Psicanálise e Relações Internacionais
Série Relações Internacionais
Paula Sandrin
Psicanálise e Relações Internacionais
Série Relações Internacionais
Coordenador Prof. Agripa Faria Alexandre
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Psicanálise e Relações Internacionais
© 2026 Paula Sandrin
Editora Edgard Blücher Ltda.
Série Relações Internacionais
Coordenador Agripa Faria Alexandre
Publisher Edgard Blücher
Editor Eduardo Blücher
Coordenador editorial Rafael Fulanetti
Coordenadora de produção Ana Cristina Garcia
Preparação de texto Maurício Katayama
Diagramação Guilherme Salvador
Revisão de texto Samira Panini
Capa Juliana Midori Horie
Imagem da capa iStockphoto
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Segundo Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, março de 2009.
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Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570
Sandrin, Paula Psicanálise e relações internacionais / Paula Sandrin. – São Paulo : Blucher, 2026.
176 p. – (Série Relações Internacionais / coord. Agripa Faria Alexandre)
Bibliografia
ISBN 978-85-212-2210-1 (Impresso)
ISBN 978-85-212-2211-8 (Eletrônico – Epub)
ISBN 978-85-212-2212-5 (Eletrônico – PDF)
1. Relações internacionais. 2. Psicanálise. 3. Psicanálise nas Relações Internacionais. I. Título. II. Série.
CDU 327::159.964.2
Índices para catálogo sistemático: 1. Relações Internacionais CDU 327
Apresentação
Psicanálise e Relações Internacionais (RI), à primeira vista, parecem disciplinas com poucos pontos de contato: a primeira lidaria com indivíduos e suas patologias em um contexto clínico; a segunda, com as relações entre diversos tipos de atores e/ou estruturas em um contexto global. No entanto, a psicanálise não pode ser resumida a um conjunto de técnicas terapêuticas individuais. Pelo contrário: esse campo do saber, ao enfatizar processos sempre sociais de constituição de sujeitos e as dimensões inconscientes e afetivas da vida sociopolítica, fornece um conjunto de teorias e conceitos valiosos para a compreensão da política global contemporânea. Neste livro, iremos discutir a relevância e a utilidade de conceitos psicanalíticos, como inconsciente, fantasia e jouissance para três áreas cruciais das RI: a Economia Política Internacional, a Análise de Política Externa e a Segurança Internacional. Isso será feito a partir de um diálogo com
alguns dos principais autores das RI que vêm mobilizando abordagens psicanalíticas, principalmente lacanianas, em suas investigações. Nesse percurso, discutiremos como a psicanálise pode nos ajudar a entender o apelo e a persistência de políticas de desenvolvimento internacional diante de fracassos recorrentes, bem como do capitalismo neoliberal em um contexto de crescentes desigualdades e crise climática. Investigaremos também aspirações e cursos de ação de países do Sul Global no sistema internacional, em particular aqueles aparentemente irracionais ou obsessivos. Por fim, veremos como conceitos e abordagens psicanalíticas nos ajudam a entender dimensões fundamentais da Segurança Internacional, em particular os ganhos psíquicos e afetivos advindos da construção constante de ameaças de segurança.
