PSICANÁLISE
Jacques André
Psicanálise intempestiva Raquel Moreno Garcia Organizadora
Inclui texto inédito
Psicanálise intempestiva
Psicanálise intempestiva Coletânea de artigos de Jacques André
Jacques André
Organização Raquel Moreno Garcia
Tradução • Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz • Pedro Henrique Bernardes Rondon • Luís Maia, Hélida Magalhães e Frédéric Brighton • Victor Hugo Dresch da Silva
Psicanálise intempestiva: coletânea de artigos de Jacques André © 2026 Jacques André Editora Edgard Blücher Ltda. Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenação editorial Rafael Fulanetti Coordenação de produção Ana Cristina Garcia Produção editorial André Quirino Diagramação Thiago Cordeiro Revisão de texto Equipe editorial Capa Juliana Midori Horie Imagem da capa iStockphoto
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570
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André, Jacques Psicanálise intempestiva: coletânea de artigos de Jacques André / Jacques André ; organização Raquel Moreno Garcia. – São Paulo : Blucher, 2026. 350 p. Bibliografia ISBN 978-85-212-3376-3 (Impresso) ISBN 978-85-212-3375-6 (Eletrônico – Epub) ISBN 978-85-212-3373-2 (Eletrônico – PDF) 1. Psicanálise. 2. Teoria psicanalítica. 3. Inconsciente. 4. Sexualidade. 5. Masoquismo. I. Título. II. Garcia, Raquel Moreno. CDU 159.964.2 Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise CDU 159.964.2
Sumário
Introdução – A psicanálise intempestiva
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PARTE I
1.
O masoquismo imanente
17
2.
Eu, outro mesmo
33
3.
Corpo estrangeiro, corpo estranho
59
4.
As duas faces do ódio
75
5.
Uma psicanálise do sonho
91
6.
A dor que silencia é sempre a mais funesta
111
7.
Desamparo na civilização
123
PARTE II
8.
Entre angústia e desamparo
143
9.
Laura ou os confins sexuais da necessidade
163
10. Transferência borderline
181
PARTE III
11. Todas loucas
195
6 psicanálise intempestiva
12. Os pais
205
13. O amor no masculino
217
14. A narrow escape
231
15. O pequeno Louis e o pequeno Hans
243
16. Afinal, por que a heterossexualidade?
257
17. O mito do masculino
273 PARTE IV
18. A psicanálise em tempos de coronavírus
293
19. O consultório
299
20. A escrita do psicanalista, uma experiência singular
303
PARTE V
21. Jean Laplanche, o trabalho da obra
323
22. Masoquismo e sexualidade
341
Jean Laplanche, entrevistado por Jacques André
Introdução A psicanálise intempestiva1
A psicanálise não é, não pode ser de seu tempo. Ela não é de um outro tempo, mas de um tempo outro. Ela é anacrônica, ou melhor, retomando o termo de Nietzsche, intempestiva. Ela é, deveria ser indiferente ao espírito da época. J.-B. Pontalis, Ce temps qui ne passe pas
“Será que a vida que levo é mesmo a minha?” Essa pergunta profunda leva à análise Sébastien, homem na casa dos trinta anos. Como exerce a mesma profissão dos pais, a qual ocupa quase todo o seu tempo, ele se questiona, obstinadamente, se isso resulta de uma submissão à tradição ou de desejo próprio. O sentido da vida é tanto aquele que se dá quanto aquele que se recebe, ao menos em nossas sociedades individualistas e democráticas, isso quando o destino já não está traçado. Passada a vertigem existencial da pergunta, os mecanismos da história edípica vêm à tona infalivelmente, entre amor e ódio, fide-
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N.E.: Texto inédito, escrito por Jacques André especialmente para este volume. Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
8 psicanálise intempestiva
