A velha ordem está morrendo e uma nova luta para nascer. Em Geopolítica global, o diplomata brasileiro Braz Baracuhy vai à essência da questão com um diagnóstico: estamos vivendo o retorno da bipolaridade, desta vez entre os EUA e a China, e ela está remodelando tudo, desde a forma da globalização até a estrutura e o equilíbrio de poder global. Baseando-se na teoria geopolítica clássica e em sua própria experiência na linha de frente, Baracuhy oferece uma avaliação sobre o retorno da competição entre grandes potências e o que isso significa para os países que tentam navegar entre dois gigantes. O momento unipolar acabou; o que vem a seguir será confuso, perigoso e provavelmente diferente da fantasia multipolar em que muitos estão apostando. Ian Bremmer, Presidente da Eurasia Group
O mapa estratégico do mundo contemporâneo
A Série Relações Internacionais convida-nos a refletir de maneira crítica sobre os grandes desafios da política mundial. Escrita por especialistas de diferentes áreas, ela lança questionamentos relevantes para a atualidade, como: Quais conceitos e teorias nos ajudam a explicar os temas fundamentais e emergentes de política internacional? Caminhamos para mais interdependência comercial e cooperativa ou mais isolacionismo autoritário? Como se redesenha a cena mundial a partir da expansão dos Brics? A pluralidade da integração econômica afeta a hegemonia dos Estados Unidos e da União Europeia ou isso é apenas uma complementariedade que integra novos países consumidores? As ações de enfrentamento às mudanças climáticas operam para legitimar a mesma ordem internacional excludente sob o rótulo da transição energética? Como se articulam os atores da sociedade civil global e os representantes dos povos indígenas, e quais são suas agendas? Qual é o papel da diplomacia nesse mundo tão comprimido, desigual e demograficamente instável, com migrações de guerras e catástrofes climáticas? Com uma linguagem objetiva e acessível, e um projeto gráfico inovador, a Série Relações Internacionais é um convite ao debate sobre questões globais que impactam nossas vidas. Prof. Agripa Faria Alexandre
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Braz Baracuhy
Geopolítica global Geopolítica global
Diplomata de carreira e especialista em geopolítica, atuou como embaixador do Brasil (chargé d’affaires) junto à Organização Mundial do Comércio e outras Organizações Econômicas Internacionais em Genebra (2022-2023) e na Finlândia (2025). Ingressou no Itamaraty em 2001. No Brasil, foi diretor-adjunto de planejamento diplomático do Gabinete do Ministro das Relações Exteriores, chefe da divisão de agricultura do Itamaraty, negociador comercial na Rodada Doha e professor do Instituto Rio Branco (IRBr). No exterior, serviu como representante permanente alterno em Genebra e ministro-conselheiro em Helsinque, chefiou o setor econômico da Embaixada do Brasil em Pequim e foi secretário em Genebra e Lima. Participou do Programa de Grande Estratégia da Universidade Yale e estudou Relações Internacionais e Diplomacia na PUC-Rio, no IRBr e na London School of Economics. Recebeu o “Prêmio Araujo Castro” pelo 1º lugar no mestrado em Diplomacia do IRBr. É membro do International Institute of Strategic Studies (IISS). Paraibano, sua família tem raízes na cidade de Pilões.
Baracuhy
Braz Baracuhy
Série Relações Internacionais
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Coordenador da Série
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Braz Baracuhy
Geopolítica global
O mapa estratégico do mundo contemporâneo
Série Relações Internacionais Coordenador Prof. Agripa Faria Alexandre Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
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Geopolítica global: o mapa estratégico do mundo contemporâneo © 2026 Braz Baracuhy Editora Edgard Blücher Ltda. Série Relações Internacionais Coordenador Agripa Faria Alexandre Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenação editorial Rafael Fulanetti Coordenação de produção Ana Cristina Garcia Preparação e revisão de texto Equipe editorial Diagramação Thiago Cordeiro Capa Juliana Midori Horie Imagem da capa iStockphoto
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570
Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br Segundo Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021. É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios, sem autorização escrita da Editora. Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.
