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Explorações no autismo

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Explorações no autismo

Donald

EXPLORAÇÕES NO AUTISMO

Um estudo psicanalítico

Donald Meltzer com

John Bremner

Shirley Hoxter

Doreen Weddell

Isca Wittenberg

Tradutora

Marisa Mélega

Explorações no autismo

© 2026 Donald Meltzer

Título original: Explorations in Autism: A Psycho-Analytical Study

© 1975 The Roland Harris Educational Trust

© 2008, 2018 estate of Donald Meltzer and The Harris Meltzer Trust

Editora Edgard Blücher Ltda.

Publisher Edgard Blücher

Editor Eduardo Blücher

Coordenação editorial Rafael Fulanetti

Coordenação de produção Ana Cristina Garcia

Tradução Marisa Pelella Mélega

Preparação de texto Regiane da Silva Miyashiro

Diagramação Mônica Landi

Revisão de texto Equipe editorial

Capa Juliana Midori Horie

Imagens de capa David José Gonçalves Batista (Donald Meltzer); The Tavistock & Portman NHS Foundation Trust (quarta capa)

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br

Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.

É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.

Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570

Meltzer, Donald

Explorações no autismo : um estudo psicanalítico / Donald Meltzer et al.; tradução de Marisa Mélega. – São Paulo: Blucher, 2026.

312 p.: il.

Bibliografia

ISBN 978-85-212-2668-0 (Impresso)

ISBN 978-85-212-2669-7 (Eletrônico – Epub)

ISBN 978-85-212-2666-6 (Eletrônico – PDF)

1. Psicanálise. 2. Transtorno do Espectro Autista (TEA). 3. Autismo. 4. Investigação psicanalítica. 5. Estados autísticos. 6. Autismo e depressão. 7. Autismo e aprendizagem. 8. Autismo e mutismo. 9. Autismo e mecanismos obsessivos. 10. Dimensionalidade e organização narcísica. 11. Autismo em crianças. I. Título. II. Mélega, Marisa.

CDU 159.964.2

Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise CDU 159.964.2

Conteúdo

Prefácio à edição brasileira 7

parte a – teoria

1. Objetivos, escopos e métodos de investigação 13

Donald Meltzer

2. A psicologia dos estados autísticos e a mentalidade pós-autística 17

Donald Meltzer

parte b – achados clínicos

Introdução 49

3. Autismo propriamente dito – Timmy 51

John Bremner e Donald Meltzer

4. Depressão primária no autismo – John 77

Isca Wittenberg

6 explorações no autismo

5. Perturbação da geografia do espaço vital no autismo – Barry 129

Doreen Weddell

6. A enfermidade autista residual e seu efeito na aprendizagem – Piffie 199

Shirley Hoxter

7. Mutismo no autismo infantil, esquizofrenia e estados maníaco-depressivos: a correlação de psicopatologia clínica e linguística 237

Donald Meltzer

parte c – implicações dos achados

8. A relação do autismo com mecanismos obsessivos em geral 259

Donald Meltzer

9. Dimensionalidade como parâmetro de funcionamento mental: sua relação com a organização narcísica 277

Donald Meltzer

10. Conclusão 299

Donald Meltzer

Bibliografia das principais referências 307

Prefácio à edição brasileira

A tradução de Explorations in Autism atende finalmente à necessidade de esclarecer a intimidade da psicologia dos estados autísticos no enfoque psicanalítico para o público brasileiro.

Confesso que demorei muito para me decidir a traduzir este precioso testemunho de investigação do autismo infantil e assim torná-lo mais acessível aos estudiosos de nosso meio.

Passados 50 anos de sua primeira publicação, Explorations in Autism continua atualíssimo. O livro relata a investigação clínica levada adiante por dez anos de vários casos clínicos de crianças com autismo tratadas com o método psicanalítico e supervisionados por Donald Meltzer. Na Parte A do livro, ele conta como foi surgindo uma nova visão do autismo que difere grandemente de qualquer outra sugerida até então na literatura psiquiátrica e psicanalítica. No Capítulo 1, Meltzer afirma que o objetivo desta investigação é localizar problemas, e não resolvê-los. E esta sua atitude de mente científica possibilitou a localização de fenômenos muito misteriosos e pouco conhecidos até então: o desmantelamento, a deterioração dos conceitos de tempo e de espaço, a utilização da desmentalização como

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recursos para ganhar tempo. No Capítulo 2, trata da psicologia dos estados autísticos e da mentalidade pós-autística. Descreve o estado mental autístico com seus fatores econômicos, suas características estruturais, seus aspectos dinâmicos e faz considerações que ele denomina genéticas. Descreve como se desenvolve a personalidade da criança autista em sua organização do espaço vital e na organização do self e dos objetos.

Ao abordar os casos clínicos do livro na Parte B, Meltzer pede ao leitor que observe que não tentou estabelecer o diagnóstico de autismo infantil de acordo com conceitos psiquiátricos habituais, e sim permitiu que o diagnóstico se estabelecesse a partir da descrição do material. Os Capítulos 3 a 6 seguem com os casos clínicos. No Capítulo 7, Mutismo no autismo infantil, esquizofrenia e estados maníaco-depressivos, Meltzer ilustra cinco fatores necessários para o desenvolvimento e uso da fala e traz três exemplos clínicos a esse respeito. Conclui que no autismo, há dificuldade de introjetar objetos parlantes e há um ataque ao coito verbal dos pais.

