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O Édipo não é mais aquele

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PSICANÁLISE

A partir das transformações clínicas, culturais e históricas da contemporaneidade, este livro propõe uma releitura do Complexo de Édipo, preservando sua centralidade na teoria psicanalítica e ampliando seu campo de inteligibilidade. O conceito de Édipo Polimorfo Precoce (EPP) é apresentado como um desdobramento metapsicológico que articula sexualidade infantil, processos precoces de simbolização, vínculos primários e a diversidade das experiências identitárias e familiares. Colocando em diálogo a psicanálise, a antropologia e a clínica contemporânea, a obra convida o leitor a repensar, sem dogmatismos, os modos pelos quais desejo, limite, alteridade e subjetivação se constituem no mundo atual.

O Édipo não é mais aquele

Psiquiatra, psicanalista e escritor. Médico pela Escola Paulista de Medicina da Unifesp, doutor em História Social pela USP e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Foi estagiário do serviço de psiquiatria infantil e da adolescência no Hôpital de la Salpêtrière e no Centre Alfred Binet, em Paris. Exerceu funções de direção, ensino e pesquisa em instituições acadêmicas e psicanalíticas nacionais e internacionais. Foi editor da Revista Brasileira de Psicanálise, diretor administrativo da SBPSP, vice-presidente do Instituto São Paulo Contra a Violência e coordenador do projeto social “Abrace seu Bairro”, de prevenção à violência no meio escolar. É autor e organizador de diversas obras de referência e de romances.

Psiquiatra, psicanalista e pensador de larga experiência clínica e intelectual, David Levisky enfrenta, neste livro, uma das questões mais desafiadoras da contemporaneidade: como a psicanálise pode compreender as transformações atuais da sexualidade, do gênero e das formas de subjetivação sem se tornar refém de modelos normativos herdados de outra época.

Levisky

David Léo Levisky

David Léo Levisky

O Édipo não é mais aquele Édipo Polimorfo Precoce

PSICANÁLISE

Partindo de sua extensa experiência com crianças, adolescentes e famílias, Levisky propõe uma revisão crítica do estatuto do Complexo de Édipo na teoria e na clínica psicanalíticas. Sem abandonar a importância dos limites simbólicos e da alteridade na constituição do sujeito, o autor demonstra que as formas culturais pelas quais esses processos se organizam são historicamente mutáveis e exigem permanente reconsideração. Ao articular contribuições da antropologia, da metapsicologia, da clínica e da reflexão ética, O Édipo não é mais aquele: Édipo Polimorfo Precoce oferece uma resposta original aos impasses contemporâneos da psicanálise diante da diversidade das experiências identitárias e vinculares. Trata-se de uma obra que convida o leitor a repensar criticamente os fundamentos da teoria psicanalítica, reafirmando sua vocação essencial: compreender e acolher a singularidade da experiência humana em constante transformação. Nelson da Silva Junior

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O Édipo não é mais aquele Édipo Polimorfo Precoce

David Léo Levisky

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O Édipo não é mais aquele: Édipo Polimorfo Precoce © 2026 David Léo Levisky Editora Edgard Blücher Ltda. Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenação editorial Rafael Fulanetti Coordenação de produção Ana Cristina Garcia Produção editorial André Quirino Diagramação Thiago Cordeiro Revisão de texto Felipe André Silva Capa Juliana Midori Horie Imagem da capa iStockphoto

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021. É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora. Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.

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Levisky, David Léo O Édipo não é mais aquele : Édipo Polimorfo Precoce / David Léo Levisky. – São Paulo : Blucher, 2026. 134 p. Bibliografia ISBN 978-85-212-3332-9 (Impresso) ISBN 978-85-212-3329-9 (Eletrônico – Epub) ISBN 978-85-212-3330-5 (Eletrônico – PDF) 1. Psicanálise. 2. Teoria psicanalítica. 3. Complexo de Édipo. 4. Complexo de castração. 5. Sexualidade. I. Título. CDU 159.964.2 Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise   CDU 159.964.2

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Sumário

Prefácio

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Nelson da Silva Junior

Apresentação

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Introdução – Psicanálise, antropologia, sexualidade

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1.

Limites simbólicos e organização do desejo

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2.

A clínica

37

3.

