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Tranças e af luências
Histórias sobre transgeracionalidade
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Organizadora
Histórias sobre transgeracionalidade
Histórias sobre transgeracionalidade
Luciana Marchetti Torrano
Editado e revisado por Vanessa Alves Zagatto
Tranças e afluências: histórias sobre transgeracionalidade
© 2026 Luciana Marchetti Torrano (organizadora)
Editora Edgard Blücher Ltda.
Publisher Edgard Blücher
Editor Eduardo Blücher
Coordenação editorial Rafael Fulanetti
Coordenação de produção Ana Cristina Garcia
Preparação de texto Edgar Costa
Diagramação Mônica Landi
Revisão de texto Equipe editorial
Capa Juliana Midori Horie
Imagem da capa Passeio no bosque, desenho em carvão, 2003
© Maria José Marchetti Torrano
Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br
Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.
É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.
Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570
Tranças e afluências : histórias sobre transgeracionalidade / organizadora Luciana Marchetti Torrano ; editado e revisado por Vanessa Alves Zagatto. – São Paulo : Blucher, 2026.
240 p.
Bibliografia
ISBN 978-85-212-2615-4 (Impresso)
ISBN 978-85-212-3143-1 (Eletrônico - Epub)
ISBN 978-85-212-3142-4 (Eletrônico - PDF)
1. Psicanálise. 2. Repetição transgeracional. 3. Transmissão transgeracional. 4. Transmissão psíquica. 5. Constituição psíquica. 6. Distúrbios alimentares. 7. Abuso sexual infantil. 8. Núcleo radioativo. 9. Transmissão radioativa. 10. Identificação radioativa. I. Título. II. Torrano, Luciana Marchetti. III. Zagatto, Vanessa Alves.
CDU 159.964.2
Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise CDU 159.964.2
Ana Rosa Chait Trachtenberg
Luciana Marchetti Torrano
Introdução 25
Luciana Marchetti Torrano
1. Repetição transgeracional na adoção: impactos na constituição psíquica 37
Fernanda Kimie Tavares Mishima, Marina Vieira Madeira e Manoel Antônio dos Santos
2. Do conto de fadas à descida ao Hades: transmissão psíquica da feminilidade na anorexia nervosa 65
Carolina Leonidas e Manoel Antônio dos Santos
3. Decifra-me ou te devoro: a transgeracionalidade na obesidade 87
Ana Carolina Fortes Paiva de Pina e Valéria Barbieri
4. Psicodinamismos de uma jovem obesa e de seus pais 121
Lilian Regiane de Souza Costa-Dalpino
5. Lutos não elaborados e prejuízos na transicionalidade em três gerações da família de uma criança obesa 147
Carolina Rizzatto Martins Padilha
6. A transgeracionalidade paterna de tendências antissociais 175
Ana Paula Medeiros
7. Um universo fragmentado: a violência do abuso sexual infantil 203
Mariana Campeti Cuoghi Rocco, Fernanda Kimie Tavares Mishima e Valéria Barbieri
Sobre os autores 237
Ana Rosa Chait Trachtenberg
1
Uma honra prefaciar este livro, organizado por Luciana Marchetti Torrano e editado e revisado por Vanessa Alves Zagatto.
Iniciando pelo título, impossível não lembrar do nosso poeta Manoel de Barros quando diz em seu poema “Comparamento”:
Os rios recebem, no seu percurso, pedaços de pau, folhas secas, penas de urubu [...]
Mas desembarcam no poema escorreitas: como que filtradas. Manoel de Barros (2010)
Na sequência, muitas são as tranças e afluências que encontrei no livro, com tantas histórias cruzadas silenciadas em algumas gerações e que gritam em gerações seguintes.
Em alguns capítulos do livro (capítulos 2, 3, 4 e 5), encontrei um denominador comum do grito: o corpo.
1 Psicanalista e membro titular com função didática da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre (SBPdePA).
e afluências
Os textos remetem aos fundamentais conceitos de núcleo, transmissão e identificação radioativa e resíduos, criados pela psicanalista argentina/israelense Yolanda Gampel, como segue:
A metáfora do “núcleo radioativo” serve como representação conceitual de um processo particular: a penetração no aparelho psíquico de aspectos terríveis, violentos e destruidores da realidade externa, sem que o indivíduo tenha nenhum mecanismo de controle e de proteção contra essa penetração, seu enraizamento e seus efeitos.