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Baracuhy, Braz Geopolítica global : o mapa estratégico do mundo contemporâneo / Braz Baracuhy. – São Paulo : Blucher, 2026. 230 p. : il. – (Série Relações Internacionais / coord. Agripa Faria Alexandre). Bibliografia ISBN 978-85-212-2988-9 (Impresso) ISBN 978-85-212-2992-6 (Eletrônico – Epub) ISBN 978-85-212-2991-9 (Eletrônico – PDF) 1. Geopolítica. 2. Relações internacionais. 3. Geoeconomia. I. Título. II. Série. II. Alexandre, Agripa Faria.
CDU 327 Índice para catálogo sistemático: 1. Geopolítica CDU 327
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Sumário
Apresentação – Para onde o mundo vai? William Waack
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Prelúdio & fuga – O mapa estratégico da política internacional
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1. Ordem ou desordem mundial? Da geopolítica unipolar ao reordenamento bipolar 2. A competição geopolítica bipolar EUA-China: velhos e novos mapas eurasiáticos 3. Grandes reequilíbrios eurasiáticos: Leste Asiático, Europa e Oriente Médio 4. Geoeconomia: da globalização econômica à bi-globalização geoeconômica Coda – Cenários geoestratégicos e desafios futuros Agradecimentos Referências
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Apresentação Para onde o mundo vai? William Waack
Quem lida com geopolítica e estratégia no fundo ganha, antes de mais nada, uma lição de humildade. A de admitir que nada que se considere estável e seguro perdura muito tempo, mesmo que “muito tempo” seja algo bastante elástico. E que fazer previsões é no mínimo temerário, a não ser que acreditar na inevitabilidade da tragédia possa ser considerado uma previsão. Nesse sentido, esta obra já enfrenta de saída um enorme desafio: é escrever no meio de uma tempestade tentando detectar quanto tempo vai durar, o que vai causar e para onde vai. O ponto de partida do autor é a linha do tempo, um elemento tão óbvio quanto ignorado na ajuda que presta em análises de grandes acontecimentos de natureza sobretudo política, como são as questões aqui abordadas. Mas cronologias só ganham perspectiva a partir da aplicação de postulados e preceitos teóricos, feita nas páginas seguintes com grande rigor. Sem perder de vista o fato de que teorias – como diziam os grandes clássicos de estratégia e geopolítica – existem sobretudo para que ninguém precise recomeçar todas as vezes a ordenar o material estudado. Essa frase é de Clausewitz, para quem teorias serviam como
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“treinamento”, como instrumento de educação de quem precisa extrair dos fatos reais as lições necessárias. Ou seja, o principal sentido de teorias é sua aplicação na prática. A abordagem que se vai encontrar da grande tempestade na qual tentamos navegar (sem saber exatamente aonde vamos chegar) é suficientemente detalhada para servir também como excelente material de referência e não só para quem se inicia no estudo de geopolítica e relações internacionais. Mantem-se sempre presente a noção abrangente, mais além do “sketching” (sempre tão útil), na utilização dos instrumentos de compreensão da realidade. E um dos principais é exatamente a capacidade, que apenas poucos estrategistas desenvolvem, de “imaginar” o mundo. Ou, como lembra o autor na introdução à obra, “a integração da experiência, da observação e da imaginação na avaliação da paisagem estratégica, aquilo que constrói um todo dos fragmentos que o olho pode ver”. Voltamos ao que sempre foi um grande desafio, que é tentar entender decisões tomadas em geopolítica, no famoso axioma da raposa e do ouriço, escrito num poema há mais de 2.500 anos. A raposa sabe muitas coisas, o ouriço uma só grande coisa. Qual deles é capaz de entender melhor o que vai acontecer – pois aí também está o grande teste para teorias –, a raposa ou o ouriço? Nos modernos experimentos para determinar quem se destaca mais como previsor de acontecimentos a raposa é facilmente a vencedora. Justamente por levar em conta uma série de fatores complexos, muitas vezes opostos entre si. O jeito de pensar no “modo raposa” duvida que estudar política (sempre definida como uma nuvem que muda constantemente de feição) possa jamais alcançar ser uma ciência com a precisão de um relógio.
