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Expansões em Bion

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Expansões em Bion

Várias Jornadas, alguns textos - 2018 a 2023

EXPANSÕES EM BION

Várias Jornadas, alguns textos – 2018 a 2023

Organizadores

Julio Frochtengarten

Regina Weinfeld Reiss

Expansões em Bion: várias Jornadas, alguns textos - 2018 a 2023

© 2026 Julio Frochtengarten, Regina Weinfeld Reiss (organizadores)

Editora Edgard Blücher Ltda.

Publisher Edgard Blücher

Editor Eduardo Blücher

Coordenação editorial Rafael Fulanetti

Coordenação de produção Ana Cristina Garcia

Preparação de texto Equipe editorial

Diagramação Markelangelo Design

Revisão de texto Equipe de produção

Capa Juliana Midori Horie

Imagem da capa iStockphoto

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil

Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br

Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.

É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.

Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570

Expansões em Bion : várias Jornadas, alguns textos: 2018 a 2023 / organizadores Julio Frochtengarten, Regina Weinfeld Reiss. – São Paulo : Blucher, 2026 304 p. : il.

Bibliografia

ISBN 978-85-212-2936-0 (Impresso)

ISBN 978-85-212-3064-9 (Eletrônico – Epub)

ISBN 978-85-212-2935-3 (Eletrônico – PDF)

1. Psicanálise. 2. Interpretação em psicanálise.

3. Observação e intuição em psicanálise. 4. Bion, Wilfred R. (Wilfred Ruprecht), 1897-1979. I. Título.

II. Frochtengarten, Julio. III. Reiss, Regina Weinfeld.

CDU 159.964.2

Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise

CDU 159.964.2

Conteúdo

Apresentação 7

Julio Frochtengarten e Regina Weinfeld Reiss

Parte I – Jornada 2018: Pensamento selvagem – interpretação

1. Pensamento selvagem: interpretação 15

Antônio Carlos Eva

2. Em busca do pensamento selvagem nos rastros de Edgar Allan Poe, Raul Pompeia e Nietzsche 21

Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho

Parte II – Jornada 2019: Observação–Intuição em Psicanálise

3. Intuição psicanalítica no sonho e na vigília: cesura, imaginação e linguagem de Êxito 33

Arnaldo Chuster

4. Observação e intuição em psicanálise 59

Carmen C. Mion

5. Observação e intuição: alguns comentários 83

Celso Antonio Vieira de Camargo

6. Intuição–Observação: fonte de ilusão ou conhecimento? 97

Julio Frochtengarten

Parte III – Jornada 2022: E agora, por que o presencial?

7. Por que atender presencialmente? Considerações teórico-clínicas sobre o trabalho psicanalítico 111

Ana Maria Stucchi Vannuchi

8. Presencial/on-line: fundamentos teóricos 137

Cecil José Rezze

9. Psicanálise, política e propaganda: realidade material e psíquica 149

Paulo Cesar Sandler

Parte IV – Jornada 2023: Entre memórias do passado e memórias do futuro

10. Passado ↔ Futuro: memórias 181

Claudio Castelo Filho

11. Memória do passado e memória do futuro: o presente 193

Deocleciano Bendocchi Alves

12. Entre memórias do passado e memórias do futuro: o hiato entre conhecer/não conhecer e ser ou tornar-se 205

João Carlos Braga

13. Transformações: místicas ou transcendentais 221

Paulo de Morais Mendonça Ribeiro

Parte V – Jornada 2024: Ousarei perturbar o Universo?

14. Conversando sobre a obra de Bion 249

Carmen C. Mion e Julio Frochtengarten

15. O analista de Satã: preliminares a uma abordagem psicanalítica da psicopatia 255

Martha Prada e Silva

16. Ousaremos? Sobre perguntas, poetas e trilogias 277

Renato Trachtenberg

Sobre os autores

299

1. Pensamento selvagem: interpretação

Farei um estímulo curto, para leitura em poucos minutos, no qual apresento duas vinhetas clínicas, procurando com elas discutir os pares tradição-invenção, pensamento selvagem-interpretação e pensamento e não pensamento.

