em 2016, o que fez de si a mulher mais votada de sempre para o cargo.

tiago mayan Gonçalves

Advogado e co-fundador do partido Iniciativa Liberal. Tem realçado o facto de não se considerar um político profissional como um dos principais argumentos da sua campanha. NOTA: aquando da redação desta notícia (26 dezembro 2020), eram somente estes os candidatos às presidenciais. Posteriormente juntou-se também Vitorino Silva (Tino de Rans) à corrida.


P

NOVA EM FOLHA

CRÓNICAS

A Atualidade do Movimento Estudantil GUILHERME LIMAS MACH ADO

O que se entende por Movimento Estudantil - uma organização política e social da massa de estudantes universitários e/ou básicos - possui uma história de relevantes vitórias no sentido da reivindicação de direitos, da luta contra as injustiças sociais e económicas e até de resistência contra regimes autoritários. Os exemplos são diversos: o maio de ‘68 consiste na jóia da historiografia dos movimentos sociais e estudantis, quando milhares de estudantes no mundo inteiro - desde as ruas de Paris, aos auditórios de Coimbra e às cantinas académicas do Rio de Janeiro - se ergueram contra um mundo que, de facto, não era seu. Uma ordem económica que excluía milhões e uma hegemonia cultural e moralista do pós-guerra que impedia o progresso mental e social tão explosivo dos campi universitários. No nosso país, podemos passar serões a descrever de que forma é que a aliança entre o MFA e a população entre 1974 e 1976 culminou naquele que foi um dos movimentos sociais mais organizados e coesos da História. Mas, nos momentos turbulentos do PREC, era nas fileiras de estudantes universitários que se encontravam os mais fervorosos militantes antifascistas de vários lados do espectro político. Na verdade, durante a História Contemporânea, é difícil encontrar um único movimento social ou período de revolta contra as instituições durante o qual a vanguarda não tenha incluído estudantes universitários organizados politicamente. Até na França feudal e nos anos da Revolução, os escassos universitários parisienses organizaram-se politicamente na luta contra o Antigo Regime.

Existe um certo romantismo na descrição e lembrança dos momentos de glória dos movimentos estudantis. Porém, não obstante as conquistas do passado, é necessário que seja concebida a situação real e objetiva do estudante nos dias que correm no nosso país e no mundo. As propinas existem e permanecem como uma imposição do lucro e dos interesses privados à educação universal e democrática. Se há um preço, por mais residual que seja, para aceder ao Ensino Superior, este não se pode dizer democrático nem inclusivo. Colocar qualquer forma de preço na educação (que é garantida a todos os cidadãos portugueses na Constituição) consiste em aceitar e compactuar com uma mercantilização da formação do indivíduo. Ou seja, ou nos deparamos com uma completa deturpação dos valores democráticos, ou “o cidadão” que tanto ouvimos falar nas instituições políticas do nosso país não se refere simplesmente a quem possua um Cartão de Cidadão, mas sim a uma classe privilegiada. Entretanto, não apenas em Portugal, mas em vários países do mundo, a educação é tratada cada vez mais não como um serviço essencial, mas sim como um negócio. O estabelecimento do RJIES e, mais tarde, do modelo fundacional para as faculdades possui consequências e implicações profundas na educação universitária, começando por aquilo que consiste na gradual perda de autonomia da Faculdade como instituição pública e a transferência dos seus órgãos para as mãos de interesses externos e privados, como se vê a acontecer em Faculdades que diminuem a presença de alunos no Conselho Pedagógico para números residuais e preenchem as vagas com personalidades externas ligadas à banca e empresas, cuja influência no quotidiano da Faculdade cresce cada vez mais. O processo de alheamento dos estudantes e docentes dos órgãos de gestão em prol da concentração de poderes no reitor e em estruturas hierárquicas de organização tem também o efeito de alienar a grande massa de estudantes da gestão do seu espaço de estudo. Se num país em crise há problemas com a gerência pública das instituições de Ensino Superior, não será a sua gradual colocação e orientação para setores privados que resolverá os problemas internos ao Ensino. Apenas uma Faculdade gerida pelos seus participantes - alunos, docentes e trabalhadores - irá permitir a plena utilização


P

NOVA EM FOLHA

permitir a plena utilização e aproveitamento pedagógico e estrutural da instituição. Na verdade, será possível afirmar que todo o processo que coloque a gerência de uma Faculdade longe da esfera pública de estudantes e docentes é um processo contraprodutivo se se quer criar um ambiente de plena fruição de aprendizagem e formação. Os meios de exclusão de acesso ao Ensino Superior e ao ensino em geral materializam-se sob a forma da propina. Porém, obviamente, as injustiças e desigualdades materiais da nossa sociedade polarizada não ajudam no objetivo de criar um ensino democrático. Um sistema económico cujas relações de produção não servem as necessidades humanas reais e objetivas, mas sim o lucro, observa-se quando durante a pandemia de COVID-19 a crise consequente coloca milhões no desemprego e em situações de precariedade, mas empresas como a EDP são capazes de entregar dividendos multi-milionários aos seus acionistas. Por fim, mas de não menos importância, a própria forma assumida pelo sistema de ensino. Os seus métodos, as suas motivações e tudo o que se some na sua raison d ´être. Cada vez mais uma questão de grande relevância surge por entre os estudantes: estamos realmente a aprender? É necessário compreender as origens dos nossos métodos de ensino, enraizados numa sociedade industrial cujo objetivo principal não é a plena formação de cidadãos, mas sim a criação de mão-de-obra especializada - meras engrenagens de produção. Questionar o ensino que herdámos das salas de aula do século XIX é um ato de resistência a uma educação hierárquica, mecanizada e alienante do verdadeiro espírito criativo e produtor dos seres humanos. É necessário que na conceção de uma sociedade alternativa esteja incluída uma nova forma de educar. Cujos métodos não sejam a autoridade a relegar conteúdo, mas sim uma experiência dinâmica de cooperação e entreajuda no processo complexo de formação e aprendizagem mútua. A realidade essencial para se retirar da descrição material da situação estudantil é de que a necessidade de lutar e reivindicar não cessou por um único momento. A desigualdade e a precariedade não apenas na sociedade em geral mas no meio estudantil mantêm-se, apesar de todos os desenvolvimentos tecnológicos e de qualidade de vida. A discriminação e falta de inclusividade dos espaços académicos e dos currículos educativos permanecem uma realidade, quando a política, a história e as restantes ciências são predominantemente ensinadas de uma perspetiva eurocêntrica. Nos momentos de crise que vivemos, é necessário, mais que nunca, que os estudantes se organizem e façam a luta política contra as modsvosdihosdhdvdmento

CRÓNICAS

condições impostas. Surge, portanto, a questão: onde está o Movimento Estudantil? Não devemos por um momento deixar de lado os esforços recorrentes por organizar a luta, seja através de campanhas importantes para ocupar as Associações de Estudantes ou até a criação de estruturas como a Brigada Estudantil. O ímpeto de mudança dos estudantes não desapareceu, mas as suas condições são diferentes do que foram nos anos de turbulência explicitados acima. A verdade é que, de momento, existe uma certa apatia entre os estudantes no que toca às suas condições. Há uma desconexão profunda entre a massa anónima de estudantes e os movimentos que se formam ocasionalmente para lutar por direitos e melhorias de condições. Pode ser afirmado que os movimentos estudantis devem encontrar novos e mais eficientes métodos de mobilização, e que a incapacidade do movimento de trazer às ruas massas enormes de estudantes deve-se a alguma forma de elitismo político. Mesmo que esta realidade se verifique em diversas materializações de grupos de ativismo social e político, esta explicação é insuficiente, pois falha em compreender um processo muito mais profundo na nossa sociedade. É necessário, portanto, analisar uma situação que decorreu em Portugal nas décadas que se seguiram ao 25 de abril. Com a Revolução de ‘74, deixando de lado o PREC e os processos de construção da “democracia” após a queda do Estado Novo, deparamo-nos com um fenómeno de aproximação e até fusão da sociedade civil com o poder político. Partidos, grupos revolucionários e até Conselhos de Revolução com pouca duração surgiam por todo o país. Uma enorme polarização política acendeu-se por entre o vácuo de poder da queda de um Estado com raízes profundas na sociedade. Nas materializações do Estado, quando este se encontra em funcionamento, o processo que se desenvolve é um de afastamento do poder político do resto da sociedade partidos políticos (ou no caso do Estado Novo, o partido político) formam-se e fossilizam a esfera política da sociedade, levando à consolidação de classes políticas e a uma elitização do poder. É no PREC qusdrgdgvdgefcsfsfse


P

NOVA EM FOLHA

que encontramos uma situação de instabilidade e até uma certa vacuidade do poder político. Apesar da existência de governos provisórios que conseguiram levar a cabo, por exemplo, a nacionalização de setores essenciais da economia, a sociedade civil estava desperta após anos de congelamento da sua vida política. E pouco havia que pudesse ser feito por um Estado recente e com poucas e fracas fundações institucionais no país. É apenas em 1976, com a formulação da nossa Constituição, que Portugal consegue, por fim, entrar num período novo mas similar ao que sucedeu no Estado Novo - uma nova fossilização da vida política. A vitória da democracia europeia em Portugal pôs em andamento processos de criação e ocupação do poder por parte de partidos políticos. As instituições do Estado voltam a materializar-se na sociedade. E é nas décadas seguintes que a prosperidade económica e consumista da classe média age conjuntamente com o poder político para apatizar novamente a sociedade civil e retirar o poder popular da ação política. Dos anos do PREC para os dias que correm, a participação política do indivíduo desvanecese e deixa para trás uma única e disfuncional ferramenta: o voto. O voto que é livre, mas apenas utilizado para votar em estruturas políticas já formuladas e distantes da sociedade. O voto que é livre, mas manipulado pelos media e por interesses privados. O voto que é nosso, mas pouco faz além de criar números e cores aprazíveis na TV. Este processo de afastamento do poder da sociedade civil verifica-se em todas as instituições públicas, incluindo as Universidades. Nunca uma Associação de Estudantes teve tão pouco poder perante as super estruturas burocráticas do Ministério de Educação. Há escolas no país em que chove dentro das salas, mas nos Liceus, as Associações de Estudantes foram reduzidas a meros grupos de lazer e entretenimento democraticamente eleitos por estudantes de uma geração que nunca soube o que é poder definir o seu destino e a sua educação. E no Ensino Superior, por mais que as Associações de Estudantes sejam tendencialmente combativas e até alinhadas politicamente, o seu poder e capacidade de mobilizar a comunidade estudantil são meras fantasias perante os Conselhos Pedagógicos e as diretivas do governo. O maior exemplo do distanciamento entre o poder político e os estudantes vê-se naquele que é o tópico da atualidade: a propina. Este pagamento obrigatório por um ensino universal e democrático (as contradições são tão irreverentes que é difícil utilizar ironias) existe há mais de vinte anos. E há mais de vinte anos que exclui do ensino famílias que vivem do salário mínimo, trabalhadores, cidadãos ostracizados em bairros unjkvdbnskvdm