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Prelúdio & fuga O mapa estratégico da política internacional
Toda estratégia – onde quer que tenha sido pensada ou praticada ao longo da história – consiste no cálculo entre meios e fins. “Tudo em estratégia é muito simples”, ensinava o general prussiano e teórico militar Carl von Clausewitz, “o que não significa ser fácil”. A política internacional, como toda política, é competição pelo poder. Agir politicamente é buscar, na base dos recursos de poder disponíveis ao país, os meios de ação para propósitos políticos nas relações internacionais. Segurança, prosperidade e ordem são propósitos primordiais. Para competir no sistema internacional, a influência política do país precisa estar lastreada pela capacidade diplomática, pelo potencial militar, pela inteligência, pela base econômica, pela inovação tecnológica. Todos esses fatores precisam de um sentido unívoco. A ação política externa requer liderança e pensamento estratégico. A grande estratégia trata do pensamento estratégico aplicado à política externa. O historiador Hal Brands a definiu como “a arquitetura conceitual que dá estrutura e sentido à política exterior”. A grande estratégia busca unir pensamento e ação internacional.
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A formulação estratégica da política externa começa com uma visão do mundo. Estrategistas da política exterior precisam compreender a estrutura do sistema internacional, as forças que moldam a competição geopolítica, a posição relativa do país no espaço geopolítico global. O mapa estratégico da política internacional se transforma diante dos nossos olhos. Os sinais de que estamos entrando em um novo ciclo geopolítico se multiplicam. A competição entre os EUA e a China se intensifica. A política externa americana reafirma sua postura no Hemisfério Ocidental e suas prioridades globais. A China se consolida como grande potência internacional. Os grandes equilíbrios da Eurásia se modificam com novas dinâmicas na Europa, no Oriente Médio e no Leste Asiático. Ao mesmo tempo, a ordem liberal internacional, com suas instituições e regras universalizadas depois da Guerra Fria, entra em crise. Quais os contornos do grande jogo internacional? Como chegamos à conjuntura atual e quais as tendências do sistema internacional? Transitamos de um mundo unipolar, centrado nos EUA, para uma nova multipolaridade, como muitos afirmam? Estamos assistindo a uma retração da globalização econômica, cujos processos de integração dos mercados marcaram as últimas décadas? Como a economia e a geopolítica se imbricaram na geoeconomia, com o uso crescente dos meios comerciais e financeiros para propósitos geopolíticos e de segurança nacional? Quais os impactos da geopolítica sobre a distribuição e o comércio global de recursos naturais, como minerais críticos, essenciais a tecnologias de ponta; produtos agrícolas, indispensáveis à segurança alimentar; ou recursos energéticos, como o petróleo e o gás natural, componentes de toda matriz de segurança energética? Como a competição geopolítica afeta as possibilidades de uma ordem
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Capítulo 1 Ordem ou desordem mundial? Da geopolítica unipolar ao reordenamento bipolar O sistema internacional transitou da unipolaridade à bipolaridade no pós-Guerra Fria. A ordem liberal internacional, universalizada no período pós-1991, chegou ao fim. Uma nova ordem mundial está em construção, em um processo de reordenamento bipolar liderado pelos EUA e pela China. As configurações do poder internacional estruturam o mapa geopolítico global. Nos últimos trinta anos, duas grandes transformações estruturais mudaram a face do sistema internacional contemporâneo: a primeira foi o fim da URSS e o colapso da bipolaridade que marcou a Guerra Fria em 1991, com o triunfo de um mundo unipolar centrado nos EUA; a segunda foi a notável ascensão da China, que criou as condições atuais de retorno à rivalidade bipolar, agora entre os EUA e a China. O mundo tornou-se bipolar, e a ordem mundial começa a refletir essa nova realidade. A unipolaridade do pós-Guerra Fria, centrada nos EUA e na ordem liberal internacional que prevaleceu a partir de 1991, transformou-se na bipolaridade EUA-China, que impulsiona um reordenamento bipolar do mundo. Como visto na Introdução deste livro, toda grande estratégia de política externa pressupõe uma avaliação do ambiente estratégico
