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Sobre soltar a língua

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Amir

Os diversos capítulos deste livro contemplam as variadas realizações do aniquilamento, bem como a luta individual e coletiva pela possibilidade de redefinir, em oposição a ele, os horizontes e o campo de ação da humanidade. A linguagem em que foram redigidos conjuga uma perspectiva de observação pessoal a um olhar de ofício, talvez em uma tentativa de engendrar um testemunho que atravesse os diferentes estratos do posicionamento interno perante o insuportável; nesse sentido, busca proferir uma espécie de declaração privada de “eis-me aqui” face ao nada. O pesar está entretecido nesta obra, do princípio ao fim. Transbordante em sua intensidade e, contudo, permanecendo transparente ao olhar que o busca, ele conecta, qual fio invisível, os diferentes capítulos deste livro. Todavia, é também o pesar o que lhes solta a língua.

Sobre soltar a língua

Psicóloga clínica, psicanalista didata na Sociedade Psicanalítica de Israel e professora titular na Universidade de Haifa, onde chefia o doutorado interdisciplinar em psicanálise, dirige o mestrado em biblioterapia e coordena o programa Correntes. Poetisa e escritora, publicou sete livros de poesia, quatro de autoficção e cinco de ensaios psicanalíticos, em hebraico e inglês. Sua obra teórica e literária recebeu diversos prêmios, incluindo sete distinções internacionais, com destaque para o prestigiado Prêmio Sigourney (2025) por suas contribuições inovadoras à psicanálise.

Para Dana Amir, a língua é o veio central da alma; por ela se desenha a singularidade do sujeito e se apreende o mal que o atinge. O que a alma pode diante do trauma, o insuportável? A língua! Ao se soltar como aposta na escuta do outro, ela se estende sem direção, entregando-se às inflexões que se abrem a ela. Por vezes, mostra-se como afronta diante de uma dor lancinante, da indiferença ou de uma ofensa – recuando, resistindo, recusando, protestando, denunciando. Entretanto, pode calar e desistir quando não avista a mão do ouvido estendida em sua direção; então prefere minguar, automutilando-se. Daniel Delouya

PSICANÁLISE

Dana Amir

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Sobre soltar a língua A voz humana diante do insuportável

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Sobre soltar a língua A voz humana diante do insuportável

Dana Amir

Tradução Daniel Delouya

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Sobre soltar a língua: a voz humana diante do insuportável Título original: ‫ על הושטת הלשון‬Al hoshatat halashon © 2026 Dana Amir Editora Edgard Blücher Ltda. Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenação editorial Rafael Fulanetti Coordenação de produção Ana Cristina Garcia Produção editorial André Quirino Preparação de texto Rodrigo Botelho Diagramação Thiago Cordeiro Capa Juliana Midori Horie Imagem da capa iStockphoto

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br

Amir, Dana Sobre soltar a língua : a voz humana diante do insuportável / Dana Amir ; tradução de Daniel Delouya. – São Paulo : Blucher, 2026.

Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.

Bibliografia ISBN 978-85-212-3344-2 (Impresso) ISBN 978-85-212-3342-8 (Eletrônico – Epub) ISBN 978-85-212-3340-4 (Eletrônico – PDF)

É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.

152 p.

Título original em hebraico: ‫על הושטת הלשון‬ 1. Psicanálise. 2. Clínica psicanalítica. I. Delouya, Daniel. II. Título. CDU 159.964.2

Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.

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Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise   CDU 159.964.2

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Sumário

Apresentação

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Daniel Delouya

Prefácio - A morte da mariposa e o 7 de Outubro

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1.

Uma verdade que não é compartilhada

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2.

A esperança da testemunha

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3.

Providência do alto e providência de baixo em dias temíveis

41

Todas as línguas se sobrepõem ou transbordam umas nas outras: sobre vingança, clemência e perdão

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5.

Da dissociação pelo corpo à associação pela voz

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6.

O outro quarto do sonho e do poema

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4.