Esta “identificação radioativa” inclui vestígios não representáveis, resíduos de influências “radioativas” do mundo exterior enquistadas no indivíduo inconscientemente. No caso da radioatividade propriamente dita, material, a emanação afeta fisicamente o indivíduo, no momento em que ocorre o impacto e tempos depois. […]. No entanto, como em certas pessoas expostas à radioatividade, os “resíduos radioativos” permanecem latentes e somente emergem como doença – física ou psíquica – neles ou nos seus filhos, muitos anos mais tarde. (Gampel, 2014, pp. 19-28)
Yolanda Gampel enfatiza o papel do corpo como destino das transmissões radioativas, transgeracionais, que não têm cor, imagem, cheiro e menos ainda palavras.
Gampel entende que acontecimentos podem levar ao aparecimento da “radioatividade”, transformada em emissor, e tornar-se um sintoma. Essa memória do traumático não pode ser elaborada, pois está desconectada, isolada, congelada e, portanto, não é afetada por um movimento associativo. Dessa forma, retorna apenas por um movimento conectivo (Moreno, 2002) que pode ser catastrófico. Essas “identificações radioativas” que ressurgem do recalque da negação, não podem ser objeto de “recordação”, só podem ser “atuadas”,
Luciana Marchetti Torrano
Este livro coroa com louros uma longa história entre a pós-graduação de psicologia da FFCLRP-USP e os estudos desenvolvidos em psicanálise vincular, especialmente sobre a transmissão psíquica entre gerações. A psicanálise, especialmente a psicanálise familiar e a psicossomática psicanalítica, que desde o início de meus estudos na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) despertaram meu interesse e minha dedicação, desenvolveram seus brotos e frutos em meu mestrado e em meu doutorado na FFCLRP-USP, com a orientação do competente e virtuoso Prof. Dr. Manoel Antônio dos Santos.
Com a necessidade de dar continuidade à minha formação pessoal e psicanalítica, busquei a SBPRP. Atualmente, essa é a instituição da qual faço parte como membro efetivo.
Meu percurso de três décadas dedicado à formação em psicanálise compreenderam os estudos e atendimentos em psicanálise de casal e família, trajeto que me apresentou os autores iniciais que priorizaram a leitura da ancestralidade e da transmissão psíquica geracional, tema que me aprofundei junto ao Grupo de Estudos de Família da SBPRP, coordenado pela colega e psicanalista Denise Lea Moratelli.
e afluências
Uma das psicanalistas convidadas a contribuir com os seminários sobre psicanálise vincular foi a Dra. Ana Rosa Chait Trachtenberg, que introduziu e aprofundou o tema da transgeracionalidade. O impacto dos conteúdos e conceitos na ampliação da minha escuta transformou a minha visão da clínica psicanalítica, que já privilegiava a intersubjetividade e os vínculos construídos no campo analítico. A riqueza das histórias e as novas ferramentas para o trabalho com o inconsciente ampliaram sobremaneira a complexidade dos atendimentos individuais, aguçando minha escuta para fenômenos históricos e sociais. A inclusão da pré-história familiar, a cultura, as histórias de preconceito, a escuta do racismo estrutural, os não-ditos e as violências primeiramente me angustiaram muito e atualmente se tornaram fundamentais para a compreensão do fenômeno transferencial inédito e único construído em cada atendimento.
Desde 2016, tenho ministrado cursos, oferecido supervisões e grupos de estudos sobre o tema da transmissão psíquica geracional. Graças a esses encontros profícuos, durante a última década tive a honra e a oportunidade de participar de bancas de qualificação e de mestrado dedicadas à disciplina da transgeracionalidade, todas na pós-graduação de psicologia da FFCLRP-USP.
A experiência de acompanhar a produção das pesquisas das pós-graduandas apontou a necessidade de difundir o tema da transgeracionalidade/intergeracionalidade, como um conhecimento que amplia e inclui a pré-história do sujeito e a sua novela ancestral familiar na compreensão da complexidade de sua trama psíquica. A intergeracionalidade constitui sua língua, sua cultura, tradições e tabus, e a transgeracionalidade organiza dores, não-ditos, segredos, violências e sintomas. Tanto na inter como na trans, a psicanálise oferece a possibilidade de escuta e transformação.