lidade e traição. Por mais singular que seja, a pergunta de Sébastien reúne alguns dos ingredientes comuns à vida psíquica humana. “O inconsciente da vida anímica é o infantil” (Freud), um infantil que não é o passado, mas sim o que não passa, presente imutável, sempre atual, sempre em ato, quer se trate de amar (/odiar) ou empreender. Sustentar tanto a originalidade de cada vida quanto a universalidade de seus elementos é um dos paradoxos centrais da psicanálise. Se há uma hipótese psicanalítica que irrita tanto o historiador quanto o sociólogo e o antropólogo é justamente a da atemporalidade do inconsciente. Essa atemporalidade seria aceitável se dissesse respeito somente ao regime que organiza o seu funcionamento, principalmente à coincidência entre desejar e fazer. A imagem mais evocativa dessa coincidência é a do sonhador que desperta abruptamente para escapar da faca que o seu perseguidor vai cravar-lhe nas costas. Outra ilustração, menos alucinada, é a da culpa do neurótico, sempre antecipando uma falta, quando não é oprimido pelo “crime” cometido, apesar de não ter feito nada... exceto fantasiar. Um crime imaginário que, ainda que transformado a ponto de se tornar irreconhecível, nunca carece de ligação com os dois maiores crimes: o incesto e o assassinato. O inconsciente realiza o desejo, sem demora. É outra faceta da atemporalidade que incomoda as ciências humanas: aquela que sustenta, para além das variações da história e da diversidade das culturas, a existência de um fundo comum, não da experiência humana em geral, mas daquilo que concerne aos pilares da vida psíquica inconsciente e, portanto, da psicanálise, a saber, a sexualidade e a morte. A paixão analítica pela origem diz respeito essencialmente ao indivíduo, mas transborda… do analisando ao ser humano. Em vários momentos, este livro menciona o “momento” pré-histórico do advento da sexualidade e da morte humanas, momento de ruptura em relação à vida primata. A evidência osteológica torna a hipótese da morte mais tangível. 350 mil anos é a idade da primeira sepultura de que se tem conheci-
parte i
1. O masoquismo imanente1
“Novamente o maldito problema do masoquismo!” Ferenczi deixa escapar esse desabafo em um momento (1931) em que a psicanálise, tendo atingido a maturidade, dispunha de todo o tempo do mundo para sondar o adversário. Masoquismo… é o bastante para desafiar a teoria e levar a língua, que pode tudo dizer, a dizer qualquer disparate: prazer do desprazer, por exemplo. A ameaça à prática não é insignificante, a armadilha pode ser imbatível se o sofrimento (psíquico) passar de força motriz do progresso do tratamento ao objetivo buscado. Do enigma proposto pela esfinge, Édipo encontra a palavra. Se o masoquismo é enigma tanto para Freud quanto para nós é no sentido mais radical de um umbílico tanto para a teoria quanto para a prática. As duas dimensões são indissociáveis, de modo que não se pode mais separar o masoquismo, de um lado, como um objeto que caberia à teoria compreender e, do outro, um obstáculo que caberia à prática vencer. Toda uma parte do enigma, talvez sua parte mais
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N.E.: Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
2. Eu, outro mesmo1
“Se você morrer durante as férias, como vou ficar sabendo?” A paciente, que se questiona em tom de desamparo, não espera uma resposta. Não que ela antecipe uma recusa do analista, mas sua pergunta contém em si mesma a impossibilidade de ser respondida. Trata-se de uma pergunta mais certa da perda do objeto, ou até de seu desaparecimento, do que preocupada com o mesmo. Primeira imagem, a desta paciente; primeiras palavras, aquelas da perda… Alguma coisa nela rimava com conflito e identificação, mas a ordem na qual os colocava mudava a perspectiva: era menos um conflito no âmbito das identificações do que “um conflito para o qual a identificação era a tentativa de solução”. Embora seja vaga, esta formulação indica a linha de pensamento que segui. A identificação e a experiência subjetiva da perda são inseparáveis. Na visão que nos é mais familiar desde Freud, a identificação ocasiona no Eu o reestabelecimento de um objeto que “foi perdido