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internacional. Um dos principais desafios dessa avaliação consiste na definição da polaridade internacional – o número de grandes potências que estruturam e moldam o mapa geopolítico global – e seu vínculo com a ordem internacional – a arquitetura geral de instituições, regimes, alianças e mecanismos de cooperação e coordenação internacionais. Poder e ordem estão essencialmente vinculados na política internacional. Como notou o cientista político John Mearsheimer em 2019, “há diferentes tipos de ordem internacional, e o tipo que emergirá depende primordialmente da distribuição do poder global”. Analisar as configurações do sistema internacional não é mero exercício teórico. Do diagnóstico de cada uma das possíveis distribuições do poder mundial – a unipolaridade, a bipolaridade, a tripolaridade, a multipolaridade – decorrem implicações práticas para a ação diplomática: • a identificação do número de polos e de sua concentração define quais são e onde estão no mapa-múndi os países com poder e capacidade de influência global; • a polaridade cria as condições estruturais do ambiente estratégico internacional e estabelece parâmetros de relacionamentos entre potências e os limites de opções diplomáticas; • variações na distribuição de poder conformam distintos padrões sistêmicos, incluindo os espaços de competição geopolítica e de alianças e coalizões; • a distribuição do poder internacional oferece condições iniciais para a definição dos interesses e estratégias das principais potências; e • a polaridade influencia a construção, o gerenciamento e a potencial reforma da ordem internacional, ou, em sentido contrário, o equilíbrio de forças entre defensores e oposito-
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Capítulo 2 A competição geopolítica bipolar EUA-China: velhos e novos mapas eurasiáticos A competição geopolítica EUA-China definirá os rumos do mapa estratégico da política internacional nas próximas décadas. O alcance da competição será global. Seu palco central situa-se na Eurásia. Na rivalidade do sistema bipolar em formação, a luta geopolítica eurasiática é a disputa pelo domínio hegemônico mundial. Dois imperativos geoestratégicos permanecerão vitais para os EUA enquanto forem um polo de poder com capacidade de projeção global : preservar o controle sobre o Hemisfério Ocidental, impedindo que qualquer potência extrarregional interfira em sua hegemonia regional, e manter a Eurásia dividida em equilíbrios regionais que lhes sejam favoráveis, evitando, assim, o surgimento de uma hegemonia regional no Leste Asiático, na Europa ou no Oriente Médio capaz de expandir sua influência continental e se consolidar como uma grande potência eurasiática. A China está desafiando os dois imperativos geoestratégicos dos EUA, diante de condições estruturais decorrentes de sua ascensão a polo de poder internacional. Os imperativos geoestratégicos chineses de se consolidar como grande potência eurasiática e de expandir seus interesses globalmente entram em choque geopolítico
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com os imperativos norte-americanos. O que começou há algumas décadas como investimentos chineses ao longo da Eurásia e influência comercial da chinesa no Hemisfério Ocidental ganhou hoje contornos geopolíticos. Os riscos dessa transformação estrutural são frequentemente minimizados e raramente compreendidos. Para entender o mundo contemporâneo em formação, é preciso começar em Singapura. Todos os anos o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos de Londres (IISS) realiza o tradicional Diálogo de Shangri-la na cidade-estado que Lee Kwan Yew transformou em um dos centros dinâmicos asiáticos. Trata-se hoje do mais importante evento sobre a geopolítica, com a participação de líderes mundiais, estrategistas e altos funcionários governamentais. No mês de junho de 2019, logo após o Diálogo de Shangri-la daquele ano, a embaixada do Brasil na cidade-estado transmitiria ao Itamaraty em Brasília a avaliação de que a geopolítica global assumia nova forma: “mais do que um ‘Século do Pacífico’, como sugerem especialistas, talvez se estejam dando os contornos de um século eurasiático”. A Eurásia é o grande domínio geopolítico que se estende da Europa à Ásia com os oceanos e mares que o circundam. Engloba desde a Península Ibérica e as Ilhas Britânicas até o Leste Asiático e o Japão, incluindo os oceanos Ártico ao Norte e o Índico ao Sul. A Eurásia forma o conjunto estratégico que Mackinder denominou “Ilha-Mundo” e permanece neste século, como o fora no passado, o palco central da competição geoestratégica entre grandes potências. A rivalidade bipolar entre os EUA e a China se desenrola em todas as regiões do planeta, incluindo, como não poderia deixar de ser, no equilíbrio regional do Hemisfério Ocidental.