Alicerço as intervenções clínicas em teorias psicanalíticas que privilegiam a experiência emocional psicanalítica vivida pelo par na sala de análise, distinguindo-as das intervenções que não se valem do vivido no momento.

A base das teorias inclui, essencialmente, o período de estudo do pensamento que fez Bion, por meio da publicação de três livros nos anos 1962-1965. Com base nessas teorias, desenvolvi pessoalmente, em um longo período, uma experiência pessoal sobre o tema, que procuro trazer como estímulo para este momento.

Quem sabe, possamos formar um grupo com momentos de trabalho criativo para abordar o que cada um de nós, como atividade pessoal e única, faz em seu trabalho psicanalítico.

Vou apresentar duas vinhetas clínicas e examiná-las dentro do vértice da experiência emocional psicanalítica, próxima da proposta feita por W. R. Bion em torno dos anos 1962-1965, quando

desenvolveu “Aprendendo com a experiência”, “Elementos de psicanalise” e “Transformações”. São três livros fundamentais para o estudo do pensamento em psicanálise que se apoia na experiência emocional presente.

Pretendo examinar o sentido de criação que envolve cada procedimento psicanalítico quando se emprega a experiência emocional como vértice essencial para o trabalho clínico psicanalítico. Tomo ainda o conceito de tradição como um impedimento para a percepção do momento vivido, de modo a tirar no todo ou em parte a capacidade psicanalítica do psicanalista.

Esta dimensão paralisante em relação à criatividade do momento presente provém de várias fontes. Pode ter origem em ações do analisando, do analista ou ser um acordo, fora da área do pensamento, organizado conjuntamente pela dupla, no geral para evitar dor mental e frustração.

Ouço de um analisando: “Havia um engarrafamento no trânsito aqui perto e eu fiquei parado, preso. Em função disso não pude chegar no horário do início da sessão, como tinha planejado”.

Esta é a fala do analisando, com a qual ele inicia sua conversa comigo, enquanto tira o paletó e deixa seus pertences, tais como molho de chaves e celular, sobre uma cadeira. Acomoda-se no divã.

Escuto-o e faço uma notação (coluna 3 da Grade de Bion) de que se dirigiu a mim para informar que o atraso se deveu a condições externas, alheias e em oposição à sua vontade, que era, esta sim, a de estar comigo no horário combinado.

Permaneço atento e quieto verbalmente; acrescento à primeira notação que fiz uma percepção-intuição-pensamento de que está receptivo e simpático para comigo, provavelmente à espera de uma resposta minha ao que informou de início.

Enquanto analista, devo tomar uma decisão que consiste em falar diante do vivido naquele momento ou aguardar mais

2. Em busca do pensamento selvagem nos rastros de Edgar Allan Poe, Raul

Pompeia e Nietzsche

2.1. Apresentação

A palavra escolhida por Bion, para acompanhar aquilo que ele denominou de “pensamentos selvagens” (wild thoughts), é um elemento indireto a nos ajudar a caracterizar este tipo de “pensamento”. Como verbo transitivo ou intransitivo, encontramo-nos no universo do amansar, domar, domesticar, submeter, ou, alternativamente, ser amansado, domado etc.; no campo dos adjetivos, encontramos o domesticado, o dócil e o humilde; na esfera adverbial, o mansamente e, na ordem substantiva, a mansidão, a submissão e o domador.

Bion (2016, p. 38) ao introduzir a noção de “pensamento selvagem”, o diferencia de um “pensamento extraviado” e de um pensamento recolhido na seção de “achados e perdidos”, incluindo os três na categoria geral de “pensamento sem pensador”. No caso específico do pensamento selvagem, a conduta por ele sugerida é a de tentar “domesticá-lo”, sendo que ele se dispõe a nos mostrar como isto poderia ser feito.

O interesse principal dele “são aqueles pensamentos selvagens que brotam e para os quais não há possibilidade de se encetar de imediato qualquer tipo de posse, ou mesmo de se vislumbrar a genealogia daquele particular pensamento” (p. 39, itálico meu).

