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O apagamento do trauma

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Bonomi

Carlo Bonomi

No coração da psicanálise esconde-se um trauma apagado. É aquele sofrido por Sigmund Freud no dia em que soube que uma de suas pacientes quase morreu após uma cirurgia que ele havia aprovado. Inconscientemente identificada como uma repetição da mutilação genital sofrida por Emma Eckstein em sua infância, essa operação despertou nele fortes angústias, que ecoavam sua própria circuncisão, o contexto violentamente antissemita e o conflito com seu pai. O reconhecimento desse fato, mantido oculto por tanto tempo, revela uma nova narrativa sobre a fundação da psicanálise, permitindo compreender como Freud pôde conceder à castração o estatuto de forma a priori do traumático, ocultando ao mesmo tempo as mutilações genitais frequentemente impostas a mulheres e meninas. O trauma não reconhecido da circuncisão inscreveu-se, assim, no sistema de pensamento freudiano como uma herança amputada, da qual brotaram e floresceram os sonhos e as fantasias de seus discípulos mais próximos. Em especial, Sándor Ferenczi, aluno e confidente de Freud, contribuiu para reconhecer esse corpo ferido, lançando novas bases para a teoria e a prática psicanalíticas.

Coordenador Daniel Kupermann

O apagamento do trauma O apagamentro do trauma

Analista com funções de formação e supervisão na Sociedade Italiana de Psicanálise e Psicoterapia Sándor Ferenczi, presidente da International Sándor Ferenczi Network (ISFN), editor-chefe da revista The Wise Baby / Il poppante saggio e editor associado da revista International Forum of Psychoanalysis.

Carlo Bonomi

Uma breve história apocalíptica da psicanálise

Em contrapartida, o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi foi sensível aos traumas impostos às mulheres pelo patriarcado. Porém, o ostracismo de sua obra promoveu uma regressão no pensamento psicanalítico. De um lado, uma concepção rígida da técnica prevaleceu, para que os psicanalistas se defendessem, por meio do distanciamento afetivo, do impacto perturbador da experiência clínica. De outro, o modo reducionista, e mesmo misógino, pelo qual a psicanálise tratou as questões do feminino e da feminilidade.

PSICANÁLISE SEM FRONTEIRAS

PSICANÁLISE

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O personagem central deste livro é surpreendente para o leitor inadvertido: a excisão do clitóris, ou sua cauterização, nas meninas e jovens mulheres, empregadas como práticas correntes no final do século XIX e início do século XX para o tratamento da masturbação, ao lado da circuncisão nos meninos. Com riqueza documental e agilidade intelectual, Carlo Bonomi demonstra como o silenciamento dessa violência de gênero determinou a primazia do falo e da castração simbólica no pensamento freudiano, configurando efetivamente um apagamento do trauma.

Daniel Kupermann

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O APAGAMENTO DO TRAUMA Uma breve história apocalíptica da psicanálise

Carlo Bonomi

Tradução Mariana Toledo Revisor técnico Daniel Kupermann

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O apagamento do trauma: uma breve história apocalíptica da psicanálise © 2026 Carlo Bonomi Editora Edgard Blücher Ltda. Série Psicanálise sem Fronteiras Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenação editorial Rafael Fulanetti Coordenação de produção Ana Cristina Garcia Preparação de texto Equipe editorial Diagramação Guilherme Salvador Capa Juliana Midori Horie Imagem da capa Carlo Bonomi

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021. É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora. Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.

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Bonomi, Carlo O apagamento do trauma : uma breve história apocalíptica da psicanálise / Carlo Bonomi. – São Paulo : Blucher, 2026. 440 p. : il. – (Série Psicanálise sem Fronteiras). Bibliografia ISBN 978-85-212-3070-0 (impresso) ISBN 978-85-212-2931-5 (eletrônico – Epub) ISBN 978-85-212-2930-8 (eletrônico – PDF) 1. Psicanálise. 2. Trauma psíquico. I. Título. CDU 159.964.2 Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise   CDU 159.964.2

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Conteúdo

Prefácio

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Elisabeth Roudinesco

Introdução

17

Nota Lexical: castração, circuncisão, excisão

35

Parte I – A mulher, um homem castrado 1. A voz de Ferenczi

43

2. Ódio à mulher e veneração ao homem

71

3. “Continente escuro”

107

Parte II – O código 4. Amil, Trimetilamina = Brit Milah

145

5. O grande senhor pênis

179

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6. A noiva de sangue

205

7. O túmulo

235 Parte III – Transmissão

8. Uma lacuna como hereditariedade

263

9. Catástrofe

293 Parte IV – O fechamento do círculo

10. Cobras gigantes e dragões ainda vivos

329

11. Lacunas e substitutos

357

12. O nariz como fetiche

373

Epílogo

387

Referências

401

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Prefácio1 Elisabeth Roudinesco

Filósofo e psicanalista, Carlo Bonomi é considerado, com justiça, o maior especialista mundial no pensamento de Sándor Ferenczi, ao qual consagrou numerosos trabalhos. Nesta obra, publicada inicialmente na França e depois traduzida para o português a partir da sua versão italiana, ele parte da hipótese de que Freud teria negligenciado os sofrimentos corporais infligidos às crianças, no final do século XIX, pelos médicos preocupados em erradicar a prática precoce da masturbação. Confiantes no progresso da arte cirúrgica em plena expansão, eles preconizavam então um remédio preventivo a essa patologia da qual eram os inventores: excisão ou cauterização do clitóris para as moças, circuncisão para os rapazes. Deu-se o nome de “pedagogia negra” a essa fúria pediátrica da qual o cineasta austríaco Michael Haneke fez, em 2009, uma descrição magistral em A fita branca. Após ter descrito essa cena dita “apocalíptica”, Bonomi analisa a maneira como Freud, ainda neurologista, se confrontou com isso entre 1887 e 1896. No momento em que vai

1 Tradução Caio Liudvik.

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a Berlim, no inverno de 1886, para acompanhar o ensino do pediatra Adolf Baginsky, ele constata que o terror inspirado por esse “perigoso suplemento” (segundo Jean-Jacques Rousseau) desemboca em uma prática punitiva por parte da medicina, mais preocupada em erradicar os malefícios do flagelo imaginário do que em se interrogar sobre sua significação. Os médicos também inventaram todo tipo de “terapêuticas” para dar fim à peste onanista: espartilhos antimasturbatórios, estojos de ereção, dispositivos para abrir as pernas de meninas, injunções e ameaças de castração, algemas de mãos, ações judiciais contra babás acusadas de abuso e, finalmente, intervenções cirúrgicas nos ovários, no clitóris, no pênis. E, sem dúvida, segundo Carlo Bonomi, Adolf Baginsky estava então convencido de que as antigas prescrições da lei mosaica – notadamente a circuncisão – tinham sido fundadas por sacerdotes egípcios preocupados com profilaxia e comparáveis a modernas autoridades da saúde. Contudo, Freud não segue tais preceitos, embora não escape completamente – bem antes da invenção da psicanálise – à tríplice questão da importância da cirurgia, da causa da masturbação e da origem traumática das neuroses. Ao escutar as histéricas evocarem suas lembranças, ele percebe que várias dessas mulheres, frequentemente submetidas à excisão, sofreram atentados sexuais por parte de adultos. E ele deduz disso que todas as neuroses têm origem em um trauma real: um estupro ou toques. Mas não pensa que a masturbação possa gerar doenças orgânicas. No entanto, defende, como Baginsky, que a sedução da qual as crianças são vítimas por parte de adultos pode ser uma das principais causas da masturbação e da histeria. Compreende-se então por que, antes de poder tornar a masturbação – e, pois, o autoerotismo – uma forma fundadora de toda experiência sexual humana, ele precisa primeiro renunciar à sua teoria da sedução (Verführungtheorie). Essa teoria se apoia, aliás, em uma realidade social tanto quanto em uma evidência clínica: as crianças nas famílias são realmente abusadas e, muitas vezes, recalcam a lembrança dessa violência.

