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O que faz o psicanalista

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O QUE FAZ O

PSICANALISTA

No vértice da experiência emocional

O que faz o psicanalista

No vértice da experiência emocional

O que faz o psicanalista: no vértice da experiência emocional

© 2026 Antônio Carlos Eva; Evelise de Souza Marra (organizadora)

Editora Edgard Blücher Ltda.

Publisher Edgard Blücher

Editor Eduardo Blücher

Coordenação editorial Rafael Fulanetti

Coordenação de produção Ana Cristina Garcia

Preparação de texto Lígia Alves

Revisão de texto Equipe editorial

Diagramação e capa Thiago Cordeiro

Imagem da capa Helena Lacreta

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil

Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br

Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.

É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.

Todos os direitos rweservados pela

Editora Edgard Blücher Ltda.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570

Eva, Antônio Carlos

O que faz o psicanalista : no vértice da experiência emocional / Antônio Carlos Eva ; organizado por Evelise de Souza Marra. – São Paulo : Blucher, 2026.

368 p. : il.

Bibliografia

ISBN 978-85-212-2939-1 (Impresso)

ISBN 978-85-212-2938-4 (Eletrônico – Epub)

ISBN 978-85-212-2941-4 (Eletrônico – PDF)

1. Psicanálise. 2. Clínica psicanalítica. 3. Psicanálise e sexualidade. 4. Psicanálise e psicoterapia. 5. Transferência (Psicologia). 6. Contratransferência (Psicologia). 7. Psicanálise contemporânea. I. Título. II. Marra, Evelise de Souza.

CDU 159.922.7

Índice para catálogo sistemático: 1. Psicologia infantil CDU 159.922.7

PARTE I o psicanalista eva

1. O desafio de pensar sobre psicanálise (2004) 25

2. Alguns elementos para a prática da clínica psicanalítica no analista que sou (2004) 45

3. Alguns parâmetros que procuro seguir, em busca de ser psicanalista (2008) 55

4. Da clínica às teorias possíveis (2009) 63

5. As teorias que sustentam nossa clínica (2010) 77

6. Nossas psicanálises (2012) 83

7. Atitude psicanalítica (2018) 87

PARTE II

clínica: “a experiência psicanalítica é um fim em si”

8. “Em uma sessão estou interessado naquilo que não sei” (2016)

9. Descrições e comentários (1979)

10. Duas aproximações

11. Lembranças do trabalho clínico (2012) 153

12. Tradição-invenção (2012)

PARTE III

temáticos

13. Transferência e contratransferência (1989) Antônio Carlos Eva e Julio Frochtengarten 173

14. Psicanálise: cura ou investigação (1992)

15. Continente e conteúdo (♀♂)

16. Psicanálise: evolução e ruptura (1996)

17. Psicanálise, psicoterapia & afins (1999)

18. Transformações e Sonhos (1999)

19. Psicanálise e sofrimento psíquico (2005)

20. Pacientes de difícil acesso (2011)

21. Psicanálise e sexualidade

22. Eu, psicanalista, e o coronavírus (2020)

23. Modo presencial e modo online (2022)

24. O número de vezes

25. Pensar e pensamento

PARTE IV

o psicanalista e a instituição sbpsp: conversas psicanalíticas

26. Conversas Psicanalíticas: apresentação José Lopes das Neves Neto 293

27. Documentos iniciais 297

28. Ao longo do tempo (2005-2016) 301

29. Experiência emocional: impressões sobre as Conversas Psicanalíticas de agosto de 2005 309

30. Sonhos – comentário: Conversas Psicanalíticas (2006) 313

31. Pensamento-não pensamento: Conversas Psicanalíticas (2006) 317

32. A singularidade da teoria de cada psicanalista e sua consequente aplicação clínica (2008) 323

33. Conversas Psicanalíticas sobre teoria e prática (2008) 329

34. Conversas Psicanalíticas: comentário a “Ato de fé” (2016) 335

PARTE V

entrevista ao jornal de psicanálise da sbpsp (2000)

35. Entrevista com Antônio Carlos Eva, analista didata e membro efetivo da SBPSP 343

Lista de abreviações e sinais usados nos textos deste livro 367

1. O desafio de pensar sobre

psicanálise (2004)

Escolho a palavra desafio para esta comunicação pois me parece ser a emoção central que experimento diante da tarefa que assumo. A tarefa torna-se bastante difícil quando penso em Bion como estímulo maior para pensar e escrever sobre psicanálise. Entendo que Bion não nos propõe sermos, à sua imagem e semelhança, bionianos, mas, isto sim, propõe que cada um seja ele mesmo, o mais verdadeiro e espontâneo que possa ser, no trabalho clínico, uma situação propícia para isso; e na vida como um todo, onde as possibilidades de sermos autênticos estão mais limitadas, pelo próprio ambiente social, que criamos, estabelecemos e mantemos. Procurarei fornecer alguns estímulos ou entradas para aproximar o tema da influência de Bion em meu trabalho psicanalítico e que sejam linguagem de êxito, para os leitores e especialmente para mim mesmo. Uso inúmeras palavras em itálico, com a intenção de chamar a atenção do leitor de que se trata de um uso pertinente ao vocabulário psicanalítico, particularmente articulado com a obra de Bion. Fiel ao conceito de transformações, sei que as uso de modo particular e pessoal, guardando, tenho a esperança, alguma semelhança com o uso corrente psicanalítico. Em função disso, não as arrolarei

2. Alguns elementos para a prática da clínica psicanalítica no analista que sou (2004)

1. A meta da clínica psicanalítica, como a vejo e procuro praticar, está em fazer aproximações variadas em busca de sermos únicos e, consequentemente, sós. Para a descoberta e a aceitação essencial, estamos sós. Contamos com a nossa curiosidade e o consequente desenvolvimento de pensamentos, em ambiente propício. A sala de análise é um ambiente propício para tal movimento.