Diante da aparição dessa “estranha criatura boiando no meu horizonte” (sic), sua providência seria guardá-la dentro de uma espécie de “caixa”, ou seja, um continente físico, que ele chamaria de “elemento-beta” (2016, pp. 40-41), apesar de não saber o que esse elemento é. Mesmo assim, ele se arriscaria a associá-lo a uma “escuridão maciça”, algo que Victor Hugo chamou de “nulidade” (le néant) e ao qual, Shakespeare se referiu como “um conto relatado por um idiota cheio de som e fúria significando nada”.

Bion nos fornece dois exemplos de “pensamentos selvagens” extraídos de Shakespeare. O primeiro é a frase enigmática “Até rapazes e moças iluminados estão fadados, como os limpadores de chaminés, a virar pó”. Este pensamento extraviado tem ligado a si um nome e um endereço: Shakespeare Cymbeline, IV, 2, e para o qual ele nos oferece uma possível explicação (2016, pp. 46-47). O segundo é uma frase forte na peça Macbeth (I, 5): “O próprio corvo ficou rouco ao grasnar a entrada fatal de Duncan ao atravessar meu peitoril”.

Confrontado com frases como essas, Bion (2016) diz sentir-se diante de outras criaturas agora mais sofisticadas, “mas que despertam em mim sentimentos e pensamentos embrionários, algo que está próximo a um protótipo de reação mental: chamarei essas outras criaturas de ‘elementos-alfa’” (p. 41).

Em minha experiência no rastreamento dos pensamentos selvagens, dei-me conta de que eles guardam uma estreita semelhança com os achados do tipo “serendipity” (palavra em inglês que significa uma feliz descoberta ao acaso, ou a sorte de encontrar algo precioso onde não estávamos procurando).

À guisa de exemplos, pretendo dissecar o conto “William Wilson”, de Edgar Allan Poe, uma inesperada “crítica do instinto, como o

3. Intuição psicanalítica no sonho e na vigília: cesura, imaginação e linguagem de Êxito

3.1. Introdução

Este trabalho originou-se do relato feito por Manoel Bandeira (1966) sobre a criação do seu poema “Soneto sonhado”. Ele conta que sonhou o poema inteiro, mas, ao acordar, não se lembrava de todas as palavras; por isso teve que recorrer à sua intuição na vigília para completar os lapsos de sua memória.

Como hipótese de trabalho, pensei em aproximar este tipo de movimento psíquico com o trabalho interpretativo do analista, confrontando o uso da memória-sonho (Bion, 1967) com a memória que Bion (1967, 1970) recomenda que descartemos no trabalho analítico, simultaneamente com o desejo e a necessidade de compreensão.

A memória-sonho surge com o uso da intuição, enquanto a outra se distancia da intuição e se transforma num conceito vazio que dificulta a observação. Parafraseando Kant, a memória se torna cega, ao invés de iluminar a experiência que lhe deu origem.

O desenvolvimento deste trabalho me levou inevitavelmente para correlações entre diversos temas da obra de Bion, como a Teoria do Pensar, o objeto psicanalítico, a função psicanalítica da

personalidade, os Elementos da psicanálise, a Grade, as Transformações, Cesura, Linguagem de êxito.

A densidade do trabalho foi se avolumando, mas apontando para um ponto central: o mistério que nos faz pensar e nos move a buscar realizações.

Como o mistério é uma das dimensões do objeto psicanalítico – dimensão que venho nomeando como complexidade (Chuster, 1999, 2002, 2011, 2014, 2018) –, me foi necessário expandir vários pontos para poder tomar o ato poético analogicamente ao ato psicanalítico, ambos tendo como ponto de partida a atividade intuitiva, e da forma como são capazes de lidar com infinitas tensões e contradições, inspiração e crítica, vida e morte; simetrias que configuram um universo em turbulência emocional e sua sempre possível expansão.

Ao refletir sobre esse ponto complexo me vi tentando dar conta das diversas definições da intuição, a ponto de pensar que deveria desenvolver uma História da Intuição. Uma tarefa obviamente imensa, que percorre a História da Humanidade nos seus infinitos momentos de descobertas em todas as áreas do conhecimento, e que achei prudente, no mínimo, deixá-la para outra ocasião.