Introdução As fronteiras porosas entre Psicanálise e Relações Internacionais
Psicanálise e Relações Internacionais (RI). A princípio, esses dois campos do saber não teriam como conversar. A psicanálise, enquanto corpo teórico e prática clínica, lidaria com a vida psíquica de indivíduos. As RI, enquanto disciplina, estudariam as interações entre atores internacionais – Estados-nação, organizações internacionais (OI), organizações não governamentais internacionais (ONGI), corporações transnacionais, grupos armados não estatais etc. – no sistema internacional. Esses dois campos do saber, portanto, trabalhariam com domínios e escalas muito distintos. Enquanto a psicanálise voltaria sua atenção para o interior dos indivíduos, as RI olhariam para a interação entre coletividades, ou representantes de coletividades, em uma esfera global. Além disso, essas disciplinas partiriam de pressupostos incomensuráveis. Enquanto a psicanálise implode a noção de sujeito racional, que tomaria decisões com
base em cálculos de custo-benefício, as RI, ou pelo menos suas vertentes teóricas mais influentes, partiriam do pressuposto de que os atores internacionais – sejam eles Estados, empresas, grupos terroristas – sempre buscam maximizar seus interesses, definidos de forma objetiva. A fronteira entre psicanálise e RI, portanto, seria intransponível. No entanto, essa história é mais complexa. Nem a psicanálise nem as RI se encaixam perfeitamente nas descrições mencionadas. As fronteiras entre as duas disciplinas são muito mais porosas do que supõe o senso comum. Aliás, fronteiras constituem um objeto de investigação fundamental tanto para a psicanálise quanto para as RI. Para estas últimas talvez isso seja mais claro. Fronteiras estatais, fronteiras entre povos, fronteiras invadidas, fronteiras porosas, atravessadas por bens, serviços, capitais, drogas, terroristas, migrantes, forças armadas, ideias, normas: tudo isso foi e ainda é uma preocupação central das RI. Mas a psicanálise, como vamos ver, também se preocupa com fronteiras, individuais e coletivas. Mais especificamente, ela se preocupa em entender a constituição e os efeitos, inclusive psíquicos, dessas fronteiras. Para a psicanálise, a fronteira entre o indivíduo e o mundo ao redor é construída e sustentada com muito custo, e está sempre ameaçada de se romper. No que diz respeito à disciplina de RI, desde a década de 1980, os muros que a separavam de outras disciplinas têm sido rompidos.
Capítulo 1
Psicanálise e Economia
Política Internacional
Iniciamos nosso percurso sobre as possíveis intersecções entre Psicanálise e Relações Internacionais explorando um domínio específico das RI: a Economia Política Internacional. Em particular, iremos explorar como abordagens psicanalíticas nos permitem apreender excessos, contradições e irracionalidades das políticas de desenvolvimento internacional, do capitalismo neoliberal e de políticas de desenvolvimento sustentável em um contexto de crescentes desigualdades e de crise climática. Para isso, partimos de algumas perguntas: Por que, apesar de décadas de iniciativas de desenvolvimento internacional promovidas e implementadas pelo Norte Global, a pobreza persiste no Sul Global? Por que essas próprias políticas de desenvolvimento internacional continuam a ser promovidas, apesar de fracassos recorrentes e evidentes? Por que o capitalismo neoliberal perdura, apesar de ser alvo de tantas críticas, intensificadas a partir da crise de 2008? Por
que determinadas iniciativas para mitigar a crise climática não funcionam, mas ainda assim continuam a ser propostas? Em suma: Como é possível que certas políticas perdurem em face de críticas e fracassos recorrentes?
Existem inúmeras respostas possíveis para todas essas perguntas, mas a psicanálise parece particularmente apropriada para respondê-las, porque nos oferece insumos conceituais e teóricos para apreender a insistência em práticas que sabemos que não funcionam. Um conceito particularmente útil aqui é o de denegação, que descreve um processo de reação a realidades traumáticas, difíceis de suportar e elaborar. Na denegação, a realidade é aceita (no caso, que o desenvolvimento internacional não tem reduzido a pobreza, que o capitalismo neoliberal gera desigualdades e destruição ambiental, que as “soluções” propostas para a crise climática não estão funcionando), mas o seu significado é minimizado (Weintrobe, 2013, p. 7). “Denegação é uma admissão e negação simultâneas, ou um estado de ‘meio-saber’, que opera de acordo com a fórmula ‘Eu sei muito bem, mas ainda assim...’” (Žižek, como citado em Fletcher, 2018, p. 66, tradução própria). A denegação, em vez de negar completamente um problema (do desenvolvimento, do capitalismo, das falsas soluções climáticas), envolve uma tendência de rapidamente propor soluções sem investigar seriamente as suas origens complexas e potenciais obstáculos
Capítulo 2
Psicanálise e Análise de Política Externa
Análise de Política Externa (APE) é uma das principais subdisciplinas das Relações Internacionais. Historicamente, ela investigou o processo de tomada de decisões de política externa, seus componentes burocráticos e também pessoais e psicológicos, incluindo o papel de grupos de pressão e lobbies domésticos, atores governamentais e privados, mídia e opinião pública (Allison, 1971; Jervis, 1976; Mearsheimer & Walt, 2008). Mais recentemente, a pesquisa nesse campo tem se concentrado em tradições nacionais de política externa e culturas diplomáticas, nos efeitos de discursos de identidade em política externa e memórias coletivas, na maneira como autorrepresentações impactam nas opções e na implementação da política externa e, inversamente, como ações de política externa constantemente reconstituem autorrepresentações (Campbell, 1998; Dittmer & McConnell, 2017; Hansen, 2006).
