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Negra quando?

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Pinheiro

Neste livro, Tainara Pinheiro navega entre antropologia e psicanálise para investigar que descobrir-se negra é um evento atravessado pelo tempo e pelo racismo. Com uma escrita sensível e afiada, ela constrói uma etnografia comprometida com a escuta, revelando o autorreconhecimento racial como um marco temporal que atravessa a experiência de ser mulher negra na Amazônia. Longe da pretensa neutralidade acadêmica, a autora se inscreve na pesquisa como sujeito e pesquisadora. Lembra-nos que ser negra é construção histórica, subjetiva e coletiva, desafiando-nos a pensar a negritude como um evento que inaugura novas temporalidades e possibilidades de existência. Esta obra é um espaço de diálogo e de transformação: para quem pesquisa, para quem lê, para quem escuta e para quem vive. Ivonete Pinheiro Antropóloga

Negra quando?

Psicanalista/antropóloga ou antropóloga/psicanalista. Afroamazônida. Mestra em Sociologia e Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Pará (UFPA). Pós-graduada em Psicanálise e Relações de Gênero: Ética, Clínica e Política pelo Instituto de Pesquisa em Psicanálise e Relações de Gênero (IPPERG). Licenciada e bacharela em Ciências Sociais pela UFPA. Possui formação em Psicologia e Relações Raciais pelo instituto AMMA – Psique e Negritude. Fez parte de tantos outros bons espaços formativos e é cofundadora do Grupo de Iniciativa Psi Antirracista (GIPA Brasil).

Este é um convite à leitura de um trabalho dedicado, de grande fôlego intelectual e implicado ética e politicamente, que tece uma reflexão aprofundada sobre os dilemas e as complexidades dos processos de identificação e da identidade. Apostando nessa direção, da escuta implicada e afetiva, Negra quando? é um trabalho etnográfico cuidadoso que se dedica a compreender as complexas teias de significado que estruturam as experiências e as vivências negras no Brasil, trazendo questões valiosas a respeito da agência, da memória, do desejo e da inventividade política dos sujeitos em meio a estruturas de poder persistentes. Gleicy Mailly da Silva Professora de Antropologia Social da Universidade Estadual Paulista

PSICANÁLISE

Tainara Lúcia Pinheiro

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Negra quando?

Identificação de si enquanto evento PSICANÁLISE

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e tipificação do racismo como temporalidade

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Negra quando? Identificação de si enquanto evento e tipificação do racismo como temporalidade

Tainara Lúcia Pinheiro


Negra quando? Identificação de si enquanto evento e tipificação do racismo como temporalidade © 2026 Tainara Lúcia Pinheiro Editora Edgard Blücher Ltda. Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenação editorial Rafael Fulanetti Coordenação de produção Ana Cristina Garcia Diagramação Fabricando Ideias Design Editorial Preparação e revisão de texto Ligia Alves Capa Thiago Cordeiro Imagem da capa iStockphoto

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570

Pinheiro, Tainara Lúcia Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021. É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora. Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.

Negra quando? : identificação de si enquanto evento e tipificação do racismo como temporalidade / Tainara Lúcia Pinheiro. – São Paulo : Blucher, 2026. 248 p. : il. Bibliografia ISBN 978-85-212-2943-8 (Impresso) ISBN 978-85-212-2942-1 (Eletrônico – Epub) ISBN 978-85-212-3063-2 (Eletrônico – PDF) 1. Psicanálise. 2. Racismo (Psicologia). 3. Psicanálise e relações raciais. 4. Psicanálise e relações de gênero. 5. Psicanálise e mulheres. 6. Estudos de gênero na psicanálise. 7. Mulheres negras na psicanálise. I. Título. CDU 159.964.2 Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise   CDU 159.964.2


Sumário

Prefácio

13

Gleicy Mailly da Silva

Prólogo – Lugar de entre: inscrevendo-me na pesquisa

19

Introdução

33

1.