CRÓNICAS

periféricos e qualquer um que não possua tal poder de compra. E também há mais de vinte anos que o movimento estudantil luta e reivindica um Ensino Superior gratuito em todos os ciclos. Os argumentos foram apresentados e, entre o 25 de abril e a concepção da propina em 1992, chegámos a ter acesso a um Ensino Superior completamente gratuito. Mas entretanto, pouco foi feito na Assembleia da República pela diminuição das propinas - até os progressivos cortes são insuficientes e não resolvem o problema fundamental da sua existência. Já para não referir o facto de que o governo se demonstra irredutível quanto à sua vontade de manter mestrados e doutoramentos acessíveis apenas a quem possa desembolsar milhares de euros ou ter a rara oportunidade de ser selecionado para bolsas de estudo. A conclusão que se retira é que os estudantes não perderam o seu espírito reivindicativo. O que aconteceu é que este lhes foi retirado por instituições hierárquicas. Não existe a possibilidade de mobilizar estudantes ou qualquer pessoa que seja quando não é essencial à sua existência social qualquer participação política além do voto. Enquanto as decisões - tanto a nível nacional como nas faculdades - e o poder se mantiverem nas mãos de órgãos afastados da comunidade estudantil, nunca será possível movimentações da escala que presenciámos durante o PREC. Para que as necessidades dos estudantes sejam correspondidas é necessário que o poder político seja dividido pela sociedade. É urgente que sejam os cidadãos e os estudantes a tomar as decisões e a definir os seus destinos. Apenas assim teremos uma educação justa e inclusiva. E apenas desta forma poderemos criar uma cultura de combate e luta por direitos, em que os estudantes não fiquem passivos perante as suas condições impostas por pessoas que não estudam há décadas. O poder tem de voltar às nossas mãos.


P

NOVA EM FOLHA

CRÓNICAS

A COMPLICADA SIMPLICIDADE DE PENSAR PATRÍCIA VERGAMOTA

Sabes Pedro, a vida é simples, as pessoas é que a complicam. Escrevo-te enquanto faço mais uma das minhas muitas viagens de comboio. Muitas coisas podem passar-se num comboio, o segredo é saber observá-las. Por exemplo, reparei num rapaz a olhar pela janela, quem sabe no que está a pensar. Talvez seja apenas mais uma mente perdida, como há tantas. Acho que ele também reparou em mim.

Estão cerca de 50 pessoas nesta carruagem de comboio. Nesta carruagem onde escrevo e onde observo. Serão todos mentes perdidas? Perdidas na vida, perdidas num amor que nunca regressou e que nunca foi esquecido, perdidas num amor que as esqueceu. Perdidas num emprego que as cansa, ou perdidas num emprego que as ocupa do que realmente cansa. A vida cansa, ou as pessoas cansam-se da vida. Serei também eu mais uma mente perdida? Sabes Pedro, a vida é simples, as pessoas é que a complicam.


P

NOVA EM FOLHA

CRÓNICAS

É ESSA A SUA FUNÇÃO FRANCISCO AZEVEDO

Na ponta da cama, nua, ela chorava. Apoiava a testa nas palmas das mãos, os cotovelos nas coxas. Sangrava do nariz. Caiam intervaladamente umas gotas vermelhas no chão, produziam uma pancada seca quando o atingiam , não se mexiam mais, como que a desafiar as leis da física. Este sangue ficava estático mal tocava no chão. Mas ela não se apercebia disto. Na casa de banho, o monstro gritava de lágrimas nos olhos, lágrimas de crocodilo talvez, talvez verdadeiro arrependimento, gritava porque me obrigas a fazerte isto?, sabendo que não era obrigado. Isso ela sabia-o também. Na ponta da cama estava uma mãe. Amava o seu filho mais do que se amava a si mesma; dava tudo por ele. De manhã exagerava, carregava demasiado a base nas zonas negras, na tentativa de disfarçar o indisfarçável. Tentava esconder a dor de uma vida, mascarar a crueldade de um homem, a crueldade de todos os homens; exagerava na base procurando enganar o mundo, como que a anunciar que o pai do seu filho não era assim tão mau. Naquela noite, na ponta da cama, chorava porque ele estava bêbado e era um monstro. Ninguém sofre aqueles horrores por outra causa que não essa: não foi culpa do que ela disse, não foi culpa do que ela fez; a culpa é dele. Com negras por todo o corpo, mascarando as da cara, ela levanta-se de manhã e vai trabalhar, ela levanta-se e vai tratar da casa, ela levanta-se e vai ser uma mulher. É essa a sua função.


P

NOVA EM FOLHA

CRÓNICAS

A MEMÓRIA JÁ NÃO É O QUE ERA FRANCISCO AZEVEDO

Eu perdi-o. Procurei e procurei, fartei-me de procurar, mas a verdade é que não o encontro. Eram umas três ou quatro folhas, escritas a frente e verso, brancas, talvez papel cavalinho, aquele bom que os artistas usam, caneta preta, ... Era a melhor história que alguma vez escrevi. Falava de um um rapaz triste, ou da mãe de um rapaz triste, era uma história triste, e não há história mais bela que uma história triste. Não escrevo particularmente bem, invento umas frases, junto palavras que soam a alguma coisa, mas nunca escreverei algo digno de ser lido por alguém. Porém, tenho quase a certeza que aquela história triste estava perto desse lugar, onde os textos são bons o suficiente para não ficarem guardados numa gaveta dum quarto pobre. Escrevo porque preciso de escrever. É uma pulsão, como acontece a quem precisa de ver o mar, ou dançar ou foder; a mim, dá-se-me a vontade para escrever. Quem me dera que escrever fosse tão fácil como ver o mar, como dançar, como foder. Não. Escrever é pôr as entranhas cá prá fora; é mostrar a sujidade que nos pinta o interior, mostrar o estômago, mostrar o fígado, mostrar os rins minguados pela falta de água, mostrar os pulmões negros do fumo, mostrar os intestinos cheios de merda, mostrar a alma pequenina, que não chega para nada. Preciso de escrever porque as pessoas não sabem ouvir e, como são poucas a ler, ao menos esperemos que sejam inteligentes, ou que não se aborreçam muito. Eu tenho a certeza que tinha deixado o texto naquela gaveta. Que porra esta! Talvez o tenha dado a alguma namorada. Talvez tenha ficado com alguma amante, ou o tenha deitado fora. Não! Já me lembro! Dei à minha querida mãezinha, penso eu. Não sei. Não sei o que quer que seja. A memória já não é o que era. E era um texto tão bonito, acerca de um cão que era tão bom companheiro, ou seria sobre um dono que não prescindia do seu canídeo para levar a pastar as ovelhas?

Era sobre flores! Agora me lembro. Era sobre flores. Túlipas e rosas e margaridas e malmequeres. Sobre o nome de flores e o nome de gente, de gente bela que se comportava como flores, mulheres lindas que cheiravam a flores, cheiravam a campo e a primavera. Que bom é cheirar o campo, que bom é viver no campo!, ver todo aquele verde, as flores e as florezinhas, ver as cearas, ver os animais a pastar e nós ali como intrusos. Saímos tanto do campo, perdemos tanto o campo, que agora somos estrangeiros que veem de fora toda aquela beleza. Vivemos em quadrados de cimento e tijolo, altos no ar, e conduzimos bocados de metal que só sabem cuspir fumo. Que raiva que isto me dá, mas também ver o Sporting jogar me dá raiva e são apenas uns rapazes musculados a chutar uma bola para o lugar que mais lhes convém, ou para onde conseguem. Rapazes musculados, menos aquele novo, o lateral esquerdo, que veio da Ásia ou lá o que é, pequenino, parece um miúdo de escola ainda, mas é rápido como um raio. Coitados desses rapazes. Vão para longe, atrás de uma carreira atrás da bola, uma carreira que acaba cedo, é um tirinho até ficarem sem dinheiro, a fazer vida de gente normal. Ainda por cima esse miúdo que, segundo dizem nos jornais, vem de uma família paupérrima. Talvez por isso ele corra tão rápido, talvez esteja a fugir da infância, a fugir da fome. Tinha escrito o texto para experimentar uma caneta nova, que me tinha dado um primo, ou que o meu avô me deixara. Escrevi uma frase, parecia boa, talvez um pouco pesada para o meu gosto, mas lá continuei, a ver se me afeiçoava ao peso, à forma de escrever dela, para a fazer verdadeiramente minha. Sim, porque desenganese quem achar que uma caneta é só pegar e andar. Uma caneta é como um cavalo, há que lhe conhecer as andanças, sentir o bicho, entregarmo-nos a ele. Os cavalos são uns sacanas, nunca gostei deles, nem eles de mim. Já de canetas… Eu tenho de encontrar aquele texto. É isso! Era sobre cavalos.


