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Teoria estética na obra freudiana

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inerente às experiências arrebatadoras das pulsões com as demandas sociais em torno das quais estas se expressam.

Esse é o primeiro ponto nodal deste livro. Antes de seguir adiante, a afirmação de que o conceito de sublimação serve de guia para a psicanálise freudiana merece maiores esclarecimentos. Lembremo-nos, então, de que a metapsicologia freudiana é oficialmente inaugurada pela Interpretação dos sonhos (1900/2019), considerada pelo pai da psicanálise o paradigma para a compreensão da lógica psíquica. No livro, tornam-se claras as espécies de manobras psíquicas feitas para satisfazer duas instâncias antagônicas, que buscam tipos de prazeres contrários – o consciente e o inconsciente. Esse tema, mais do que mastigado entre os psicanalistas, pode ser sintetizado do seguinte modo: o conteúdo inconsciente, inadmissível para a instância consciente, é persistente em sua exigência de se manifestar e, de outro lado, a censura implacável da consciência insiste em mantê-lo oculto. Como solução desse embate entre forças opostas, os conteúdos do inconsciente aparecem camuflados na trama onírica, satisfazendo parcialmente ambas as instâncias psíquicas. Esse disfarce ocorre, de modo geral, sob a forma de condensação ou de deslocamento.

O clássico sonho da injeção de Irma mostra claramente o trabalho de condensação (Parente, 2014a): na figura de Irma concentram-se inúmeras mulheres, da filha à esposa de Freud, passando por outra criança e uma instigante mulher que ele deseja ter como paciente no lugar de Irma. No trabalho de condensação há uma construção de figuras compostas, conjunção de palavras e imagens, nomes ou lugares. Condensar significa, por conseguinte, reunir elementos aparentemente sem qualquer vínculo nítido para a lógica consciente, de modo que os anseios inconscientes possam se manifestar sem afetar as restrições impostas pela outra instância psíquica.

No deslocamento, por sua vez, percebe-se que os elementos que ganham foco no conteúdo manifesto do sonho perdem sua importância nos pensamentos ocultos que o formaram. Assim, os pensamentos

“cada vez mais assunto dos homens” (Freud, 1930a/2010, p. 44). Com o avanço cultural, diz Freud (1930a/2010, p. 44), os homens enfrentam “[...] tarefas sempre mais difíceis, obriga-os a sublimações instintuais de que as mulheres não são muito capazes”. Seguindo sua lógica econômica dos investimentos libidinais, Freud destaca que, não dispondo de quantidades ilimitadas de energia psíquica, o homem tem que dar conta de suas tarefas mediante uma adequada distribuição da libido, o que implica uma suposta distinção de gênero nos moldes colocados na epígrafe. (Freud, 1930a/2010, p. 44).

Torna-se pouco discutível, quando se leem essas passagens freudianas, a impossibilidade de “mulher” e “cultura” coabitarem um mesmo campo na estrutura social e política (Martins & Silveira, 2020). O interesse pela família e pela sexualidade, identificado por Freud nas mulheres, se coloca, aos olhos dele, como antitético da cultura.

As figuras simbólicas representantes da autoridade e do poder são tradicionalmente masculinas. Deus, encarnado em seu filho –homem – Jesus,2 os reis das monarquias (absoluta ou esclarecida) ou o pai da vida familiar burguesa são as imagens mais evidentes de que o poder, a força e a autoridade estão ao lado dos homens. Anteriormente inabalável, a imagem patriarcal não resiste nos processos sublimatórios entre homens em seus laços fraternos. O estremecimento incontornável de tal lugar ocorre após a Revolução Francesa, as sucessivas guerras napoleônicas, a revolução de 1848, as crises e os abalos econômicos, o abuso perdulário dos poderosos durante o Congresso de Viena, a tentativa forçada por Metternich de manter a antiga ordem.

O achincalhe feito por Robespierre aos rígidos valores tradicionais também torna as lutas políticas incertas, cheias de intrigas e jogos de

2 Nesse arsenal não é necessário retroceder à óbvia e repetida imagem de Eva, figurando como responsável pelo paraíso perdido. Seu reiterado retrato como a sedutora para os caminhos do mal, porém, certamente imprimiu marcas ao longo da história do Ocidente.