A teoria das pulsões: a formulação do Complexo de Édipo e do Complexo de Castração

41

O contrato narcísico: sua relação com o Édipo Polimorfo Precoce

49

Complexo de Édipo e Complexo de Castração: do modelo clássico ao Édipo Polimorfo Precoce

53

As contribuições de M. Klein, H. Segal, W. Bion, D. Meltzer e R. Roussillon e o Édipo Polimorfo Precoce

63

T. Ogden, D. Winnicott e a dialética da subjetivação: descentramento, intersubjetividade e o Édipo Polimorfo Precoce

73

4. 5. 6. 7.

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6 o édipo não é mais aquele

8. 9.

O Complexo Fraterno e suas relações com o Édipo Polimorfo Precoce

83

Identificações polimorfas, Terceiro Analítico e o Édipo Polimorfo Precoce

91

10. Espaços psíquicos, intersubjetividade e o Édipo Polimorfo Precoce

95

11. Contemporaneidade, transformações familiares e o Édipo Polimorfo Precoce

99

12. Adolescência, gênero e reedição do Édipo Polimorfo Precoce na contemporaneidade

103

13. Transformações históricas, cultura e as metamorfoses do Édipo: do medievo ao mundo “fluido”

109

14. Implicações técnicas, transferência-contratransferência e a transformação do lugar do analista

115

Conclusões

119

Referências

125

Sobre o autor

131

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Prefácio Nelson da Silva Junior1

Para os que não tiveram ainda o privilégio de conhecê-lo, gostaria de, antes de iniciar este prefácio sobre o livro que o leitor tem nas mãos, dizer algumas palavras sobre David Léo Levisky – o homem e o pensador.

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Psicanalista, doutor em Psicopatologia Fundamental pela Universidade Paris VII, Professor Titular do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental e da Société Internationale de Philosophie et Psychanalyse (SIPP-ISPP). Editor da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. Coordenador do Laboratório Interunidades de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (Latesfip). Autor, entre outros, dos livros Le fictionnel en psychanalyse: une étude à partir de l’œuvre de Fernando Pessoa (Presses Universitaires du Septemprion, 2000); Linguagens e pensamento: a lógica na razão e desrazão (Casa do Psicólogo, 2007); A psicologia social e a questão do hífen, Silva Junior & Zangari (orgs.) (Blucher, 2017); Patologias do social e Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico, Dunker, Silva Junior e Safatle (orgs.) (Autêntica, 2018 e 2020); Fernando Pesssoa e Freud: diálogos inquietantes (Blucher, 2019); e Silva Junior, N. & Beer, P., Políticas da verdade e construções sociais do sofrimento: subjetividades produzidas entre marketing, negacionismos e ciência (CRV/ Instituto de Psicologia da USP, 2023).

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Apresentação

Este livro propõe uma releitura do Complexo de Édipo a partir das transformações clínicas, culturais e históricas que atravessam a subjetivação na contemporaneidade. A noção de Édipo Polimorfo Precoce (EPP) não se apresenta como ruptura com a tradição psicanalítica, tampouco como substituição do Édipo freudiano, mas como um desdobramento metapsicológico que visa ampliar sua inteligibilidade diante da diversidade das configurações familiares, das formas de sexualidade e das experiências identitárias observáveis na clínica atual. Desde Freud, o Édipo ocupa lugar central na teoria psicanalítica por articular desejo, interdição, identificação e simbolização da perda. O presente trabalho parte do pressuposto de que esse núcleo estrutural permanece válido, ainda que suas formas de organização e expressão sejam culturalmente mediadas e historicamente variáveis. Ao longo do livro, sustenta-se que o Édipo não se reduz a uma cena triangular tardia nem à normatividade patrilinear, mas se constitui como um processo precoce de simbolização da excitabilidade pulsional, iniciado nas primeiras experiências de frustração, limite e alteridade.