2. É provável que um dos interesses básicos dos analisandos seja ter-se dado conta de que há alguma coisa presente e pessoal não conhecida, e que pode surgir de tempos em tempos e em circunstâncias variadas. Há algumas indicações de que posso ser diferente e melhor do que me percebo no cotidiano, ou em acontecimentos específicos da vida. Posso admitir e desconfiar de alguma fraude que conto ou exibo para mim e apresento para os outros. Começo a questionar a minha convicção de que sou invariavelmente bom, inteligente, amoroso, disponível para ajudar eficientemente os outros. Em outra dimensão, posso indagar e querer entender por que me faltam tais condições. Tentar ou certamente esclarecer estas descobertas novas

3. Alguns parâmetros que procuro seguir, em busca de ser

psicanalista (2008)

As teorias psicanalíticas implícitas e explícitas no trabalho clínico

Para individualizar a questão do analista em ação, tomo para exemplo ecos do meu trabalho clínico. Na medida do possível, partindo do singular, tentarei explicitar unidades maiores, que englobem grupos de analistas e, quem sabe, abranjam dimensões teóricas.

Vou começar, então, pelo que me parece mais fácil e palpável. Meu local de trabalho, concretamente constituído por uma sala, que precisa ser e estar confortável para mim. Dentro deste pressuposto, imagino que também pareça confortável para o outro. Mas de que maneira está o outro na minha sala é uma questão em aberto, com outras influências e que não depende essencialmente ou estritamente do que lhe ofereço. A apreciação que tem o outro do que lhe ofereço faz parte de um outro reino. O reino do outro, onde não tenho trânsito livre ou direto.

É do meu interesse, como psicanalista, observar o outro no seu reino, fazer conjecturas imaginativas de quem é ele, de como está, ali comigo etc.

4. Da clínica às teorias possíveis (2009)

O título pode sugerir que temos carência de teorias para nossa clínica. Não penso assim. Creio que em Psicanálise há inúmeras teorias fortes e internamente organizadas. Acontece que nenhuma delas tem a capacidade de se impor às demais como mais bem construída, a ponto de ofuscar todas as outras. Padecemos, isso sim, de uma dificuldade de escolha unitária de teoria. Oscilamos entre elas, movidos por forças desconhecidas. Há excesso de teoria e escassez de uma delas suficientemente forte para tornar-se central. Há um hábito, estabelecido há muito tempo, de se filiar as teorias psicanalíticas, fortes, consistentes e verdadeiras à sua origem clínica. Poderemos, já de início, esmiuçar e questionar este hábito, pois vai nele o pressuposto, ou pré-conceito, de que é possível conhecer a clínica em si, sem a participação ativa e influenciadora de quem a examina. Provavelmente, este modo de admitir a clínica pura e a teoria pura dela decorrente é um legado do início da Psicanálise, na medida em que as origens ocorreram no final do século XIX e início do século XX, e correspondem ao modelo científico em vigor, bem como refletem a visão de mundo dominante à época.

5. As teorias que sustentam nossa clínica (2010)

Nesta apresentação, pretendo alicerçar as dimensões de teoria e clínica, em busca das articulações que as sustentam. A ideia central é a de que clínica e teoria interagem continuamente, de modo a garantir e preservar a coerência e continuidade de cada uma delas. Esta sintonia fina tem como um dos objetivos afastar a ameaça de que haja só teoria ou só clínica, afastar o perigo de que uma delas tenha se distanciado completamente da outra, ignorando-a por inteiro.

O grupo psicanalítico da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo), amplo e heterogêneo, terá, seguindo a ideia central, uma teoria e uma clínica que possam ser compartilhadas por todos nós. Serão gerais e genéricas, postulando essas dimensões, e só. Se olharmos o currículo de nosso instituto e, mais ainda, as atividades que os numerosos grupos de estudo desenvolvem, poderemos perceber que temos subdivisões, que criam nichos e núcleos, onde subgrupos da SBPSP se instalam, estudam, progridem e, na dimensão conceitual, compartilham um conjunto de ideias, que os define. O grupo maior, a SBPSP, engloba e dá contorno a cada grupamento, de modo a que esse faça parte do todo, que é a nossa Sociedade.

6. Nossas psicanálises (2012)

Algumas considerações teóricas para nos dirigirmos às clínicas que praticamos.

1. Penso ser consenso entre os membros da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo que as teorias que fabricamos e utilizamos não dão conta da complexidade humana, quer do homem moderno, ou pós-moderno, quer da complexidade desde que o homem se humanizou. Nenhuma das teorias pode criar, por definição, limites próprios, dentro dos quais se insere a personalidade humana. É bem provável que todas as psicanálises assim procedam. Desde Freud, quando este nos informa de sua ideia teórica de que o Inconsciente é, por lema, impossível de ser conhecido no seu todo, já aí encontramos uma definição essencial de nossa teoria. Ela é um produto do humano, é parte do ser humano.