Já na Parte C, no Capítulo 8, A relação do autismo com mecanismos obsessivos em geral, ele nos oferece outra contribuição original ao discriminar a essência do modo de atuar dos mecanismos obsessivos no autismo para “benefício próprio”, dos mecanismos obsessivos como defesa contra a ansiedade. Interessantíssimo o Capítulo 9 que descreve outra contribuição original de Meltzer, acerca das dimensionalidades no funcionamento mental.

Ele conclui o livro no Capítulo 10, em que destaca dois importantes adendos à concepção de Freud sobre a vida mental do bebê: sua ideia de narcisismo primário como um estado em que há identificação com objetos que produzem satisfação imediata. O primeiro adendo diz respeito à descrição de Klein do splitting primário, cisão e idealização do self e do objeto sendo o marco inicial das relações objetais que conduz ao desenvolvimento saudável. O segundo adendo se refere à descoberta de Esther Bick (1968) com sua descrição da

1. Objetivos, escopos e métodos de investigação

Este pequeno livro não pretende ser um estudo exaustivo de uma síndrome patológica específica. Talvez esteja mais próximo da história de um viajante do que do relato de um estudo científico. Nós podemos dar a direção que a bússola apontou, qual equipamento levamos conosco e que experiência de viagens anteriores serviu de base para nossas opiniões. O resto consiste na descrição do terreno e dos seus habitantes, flora e fauna, e nas aventuras ao longo do caminho. Além disso, tudo foi organizado depois, porque nada foi planejado de antemão e somente pensamos em nos organizar em grupo com o intuito de rever, e só depois escrever e publicar, nossas experiências.

Na verdade, as crianças descritas nos capítulos seguintes estavam entre as mais interessantes de um grupo maior tratado pelo método psicanalítico, tanto em consultório particular como em clínicas de saúde mental, durante o período de 1960 a 1970. Havia dois fatores comuns em todos os casos: (a) todos os terapeutas foram treinados no método psicanalítico de terapia infantil desenvolvido por Melanie Klein; (b) todos foram supervisionados, de tempos em tempos, por um de nós (Donald Meltzer), reconhecido por seu interesse principalmente em crianças autistas e por ter tido alguma experiência no

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tratamento destas crianças pelo método psicanalítico.1 À medida que o trabalho clínico progredia em seu próprio ritmo e novas descobertas surgiam em um tratamento após outro, surgiu uma visão clara do autismo, que diferia muito de qualquer outra sugerida anteriormente na literatura psicanalítica ou psiquiátrica infantil. Naquela época, em 1967, Melanie Klein Trust nos concedeu uma bolsa para que, reunidos em grupo de pesquisa, pudéssemos revisar a experiência, que realizamos por meio de seminários quinzenais durante três anos. Os frutos desse trabalho refletiram-se em vários escritos apresentados num congresso de psiquiatria pediátrica em Roma (Donald Meltzer), na British Psychological Association (Donald Meltzer), na Association of Child Psychotherapists (Shirley Hoxter) e num congresso internacional de psicanálise (Donald Meltzer). O todo, porém, foi cuidadosamente montado para formar um livro que acreditamos ter uma lógica e uma sequência internas convincentes.

O âmbito dessas investigações é, portanto, bastante limitado. Nós praticamos terapia psicanalítica com diversas crianças que acreditamos se enquadrarem na categoria de autismo infantil, embora em diferentes estágios de evolução. O objetivo foi puramente descritivo: encontrar uma linguagem desprovida de qualquer sentido de jargão, por um lado, e de ambiguidade, por outro, que pudesse comunicar a qualidade especial das relações humanas, a visão do mundo e os processos de desenvolvimento apresentados por essas crianças, no setting psicanalítico de um consultório para atendimento da infância. O método terapêutico não diferiu em nada daquele utilizado no tratamento de crianças neuróticas ou psicóticas, conforme descrito por Melanie Klein em Psicanálise de crianças (1932) e exemplificado na Narrativa de uma análise infantil (1961). A essência do método é uma investigação sistemática e

1 N.T.: D. Meltzer trabalhou em psiquiatria infantil nos EUA antes de fazer sua formação analítica na Sociedade Britânica, que iniciou ao se analisar com Melanie Klein.

2. A psicologia dos estados autísticos e a mentalidade pós-autística

Neste capítulo, queremos apresentar de forma esquemática a formulação geral das nossas descobertas, que serão então descritas em detalhe por cada terapeuta individual. Todos nós ficamos surpresos, até certo ponto, com a complexidade das ideias que desenvolvemos durante os anos de trabalho conjunto. Não podemos nos desculpar por essa complexidade em si, exceto no que diz respeito a não termos sido capazes de responder se tal complexidade se deve a uma incapacidade nossa de conseguir formulações e modos de expressão mais simples, mais amplos e mais precisos, ou se a complexidade reside na natureza do material.