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N.E.: Conferência apresentada na Jornada da Associação Psicanalítica da França em Vaucresson, dezembro de 1994. Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
3. Corpo estrangeiro, corpo estranho1
Duas sequências clínicas à guisa de introdução. Indira é uma mulher jovem que vive entre duas culturas. Ela deixou a região de Pondicherri, sua terra natal, no final do ensino médio. Ela é marcada tanto pela escola francesa e por sua educação universitária quanto por sua tradição familiar hinduísta. No que diz respeito ao amor, em contrapartida, não há divisão. Não que ela nunca tenha conhecido um homem indiano atraente, mas o simples pensamento de um ato sexual com tal homem lhe causa repulsa. Seu atual companheiro é francês, assim como os poucos parceiros anteriores. Uma cena se repetiu várias vezes: quando Indira atravessa a soleira da porta do consultório, surge uma hesitação para saber quem fecharia a porta, ela ou eu. Certo dia, em um breve momento de confusão adicional, a dança da porta nos levou a passar mais perto um do outro do que o normal. No divã, Indira associou a respeito do incidente. Ela devia ter 5 ou 6 anos e passava muito
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N.E.: Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
4. As duas faces do ódio1
“Vá se foder!” Não são só as palavras, seu conteúdo grosseiro, seu sentido sexual, por mais “esquecido” que seja. Lucas também imprime o tom, um tom de ódio. Eu acabava de comunicá-lo do imprevisto que me obrigaria a cancelar várias sessões. “Eu te amo um pouco, muito, apaixonadamente…”,2 o amor pode ser declinado, admite nuanças. Não há equivalente no ódio: “odiar um pouco” está gramaticalmente correto, mas é semanticamente vazio. Por outro lado, “odiar apaixonadamente” é quase um pleonasmo. O ódio pode certamente permanecer inconsciente, vestir a máscara reativa de seu contrário, “cobrir-se de doçura”, mas é indivisível. O amor tem atenuações, fraquezas, oscila entre amar e gostar (“love” e “like”), enquanto o ódio é sempre passional, desconhece meios-termos.
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N.E.: Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
2
N.T.: No original em francês, “Je t’aime un peu, beaucoup, passionnément…”. Referência ao jogo de “effeuiller la marguerite” (“desfolhar a margarida”), que consiste em arrancar as pétalas de uma flor dizendo, alternadamente, “bem me quer, mal me quer”.
5. Uma psicanálise do sonho1
A realidade de seu sonho, sua violência alucinatória, levou Anna ao psicanalista. Ela é uma mulher muito jovem. Foi abandonada no nascimento. A mãe biológica optou por um parto em anonimato.2 A adoção de Anna foi bem-sucedida, ela é a filha legítima de seus pais, seus pais são seus pais legítimos. A adoção plena e total ocorreu tanto no sentido psíquico quanto legal. Suas escolhas intelectuais – ela estuda arquitetura e é apaixonada por Rem Koolhaas e seu senso de inacabamento – se inserem implicitamente em sua filiação histórica. Como ocorre com toda pessoa adotada, chegou o dia de Anna investigar e encontrar o que poderia ser uma das pistas de sua origem. Um dossiê administrativo que continha um endereço. Uma carta foi enviada à sua genitora, na qual Anna expressava o seu desejo de encontrá-la. A resposta positiva não tardou a chegar, mas se reduzia a algumas palavras rabiscadas em um pedaço de papel
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N.E.: Florença, outubro de 2019. Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
2
N.T.: Na França, uma mulher grávida tem a possibilidade de optar por um parto “anônimo”, o que se convencionou chamar de “accouchement sous x”.