P

NOVA EM FOLHA

CRÓNICAS

A TI, SOLIDÃO SAMUEL NOBRE

Não comas a minha paz. Não a estiques, foge. Não a olhes. Deixa o ser! Encolhe como a barriga das crianças, chora com elas, mas não as oiças, as vozes, só o choro e o silêncio. Despe a minha casa como despes a noite. Atenta o luar e faz-te junto dele, aquece-te na terra que chove, caminha, passeia, tropeça, encontra-te, corre contigo até acabares a memória: nunca mais te lembres de mim. Vivo assim. Com as minhas trancas voltadas para ti, o meu coração é uma armadilha de cinzas nascidas. Não me esqueço do jardim que me fizeste, dos bancos, dos versos, até algumas flores pequenas e quase vermelhas. Pois que saibas que o vendi, não o perdi, pensei escondê-lo ou deixá-lo junto de ti, mas não te quero ver, nem a ti nem ao rio em que te conheci. Afasto o sentimento, o teu, o meu. Viajei, li quatro labirintos no mundo, quatro estradas cansadas, velhas e em guerra com o tempo. Numa delas, a que era sempre a subir, encontrei as peles que me levaste, junto delas estava um velho, mais velho que a estrada, talvez mais velho que tu. Perguntei-lhe se ele te conhecia e ele respondeu-me com três tacadas secas, no mais audível bafo sem respiração: Foge de mim. As minhas pernas cruzavam a cada passo, continuei a subir, nunca estive tão longe de ti. Sonhei com todos os gritos, vi cidades em cada metro, livros a cada passo abriam-se para mim, respirei sem a vida, só com a música, o silêncio que existe sem ti. Ao andar lembravame uma árvore, uma que perdeu a raiz, és tu a minha raiz? Sou eu o fruto, podre, passada a época, roto de morte, cadáver extinto? Não! Já não tenho raiz, a raiz são os meus passos. Subo com a minha paz que me pesa mais leve, sou o plátano da minha infância, o que boia nas faces da água que te gela a ti. Subi. Chego ao fim onde a luz me queima e atravessa as trancas que gemem da dor e do medo. Estou só, sem ti.


P

NOVA EM FOLHA

CRÓNICAS

A Morte do Intelectualismo JOÃO MARTINS

A Filosofia Social, que foi o passatempo favorito da massa de intelectuais dos anos 60-70, cujos nomes sonantes ecoam ainda, e provavelmente para sempre ecoarão nas paredes dos auditórios universitários, está morta. O intelectualismo, que previa uma visão cada vez mais incisiva e penetrante da sociedade, não tem lugar no mundo atual. Formas de olhar para a realidade, nem que apenas parcialmente independentes da mesma, estão condenadas a cair no esquecimento das classes instruídas, viradas para outros horizontes mais práticos, e a imortalizar-se como nada mais que relíquias de uns saudosos aficionados da academia no seu estado mais puro, teórico e poeirento. O existencialismo, a desconstrução filosófica, a reformulação dos processos mentais e de investigação, toda essa abrangente e amorfa área das Humanidades, berço das ideias dos grandes movimentos de massas dos anos 60-70, em em que a contestação ativa conferia estatuto entre os jovens e os debates televisivos convidavam intelectuais, no sentido legítimo do título, para debater grandes assuntos da existência e natureza humanas, estão para a atualidade como a máquina a vapor: há substitutos melhores e o serviço para que foram criados pode ser feito de maneiras mais rápidas e apelativas por outros mecanismos. Não há discussões de Filosofia nas redes sociais. Não só porque a maioria dos seres humanos não tem formação na disciplina, mas precisamente porque não há utilidade na discussão de grandes temas, como havia no auge histórico da ideologia, e novamente refiro os anos 60-70 – décadas em que se tratava de salvar e justificar o comunismo, e o capitalismo, ao mesmo tempo que se reconhecia (ou se escolhia ignorar) que nenhum dos lados estava a beneficiar particularmente a Terra e o Homem. A forma como o ser humano comunica hoje em dia é jornalística, não filosófica. Há factos, realidades, de que se pode ter consciência absoluta e imediata através de uma simples pesquisa no telemóvel. Não há necessidade, nem paciência, de escrutinar as causas maiores por detrás destes factos observáveis. O mundo é como é, porque é como o reportam os meios de comunicação e as mil conversas em que as pessoas interessadas se metem. Já ninguém toma em consideração a origem do fascismo como sistema de ódio secular, alicerçado em lutas de raça provenientes do Ancien Régime, quando acusa alguém de ser fascista por manifestar declaradamente o seu ódio injustificado a migrantes inocentes. Esta pessoa é vista como fascista pela via mais direta: observar que tem ódio a migrantes inocentes. E é só. A partir da realização instantânea desse facto, passa a ser irrelevante procurar-lhe um significado madbfjsdjkfbskfbjskfjsbfkssfsfis


P

NOVA EM FOLHA

CRÓNICAS

mais profundo, que em nada alterará o juízo negativo que se vai formular do “fascista” em questão. Que importa o fascismo originário, movimento passado, se é contra o fascismo manifestado no presente que se tem de lutar?! (Há um certo “realismo de vistas claras” a ressalvar nesta atitude, é certo). Assinale-se, por isso, o desinteresse do ser humano face à procura de razões escondidas e enterradas genealógica ou arqueologicamente. Argumenta-se com factos e justifica-se a ação com base nas mesmas premissas morais de sempre (cuja fórmula básica e distribuição geográfica não conhece alteração significativa há décadas), baseando-se a avaliação subsequente nos resultados obtidos. Esta não é uma sociedade que tenha em consideração reflexões profundas à forma como as coisas são ou se fazem nos bastidores da mente humana, escrutinável apenas depois de meticulosa análise e desconstrução. Esta será, porventura, a sociedade mais realista, ou melhor, mais presa à realidade, que já existiu. As suas necessidades sociais, e por extensão intelectuais, não pedem mais do que a realidade, onde as redes sociais, mais do que qualquer outra coisa, e o acesso ilimitado e imediato a qualquer informação “factual” (notícias, opiniões, coisas que nem são uma nem outra) que permita interpretar o mundo (informação essa que é normalmente filtrada e escolhida por fatores alheios à pessoa que a consome), tornam a reflexão demorada um dinossauro obsoleto, sem préstimo. Para os líderes, como para os povos, a alienação da realidade é uma brincadeira de intelectuais, algo que não tem que se compreender, somente respeitar baixinho, por reverência à paixão e aos anos dedicados pelos seus cultores às respeitáveis atividades do estudo e da produção literária. As Ciências Naturais, que têm a capacidade de ser imediatas e reduzíveis a tópicos simples com uma ou outra percentagem aqui e ali para passar melhor a ideia à população consumidora, têm um futuro brilhante pela frente, apesar de também serem opostas por um crescente movimento de escolha voluntária da ignorância, cujo futuro é questionável, mas tenhamos fé que não promissor. Pelo contrário, as Ciências Sociais, que na verdade nunca deviam ter perdido o título de Humanidades (perda motivada por uma penetração do método científico no que devia ser um reduto da subjetividade sagrada do pensamento humano, incontaminado pelas fronteiras do positivismo metodológico), estão condenadas a tornar-se irrelevantes. Fechadas sobre si mesmas, ao mesmo tempo continuam a atrair e a formar as mentes que atuarão sobre a realidade e por ela serão conquistadas, porque é de realidade que se faz a vida, a não ser que se fique na faculdade e se se torne filósofo ou, como é mais eclético e sonante dizer, pensador.


P

NOVA EM FOLHA

CRÓNICAS

CLIMA: PORQUE PRECISAMOS DE UMA TRANSIÇÃO JUSTA ANDREIA GALVÃO, GREVE CLIMÁTICA ESTUDANTIL

A agenda climática tem ocupado desde há algum tempo a nossa agenda político-social. Um pouco por todo o lado vemos apelos à sustentabilidade, tal como o desespero provocado pela iminência da irreversibilidade e os gritos ansiosos dos cientistas e dos ativistas. No meio de tudo isto, é possível não sabermos ao certo o que fazer. A presença do caos parece levar-nos ao extremismo político, e a possibilidade de perdermos a relativa segurança com que vivemos pode ser aterradora.. Alguns factos, no entanto, são bastante simples de interpretar. De acordo com os ajustes feitos aos cálculos do IPCC*, sabemos que temos somente sete anos para impedir a irreversibilidade das alterações climáticas. Sabemos que isso implica que temos de cortar pelo menos 50% as emissões carbónicas e também temos consciência de que estes cortes devem ter como critério a responsabilidade histórica, por exemplo, em países da UE, que tiveram o seu desenvolvimento industrial mais rápido e precoce, em detrimento dos atrasos em outros países. Assim, os países da Europa devem ser os primeiros a assumir uma iniciativa maior de corte destas emissões. No entanto, sabemos que qualquer mudança estrutural na nossa sociedade não deve ser à custa dos mesmos de sempre.

*Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas

A crise climática já está a ser paga pelas pessoas que vivem na linha da frente - especialmente em regiões do Sul Global, predominantemente pessoas racializadas e, especificamente, mulheres. Parece-nos muito evidente que um mundo mais climaticamente sustentável deve ser um mundo mais socialmente justo. Quando falamos de transição climática sustentável falamos de justiça social, nomeadamente, na garantia dos postos de trabalho. Por exemplo, olhámos vitoriosamente para a notícia de que o encerramento das centrais termelétricas de Sines e Pego tinham sido antecipadas, colocando na agenda um discurso sobre energias renováveis. No entanto, também temos cerca de duas centenas de trabalhadores que ficariam sem emprego. Portanto, é preciso um equilíbrio e responsabilização governamental que garanta uma transição socialmente justa. A ação política necessita de ser a luta pelo combate às alterações climáticas e deve ser feita lado a lado com quem trabalha, requalificando os e as trabalhadoras para novos setores sociais, criando milhares de novos empregos verdes, no setor público (existe esta campanha - “Empregos para o Clima” - onde se pode ler mais sobre este assunto; aceder aqui http://www.empregos-clima.pt/). A energia, os transportes, a construção, a indústria, entre outros setores devem ter como principal prioridade estar ao serviço das pessoas e da sociedade. Sempre com certos limites que não podem ser ultrapassados (ainda que seja em alturas de crise, eleições ou de boom económico) como: o clima, a vida, a saúde, a habitação, a dignidade do trabalho, o acesso à mobilidade, etc. Os efeitos das alterações climáticas já se fazem sentir em alguns países?, por isso, precisamos de políticas que não só combatam as alterações climáticas, mas que também garantam proteção laboral. Afinal estamos a falar de uma transição climaticamente sustentável e justa. Temos demasiado pouco tempo para mudar. Mas temos planos.