O aspecto mais importante dessa complexidade reside no ponto de vista que tende a separar o próprio estado autista daquelas qualidades da mente em geral que aparecem nessas crianças durante o desenvolvimento, e que estão de alguma forma fora do próprio autismo, que chamamos de estado residual de autismo. Por si só, esta não parece ser uma ideia muito complicada, pois está ligada ao conceito comum em medicina de doença e sequelas; a complexidade reside realmente na forma peculiar como os dois estão interligados em cada criança durante cada período particular de observação. Isso será

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exemplificado muito claramente no material de Timmy (John Bremner, ou J.B., no Capítulo 3), cuja observação deu origem a um modo de estudo muito convincente. Ao longo de alguns meses, ficou claro que certas formas de comportamento que apareciam repetidamente constituíam o fenômeno autista em Timmy, e, ao selecionar dados que pareciam claramente escapar dessa categoria e depois amarrá-los como pérolas em um fio, fomos capazes de reconstruir sequências (por vezes abrangendo várias sessões) que podem ser interpretadas como se tivessem sido efetivamente consecutivas. O resultado foi algo semelhante à fotografia cinematográfica de abertura de flores, na medida em que, tirando fotos em intervalos de alguns minutos, é possível traçar um processo de desenvolvimento e crescimento que não é visível a olho nu.

No entanto, talvez mais importante do que a revelação particular sobre Timmy foi a segurança que ganhamos com essa observação e a certeza que obtivemos sobre o grau de isolamento que essas duas categorias de fenômenos mantêm na mente do indivíduo. É claro que não é novidade que diferentes partes da mente possam ser mantidas a uma certa distância e em uma ignorância mútua; esse é um lugar comum para repressão, processos de dissociação e sistemas delirantes. No entanto, o que apareceu como uma grande novidade e com uma exibição deslumbrante da velocidade e da complexidade do aparelho mental foi a maneira como essas duas categorias de fenômenos estavam entrelaçadas e combinadas. Nessa justaposição de estados mentais, o fenômeno autista poderia ser visto em relação ao material da transferência, à medida que as perturbações repentinas da brincadeira aparecem na análise da criança. Contudo, embora a perturbação do brincar esteja relacionada com uma mudança que envolve um nível ou aspecto diferente da situação de transferência, a perturbação autista deu uma impressão muito diferente; assemelhava-se à inserção de um “ataque de pequeno mal” na conversa: como se esses processos tivessem sido verbais, a oração interrompida fosse

Introdução

Começa agora a parte fundamental do livro, composta pelos relatos clínicos de diferentes terapeutas do grupo de pesquisa. Soma-se a isso um capítulo escrito pelo copilador (D. Meltzer) sobre mutismo de crianças autistas (Capítulo 7), embora com material clínico retirado do tratamento psicanalítico de pacientes esquizofrênicos e maníaco-depressivos no final da adolescência. Nenhum esforço foi feito para restringir os autores individuais dentro de uma estrutura geral de exposição e, por essa razão, as descrições das crianças e seu material analítico às vezes se repetem e se sobrepõem. Em certo sentido, isso é positivo, pois não só enriquece os conceitos ao multiplicar as ilustrações com pequenas variantes, mas também ajuda a trazer as crianças descritas para o mesmo grupo. Pode-se observar que não tentamos estabelecer o diagnóstico de autismo precoce infantil de acordo com os conceitos psiquiátricos habituais, mas permitimos que o diagnóstico se estabelecesse descritivamente. Com o tempo, nós próprios descobrimos que, em contraste com nossas dúvidas e discussões anteriores, a homogeneidade do material, a evolução da transferência e

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a revelação dos próprios conflitos centrais eram ao mesmo tempo surpreendentes e convincentes.

Note-se também que a ordem da apresentação foi organizada segundo uma lógica interna, começando pela criança mais doente, Timmy, e concluindo pela mais melhorada, Piffie. Contudo, a lógica vai além desse ponto. Posto em ordem, vemos que Timmy ilustra a própria doença; John ilustra o conflito central e o sofrimento mental que lhe deu origem; Barry ilustra o defeito de personalidade que se desenvolve consequentemente e Piffie ilustra as interferências que surgem para a aprendizagem e a adaptação. Tomados separadamente, eles são muito diferentes entre si. Timmy é como uma mariposa que encontra uma chama em torno da qual se agita e se machuca; John é um menino triste, sem-lugar, que se esconde dentro de uma armadura de um tirano e se debate contra ela; Barry, de um monstruoso egocentrismo, encontrou os meios de colocar em perigo e penetrar e ocupar seu objeto que constantemente se quebra em pequenos pedaços; Piffie é o feiticeiro, um elfo científico que explora e controla o universo, com o punho de ferro dentro da luva de veludo. Tomados em conjunto, são uma única criança em diferentes estágios de recuperação, a partir de um estado de desmentalização, que entraram na infância para preservar seus objetos e fugir da dor de ver os danos que não podiam reparar e que eles próprios poderiam ter causado.