Epílogo - Sobre soltar a língua

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Referências

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1. Uma verdade que não é compartilhada

Na minha infância, pertencíamos a uma das poucas famílias judias que viviam na fronteira de Kababir, uma aldeia localizada dentro da cidade de Haifa – identificada com a comunidade islâmica de Ahmed. Quando, em 1973, irrompeu a Guerra de Yom Kippur, meu pai foi convocado entre os primeiros soldados da reserva. Naquela manhã, ainda montávamos barracas na margem do lago Kineret, em um acampamento que deveria durar do Yom Kippur até o Sucot. Meu pai inflou um bote de borracha laranja, colocou nele a nós e os filhos dos amigos de meus pais e remou conosco para o centro do lago. De repente, o céu escureceu. Não me recordo da visão dos helicópteros que meus pais perceberam imediatamente, apenas da sensação de que o azul cristalino se tornou turvo, como se fosse desabar uma chuva, e da pressa tensa com que meus pais e seus amigos embalaram barracas, sacos de dormir e caixas de mantimentos e voltaram para casa. Eu tinha 6 anos e pensei comigo mesma que o mundo que eu conhecia havia mudado sua cara. Alguns dias depois, vizinhos nossos, residentes da aldeia, apareceram à soleira da casa de meus pais e disseram à minha mãe: “Venham para nossa casa. Conosco estarão protegidos”. Ficamos com eles, alternadamente, durante algumas semanas, até que meu pai retornou. Para

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mim, a grande vitória da guerra foi, naquele momento, aquele gesto de amor (Amir, 2023c).

Amor, ódio, conhecimento O psicanalista Wilfred Bion argumenta que não é possível apreender uma experiência emocional desconectada de seu sistema de relações (1962/2004). Ele descreve três vínculos fundamentais: amor (L), ódio (H) e conhecimento (K), e suas versões negativas, marcadas com sinal de menos, que são a negação ou a distorção desses vínculos. Esses vínculos representam relações ativas, descrevendo a influência de uma pessoa sobre outra. Quando um dos vínculos negativos domina, ele ataca a capacidade de crescimento emocional, sem a qual não ocorre o desenvolvimento do pensamento e da linguagem. Quais são os vínculos negativos do amor, do ódio e do conhecimento? Ao contrário do que a intuição possa sugerir, menos amor não equivale ao ódio, assim como menos ódio não equivale ao amor. Amor e ódio são afetos íntimos relacionados entre si: geralmente odiamos aqueles cuja existência nos toca profundamente, com quem temos grande proximidade. Aqueles cuja existência não nos toca despertam indiferença, não necessariamente ódio. Amor e ódio coexistem sempre na mesma relação próxima e constituem complementaridades íntimas entre si. Em contrapartida, suas versões negativas minam justamente a possibilidade de criar um vínculo íntimo. O menos amor (-L) é uma relação com o outro que nega sua alteridade e subjetividade, um vínculo ganancioso que recusa a parcialidade, a perda e o luto. O outro amado se torna, nesse vínculo, um delírio, um objeto total que preenche tudo para não dizer que ele bloqueia tudo. Tal relação apaga, por sua própria essência, o outro singular, real, em prol de uma ideia delirante que nada tem a ver com ele (Bisagni, 2020). O menos ódio (-H) é, de certo modo, uma imagem espelhada do menos amor (-L): nele, o ódio

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2. A esperança da testemunha

Desde o 7 de Outubro, uma das manifestações mais marcantes é a infiltração incessante do inquietante (unheimlich) no íntimo do familiar, infiltração que, como Freud descreveu, caracteriza em geral as situações-limite – e que em nosso estado de limite prolongado se encarna de modo ainda mais acentuado. Ao desenvolver o conceito do inquietante (infamiliar), Freud descreve, entre outras coisas, a angústia inquietante que irrompe quando ocorre uma alteração inesperada nas regras de um gênero literário, quando algo que deveria obedecer às leis de um gênero específico passa, de repente, a ser regido pelas leis de outro. Assim, por exemplo, acontecimentos que no gênero dos contos infantis são absolutamente naturais provocam angústia inquietante quando aparecem no seio da literatura realista (Freud, 1919/2012). Não é descabido pensar no que se passou em 7 de outubro como um desvio das regras que constituem o gênero humano. Nas imagens e filmagens produzidas pelos próprios combatentes do Hamas a partir de suas câmeras penduradas em seu corpo, surgem cenas cuja crueldade ultrapassa até mesmo os cenários dos maiores pesadelos que poderíamos ter inventado, mesmo den-