5. Romantismo: exaltação do mundo interno

No início deste estudo, indiquei o espectro político do Império Austro-húngaro, sobretudo pela figura dramática do soberano melancólico na modernidade. Esse recorte conduziu às categorias de análise benjaminianas dos dramas barrocos e, com elas, pude indicar a especificidade fetichista das peças neobarrocas, particularmente em Édipo e a esfinge, escrita pelo poeta e dramaturgo vienense Hugo von Hofmannsthal. Os traços melancólicos e edípicos desse roteiro emergem de maneira análoga aos entraves políticos que giram em torno do trono monárquico: as perdas de uma situação política, antes simbolicamente sustentável, não são elaboradas, mas simuladas por meio de vários arranjos psíquico-sociais, culturais e políticos. Contudo, não há como apagar os fortes abalos sofridos pela estrutura ligada ao Ancien Régime após a Reforma Protestante e a Revolução Francesa. Para manter a ilusão da velha ordem patriarcal monárquica, remenda-se continuamente as fissuras com pompas e belezas frágeis. Mas não há remendo capaz de impedir que as feridas se alastrem.

Mostrei ainda como a melancolia integra o Outro ao eu, ampliando as dimensões arquitetônicas egoicas. Essa amplitude do eu emerge como característica subjetiva própria da modernidade, e os contornos

civilizatórios que dela se refletem assumem feições sublimatórias. O conceito freudiano de sublimação parece incorporar traços melancólicos e conciliadores, muitos deles a serem explorados de modo mais nítido pelo Romantismo alemão, tópico deste capítulo. Expus também como o contexto moderno da virada do século XIX para o XX transformou a esfera artística como um todo. Ela passa a incorporar embates dos mais variados tipos contra a tradição academicista e o sistema institucional das artes. Disputas são frequentes também entre os diversos movimentos de vanguarda. Em tal cenário, a solução de compromisso sublimatória da art nouveau, mais em voga na Viena fin-de-siècle, é uma afronta edípica à velha ordem, sem que isso implique desdenhar a importância da tradição. Para o grupo Die Jungen, a estética e as obras artísticas tornam-se lugar de refúgio e ponto de escape diante dos problemas sociais. Por isso, não há tentativas de disputar espaços e confrontar os demais pares artistas de outros movimentos. O respeito pela tradição também fica explícito nas obras de Gustav Klimt, que, embora tragam para a cena aspectos recalcados pela cultura vitoriana do Império Austro-húngaro – especialmente ligados à liberdade feminina –, adoçam o choque com véus de beleza e mitificações de aspectos comuns.

O procedimento artístico klimtiano é modelar da sublimação, como busquei indicar no capítulo 4. Até certo ponto, a sublimação segue a lógica onírica – assim como ocorre com as soluções de compromisso sintomáticas ou com os atos falhos, por exemplo –, o que mostra sua faceta contestadora diante da ordem estabelecida, já que o desejo recalcado, que aparece condensado ou recalcado nas diferentes manifestações psíquicas, preserva elementos insubordinados em relação à Lei social. Entretanto, na sublimação, o aspecto desejante inconsciente se transveste com roupagens formais aceitas socialmente, atenuando o golpe insurgente dirigido à ordem estabelecida. Ou seja, o desejo é costurado aos valores da cultura por meio de técnicas de produções e

6. Um paralelo entre Freud e Goethe: o mito e a sublimação em

As afinidades

eletivas

A consciência, meu caro – retrucou Charlotte –, não é uma arma suficiente, sendo, por vezes, até perigosa para aquele que a maneja. Goethe, As afinidades eletivas

Citado à exaustão por Freud, Goethe é figura que simboliza as marcas da cultura alemã na obra freudiana. Ines Loureiro faz observações, em sua resenha sobre três artigos que tratam de algumas relações entre o psicanalista e o escritor (Loureiro, 1997), que considero regra daquilo que impulsiona autores contemporâneos a investigarem aproximações entre ambos. Os artigos “Sob o olhar de Goethe”, de Daniel Delouya; “Goethe e Freud”, de Henrique Honigsztejn; e “Mefistófeles no divã”, de Sérgio Paulo Rouanet, seriam, de acordo com a autora, “prova do fascínio que a formação afetiva e intelectual de Freud continua a exercer sobre analistas e estudiosos da psicanálise” (Loureiro, 1997, p. 117). Para esse estilo de abordagem do pensamento freudiano, a figura de Goethe ocupa um lugar privilegiado, principalmente em razão das profundas afinidades entre os dois autores.