3. Autismo propriamente dito – Timmy

Essa criança linda e robusta iniciou o tratamento aos seis anos e nove meses de idade; ele foi atendido em sessões cinco vezes por semana durante cerca de quatro anos, com resultados por vezes significativos, mas no fim decepcionantes. De qualquer forma, o processo analítico visto naquela época e depois compreendido retrospectivamente por meio da comparação com outros casos constitui a base da nossa concepção do estado autista propriamente dito. A dificuldade de exposição é muito grande e devemos, portanto, traçar antecipadamente o plano a ser desenvolvido, para que possa ser seguido com facilidade. Apresentaremos inicialmente uma história composta por eventos selecionados e seu desenvolvimento, isto é, acontecimentos de especial importância na experiência do tratamento. Reproduziremos então uma das primeiras sessões com Timmy, escolhida pela forma completa como exemplifica os fenômenos ocorridos na sala de análise. Nesse contexto de história e descrição clínica, vamos descrever então, de forma mais geral, as transações ocorridas nos três anos iniciais de tratamento, para demonstrar como a mente e o corpo do terapeuta tomaram posse de um conjunto de qualidades e funções que poderia reunir a mente dispersa da criança. Só então pôde

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desenvolver-se um processo reconhecível como transferência infantil. Finalmente, descreveremos os acontecimentos transferenciais e as suas manifestações externas durante um período do quarto ano de análise, centrado num episódio muito interessante em relação à continência fecal de Timmy, muito bem estabelecidas anteriormente.

História do desenvolvimento

Timmy era o terceiro de quatro filhos de um casal muito unido e o único claramente perturbado. Os pais eram pessoas inteligentes e cultas, pertencentes à classe média alta. A posição elevada do pai numa empresa internacional exigia que vivessem no estrangeiro. As duas exceções a essa regra (de morarem no exterior) foram: um período de longa convalescença da mãe, quando Timmy tinha cinco meses, e os primeiros três anos de sua psicoterapia.

Os primeiros cinco meses de vida foram uma delícia para a mãe e a amamentação teve muito sucesso, complementada com mamadeira apenas durante uma viagem de férias no terceiro mês de vida, muito bem tolerada pelo bebê. A mãe cuidou dele integralmente, apesar de ter babá, até seu adoecimento, que exigiu internação hospitalar e resultou no desmame abrupto do bebê aos cinco meses de idade. Talvez “abrupto” seja um termo muito forte, já que nas duas semanas anteriores foi aumentada a alimentação suplementar com mamadeira e tornou-se necessário que a babá fosse mais ativa no cuidado do bebê.

A separação total da mãe durou apenas algumas semanas e não foi observado nenhum atraso notável no desenvolvimento de Timmy. Aos onze meses ele se levantava bem, conseguia dizer “mamãe” e “papai” com clareza, estava alerta e feliz. Depois de um ano, ele estava andando confortavelmente. A relação entre mãe e bebê, porém, não foi recuperada de ambos os lados e os cuidados com o bebê passaram imperceptivelmente cada vez mais para as mãos da devotada babá. Quando, um mês depois de seu triunfo em caminhar sozinho, a babá

4. Depressão primária no autismo – John

Introdução

Gostaria de retratar algumas das experiências que tive com John durante seu primeiro ano de tratamento analítico comigo. Na maior parte do tempo, essas experiências foram tão dolorosas para um de nós ou para ambos que é necessário um esforço considerável para enfrentar a tarefa de revivê-las na mente. Escreverei em detalhes algumas das sequências de brincadeiras e comportamentos, na esperança de que isso permita ao leitor tirar suas próprias conclusões sobre a natureza dos relacionamentos de John. Na maioria das vezes, não citei as interpretações que dei, mas indiquei nos meus comentários sobre a sessão como entendi o que estava acontecendo. Desejarei colocar muitas questões e sugerir, apenas provisoriamente, algumas causas para a probabilidade de John se perder num estado de ausência de atividade mental (desmentalização) ou, alternativamente, de cair num tipo particular de depressão catastrófica. Embora a projeção implacável do desespero tornasse esta criança por vezes difícil de suportar, a natureza apaixonada de John, a sua capacidade de ternura,

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a sua vulnerabilidade à dor depressiva e o seu pedido de ajuda evocaram em mim grande afeição e preocupação.

Veremos que o material é entendido com um pano de fundo teórico derivado do trabalho de Melanie Klein. A necessidade e o fato de a mãe segurar a dor projetada da psique infantil, conforme enfatizado por W. R. Bion, a mãe como um continente, se liga ao trabalho de Esther Bick sobre a função de contenção da pele. No entanto, apresentarei as sessões e as minhas reflexões sobre elas tão livres de termos técnicos quanto possível e com o objetivo de transmitir o impacto desta criança e os sentimentos que ela foi capaz de gerar em mim.