O vértice psicanalítico que aborda a transgeracionalidade é pouco conhecido mesmo entre os psicanalistas, sendo um tema ainda pouco compreendido, pouco estudado, e que desperta críticas e
Luciana Marchetti Torrano
Minha dor é perceber [...]
Ainda somos os mesmos E vivemos
Como os nossos pais Belchior, “Como nossos pais”
Sigmund Freud criou o ofício da psicanálise, como primeiro homem com tal tarefa, analisou os próprios sonhos e percorreu as pistas psíquicas expressas por meio dos sintomas, chistes e atos falhos para forjar o conceito de inconsciente. O inconsciente era experimentado, mas ainda não havia sido nomeado. De Freud herdamos a clínica, a observação, a importância da análise e do estudo sobre os sonhos, entre tantas outras publicações e estudos que ainda permanecem bastante contemporâneos. Herdamos também a Associação Psicanalítica Internacional (IPA), as tradições que a constituem, as normas e leis com que devemos nos comprometer para nos tornarmos psicanalistas. Freud desenvolveu o método e a técnica para captar o inconsciente e tratar o sujeito. Em seus textos sociais – “Psicologia das massas e
e afluências
análise do eu”, “Totem e tabu” e “O futuro de uma ilusão” –, Freud (1913/1996, 1921/1996, 1927/1996) nos aponta que o homem, além de seu psiquismo individual, possui uma ancestralidade e uma história familiar, sua mente é resultado do mundo social que o rodeia e da cultura herdada das gerações anteriores; assim, cada homem já nasce com uma pré-história.
Os estudos sociais de Freud citados acima, conferiram a importância do social à psiquê humana, que futuramente na história do pensamento psicanalítico vai dar origem à Psicanálise das Configurações Vinculares. A Psicanálise das Configurações Vinculares é uma vertente teórico-clínica que inclui o mundo social e suas influências na constituição da matriz subjetiva da mente (Gomes e Levy, 2016). O social neste campo, compreende que a subjetividade individual existe no campo social o influencia e é influenciada por ele, compondo uma subjetividade social. O campo da vincularidade compreende que o mundo social está intrinsecamente ligado à clínica psicanalítica, é ele quem oferece as regras, os códigos, a língua e não pode ser pensado apenas como pano de fundo ou cenário das representações intrapsíquicas singulares (Puget, 2005). A Psicanálise Transgeracional, compõe uma das disciplinas estudada pelo campo da vincularidade.
O inconsciente na teoria vincular é compreendido como uma rede estruturante que se forma a partir de diversos contextos relacionais experimentados ao longo da vida, o primeiro é o núcleo familiar, seguido pelas instituições escolares, a comunidade, a religião, os grupos sociais etc (Berenstein e Puget, 2008). A mente está sempre ligada em interação dinâmica e transformativa. O mundo psíquico passa a ser compreendido de forma ampliada, integrando principalmente três dimensões históricas e relacionais que se interligam: a intrassubjetiva (história de vida), a intersubjetiva (resultante das interações do sujeito em seus vínculos) e a transubjetiva que representa a herança psíquica coletiva e a transmissão psíquica cultural (Kaës, 2005).
Fernanda Kimie Tavares Mishima2
Marina Vieira Madeira
Manoel Antônio dos Santos3
Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir, Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Fernando Pessoa (1972, p. 186)
1 Este capítulo é resultado de uma pesquisa financiada pela Fundação de Fomento à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), processo número 2013/26832-2
2 Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP).
3 Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP).
Cada vez mais podemos perceber uma diversificação nas possibilidades de constituir família, sendo que algumas delas passam pela via da adoção. O ato de adotar uma criança que, por diferentes razões, sofreu ruptura do vínculo com seus genitores é um fenômeno que acontece na história da humanidade desde tempos imemoriais, sendo que existe um movimento contemporâneo de tornar esse processo cada vez mais seguro e respeitoso, principalmente em relação à proteção dos direitos da criança (Cecílio et al., 2013). O processo de adoção é complexo e multidimensional, abarcando vários âmbitos: jurídico, psicológico, familiar e sociocomunitário (Otuka et al., 2009).