Que coisa é ser negra? Relações raciais na história do Brasil

65

Por acaso sou negra? Na Amazônia, em Belém, no encontro com outrem

97

Negra? Sim! Identificação de si enquanto evento e tipificação do racismo como temporalidade

129

4.

Negra sou! Projeto e expectativa

201

5.

Para não concluir

231

2. 3.

Referências

235


Prefácio Gleicy Mailly da Silva

É com muita alegria que prefacio Negra quando? Identificação de si enquanto evento e tipificação do racismo como temporalidade. Um estudo antropológico que enriquece o campo das relações raciais e de gênero, em diálogo com a psicanálise, contribuindo para uma maior compreensão dos processos de mudança nos movimentos feministas e negros no Brasil. A ideia de que gênero, raça e classe constituem marcadores sociais indissociáveis para a compreensão das formas de desigualdade social no país permeia a reflexão das intelectuais negras brasileiras desde a década de 1970. No entanto, a partir da segunda década dos anos 2000, a ampliação do acesso ao ensino superior, proporcionada pelas políticas de ação afirmativa e cotas raciais, modificou sensivelmente as formas de ativismo, intensificando as relações entre movimento social, academia e produção de conhecimento. Nesse contexto de mudanças, Tainara Lúcia Pinheiro realiza uma pesquisa etnográfica com mulheres negras, cisgêneras, estudantes na Universidade Federal do Pará (UFPA) e na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e militantes da Rede


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de Mulheres Negras (RMN), com o objetivo de compreender suas experiências de constituição e afirmação política. Estabelecida em 2015, no contexto da realização da I Marcha Nacional de Mulheres Negras, a RMN se configura enquanto espaço de formação política, de circulação de informações e de partilha de vivências, permitindo a elaboração coletiva das descobertas e dos desafios que permeiam seus processos de identificação étnico-racial. A partir de uma perspectiva teórica fenomenológica, por meio de um conjunto de entrevistas realizadas com algumas representantes do grupo, a autora – mulher negra, paraense, então pesquisadora na UFPA e integrante da RMN – conduz um trabalho sensível de escuta de testemunhos de modo a pensar os processos de identificação de suas interlocutoras enquanto mulheres negras através dos conceitos de evento e temporalidade. A interpretação que está no cerne da tese da autora é a de que o ato de autoidentificação, em suas palavras, “de tipificação de si enquanto mulher negra”, instaura uma temporalidade outra a partir da qual as memórias e experiências cotidianas dessas mulheres são ressignificadas. Esta apresentação breve não representa um esforço de sistematização do conteúdo do livro. Trata-se, antes de tudo, de um convite à leitura de um trabalho dedicado, de grande fôlego intelectual e implicado ética e politicamente, que tece uma reflexão aprofundada sobre os dilemas e complexidades dos processos de identificação e da identidade. Ao tomar a interseccionalidade como ferramenta analítica, a autora não apenas nos permite compreender como as desigualdades são inscritas no jogo social, mas, também e sobretudo, coloca em perspectiva os processos de diferenciação que articulam experiências – coletivas e subjetivas – de cuidado, de produção de conhecimento e de transformação social.


Prólogo Lugar de entre: inscrevendo-me na pesquisa

Às voltas sobre como começar este texto, percebi da importância de me apresentar a partir do lugar que mais me gosto: o entre. Estou entre antropologia e psicanálise. Nem lá, nem cá – coisa que percebi há poucos anos. Entre a universidade e o mundo – recusando-me a escolher um ou outro. Sou uma mulher acadêmica afroamazônida. É a partir desse lugar que faço pesquisa. Nesse meio de caminho, notei aproximações e distâncias. Gostei de quase todas, quase todas me movimentaram. De fato, estas linhas que escrevo são de entre caminhos, de modo que este prólogo se faz importante para que, nestas páginas, eu e leitores possamos nos acompanhar. É verdade que, de alguma forma, apresento-me no decorrer de todo este livro, mas, para começarmos nossa conversa, me parece importante contar sobre a relação histórica entre os campos que me constituem. De acordo com Duarte (2017), o campo das ciências sociais foi importante difusor das ideias psicanalíticas freudianas em seu