Uma breve história de desenvolvimento

John nasceu depois de um trabalho de parto difícil e prolongado. Sua mãe passou mal por cerca de dois meses após o nascimento e, portanto, John foi alimentado com mamadeira e parcialmente cuidado por seu pai. Ele era um bebê forte, um bebê fácil e animado, atingindo suas etapas de desenvolvimento um tanto tarde; mas ele era uma criança alegre e os pais não estavam excessivamente preocupados. Ele adorava sua mamadeira e recusou-se a ser desmamado, usando o copo, de modo que continuou a beber a mamadeira muito depois de ter aceitado os sólidos. Ele não a abandonou completamente até os três anos.

Quando John tinha dezessete meses, sua mãe teve uma infecção renal e foi atendida em casa por seis semanas. Os pais depois saíram de férias por uma semana, deixando John aos cuidados dos avós que ele conhecia bem. Mesmo assim, quando os pais voltaram, John estava inexpressivo e começou a afastar a mãe. A partir daí, ele não demonstrou nenhum afeto ou desejo de se comunicar; muitas vezes, ele ia brincar sozinho em uma sala escura. Quando John tinha dois anos e nove meses e até os três anos, um bebê esteve em sua casa. John

5. Perturbação da geografia do espaço vital no autismo – Barry

No tratamento psicanalítico de um adolescente com uma estrutura psicótica séria, subsequente a um estado autista, foi possível observar o processo de estabelecimento de um mundo interior, mediante a identificação introjetiva, com objetos internos bons.

Um objeto para ser disponível para identificação projetiva de uma parte em sofrimento, e para aliviar essa parte e devolvê-la ao self para ser integrada (Bion), tem que ser um objeto com força suficiente e resiliência para resistir a identificações projetivas invasivas (Bick) e ser o abrigo parasitário dessa parte dentro de si, do objeto (Meltzer). O material que ilustra essa tese é retirado da análise de um adolescente que, aos doze anos, foi encaminhado para tratamento porque ele era ineducável, incapaz de ir para escola e totalmente antissocial. Quando perturbado, ele ficava incontrolável em sua casa. Quando criança tinha sido autista, condição que parece ter sido aliviada a partir dos seis anos de idade após tratamento na Clínica Hampstead. Posteriormente, manifestou-se uma estrutura de caráter claramente psicótica. A análise de Barry foi interrompida nove anos depois, quando ele estava com 21 anos, por decisão própria. O material das fases iniciais da análise irá, espero, ilustrar como essa criança se

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tornou capaz de estabelecer um mundo interno que continha objetos com funções e papéis que permitiram o desenvolvimento da fantasia. Essa base finalmente facilitou o retorno à normalidade mediante o emprego da identificação introjetiva.

As fases de análise a serem descritas em sua duração podem ser resumidas da seguinte forma:

Fase 1 (nove meses): agressão e monstruosidade. A clínica, a sala de tratamento e a analista eram foco de agressões e Barry se apresentava como um monstro insuportável. A fase terminou quando Barry pareceu reconhecer o analista como um objeto, que poderia ser firme, mas vulnerável, que tinha uma pele que poderia ser danificada, mas poderia cicatrizar (Bick).

Fase 2 (dez meses a dois anos e meio): identificação projetiva intrusiva e violenta. O chão, as paredes, os móveis da sala de tratamento tornaram-se os recipientes ou receptores dos estados mentais internos do paciente. Isso começou a mudar quando Barry conseguiu conceber e desenhar um mundo interno que continha objetos, equiparado a uma família interna, que exigia espaço e privacidade para funcionar adequadamente.

Fase 3 (dois anos e meio a três anos e meio): identificação projetiva útil. Nessa fase, Barry conseguiu reconhecer a analista como um objeto que poderia aliviar a dor psíquica e o medo de morrer. Houve uma mudança da agressão para o afeto, com aumento da cooperação e da verbalização. A monstruosidade começou a diminuir depois que Barry gritou para a mãe: “Agora sei por que sou feio”.

Fase 4 (três anos e meio a cinco anos): sonhos e identificação introjetiva. O processo analítico foi esclarecido, por meio dos sonhos do paciente, quando ele começou a frequentar a escola. Emergiu o significado de sono perturbado e saudável e houve evidências do início de uma identificação introjetiva saudável.

6. A enfermidade autista residual e seu efeito na aprendizagem – Piffie1

O principal interesse deste capítulo será estudar alguns fatores que parecem ter impedido ou aumentado a capacidade de desenvolvimento de Christopher, geralmente conhecido como Piffie, que iniciou psicoterapia comigo aos três anos e três meses de idade. Na maior parte do tempo, frequentou a terapia quatro vezes por semana, até os oito anos e um quarto, quando o tratamento foi encerrado. Dois anos e meio depois, sua terapia foi reiniciada e, dos onze aos quatorze anos (sua idade no momento em que este artigo foi escrito), na frequência de uma vez por semana.

Os períodos de psicoterapia a serem discutidos dizem respeito principalmente aos efeitos residuais de um estado autista. Piffie provavelmente estava começando a sair desse estado antes de iniciar a psicoterapia e eliminou suas manifestações mais flagrantes no primeiro ano de terapia. No entanto, traços de características autistas anteriores ainda podem ser discernidos e continuam a ter um efeito restritivo sobre o seu desenvolvimento.

