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Dez anos depois do abalo da Pax Americana – parte I Márcio Rodrigues1

O fim da Guerra Fria na última década do século XX parecia ser a vitória histórica do modelo capitalista e liberal. Porém, os sonhos vieram abaixo com duas torres que tombavam. Os atentados de 11 de setembro passam a significar um contato doloroso com o mundo. O mal distante, outrora isolado no outro lado do mundo, parecia agora desfilar dentro de casa. Poucos americanos podiam estabelecer uma relação clara entre a política externa do país e os atentados. Para alguns habitantes do Oriente Médio, as dramáticas cenas do atentado do World Trade Center parecem o castigo justo por anos de violência dos EUA. Para a média do cidadão norte-americano restava a inquietante pergunta: por que eles nos odeiam? Eis uma clivagem complexa e que necessita de uma demorada reflexão. 2 Leandro Karnal, historiador Em meados de 2001, 37 países ao redor do mundo estavam em guerra. A China tornou-se nossa inimiga – de novo. A Organização das Nações Unidas (ONU) expulsou-nos de sua Comissão de Direitos Humanos, e a União Européia nos atacou por termos violado unilateralmente o tratado ABM (AntiBallistic Missile) [Mísseis Antibalistícos] ao reintroduzirmos a “Guerra nas Estrelas”. [...] Em suma, de repente tudo começou a feder. Tanto faz se é a economia instável, o esgotamento das reservas de energia, a paz mundial ilusória, nenhuma segurança em relação ao trabalho, nenhum seguro saúde ou a cédula inutilizável que nos deram para escolher um presidente; ficou muito claro para a maioria dos americanos que nada parece funcionar. 3 Michael Moore, cineasta norte-americano As declarações elevadas do presidente Bush sobre o bem e mal e seus apelos ao nobilíssimo objetivo de defender a civilização mascaravam objetivos americanos muito mais vis: garantir a rota do petróleo do mar Cáspio e na América do Sul, aumentar o orçamento militar já gigantesco do país, criar novas bases militares em regiões importantes, restabelecer sua presença militar no Pacífico e no leste da Ásia, manter sua hegemonia no Oriente Médio e reduzir ainda mais a resistência ao livre comércio em mercados externos ainda não explorados. Se o ano fosse 1941, talvez fosse fácil apoiar o presidente quando ele falasse do bem contra o mal. Mas em 2002 é difícil preservar a fé nas afirmações dos Estados Unidos sobre intenções honradas ou em sua insistência de que está “defendendo a civilização”. Mesmo um breve exame dos últimos cinquenta anos de história americana deixa claro para mim que o governo americano usou os eventos que quase me tiraram a irmã para promover sua agenda no estrangeiro, expandir sua influência e impedir críticas a seus planos de lançar ataques retaliativos. Deixou de abordar as questões que, para começar, criaram Osama Bin Laden. E mais do que falhou nesse aspecto: tornou impossível que outros de boa-fé o fizessem sem serem igualados aos terroristas, impondo assim, um silêncio doloroso à maioria global. 4 Peter Scowen, jornalista canadense Apesar da retórica globalista e pacifista do governo Clinton, na década de 1990 os Estados Unidos consolidaram uma infra-estrutura de poder global, com cerca de 750 bases militares, 350 mil soldados e acordos de ajuda militar com cerca de 130 países, o que permitiu aos Estados Unidos, um controle quase monopólico dos oceanos e do espaço aéreo e sideral. Mas não há dúvida de que foi no início do século XXI, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, que este projeto imperial adotou uma postura bélica mais explícita. 5 José Luís Fiori, cientista político

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Professor de História e Geografia no Núcleo de Educação de Jovens e Adultos (NEEJA) de Caxias do Sul.


