Skip to main content

"Joelhos Esfolados" - Edição Setembro/Outubro de 2026

Page 1

Setembro/Outubro

2026

NOVA em FOLHA Começamos o ano com o reconhecimento do passado que permite perspetivar o

futuro. A edição que comemora o início do ano volta ao início e pensa nas

crianças com o joelho ralado que logo de

seguida se levantaram e tornam a correr, e reflete tanto a queda, como a dor, quanto a corrida que as sucede.

Joelhos Esfolados GRATUITO 0.00€


Foto da capa

CONSULTA O NOSSO SITE Queres ter acesso a todos os textos da edição de forma rápida? Consulta o nosso site através do QR code na capa! Aí podes encontrar não s os textos das ediç es, mas também os textos da nossa “Folha Extra”.

Consulta a versão online do Jornal a cores! Disponível no link da BIO do nosso instagram @novaemfolha_fcsh

Pintura “Spinning”, de Diane Mannion

As Tuas Propostas Todas as ediç es aceitamos propostas de textos, poemas, críticas, receitas, cr nicas, bitaites, artigos desportivos, notícias e destaques, reportagens, peças humorísticas,... de qualquer alun@ ou docente da FCSH, os quais são posteriormente revistos pela nossa equipa editorial. Aceitamos ainda propostas de fotografias, ilustraç es, montagens,... não s para serem incluídas na nossa edição, mas também para se habilitarem a ser a capa desse mês! Basta enviares a tua arte para o seguinte e-mail: novaemfolha@fcsh.unl.pt Qualquer d vida ou sugestão não hesites em contactar-nos! Ficamos à tua espera! :)

notas A ado(p)ção do acordo ortográfico em vigor é uma decisão individual d@s membr@s da equipa de reda(c)ção e colaborador@s. Ap s a revisão completa do material recolhido pela equipa editorial, o seu conte do e versão final são da responsabilidade e exprimem somente o ponto de vista d@s respectiv@s autor@s.

Este jornal é impresso em papel 100% reciclado. 01


Set/Out 2026 Direção Carolina Ramos Miguel Martins Rui Jorge Cabral

Redação

Revisão

Alexandre Ferreira Ana Vit ria Rodrigues Carolina Ramos Clara Pexirra Cyndelle Ferreira Eduarda Teixeira Eva Vieira Helena Greg rio

Carolina Ramos Inês Fonseca Madalena Bernardo Madalena Nunes Mariana Salviano Miguel Martins Nicoleta Manoli

Edição Gráfica Alia Djalo Carolina Campanacho Eduarda Teixeira Eva Vieira Inês Oliveira Letícia Caetano Madalena Rosado Néné Rosa Fiqueli Zara Furtado Inês Fonseca Inês Lopes I ri Soares Laura Tuck Mafalda Monteiro Maria Amélia Velosa Matilde Ferreira Matilde Paquete

Mercedes Basílio de Oliveira Miguel Cruz Pereira Miguel Martins Néné Rita Sousa R ben Rosa Rui Jorge Cabral Santiago Perdigão Tatiana Marcelino

Colabora- Agnès Guérin dores Benedita Faria Guilherme Stecinski José Américo Rego Margarida Batista Maria Francisca Duffy Maria Inês Gaspar Miguel Vert Professora Joana Meirim

Ficha Técnica 02


Conteúdos 09 As ideias-pastilha pt. 2

A visita ao ltimo artigo de Cyndelle Ferreira leva à reflexão sobre noção de democracia, com a proposta para que esta seja novamente mastigada para se reinventar.

10 NeF apoia manifestaç es a favor da luta pelo direito a uma habitação digna

Então distante, a mobilização para a luta internacional pela habitação teve o seu momento desbloqueador nas acampadas espanholas. A equipa do NOVA em Folha presta a sua solidariedade à causa.

12 O Futuro do Jornalismo, Segundo o Poder

R ben Rosa analisa as diferentes vis es da política nacional para o jornalismo e o que o simboliza a IA para a área, e infere sobre o que virá a ser o seu futuro.

16 NOVA FCSH recebe o esp lio de Adília

16

Lopes

A prop sito da criação do Centro de Estudos e Documentação Adília Lopes, a Professora Joana Meirim, que o coordena, conversa com Cyndelle Ferreira e Miguel Cruz Pereira sobre a obra e esp lio da poetisa.

19 Adília Lopes Adília

Miguel Cruz Pereira ensaia, embriagado da sua entrevista, as dobras e redobras — e o seu desdobramento — da obra de Adília Lopes.

30 Personificação da Personalização

Heráclito e o navio de Teseu são trazidos por Inês Fonseca para um churrasco da FCSH, que discorre sobre o tempo e os seus desenhos.

11

06 novaemfolha@fcsh.unl.pt

03

37 P Word Este texto de Laura Tuck é um palavreado pegado, preliminar, profundo, poético, prosaico, palavrão, palavrinha, precioso e persuasivo.

@novaemfilmes

@novaemfolha_fcsh


Índice 05 Somos Barcos

31

06 AE em Folha

32 Entre o Berço e o Caixão

07

33 Também n s éramos circunstância

Apresentação dos N cleos da FCSH

Quis Saber Quem Sou

09 As ideias-pastilha pt. 2

34 A vida não é uma metamorfose

10

Subida dos combustíveis: credíveis ou despropositadas?

35 All Is Full Of Love

NeF apoia manifestaç es a favor da luta pelo direito a

36 Saudades de, sem Culpa, Perder Tempo

uma habitação digna

37 P Word

11

Os Recordes Caducados

38 6, 10, 14, 18, 22

12

O Futuro do Jornalismo, Segundo o Poder

39 Ela

14

As Vossas Fotos, na Faculdade!

40 Poesia és

16

NOVA FCSH recebe o esp lio de Adília Lopes

18

Adília Lopes Adília

41

19

O Meu Verão com O Pintassilgo

42 Do latim notula

Galáxias Dores de crescimento

20 Recomendaç es da Equipa

43 Metamorfose

21

Agenda Cultural

44 A vida não é a tinta permanente

27

Lista de Filmes

28

Arrependimentos dos Estudantes

45 Vestígios

29

O direito à incoerência

46 As Multitudes que Fui

30 Personificação da Personalização

novaemfolha@fcsh.unl.pt

Direito de Crescer

47 Passatempos

@novaemfilmes

@novaemfolha_fcsh 04


Somos Barcos Setembro/Outubro

A

jornada de Teseu sempre foi

Rui Jorge Cabral

Editorial

esta nova embarcação, que nunca sequer tocou em Teseu, é a mesma que o

Percebe-se, seguindo as leis da natureza,

dos meus mitos favoritos, um mérito enorme para alguém que

transportou?

contas,

porque não será o rio o mesmo, afinal de este

encontra-se

em

fluxo

aos 11 anos leu o primeiro livro

É do mesmo ponto de partida que a

ininterrupto de uma ponta à outra. Porém,

da franquia Percy Jackson e

reflexão sobre esse barco que nasce o

não sendo o homem o mesmo, quererá isso

tornou-se imediatamente um

tema por detrás desta edição do NOVA em

dizer que este passará a ser um homem

pequeno grande cromo por tu-

Folha, a contemplação sobre um passado a

diferente?

-do o que envolvia mitos e hist rias de

que não se consegue regressar e sobre o

pode-se perceber que o homem que não é

aventuras de her is por diferentes mundos,

sujeito que outrora nele se inscreveu. É a

o mesmo é o navio que está a ser

do grego ao romano, do egípcio ao

reflexão sobre quem somos, se o navio

gradualmente

n rdico. Foi essa franquia sobre um

lentamente reconstruído sem marcas e

diferente e a perder os traços que o

semideus grego que fez de mim o leitor

sem a hist ria de aventura, ou se um novo

que sou hoje, sendo estes, de certa forma,

navio reerguido a partir de todas as peças

caracterizavam. Temos todos, inequivocamente, o direito à

os livros que mais influenciaram a jornada

descartadas. Ainda no t pico da Grécia Antiga,

mudança e ao desenvolvimento pessoal,

A filosofia e quem a pratica tiram muito

recupero Heráclito e a sua mais famosa

enquanto processos e decis es individuais

das hist rias de quem pode ser facilmente

citação, “Nenhum homem pode banhar-se

não podem ainda ser regulados, mas até

considerado o maior her i do mundo grego

duas vezes no mes- mo rio, pois nem o rio nem o homem serão os mesmos.”

que ponto é que a nossa capacidade de

da minha vida.

Ao

mudar

constantemente,

reparado,

continuamente

especialmente tendo em conta que estes

in meros pensadores já se debruçaram.

crescer não é limitada pelas condiç es sobre n s impostas? Adotando uma conceção determinista da realidade, até que

Falar de Teseu, passou para estes a ser,

ponto é que revisitar o passado não nos

quase diretamente, falar da embarcação

prende

que o transportava na jornada pelo mar

encontrava? Esta visita repetitiva ao passado

Egeu. O que se conta sobre o Navio de

e a ligação que ainda se tem a este é o mote

Teseu é até bastante direto. Passam-se

que vem orientar a primeira edição deste

anos desde a mítica jornada e o navio

ano letivo. O meu ponto de vista pessoal? Li já mais

e, além das aventuras e lutas de Teseu, há um elemento do seu epílogo sobre o qual

começa, lentamente mas certamente, a definhar e a esmorecer. A cada pedaço do navio que caía, era colocado um novo em seu lugar para garantir que o navio não ficava perdido ao tempo, até que, com o passar deste, são substituídas todas as tábuas podres por novas, e velas rotas por velas intactas. Perguntamo-nos então, será que

05

à

versão

nossa

que

lá

se

de uma dezena e meia de livros da franquia e a minha personagem favorita continua a que era nos primeiros três. Erga-se o barco, passe o rio e mude-se o homem, mas há de ter havido um homem a partir do qual mudar. .


Setembro/Outubro

O

AEFCSH

“

2026

AE EM FOLHA

Se nos tiram as cadeiras, nós não ficamos sentados!

ano lectivo 2026/ 2027 uma Reunião Aberta com a presença de carizando ainda mais o ensino superior e iniciou-se com a Nova vários estudantes e de uma docente continuando o seu processo de elitização.

Estreia, uma recepção aos convidada, com o objectivo de discutir, em

É contra este aumento da propina e contra o

caloiros que demonstrou a conjunto, os efeitos da Reforma Curricular. ataque reiterado à ação social que apelamos a fraternidade com que Destacamos ainda outras lutas promovidas e que todos os leitores e estudantes da FCSH se tanto os estudantes da objectivos concretizados pela AEFCSH. No dia juntem, às 17h00 do dia 21 de Outubro, à FCSH como a AEFCSH re- 30 de Setembro o Cineclube fez a sua rentrée, concentração em frente à sede do Governo.

cebem as novas caras na faculdade. A com uma sessão de curtas metragens e uma Lutemos juntos por um ensino superior para programação desta semana de recepção apresentação do clube particularmente todos! abrangeu desde pequenos eventos, como o direccionada aos novos estudantes da speed friending, até rodas de samba e faculdade. Para dar início ao mês de Outubro, realizouconcertos. E, claro, não p de faltar o já se, no dia 1, um debate com convidados na tradicional Churrasco da FCSH! Este início de ano, no entanto, não fica esplanada coberta da faculdade. O debate apenas marcado pelo acolhimento aos novos «Que futuro para o ensino superior?» estudantes na faculdade. Na mesma semana contou com a presença da FENPROF, da ABIC em que assistiram a concertos e fizeram novos e da AEFLUL. Na semana seguinte, no dia 7, amigos, centenas de estudantes viram-se tivemos a Feira da Ladra no Campus de uma confrontados com aquilo que são as Berna, seguida da organização de

consequências do subfinanciamento exposição fotográfica no dia 13. Esta crónico do Ensino Superior em Portugal. A exposição aberta conta exclusivamente com Reforma Curricular na FCSH veio contribuir fotografias submetidas pelos estudantes da ainda mais para a irregularidade dos horários, FCSH, permitindo que a sua visão do mundo e as limitaç es curriculares e, no geral, a a sua paixão fiquem expostas para apreciação por parte de colegas, docentes e todos desvalorização de todos os cursos da FCSH. É no sentido de combater esta reforma que aqueles que tiverem interesse em explorá-la. É imperativo dar um destaque especial à a AEFCSH apresenta o seu Caderno Reivindicativo, composto por testemunhos, participação da AEFCSH na manifestação de preocupaç es e exigências dos estudantes. 10 de Outubro, em solidariedade com o povo Neste âmbito, será entregue um abaixo- palestiniano, pelo fim do genocídio e da assinado à Direcção da faculdade, no dia 27, ocupação israelita na Palestina. É papel da AE às 12h30, demonstrando o descontentamento não apenas lutar pelos direitos dos dos estudantes com os efeitos da reforma e a estudantes, mas também estar ao seu lado na sua vontade colectivade lutar por uma reforma defesa de causas tão cruciais como esta! que vá, efetivamente, ao encontro dos

Por fim, relembramos o ataque que o Governo

interesses - tanto dos docentes como dos anunciou contra o Ensino Superior no dia 8 de estudantes - de todos. Foi por isso que, no dia Outubro. Uma vez mais, na proposta do 15 de Outubro, se realizou na esplanada Orçamento de Estado para o pr ximo ano, o Governo ameaçou aumentar as propinas, precoberta da faculdade, na Avenida de Berna,

Imagens: Dia Nacional do Estudante 2026 Fonte: AE FCSH

06


FCSH

Setembro/Outubro

Outro

Apresentação dos Núcleos da FCSH NECCOM O N cleo de Estudantes de Ciência da Comunicação (NECCOM) surge como uma forma de p r em prática os conhecimentos adquiridos ao longo da licenciatura. Através de projetos, eventos, workshops, visitas e convívios desenvolvidos pelos pr prios estudantes, o NECCOM procura enriquecer não s a vida académica, mas também a experiência social dos seus alunos.

NARQ

O N cleo de Estudantes de Arqueologia (NARQ) tem como objetivo promover e divulgar o produto académico e científico das diversas áreas da Arqueologia, assim como zelar pelos interesses e direitos de todos os estudantes integrados nos 3 ciclos do curso. Pretendemos envolver a comunidade estudantil na área da Arqueologia através de protocolos com outras instituiç es, p blicas e privadas. Para além da componente científica, o NARQ pretende incentivar a convivência entre os estudantes da NOVA FCSH, da AEFCSH e de outros n cleos estudantis de @narq.fcsh arqueologia espalhados pelo país.

@neccomnovafcsh

NHIST

Conhece o NHIST, o n cleo que se torna casa na FCSH. Vem fazer parte da nossa Hist ria! @n.hist.fcsh

NES O NES é um espaço livre e cooperativo para os estudantes de Sociologia. Trazemos um bocadinho de tudo: a ciência, dando vida à Sociologia através de conversas, visitas de estudo, workshops, etc.; a política, fazendo a ponte entre os estudantes — dando voz às suas preocupaç es — e os docentes; e o convívio, onde se ouve, se dança, se bebem jolas e se cultivam amizades. @nesfcsh

NECPRI O NECPRI é o N cleo de Estudos de Ciência Política e Relaç es Internacionais da Universidade NOVA de Lisboa, uma organização estudantil que pretende promover o estudo da Ciência Política e das Relaç es Internacionais. As atividades que organizamos incluem conferências, workshops, artigos, podcasts, visitas de estudo... e muito mais! @necpri

NEANTRO O NEANTRO é o N cleo de Estudantes de Antropologia cujo principal objetivo é unir os estudantes do curso através de atividades de convívio e visitas de estudo que permitam observar, na prática, os conte dos abordados nas aulas. Pretendemos, igualmente, desmistificar a antropologia, mostrando a sua presença nas pequenas situaç es do dia a dia e o modo como nos acompanha ao longo da vida. @neantro_fcsh

07


FCSH

Setembro/Outubro

Outro

CINECLUBENOVA

NOVA DEBATE Olá, malta! N s somos a Nova Debate, a sociedade de debate competitivo da Universidade Nova de Lisboa. Conheces aqueles filmes americanos sobre clubes de debate? N s somos isso — mas melhores! O debate competitivo permite trabalhar a argumentação l gica a partir de temas propostos para discussão. Como a posição de cada pessoa é sorteada, terás de ganhar pela argumentação, o que te permite desconstruir preconceitos. Isso faz com que ganhes ferramentas para apresentar trabalhos da faculdade, mas também permite que participes em torneios em vários pontos do país, com custos reduzidos, o que fomenta de laços de amizade com malta de todo o lado!

O CineClubeNova, tal como o nome indica, é um cineclube de alunos da FCSH que se dedica à mostra semanal de filmes, à escrita e reflexão sobre cinema e à organização de atividades dedicadas à criação, diálogo e comunhão através das imagens. @cineclubenova

@nova.debate.unl

NEOLISIPO A Real Tuna Académica NeOlisipo é a Tuna Mista que representa esta casa, a NOVA FCSH. Refundada a 9 de março de 2018, a RTAN acolhe diversos alunos (e até mesmo funcionários) com um enorme amor pela m sica, ou por vezes um gosto inexplorado! Temos como principais objetivos promover o convívio e o gosto pela m sica através de um ambiente acolhedor e seguro, realizando e participando em atividades diversas, desde festivais e atuaç es de rua a atuaç es de cariz solidário. É o lugar ideal para quem quer juntar a m sica à diversão, ao convívio e às amizades!