6. A dor que silencia é sempre a mais funesta1
“Se cruzasse com você na rua, com certeza o acharia antipático… Eu não poderia ter começado uma análise com alguém simpático.” A antipatia referida por Maeva, jovem mulher em análise, não é o ódio. O ódio mata ou destrói, a antipatia se contenta em afastar. Enquanto o ódio luta contra a irredutibilidade de outrem, o insulto da alteridade ou o narcisismo da menor das diferenças, a antipatia se contenta em manter distância; que nada toque, que nada se toque. Ela é uma alquimia em que não há mistura, uma “relação de duas substâncias sem afinidades”, a acentuação de uma indiferença. O ódio confere ao objeto uma existência absoluta, a antipatia o neutraliza. Maeva fala o tempo todo, as primeiras palavras pronunciadas coincidem com o instante em que apoia a cabeça na almofada. Ela afirma escrever sem pontuação e fala da mesma forma. Quando hesita no que vai dizer, um “mas” ou um “e” muito alongados coordenam as frases que ameaçam separar-se. O mais importante é não deixar tempo para que se estabeleça o silêncio, certamente menos para fugir do silêncio em si do que do peso da existência e da proximidade que pode dar à nossa copresença em um mesmo recinto. Maeva fala por falar. Cada uma de suas frases retoma a frase anterior. Parece ser para esclarecer, adequar o sentido, mas, no fim 1
N.E.: Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
7. Desamparo na civilização1
Aproveitando-se da degradação dos ecossistemas marinhos e da pesca excessiva, a água-viva tem se proliferado desde a década de 1980, de tal modo que se tem discutido uma “gelificação” (jellyfish) dos oceanos. A água-viva tem um futuro brilhante pela frente:2 nem o aquecimento global, nem a acidificação dos oceanos (já que ela não possui carapaça) são motivos de grande preocupação para ela. Enquanto os peixes estão morrendo devido à contaminação por fertilizantes agrícolas e à redução do oxigênio, as águas-vivas estão acostumando-se com isso. O concreto das construções em alto-mar é ideal para a fixação do pólipo, a primeira forma da água-viva jovem. E o plástico se tornou o melhor suporte para esse mesmo pólipo! A vida é boa para as águas-vivas, ainda mais que seus predadores (peixes grandes, principalmente o atum, e aves marinhas) estão se tornando cada vez mais raros.
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N.E.: Porto Alegre, março de 2024. Tradução de Vanise Pereira Dresch, Bruno Konkewicz e Victor Hugo Dresch da Silva.
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Esses dados foram extraídos de uma pesquisa do jornal Le Monde (“Nos ennemies les méduses”) publicada em seis artigos a partir de 16 de julho de 2019.
parte ii
8. Entre angústia e desamparo1
À maneira de introdução, eu desejaria aproveitar para evocar um artigo de Winnicott publicado em 1974, póstumo, portanto, uma vez que Winnicott morreu em 1971. Sabe-se que o texto desse artigo foi concebido por ele nos últimos momentos de sua vida, e tem por título “Fear of breakdown”, traduzido por “La crainte de l’effondrement” [“O temor do colapso”] (Nouvelle Revue de Psychanalyse, n. 11, Gallimard, 1975).
Breakdown Uma introdução com Winnicott, então, mas também desencontrada de sua argumentação, talvez mesmo contra ela. Suponhamos, escreve Winnicott, que paciente e analista desejem realmente ambos terminar a análise – o que dá a entender que, ao contrário do que “naturalmente” seríamos levados a pensar, está
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N.E.: Texto original: André, J., & Chabert, C. (Dir.). (2019). États de détresse, PUF. Tradução de Pedro Henrique Bernardes Rondon, para a revista Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica (UFRJ), republicada sob permissão.
9. Laura ou os confins sexuais da necessidade1
Laura vem à análise quatro sessões por semana. Atendo-a face a face, ela recusa o divã. Nada de me perder de vista, a mesma vigilância que, à noite, a impede de se abandonar ao sono acompanha cada uma das nossas sessões. Ela sabe o que é ser abandonada sobre um divã, ela que sofreu os efeitos sucessivamente angustiantes e enervantes desse abandono, durante vários anos, com uma analista mulher. Dirige a esta mulher e à sua mãe uma mesma cólera, pelas mesmas razões: frieza, distância, incompreensão, indiferença... Na poltrona, seu corpo envia mensagens de desconforto, de esgotamento, que me levaram a convidá-la a utilizar o divã ao menos como leito para repousar. Secamente me alertou que não esperasse que caísse numa armadilha tão grosseira. “Irei para o seu divã quando a análise estiver terminada.” No dia da semana sem sessão ela sente se desfazer o fio mal tecido da análise, alguma coisa nela desmorona,
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N.E.: Pádua, junho de 2006. Tradução de Luís Maia, Hélida Magalhães e Frédéric Brighton, para a revista Estudos de Psicanálise, republicada sob permissão.