A psicanálise tem muito a oferecer para esse campo de estudos. Não porque se propõe a analisar a psiquê dos tomadores de decisão – uma tarefa impossível –, mas porque parte da premissa de que qualquer sujeito – incluindo um formulador de política externa – é constituído a partir da socialização em um contexto social e internacional que o precede e para o qual contribui. Assim como não precisamos entrar na mente de operadores do desenvolvimento internacional para acessarmos o inconsciente do desenvolvimento, não precisamos tentar deduzir as “verdadeiras motivações” por trás de decisões de política externa tentando entrar na mente de diplomatas. Podemos fazer sentido de ações de política externa observando a “superfície do discurso e das práticas de política externa”, bem como estudando as transformações e continuidades dos contextos – materiais, discursivos e afetivos – nos quais decisões de política externa são tomadas. Neste capítulo, vamos ver como a psicanálise pode nos ajudar a entender a contínua busca por status e reconhecimento no sistema internacional por parte de três países: Brasil, Turquia e Índia. Vamos ver como os contextos nos quais esses países emergiram enquanto Estados soberanos – contextos hierárquicos marcados pelo racismo, no qual foram desvalorizados e inferiorizados – continuam a influenciar suas aspirações e cursos de ação no sistema internacional, inclusive aqueles aparentemente irracionais ou obsessivos.
Capítulo 3
Psicanálise e
Segurança
Internacional
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, na abertura da reunião de chanceleres do G20, grupo que reúne as maiores economias do mundo, realizado no Rio de Janeiro em fevereiro de 2024, fez um discurso no qual afirmou que “não é minimamente razoável” que o mundo gaste mais de US$ 2 trilhões (R$ 9,97 trilhões) todos os anos com despesas militares, enquanto os desembolsos para a Assistência Oficial ao Desenvolvimento permanecem estagnados em torno de US$ 60 bilhões (R$ 296,17 bilhões), e os países não conseguem alcançar o compromisso de US$ 100 bilhões (R$ 493,62 bilhões) anuais para combater as mudanças climáticas, previstos no Acordo de Paris (Barini & Guimarães, 2024, p. 19).
Se esses gastos estratosféricos com segurança não são razoáveis, por que são mantidos? Uma resposta possível seria que eles persistem porque são necessários. Afinal, no tempo
presente, uma multiplicidade de ameaças de segurança parece proliferar: atentados terroristas, guerras intra e interestatais, guerras híbridas, ataques cibernéticos, entre outras.
