Schellekes
Com rara sensibilidade clínica e amplitude teórica, Alina Schellekes propõe um tipo especial de presença analítica, diante de ansiedades arcaicas e falhas estruturais que reverberam em sofrimento psíquico como sentimentos de vazio, inautenticidade e perda de sentido. Seus relatos clínicos – por vezes perturbadores – ilustram a delicada tarefa de acolher os aspectos mais regressivos do paciente, sem negligenciar suas capacidades mais desenvolvidas. Sugere um trabalho analítico, com base em “interpretações de construções ósseas”, que sustenta e estrutura o self em níveis fundamentais. A obra é indispensável tanto para psicanalistas e psicoterapeutas, jovens ou experientes, quanto para leitores dedicados à compreensão do funcionamento da mente humana. Marisa Helena L. Monteiro Psicanalista Didata Presidente da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro Filiada à International Psychoanalytical Association
O pavor de cair
Psicanalista didata e supervisora da Israel Psychoanalytic Society; chefe do programa avançado Primitive Mental States no Psychoanalytic Program of Psychotherapy, da Universidade de Tel Aviv; presidente da Frances Tustin Memorial Trust. Em 2006, recebeu a Menção Honrosa do Phyllis Meadow Award em Nova York pela excelência na escrita psicanalítica; em 2008, ganhou o Frances Tustin Memorial Prize e, em 2023, o IPA Hayman Prize for Published Work pertaining to Traumatized Children and Adults.
Este livro traz uma coletânea de artigos e trabalhos escritos entre 2007 e 2023. Quase todos abordam o que tende a ser denominado “estados mentais primitivos,” tema ao qual a autora se dedica com profundidade e fascínio, apresentando momentos emocionais e profissionais que ocorreram enquanto escrevia e reunia os capítulos que fazem parte da obra.
PSICANÁLISE
Alina Schellekes
Alina Schellekes
O pavor de cair Reflexões sobre estados mentais primitivos
PSICANÁLISE
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O pavor de cair Reflexões sobre estados mentais primitivos
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O pavor de cair: reflexões sobre estados mentais primitivos © 2026 Alina Schellekes Editora Edgard Blücher Ltda. Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenação editorial Rafael Fulanetti Coordenação de produção Ana Cristina Garcia Produção editorial Marcel Iha Tradução Equipe Blucher Revisão técnica Beatriz Andreiuolo Preparação de texto Rodrigo Botelho Diagramação Thiago Cordeiro Revisão de texto Natália Pinheiro Soares Capa Juliana Midori Horie Imagem da capa Manuela Antoniu, Falling Through the Still Point (metal e madeira, 1986)
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570
Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br
Schellekes, Alina O pavor de cair : reflexões sobre estados mentais primitivos / Alina Schellekes. – São Paulo : Blucher, 2026.
Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.
Bibliografia ISBN 978-85-212-2971-1 (Impresso) ISBN 978-85-212-3052-6 (Eletrônico – Epub) ISBN 978-85-212-2970-4 (Eletrônico – PDF)
É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.
Título original em inglês: The dread of falling.
232 p. : il.
1. Psicanálise. 2. Primitividade (Psicanálise). I. Título. CDU 159.964.2
Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.
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Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise CDU 159.964.2
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Sumário
Introdução
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Prefácio – A resolução da ausência Dana Amir
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1.
Início do desenvolvimento emocional e estados primitivos da mente: uma breve perspectiva
27
2.
O pavor de cair e de se dissolver
49
3.
Quando o tempo ficou suspenso: reflexões sobre o tempo em estados primitivos da mente
85
4.
Paisagens mentais áridas e anseios ávidos por contato humano: narrativas beckettianas e analíticas sobre o vazio psíquico e suas vicissitudes 115
5.
Devaneio e hipocondria: quando o devaneio dá errado e a hipocondria se torna uma retirada autística
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Condenados por toda a vida: reflexões sobre o trauma e a incapacidade de suportar a vitalidade, a partir do filme Tartarugas podem voar
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Estações ao longo da Via Dolorosa dos términos suficientemente bons
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6.
7.
Notas finais – Interpretações de construção óssea
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1. Início do desenvolvimento emocional e estados primitivos da mente: uma breve perspectiva1
Aproximo-me e vós vos desvaneceis agarro-vos, e já partistes; mas sempre, de noite e de dia, a melodia ressoa. – Henry Wadsworth Longfellow, “Fata Morgana” (1883, p. 228)
Algum tempo atrás, uma colega me perguntou: por que é necessário um programa especial de estudos sobre estados primitivos da mente? Não me lembro da resposta exata que lhe dei, mas foi por meio de uma analogia: recordei um evento anterior em que tive de localizar um hotel em um mapa de Paris, na internet, que parecia situado bem no centro da cidade, ao alcance de tudo. Entretanto, quando usei o recurso de aproximação do mapa, o hotel aparecia em arredores totalmente diferentes, distante do que inicialmente
1
Uma versão mais curta deste capítulo foi publicada em português em: Schellekes, A. (2012). Desenvolvimento emocional precoce e estados mentais primitivos: um breve panorama. Revista Brasileira de Psicanálise, 46(4), 187-95. Este capítulo é aqui incluído graças à permissão concedida pelo British Journal of Psychotherapy, em que foi publicado, em 2021, numa versão ligeiramente diferente: Schellekes, A. (2021). Early emotional development and primitive mental states – A brief perspective. British Journal of Psychotherapy, 37(4), 594-605.
