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PARAÍBA, 30/11 a 06 de dezembro de 2012

&Modo de usar

B-3

Modo de ser

>> MARIANA FERNANDES

marifvm@hotmail.com

Modo de ser

Através de suas lentes, ele nos mostra uma nova forma de olhar. Diferentes ângulos e enquadramentos expõem fragmentos da realidade em um tom artístico que sempre aplica em seu trabalho. Com a câmera na mão, Adriano Franco registra imagens e acontecimentos para os seus ensaios fotográficos. Filho do sertão paraibano, Adriano nasceu em Conceição, no conhecido Vale do Piancó. Da sua infância, a falta sentida é a dos registros que não possui. Aliás, este foi um dos motivos que o motivou a trabalhar com fotografia. “Quando eu era criança, não tive uma máquina fotográfica. Não possuo fotografias daquela época. Apenas três álbuns com registros de quando eu era bebê, quando eu tinha 11 anos e um aniversário de 15 anos, que a gente fez as fotos em casa. Fora isso, eu não tenho um registro fotográfico da minha história”, lembra. Além da fotografia, as artes plásticas também têm um lugar especial na vida de Adriano. Tão especial que o fotógrafo tem graduação em Artes Plásticas pela Universidade Federal da Paraíba. Logo após concluir o curso, Adriano começou a ministrar a disciplina de Artes em uma escola, para crianças. “O ensino de arte nas escolas é muito difícil porque para a escola, geralmente, a arte não é muito importante. O professor é apenas um decorador”. Após um período vivenciando esta experiência, ele decidiu se dedicar inteiramente à fotografia. Na verdade, a sua paixão pelas artes impulsionou a sua carreira de fotógrafo. Autodidata, se interessou e começou a aprender a congelar e eternizar imagens através das lentes de uma câmera antes mesmo de cursar a disciplina de fotografia na universidade. Após a disciplina, Adriano percebeu que as duas atividades podiam se interligar. “Eu sou fotógrafo. Gosto da ideia da fotografia ser utilizada como arte, de ser trabalhada para ir para uma galeria. Mas não estou restrito a apenas isto, também faço trabalho em várias áreas”. Ao adquirir sua primeira câmera, não teve mais dúvidas que era esta a sua profissão. Descrevendo o seu trabalho, Adriano fala que sua fotografia tem dois momentos: “o momento do registro de determinada coisa que vejo e que no final faço apenas pequenos ajustes, ou o momento em que manipulo determinada imagem. Quando desconstruo ou reconstruo, transformando-a em uma nova imagem”. Em seu currículo, ele conta com mostras coletivas e individuais. A primeira exposição aconteceu em um bar onde trabalhava como garçom. “O espaço do bar era pequeno. Durante as festas que o bar oferecia, eu fotografava com minha lente grande angular e, na imagem, o lugar parecia bem maior do que realmente era. As fotos ficaram legais e acabei fazendo a minha primeira ex- posição lá”, lembra. Já a exposição mais recente foi a sua individual “Entre mundos” que ficou exposta na Aliança Francesa durante os meses de abril e maio deste ano, na qual usou imagens dele, capturadas pelo scanner. “Fiz retratos meus com o scanner, sobrepondo coisas entre mim e o scanner. Fiz também umas apropriações de alguns negativos antigos. Na verdade foi uma exposição intimista, pois ali estava eu, a minha cidade e a minha visão de mundo”. Atualmente, Adriano Franco trabalha como um dos fotógrafos oficiais da Prefeitura Municipal de João Pessoa. Projetos para trabalhos artísticos, ele tem. Um deles é fotografar sua cidade natal, Conceição do Piancó. “Tenho vontade de voltar lá e fazer um trabalho de memória. O que irei fazer exatamente ainda não sei. Só vendo o ambiente para descobrir como realizar este projeto”. Tranquilidade, perfeição, persistência e dedicação são palavras que descrevem o perfil de Adriano Franco. Ao falar do seu modo de ser, ele se diz perfeccionista e mostra cuidado com o seu trabalho. “Antes de aceitar qualquer trabalho eu penso muito, pois se eu decidir que irei fazer, tem que ser bem feito. Sou autocrítico”.