1 Este capítulo está baseado em um trabalho publicado no Journal of Child Psychotherapy, 3(2):21-39, 1972.

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História inicial e antecedentes

Christopher é o mais novo de três filhos. No momento do seu nascimento, por cesariana, sua mãe estava muito ansiosa, pois, pelas experiências anteriores, tinha motivos para temer que ele pudesse morrer. Na verdade, ele era um bebê saudável, mas muito passivo, dormindo muito e nunca agarrando o mamilo ou a mamadeira com força suficiente para sugar adequadamente. O leite teve que ser praticamente derramado em sua boca.

Por volta dos dois anos e meio, um amigo médico chamou a atenção de seus pais para sua condição. Naquela época, seu contato significativo e sua resposta às pessoas e coisas ao seu redor eram tão escassos que as possibilidades de ele ser surdo ou deficiente mental foram investigadas. Na época em que me foi encaminhado, aos três anos e três meses, seu desenvolvimento era imaturo em todos os aspectos, exceto no desenvolvimento motor. Ele conseguia dizer algumas palavras, mas raramente o fazia. Suas atividades que não pareciam ser uma inquietação sem propósito consistiam principalmente em colocar e tirar coisas de caixas. Dizia-se que ele não demonstrava prazer em brincar ou entusiasmo pela vida. Muitas vezes ele passava longos períodos olhando para o espaço, aparentemente alheio ao que estava ao seu redor; e isso ficou especialmente aparente em momentos de grandes mudanças, como férias à beira-mar. Ele era altamente sensível, mesmo a pequenas mudanças, sobretudo aquelas que afetassem uma de suas muitas rotinas (diziam que ele tinha uma rotina para tudo). Ele era extremamente exigente e, quando frustrado, logo desmoronava em ataques prolongados de gritos. O seu terror e a sua fúria eram particularmente acentuados ao ser retirado de casa ou de sua cadeirinha ou vestir roupas novas. Ele tinha graves dificuldades para se alimentar e dormir, mas estava limpo e seco durante o dia. Ele tinha uma pequena careca no topo da cabeça devido aos constantes puxões de cabelo.

7. Mutismo no autismo infantil, esquizofrenia e estados maníaco-depressivos: a correlação de psicopatologia clínica e linguística1

A prática da psicanálise depende tanto da função da fala que tendemos a considerá-la um pouco como certa, até sermos confrontados com graves perturbações dentro dela. Tais situações nos tornam conscientes de quão pouco essa atividade mental interna de verbalização e sua manifestação externa, a vocalização, foram até agora conceituadas pelos psicanalistas para seu próprio uso clínico. Este capítulo é uma contribuição para isso, destinado a ser utilizado em consultório e na sala de jogos de análise de crianças; portanto, baseia-se em trabalhos recentes em linguística, mas não pode pretender oferecer nada em troca a esse campo. Contudo, é apropriado que as principais fontes de noções conceituais sejam mencionadas no início, antes de nos voltarmos para o material clínico. A formulação da função da linguagem que tem sido empregada baseia-se fortemente no trabalho das seguintes pessoas: a concepção de Bertrand Russell de metalinguagens em

1 Lido no 28th no International Journal of Psycho-analysis, Paris, julho de 1973, e publicado no International Journal of Psycho-analysis, 55:397-404, 1974.

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diferentes níveis de abstração; a visão de Wittgenstein da linguagem como parte da “história natural” dos seres humanos e a sua divisão em linguagem profunda e superficial; a visão de Susanne Langer sobre a base musical de linguagem que aqui se aplica à linguagem “profunda” de Wittgenstein e à “gramática profunda” de Chomsky; a concepção de Bion do emprego da identificação projetiva como o modo primordial de comunicar estados mentais, que é considerado o conteúdo da linguagem e da gramática “profundas”. Talvez seja bom afirmar claramente que este texto não se enquadra em pontos de vista que equiparam a mente e o cérebro e, portanto, não se harmonizaria com ideias baseadas na neuropatologia, como Merleau-Ponty quando emprega as observações de Goldstein sobre a afasia, nem com as visões de desenvolvimento apresentadas, por exemplo, por Roman Jakobson, que assumem que a criança aprende começando com “enunciados de um fonema, uma palavra, uma frase”.

No entanto, em vez de aprofundar o debate teórico, é melhor avançar para os resultados clínicos, a fim de mostrar como eles contêm implicitamente uma teoria da função e do desenvolvimento da linguagem, tanto da verbalização como da vocalização. A abordagem pode ser resumida considerando-a como uma operação de acompanhamento focada no autismo infantil; e em vez de descrever sua fenomenologia clínica, será apresentado material clínico de dois pacientes esquizofrênicos e um maníaco-depressivo com o propósito de definir cinco fatores na função da linguagem cujo distúrbio leva ao mutismo. Serão então reunidos para mostrar como todos os cinco fatores operam no autismo infantil, interferindo assim com o fato de a fala fazer parte da “história natural” dessas crianças.