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Capítulo 3 Grandes reequilíbrios eurasiáticos: Leste Asiático, Europa e Oriente Médio A situação geoestratégica na Eurásia reflete os contornos da configuração geopolítica global, que hoje se redesenha a partir do traço dominante da competição bipolar EUA-China. Na última década, o sistema internacional evoluiu de uma configuração unipolar, que se traduzia na primazia incontestável dos EUA e de sua rede de alianças regionais, para uma configuração crescentemente bipolar, articulada a partir da rivalidade econômica, comercial, tecnológica, militar e diplomática entre os EUA e a China. O posicionamento geoestratégico de uma grande potência internacional consiste no controle de espaços estratégicos no mapa-múndi. Os fundamentos geopolíticos da grande estratégia de política exterior dos EUA permanecem os mesmos desde sua consolidação como potência mundial há mais de um século: consolidar o seu controle hegemônico sobre o Hemisfério Ocidental – incluídos aqui o Canal do Panamá e a Groelândia – e impedir a ascensão de um poder hegemônico regional na Europa, no Oriente Médio ou no Leste Asiático, com o potencial de expandir seu controle sobre a Eurásia e representar um desafio à
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primazia global dos EUA. Em sua visão de uma Eurásia dividida e organizada a partir de equilíbrios regionais que lhes sejam favoráveis na Europa, no Oriente Médio e no Leste Asiático, os EUA atuariam como grande potência extra-eurasiática, uma força externa com peso decisivo naqueles equilíbrios geopolíticos regionais. A competição bipolar EUA-China pela supremacia global altera o traçado geoestratégico da Eurásia. As distintas visões de como organizar o espaço eurasiático – a Nova Rota da Seda chinesa e o projeto americano de contenção pelas bordas do Indo-Pacífico – associadas ao escopo global da rivalidade bipolar redefinem o mapa da política internacional. No Leste Asiático, onde a China busca transformar seu entorno marítimo imediato em um Mediterrâneo Chinês e reintegrar Taiwan, a rivalidade EUA-China tornou-se o centro de gravidade da geopolítica global. A bipolaridade EUA-China é a condição estrutural do sistema internacional contemporâneo. Isso não quer dizer que tudo que acontece no mundo deriva da competição bipolar entre os dois países, mas sim que essa competição é a única capaz de afetar tudo no mundo. É a competição que lança uma longa sombra estratégica sobre o mapa global, da Eurásia à África e ao Hemisfério Ocidental, e que afeta os contornos do redesenho da ordem internacional. Desse modo, a bipolaridade global se conecta invariavelmente aos equilíbrios regionais. A dinâmica EUA-China se articula a equilíbrios geopolíticos complexos ao longo das três regiões estratégicas da Eurásia – o Leste Asiático, a Europa e o Oriente Médio. Cada região enfrenta, em si, desafios próprios. Esses desafios foram potencializados pelos movimentos de reequilíbrio de poder global entre os EUA e a China e, a partir de 2022, pela
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Capítulo 4 Geoeconomia: da globalização econômica à bi-globalização geoeconômica A geopolítica bipolar, centrada na rivalidade EUA-China, domina também a competição na arena econômica e tecnológica mundial. A economia global vem sendo remodelada segundo traços geopolíticos. O processo de globalização econômica pós-Guerra Fria, impulsionado pela lógica da liberalização econômica e do livre comércio, foi substituído pelo processo de bi-globalização geoeconômica, sustentado pela lógica da competição geopolítica da segurança nacional. Essa transição reflete mudanças estruturais no poder internacional. Assim como a unipolaridade geopolítica centrada nos EUA moldou o processo de globalização econômica no passado, a nova bipolaridade geopolítica EUA-China está bifurcando a economia mundial no processo de bi-globalização geoeconômica. A competição geoeconômica se intensificará nos setores estratégicos do comércio e da tecnologia. As estratégias geoeconômicas das grandes potências redesenharão o mapa-múndi do comércio internacional, construirão alianças dentro de blocos antagônicos e transformarão a ordem econômica global.