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tro dos limites da imaginação de roteiros de invasão e sequestro. As regras do gênero se transformaram de modo irreconhecível: aquilo que procurávamos pensar como fora dos limites da condição humana se apresentou diante de nós como obra humana; aquilo que desejávamos tratar como um pesadelo proveniente de nosso conflituoso mundo interno revelou-se como realidade da qual não apenas é impossível invocar, mas também é insuportável acordar para dentro dela. Dori Laub (2005) investigou diferentes tipos de trauma coletivo e afirmou que para compreender o efeito desagregador da experiência traumática é necessário pressupor a presença destrutiva de derivações liberadas, não neutralizadas, da pulsão de morte. Há algo de circular nas zonas traumáticas produzidas pela ação humana: elas geram a perda traumática do objeto bom. A perda do objeto bom, por sua vez, libera forças hostis que até então estavam neutralizadas, intensificando o seu impacto. Essas forças minam, cada vez mais, os objetos bons e o vínculo com eles. Materiais traumáticos despertam angústia inquietante precisamente porque sabotam todas as nossas formas de ancoragem; desarmam-nos no sentido mais concreto e também no mais simbólico. Ou seja, nos despojam dos objetos bons de fora, nos desalojam dos objetos bons de dentro e também dos objetos do pensamento. Assim, atacam todos os nossos meios de sobrevivência e, de fato, nos mantêm como reféns.

Três elos (links) quebrados Voltando ao tema dos três vínculos (links) bionianos (Bion, 1962/2004), com que abri o capítulo anterior, quero propor, agora, que, diante de eventos-limite traumáticos como o atual, e que vem se prolongando – com suas múltiplas dimensões –, surge uma configuração singular de vínculos negativos que denomino “elos

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3. Providência do alto e providência de baixo em dias temíveis1

Numa manhã, cerca de uma semana e meia após o 7 de Outubro, eu esperava na fila de uma padaria. À primeira vista, um momento marginal, banal. Ao fundo tocava a conhecida canção de Shlomo Artzi, “Imaginem para vocês um mundo bonito, menos triste do que ele é, e lá vamos nós com o sol guardado nos bolsos, e acima dos telhados, as estrelas, e o tempo passa sem medo”. De repente senti um choro emergir – um choro que não havia emergido em todos os dias que antecederam aquela manhã. Justamente num instante vazio de intenção consciente. Um instante em que eu não escutava as notícias, não pensava em nenhum evento ou pessoa específica, fui tomada por um profundo pesar. Foi um dos primeiros momentos em que compreendi que ainda estávamos muito antes do grande enfrentamento que nos aguardava – não apenas das atrocidades que nos atingiram naquele dia e em suas consequências imediatas, mas também de suas repercussões de longo prazo, ocultas aos olhos.

1

N. T.: Este título lança mão de termos bíblicos (providência divina em contraste a vigilância do homem e dias temíveis), que traduzimos literalmente para servir às sutis nuances da autora.

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Embora já se tenha passado mais de um ano e meio, o acontecimento sobre o qual escrevo não ficou para trás. Estamos plenamente nele. O desafio da escrita é particularmente grande nessas circunstâncias, pois ela não se apoia no ponto de sustentação do a posteriori. As compreensões que alcançamos até agora não derivam da distância que a história permite; elas são escritas – estão sendo escritas – nestes exatos momentos, como um diário de pensamento vivo. Um evento traumático, por sua própria natureza, cria uma cisão entre a pessoa e si mesma. O trauma satura a consciência, excede sua capacidade de regular e conter, e por isso permanece – mesmo após sua ocorrência – sempre “não plenamente conhecido”. Essa condição de desconhecimento assume, evidentemente, diferentes formas de expressão: há quem se recorde dos detalhes factuais, mas dissociados dos sentimentos; há quem se recorde da sensação sem registro nenhum dos detalhes do acontecido; há quem perca tanto o contato com a sensação como com os detalhes do ocorrido, entre inúmeras outras variações. Vítimas de traumas massivos frequentemente sentem que o simples fato de terem permanecido vivas é, em si, uma verdadeira confirmação – e dilacerante – da banalidade da atrocidade. Não apenas o trauma em si é o foco do insuportável, mas, de modo paradoxal, também a sobrevivência para além dele. Isso é particularmente significativo em casos como aqueles que testemunhamos no coração do inferno atual: pais que sobreviveram enquanto seus filhos foram assassinados ou sequestrados; crianças que sobreviveram enquanto seus irmãos e pais não. Para alguns sobreviventes nessas circunstâncias, a escolha pela vida é um ato de traição àqueles que não sobreviveram. Por isso, um dos grandes embates, no longo prazo, é a luta pelo seu direito, e não menos pelo seu dever, não apenas de permanecer vivo, mas de viver. Um dos elementos mais traumáticos da catástrofe de 7 de outubro é a experiência contínua de abandono. Um abandono que, à