Do ponto de vista do desenvolvimento psíquico, é inegável que as histórias de perdas, abandono ou rejeição deixam marcas significativas na organização psíquica da criança. Quando falamos de adoção, inevitavelmente nos deparamos com o rompimento precoce do vínculo com a figura principal de cuidado e de apresentação do mundo para o bebê, frequentemente quando ele estava vivenciando o estágio de dependência absoluta (Winnicott, 1951/2000). É um período primordial em que o bebê existe na presença de um outro, quando a continuidade do olhar e dos cuidados de quem desempenha a função materna são imprescindíveis para a continuidade do ser. Nesse estágio de experiências subjetivas, o bebê ainda não é capaz de diferenciar o eu do não-eu,4 elementos do mundo compartilhado são percebidos como objetos subjetivos, e as sensações e as experiências são vividas em um estado de não integração. Compreender essa dinâmica
4 Ver em Freud, S. (1996). O ego e o ID [1923]. In S. Freud, Obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. XIX). Imago. Ver também em Winnicott, D. W. (2000). Objetos transicionais e fenômenos transicionais. In D. W. Winnicott, Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas (D. Bogomoletz Trad., pp. 316-331). Imago. (Trabalho original publicado em 1951)
2. Do conto de fadas à descida ao Hades:
Carolina Leonidas
Manoel Antônio dos Santos
Tecendo os antecedentes psíquicos
Tanto a prática clínica quanto a literatura científica demonstram que grande parte das pessoas que procuram ajuda profissional atualmente sofrem com questões relacionadas ao corpo e à alimentação. Parte significativa são mulheres, que parecem ser mais sensíveis aos ideais de beleza impostos pelo meio sociocultural em cada época. Esse sofrimento pode ser parcialmente explicado pela influência negativa dos padrões estéticos dominantes nas sociedades ocidentais, que incutem a crença de que beleza é sinônimo de magreza e que ambas seriam “soluções” para a conquista de uma vida mais satisfatória e bem-sucedida.
Não por acaso, os chamados transtornos alimentares estão em grande evidência na era contemporânea. Numa perspectiva biomédica, os graves distúrbios que desorganizam os hábitos alimentares são descritos como arranjos de sintomas psicopatológicos, que têm em comum uma relação problemática que a pessoa acometida mantém com a comida e com seu próprio corpo (APA, 2013). Os sintomas impactam de maneira negativa outras esferas da vida, como trabalho, estudos e relacionamentos interpessoais, gerando tensionamentos
e afluências
nas relações familiares. A anorexia nervosa é um dos principais subtipos de transtornos alimentares devido aos altos índices de morbidade e mortalidade envolvidos. As pacientes vivenciam medo mórbido de engordar devido à grave distorção da imagem corporal, estabelecendo uma relação persecutória com seu peso e sua forma corporal.
A influência dos fatores culturais sobre os transtornos alimentares é irrefutável. Porém, isso abarca apenas parte do problema, uma vez que a interface corpo-mente está em jogo, indicando a necessidade de um olhar voltado para o funcionamento psicodinâmico das pessoas acometidas, o que nos convida a compreender os sintomas para além dos aspectos somáticos, sociais e culturais envolvidos em suas manifestações. Sob a ótica da psicanálise, as dificuldades alimentares expressam subjetividades aflitas e solitárias e não podem ser explicadas pelo discurso biomédico (Leonidas & Santos, 2020). O sofrimento emocional resultante dificilmente pode ser compartilhado com outras pessoas, uma vez que escapa da lógica de funcionamento consciente e resiste à representação psíquica. Os sintomas corporais guardam significados inconscientes ligados a traumatismos precoces e conflitos emocionais não elaborados, porém o “elo perdido” entre mente e corpo torna a mente opaca e de difícil acesso pela via da associação livre. Uma hipótese que se coloca é a de que a fonte dessa problemática tem origem na trama de conteúdos transmitidos transgeracionalmente entre as mulheres de uma mesma família a respeito da feminilidade e da relação com o corpo e a sexualidade (Leonidas & Santos, 2023; Valdanha-Ornelas et al., 2023).