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parecera estar em estreita proximidade com ele. Toda a perspectiva sobre o hotel mudou, e seus arredores pareciam muito mais ricos em detalhes e cores. Disse à minha colega que, de modo muito semelhante, percebo a necessidade de haver um lugar onde se possa aumentar o zoom, cada vez mais, na tentativa de compreender e trabalhar com o que chamamos de primitivo/primário. Em sentido mais circunscrito, esse é também meu objetivo neste capítulo. Muitas teorias psicanalíticas abordam esse assunto, de uma forma ou de outra, mas a perspectiva e a compreensão do tema são completamente diferentes quando nos aproximamos pouco a pouco e descobrimos novos aspectos e nuances que não podiam ser percebidos quando olhávamos a partir de um ponto de vista mais amplo e distante. Poder-se-ia dizer que esse processo de aproximação do zoom também tem as qualidades do fenômeno Fata Morgana; uma fascinação por uma figura enigmática que se esvai quanto mais nos aproximamos dela. Considero esse fascínio uma condição sine qua non do impulso de estudar as origens de nossa mente, algo que é, em última análise, incognoscível ou que, de todo modo, não pode ser representado.2 Se agora aumentarmos um pouco o zoom sobre o termo “primitivo”, podemos ver que aquilo que à primeira vista parecia um conceito claro pode ser desconstruído em vários significados, e 2
Quando pensamos em termos lineares, a formação de uma representação baseia-se na capacidade de experimentar sequências de eventos discretos. Mas, quando falamos da origem daquilo que cada um de nós se tornou como ser humano particular, falamos, na realidade, de uma fonte incognoscível e irrepresentável, que pode manifestar-se por meio de intermediários ou negações. Tal intermediário é uma imagem icônica cuja origem é inacessível à cognição e, portanto, anicônica; ver Eric Rhode (2003) para uma discussão aprofundada do termo “anicônico”.
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início do desenvolvimento emocional e estados primitivos da mente
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que cada significado pode ser ainda mais aproximado, até o nível de conhecimento e compreensão de que somos capazes no presente. Por exemplo, pode-se optar por referir-se aos aspectos não organizados ou desorganizados do funcionamento mental e, consequentemente, a níveis de organização da personalidade; ou pode-se falar de considerações topográficas, de modo que o que é inconsciente torna-se equivalente ao que é primitivo; ou ainda pode-se falar do termo “primitivo” como designando os aspectos iniciais/primários do desenvolvimento, a origem de qualquer comportamento determinado. E, por último, mas não menos importante, pode-se empregar o termo para falar das partes fundamentais, elementares do self, como quando se fala do bebê/criança no adulto, no sentido psicológico da palavra (Grotstein, 1997). Essas várias conotações do termo “primitivo” se sobrepõem em grande medida, mas ainda assim vale a pena tentar refletir sobre a conotação particular de que estamos falando, especialmente porque muitas vezes há grande confusão, tanto clínica como teoricamente. Por exemplo, quando se fala da parte infantil em um paciente adulto, pode-se, às vezes de forma errônea, supor que essa parte reflete exatamente a criança ou o bebê que esse adulto foi um dia, ou que as características de um estado regressivo são uma duplicação de um estado idêntico em seu desenvolvimento inicial, o que, mais uma vez, não é necessariamente o caso. Embora as partes infantis na personalidade de alguém não sejam uma duplicação exata da mente do bebê, tendemos, em geral, a remontar às origens do desenvolvimento (da pessoa), tanto quanto conseguimos, mesmo quando atentamos, como sugiro, para o fato de que o fenômeno Fata Morgana está sempre presente e que o melhor a que podemos chegar é, em grande medida, uma reconstrução feita por mentes adultas do que é ser um bebê. No âmbito da compreensão psicanalítica, duas abordagens principais nos ajudaram até agora na tentativa de apreender a natu-
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2. O pavor de cair e de se dissolver1
Em seu livro Love of Beginnings (1993), Pontalis escreve: Vi um homem atirar-se, sorrindo, do alto da Torre Eiffel. Usava grandes asas. Convocara jornalistas e cinegrafistas. Sua queda foi em linha reta. Espatifou-se aos pés de autoridades de terno escuro. Não sei seu nome. Chamava-se o Homem-Pássaro. Não deixara nada ao acaso quanto aos preparativos de sua façanha. Várias vezes por ano, vejo, no meu sono, aviões de considerável porte mergulharem em queda livre, como que naturalmente, no pequeno bosque ao fim do jardim em Boissy. Inventamos as palavras para escapar à lei da gravidade, para adiar o momento fatal da queda.
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Este artigo recebeu o 12º Frances Tustin Memorial Prize em 2008 e foi apresentado em novembro de 2008 no Annual International Frances Tustin Memorial Lectureship Day em Los Angeles, no Psychoanalytic Center of California (PCC). Foi publicado em 2019 e é aqui reproduzido com a permissão concedida pelo British Journal of Psychotherapy: Schellekes, A. (2019). The dread of falling and dissolving – Further thoughts. British Journal of Psychotherapy, 35(3), 448-67.
