

Transtornos alimentares em psicanálise
Organizadora
Patricia Gipsztejn Jacobsohn
Transtornos alimentares em psicanálise
© 2026 Patricia Gipsztejn Jacobsohn (organizadora)
Editora Edgard Blücher Ltda.
Publisher Edgard Blücher
Editor Eduardo Blücher
Coordenação editorial Rafael Fulanetti
Coordenação de produção Ana Cristina Garcia
Preparação de texto Ligia Alves
Diagramação Thaís Pereira
Revisão de texto Equipe editorial
Capa Juliana Midori Horie
Imagem da capa iStockphoto
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Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.
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Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570
Transtornos alimentares em psicanálise / organizadora Patricia Gipsztejn Jacobsohn. –São Paulo : Blucher, 2026.
392 p.
Bibliografia
ISBN 978-85-212-3114-1 (Impresso)
ISBN 978-85-212-3112-7 (Eletrônico – Epub)
ISBN 978-85-212-3110-3 (Eletrônico – PDF)
1. Psicanálise. 2. Distúrbios alimentares.
3. Transtornos alimentares. I. Título. II. Jacobsohn, Patricia Gipsztejn.
CDU 159.964.2
Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise
CDU 159.964.2
Conteúdo
Apresentação
Patricia Gipsztejn Jacobsohn
9
1. “Além de gorda, é negra”: psicanálise e racismo na clínica das problemáticas alimentares, uma introdução 13
Aline Eugênia Camargo
2. Sendo Tina: sobre adolescência, transtorno alimentar e a busca de si mesma
Ana Carolina Saraiva
29
3. Quando o sintoma encontra a escuta: clínica psicanalítica e saúde pública no tratamento dos transtornos alimentares da infância e adolescência 41
Ana Lucia Sampaio Szachnowicz
4. A heterogeneidade das correntes psíquicas nos transtornos alimentares e as diversidades nos manejos clínicos 55
Ana Tereza de Almeida Alonso
5. Quando a comida se faz brinquedo: estratégias possíveis de intervenção em problemáticas alimentares na primeira infância 69
Arielle Natalicio Garrido
Mariana David
6. Corpos algorítmicos: a lógica das redes sociais e as dinâmicas psíquicas na contemporaneidade 83
Bruna Kreutz Ames
Clarissa Maria Dubeux Lopes Barros
Gabrielle Ossuna Venturini
Maurício Lopes da Silva
7. Bulimia: das tramas da compulsão à urgência de expulsão do objeto tóxico ou um sofrimento em dois atos 95
Camila Junqueira
8. Nutrientes analíticos num caso de anorexia permeado por angústias arcaicas de intrusão e defesas de não entrada 109
Carla Puglisi Cardoso
9. Cuidar de quem cuida: a necessidade de um olhar cuidadoso sobre a família 127
Christiane Adami-Lauand
Renata Arnoni
10. O ódio na clínica da obesidade: características e destinos subjetivos 139
Andrea Maria Cembranelli
Natália Vignoli
Daniel Hamer Roizman
11. O corpo na psicose a partir de um caso de anorexia nervosa 153
Fabiana Pereira
Elisa Gan
12. Mais que uma “compulsão alimentar”: um caso de bulimia e suas repercussões na clínica 167
Fernanda Kalil
13. A questão da imagem nas anorexias 183
Fernanda Freire de Carvalho Pimentel
14. Sobre a subjetividade “abandônica” e sua relação com o tratamento nos transtornos alimentares 199
Flávia Machado Seidinger-Leibovitz
15. A prevenção dos transtornos alimentares à luz da psicanálise 215
Gabriela Malzyner
16. Harmonizar ou excluir as diferenças: a escuta em relação aos procedimentos estéticos na clínica psicanalítica 227
Gabriela Vargas de Almeida Ribeiro
17. Corpo em travessia: transtornos alimentares e jovens transgênero 241
Heloisa Spadoni
18. Transtornos alimentares e religião: a anorexia sob o olhar psicanalítico na comunidade judaica ultraortodoxa 253
Ilana Tawil Schwartzman
19. No campo da compulsão alimentar e do comer emocional: teorias e técnicas psicanalíticas 267
Luciana Estefno Saddi Mennucci
20. Adolescências e transtornos alimentares: quando o corpo fala 281
Maria Castanheira
21. Entre vulnerabilidade e ternura: reflexões sobre o manejo transferencial na clínica da anorexia e da bulimia
Maria Helena Fernandes
22. O corpo: lugar das incertezas e do padecimento
Marina Ramalho Miranda
23. A gordofobia é uma questão psicanalítica
Monica Vianna
24. A trajetória da Ceppan e a pesquisa em psicanálise: rumos e desafios
Patricia Gipsztejn Jacobsohn
25. De olho no corpo e de boca fechada: o que pensar sobre o vínculo mãe e filha?
Silvia Brasiliano
Maria Lucia de Souza Campos Paiva
26. O corpo em cena: uma reflexão sobre transitoriedade, vida psíquica e o encontro analítico
Talita Azambuja
Thais Fonseca de Andrade
295
309
323
341
357
371
Sobre as autoras e os autores 379
1. “Além de gorda, é negra”: psicanálise e racismo na clínica das problemáticas alimentares, uma introdução1
Aline Eugênia Camargo
Corpo gordo, negro e feminino. Que veredas se percorrem carregando esses ingredientes na bagagem? Podemos pensar na metáfora de um caminho por terrenos áridos com alguns oásis: uns, fantasiados de esperança e desejo de um porvir de mudança em relação a uma equidade que respeite as diferenças; outros, oásis reais, que falam dos caminhos já percorridos, das sementes já plantadas ao longo da história. É preciso conhecê-los para colher os frutos e replantá-los.
Para introduzir o tema da obesidade-gordura ou robustez dos corpos, com recorte para o corpo de mulheres negras, será preciso passar por questões com as quais a psicanálise vem se defrontando. É preciso relembrar temas como o da fome, dos sobrediagnósticos de obesidade, das previsões epidemiológicas, entre outros, bem como de algumas teorias que refletem sobre o contexto histórico-cultural para que nos orientem nesse denso caminho.
Quanto às nomeações, utilizarei as expressões: corpo gordo, quando o sujeito se inquieta com o peso e formato de seu corpo; e
1 Agradeço a generosidade das colegas que compartilharam suas experiências clínicas, adensando este trabalho: Helen Spanopoulos, Maria José Morais e Beatriz Machado.
corpo robusto, quando ele é sentido como egossintônico, ou seja, vivido de modo integrado, vantajoso e belo, sem alteração da autoestima. O termo obesidade utilizarei exclusivamente ao me referir a textos que utilizam esse termo.
Alguns ingredientes importantes nessa reflexão são os hábitos, as diversidades culturais que determinam múltiplas compreensões sobre a alimentação e a questão do que é normal ou patológico em cada contexto. Outros pontos são: o valor dado à alimentação na mídia, bem como os padrões de beleza dos corpos por ela evocados – a forma, o tamanho e as marcas de identidade desses corpos, entre elas, a identidade racial –, tema nem sempre contemplado nas pesquisas sobre alimentação e obesidade.
Em muitos espaços de consultórios privados de psicanálise, ainda se encontra pouca presença significativa de pessoas negras e, portanto, de mulheres negras gordas ou robustas, diferentemente dos atendimentos psicológicos na saúde pública, na qual predomina a população de negros e pardos. Essa realidade vem se modificando graças à atuação cada vez mais frequente de analistas que pesquisam os temas da psicanálise, racismo e gordofobia, com uma profícua produção sobe o tema.
Uma das respostas possíveis para o fato de encontrarmos poucos negros nos consultórios privados pode ser a constatação de que a maior parcela da população negra não tem condições econômicas para esse tipo de atendimento devido à situação que o sujeito negro enfrenta em nossa sociedade. Essa questão, mesmo sendo real, parece incompleta. Alguns analisandos procuram análise por meio de convênio de saúde, muitos analistas atendem pacientes com flexibilidade de valores no sentido de atender uma gama mais variada de classes sociais em seus consultórios. Consideramos que muitas vezes as especificidades da prática clínica junto a essas pessoas não tenham sido, até aqui, contempladas nesse setting, especialmente no que toca à dupla analista branca/ analisante negro. Como analista branca, julgo que essa discussão não pode ficar somente ao cargo dos analistas negros. Em uma sociedade
2. Sendo Tina: sobre adolescência, transtorno alimentar e a busca de si mesma
Ana Carolina Saraiva
Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.
(“Verbo ser”, Carlos Drummond de Andrade)
Tenho como proposta para o texto das próximas páginas apresentar material clínico de uma adolescente com algumas considerações teóricas sobre a adolescência sob o ponto de vista psicanalítico. Como a literatura aponta e a prática clínica corrobora, a adolescência é um período favorável para o desenvolvimento de um transtorno alimentar.
Portanto, compreender os aspectos psicodinâmicos dessa fase mostra-se muito importante para o entendimento dos transtornos alimentares e o manejo do tratamento.
O atendimento foi realizado durante o período em que Tina (nome fictício) esteve em internação hospitalar em um centro especializado no tratamento de transtornos alimentares. As sessões de psicoterapia aconteciam duas vezes na semana. Além de atendimentos psicológicos, recebia atendimento com psiquiatra e nutricionista. Tina tem 14 anos e chegou muito adoecida, com sintomas graves de anorexia purgativa1 e transtorno obsessivo-compulsivo.
Tina é uma garota da roça. Mora com os pais em um sítio, e vivem de subsistência. Filha mais nova de uma prole numerosa, composta de homens e mulheres, é a única que ainda está sob os cuidados dos pais. Nessa família, os filhos saíram de casa aos 18 anos e as filhas aos 14 anos.
Havia um destino preestabelecido para as mulheres dessa família: ter baixo grau de instrução, casar-se, ter filhos e viver de forma submissa e dependente do marido. Tina testemunhou as irmãs seguirem por esse caminho ao completarem 14 anos, assim como as mulheres de antigamente, que muito novas eram dirigidas ao casamento e à maternidade, sem ao menos poderem escolher seus parceiros. A sexualidade era vivida após o casamento. Além disso, Tina observava que o trabalho e a vida profissional de suas irmãs eram direcionados a auxiliar o marido na atividade que ele desenvolvia, tendo um papel de coadjuvante.
Relata que tinha regalias em relação aos irmãos mais velhos, que apanhavam e trabalhavam desde mais novos; com ela já não aconteceu o mesmo. Pôde se beneficiar de melhores condições financeiras dos pais. Ela foi a única que estudou por mais tempo, e conseguiu
1 Anorexia purgativa é o subtipo da anorexia no qual o indivíduo, além de apresentar restrição alimentar e perda significativa de peso, experimenta episódios de compulsão alimentar seguidos de métodos purgativos (vômitos autoinduzidos ou uso indevido de laxantes, diuréticos ou enemas, por exemplo).