Reduzi meu campo de ação enfocando o que poderia ser a principal utilidade deste projeto: pensar na história da intuição psicanalítica, tanto no sentido histórico longitudinal, que vai de Freud até a contemporaneidade, como no sentido vertical e pontual, que ocorre do início ao fim de uma sessão.

Para um diálogo na direção dessa história vertical, sugiro substituir duas colunas da Grade destinadas ao Sistema Dedutivo Científico (G) e ao Cálculo Algébrico (H) por (G) para o histórico das conjecturas imaginativas e (H) para o histórico das conjecturas racionais.

Enfocando esse histórico, teríamos a possibilidade de examinar retrospectivamente os usos da nossa intuição na sessão analítica

4. Observação e intuição em psicanálise1

4.1. Nota preliminar2

O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.

1. A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar.

1 Texto originalmente publicado na Revista Brasileira de Psicanálise, 58(1), 117-128, 2024.

2 Introdução ao livro Mensagem do poeta português Fernando Pessoa, publicado ainda em vida em 1934, um ano antes da morte do autor pela Parceria António Maria Pereira. A obra trata do glorioso passado de Portugal. Pessoa utiliza a palavra “Mensagem” a partir da expressão latina: Mens agitatmolem, “O espírito move a matéria”, uma citação de Virgílio (70 a.C.-19 a.C.), Eneida, capítulo VI (No Mundo dos Mortos).

2. A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.

3. A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois, que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia; no exame dos símbolos é o relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido.

4. A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.

5. A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma, da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.

(1934)

5. Observação e intuição: alguns comentários

Celso Antonio Vieira de Camargo

Minha ideia neste trabalho é promover uma aproximação ao complicado caminho da intuição, e tentar objetivá-la através de exemplos clínicos.

As duas pretensões estão fadadas a um quase certo fracasso, mas tentarei.

A intuição, numa primeira aproximação, seria um caminho mais rápido para a apreensão de certas situações da realidade, como disse o saudoso professor Bento Prado em uma conferência na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Um dos filósofos que mais se ocupou do assunto foi Henri Bergson, o filósofo intuicionista francês, que abordou o conceito de forma diferente da de Kant.

Uma maneira de nos aproximarmos do campo conceitual da intuição é colocá-la como uma captação pré-reflexiva da realidade imediata. Poderíamos dizer que corresponde, em termos mais precisos, a uma captação completa (ou seja, por inteiro – Bergson dizia:

coincidir com a realidade1) pré-reflexiva, sem a intermediação do pensamento racional. No exemplo que pretendo dar, vou comentar um pouco como uma visão mais racional muitas vezes interfere na captação da realidade imediata (aquela que se apresenta intuitivamente a nós num dado momento). Mas após a captação pré-reflexiva, nosso aparelho conceitual entra em ação, e aquele momento de captação imediata desaparece. No exemplo, minhas preocupações sensoriais e práticas de fechar a porta do consultório me impediram de perceber de imediato o significado psíquico contido na ação do analisando, que insistia em fechá-la ele próprio. Não pude usar minha intuição inicialmente, preso que fiquei ao aspecto sensorial: a necessidade de lidar com a porta.

A intuição tem diversas aproximações diferentes na filosofia, mas esta, que a considera como uma apreensão pré-reflexiva da realidade imediata (e no nosso caso, da realidade psíquica) mais afinada com o conceito de Bergson, me parece a que tem mais utilidade clínica para nós, praticantes da psicanálise. Na filosofia, às vezes, se aproxima muito da visão. Esta também envolve uma captação imediata e completa: ao olhar, imediatamente percebo alguma coisa e a identifico. O conceito de intuição em Kant muitas vezes se aproxima mais dessa visão. A sua frase famosa, e genial, “intuição sem conceito é cega, conceito sem intuição é vazio” parece se aplicar muito particularmente à nossa percepção. Proponho que a ideia de Kant se aplica mais ao que poderíamos chamar de “intuição sensorial”, ou seja, minha capacidade de apreensão da realidade sensorial do mundo. Diz Kant: “seja de que modo e com que meio um conhecimento possa referir-se a