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Introdução Psicanálise, antropologia, sexualidade

A diversidade sexual vem crescendo e novas organizações familiares têm surgido em nossa sociedade. Na clínica é cada vez mais frequente que adolescentes manifestem dúvidas quanto a identidade, gênero e escolha das fontes de prazeres e de realizações. Os pais estão angustiados e inseguros na educação de seus filhos, e em relação a si mesmos frente às suas funções parentais, à própria sexualidade e à dos filhos. Psicanalistas estão confusos não só na compreensão dos fenômenos identitários e em suas posturas éticas e profissionais diante das diversidades da vida contemporânea, mas também perante a velocidade da transformação dos valores, da noção de limites, das novas tecnologias e das sexualidades emergentes. Abre-se um vasto campo de incógnitas e de discussões sobre as organizações identitárias, sobre os comportamentos sociais e suas gêneses e sobre as teorias que sustentam as percepções clínicas do passado e as atuais. Vemos crianças e adolescentes em plena fase de desenvolvimento revelando dificuldades na aceitação do próprio corpo, ambivalências que vão além de fantasias inconscientes para se constituir como elementos definitórios do próprio self e influentes sobre a estruturação do narcisismo básico e fundante da personalidade.

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1. Limites simbólicos e organização do desejo

Os limites simbólicos podem ser definidos, e dependem dos dispositivos psíquicos do sujeito, isto é, do conjunto organizado de mecanismos, condições, regras, posições, operações simbólicas (Hegenberg, 2021), além dos vínculos e da cultura participantes da mediação entre pulsão e ato na organização dos desejos por meio da diferença, da interdição e da representação. Eles transformam a excitação pulsional em relação, o desejo em posição, a potência em pertencimento e a violência possível em laço social. Isso equivale a dizer que no ser humano há uma capacidade de transformar a excitação (sexualidade) em laço social, em diferentes formas de linguagem que vão além de proibições (externas) ou censuras (internas e externas). Trata-se de operações de simbolização que introduzem diferença, mediação e alteridade entre o impulso e o ato. Freud introduziu o conceito de sublimação, a qual emerge como destino pulsional posterior à instalação da lei paterna. No EPP, ela se constitui desde cedo como um processo articulado à pluralidade das identificações, à elasticidade das posições subjetivas e à qualidade do complexo vincular (Blay Levisky, 2025) ou da trama identificatória (Gomel, 2020). A sublimação, nesse sentido, depende menos da

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2. A clínica

Apresento, como ilustração, algumas situações da clínica psicanalítica: a) Ana tem 13 anos; menina bonita, fisicamente atraente. Vai a uma festa de amigos da escola; bebidas alcoólicas circulam às escondidas pelo ambiente. Tem início um jogo desafiador e, aparentemente, inocente: quem tem coragem de beijar. Ana se entusiasma com o alvoroço do grupo e se coloca disponível para beijar de maneiras diferentes os meninos e as meninas. No fim do jogo, ela viveu inúmeros momentos sem saber dizer o que sentiu nem porque o fez. Os pais souberam do ocorrido por meio dos pais de outros que haviam estado na festa. Enquanto alguns jovens se fechavam protegidos pelo medo ou pela timidez, outros se abriram exageradamente, nesse processo de experimentação do corpo e dos sentimentos, sem percepção dos próprios limites, nem consciência em relação à autoestima e às repercussões sociais. Paralelamente, percebe-se uma tendência entre os jovens a se organizarem em grupos (tribos) com rituais próprios e denominações que rotulam o sujeito de tal forma que alguns as sentem como algo definitivo. Situações das quais ele ou ela não conseguem sair, aumentando as turbulências inerentes a essa fase da vida, acompanhadas de

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3. A teoria das pulsões: a formulação do Complexo de Édipo e do Complexo de Castração

Para ampliar a compreensão do conceito de Édipo Polimorfo Precoce, é desejável retomar a evolução do pensamento freudiano em relação à teoria das pulsões e suas vicissitudes na relação com os Complexos de Édipo e de Castração, assim como na construção do mundo interno, dos processos identitários e da subjetivação. Há uma expressão poética simples e profunda, cuja autoria me escapa, que revela um sistema maravilhoso e complexo produzido pela natureza no momento do nascimento de um bebê: “nasci com medo”. Ruptura que gera um desequilíbrio de múltiplas ordens – biológica, psicológica, ambiental – e que faz com que o recém-nascido chore desesperadamente diante de algo que podemos chamar de desamparo. Uma vez no colo, especialmente da mãe, ele se acalma e adormece. É no encontro com o calor do corpo, com o ritmo cardíaco e respiratório, com as vibrações – entre elas a da voz materna –, que ele se tranquiliza, nesse momento inaugural da vida extrauterina. Algo muito intenso ocorre nessa transição para a vida, quando surgem as primeiras manifestações vinculares afetivas (extrauterinas, pois há outras, intrauterinas, cujos registros estão em fase de investigação, potencializada pelas novas formas