NEG E N.FIL A nossa Faculdade conta ainda com os n cleos NEG (N cleo de Estudantes de Geografia) e N.FIL (N cleo de Estudantes de Filosofia). Podes saber mais sobre estes n cleos consultando as suas páginas do Instagram! @neg.fcsh

@n.fil.fcsh

@neolisipo

NALLT O N cleo de Alunos de Línguas, Literaturas e Tradução é composto, principalmente, por alunos dos cursos de LLC, Tradução, Estudos Portugueses e Ciências da Linguagem. O nosso objetivo é divulgar o saber e o conhecimento científico das áreas das línguas, literaturas, tradução e da linguística. Para além disso, procuramos proporcionar atividades dinâmicas aos estudantes que permitam a integração dos mesmos e que desenvolvam as suas aptid es nas áreas mencionadas. @nallt_fcsh

08


Cyndelle Ferreira

Setembro/Outubro

Política

a taxa de abstenção nas legislativas de 2024

Mais do que apostar exclusivamente na procura

situou-se nos 40,10%.

de informação fidedigna, na educação cívica ou

Perante esta situação, existem diferentes diagn sticos. Há quem defenda que a chave da

no cultivo de uma cidadania abstrata, penso que

resolução reside na dimensão material: serviços

por encontrar um equilíbrio vivo entre o “eu” e o

do Estado funcionais, educação e habitação a preços acessíveis para todos. Mas será que a

“n s”. Esta questão está diretamente ligada à

redução da desigualdade econ mica bastaria, por

soberania popular. Observa-se um afastamento

si s , para restaurar a vitalidade política da

entre os cidadãos e as instituiç es políticas, que

democracia? Embora a justiça econ mica seja

poderá não resultar de uma intenção deliberada,

imprescindível, a crise atual parece-me estar

mas também da escassez de oportunidades de

também ligada à convivência interpessoal e ao

participação efetiva no exercício do poder

modo

soberano.

como

concebemos

e

exercemos

o

reconhecer uma vontade popular.

dimensão social, como se a sua autonomia pudesse existir independentemente dos outros.

Se a democracia quer sobreviver sem endurecer nem quebrar, talvez precise de ser

Outra coloca-o submerso no coletivo, cuja

novamente mastigada: discutida, experimentada

influência pode acabar por absorver a sua

e

identidade e liberdade. Entre estes dois extremos,

individualismo

coloca-se uma questão fundamental: como

tornando-se suficientemente aut nomo para

preservar a autonomia individual sem transformar

discordar do coletivo e, ao mesmo tempo, capaz

o indivíduo numa ilha, e como participar no

de considerar e negociar com o “todo”. Nem

coletivo sem nele desaparecer? É precisamente nesta tensão que reside a ambivalência do individualismo moderno. Se, por

insular nem de massa, mas consciente de que

defesa da autonomia e a afirmação de trajet rias pessoais nicas, por outro, pode degenerar num

¯¼a e¯·ag açã . Q¼a d a¯ l ¯·l·¼lç¦e¯ delÖa de c ¯eg¼l« da«-¯e ௠Ða¯ a ¯ledade¯ dlgl·al¯ e ¯ clal¯, a “¨a¯·l ha” e d¼«ece e ª¼eb«a. Se a¯ ldela¯ « b¼¯·a¯ ¯ã aª¼e a¯ ª¼e ¯e ada¨·a , e a de c«acla é ¼ a de a¯, c «el Ðe ·á- a ¨a«a faße« face ௠c«l¯e¯ ª¼e e f«e ·a a·¼a e ·e?”

Folha, maio de 2026.

Submergidos pelas notícias, descontentes com o status quo e com a deterioração das instituiç es democráticas, ou frustrados com o sistema de representação, muitos percecionam a democracia como uma máquina lenta e incapaz de responder ritmo

vertiginoso

contemporâneos.

Os

dos

desafios

n meros em Portugal refletem esta constatação. Segundo a Comissão Nacional de Eleiç es (CNE), 09

com o bem comum se dissolve. Vivemos isolados nas nossas ilhas, ignorando que as correntes do

que, embora a democracia assente na soberania popular, esta exige mais do que a mera agregação de preferências individuais: pressup e que os cidadãos se reconheçam como participantes de um destino político partilhado. Uma votação permite contabilizar preferências, mas não garante, por si s , a construção de uma vontade comum. Esta exige também que os indivíduos confrontem as suas perspetivas, ponderem os interesses alheios e reconheçam as consequências coletivas das suas escolhas. O problema não é, portanto, a afirmação da autonomia individual em si mesma, mas a sua

transformação numa forma de desligamento

“As ideias-pastilhas”, Mudar de Vida, Nova em

ao

isolamento egocêntrico, no qual o compromisso

mar nos afetam a todos. O mais importante no meu ponto de vista é

“E¯·«a ha e ·e, ¨e«lg ã e ¨a«ece ¯e« de¯a¨a«ecl e · da de c«acla a¯, ¯l , a

torna-se

como alguém completamente desligado da

"Deve-se, portanto, esperar que o interesse individual se torne mais do que nunca o principal, se não o único móbil das ações dos homens; mas resta saber como cada homem entenderá o seu interesse individual.”

Cyndelle Ferreira

individualismo

particularmente problemático quando obscurece o sentimento de pertença a uma comunidade e, com ele, a possibilidade de

Imagem de: Steve Cutts; Fonte: Blog do Tarso

A¯ ldela¯¨a¯·l ha ¨·.2

O

individualismo. Ao longo da hist ria, surgiram várias conceç es do individualismo. Uma concebe o indivíduo

um lado, permite a emancipação da pessoa, a 1*

a verdadeira reinvenção da democracia passa

transformada. terá

Para

isso,

o

de

ser

reinventado,

pr prio

vive entre e com os outros: um individualismo negociativo e prático. Negociativo, no sentido em que pressup e uma atitude aberta ao diálogo, a capacidade de ouvir ativamente e o reconhecimento do outro como interlocutor legítimo. Não implica concordar com tudo, mas aceitar que as perspetivas alheias devem ser consideradas na construção das decis es coletivas. Implica também uma abertura ao compromisso, reconhecendo que as convicç es individuais não são dogmas inegociáveis e que é necessário estar disponível para ceder, ajustar expetativas e procurar pontos de convergência. Por outro lado, este individualismo seria prático, pois s poderia florescer se lhe déssemos espaço de ação. A cidadania não pode continuar reduzida ao gesto epis dico de votar a cada quatro anos. A “mastigação da pastilha da democracia” exigiria ampliar as oportunidades de participação para além do voto, por exemplo, através de assembleias cidadãs e de f runs locais de deliberação sobre problemas concretos das comunidades. Seria

que enfraquece a consciência do coletivo. A democracia pressup e a capacidade de reconhecer que, apesar das nossas diferenças,

também necessário aproximar os cidadãos das

partilhamos um espaço comum e dependemos

sobre o acesso à justiça, sem comprometer a

uns dos outros. Reinventá-la exige, portanto,

independência dos tribunais. “Il faut donc s’attendre que l’intérêt

compreender que não é apenas um conjunto de regras institucionais, leis e rituais eleitorais, mas também uma vontade, uma atitude e uma

instituiç es

judiciais,

promovendo

a

compreensão do seu funcionamento e o debate

individuel deviendra plus que jamais le

principal, sinon l’unique mobile des actions

capacidade de relação entre indivíduos. A resposta à estagnação da “pastilha”

des hommes ; mais il reste à savoir comment

democrática não pode, por isso, limitar-se a reformas legislativas: exige também uma mudança na forma como nos posicionamos na sociedade.

individuel*”. Tocqueville, De la Démocratie en Amérique,

chaque

homme

entendra

son

Édition 1866, Partie II, Chapitre VIII.

intérêt


Ana Vitória Rodrigues/ Equipa NeF

Setembro/Outubro

S¼blda¯ d ¯ c b¼¯·nÐel¯: c«ednÐel¯ ¼ de¯¨« ¨ ¯l·ada¯? Ana Vitória Rodrigues

Pagar mais de dois euros por litro para abastecer um autom vel deixou de ser uma situação excecional em Portugal. Em setembro de

Política

Contudo, é importante reconhecer que nem todas as responsabilidades podem ser atribuídas

petrolíferas,

ao

internacionais

Estado

ou

às

empresas

uma vez que as cotaç es são influenciadas por

acontecimentos geopolíticos e econ micos que Portugal não controla. No entanto, isso não elimina a necessidade de fiscalização. Se os preços são livres, como explica a ERSE, a comparação entre postos e marcas torna-se especialmente importante. Chegamos a uma contradição difícil de ignorar: o consumidor é aconselhado a comparar preços

A equipa do NeF solidariza-se com o

preço mais baixo pode ultrapassar os dois euros

movimento popular surgido em Espanha a

por litro, algo que não acontecia há dez anos. Assim,

atingir valores muito elevados, levando-nos a n s, consumidores, a questionar: serão estas subidas inevitáveis e até que ponto não serão

proporcionalidade das subidas e dos custos que lhes dão origem. Não é suficiente apresentar o

Os n meros são difíceis de ignorar: na semana de 21 a 27 de setembro, as previs es apontavam

acompanhar a evolução das cotaç es, dos custos

para 2,242 euros por litro no gas leo e 2,133 euros na gasolina. Isto significa que encher um dep sito de

50

litros

de

gas leo

pode

custar

aproximadamente 112,10 euros e um de gasolina, cerca de 106,65 euros. Para quem precisa do autom vel diariamente, não estamos perante uma diferença insignificante, são dezenas de euros adicionais todos os meses, deixando as carteiras

Equipa NeF

para encontrar o posto mais barato, mas mesmo o

2026, os preços dos combustíveis voltaram a

excessivas?

NeF a¨ la a lfe¯·aç¦e¯ a faÐ « da ¼·a ¨e dl«el· a ¼ a habl·açã dlg a

considero

legítimo

questionar

a

preço do petr leo como explicação automática para

qualquer

aumento,

é

necessário

de refinação e transporte e dos impostos. A verdadeira questão, portanto, - não é se os combustíveis estão caros, visto que os n meros o comprovam - é saber se os aumentos que chegam

ao

consumidor

são

devidamente justificados, sendo precisamente aí que a transparência, concorrência e fiscalização são indispensáveis, ainda que muitas vezes esquecidas.

favor da luta pelo direito de todas as pessoas a uma habitação digna. A revolta iniciou-se no dia 26 de setembro como resposta

ao

despejo

de

Maricarmen

Abascal, uma mulher de 87 anos que, depois de

viver

durante

70

anos

no

seu

apartamento sem nunca ter falhado o pagamento da renda mensal, foi tirada de

casa pela polícia perante a incredulidade

e indignação de um numeroso grupo de manifestantes. Estes

decidiram

organizar

uma

“acampada” de protesto na Puerta del Sol, centro nevrálgico da capital, frente à sede

cada vez mais apertadas. A situação torna-se ainda mais preocupante

do Governo da “Comunidad Aut noma”. O

quando se olha para a evolução acumulada. Segundo dados divulgados pelo ECO a 18 de setembro, desde o início da guerra no Médio Oriente, o gas leo aumentou 52,2 cêntimos

ao resto das principais cidades espanholas,

movimento reivindicativo foi se estendendo por forma a que a pressão social levasse o governo a apresentar no Parlamento dois decretos-lei com medidas para evitar

por litro e a gasolina 23,4 cêntimos.

situaç es

É verdade que existem raz es econ micas para estas subidas - Portugal está exposto às cotaç es internacionais do petr leo e dos produtos refinados, além de existirem custos de transporte, distribuição, incorporação e impostos. A ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos) explica que os preços dos combustíveis em Portugal são livres e podem variar de acordo com a marca e a localização. Mas esta explicação, por si s , não deve bastar para nos conformarmos. O problema não afeta apenas quem conduz: um aumento dos combustíveis significa maiores

proteger

os

legislativas foram rejeitadas na votação no Parlamento no dia 2 de outubro, com o voto contra dos partidos de direita e extremadireita, Partido Popular (PP), Junts e VOX. Esta reprovação incrementou o nível dos protestos na rua, dando lugar a uma grande manifestação no dia 3 de outubro, ao Imagem: “Aumento dos Combustíveis” Henrrique Monteiro; Fonte: SAPO Notícias

aumento dos “acampados” na Puerta del Sol (já com mais de 1.200 tendas), e à proposta de uma greve geral. Aquando da redação deste texto, no dia

e produção, que se refletem na vida diária dos consumidores através do aumento dos preços de

5 de outubro, o Governo de Espanha

outros bens e serviços. Em setembro, a inflação

decidiu antecipar para dia 29 de novembro

hom loga em Portugal já tinha atingido 3,3% em

a convocação de eleiç es gerais, para que a

agosto, mais 0,3 pontos percentuais do que em

população espanhola tenha a oportunidade

julho, segundo os dados referidos pelo ECO.

de pronunciar-se nas urnas. Posteriormente,

Assim, a questão dos combustíveis não deve ser abastecer o carro, mas, sim, como uma questão que afeta o custo de vida de toda a população.

e

inquilinos ante os abusos dos grandes fundos imobiliários. Estas medidas

custos para empresas de transporte, distribuição

tratada apenas como um problema de quem vai

similares

Imagem: «Manifestación por la vivienda en Madrid», em EuropaPress: Manifestación por la vivienda en Madrid - EUROPAPRESS

no dia 8 de outubro, Maricarmen Abascal, convertida em símbolo da revolta popular, faleceu no hospital onde estava internada 10


Setembro/Outubro desde que foi despejada, dando lugar ao recrudescimento das manifestaç es contra a especulação imobiliária. Em Portugal, esta situação não nos é alheia, onde é cada vez mais complicado para a juventude encontrar uma solução habitacional que nos permita iniciar uma vida independente, e por isso devemos apoiar e solidarizar-nos com a luta dos nossos iguais em Espanha para tratar de travar a especulação sobre um bem de primeira necessidade como é a habitação. Como escreveu Angela Davis: “Teremos de estar dispostos a levantar-nos e a dizer «não», unindo os nossos espíritos, os nossos intelectos colectivos [sic] e os nossos muitos corpos.*”

Imagem: Acampada en la Puerta del Sol, durante el atardecer del uno de octubre. Marcos del Mazo/LightRocket via Getty Images», em HuffPost: "Se están reconfigurando los debates": por qué la acampada de Sol le da oxígeno a la izquierda poniendo la vivienda en el centro *Angela Davis (trad. Tânia Ganho). A liberdade é uma luta constante (p.174). Lisboa, Antígona, 2025.

Os Recordes Caducados Inês Lopes

No desporto somos ensinados a olhar para trás para perceber o quanto evoluímos, mas também somos ensinados a olhar para a nossa versão anterior como alguém que temos de ultrapassar. Há qualquer coisa estranha sobre um recorde pessoal. Durante semanas, meses ou até anos, aquele n mero representa o melhor que conseguimos fazer. Depois, um dia, fazemos melhor, e aquele n mero que 11

Equipa NeF/ Inês Lopes durante tanto tempo significou “o meu melhor” passa a ser apenas um n mero antigo. O desporto transforma a nossa evolução em números; e nós, obviamente, celebramos. Mas é uma coisa curiosa: para sermos melhores, temos constantemente de tornar obsoletas versões passadas de nós próprios. Um aspeto bonito do desporto é haver sempre algo a perseguir ou algo a melhorar: ser mais rápido, ir mais longe, ser mais forte, fazer mais uma repetição, ganhar mais uma medalha. Mas isto pode criar uma ideia perigosa; uma ideia de que se não estou a melhorar, estou a piorar.

Política/Desporto Tenho de competir contra uma imagem antiga de mim pr pria, uma versão que já não existe, mas cujo tempo continuo a tentar alcançar. Contudo, receio que, no processo, talvez tenha confundido superar alguém com apagar alguém: melhorar os meus recordes não torna menos importante a pessoa que os estabeleceu. Muito pelo contrário, foi ela que me trouxe até aqui. E, se calhar, alguns dos momentos que mais queria ultrapassar e esquecer são exatamente aqueles que devia ter aprendido a apreciar. Os recordes existem para serem quebrados; é uma das primeiras coisas que se aprende nas várias modalidades. E talvez seja verdade – mas as pessoas não são recordes. Não precisamos de apagar quem fomos s porque já não somos essa pessoa. Não precisamos de transformar cada versão anterior de nós num verdadeiro adversário. Aquela pessoa que fomos – a que começou, a que tentou, a que perdeu, a que ganhou, a que não desistiu – continua a fazer parte da nossa essência. Os recordes podem (e devem) caducar. As marcas podem (e devem) ser batidas. Os objetivos podem (e devem) mudar. Ainda assim, talvez crescer não seja deixar de ser quem fomos. Talvez seja ter a liberdade para decidir quem queremos ser a seguir, sem nunca esquecer tudo aquilo que fizemos até ao momento.

Imagem: Joe Hale; Fonte: Pinterest

Aprendemos muito cedo, e muitas vezes da pior maneira, que a estagnação é um dos mais dolorosos tipos de derrota. Que devemos sempre procurar o pr ximo segundo, a pr xima marca, a pr xima competição, a pr xima melhor versão de n s pr prios. Como se o nosso valor dependesse da distância entre aquilo que somos hoje e aquilo que vamos conseguir ser amanhã. Sempre me disseram que a verdadeira competição é comigo mesma, e não contra quem está ao meu lado.