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4. Todas as línguas se sobrepõem ou transbordam umas nas outras:1 sobre vingança, clemência2 e perdão

Há cerca de três anos faleceu, após uma luta heroica contra uma doença grave, a diretora de teatro Pnina Rinzler. Entre as dezenas de homenagens publicadas nas redes sociais, uma em especial chamou minha atenção: um texto escrito pela poeta Maya Tevet Dayan, que incluía a seguinte história: Certa noite, alguém entrou pela janela do quarto de Pnina, no apartamento térreo que ela alugava, e tentou atacá-la. Ela lutou com ele e conseguiu afugentá-lo. Algumas horas depois, ele invadiu novamente a casa. Mais uma vez ela lutou – percebendo que ele estava drogado demais para reagir, exausto do primeiro confronto entre eles, inclusive ferido. Então ela lhe disse: posso chamar a polícia agora, mas isso vai arruinar a sua vida. Ele era um jovem árabe de 18 anos, vindo de uma região remota. Para que eu não chame a polícia, disse ela, você tem que me prometer que vai reconstruir a sua vida. Os dois permaneceram sentados assim, feridos e exaus-

1

Expressão de Aleksandar M. Hemon.

2

N. T.: Em hebraico o termo se aplica também a sua dimensão jurídica de anistia.

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tos, até o amanhecer, quando ele lhe prometeu que se reabilitaria e reconstruiria sua vida. “Quero que, se o mundo recordar apenas de uma coisa sobre ela, lembre-se desta história”, escreveu Maya Tevet Dayan. “Uma mulher judia que insiste em um jovem árabe – insiste na vida dele mesmo quando ele tentou feri-la. Não aceita que ele destrua a si mesmo” (2022).3 É possível pensar esse acontecimento, ocorrido cerca de um ano antes do desastre de 7 de outubro, a partir de muitos ângulos. Trata-se de um encontro carregado de dimensões de gênero, políticas e culturais. As relações de poder nele se invertem a cada instante: o estuprador potencial transforma-se, dentro da narrativa, de homem violento em jovem árabe ferido; a mulher potencialmente estuprada transforma-se de vítima em alguém que subverte as relações de poder e lhe estende a mão. O que há de belo nessa história é precisamente o movimento que nela se dá entre a cisão aparentemente inevitável entre a posição de vítima absoluta e a de agressor absoluto – e o espaço intermediário no qual cada um dos parceiros é, ao mesmo tempo, agressor e vítima. Por isso mesmo, cada um pode deslocar-se de um estado extremo, violento, que não permite diálogo, para um estado no qual há reconhecimento mútuo do sofrimento humano do qual, em alguma medida, ambos participam – ela como mulher judia, ele como jovem árabe. Essa história poderia, evidentemente, ter sido contada também ao inverso, em outras circunstâncias, com um jovem judeu e uma mulher árabe como protagonistas. Seja como for, se eu tivesse de escolher uma única história que condensasse tudo aquilo a que me proponho neste capítulo, escolheria essa história. Espero que, ao final, também fique claro o porquê.

3

https://www.facebook.com/mayatev/posts/pfbid0misZBxZRymozeXKPVaT5mqGh8SjNNoUwMPnGF4mgXBo3AD6YpiFRTc4Bydit2PsWl.