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Introdução

Em seu memorável livro sobre o significado psicanalítico da história, Norman O. Brown afirmou que “o objetivo da psicanálise – ainda não cumprido e apenas parcialmente consciente – é devolver nossas almas aos nossos corpos” (Brown, 1959, p. 158). Esta simples frase capta perfeitamente o que este livro significa para mim. A história aqui relatada é baseada em um acontecimento que permaneceu oculto até o momento. Levá-lo em conta nos conduz a uma narrativa acerca da fundação da psicanálise completamente diferente daquela estabelecida por Freud e, sobretudo, a um paradigma distinto daquele herdado da autoanálise. Esse acontecimento é nada menos do que uma circuncisão (Beschneidung) – hoje diríamos excisão – sofrida na infância por uma paciente que, nos primórdios da psicanálise, inspirou as ideias de Freud, habitou seus sonhos, provocou suas mudanças repentinas e, por fim, inspirou a autoanálise que deu origem à obra-prima de Freud, A interpretação dos sonhos. Por razões culturais, Freud não foi capaz de reconhecer a natureza traumática desse evento. Entretanto, tal fato trouxe à tona suas próprias experiências com a circuncisão, que ele havia testemunhado

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sendo realizada em crianças como parte da cruzada médica contra a masturbação e, acima de tudo, que havia se recusado a praticar em seus próprios filhos. A propósito, esta prática estava no centro de todas as suas contradições e despertava-lhe profunda angústia – por um lado, em decorrência dos ecos de um ambiente violentamente antissemita, e, por outro, devido ao conflito com seu pai e seus progenitores, justamente com relação à circuncisão. Por fim, essa situação intolerável levou Freud a conceber uma “religião científica” e um novo sistema de pensamento, o da psicanálise, em que a “castração simbólica” tomaria o lugar da circuncisão real e vivida. A tese deste livro é que esse trauma não reconhecido foi inscrito nesse sistema de pensamento como um legado amputado, a partir do qual os sonhos e as fantasias dos discípulos mais próximos de Freud germinariam e floresceriam. Em particular, Sándor Ferenczi, aluno e confidente de Freud, teria ajudado a restaurar esse legado, construindo os alicerces para uma refundação da psicanálise. * Muitas conferências e publicações marcaram as etapas do meu percurso como pesquisador. Tentarei resumir essas etapas da maneira mais sintética possível. O ponto de partida de minha investigação foi um sonho peculiar que Sándor Ferenczi teve um dia antes de pedir ao mestre que o aceitasse em análise. Três décadas atrás, esse sonho em que aparece um pênis pequeno, decepado e horrivelmente esfolado, provocou em mim a ideia de uma verdadeira catástrofe. Poderia o jovem Freud ter-se deparado com um caso de castração real nos primeiros anos de sua prática médica? Para investigar minha hipótese, visitei o professor Gerhard Fichtner, diretor do Instituto de História da Medicina da Universidade de Tübingen, na Alemanha, que, para meu espanto, entregou-me diversos livros e artigos médicos, todos em alemão, sobre a castração de mulheres e a excisão de meninas durante a segunda metade

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Nota Lexical: castração, circuncisão, excisão

A intenção desta breve nota é esclarecer o uso de palavras cujos significados mudaram ao longo da história, assim como mudaram as práticas associadas a elas. Em termos literais, “castração” significa a ablação das glândulas sexuais ou gônadas, seja no homem (testículos) ou na mulher (ovários). Essa prática é realizada há muito tempo somente em homens, por motivos religiosos (ritual de autocastração), sociais (eunucos, castratos), punitivos ou terapêuticos. Na era moderna, começamos a falar sobre castração de mulheres em referência a uma prática diferente. Conforme afirmou Marco Antonio Ulmo no início do século XVII, as mulheres “são ditas castradas quando aquela parte superior da vergonha, denominada ninfa (impropriamente, ou clitóris), é cortada, e na qual está localizado o trono da luxúria e a sede do amor”; e embora Johannes Benedidus Sinibaldus observe, em um tratado sobre a geração humana publicado em 1642, que “não é fácil determinar de que forma as mulheres podem ser castradas”, a amputação do clitóris, muitas vezes acompanhada do corte de parte

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das “ninfas” (pequenos lábios), é a prática referida por vários autores como “castração” nos séculos XVII e XVIII17. Esse uso do termo “castração” persistiu ao longo do tempo. Em meados do século XIX, era usado para denotar a ressecção do clitóris na cruzada contra a masturbação em meninas18, ainda sendo encontrado com o mesmo significado nas primeiras décadas do século XX (por exemplo, Cotte, 1931, p. 248). Entretanto, ao longo desses anos, o uso predominante do termo “castração” em revistas e tratados médicos está associado à remoção dos ovários, que por volta de 1840, após a descoberta de sua função reprodutiva, tornou-se a principal fonte anatômica da histeria. Entretanto, a remoção do ovário raramente era praticada, devido à alta taxa de mortalidade. Em vez disso, praticava-se a remoção do útero, especialmente no tratamento da histeria (termo derivado da palavra grega para útero). O tratamento da histeria por meio da remoção dos ovários começou a ser difundido somente com a introdução, em 1872, de uma nova técnica cirúrgica que reduziu drasticamente o índice de mortalidade. Nas décadas seguintes, tornou-se a principal terapia etiológica para casos de histeria. Em tratados e periódicos

17 Entre eles estavam Felix Platter, Georg Franck von Franckenau e Martin Schurig. Este último, referindo-se a opiniões anteriores, escreve: “De his castrationis modis ita scribit Johannes Benedidus Sinibaldus qua ratione quove modo castrari possint mulieres, non ita facile determinari licet. Marcus Antonius Ulmus in eam sententiam ire videtur, quod mulieres castrari dicantur, si pars illa pudendi superior, quae nympha (improprie vel potius clitoris) nuncupatur, & in qua libidinis thronus amorisque sedes collocatur, reciditur.” (Schurig, 1730, p. 380, apud Finzsch, 2021, p. 109, nota 62). O livro de Norbert Finzsch é o tratado mais abrangente sobre clitoridectomia desde 1500 até o presente. 18 Um artigo sobre a amputação do clitóris como cura para a masturbação em meninas, publicado anonimamente em 1862, menciona “a ressecção do clitóris ou castração”. (Anônimo, 1862, p. 363). O mesmo artigo relata como, além de remover o clitóris, “uma pequena parte das ninfas” também era removida (ibid.).