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Dando o título de “The fall of bodies” para esse capítulo de seu livro, Pontalis alude à dificuldade e ao medo, característicos da condição humana, de lidar com o pavor de cair e da morte, e de encontrar palavras e sentido diante de uma angústia tão primária e avassaladora. Neste capítulo, gostaria de buscar palavras e sentido para o pavor de cair e de se dissolver, dois conceitos amplamente desenvolvidos por Tustin (1986), um pavor que habita alguns de nossos pacientes e alguns de nós em determinados momentos. Gostaria de explorar material clínico, elaboração teórica, literatura e arte que possam ampliar nossa compreensão dessas ansiedades mais primitivas. Quando me refiro ao cair, faço-o, por um lado, como um acontecimento concreto cuja possibilidade de ocorrência desperta uma ansiedade que inunda o aparelho psíquico e, por outro, como uma metáfora para um potencial colapso mental, que tende a ocorrer quando falta o holding por parte de um outro significativo e ainda não se cristalizou a internalização de uma presença de holding e de continência. Na ausência de tal presença, a pessoa se sente esparsa e sem limites, abandonada e em perigo de cair para fora dos braços do outro, sendo forçada a desenvolver diversas defesas contra a ansiedade inundante que resulta disso. Para me familiarizar com o tema e ilustrar o movimento entre, de um lado, o pavor de cair expresso como medo do acontecimento concreto de cair e, de outro, o medo de cair que aparece em suas expressões mais simbólicas, gostaria de compartilhar com vocês alguns movimentos nesse eixo entre o concreto e o simbólico em meu próprio mundo. O primeiro ponto de parada nesse eixo é um sonho de infância que se repetiu ao longo de muitos anos: no sonho, eu pedalava no ar, como se empurrasse o ar para baixo, e assim ia subindo,
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constante, cada vez mais alto e longe do chão. Não havia, nesse sonho ou depois dele, expressão direta de medo de cair, mas sim de alegria pela sensação de elevar-me no ar. Parece-me que essa alegria exprime o avesso, a negação do pavor de cair; isto é, exprime a experiência de conquistar a gravidade e de estar, sem perigo de cair, bem alto no ar, muito acima do chão – o concreto e o humano. É necessário, mesmo que seja dedutível, assinalar que esse meu sonho se deu sobre um pano de fundo de acontecimentos que despertaram uma experiência de impotência e de queda para fora do outro sustentador. Em outras palavras, quero enfatizar como as metáforas desse sonho expõem a defesa onipotente e evitativa que envolve e oculta o medo de cair, em seus aspectos físico e mental entrelaçados. O segundo ponto de parada no eixo entre o concreto e o simbólico, no contexto do meu tema, é um acontecimento de minha vida adulta como psicoterapeuta e psicanalista. Numa primeira sessão com um paciente que viera à terapia motivado por uma condição mental difícil às vésperas de seu casamento, sentamo-nos um diante do outro. Danny, que então tinha 26 anos e nunca tivera relações íntimas com uma mulher, viu-se de repente, de modo bastante passivo, num relacionamento com sua namorada que, como ele o vivenciava, avançara algumas etapas até um estado preparatório ao casamento. O mundo de Danny era caracterizado por uma ficção de eficiência e maturidade fictícias. Era bem-sucedido como estudante, como soldado e em sua profissão de contador, mas, fora esses êxitos, até conhecer sua futura esposa, vivia numa grande dependência emocional dos pais, uma espécie de existência silenciosa e dominada, como se sem voz e sem existência própria, vivendo de modo frugal, numa pobreza emocional e social. Nessa sessão inicial, contou, num tom de voz monótono e ininterrupto, sem expressão facial, a evolução de sua vida. Enquanto o ouvia, disse a mim mesma que Danny estava em meio a um ataque de pânico,
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3. Quando o tempo ficou suspenso: reflexões sobre o tempo em estados primitivos da mente1
Ai, ai! Ai, ai! Vou chegar tarde demais. Quando pensou nisso depois, ocorreu-lhe que deveria ter estranhado aquilo, mas, naquele momento, tudo lhe parecera bastante natural; mas, quando o Coelho realmente tirou um relógio do bolso do colete, e olhou para ela, e então apressou-se, Alice levantou-se de um salto, pois lhe ocorreu, como um relâmpago, que nunca antes vira um coelho com bolso de colete, nem com um relógio para tirar dele, e, ardendo de curiosidade, correu pelo campo atrás dele e, felizmente, chegou a tempo de vê-lo desaparecer por uma grande toca de coelho sob a sebe. No momento seguinte, lá se foi Alice atrás dele, sem nem considerar como, afinal, haveria de sair de lá. – Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas (tradução nossa)
Não é apenas o relógio do Coelho em Alice no País das Maravilhas que alude à dimensão do tempo, que será um dos temas do conto, mas também sua corrida constante para chegar a algum lugar simboliza
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Este capítulo é reproduzido aqui por cortesia do British Journal of Psychotherapy, em que uma versão ligeiramente diferente foi publicada: Schellekes, A. (2017). When time stood still: Thoughts about time in primitive mental states. British Journal of Psychotherapy, 33(3), 328-45.