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primeiro “boom”, à época da primeira guerra, quer seja na crítica ou aproximação de ideias, principalmente por etnólogos. O diálogo entre etnologia e psicanálise se intensificou após a publicação de Totem e tabu (1913), texto que, pelo teor interpretativo cultural, não poderia passar despercebido pelos estudiosos do tema. A escola francesa de sociologia, implementando as propostas de Émile Durkheim, recusava-se aos “reducionismos individualistas” e, de forma estratégica, pouco dialogava com a psicanálise freudiana. Duarte (2017) afirma, ainda, que a tradição inglesa, por oposição à francesa, inicialmente se aproxima da psicanálise, e, simultaneamente, “diferentes aspectos das propostas freudianas ora vinham se encaixar no evolucionismo ainda vastamente permanente, ora vinham a fornecer justificativas tanto ao difusionismo quanto ao antidifusionismo, que se digladiaram ao longo dos anos 1920” (2017, p. 35). A interlocução, entretanto, foi interrompida quando Alfred R. Radcliffe-Brown se estabeleceu nesse campo a partir da sociologia durkheimiana. Max Weber, alemão, teve contato com a obra freudiana e tentou dissociá-la do que, em seu entendimento, feria valores éticos – sexualidade demais… O culturalismo de Franz Boas, em sua herança, contribuiu para que alguns de seus discípulos americanos dialogassem com aspectos das propostas freudianas (Duarte, 2017). Diversas eram as posições tomadas tanto por quem se aproximava do campo psicanalítico quanto por aqueles próprios que compunham o campo. Desde cedo, os discípulos de Freud construíam propostas que deslocavam a teoria freudiana, e isso também causou mal-entendidos na proposta do autor. As ciências sociais, de maneira geral, se opunham ao saber psicanalítico, e, conforme as apropriações iam acontecendo, a crítica ficava mais incisiva, como as de Edmund Leach e Marvin Harris, acusando o novo campo de vicioso aliado (Duarte, 2017).


Introdução

Eu era morena, eu sempre fui morena, só que é aquele lugar que tu não sabes muito bem o que é […], eu era negra, não é? Eu sempre fui negra, só me foi negada essa possibilidade de identificação […]. A fala em itálico foi dita por uma das interlocutoras da pesquisa que aqui apresento, que teve início em 2015. Naquele momento, meu objetivo fora compreender as formas como essas mulheres negras, cisgêneras, militantes da Rede de Mulheres Negras (RMN), experienciavam o racismo na Universidade Federal do Pará (UFPA). Essa organização foi impulsionada após o I Seminário de Mulheres Negras da UFPA,1 que aconteceu em setembro 1

Esse seminário foi pensado por iniciativa de alunas negras da UFPA que se organizaram para solicitar a saída de um ônibus da universidade para a ida à Marcha Nacional das Mulheres Negras – marco histórico no movimento político de mulheres negras do Brasil, que aconteceu em Brasília no mês de novembro do mesmo ano; receberam resposta negativa da instituição, que alegou esse não ser um “evento científico”. Em segunda solicitação, encaminhada pelo Grupo de Estudos e Pesquisa NosMulheres da UFPA, a resposta foi de que o contingente de alunas interessadas não seria suficiente. É nesse momento que a realização do seminário ganha força, uma vez que, ainda que