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1. A voz de Ferenczi

Certa vez, Freud disse a Max Eitingon que “o segredo da terapia é a cura pelo amor e . . ., com o máximo de esforço pessoal, talvez fosse possível superar ainda mais dificuldades no tratamento; entretanto, acabaríamos nos ‘esfolando’ [loose one’s skin]”. Freud, entretanto, em vez de “se esfolar”, preferiu “desenvolver a robustez necessária” [develop the thick skin we need] para “dominar a ‘contratransferência’, que é, afinal, um problema incessante para nós”. (Ernst Falzeder, 1994, p. 310)

O confronto com a “potência indiferente” Em 2 de setembro de 1932, Sándor Ferenczi foi a Viena a fim de ler para Freud o artigo que pretendia submeter para o congresso de Wiesbaden. Seu título era As paixões dos adultos e sua influência no desenvolvimento sexual e de caráter das crianças; posteriormente, foi renomeado Confusão de línguas entre os adultos e a criança: a linguagem da ternura e da paixão. Era o ponto culminante do trabalho de uma vida inteira, e uma reflexão lúcida, articulada em vários níveis. O abuso sexual na infância, trauma em torno do qual a psicanálise nasceu, foi descrito

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por Ferenczi como um acontecimento relacional. Ferenczi explorou as consequências intrapsíquicas do trauma, identificou como ele afeta a relação analítica e mostrou como o analista poderia evitar retraumatizar o paciente. Nos dias de hoje, esse artigo é considerado o início de um novo paradigma. Freud, por outro lado, acreditou que Ferenczi havia “regredido completamente” às antigas visões etiológicas sobre o trauma sexual infantil que ele defendera trinta e seis anos antes, e que logo abandonara. No dia seguinte, Freud escreveu para sua filha Anna que a única diferença era que Ferenczi havia acrescentado observações sobre a necessidade de os psicanalistas aceitarem as críticas dos pacientes e “admitirem seus erros para eles”. O confronto entre os dois homens foi terrível, com consequências dramáticas. Freud pediu a Ferenczi que não apresentasse o artigo no congresso e, como não recebeu a resposta esperada, virou as costas e deixou a sala sem se despedir. Ao sair da casa do professor, Ferenczi desenvolveu uma paralisia nas pernas, talvez um primeiro sintoma da anemia grave que seria diagnosticada algumas semanas depois. No dia 2 de outubro, Ferenczi escreveu seu último registro no Diário Clínico que havia iniciado em janeiro de 1932. Ele observou que a crise sanguínea havia ocorrido quando percebeu que não podia contar com a proteção de uma “potência superior”. “Pelo contrário”, acrescentou, “sou espezinhado por essa potência indiferente, se seguir o meu próprio caminho - e não o dela” (p. 260). Ferenczi morreu nove meses depois, no dia 22 de maio de 1933. O confronto com Freud, a “potência indiferente”, o abalou em suas profundezas orgânicas. Mas Ferenczi não conseguia imaginar uma vida diferente para si. Conheceu Freud em 1908 e imediatamente se tornou seu amigo, confidente e colaborador. Tinha 35 anos na época, 17 anos a menos que Freud. Ferenczi nasceu na Hungria, em 1873, o oitavo dos doze filhos de Baruch e Rosa. Seu pai faleceu em 1888, quando Sándor tinha 15 anos. Ele encontrou em Freud seu pai “idolatrado e adorado”. Em um de seus escritos, relatou em terceira pessoa a dor profunda que sentira com a morte do pai:

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2. Ódio à mulher e veneração ao homem

Chamamos “masculino” a tudo que é forte e ativo, e “feminino” a tudo que é fraco e passivo. (Freud, 1938b, p. 247)1 Eis um exemplo clássico de definição por oposição, em que um polo do binário – nesse caso, a masculinidade – é definido pela exclusão do outro – a feminilidade, a vulnerabilidade, a penetrabilidade – de sua definição (Aron & Starr, 2013, p. 284)

O ponto de ruptura entre Ferenczi e Freud No capítulo anterior, delineamos as crescentes divergências entre Ferenczi e Freud; mas será que existe, de fato, um ponto de ruptura? Em diferentes momentos, argumentou-se que a ruptura foi determinada pelas ideias de Ferenczi sobre o trauma, ou por suas abordagens

1 N.T.: Compêndio de psicanálise, CL v. 19, 2018.

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inovadoras à técnica. No entanto, essas explicações esbarram em um simples fato: essas diferenças eram bem conhecidas por Freud quando, na tentativa de fortalecer o relacionamento entre ambos, ele ofereceu a Ferenczi a presidência da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), como uma espécie de “terapia de choque”. Em maio de 1932, após longa hesitação, Ferenczi finalmente decidiu acatar o gesto de Freud e aceitar a presidência da IPA. Mas, imediatamente depois, em 22 de maio, enviou-lhe um cartão postal do Café Florián, em Veneza, com as seguintes palavras: P.S. à última carta. Será de seu interesse saber que em nosso grupo há debates animados sobre o complexo de castração feminino e a inveja do pênis. Devo admitir que, em minha prática clínica, eles não desempenham um papel tão importante quanto se esperava teoricamente. Como tem sido sua experiência? Essa pergunta foi fatal para a tentativa de chegarem a um acordo, e ambos deram um passo para trás. Poucos dias antes do último encontro entre eles, Ferenczi informou a Freud que não poderia aceitar uma função cuja “principal preocupação deveria ser a manutenção e a consolidação do que já existe” (21 de agosto). Porém, nesse meio tempo, Freud também havia mudado de ideia, como atestam as cartas que ele enviou a colaboradores de sua confiança. Em suma, com sua pergunta, Ferenczi havia cavado um fosso intransponível. Esse foi o verdadeiro ponto de ruptura. Esse enrijecimento de posições em torno de um problema que hoje sequer figura na pauta da psicanálise contemporânea nos deixa perplexos, também, pelo fato de que, anteriormente, Ferenczi havia se apropriado da ideia de que a mulher seria um homem castrado, base da teoria de Freud, a ponto de se tornar seu porta-voz. Consideremos a seguinte passagem, em que o antropólogo e psicanalista Geza Róheim

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3. “Continente escuro”

afinal, também a vida sexual da mulher adulta é um dark continent [continente escuro] para a psicologia. (Sigmund Freud, 1926b, p. 164)1

A castração de mulheres Quando o primeiro volume da correspondência entre Freud e Ferenczi foi publicado – a primeiríssima sendo a edição francesa, em 1992 – fiquei muito impressionado com os sonhos que Ferenczi relatou em sua carta a Freud de 26 de dezembro de 1912. Fiquei chocado com o significado do sonho sobre o pequeno pênis ereto servido em uma bandeja, mais ainda do que com o sonho do Coito Perigoso. Pareceu-me que não se tratava apenas de um sonho de castração, mas também de um sonho sobre a castração enquanto bastião teórico do sistema freudiano. Imediatamente associei esse fato a Thalassa, a obra apocalíptica