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a seta linear do tempo, linearidade que contrastará acentuadamente com todas as coisas que sobrevirão no curso da história, em que tempo, espaço e a lógica dos acontecimentos se processam segundo outras leis do “tempo” (Perroni, 2004; Colarusso, 1979; Hartocollis, 1983). Esse outro sentido de tempo tem preocupado a humanidade desde os primórdios de sua existência. O assunto é vasto e complexo, mas optei, neste capítulo, por abordá-lo a partir de dois pontos de vista complementares: primeiramente, obras de arte que procurem decifrar a experiência do tempo e capturar em imagens visuais suas qualidades conflitantes, mas elusivas; em seguida, estados clínicos em que o tempo ocupe um lugar de destaque, tornando as experiências subjetivas do tempo um afeto em si mesmo (Hartocollis, 1983) e servindo como uma janela através da qual podemos entrar, estudar e compreender outras facetas da experiência interna. Em minha opinião, a experiência subjetiva do tempo de uma pessoa torna-se uma metáfora para uma realidade interna mais abrangente, com camadas menos acessíveis em um determinado momento. Reconhecer essa experiência subjetiva do tempo pode ampliar nossa compreensão dessas camadas profundas da psique e, ao mesmo tempo, criar mais facilmente um canal pelo qual o paciente possa entrar em contato com essas camadas.
Obras de arte que abordam diretamente o tema do tempo De todas as muitas obras de arte que tomaram o tempo como seu tema, optei por enfatizar algumas que, em diferentes pontos cronológicos, confrontaram a questão do tempo de modo direto e explícito. Em primeiro lugar, Time Transfixed (1938),2 de Magritte, apresenta uma poderosa justaposição de um relógio, cujos ponteiros apontam para um 2
Esta obra pode ser vista no site Masterworks Fine Art: https://www.masterworksfineart.com/artists/rene-magritte/lithograph/la-dureacutee-poignardeacutee-time-transfixed/id/w-3991.
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quando o tempo ficou suspenso
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momento particular no tempo, embora não se possa saber se estão em movimento ou detidos, e uma locomotiva que parece tanto avançar veloz a partir da parede posterior de uma lareira como estar aparentemente encravada nessa parede, de modo que qualquer movimento para a frente é, de fato, negado. O próprio título do quadro tem um duplo sentido: transfixed significa tornar-se imóvel – mantido parado – ou atravessado, como uma flecha rasga o ar. Assim, temos condensados nessa única palavra dois aspectos polarizados do tempo: o tempo como movimento (trans) e o tempo como congelado, imóvel (fixed). Em 1990, o artista polonês Jacek Yerka, inspirado por um conto de Edgar Allan Poe, pintou o arrepiante Twilight in the Nursery,3 no qual um pêndulo suspenso e vários outros relógios figuram de modo proeminente em torno do berço de um bebê, vazio salvo por um enorme ovo, e o quarto está tomado por uma vegetação tão abundante que sugere vir ocupando o espaço do cômodo há anos, desmaterializando-o. Yerka explica (como citado em Cowan, 1994): Esta é uma pintura que prenunciou o futuro. Fiz esta peça logo após o nascimento de meu tão aguardado filho. Pretendia que fosse uma pintura que retratasse a quietude do entardecer no quarto de uma criança. Ouve-se apenas o farfalhar das folhas e o tique-taque dos relógios. Na época, eu não me dei conta de que o pêndulo do teto descia lentamente, tal como em The Pit and the Pendulum, de Edgar Allan Poe. O pêndulo tocou meu filho em 9 de agosto de 1993. O quarto desde então tornou-se para sempre silencioso.
É assim que Yerka apresenta a experiência do tempo após o trauma, o tempo como inquisidor-carrasco, que traz a morte e deixa, em seu rastro, uma experiência afetiva na qual, após a perda, o tempo fica imóvel, com seu fluxo congelado. 3
Esta obra pode ser vista no WikiArt, o site enciclopédico de arte visual: https://www.wikiart.org/en/jacek-yerka/twilight-in-the-nursery.
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4. Paisagens mentais áridas e anseios ávidos por contato humano: narrativas beckettianas e analíticas sobre o vazio psíquico e suas vicissitudes1
Introdução A própria função da escrita pode ser uma via de estruturar e reestruturar o caos da experiência, um “ordenar, reformar, reaprender e reamar as pessoas tais como são e tais como poderiam ser” (Plath, 1991, p. 272). Assim, o self criativo se transforma na figura da criação artística, que absorve, modifica e apresenta o self, vivendo agora em uma forma diferente na criação artística (Bollas, 1999a). Um aspecto recorrente que me fascina em várias criações artísticas (Schellekes, 2005, 2006, 2019), e especialmente nos textos de Beckett, é a discrepância entre a exata organização estrutural e a precisão verbal do texto escrito, em um polo, e a qualidade do estado emocional retratado no texto, seja caótico ou vazio, no polo oposto. Muitas vezes, essa discrepância subjaz à experiência do escritor ou à da personagem retratada no texto. A meu ver, tais
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Capítulo publicado por cortesia do British Journal of Psychotherapy, em que foi publicada uma versão ligeiramente diferente: Schellekes, A. (2019). Arid mental landscapes and avid cravings for human contact: Beckettian and analytic narratives. British Journal of Psychotherapy, 35(1), 91-106.