2. Penso que todas as psicanálises atuais se declaram levando em conta – de modo forte e essencial – a emoção presente na sala de análise. As diferenças das teorias psicanalíticas atuais estão centradas na maneira como se toma a emoção presente na sala. A articulação das áreas de pensamento, não pensamento,

7. Atitude psicanalítica (2018)

No presente escrito, procuro valer-me da minha trajetória como psicanalista. Usarei esta dimensão para apontar como vejo os elementos que importam na minha teoria e prática. Trata-se, pois, de uma atitude pessoal, única, que se vai desenvolvendo com o passar do exercício clínico e teórico em Psicanálise, os quais estão intimamente ligados e interinfluenciáveis.

Proponho que o encontro dessa atitude psicanalítica é consequência de inúmeros fatores, quase infinitos, de alguns dos quais vou me aproximando, e me afastando de outros que já foram próximos e úteis. Tentarei descrever alguns deles, na medida em que minhas forças mentais o permitirem.

Pretendo realizar um ensaio, tal como descoberto por Montaigne, em que conclusões fortes e definitivas não estão presentes. Espero que o que escrevo sirva como estímulo para o patrimônio psicanalítico de cada um de nós.

Faço isso porque, acima de tudo, a atitude psicanalítica é um todo em andamento, que didaticamente contém uma parte estável, central, que influencia e é influenciada continuamente por fatores ligeiros e leves, que aparecem no dia a dia, quer na dimensão

8. “Em uma sessão estou interessado naquilo que não sei”1 (2016)

O atendimento clínico psicanalítico que pratico centra-se em participar e comentar a experiência emocional presente na sala, “O” sala de análise, utilizando o ângulo, vértice, ou transformações que aplico ao “O” sala de análise.

“O” sala de análise é uma teoria científica que afirma que ele (“O”) está sempre presente e que é, por hipótese, inacessível à dupla analista-analisando: está apenas à disposição, para um ou ambos, nas dimensões alheias ao pensamento, ou seja, nas dimensões representadas por alucinações e assemelhados. Divido didaticamente o conjunto da experiência emocional psicanalítica presente em área de pensamento ≤≥ não pensamento (psicótica), que são intercambiáveis, para dar conta, fundamentalmente, da presença de desconhecido incômodo ou doloroso.

Compreendo a ação psicanalítica conforme o conjunto de propostas feitas por Bion em sua longa vida, mas ao mesmo tempo diferenciando-me delas, pela maneira particular e pessoal como as entendo. Nesse aspecto, vejo-me estacionado no vértice que me

1 Bion. Cogitações, p. 222, δ3.

9. Descrições e comentários (1979)

Aqui estão descrições e comentários para minha apresentação à Sociedade. Pretendo que constituam uma oportunidade para trocar ideias a respeito de trabalho analítico e valham, portanto, como convite à discussão.

Para tal, esforço-me por descrever e comentar aspectos do que vivo com Maria. Sei que, para o essencial da experiência analítica, estamos irremediavelmente sós. O que apresento, nesta oportunidade, é um jogo que faço com algumas descrições e comentários que privilegiei por vários motivos, um deles, por me parecerem fomentadores de discussão.

Nesta oportunidade, quero agradecer a Isaías Melsohn, meu analista, aos supervisores Laerte Ferrão e Virgínia Bicudo, bem como ao “grupo de Bion” (Anibal Mezher, Julio Frochtengarten, Lorival de Campos Novo e Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho) a ajuda em meu desenvolvimento pessoal, que cada um propiciou à sua maneira. Sem eles, certamente este momento de minha vida não se concretizaria.

Finalmente, ao Cecil José Rezze, meu agradecimento por ter aceitado comentar o trabalho.

10. Duas aproximações

Um pretexto para escrever sobre psicanálise (1987)

Um fragmento da “Vida” sem a “Doença”

Maria (A) – Eu estava pensando na sala de espera que, desde que eu comecei aqui, eu piorei, a angústia aumentou muito. Parece que quando eu estava sozinha eu podia me virar melhor…

Quando entro aqui, então, é um terror… fico muito aflita, angustiada…

Eu (1) – Eu vejo que você está percebendo que aqui comigo as coisas não estão saindo como era seu desejo. Na minha opinião, você me atribui um papel de melhorar a sua angústia, cuidando de você, protegendo, descobrindo ou antevendo suas necessidades, e não está sendo assim… Agora, eu estou de acordo com você de que aqui você parece bem aflita, neste momento.

Maria (A) – Sabe que lá fora com as pessoas não está dando para disfarçar mais… Elas percebem que eu estou sozinha, triste, e querem se intrometer na minha vida, e eu não suporto intrusos; aí já sabe, eu elimino mesmo, ponho a quilômetros de distância. É muito contraditório… Eu não entendo!

11. Lembranças do trabalho clínico (2012)

Apresento uma lembrança de meu trabalho clínico, descrevendo alguns movimentos que me parecem significativos para uma troca de ideias a respeito da clínica psicanalítica.

Não será jamais excessivo destacar o fato de que são memórias que se armazenaram em mim. São, portanto, seletivas ao se formarem e seletivas também ao serem agrupadas e reproduzidas por mim. Resultam, ainda, de uma seleção anterior, que foi feita por mim, ou, direi melhor, em mim, pela atenção e percepção que pude dedicar ao evento clínico.