1 N.T.: A questão da análise leiga: diálogo com um interlocutor imparcial, CL v. 17, 2014.

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de Ferenczi, cujo herói, o falo, é descrito como o monumento vivo de uma catástrofe de dimensões cósmicas. Comecei a me perguntar a qual catástrofe ele se referia. Além de seu significado manifesto, seria possível que esse mito também possuísse um significado inconsciente? E, em caso afirmativo, qual seria o elemento indizível do qual ele extraía sua força? Qual teria sido o trauma específico interceptado e dramatizado por Ferenczi com seu mito universal? Motivado por essas perguntas, mergulhei na leitura de A interpretação dos sonhos. Relê-lo a partir dessa perspectiva foi uma experiência singular. A edição original consistia quase que exclusivamente em sonhos de Freud. Esse ato clamoroso de revelação de si mesmo exerceu uma atração hipnótica sobre aqueles que logo se tornariam seus alunos e discípulos. Há uma grande ironia no fato de que, na psicanálise ortodoxa, o analista é descrito como uma tela em branco anônima e impenetrável. O apego a essa ficção talvez tenha criado a barreira necessária para evitar que eles fossem tomados pelas imagens oriundas do inconsciente de Freud. Seja como for, comecei a sentir a reverberação de um único evento catastrófico de castração – nem simbólico, nem imaginário, mas real. Essa ideia era particularmente difícil de assimilar, porque, em psicanálise, a palavra “castração” referia-se exclusivamente a algo simbólico. Nenhum analista usava esse termo para se referir a um evento real. Ainda me lembro de uma passagem de André Green (1990) em que o leitor era advertido de que, na psicanálise, nunca se tratava de uma castração real. Apesar de tentar manter essa advertência em mente, a dimensão metafórica logo começou a desmoronar diante dos meus olhos, pois muitas das passagens cruciais de Freud ganharam um drástico significado literal. Apresentei minha ideia a Michele Ranchetti, que não ficou nem um pouco surpreso. Pouco tempo antes, ele havia disponibilizado em italiano dois artigos de Albrecht Hirschmüller, baseados nos registros

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4. Amil, Trimetilamina = Brit Milah

O judeu, assim como o clitóris, era considerado primitivo, selvagem e vestigial; por isso, literalmente, não tinha lugar na sociedade civil alemã. A difamação de judeus e mulheres por meio da equiparação de seus órgãos genitais tornou-se, posteriormente, um fator significativo na maneira como Freud desenvolveu sua teoria da angústia de castração, da inveja do pênis e do “repúdio à feminilidade” como a “rocha básica”1 da psicanálise (Aron & Starr, 2013, p. 248)

Dois mundos distintos O estudo da literatura médica revelou a disseminação, entre 1850 e 1950, de uma prática impensável nos dias de hoje: a castração, principalmente em mulheres e meninas. Contudo, essa realidade histórica foi adulterada e substituída pela representação de castração concebida pela psicanálise. Um bom exemplo disso é a resenha de um estudo de acompanhamento de 244 casos de castração em homens e

1 N.T.: O termo original é “bedrock”. Optamos por usar a tradução adotada pela Companhia das Letras.

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mulheres publicada no The Psychoanalytic Quarterly, em 1961, em que o autor escreveu: Do ponto de vista psicanalítico, devemos presumir que a castração nos homens reforça o medo de mais perdas – a perda do pênis; enquanto a castração nas mulheres não interfere na imagem corporal visível e, portanto, tem menos ou nenhum efeito traumático. (Gero, 1961, p. 589) O conceito psicanalítico de castração, isto é, o medo imaginário de que o pênis seja cortado fora, é usado no texto para erradicar o efeito traumático que a castração real – nesse caso, a remoção de órgãos reprodutivos por motivos eugênicos – pode ter em uma mulher. O mesmo conceito é usado para desconsiderar o caráter traumático da mutilação genital feminina, com base na representação da mulher como um “homem castrado”, apoiada pela metapsicologia e suas inúmeras repercussões – especialmente a crença de que a mulher, para tornar-se tal, deve abrir mão de seu “falo imaginário”. A lacuna entre a realidade histórica da castração médica e a realidade alternativa criada pela metapsicologia foi o problema que enfrentei após o estudo intitulado “Por que ignoramos Freud o ‘pediatra’?” (Bonomi, 1994a).2 Era um verdadeiro quebra-cabeça. Logo me convenci de que essa clivagem havia ocorrido no momento do sonho da injeção de Irma, mas continuava tateando no escuro tentando descobrir como havia ocorrido o salto da medicina para a psicanálise. Ficou claro para mim, no entanto, que o que estava em jogo não era outra coisa senão a origem e o significado do sistema falocêntrico de Freud, e que o quebra-cabeça podia ser resumido pela fórmula Du sexe mutilé au culte du phallus (“Da mutilação genital ao culto do falo”), título de

2 A obra, originalmente em inglês, foi traduzida para o francês em três edições diferentes. Recentemente, em 2020, começou a despertar novo interesse e foi traduzida para o português e o russo.

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5. O grande senhor pênis

Temos que dizer: “É preciso chamar a bruxa, afinal”.1 Ou seja, a bruxa metapsicologia. Sem especular e teorizar – quase digo: fantasiar – de maneira metapsicológica, não avançamos um passo neste ponto. (Freud, 1937, p. 287)2

A boca Em meu artigo de 2013 sobre a importância da circuncisão de Emma Eckstein para o Sonho da Injeção de Irma, descrevi a cena como uma combinação entre realidade e fantasia. Sua mutilação foi real, mas a cena foi construída com base no modelo do brit milah ortodoxo, no qual o mohel (o circuncisor), após cortar um pedaço de pele, suga o sangue do pênis circuncidado do bebê. A cena era, portanto, produto de uma contaminação que rompe todas as barreiras entre sagrado e profano, medicina e religião, homens e mulheres – antecipando, com isso, um dos aspectos mais notáveis da obra de Freud.

1 N.T.: Citação de Fausto, de Goethe. Em alemão: “So muss denn doch die Hexe dran!”. 2 N.T.: Análise terminável e interminável, CL v. 19, 2018.

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Pouco depois de sua publicação, recebi uma carta de uma advogada de Nova York contestando minha descrição do brit milah ortodoxo. Ela escreveu: Participei dessas cerimônias durante toda a minha vida e nunca presenciei um rabino ‘encostar seus lábios’ no pênis de uma criança. Nenhum de meus inúmeros amigos e familiares judeus jamais testemunhou uma ação desse tipo, seja entre os segmentos ortodoxos ou menos observantes. Essa mulher culta que, à parte disso, gostou do meu texto, tinha um interesse específico pela transmissão geracional. No entanto, ela não conseguia aceitar a imagem de um rabino “encostando seus lábios” no pênis de uma criança. Para ela, havia sido uma ignorância de minha parte destacar o fato, uma imprecisão flagrante que minava não apenas o valor do meu argumento, mas até mesmo minha credibilidade como pesquisador e intérprete da psicanálise.3 Seu e-mail inesperado me fez compreender, de súbito, como essa cena oral podia ser degradante e vergonhosa, já que a boca é o órgão da fala e as palavras são os produtos mais nobres de nosso espírito. Também percebi que minha demora em escrever o livro que reunia minha pesquisa se devia, em grande parte, ao fato de que eu não desejava ofender ninguém, tampouco provocar respostas hostis. Ao mesmo tempo, lembrei-me que uma das maiores conquistas da psicanálise dizia respeito às fantasias orais de incorporação, e me consolei pensando

3 Esse episódio é relatado no primeiro volume de The Cut. Em sua resenha do livro, Jonathan Sklar (2016) comentou a esse respeito: “Uma advogada de Nova York chegou a escrever para Bonomi, alegando que sua descrição da prática do metzizah b’peh era impossível e equivocada. No entanto, em 2004, devido à preocupação com uma possível disseminação do vírus da herpes, o Departamento de Saúde e Higiene Mental da cidade de Nova York aconselhou pais e mohelim a jamais realizar a metzizah b’peh com sucção oral direta da ferida da circuncisão”.