Ronaldo Monte rona.monte@uol.com.br

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Lembrança

raga uma lembrancinha pra mim, ela pediu. Qualquer coisa simples que faça você lembrar de mim, ela falou, oferecendo a boca para a despedida. Ele entrou no ônibus sabendo o cansaço que o esperava. Ia para longe, alto sertão, mais de doze horas de viagem. Cidade perdida entre serras. Ia ser difícil encontrar alguma coisa para ela. O ônibus rolando pela estrada reta, hipnótica. O sol da tarde batendo de frente, ofuscando através do vidro fumê. Impossível dormir.

O olhar compulsório não registrava nuances. Vastas planícies de vestes rasteiras e o horizonte de serras inalcançáveis. Saiu no começo do dia, chegou no começo da noite. Um resto de luz teimando no poente, um resto de calor que cedia à frieza. A pousada em penumbra. A noite revirada na cama. A manhã que custou a chegar. Com a manhã, os passarinhos. De onde vinham e para onde iriam tão logo o sol esquentasse? E as pessoas, onde estariam com

Adriano Franco Modo de usar

Se uma fotografia equivale a uma imagem parada da realidade, usar quem captura este momento é enxergar certa realidade através de suas lentes e sentir a emoção do momento da captura, sentir a emoção que determinada imagem passa. Para Adriano Franco, a melhor maneira de usá-lo é como fotógrafo, é requisitando seu trabalho com a fotografia e ele garante que dará o melhor de si. “Se alguém me propõe um trabalho e eu vejo que tenho condições de realizá-lo, pode ter certeza que darei o meu melhor”. Passando para o lado pessoal, Adriano diz que também pode ser usado como um bom amigo. “Quando precisar de uma ajuda ou de um ombro para chorar, pode me chamar. Eu acho que posso ser um bom amigo. Sempre que posso, eu ajudo”. Se existe uma fórmula para o melhor modo de usar o mundo, não é certo. Para Adriano, a receita é fazer o que ele gosta, ou seja, consumir menos o planeta para ele durar mais. O artista acredita que esta é uma forma difícil, mas não desiste. “Às vezes você se sente numa luta solitária. O mundo tem muito ainda para oferecer, mas esse todo não é necessário. Acredito que podemos usar um pouco e sermos felizes”.

suas vozes arrastadas e suas poucas respostas? E os bichos pequenos que não se mostravam, chispando entre as folhas ralas dos arbustos? Era muita luz para o pouco a ser iluminado. A palavra agreste armou-se em todo seu sentido. Luz demais sobre quase nada. E este era o desafio. Forçar os olhos a ver o que a luz escondia. Inventar sombras. Criar movimentos. Lembrança. Que lembrança levar para ela. Nada para comprar, nem pedir, nem achar. E estes olhos viciados aos contrastes chapados dos signos urbanos eram cegos para a beleza cantada pelos versos agrestes dos poetas. Lembrança. Era isto que tinha para dar a ela. A lembrança dela o tempo todo enfeitando a paisagem impenetrável. Ela mesma impedindo que a paisagem se abrisse aos seus olhos. Era ela, a lembrança dela que o impedia de encontrar alguma coisa que levas-

se de lembrança. Foi isso que ele deu a ela. A lembrança dela o tempo todo ofuscando a visão, saturando a memória. Foi isto o que tentou dizer ao mostrar as mãos vazias e as retinas fatigadas com a imagem dela.

E

ste conto faz parte do meu livro “O baú do anão” que será lançado na próxima quinta-feira, a partir da 19h30, no Terraço Brasil, na Praia de Cabo Branco, em João Pessoa.


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