Farei algumas expansões a partir do que chamo “imaterial clínico” em direção às teorias psicanalíticas, e, quando possível, destacarei possíveis passos que medeiam uma área e outra.

Sou o responsável pelo que surge adiante como descrição de uma conversa em meu trabalho clínico. Nunca é demais dizer, também, que não é uma descrição de como é a pessoa com quem tive tal conversa: é tão somente a impressão que restou em mim depois de me defrontar com ela. Imagino que tais restrições sejam dirigidas, em primeiro lugar, a mim; secundariamente aos leitores. Tais advertências são de utilidade limitada, pois pretendem

12. Tradição-invenção (2012)

Apresento duas vinhetas clínicas para discutir o par tradição-invenção dentro do vértice da experiência emocional psicanalítica, vivida pelo par na sala de análise, distinguindo-as das intervenções que não se valem do vivido no momento do encontro.

Como ponto central, escolho a formulação de Bion, que propõe que a Clínica psicanalítica se ocupa da experiência emocional presente e desde que caiba, ou se filie, às teorias psicanalíticas que utilizamos, validadas por nós como abstrações provindas principalmente da prática observacional.

Farei uma primeira discriminação, ao me aproximar da experiência emocional presente na sala, dizendo que privilegio sua função na junção-disjunção do par. Se a junção se fizer com pouco ou nenhum espaço entre os dois impossibilita a troca, superpomo-nos, ou nos confundimos. Caso se abra, em termos de disjunção, um espaço “quase infinito”, esse também dificulta ou impede que tenhamos pontos permeáveis para troca. Bion tratou desta questão dizendo que se faz necessário um território comum, formado pelas duas transformações que analista e analisando fazem do “fato” ou do “O comum”. O território comum será a área de intersecção das

13. Transferência e contratransferência (1989)

A reflexão sobre Transferência e Contratransferência levou-nos a reunir textos de teoria psicanalítica e flagrantes de experiências de nossa prática diária de psicanálise, quer como analistas, quer quando nos encontramos na situação de analisando.

Este esforço, que resultou neste escrito, caracteriza-se por ser inacabado, esboçar caminhos, conter algumas incongruências; reflete, talvez, a disposição de sermos úteis, um ao outro, neste desvendar psicanalítico. Um dos fatores que nos parece presente neste caminho é que temos uma visão da psicanálise com aproximações, que são resultantes deste exame mútuo que fazemos. Temos, certamente, incontáveis divergências quanto ao “homem psicanalítico” que, no entanto, não são suficientes para impedir um trabalho comum.

O texto que apresentamos tem a intenção manifesta de servir de base para estimular pensamentos a respeito da compreensão que cada um dos leitores tem a respeito de psicanálise e especificamente de Transferência e Contratransferência.

Dentro do binômio Transferência-Contratransferência, escolhemos a Contratransferência como interesse central, pois nos pa-

14. Psicanálise: cura ou investigação (1992)

Procurarei, inicialmente, delimitar o campo psicanalítico proposto no título: Psicanálise: cura ou investigação.

Vou ao Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa com a esperança de encontrar instrumentos que me auxiliem na tarefa de marcar limites e características deste campo. Em relação à cura sou orientado para as acepções que se ligam à medicina. Assim, cura é o restabelecimento da saúde ou o meio de debelar a doença, ou, ainda, o processo preventivo para manter a saúde.

Apresenta-se, pois, com caráter médico o binômio saúde/ doença, que será um dos vizinhos importantes de nosso território em exame. Se me filiar à psicanálise como um ramo especializado da medicina, deverei enfrentar, por consequência, a definição de psicanálise como processo de tratar e curar as doenças mentais, bem como dos processos preventivos para manter e desenvolver saúde mental. Já retorno a esta acepção.

A conjunção ou que se apresenta entre cura e investigação mostrou-se, para mim, de surpreendente utilidade para encaminhar o tema proposto. O dicionário registra três acepções. A primeira é de ou no sentido de alternativa e exclusão. Ou sim, ou não. A escolha do sim exclui o não. Se psicanálise for definida como curativa

15. Continente e conteúdo (♀♂)

Trata-se de par amplamente usado por Bion para explicitar seu modo de conceber a vida mental. Desde 1959, em seu artigo “Ataques ao vínculo”, Bion teoriza a respeito das vicissitudes entre continente e conteúdo.

Há, didaticamente, a possibilidade de examinarmos o conjunto continente-conteúdo, em primeiro lugar, como um modelo de abstração para as realizações psicanalíticas. Em outra vertente, podemos examiná-lo como um dos Elementos de Psicanálise (1963).

Enquanto modelo de abstração, Bion, por vezes sem conta em seus trabalhos, examina e exemplifica os diversos caminhos que a relação entre continente e conteúdo pode tomar. É elemento central para a teorização do desenvolvimento mental. Quando continente e conteúdo estão adequados um ao outro, através de um vínculo comensal, dá-se a condição essencial para crescimento e desenvolvimento do vínculo entre os elementos psicanalíticos, o que irá tornar a personalidade cada vez mais complexa e criativa, para se haver com as questões mentais que se apresentam durante toda a vida. O modelo continente-conteúdo aparece inicialmente em 1959, quando Bion examina a relação do bebê com o seio, den-

16. Psicanálise: evolução e ruptura (1996)

Primeiro esboço

Venho propondo para discussão, nos grupos que frequento, a ideia de que nem a teoria nem a prática psicanalítica que exercemos podem ser modificadas em um aspecto particular, isoladamente. Tão logo um dos aspectos ou componentes, como faço agora, recebe uma nova dimensão, quer apenas em quantidade, quer, ainda mais, em qualidade modificada, um rearranjo de todo o campo psicanalítico se impõe. Nem sempre estamos atentos, observo em minha prática, para reestudar as consequências de uma nova formulação isolada. Por vezes, as reverberações que se vão dando levam tempo para se apresentar, ou, o que dá no mesmo, para serem percebidas mais completamente. A presença de Bion, entre nós, é bom exemplo deste efeito a longo prazo.