3. Quando o sintoma encontra a escuta: clínica psicanalítica e saúde pública no tratamento dos transtornos
alimentares da infância e adolescência
Ana Lucia Sampaio Szachnowicz
Introdução
Ao adentrar o cenário da saúde pública em um hospital-escola de uma das mais renomadas universidades da América Latina, a psicanálise carrega consigo um sopro de inquietação e esperança. Não se trata de um método que se encaixa em algoritmos clínicos ou tabelas predefinidas, mas de um convite ao mergulho na subjetividade, nos silêncios, nas palavras não ditas e nas dores que se inscrevem no corpo. No cuidado de crianças e adolescentes com transtornos alimentares, a psicanálise não busca apenas nomear ou classificar sintomas, como frequentemente se espera da clínica médica ou psiquiátrica, que tende a organizar o sofrimento segundo categorias diagnósticas a partir de sinais e sintomas observáveis. Em contraste, a escuta psicanalítica – sustentada pela posição do analista – se propõe a acompanhar o sujeito em sua singularidade, acolhendo aquilo que escapa à lógica classificatória. Trata-se de construir um espaço onde o sofrimento possa emergir de forma própria, encontrar ressonância e, aos poucos, ser simbolizado e elaborado, sem a pretensão de reduzir o sujeito ao diagnóstico que carrega.
O tratamento da anorexia nervosa e da bulimia nervosa na infância e adolescência, sobretudo no contexto da instituição pública, impõe desafios clínicos significativos. Essas patologias surgem justamente em fases marcadas por profundas transformações psíquicas, corporais e vinculares, e exigem do analista não apenas rigor técnico, mas uma escuta comprometida com o sofrimento que se manifesta de forma indireta – por meio dos gestos, do corpo, dos silêncios e das repetições que escapam ao discurso formal. Atuar nesse cenário requer reconhecer a complexidade que envolve o sujeito e sua família, convocando a equipe a sustentar um cuidado compartilhado, atento às nuances de cada trajetória.
A complexidade que envolve o tratamento dos transtornos alimentares na infância e adolescência em instituições públicas não reside apenas na gravidade clínica dos quadros, mas também no modo como esses sujeitos e suas famílias são inseridos no fluxo institucional. Em meio a corredores hospitalares, onde a urgência frequentemente se sobrepõe à escuta, a psicanálise se depara com o desafio de sustentar um espaço que acolha o sujeito em sua singularidade, sem reduzi-lo ao que nele se mostra como sintoma. Nas instituições, atravessadas por exigências de produtividade, protocolos e normatizações, criar esse espaço implica tensionar o imediato e dar lugar àquilo que insiste – o sofrimento, os vínculos, os impasses –, ainda que não se apresente de forma clara ou adaptada ao enquadre tradicional do cuidado.
Nesse contexto, impõe-se uma reflexão crítica sobre os protocolos padronizados que, embora tenham sua função na organização institucional, podem reduzir a complexidade do tratamento clínico a um percurso previsível e genérico. Quando o cuidado se orienta exclusivamente por esses referenciais, corre-se o risco de que aspectos essenciais da experiência do paciente – e de sua família – sejam apagados ou ignorados. É nesse ponto que a psicanálise propõe um deslocamento: não se trata apenas de escutar o que escapa às categorias previamente estabelecidas, mas de sustentar a presença diante do que ainda não
4. A heterogeneidade das correntes psíquicas nos transtornos alimentares e as
diversidades nos manejos clínicos
Ana Tereza de Almeida Alonso
A clínica dos transtornos alimentares traz a expressão no corpo do funcionamento psíquico daquele sujeito que sofre.
Essa gama de problemáticas costuma ter grande potencial desorganizador, tanto do mundo interno quanto da vida operacional daquela pessoa. Como profissionais, quando ingressamos nessa atuação clínica é necessário um manejo junto ao sujeito bastante sensível e específico.
O sofrimento daquele que nos procura só poderá se mitigado se nossa ação na clínica tiver a capacidade de discriminar e reconhecer as correntes psíquicas que estão sustentando aquele transtorno alimentar, bem como os comportamentos em sua vida. Essas correntes compostas por materialidades distintas se operam no sujeito por predominância de umas sobre as outras.
Essa clínica está aquém dos aspectos neuróticos do funcionamento psíquico. Tampouco podemos dizer que o funcionamento chamado neurótico-normal está ausente, podendo operar de diferentes formas na vida daquela pessoa. Na heterogeneidade do psiquismo o funcionamento neurótico-normal coexiste em maior ou menor predominância com descargas pulsionais diretas dentro do funcionamento daquele sujeito.
Freud chegou a fazer apontamentos sobre as origens do aparelho psíquico, mas não concentrou sua pesquisa nesses aspectos. Postulou a formação do aparelho psíquico como um momento mítico, um pressuposto teórico necessário em sua teoria das neuroses. A ampliação do entendimento psicanalítico dos momentos originários, arcaicos, do aparelho psíquico, suas implicações no sujeito e problemáticas do que está aquém do funcionamento neurótico será pensada aqui por meio dos autores Silvia Bleichmar e Jean Laplanche.
Eles partiram do modelo de funcionamento psíquico apresentado por Freud na carta 52 e outras indicações ao longo da obra para ampliar a teoria psicanalítica nos tempos de constituição do psiquismo.
Definir, conhecer e saber discriminar a etiologia, as implicações na vida e no sofrimento daquele sujeito que um sintoma neurótico impõe é imprescindível para discriminá-lo de uma manifestação da ação pulsional proveniente do que não chega a ganhar circulação intrapsíquica. O aprofundamento e a lucidez nessa clínica é, em si, atitude ética primordial por parte do analista, dos profissionais envolvidos e dos parâmetros institucionais que vão acolher esse sujeito. Sem essa discriminação há um grande risco de comprometer a transformação naquela pessoa, bem como ocasionar o fracasso do tratamento.
E parte dos nossos fracassos terapêuticos são derivados à ignorância inicial com a qual, em múltiplos casos, embarcamos em processos a respeito dos quais desconhecemos aspectos tópicos, dinâmicos e econômicos que dão origem à fenomenologia sintomal. (Bleichmar, 1994, p. 193)
Quando nos referimos ao funcionamento neurótico, partimos de um aparelho psíquico já constituído, em funcionamento, capaz de utilizar alguns recursos para defender-se. Esse funcionamento opera entre três diferentes sistemas/instâncias, o consciente, pré-consciente e inconsciente, posteriormente reformulados teoricamente e nomeados
5. Quando a comida se faz brinquedo: estratégias possíveis de intervenção
em problemáticas alimentares na primeira infância
Arielle Natalicio Garrido
Mariana David
Neste capítulo, propomos uma reflexão sobre os efeitos das transformações culturais contemporâneas nas práticas alimentares e suas reverberações subjetivas, especialmente no universo infantil. A partir de uma escuta psicanalítica, articulamos questões que envolvem o esvaziamento dos espaços domésticos coletivos, a aceleração imposta pelas tecnologias e a crescente moralização em torno da alimentação. Tais elementos são tomados como pano de fundo para apresentar o projeto “Cozinha como Experiência”,1 dispositivo clínico-terapêutico que utiliza a culinária como ferramenta simbólica e relacional, promovendo espaços de criação, vínculo e cuidado. Por meio de oficinas culinárias com crianças e famílias, abordamos a alimentação para além
1 O projeto Cozinha como Experiência nasceu da vivência pessoal de três psicanalistas – Mariana David e Kika Melhem em 2010 e Arielle Natalicio, que se juntou à dupla em 2015 – com a cozinha e a arte de cozinhar. Ele é resultado da união entre nossos conhecimentos em psicanálise e nosso interesse pelo universo culinário. Hoje somos um laboratório que desenvolve, articula e cocria experiências, oficinas, encontros e outras iniciativas de imersão que envolvam psicanálise, alimentação e culinária. Desenvolvemos oficinas e experiências diversas nas quais estar ao redor da mesa, cozinhar e comer junto traduz o olhar atencioso para as relações humanas em sua dimensão subjetiva.
de sua função nutricional, considerando-a enquanto prática cultural, afetiva e subjetivante. O capítulo se organiza, portanto, entre o olhar teórico e a vivência clínica, costurando conceitos psicanalíticos e relatos de experiência, na tentativa de reinserir a cozinha como território de escuta, ludicidade e elaboração psíquica.
O tempo
Ao longo dos anos, assistimos a uma mudança significativa das dinâmicas familiares em relação ao uso dos espaços domésticos. Os ambientes coletivos da casa, muito embora supervalorizados pelo mercado imobiliário, perderam preferência em detrimento dos individuais, por exemplo, quarto e escritório. O advento da tecnologia imprimiu mudanças nos costumes, nas relações e consequentemente nas subjetividades. Em tempos nos quais a rapidez é tomada como valor primordial, o tempo do processo se perde entre nuvens de difícil conexão. A velocidade com que artigos, vídeos, fotos e opiniões correm nas timelines não dá espaço de “respiro”, nem de processamento para mínima elaboração de conteúdos, e o que vemos, quase sempre, é uma grande descarga verborrágica e imagética. Ainda que novas formas de conexão social sejam possíveis com o advento da internet e das redes sociais, e muito se tenha ganhado com isso sem sombra de dúvida, o homem contemporâneo vive uma espécie de anestesia experiencial, na qual vivências não se processam em experiências e ficam retidas em cenas momentâneas. Se a tecnologia apresenta à humanidade novas formas de subjetivação, os sintomas antigos basculam para uma reconfiguração sintonizada ao ideário simbólico vigente.2
Nosso interesse está voltado a compreender como as transformações culturais contemporâneas interferem na construção de hábitos
2 Trecho do texto “Cozinha como Experiência: desejo de oficinar”, de Mariana David, fruto da palestra Psicanálise Extramuros: O analista de tênis, ministrada no Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP) em 2023.
6. Corpos algorítmicos: a
lógica
das redes sociais e as dinâmicas psíquicas na contemporaneidade
Bruna Kreutz Ames
Clarissa Maria Dubeux Lopes Barros
Gabrielle Ossuna Venturini
Maurício Lopes da Silva
Este capítulo dedica-se a tecer considerações sobre a dinâmica imagética das redes sociais entrelaçadas às dinâmicas psíquicas do sujeito na contemporaneidade, tomando a temática dos transtornos alimentares enquanto norte de indagação. Para tanto, partiremos das contribuições de Freud e Lacan, em articulação com autores de nosso tempo, na tentativa de fazer furo aos discursos hegemônicos que corporificam a fantasia neurótica de ideais estéticos inalcançáveis que abrem espaço a adoecimentos relacionados à imagem corporal e à alimentação. Com isto, visamos colaborar não só para a prática clínica de psicanalistas, psicólogos, nutricionistas e médicos, mas também viabilizar abertura de repertório para a escuta do laço social na atualidade.