Datas fechadas. Números redondos. Sim, em 11 de setembro deste ano, serão dez anos desde aquela trágica manhã de 2001, em que o mundo assistiu bestializado o mais espetacular atentado terrorista da história. Estamos, portanto, em um momento oportuno para uma reflexão. Afinal, desde aquele dia, o mundo jamais seria o mesmo. A palavra latina pax, que intitula este texto, significa paz e será utilizada nesse texto. Ela remonta a outros momentos em que, analogamente, houveram poderes políticos organizados que por meio, sobretudo das armas, exerceram um domínio sobre um vasto território contíguo, do ponto de vista do antigo império romano, ou, geograficamente fragmentado se considerarmos a hegemonia marítima britânica, alcançada após a batalha de Waterloo em 1815 e que iria até 1914. Ocorre que a reflexão que proponho fazer aqui é sobre um período mais recente. Parafraseando o historiador Eric J. Hobsbawm, este texto é sobre o “breve” século XXI. Mas para chegar a ele, alguns acontecimentos precisam ser relembrados. Não há como iniciar esta reflexão sem falar da fulminante vitória dos Estados Unidos na primeira Guerra do Golfo realizada contra o Iraque, em 1991. Naquela ocasião, a operação Tempestade no Deserto, mostrou ao mundo uma prévia das guerras do século XXI, devido, ao elevado nível de tecnologia empregado pelo exército norte-americano. A vitória cinematográfica foi brindada ainda, com a implosão e queda da União Soviética que, assim, perdia a Guerra Fria em favor dos EUA. Depois de meio século de disputas George Bush “pai” anunciava a Nova Ordem Mundial. A qual, na interpretação do cientista político norte-americano Francis Fukuyama (1992), poder-se-ia traduzir como algo do tipo: O fim da História. Sim. Isso mesmo. O fim da História. Isto é, não havia mais nenhum desafio a liderança dos EUA, que, ao longo da maior parte do século XX, atuou como defensor do sistema de produção capitalista. Não havendo mais nenhuma ameaça realmente significativa aos EUA, como a que representava a ex-União Soviética, alcançava-se assim, finalmente, a pax. Logo, era o fim da História. E já se anunciava no horizonte mais um “século americano.” Ocorria, simultaneamente, desde os anos 1970, a dita Terceira Revolução Industrial que, desde o último decênio do século XX, fez a humanidade experimentar o ápice de uma Revolução TécnicaCientífica, personificada, por exemplo, na internet e na melhoria das telecomunicações e transportes. A globalização era acelerada por meio destas “revoluções”. Marcada pela crescente integração e interdependência das economias nacionais e no acirramento das disputas por mercados mundiais, que assistiu nos anos 1990 a propagação da doutrina neoliberal por grande parte do globo, salvo alguns quadrantes como a Ásia Oriental (China) e Sudeste Asiático. Guerras civis, nacionalismos, conflitos étnico-tribais, sacudiram, sobretudo, a Europa e a África e o mundo que se supunha tranquilo, se tornou nas palavras do jornalista Ignácio Ramonet (1999), uma “geopolítica do caos”, materializado em um cenário de incertezas, crises e guerras que, mostrariam o quão errado estava Fukuyama, e talvez prenunciasse o que ainda estava por vir.


No crepúsculo do século XX a pax norte-americana foi alcançada pelo domínio da economia mundial, pela liderança política das organizações supranacionais tais como ONU, OTAN, FMI e OMC (ex-GATT) ou mesmo, amparada no próprio poderio bélico sem rival ou precedentes em toda a história. Contudo este estado de coisas estava para sofrer um abalo. Este, ocorreu na manhã de 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque, exatamente às 07h59min um avião suicida atingia a torre norte do World Trade Center. Às 08h12min outro avião atingia a torre sul. Ambos, sequestrados e pilotados por terroristas árabes, foram jogados contra as torres gêmeas ceifando covardemente ao menos 3 mil vidas inocentes. Segundo fontes militares, um terceiro avião atingiu o Pentágono às 09h37min, apesar desse atentado ser motivo de muita polêmica. O quarto avião caiu às 10h06min na Pensilvânia. Presume-se que a luta entre passageiros e sequestradores tenha provocado a queda do avião. Outros sugerem que ele foi abatido. A fim de recuperar o contexto histórico deste atentado reproduzo abaixo a fala do professor de História Contemporânea e Relações Internacionais da UFRGS, Paulo Vizentini, que, embora em extenso trecho, nos apresenta um quadro amplo e explicativo daquele momento histórico.

No final de 2000 o republicano George W. Bush foi eleito presidente dos Estados Unidos, num pleito marcado por irregularidades. Apesar do democrata Gore haver vencido nos votos populares por uma diferença de meio milhão, o colégio eleitoral teve maioria republicana de um voto e elegeu Bush, evidenciando as distorções da democracia americana. O século XXI foi proclamado “o século americano” por algumas personalidades, mas o novo governo adotou atitudes unilaterais, como o abandono do Protocolo de Kyoto sobre aquecimento terrestre, retirou-se da Conferência da ONU sobre o racismo (juntamente com Israel e Índia) e rejeitou submeter-se ao Tribunal Penal Internacional, que a administração Clinton ajudara a criar. Bush passou a governar ignorando as organizações internacionais, particularmente a ONU, dentro da visão de que “os Estados Unidos venceram a Guerra Fria e necessitam colher os frutos”. A idéia de apoiar a liderança nas organizações multilaterais, tal como vinham fazendo os democratas, foi completamente abandonada, dando lugar a uma visão unilateral que contrariou seus próprios aliados da Otan. Um presidente despreparado, cercado de assessores de linha-dura e ligados a obscuros lobbies, começou a reabrir focos de tensão, enquanto abandonava o papel de mediador (tarefa que cabe ao hegêmona) em conflitos como o do Oriente Médio, que mergulhou numa espiral incontida de violência. Neste contexto, na manhã de 11 setembro de 2001 aviões de linhas aéreas domésticas americanas foram jogados contra as torres do World Trade Center em Nova Iorque e contra o Pentágono em Washington, enquanto um quarto, que provavelmente visava a Casa Branca, era abatido. O mais fantástico atentado terrorista da história atingia pela primeira vez o território metropolitano americano, golpeando os maiores símbolos do poder financeiro e militar dos Estados Unidos (e do Ocidente), no momento em que o país procurava construir um Escudo Antimísseis (que de nada adiantaria contra esse tipo de atentado). (VIZENTINI : 2008, p. 242)