“Sempre me disseram que a verdadeira competição é comigo mesma, e não contra quem está ao meu lado.” Imagem: Pinterest

Imagem: Pinterest


Rúben Rosa

Setembro/Outubro

Fonte: Eduarda Teixeira

O Futuro do Jornalismo, Segundo o Poder

Reportagem

Rúben Rosa

Nos passados dias 26 e 27 de setembro, o Unicorn Stage, situado no Beato Innovation District, deu lugar à primeira edição do Inferência, evento organizado pela revista Shifter que, com o objetivo

primeiro LLM português. Segundo a pr pria, “é um projeto de resolução, já foi entregue na

Moura Borges defendeu uma ideia de equilíbrio entre o direito à informação e a

Assembleia da Rep blica”. No que concerne

remuneração de quem a produz, admitindo a

ao seu conte do, adiantou: “que as obras e fotos que o AMALIA usa sejam p blicas, que

necessidade de “arranjar outras formas de

toda a gente saiba o que são, […] haver

financiar o jornalismo”. Ainda dentro deste tema, Patrícia Serrano

direitos de autor e o uso crescente da Inteligência Artificial no setor da comunicação, reuniu um variado leque de

mecanismos simples de autores poderem

Gonçalves acrescentou que “é fundamental

opor-se ao dizerem «eu não quero que aquilo

que haja financiamento p blico dos meios de

que eu fiz seja aí publicado ou, então, tenho

Comunicação Social, pelo menos nos que

jornalistas, investigadores, especialistas em

de ser devidamente remunerado para que a

IA e responsáveis políticos. Desta feita, o NOVA em Folha não p de deixar de estar

minha

esteja

são p blicos, e tem que haver um grande apoio à RTP e à Lusa”, concordando que este

defendida» e depois, também, que haja

poderia ser proveniente da taxação das

presente e traz, agora, o resultado de um

prestação de contas”.

grandes

de debater o futuro do jornalismo, os

dos painéis apresentados.

propriedade

intelectual

Relembrando o caso da OpenAI,

de

divulgação

de

no

conte dos jornalísticos. De seguida, alertou,

seguimento de um processo movido pelo jornal The New York Times, por conta dos

também, para a necessidade de apoiar o

atualmente A Utilização de Conteúdos de Terceiros

plataformas

informação e dos modelos de IA que utilizam

em

tribunal

nos

EUA,

pelo AMALIA Durante o debate realizado a partir da

dados utilizados no desenvolvimento dos

questão “Que políticas para o jornalismo?”,

seus modelos, o deputado da IL na

com a moderação de G. C. Viegas, jornalista do Fumaça, o deputado do PSD na

Assembleia da Rep blica, Jorge Miguel Teixeira, questionou-se sobre a possibilidade

Homogeneização do Conhecimento Relativamente ao processo

Assembleia da Rep blica, João Antunes

de

entre

homogeneização do conhecimento, Miguel

dos

Santos,

questionado

um

“equilíbrio

Contributo

da

IA

Para

a de

compensação de quem produz informação e

Tiago, pertencente à Comissão de Assuntos

permitir

desenvolvidos, porque eles têm, obviamente,

Econ micos do PCP, apontou que “a Inteligência Artificial, os LLM’s e todas as

em dados e arquivos do arquivo.pt, mostrou

utilidade para as pessoas”. Ainda assim,

ramificaç es que ela tem nos nossos dias

desconhecimento face às reivindicaç es

assumindo que entende o argumento dos

mostram como, com grande facilidade, hoje, a

do Sindicato dos Jornalistas relativamente

direitos de autor, o deputado perguntou o

homogeneização

à remuneração pelos conte dos utilizados.

que seria feito “se toda a gente que produz

acelerado” assumindo, contudo, que “ela é

Ainda

qualquer tipo de informação quiser algum

uma constante”, não tendo carácter de

tipo de remuneração”.

novidade. Segundo o mesmo, “a forma como

garantiu:

o

a

O

desenvolvimento do modelo de linguagem de grande escala AMALIA, que se baseia

assim,

sobre

chegar

jornalismo regional.

“Defendemos,

naturalmente, que esses direitos de autor

que

estes

modelos

sejam

a

um

ritmo

a classe dominante tenta filtrar, condicionar,

devam ser salvaguardados, até em linha com o que acontece na União Europeia.”.

ocorre

O Financiamento da Comunicação Social

adaptar os discursos e a nossa forma de pensar não é de agora”. Miguel Tiago

admitiu acreditar que “cingir a discussão de

e o Papel das Instituições Públicas Indagado pelo moderador sobre a

um tema tão importante, como é as

possibilidade do Estado taxar as grandes

preocupação a forma como estes modelos

implicaç es que a Inteligência Artificial vai

tecnol gicas pelo valor produzido através de

absorvem

ter nas nossas vidas e, em particular, na

trabalho jornalístico, Daniel Moura Borges,

humanidade, “sem pagar por isso, sem pedir

Comunicação Social, […] a esse pequeno

membro da Comissão Política do BE, afirmou:

autorização”, privatizando-o.

problema, que certamente será transit rio,

“O Bloco [de Esquerda] tem defendido um imposto, a que chamamos «Imposto Google»,

A Utilização da IA no Jornalismo e Sua

No seguimento do diálogo, o deputado

demonstrou,

ainda, o

encarar

conhecimento

geral

com da

[…] não enriquece muito o debate.”. Por outro lado, Patrícia Serrano

que é, precisamente, um imposto sobre estas

Gonçalves,

na

grandes plataformas que, agora, cada vez

A prop sito do caso do jornal Observador,

Assembleia da Rep blica, revelou que o

mais, usam Inteligência Artificial para essa

que, nas ltimas autárquicas, usou a IA para

seu partido tem uma iniciativa sobre o primeiro

seleção notícias].”. No mesmo sentido, Imagem:[de Pinterest Moura Borges defendeu uma ideia de equilí-

fazer a cobertura de todas as freguesias do país, incorrendo em vários erros, plagiando

deputada

do

Livre

Regulação

jornais locais e sendo, por isso, alvo de quei- 12


Rúben Rosa

Setembro/Outubro

Reportagem

país, incorrendo em vários erros, plagiando

impacto que a IA terá no jornalismo. Mesmo

-uma

jornais locais e sendo, por isso, alvo de

assim,

movimentos

queixas à Entidade Reguladora Para a Comunicação Social (ERC), o deputado do

descrençano desaparecimento do setor,

partidos que, realmente, não estão muito

justificando com a incapacidade de a IA

confortáveis com a democracia” que, segundo

PS na Assembleia da Rep blica, Paulo

realizar

o pr prio, é levado a cabo por certos

Lopes Silva, levantou duas quest es: “uma

jornalistas. Na mesma linha de raciocínio, o

jornalistas.

primeira delas sobre a qualidade da

deputado da IL afirmou que, com a

reiterou que “depois ainda dão palco, de

produção da informação” e “uma segunda

implementação do uso da IA, os jornalistas

manhã [até] à noite, a essas pessoa, para elas

dimensão, que tem a ver com os modelos

“podem dedicar-se a fazer outras coisas,

continuarem a espalhar a sua desinformação”,

de neg cio e, também, com a forma como

podem

a

alertando para o eventual cenário de “um dia,

n s, hoje, consumimos a informação”. No

freguesias, fisicamente, ir a sítios, fazer

quando essas pessoas chegarem ao poder,

que diz respeito a esta ltima — sobre a

reportagens, fazer investigação mais a

possam

qual revelou especial preocupação — o

fundo, […] coisas que a Comunicação Social

simpáticas com aquilo que é a liberdade de

deputado apontou o facto de uma parte

generalista não faz”. No entanto, acabou

imprensa e com aquilo que é a liberdade dos

dos meios de comunicação ser detida por

por assumir: “Eu acho que essa é uma

entidades com outras motivaç es além de

aprendizagem que deve ser, sobretudo,

meios de Comunicação Social”. Ap s um fim-de-semana repleto de

garantir o jornalismo livre, constituindo um

feita por jornalistas, e eu não quero meter-

problema para a democracia, dada a

me no papel de dizer aos jornalistas o que é

debates, palestras, entrevistas e assembleias, a primeira edição do Inferência despediu-se,

carência de transparência quanto aos

que eles devem fazer”.

deixando no ar a seguinte pergunta: “Quando

interesses das mesmas. Já sobre a primeira questão por si

fez

questão

algumas

dedicar

de

aç es

mais

frisar

a

sua

atribuídas

tempo

a

a

ir

levantada, Lopes Silva sublinhou o papel da literacia mediática como um meio de

Antunes dos Santos revelou considerar que

fomento da “capacidade de triar uma

“neste

informação que nos é entregue com e sem

Comunicação

qualidade, que corresponde a trabalho

generalizar mas, sobretudo os grandes

jornalístico,

uma

grupos, têm um modelo subvertido, porque

máquina, que andou a condensar um

a prioridade deixou de ser informar”. De

conjunto de informação pelo país e a

seguida, destacou as audiências e os

debitar, muitas vezes, informação errada,

resultados financeiros como as principais

porque, na realidade, não é trabalho

prioridades destas empresas, dizendo que

humano,

esse

estas “muitas vezes, fazem tudo e mais

o

nem

trabalho

trabalho

de

com

momento, Social,

os

rgãos e

não

alguma para que esses resultados venham a acontecer ou até para que os prejuízos

evitar um fim que adiantou ser “trágico”,

sejam minimizados”. No mesmo sentido, o

João Antunes dos Santos destacou a

deputado prosseguiu: “Uma das coisas que

importância da regulação e recordou que,

me choca imenso no verão […] é a

em 2024, o atual Governo apresentou um

cobertura que, muitas vezes, as televis es

plano de ação para a Comunicação Social e

fazem dos incêndios. São diretos em

um plano nacional de literacia mediática. O

permanência, quando eu acho que aquilo

deputado do PSD afiançou que, na mesma

não acrescenta nada à informação. Pelo

perspetiva,

contrário, tem um efeito até contrário para

o

terreno”.

Governo

Indo

tem

como um

aquilo que deve ser a prevenção dos

“C digo da Comunicação Social”, “algo que

incêndios, porque os maluquinhos ainda

venha juntar, compilar tudo aquilo que são

ficam mais fascinados com aquilo e ainda

as matérias legislativas de Comunicação Social e que esteja adaptado aos tempos

vão provocar mais incêndios.”. Numa “l gica provocat ria”, como o

que vivemos”.

pr prio reconheceu, o deputado do PSD

compromisso

a

apresentação

de

Ainda no decurso da análise do epis dio

continuou a sua intervenção dizendo que

do Observador, questionado sobre se deve haver uma interferência do Estado de

“muitas vezes, os jornalistas, e volto a dizer

modo

dos

inimigos de si pr prios”. Como justificação para esta afirmação, João Antunes dos

começou por apontar o desconhecimento

Santos referiu o ato de “alimentar algumas

que temos atualmente relativamente ao imnça

especulaç es, algumas insinuaç es, algu-

13

impedir

a

substituição

ser

o

de

alguns

deputado

propriamente

muito

notícias, o que muda na informação e no jornalismo?”.

Fonte: Rúben Rosa

que, naturalmente, não são todos, são os

jornalistas pela IA, Jorge Miguel Teixeira

a

não

seguimento,

de

quero

ao

de

No

provém

ou

de

encontro destas ideias e como forma de

conhecimento

que

inorgânicos

as máquinas escrevem, verificam e distribuem O Atual Modelo da Informação À margem da revisão da Lei da Imprensa,

com

desinformação

Imagem: Site Inferência; Fonte: https://inferencia.shifter.pt/sobre/


Setembro/Outubro

Colaboração Externa

Divulgação

As As Vossas Vossas Fotos, Fotos, na na Faculdade! Faculdade! A eÖ¨ ¯lçã “A¯ V ¯¯a¯ F · ¯, a Fac¼ dade!” f l c«lada ¨ « a ¼ ¯ da FCSH, ¨a«a a ¼ ¯ da FCSH, e c a¨ l da AEFCSH, ¨a«a ª¼e e¯·e¯ ¨ ¯¯a eÖ¨ «a«, de¯e Ð Ðe« e ¯·«a« ¯e¼ ·«aba h eÖ·«a-c¼««lc¼ a«, e¯¨eclflca e ·e «a a«·n¯·lc da f · g«afla. T«aße ¯ a ¯ el· «e¯ d NeF a g¼ a¯ b«a¯ ¯e ecl ada¯ da eÖ¨ ¯lçã :

Agnès Guérin Extract from a photoshoot for a textile project - trousers inspired by traditional Middle Eastern clothing, 2026

José Américo Rego Pranto (Nikon FM | Nikkor 28mm f/3.5 AI-S | Kentmere Pan 400)

Benedita Faria Toda a Luz do Mundo

14


Setembro/Outubro

Colaboração Externa

Divulgação

Ma«ga«lda Ba·l¯·a Capturado em película de médio formato. Abril, 2025

Ma«la I ê¯ Ga¯¨a« Raparida do mar Adriático

G¼l he« e S·ecl ¯}l Terra, Ar e Mar

15


Setembro/Outubro

Cyndelle Ferreira e Miguel Cruz Pereira

Entrevista

NOVA FCSH recebe o espólio de Adília Lopes Entrevista de Cyndelle Ferreira e Miguel Cruz Pereira à professora Joana Meirim 1. Como o projeto de acolhimento do esp lio de Adília Lopes chegou à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e ganhou a forma institucional do CEDAL? As herdeiras de Adília Lopes (Armanda Duarte e Margarida Jardim) e outros amigos pr ximos acharam que seria importante preservar o esp lio da poetisa, não s o documental – manuscritos, datiloscritos, cadernos, correspondência, desenhos –, mas também a biblioteca particular e alguns objetos pessoais. Nas reuni es que fomos tendo, ainda o esp lio estava em casa da poetisa, pensámos que seria bom encontrar um lugar que agregasse todas estas dimens es do esp lio. Lembrámo-nos do trabalho dos dois arquivos já existentes na NOVA FCSH – o Centro de Estudos e Documentação Almada Negreiros e Sarah Affonso (CEDANSA) e o Centro de Estudos e Documentação José Mário Branco – e tomámos a iniciativa de apresentar o projeto à Fundação Calouste Gulbenkian, à coordenação do Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT) e à Direção da NOVA FCSH. O projeto foi muito bem acolhido e hoje temos o CEDAL, a começar a ganhar forma.

Imagem: Adília Lopes; Fonte: NOVA FCSH

3. A criação do CEDAL traz para o espaço universitário uma

vasta coleção de manuscritos, livros ou ainda objetos pessoais.

De que modo o acesso direto a estas fontes primárias altera as perspetivas de estudo, ensino e investigação na área dos Estudos Portugueses?

Fonte: Reportagem “A NOVA casa da Adília” disponível em fcsh.unl.pt

2. Em entrevista com Raquel Santos (2005), Adília questiona-se sobre como poderá o esp lio de Fernando Pessoa ser tão extenso, atendendo às várias mudanças de quarto do poeta ao longo da sua vida. A prop sito disso, confidencia ter deitado parte da sua “ganga” que guardava, preocupada com quem viria a cuidar do seu pr prio esp lio. Sabemos hoje, com a constituição e tratamento do seu esp lio, que quantidade e que tipo de materiais Adília Lopes efetivamente deixou? Ao contrário de Pessoa, Adília Lopes viveu sempre na Rua José Estêvão, entre os Anjos e Arroios, como diz num poema. Como Pessoa, também ela aproveitava bem o espaço dos papéis, dos cadernos, para escrever (inscrever, como dizia) e desenhar. O esp lio é constituído pelos elementos que indiquei na pergunta anterior, mas ainda é cedo para precisar um n mero exato do que nos chegou.

Fonte: Reportagem “A NOVA casa da Adília” disponível em fcsh.unl.pt

A preservação do esp lio de uma autora que conta já com uma receção crítica muito significativa contribuirá certamente para criar novas linhas de investigação na área de Estudos Portugueses (e não s ), e espero que isso contribua também para o ensino da obra da Adília na universidade, mas também no ensino pré-universitário. Entre outras linhas de interesse, gostaria de sublinhar a importância da conservação da sua biblioteca particular. Não temos uma tradição em Portugal de estudos sobre bibliotecas de escritores (uma pena!), mas penso que a preservação deste legado poderá contribuir para futuros trabalhos de investigação. Os livros da biblioteca de Adília Lopes apresentam notas de leitura na folha de rosto, por exemplo, e há também marginalia significativa. O acesso e o estudo desta biblioteca são fundamentais para aprofundar o conhecimento do percurso intelectual da poetisa. 16


Setembro/Outubro

Cyndelle Ferreira e Miguel Cruz Pereira

4. No poema VII de Poeta de Pondichéry (1986), Adília versava “espero que estes poemas e estas cartas/ que não sei porquê

Entrevista

preferindo estar em casa. Aliás, ela diz noutro poema que as revoluç es também se fazem “na casa de banho / da casa”.

guardo/ não vão parar a uma vitrine/ espero que vão parar às mãos dos trapeiros/ porque os trapeiros não são curiosos”. Tendo em conta estes versos e a relação de Adília com os seus

pr prios papéis, que destino pretendia a poetisa para o seu esp lio? E como é que essa vontade — nomeadamente a recusa

da “vitrine” — é considerada hoje no trabalho de preservação, organização e disponibilização do esp lio?