10. Transferência borderline1
Chova ou faça sol, aconteça o que acontecer, Esther instala-se no divã do jeito como veio. Ela nunca se desfaz da mínima peça de roupa, como também não desmancha sua atitude, sempre a mesma: a de uma contribuição sincera e despretensiosa àquilo que supostamente a análise espera, encadeando os pensamentos e sua interpretação, os sonhos e sua tradução, remontando das lembranças à compreensão das causas. Tudo está em ordem, cada coisa em seu lugar, de acordo com a ideia da análise. “E daí?” Uma vez as coisas ditas, essas duas palavrinhas, tão banais quanto assassinas, encarregam-se de quebrar qualquer esperança, esperança de que da palavra e de seu movimento pudesse nascer outra coisa, outra maneira de ver e, por que não?, outra vida. E se não é “e daí?”, é esta outra constatação, talvez ainda mais terrível: “É interessante”.
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N.E.: Artigo publicado pela primeira vez como introdução da coletânea Transfert et états limites, organizada por Jacques André e Caroline Thompson (Petite Bibliothèque de Psychanalyse, PUF, maio de 2002). Tradução de Pedro Henrique Bernardes Rondon, para a revista Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica (UFRJ), republicada sob permissão.
parte iii
11. Todas loucas1
Homem jovem cheio de humor, Jules fala sobre um momento posterior à última sessão. Viu-se na rua, na porta do prédio, com a cabeça totalmente ocupada com a mãe, cuja loucura delirante ele havia descrito mais de uma vez. Ela acredita na Virgem Maria e no diabo – uma variante entre outras da cena primitiva – e continua a censurar o filho por sua vida de “orgia”, que, no entendimento dela, é tudo o que, na sexualidade, vai além do ato genital em posição “papai e mamãe” para fins reprodutivos. Jules: “Tive vontade de ligar para minha mãe e dizer ‘chega!’”. A ideologia contemporânea de gênero, a evolução das formas de parentalidade, o “politicamente correto” de hoje nas democracias ocidentais, todo esse movimento cultiva a esperança de uma liberdade de escolha que possibilite emancipar-se da designação de menina ou menino, mulher ou homem, mãe ou pai. Este não é o momento de reabrir o debate da psicanálise com os estudos de gênero (gender studies), nem de fazer um inventário das resistências do inconsciente, sempre muito “politicamente incorreto”, a se deixar recrutar sob a bandeira da paridade. Quer-se apenas des1
N.E.: Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
12. Os pais1
“Mas essa mudança da mãe para o pai caracteriza, além disso, uma vitória da espiritualidade sobre a ‘sensorialidade’, ou seja, um avanço cultural, pois a maternidade é demonstrada pelo testemunho dos sentidos, enquanto a paternidade é uma suposição baseada numa inferência e numa premissa.”2 Nessa frase bem conhecida, Freud faz do pai o homem da cultura, o pilar da ordem simbólica. Um pilar “relativo”, entretanto, construído pela diferenciação da mãe, com base no velho par de opostos: natureza-cultura. Do lado da mãe, a natureza, do lado do pai, a cultura; do lado dela, a geração, do lado dele, a filiação (“o filho deve ter o nome do pai e receber sua herança”) e a obediência à lei. A gravidez e o parto não deixam espaço para dúvidas: a mãe é certíssima. Quanto à pessoa com quem ela se deitou e fecundou... só Deus sabe. O recurso ao teste de DNA para certificação apenas confirma esse princípio de incerteza.
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N.E.: Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
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N.T.: Freud, S. (2018 [1939]). Moisés e o monoteísmo: três ensaios. In Moisés e o monoteísmo, Compêndio de psicanálise e outros textos (1937-1939). Obras completas, vol. 19. Companhia das Letras, p. 86.