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A economia mundial se encontrava organizada para o ambiente geopolítico benigno do pós-Guerra Fria e, agora, adapta-se a um período de competição geopolítica. A geoeconomia se refere ao vínculo entre a geopolítica e a economia. Quando o estrategista Edward Luttwak cunhou o termo “geoeconomia” em 1990 para lembrar que a competição geopolítica permanecia subjacente às relações econômicas internacionais, a economia global tomava outro rumo e abraçava a lógica estrita do liberalismo de mercado. A unipolaridade pós-Guerra Fria proporcionou o ambiente geopolítico perfeito para a globalização econômica. Os EUA desfrutavam de um raro momento de primazia absoluta. O poder geopolítico dos EUA moldou a economia global e pavimentou o caminho da integração econômica global. A unipolaridade geopolítica oferecia estabilidade e salvaguardava a segurança das rotas marítimas, vitais para os fluxos de comércio internacional. Em conjunto com aliados, as instituições de governança global foram universalizadas, garantindo a estrutura baseada em regras da ordem comercial internacional. A Organização Mundial do Comércio (OMC), criada em 1995, foi o produto dessa época de políticas que promoviam a liberalização do comércio multilateral e reformas entre as economias de mercado. A bi-globalização geoeconômica de hoje ocorre à sombra da bipolaridade geopolítica. A bipolaridade EUA-China está reestruturando a economia mundial. A geoeconomia – a competição geopolítica no domínio econômico – definirá os rumos da competição EUA-China nos próximos anos. Na rivalidade bipolar, as grandes potências verão a interdependência econômica, comercial e tecnológica como fontes de vulnerabilidades geopolíticas.