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4. O contrato narcísico: sua relação com o Édipo Polimorfo Precoce

A proposição do Édipo Polimorfo Precoce (EPP) exige o deslocamento de uma concepção do Édipo centrada exclusivamente na cena triangular clássica para uma abordagem que privilegie os processos precoces de simbolização, a economia da excitabilidade e a inscrição do sujeito em redes vinculares e culturais. Sob esse horizonte, o conceito de contrato narcísico, formulado por Piera Aulagnier (1975), se revela um operador teórico fundamental para compreender as condições de possibilidade – ou de fracasso – da organização edipiana em sua modalidade polimorfa. O contrato narcísico constitui o suporte simbólico e transgeracional no interior do qual o EPP pode se estruturar, se transformar e se complexificar. Quando esse contrato se encontra fragilizado, rígido ou alienante, o EPP tende a expressar-se de modo caótico, clivado ou empobrecido, com importantes repercussões clínicas, especialmente na infância e na adolescência. O contrato narcísico designa o pacto inconsciente pelo qual o sujeito é antecipadamente reconhecido como pertencente a um grupo, investido como portador de valor e inscrito em uma história que o precede. Trata-se de uma condição pré-edípica, no sen-

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5. Complexo de Édipo e Complexo de Castração: do modelo clássico ao Édipo Polimorfo Precoce

O Complexo de Édipo, um dos pilares centrais da metapsicologia freudiana, articula a sexualidade infantil, a interdição ao incesto, a constituição do superego e a inscrição do sujeito na ordem simbólica. O Complexo de Édipo designa a configuração psíquica na qual a criança se confronta com o desejo incestuoso, a rivalidade com o genitor do mesmo sexo e a necessidade de renúncia frente à interdição. A resolução do Édipo implica a identificação com a instância que proíbe e a interiorização da lei, condição para a constituição do superego e para a inserção do sujeito na cultura. A operação do Complexo de Édipo foi descoberta por Freud a partir de sua autoanálise e de sua prática clínica (Smadja, 2009, p. 16). Segundo Laplanche e Pontalis (1973, p. 80), Freud só utilizará o termo Complexo de Édipo em 1910. O conceito requereu um longo tempo de elaboração, de 1897 a 1923. Foi no manuscrito N, acompanhado da carta dirigida a Wilhelm Fliess em 31 de maio de 1897, que Freud afirmou haver nas pessoas pulsões hostis em relação aos pais, as quais integram as neuroses caracterizadas por desejos agressivos do filho dirigidos contra o pai e da filha contra a mãe (Freud, 1897). Na carta 71 (15 out. 1897), Freud

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6. As contribuições de M. Klein, H. Segal, W. Bion, D. Meltzer e R. Roussillon e o Édipo Polimorfo Precoce As contribuições... e o Édipo Polimorfo Precoce

Diferentes autores procuraram demonstrar que o fenômeno edípico tem início na fase pré-genital, portanto anteriormente à fase fálica. Melanie Klein trouxe os conceitos de objeto total, objeto parcial, identificação projetiva, posição esquizoparanoide e posição depressiva, possibilitando uma reelaboração do complexo de Édipo proposto por Freud. Klein (1932) desenvolve suas percepções sobre o Édipo precoce, sintetizadas por Hinshelwood (1992, p. 71) do seguinte modo: As descobertas clínicas de Klein acabaram por modificar a teoria de Freud do complexo de Édipo. Ao enfatizar o conteúdo de fantasias das reações pulsionais, Klein demonstrou especialmente os componentes pré-edípicos (orais e anais) das fantasias edipianas. Ela tomou isso como prova da origem precoce, pré-genital, do complexo de Édipo. Klein nunca esteve à vontade com a teoria de Freud de que o superego era “herdeiro do complexo de Édipo”, porque a ocasião em que ele aparecia não combinava com suas próprias observações, de maneira que acabou por ir contra Freud.