13. O amor no masculino1
Como a assimetria entre as sexualidades do homem e da mulher se expressa nas formas de amar? À luz de alguns casos clínicos e de falas de homens, entre fantasias e angústias, tentarei especificar a arte, as maneiras e as dificuldades de um homem para amar uma mulher. Com a relativa liberação da orientação sexual em nossa época, percebemos o fato de que a heterossexualidade, embora seja norma, não é, de modo algum, um caminho psíquico ladeado de rosas. A aspereza das relações homem/mulher é comum em muitas análises. O recalque não encontra dificuldade em distinguir e até mesmo opor amor e sexualidade. O mínimo que se pode esperar do psicanalista é que ele não se submeta a essa distinção. * A mulher é perigosa, a começar pela primeira delas. De todas as determinações pelo infantil – aquelas que fazem do homem, do filho o ser afetivo e sexual que ele irá se tornar –, o amor da mãe e o amor pela mãe ocupam sem sombra de dúvidas uma posição
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N.E.: Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
14. A narrow escape1
Sade é simultaneamente um homem das Trevas e das Luzes. O homem das Trevas reivindica a liberdade para o crime; o homem das Luzes raciocina de forma totalmente lógica. Por que seria “proibido amar demais os indivíduos que a natureza nos ordena a amar mais” – por “indivíduos”, entende-se pai, mãe, irmão, irmã, filha e filho? A conclusão em forma de dedução segue por si só: “O incesto deveria ser a lei de todo governo baseado na fraternidade”.2 O panfleto “Francês, mais um esforço se você quiser ser republicano” data de 1795. É notável que Sade não seja o único a fazer do incesto uma perspectiva revolucionária. Saint-Just também o faz: “Observem os costumes, as leis dos diferentes povos. Os mais corrompidos também tinham o maior horror ao incesto; os povos inocentes não tinham ideia disso.” No entanto, há uma nuance importante entre os dois republicanos. O incesto segundo Saint-Just é um estado natural resgatado, mistura de amor e inocência, versão “Bougainville” e revolucionária do jardim do Éden, muito próxima
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N.E.: Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
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N.T.: Sade, M. de. (1999). A filosofia na alcova. Iluminuras, p. 120.
15. O pequeno Louis e o pequeno Hans1
Lévi-Strauss, Lacan, Foucault e Althusser, apelidados de “quatro mosqueteiros” do estruturalismo, reinaram sobre a vida intelectual francesa durante as décadas de 1960 e 1970. A influência dos três primeiros, ainda muito lidos e comentados, não diminuiu, mas o quarto caiu em um quase esquecimento. Como se sua “impostura”, a qual tanto temia que viesse à tona, tivesse finalmente vencido. Com seu implacável autodesprezo, Althusser afirmava: “Sou conhecido pela minha fama”. Resta um livro, de longe o mais lido: L’avenir dure longtemps,2 simultaneamente uma grande obra autobiográfica, o retrato de uma época e um testemunho sobre a melancolia. Não a melancolia leve, mas a melancolia profunda e perigosa, que flerta com a morte e acaba entregando-se a ela. Althusser se tornou famoso não por ter escrito Pour Marx, que todos os adolescentes de esquerda de Maio de 1968, inclusive eu, conheciam de cor antes de esquecê-lo completamente, mas por ter assassinado sua mulher em uma noite de novembro de 1980.
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N.E.: Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
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Althusser, L. (2007 [1992]). L’avenir dure longtemps. Stock / IMEC.
16. Afinal, por que a heterossexualidade?1
“Quando a criança nasce, surgem inevitavelmente duas perguntas: É menino ou menina? Como se chama? Pergunta dupla em sua forma mas única em seu propósito, pois a nossa identidade depende da resposta.” Faz muito pouco tempo, essa observação de J.-B. Pontalis tinha o acento do sentido comum e do que não pedia explicação. Isto já não ocorre. A notícia foi dada pelo jornal Toronto Star seguida de uma entrevista com o pai do menino. O menino recebeu o nome de Storm, e o que aconteceu em seguida foi proporcional a esse começo tempestuoso. Lembremo-nos daqueles pais já de longínqua época em que a interrogação religiosa constituía ainda um desafio familiar, e que decidiam não batizar seu filho a fim de conceder-lhe liberdade de crença e de postergar a decisão até o momento em que pudesse se decidir com maturidade. Os pais de Storm tinham também sua bíblia, mas esta já não é a mesma: os estudos de gênero são seu novo testamento, permanentemente a postos na cabeceira. Eles explicam a seus amigos que a não menção do sexo do recém-nascido não se deve a um esquecimento; na verdade, eles querem deixar à criança a plena capacidade de optar, na devida hora, pela “orientação” que ela escolha!