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escritos são fascinantes, pois logram expressar nuances intensas da experiência humana que são frequentemente insuportáveis, não formuladas e não ditas, como um profundo senso de futilidade, falta de sentido, falta de forma e vazio. Em tais textos, pode-se rastrear a capacidade do escritor de mergulhar e explorar as camadas mais profundas do mundo interno – o seu e o dos outros – e, ao mesmo tempo, o empenho e o anseio do escritor por expressar, da maneira mais cortante possível, essas camadas da mente. Assim, o texto final nesses escritos, o resultado de um processo criativo muito complexo, dá voz a essas camadas emocionais profundas e, ainda, por meio de um uso muito preciso e geométrico de imagens e estruturas verbais, pode-se dizer que cria uma casca protetora (Tustin, 1990); uma casca que, ao menos momentaneamente, mantém a personagem retratada no texto (ou o escritor?) protegida de experimentar fragmentação extrema e perda de identidade. Essas estruturas conferem um senso de forma, contorno e contenção que, em estados extremos, pode faltar à experiência de alguém. Contudo, de modo algum é minha intenção sugerir que tais textos devam ser considerados um meio terapêutico de lidar com os horrores do vazio, mas sim que possibilitam ao leitor refletir sobre o poder de expressar verbalmente níveis muito delicados da nossa humanidade. Como clínicos, deparamo-nos frequentemente com estados mentais de vazio, mas, na maioria das vezes, eles não são expressos diretamente pelo paciente, e muitas vezes inferimos sua presença principalmente pelas defesas utilizadas contra o impacto insuportável da existência vazia. A meu ver, a riqueza de textos como os de Beckett nos permite, como clínicos, encontrar um vértice adicional por meio do qual possamos refletir sobre nossos próprios estados mentais e os de nossos pacientes, insuportáveis e não representados. Embora tais leituras não possam e não devam servir como ferramentas terapêuticas concretas contra o vazio, elas, a meu ver, permitem-nos conter e localizar esses estados de vazio
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paisagens mentais áridas e anseios ávidos por contato humano
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insuportáveis em um espaço cuja beleza poética, humor e acuidade de expressão aumentam nossa capacidade de olhar fixamente para tais estados e acolher e suportar o que é, por vezes, um vazio psíquico inexperienciável. Neste capítulo, pretendo enfatizar a experiência do vazio, movendo-me para a frente e para trás entre as várias estratégias de sobrevivência e cascas protetoras empregadas na tentativa de “evitar” essa experiência (Emanuel, 2001). Procurarei descrever dois tipos distintos de defesas utilizadas contra tais estados mentais áridos desprovidos de representação. Por um lado, enfatizarei envoltórios de excitação, fantasias de renascimento e defesas simbióticas secundárias de natureza adesiva. Por outro, descreverei o uso repetitivo e excessivamente controlado de padrões rítmicos de pensamento, linguagem e movimento que ajudam alguém a desenvolver uma proteção de tipo autístico contra o senso de vazio e solidão. Em ambos os casos, pode-se notar a oscilação entre a defesa empregada e a ainda pulsante necessidade e ânsia de contato humano vivo, por mais escasso que seja. Começarei com uma breve descrição do meu encontro com David, cujos inúmeros modos de escapar e sobreviver ao seu vazio interno não tinham características matemáticas precisas, pelo contrário: inundavam sua existência com manobras produtoras de excitação extrema, fantasias de renascimento e relações adesivas.
Caso clínico: parte 1 David, um empresário bem-sucedido na casa dos 30 anos, veio à análise porque havia muito sofria de ansiedades hipocondríacas extremas. Logo ficou claro que sua vida era uma tentativa interminável de superar a nulidade (nothingness) de sua existência, sua incapacidade de estar só e uma profunda sensação de faltar-lhe qualquer forma, direção ou sentido na vida. À primeira vista, vivia
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5. Devaneio e hipocondria:1 quando o devaneio dá errado e a hipocondria se torna uma retirada autística
Na hipocondria, podemos com frequência testemunhar uma experiência de perda de contato e de controle sobre a própria existência, inclusive sobre o próprio corpo, e a consequente necessidade de alcançar controle sobre a própria existência física, por meio da atenção incessante às manifestações corporais e a qualquer disfunção física real ou imaginada. A carta de Kafka ao pai é das mais evocativas dessa experiência (Kafka, 1966, p. 89-91): Como não havia absolutamente nada de que eu estivesse certo, como eu precisava ser a cada instante munido de uma nova confirmação de minha existência, nada estava em minha própria, indubitável, exclusiva posse . . . naturalmente tornei-me inseguro até mesmo quanto ao que me era mais próximo, meu próprio corpo . . . mal ousava mover-me, certamente não a exercitar-me, permanecia
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Uma versão anterior deste capítulo foi publicada em: Schellekes, A. (2017). Day-dreaming and hypochondria. In Levine, H. & Power, D. (Ed.). Engaging Primitive Anxieties of the Emerging Self: The Legacy of Frances Tustin. Karnac. O artigo é aqui publicado com a gentil permissão da Karnac Books. Schellekes, A. (2019). Day dreaming and hypochondria: When day dreaming goes wrong and hypochondria becomes an autistic retreat. European Psychoanalytical Federation Bulletin, 73, 140-53.
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fraco, eu me admirava de tudo o que ainda podia comandar como por milagre, por exemplo, minha boa digestão; bastou isso para perdê-la, e agora o caminho estava aberto a toda sorte de hipocondria.