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6. A noiva de sangue

Penso em . . . Zípora, aquela que reparou o fracasso de um Moisés que fora incapaz de circuncidar seu próprio filho, antes de dizer-lhe: “Você é para mim um marido de sangue”, ela teve que comer o prepúcio ainda sangrento, imagino que primeiro sugando-o, minha primeira amada canibal, iniciadora no sublime portão da felação, como tantos mohels que, durante séculos, praticaram a sucção, ou mezizah, diretamente na glande, misturando-a a vinho e sangue, até a coisa ser abolida em Paris, em 1843, por questões de higiene . . . (Jaques Derrida, Circonfissão, Parte 13)

A pedra angular Freud teve outro sonho. Ao passo que aquele em que ele pergunta o caminho ao Herr Zucker codificava sua reação à cena do diabo, o quarto e último sonho da série de Roma codifica a reação de Freud à última cena produzida por Emma: o episódio da circuncisão feminina. Esse sonho consistiu em uma única passagem, ambientada não em Roma, mas em Praga, onde na época ocorria uma revolta contra o império e a imposição da língua alemã. Em seu sonho, Freud encontra-se

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parado em frente a uma esquina (Strassenecke), surpreso por ver tantos cartazes e proclamações em alemão nos muros. Alguns estudiosos consideram esse sonho a encruzilhada mais importante da autoanálise de Freud. Para Anzieu (1986), ele constitui a “pedra de Roseta”1 da psicanálise, uma vez que a teoria freudiana do sonho como um enigma ou criptograma a ser decifrado derivou-se dele. Há quem afirme que ele inspirou a ideia de Lacan de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Anzieu, que foi aluno de Lacan, dedicou muitas páginas a esse sonho, chegando a imaginá-lo como o momento em que Freud/Moisés recebe “as Tábuas da Lei do Inconsciente” (pp. 203-204). Para o autor, o elemento mais importante do sonho era a “esquina” como um ponto onde diversas linhas e sistemas convergem e se unem, a começar pelos vários idiomas (alemão, tcheco, iídiche) e religiões (hebraico e católico) com que Freud cresceu. Anzieu argumenta que essa intersecção estratificada sinaliza o surgimento de um novo tipo de espaço mental, que prepara e antecipa a descoberta do complexo de Édipo. O que Anzieu não percebeu é que a esquina (Strassen-ecke) codifica o nome de família de Emma, Eck-stein (pedra angular), o que também ocorre em um sonho que Freud teve em abril de 1897. No livro dos sonhos, Freud o relatou imediatamente após a explicação de como a figura de Irma condensava mais pessoas, observando que o trabalho de condensação nos sonhos “se torna mais evidente quando escolhe palavras e nomes como seus objetos”, pois “muitas vezes as palavras são tratadas como coisas no sonho” (Freud, 1900, pp. 337-38).2 Trata-se do “norekdal”, um de seus sonhos mais condensados. No dia anterior, Freud havia recebido um artigo de um amigo (Isidor Sadger),

1 A pedra de Roseta tornou possível decifrar a escrita pictográfica egípcia, graças às inscrições em três idiomas. 2 N.T.: A interpretação dos sonhos, CL v. 4, 2019.

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7. O túmulo

. . . a parte que ficou intacta vela sobre a parte ‘morta’ da pessoa e protege-a como uma criança. (Sándor Ferenczi, Notas e fragmentos, 24 de agosto de 1930)1

Finis mundi Durante sua vida pré-histórica em Freiberg, Freud vivenciou mais um desaparecimento após a morte de seu irmão Julius. No final de 1858, tanto a mãe quanto a babá sumiram – a primeira foi dar à luz sua irmãzinha Anna e a outra foi presa por roubo. Freud não guardou lembranças conscientes desses acontecimentos, mas vez ou outra uma cena enigmática vinha à sua mente: ele chorava desesperadamente pelo desaparecimento de sua mãe e Philipp, seu meio-irmão de vinte anos, abria um armário ou caixa (Kasten), mas estava vazio, o que o deixou ainda mais desesperado; até que sua mãe entrou pela porta, “esbelta” (=não mais grávida) e “bonita”.

1 N.T.: Notas e fragmentos, WMF v. IV, 2011.

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Freud relatou essa lembrança na carta de 15 de outubro de 1897, a mesma em que afirma o valor universal da tragédia de Édipo, oferecendo uma explicação: Philipp, que gostava de brincar com as palavras, deve ter dito a ele que a babá havia sido “trancafiada” (eingekastelt, “encaixotada” no Kasten – armário ou guarda-roupa). Sendo assim, a lembrança foi fabricada em torno de um trocadilho, posteriormente contribuindo para a sobredeterminação da Caixa [Kasten] como Caixão e Útero, algo que permeia a vida, os sonhos e a obra do pai da psicanálise. Isso elucida o significado particular que a arqueologia guardava para ele, como observou Suzanne Cassirer Bernfeld (1951) em um belo ensaio sobre Freud e a arqueologia. É possível que a origem da paixão de Freud pela arqueologia esteja nas imagens sugestivas da Bíblia de Philippson, uma bíblia ilustrada que o impressionou muito quando criança. Pelo menos é isso que sugere seu sonho com a “Mãe Morta”, o único de sua infância que Freud relata em A interpretação dos sonhos. Aos 9 anos e meio de idade, quando Amalia estava grávida de Alexander, Sigismund sonhou que sua amada mãe era carregada, imóvel, por figuras com bicos de pássaro, derivadas de um antigo baixo-relevo funerário egípcio da bíblia ilustrada (Freud, 1900, pp. 636).2 Como é sabido, Freud se tornou um grande colecionador de antiguidades, objetos “desenterrados” (como afirmou ao Homem dos Ratos e outros pacientes), dos quais ele se cercava e que lhe proporcionavam um prazer único. Na vida real, sua paixão pela arqueologia ganhou forma no verão de 1897, quando vagava entre a Toscana e a Úmbria em busca da “beleza absoluta”. Em 9 de setembro de 1897, chegou a Orvieto na companhia de seu irmão Alexander. Naquela manhã, visitou a majestosa catedral dedicada a Santa Maria Assunta. Sua construção começou em 1290 e durou quase três séculos; sua fachada gótica é uma das grandes

2 N.T.: A interpretação dos sonhos, CL v. 4, 2019.

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8. Uma lacuna como hereditariedade

Aquilo a que chamamos hereditariedade talvez seja apenas a transferência para a descendência da maior parte da tarefa dolorosa de liquidar os traumas (Sándor Ferenczi, Thalassa, 1924, p. 332, grifo no original)1

O testamento O sonho da autodissecação da pelve marca o fim da jornada autoanalítica que se desenrola ao longo de A interpretação dos sonhos, tendo começado com a fantasia de se encontrar com Fliess em Roma no dia de Páscoa. Freud acabou se deparando com seu próprio trauma, que foi continuamente projetado em seus seguidores. Nesse sonho, juntamente com o pensamento de sua morte, surge na mente de Freud a ideia de que ele “teria de deixar para [seus] filhos o feito de alcançar o objetivo da difícil jornada” (Freud, 1900, p. 526).2 A ideia “de que os filhos talvez consigam alcançar [erreichen, “chegar a”] o

1 N.T.: Thalassa: ensaio sobre a teoria da genitalidade, WMF v. 3, 2011. 2 N.T.: A interpretação dos sonhos, CL v. 4, 2019.