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N.E.: Porto Alegre, 2014.
17. O mito do masculino1
Por que escolher este paciente, que chamarei Mathieu, para iniciar esta conferência sobre o mito do masculino? Primeiramente, porque ele é um homem tanto dos dias de hoje quanto de todos os tempos, isto é, um homem tão atual quanto “mítico”. Aos quarenta anos de idade, ele é socialmente muito poderoso: ocupando a segunda posição na direção de um fundo de investimento mundial no início do tratamento, ele se torna o número 1 durante a análise. Mathieu é tão rico quanto poderoso, dirige uma Ferrari, joga golfe nos lugares mais prestigiados e frequenta a loja maçônica mais influente. Seu físico reflete o personagem, é como uma sequoia ou um lenhador canadense. Um falo em pé. Ele é casado e tem dois filhos. Sua esposa passa a vida com seus cavalos e se tornou sua melhor amiga. Eles não têm mais relações sexuais. Nada predispunha esse homem a frequentar várias vezes por semana o divã de um psicanalista. Totalmente orientado para a ação e a tomada de decisões, habituado a resolver problemas com
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N.E.: Porto Alegre, março de 2024. Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
parte iv
18. A psicanálise em tempos de coronavírus1
“Você está me ouvindo?” Estas poucas palavras pronunciadas pelo paciente numa sessão por telefone resumem por si só a hesitação da psicanálise durante os dois meses do confinamento. As mesmas palavras ditas por um analisando no divã abririam dois caminhos possíveis para a escuta do analista, conforme as indicações fornecidas pela transferência: acolher em silêncio ou interpretar o que é dito. A primeira opção significa “respeitar” a angústia, que certamente tende a paralisar a vida psíquica, mas não é só isso. A angústia também possui uma dinâmica que a põe sempre em busca daquilo que a alimenta, primeiro motor da “livre” associação. Ela tenta representar a si mesma, e, no melhor dos casos, um afeto nu se torna “uma longa história”. A segunda opção se baseia no fato de que as palavras pronunciadas naquele dado momento expressam uma intensidade transferencial, uma presença em ato (de fala) do inconsciente, palavras de carne e um analista que encarna uma figura de sempre: uma mãe que 1
N.E.: Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
19. O consultório1
“Eu bem que me mudaria para o seu consultório… poderíamos ter nosso próprio consultório.” Mas também: “Seu consultório é de um mau gosto inacreditável”. Embora não tenha se tornado parte do vocabulário psicanalítico, cabinet,2 em francês, pelo menos tem o mérito, entre o gabinete do banheiro e o gabinete de curiosidades, passando pelo gabinete negro,3 de ser uma mina para as associações livres. O primeiro consultório da psicanálise, o consultório histórico, é o de Freud; primeiro em Viena e, depois, transportado para Londres. Entre o divã muito oriental, coberto de tapetes e almofadas, e a quantidade de estatuetas, principalmente egípcias, o lugar em que Freud atendia não era muito diferente de um gabinete de
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N.E.: Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
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N.T.: Em francês, “cabinet” pode ser traduzido como “escritório”, “consultório”, “gabinete”, “sala”, entre outros. O autor faz um jogo de palavras valendo-se dos diferentes sentidos do termo.
3
N.T.: “Cabinet noir” refere-se a um escritório, na França, onde oficiais estatais liam cartas de pessoas suspeitas antes de encaminhá-las para os destinatários.
20. A escrita do psicanalista, uma experiência singular1
Para o psicanalista, questionar-se sobre sua escrita da psicanálise apresenta uma inversão parcial de perspectiva: sem deixar de ser o analista daquilo que ele tenta pensar, torna-se também o analisando; simultaneamente autor e objeto. Toda escrita certamente expõe aquele que a ela se dedica, mas isso não anula a originalidade desse movimento reflexivo singular que convida a observar o próprio gesto. Por que escrevo, por que escrevo dessa forma, por que esses temas mais do que outros retornam regularmente na minha escrita? Quer se ame ou se odeie o resultado desse retorno a si mesmo, em ambos os casos é o narcisismo que está no comando. Exercício narcísico é, portanto, um qualificativo, quase um “palavrão”, do qual não é tão fácil se livrar. Catherine Matha, Françoise Neau e J. F. Chiantaretto insistiram, após uma primeira recusa da minha parte, para que eu participasse deste colóquio. É possível que essa gratificação de prazer narcísico agrave ainda mais o meu caso.