O investimento mental de longa data de Kafka em manter o corpo seguro culminou numa realização muito especial: alguns afirmaram (Drucker, 2002), embora isso ainda seja objeto de debate, que Kafka recebeu, em 1912, a medalha de ouro da American Safety Society, por suas contribuições notáveis à segurança no trabalho e, em particular, pela invenção do capacete moderno de segurança, comumente chamado de chapéu duro. Graças à sua inovação, bem menos operários do aço foram mortos em acidentes industriais. Sua invenção protegeu muitas cabeças, aquele órgão corporal que o próprio Kafka ainda podia usar mesmo quando seu corpo “permanecia bastante para baixo e fraco” (Kafka, 1910/1949). Numa carta a Ferenczi escrita em 1912, Freud mencionou que “sempre sentiu que a obscuridade na questão da hipocondria constituía uma lacuna vergonhosa em nosso trabalho” (Jones, 1955, p. 453). Cem anos depois, não estamos em posição muito melhor, pois parece que a ambiguidade e a incerteza inerentes ao modo de ser hipocondríaco contaminam o estudo que o rodeia (Lang, 2007). Penso que esse estado se deve à grande confusão existente quanto a uma classificação nítida da hipocondria, que decorre do fato de ser tanto um traço em muitas condições psiquiátricas como uma entidade em si. Em razão dessa confusão, muitos dos escritos psicanalíticos sobre o tema (Meltzer, 1964; Rosenfeld, 1984; Bronstein, 2011) tentaram, com resultados parciais, tornar mais claras as distinções entre hipocondria, delírio somático, estados psicossomáticos e histeria. No presente capítulo, limitar-me-ei a algumas observações a respeito desse debate teórico.
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devaneio e hipocondria
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A principal distinção clínica entre hipocondria e estados psicossomáticos é que, na primeira, uma angústia intensa e avassaladora em relação ao corpo está frequentemente presente, ao passo que, na segunda, tal angústia costuma estar ausente. Ademais, o modo de ser do psicossomático foi extensamente descrito como suprimindo o afeto a tal ponto que sua vida afetiva foi qualificada como alexitímica (Sifneos, 1973) ou “operatória” (Marty & De M’Uzan, 1963), termos utilizados pelas escolas americana e francesa, respectivamente, para descrever a pobreza de afeto e de fantasia. Dado que a angústia absorvente porém não simbolizada do hipocondríaco é tão prevalente, a hipocondria foi historicamente (Freud, 1892) classificada como um dos tipos de neurose atual, termo utilizado por Freud para incluir estados físicos e emocionais intensos aparentemente desprovidos de conflito psíquico, tais como a neurastenia, a neurose de angústia e a hipocondria. Todos esses estados ou ocorrências se caracterizam por um alto nível de excitação que não foi processado, representado e transformado em mentação digerível (Mitrani, 1995), em contraste com a histeria, que é considerada o protótipo do sintoma neurótico que encarna denso simbolismo de um conflito psíquico subjacente, a despeito de sua aparência física. Em termos simples e fenomenológicos, o hipocondríaco é inundado por ansiedades ligadas ao corpo, enquanto o histérico apresenta um sintoma físico, rico em conotações simbólicas, mas acompanhado de relativa indiferença emocional. Embora esse debate seja fascinante, ele extrapola em muito o escopo deste capítulo, pois meu interesse atual é centrar-me na ansiedade hipocondríaca per se e em sua relação com o devaneio excessivo.2 Mesmo em personalidades relativamente bem funcionais, 2
Quando falo de ansiedade neste contexto, procuro limitar-me a condições nas quais a hipocondria nem atinge o estatuto de um delírio, nem faz parte de uma doença orgânica, psicossomática ou não, mas é, no entanto, extremamente incapacitante para a capacidade de alguém de viver física e emocionalmente.
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6. Condenados por toda a vida:1 reflexões sobre o trauma e a incapacidade de suportar a vitalidade, a partir do filme Tartarugas podem voar
Neste capítulo te convido a uma jornada, nem sempre fácil, durante a qual contemplo condições em que a capacidade de experimentar a vitalidade está danificada ou inexistente, em decorrência de um trauma primário ou de um trauma de instalação tardia. Nesses estados, frequentemente se enfrenta uma turbulência interna extrema, de tal intensidade que chega a pôr em risco a própria capacidade de sustentar a vida. Em suma, usando as palavras sucintas de Beckett: “Você deve continuar, não posso continuar, vou continuar” (Beckett, 1953/1958, p. 414).2 1
Schellekes, A. (2021). Sentenced to life – Reflections on the inability to bear vitality, following the movie Turtles Can Fly. In Dana Amir (Ed.). Ma’arag – The Israel Annual of Psychoanalysis, 9, 279-98. The Hebrew University Magnes Press. A versão em inglês deste capítulo é reproduzida com permissão do British Journal of Psychotherapy, em que foi publicada em versão ligeiramente diferente: Schellekes, A. (2021). Sentenced to life: Reflections on the inability to bear vitality, following the movie Turtles Can Fly. British Journal of Psychotherapy, 37(3), 493-510. Este artigo recebeu o prêmio Hayman de 2023, concedido uma vez a cada dois anos pela The International Psychoanalytic Association para um artigo publicado relativo a crianças e adultos traumatizados.