Após aquela manhã o clima de pânico e histeria tomou conta dos EUA e do mundo. Até aquele momento, muitas pessoas sequer haviam ouvido falar no saudita Osama Bin Laden e na sua liderança na rede terrorista Al Qaeda. As apocalípticas cenas das torres gêmeas vindo abaixo no coração de Manhattan eram veiculadas o tempo todo na mídia junto à foto de Bin Laden. Um homem de barba grande, turbante branco e olhar sereno, que por vezes aparecia – em uma das raras filmagens feitas –, empunhando um fuzil AK-47, ajoelhado, mirando um alvo em um cenário desértico, cercado por seus homens. A resposta norte-americana foi imediata. Apoiado em um clima de comoção nacional o presidente norte-americano George W. Bush deu vida a famosa Doutrina Bush que mergulhou o mundo numa guerra global contra o terrorismo. A superpotência, tendendo ao unilateralismo e amparado em seu poderio militar deu início aos ataques de retaliação em 8 de outubro de 2001 contra o Afeganistão. País que dava guarida aos terroristas e era governada desde 1996 por um grupo teocrático, autoritário, radical e extremista chamado Talibã. Esta guerra, logo foi sucedida por outra: A 2ª Guerra do Golfo, iniciada em 20 de março de 2003 que tinha a alegação de evitar que o então ditador iraquiano Saddan Hussein fizesse uso das supostas armas de destruição em massa que estariam em seu poder. Ambas as intervenções militares estão em curso até o presente. Recentemente os EUA tiveram uma vitória. Este ano, na madrugada de 2 de maio, dois helicópteros norte-americanos invadiram o espaço aéreo do Paquistão levando consigo uma equipe de soldados de elite da marinha para por termo a vida do terrorista mais procurado do mundo. A ação foi um sucesso. Seu corpo agora, segundo a marinha norte-americana, está no fundo do mar da Arábia, pondo fim a uma caçada de quase dez anos e, de certo modo, trazendo um mórbido, mas não menos justo alento aos familiares que perderam seus entes naquela manhã de 11 de setembro de 2001.

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KARNAL. Leandro. (et al.). História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo : Contexto, 2007. Página 15. MOORE, Michael. Stupid White Men: uma nação de idiotas. Trad. Laura Knapp (et al.). São Paulo : Francis, 2003. Páginas 13 e 14. 3 SCOWEN, Peter. O livro negro dos Estados Unidos. Trad. Maria de Beatriz de Medina. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. Páginas 225 e 226. 4 FIORI, José Luís. (et al.). O mito do colapso do poder americano. Rio de Janeiro : Record, 2008. Páginas 38 e 39. 2


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FIORI, José Luís; MEDEIROS, Carlos de Aguiar, SERRANO, Franklin. O Mito do Colapso do Poder Americano. Rio de Janeiro : Record, 2008. FUKUYAMA, Francis. O Fim da História e o Último Homem. Trad. Aulyde Soares Rodrigues. Rio de Janeiro : Rocco, 1992. MOORE, Michael. Stupid White Men: uma nação de idiotas. Trad. Laura Knapp (et al.). São Paulo : Francis, 2003. KARNAL. Leandro. (et al.). História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo : Contexto, 2007. RAMONET, Ignacio. Geopolítica do Caos. Trad. Guilherme João de Freitas Teixeira. 3ª ed. Petrópolis, RJ : Vozes, 1999. SCOWEN, Peter. O livro negro dos Estados Unidos. Trad. Maria de Beatriz de Medina. 2ª ed. Rio de Janeiro : Record, 2003. VIZENTINI, Paulo G. Fagundes; PEREIRA, Analúcia Danilevicz. História do mundo contemporâneo: da Pax Britânica do século XVIII ao Choque das Civilizações do século XXI. Petrópolis, RJ : Vozes, 2008.


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