Assim como nos consultórios, nas clínicas estéticas e cirúrgicas, o corpo apresenta-se em alta enquanto palco de mal-estar, podendo ser observado por meio de sintomas típicos da atualidade. Sustentados pela passagem da modernidade para a pós-modernidade, identificamos novos arranjos sintomáticos que ressaltam o corpo enquanto lócus de mal-estar; dentre eles as adicções (Birman, 2012/2022), transtornos alimentares, suicídio, depressão, burnout, entre outros, têm se presentificado com maior incidência e intensidade. Esses arranjos podem estar
associados à valorização estética corporal enquanto ideal de imagem a ser atingido, tendo assento no conceito de imagem cunhado por Debord (1997) na sociedade do espetáculo e seu incentivo do imperativo: goze! O corpo, enquanto produto que envolve o olhar do outro, torna-se palco de gozo.
No rastro da moda, a diversidade de procedimentos estéticos no Brasil tem alcançado patamares altos, haja vista a proporção do aumento da procura por cirurgias eletivas reparadoras. Em 2024, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou um aumento de 10,8% no número de cirurgias eletivas realizadas em relação a 2023. Os procedimentos cirúrgicos mais buscados no Brasil foram: lipoaspiração, aumento de seios, cirurgia de pálpebras, aumento de nádegas e abdominoplastia (Ministério da Saúde, 2025).
É nesse cenário que as tecnologias se colocam como propulsoras de uma emblemática relação do sujeito com sua imagem e seu corpo na atualidade, visto que elas se apresentam enquanto uma extensão corporal. Os smartphones e suas mídias digitais apresentam-se como fácil instrumento de captura imaginária, tensionando e aprisionando os sujeitos em modelos abstratos de ideais de vida, estética, trabalho e lazer. Essa contingência demarca o ter enquanto determinante do ser. Como nos lembra Eidelsztein (2018), é o ideal do eu que conduz o sujeito no imaginário, permitindo identificar-se, ou seja, obter identidade, uma identidade com forma, um registro, daquilo que dá corpo e contorno ao sujeito, pois o que o sujeito vê ante o espelho é uma imagem “fragmentada, inconsistente, descompletada” (Lacan, 19531954/2009, p. 186).
Por meio de um aparelho, sem fios, compatível com o tamanho do bolso, é possível, enquanto gadget, transpor-se às condições de nossa contingência presencial e viajar numa janela infinita de paisagens, imagens sem textos, onde o sujeito se depara com elementos envolventes que demarcam sua condição faltosa.
7. Bulimia: das tramas da compulsão à urgência de expulsão do objeto tóxico ou um sofrimento em dois atos1
Camila Junqueira
A bulimia é descrita pela psiquiatria, de modo fenomenológico, como um quadro clínico caracterizado pela presença de episódios de compulsão alimentar, seguidos de comportamentos compensatórios, tanto vômitos como uso de laxantes, medicamentos, jejum ou exercício físico. Contudo, interessam à psicanálise as nuances desses comportamentos: se o quadro de bulimia é primário, ou se deriva da falência do sintoma anoréxico, se a ênfase é na compulsão, sendo a purgação uma tentativa de anulação do ato compulsivo, ou se a ênfase é a purgação, e a devoração é planejada de forma a permiti-la, em especial através do vômito; tais nuances podem revelar diferentes tipos de relação com o objeto, imaginariamente incorporado, e expulso pelos diferentes métodos de purgação. Mas, sobretudo, interessa à psicanálise criar hipóteses sobre os determinantes inconscientes envolvidos nessa formação sintomatológica que se organiza em dois atos: a devoração desesperada e a urgência da expulsão de um objeto percebido como demasiadamente insuportável, excitante ou tóxico.
1 Agradeço o apoio dos membros do Projeto de Pesquisa e Clínica Psicanalítica das Problemáticas Alimentares do Departamento de Psicanálise e da Clínica Psicológica do Instituto Sedes, em especial de Renata Gaspar e Waleska Ribeiro.
Primeiramente, é necessário lembrar que os transtornos alimentares ocupam, na psicanálise, um lugar transnosográfico (Jeammet, 1999; 2003; Junqueira, 2023), ou seja, trata-se de organizações sintomáticas que podem ser relacionadas às diferentes classificações nosológicas: neurose, perversão, psicose e sofrimentos-limite ou narcísico-identitários. Desse modo, o fator de diferenciação determinante entre os diversos casos de bulimia será a angústia que sustenta o comportamento alimentar: angústia de castração para a neurose, recusa da angústia de castração para perversão, angústia de fragmentação para a psicose e angústia de intrusão e abandono para os sofrimentos-limite ou narcísico-identitários. No entanto, dentro de uma visão não estruturalista podemos conceber um mesmo comportamento, a bulimia, por exemplo, como resposta a mais de um tipo de angústia, formando um complexo arranjo sintomático, mais do que um sintoma propriamente dito. E mais uma vez as nuances do comportamento bulímico podem ser fundamentais para a construção da compreensão das angústias envolvidas em cada caso. No caso clínico que será apresentado neste texto observaremos a bulimia como um comportamento que se instala no quiasma entre a impossibilidade da formação do eu e da identidade (passagem para o narcisismo secundário) e a impossibilidade de entrada na sexualidade adulta (passagem edípica). Ambas as impossibilidades marcadas pela recusa de parte importante da história da linhagem feminina da família que é transmitida de modo transgeracional, sendo então reencenada pela paciente por meio da bulimia, e reencenada pela família por meio do modo “bulímico” de lidar com paciente, ora invadindo, ora abandonando.
De forma geral, as bulimias veras, que me interessam particularmente por seus desafios à metapsicologia e à clínica psicanalítica clássica, caracterizam-se por se apresentarem como um ato-sintoma (McDougall, 1983; 2003), no qual o sujeito busca, por meio das sensações e manifestações corporais, o apaziguamento de uma dor que não se faz dor psíquica por ausência de recursos elaborativos. Segundo
8. Nutrientes analíticos num caso de anorexia permeado por angústias arcaicas de intrusão e defesas de não entrada
Carla Puglisi Cardoso
Meu corpo não é meu corpo, É ilusão de outro ser.
Sabe a arte de esconder-me
E é de tal modo sagaz
Que a mim de mim ele oculta… Meu corpo apaga a lembrança
Que eu tinha de minha mente. Inocula-me seu patos, Me ataca, fere e condena Por crimes não cometidos.
(Carlos Drummond de Andrade)
Este capítulo versa sobre a construção de um caso clínico de anorexia, permeado por angústias arcaicas. O exercício de construção deste caso se propõe a criar uma experiência de leitura que o apresente com elementos essenciais sobre a “experiência analítica” que a analista teve com seu paciente, experiência essa que não nos chega com palavras prontas. A construção do caso foi um continente para a analista, permitindo que suas ideias iniciais pudessem ser pensadas, ganhando corpo com a escrita. Esta confere um espaço para a analista “mastigar” sua experiência
clínica, a fim de perceber quais elementos surgiam como resposta à elaboração e integração do arcaico: “Quando lemos a descrição de uma experiência, não é a experiência em si, mas a criação do escritor de uma nova experiência (literária) enquanto (aparentemente) escreve a experiência que ele teve com o analisando” (Odgen, 2010, p. 140).
Algumas inquietações iniciais da analista mobilizaram o interesse pela temática deste capítulo: Quais são os nutrientes analíticos essenciais para casos de anorexia permeados por angústias e defesas arcaicas? Como alcançar o mundo arcaico da analisanda? A escrita vem como resposta a essas indagações, e, transformada em ficção (uma versão imaginativa de uma experiência em palavras), tem muito a ver com a própria possibilidade de simbolização e ampliação de pensar, que se deu a partir do encontro com a paciente.
Para essa construção de caso, foi realizada uma revisão bibliográfica sobre os temas da voracidade e as perturbações da oralidade, na obra de Klein, Bion e seus comentadores. A partir da rêverie analítica, foi possível estabelecer a relação com um objeto interno não intrusivo, para fazer frente às defesas de “não entrada” que dificultam a simbolização. O resultado foi uma ampliação na capacidade de pensar da analisanda, como procurarei aprofundar ao longo deste capítulo.
Caso
Clara: das angústias de intrusão e defesas arcaicas de não entrada que permeiam a anorexia para a construção de um espaço para pensar
Colhendo fragmentos: as primeiras impressões
Clara tinha 15 anos quando chegou em meu consultório por um encaminhamento psiquiátrico, extremamente emagrecida, amenorreica e apresentava um quadro grave de anorexia.
9. Cuidar de quem cuida: a necessidade de um olhar cuidadoso sobre a família
Christiane Adami-Lauand
Renata Arnoni
“Às vezes, tudo o que a gente precisa é ter com quem falar.”
(Ana, mãe de Lara)
Esta é a fala da Ana e também da Rosa, da Maria, da Isabel e de tantas mães que cuidam de suas filhas adoecidas pelo ato de não comer, pelo emagrecimento exagerado ou por comportamentos que expulsam o que ingeriram com a finalidade de atingirem um peso estabelecido por elas como ideal. Essas mães passaram meses entre idas e vindas a médicos, unidades básicas de saúde (UBS) e hospitais até descobrirem que a recusa das filhas em se alimentarem era um transtorno alimentar.
A trilha percorrida em busca do diagnóstico vem acompanhada de desespero, culpa, medo, impotência, raiva e tantos outros sentimentos que se tornam presentes nesse caminhar. Essas mães têm toda a sua vida transtornada, assim como a rotina familiar, pois passam, sem perceber, a viver em função da doença e de suas exigências.
A trajetória para chegar no espaço da fala pode ser mais rápida para algumas mães ou muito longa para outras, especialmente por não ser um falar qualquer. É um falar que precisa ser acolhido e abraçado.
Ao chegarem a esse espaço, seja ele consultório ou hospital, e serem acolhidas pela equipe, elas nos trazem seu desconhecimento sobre a doença e sobre como devem proceder. Os sentimentos se misturam, os nomes se confundem, as mentes se apresentam fundidas como se existisse um corpo para duas (Miranda, 2007).
E, em alguns momentos, também negam que estejam vivendo essa situação, têm dificuldade em entender como alguém recusa se alimentar “se é isso que mantém a vida”.
Ana, Rosa, Maria e Isabel precisam ter alguém para falar daquilo em que acreditam ter falhado, falar da dificuldade de ter que levar a filha ao hospital, aos médicos, ao nutricionista, ao psicólogo, ao psiquiatra todas as semanas. Elas precisam falar que têm deixado os outros filhos sem a atenção que acreditam ser necessária a eles. As conversas na casa giram em torno da comida e da doença. Suas vidas mudaram, elas já não sabem mais como cuidar das filhas, sentem ter falhado em sua função, pedem perdão, choram, apoiam umas às outras, competem, triunfam e frustram-se. Esperam que alguém as tire do sofrimento e da dor. Precisam encontrar um responsável pelo adoecimento da filha – ora ela e a dinâmica familiar, ora algo fora dessa esfera. Precisam de esperança.