1 Bergson em Ensaio sobre os dados imediatos da consciência (2011) e em O pensamento e o movente (2019) desenvolve sua ideia do tempo como algo que não é divisível, a não ser arbitrariamente, e que nos fornece uma percepção sui-generis sobre a vida e, o que nos interessa mais aqui, sobre a vida psíquica. Esta é vista como um processo que evolve, como o tempo, mas que não tem mais um começo depois do momento do nascimento.

6. Intuição–Observação:

fonte de ilusão ou conhecimento?

A proposta de focalizar os temas Intuição e Observação me trouxe a oportunidade de perceber o quanto somos capazes de nos servir de alguns termos sem ter ideia clara dos conceitos que eles abrigam, assumindo o sentido que têm no senso comum, na linguagem coloquial.

Notei que tenho me servido do termo “observação” para me referir ao que faço quando me coloco no vértice psicanalítico. Bion se serve muitas vezes do termo, por isso não deixa de ser surpreendente descobrir que muitos dicionários de termos bionianos, assim como índices remissivos de alguns de seus livros, não contemplam o vocábulo “observação”. É possível que sua ausência se dê em função do que ele afirma em um de seus seminários: “Temos que usar o termo ‘observação’, como uma espécie de metáfora, uma aproximação, pois utilizamos uma linguagem inadequada ao nosso trabalho...” (Bion, 2017, p. 26).

Fora do âmbito da Psicanálise, nos acostumamos a pensar em observação como exame de fenômenos mediado pela sensorialidade. Mas, por exemplo, em antropologia e etnologia se utiliza a expressão “observação participante” para se referir ao método de investigação

em que o pesquisador procura integrar-se ao grupo estudado, vivendo junto a este e participando de suas atividades por período relativamente prolongado, como se fosse um de seus membros, de modo a captar sua vida com maior riqueza de detalhes. De forma análoga, podemos pensar em observação psicanalítica como observação participante, instrumento e método a reger nossa prática. Assim, se “observação” é um termo que costuma se ligar aos dados sensoriais da experiência, quando ganha o qualificativo “psicanalítica” passa a remeter à experiência emocional; e a partir daí os dados sensoriais já não são suficientes para sustentá-la.

Sem ter definido claramente no que se constitui a observação psicanalítica, é novamente surpreendente ver, em Atenção e interpretação, Bion (1970) mencionar seu interesse em um modo de pensar que permita uma “observação clínica correta” (p. 58); e que o psicanalista deveria evitar “observação defeituosa” (p. 58).

Penso que uma teoria da observação se diferencia de uma teoria psicanalítica. Esta última corresponde às formulações do corpo teórico da psicanálise, às suas concepções (fileira F da Grade); já, uma teoria da observação corresponde às realizações dessas teorias na prática. Um sistema dessa ordem foi exposto por Bion no livro Transformações, e podemos considerar a Grade, construída por ele, sua figuração. Assim, ao falarmos em observação psicanalítica, compreendo que estamos nos referindo a uma função que se dá por meio de elementos sensoriais, mas, indubitavelmente, para além deles. O que está além penso ser, justamente, a intuição do analista, guia de sua compreensão e de sua prática. São elas, observação e intuição, que constituem a observação psicanalítica e norteiam o uso, formulado ou não, para si mesmo ou seus pares, da Grade.

Por essas razões, passo a desenvolver este texto em busca de conceitos, e desembocando em pensamentos imperfeitos. Ao longo dele,

7. Por que atender presencialmente?

Considerações teórico-clínicas sobre o trabalho psicanalítico1

Não te esqueças nunca que eu venho dos trópicos. Maria Martins, escultura em bronze, 1942

Depois de quase dois anos de atendimento psicanalítico on-line, necessário devido à pandemia do Covid-19, decidi retomar o trabalho presencial no consultório, tomando todos os cuidados recomendados pelos órgãos de saúde do Estado: janelas abertas, uso de máscaras, capa plástica no divã, higienizado a cada encontro com o álcool 70. Mas é claro que isso implica alguns riscos para mim e também para os pacientes, embora vacinados com várias doses, dependendo da idade. Mas por que eu correria estes riscos? Teria a convicção de que o trabalho presencial é diferente? Em quê? Como justificar teoricamente essa convicção de que presencialmente me sinto mais viva e sensível para acessar as vivências primitivas que emergem na dupla analítica, causando tanta turbulência?