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Coda Cenários geoestratégicos e desafios futuros
O poder internacional e suas dinâmicas moldam o mapa-múndi. A geopolítica retrata a morfologia estratégica da política internacional. A visão grande-estratégica e as decisões de política exterior direcionam os rumos do sistema internacional. No campo internacional, a liderança estratégica e o drama das decisões políticas se desenvolvem como tudo aquilo que é profundamente humano em força e tibieza: interesses, valores, medos, aspirações, orgulhos, determinações, enganos, desejos. Nosso horizonte de observação é limitado e sempre incompleto. Podemos aprender com as lições da história e tentar discernir a evolução das forças que moldam o presente, mas toda decisão estratégica em política exterior é uma aposta incerta em relação ao futuro. Estadistas são julgados por sua concepção estratégica e, em igual medida, pelo que lograram atingir ou evitar. Entender, com realismo, as forças que moldam a realidade internacional é o primeiro passo da ação estratégica. No sistema internacional contemporâneo, três grandes forças dão forma à competição geopolítica global: a bipolaridade EUA-China, que cria o fator estrutural decisivo para as
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relações internacionais em todos os equilíbrios geoestratégicos do mundo; a bi-globalização geoeconômica, que bifurca a economia internacional, os mercados e o desenvolvimento tecnológico segundo a lógica da rivalidade geopolítica e da segurança econômica; e o reordenamento bipolar, que esboça os contornos da nova ordem mundial, que transcenderá a antiga ordem liberal internacional. Bipolaridade
Competição geopolítica
Reordenamento bipolar
Bi-globalização geoeconômica
As três grandes forças que estruturam a competição geopolítica do mundo contemporâneo são o resultado das tendências que transformaram as relações internacionais nas últimas décadas: • a transição do mundo unipolar, centrado nos EUA, para o mundo bipolar, articulado pela competição EUA-China;
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A velha ordem está morrendo e uma nova luta para nascer. Em Geopolítica global, o diplomata brasileiro Braz Baracuhy vai à essência da questão com um diagnóstico: estamos vivendo o retorno da bipolaridade, desta vez entre os EUA e a China, e ela está remodelando tudo, desde a forma da globalização até a estrutura e o equilíbrio de poder global. Baseando-se na teoria geopolítica clássica e em sua própria experiência na linha de frente, Baracuhy oferece uma avaliação sobre o retorno da competição entre grandes potências e o que isso significa para os países que tentam navegar entre dois gigantes. O momento unipolar acabou; o que vem a seguir será confuso, perigoso e provavelmente diferente da fantasia multipolar em que muitos estão apostando. Ian Bremmer, Presidente da Eurasia Group
O mapa estratégico do mundo contemporâneo
A Série Relações Internacionais convida-nos a refletir de maneira crítica sobre os grandes desafios da política mundial. Escrita por especialistas de diferentes áreas, ela lança questionamentos relevantes para a atualidade, como: Quais conceitos e teorias nos ajudam a explicar os temas fundamentais e emergentes de política internacional? Caminhamos para mais interdependência comercial e cooperativa ou mais isolacionismo autoritário? Como se redesenha a cena mundial a partir da expansão dos Brics? A pluralidade da integração econômica afeta a hegemonia dos Estados Unidos e da União Europeia ou isso é apenas uma complementariedade que integra novos países consumidores? As ações de enfrentamento às mudanças climáticas operam para legitimar a mesma ordem internacional excludente sob o rótulo da transição energética? Como se articulam os atores da sociedade civil global e os representantes dos povos indígenas, e quais são suas agendas? Qual é o papel da diplomacia nesse mundo tão comprimido, desigual e demograficamente instável, com migrações de guerras e catástrofes climáticas? Com uma linguagem objetiva e acessível, e um projeto gráfico inovador, a Série Relações Internacionais é um convite ao debate sobre questões globais que impactam nossas vidas. Prof. Agripa Faria Alexandre
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Geopolítica global Geopolítica global
Diplomata de carreira e especialista em geopolítica, atuou como embaixador do Brasil (chargé d’affaires) junto à Organização Mundial do Comércio e outras Organizações Econômicas Internacionais em Genebra (2022-2023) e na Finlândia (2025). Ingressou no Itamaraty em 2001. No Brasil, foi diretor-adjunto de planejamento diplomático do Gabinete do Ministro das Relações Exteriores, chefe da divisão de agricultura do Itamaraty, negociador comercial na Rodada Doha e professor do Instituto Rio Branco (IRBr). No exterior, serviu como representante permanente alterno em Genebra e ministro-conselheiro em Helsinque, chefiou o setor econômico da Embaixada do Brasil em Pequim e foi secretário em Genebra e Lima. Participou do Programa de Grande Estratégia da Universidade Yale e estudou Relações Internacionais e Diplomacia na PUC-Rio, no IRBr e na London School of Economics. Recebeu o “Prêmio Araujo Castro” pelo 1º lugar no mestrado em Diplomacia do IRBr. É membro do International Institute of Strategic Studies (IISS). Paraibano, sua família tem raízes na cidade de Pilões.
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