Dou como modelo ou metáfora desta ideia-proposta o jogo de xadrez, onde cada movimento de peça implica uma atualização do plano geral de jogo, bem como das previsões para os próximos lances. Este modelo simples talvez sirva para alcançarmos a enorme repercussão que teremos certamente no conjunto de elementos, que estão no jogo psicanalítico, a cada mudança em nossa teoria e prática.

17. Psicanálise, psicoterapia & afins (1999)

Pretendo, com este texto, discutir o tema Psicanálise e Psicoterapia pois esta me parece uma questão sempre presente e de difícil resolução no mundo psicanalítico. Acrescento o & afins, pois penso haver interesse em separar áreas que são estrangeiras às psicoterapias, incluindo aí psicanálise. Talvez o sentido do movimento seja: psicanálise quer se distinguir de psicoterapias e estas, dos afins.

Procurei ler alguns artigos relacionados ao assunto. Tento a seguir, usando minha trajetória como terapeuta, dar um depoimento pessoal.

A partir das leituras, rapidamente confirmei uma impressão forte que já tinha. É impossível traçar um limite objetivo, preciso e universal entre psicanálise e psicoterapias, ainda que se trate de psicoterapias de inspiração ou base psicanalítica. Esta impossibilidade está baseada em vários fatores, alguns dos quais creio ser possível comentar.

Há um interesse grande, da parte do psicanalista, em declarar-se como tal. Ser psicanalista e exercer psicanálise estão no topo do prestígio, enquanto psicoterapeuta. Ter feito formação, especialmente na SBPSP, ligada à IPA, fornece uma identidade de psicanalista, que não deve ser confundida com ser simplesmente psicoterapeuta.

18. Transformações e Sonhos (1999)1

Aqui estou eu, metido nesta encrenca sem fim… Afinal, o que é uma Transformação?

Deus poderia me ajudar e iluminar minhas ideias para eu encontrar uma forma de escrever, de comunicar este sentimento que vai aqui dentro… É uma onda do mar… Vai e vem… Agora estou vendo várias, com a espuma branca, ao sol.

Impossível, menino… É mais fácil a água do mar caber no buraco que está cavado na areia à sua frente e que o menino de roupa azul tenta encher com a garrafinha d’água…

Quem falou? Ah, fui eu mesmo. Estou meio dormindo e sonhei. A imagem eu já conheço, usei num trabalho… Anchieta,

1 N.E.: Por questões editoriais, as duas vozes e a elaboração foram dispostas sequencialmente. No original, Antônio Carlos Eva organiza o material em duas colunas: na primeira, destacados em estilos distintos, estão os pensamentos e imaginação em diálogo; na segunda, a elaboração teórica dessa vivência. A disposição original representa o espectro, a indivisibilidade, e não a sequência.

19. Psicanálise e sofrimento psíquico (2005)

Sofrimento psíquico, avalio, é conceito central para a psicanálise, na medida em que procuramos em nosso dia a dia clínico estar diante dele e sempre que possível construir um instrumento de competência para a clínica, lugar onde o sofrimento psíquico se apresenta e é notado.

Será bastante difícil fazer uma discriminação entre sofrimento psíquico, dor mental, frustração, angústia e ansiedade; na medida em que pudermos discriminá-los iremos fazendo isso, sem, no entanto, esquecer que formam um todo central e essencial em psicanálise.

Apontarei para discussão que nem sempre foi assim. No início da psicanálise, quando Freud era seu único clínico e teorizador, a dor psíquica não se apresentava com a importância essencial que apontamos e que constitui, hoje, uma unanimidade nos arcabouços teóricos psicanalíticos, por mais discrepantes e mesmo contraditórios que possam ser estes arcabouços a respeito de outros temas de nossa especialidade.

20. Pacientes de difícil acesso

(2011)

A proposta contida no título nos encaminha à clínica, ponto de partida para examinar a questão e, a partir dela, fazer comentários teóricos que deem conta de seus alicerces e fundamentos.

Não há clínica psicanalítica que não se depare, no dia a dia, com as dificuldades para o exercício do trabalho prático, dificuldades que oferecem oportunidade para a feitura de trabalhos científicos variados.

Alguns desses trabalhos, por realçarem a dificuldade intitulada “pacientes de difícil acesso”, fazem-nos pensar e propor alguma luz para esclarecer o que está contido no título. Tomarei como ponto de partida algumas ideias presentes em trabalho anterior (1987) e farei, a seguir, aproximações com a clínica psicanalítica atual, como a entendo.