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de 2015. A rede nasce em torno de uma demanda específica: o desejo de um grupo de mulheres negras, discentes da UFPA, de participar da Marcha de Mulheres Negras, em Brasília. Nem todas as integrantes desse primeiro momento do grupo foram para a Marcha, mas, a partir dessa demanda, uma organização política foi criada e, posteriormente, ampliada, de modo que o grupo passou a não se restringir a ações na universidade ou ser formado por integrantes universitárias, pelo contrário. Formou-se aliado a outras organizações dos movimentos negros, movimentos feministas e de feministas negras em Belém e em âmbito nacional. “Rede” enquanto termo é amplamente utilizado para identificar vários objetos e fenômenos. Entre as noções compartilhadas do conceito, temos que uma rede social é “um conjunto de unidades sociais e de relações, diretas ou indiretas, entre essas unidades sociais, através de cadeias de dimensão variável” (Mercklé, 2004, p. 4, tradução livre). Em outros termos, relações entre indivíduos que se associam por um objetivo em comum. As interações sociais de indivíduos dentro de uma rede constituem a forma como instintos, interesses, impulsos ou objetivos são desenvolvidos como conteúdo (Simmel, 2006). Foi partindo da noção de um tipo de compartilhamento que, em novembro de 2015, a Rede de Mulheres Negras passou a existir. Além de espaços de discussão, a RMN, desde o seu início, disponibilizou para integrantes e não integrantes textos que questionam hierarquias sociais a partir de epistemologias não centrais.2

não fosse possível ir à Marcha, essas mulheres viram a necessidade de se reconhecerem no espaço universitário. 2

Disponibilizaram principalmente obras de autoras e autores negros, como bell hooks, Jurema Werneck, Sueli Carneiro, Angela Davis, Frantz Fanon, Beatriz Nascimento, Milton Santos, Abdias Nascimento, entre outros.


1. Que coisa é ser negra? Relações raciais na história do Brasil

“E fazem de tudo pra silenciar A batucada dos nossos tantãs No seu ecoar o samba se refez Seu canto se faz reluzir Podemos sorrir outra vez” “A batucada dos nossos tantãs”,1 de Jalcireno Oliveira, Adilson Gavião e Robson Guimarães

Como eles diziam A história brasileira, marcada pela exploração de populações negras e indígenas, deixou como herança para essas populações um tipo de fragmentação identitária que foi base para uma política de “branqueamento” da população e fortalecimento do “mito da democracia racial” – parte da mesma política, ideologias sus-

1

Música lançada em 1993 em álbum com o mesmo nome, do grupo Fundo de Quintal.


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tentadas por elites brancas que responsabilizavam a população de cor pelo atraso econômico brasileiro (Hasenbalg, 1979). Para compreender essa dinâmica, antes de qualquer coisa, há de se olhar para a história. A crença em uma harmonia entre as raças deve ser pensada em seu contexto de surgimento: a abolição da escravatura. Zélia Amador de Deus (2008) afirma que o desejo branco pela abolição não surge no Brasil, mas ganha força aqui na medida em que o tráfico de africanos se torna economicamente inviável graças à pressão britânica para o término em 1850, ainda que por algum tempo o tráfico clandestino ainda tivesse continuado. Em 1866, por pressão dos abolicionistas franceses, D. Pedro II assumiu o compromisso de findar o regime escravocrata, o primeiro compromisso formal nesse sentido. Antônio Sérgio Alfredo Guimarães (2012) atenta para o fato de que a população negra era mais alinhada à monarquia que à república, visto que o Império (1823-1889) era mais propenso à abolição da escravidão, coisa que os fazendeiros não eram. Esses últimos, inclusive, na primeira república adotaram uma política cultural de europeização, política excludente para com outras formas de expressão socioculturais. É só no Estado Novo de Vargas (1937-1945), com as políticas de proteção ao trabalhador e sindicatos – criadas com intenção de regular –, que a simpatia das massas negras é retomada. Vargas possibilitava para uma população negra e pobre a sensação de menor insegurança que a experienciada em período anterior à ditadura varguista. Freyre, em Escravidão, a monarquia e o Brasil moderno interpreta essa situação como busca de proteção social em figuras fortes, sem perceber as contrapartidas materiais que solidificam essa escolha (Guimarães, 2012). É nesse período, a partir dos anos 1930, que a mão de obra estrangeira é substituída pela brasileira, constituindo um proletariado em meio aos incen-


2. Por acaso sou negra? Na Amazônia, em Belém, no encontro com outrem

“Belém, Belém, acordou a feira Que é bem na beira do Guajará Belém, Belém, menina morena Vem ver-o-peso do meu cantar Belém, Belém, és minha bandeira És a flor que cheira no Grão-Pará” “Flor do Grão-Pará”,1 de Chico Sena

Caminhos da colonização na Amazônia e classificações identificatórias Durante o processo colonial, a Amazônia era vinculada diretamente ao rei, em Lisboa. É só em 1823, um ano depois da independência do Brasil, que o Grão-Pará adere ao Estado brasileiro e a região é formalmente integrada. Salles (2015) afirma que, durante 1

Música lançada em 1998 no álbum Canta a Amazônia II, da artista Lucinnha Bastos.