A organização do Complexo de Édipo não pode ser compreendida exclusivamente a partir da genitalidade ou da diferença ana-

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7. T. Ogden, D. Winnicott e a dialética da subjetivação: descentramento, intersubjetividade e o Édipo Polimorfo Precoce

Outras contribuições psicanalíticas colaboram para o desenvolvimento da concepção do Édipo Polimorfo Precoce. Thomas Ogden (2010, pp. 12-14) em Os sujeitos da psicanálise põe em evidência que as configurações identitárias variam a depender da dialética desenvolvida na relação sujeito/objeto, fenômenos que colaboram, direta ou indiretamente, na construção do conceito de EPP. Suas repercussões são significativas na medida em que são revividas e reativadas durante o processo adolescente, como tentarei demonstrar no decorrer desta elaboração conceitual apoiada na experiência clínica. A dialética é um processo em que elementos opostos se criam, preservam e negam um ao outro, cada um em relação dinâmica e sempre mutativa com o outro. O movimento dialético tende para integrações que nunca se realizam por completo. Cada integração potencial cria uma nova forma de oposição, caracterizada por sua própria forma distinta de tensão dialética. Aquilo que é gerado dialeticamente está continuamente em movimento, perpetuamente em processo de ser criado e negado, de ser descentrado da autoevidência estática. Além disso, o pensamento dialético implica uma concepção de interdependência entre sujeito e objeto.

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8. O Complexo Fraterno e suas relações com o Édipo Polimorfo Precoce O Complexo Fraterno e suas relações...

Estudos desenvolvidos por Kancyper (2004) e Kaës (2011) demonstram que as relações fraternas participam, de maneira significativa, na estruturação do aparelho psíquico da irmandade e dos pais, visto se tratar de uma função “irredutível que interage e se articula com as funções narcísicas e edípicas em níveis estruturais, dinâmicos e econômicos das atividades psíquicas em níveis intra, inter e transubjetivos. Opera também como forma defensiva na dependência de combinações e articulações em relação aos aspectos narcísicos e edípicos” (Levisky, 2021, p. 82). Sua especificidade reside no fato de que o irmão é simultaneamente duplo e estrangeiro, semelhante e rival, objeto de amor e de ódio, parceiro de alianças e suporte para deslocamentos defensivos. Nessa condição paradoxal, o fraterno não apenas participa do desenvolvimento; ele organiza a economia do desejo, a distribuição de investimentos, as modalidades de identificação e as formas de pertencimento – inclusive fora do campo familiar, no social e no político. O Édipo Polimorfo Precoce, entendido como processo inicial de simbolização da excitabilidade pulsional e de instalação de limites simbolizantes desde os primórdios da vida, encontra no

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9. Identificações polimorfas, Terceiro Analítico e o Édipo Polimorfo Precoce

Identificações polimorfas, terceiro analítico... A ampliação do conceito de identificação torna-se necessária quando se reconhece que os processos identificatórios não se organizam exclusivamente a partir de objetos parentais unitários e binários, como pai e mãe concebidos de forma estável e homogênea. Ao contrário, as identificações parciais que participam da constituição do sujeito são, desde o início, múltiplas, polimorfas e transformáveis, na medida em que os objetos e imagens fontes de gratificação são atravessados pela própria atividade fantasmática e pela singularidade da experiência subjetiva. Essa concepção distancia-se de uma leitura linear do processo identificatório e aproxima-se de uma perspectiva caleidoscópica, na qual os objetos internos se formam a partir de fragmentos, aspectos parciais e experiências afetivas heterogêneas. Tal compreensão encontra fundamento já na teoria pulsional de Sigmund Freud (1905), quando este descreve a sexualidade infantil como perverso-polimorfa, indicando que os investimentos libidinais iniciais não obedecem a uma organização genital nem a uma fixação objetal estável. As contribuições de Melanie Klein aprofundam esse ponto ao demonstrar que as primeiras identificações se estruturam a partir de objetos parciais, investidos de intensos afetos ambivalentes.

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10. Espaços psíquicos, intersubjetividade e o Édipo Polimorfo Precoce

Na psicanálise clássica, a constituição do sujeito é pensada a partir de uma distinção fundamental entre mundo interno e mundo externo. Em Sigmund Freud, essa distinção organiza-se por meio das diferentes tópicas, nas quais se articulam os sistemas consciente, pré-consciente e inconsciente, bem como as instâncias psíquicas que regulam as dinâmicas pulsional, defensiva e representacional. O espaço psíquico é concebido, nesse modelo, como essencialmente intrapsíquico, ainda que constituído na relação com os objetos. O pensamento kleiniano introduz um deslocamento decisivo ao demonstrar que o mundo interno não é apenas cenário de representações, mas um campo relacional povoado por objetos internos, organizados segundo posições fundamentais – esquizoparanoide e depressiva – e atravessados por mecanismos como clivagem, identificação projetiva e idealização. As noções de objeto parcial e objeto total complexificam a concepção do espaço intrapsíquico, evidenciando que ele se constitui a partir de experiências afetivas precoces marcadas por intensas ambivalências. O espaço psíquico deixa de ser apenas um lugar de inscrição de representações para tornar-se um campo dinâmico de relações internalizadas, em permanente transformação.