A ideia de casos de difícil acesso, quando examinados sem levar em conta a personalidade de quem os examina, nos faz considerá-los como dotados de uma estrutura própria de personalidade, que os impossibilita de tirar proveito da Psicanálise como um todo. Foram chamados de pacientes de difícil acesso (PDA). É preciso assinalar, a seguir, que as teorias de personalidade intrapsíquicas

21. Psicanálise e sexualidade

Experimento um constante estado de alerta, ligado ao tema, no qual procuro encontrar um modo e conteúdo que permitam uma aproximação do assunto “Sexualidade”.

Os preparativos para apresentar aqui o tema “Psicanálise e Sexualidade” levaram-me, fundamentalmente, a deixar em suspensão o conceito do que é sexualidade em psicanálise. Juntei alguns ângulos ou vertentes, antes esparsos, que me pareceram interessantes como pré-requisitos para o tema.

Enumero apenas algumas destas junções, sem querer esgotá-las.

1. Sexualidade em Psicanálise abrange áreas de interesse que são maiores e que, necessariamente, cobrem a área sexual mais restrita, estabelecida pelo senso comum, grupal e social. Tudo o que for sexual em sentido comum está contido no interesse da Psicanálise por sexualidade, mas não só. Há algo mais, no geral inadvertido ao senso comum.

2. Uma das discrepâncias refere-se ao início da atividade ou ação sexual, já descrita por Freud, no início do século passado, que se dá na infância e não na maturidade do aparelho genital de macho e fêmea, esta sim ocorrendo na puberdade.

22. Eu, psicanalista, e o coronavírus (2020)

Uma andorinha não faz verão: uma pequena e fragmentada história. Depoimento de um psicanalista que escolheu o não atendimento a distância.

Em fevereiro de 2020, fiquei sabendo que o coronavírus estava no Brasil, em São Paulo, e ameaçando a SBPSP.

Suspendemos duas reuniões que iriam iniciar nossa programação científica de 2020: “Supervisões de Bion” e “Conversas Psicanalíticas”. O vírus se fazia presente.

Tentei começar o grupo de alunos, no curso eletivo sobre “Aprender da Experiência”, que iria coordenar, mas os alunos não vieram, avisados pela nossa SBPSP, que acabou com as reuniões presenciais.

Sobrou-me, como atividade psicanalítica, o trabalho que estava fazendo no consultório. Penso hoje que tinha a esperança de que a covid não chegasse lá, mas estava chegando.

Rapidamente precisei responder para mim mesmo como era o coronavírus para mim. Saber sobre mim é um bom começo para estar com o outro.

Sem grande exame sobre meus sentimentos e pensamentos sofisticados, respondi a mim mesmo que tinha condições para continuar

23. Modo presencial e modo online (2022)

Quero apresentar algumas ideias em torno do modo presencial e do modo online, que estão sendo usadas na clínica psicanalítica atual.

Quando, diante da pandemia, se descobriu como fazer para atender em Psicanálise a distância, utilizando várias formas de encontro não presencial, a Psicanálise criou um modo novo para exercer a clínica, respondendo eficientemente ao impedimento do modo presencial.

Uma primeira grande pergunta que me ocorre é: O que se passa entre psicanalista e analisando que permite manter a clínica psicanalítica em atividade, mesmo a distância, com a intermediação de telefone, celular ou computador, que permitem ao menos usar som e, mais ainda, som e imagem?

Inicialmente juntamos pandemia e procedimento a distância como forma de manter em funcionamento a clínica psicanalítica. Passado algum tempo, o método a distância foi-se separando da existência da covid, isto é, foi-se ampliando e seus usos crescendo sem parar.

24. O número de vezes

Origens destas ideias

As discussões de que tenho participado deixam-me a impressão de que as investigações dos determinantes da frequência das sessões semanais não foram conduzidas levando-se, como principal consideração, o método psicanalítico. Por vezes, parecem prevalecer fatores de sobrevivência clínica, outras vezes questões de política regional ou internacional turvam a possibilidade de chegar a algum esclarecimento utilizando fatores da prática psicanalítica.

O tema frequência de sessões só poderá ser examinado a partir de um contexto mais amplo, que chamarei de método psicanalítico. Ele fará parte de um conjunto de elementos que criam os alicerces do trabalho analítico. Mas também penso que está rondando esta investigação a política psicanalítica que determina o que está de acordo com o método e o que não faz parte dele. E, nisto, os padrões da IPA desempenham papel fundamental. Nem poderia ser diferente, na medida em somos Sociedades componentes da IPA.

25. Pensar e pensamento

Parte 1 – Pensamento e Pensar

Inicio fazendo uma síntese do que encontrei no capítulo 26 do Aprender com a experiência, livro publicado por Bion em 1962. Com esta síntese pretendo organizar didaticamente a área de C/K, que é onde se dá o pensar e os pensamentos.

Bion declara que a questão é simplificada se os “pensamentos” forem considerados anteriores, epistemologicamente, ao pensar, que o pensar terá de ser desenvolvido como um método, ou aparelho, para lidar com os “pensamentos”.

Fundamentalmente, os pensamentos podem ser evitados, ou modificados, ou usados como parte da tentativa de evitar ou modificar alguma coisa. Quando os pensamentos são sentidos como acréscimos de estímulos então podem ser semelhantes, ou idênticos, a elementos β, e como tal serão tratados por descarga motora e uso da musculatura para efetuar a descarga.