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5. Da dissociação pelo corpo à associação pela voz

Este capítulo aborda o fenômeno da dissociação somatoforme, que gera uma clivagem entre diferentes dimensões da memória traumática – ou entre a memória e o sujeito que a recorda. Embora os exemplos clínicos aqui apresentados não sejam extraídos de sobreviventes de um desastre coletivo, mas sim de sobreviventes de catástrofes privadas e diversas, o mapeamento que ele propõe entre diferentes graus do trauma é igualmente relevante para os sobreviventes do desastre atual. A dissociação é concebida tradicionalmente como um mecanismo que é, ao mesmo tempo, defensivo e adaptativo: um processo em que lembranças e sentimentos traumáticos se desconectam um do outro para serem alojados em diferentes partes da personalidade de modo a impedir que as experiências traumáticas, ou aspectos delas, penetrem a consciência (Schimmenti, Caretti, 2016). Quanto mais extrema for a experiência traumática, mais intensamente será ativado o mecanismo dissociativo (O’Neil, 2009). Diferentemente das experiências reprimidas – isto é, experiências que estiveram presentes na consciência e posteriormente foram afastadas dela –, a dissociação interrompe a experiência antes mesmo de

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ela ser registrada na consciência. Em certos casos ela desconecta a própria experiência, e em outros, a dissociação separa o eu que experiencia do eu que é o proprietário da experiência, de modo que a experiência em si é lembrada, porém sem o sentimento de autoria (por exemplo, uma vítima de agressão sexual pode recordar o acontecimento como se tivesse ocorrido com outra pessoa, ou observá-lo “de fora”, inclusive no próprio corpo atacado). A experiência dissociada é codificada de forma distinta, separada de outras experiências, e por isso não está prontamente disponível à evocação consciente pelas associações, lapsos e atos falhos que denunciam e “entregam” o recalcado para o consciente (Seligman, Naveh, 2016). Quando se trata de vivências que se repetem continuamente, elas podem acarretar uma estrutura psíquica dissociativa que divide a realidade, divide os objetos significativos e divide também a pessoa em dois – a parte saudável e a parte ferida –, fragmentando a personalidade. Tal divisão pode ser comparada ao mecanismo de autotomia da lagartixa, que abandona uma parte do próprio corpo (a cauda) ao gozo do perseguidor para poder sobreviver: um segmento é sacrificado para que o outro possa continuar vivo (Eshel, 2004). Van der Hart, Van der Kolk e Boon (1998) propõem dividir a dissociação patológica em três configurações. Na configuração dissociativa primária, a experiência traumática é processada em partes, e não como um todo integrado. Na configuração dissociativa secundária, o sujeito capta o evento, mas sem vivenciar seu pleno impacto emocional. Na configuração dissociativa terciária, desenvolvem-se identidades separadas, cada uma contendo material emocional e cognitivo inacessível, ou parcialmente acessível, às demais identidades. O que distingue a dissociação da dissociação somatoforme? A dissociação somatoforme inclui sintomas dissociativos ligados a componentes sensoriais e motores, como audição, tato, visão, fala e movimento (Othmer, DeSouza, 1985). Embora os transtornos

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6. O outro quarto do sonho e do poema

E quanto à capacidade de sonhar? E quanto à capacidade de cantar? Será que ainda nos estão guardadas, mesmo em dias desprovidos de horizonte? Pensar o sonho e o sonhar é, em muitos sentidos, um verdadeiro “papel de tornassol”, capaz de assinalar ênfases e pontos de inflexão tanto no pensamento como no trabalho psicanalítico. Itamar Levy (2023) descreve três estágios na compreensão psicanalítica do sonho, desde Freud até a atualidade: o estágio freudiano da interpretação do conteúdo latente; o estágio das relações de objeto, que concebe o sonho como um diálogo entre objetos internos e enfatiza seu uso como objeto na situação analítica; e um terceiro estágio, voltado para a investigação das operações do pensamento, da representação ou da simbolização no sonho. Esses três estágios, segundo o autor, são, na realidade, três pontos de vista sobre o sonho e o sonhar, característicos de diferentes escolas e de distintos momentos históricos. Ao longo do desenvolvimento do pensamento psicanalítico, a concepção original de Freud (1899/2007), segundo a qual a interpretação do sonho permite acesso ao inconsciente, foi progressivamente ampliada para a compreensão do sonho como algo que reflete não apenas o mundo interno dos sonhadores, mas