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que o pai não conseguiu” surge quando ele percebe que a ponte sobre o abismo é feita de duas crianças, uma imagem que ao mesmo tempo em que evoca o ato de “passagem” celebrado pela Páscoa judaica (Pessach), Freud apresenta como “outra referência ao romance estranho em que a identidade de uma pessoa é mantida por uma sequência de gerações de 2 mil anos” (Freud, 1900, p. 501).3 Se Grinstein (1980) encontrou nessa alusão uma “conexão entre o tema da compulsão à repetição . . . e o desejo de superar um evento traumático” que prenuncia “o conceito freudiano de pulsão de morte nos anos seguintes” (p. 402), McGrath (1986) identifica uma referência à “imagem de Moisés sendo impedido de entrar na terra prometida” e a Josué e Calebe (Números, 14), os dois garotos que completarão sua missão. No sonho de Freud, as duas crianças/ponte prenunciam seus seguidores e a fundação do movimento psicanalítico nos anos posteriores: Freud esperava conseguir seguidores intelectuais para difundir a compreensão e a prática da psicanálise, e a imagem de Moisés era extremamente adequada para essa empreitada. Freud a utilizou especificamente com referência a si mesmo e a seu movimento dez anos depois, em uma carta a Jung. Ele escreveu: “Se eu sou Moisés, então você é Josué e tomará posse da terra prometida da psiquiatria, que eu somente poderei vislumbrar de longe”. (McGrath, 1986, p. 302; a carta de Freud é datada de 17 de janeiro de 1909) A intuição de McGrath se torna ainda mais completa quando consideramos que Freud designaria não um, mas dois herdeiros: Jung e Ferenczi.4

3 Evidentemente, é a figura do judeu que, na visão da época, permaneceu a mesma ao longo do tempo. Entretanto, mesmo nesta passagem Freud substitui a figura do judeu pelos personagens gregos do romance Ela. 4 Muito tempo depois, Freud também nomeou Otto Rank como seu herdeiro (vide Rudnytsky, 1991).

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9. Catástrofe

Foi essa mesma hipótese que Freud desenvolveu em Além do princípio do prazer, baseando-se na fantasia poética de O banquete de Platão. Segundo Freud, uma grande catástrofe cindiu a matéria em duas partes, suscitando em cada um dos fragmentos o desejo de reunificação, o que poderia representar o começo da vida orgânica. (Sándor Ferenczi, Thalassa, 1924, p. 377-378)1

A segunda análise de Emma Eckstein Entre 1908 e 1910, a teoria psicanalítica foi reorganizada em torno da ideia de um “complexo nuclear das neuroses” e dos conceitos de complexo de Édipo e castração, que ganharam destaque principalmente por conta do relato de caso do Pequeno Hans (Freud, 1909).2 Nos anais da psicanálise, 1910 é lembrado como o glorioso ano da fundação da International Psychoanalytic Association (IPA). No entanto, 1910

1 N.T.: Thalassa: ensaio sobre a teoria da genitalidade, WMF v. III, 2011. 2 Vide Wakefield, 2023a, 2023b para uma crítica lúcida do papel fundamental do caso do pequeno Hans na sistematização do pensamento freudiano.

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também foi “um dos anos mais intrigantes” da vida de Freud, como bem apontado por Patrick Mahony (1979, p. 86), referindo-se à falta de elementos que pudessem “explicar o crescente interesse de Freud pela bissexualidade” (p. 87), bem como o “desconcertante domínio do espectro de Fliess” (p. 88), que culminou no trabalho de Freud sobre Schreber, seu famoso estudo sobre homossexualidade e paranoia. O motivo é fácil de explicar: 1910 foi o ano do fim catastrófico da segunda análise de Emma Eckstein. Para a família de Emma, sua primeira análise com Freud havia sido um grande sucesso. O fato é relatado por seu sobrinho, Albert Hirst, que também foi uma testemunha privilegiada do fracasso da segunda análise, não apenas por sua relação próxima com a tia, mas também porque ele próprio estava em análise com o Professor Freud. Nascido em 1887, Albert Hirsch – nos Estados Unidos ele muda seu sobrenome para Hirst – escreveu o relato de sua experiência com Freud quando tinha mais de 80 anos e doou o manuscrito de 38 páginas, intitulado Analyzed and Reeducated by Freud Himself (“Analisado e reeducado pelo próprio Freud”, manuscrito sem data) para a Biblioteca do Congresso de Washington, juntamente com as cartas e cartões postais que Freud havia escrito para Emma Eckstein.3 Ao que indicam algumas dessas cartas, no final da primeira análise ainda havia divergências e problemas não resolvidos. Ainda assim, isso não impediu Emma Eckstein de começar a trabalhar como psicoterapeuta no decorrer de 1897. Não sabemos por quanto tempo, mas é certo que ela foi a primeira analista treinada e supervisionada pelo próprio Freud. Ela também publicou alguns escritos. Um deles é mencionado

3 Um total de 14 comunicações foram escritas entre 1895 e 1906. Library of Congress, Washington, DC (Sigmund Freud’s papers, Supplemental File, 1765–1998, Box 61. Library of Congress, Manuscript division). Algumas delas foram publicadas por Masson (1984). Atualmente, elas estão disponíveis online.

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10.  Cobras gigantes e dragões ainda vivos

Às vezes chegamos a duvidar que os dragões da préhistória tenham realmente se extinguido. (Sigmund Freud, 1937a, p. 292)1

Um sistema fechado Freud revisou incessantemente partes relativamente extensas de sua teoria. Ainda assim, o núcleo de seu pensamento que gira em torno da “primazia do falo” permaneceu imune a revisões ou concessões, tornando-se um sistema fechado em que as diversas ideias sobre castração se conectam formando um único bloco, que só pode ser aceito ou rejeitado. Não se pode rejeitar uma das ideias sem derrubar todo o sistema – que, no fim das contas, é como um delírio. Os pilares desse sistema fechado são, por um lado, a ideia de que o pai da família humana primeva castrou seus filhos e, por outro lado, que a mulher é um “homem castrado” que perdeu seu pênis no curso da evolução biológica. Pura metapsicologia. Quando Freud convidou