Nesta dimensão, falar pode ser considerada potencialmente como duas atividades diferentes: 1. como modo de comunicação de pensamentos, e

26. Conversas Psicanalíticas: apresentação

A vinda de Bion em 1973 a São Paulo causou um forte impacto em certos grupos de analistas e psiquiatras daquela época, cujas ressonâncias são sentidas até os dias atuais.

Naqueles anos, uma mudança profunda ocorria no modo de assistir o “doente mental”: procuravam-se novos meios de acolhê-los em hospitais gerais, bem como fornecer condições aos familiares para integrá-los ao meio social-familiar. Bion foi precursor em Londres do estudo desses métodos no início da década de 1940.

A formação de vários grupos de analistas desta Sociedade interessados em aprofundar seus conhecimentos sobre as ideias e métodos preconizados por Bion na observação e suas consequências epistemológicas voltadas aos cuidados oferecidos aos indivíduos portadores de distúrbios mentais precedeu a formação do grupo “Conversas Psicanalíticas” em 2004.

Diante desse caldo cultural existente naquele período, emerge Antônio Carlos Eva, que desde sua época de psiquiatra no HCSP, atento às necessidades e dificuldades ao cuidado desses indivíduos e dos grupos, foi acumulando experiências na condução de grupos que lidavam com essa temática – o que resultou na experiência e

27. Documentos iniciais

28. Ao longo do tempo (2005-2016)

Convidamos membros e candidatos de nossa Sociedade para frequentar um grupo de estudos, mensal, a se iniciar no dia 19 de março de 2005, no horário das 11h às15h, na sede Cardoso de Melo.

O grupo de estudos, agora proposto, procura dar sequência a quatro reuniões científicas realizadas no terceiro trimestre de 2004:

16 de outubro de 2004 – Transformações e Transferência. Estímulo elaborado por Evelise de Souza Marra e grupo coordenado por Antônio Carlos Eva.

6 de novembro de 2004 – Reflexões sobre Psicanálise, Mitos e Realidade Psíquica. Estímulo criado por Celso Antônio Vieira de Camargo, sendo o grupo coordenado por Antônio Carlos Eva.

20 de novembro de 2004 – Teoria das Transformações: Uma Mudança de Paradigma? Estímulo feito por Celia Fix Korbivcher e discussão coordenada por Antônio Carlos Eva.

4 de dezembro de 2004 – O Fato Selecionado: Um Produto de Ideias Esparsas e Iluminadas ou Um Conceito Psicanalítico Epistemologicamente Fundamentado? Estímulo

29. Experiência emocional: impressões

sobre as Conversas Psicanalíticas de agosto de 2005

Começarei esta sinopse das minhas impressões dizendo que ao final da reunião tivemos dois depoimentos sobre a necessidade de ter paciência, no correr das conversas, para suportá-las, pois o rumo que aparecia não era o esperado, ao menos pelas testemunhas. Deduzo daí que dentro do eixo egoísmo ↔ socialismo foi possível caminhar com respeito e tolerância suficientes para conversarmos. Salientaram, ainda, que ter paciência foi salutar para acompanharem o caminho iniciado e trilhado pelo grupo das conversas psicanalíticas, ainda que não se aproximasse do esperado.

Ao escrever isso, me ocorre que há uma semelhança ou aproximação com o que se passa na experiência psicanalítica. A troca de ideias, participar das emoções presentes necessitam de um espaço (metafórico) que, de um lado, não esmague ou triture o acontecimento emocional e, de outra parte, não se expanda indefinidamente, sem limites, perdendo qualquer contorno para apoio. Pergunto se paciência não será um dos componentes necessários para que se instale o que chamamos situação analítica.

No correr das conversas psicanalíticas surgiram várias aproximações para o conjunto Experiência Emocional oferecido.

30. Sonhos – comentário: Conversas Psicanalíticas (2006)

Sonhos

O presente comentário tem por objetivo indicar alguns dos caminhos que trilhamos após a leitura do estímulo Sonhos, feito pela colega Rosa Worcman.

O estímulo, abrangente, apresentou desde os sonhos históricos e famosos, cujo método de trabalho era a identificação de sinais significativos prevendo acontecimentos futuros, até sonhos abordados com método, melhor dizer, com métodos psicanalíticos. Duas vertentes podem ser esboçadas:

1. As várias possibilidades de trabalhar, na sessão psicanalítica, com os sonhos relatados como memórias de acontecimentos durante o sono.

2. As várias possibilidades de entendimento para sonho em psicanálise, que deságua em conceitos novos – por exemplo, atividade sonhante – agora não mais confinados a acontecer, exclusivamente, durante o sono.

31. Pensamento-não pensamento:

Conversas Psicanalíticas (2006)

O texto que se segue tem por função fazer ligação entre a discussão que tivemos em junho último, a partir do texto “Preconceito”, elaborado pelo colega Cláudio Castelo Filho.

Ao final da reunião, estávamos empenhados em delimitar um instrumento conceitual confiável para discriminar as áreas de pensamento e não pensamento.