Esses cinco fatores podem funcionar isoladamente, um depois do outro ou em conjunto, nas doenças mentais onde está presente uma tendência ao mutismo; são eles:

8. A relação do autismo com mecanismos obsessivos em geral

As experiências descritas e comentadas neste livro, derivadas da combinação da observação detalhada e do amplo suporte de anos de processo analítico, contribuíram para a nossa compreensão dos mecanismos mentais, com especial riqueza na área dos mecanismos obsessivos. O problema da “escolha da neurose” com o qual Freud lutou simplesmente por tê-lo formulado (uma daquelas perguntas equivocadas que só dão origem a respostas equivocadas) promoveu toda uma variedade de teorias que especulavam sobre um ou dois fatores, ou mesmo uma multiplicidade de fatores. O estágio de desenvolvimento da libido, os pontos de fixação, os fatores traumáticos, os mecanismos de defesa, a relação mãe-bebê, fatores sociológicos, constituição herdada: estes e muitos outros fatores foram estudados nesta investigação. Poderia facilmente ser considerado, embora erroneamente, que uma teoria de um mecanismo específico do autismo foi formulada neste livro, mas isso seria um erro que este capítulo deve esclarecer. O que busco mostrar é a essência do modo de atuar dos mecanismos obsessivos por meio da maneira como são usados nesta que é, com certeza, a mais primitiva das perturbações obsessivas. É claro que, a partir do momento em que uma perturbação

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obsessiva é designada como autismo, soa como uma afirmação nosográfica com implicações etiológicas, mas não é essa a intenção. A experiência com Piffie foi escolhida como peça central dessa discussão, pois apresentava mecanismos obsessivos de tipo particularmente “puro”, quase como no “cultivo puro”.

Devo explicar desde o início o que quero dizer com essa distinção e, assim, evitar muita confusão. O mecanismo fundamental, que chamamos de “obsessivo”, devido à doença que mais expressivamente ilustra o seu funcionamento, consiste na separação e no controle onipotente dos objetos, tanto internos quanto externos. Essa afirmação parece necessitar de um complemento motivacional, seja “com o propósito” ou “para evitar ou prevenir isto ou aquilo”. Então, depois de pensar um pouco mais, fica claro que o “controle onipotente de objetos” é em si uma afirmação motivacional à qual se podem acrescentar declarações de desenvolvimento motivacional secundário – “para evitar a ansiedade de separação” ou “com o propósito de prevenir a concepção de outro bebê”. No entanto, deve ser distinguido de uma afirmação sobre o Id, que só poderia referir-se adequadamente à fonte e ao objetivo, e não ao modo e ao objeto. A confusão em relação aos mecanismos obsessivos surge relacionada ao seu uso secundário como mecanismos de defesa contra a ansiedade, em vez de seu uso primário “para benefício próprio”; pode-se dizer como uma expressão de atividade, em vez de passividade, nas relações objetais. Por que então “onipotente” se estivermos falando apenas de uma forma de relação ativa com os objetos? Porque, ao estudar esses mecanismos, podemos reconhecer que eles agem com base em uma elipse na fantasia, uma lacuna na lógica de causa e efeito, que salta do desejo à sua realização sem parar para alcançar os meios de transformação.

É à “pureza” dessa operação que me refiro em relação a Piffie. Embora, é claro, ele frequentemente empregasse mecanismos obsessivos para fins defensivos, ele os utilizou em toda a sua extensão como sua forma favorita de dominar a crescente complexidade de suas

9. Dimensionalidade como parâmetro de funcionamento mental: sua relação com a organização narcísica

Em relação ao método psicanalítico, é interessante notar que as alterações em relação ao espaço vital encontraram expressão no trabalho interpretativo muito antes de surgirem como realizações teóricas. A delineação da teoria foi, portanto, deixada de forma muito clara para o final deste livro, a fim de que as experiências clínicas nas quais ela se baseia, na medida em que se relacionam com crianças autistas, se tornem, até certo ponto, parte do equipamento do leitor. O mesmo não pode ser dito das manifestações de dimensionalidade simplificada em pacientes não autistas, e isso deve ficar claro. Para tal efeito, será necessário citar extensivamente o artigo pioneiro da Sra. Esther Bick.

Antes, porém, talvez seja útil expor brevemente a formulação teórica. É nossa opinião que, na medida em que se pode dizer que um organismo tem uma vida mental e não apenas que existe num sistema de respostas neurofisiológicas aos estímulos que lhe chegam de fontes internas e externas, ele vive “num mundo” e este mundo pode ser estruturado de diversas maneiras. Talvez tenhamos nos acostumado

278 explorações no autismo

a pensar no “mundo” como quadridimensional e constituindo o “espaço de vida” (Kurt Lewin) do organismo. Do ponto de vista psicanalítico, pode-se dizer que esse espaço de vida compreende os vários compartimentos da “geografia da fantasia” (Meltzer) que se move na dimensão temporal. Essa geografia é normalmente organizada em quatro compartimentos: dentro do self, fora de self, dentro de objetos internos, dentro de objetos externos; a estes pode-se por vezes, talvez sempre, adicionar o quinto compartimento, o “lugar nenhum” do sistema delirante, fora da atração gravitacional dos objetos bons.