As vitrines serão teis no futuro para a organização de uma exposição, espero. Não faltam papéis no esp lio da Adília, mas não tenho conhecimento de que tivesse dado alguma indicação quanto ao seu destino. Num poema em prosa de Estar em casa, intitulado “Enterros”, refere-se ao legado da mãe e da av , que nunca quiseram dar trabalho e obrigaç es a quem cá fica, depois da sua morte: “A minha mãe disse sempre que não deixava disposiç es para depois de morrer porque não queria «dar trabalho aos que cá ficam»”.

Fonte: Reportagem “A NOVA casa da Adília” disponível em fcsh.unl.pt

6. A preservação de um acervo universitário proporciona um acesso para a investigação, mas o cânone constr i-se por outros mecanismos de validação. Como é que analisa este limite entre o arquivo e cânone, e de que forma a criação do CEDAL nos obriga a repensar a visibilidade da escrita feminina? A NOVA FCSH ao receber o arquivo de Adília Lopes está justamente a reconhecer o valor inestimável da sua obra e a importância de preservar o legado intelectual da poetisa. Fonte: Reportagem “A NOVA casa da Adília” disponível em fcsh.unl.pt

5. No poema “Anti-Nazi” (2003), vemos uma Adília abertamente

Num país onde a falta de visibilidade de obras de autoria feminina (prefiro à expressão “escrita feminina”) continua muito presente, este acolhimento é ainda mais significativo.

engajada. Até que ponto esta postura atravessa o seu trabalho e

o seu esp lio? Podemos falar de uma dimensão política da obra de Adília Lopes?

Sim, absolutamente. No livro A mulher-a-dias, de 2002, Adília refere-se à relação indissociável entre o privado e o político na sua obra: “os meus textos são políticos, de intervenção, cerzidos com a minha vida”. O volume Adília Lopes – do privado ao político, publicado na Documenta em 2024, re ne ensaios de autores de diversas partes do mundo (e.g. Inglaterra, Espanha, Brasil, EUA, Col mbia) que dão atenção, de diferentes maneiras, a esta vertente da sua obra. A prop sito do poema que referem, e de outros, é muito interessante ver como a preocupação com a democracia sempre foi uma questão fundamental para Adília Lopes, que tinha medo de regressar aos tempos da casa portuguesa. Ela tinha 14 anos quando se deu a Revolução dos Cravos. A poetisa talvez não saísse à rua nem fosse ao desfile da Avenida da Liberdade, mas nunca deixou de ser um exemplo maior de uma poetisa da cidade, da polis, mesmo se 17

Fonte: Reportagem “A NOVA casa da Adília” disponível em fcsh.unl.pt


Miguel Cruz Pereira

Setembro/Outubro

Adília Lopes Adília

Cultura devir-criança na poetisa: «tenho 54 anos e

«A minha prisão está cheia de nevoeiro

continuo a pensar como quando tinha 4. Sou feliz assim»¹⁰. É do mesmo modo com que explora a

O meu convento está cheio de vento

Mlg¼e C«¼ß Pe«el«a

linguagem, que Adília se relaciona com a hist ria literária. Não raras vezes, são evocadas referências can nicas, que são submetidas a

No nevoeiro não tenho paradeiro

uma inflexão de sentido, um pouco à luz da formulação de Lautréamont: «O plágio é necessário. O progresso implica-o. Ele segue

No vento não tenho contento

de perto a frase de um autor, serve-se das suas express es, apaga uma ideia falsa e

Passo os dias com as minhas tias

substitui-a pela ideia justa»¹¹. Esse aspeto é

Eu também

esquina/ um inimigo// Em cada rosto/

evidente, nos seguintes poemas: «Em cada desigualdade// Terra da mesquinhez» e «É

Estou farto do meu parto

tempo/ de regressar/ a casa// A poesia/ não está/ na rua». Em ambos podemos identificar

Estou farta de Esparta

referências, num primeiro momento, à m sica de Zeca Afonso, Grândola, Vila Morena, e, num

Um bispo não resolve isto»⁶

Imagem: Ilustração de Sara Quijano Sierra Fonte: Correio do Porto

segundo momento, ao verso de Sophia de

Se, como Deleuze assinalou, “a escrita é

Podemos identificar o recurso reiterado

inseparável do devir”¹, então a obra de

de paronímias e contiguidades sonoras

Adília

manifestação

(dias-tias; farto-parto; farta-Esparta), ou de

inequívoca desta premissa. Ao refletirmos sobre o título da poesia reunida adiliana — Dobra —, compreendemos a essência da

repetiç es de estrutura e variaç es (No nevoeiro/ não tenho/ paradeiro - No vento/ não tenho/ contento), que assumem a

sua poesia: um constante desdobramento e

direção do poema. Aqui, o movimento das

devir da linguagem; uma linguagem que

palavras ganha uma autonomia, criadora de

assume a agência de estranhar o comum,

um

de «encontrar a zona de vizinhança, de

pensamento

indiscernibilidade ou de indiferenciação»². Pelas suas palavras: «O poema não deve

linguagem e a l gica inverte-se. Como Barthes aludiu, a linguagem «é

ser/ uma mala/ mas um mal/ entendido»³.

pura e simplesmente fascista» por nos

Lopes

é

uma

Quando versa «quanto mais prosaico/ mais

poético»⁴,

a

poetisa

deixa

original.

Isto

é,

o

de

preceder

a

obrigar a dizer a realidade definida pela

um

ordem dominante⁷. Deste modo, a função

o

dos poetas será a de subverter as normas

sintaxe

linguísticas, a fim de fazer coincidir a ordem

elementar e o léxico quotidiano são

pluridimensional do real com a ordem

constituintes, atinge a sua poeticidade no momento do devir. A aceção corrente e

unidimensional da linguagem⁸. Os poetas

expectável é abolida para dar lugar a uma

um período de aquisição de fala, onde a

nova significação. E é na exposição dos

linguagem é constantemente desvirtuada e

sentidos que a linguagem pode tomar, que

recriada. Em Adília Lopes, a ideia de

elemento

essencial

prosaísmo.

Este,

do

do

exp e

pensamento

seu

qual

estilo: a

Adília faz emergir o autêntico — «quanto

mais poético/ mais verdadeiro»⁵. A poesia é, então, o meio que transforma a

prosa em real. Este devir semântico concretiza-se,

devem-se aproximar do estado-criança, de

aproximação a esse estado é incessante. Em «desde que comecei a dansar escrevo dansar com s como a Sophia»⁹ podemos reconhecer como a grafia instituída é desafiada — e em boa verdade, a grafia do

ami de, a partir de associaç es sonoras,

«s» em «dansar» aproxima-se mais do ato

onde a fonia forma uma nova constelação

referido, do que o truncado «ç» de

entre as palavras. Atentemos esse aspeto,

«dançar». Outro exemplo, seria a afirmação,

no seguinte poema:

que revela a consciência de um devirde um

Mello Breyner, «A poesia está na rua». Deste modo, ao desviar o sentido original das passagens, Adília não exerce um gesto de destruição,

mas

sim

de

profundo

envolvimento e compreensão da herança literária. Exerce um gesto de revitalização da tradição

ao

reinscrevê-la

num

novo

contexto, onde possa ganhar uma outra força. Adília é o trapeiro que referiu em O Poeta de Pondichéry (1986), ao evitar as vitrines e ao se mesclar com a tradição — «espero que estes poemas e estas cartas/ que não sei porquê guardo/ não vão parar a uma vitrine/ espero que vão parar às mãos dos trapeiros/ porque os trapeiros não são curiosos»¹². Em termos gerais, é manifesta a potência da poesia

adiliana

na

desconstrução

questionamento

contínuo

linguísticas

consequentemente,

e,

das

e

l gicas da

realidade percecionada e do pensamento. É manifesta a unicidade crítica de Adília, na poesia

portuguesa,

absurdamente

a

que realidade,

ao

expor

chega

a

constrangê-la com a nudez e vulnerabilidade que cria. ¹ Gl e¯ De e¼ße, C«n·lca e C n lca, «A Ll·e«a·¼«a e A Vlda» ² Ibld. ³Adn la L ¨e¯, Ve«¯ ¯ Ve«de¯, «[1. O ¨ e a ã deÐe ¯e«]» ⁴Adn la L ¨e¯, Le Vl·«al a N¼l· – A Á«Ð «e C «·ada, «[Q¼a · al¯ ¨« ¯alc ]» ⁵ Ibld. ⁶ Adn la L ¨e¯, Ve«¯ ¯ Ve«de¯, «D. Seba·lã e Ma«la a A c f «ad » ⁷ R a d Ba«·he¯, Llçã ⁸ Ibld. ⁹ Adn la L ¨e¯, Ma hã, «Da ¯a«» ¹⁰ Ibld., «D¼¨ eÖ» ¹¹ C de de La¼·«éa ·, P e¯la¯, «II» ¹² Adn la L ¨e¯, O P e·a de P dlché«×, «VII»

18


Setembro/Outubro

Cultura

Mercedes Basílio de Oliveira

imediatos que seguiram a morte da O Meu Verão com minutos mãe. O que nos resta desvendar, enquanto leitores, é se ele alguma vez se vai permitir O Pintassilgo mudar e descobrir se consegue ser feliz.

Mas já falei o suficiente sobre o chato do Foi no verão antes de começar o

Theo, que não faz nada sem ser pensar

secundário, em 2022, que decidi que a

demasiado durante umas oitocentas páginas

melhor maneira de me ocupar não seria ir à

de literatura. Falarei agora de mim pr pria.

praia com amigos, ou passar tempo com a

Ler este livro foi o flagelo, a ruína e a perdição

família, ou qualquer outra atividade leve e

do verão de ‘22, para mim e para todos os

apetecível

assim.

O

aconteceu

foi

que

que,

de

facto,

encontrei,

que me conheciam.

na

Eu não fiz nada durante mais do que um

cabeceira da minha mãe, um livro com

mês sem ser queixar-me de que o livro nunca

mais de oitocentas páginas, comprado em

mais acabava. Tudo o que ouviam de mim era

2014 e nunca lido, e decidi que quem o ia

que não acontecia nada de interessante, ou

ler era eu.

que

O Pintassilgo, da autoria de Donna Tartt (não The Goldfinch, o seu título original, visto que a minha mãe tinha a versão traduzida em

sempre

que

acontecia

acabava

demasiado rápido. Todos me diziam que eu podia s parar de o ler.

português e foi essa a que se embrenhou no

Mas isso parecia uma ideia revoltante. Nem

meu cérebro): um romance de 2013 vencedor

pensar. S o conceito preenchia-me de

de um Pulitzer, que segue a hist ria de um

mágoa. Eu levava aquilo como se fosse o

jovem chamado Theodore “Theo” Decker

meu pr prio quadro, para todo o lado. Lia um

ap s a mãe morrer num atentado terrorista

pouco todos os dias e não o ter comigo

no Metropolitan Museum of Art, em Nova

deixava-me

Iorque. No rescaldo do ataque, decide roubar

importante falar a toda a gente sobre o que

um quadro do museu, que dá à obra o seu

estava a acontecer na hist ria, ao mesmo

Apesar de ser massudo e infindável, por

título.

tempo que me queixava de que não

vezes secante e sempre pesado, também

acontecia nada.

tinha aquela min cia de detalhe tão típica da

O enredo em si segue Theo desde a

quase

ansiosa.

Era-me

Imagem: O Pintassilgo de Carel Fabritius, 1654 Fonte: Wikipédia

autora que faz cada espaço parecer vivo,

infância até à idade adulta, numa enorme

Aquele esticão das ltimas duzentas

variedade de situaç es de vida, companhias

páginas foi doloroso. Estava desejosa de me

e localidades estadunidenses: desde um

ver livre deste livro. Quando acabou chorei

Tenho sempre dificuldades em sugerir a

apartamento luxuoso nova-iorquino com uma

até ter dificuldade a respirar. Já a sentir

alguém, de maneira genuína, que leia este

família disfuncional, a um melhor amigo russo

saudades do Theo, do Boris, do Hobie, da

livro. Metade dos dias, até diria para não o

ao estilo alma-gémea em Las Vegas, uma

Pippa, dos Barbours, do Popchik. De Donna.

fazerem porque eu não gostei. Mas hoje não

carreira

de

Como um ataque surpresa qualquer, O

é um desses dias. Hoje, lembro-me de

antiguidades, até um quarto de hotel no fim

Pintassilgo encontrou alguma maneira de me

como

da esperança em Amsterdão… Poucas fases

tocar a sério, como poucas obras tinham feito

imediatamente a seguir a já não ter mais

da vida de Theo são estáveis, ou sequer

até aí e como poucas fizeram entretanto.

de

restauro

e

neg cio

coerentes com as restantes, ap s o tempo que partilhou com a mãe. Mas, por muito que as pessoas que o rodeiam o impactem profundamente - o puxem em cada direção, o apresentem a novas facetas de si pr prio - Theo Decker mantém a posse do quadro roubado. O protagonista não consegue ver-se livre do fardo físico que carrega, por motivos práticos e pelo profundo carinho que lhe tem. Enquanto leva consigo O Pintassilgo, Theo será sempre a mesma pessoa que viveu os 19 minutos

“C ¼ a·aª¼e ¯¼«¨«e¯a ª¼a ª¼e«, O Pl ·a¯¯l g e c ·« ¼ a g¼ a a el«a de e · ca« a ¯é«l , c ¨ ¼ca¯ b«a¯ ·l ha fel· a·é an e c ¨ ¼ca¯ flße«a e ·«e·a · .”

cada personagem parecer real.

me

senti

no

momento

nenhuma palavra d´O Pintassilgo nova para ler. Lembro-me de que senti tudo a mudar nesse instante. Ainda em setembro deste ano, quando fui dar uma volta com um amigo ao Chiado, passámos por uma pequena feira, e numa das bancas havia uma c pia da primeira edição de The Goldfinch, em inglês, por dezoito euros. Está agora no centro da minha prateleira ao lado daquele que era da minha mãe e se tornou meu quatro anos antes.


Setembro/Outubro

Cultura

Equipa NeF

Recomendações da Equipa s e m l Fi (Carolina A.

o)

Campanach

celino) (Tatiana Mar

rreira) (Cyndelle Fe

ab (Rui Jorge C

Jim Queen (2026) Marco Nguyen e Nicholas Athané

Banzo (2024) Margarida Cardoso

The Perks of being a Wallflower (2012) Stephen Chbosky

Almost Famous (2000) Cameron Crowe (Tatiana Mar ce

(Carolina Ram

Poemas Escolhidos (2020) Rosario Castellanos

The Correspondent (2026) Virginia Evans

lino)

s t s a c Pod Sarau Rita Mendes

os)

(Inês Fonseca)

ral)

(Inês Fonsec

a)

Livros

Não fossem as sílabas do sábado (2022) Mariana Salomão Carrara

CHAM TALKS* Centro de Humanidades da NOVA FCSH *Entrevistas a investigadores sobre o seu trabalho e a sua ligação à sociedade contemporânea. Coordenado por Isabel Ara jo Branco, com uma equipa de estudantes e investigadores da NOVA FCSH, o podcast publica novos epis dios quinzenalmente! 20


Agenda Cultural

21


Cinema

Agenda Cultural

novembro Fonte: leffest

LEFFEST

6 - 15

Cinema São Jorge, Culturgest, NOS Vasco da Gama, Cinema Nimas, Teatro do Bairro, Cineteatro D. João V e Recreios da Amadora 5,00 € – 8,00 €

25

novembro (datas por definir)

novembro

Ciclo Frank Borzage

Ciclo Rita Azevedo Gomes

Cinemateca Portuguesa Vários horários 2,15€ - bilhete estudante

Cinemateca Portuguesa Vários horários 2,15€ - bilhete estudante

IKIRU, de Akira Kurosawa com comentário de João Constâncio

Fonte: Rita Azevedo Gomes: The Correspondences of Beauty

Cinema Nimas 18:00 – 21:00 6,00€ - bilhete estudante

3

LUZ DE INVERNO, de Ingmar Bergman com comentário de Paolo Stellino

Fonte: MUBI

Fonte: Wikimedia Commons

Cinema Nimas 18:00 – 21:00 6,00€ - bilhete estudante

Fonte: Wikipédia

dezembro

22


Agenda Cultural

Visitas

novembro

7 11 e 25

Edifício Gulbenkian em diálogo com a paisagem

Museu Calouste Gulbenkian 13:30 – 13:50 9,00 € (Desconto 10% – Cartão Gulbenkian)

Fonte: Fundação Calouste Gulbenkian

Fonte: Fundação Calouste Gulbenkian

Jardim Gulbenkian 15:00 – 16:30 8,00 € (Desconto 10% – Cartão Gulbenkian)

Olhar Lento. 20 minutos com arte

novembro

Carpeaux, Rodin, criação e contexto Museu Calouste Gulbenkian 14,00 € (Desconto 10% – Cartão Gulbenkian)

Fonte: Gulbenkian

novembro A obra de renovação do Museu Gulbenkian Museu Calouste Gulbenkian 14,00 € (Desconto 10% – Cartão Gulbenkian)