Ana, Rosa, Maria e Isabel representam aqui muitas mães que acompanhamos nos grupos de ambulatórios de apoio ao familiar de pacientes com transtornos alimentares, bem como no consultório e na Ceppan.
Pareceu-nos importante dar um nome a essas mães que, muitas vezes, são confundidas com suas filhas, são destituídas de suas vidas e se dedicam ao cuidado e às tentativas de alimentar quem recusa ser alimentado. Mães que se confundem e se embaraçam na doença, na mente e nas emoções das filhas (Miranda, 2004; Adami-Lauand, 2010).
A ideia deste capítulo nasceu das questões que nos surgem ao escutar cada uma das mães e dos cuidadores que chegam com um pedido de fala, de ajuda e de esperança. Nasceu a partir da necessidade
10. O ódio na clínica da obesidade: características e destinos subjetivos
Andrea Maria Cembranelli
Natália Vignoli
Daniel Hamer Roizman
A questão da obesidade tem muitas facetas, de modo que aqui nos predispomos a destacar um de seus mais importantes aspectos sociopsicológicos – o ódio. O problema do estranhamento narcísico já estava presente em Freud por meio de sua teoria do ego, segundo a qual este rejeita tudo aquilo que sente como ameaça interna e externa (Freud, 1914). No caso da obesidade, esse preconceito está atrelado ao estigma de que as pessoas com obesidade são vistas não apenas como doentes pela medicina como também feias e inadequadas, segundo os padrões de beleza.
Podemos identificar o ódio aos portadores desse quadro clínico em diversos eixos: na cultura, nas famílias, nos profissionais de saúde e neles próprios. A cultura contemporânea reforça a repulsa pelo corpo gordo por meio da estética do horror. A pessoa com obesidade, assim, é vista como portadora de preguiça e fracasso social e moral, já que não se empenha o suficiente para emagrecer. De acordo com Roizman (2017), os portadores de obesidade são aqueles que caminham na contramão da sociedade capitalista, pois não se encaixam na lógica de autogestão, coerência e responsabilidade defendida pelo mercado neoliberal.
Atualmente a sociedade enfrenta o estigma do peso, ou “preconceito relacionado ao peso”, traduzido do termo “Weight Bias Estigmatization”. Definido como a desvalorização social de um indivíduo em virtude de seu peso, as crenças e experiências negativas projetadas sobre ele incluem a discriminação e provocações com base em seu tamanho e formas corporais, intimidando seu convívio social saudável (Jebeile et al., 2019; Pont et al., 2017; Skinner, Perrin & Skelton, 2016).
Os portadores de obesidade, dessa forma, são percebidos socialmente como seres inferiores em virtude do desleixo estético, moral e nutricional. Isso despertaria a rejeição e a exclusão da sociedade perante eles. De acordo com esse ponto de vista, essas pessoas não teriam amor-próprio, força de vontade e atitude ativa perante seus impulsos. Elas seriam controladas pelo seu desejo e prazer, sendo por isso, vistas como fracas e sem tino moral.
As famílias comumente reproduzem esse olhar inferior e segregador sobre as pessoas com obesidade. Entretanto, é comum haver uma sustentação psíquica inconsciente da gordura na família, seja como forma de pertencimento ao grupo ou como busca de diferenciação em relação aos outros membros como veremos mais adiante.
Os próprios profissionais de saúde muitas vezes reforçam esse estigma e preconceito por meio de uma visão discriminatória e repleta de julgamentos em relação às pessoas com obesidade. A visão ultrapassada – reforçada pela área da saúde e ainda prevalente na sociedade – de que a obesidade é uma escolha e de que o “combate a essa epidemia” é resumido pelas decisões individuais de comer menos e praticar mais exercício físico (Schvey, Puhl & Brownell, 2011; Rubino et al., 2020) negligenciam não apenas o aspecto multifatorial desse quadro clínico como também as consequências advindas da prática de dietas restritivas em longo prazo, como o próprio ganho de peso (Hunger & Tomiyama, 2014; Puhl et al., 2017).
Segundo Camargo (2022), muitos pacientes com obesidade demandam uma atitude normativa do profissional, especialmente do
11. O corpo na psicose a partir de um caso de anorexia nervosa
Fabiana Pereira
Elisa Gan
Quero romper com meu corpo, quero enfrentálo, acusá-lo, por abolir minha essência, mas ele sequer me escuta e vai pelo rumo oposto. Carlos Drummond de Andrade (1984)
Introdução
Este texto, escrito a quatro mãos, é fruto de um percurso clínico com pacientes diagnosticados com transtorno alimentar. Ao longo dele será apresentada uma vinheta de uma paciente com anorexia nervosa e atendida por Pereira. Diferentemente dos chamados “casos típicos”, essa paciente não buscava beleza na magreza; a anorexia passava por algo voltado ao espiritual e místico, com rituais e a preparação de uma espécie de mistura bizarra de alimentos. Além disso, diariamente seu corpo “desmontava”: ela caía, sempre à noite, por meio do que ela nomeava de “crises convulsivas”, nunca comprovadas por médicos. Tal fenômeno parecia apontar para uma psicose em que, nesses momentos de crise, o sujeito se desalojava do próprio corpo, não havendo nenhum tipo de simbolização. Nossa hipótese é a de que se poderia
tratar de um fenômeno elementar, já que parecia haver uma espécie de estranheza nesse ato.1
Enquanto na neurose há certa consistência por meio da imagem do corpo, o que dizer do corpo na psicose? O falasser2 tem um corpo, não o é, pode deixá-lo cair a qualquer momento. Para todo ser falante, o corpo escapa; no entanto, na psicose, escapa com mais facilidade. Nos perguntamos: como a psicanálise opera em casos tão peculiares, em que o corpo toma protagonismo em vez da palavra?
O último ensino de Lacan se orienta em direção ao real, ou seja, àquilo que não tem nomeação, ao sem sentido, e isso é o paradigma do gozo. O simbólico não daria conta de falar do real, nele (no real) se encontra o mais íntimo do falasser. Ao longo desta escrita tentaremos trabalhar a noção de corpo, sob o viés da psicanálise de orientação lacaniana. Nosso objetivo é que essa reflexão sirva para pensar a condução de certos casos na clínica e em instituições de saúde mental, onde cada vez mais se apresentam sujeitos cujos corpos funcionam como condensadores de gozo a céu aberto, não havendo quase lugar para o simbólico.
O corpo para a psicanálise
Jesus Santiago, no texto “O corpo é o Outro”,3 argumenta sobre a especificidade da concepção do corpo na psicanálise, que se diferencia
1 Miller, no texto “Ler um sintoma”, ao falar da angústia, pergunta a si mesmo se a estranheza sentida no corpo poderia ser considerada um fenômeno elementar. Também podemos nos remeter ao unhemilish, o “estranho” trabalhado por Freud.
2 “Falasser” ou “ser falante” é um termo criado por Lacan, que vem do francês “parlêtre” (uma conjunção entre parler (falar) e être (ser). Esse termo vai além da palavra “sujeito”, já que nele se inclui o corpo. Neste capítulo, ora aparecerá a palavra “sujeito”, ora “falasser”.
3 Exposição realizada na aula inaugural do seminário preparatório do IX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, “As Palavras e os Corpos”.
12. Mais que uma “compulsão alimentar”: um caso de bulimia
e suas repercussões na clínica
Fernanda Kalil
Tenho compulsão alimentar… Vivo há anos numa luta para emagrecer. Consigo fazer dieta por uns dias e, de repente, tenho ataques horríveis de compulsão, comendo tudo o que vejo pela frente. Aí fecho a boca e me mato de tanto malhar, mas isso não dura 3 dias, a compulsão volta e todo o meu desespero também. A minha vida gira em torno da comida. Quando acordo de manhã, a primeira coisa em que eu penso é se comi demais no dia anterior ou se consegui fazer dieta. Se foi um daqueles dias de compulsão, já acordo arrasada. Cheguei ao ponto de sacrificar até meu trabalho por conta disso. Também deixo de sair com meus amigos e com a minha família para não comer nada fora do planejado. Aí vem outro problema, a cobrança das pessoas.
Esse foi o relato de Gisele, 24 anos, quando chegou ao meu consultório para tratar sua “compulsão alimentar”. Gisele não sabia, mas seu diagnóstico era de bulimia nervosa. Tratava-se da chamada bulimia sem purgação, quando, após os episódios de compulsão alimentar, a pessoa se utiliza de métodos compensatórios não purgativos para
tentar eliminar os efeitos da ingestão calórica e não engordar, conforme descrito nos manuais psiquiátricos (CID 11 e DSM-V).
Diferentemente da bulimia com purgação, mais conhecida popularmente, em que o paciente se utiliza de vômitos e/ou laxantes e diuréticos para tentar reduzir o peso na balança, aqui se usam métodos como dietas rígidas e/ou jejuns e atividades físicas exageradas para tentar compensar os excessos alimentares. Esse tipo de bulimia, muitas vezes, não é diagnosticado por profissionais que desconhecem os transtornos alimentares, embora não seja um subtipo incomum. Ocorre que, sendo subdiagnosticado, aspectos importantes desse quadro clínico, como a frequente distorção da imagem corporal (percepção alterada do próprio corpo), o sofrimento desmedido com a alimentação, além dos sérios prejuízos para o paciente no que diz respeito aos âmbitos social, familiar, afetivo e profissional, podem passar despercebidos num primeiro momento.
A bulimia na psicanálise
Embora seja importante considerar o diagnóstico psiquiátrico, uma vez que reconhecemos a importância da neuroquímica cerebral e também para fins de intercâmbio entre os profissionais de saúde, entendemos a bulimia para além do “transtorno alimentar”.
Trata-se de um sujeito fixado no objeto. A vida gira em torno da comida e da forma corporal, empobrecendo as possibilidades de relacionamento com o outro e a ampliação de interesses em outros aspectos da vida. O sujeito permanece reduzido ao desgaste próprio do sintoma, a parte visível dos pilares que estruturam o psiquismo. Em outras palavras, o sintoma é o que se vê; precisamos investigar o que existe por trás dele.
A leitura que a psicanálise faz dos sintomas alimentares diz respeito à economia libidinal do sujeito, considerado no “um a um”, o que não impede de reconhecer os traços comuns e modos de funcionamento de
13. A questão da imagem nas anorexias
Fernanda Freire de Carvalho Pimentel
Introdução
A pesquisa sobre as anorexias tem longa tradição na psicanálise. Nesse percurso, foram investigadas por diversas perspectivas teórico-clínicas, e vários aspectos foram abordados: a dificuldade com a imagem do corpo, a severa recusa alimentar, a relação entre anorexia, feminino e sexualidade, a influência da cultura do corpo magro e outros. Contudo, apesar da longa trajetória e da grande produção teórica, a agressividade dos sintomas das anorexias, a prevalência desses casos na clínica e o caráter indecifrável e inacessível ainda nos colocam diante de um grande desafio clínico.