NOVA EM FOLHA

P

POEMAS

Emenda TIAGO PINTO

Outubro, mil matrículas num só mês, A época anual de alta mortandade. Soube logo que viria a minha vez De encarar a boémia faculdade! … Há um ano, fui cético, fui descrente, Perante a nova etapa do meu amor. Tive medo de perdê-lo morosamente Pr’á besta cruel (o ensino superior). Mas hoje, na mais presente hora, Será repisado, por nós, o fardo alheio. Por isso - toca a calar o bico - é agora! Degustarei a formosa folia, eu creio!

Rufem os tambores da bebedeira Pois me deliciei, tanto era o engano! Sou caloiro, pronto à festa cimeira, Mas pela norma deste atípico ano. As praxes subjugam a academia, Sob a estampa sedutora de um bar. Se houve quem eu critiquei um dia, Coube ao juízo formatar-se E imitar…


P

NOVA EM FOLHA

POEMAS

Condição SAMUEL NOBRE

Falso o horizonte que braceja o volume todo em partes de vidro Castigado sabe o perfume a Deus, ao ponto em que desce o Sol Naveguem o palco, cruzem a luz, coragem, ingratos, violência! Podridão, um comprido sistema que esconde Válvulas, dentes, enguias, ferida calma em sangue membranar, Doença da pele, dos cascos do navio, inundação de vício supremo, Reflexo do mundo, quarto do céu, o topo sensível que lamenta A memória onde não chegou o tempo, a casa em frente, lenço de ferrugem intacta e lenta, bela, vazia. Respira o sal com o tom das vidas largas, das que andam e passam, das que casam e comovem, das que se perdem, das donas dos labirintos, as que não morrem. As doentes que não morrem... Ali sou, no que vejo, onde o olhar me atinge, vivo, nunca morrerei e choro Choro sem te ver, não vejo o lugar, a marca que me reconhece e que se prova de longe do desejo, do instinto, da oração, do amor. Daqui não sei. Nada mergulha. Sou o imóvel que dança na crença, a morte que não morre, o tecido livre que flutua nos eixos que dormem. Raso, duro, puro, incoerência sólida, louca pelo substrato que não encontra em parte alguma. Falta de Homem, longos rios videntes de humanidade, ou excesso dela, condição cega tanto quanto surda, mas fala, fala, adianta-se, escreve, reescreve, versa sobre o que não é. Só sobre o que não é. O Poeta é o mais humano, o mais longe da sua forma, do seu olhar É boca, boca suja de seiva, da ternura geométrica de uma tábua, pequena e fria equação matemática, um esgoto exposto, a cidade desventrada, longe da terra que não há. Deus que nos fizeste Poetas, Deus da necessidade da pele, Deus relvado, Deus modesto, Deus do corte sem dor, só sangue, apenas sangue. Sangue e pele. Ando longe de mim enquanto me afasto, todo o cansaço, toda a vida é uma distância, uma medida feroz, um voar preso ao encanto metálico do horizonte, ao fresco da superfície Não nos sabemos afogar e quem se afoga falha em morrer, nem esse morre, nem esse se encontra, o escuro é o mesmo, nunca é o fundo do mar. Mas o que há no tempo? Verei eu esse fundo? Serei eu o mar todo? Atiro-me. Pelos meus olhos passa a maré que chega em espuma ao meu coração. Nunca fui mais que o Mar. Mas sou um poeta. Um Poeta...


P

NOVA EM FOLHA

A Gaivota ANA SOFIA MARINHO MALHEIRO

Sonhei contigo hoje. Contigo e com a gaivota que me cantavas. Não me sinto livre como ela. Não me sinto livre, nem consigo voar. Talvez porque tudo parece mais difícil desde o dia em que paraste de a cantar. Desculpa-me, mas já sou grande e afinal quero combater, Deixar esta culpa de lado e, por fim, renascer. Decidi entregá-la a outro, para que com ela também possa chorar. Decidi entregá-la a todos, para que tenham algo de que possam falar. Mas hoje, prometeu-me levá-la a gaivota. Vai levá-la... e espero que não volte. Não porque a perdeu, Mas porque se esqueceu da rota.

POEMAS


P

NOVA EM FOLHA

CULTURA

O IMPACTO DA PANDEMIA DE COVID-19 NO SETOR CULTURAL NARQ

Se há algo que a pandemia de COVID-19 trouxe ao mundo em que vivemos, são incertezas. A ordem de confinamento da primavera e as medidas de contenção da pandemia deste outono tiveram impactos severos nas diversas atividades económicas. Contudo, no que concerne ao setor cultural, só vieram evidenciar as deficiências que já se conheciam. Não é apenas do nível nacional que falamos, mas sim do nível europeu e até internacional. O NEMO (Network of European Museum Organisations) tem realizado, ao longo dos últimos 10 meses, sondagens aos museus europeus, de forma a melhor perspetivar o futuro pós-pandemia. Os resultados não são promissores. Dos quase mil museus que responderam às sondagens, 50% terão de descontinuar projetos e programas, e revelam uma perda de rendimentos entre os 50-70% devido à queda do turismo. O NEMO antevê, assim, que muitos museus quase certamente terão de fechar portas. Em Portugal, onde o setor da Cultura sempre careceu de investimentos (públicos ou privados), deverá seguir-se a mesma tendência. É de louvar algumas iniciativas culturais em formato digital ou presencial, não só para os profissionais, mas também para o grande público.. A DGPC (Direção-Geral do Património Cultural) divulgou, no Portal do Arqueólogo, um conjunto de mais de 200 sítios arqueológicos visitáveis, tal como promoveu entradas gratuitas nos museus que tutela nestes dois fins-de-semana de recolhimento obrigatório. Diversos museus municipais e centros de interpretação adaptaram as suas visitas, de forma a continuarem didáticas e seguras. Semelhantemente, museus privados, arquivos e bibliotecas promoveram a digitalização dos seus acervos, visando promover a acessibilidade de todos. O objetivo é cativar os portugueses em momento de crise. No entanto, fica lançada a questão: Como será o futuro da Cultura, que se vê, em menos de 10 anos, mergulhada numa nova crise?


P

NOVA EM FOLHA

CULTURA

CARTA A TODOS NÓS Dedicatória a um Covid natalício DIANA NEVES

Pela primeira vez no nosso tempo de vida, o Natal vai ser reconsiderado e repensado enquanto tempo de família, celebração, conforto e gratidão. Pela primeira vez, as mesas de vinte lugares podem estar reduzidas a quatro porque as avós são mais vulneráveis, os tios preferem ficar nas suas casas e o padrinho que não apareceu no Natal passado também não vai aparecer neste; podem não haver dez prendas na árvore de Natal porque o dinheiro para a ceia da consoada, por mais simples que seja, é aquele que já saiu do bolso para pagar as contas, e não chegou para comprar mais prendas; as cidades já não têm preparados tantos convívios e festas; os restaurantes já deixaram de ter esperança de ter casa cheia no dia 24; mas as televisões estão contentes porque provavelmente vão ter grandes audiências no dia de Natal, já que, infelizmente, ver os filmes de Natal vai ser das poucas coisas que vai aquecer e unir as famílias, dado que as viagens ao outro canto do país vão estar condicionadas. Pergunto-me se já se acostumaram. Se já esqueceram e se já largaram. Pergunto-me se agora é só esperar, cumprir as regras, sair do trabalho e ir para casa, lavar a roupa e desinfetar as mãos, já quase tão enrugadas como as da minha avó, de tanto álcool com que se encharcam durante o dia. Pergunto-me se vão demorar mais doze meses para reunir todos os meus amigos em minha casa, pergunto-me se posso viajar no próximo mês ou se confinam outra vez os países. Pergunto-me se me escasseiam os filmes para ver e se deixo de ter dinheiro para comprar mais livros. Pergunto-me se posso continuar os estudos ou se a minha mãe deixa de ter salário e eu terei de ir trabalhar. Pergunto-me se vocês se perguntam como estão.

Como estão em saúde mental, se engordaram no confinamento ou emagreceram dos nervos; se perderam alguém ou se recuperaram da doença. Sim, essa doença que agora enche os cuidados intensivos, impede enfermeiros de terem uma vida social desde março; impede-me de sair à noite e arrastar-me no dia a seguir para a faculdade. Essa doença que nos virou a vida, irrompeu o quotidiano e tem desafiado o ser humano como nunca visto. Pergunto-me como estão. Como têm lidado com o distanciamento, com andarem com uma máscara na cara oito horas seguidas. Perguntome se se sentem privilegiados, se acham que podia ser pior, se se sentem seguros ou se agora têm ansiedade. Se refletiram sobre os vossos feitos, se ganharam força para objetivos posteriores, se perderam a esperança ou se a encontraram, aí escondida nos sorrisos das crianças inocentes do mundo, no pequeno encontro com o vosso amigo depois de meses separados ou num beijo da vossa avó. Pergunto-me o que queriam para o Natal, se o mundo não vos reconhece e o vírus não dá tréguas, pergunto-me o que desejam; quem vos traz para cima ou quem vos deixa; o que vos motiva ou entristece. O que vos rejuvenesce ou faz cair. Perguntei a três pessoas com idades diferentes e sem se conhecerem o que queriam neste Natal. Algumas respostas foram esperadas, outras surpreenderam-me. No fundo, o Pai Natal vai ganhando várias formas ao longo do nosso crescimento. Os objetivos mudam e as vontades falam por si. Às vezes somos mais egoístas e outras despejamos um altruísmo sincero. Seja o que for que nos guia no Natal, parece que este acaba por ser parecido em termos de desejos.