23

26

Fonte: Fundação Calouste Gulbenkian

novembro

26


Agenda Cultural

Exposições Fonte: Centro de Arte Moderna

Lugares que se desenham

Fonte: Centro de Arte Moderna

Fonte: Centro de Arte Moderna

Centro de Arte Moderna Gulbenkian 25% desconto para menores de 30 anos Domingo gratuito, a partir das 14:00 Mais descontos com o Cartão Gulbenkian

janeiro

ARPAD | Terceiro Ciclo Expositivo

Fonte: FASVS

Museu Arpad Szenes Vieira da Silva Entrada gratuita para residentes em Lisboa, para jovens até aos 25 anos e aos domingos

Fonte: FASVS

24

até

24

7

desde novembro


Conferências

Agenda Cultural

novembro

6

Fonte: Viral Agenda

5 anos, 5 conversas: com Abel Barros Baptista e Amândio Reis Livraria da Travessa 19:00 Entrada livre

12

novembro

20 20 - 21

novembro

novembro

VOZES DA GUERRA CIVIL ESPANHOLA: SESSÃO À VOLTA DA LITERATURA E DA MÚSICA

NIDESH LAWTOO SOBRE “(NOVO) FASCISMO” Sala 219, Colégio Almada Negreiros 15:00 – 17:00 Entrada livre

Auditório 2, Fundação Calouste Gulbenkian 09:30– (20/11) 10:00– (21/11) Entrada livre

Fonte: Fundação Calouste Gulbenkian

Fonte: NOVA FCSH

Fonte: NOVA FCSH

Campus da Avenida de Berna 13:00 – 14:00 Entrada livre

Colóquio ao Vivo A Arte da Crítica

25


Agenda Cultural

Orquestra Sinfónica Juvenil: Concerto Sinfónico

27

Teatro Municipal de S. Luiz, Rua António Maria Cardoso, Lisboa 21:30 Entrada livre sujeita à lotação da sala e levantamento prévio de bilhetes

Fonte: Agenda Cultural Lisboa

Concertos

novembro

novembro Academia Botânica no Jardim Gulbenkian

Outros

Fonte: Fundação Calouste Gulbenkian

Sala 1 e Sala 2, Fundação Calouste Gulbenkian 17:30 – 19:30 6,00 € – 12,00 €

10

26


Setembro/Outubro

Miguel Martins

Lista de Filmes

O autor agradece as sugestões de Beatriz Santos, Hugo Soares e Nuno Lopes

27

Cultura


Maio/Junho Setembro/Outubro

Maria OliveiraFCSH (Submissão Externa)

Outro

Arrependimentos dos Estudantes Todos nós já fizemos escolhas na vida universitária que, hoje, talvez gostássemos de repensar. O Nova em Folha perguntou aos estudantes da FCSH quais foram os seus maiores arrependimentos durante o percurso académico e estas foram as respostas que recebemos: 1. Não me ter focado tanto numa cadeira que deixei ficar para trás; 2. Não ter dado ouvidos a opiniões não desejadas. Conselho: Segue sempre o teu instinto.

<

3. Mudaria a atitude com que entrava. Teria mais confiança em mim e concentrar-me-ia mais nalgumas UCs... 4. O meu principal arrependimento ao longo do meu percurso académico - e tudo o que isso envolve - foi não ter tido a coragem de, como muitos, me envolver ativamente no associativismo estudantil, de forma a poder construir-se, desde cedo, uma verdadeira defesa dos interesses dos estudantes, sem olhar aos interesses do comité central da JCP, que têm pautado as decisões da atual associação de estudantes. 5. Provavelmente não teria feito LLC. Quase de certeza. O ano passado conheci imensos alunos de duas outras licenciaturas e fiquei chocada com a abertura intelectual e comunicacional que o meu curso não tem. LLC é um percurso que merece mais cuidado e mais humanidade(s). O perfil do inglês leccionado deveria ser actualizado e bastam dois professores para o fazer com mestria, sendo que um deles está na FCSH, mas infelizmente não nos dá aulas. - Rute Rita 6. Entrar em CPRI. Devia ter feito CC, sem medo de fazer o que gosto, não uma licenciatura que as pessoas à minha volta “levassem a sério” - néné 7. Arqueologia 8. Não ter utilizado as horas de atendimento dos professores, por vergonha ou preguiça, hoje percebo que teria ganho muito em ter esta ajuda extra para perceber melhor a matéria das cadeiras.

28


Setembro/Outubro

“

Maria Amélia Velosa

Crónica

O direito à incoerência E a todos os que tiveram a coragem de voltar à estaca zero para se encontrarem de verdade, deixo aqui o meu maior aplauso.”

Crescer numa ilha leva-nos a projetar, desde

maior das ingratid es, para com a minha família e,

de que tanto precisava. Mais tarde, ao olhar para

muito cedo, expectativas enormes para o nosso futuro académico. Na Madeira, a ideia de "ir para fora" estudar não é apenas um passo natural, mas sim o culminar de anos da nossa ideia de crescer. Desde pequena que idealizei aquele curso em específico, convicta de que seria o passaporte perfeito para a vida adulta. Por isso, quando a

acima de tudo, para comigo mesma. Por isso, cerrei os dentes e fiquei até ao fim do primeiro ano. O fardo de deitar fora tal oportunidade

os meus novos colegas de turma, cheios da

pesava ainda mais perante a hipocrisia com que o mundo olha para estas mudanças. Se largasse um curso banal para ir atrás do sucesso,

ansiedade típica dos caloiros, eu s sentia aquela tranquilidade de quem já percebeu que uma má escolha não é o fim do mundo. A sociedade pode continuar a rotular estas mudanças como "tempo perdido", mas eu

minha versão de dezoito anos fechou a mala,

ouviria palmas, contudo, como o meu trajeto era o oposto, a minha escolha era encarada como um desperdício.

recuso-me a alinhar nessa conversa. Se hoje pudesse viajar no tempo, faria tudo igual.

23 quilos de porão. Cheguei a Lisboa e, ao contrário do que temia,

Foi num dia normal em que parei em frente ao espelho e olhei bem para quem eu era. Sempre fui

da ilha para ver a ilha”; e o meu eu do passado

a cidade engoliu-me no bom sentido. É imensa,

uma mi da divertida, movida por uma teimosia

vibrante e adaptei-me a ela com uma facilidade

inesgotável e uma vontade gigante de devorar o mundo. Mas ali, confrontada com o espelho, o reflexo devolvia-me uma estranha. Tive saudades daquela luz. Percebi que, à força de me arrastar

seguro para conseguir, finalmente, olhar para si e perceber o que não queria. Assumir a minha incoerência não foi uma falha, mas o meu

achava que levava a vida resolvida dentro de

que até a mim me surpreendeu. No entanto, foi precisamente no meio dessa liberdade, longe de quem me conhecia desde sempre, que a ilusão começou a ruir. Bastaram algumas semanas para perceber o erro crasso que tinha cometido: o tal curso dos sonhos era tudo menos um sonho. Eu simplesmente não queria aquilo. Qual foi a minha solução? A pior possível, diria. Decidi obrigar-me a gostar. Durante meses, arrastei-me para a faculdade. Tentava convencer-me de que o famoso "clique" ia acabar por acontecer no ano seguinte, que a falta de paixão era s uma questão de inadaptação. O curso de prestígio virou uma tristeza diária, mas desistir parecia-me a

Imagem: Pinterest

29

por um caminho que não era meu, tinha simplesmente

apagado

a

minha

pr pria

energia, e acabou por ser essa minha versão

Como escreveu José Saramago, “é preciso sair precisava exatamente de sair do seu porto

primeiro grande ato de maturidade. E a todos os que tiveram a coragem de voltar à estaca zero para se encontrarem de verdade, deixo aqui o meu maior aplauso. Afinal, o direito à incoerência é s outro nome para o direito de crescer.

genuína a resgatar-me de mim mesma. Esgotada e sem grandes garantias, decidi dar uma oportunidade à minha segunda opção, o plano B que deixara esquecido na gaveta. Quando recebi o e-mail com as colocaç es, foi como se os pulm es voltassem a encher-se de ar. Descobri reservas de força que não fazia ideia que tinha e fui empurrada para a estaca zero com a energia

Imagem: Again, Leah Kelly


Maria Oliveira (Submissão Externa) Inês Fonseca

Setembro/Outubro Maio/Junho

“

Crónica

Personificação da Personalização A única certeza é que tudo vai mudar e que, até aqui, tudo mudou. Temos provas disso dentro das nossas malas, esteja o seu exterior molhado ou seco.”

Já personalizei todo o meu ser externo, como

segunda já não se trata do mesmo Homem, nem

Esta semana fui até à loja e perguntei se não

tela que aguarda decis es superiores. Como

tampouco do mesmo rio. Percebemos o que ele

vendiam recargas em pack (e não, ainda não

navio de Teseu, partes de mim vão sendo

quer dizer, mas podemos questionar o que

atingiram esse nível de capitalismo), tudo

gradualmente

ocorre à bagagem do Homem. A mala fica

porque estou cansada de ficar apeada em ruas

ensopada da primeira vez; da segunda, se for

mentais,

peça a peça continua a ser o mesmo navio? E a construção de outro com as peças abandonadas, torna-o no inicial? É muito fácil

seguida, não a vai alterar (continua encharcada),

cadernos, pela falta de tinta da caneta. Há quem

se for com um tempo de intervalo, volta a molhá-

diga que é a escrever que nos conhecemos, s

la. As diferentes águas que correm não a afetam;

dizer que já não somos quem fomos há 5 anos, há 5 meses ou desde o ltimo churrasco da FCSH, mas será que não?

a pessoa “diferente” que a transporta, muito

não sei se quem diz isso alguma vez se conheceu. Em constante mudança, seguimos com as águas do rio, e talvez seja por isso

Há um dep sito de características algures, uma cápsula do tempo onde se guardam todas as

como bolsas que passam por estes caminhos. Sem recurso a procedimentos médicos como os do filme Eternal Sunshine of the Spotless Mind, todos n s temos de lidar com mem rias que gostamos muito ou pouco de ter. São essas as

substituídas, levando-me ao abismo do paradoxo: um navio reconstruído

frases ditas que nos envergonharam, todas as gargalhadas mal entendidas, todos os beijinhos que deviam ter sido abraços ou apertos de mão. Algures,

aquela

interação

social

estranha

repousa, à espera de nova ocorrência para nos voltar a atormentar. Não muito longe, aquela noite passada em casa alheia descansa, em desenhos de arquitetos que conhecem os corredores e as paredes de casas que s se visitaram uma vez. Dizia Heráclito que um Homem não se pode

menos. Proponho que vejamos as nossas mem rias

linhas que nos desenham, em esboços somente compreendidos por n s. Lá temos

os nossos motivos para escolher a cor do lápis, a grossura da caneta... Conheço quem escreva com 0.38 azul, até 0.7 preta da Muji. A parte positiva é que (se eles não ficapar rem sem stock) podemos sempre experimentar outras.

que

desvendo

por

páginas

de

que o Homem não o pode atravessar uma segunda vez — nunca o deixou. O importante é boiar protegendo a nossa

bagagem. A nica certeza é que tudo vai mudar e que, até aqui, tudo mudou. Temos provas disso dentro das nossas malas, esteja o seu exterior molhado ou seco. O navio de Teseu pode sofrer largas operaç es, pois nem a primeira versão era a verdadeira. Aquilo que

assim era nomeado, s o era pelo mundo de representação

das

ideias,

apoiando-se

no

pensamento de Platão. Simplificando, mudemos tudo à vontade, tudo não passa de uma representação do que somos, enquanto o que realmente somos s existe no nosso interior.

banhar no mesmo rio mais que

Não somos os mesmos que foram ao churrasco

uma vez, pois à

(alguns).

da faculdade, mas sabemos o que fizemos

Imagem: A Grande Onda de Kanagawa, Katsushika Hokusai

30 16


Maria Alexandre Oliveira (Submissão Ferreira Externa)

Maio/Junho Setembro/Outubro

Crónica

Quis Saber Quem Sou

“

Os cientistas chamam-lhe "evolução", a psicologia chama-lhe "maturação" e nós podemos simplesmente chamar-lhe crescimento (...).”

"Quis saber quem sou" foi parte da

No fundo, até quem estranha passa

primeira senha da Revolução de 25 de Abril de 1974 e é, hoje, o meu mote para

pelo mesmo processo ou, pelo menos, é de

descrever o quão difícil é percebermos, afinal, quem somos, o que fazemos aqui e

quanto de n s vem do passado, do erro,

das mudanças, do acerto e do erro de novo.

Todos, de alguma maneira, ao entrar na

esperar

que

aprendamos

n s, com

seres os

cresçamos

com

gostos

pensemos

sobre

quem

humanos,

nossos

erros,

melhorados fomos,

e

mas

sobretudo sobre quem queremos ser e onde queremos chegar. Foi assim que

pensaram

os

Universidade Nova de Lisboa, deixamos para

revolucionários que deram liberdade ao

trás os nossos "eus" do secundário e todo

nosso país e tem de ser assim que n s

um passado cheio de pensamentos, gostos,

temos de pensar. Por isso, se te sentes mal

erros e decis es com que já não nos

por estares diferente, não te sintas… é

identificamos. E ainda bem, porque, afinal, o

que correu menos bem ao longo do seu

normal e faz parte da essência humana. Os cientistas chamam-lhe "evolução", a psicologia chama-lhe "maturação" e n s podemos simplesmente chamar-lhe

percurso.

crescimento, e ainda bem que ele existe,

ser humano tem a capacidade fantástica de se reinventar, de ir aprendendo com aquilo

Mas também todos sabemos que não é fácil lidar com isso, sobretudo quando os

porque s assim podemos viver uma vida plena.

"nossos" deixam de nos reconhecer, deixam de sentir que somos n s na mesma, s que numa versão melhorada, um género de "Eu 2.0", cujo software foi atualizado com sucesso para minorar os bugs do nosso sistema.

31

Imagem: emily araujo no Pinterest


Maria Oliveira Rúben (Submissão Rosa Externa)

Maio/Junho Setembro/Outubro

“

Crónica

Entre o Berço e o Caixão Eu aqui, um velho de 88 anos. Para os mais novos, o Av Eterno, o que não teve começo nem terá fim, o que já veio ao mundo com esta cara enrugada. […] Sou passado, presente e futuro – três pessoas distintas reunidas numa s , mistério da terreníssima trindade. […] Tia Palma dizia que velho na horinha da morte conhece o máximo e o mínimo de si mesmo.” – Azevedo, F. (2008). O Arroz de Palma. Cultura.

Há livros que nos marcam. Aliás, mais do que

abordados ao longo do romance: a humanidade

nos horizontes e, sem pedirem licença,

sofrendo ao longo dos nossos percursos e, no

nos marcar, reviram-nos os sentidos, abrem-

alojam-se nos cantos mais rec nditos das nossas almas. O Arroz de Palma (2008), primeiro romance assinado pelo autor brasileiro Francisco Azevedo, foi, para mim, uma dessas obras. A narrativa apresentada não é, de todo, a mais complexa ou rocambolesca. Pelo contrário, é, acima de tudo, uma hist ria simples. Uma

inerente

às

transformaç es

que

vamos

mesmo sentido, a crença de que somos o

produto de tudo aquilo que fomos um dia e de tudo o resto que almejamos vir a ser.

que

o

autor

consegue chegar ao âmago de tantos leitores,

tal como fez comigo. Através dos olhos de Antonio, um octogenário que se prepara para receber toda a sua família, a prop sito da comemoração do centenário do casamento dos seus finados pais, somos levados ao encontro de uma verdadeira constelação de personagens. Personagens que, mesmo não o sendo, ganham o estatuto de pessoas reais, dada a dimensão visceral e desarmante através da qual são retratadas. Como fio condutor de um enredo feito de mem rias, Francisco Azevedo utiliza os doze quilos de arroz jogados sobre Maria Romana e José Cust dio, pais de Antonio, no dia do casamento de ambos. Arroz esse recolhido por Palma, irmã do noivo, e oferecido como presente ao casal, sendo, ao longo de um século, motivo de guerras e reconciliaç es entre os descendentes do par original.

mesma. Muitos destes acontecimentos não s são mencionados, como impactam diretamente as

destaque auferido pelo tema da família, sobre o qual se debruça todo o romance. No decurso do enredo, é-nos revelada uma visão apaixonante do que é construir uma família, com todas as falhas e virtudes pr prias do processo, por meio de deliciosas e incontáveis metáforas culinárias — não fosse o protagonista cozinheiro de profissão. Entre o drama e a comédia, usados nas doses certas, o autor retrata, de maneira sincera e inebriante, uma família igual a qualquer outra, composta por diferentes personalidades e perspetivas radicalmente opostas sobre os mesmos eventos. Afinal, o que é uma família

que seja a partir desta fácil correspondência, honesta,

11 de julho de 2008, o dia do desenlace da

hist ria, enriquecendo-a. Por outro lado, urge ressaltar o papel de

real, que podia ser a minha ou a tua. Suponho e

1908, data que marca o começo da narrativa, e o

personagens e, consequentemente, a pr pria

simplicidade crua e, simultaneamente, tão

reconfortante

cem anos compreendidos entre o 11 de julho de

senão

um

equilibrado

desequilíbrio

de

pessoas em diferentes fases da vida e com pontos de vista distintos? Em ltimo lugar, gostaria de reforçar a qualidade

do conjunto de personagens que recheiam a obra. Imunes a vis es moralistas, Antonio e os

Azevedo, F. (2008). O Arroz de Palma. Cultura. Tal como referi acima, acredito piamente que a força motriz deste livro se encontra na possibilidade

de

nos

conseguirmos

ver

representados sem investir grande esforço. Num

Enquanto confeciona o almoço que será servido

primeiro momento, porque parte de um caso

na celebração, o protagonista narra, sempre na

concreto para ilustrar um conceito que, ainda

primeira pessoa do singular e no presente do

hoje, nos diz tanto. Falo de emigração. Consta

indicativo, a sua hist ria e a da sua família. Esta

que este terá sido o primeiro romance a abordar a

curiosa escolha do autor — a de tratar todos os

emigração portuguesa para o Brasil, tendo-o feito

acontecimentos como se pertencessem a um

através das personagens José Cust dio, Maria

tempo uno e indivisível — que justifica quando diz

Romana e Tia Palma, naturais de Viana do Castelo,

que a personagem o faz “como se a olhar o tempo

que, tal como outros compatriotas, rumaram para

todo nos olhos do leitor que o tem nas mãos”, vem

o Brasil com a esperança de um futuro melhor, na

quebrar a linearidade temporal. Em abono da

segunda grande vaga de migração para o dito

verdade, mais do que uma questão puramente

país, durante a primeira metade do século XX. De

estilística, esta opção serve para aprofundar um

seguida, porque aborda, de forma precisa e

dos vários temas que são

cir rgica, várias das mudanças que pautaram os

seus familiares são, em larga medida, pessoas mundanas — no melhor sentido do termo. Cheios de contradiç es, defeitos e ocasionais qualidades, procuram, sobretudo, o melhor para si e para os seus, que surge materializado no arroz oferecido por Palma. Pode dizer-se, por isso, que esta é, em ltima análise, uma hist ria sobre as escolhas que fazemos em vida e o que decidimos fazer com as nossas pr prias vidas, incorrendo (ou não) em possíveis arrependimentos. Como se encontra no livro, “certo dia, por boas maneiras, o velho agradece a atenção dispensada, fecha os olhos educadamente, levanta-se e cede o lugar para o bebê que chega”. Assim sendo, acredito que

devemos fazer os possíveis para sermos tudo o que pretendemos ser, entre o berço e o caixão.