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Este trabalho foi inspirado por Frédérique Tecucianu e é dedicado à sua memória. Frédérique era uma psicóloga clínica israelense e francesa e amiga
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O eixo principal deste capítulo será o filme Tartarugas podem voar, para o qual e a partir do qual me deslocarei enquanto elaboro pensamentos teóricos e clínicos pertinentes quando trabalhamos com pacientes que não suportam a própria vitalidade ou a do outro, de modo que um encontro entre eles e outra pessoa se torna um excesso emocional invasivo e inundante, para além da capacidade de digestão psíquica. Trata-se de um longa-metragem curdo de 2004 que apresenta, com comovente e dolorosa clareza, o tecido complexo das relações entre trauma e vitalidade. Partindo de uma perspectiva profissional ampla, pode-se dizer que a maioria das pessoas que buscam psicoterapia/análise experimentou uma ruptura na capacidade de sentir a vida em sua plenitude, de sentir não apenas que estão vivas, mas que sua vida foi agraciada por uma boa medida de forças criativas e de vitalidade.3
próxima que faleceu em 2014, em Paris, quando já não podia mais suportar a batalha com sua doença terminal. Até seus últimos momentos de vida, sua vitalidade e amor à vida constituíram uma grande fonte de apoio e inspiração para mim, e ecos de sua presença ampliaram o espaço do meu pensar ao escrever este capítulo. Assim, somente por meio de uma postura observadora que combina um movimento entre memória, vitalidade e vida, e entre a perda de tudo isso, pode-se falar sobre a essência da vitalidade. 3
O significado teórico de “vitalidade” mudará de acordo com o “arcabouço” teórico sob o qual a discussão ocorre. Para ilustrar, ainda que de forma esquemática, no pensamento bioniano a vitalidade será o resultado da capacidade de mover-se livremente de um lado a outro entre a posição esquizoparanoide e a posição depressiva, da capacidade de digerir a emoção e torná-la significativa e, ainda, da capacidade de ter experiência na ausência de conhecimento ou compreensão. Em termos winnicottianos, a ênfase na definição de vitalidade recairia sobre a capacidade do indivíduo de expressar o núcleo/cerne “verdadeiro” de sua personalidade, pois somente o contato com esse núcleo nos fornece o grau de criatividade requerido para uma ligação viva com a vida. É essa ligação, diria Winnicott, que torna possível a dança criativa da motilidade entre a conexão com a realidade e a ilusão, uma criatividade sem a qual é difícil sentir qualquer vitalidade. Para além das ênfases particulares na definição de vitalidade impostas por qualquer teoria, há, é claro, elementos compartilhados, sendo um elemento-chave a nossa capacidade de existir
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Em termos simples, pode-se dizer que a vitalidade se desvela por meio da capacidade de alguém ser ativo em sua vida de um modo que exprima sua essência como pessoa, que lhe permita experimentar uma ampla gama de afetos e pensamentos, interessar-se por outras pessoas e ser capaz de manter com elas um contato emocional, significativo e fecundo. Há algum tempo, uma mulher a quem chamarei Amalia procurou-me para terapia. Então na casa dos 50 anos, relatou como, apesar do sucesso em muitos aspectos da vida, sentia-se vazia, sem pensamentos, sem lembranças, porque “nunca visitou esse lugar”, exprimindo assim sua desconexão interna de partes de si mesma em geral e, em particular, dos domínios de sua infância. Seu primeiro sonho era sobre uma mulher deitada que tinha olhos que podiam ser tanto olhos como obturadores de câmera. Amalia aproximava-se da mulher para espiar seus olhos, já que não estava claro se a mulher era a própria Amalia ou outra pessoa, e se estava viva ou morta. Era óbvio para ela que o sonho tratava de sentimentos de vida e morte, mas enfatizou que, na vida desperta, ela nunca “visitava tais questões”, observação interessante, já que sua própria razão para iniciar a terapia se relacionava precisamente a tais questões. Eu disse que, ao que parecia, quando ela sonhava, seus olhos eram capazes de olhar para dentro de si. De maneira suave, Amalia acrescentou que, aparentemente, os olhos eram de fato o órgão que admitia a luz e permitia que algo de fora entrasse ao mesmo tempo que regulava o quanto. Aos poucos falamos sobre como ela gostava de fotografar reflexos de luz e como lhe era difícil sustentar as experiências e re-
psiquicamente na ausência do objeto e, igualmente importante, a nossa capacidade de manter a ligação com o objeto sem que o ego sinta que essa ligação ameaça sua existência.
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7. Estações ao longo da Via Dolorosa dos términos suficientemente bons1
A seguir, apresento certas reflexões acerca do desejo, que muitos de nós partilhamos, de alcançar um término suficientemente bom da análise. A meu ver, esse desejo suscita muitas questões sobre a natureza essencial da análise que logra um bom desfecho e sobre as muitas análises ou terapias nas quais o processo de alcançar essa posição tão almejada – e frequentemente ilusória – é um percurso prolongado de tormento e contrações dolorosas, por vezes para ambas as partes envolvidas. Ao contemplar essas questões, veio-me à mente Nathan, um homem delicado que foi meu paciente. Nathan procurou-me pela primeira vez em sofrimento ligado à transição para um novo cargo no tão exigente e prestigiado campo médico, em que já atuava com êxito. Nathan era uma pessoa sensível e sábia, de olhos bondosos e inocentes, com propensão a doar-se aos outros, tinha uma família que amava profundamente e um senso de humor sutil e autodepreciativo. Todas essas qua1
Este capítulo é aqui reproduzido por cortesia do American Journal of Psychoanalysis, em que foi anteriormente publicado: Schellekes, A. (2024). Stations along the Via Dolorosa of the illusion of good-enough endings. American Journal of Psychoanalysis, 84, 94-110.