P

NOVA EM FOLHA

Perguntei a três pessoas com idades diferentes e sem se conhecerem o que queriam neste Natal. Algumas respostas foram esperadas, outras surpreenderam-me. No fundo, o Pai Natal vai ganhando várias formas ao longo do nosso crescimento. Os objetivos mudam e as vontades falam por si. Às vezes somos mais egoístas e outras despejamos um altruísmo sincero. Seja o que for que nos guia no Natal, parece que este acaba por ser parecido em termos de desejos. Não nos devemos inibir de uma reflexão séria sobre o ano que passou. A todas as pessoas que neste momento se encontram isoladas devido ao Covid, àquelas que vão passar um natal sozinhas, àquelas que continuam na linha da frente, àquelas que têm a sorte de o passar em família, àquelas que decidiram passá-lo com a família reduzida: estamos juntos. Aqueles que neste momento estão no número de casos diários, entretanto vão aparecer no número de recuperados. E àqueles que já nos deixaram, não foram esquecidos. A todos aqueles que agora estão a sofrer por qualquer outra razão, maior ou pior, aguentem-se e continuem fortes. Àqueles a quem agora a vida está a correr mais ou menos ou até bem, ficamos felizes. «Não estamos todos no mesmo barco», mas navegamos todos o mesmo mar. Matilde da Costa Domingues (8 anos): «Querido Pai Natal, Espero que estejas bem! Eu este ano queria te pedir máscaras de Criança com desenhos e uma fita para as segurar.»

CULTURA

Elsa Pedrosa (43 anos, administrativa): «Querido pai Natal Finalmente chegou a época que todos nós tanto ansiamos. Eu este ano não tenho nenhum pedido em especial a fazer para mim, apenas agradecer por tudo que tenha alcançado. Tanto a nível familiar, amigos e profissional. Gostaria apenas de manter o foco no sentido de poder continuar a poder viajar com a família e amigos conhecer outras culturas e outras vivências. Poder continuar a ajudar dentro das minhas possibilidades o outro que tenha necessidade e sentir que consegui fazer alguém sorrir por um momento. Agradeço a tua existência que tanto faz sonhar e resgatar sorrisos.»


P

NOVA EM FOLHA

CULTURA

Pai Natal, que bonito que é ver-te de vermelho com as tuas barbas brancas e com o saco às costas cheio de brinquedos para entregar às crianças, só que as crianças este ano não têm liberdade para poder brincar nas rua com os seus carrinhos devido a esta pandemia que tanto nos atormenta. Querido Pai Natal, despeço-me com um grande abraço e que o ano de 2021 nos traga mais alegria e mais liberdade.»

Maria da Silva Pedro (80 anos): «Querido Pai Natal, Hoje aos 80 anos é a primeira carta que te escrevo porque no meu tempo de menina não havia brinquedos nem havia dinheiro para os comprar nem sequer nunca tive uma boneca para poder brincar. Hoje e já há muitos anos que bonito que é ver chegar a época do Natal, ver os meus netos e os outros meninos a escrever a carta ao Pai Natal a pedir-lhe os brinquedos que mais desejam e lá estão os brinquedos no sapatinho. Quanto a mim Pai Natal, tinha muito coisa a pedir que não tenho, mas o meu maior pedido era as melhoras de um filho meu que tem cancro e está na fase terminal e tenho outro filho que já teve dois cancros.


ob po riga rt od d@ su bm as iss as õe s!

CONCURSO DE ESCRITA MENÇÕES HONROSAS

MELHOR TEXTO Rita Madeira

Helena Gonçalves Anne J.P.


NOVA EM FOLHA

P

REQUIEM A 2020

RITA MADEIRA

Parte I Silêncio: Roubaram-nos os jacarandás. Ensinaram-nos a distância e o medo Como jamais ensinaram a coragem e o amor. E deram-nos um quarto vazio para viver. Um quarto sem janelas e uma porta sem depois. Há que seguir o dever cego! Tudo se subordina ao imperativo inviolável De continuar a fazer aquilo que se vinha fazendo, Exatamente na quantidade e qualidade que se vinha fazendo. Que importa se tudo mudou? Que importa o absurdo?Que importamos nós? Parte II Tudo estava muito sossegado. As avenidas eram como corredores cercados por altos edifícios pastel que crescem como um muro outonal, manso e tropical. Estavam entregues a uma imobilidade sobre-humana. As janelas mudas abriam-se como olhos que atentavam os raros transeuntes. O silêncio era expectante e cansado e tudo balançava num limbo entre a vida e a morte, o ritmo e a inércia. (O silêncio não é um vazio. O silêncio também é algo que se interrompe.) Talvez todo o movimento das cidades seja trazido pelas pessoas. Quando as ruas perdem o seu ator principal, um outro tipo de vida toma lugar. Agora eram os troncos nus das árvores a lembrar a vulnerabilidade. As gaivotas regressavam a terra e todo o sonho ficara quieto e fechado numa ilha de quatro paredes. O seu voo sobre os prédios parecia uma tentativa de consolação, mas de fora, acentuava ainda mais a cidade-estática, fazia parecer mais irrefutável o abandono. Sentia-se no ar um misto de beleza e espanto com uma decadência humilde e resignada. O que sobrará depois disto, eu não sei.

CONCURSO

MELHOR TEXTO

Parte III No dia em que as paredes de todas as divisões estavam gastas de ser olhadas, No dia em que eu já tinha perdido a conta aos números, No dia em que já não havia nada novo para contar nem ninguém a quem ligar, Eu decidi ser contorcionista. Curvei-me com muita força sobre mim própria e olhei de frente o meu umbigo. E a partir dele, eu descobri um novo ponto de fuga. Havia demasiadas feridas que precisavam da minha atenção, mas eu estava muito ocupada a ir pela vida fora. Então, depois de todos os deslocamentos e arrumações, depois de todos os silêncios e escutas, Eu decidi que já não queria ser contorcionista.O que eu queria mesmo era ser bailarina. Somos infinitos dentro da nossa própria solidão. Parte IV Sentia de novo um combustível dentro de mim, como se tivesse tido uma nova oportunidade de nascer. Uma ressurreição. Tudo estava mais intenso e colorido e eu tinha uma pele nova para andar no meio do mundo, por cima dos meus medos. Os fantasmas haviam-se recolhido na sombra e eu sentia uma amálgama catártica, uma alegria amarela e amena embrulhada num quotidiano tão banal quanto belo e tão caricato quanto assim o quiséssemos olhar. Já não havia propriamente nada por decidir. Tudo afinal tinha tomado o seu lugar, como um viajante que gira os dedos sobre o mundo procurando-se por toda a parte e escondendo de si próprio as coordenadas de casa, apenas para se entreter pela vida. Algo em si sempre soube onde pertencera, e talvez esse lugar fosse algo dentro de si, sabe-se lá em que interstício, e tão sacralizado quanto inominável. Uma comoção húmida cobria o ventre fértil da esperança e o mundo inteiro era agora como um grande campo verde e amplo para se ir atravessando num gerúndio confiante e imbuído em fé, sem cansaços ou comiserações. Tudo estava entregue a uma paz serena e absoluta. Havia um salão imenso para se dançar e de todo o abismo principiava uma ponte.


P

NOVA EM FOLHA

MORFINA

CONCURSO

MENÇÃO HONROSA

HELENA GONÇALVES

Sorri para a cara sem expressão à frente do espelho da minha casa de banho. “Não fales mais comigo” ouvi ressoar dentro de mim. Caminhei lado a lado com o meu reflexo. Ele, por sua vez, deu um passo para mais longe de mim, sorrindo maliciosamente. Se, anteriormente, me achava cheia, mas cheia de um vazio muito fino que me apertava e me sufocava, sinto-me, agora, completamente vazia. Mas não é o mesmo vazio. Este sim, é a ausência de tudo e a presença de nada. Só ele existe dentro da falta dele próprio. Ouvi o seu choro fino e silencioso todas as noites. Era ele que me enchia, que teimava em entranhar-se em mim, em alojar-se entre as minhas costelas. Não o queria ouvir mais, mas não queria que ele parasse. Isso significaria uma dor muito maior. Uma dor que não tinha a certeza se conseguia aguentar. Voltei a virar-me de frente para mim própria. Seria impressão minha ou estaria mesmo o meu reflexo a afastar-se cada vez mais do espelho que nos separa? Imaginei que não. Completamente consciente disso, estava a perder-me. Sentei-me na varanda pela sétima vez naquela semana. Não havia ninguém na rua, nem carros, nem pessoas. Nem o próprio som parecia existir por mais que me esforçasse para o ouvir. Naquele momento achei que chegara ao fim da grua. Talvez já tivesse construído o suficiente e já não houvesse qualquer razão para continuar a trabalhar. Era ali. Era agora. Olhei para a minha mão pálida mais uma vez. “O que queres que eu faça para o jantar?” desenrolei docemente da minha boca. Com relutância, voltei a entrar em casa, onde o mesmo choro soava sem parecer desejar um fim. E eu não queria o fim.

Deixei de ver o meu reflexo no espelho. Não vi os meus olhos em lágrimas. Não ouvi os ponteiros do relógio marcarem as horas passadas sem dormir ao logo dos últimos meses. Deixei de escrever, fechei-me dentro do labirinto de que era feita. Ao mesmo tempo, estava a flutuar no vazio que se apoderava aos poucos de mim. Rasguei a minha pele, arranquei as veias que enchiam o interior do meu corpo, parti as articulações que me ligavam ao mundo, desfiz, entre os meus dedos, todo aquele coração seco e palpitante que acabara de violentamente arrancar do meu peito. Deitada na poça de sangue que aumentava a cada segundo, fechei os olhos. De repente, tudo mudou. O peso que carregava em cima dos ombros há anos desapareceu definitivamente. O choro parou. O céu estava completamente azul e, estranhamente, estava uma das tardes mais bonitas do ano. Parecia um sonho, mas doía como um pesadelo. Do quarto do hospital podia ver o fim de dia simples e azul do lado de fora e não me restou outra opção senão aceitar aquele momento. Olhei de relance para a cama uma última vez. Soube, muito antes disso, que este ano seria assim, que seria o princípio do fim. Queria ter controlo sobre o reflexo que via no espelho, mas ele continuava a transformar-se em algo que eu não conhecia. Como iria eu saber quem era, se não me conseguia ver? Essa metamorfose prolongouse. Não vejo ninguém no espelho. Continuo a ver o vazio que elimina as arestas do meu corpo, até ao ponto em que serei mais o que não sou do que eu própria. Tirei os pratos do armário e os talheres da gaveta. O quinto prato ficou, pela primeira vez, na prateleira.