32


Maria Oliveira Helena(Submissão Gregório Externa)

Maio/Junho Setembro/Outubro

“

Também nós éramos circunstância Não precisamos de descobrir finalmente quem somos. Talvez essa pessoa final nem exista. Há apenas as pessoas que fomos, as pessoas que somos e as pessoas que ainda não sabemos que vamos ser. “

em causa a estrutura da nossa existência. Esta começou com nostalgia. Mas não uma nostalgia particularmente

dramática.

Nada

de

cartas

antigas ou fotografias de infância. S a ideia de sentir falta de qualquer coisa que já não existe exatamente como existia. O tipo de conversa que aparece quando percebemos que já temos passado suficiente para sentir saudades dele. Há uma idade em que começamos a falar das pessoas que fomos como se fossem vers es

mos guerras, desigualdades, colapsos políticos, alteraç es climáticas, armas, crises econ micas. Vemos tudo no telem vel antes de termos tempo para perceber o que sentimos. Sabemos demasiado e controlamos muito pouco. Somos animais suficientemente inteligentes para perceber a pr pria mortalidade, mas não suficientemente poderosos para fazer grande coisa quanto a ela. A consciência é uma espécie de tragédia. Quanto mais percebemos, mais difícil se torna fingir que as coisas têm um sentido, que talvez não tenham.

ingénuos, que pensávamos de determinada

Talvez seja por isso que crescer parece, tantas vezes, uma sucessão de pequenos lutos.

maneira, que queríamos certas coisas, que

Morrem pessoas. Acabam amizades. Mudam

tínhamos certezas, que hoje nos parecem quase c micas. Contamos essas hist rias com a

cidades.

Acabam-se

vers es

de

preliminares de n s pr prios. Dizemos que éramos

distância confortável de quem acredita ter

n s

cursos.

pr prios.

Desaparecem E,

entretanto,

continuamos a fazer planos como se tivéssemos

chegado, finalmente, a uma versão mais

alguma razão para acreditar que o futuro nos

de mim que queria certas coisas com uma

deve alguma coisa. Até ter filhos pode começar a parecer uma

convicção

acabada de si. Não chegámos. Há uma versão planos,

decisão estranha. Trazer deliberadamente outra

ambiç es, certezas e uma ideia relativamente

pessoa para este mundo, sabendo tudo aquilo

organizada de quem queria ser. Hoje, algumas

que já sabemos sobre ele, pode parecer uma

dessas coisas parecem-me distantes. Outras

forma bastante particular de egoísmo. Não porque

continuam cá, disfarçadas. E há aquelas que

a vida não possa ser boa, mas porque não somos

simplesmente morreram pelo caminho, sem

n s a decidir por alguém se vale a pena nascer. É

cerim nia. Se pudesse voltar atrás, faria algumas coisas de maneira diferente. Diria algumas coisas mais cedo

uma decisão curiosamente irreversível para seres

e outras talvez nunca. Teria menos medo de

julgavam

parecer

melhor

Apaixonamo-nos. Fazemos amigos. Mudamos de

algumas pessoas, alguns lugares, algumas vers es

cidade. Escolhemos cursos. Compramos bilhetes

de mim que desapareceram sem eu perceber que

de avião. Dizemos que talvez um dia vivamos

estavam a desaparecer. Mas não sei se queria

juntos, talvez tenhamos filhos, talvez não. Fazemos

realmente voltar. É essa a parte estranha da nostalgia. Confundimo-la muitas vezes com

planos sabendo que todos os planos são, no

quase

ridícula.

religiosa.

Teria

Tinha

aproveitado

vontade de regressar, quando talvez seja apenas a consciência de que uma coisa acabou. Não quero voltar aos quinze, aos dezoito

ou ao primeiro ano da faculdade. Sei demasiado para isso. A pessoa que fui não tinha a informação que tenho agora, e eu não tinha a informação que vou ter daqui a dez anos. Também n s éramos circunstância. Aos vinte e um anos, espera-se que saibamos o que queremos estudar, onde queremos viver, que carreira queremos ter, que pessoas queremos manter, se queremos casar, se queremos ter filhos. É uma quantidade extraordinária de decis es para alguém que ainda está a descobrir a pr pria personalidade. E depois há o pequeno detalhe de que vivemos num mundo que não parece particularmente interessado em facilitar essas decis es. Estuda-

Imagem: “Blessings in your wake” de Helen Yousaf

Há conversas que começam por coisas que não interessam particularmente e que acabam por p r

33

Crónica

humanos que passam boa parte da juventude a descobrir que estavam errados sobre coisas que saber.

No

entanto,

continuamos.

fundo, hip teses. Talvez seja esta a parte mais difícil de crescer: perceber que não existe uma escolha que nos permita ficar com todas as vidas

possíveis. Escolher uma coisa é abandonar outras. É isto que há de tão desconfortável em ser

jovem.

Ainda

conseguimos

imaginar

demasiadas vers es de n s pr prios. A pessoa que fica. A que vai embora. A que tem uma carreira brilhante. A que vive numa cabana. A que se apaixona. A que não se apaixona. A que tem filhos. A que não tem. A que escolhe tudo certo. A

mesmo quando não queríamos magoá-lo. Crescer não nos torna moralmente impecáveis. Às vezes s nos torna mais conscientes das consequências. E consciência não é o mesmo que sabedoria. Há dias em que queria saber menos. Não por ignorância, mas por descanso. Queria conseguir olhar para o mundo sem pensar demasiado sobre tudo o que está errado nele. Queria, às vezes, ser suficientemente est pida para achar que tudo vai correr bem. Não consigo. Por isso a alternativa talvez seja aceitar que não vamos saber. Que podemos mudar de ideias sem transformar a nossa versão anterior numa vergonha. Que podemos abandonar ambiç es que já não nos servem. Que podemos querer uma vida mais pequena sem admitir que falhámos. Que podemos continuar a achar o mundo profundamente absurdo e, ainda assim, achar que uma conversa às quatro da manhã vale a pena. Não somos obrigados a permanecer fiéis à pessoa que fomos. Também não somos obrigados a odiála por ter mudado. E talvez seja aqui que a ideia de crescer se torna menos assustadora. Não precisamos de

descobrir finalmente quem somos. Talvez essa pessoa final nem exista. Há apenas as pessoas que fomos, as pessoas que somos e as pessoas que ainda não sabemos que vamos ser. Também n s somos circunstância. Daqui a dez anos, talvez eu leia isto e ache tudo isto demasiado dramático. Espero que sim. Talvez ache graça à quantidade de coisas que eu achava saber aos vinte e um anos. Talvez tenha mudado

que estraga tudo. E nenhuma delas está

de ideias sobre quase tudo. Talvez continue

suficientemente distante para ser descartada. Talvez seja esta a parte mais difícil de crescer:

parecem

Também não somos necessariamente pessoas horríveis apenas porque somos capazes de querer coisas incompatíveis e magoar alguém

exatamente igual em algumas coisas, que hoje me fundamentais.

Espero

não

passar

demasiado tempo a tentar descobrir se esta versão de mim estava certa. Não estava, mas também não estava errada; ainda não sabia.


Maria OliveiraNéné (Submissão Externa)

Maio/Junho Setembro/Outubro

A vida não é uma metamorfose

“

Gostamos de imaginar que existe um dia em que

dar por isso. Uma amizade nova aqui, uma

acordamos e decidimos mudar de vida. Que, a

ambição ali, uma maneira de amar, uma forma de

partir dali, vamos ser pessoas diferentes, com

reagir, um sonho que entretanto deixou de fazer

novos hábitos, novas prioridades e, quem sabe,

sentido. E, um dia, olhamos para trás e

uma garrafa de água de dois litros que realmente

perguntamo-nos como é que alguma vez fomos

usamos enquanto fazemos os nossos exercícios

aquela pessoa. Penso nas várias Beatrizes que fui e perguntome em que momento deixei de ser cada uma

na Element, mas não me parece que seja assim que as coisas acontecem. Quando uma lagarta começa a sua transformação, não acorda numa segunda-feira

Não há um momento em que deixamos de ser quem éramos para nos tornarmos quem somos."

durante a noite? Quando é que deixei de querer usar batom azul metálico? Em que altura é que eu

saber muito bem porquê, enfia-se num casulo por

comecei a agir como ajo hoje e deixei de ser cada

instinto e, de repente, começa a dissolver-se.

uma daquelas vers es de mim? Mas mais importante, será que deixei mesmo de ser essas pessoas?

Literalmente. O seu corpo desfaz-se e reorganiza-

constante metamorfose? Eu vou mesmo ter de

se até dar origem a algo que já não se parece

ser a chata que vem para aqui discordar de uma

com aquilo que era. A metamorfose é um processo desorientador, instintivo e, provavelmente,

metáfora tão bonita, e passo a explicar porquê. Quando eu era mi da, acordava sempre a pensar em como um dia ia acordar e estar diferente. Ia ser mais alta, mais bonita, ia usar sutiã, ter um namorado e, todas as sextas-feiras, iria ao cinema com as minhas amigas, com uma delas a conduzir um descapotável vermelho. Depois entrei na adolescência e continuei à

delas. Quando é que deixei de ser a mi da que achava que ia crescer dez centímetros

na sua melhor versão. Começa a comer mais, sem

de manhã e pensa que está na altura de trabalhar

Sabem quando dizemos que a vida é uma

Crónica

Porque nenhuma dessas Beatrizes se parece muito comigo, mas todas elas contribuíram para a pessoa que sou agora. Não consigo dizer que uma

bastante assustador. E n s temos esta mania de

delas estava errada e que a versão atual é a

romantizar tudo isto como se fosse uma decisão consciente, quando, talvez, s nos apercebemos de que estamos a mudar depois de já termos começado a fazê-lo há muito tempo.

definitiva, até porque suspeito que, até ao final do semestre, vou olhar para a pessoa que sou hoje com a mesma mistura de carinho e vergonha alheia.

espera. Um dia ia acordar e parecer mais velha. E mais alta. Olhava para fotografias minhas e pensava: “Eu um dia vou mesmo acordar e estar super diferente, e aí vou parecer uma rapariga crescida e toda a gente me vai dizer o quanto eu cresci. E eu vou ter crescido mesmo.”

Não há propriamente um momento em que

E acho que crescer é precisamente isto:

acordamos e pensamos “pronto, é mesmo hoje,

passar a vida à espera de acordar diferente, sem perceber que estamos a mudar enquanto dormimos. Não há um momento em que

Agora, com 20 anos e muita pena, já aceitei uma dura realidade: não, eu não vou crescer mais.

e de vers es nossas que começamos a achar um

tornarmos quem somos. Há apenas uma sucessão de pequenas mudanças que, vistas de

bocadinho cringe. Há opini es que deixamos de

longe, acabam por parecer uma transformação

defender, sonhos que já não nos servem e

enorme. E talvez seja por isso que não gosto muito de chamar metamorfose a tudo isto. A palavra faz parecer que existe um antes e um depois, uma lagarta e uma borboleta, como se fosse possível apontar para um momento exato e dizer: foi aqui que tudo mudou. Mas e se nunca tivermos sido propriamente uma lagarta? E se nunca chegarmos a ser uma borboleta? E se formos apenas um barco que está constantemente a trocar de peças, sem nunca parar de navegar?

vou mudar de vida” e, de facto, tudo em n s muda. Há apenas uma sucessão de pequenos desconfortos, de coisas que deixamos de tolerar, de pessoas com quem já não sabemos conversar

Desculpa à Beatriz de 15 anos, com 1,40 m, que

fotografias antigas que nos fazem querer pedir

dizia que ainda tinha tempo para crescer. Agora

desculpa a quem viu. E, quando damos por n s, já

tens 20 anos, 1,43 m, e, na semana passada,

não cabemos na vida que tínhamos construído

alguém comentou “pq q pareces ter 13/14 anos?”

até então. Estamos a viver a um ritmo diferente, a

num TikTok teu sobre a universidade. Ah, e não. Eu nunca comecei a de facto usar um sutiã.

querer coisas diferentes, a olhar para o mundo de outra forma e não sabemos bem em que

O engraçado é que, sempre que penso em

momento é que tudo mudou. Por isso, é que eu

todas essas Beatrizes que sonhavam com o dia em que iam acordar diferentes, nenhuma delas se parece comigo. Uma tem cabelo curto,

gosto muito mais de nos comparar ao barco de Teseu. Para quem não conhece, o paradoxo do

a outra usa aparelho, uma ainda usa collants neon com estampa de leopardo e um cachecol piroso de ursinho, e ainda tenho aquela que anda com batom azul metálico porque acha que assim fica parecida com a Robecca Steam das Monster

de

vida

e

pessoas

completamente

substituir até deixarmos de ser n s? E, se um dia olharmos para

existir ou que, de alguma forma, conseguimos continuar a ser n s pr prios, mesmo com tanta mudança?

no

comportamento de um organismo durante o seu desenvolvimento”. Sinto que isso raramente nos acontece. Temos uma tendência engraçada para tratar a metamorfose como um processo que escolhemos começar. “Ah, é que eu estou num período de metamorfose, sabe?” quando, na realidade, s começaste a tomar café sem aç car e paraste de ouvir Taylor Swift.

trás e já não reconhecermos nenhuma das peças originais, isso significa que deixámos de

substituindo pequenas partes de n s , quase sem

Imagem: “Ophelia” por Hélène Delmaire

modo

originais, continuamos a ter o mesmo barco? E, se

diferentes de um dia para o outro. Vamos

“um processo biol gico de transformação rápida e profunda na estrutura

dicionário,

no

Afinal, quantas peças temos de

necessariamente

metamorfose. A metamorfose é, de acordo com o

corporal,

barco de Teseu parte de uma pergunta bastante simples: se substituirmos, uma a uma, todas as peças de um barco, até não restar nenhuma das não, em que momento é que ele deixa de ser o que era? Para mim, isto sim é que representa a experiência de crescer. Não somos

High. E, no entanto, todas elas sou eu. Acho que foi por isso que comecei a desconfiar da ideia de que a vida é uma constante

deixamos de ser quem éramos para nos

34


Maio/Junho Setembro/Outubro

“

Maria Oliveira Matilde(Submissão Paquete Externa)

All Is Full

f Love

Uma nova oportunidade a um prato de comida só pode ser um ato de grande amor."