Mulheres com anorexia nervosa geralmente mantêm um vínculo peculiar e ambíguo com suas mães. Via de regra, a relação mãe-filha é regida sob a égide da simbiose e da indiferenciação, que resultam em sentimentos bastante ambivalentes e polarizados, marcados pelo antagonismo amor versus ódio e por paradoxos existenciais, como vida e morte, potência e impotência (ou onipotência), falta e excesso, cheio e vazio, satisfação e insatisfação. A fixação nos extremos traduz
Ana Carolina Fortes Paiva de Pina
Valéria Barbieri
We wait patiently to be created, in empty spaces we wait Annie Reiner, “Who is the dreamer?”1
Estamos diante de um enigma que, para muitos de nós, já é familiar: o que torna um corpo obeso, e o que o mantém nesse estado?
A obesidade, antes uma das muitas problemáticas da saúde, é hoje um de seus maiores desafios. Enquanto caminhamos a passos rápidos, como população mundial, para estarmos em nossa maioria acima do peso considerado saudável (World Obesity Federation, 2023), diversas áreas do conhecimento têm se esforçado em compreender a dinâmica da obesidade e encontrar tratamentos mais eficazes. No entanto, essa condição se mostra a cada dia mais complexa e multifacetada.
1 O poema de Annie Reiner intitulado “Quem é o sonhador?” é inspirado na obra de James S. Grotstein, Who is the dreamer who dreams the dream? (“Quem é o sonhador que sonha o sonho?”). Em tradução nossa: “Esperamos pacientemente por sermos criados, em espaços vazios esperamos”.
Tendo em vista que o ato de comer carrega, a um só tempo, aspectos da cultura, da nossa fisiologia, das nossas emoções, abarca o campo das nossas relações, entre tantas outras dimensões que o humano revela conforme nos aproximamos, podemos compreender a necessidade de estudar seus excessos, compulsões, transtornos e aprisionamentos a partir de diversas óticas.
As contribuições da psicanálise têm sido muito significativas no âmbito das patologias alimentares. Nos casos de obesidade, a literatura psicanalítica destaca uma predominância de aspectos simbióticos e indiferenciação nos vínculos entre mães e filhos; as figuras paternas são fragilizadas ou ausentes, enquanto as figuras maternas são quase sempre excessivamente intrusivas ou então particularmente distantes, mas em sua maioria ocupadas com os filhos em termos de cuidados funcionais e práticos, tendo a alimentação como um centro fundamental de preocupação. Quanto ao grupo familiar como um todo, este apresenta vínculos fusionais e uma ilusão de unidade compartilhada que aglutina os membros da família, de modo que os relacionamentos fora do universo familiar ficam prejudicados (Jordão, 2008; Novaes, 2009; Miranda, 2010; Tassara et al., 2010; Sanahuja, et al., 2014; Mishima-Gomes et al., 2014; Henriques et al., 2015; Ramalho et al., 2016; Andrade, M. L., 2018).
Surge, contudo, uma questão: quais são as origens e as motivações para a instalação dessa dinâmica simbiótica? Para que possamos aprofundar a compreensão desses casos e encontrar maneiras de auxiliar na eficácia dos tratamentos de obesidade, torna-se necessária uma reflexão acerca do contexto de criação da dinâmica simbiótica patológica, do engendramento da necessidade da eternização desse sentimento fusional nas famílias, pois, sendo essa forma de vínculo promotora do quadro de obesidade e, ao mesmo tempo, sentida como fundamental à sobrevivência psíquica da dupla mãe-filho e mesmo da psique familiar como um todo, os profissionais de saúde encontrarão obstáculos emocionais muitas vezes intransponíveis
Lilian Regiane de Souza Costa-Dalpino
Obesidade e as relações familiares: contribuições da psicanálise
O presente capítulo trata-se de um recorte da pesquisa intitulada “Transtornos alimentares, obesidade e família: uma perspectiva transcultural”, produto da parceria entre o programa de pós-graduação em Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP) e o Centre d’Études en Psychopathologie et Psychanalyse, da Université Paris-Diderot, França. Parte desse projeto avaliou famílias de mulheres obesas brasileiras, o que originou a tese de doutorado “Psicodinâmica familiar e características de personalidade de pais, mães e filhas obesas” (Costa-Dalpino, 2021), que é o foco deste estudo.