Este capítulo propõe uma investigação sobre a imagem do corpo nas anorexias, fundamentada no referencial teórico de Freud e Lacan, bem como nas contribuições recentes de autores contemporâneos, como Domenico Cosenza, Massimo Recalcati, Éric Laurent e Jacques-Alain Miller. Destacaremos a centralidade do Outro no processo de reconhecimento da imagem corporal, partindo da hipótese de que uma falha na função simbólica do Outro está no cerne da dificuldade com a imagem na anorexia.
Outro, com letra maiúscula, ou grande Outro, é o termo usado por Lacan (1954-1955/1985) para se referir à rede simbólica, à linguagem e aos significantes, que determinam o sujeito, organizando o psiquismo e delimitando modos possíveis de satisfação. Radicalmente distinto do outro, do semelhante, o Outro é considerado o lugar onde o eu se constitui. Apesar de se tratar de um conceito da tradição lacaniana, vamos demonstrar que essa ideia está presente desde as primeiras produções sobre a formação da imagem do corpo.
Essa perspectiva, que enfatiza o simbólico nas questões da imagem nas anorexias, nos distancia das referências teóricas mais tradicionais, que atribuem a origem dos problemas com a imagem a distúrbio ou perturbação de ordem perceptiva que precisa ser readaptado e corrigido e nos permite redefinir a direção de tratamento nesses casos.
Para investigar a hipótese da inconsistência do Outro na questão da imagem do corpo nas anorexias, iniciaremos com a definição da imagem do corpo na psicanálise e sua importância para a constituição do psiquismo. Em seguida, destacaremos a necessidade do Outro para o reconhecimento da imagem e, por fim, apresentaremos algumas referências sobre a inconsistência do Outro na atualidade.
A imagem do corpo na psicanálise
A imagem do corpo na psicanálise vai muito além da percepção do próprio corpo ou da representação do corpo no psiquismo. Primeiro porque a apreensão da imagem do corpo tem um valor constitutivo da subjetividade, e depois porque está atravessada por questões simbólicas, pela linguagem, pelo Outro e marcada por afetos, memórias, histórias, expectativas e ideais.
Mais ou menos distante do que o corpo é de fato, a imagem está remetida à economia pulsional inconsciente do sujeito. Assim, seja pelo registro do excesso ou pelo registro da insuficiência, a imagem que se vê é sempre subjetiva e deformada. Podemos dizer, inclusive, que nunca
14. Sobre a subjetividade “abandônica” e sua relação com o tratamento nos transtornos alimentares
Flávia Machado Seidinger-Leibovitz
“[…] necessidade ilimitada de amor, manifesta de maneira polimorfa que a torna irreconhecível, significaria uma procura da segurança perdida cujo protótipo seria uma fusão primitiva da criança com a mãe.”
Laplanche e Pontalis (1985), sobre a síndrome do abandono
Introdução
Este capítulo corresponde a um excerto da dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, intitulada Significados psicológicos do abandono do tratamento ambulatorial nos transtornos alimentares na visão dos pacientes: um estudo clínico qualitativo. O estudo teve por campo o Grupo Interdisciplinar de Assistência e Estudos em Transtornos Alimentares, HC/Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da GCM/Unicamp (Geta) e passou por constante validação por pares no Laboratório de Pesquisa Clínico-Qualitativa (LPCq), sob orientação do Prof. Dr. Egberto Ribeiro Turato.1
1 Há três publicações em periódicos científicos provenientes desta pesquisa: um sobre a primeira categoria de resultados “escravidão ao vício”, significando o abandono
De onde partimos
As anorexias e bulimias constituem patologias graves que se apresentam através dos tempos como um desafio às famílias e aos profissionais de saúde, acompanhadas frequentemente de certa recusa e refratariedade ao tratamento, resultando em altas taxas de abandono. Nota-se o aumento de sua prevalência (Hay, 2008), assim como a gravidade, sendo, dos transtornos psiquiátricos, o de mais alta taxa de mortalidade, seja por complicações clínicas, seja por suicídio (Arcelus et al., 2011).
Investigamos as narrativas de mulheres que haviam abandonado o tratamento para transtornos alimentares no serviço ambulatorial do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Unicamp (Geta). Considerando os desafios à adesão ao tratamento nas anorexias e bulimias e nas demais variantes dos transtornos alimentares, o objetivo era, a partir da escuta dos significados do abandono, refletir sobre manejos clínicos possíveis às barreiras ao tratamento, visando talvez a maior adesão e êxito na superação desses quadros tão complexos e que implicam imenso padecimento psíquico e graves complicações clínicas.
Aspectos psicodinâmicos foram encontrados afetando diretamente a relação com o tratamento, impactando a adesão e resultando em abandono. Do corpus extraímos duas principais categorias de significados do abandono para as pacientes: 1) os transtornos alimentares enquanto adicções – colhido nos discursos dos sujeitos, na categoria de conteúdo: os transtornos alimentares como escravidão ao vício e 2) a questão “abandônica”. Neste capítulo fazemos um recorte da segunda, que encontrou sustentação teórica na síndrome do abandono, descrita por Germaine Guex (1958, p. 318). O que a autora descrevera na França, nos anos 1960, junto a outro psicanalista, Charles Odier, do tratamento nos transtornos alimentares ligado a sua vivência enquanto adicção (Seidinger-Leibovitz et al., 2015) e outros dois artigos de revisão de literatura sobre o abandono do tratamento nos transtornos alimentares (Seidinger-Leibovitz et al., 2016; Seidinger-Leibovitz et al., 2020).
15. A prevenção dos transtornos alimentares à luz da psicanálise
Gabriela Malzyner
O que é prevenção?
Prevenção é o conjunto de ações ou medidas adotadas para evitar que algo indesejado aconteça. Ela pode ser aplicada em diversos contextos, como saúde, segurança, meio ambiente, entre outros. O objetivo da prevenção é reduzir os riscos e minimizar as consequências de eventos ou situações negativas, antes que elas se concretizem.
A prevenção pode ser dividida em três níveis: primária, secundária e terciária. Cada um deles visa atuar em diferentes momentos e está relacionado a estratégias distintas para evitar ou minimizar problemas de saúde.
Prevenção primária
A prevenção primária busca evitar que doenças ou problemas de saúde aconteçam. É a abordagem que acontece antes de que qualquer sinal de doença ou condição apareça. O objetivo é promover a saúde. Se traspusermos esse pensamento para o campo analítico, estaremos diante da construção da subjetividade no bebê, diante da díade que se forma para dar conta das necessidades e demandas do sujeito
que nasce. A dimensão do ritmo,1 do encontro entre o ser que surge e a figura do cuidador primordial. A ritmicidade, a atenção e a narratividade conjuntas configuram o caminho da intersubjetividade – língua originária dos bebês.2
Estamos diante do olhar atento de um observador que acompanha o bom funcionamento da dupla que se forma, sem ter que intervir na díade.
Prevenção secundária
A prevenção secundária atua na detecção precoce de doenças, quando elas ainda estão em estágios iniciais, mas podem ser tratadas com mais sucesso se diagnosticadas a tempo. O objetivo é identificar a doença cedo para evitar que ela se agrave ou cause complicações.
Hoje, dentro da psicanálise, contamos com um rico instrumento que auxilia na observação de pontos-chave na construção da subjetividade e em suas possíveis manifestações de sofrimento: os indicadores de risco para desenvolvimento infantil (IRDI) (Kupfer & Bernardino, 2018).
Trata-se de um instrumento produzido a partir de referenciais psicanalíticos para avaliar padrões de risco para o desenvolvimento psíquico em bebês e crianças até os 18 meses. É fundamental como política pública para a primeira infância, visto que a plasticidade cerebral nos primeiros anos é aliada do bom desenvolvimento subjetivo.
“Até porque o retorno do investimento social é muito maior quando ele
1 A função do ritmo é amplamente discutida por Victor Guerra em diversos artigos e também em seu livro Vida psíquica do bebê: a parentalidade e os processos de subjetivação (2022).
2 Guerra nos conta de um experimento que tenta dar conta de descobrir qual seria a língua universal dos bebês em face do fracasso do estudo. O que se revelou foi que a língua comum a todos os humanos é a intersubjetividade. É ela que está na base de qualquer aquisição de palavra. A intersubjetividade pode ser entendida como uma experiência de compartilhamento dos estados emocionais, no contato entre duas pessoas – dimensão de se sentir acompanhado pelo outro.
16. Harmonizar ou excluir as diferenças: a escuta em relação
aos procedimentos estéticos na clínica psicanalítica
Gabriela Vargas de Almeida Ribeiro
Muitas pacientes chegam aos consultórios de psicologia e psicanálise com queixas relacionadas à aparência física e ao seu corpo. Algumas, inclusive, nos procuram com objetivos bem específicos, como a ajuda para modificar o corpo, após já terem passado por diversos tratamentos e especialistas. Isso nos coloca diante de uma questão importante: com que “ouvido” escutamos o corpo dos nossos pacientes? A reflexão proposta por Fernandes (2003, p. 26) nos provoca a pensar sobre o papel do psicanalista diante do sofrimento corporal, ao lembrar que o paciente “não” é um ser exclusivamente “psíquico” e nem tão somente biológico. A autora refere que a clínica contemporânea nos coloca diante de diversas queixas relacionadas ao corpo, não mais dos chamados pacientes neuróticos da psicanálise clássica. São pessoas com doenças psicossomáticas, toxicomania, adicções, transtornos alimentares, casos-limite etc. A partir disso, é preciso “refletir sobre a escuta analítica a fim de melhor instrumentalizá-la para lidar, não apenas com os pacientes somáticos, mas também com as diversas formas de presença do corpo na situação analítica” (Fernandes, p. 30). Ela utiliza o conceito de psicopatologia do corpo na vida cotidiana para demonstrar como, frequentemente, o mal-estar se expressa no corpo.
Diante da centralidade do corpo na cultura contemporânea, surge o desafio de refletir sobre as novas manifestações sintomáticas que se manifestam nas demandas clínicas. As queixas relacionadas ao corpo e à imagem não se restringem a casos de transtornos alimentares, pois incluem sofrimentos ligados à comida e à aparência que não se enquadram, necessariamente, em critérios diagnósticos, mas que ainda assim demandam uma escuta cuidadosa e um manejo específico.