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lidades estavam entrelaçadas a um fio tênue, porém proeminente, de ansiedade quanto ao fracasso e às difíceis transições entre cargos exigentes, invariavelmente por ele vividas como derrotas lancinantes. A mera possibilidade desses fracassos inundava sua mente com ondas de ansiedade leves, porém persistentes, que ele tentava afastar com suas capacidades intelectuais e defesas obsessivas. Ainda assim, cada nova oportunidade deixava-o apavorado e inseguro, a despeito de seus numerosos recursos e do considerável apoio que recebia das pessoas ao redor. Nessas situações dolorosas, sobressaía o quão difícil era para Nathan suportar a dor psíquica.2 Essa dificuldade criava mais uma camada de ansiedade, impelindo Nathan a encontrar soluções imediatas para qualquer desafio psíquico que surgisse. Vi Nathan por cerca de um ano. Ele comparecia muito regularmente às nossas sessões e, meticuloso como era, empenhava-se ao máximo para compartilhar qualquer material que julgasse pertinente ao nosso trabalho. Estabelecemos uma boa, agradável e terna relação terapêutica, na qual também se tornava evidente a considerável e compulsiva repetitividade de Nathan a respeito de diversos temas. Ele parecia girar em torno de um circuito fechado que parecia garantir a compartimentalização de qualquer com-
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Considere, nesse contexto, a distinção feita tanto por Federn (1952) como por Bion (1965), que observam que, embora qualquer um possa sentir dor, nem todos são capazes de suportar a dor em sua mente, com todo o seu peso e complexidade. Em outras palavras, é preciso dispor de capacidade emocional; além disso, precisa existir um espaço psíquico interno no qual se possam absorver experiências dolorosas, onde se possa elaborar essas experiências, refletir sobre elas e, por fim, transformar a dor lancinante em uma experiência psíquica tolerável e metabolizável. Na medida em que essas capacidades estejam ausentes, diante da dor psíquica, a pessoa tenderá a evacuá-la imediatamente, às vezes impulsivamente, às vezes somaticamente – isto é, utilizando quaisquer meios disponíveis para impedir que a psique absorva em si a experiência dolorosa.
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plexidade emocional e a minimização de encontros com algo que pudesse surpreendê-lo ou fazê-lo sentir-se menos no controle. A condição de Nathan foi gradualmente arrefecendo e, à época, senti que, à medida que diminuísse a ansiedade em torno de sua posição profissional, com a qual estava constantemente preocupado, poderíamos alcançar e aprofundar o contato com as outras camadas de sua psique. Essas camadas, a meu ver, conduziam a um tipo de funcionamento emocional que, embora agradável e seguro, carecia de profundidade e amplitude, sendo muito limitado para lidar com complexidades emocionais além de certo nível. Nesse período de respiro, Nathan sentia que a terapia o havia ajudado significativamente, que ele estava manejando com competência seu novo cargo no trabalho (que tanto temera), que havíamos tocado em material altamente significativo, e que estava maduro e pronto para encerrar. A seu ver, havia sido uma boa e bem-sucedida terapia. Da minha parte, vi-me entrando numa elaborada discussão comigo – e parcialmente com Nathan – acerca de sua escolha de terminar, sentindo um grande hiato entre sua experiência de ter feito uma boa terapia e minha experiência de que seria correto continuar. Dado o quanto as coisas haviam se estabilizado para ele, imaginei que agora poderíamos demorar-nos naquelas áreas de sua psique que necessitavam de mais tempo, de um ritmo mais lento, de um encontro com estados de não-saber, com severas autoexigências e com necessidades mais regressivas. Sobretudo, senti que esta era uma oportunidade para um encontro menos vigilante do que fora possível anteriormente com os fantasmas de seu passado, um passado que ele frequentemente descrevia de modo idílico e nostálgico. Em contraste com minhas reflexões, Nathan não via necessidade de continuar o processo. Disse a mim que deveria aceitar sua escolha, que para ele aquela fora uma terapia suficientemente boa e que ele não sentia necessidade de explorar mais profundamente sua psique – como minha perspectiva,
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Com rara sensibilidade clínica e amplitude teórica, Alina Schellekes propõe um tipo especial de presença analítica, diante de ansiedades arcaicas e falhas estruturais que reverberam em sofrimento psíquico como sentimentos de vazio, inautenticidade e perda de sentido. Seus relatos clínicos – por vezes perturbadores – ilustram a delicada tarefa de acolher os aspectos mais regressivos do paciente, sem negligenciar suas capacidades mais desenvolvidas. Sugere um trabalho analítico, com base em “interpretações de construções ósseas”, que sustenta e estrutura o self em níveis fundamentais. A obra é indispensável tanto para psicanalistas e psicoterapeutas, jovens ou experientes, quanto para leitores dedicados à compreensão do funcionamento da mente humana. Marisa Helena L. Monteiro Psicanalista Didata Presidente da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro Filiada à International Psychoanalytical Association
O pavor de cair
Psicanalista didata e supervisora da Israel Psychoanalytic Society; chefe do programa avançado Primitive Mental States no Psychoanalytic Program of Psychotherapy, da Universidade de Tel Aviv; presidente da Frances Tustin Memorial Trust. Em 2006, recebeu a Menção Honrosa do Phyllis Meadow Award em Nova York pela excelência na escrita psicanalítica; em 2008, ganhou o Frances Tustin Memorial Prize e, em 2023, o IPA Hayman Prize for Published Work pertaining to Traumatized Children and Adults.
Este livro traz uma coletânea de artigos e trabalhos escritos entre 2007 e 2023. Quase todos abordam o que tende a ser denominado “estados mentais primitivos,” tema ao qual a autora se dedica com profundidade e fascínio, apresentando momentos emocionais e profissionais que ocorreram enquanto escrevia e reunia os capítulos que fazem parte da obra.
PSICANÁLISE
Alina Schellekes
Alina Schellekes
O pavor de cair Reflexões sobre estados mentais primitivos
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