NOVA EM FOLHA

P

O SOL SAIU À RUA

CONCURSO

MENÇÃO HONROSA

ANNE J.P.

Quem diria que para juntar o mundo o que era preciso era dividi-lo. Já ninguém aguentava a azáfama do horário das 8 às 5, já ninguém sabia o que era chegar a casa com um sorriso na cara porque no fundo já ninguém sabia bem apontar uma única boa razão para sorrir. O mundo rolava a uma velocidade inacreditável, os pilotos partiam às 6 da manhã de um lado do mundo e paravam aqui e ali, os aviões começavam a funcionar como os comboios, voar era tão simples e tão fácil como pegar num carro Lisboa-Torres Vedras. O operário saia de casa ás 7 horas para chegar a tempo de picar o ponto às 8.30 e pelo caminho nem tinha tempo de beijar o filho antes de sair de casa. A empregada do supermercado trabalhava domingos e feriados, nem conseguia ter uma oportunidade de ir ver o jogo de futebol da filha. O funcionário da câmara entrava às 9 e saia às 18, mas via aqueles colegas que entravam às 9.45 e ainda iam tomar um cafezinho, para demorarem mais que a hora e meia estipulada no horário para almoço e estar já prontos com a chave do carro na mão às 17.45 e a desligar o computador. E eu e tu, bem, eu e tu vivíamos na nossa ignorância de jovens que acham que o amor é uma invenção da literatura e de Hollywood e que aquilo que sentíamos um pelo outro não passava de infantilidade emocional. Eu e tu achávamos que não era por irmos dormir todas as noites com o outro na cabeça. Que não era por sonharmos acordados com o nosso primeiro beijo. Que não era por sentirmos um calafrio até à pontinha do dedo mindinho sempre que passava na rádio Sinatra. Que não era por o banho ser o nosso momento favorito do dia por ser o único sitio em que as lágrimas passavam despercebidas e tínhamos liberdade para as deixar escorrer que significava que os nossos corações desde aquela manhã de terça feira no metro pertenciam um ao outro. Bem, eu e tu recusávamo-nos a acreditar que efectivamente podíamos amar aos 20, que realmente podíamos aprender a perdoar aos 20, que sem dúvida uma sensação que quando não explode por sorrisos explode por lágrimas é impossível de combater. Mas, no fundo, eu e tu estávamos redondamente enganados só ainda não tínhamos tido tempo para dar conta.

Nunca ninguém tem tempo para pensar quando tem aulas das 8 às 18, relatórios para entregar, uma reunião da associação de estudantes durante o almoço, trabalho aos fins de semana e nas únicas horas livres decide ir tomar um copo com os amigos porque sabe que assim que se deixar cair na cama, se não estiver exausto o suficiente para adormecer, não vai conseguir evitar sentir o calafrio do Frank, nem a humidade das lágrimas que eram proibidas fora do chuveiro. Felizmente ou infelizmente, depende a quem perguntar-mos, eu e tu fomos obrigados a parar, o mundo foi obrigado a parar, a vida congelou, de um momento para o outro os pilotos já não faziam infinitos voos por dia, os operadores das fábricas já não saiam antes dos filhos acordarem, a senhora do supermercado já conseguia jogar futebol com a filha no jardim, o funcionário da câmara já não passava 8 horas do dia a moer nas injustiças do trabalho. E eu e tu, bem, eu e tu já não tínhamos por onde fugir. Eu passava os dias a escrever, aquelas cartas que sabia que nunca ia ter coragem de enviar mas que me davam a sensação de gritar ao mundo que te amava. Tu, tu passavas os dias com os fones nos ouvidos a ouvir Sinatra, e os teus pais perguntavam porque é que estavas a ouvir isso, se nem gostavas de Sinatra, e era verdade, detestavas música assim antes daquela terça feira, o que raio estavas tu a fazer a ouvir Sinatra de manhã à noite? E o que raio estávamos nós a fazer enrolados nos lençóis à noite a desejar ter o outro ao nosso lado na cama?


P

NOVA EM FOLHA

Ambos sabemos a resposta, estávamos a sentir, finalmente, finalmente tínhamos oportunidade de sentir, de deixar cair a nossa própria ideia preconcebida de que os sentimentos são para fracos e que o amor na verdade é só uma história de crianças. A ratoeira estava tão bem montada, apaixonarmo-nos, sentir-mos aquilo que alguém um dia rotulou como demasiado, termos medo de ir atrás do pedaço de queijo e dar o último passo para finalmente o trincar sem perceber que a ratoeira nem sequer está armada, que aquilo que magoou alguém um dia não tem necessariamente que nos magoar a nós, que a solução, a solução não está na lógica, a solução não está no medo, a solução não está no esconder bem na última gaveta do coração o passaporte para a felicidade e trancar a gaveta com quantos cadeados haja disponíveis em todo o mercado negro do medo. A solução… A minha solução estava em ti, e a tua estava em mim, estava em finalmente pegar no Frank e admitir que ele tinha razão “ To say all the things he truly feels and not the words of one who kneels”, estava na hora, na hora de acordar, na hora de levantar da cama, na hora de olhar o espelho e dizer que vou conseguir, que vou ser capaz, que vou pegar nos vinis do Frank, sair desta porta fora, tocar à tua campainha e dizer-te finalmente que estou aqui, que quando todo o mundo para, quando o relógio deixa de contar todos os minutos, quando já não há comboios para apanhar às 6:59h para chegar à faculdade a tempo de te ver na terça de manhã antes da aula, quando já não há horários e reuniões, quando já não há infinitas formas de afastar de ti o meu coração, então finalmente, finalmente, vou ser grande o suficiente para ir bater à tua porta, olhar nos teus olhos e dizer-te que te amo, desde o dia em que trocámos duas de letra no metro às 7 e tal da manhã e eu estava a pé desde as 6 com 45 minutos de comboio já feitos ao som do Frank nos meus fones e tu acabado de acordar e sem saber sequer que alguma vez ias ter Sinatra como a tua playlist mais ouvida no Spotify. É isso, tao simples quanto isso, eu amo-te, e tu amas-me. E no fundo este mundo merecia parar, este mundo merecia uma oportunidade para finalmente reavaliar, pôr as cartas na mesa e perceber que isto não é mais um jogo de poker para ganhar e levar milhões mas sim um jogo de xadrez em que proteger o rei significa priorizar as coisas certas, olhar janela fora e não ver a chuva num dia de tempestade mas sim aquele pequeno pedaço de sol que a última nuvem não conseguiu cobriu. Está na hora de aprender a viver, aprender a ser feliz e na hora do julgamento dizer com convicção, “regrets, I’ve had a few. But then again, too few to mention”.

CONCURSO

Deixar-te ir seria o meu, mas não, o mundo parou, a vida parou e finalmente o meu coração conseguiu ter coragem para bater mais forte que o meu ego e os vinis acabaram espalhados no chão do teu quarto junto com as nossas roupas e com o Frank a passar no background tu e eu percebemos que aqueles dois miúdos apaixonados cujas histórias se repetem constantemente nos livros, são reais, tão reais como o teu corpo encostado ao meu, são reais quando finalmente os ponteiros param de contar, quando deixa de haver expectativa e esses miúdos deixam finalmentea icónica fraqueza de sentir se tornar na força mais imparável do planeta. Agora anda daí, traz os vinis, o sol saiu à rua e eu e tu temos todo um mundo inteiro para ver juntos!


P

NOVA EM FOLHA

CONCURSO

A GLIMPSE OF HAPPINESS NOHARA SHAKARIAN

The sound of a child’s laugh freshens up the air. His happiness is contagious and unique. He spins around thinking the world is rosy and sweet. But immediately the sky becomes unsympathetic and grim. He falls and whirls deep into an abyss. He’s now, no longer a child. But a grown depressed adult, that has been exiled. He has turned against himself. Secretly wishing someone to reach out. Even with the toxic voice inside his head, infecting him with doubts. He holds his head up high and toughs it up. Portraying his well-maintained trademark deceitful smile. Because the world has no place for the weak. Inside he is still a child, so to speak.


P

NOVA EM FOLHA

CONCURSO

2020, THE ONE WHERE I REDISCOVERED CREATIVITY LILIANA MARQUES

Podia dizer que foi o pior ano da minha vida, mas verdade seja dita, acho que não foi. Talvez por acreditar que estamos em constante crescimento, e que a cada dia que passa temos a oportunidade de ser um pouco melhores do que fomos ontem, não consigo olhar para este ano que está (finalmente) a chegar ao fim e vêlo como um mau ano, porque apesar de tudo sinto que cresci, aprendi, vivi, e que este ano tão desafiante me obrigou a adaptar-me e a dar mais valor às pequenas coisas. Claro que houve momentos menos bons, desde o não poder estar reunida com a minha família no meu aniversário, ter de abdicar de muitos planos que há muito estavam a ser planeados, a me ver confinada numa casa com os meus pais, após meses a viver sozinha, e ver a minha independência reduzida a uma casa, da qual não podia sequer sair grande parte do tempo. Apesar disto, 2020 ensinou-me a ser mais paciente, a observar as coisas à minha volta com maior atenção e a encontrar beleza e felicidade nos mais insignificantes aspetos e objetos do quotidiano, como as gotas de orvalho numa folha ou o pôr do sol, daqueles que enchem o céu de cores, de tal forma de o céu se transforma quase que num campo de batalha, onde as mil e uma cores lutam para se destacarem, criando um espetáculo de cor admirado por milhões de pessoas, de diferentes partes do mundo, unidas por este espetáculo de luz e cor que assinala o fim de mais um dia, que nos pede para termos esperança e aguentarmos mais um dia, porque dias melhores virão.