Este capítulo propõe uma reflexão sobre a crescente incidência dos procedimentos estéticos, tanto cirúrgicos quanto não cirúrgicos, e a relação desses tratamentos com a distorção da imagem corporal, com um olhar especial sobre a harmonização facial. Esse fenômeno não é isolado e reflete uma transformação cultural significativa, na qual o corpo se tornou um dos principais focos de atenção e valorização (Orbach, 2009). O Brasil, por exemplo, lidera o ranking mundial de procedimentos estéticos há anos, ficando em segundo lugar em uma pesquisa, realizada pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps) em 2023, estando atrás apenas dos Estados Unidos (Isaps, 2024). Isso reflete uma lamentável realidade, na qual a busca pela transformação física se torna cada vez mais comum e banalizada.
O problema não está nos procedimentos estéticos em si, mas no que revela sua realização indiscriminada. Diariamente, somos confrontados com relatos de indivíduos que sofrem sequelas – por vezes irreversíveis ou fatais – em decorrência dessas intervenções, frequentemente realizadas por profissionais sem a devida qualificação e em estabelecimentos de procedência duvidosa. Além disso, existe uma pressão implícita, especialmente sobre as mulheres, para que se submetam a intervenções estéticas cada vez mais precocemente (Orbach, 2009).
Diante disso, surge uma série de questões cruciais: como o terapeuta pode ouvir e compreender as demandas relacionadas a esses temas que, frequentemente, surgem nos consultórios? Quando a busca por procedimentos estéticos se torna motivo de preocupação? E, por fim, como manejar o tratamento nos casos de distorção da imagem corporal?
17. Corpo em travessia: transtornos alimentares e jovens transgênero
Heloisa Spadoni
Nas últimas décadas, os transtornos alimentares vêm sendo amplamente discutidos como fenômenos multifatoriais, atravessados por aspectos biológicos, psicológicos e socioculturais, desafiando aos poucos a associação quase exclusiva a mulheres brancas de alto padrão econômico e provenientes de países ocidentais industrializados (Pike, Dunne & Addai, 2013).
Apesar do reconhecimento cada vez maior dos transtornos alimentares como um problema de saúde pública, ainda há uma escassez significativa de estudos focados em grupos minoritários, especialmente na população transgênero. Essa lacuna na literatura científica limita a compreensão das especificidades clínicas e psicossociais que permeiam o desenvolvimento e a manifestação desses transtornos nesses grupos, dificultando a escuta na prática clínica, a formulação de estratégias de prevenção e a construção de intervenções eficazes, uma vez que a maioria das pesquisas ainda se concentra em meninas cisgênero, invisibilizando outras vivências que também produzem intenso sofrimento psíquico através do corpo.
A relação entre transtornos alimentares e identidade de gênero tem despertado grande interesse na literatura científica, especialmente
no que diz respeito à adolescência e à população transgênero. Estudos epidemiológicos revelam uma prevalência mais alta de comportamentos alimentares desordenados – como restrição extrema, indução de vômito, uso de laxantes e pílulas para emagrecimento – entre jovens transgênero, sobretudo em meninos (Ålgars, Alanko, Santtila, & Sandnabba, 2012). Outro estudo realizado em 2015 com universitários norte-americanos revelou que tais comportamentos são mais comuns entre estudantes “gender nonconforming”, independentemente de sua orientação sexual.
Apesar do aumento de casos, ainda há pouca produção teórico-clínica voltada especificamente aos transtornos alimentares nessa população, o que limita a escuta qualificada e contribui para um atendimento que muitas vezes ignora os atravessamentos subjetivos da identidade de gênero na constituição do sintoma para cada um. O risco de reducionismos – seja biologizante, seja social – é grande, especialmente quando o sofrimento do sujeito não é tratado de maneira singular e sem levar em conta o contexto simbólico e relacional em que ele emerge.
Considerando esse contexto da clínica contemporânea – e partindo da minha própria prática clínica –, tem sido cada vez mais comum receber jovens transgênero que apresentam sintomas alimentares graves, especialmente meninos trans que recorrem à restrição alimentar como forma de lidar com o mal-estar provocado pelo próprio corpo. Por isso, propus-me a refletir sobre a anorexia e os transtornos alimentares no contexto da vivência transgênero, explorando suas possíveis determinações inconscientes e as maneiras como a identidade de gênero se entrelaça à relação com o corpo e com a alimentação. Afinal, o que nos dizem esses corpos que se recusam a comer?
Estudar esse fenômeno, portanto, é uma necessidade clínica e ética. Isso exige reconhecer que o corpo, na adolescência, torna-se campo de disputa: entre o que se é, o que se deseja ser e o que a cultura permite ou proíbe. O transtorno alimentar, nesse cenário, pode aparecer como tentativa de mediação entre esses polos, funcionando tanto como defesa
18.
Transtornos alimentares e religião: a anorexia sob o olhar psicanalítico na comunidade judaica
Ilana Tawil Schwartzman
ultraortodoxa
A relação entre religiosidade e saúde mental, especialmente no contexto dos transtornos alimentares, tem sido objeto de investigações que revelam uma trama de complexidades e paradoxos. Diversos estudos indicam que a vivência religiosa atua tanto como fator de proteção quanto de vulnerabilidade diante do sofrimento psíquico. Esses achados sugerem que a religião, dependendo de como se articula com a dinâmica interna de cada sujeito, pode contribuir para atenuar ou, ao contrário, intensificar os quadros alimentares. Trata-se, portanto, de um campo que exige um olhar atento aos efeitos das crenças e práticas religiosas em diálogo com as formações inconscientes e com os modos singulares de enlaçamento ao sintoma em ambientes marcados pela fé. Segundo pesquisas conduzidas por Abraham e Birmingham (2008) e por Akrawi et al. (2015), a vivência religiosa pode ser protetiva em face dessas psicopatologias. Nesses estudos, a internalização de valores espirituais mostrou afetar positivamente a relação com o corpo e com a imagem corporal, contribuindo para reduzir a influência de padrões estéticos irreais e potencialmente danosos. Em contraste, estudos mais recentes, como os de Bachner-Melman e Zohar (2019) e Hasan et al. (2021), apontam que determinados contextos religiosos configuram fatores de risco. Essas pesquisas sugerem que a vivência
da fé, dependendo de como é interpretada e praticada, favorece o surgimento ou a intensificação de transtornos alimentares, especialmente quando associada a pressões sociais, expectativas de gênero e normas alimentares rígidas.
Na clínica contemporânea, refletir sobre a interseção entre religiosidade, padrões estéticos e transtornos alimentares exige atenção às formas como esses elementos se articulam em cada sujeito. Para alguns, práticas religiosas podem fomentar a negação do corpo e de seus desejos que, somadas à idealização da magreza como sinônimo de valor pessoal, potencializam conflitos psíquicos subjacentes. O risco, então, parece ser duplo: de um lado, a internalização de ideais estéticos extremos; de outro, a vivência de exigências espirituais que valorizam o domínio do corpo como expressão de virtude e de fé.
A valorização do ascetismo e do autocontrole, presentes em muitas tradições religiosas, influencia profundamente a maneira como o sujeito se relaciona com o próprio corpo e com a alimentação. Em determinados contextos, a busca por pureza espiritual e pelo domínio dos desejos corporais acaba por gerar uma relação ambivalente com o corpo, permeada por significados morais e espirituais. Exemplos dessa dinâmica podem ser observados nos rituais de restrição alimentar presentes em diversas religiões, como o Ramadã no Islã, a Quaresma no cristianismo, os períodos de resguardo no Candomblé e o jejum de Yom Kippur no judaísmo. Embora essas práticas estejam, em sua essência, associadas à introspecção, purificação e renovação da fé, em certas circunstâncias elas se sobrepõem a fragilidades psíquicas. Nessas situações, transformam-se em formas veladas de controle alimentar, frequentemente legitimadas pela devoção religiosa. Essa intersecção foi observada, por exemplo, em um estudo conduzido por Hasan et al. (2021), que identificou um aumento nas preocupações com alimentação e imagem corporal entre mulheres muçulmanas após o Ramadã – o que, em alguns casos, contribuiu para o desencadeamento de transtornos alimentares.
19. No campo da compulsão alimentar e do comer emocional: teorias e
técnicas psicanalíticas
Luciana Estefno Saddi Mennucci
Introdução
A clínica contemporânea apresenta pacientes com as mais diversas configurações psíquicas. Observa-se o aumento das queixas referentes a problemáticas e transtornos alimentares, bem como o crescimento dos quadros de compulsões/adições, cuttings e suicídios, o que nos leva a conceber as novas patologias como categorias psicopatológicas. Não por acaso, tais sintomas fundamentam-se na complexa relação entre a psique e o mundo atual.
Na gênese dessa complexidade encontram-se múltiplos aspectos indissociáveis e históricos, que problematizam a relação entre a psicogênese infantil e a cultural, referindo-se ao entrelaçamento dos níveis intrapsíquico, psicopatológico e sociocultural. A psicopatologia, que concebera a doença como algo individual e oposto à sociedade, não se sustenta mais diante de sintomas que expressam também campos culturais inconscientes. Os tradicionais eixos do pensamento psicanalítico – constituição, cultura e relação infantil – inter-relacionam-se e constituem desafios teóricos, clínicos, técnicos e de manejo para o tratamento psicanalítico.
É também inegável o entrelaçamento entre expressões culturais, sofrimentos individuais, sintomas, manifestações sociais e produções artísticas. As novas patologias assemelham-se a dobras da cultura sobre o homem, e os sintomas mimetizam características dessa mesma cultura. Na base dessa sintomatologia encontra-se o conceito de ato puro, criado por Herrmann (1985/1997), ou passagem para o ato, que, além de visar o alívio da tensão, caracteriza-se por se apresentar como ação que substitui o pensamento, sendo o ato o que confere sentido ao homem. O ato puro é uma ação violenta e intensa, que prescinde de mediações – seja por meio de fantasias, representações inconscientes ou pensamentos conscientes –, constituindo, assim, um ato desprovido de ligações afetivas e representacionais, mas capaz de sustentar um mínimo sentido de existência, como se se resumisse à máxima “ajo, logo existo” durante o breve período em que o impulso se converte em ação.
Comer emocional como ato puro
O comer emocional consiste em uma forma de se alimentar que tem por objetivo o alívio da tensão. Trata-se de um ato que substitui o pensamento, com características análogas ao ato puro, pois prescinde de mediações – ou seja, de fantasias, representações inconscientes e pensamentos conscientes. Configura-se, portanto, como um comer desprovido de ligações com afetos e representações. No âmbito clínico, torna-se possível compreender e, sobretudo, construir um cuidado direcionado aos sentimentos e pensamentos que poderiam estar na gênese dos atos puros, mas que ainda não se encontram elaborados, já que tudo que é vivido é imediatamente descarregado em comida, sem o devido processamento psíquico.