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a colonização, grandes migrações portuguesas foram direcionadas para a Amazônia brasileira, e esses grupos, do continente, ilhéus, praça de Mazagão – em Portugal, originaram diversos núcleos urbanos. A colônia lusitana em Belém era numerosa, e migrantes de outros lugares também habitavam a cidade, como franceses, ingleses, holandeses e judeus. As ordens religiosas que vieram para a região também trouxeram gente de todo canto: Itália, Espanha, Alemanha, de modo que tanto biológica quanto culturalmente estão as marcas desses encontros, as marcas do branqueamento, as marcas da colonização (Salles, 2015). Até o século XVII a base da economia na Amazônia era extrativista. No final dos anos 1700 era comum que indígenas, africanos e seus descendentes compartilhassem o mesmo espaço, conformando um campesinato; as fugas de escravizados eram muitas vezes estimuladas por indígenas que apontavam rotas de fuga e compartilhavam contatos comerciais, que eram intensos na área do Solimões entre diversas etnias (Gomes, 2001). Na segunda metade dos anos 1700 é decretado o fim da escravidão indígena e o poder missionário, com o projeto pombalino. Nesse contexto, o conflito entre Estado português e Jesuítas se acirra e no mesmo período é incrementado o tráfico africano (Gomes, 2001). Flávio dos Santos Gomes (2001) nos diz que o sistema de plantation, açúcar e tabaco, principalmente, foi o primeiro investimento na Amazônia em começo do período colonial, investimento que fracassou por fatores como: baixo investimento de capital, mão de obra africana mais cara aqui do que na Bahia e em Pernambuco, questões geográficas e epidemias. As produções acabaram direcionadas para consumo interno e em seguida o extrativismo voltou os olhos para as chamadas “drogas do sertão”, além da pesca de tartarugas. A circulação de moedas só passa a existir no Grão-Pará depois de meados do século XVIII. A força dos mercados de açúcar em Pernambuco e na Bahia e o algodão, depois, no Maranhão,


3. Negra? Sim! Identificação de si enquanto evento e tipificação do racismo como temporalidade

“Cada um de nós deve saber se impor E até lutar em prol do bem-estar geral Afastar da mente todo mal pensar Saber se respeitar, se unir pra se encontrar Por isso, eu vim propor um mutirão de amor Pra que as barreiras se desfaçam na poeira e seja o fim O fim do mal pela raiz Nascendo o bem que eu sempre quis É o que convém pra gente ser feliz Cantar sempre que for possível Não ligar pros malvados Perdoar os pecados Saber que nem tudo é perdido Se manter respeitado Pra poder ser amado” “Mutirão de amor”,1 de Jorge Aragão e Zeca Pagodinho

1

Primeira colaboração entre Jorge Aragão e Zeca Pagodinho, lançada em 1983 no disco Alcione: almas & corações.