Nesse recorte, que é um estudo de caso, objetivou-se investigar os psicodinamismos dos membros de uma das famílias participantes, a partir da avaliação das características de personalidade da filha, com diagnóstico de obesidade grau II, e de seus pais, por meio de procedimentos projetivos.
tranças e afluências
A obesidade já foi vista como indicador de riqueza, beleza e saúde, porém, atualmente, é considerada uma doença crônica pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Os altos índices de pessoas que apresentam excesso de peso são alarmantes, a ponto de hoje a obesidade ser vista como uma epidemia e um dos maiores problemas de saúde pública (Farias et al., 2020).
O tema é alvo de preocupação entre os profissionais da saúde, principalmente pelas comorbidades que lhe são associadas (Bohnert et al., 2020). No que se refere à saúde mental, embora o excesso de peso não seja considerado uma psicopatologia como acontece com os transtornos alimentares, existem relatos na literatura de que a obesidade tanto pode ser favorecida pela presença de sofrimento emocional quanto propicie o surgimento dele (Kalra et al., 2012; Bohnert et al., 2020; Wong et al., 2017).
No que se refere às relações familiares de pessoas obesas, elas têm sido descritas tanto como facilitadoras para o desenvolvimento de hábitos alimentares inadequados como para o amortecimento ou a acentuação de conflitos emocionais suscitados pelo excesso de peso, principalmente em crianças e adolescentes.
A participação da família como fator etiológico da obesidade se dá por motivos mais evidentes, como a seleção de alimentos e padrões de nutrição dentro do lar que colaboram com o aumento do peso, até por motivos mais profundos e latentes, como a vivência de angústias afetivas no exercício da parentalidade que contribuem para que os pais superalimentem seus filhos (Kalra et al., 2012). Essas características da família podem influenciar não somente a forma como o filho conduz sua alimentação, mas também a relação dele com o próprio corpo e o modo como expressa suas vivências afetivas na alimentação, bem como em outros âmbitos de sua vida (Latzer & Stein, 2013).
5.
não elaborados e prejuízos na transicionalidade em três gerações da família de uma criança obesa
Carolina Rizzatto Martins Padilha
A obesidade é uma doença crônica e multifatorial, definida pelo excesso de gordura nos tecidos adiposos (OMS, 2009), cuja etiologia engloba fatores biológicos, psicológicos e socioculturais (Abeso, 2016). Os componentes psicodinâmicos individuais e familiares, foco do presente estudo, foram pouco explorados na literatura, predominando a compreensão dos aspectos genéticos e comportamentais da alimentação (Mishima & Barbieri, 2009).
A família, primeiro grupo de vinculação e pertencimento, é a base do desenvolvimento psíquico de um indivíduo. Nesse sentido, Winnicott (1958/2000) postula a existência de um potencial inato para o desenvolvimento emocional, latente em todo ser humano, que só se expressará caso exista um ambiente que se adapte às necessidades desse novo ser, oferecendo cuidados suficientemente bons a ele (Winnicott, 1958/2000).
No início, o bebê, em sua condição de desamparo, encontra-se em estado de dependência absoluta do seu entorno, constituído
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principalmente pela figura materna. Essa relação primária tem caráter fusional, com a dupla mãe-bebê compondo uma unidade. Nesse momento, a mãe se encontra em um estado psicológico especial, de maior sensibilidade, que facilita a identificação dela com o seu bebê. Esse processo só é possível porque ela já foi um bebê e traz consigo memórias dos cuidados que recebeu, que podem ajudar ou dificultar sua experiência com a maternagem (Winnicott, 1965/2022).
A mãe suficientemente boa é capaz de se adaptar totalmente às necessidades do seu bebê, oferecendo cuidados fundamentais expressos por meio do holding, do handling e da apresentação gradual dos objetos. Quando esses cuidados adaptativos são oferecidos de modo satisfatório, será possível ao lactente vivenciar a ilusão de onipotência, indicativa de que houve um encontro entre os impulsos criativos do lactente e os objetos essenciais à satisfação de suas necessidades. Esse interjogo repetido e sintonizado com a primeira figura de cuidado permitirá ao bebê sentir-se criador da realidade externa, o que fortalecerá seu sentimento de confiança no ambiente e na própria criatividade (Mishima, 2007; Winnicott, 1958/2000).