O comer emocional requer um trabalho psicanalítico de discriminação de um conjunto de afetos, de autoconhecimento, de nomeação e de autonomia. A tolerância à angústia e à frustração, a aceitação da ignorância, a compreensão da ansiedade e a permissão ao ódio são
20. Adolescências e transtornos alimentares: quando o corpo fala
Maria Castanheira
Clara (nome fictício) chegou para o atendimento aos 13 anos, muito emagrecida. Estava sem menstruar alguns meses e fazendo exames para avaliar outras complicações clínicas, diante de seu súbito emagrecimento. A paciente conta que queria ter uma barriga “chapada”, para ficar com o corpo igual ao das amigas. Como estava se sentindo acima do peso, pensou em fazer dietas; assim, diminuiu a comida e o refrigerante, perdendo muito peso. A mãe relata que começou a emagrecer muito sutilmente, com a mania de “fitness”, e depois foi radicalizando. Consultaram uma nutricionista, que a filha adorou, recomendou tudo “saudável”, substituiu os carboidratos, retirou o açúcar da dieta e aí a paciente passou a fiscalizar até o preparo, exigindo só o uso do azeite, até que juntas, mãe e filha, fizeram uma dieta intermitente e foi perdendo muito mais peso…
Introdução
Esse recorte clínico que apresento se refere à análise de uma adolescente cujo sofrimento se manifestava com uma problemática alimentar e recebeu o diagnóstico de anorexia nervosa, que se caracteriza
especialmente por uma restrição alimentar, levando ao baixo peso e à preocupação excessiva com a imagem corporal, culminando em um medo enorme de engordar.
A prática clínica suscita interrogações e nos direciona à pesquisa, no sentido da compreensão de um caso. Esse caso me provocou impasses e indagações, desde sua chegada, após escutar o pedido da mãe para o atendimento. Para minha surpresa, recebo uma jovem falante e disposta a contar sobre sua queixa, o que fica muito distante das características do quadro de uma anorexia, em que se apresentam caladas, me levando a descolar de um discurso pronto e me convocando a escutar as manifestações de sua subjetividade.
A proposta deste texto é proporcionar reflexões sobre os aspectos que configuram as adolescências no contemporâneo e pensar quais os atravessamentos que essa jovem sofreu quando adolescente e com a problemática alimentar. Para isso, apresentarei fragmentos do material clínico, tecendo algumas considerações teóricas sobre a clínica psicanalítica de adolescentes.
Não reconheço mais o meu corpo
Inicialmente pretendo elucidar as diferenças entre o que é adolescência e o que é puberdade. A puberdade é um processo de modificações biológicas que se iniciam por volta dos 9 ou 10 anos, ligadas à produção hormonal. Funciona como um disparador para o crescimento físico, trazendo um novo desenho do corpo, o que solicita uma remodelagem e reconstrução na imagem corporal. Nessa fase, o corpo se transforma de forma independente da vontade e do desejo de um jovem; o que se vê no espelho não é mais um corpo infantil, e ainda não tem uma nova imagem definida. Assim, é um processo que exige um trabalho de luto pelo corpo e seu mundo infantil.
A adolescência é momento de muitas mudanças físicas, psicológicas e sociais, convocando o jovem a desafios e descobertas rumo à
21. Entre vulnerabilidade e ternura: reflexões sobre o manejo transferencial na clínica da anorexia e da bulimia
Maria Helena Fernandes
A reconhecida complexidade dos casos clínicos de anorexia e bulimia tem solicitado uma discussão abrangente que envolve hoje uma grande diversidade de profissionais. A pluralidade dos recursos disponíveis atualmente para a abordagem desses quadros clínicos deixa claro que a psicanálise é um recurso entre outros, cabendo ao psicanalista conhecer a existência desses recursos para poder usá-los ou refutá-los, segundo a especificidade da demanda que lhe é dirigida. Assim, explorar a especificidade da metodologia psicanalítica torna-se uma exigência para todos aqueles que se confrontam com essas problemáticas em sua clínica cotidiana.
Apesar do vigor dos esforços empreendidos, dentro e fora do âmbito psicanalítico, a abordagem teórico-clínica da anorexia e da bulimia continua sendo um desafio. As múltiplas perspectivas de reflexão em psicopatologia e psicanálise encontram no estudo dos distúrbios do comportamento alimentar um campo de pesquisa privilegiado, na medida em que colocam em evidência toda a envergadura dos problemas teórico-clínicos que esses distúrbios colocam para a psicanálise. A meu ver, o estudo de entidades clínicas complexas mostra-se útil na
medida em que podem contribuir para o aprofundamento da discussão a respeito da especificidade do instrumental clínico psicanalítico, com seus limites e suas possibilidades. Nesse sentido, a clínica da anorexia e da bulimia é particularmente fecunda pelos desafios cotidianos que coloca, não apenas ao saber teórico, mas, sobretudo, ao manejo clínico da psicanálise.
Essa clínica nos confronta de saída com a questão do corpo, assim como nos coloca diante da especificidade dos processos da adolescência, particularmente em relação às meninas. Mesmo com o aumento de casos entre os meninos, ainda há nítida prevalência feminina nesses quadros clínicos. Tal especificidade evoca as vicissitudes da relação precoce com a mãe no que diz respeito ao gerenciamento pulsional e sua relação com a identificação primária e, consequentemente, com os ideais, a diferenciação, a autonomia, o tempo e a morte. Além disso, essa clínica solicita ainda uma reflexão sobre as relações entre psicopatologia e cultura, dada a relevância dos ideais de magreza na atualidade. Em várias publicações dediquei-me a explorar e articular metapsicologicamente esses diversos aspectos e suas ressonâncias clínicas (Fernandes 2006, 2009, 2010, 2011, 2013a, 2013b, 2014, 2022, 2025). No entanto, neste artigo decidi retomar exclusivamente as vicissitudes do manejo transferencial desses casos.
Assim, pretendo aqui retomar dois aspectos muito presentes na clínica da anorexia e da bulimia, a dificuldade de percepção das sensações corporais e a dificuldade de diferenciação da figura materna, para refletir a respeito das vicissitudes do enquadre analítico diante desses quadros clínicos. O objetivo é colocar em evidência a especificidade da metodologia psicanalítica diante de modalidades de sofrimento que, muitas vezes, dada sua gravidade, apresentam a necessidade da intervenção conjunta com outros profissionais. A meu ver, isso solicita uma reflexão que deve passar necessariamente pelas questões referentes ao manejo transferencial desses casos.
22. O corpo: lugar das incertezas e do padecimento
Marina Ramalho Miranda
Piera Aulagnier, psicanalista nascida italiana e de formação psicanalítica francesa, inicia essas reflexões sobre as incertezas do corpo e suas ressonâncias nas psicopatologias alimentares, assinalando que o nascimento de um corpo dá origem a uma história:
No momento em que a boca encontra o seio ela encontra e absorve um primeiro gole do mundo. Afeto, sentido e cultura estão copresentes e são os responsáveis pelo gosto das primeiras gotas de leite.
Por meio de um referencial psicanalítico, constatamos as transformações que o corpo sofre através dos tempos, tornando visíveis os registros das emoções rumando para a contemporaneidade, com sua bagagem genética, carregando o peso de histórias dos antepassados e recebendo os impactos da cultura.
Produto social, cultural e histórico, os corpos femininos foram imprimindo suas marcas, e, conforme nos informa Mary Del Priore, historiadora, no decorrer do século XX a mulher mostrou seu corpo despido e a estética voltada ao culto ao corpo magro, fonte inesgotável
de ansiedade e frustração, foi ganhando terreno sobre a sensualidade imaginária e simbólica.
As dissociadas marcas corporais estampam a dor e o sofrimento psíquico, denunciando uma ditadura da beleza, magreza e juventude eterna.
Nas palavras da historiadora:
Diferentemente de nossas avós, não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da rejeição social. Nosso tormento não é o fogo do inferno, mas a balança e o espelho.
A tentação gastronômica, entre outras ameaças, é atacada por censuras, medos, fantasias e culpas orbitando em torno desse corpo, especialmente da(o) jovem púbere que, vivendo o momento delicado do adolescer (tornar-se adulto), defronta-se com intensos sentimentos de insegurança, pois seu corpo muda numa velocidade maior do que sua mente pode acompanhar. Necessita se separar dos pais da infância e conquistar sua autonomia e ainda dar conta das novidades que o tumultuam, constituindo uma nova identidade psicossexual.
Anorexias, bulimias, transtornos compulsivos, obesidade mórbida, candidatos às cirurgias bariátricas sofrem um turbilhão de terrores gerados no confronto desleal travado com elementos estrangeiros, poderosos fantasmas, inimigos invisíveis que, cruelmente, conduzem essas pessoas ainda não nascidas para a linguagem metafórica a uma verdadeira prisão em que sua vida afetiva definha na mesma proporção em que os obesos inflam e os anoréxicos se encolhem, só deixando à mostra justamente o que não querem que seja visto: os ossos, a gordura, o sinistro. Perturbações alimentares denunciam uma combinação particular da singularidade histórica de quem as apresenta e mostram a implacável incerteza que habita seus corpos.
23. A gordofobia é uma questão psicanalítica
Monica Vianna
A lente dentro do embaçado. São digitais de um e outro, sobrepostas. No espelho, mais refração das vozes do alheio
Do que reflexo daquilo que há.
É um eco cheio de imperativos vazios Conduzindo ao vão, Onde mora o que se padronizou, Numa localização absurda Sempre aquém ou além do possível.
Hortência Siebra
Em 1978 a escritora e psicanalista Susie Orbach lançou seu primeiro livro, intitulado Fat is a feminist issue (A gordura é uma questão feminista). Essa obra pioneira sobre a relação problemática das mulheres com o corpo e a alimentação segue sendo uma referência para pensar os aspectos socioculturais que atravessam os transtornos alimentares e a obesidade.
A autora se debruça sobre os complexos imperativos sociais que permeiam o vínculo das mulheres com a comida e a imagem corporal.
Em uma entrevista para o jornal The Guardian por ocasião dos quarenta anos do lançamento do livro, Orbach manifesta sua surpresa quanto à atualidade de sua obra passados tantos anos:
Quando me sentei para escrever Fat Is A Feminist Issue, há 40 anos, nunca imaginei, ou temi, que ele ainda estaria sendo impresso hoje. Ingenuamente, esperei que meu livro mudaria o mundo. Ao analisar e sugerir soluções para problemas com o corpo e com a alimentação, imaginei que eles iriam desaparecer. Mas na verdade, quando eu estava escrevendo sobre problemas de corpo e alimentação de meninas e mulheres, eu estava escrevendo sobre desigualdade também. E a desigualdade é teimosa. (Orbach, 2018, p. 1)
Para a autora, as exigências desiguais em relação ao papel das mulheres na sociedade fizeram com que comer se tornasse nossa fonte de conforto: “Nós enchemos nossas bocas com comida, e eu propus que poderíamos aprender a trocar comida – quando não estivéssemos com fome – por palavras” (Orbach, 2018, p. 2).