130 Negra quando?

Neste capítulo apresento o evento que orienta essa pesquisa, o momento da autoidentificação dessas mulheres enquanto negras. Evento esse que configura uma ruptura no fluxo do tempo e instaura duas temporalidades distintas: o antes e o depois de se identificarem como negras. A partir do evento é que as coisas do tempo passam a ser tipificadas de maneiras diferentes. O que acontece a partir do evento da identificação enquanto negras, nesse grupo de mulheres que pesquiso, é o abraçar um projeto de negritude que perpassa pela tipificação de violências racistas por esse nome: racismo, e essa etapa é processual. Aqui também apresento as experiências subjetivas na memória, experiências marcadas pelo processo de afirmação de identificação que é atravessado pela memória da colônia. Refiro-me à temporalidade como fundamento da experiência vivida, pois desenvolvo uma abordagem dinâmica acerca da identificação racial adotada pelas interlocutoras desta pesquisa na medida em que há o deslocamento de tipicalidades na experiência vivida. Especificamente, investigo um tipo de dinamismo de tipicalidades que abre uma nova temporalidade para quem a experimenta de determinado modo. Por experiência vivida, Brah (2006) entende uma construção cultural, um processo de significação que constitui a realidade. Experiência é, para a autora, uma prática de atribuição de sentido, é o lugar onde o sujeito se forma; por isso, […] como uma pessoa percebe ou concebe um evento varia segundo como “ela” é culturalmente construída: a miríade de maneiras imprevisíveis em que tais construções podem se configurar no fluxo de sua psique; e, invariavelmente, em relação ao repertório político dos discursos culturais à sua disposição. “Histórias” coletivas são também, é claro, culturalmente construídas no processo de atribuir significado ao cotidiano das relações sociais. Mas, enquanto as


4. Negra sou! Projeto e expectativa

“Quem foi que falou Que eu não sou um moleque atrevido? Ganhei minha fama de bamba Nos sambas de roda Fico feliz em saber O que fiz pela música, faça o favor Respeite quem pôde chegar Onde a gente chegou Também somos linha de frente De toda essa história Nós somos do tempo do samba Sem grana, sem glória Não se discute talento Mas seu argumento, me faça o favor Respeite quem pode chegar Onde a gente chegou“ “Moleque atrevido”,1 de Jorge Aragão

1

Música lançada em 2000 no álbum Jorge Aragão – Millennium – 20 músicas do século XX.


202 Negra quando?

Já não retrocedo: movimento negro educador e memória projetiva Os movimentos negros têm importância fundamental para a alteração da maneira como se experiencia o tempo entre pessoas negras. As mulheres com quem conversei não retrocedem, e não o fazem também porque sustentadas por uma série de outras pessoas que, de várias maneiras, empurram-nas para a frente. Nilma Lino Gomes (2017) afirma que o movimento negro brasileiro, ao assumir a responsabilidade de construir a noção de raça como potência emancipatória e fazer dessa noção seu ponto de organização e ação, educa a sociedade na medida em que reescreve a história. Olhar para a história dando a ela outra atenção é ponto fundamental na politização da raça, desse construto social fruto do racismo. Um dos principais pontos dessa politização é a responsabilização, por parte de pessoas violentadas, a quem deve ser responsabilizado pelas violências racistas. Em outros termos, apontar os responsáveis pela dívida colonial e, assim, tirar de si o peso das dificuldades que foram impostas para si graças às reminiscências do potentado colonial. Gomes (2017) afirma ainda que esse movimento, como organização política e de pressão social, medeia relações entre a comunidade negra, o Estado, campos educacionais e tantos outros. Tanto o movimento negro quanto a comunidade negra são produtores de saberes que inferem do conhecimento científico em geral porque, aqui, a dedicação é emancipatória, marcada por vivências racializadas, criações potentes para produção e reprodução de existências. “Enquanto sujeito político, esse movimento produz discursos, reordena enunciados, nomeia aspirações difusas ou as articula, possibilitando aos indivíduos que dele fazem parte reconhecerem-se nesses novos significados” (Gomes, 2017, p. 47). Para a autora, o movimento negro, sujeito de conhecimento, tornou


5. Para não concluir

Que me diga presença, que me lembre pertença, que me indique continuidade; eu compreendo, concordo e afirmo que meu corpo pisa caminho antes trilhado e minhas pernas só me sustentam porque os pés sabem de onde vem minha raiz: sou filha, sou neta, sou quem representa e também quem interpreta. Sou mais que filha, mais que neta, mais que história.