1 N.T.: Análise terminável e interminável, CL v. 19, 2018.

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Ferenczi e Rank para trabalharem juntos a lacuna entre a teoria e a prática, Rank escreveu a Freud para lhe dizer que eles haviam “decidido primeiro iniciar uma campanha científica contra a superestimação do complexo de castração” (22 de agosto de 1922). Freud imediatamente os dissuadiu e o assunto foi retirado de pauta. Mas, como sabemos, o tema aparece com destaque em O trauma do nascimento, de Otto Rank, livro que resultou em sua expulsão do movimento psicanalítico. Foi justamente em resposta à revisão de Rank que Freud (1926a, pp. 6970)2 reorganizou sua teoria, postulando o trauma da castração como um a priori sintético: ele argumenta que qualquer que seja o perigo ou perda mortal vivenciado pelo ego, o inconsciente o representa na forma de castração. A “castração simbólica” havia se tornado a linguagem universal do trauma. O círculo se fechava. Será que Freud teria desenvolvido esse sistema delirante se tivesse reagido de forma diferente ao trauma da circuncisão de Emma Eckstein, tratando-o e responsabilizando-se por ele? Creio que não. Na vida de Freud, houve também um episódio em que a construção desse sistema corria o risco de entrar em colapso. Isso aconteceu antes que as várias peças do sistema fossem agrupadas em um único bloco. Neste capítulo, discutiremos esse colapso que, muitos anos depois, foi tema da última reflexão autoanalítica de Freud. Antes, porém, tentaremos esclarecer como Ferenczi desmantelou o sistema de Freud por dentro, agindo indiretamente como seu “terapeuta”, e como isso influenciou a reflexão autoanalítica de seu professor.

Metapsicologia da fragmentação da vida psíquica Ao questionar repetidas vezes o significado do sonho de Freud com a autodissecação de sua pelve, Ferenczi lentamente conseguiu modificar o sistema freudiano por dentro. É evidente que esse sistema também

2 N.T.: Inibição, sintoma e angústia, CL v. 17, 2014.

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11. Lacunas e substitutos

. . . o horror à castração ergue para si um monumento, ao criar esse substituto. (Sigmund Freud, 1927, p. 306)1

Uma rachadura no edifício A nota inacabada de Freud intitulada A cisão do Eu no processo de defesa,2 de 1938, sinaliza uma fissura no sólido edifício teórico construído sobre o complexo de Édipo. O ponto em que Freud teve um bloqueio, o medo de ser devorado, foi o elemento central de seu caso clínico mais importante: o Homem dos Lobos.3 Esse caso paradigmático

1 N.T.: O fetichismo, CL v. 17, 2014. 2 N.T.: Título da edição da Companhia das Letras. Na Imago, A divisão do ego no processo de defesa. Consideramos “cisão” uma tradução mais adequada para Spaltung, do alemão. 3 Abraham e Torok (1976) identificaram o Homem dos Lobos como o paciente a quem Freud se refere no ensaio sobre a “cisão do ego” (Freud, 1938a) e no ensaio O fetichismo (1927a), e como o Sr. P. de Sonho e ocultismo (Freud, 1933a, Conferência nº. 30). A última hipótese deve ser descartada, pois já foi demonstrado de forma convincente que o paciente em questão era Paul Bernfeld (Pierri, 2010).

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havia inspirado o conceito de “neurose de transferência” apresentado no último ensaio técnico de Freud, Recordar, repetir e elaborar, tornando-se, por fim, “uma fonte permanente de referência para hipóteses sobre a cena primária, as fantasias primárias e a herança de memórias raciais” (Kanzer, 1972). Nascido em uma rica família aristocrática russa de Odessa, o Homem dos Lobos entrou impetuosamente na vida de Freud aos 28 anos de idade. Como Freud relatou a Ferenczi em 13 de fevereiro de 1910, após a primeira sessão o novo paciente russo confessou a ele a seguinte “transferência”: Vigarista judeu, ele gostaria de me usar por trás e cagar na minha cabeça. Aos seis anos de idade, ele apresentou como primeiro sintoma o xingamento contra Deus: porco, cachorro etc. Quando viu três montes de fezes na rua, ficou desconfortável por causa da Santíssima Trindade e procurou ansiosamente por mais um monte, a fim de destruir a associação. Judeu, por trás, embaixo, em cima, Deus, analidade e Trindade marcam as coordenadas do espaço em que essa análise tomou forma, cujo epicentro, a homossexualidade recalcada, resume bem as principais preocupações de Freud naquela época. Quando o Homem dos Lobos surgiu em sua vida, Freud estava imerso na escrita de seu ensaio sobre Leonardo. Paralelamente, a segunda análise de Emma Eckstein caminhava para o abismo. O final traumático dessa análise trouxe todos os problemas não resolvidos de volta à tona. Já sabemos que a maneira que Freud encontrou para lidar com o fantasma de Fliess foi mergulhar de cabeça no delírio paranoico do presidente Schreber. Todo o resto começou a se ordenar graças ao novo paciente russo. Por meio dessa análise, Freud inclusive retornou aos embaraços da primeira análise com Emma Eckstein e revisitou

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12. O nariz como fetiche

. . . chegará o momento em que [o analista] deve reproduzir por suas mãos o crime perpetrado outrora contra o paciente. Entretanto, diferente do crime original, ele não tem agora o direito de negar sua falha. . . (Sándor Ferenczi, Diário clínico, 8 de março de 1932)

A paranoia do nariz São muitos os momentos de espelhamento entre Freud e o Homem dos Lobos, mas neste trabalho resgatarei um em particular: “Ambos tinham fixação por seus narizes”.1 Para o Homem dos Lobos, o nariz remetia a uma catástrofe que precisava ser evitada. Quando criança, sua irmã Anna, que cometeu suicídio aos 21 anos de idade, ficava ansiosa com a

1 Mahony (1995, p. 107). Cito novamente a edição francesa do ensaio de Mahony sobre o Homem dos Lobos: “O Homem dos Lobos dava muita atenção ao seu nariz e tinha orgulho de seu tamanho pequeno; esse órgão fora submetido a tratamento médico na puberdade e durante sua análise com Freud, posteriormente tornando-se o centro de seus distúrbios psicóticos. Freud glorificou a teoria de Fliess sobre a neurose reflexa nasal no âmbito de uma ‘pan-nasologia’, submetendo-se ele próprio a várias operações no nariz” (Mahony, 1995, pp. 107-108).

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ideia de seu nariz ficar vermelho. Para evitar o perigo, eles inventaram um jogo: Anna perguntava: “Esanetor?” (“rote Nase” ao contrário, que significa “nariz vermelho” em alemão), e o irmão respondia: “não, não, está tudo certo”.2 Algo semelhante aconteceu na relação de Freud com o Homem dos Lobos, exceto pelo fato de que a palavra mágica era em inglês e qualquer tentativa de evitar a catástrofe fracassaria. Em 1923, Freud descobriu uma leucoplasia em sua boca, obrigando-o a realizar inúmeras cirurgias, começando em abril daquele ano. Antes das férias de verão, Sergei Pankejeff o visitou para receber seu dinheiro e chegou a ficar ligeiramente impressionado com o rosto deformado de seu analista. Posteriormente, em novembro, sua mãe chegou da Rússia e ele imediatamente notou uma verruga preta em seu nariz – uma verruga que aparecia e desaparecia: “Ora estava presente, ora não” (Brunswick, 1928, p. 443). As preocupações de Pankejeff com seu próprio nariz começaram no ano seguinte, alternando-se ou misturando-se com as preocupações relacionadas à sua boca. Certa vez, sentia dor de dente mas não queria retornar ao Dr. Wolf, dentista que havia extraído dois dentes seus três anos antes, devido à previsão de que ele perderia todos os dentes. Ele foi a outro dentista, e depois a um terceiro, cujo nome também era Wolf. Quanto ao nariz, ele se sentia muito afortunado por ter um nariz sem nenhuma imperfeição. Até que resolveu examiná-lo com cuidado. Por fim, conseguiu encontrar alguns poros nasais que se destacavam “como pontos negros”. Algum tempo depois, espremeu uma espinha e,

2 Sergei Pankejeff relata esse fato em sua entrevista com Karin Obholzer (1980, p. 110). Nos relatos analíticos de Freud, não há menção a esse ritual apotropaico. No entanto, não se tratava de uma memória recalcada, e é improvável que não tenha surgido ao longo dos quatro anos de análise, todos centrados apenas na infância, ou que não tenha despertado o interesse de Freud, que era fascinado pela inversão de palavras.