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N.E.: Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
parte v
21. Jean Laplanche, o trabalho da obra1
Seria impossível para mim dissociar uma reflexão crítica sobre a obra de Jean Laplanche das numerosas conversas e discussões que tivemos juntos, desde o início dos anos 1980 até algum tempo antes de sua morte. O ano de 1980 é aquele período tão fecundo das problemáticas, que consagram a obra de Jean Laplanche como referência obrigatória na paisagem da psicanálise francesa. É o tendo como orientador de doutorado que me dirijo a ele; meu tema de pesquisa diz respeito aos conflitos familiares e assassinos nas sociedades negras das Antilhas (André, 1987). Até 1986, data da minha defesa de tese, é sob o signo dessa relação universitária que se desenrolam nossas trocas. Todos aqueles que participavam do seu seminário de pesquisa recordam-se da qualidade crítica das elaborações, principalmente do trabalho a que era submetida a obra de Freud.
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N.E.: Tradução de Vanise Pereira Dresch, com revisão técnica de Suzana Deppermann Fortes, para a Revista de Psicanálise da SPPA, republicada sob permissão.
22. Masoquismo e sexualidade1 Jean Laplanche, entrevistado por Jacques André
Jacques André: O movimento de generalização que você propõe para a teoria da sedução, com base no primado do outro, isto é, o primado do inconsciente do outro adulto que se infiltra nos gestos de cuidado desde os primórdios da vida, traz consigo o masoquismo, um masoquismo que se torna, por assim dizer, coextensivo da sexualidade humana: o movimento do recalque, constitutivo da fantasia inconsciente, com a excitação associada – a pulsão –, só pode ser vivido, como você diz, de modo masoquista, na medida em que o ataque à pulsão, o ataque ao eu pelo corpo estranho interno que é a fantasia inconsciente, só pode ser vivido de forma dolorosa por um eu passivo, violado. Minha primeira pergunta, então, é: em que medida esse movimento de generalização se diferencia daquele proposto por Freud, na segunda parte de sua obra, que consiste em afirmar o caráter primário do masoquismo em relação ao sadismo, após Freud ter defendido o contrário por tanto tempo?
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N.E.: Lanzarote, julho de 1999. Tradução de Vanise Pereira Dresch e Bruno Konkewicz.
“‘O inconsciente da vida anímica é o infantil’ (Freud), um infantil que não é o passado, mas sim o que não passa, presente imutável, sempre atual, sempre em ato, quer se trate de amar (/odiar) ou empreender. Sustentar tanto a originalidade de cada vida quanto a universalidade de seus elementos é um dos paradoxos centrais da psicanálise. Por não ser atemporal, resta à psicanálise ser intempestiva. Se há uma qualidade necessária para ser psicanalista, é certamente a da plasticidade psíquica, a mesma que permite viajar psiquicamente a lugares desconhecidos, ser de todas as cores e de todos os sexos, à altura das loucuras propostas pela transferência: um dia, Deus ou seu profeta; no outro, animal doméstico. O inconsciente é atemporal, mas a psicanálise não. Uma de suas condições de existência é precisamente a possibilidade de pensar. Ninguém pode prever o futuro da psicanálise. As nuvens ameaçadoras têm origens diversas, desde a destruição do par indivíduo-democracia, o reinado dos totalitarismos político e religioso, até o regime dominante da rapidez e da rentabilidade, que não poupa o espaço da psicologia. Sem contar, ainda, que a psicanálise tem um lado que representa ‘um pássaro do mau agouro’: em vez de só falar de angústia, sofrimento, autodestruição, morte, desespero, sexualidade deletéria, por que não ‘deixar para lá’ e falar de vida bem-sucedida e de amor-próprio?” PSICANÁLISE