232 Negra quando?

Não sou feita apenas da memória de um povo, sou desejo além da cor encarnada e minha filha será parida de subjetividade. Será letrada na raça e na vontade de ser mais que raça, de ser raça e o que mais quiser. Beijarei a boca da minha filha para sussurrar os ouvidos de minha neta, contar desde a barriga que eu não quero que ela seja minha continuidade. Pelo menos não só. O que eu interpreto é grande mas é muito menor que a preta potência de se ver e ser vista também como unidade. Minha neta vai construir um jeito de parir um filho feito de subjetiva ancestralidade. Um filho que não se confunda entre a raça oriunda da raiz dos seus e aquela que narra a maneira como foram enraizados.


Referências

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236 Negra quando?

Angelou, M. (2018). Eu sei por que o pássaro canta na gaiola. Astral Cultural. Anthias, F. (2012, fevereiro). Intersectional what? Social divisions, intersectionality and levels of analysis. Ethnicities, 13(1), 3-19. Augé, M. (Org.) (1978). Os domínios do parentesco: Filiação, aliança matrimonial, residência. Edições 70. Bauman, Z. (2001). Identity in the globalising world. Social Anthropology, 9(2), 121-129. Beauvoir, S. (1980). O segundo sexo: Fatos e mitos (4a ed.). Difusão Europeia do Livro. Behar, R. (1996). The Vulnerable Observer. In R. Behar, The vulnerable observer: Anthropology that breaks your heart (pp. 1-33). Beacon Press. Bello, A. (2000). A fenomenologia do ser humano. EDUSC. Bello, A. (2006). Introdução à fenomenologia. EDUSC. Bentes, N. (2014). Aspectos da trajetória da população negra no Pará: Aspectos relevantes. UFPA, Geam. Biroli, F., & Miguel, L. (2015, julho-dezembro). Gênero, raça, classe: Opressões cruzadas e convergências na reprodução das desigualdades. Mediações, 20(2), 27-55. Bolzani, I. (2024, 24 de novembro). Datafolha: 60% dos pardos não se consideram negros. G1. https://g1.globo.com/politica/noticia/2024/11/24/datafolha-60percent-dos-pardos-nao-se-consideram-negros.ghtml Bourdieu, P. (2006). As estruturas sociais da economia. Campo das Letras. Bourdieu, P. (2012). O poder simbólico. Bertrand Brasil. Brah, A. (2006, janeiro-junho). Diferença, diversidade, diferenciação. Cadernos Pagu, 26(1), 329-376. Brody, E. (1981). The clinician as ethnographer: A psychoanalytic perspective on the epistemology of fieldwork. Cult Med Psych 5, 273-301.


Pinheiro

Neste livro, Tainara Pinheiro navega entre antropologia e psicanálise para investigar que descobrir-se negra é um evento atravessado pelo tempo e pelo racismo. Com uma escrita sensível e afiada, ela constrói uma etnografia comprometida com a escuta, revelando o autorreconhecimento racial como um marco temporal que atravessa a experiência de ser mulher negra na Amazônia. Longe da pretensa neutralidade acadêmica, a autora se inscreve na pesquisa como sujeito e pesquisadora. Lembra-nos que ser negra é construção histórica, subjetiva e coletiva, desafiando-nos a pensar a negritude como um evento que inaugura novas temporalidades e possibilidades de existência. Esta obra é um espaço de diálogo e de transformação: para quem pesquisa, para quem lê, para quem escuta e para quem vive. Ivonete Pinheiro Antropóloga

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Este é um convite à leitura de um trabalho dedicado, de grande fôlego intelectual e implicado ética e politicamente, que tece uma reflexão aprofundada sobre os dilemas e as complexidades dos processos de identificação e da identidade. Apostando nessa direção, da escuta implicada e afetiva, Negra quando? é um trabalho etnográfico cuidadoso que se dedica a compreender as complexas teias de significado que estruturam as experiências e as vivências negras no Brasil, trazendo questões valiosas a respeito da agência, da memória, do desejo e da inventividade política dos sujeitos em meio a estruturas de poder persistentes. Gleicy Mailly da Silva Professora de Antropologia Social da Universidade Estadual Paulista

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