Como para a maior parte das pessoas, a minha

decidi escolher dois pratos completamente

viagem no mundo da gastronomia começou em casa. Mais especificamente, começou numa família que celebrava pequenos pedaços de uma vida passada na Índia, na geração dos meus bisav s, através de pratos goeses cat licos, como o sarapatel, as chamuças ou o caril de peixe, mas que vivia um presente português, e por isso nunca esquecia os pastéis de bacalhau, as sardinhas ou o leitão. Desde pequena que revelei uma forte preferência pela segunda vertente, tendo passado anos com medo de me engasgar com comida picante à frente da minha família e, por isso, recusando-me sequer a prová-la. Acho que foi s quando o envelhecimento do meu av se tornou not rio, que, com medo de perder um pouco de quem sou, abri os olhos para todo um mundo de opç es a que sempre me tinha recusado. Foi assim que nasceu uma verdadeira obsessão por comida, acompanhada pela descoberta, durante a pandemia COVID-19, dos programas e dos livros do Anthony Bourdain, a figura que mais me inspirou a sair da caixinha em que tinha trancado durante tantos anos. Mais tarde, também viria a escrever sobre ele para me candidatar à equipa deste jornal. Assim, a minha fome levou-me a viajar por in meros países pela Europa — B snia, Albânia, Roménia, Bulgária — mas também pelas várias gastronomias dentro da pr pria cidade de Lisboa — Irão, Ge rgia, China, Síria. Uma dessas paragens marcou o meu primeiro texto no NeF, o Ku wa zi.

desconhecidos. No caso, uma taça de noodles de batata doce ácidos e picantes, acompanhados de frutos secos e algas e também uma panqueca chinesa (

煎饼果⼦ ou jiānbı̌ng guǒ zi), feita de

massa de farinha de feijão mungo e um recheio salgado. O sabor fermentado da panqueca, bem como a textura viscosa dos noodles eram-me totalmente novos, invocando um daqueles momentos de arrependimento imediato, em que me obriguei a remexer a comida no prato e a dar o máximo de dentadas possíveis, de maneira minimamente convincente. Confesso que fui apanhada desprevenida, visto que há vários anos não me deparava com nada de que não gostasse tanto que não o quisesse terminar. Ao ver a minha aflição, escondida por trás da bravata de quem tinha, com total confiança, escolhido o restaurante, a pessoa que me acompanhava contou-me uma hist ria que nunca mais me largou, de uma nova filosofia de degustação. Procurando acalmar-me, falou-me do irmão que, recentemente noivo de uma mulher chinesa, se tinha visto no lugar da Matilde

criança e da Matilde jovem adulta, rodeado de todo

um

ingredientes

novo

mundo

diferentes

de

comida

e

daqueles que conhecia na sua cultura. Essa circunstância motivou-o a desenvolver um específico sistema: cada

vez

que

prova

algo,

dá-lhe

sete

oportunidades, o n mero que considera ser justo para afirmar com confiança — não gosto. Ao ouvir

Apesar de ter introduzido este restaurante a

este relato, senti-me ligeiramente envergonhada

amigos e família, que muitas vezes regressaram

por não possuir tal seriedade gastron mica, tendo

para comer pratos de beringela yuxiang e

ficado dias a fio a tentar dizer algo de interessante

espetadas de borrego, eu ainda não o tinha

sobre

revisitado desde a minha primeira review. Voltei diferente por dentro e acompanhada por fora,

algo que, desta vez, restringiu a minha atenção à minha própria mesa. Assim, encarnando Bourdain,

o

mesmo.

Quando

finalmente

desempanquei, foi porque percebi que tinha perdido de vista a Bourdain. Uma nova

oportunidade a um prato de comida só pode ser um ato de grande amor.

Imagem: “Dinner at Burrow”

35 19

Crónica


Maio/Junho Setembro/Outubro

Maria Oliveira Iúri (Submissão Soares Externa)

Crónica

“

Imagem: Slimesunday

Saudades de, sem Culpa, Perder Tempo

O que era fácil e l dico foi substituído pelo facílimo e pela futilidade"

O Gelson Martins tem 31 anos. Ap s horas de “doomscroll”, ou perda de tempo (em desusado

Caramba, o contraste entre não saber na ponta da língua (como antigamente memorizaria) o onze

português), deparei-me com esta informação que

do

desmoronou toda a minha perceção de temporalidade e de mim pr prio. Confesso, não sou hoje o mais exemplar no que toca a estar

(infelizmente) da existência das Babis e Soso Carecas desta vida, traz uma c lera à minha alma

atento ao mundo do futebol, contudo, já fui e, tal passado não corresponder à minha atualidade,

O que nos meus áureos anos de adolescência considerava como perda de tempo, ou

angustia-me. De nativo em “larping” com “ball

“doomscroll” na linguagem desprezível que

knowledge” fundamentado nos meus “Modos

atualmente infeta o nosso léxico estrangeirado e

Carreira” no FIFA e no Football Manager, nos

este artigo, é agora valioso e produtivo. Constitui-

quais, facilmente, passava horas a fio (e onde

se como uma espécie de dormência intelectual

refazia os jogos quando perdia), passei para, hoje,

que se estende a todos os ramos da nossa vida,

com 20 anos, sentir um peso asfixiante s de pensar em abrir os MeusResultados (que já não o

que leva à “preguiça” e “desmotivação” e,

é há muito tempo). Obviamente que os nossos interesses se vão

culpabilização pessoal que agrava os nossos

desenvolvendo e modificando ao longo do nosso

“desmotivados”. Tal flagelo faz com que as

crescimento e do ambiente que nos circunda, não

cábulas escritas sejam substituídas pelo ChatGPT,

audição de “Shake It Off” da Taylor Swift,

estou de todo a disputar esse “consenso societal” e, quiçá, facto do desenvolvimento do ser

os conselhos de métodos de estudo pelo AstraAI, o Photoshop pelo prompt de uma IA. O que era

teu Spotify Wrapped, para não te tornares

humano. Contudo, a problemática que aqui identifico é que, o conhecimento que adquiria e

reproduzia com naturalidade, foi substituído pelo “brainrot” e pelos “influencers”; que a

superficialidade quotidiana se tornou ainda mais epidérmica.

Benfica,

mas

possuir

conhecimento

inapagável.

consequentemente, conduz a um ciclo de sintomas

enquanto

“preguiçosos”

e

fácil e l dico foi substituído pelo facílimo e pela futilidade, fruto, em considerável parte, da

ciência que viu o seu respeito pelas suas pr prias

Imagem: Inbox Minimalism, Clean Systems, Avery Lane no Pinterest

Amigo, eu sei que não estás a ler esse livro do Dostoiévski no comboio da CP à hora de ponta, de pé com fones de fio nos ouvidos, deixa-te de bizarrices macabras; o teu cérebro está focado na reproduzida pelo YouTube para não aparecer no chacota

dos

teus

“amigos”,

igualmente

performáticos e ávidos fãs discretos da mesma artista. Reitero que não escapo a essa crítica, aliás,

e

por fazer parte do ciclo, detenho a experiência

Esta realidade dist pica faz com que

rejeitar. É da nossa responsabilidade individual e coletiva consciencializarmo-nos do declínio

contribuiç es

e

invenç es

arruinado

descredibilizado. tenhamos, nos tempos presentes, a necessidade de extravasar uma aparência polarizadora com a finalidade de saciar a nossa imagem externa como completa e cativante, mas que em nada corresponde à nossa essência. nos tempos presentes, a necessidade de extravasar uma aparência polarizadora com a finalidade de saciar a nossa imagem externa como completa e cativante, mas que em nada corresponde à nossa essência.

Imagem: Miko Maciaszek

empírica necessária para invocar a exigência de a

da nossa qualidade de tempo e conhecimento, para

que,

o

que

nos

faz

hoje

sentir

“produtivos” e “cansados”, volte a ocupar o lugar de descontração natural, que foi usurpado pelas express es irmãs do “brainrot”. S assim, em ltima instância, se poderá ler efetivamente, o livro, em vez de parecer que o lemos, e estar informado, no pr prio dia, quando Gelson Martins anunciar o seu glorioso adeus ao futebol.

36


Maio/Junho Setembro/Outubro

Imagem: My First Kafka Runaways, Rodents & Giant Bugs

“

Maria Oliveira Laura (Submissão Tuck Externa)

Crónica

P Word

Há dois anos, o dem nio entrou na minha casa. O filho da puta imortal que é a encarnação do mal. Indivíduo a quem nem desejas que caia sob o pior dos teus inimigos com receio de um karma geracional, de um reverse uno fatal."

O satanás é, como dizem, malvado. Gosta de

Tenho pedras da calçada, tal es, bilhetes,

Achava que, depois de me ter desprendido

lentamente brincar com o seu h spede.

flores, jornais, câmaras, meias, brinquedos,

dos meus pertences, estava resolvida, que

Aparece uma vez, prega-te um susto e

etc. Até o creme da Nivea me faz lembrar

tinha superado os meus medos, e que,

desaparece. Passam umas semanas e não o

uma amiga. Tudo o que eu tenho tem uma

vês; achas que podia ter sido tudo um sonho,

hist ria, seja de uma altura na minha vida, de

apesar da perda e do esquecimento, ainda tinha os meus vivos para me lembrarem de

ou melhor, um pesadelo. Mas é nesse mesmo

um acontecimento ou de uma pessoa. Estou cronicamente sem armazenamento. Perder a

tudo o que eu esqueci. Que podia criar

cabeça deve ser a pior maneira de

novos mosaicos.

envelhecer, não me lembrar das histórias

que o meu pai me contou, a rua onde vivi

Este ano o meu pai velho adoeceu. Há 5 dias atrás vi um bicho na minha cama. A verdade é que tenho medo de ter

momento que ele volta e com mais força, parte a janela e fode as tuas cuecas (borraste-te). O dem nio atormenta a todas as horas do dia: faz com que tenhas medo de voltar para casa, medo de ir para a cama,

a minha infância, o assunto do meu filme

novas mem rias e encher o meu quarto de

perguntas

por

fazer

aos

mortos

e

medo de fechar os olhos, medo de ir dormir.

preferido. Tenho medo de perder as peças

Eu, de tão pr xima que me tornei do

do puzzle que me comp em e de acabar

dem nio, conheci o verdadeiro nome dele: o Percevejo! Shhhhhhh. Nem pronunciem o nome à minha

como um vazio ou um contorno de um humano, sem nada. Há dois anos atrás, esvaziei o meu ba de

beira que eu prego uma voadora na madeira

recordaç es. Ap s o que foram dezenas de

novo. Afinal era um outro bicho, esmaguei-o com

3 vezes e rezo infinitos avé marias. Eu, que

tentativas de exorcismo falhadas, ficou claro

os meus dedos.

nem sou religiosa, comecei a usar a minha

que o dem nio tinha possuído não a mim,

O meu quarto está cheio de novas tralhas,

cruz. O gajo enlouqueceu-me. Esse caralho

mas às minhas posses. Entranhou-se dentro

ando a conversar mais com o meu pai e vou

que parece um caroço de uma maçã fudeu-

da alma dos meus livros e das suas páginas,

apontando as coisas importantes caso

me a vida. Esse gajo é pior que o meu ex, que é traficante e tem mommy issues. Assim que eu acho que me livrei dele... BAM! Lá está ele

vestia a minha roupa e dormia na minha

alguém um dia perguntar.

em cima dos meus lenç is a olhar para mim.

que não era possível reconquistar as minhas

Pelo menos o outro liga-me de n meros

mem rias, porque já não eram minhas.

desconhecidos. Este nem bate à porta antes

Depois de muito choro e muito a minha mãe

de entrar. Durante a noite chupa-me o

a berrar que devíamos ter queimado tudo

sangue e de manhã esconde-se dentro das

mais cedo para prevenir esta infestação

minhas cuecas. Perverso. As únicas coisas das quais tenho medo

demoníaca, a minha vida estava todinha em

irracional são a perda e o esquecimento. Eu sou uma colecionadora.

37

respostas por dar aos vivos. Tenho muito medo do dem nio se lembrar de mim nas

profundezas do inferno e me roubar tudo de

cama. Bombinhas de gás e lixívia não eram nada contra o final boss anticristo. Percebi

sacos do lixo de 50 Litros dentro d’um contentor Annabelle.

infeliz

do

qual

denominei Imagem: Ivory (1979)


Carolina Ramos

Setembro/Outubro

Escrita Criativa

6, 10, 14, 18, 22 MÃE, TURMA DA MÔNICA - UMA AVENTURA NO TEMPO, LÁPIS DE COR, BRIGADEIRO, CANETA DE FELTRO, COR DE ROSA, DISCOVERY KIDS, POLENTA FRITA, BRINCAR NO MAR E NA AREIA, BARBIE - A PRINCESA E A PLEBEIA, CLUB PENGUIN.

memórias póstumas de brás cubas, gilmore girls, passear em lisboa, pizza de queijo, mada, nene, lini, bolacha de canela, tosta mista sem fiambre.

fazendo meu filme, friends, lasanha, blogspot, youtube, ballet, bombom ouro branco, os beatles, aprender, bolo mousse de chocolate, azul turquesa, suco de uva integral.

a amiga geni

amigos do lice cafézinho, de

al, roxo,

u camões,

scobrir a universidade , massa com pesto, amigos da faculdade, es filmar.

crever,

38


Setembro/Outubro

Eva Vieira

Escrita Criativa

Ela Se hoje em dia posso dizer que sou uma pessoa criativa,

é devido às incontáveis horas em que ela brincava, pintava e criava hist rias.

Se hoje em dia posso dizer que sou uma pessoa compreensiva, é porque ela sempre viu o melhor nas pessoas, mesmo quando parecia impossível. Se hoje em dia posso dizer que sou uma pessoa ambiciosa, é porque ela sempre soube que conseguia fazer melhor. Se hoje em dia posso dizer que sou uma pessoa vaidosa, é porque ela passava horas a escolher e a planear as melhores combinaç es de roupa. Se hoje em dia posso dizer que sou uma pessoa atenciosa, foi porque ela sempre gostou de ajudar e fazer os possíveis para agradar a todos. Se hoje em dia posso dizer que sou uma pessoa feliz, é porque ela já viu o suficiente para perceber que não vale a pena dar importância a quem não a merece. Se hoje em dia posso dizer que estas são as minhas maiores qualidades, é por causa dela; e, sempre que me questiono se de facto sou tudo isto, lembro-me de que ela ainda está dentro de mim… e nunca deixará de estar.

39


Setembro/Outubro

Tatiana Marcelino / Santiago Perdigão

Escrita Criativa

Poesia és Nunca conseguiu sê-lo. Quem foi é quem é. Sempre sem direito a sê-lo. Quem foi é quem é. Foi pedra, não percebia nada e obedecia. Até que sonhou que era líquido brisa fogo Deixou de jazer e soube quem era. Ouviu o seu nome, dando-lhe existência Olhando-se, com direito a crescer e a mudar. E eis-te ali já no fim feliz por não ter de voltar atrás.

Galáxias Somos constantes clímaces de conclus es inabaláveis de destinos maleáveis, mas sempre tão certos do Sermos Agora, da conclusão de ser. Olhar o antanho (a real conclusão) e ser-lhe tão apartado que o troçamos ainda que o livro tenha acabado um capítulo, um ponto final. uma vírgula,

O lembrar que o por vir é um abraço apertado Antanho desregulado Tão ou mais nostálgico Tão ou mais letárgico

Escorregamos no buraco negro da contínua mudança (e contínua certidão conclusiva do nosso ser) e mudamos, damos. Amamos e voltamos a mudar. É por estas e por todas que somos tantos e tão N s Por vezes tão outros Por outrem, fraseados Por vezes tão muitos Por outrem, ditos Vezes que por tão pouco chegamos a n s Que por tanto nos fazermos Acabamos por nos criar E acabar, sempre. 40


Setembro/Outubro

Eduarda Teixeira

Dores de crescimento Quando era pequena, achava que chegaria à vida adulta e estaria cheia de certezas. Achava que o caminho era linear e que, se seguisse à risca as regras do jogo, ficaria tudo bem. Estava totalmente enganada. No pico da minha inocência, mal sabia que há tantas voltas e reviravoltas e que as d vidas são mais frequentes do que as certezas. Nestes ltimos anos, na transição da adolescência para a vida adulta, tenho-me deparado, mais do que nunca, com essa circunstância da vida que é errar. Eu sei, não é de todo algo revolucionário. O que poderá ser revolucionário é a forma como lidamos com isso. Sinto em mim uma enorme exigência que muitas vezes me bloqueia. Ainda não lido bem com a inevitabilidade de errar. E sinto também um conflito interno entre uma parte que tem um medo enorme de não estar à altura e outra que não quer abdicar das suas ambiç es. Esta disputa de forças pode ser exaustiva e desmotivadora. Por vezes, parece mais l gico permanecer na zona de conforto e deixar os planos para depois — quando estiver “mais preparada”. No entanto, o que a minha humilde experiência me tem mostrado é que adiar no calendário não soluciona a raiz do problema — o medo de falhar. Portanto, creio que ousar desafiar-me será mais frutífero do que cingir-me à segurança da minha bolha. Para isso, há que enfrentar as dores de crescimento, acolher as d vidas e incertezas, procurar a beleza do processo que é crescer. E, neste preciso momento, enquanto escrevo estas palavras, continuo a lidar com o sentimento de que não teria algo suficientemente relevante a dizer. Numa tentativa de contornar esse pensamento, assumi a tarefa de observar o brilhantismo dos outros sem deixar que isso me iniba de tentar. E s ao tentar já ganho algo.