O desencadeante da busca de tal instrumento é uma citação às páginas 5 e 6 do estímulo, que reproduzo a seguir:

Impossibilidade de contato com as próprias emoções e ausência da condição de pensar. Um exemplo do Livro das Mil e Uma Noites

Em uma das histórias do Livro das Mil e Uma Noites, recentemente traduzido do árabe por Mamede M. Jarouche (Ed. Globo, 2005), um homem confessa ter assassinado sua esposa e relata como isso aconteceu. Diz que ela estava muitíssimo doente e ele, no desespero de ajudá-la, disse estar disposto a qualquer sacrifício para atender uma solicitação sua. Ela, que estava acamada e muito fraca, manifestou o desejo de comer

32. A singularidade da teoria de cada psicanalista e sua consequente

aplicação clínica (2008)

Desde outubro de 2005, nosso caminho foi-se moldando, a cada reunião, pela apresentação de um estímulo pessoal, curto, ou mais ou menos curto, na dependência do apresentador.

Estamos convencidos de que o trajeto que realizamos até o presente momento foi impulsionado e favorecido pelo espaço grande em tempo e oportunidade que reservamos para a discussão do texto apresentado. Sinteticamente, direi que, a partir do texto e indo além dele, fomos nos conhecendo e arriscando-nos a apresentar protoclínicas e prototeorias, para conversarmos.

Apresento a ideia de que a experiência emocional presente é o que baliza a discussão de nossas Conversas Psicanalíticas. Parte de nosso grupo de analistas tem se mostrado interessado (quase) exclusivamente em que destino dar à experiência apresentada na sala de análise e relatada no estímulo. Outra parte do grupo toma a experiência emocional vivida na sala por cada um de nós, como preâmbulo orientador para um caminho em busca de raízes, origens ou desencadeantes preexistentes, para reuni-los com a experiência vivida no presente, procurando dar-lhe um todo novo, harmônico e concatenado.

33. Conversas Psicanalíticas sobre teoria e prática (2008)

Genericamente, aborda-se aqui o vértice clínico do analista, suas teorias encarnadas, os becos escuros em que entramos e, por vezes, os becos sem saída que se apresentam.

A teoria

Destaco os seguintes aspectos:

O centro do trabalho clínico do analista é dirigido à experiência presente no encontro psicanalítico. Aqui, como estamos acumulando experiência, podemos dizer que o conceito de “experiência emocional” tem realizações bastante variadas em cada um de nós, quer em sua presença e extensão, quer na identificação e nomeação das qualidades dos componentes atribuídos à mesma.

Didática, ou genericamente, podemos nos dividir em dois grupos maiores, por um “corte” identificado por mim. Um dos grupos propõe que a experiência emocional, tanto quanto um batimento cardíaco, inicia-se antes do nascimento biológico e só desaparece com a morte do biológico. Com esta base, a missão central do ana-

34. Conversas Psicanalíticas: comentário a “Ato de fé” (2016)

Parte I

Terminadas as “Conversas Psicanalíticas” de setembro de 2016, onde nos valemos do estímulo de Mayer Snitcovsky: Ato de Fé –Epílogo ou Continuidade, e na ausência de interesse dos presentes em criar um estímulo para outubro, vi-me, na condição de coordenador das Conversas Psicanalíticas, diante do seguinte dilema: fazemos as “conversas” de outubro sem estímulo prévio, o que constitui um modo radical de funcionamento grupal, ou apresentar um novo estímulo, de modo menos radical. Optei pelo segundo caminho, avaliando que a encruzilhada em que nos encontramos e de onde partem caminhos como experiência emocional – afinal o que é? e elementos de psicanálise, onde podemos acrescentar novos elementos como foram sugeridos, como ato de fé, prazer autêntico, e onde também haverá a possibilidade de retirarmos alguns elementos, como EP≤≥D ou continente-conteúdo; pois eles mostram uma faceta de mecanismos úteis para caminhar na grade, e menos de elementos de psicanálise. Parte, também, dessa encruzilhada um caminho que apresenta a oposição entre o campo de C(K) versus o campo de O. Este último par C(K) X O me remete a um comentá-

35. Entrevista com Antônio Carlos Eva, analista didata e membro

efetivo da SBPSP

Realizada no dia 6 de agosto de 2000.

Participaram:

Belinda Mandelbaum, Luciana Estefno Mennucci e Regina Weinfeld Reiss.

Jornal: Gostaríamos que você nos falasse da sua formação, das fontes da sua busca em relação à psicanálise, dos pontos de inflexão. Você veio da psiquiatria, do psicodrama, e gostaríamos de saber quais foram as influências, sobre seu pensamento, da análise, das opções de sua formação. Qual é hoje o seu projeto de analista? O que você considera importante para formar um analista?

Eva: Não sei por que fui fazer medicina. Provavelmente porque não me sentia atraído nem por engenharia, que era a grande opção em relação à medicina, nem pelo Direito, Letras… Parecia um caminho meio natural. É como ser psicanalista, um mistério, você vai, parece que sabe para onde vai, e vai indo. Sou da turma de 1962, no quarto ano comecei a trabalhar em hospital psiquiátrico e já era uma escolha. Ser psiquiatra parecia uma vocação, e fui indo. Parece que é um rio que vai indo, e você, de repente, está lá. Na faculdade tinha um estágio importante na pedia-

Antônio Carlos Eva

“A experiência analítica em sua dimensão clínica ganha uma interpretação nova. Ela é um fim em si”, afirma Eva. Médico pela Faculdade de Medicina da USP. Formação psicanalítica na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, onde teve papel fundamental na formação de psicanalistas e exerceu forte influência como membro efetivo e analista didata. Deixou como legado o grupo Conversas Psicanalíticas e ampla atuação nas Jornadas Psicanálise: Bion.

série

Escrita Psicanalítica

Coord. Marina Massi

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