Em um segundo momento, a genitora deve iniciar falhas adaptativas para que a criança possa vivenciar a desilusão e entrar gradualmente em contato com um mundo externo que não está sob seu controle onipotente (Winnicott, 1958/2000). Essa inserção na realidade compartilhada deve se dar em pequenas doses para que não se imponha uma ruptura no sentimento de continuidade existencial durante essa passagem da percepção puramente subjetiva, do “eu”, para a objetiva, quando o “não-eu” passa a ser identificado (Winnicott, 1971/1975).
Se houve a formação da imagem interna de um bom objeto na realidade psíquica, constituído pelos cuidados suficientemente bons recebidos, então o bebê conseguirá adentrar na área dos fenômenos transicionais, representante da união/separação da figura de cuidado e constituinte do primeiro uso do símbolo que, aos poucos, se
Ana Paula Medeiros
Transmissão Psíquica Transgeracional
A transmissão psíquica geracional corresponde a um processo estruturante da organização familiar que compreende a herança familiar que ocorre em nível inconsciente e que transita entre os níveis intrapsíquicos e intersubjetivos, fazendo parte da constituição do sujeito desde antes do seu nascimento (Santos & Ghazzi, 2012). Esse conceito está presente na psicanálise desde os primeiros textos de Freud e tem sido aprofundado em pesquisas realizadas principalmente nas últimas cinco décadas. Entretanto, são raros os estudos que abarcam três gerações e que incluem a linhagem masculina para análise (Padilha & Barbieri, 2020). Desse modo, as autoras mencionam a maior presença de pesquisas que investigam os conteúdos transgeracionais a partir da díade mãe-filho.
Em “Totem e tabu”, a transmissão psíquica para Freud (1913/1974) pode ocorrer a partir da identificação com os pais e pela transmissão genérica, ou seja, aquela que é proveniente de traços presentes na pré-história ou em gerações anteriores. Nesse contexto, seriam transmitidos aqueles conteúdos cujos objetos foram perdidos e nos quais não foi realizado um trabalho de elaboração psíquica. Assim, a criança
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herdaria de seus pais os sonhos e desejos que eles não conseguiram conquistar (Correa, 2003).
Outros autores contribuíram para a compreensão do que seria a transmissão psíquica transgeracional. Para Zen et al. (2006), a transgeracionalidade pode ser definida como uma herança através das gerações, uma transmissão dos significantes dos pais e dos outros ancestrais, que ocorre por meio do inconsciente e não por meio de uma transmissão genética.
Por outro lado, Baranes (2001) interpreta que o que é abarcado como transgeracional não tem o intuito de remeter a um contexto histórico, mas compreender como cada indivíduo se organiza com relação aos movimentos eu/outro, dentro/fora, passado/presente e introjetivo/projetivo. Assim, o homem precisa entender que está inserido em um espaço com possibilidades de ação e representação, mas que é permeado pelos mitos familiares, sendo este um importante conceito da transmissão psíquica familiar, uma vez que é ele que organiza o sistema de crenças que define os papéis e atribuições de cada componente da família. Sendo assim, o grupo compartilha crenças sem, muitas vezes, questioná-las, o que protege e fortalece a família, mantém a concordância grupal e favorece sua perpetuação (Henriques & Gomes, 2005).
Kaës se preocupou em abordar as questões da transgeracionalidade, sendo que ele compreende que essa forma de transmissão ocorre predominantemente em caráter inconsciente e por meio da comunicação não verbal, a partir da repetição de comportamentos e da forma como as pulsões se manifestam (Kaës, 2001). Portanto, Kaës (2005) entende que o ego de um indivíduo é formado a partir de outros egos, sendo passados de outras gerações para a geração atual por meio da identificação.