A dimensão do tempo, por outro lado, pode ser reconhecida como tendo um desenvolvimento da circularidade para a oscilação e, finalmente, para o tempo linear de “vida” para o indivíduo, desde a concepção até a morte.

Tornamo-nos agora conscientes de que a dimensionalidade espacial também tem um desenvolvimento, um ponto de vista provavelmente em fundamental acordo com as ideias de Bion descritas principalmente em Transformations (1965). O ponto de vista que desejamos adotar aqui é talvez mais imediatamente clínico e puramente psicanalítico do que o de Bion, pois ele está mais preocupado com o pensar e com o pensar-sobre-pensar, enquanto estamos absorvidos principalmente pelas fontes de emocionalidade na percepção e na experiência. Porém, parece bastante certo que os dois vértices são complementares.

Essa visão evolucionista da dimensionalidade na visão de mundo (que não gostaríamos de confundir com weltanschauung, uma ideia muito mais abstrata e filosófica) provavelmente nos leva de volta aos processos de diferenciação e organização próximos à cisão-e-idealização do self e do objeto. Melanie Klein viu isso como o primeiro passo definitivo no desenvolvimento saudável, uma visão com a qual Roger Money-Kyrle, ao descrever a necessidade lógica interna do desenvolvimento, está de acordo (1961). Nós pensamos

10. Conclusão

Quando um livro fica pronto e suas diversas partes são reunidas, quando várias pessoas trabalham juntas e separadamente nele, como foi o caso, o que surge parece muito diferente do que foi previsto. Ao dar um passo atrás e ver como as pinceladas se confundem entre si, surge um esquema cuja organização nunca foi planejada ou esperada. De repente fica claro que a transformação de experiências em um livro muda a pessoa; ao tornar-se parte da história de alguém, altera a pessoa que vê o que aconteceu, bem como altera a sua visão do mundo exterior.

Por exemplo, ao olhar para dentro, descubro que uma admiração e um carinho bastante particulares cresceram em meus sentimentos por essas crianças, e penso poder ser separado dos sentimentos em relação ao trabalho ou método analítico, aos amigos envolvidos, à grande parte do tempo-da-minha-vida gasto etc. Não, é uma admiração especial por essas crianças e, de certa forma, pelo autismo. Posso ver que, por exemplo, no texto, eu fiz relações com Oates, Lincoln, a fábula da Verdadeira Cruz, as Cruzadas. É evidente que sinto algo de heroico nessas crianças e vejo, ainda que exagerado e incapacitante, o germe de alguma grandeza, de algum “salto no escuro”, como diria

300 explorações no autismo

Kierkegaard. Suspeito que estou testemunhando o seu “cavaleiro da fé” que falhou desde o início, a excentricidade do verdadeiro indivíduo hipertrofiada para além de suas raízes na realidade psíquica. Tenho a impressão de que essa minha contratransferência é compartilhada por aqueles que realmente trabalharam e conheceram as crianças. Na verdade, só conheci um deles, Barry, e ele foi em consulta antes de sua análise. Minha própria contratransferência é para o grupo como um indivíduo composto cuja história está organizada como estão os Capítulo 3 a 6. É esse vértice que desejo explorar como forma de reunir o material do volume.

Comecemos com um problema teórico e depois voltemos às crianças. Houve apenas dois adendos importantes à concepção de Freud sobre o início da vida mental no bebê, sua ideia de narcisismo primário como um estado em que a identificação com objetos que produzem satisfação era imediata e automática. Essas ampliações foram inicialmente a descrição de Melanie Klein da cisão e idealização primária do self e do objeto, originalmente o peito (ou seja, a mãe como peito). Mediante tal operação, a criança lançava as bases para conceitos de bom e mau, embora com um critério grosseiramente exagerado e imediato. Isso foi considerado por Melanie Klein como um marco do início de relações objetais que conduzem ao desenvolvimento saudável, uma condição sine qua non. O segundo corolário foi acrescentado por Esther Bick em 1968 com a sua descrição da função psíquica da pele no desenvolvimento mental. Ela demonstrou de forma convincente a necessidade de uma experiência com um objeto continente com o qual o bebê possa se identificar, a fim de se sentir suficientemente contido em sua própria pele para ser capaz de suportar ser desprendido dos braços da mãe em estado de vigília, sem que sobrevenha a desintegração do seu self corporal. Ela também descobriu algumas das consequências que uma pele psíquica defeituosa tem para a força do ego e mostrou

Explorações no autismo relata uma investigação de 10 anos por meio de terapia psicanalítica com crianças autistas supervisionadas por D. Meltzer. Ele declara que, aos poucos, foi surgindo uma nova visão do autismo que difere grandemente de qualquer outra sugerida até então na literatura psiquiátrica.

Descreve como se desenvolve a personalidade autista e contribui com novos conceitos, entre eles, desmentalização, dimensionalidades e mecanismos obsessivos primitivos.

Passados 50 anos de sua primeira publicação, Explorações no autismo continua atualíssimo, tanto em seu material clínico como em sua teorização.

PSICANÁLISE

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Explorações no autismo by Editora Blucher - Issuu