A temática dos transtornos alimentares e obesidade é cada vez mais frequente na teoria e prática psicanalítica, apresentando-se como uma fonte de sofrimento emocional contemporâneo em todos os gêneros, idades, raças e classes sociais, porém de formas singulares e com impactos distintos.
Este capítulo faz alusão ao título dessa obra seminal para propor uma reflexão psicanalítica sobre a influência da gordofobia estrutural na prevalência dos quadros acima citados. Para tanto, buscaremos fazer um percurso destacando alguns significados socioculturais do excesso de peso ao longo do tempo e a importância de uma leitura e posicionamento psicanalítico na abordagem dessa questão tanto na clínica quanto na sociedade.
24. A trajetória da Ceppan e a pesquisa em psicanálise: rumos e desafios
Patricia Gipsztejn Jacobsohn
A escuta psicanalítica, por natureza, inscreve-se nos silêncios e nos enigmas da fala. Ela não se apressa diante dos sintomas, tampouco os toma por sua aparência mais imediata. No contexto dos transtornos alimentares, essa escuta se faz ainda mais delicada, pois atravessa o corpo, o vazio e os excessos – lugares onde a linguagem, muitas vezes, parece falhar. Este capítulo propõe uma travessia pela experiência da Ceppan, que ao longo de mais de duas décadas, vem sustentando o desafio de construir um campo clínico, teórico e investigativo comprometido com a singularidade do sujeito. Em um cenário onde os modelos baseados em evidências quantitativas ocupam lugar privilegiado, a psicanálise é frequentemente convocada a justificar sua presença. Este texto não responde com defesas, mas com percurso: apresenta os modos singulares de escuta e atendimento da Ceppan, sua contribuição para a pesquisa e os desafios de inscrever a prática psicanalítica em parâmetros de reconhecimento científico, sem com isso trair sua ética e seu método. A trajetória aqui narrada não é apenas institucional, mas também afetiva e política – marcada pelo desejo de ofertar cuidado e pelo compromisso de construir sentido onde, muitas vezes, só há sofrimento, dor e, por vezes, silêncios ensurdecedores.
A Ceppan
A Clínica Cybelle Weinberg de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia (Ceppan) é um grupo que desenvolve, desde 2000, um projeto de atendimento em psicanálise dos transtornos alimentares, além de um grupo de pesquisa. A Ceppan foi fundada por Ana Paula Gonzaga e Cybelle Weinberg, pioneiras na psicanálise brasileira dos transtornos alimentares.
A Ceppan faz frente a três grandes objetivos: acadêmico, clínico e social.
Com relação ao viés acadêmico, a Ceppan propõe o estudo sistemático da psicanálise dos transtornos alimentares e a divulgação de seus conhecimentos. A Ceppan é hoje composta por quinze psicanalistas membros (sendo duas coordenadoras: eu e Ana Carolina Saraiva), que se reúnem semanalmente. As reuniões são teóricas (discussões de textos, artigos e da teoria psicanalítica ou, então, aulas ministradas por profissionais convidados) ou são clínicas (discussões de triagens e dos casos clínicos atendidos). A Ceppan divulga os conhecimentos adquiridos por meio de aulas, palestras, publicações, apresentações em congressos, teses e dissertações. A Ceppan ocupa-se também da formação (não formal) de seus membros. Um de nossos objetivos é contribuir na formação de psicanalistas de transtornos alimentares.
A Ceppan, por meio de seus membros, tem publicado inúmeros artigos em livros, sites e revistas especializadas. Possui também publicações próprias. As primeiras publicações foram as Revistas Cadernos da Ceppan,1 além dos livros Psicanálise de transtornos alimentares, volumes 1, 2 e 3 (Gonzaga & Weinberg, 2010; Weinberg, 2016; Jacobsohn, 2022), que reúnem textos de renomados especialistas do tema, como também esta presente publicação. Outra importante publicação
1 Publicações trimestrais, lançadas na forma impressa de 2008 a 2012, totalizando dez edições. Elas faziam parte do nosso site até a recente invasão. Existe uma força-tarefa para inseri-los novamente na nossa plataforma.
25. De olho no corpo e de boca fechada: o que pensar sobre o vínculo
mãe e filha?
Silvia Brasiliano
Maria Lucia de Souza Campos Paiva
E tenho, vos asseguro, tudo o mais que faz de mim uma mulher às vezes viva, às vezes objeto. Clarice Lispector, Um sopro de vida
Há uma vasta literatura [Bucaretchi (2003), Fernandes (2012), Ramos & Fuks (2015), entre outros] que discute os transtornos alimentares, que podem ser considerados uma patologia com suas raízes em diversas causas que possibilitam seu desenvolvimento, como as físicas, psicológicas, familiares e socioculturais.
Iniciamos nossa análise a partir do corpo feminino e cultura narcísica contemporânea, pois entendemos que é na intersecção do feminino e da atualidade que se encena a problemática do transtorno alimentar, mais precisamente da anorexia. Em seguida, abordaremos o que esse corpo expressa sobre a dinâmica familiar. Por fim, focaremos a discussão sobre a problemática alimentar sob a ótica do vínculo mãe e filha. Esses fatores mencionados corroboram para o surgimento, dificultam o tratamento e ajudam na sustentação de um quadro de anorexia.
Entendemos por vínculo uma experiência psíquica entre os participantes que se determina reciprocamente. O vínculo entre dois sujeitos implica a ideia de alteridade. Um é diferente do outro, e a subjetividade
que se cria no vínculo entre os dois sujeitos promove um movimento constante de ida e volta em relação ao que se passa entre eles.
Utilizamos aqui a concepção de René Kaës de sujeito psíquico. O psicanalista francês define que o sujeito é constituído pelo grupo. Ele é tanto herdeiro das heranças psíquicas como transmissor. Dentro dessa perspectiva, o sujeito tem seu inconsciente, sua formação, seus conteúdos e seu destino constituídos no grupo. Mendes (2021, p. 168) aponta que o sujeito singular, no referencial de Kaës, “se constitui e se transforma no entre o seu inconsciente e o do outro, ou de mais de um outro, tornando-se por definição sujeito do grupo”.
O corpo feminino e a cultura narcísica que vivemos
“Não gosto do meu corpo! Chorei hoje no banheiro na hora do recreio, porque esse uniforme me deixa medonha!! Minhas amigas conseguem ficar bonitas com essa calça, eu não! Queria que meu rosto fosse mais fino e meus lábios mais grossos. Meu pai vai pagar para eu fazer preenchimento labial, a namorada dele fez. Ficou maravilhosa! Ela é perfeita. Ontem, perguntei para um menino da minha classe quem são as meninas mais bonitas do nosso ano. Ele disse o nome de 5 meninas e eu sou uma delas. (Alice1 abre um sorriso.) Ele falou que sou a única de olhos verdes!! Eu queria ser a mais bonita, a número 1!”
Alice tem 15 anos, percebe-se como feia e gorda (IMC 19,8) e, mesmo que o amigo diga que está entre as mais belas da escola, parece que não é suficiente para ela. Teria que ser a única bela. Para alcançar a perfeição almejada, Alice tem evitado se alimentar e tem feitos dietas restritivas. Marczyk e Paiva (2025) colocam que, na contemporaneidade, nas sociedades ocidentais, o corpo do sujeito já não é mais da ordem do privado e do íntimo. “Vivemos tempos em que o corpo da mulher não é completamente seu. Ele se torna público, carregando expectativas,
1 Todos os nomes foram alterados, neste trabalho, com o intuito de que as pacientes e suas famílias não possam ser identificadas.
26. O corpo em cena: uma reflexão sobre transitoriedade, vida psíquica
e o encontro analítico
Talita Azambuja Thais Fonseca de Andrade
A tolerância a paradoxos é condição fundamental para exercer psicanálise, do mesmo modo que é necessária para viver a vida como ela é. Paulo César Sandler (2021, p. 123)
Vivemos em um estado constante de transformação; em nosso corpo, as células estão se modificando neste exato momento em seu trabalho de renovação. A transitoriedade está no coração da condição de estarmos vivos, talvez, por isso, somos constituídos também da maneira como vivenciamos nossos lutos (Freud, 1917). Afinal, ao vivermos em trânsito, a perda é um imperativo.
A maneira como lidamos com a nossa própria transitoriedade pode ser saudável ou não saudável. Isso dependerá da natureza da relação em nossa mente entre as posições esquizoparanoide e depressiva, entre continente e contido1 (Bion, 1962) em nossa mente desde o início da vida e de nossa condição de atravessarmos os lutos.
1 “É uma forma de relacionamento que permite crescimento emocional e crescimento dos processos de pensamento” (Sandler, 2021, p. 21).
Em Inibições, sintomas e ansiedade (1926), Freud semeou a ideia de que existe muito mais continuidade entre a vida intrauterina e a primeira infância do que a impressionante cesura do ato do nascimento nos faz acreditar.
Bion, em 1975 (p. 3), debruça-se sobre essa ideia de continuidade, “de que há alguma conexão entre o pensamento e a vida emocional pós-natal e a vida pré-natal” e desenvolve o conceito de cesura para falar sobre um fenômeno que traz em si o paradoxo de ruptura e de continuidade (Sandler, 2021; Sapienza, 2001). ”O paradoxo é a própria cesura. Marca algo que flui continuamente e, ao mesmo tempo, parece ter passado por uma mudança total” (SANDLER, 2021, p.122).
Nesse sentido, segundo Sandler (2021, p. 123):
Cesura é um conceito que poderia ser representado pelo uso de uma seta dupla, como na representação quase-matemática proposta por Bion para a teoria das posições, de Melanie Klein: PS ⇌ D.2 A seta dupla também poderia representar as interações entre os dois princípios do funcionamento mental; as interações entre os sistemas consciente e inconsciente; as interações entre as duas formas de existência da realidade, material e psíquica, conforme observada por Freud (1900); as interações entre continente e contido.
Desde a cesura do nascimento até a da morte, passamos por inúmeras transformações, por exemplo, nas fases do desenvolvimento (infância, adolescência, fase adulta e velhice).
2 Na teoria das posições [esquizoparanoide (PS) e depressiva (D)], Melanie Klein (1946) sugeriu a existência de duas posições no psiquismo que têm um funcionamento dinâmico, desde o nascimento até a morte. “O verbete PS ⇌ D tenta demonstrar que o ethos do conceito de posições por Melanie Klein inclui intrinsecamente um movimento que pode ser descrito como “ir e vir” (Sandler, 2021, p. 936). A capacidade para aprender, ao longo da vida, dependerá da capacidade do indivíduo de tolerar a posição esquizoparanoide, a posição depressiva e a interação entre elas (Bion, 1963; 2004).