Eiguer (1985) propôs a teoria da transmissão psíquica transgeracional, baseando-se na ideia de que há um campo de forças psíquicas
7. Um universo fragmentado: a violência do abuso sexual infantil
Mariana Campeti Cuoghi Rocco
Fernanda Kimie Tavares Mishima
Valéria Barbieri
O abuso sexual infantil se configura como um grave problema de saúde pública no Brasil e no mundo. Trata-se de um fenômeno complexo, universal, de rápido crescimento e elevada prevalência na população (Souza & Adesse, 2005), exigindo estratégias de abordagem multidisciplinar. Por se tratar de um assunto cercado de mitos e tabus, a identificação do abuso sexual é complexa e difícil, além de se tratar de uma descoberta que provoca fortes reações emocionais em toda a família (Fuks, 2006). Daí decorre a importância de se transmitir informações para desenvolver e solidificar esse campo de investigação, no intuito de auxiliar a criança e a família que se encontram em intenso sofrimento, aparente ou não.
Pesquisas recentes mostram um alto número de crianças vítimas de violência no Brasil. Segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde (2023), em 2021 foram registrados cerca de 35 mil casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes, dado que indica que mais de três crianças e adolescentes são abusados sexualmente a cada hora no Brasil. O agravante é que, normalmente, nos episódios de abuso sexual, outras violações ocorrem contra a criança, isto é, estão
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acompanhados de negligência e provavelmente violência física e psicológica (Childhood Brasil, 2014). As principais vítimas são meninas (76,9%) na faixa etária de 5 a 9 anos de idade, sendo que 72,4% dos abusos femininos notificados ocorreram dentro da residência das crianças, perpetrados principalmente por parentes próximos (Ministério da Saúde, 2023). Nesse cenário, o maior problema encontrado é que as instituições de proteção não conseguem monitorar todos os casos que estão sob a sua responsabilidade e, muitos deles, nem sequer chegam ao conhecimento desses órgãos (Ferreira, 2005).
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), violência sexual é todo ato sexual não desejado, podendo envolver comentários, insinuações, tráfico, sendo direcionado contra a sexualidade de uma pessoa, independentemente da relação com a vítima e do contexto; pode envolver penetração ou não (Jewkes, Sen & Garcia-Moreno, 2002).
Costa (2003) destaca que o indivíduo que sofre violência é um sujeito que foi submetido a uma coerção e a um desprazer absolutamente desnecessários ao crescimento, ao desenvolvimento e à manutenção de seu bem-estar, ainda que isso não seja compreendido nem sentido conscientemente por ele. A partir disso, a violência sexual pode provocar um trauma, definido como uma incapacidade de o indivíduo responder adequadamente a acontecimentos de tamanha intensidade, de modo a acarretar uma desorganização psíquica (Laplanche & Pontalis, 2001).
Para Winnicott (1965/1994), “o trauma é um fracasso relativo à dependência” (p. 113). Em outras palavras, é uma ruptura na continuidade do ser, provocada pelas falhas intensas ambientais. De acordo com Dias (2006), Winnicott ressalta que o trauma varia de significados de acordo com a fase de desenvolvimento; todavia, o termo implica um conjunto de dois fatores relacionais: a intrusão do ambiente e a reação automática da criança a essa intrusão, o que provoca distorção ou interrupção do processo de amadurecimento.

Este livro trança os diferentes vértices e pontos de vista dos autores e tece uma tapeçaria rica em cores e texturas, em que cada fio representa a complexa trama das relações humanas que se estendem pelo tempo. O leitor é convidado a conhecer a escuta psicanalítica num contexto de pesquisa e de estudos de casos das famílias envolvidas nas pesquisas. As reflexões e considerações dos autores desvelam aspectos das marcas e das heranças psíquicas transmitidas entre as gerações, na realidade brasileira, em forma de sintomas que impõem sofrimentos psíquicos e repetições.
A obra propõe um diálogo entre teoria e clínica, entre pesquisa e escuta, destacando a importância da interpretação e nomeação da transgeracionalidade na prática psicanalítica e nas políticas públicas de saúde. Destinado a psicanalistas, psicólogos, pesquisadores, profissionais da saúde e das ciências humanas, o livro oferece um olhar aprofundado sobre os efeitos no inconsciente, que são herdados, e os caminhos possíveis de elaboração e transformação que permitem fluência às gerações futuras.