Adoro fotografar, desde pessoas a edifícios e flores. Desde muito nova que tenho aquele “bichinho” pela fotografia, por encontrar a beleza nos locais menos evidentes, e capturar esta beleza, de forma a honrá-la e dá-la a conhecer ao mundo. Mas, talvez pela correria que é estar no primeiro ano da licenciatura e todas as mudanças que se deram na minha vida no último ano, o tempo foi escasseando e, com ele, a vontade de fotografar. Passei meses, talvez mais, sem praticamente fotografar, e sentia-me cada vez menos inspirada. Surpreendentemente, o gosto pela fotografia foi uma das coisas que me trouxe 2020. Não fosse estar confinada não teria passado longas tardes e serões a fotografar as plantas do meu quintal ou os bonitos pôr-do-sol, hábito que surgiu nem sei bem como, talvez consequência do tédio de estar fechada em casa semanas a fio sem praticamente ver a luz do sol, sem ser pela janela do quarto. Ironicamente, foi no momento em que menos oportunidade tinha para fotografar, por não poder sair de casa, que redescobri o gosto pela fotografia, e me lembrei do quanto gosto de fotografar, de capturar momentos espontâneos, pequenas flores que brotam do alcatrão da estrada, e os bonitos sorrisos dos meus amigos.


P

NOVA EM FOLHA

Podia contar-vos mil e uma estórias da quarentena, como a vez em que , ou de quando voltei a Lisboa pela primeira vez desde março e confundi o barulho do comboio com uma tempestade (sim, estar muito tempo na aldeia faz destas coisas), mas não estaria a ser sincera em relação àquilo que marcou o meu ano de 2020, a redescoberta da minha paixão por hábitos que deixara na prateleira há já algum tempo, como a escrita e a fotografia, as minhas formas preferidas de me expressar e explorar a minha criatividade, criando. 2020 tirou-me muito, mas trouxe-me a lembrança de que, por pior seja o meu dia, posso transformar todos esses maus sentimentos e momentos e transpô-los para o papel, para a fotografia, ou seja qual for a tela que escolho para me exprimir. 2020, este ano tão caótico, que trouxe mais preocupações e angústias que qualquer outro ano até agora, mas que nos ensinou a dar valor àquilo e àqueles de que mais gostamos e a viver mais intensamente cada momento, como se fosse o último. Não foram os aniversários, ou os dias de “festa” que marcaram este meu ano, mas sim aqueles dias em que dancei pela casa com a música aos altos berros, em que vi o sol a pôr-se enquanto conduzia, e todas as vezes em que falei com os meus amigos e família e soube que estavam bem, num cenário de caos, doença e crise, em que não podemos dar nada por garantido.

CONCURSO


NOVA EM FOLHA

P

HEMISFÉRIO GUILHERME GUERRA

Dois lados da insónia Pedra-maré de mar alto Recortes das ondas Vivem a dupla lâmina Procurar álcool no carvão A dança da bebida fica A luz do vidro de relógio Sem espelho intensifica Os gestos sem ritmo Os troféus sem base Bebe um licor de marasmo Na música do minuto. São as faces nos ponteiros A pêndulo sem compasso Os olhos de psicose ensaiada Memorial de multidões Arquipélago de ateus do mundo Cai uma pedra da calçada Tudo se segue, mudo Ser aquele que para Nos dois lados da vaidade.

CONCURSO


P

NOVA EM FOLHA

CONCURSO

ONDAS DE SERRA CATARINA LOURENÇO

Da janela da minha cozinha, consigo ver a Serra. Não é uma grande serra; é um conjunto de montanhas que, por acaso, é maior que todas as outras montanhas. Do ponto alto da montanha em que a minha casa está, consigo ver a Montanha que é a serra, com toda a imponência de uma montanha que não é assim tão alta, mas que é mais alta que as outras. Esta vista, a da serra, é uma que me acompanha desde há nove meses atrás: em março, cortaram os eucaliptos que protegiam a minha casa do vento forte (típico de uma montanha) e, desde então, consigo ver a serra como se fosse minha vizinha. A dezenas de quilómetros de distância, mas parceira de uma altitude que não é a de todos. Sentada na mesa da minha cozinha, mesmo com o computador e todos os livros, cadernos e canetas à minha frente, consigo ver a serra. Lá ao fundo, é uma presença constante, é o ponto em que o céu toca na terra e cria o horizonte. Quando os quatro cantos da minha casa se fecharam à minha volta, pude sentar-me na mesa da minha cozinha e, pela janela, ver um novo horizonte. O que inclui a serra: verde, castanha e, infelizmente, branca de buracos e de calcário. Mesmo a dezenas de quilómetros de distância, vejo que a pequenagrande serra está esburacada, a mostrar o que durante tantos séculos escondeu. Incrível como, quando os cantos se fecharam, os horizontes se abriram. Não foi algo propositado - o que levou aos buracos da serra, levou ao buraco no céu que me deu o horizonte decorado pela serra. Não há, portanto, muito a fazer, além de aproveitar os novos horizontes.

Foi pertinente e oportuno, porque os cantos da casa fecharam-se, mas a altitude da montanha em que a casa repousa possibilitou o novo horizonte que, da janela da cozinha, vejo todos os dias. E, quando os cantos da casa fugiram para a minha cabeça e se fecharam ainda mais, a serra (os seus pequenos-altos e os seus grandes-baixos que cortavam, às ondas, o céu) foi uma boa companhia. Cortou também as paredes da minha cabeça e decorou-a de verde e de castanho - não de branco, porque na minha cabeça não há calcário, tal como não há eucaliptos para cortar. Muito desses nove meses foram passados numa cadeira, em frente a uma mesa; quase nunca a da cozinha, porque as paredes do meu quarto assemelhavam-se mais às paredes da casa que tinha que ser fechada.


P

NOVA EM FOLHA

O quarto é mais confortável, mesmo que a cadeira e a mesa e o computador não o sejam. E as paredes da minha cabeça, decoradas com listas de tarefas e trabalhos à espera de serem feitos, não rejeitavam a ideia de, nos minutos de menor espaço entre elas, serem cortadas na forma de ondas da serra. Nem sempre pela janela; por vezes bastava sair de casa - não das paredes, mas de casa -, dar uns passos e olhar em frente. E lá estaria ela, a serra, no fundo daquilo que os meus olhos conseguiam ver, decorada de verde e de castanho e pintada, à volta, do azul do céu. Num dia bom, o branco era das nuvens e não dos buracos. O ar da rua refresca e renova. Por isso, quando as listas de tarefas cresciam e pintavam todas as paredes da minha cabeça, sair delas e ir para o jardim e respirar ajudava. Quando o mundo lá fora, fora dos cantos fechados da minha casa e mais longe que o horizonte, crescia e inchava ao ponto de as paredes estremecerem, a brisa resignava. Quando as notícias enchiam o ecrã do meu computador e as emoções borbulhentas lascavam as camadas protetoras dos cantos da minha casa, o ar arrefecia. Por vezes, as emoções borbulhentas arranjavam maneira de entrar na minha cabeça. As paredes cresciam de volume, o espaço ficava mais curto, e tudo o que existia eram as emoções fortes, cruas e selvagens que as notícias do ecrã me faziam sentir. O mundo não deixou de existir só porque os cantos se fecharam e um novo horizonte se abriu, mas a sua existência mudou. Ficou também mais selvagem, mais revoltada, mais certa da veracidade das suas queixas - e, mesmo do meu jardim com vista para a serra, eu concordei com a mudança. As paredes da minha cabeça, decoradas de listas infinitas e de notícias de ecrã, protegiam as emoções que, como água, aqueciam até ferverem. O ar fresco arrefecia e resignava e acalmava, mas um olhar para trás, para dentro, para as notícias, era o suficiente para tudo borbulhar mais uma vez.

CONCURSO

Quando os cantos da minha casa se abriam, devagarinho, era a minha cara que se fechava. Metade visível, metade escondida, enfrentava o mundo com apenas dois olhos para mostrar quem sou e fui. Estes dois olhos, com os quais eu via a serra e as notícias e a água a ferver, eram o meu único identificador. Uma pessoa meio conhecida e meio desconhecida olhava para mim e um piscar de olhos mais brilhante era o único reconhecimento. Sair dos cantos da minha casa perdeu o valor que outrora teve; olhar para a serra era melhor que dois olhos parcialmente lembrados de mim, a pestanejarem como cumprimento cúmplice de uma pessoa que, também ela, não queria estar fora dos cantos da sua casa. Lá fora, longe das montanhas e da pequenagrande serra, o mundo esperava por mim. Onde as casas são tão altas como a minha não por estarem em cima de montanhas, mas porque foram construídas para fingirem que sim. Onde o ar é mais quente e a quantidade de pessoas meio tapadas, meio descobertas, é maior. Onde há mais pares de olhos mas que, por não me reconhecerem, não possuem o brilho que cumprimenta enquanto entristece. Lá, não vejo a serra nem estou no topo de uma montanha, estou dentro de caixas onde vivem pessoas e vejo outras caixas, mas não vejo as pessoas. Lá, é onde o mundo existe, mas o que me tapa meia cara é o que escreve nas paredes da minha cabeça que aquilo não é uma realidade. Que não existo ali, porque não posso existir permanentemente tapada, nem longe da serra que vejo todos os dias, do topo da minha montanha. Eu não existo, e tudo o resto ganhou uma forma estranha e desfocada, meio tapada, que me persegue sempre que saio da minha caixa e encontro outras pessoas meio tapadas. Vejo, de perto, aquilo que uns meses antes eram só notícias de ecrã que lascavam as paredes à minha volta.


P

NOVA EM FOLHA

Vejo armas e essas não estão meias tapadas; são bem visíveis, mesmo que escondidas em bolsos ou em mãos. Vejo o medo nos olhos baços, vejo desconforto na posição rígida daqueles que se sentam e se recusam a olhar para os olhos igualmente baços e desconfortáveis que se sentam ao seu lado. Sair de casa, das paredes da caixa alta que quer ser montanha, é ver medo, desconforto, e vontade de fuga. E, nas caixas que mexem, o ar está parado. Não sai pelas portas nem pelas janelas, fica dentro da caixa a sufocar quem tem o azar de precisar dela. As pessoas meio destapadas que me rodeiam param, seguram-se à caixa que mexe, até uma porta se abrir e o ar da rua as puxar para fora. Sair de casa, das paredes da caixa altura que quer ser montanha, entrar na caixa larga que quer ser carro, é o destino dos que não conseguem ser mais que fracos. Como eu, não têm força mas são forçados a saltar de caixa para caixa. Sob um tom cinzento e pesado, o mundo existe como numa fantasia, em que humanos só existem por metade e ninguém consegue respirar. Como o ar que prende e que fica preso, permaneço em caixas, à espera do dia em que volte a existir por inteiro, a olhar para a serra, da janela da minha casa no topo da montanha.