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Epílogo

Para Geller (2007), o discurso de Freud sobre o fetiche do nariz colocou em questão a circuncisão como marcador da diferença judaica e “dispositivo” que, em um ambiente antissemita, definia a identidade do Judentum e dos incircuncisos. Na opinião do pesquisador, “preso na teia da circuncisão dispositiva, Freud se fixou na fantasia transferencial da castração que viria a dar vida ao seu corpus, como ‘rocha viva’, e tornar significativas todas as narrativas de vida” (p. 15). Sem diminuir a importância da questão da identidade enfrentada pela comunidade judaica em um ambiente antissemita, nem subestimar a dificuldade de Freud em reconhecer seu lado feminino, parece-nos que as muitas peças do quebra-cabeça não podem se encaixar de maneira coerente se não levarmos em conta, também, um fragmento da realidade: a circuncisão de Emma Eckstein. Freud não conseguiu reconhecer seu significado traumático, porque as categorias de pensamento necessárias ainda não existiam. Ele havia encontrado, nos termos da teoria de Gaston Bachelard (1934), “um obstáculo no próprio ato de saber”, um obstáculo epistemológico. Ainda assim, o olhar petrificado de Freud, fixado no “pedaço de pele” cortado [Stückchen Haut], sobreviveu em uma parte dissociada de

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sua psique, tornando-se o epicentro de suas fantasias, devaneios e especulações metapsicológicas. Além disso, em algum momento esse trauma não reconhecido se torna um trauma apagado. O impensado, então, se torna o impensável, transmitido de um inconsciente para outro com toda a série de efeitos inquietantes relatados nesta Breve história apocalíptica da psicanálise. O caso da paranoia do nariz do Homem dos Lobos, essa estranha percepção de um “buraco” no qual Freud reconhece o fetiche que, simultaneamente, dissolve e preserva o horror infinito da castração, talvez seja o caso mais emblemático desses efeitos perturbadores. Isso porque, por meio de um espetacular jogo de espelhos, ele nos leva de volta à “cena do crime”. Assim como os inúmeros interlocutores de Freud, o Homem dos Lobos se vê inexoravelmente atraído por esse lugar sem nome, essa lacuna psíquica que toma conta das entranhas e ataca o corpo. O impensável se materializa no corpo, ou melhor, em uma luta corpo a corpo. Ao longo desta história, vimos cada um dos protagonistas enfrentar essa batalha, a começar pelo próprio Freud que, dividido em dois, luta contra sua própria lacuna psíquica no curso da autoanálise. Testemunhamos sua contenda na acrópole de Atenas, que o deixou atordoado, e nas dramatizações de sua própria morte, ou até mesmo materializada em sua boca ou representada no lago de onde emerge a gigantesca serpente, nem viva, nem morta. Vimos Emma Eckstein lutar novamente quando, em sua segunda análise, pede em vão a seu analista que reconheça algo “orgânico” na origem de seu sofrimento, que seu corpo seja pensado e se torne pensável. Nem Jung, a quem demos pouco espaço, nem Ferenczi, escaparam desse combate. Nós os vimos adentrar e sair do vazio psíquico de Freud, cada um à sua maneira. Ferenczi, especialmente, nos impressionou e fascinou por suas qualidades telepáticas e miméticas, pelo modo como conseguiu entrar no pesadelo de Freud a ponto de torná-lo seu, pelo modo como transformou o pesadelo em um sonho com Thalassa e,

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Referências

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Bonomi

Carlo Bonomi

No coração da psicanálise esconde-se um trauma apagado. É aquele sofrido por Sigmund Freud no dia em que soube que uma de suas pacientes quase morreu após uma cirurgia que ele havia aprovado. Inconscientemente identificada como uma repetição da mutilação genital sofrida por Emma Eckstein em sua infância, essa operação despertou nele fortes angústias, que ecoavam sua própria circuncisão, o contexto violentamente antissemita e o conflito com seu pai. O reconhecimento desse fato, mantido oculto por tanto tempo, revela uma nova narrativa sobre a fundação da psicanálise, permitindo compreender como Freud pôde conceder à castração o estatuto de forma a priori do traumático, ocultando ao mesmo tempo as mutilações genitais frequentemente impostas a mulheres e meninas. O trauma não reconhecido da circuncisão inscreveu-se, assim, no sistema de pensamento freudiano como uma herança amputada, da qual brotaram e floresceram os sonhos e as fantasias de seus discípulos mais próximos. Em especial, Sándor Ferenczi, aluno e confidente de Freud, contribuiu para reconhecer esse corpo ferido, lançando novas bases para a teoria e a prática psicanalíticas.

Coordenador Daniel Kupermann

O apagamento do trauma O apagamentro do trauma

Analista com funções de formação e supervisão na Sociedade Italiana de Psicanálise e Psicoterapia Sándor Ferenczi, presidente da International Sándor Ferenczi Network (ISFN), editor-chefe da revista The Wise Baby / Il poppante saggio e editor associado da revista International Forum of Psychoanalysis.

Carlo Bonomi

Uma breve história apocalíptica da psicanálise

Em contrapartida, o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi foi sensível aos traumas impostos às mulheres pelo patriarcado. Porém, o ostracismo de sua obra promoveu uma regressão no pensamento psicanalítico. De um lado, uma concepção rígida da técnica prevaleceu, para que os psicanalistas se defendessem, por meio do distanciamento afetivo, do impacto perturbador da experiência clínica. De outro, o modo reducionista, e mesmo misógino, pelo qual a psicanálise tratou as questões do feminino e da feminilidade.

PSICANÁLISE SEM FRONTEIRAS

PSICANÁLISE

PSICANÁLISE SEM FRONTEIRAS

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O personagem central deste livro é surpreendente para o leitor inadvertido: a excisão do clitóris, ou sua cauterização, nas meninas e jovens mulheres, empregadas como práticas correntes no final do século XIX e início do século XX para o tratamento da masturbação, ao lado da circuncisão nos meninos. Com riqueza documental e agilidade intelectual, Carlo Bonomi demonstra como o silenciamento dessa violência de gênero determinou a primazia do falo e da castração simbólica no pensamento freudiano, configurando efetivamente um apagamento do trauma.

Daniel Kupermann

24/03/2026 16:57


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