7. A escrita da psicanálise freudiana: a presença do pai na ruína do patriarcado

É chegada a hora de aterrissar no estilo e na estratégia de escrita da psicanálise freudiana e observar sua relação com as fórmulas que se vinculam à sublimação. O interesse não é fazer um diagnóstico ou colocar Freud no divã. Se o método psicanalítico é utilizado para a interpretação dos episódios aqui em questão, isso se deve fundamentalmente a um interesse para aquilo que se mostra fora da subjetividade de Freud: os fragmentos de um determinado contexto sócio-histórico.

O objetivo é apontar os restos do Real que, como em Goethe, Klimt, no primeiro Hofmannsthal ou em qualquer cidadão de certa elite vienense ficam encobertos por certo estilo formal afeito ao que Freud pensou como sublimação.

Em 1899, ano em que Freud publica A interpretação dos sonhos (1900/2019), cuja recepção é decepcionante para suas expectativas, e o ensaio Sobre lembranças encobridoras (1899/2021), Karl Lueger, o populista antissemita, está no poder. Vinte anos em cargos do governo não ampliaram as bases da política em vigor. Benefícios alcançados pelo liberalismo suave restringiam-se à classe média urbana e aos judeus ascendentes. Grupos insatisfeitos e inconformados com a pífia participação política começaram a protestar e, organizados, enfrentaram

o poder hegemônico. A vitória foi confirmada com a eleição de Karl Lueger, social-cristão e antissemita convicto. Quando o imperador Francisco José i se recusou a ratificar a vitória de Karl Lueger, “Sigmund Freud, o liberal”, brinca Schorske, “fumou um charuto para comemorar o gesto do salvador autocrático dos judeus” (Schorske, 1988, p. 27). Contudo, passados dois anos, o imperador se viu obrigado a ceder e atender à vontade do eleitorado. A derrota dos liberais significou a ascensão de demagogos que imprimiram valores opostos aos do liberalismo clássico: antissemitismo, clericalismo e socialismo municipal.

Sabe-se que o exemplo analisado por Freud em Sobre lembranças encobridoras (1899/2021) é autobiográfico. O vestígio da infância traz cenários de sua cidade natal, pouco tempo antes de ele se mudar para Viena. Essas lembranças apontam para um conteúdo essencial velado por elas e ao mesmo tempo sugerido por seus elementos – como ocorre também na trama onírica. Os rastros de memória são compostos por uma pradaria, onde estão ele e seus primos, quase da mesma idade, flores amarelas e o sabor do pão com manteiga, extraordinariamente delicioso.

Usando um interlocutor fictício, Freud pergunta-se o que, nessa experiência, teria lhe exigido tamanho dispêndio de energia para que ele reconstituísse e mantivesse essa cena acesa na memória. Somente quando desvia o foco da própria imagem representada, trazendo à mente outros dois fatores que a ela se ligavam, o enigma vai aos poucos sendo solucionado.

O amarelo desproporcionalmente realçado em comparação aos outros componentes da imagem, assim como o maravilhoso gosto do pão, são os elementos que fazem desse fragmento do passado algo glorioso e cheio de promessas. Esse vestígio de memória contrasta com um presente prenhe de conflitos e dificuldades. Mais precisamente: a penosa luta pelo pão de cada dia foi o que evocou a lembrança infantil de Freud do pão exageradamente delicioso. Ou seja, o que a imagem do passado trazida ao presente traduz é a fantasia de que, se tivesse seguido mais ou menos os caminhos indicados pelo pai, teria alcançado uma

Um bordado. Transitando entre dados e personagens históricos, referências literárias e artísticas e bases conceituais da psicanálise freudiana, Alessandra Affortunati Martins tece um caminho argumentativo singular que se sustenta em um pano de fundo amplo. A partir de dois fios, a autora produz um entrelaçamento argumentativo que faz uso da psicanálise como modo de leitura, fio azul que conduz o texto e, ao mesmo tempo, em seu avesso, realiza uma leitura crítica da teoria psicanalítica, fio vermelho que permite colocar em questão algumas derivas clínicas. Nessa direção, apresenta um texto denso e coeso – um bordado com belas imagens –, que não perde sua verve crítica. A sublimação é, então, apresentada como reveladora e conciliadora da ordem instituída do mundo e como possibilidade de destruição do existente para que advenha uma criação. Caminho semelhante parece se mostrar na relação entre psicanálise e lógica patriarcal: emergindo desse solo, a psicanálise produz um mapa que revela as fraturas de seu tempo e que nos serve de guia para, talvez, construir outras possibilidades políticas e clínicas.

Suely Aires

PSICANÁLISE

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