Pintura: “A ponte japonesa” de Monet (1899)

41

Escrita Criativa


Mafalda Monteiro

Setembro/Outubro

Escrita Criativa

Do latim notula Diminutivo de nota-, “sinal”. N doa. Pequena extensão de cor diferente numa superfície, deixada por uma substância que suja; mancha. (…) N doa Negra. [mancha de coloração variável originada pela infiltração de sangue no tecido subcutâneo e que se deve, em geral, a traumatismo] Priberam N doa Negra Sentimental. [definição variável, consoante interpretação individual] Bairro do Amor A figura das n doas negras percebe-se com relativa facilidade, porque é universal. Todos temo-las, ainda que uns sejam mais propensos a ficarem manchados – por um lado, os aselhas e/ou azarados; por outro lado, os sensíveis, cujos sistemas imunitários se revelem fragilizados. No caso dos primeiros, nada a fazer. Já relativamente aos segundos, a prescrição de exercício físico regular juntamente com uma alimentação equilibrada porventura se afigure ser a sugestão mais adequada, dado fortalecer as nossas defesas. (Dieta e exercício, e sujamo-nos na mesma.) De onde vêm e para onde vão as n doas negras? – essas manchas que, de um dia para o outro, deixamos de ver, sem que nos abandonem. Mazelas de exibição limitada que atentam contra a habitual estética do corpo humano. Estou convicta de que as tenho a todas, guardadas algures; desconheço o seu paradeiro, porém, sei que estão comigo, escondidas na epiderme. («mancha de coloração variável») Porque ressurgem; já sem ocupar espaço a roxo e castanho no nosso corpo, mas como parte integrante dele, similarmente às calorias a mais que – como uma companhia indesejada – se acoplam a n s e teimam em largar-nos. («infiltração de sangue no tecido subcutâneo») As n doas negras são como essa camada adiposa que nenhuma quantidade de exercício físico ou restriç es alimentares anula. Enquanto a cintura estreita, as n doas negras vão-se amontoando, no seu canto obscuro. E não interessa o exercício nem a dieta. Porque ficam; invisíveis e, consequentemente, perigosas. («que se deve, em geral, a traumatismo») Alheios ao seu esconderijo, qualquer toque representa uma possibilidade de sofrimento. No seu estágio inicial, as n doas negras apresentam-se como uma ofensa; uma vulnerabilidade da qual nos desviamos. Visíveis são evitáveis. Mas uma vez instaladas – em n s, incolores – transfiguram-se: são inescapáveis. Crescer é não fugir delas. É querer tocar, sabendo que doerá. É desejar decifrar aquilo que nos mancha. («uma substância que suja») Ora, tratar das n doas negras sentimentais é um ato comunitário que jamais vinga sem amor, porque implica desabafo e abertura ao outro – empreendimentos frustrados na ausência de empatia. Neste sentido, invoco o imaginário legado por Jorge Palma, no qual todos são acolhidos, num `bairro´ marcado pela compreensão e compaixão pela dor do nosso semelhante. («No bairro do amor (…) há sempre lugar para mais alguém») Parece-me, então, que não havendo prevenção possível às n doas negras – excluída a utilidade da atividade física e dos regimes alimentícios para esse efeito – restará a remediação por meio da comunhão. Por outras palavras, s a partilha e o abraço penetram o espaço das pequenas extens es de cor que se armazenam em n s, permitindo-nos enfim sorrir um pouco; descontrair um pouco. («Epá, deixa-me abrir contigo») Falar-te da minha solidão.

31

42


Setembro/Outubro

Rita Sousa

Escrita Criativa

etamorfose Metamorfose: “processo biol gico pelo qual um animal se desenvolve fisicamente, incluindo o nascimento, a transformação ou a eclosão, envolvendo uma mudança notável e relativamente abrupta na estrutura corporal do animal por meio do crescimento e diferenciação celular.” Quando, pela primeira vez, entramos em contacto direto com o mundo sensível, este baseia-se em quatro atividades fundamentais: dormir, comer, chorar e defecar. Não temos preocupaç es, não tomamos decis es e alguém decide por n s. Quando somos crianças, a estas atividades acrescenta-se um arco-íris, purpurinas, unic rnios, bolas de futebol e suor. Começamos a perceber o mundo, as suas cores, as suas atitudes, mas ainda somos demasiado ingénuos para nos preocuparmos com o mesmo. Já na adolescência, focamonos nas amizades, nas compras, nas séries, nos livros e nos videojogos, e começamos a ter uma noção mais afinada da realidade. Contudo, quando atingimos a maioridade, embora os nossos interesses se mantenham, as nossas prioridades mudam. Aquilo que antes fazia parte do quotidiano transforma-se num hobby. Somos obrigados a ganhar independência, a ser aut nomos e responsáveis. Repentinamente, o mundo que havia sido colorido passa a ter características mon tonas. Acordar, trabalhar, comer, trabalhar, comer e dormir. Somos impelidos a decidir, a todas as horas e todos os dias. Banhados de preocupaç es e ansiedades, questionamos se a nossa decisão ou o modo

43

como falámos foi o mais correto e, quando não o foi, o mundo desaba. Mas não devia, certo? Esta ideia de que temos de ser constantemente perfeitos, sem margem para o erro infiltra-se no nosso cérebro e absorve os nossos pensamentos. Temos o direito de errar e de aprender com as nossas decis es, de refletir e mudar. Tal como os animais sofrem metamorfose, também os humanos se transformam ao longo da vida. O ser humano é um ser de hábitos, um ser que consome tudo à sua volta e que rege o seu comportamento e pensamento acerca das suas experiências pessoais anteriores. As nossas vivências fazem parte de um crescimento contínuo, não de um passado que atormenta. Temos sempre o direito de crescer e mudar, de aceitar quem somos e o que fomos. É quando tomamos consciência desta ideia que atingimos um estado de serenidade, plenitude e aceitação. Estamos em constante evolução, passando por transformaç es que, num sentido anal gico e metaf rico, são a metamorfose dos seres humanos. Não s nos desenvolvemos fisicamente como também vivemos uma transformação profunda e abrupta da nossa estrutura cerebral.


Setembro/Outubro

Matilde Ferreira/Maria Francisca Duffy

A vida Não é a tint permanente Matilde Ferreira

Existe uma regra não escrita que governa a nossa rotina matinal. Vê-se no malabarismo de preparar tudo à pressa, apenas para conseguir sair de casa a horas. Afinal, sabemos bem que falhar o primeiro transporte do dia desencadeia um efeito domin que estraga todos os planos seguintes. Essa mesma mecânica de causa e efeito acompanha-nos em quase tudo o que exige estratégia, até nos gestos mais simples do dia a dia. Quase sem dar por isso, quando tentamos decifrar aqueles pequenos problemas de l gica no papel, ficamos sujeitos à mesma cadeia de erros, basta um algarismo colocado sem certeza para condenar o jogo inteiro ou, num cruzamento de grelha, uma letra mal encaixada na horizontal para invalidar silenciosamente todas as verticais que dela dependem. Na vida de um estudante o cenário é idêntico, cada decisão de hoje é uma casa preenchida que dita se os passos de amanhã vão encaixar ou desabar. No entanto, há uma diferença fundamental entre a rigidez de um horário e a folha de papel: nesta ltima, temos a permissão para usar a borracha. Crescemos a olhar para o percurso académico como uma sequência implacável, onde qualquer falha no arranque parece comprometer o resultado. Temos medo de errar a primeira resposta, de escolher a opção errada ou de ficar presos ao que não é para n s. Mas a verdade é que ninguém nasce a saber preencher a vida à primeira tentativa. Temos o direito de apagar o que já não serve. Mudar de perspetiva ou admitir que uma escolha antiga já não encaixa no nosso presente não é um falhanço, é aprendizagem. Se um passo antigo contamina o que tentamos construir hoje, a solução não é insistir no erro por orgulho ou medo do tempo investido. É ter a coragem de parar, apagar e recomeçar com a clareza de quem já sabe mais do que sabia ontem. Afinal, a nossa hist ria não é um n mero cravado a tinta permanente, mas sim o processo contínuo de reescrever a jogada até que tudo faça, finalmente, sentido.

Escrita Criativa

Direito de Crescer Maria Francisca Duffy

Olha-me de soslaio Grita-me com prazer Mas não digas que eu não sabia o que fazer Se é de tudo que gostas, és frio Cem luvas, sem uma que sirva Um dedo roto, outro comprido Dão-te luvas no Natal, esquecem o perigo Tudo queres, mas nada podes Vais-te encontrar (eco) Mas és gelo, nada aquece S tu padeces Se sempre soube o que quero Se sempre soube o que sou Sou quente, infortunada Suor que me ensopa Sufocada pelo cobertor da certeza Mas é bom estar de casaco Feito à medida, para mim <<Tira-o, experimenta este aqui>> Cheira a bata médica e dinheiro sem fim Se quente é ser-se assim Feliz entre livros e palavras Deixem-me ser! Teimosa, orgulhosa teci Uma manta de paix es desde que nasci

Imagem: Minki’s Work Table no Pinterest

44


Setembro/Outubro

Clara Pexirra

vestígi s

O av leva ao peito, guardado religiosamente no bolso da camisa, o bilhete de identidade que atualizou em 2004. Ficou ali cristalizado, num papel grande, plastificado, com sorriso largo. A Francisca faz sempre aquela franja pela metade da testa, tal como a madrinha assim lhe cortava na casa de banho de lajes cor de rosa. A Celeste tem o rel gio acertado da primeira vez que lho deram, ainda pelas mãos do primeiro namorado. No inverno está sempre à frente de todos, uma hora adiantada. O Rodrigo afrouxa o nariz sempre que se ri. Enruga-o daquela maneira que é s dele. Parece que ainda fica mais amachucado e redondo, exatamente como quando era pequenino. A Lena pinta os lábios com o mesmo tom de vermelho vinho antes de sair de casa. Ela tem os lábios finos e, quando os fecha, ficam assim, uma linha desenhada no rosto. O Leonardo tem o olho direito mais fechado que o esquerdo desde o fatídico dia em que o Ruca lhe deu uma boa cotovelada, a brincar às lutas no recreio. O Pedro e a Filipa partilham ainda os mesmos olhos, ainda que o Pedro continue a insistir que os seus são mais esverdeados. A Madalena tem os dentes da frente encavalitados. Já a mãe assim o previa quando os de leite caíram e deixaram pouco espaço de sobra para os novos. A Madalena gosta de passar a língua por eles e sentir-lhes as irregularidades. A Luzia continua a contar quantos sinais afinal fazem mesmo parte da constelação de estrelas que tem ao peito. Parece que vão mudando, umas nascem, outras evaporam, vão-se movendo, fazem-se cadentes. O Xavier brinca com a pulseira de borracha que leva ao pulso esquerdo sempre que fica nervoso, e lembra-se do menino que se sentou ao seu lado na mesa do refeit rio, quando almoçava sozinho. A Rafa apanha o cabelo num rabo de cavalo desajeitado. Tenta imitar ao pormenor os penteados que o pai lhe fazia para o futebol. Eu tenho uma afta que nunca desaparece, no interior do lábio inferior. De vez em quando fico a roê-la. D i, mas sabe bem. Sabe a metal, s lido, frio. N s somos vestígio do que fomos. Museu ambulante de todos os que fomos e que quisemos ser. Desenhamos por linhas tortas o retrato de um alguém perdido, para fazermos do novo rosto algo familiar. E entre rabiscos, amachucares, canetas de feltro sem ponta e aquarelas demasiado diluídas, construímo-nos. Rascunho falhado, com erros e incongruências. Insuficiente. Deficiente. Desenhamos um rosto desajeitado a que chamamos um eu. E, na impossibilidade de sermos o que fomos, de sermos agora o que haveremos de ser amanhã, ficamos assim desenho incompleto. Folha de papel que ficou por terminar, no canto do quarto. Imagem: “Chromotography of felt tip pens” por Egor Polovinkin

45

Escrita Criativa


Setembro/Outubro

Miguel Vert (Submissão Externa)

Escrita Criativa

As Multitudes que Fui Tenho sapatos debaixo da minha cama que já não calço há uma década. Quando limpo o meu quarto, meto-os de lado como se fosse usá-los. Lembro-me de cada um, onde os comprei e quem era na altura. Uns comprei-os em Sevilha porque achava que iam ficar bem com uma t-shirt que tinha no meu armário em Lisboa, mas nunca cheguei a usá-los juntos. Quando se olha para o passado, é difícil não sentir uma certa culpa. Porque o tempo é este bicho que te empurra pela vida sem sequer tu sentires e faz com que as coisas tenham permanência por s te empurrar numa direção. É a sua irreversibilidade que transforma as aç es que cometo em pecados. Não por serem de má ética, isso quase nunca é o caso, mas por serem irreversíveis. Chamo-lhes pecados pela permanência no tempo e pela morte de um possível futuro que não vivi. O meu quarto é um estado soberano com a população de um que já foi vários. Já fui confiante e envergonhado, arrogante e delicado, carinhoso e malicioso. Eu carrego esse exército de multitudes que fui às costas todos os dias e, às vezes, apanho-me a ter instintos de outras épocas e de outros Eus. Esses indivíduos que já fui, diversos como são, colocaram em causa muitas vezes o que eu via como “Eu”, a minha essência, alma ou o que quer que lhe queiram chamar. A velha questão da hipocrisia de ser agora o que se negou no passado. S se pode falar de algo de maneira absoluta quando já está morto. Quando está completo. Eu, por enquanto, estou vivo, então continuo a ser. Não deves a ninguém ser a pessoa que foste ontem. Não por falta de lealdade, mas porque, se é uma decisão tua e almeja algo melhor para ti, por que não? Eu tive muitos problemas ao aceitar isso durante muito tempo. Sempre que as coisas ficavam boas demais, eu apanhava-me a pensar sobre o que eu queria e acabava por tomar decis es imprudentes. Houve pessoas que afastei por orgulho, outras que magoei por cobardia e outras que simplesmente deixei desaparecer porque achei que haveria sempre tempo. Tudo isso foi resultado de escolhas que fiz ou que não fiz. Se há algo que a vida me ensinou, é que n s somos os que se mantêm connosco depois de in meras mudanças. Há coisas que permanecem comigo quase por acidente. Adoro a cor laranja e isso nunca mudou. O meu animal favorito é o cavalo e isso também nunca mudou. Ainda revejo as mesmas séries e filmes que via aos 14 anos, ouço algumas das mesmas m sicas. Parece infantil, mas é honesto. Mas as minhas aç es também permanecem. De novo, elas inscrevem-se no tempo e não possuem o seu peso s pela permanência da ação, mas pelas consequências que essas aç es têm nas pessoas à nossa volta. Eu sou juiz penitente da minha pr pria conduta. Eu não conto a minha vida em anos. Depois dos 18, parou um pouco de fazer sentido. Eu conto as épocas da minha vida pelas pessoas que tenho à minha volta. Pela minha tribo, que às vezes dou permissão para entrar no meu estado soberano e ver a minha cama sem lenç is e o exército de sapatos que tenho debaixo dela.

Pintura: “Untitled Bedroom” de Ekaterina Popova

46


PARA PASSARES O TEMPO...

5

6

3

4

1

8

6

7

5

3

2

6

9

1

7

2

4

5

8

9

8 5 9 2 4 7 8 6 3 1

2 8 6 3 1 5 2 4 9 7

9 1 2 5 9 4 7 3 8 6

1 9 7 4 8 3 6 5 1 2

3 7 3 8 6 1 5 9 2 4

4 2 4 9 7 8 3 1 6 5

6 1 7 6 5 1 2 9 4 8 7 3

5

9

8

2

7

6

4

5

2

8

9

4

1

7

6

2

9

3

3

3

1

5

3

8

1

3

8

7

4

3

4

7

7

9

5

2

1

3

1

2

2

6

7

8

4

5

2

1

1

1

8

8

4

9

2

4

3

5

6

1

6

9

2

8

8

5

9

1

8

2

9

3

7

8

2

6

6

7

8

5

6

4

1

7

2

3

1

5

4

9

4

6

4

8

5

3

3

4

4

3

7

7

8

9

2

1

7

2

4

9

2

5

3

1

6

7

2

9

5

2

8

1

3

6

9

3

8

1

4

5

7

5

6

2

5

4

1

8

6

2

9

1

8

5

6

1

8

5

9

3

7

5

3 8

7

9

4

6

2

6

2

8

3

3

3

5

2

4

4

2

9

6

7

1

1

9

Horizontal 5. Da primeira geração do modernismo português, as iniciais deste eclético multidisciplinar constam na sigla do Centro de Estudos e Documentação que detém a guarda do seu espólio, CEDANSA. 8. Autoridade maior de uma universidade (ao que aparenta); "nomeados pelo Governo na sequência de proposta do Conselho Geral".

Vertical 1.

Da

segunda

geração

do

modernismo

português, as iniciais desta pioneira da pintura e do desenho constam na sigla do Centro de Estudos e Documentação que detém a guarda do seu espólio, CEDANSA. 2. Concelho hóspede do recém-inaugurado polo da Universidade Nova. 3. Honoré de __ , autor do conto dissecado por Roland Barthes em S/Z, Sarrasine. 4. Simultaneamente, a ação, local e grupo integrais para uma publicação como o NOVA em Folha. 6. Autoridade maior de uma universidade (ao que se supõe); Paulo Pereira (ao que se supõe). 7. A Cantina da FCSH na Avenida de Berna está concessionada a esta entidade.

Passa pelo nosso Spotify e ouve a nossa nova playlist, “Joelhos Esfolados”, uma banda sonora complementar à edição.

Verifica as soluções na nossa página do instagram

@novaemfolha_fcsh


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
"Joelhos Esfolados" - Edição Setembro/Outubro de 2026 by AEFCSH NOVA - Issuu