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11. Contemporaneidade, transformações familiares e o Édipo Polimorfo Precoce

Contemporaneidade, transformações familiares A contemporaneidade introduz transformações profundas nos modos de organização da vida psíquica, dos vínculos familiares e das formas de transmissão simbólica. Mudanças tecnológicas, biomédicas, culturais e sociais – associadas à globalização e à fluidez das referências identitárias – incidem diretamente sobre os processos de subjetivação desde os primórdios da vida. Nesse contexto, a família contemporânea, frequentemente denominada pós-moderna, constitui um dos principais operadores dessas transformações, exigindo da psicanálise modelos teóricos capazes de dar conta de sua complexidade. Historicamente, as estruturas familiares estiveram ancoradas em dispositivos sociais, religiosos e patrimoniais, nos quais o desejo individual ocupava lugar secundário. O casamento era regulado por alianças entre famílias e por normas institucionais, com reduzido espaço para a escolha subjetiva. A modernidade introduziu um deslocamento progressivo desse modelo, priorizando a singularidade, o investimento amoroso e o projeto individual. Na contemporaneidade, esse movimento se radicaliza, dando origem a múltiplas configurações familiares: famílias monoparentais, ho-

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12. Adolescência, gênero e reedição do Édipo Polimorfo Precoce na contemporaneidade

Adolescência, gênero e reedição do Édipo Polimorfo Precoce... Conforme discutido ao longo deste livro, a expressividade da sexualidade infantil é indissociável dos limites simbólicos instituídos por cada sociedade e cultura. Tais limites não apenas modulam e organizam a excitabilidade desde os primórdios da vida psíquica, mas também fornecem as condições para que o desejo, a interdição, a alteridade e a simbolização se articulem em uma trama relativamente estável. Na adolescência, esse edifício é novamente tensionado: a puberdade impõe um salto de intensidade pulsional e de transformações corporais que incide sobre o aparelho psíquico, reativando conflitos precoces e exigindo novas soluções para o trabalho identificatório. Aberastury e Knobel (1981) designaram esse conjunto de fenômenos conscientes e inconscientes como “síndrome normal da adolescência”, enfatizando o caráter paradoxal e turbulento do período: trata-se de uma fase em que o primitivo e o atual se confrontam, em que antigas formas de prazer e angústia reaparecem sob novas exigências de realidade e em que a sexualidade infantil perverso-polimorfa é reeditada, agora sob o impacto de uma genitalidade emergente e de demandas sociais ampliadas. Nessa perspectiva, a adolescência não inaugura o conflito edípico; ela o

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13. Transformações históricas, cultura e as metamorfoses do Édipo: do medievo ao mundo “fluido”

As formas pelas quais a sexualidade, o gênero e a adolescência são vividos e simbolizados não podem ser compreendidas fora da história. O lugar do homem, da mulher, da criança e do adolescente na família e na sociedade sofreu mudanças decisivas ao longo da civilização. Em certos períodos, dispositivos religiosos e políticos exerceram forte pressão sobre a vida pulsional, orientando-a por ideais de culpa, temor e obediência; em outros, a singularidade do indivíduo passou a ocupar posição central, com ênfase na autonomia, na racionalidade e na autorreferência. Essas mutações não eliminam os conflitos estruturais do psiquismo; elas transformam os modos de reconhecimento, regulação e narrativa. A própria noção de utopia revela essa mutação histórica. Se as utopias medievais tendiam a se organizar em torno de uma busca do paraíso perdido (Franco Júnior, 2021), na contemporaneidade elas assumem a forma de sistemas abertos e instáveis, atravessados por questões climáticas, revoluções digitais (incluindo inteligências artificiais), guerras culturais, transformações da subjetividade e novas configurações vinculares. Trata-se menos de imaginar perfeições do que de sustentar sobrevivência, dignidade e sentido – frequente-