Estudos tradicionais de segurança argumentam justamente isto: países gastam muito com segurança porque é preciso se proteger de ameaças. Essa seria, afinal, a principal função do Estado. Um dos teóricos mais influentes de RI, Kenneth Waltz (1979), em seu livro Theory of international politics (Teoria da política internacional ), argumentou que, em estruturas anárquicas, marcadas pela ausência de uma autoridade a quem se possa recorrer para resolver conflitos de forma pacífica, como é o caso do sistema internacional, as unidades – no caso, os Estados – só podem contar com elas mesmas para garantir sua sobrevivência enquanto entidades autônomas. Para garantir esse objetivo – a preservação da soberania –, os Estados acumulam poder, aumentando suas capacidades econômicas e militares, criando e fortalecendo alianças e/ou enfraquecendo alianças rivais. Ao acumular poder, os Estados acabam ameaçando, mesmo que não intencionalmente, outros Estados, que, por sua vez, respondem acumulando poder. Isso faz com que a guerra, ou a ocorrência de violência, seja sempre uma possibilidade no sistema internacional. E ajudaria a explicar os gastos exorbitantes com segurança. No entanto, há pelo menos vinte anos (início deste século XXI), uma corrente chamada “estudos críticos de segurança”
Considerações finais
A psicanálise não é apenas uma técnica terapêutica para ajudar a processar e elaborar sofrimentos individuais.
Tampouco é um campo do saber restrito ao Ocidente, com expoentes exclusivamente ocidentais, aplicável somente a contextos ocidentais. A psicanálise é continuamente revista a partir de encontros com outras circunstâncias. A partir dessa constante revisão e reelaboração, ela pode nos ajudar a analisar questões sociais e internacionais mais amplas, em especial aquelas aparentemente inexplicáveis.
A psicanálise é útil em particular para fazermos sentido da persistência de situações que supostamente não deveriam persistir, seja porque parecem irracionais, contraproducentes ou desprazerosas, porque geram sofrimentos e violências, porque já sofreram inúmeras críticas, porque não funcionam, porque recorrentemente fracassam. Ela nos ajuda a entender situações que parecem não ter razão de ser ao
direcionar nosso olhar para dimensões afetivas, muitas vezes inconscientes, que subjazem a situações inexplicáveis, e ao nos fornecer vocabulário, conceitos e ferramentas analíticas para investigá-las. Ela nos mostra que se algo ruim, errado, absurdo ou surpreendente persiste é porque está trazendo algum benefício – e, muitas vezes, esse benefício não é necessariamente político ou econômico. Na verdade, aquilo que se ganha pode até ser prejudicial a ganhos políticos e econômicos, mas é tão carregado afetivamente que se torna difícil de abrir mão. O fio condutor dos três capítulos deste livro foi justamente este: os ganhos psíquicos, muitas vezes inconscientes, de persistir naquilo que é danoso ou deletério em muitos aspectos, seja para nós mesmos, enquanto indivíduos e grupos, seja para os outros.
No Capítulo 1, tentamos responder por que práticas de desenvolvimento internacional persistem apesar de críticas, fracassos e escândalos recorrentes. De forma similar, indagamos por que o capitalismo neoliberal, tão criticado por aprofundar desigualdades e minar as condições de vida de uma parcela significativa da população mundial, é tão resiliente. Também investigamos por que falsas soluções para a crise climática continuam a ser propostas quando é amplamente sabido que não funcionarão na escala e velocidade necessárias para manter a temperatura do planeta abaixo de 1,5 °C. No caso do desenvolvimento internacional, apresentamos
O que a Psicanálise tem a dizer sobre as Relações Internacionais (RI)? A resposta, surpreendentemente, é: muito. Ao centralizar as dimensões inconscientes e afetivas da vida sociopolítica, a psicanálise fornece conceitos valiosos para a compreensão da política global contemporânea. Este livro demonstra a relevância e a utilidade de conceitos psicanalíticos como inconsciente, fantasia e jouissance para três áreas cruciais das RI: a Economia Política Internacional, a Análise de Política Externa e a Segurança Internacional. Seu fio condutor é a ideia de que podemos entender melhor a persistência de práticas aparentemente irracionais das relações internacionais ao focarmos nos ganhos psíquicos, muitas vezes inconscientes, de persistir naquilo que é danoso ou deletério.
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