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também sua capacidade de sonhar em um sentido mais amplo do que o do sonho noturno. Trata-se de uma capacidade que inclui os pensamentos do sonho (Ogden, 2011), o devaneio ou rêverie (Bion, 1962/2004, 1967/2003), isto é, a possibilidade de deslocar-se do pensamento concreto e do predomínio do real e do externo para um foco no mundo interno. O presente capítulo propõe uma articulação entre essas três perspectivas sobre o sonho – o sonho como expressão do inconsciente, o sonho como campo de relações de objeto e o sonho como expressão da capacidade representacional e da forma de pensar do sonhador – examinando, simultaneamente, a correspondência entre o campo semântico e formal do sonho e o campo semântico e formal do poema. “Poesia é um sonho acordado”, escreve Ruth Netzer em seu ensaio “Sobre sonhos na literatura e na poesia” (2008). Ainda que poesia não seja sonho, assim como sonho não é poesia, existe uma estreita proximidade entre os campos semânticos e formais do sonho e do poema. Essa proximidade está relacionada, como demonstrarei adiante, a diversos parâmetros comuns: a relação entre denotação e conotação; a negação, que produz a duplicidade dos elementos do sonho e do poema; os tipos de repetição característicos de ambos; os destinatários do sonho e do poema; o borramento da fronteira entre conteúdo e forma – um desfoque pelo qual a forma encarna, em muitos sentidos, o conteúdo latente do sonho e do poema –; e a relação entre “o outro quarto” e “este quarto” do sonho e do poema, relação cujo desarranjo dá origem ao sonho falso e ao poema falso.

Denotação e conotação Uma das principais características semânticas da linguagem do sonho e da linguagem do poema é a relação entre o elemento textual e o elemento contextual. Toda palavra possui uma denotação – um

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Os diversos capítulos deste livro contemplam as variadas realizações do aniquilamento, bem como a luta individual e coletiva pela possibilidade de redefinir, em oposição a ele, os horizontes e o campo de ação da humanidade. A linguagem em que foram redigidos conjuga uma perspectiva de observação pessoal a um olhar de ofício, talvez em uma tentativa de engendrar um testemunho que atravesse os diferentes estratos do posicionamento interno perante o insuportável; nesse sentido, busca proferir uma espécie de declaração privada de “eis-me aqui” face ao nada. O pesar está entretecido nesta obra, do princípio ao fim. Transbordante em sua intensidade e, contudo, permanecendo transparente ao olhar que o busca, ele conecta, qual fio invisível, os diferentes capítulos deste livro. Todavia, é também o pesar o que lhes solta a língua.

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Psicóloga clínica, psicanalista didata na Sociedade Psicanalítica de Israel e professora titular na Universidade de Haifa, onde chefia o doutorado interdisciplinar em psicanálise, dirige o mestrado em biblioterapia e coordena o programa Correntes. Poetisa e escritora, publicou sete livros de poesia, quatro de autoficção e cinco de ensaios psicanalíticos, em hebraico e inglês. Sua obra teórica e literária recebeu diversos prêmios, incluindo sete distinções internacionais, com destaque para o prestigiado Prêmio Sigourney (2025) por suas contribuições inovadoras à psicanálise.

Para Dana Amir, a língua é o veio central da alma; por ela se desenha a singularidade do sujeito e se apreende o mal que o atinge. O que a alma pode diante do trauma, o insuportável? A língua! Ao se soltar como aposta na escuta do outro, ela se estende sem direção, entregando-se às inflexões que se abrem a ela. Por vezes, mostra-se como afronta diante de uma dor lancinante, da indiferença ou de uma ofensa – recuando, resistindo, recusando, protestando, denunciando. Entretanto, pode calar e desistir quando não avista a mão do ouvido estendida em sua direção; então prefere minguar, automutilando-se. Daniel Delouya

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