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14. Implicações técnicas, transferência-contratransferência e a transformação do lugar do analista

Implicações técnicas, transferência-contratransferência... A introdução do conceito de Édipo Polimorfo Precoce implica uma revisão significativa da técnica psicanalítica e da posição subjetiva do analista, especialmente quando articulada a contribuições contemporâneas sobre a turbulência, as perdas e as aquisições da adolescência. Ao se enfatizar a distinção – frequentemente clínica, mais do que estrutural – entre conflitos narcísicos e conflitos edípicos, tem-se uma chave fundamental para compreender impasses técnicos recorrentes na clínica atual, e possibilita-se situar o EPP como operador clínico sensível aos diferentes níveis de organização do sofrimento psíquico. A adolescência é um período de intenso abalo narcísico, no qual a puberdade, a ampliação do campo social e a fragilização das referências simbólicas expõem o sujeito a experiências de desorganização que precedem – e por vezes impedem – o acesso pleno ao conflito edípico. Nesses casos, o sofrimento adolescente não se organiza prioritariamente em torno da rivalidade triangular, da renúncia ao objeto incestuoso ou da simbolização da castração, mas em torno da ameaça à coesão do ego, da perda de uma imagem idealizada de si e da dificuldade de tolerar a alteridade. Essa leitura

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PSICANÁLISE

A partir das transformações clínicas, culturais e históricas da contemporaneidade, este livro propõe uma releitura do Complexo de Édipo, preservando sua centralidade na teoria psicanalítica e ampliando seu campo de inteligibilidade. O conceito de Édipo Polimorfo Precoce (EPP) é apresentado como um desdobramento metapsicológico que articula sexualidade infantil, processos precoces de simbolização, vínculos primários e a diversidade das experiências identitárias e familiares. Colocando em diálogo a psicanálise, a antropologia e a clínica contemporânea, a obra convida o leitor a repensar, sem dogmatismos, os modos pelos quais desejo, limite, alteridade e subjetivação se constituem no mundo atual.

O Édipo não é mais aquele

Psiquiatra, psicanalista e escritor. Médico pela Escola Paulista de Medicina da Unifesp, doutor em História Social pela USP e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Foi estagiário do serviço de psiquiatria infantil e da adolescência no Hôpital de la Salpêtrière e no Centre Alfred Binet, em Paris. Exerceu funções de direção, ensino e pesquisa em instituições acadêmicas e psicanalíticas nacionais e internacionais. Foi editor da Revista Brasileira de Psicanálise, diretor administrativo da SBPSP, vice-presidente do Instituto São Paulo Contra a Violência e coordenador do projeto social “Abrace seu Bairro”, de prevenção à violência no meio escolar. É autor e organizador de diversas obras de referência e de romances.

Psiquiatra, psicanalista e pensador de larga experiência clínica e intelectual, David Levisky enfrenta, neste livro, uma das questões mais desafiadoras da contemporaneidade: como a psicanálise pode compreender as transformações atuais da sexualidade, do gênero e das formas de subjetivação sem se tornar refém de modelos normativos herdados de outra época.

Levisky

David Léo Levisky

David Léo Levisky

O Édipo não é mais aquele Édipo Polimorfo Precoce

PSICANÁLISE

Partindo de sua extensa experiência com crianças, adolescentes e famílias, Levisky propõe uma revisão crítica do estatuto do Complexo de Édipo na teoria e na clínica psicanalíticas. Sem abandonar a importância dos limites simbólicos e da alteridade na constituição do sujeito, o autor demonstra que as formas culturais pelas quais esses processos se organizam são historicamente mutáveis e exigem permanente reconsideração. Ao articular contribuições da antropologia, da metapsicologia, da clínica e da reflexão ética, O Édipo não é mais aquele: Édipo Polimorfo Precoce oferece uma resposta original aos impasses contemporâneos da psicanálise diante da diversidade das experiências identitárias e vinculares. Trata-se de uma obra que convida o leitor a repensar criticamente os fundamentos da teoria psicanalítica, reafirmando sua vocação essencial: compreender e acolher a singularidade da experiência humana em constante transformação. Nelson da Silva Junior

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24/08/2026 16:47


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O Édipo não é mais aquele by Editora Blucher - Issuu