CONCURSO


P

NOVA EM FOLHA

CONCURSO

O ATO MAIS COBARDE FRANCISCO CALAPEZ AZEVEDO

O meu pai tinha cancro nos intestinos e um sentido de humor fantástico, negro, cáustico, mas fantástico. Nunca o vi chorar, mesmo quando a situação só dava para chorar. Ele ria-se sempre, ria muito, ria porque rir certamente faz melhor à saúde do que chorar, que é só água que a gente não mija. Não que se impedisse de sofrer, não era daqueles pais austeros, daqueles homens macho que não choram, porque quem chora são as mulheres, não. Ele admitia que não chorar era até um ato de cobardia, que era destruir a situação e construir uma nova que lhe agradasse mais; não chorar era desconstruir e construir em algo menos doloroso, o ato mais cobarde. O pai ria-se de tudo, especialmente de si e dos seus, que sempre viu como um alongar de si mesmo. Nós eramos, para efeitos de piada, e, portanto, para efeitos de vida, uma parte de si, tão sua como um órgão seu, como as suas palavras. Ria-se de nós desregradamente, sem acautelar os nossos sentimentos, sem pedir permissão, e essa era a sua maior prova de amor. A mãe por vezes ficava preocupada, por nós, nunca por ela, ela já sabia o que a casa gastava e sabia que aquilo era amor, mas nós, miúdos nas idades dos humores parvos, humores de gente que ainda não o é, poderíamos não gostar, poderíamos usar aquele riso como desculpa para os nossos malfazeres. Mas a verdade é que não eramos mesquinhos, nem havia como ser mesquinho com o nosso pai, que se ria sempre. Foi triste o dia em que recebemos a notícia. Ele ria, mas nós não conseguíamos. Não nos tinha sido concedida a permissão para sermos cobardes, então ficámos sérios, sisudos, as lágrimas a correrem-nos cara abaixo, a abrilhantarem as rugas dos olhos e dos cantos da boca da mãe, a molharem os bigodes do meu irmão mais velho; até o cão parecia chorar, não sei se por saber o que se passava, se por nos ver assim, a chorar. Penso que ele sabia.

II O pai morreu, uma segunda-feira, durante a tarde, a ver um jogo de snooker na televisão. Eu detestava ver snooker, tudo parado, demoravam muito, e não percebia as regras, o que nunca ajuda. Ele adorava, era isso e as voltas de bicicleta, fossem elas a frança, ou a espanha, a itália ou na cochinchina. Estava no seu sofá, na sala dele, que há noite virava sala de jantar, mas que de dia, desde que se reformara, se tinha feito sala de televisão do pai. A mãe ficava no quarto, ou a arrumar a casa, ou na cozinha. O pai era um homem de outro tempo, como se isso fosse desculpa de jeito, então ria-se e via desportos parados, enquanto a mãe fazia o resto da vida deles. Sentado no seu sofá, a minha mãe achou que ele dormia, então ficou ali umas horas, sentado, cabeça lançada para trás, os homens a dar tacadas em bolas brancas, tentando meter outras bolas em buracos, utilizando as leis da física. Talvez tivesse adormecido, talvez tenha falecido enquanto dormia, sonhando para sempre o mesmo sonho. Talvez sonhasse que estava no céu, e por lá tenha ficado; ou rir é pecado, e tenha ficado pelas terras quentes de satanás. Ninguém sabe. Morreu a ver um desporto parado parado, como quem procura a calma que a vida não oferece, naqueles homens de colete e camisas impecavelmente brancas, que de taco em riste, a ponta azul ou vermelha, e lá se dá uma pancada estudada na bola branca. Só joguei bilhar uma vez e bati com a ponta no verde da mesa. III O cancro do pai começou nos intestinos. Ele sujava-se com facilidade, não se controlava, mas riase da incontinência. Estávamos, certa vez, às compras de cuecas, veja-se a ironia, quando ele se sujou todo. Tinha umas calças pretas, pelo que não se notava muito o molhado das mesmas, que ficaram um pouco mais escuras, não sendo algo que chamasse à atenção.


P

NOVA EM FOLHA

Como vou agora para casa? E nós fizemos caras de incompreensão. Epá, não vou a pé que isto vai me até aos pés, mas também não vou de carro, isto esborracha-se-me contra as bordas, fico todo cheio de merda até à cintura. Nós esboçamos um sorriso, eu e a mãe. Tu é que sabes, preferes uns sapatos com merda, ou ter merda até à barriga? Mais para o final tornou-se complicado. Ele começava a sujar-se com cada vez mais frequência, as fraldas não chegavam para conter o desconforto que ele tinha e que sabia que causava nos outros, os que sabiam claro, então começou a recusar-se a sair de casa. Com isto, começou a recusar-se a comer, depois começou a dormir cada vez mais. Com isto, começou a recusar-se a viver. Sempre a rir-se de tudo, especialmente de si mesmo e dos seus, começou a recusar-se a viver, não desejava mais este triste fado que lhe tinha sido encomendado. Com o cão ao seu lado, entrou num sono do qual não mais despertou. O dia seguinte fez-se dia sem ele, a semana seguinte fez-se semana sem ele, o mês seguinte, o ano seguinte. O meu filho nasceu sem ele, e hoje tento não chorar, tento rir-me para o meu filho, e nunca chorei à sua frente. Talvez o pai também só não chorasse à nossa frente.

CONCURSO


P

NOVA EM FOLHA

CONCURSO

2020, NUM MOMENTO: O MOMENTO EM QUE TE SENTES AFOGAR MARIANA LOUREIRO

Não interessa se estavas longe ou perto do abismo, se tinhas galhos à tua volta onde te segurar ou se estavas só tu. A velocidade e força de algo desta natureza ia levar-te de qualquer forma… Sentes-te cair. Há um momento em que estás só a pairar no ar, em que és leve e tu mesmo. Sabes que cais, mas ainda não te preocupa. Porque te havia de fugir a vida assim dos dedos quando ainda há pouco tempo tudo estava ali, sob teu controlo, tão perto? Depois é tudo muito rápido. Entras na água sem teres tempo de um último inspirar. E começa o caminho para a escuridão. Não sabes onde estás. Não percebes o porquê. Desconectas-te de ti e é difícil manter a força para lutar. Se tiveres sorte e coragem, superas-te. Sobes um pouco e a luz fica mais presente. Mas, se te rendes ao poder daquilo que achas não conseguir controlar, voltas a afundar. É difícil! Até aí tinhas o sol na cara e os abraços… tinhas uma vida que te absorvia e impedia de parar para pensar. Ouvias vozes bonitas cantar para ti, saías e passeavas por onde quisesses. Isso caiu. E caiu ainda tu flutuavas. Em troca tiveste tempo. Muito. Ainda tens… Atinges a superfície outra vez. Aguenta! Mostra que as lágrimas que te limparam a alma deixaram espaço para crescer a tua força.


NOVA EM FOLHA

P

RECEITAS

Receitas Brownies – efeito Pai Natal P R Ingredientes E 5 colheres de manteiga; 3 ovos; 6 colheres de sopa de açúcar; 12 colheres de sopa de farinha de trigo; 200 gramas de chocolate em pó. 14 morangos pequenos; 1 chávena de chá de chocolate branco.

Sonhos de Abóbora Ingredientes 2,5 dl de leite; 100 g de margarina; sal q.b.; casca de 1 limão; 300 g de farinha 900g de abóbora cozida em puré; 4 ovos; óleo q.b.; açúcar q.b.; canela em pó q.b.;

P A R A Ç Ã O

1. Derreter a manteiga e reservar. 2. Misturar os 3 ovos com o açúcar. 3. Acrescentar a manteiga derretida ao ovo e ao açúcar. 4. Ir misturando e acrescentando o chocolate em pó e a farinha. 5. Pré-aquecer o forno a 180 graus. 6. Untar com manteiga as formas do muffin e enchê-las a cerca de ¾ com a massa do brownie. 7. Levar ao forno durante 25 minutos.

D E C O R A Ç Ã O

1. Enquanto os brownies arrefecem, lavar e preparar os morangos e depois colocá-los em cima dos brownies. 2. O chocolate branco deve ser derretido em banho-maria e depois transferido para um saco de confeitar (para quem não tem basta pôr num saco de plástico e fazer um furo no fundo). 3. Passar o chocolate branco à volta da base do morango e em cima uma ponta, de forma rápida antes que seque dentro do saco.

P R E P A R A Ç Ã O

1. Levar ao lume o leite, a margarina, o sal e a casca de limão. 2. Quando ferver, juntar a farinha e mexer até a massa se soltar do tacho. 3. Retirar a massa para uma tigela e deixar arrefecer. 4. Retirar a casca do limão e juntar a abóbora aos poucos, amassando bem entre cada parte que se juntar. 5. Adicionar os ovos e bater bem. 6. Tirar colheradas de massa e fritar em óleo abundante. 7. Escorrer bem e polvilhar com açúcar e canela.

Inês Pinheiro


Para passares o tempo...

Vertical:

1. A malta no Brasil vive o Natal no … 2. Há mesmo alguém que gosta das frutas … do bolorei?! 3. “We wish you a Merry Christmas and a Happy … !” 4. O PR e o Governo já disseram que, apesar da COVID19, é possível “… o Natal!” 6. A AEFCSH costuma decorar um e “plantá-lo” no átrio. 8. … Natal - figura mítica criada pela Coca-Cola para fins promocionais.

Horizontal:

5. Primeiro amigo-secreto da História - São … 7. Tens alguém especial com quem gostavas de estar debaixo do …? 9. Se tens amig@s de Espanha, guarda os presentes até ao Dia de … 10. Se em dezembro viajasses no tempo até à Roma do século I d.C., ninguém sabia o que era o Natal. Mas receber uma prenda na podias mesma, porque seria altura da …


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
NOVA em Folha | Dezembro 2020 by AEFCSH NOVA - Issuu