1 Texto originalmente publicado na Revista Brasileira de Psicanálise, 56(3), 131-149, 2022

Aos poucos, fui me dando conta da dificuldade da tarefa e me angustiando, especialmente quanto à necessidade de argumentar e dar consistência teórica às minhas ideias. Desde sempre me parecia óbvio que o presencial era um trabalho de maior profundidade e intimidade, mas como justificar o óbvio? Geralmente ele se encontra diante de nós e não o vemos. Como diz Bion: “Inconsciente e consciente não dão conta do problema. Poderíamos, às vezes, substituir inconsciente por óbvio, porém não observado” (Bion 1992 , p. 327 ).

Antes da pandemia, nunca tinha me passado pela cabeça atender on-line. Porém, um ano antes tive uma paciente que se mudou para a Holanda e eu me dispus a acompanhá-la pelo Skype, uma vez por semana, mas não chamaria esse trabalho de analítico, pois lidava com questões especificas da adaptação da paciente em território estrangeiro, com algumas observações sobre seu funcionamento mental, mas sem mergulhar nas profundidades do desconhecido de sua vida mental. Com a pandemia, me vi constrangida a atender on-line para continuar trabalhando e atendendo os pacientes que precisavam e aceitaram esse “novo jeito” de trabalhar, pois nem todos o fizeram. Não pretendo me deter nessa experiência agora, que trouxe possibilidades e benefícios, pois minha necessidade é justificar para mim mesma a necessidade de retomar o trabalho presencial no consultório, com os benefícios e riscos que isso traz.

Em outubro de 2021, voltei ao atendimento presencial com alguns pacientes e vou comentar e pensar minhas vivências e observações. Em julho 2021, no Congresso da IPA, eu tinha assistido ao trabalho de uma analista inglesa, cujo nome não me lembro, dizendo: “Quando encontrei presencialmente com a paciente A em meu consultório, depois de longo tempo de isolamento e trabalho on-line,

8. Presencial/on-line: fundamentos teóricos1

Em reunião científica na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), sobre o tema “Ética e Pensamento Clínico no atendimento on-line” (2022), os apresentadores Marion Minerbo e Claudio Castelo Filho, em consistentes trabalhos, salientaram a importância da presença do cliente.

Marion, em delicada tessitura, examina a música que a cliente ouvia na sala de espera, antes que a sessão se iniciasse, e a importância da transferência positiva que este fato desencadeava na vida interna desta cliente. A negação de fazer análise on-line, possivelmente, se devia à proteção de surgimento de uma transferência negativa, caso ela fosse privada de uma relação “idílica” com a analista através da música.

Usando referencial muito diferente, porém, seguindo a mesma direção, Cláudio menciona situações que surgem apenas no atendimento presencial e que somente nele podem ser observadas, principalmente no que diz respeito a camadas mais primordiais e primitivas da mente. Ressalta modos de caminhar, de deitar-se, de

1 Agradeço ao Dr. José Lopes das Neves Neto a valiosa colaboração prestada.

138 expansões em bion

reagir a estímulos como perfumes e cheiros, que são comuns a analista e analisando no consultório e não servem de referência nos atendimentos on-line.

Dada a palavra aos colegas para discussão, José Vieira faz consistente comentário do qual destaco: “Eu senti falta na fala dos colegas do contraditório, essa questão merece também ser ouvida pelo outro lado...todas as dificuldades que o on-line impõe, diante de uma situação nova, desafiante, e que demanda um arcabouço teórico conceitual para abrigá-lo...” (1h6min24).

Na realidade, o tema proposto pela Jornada não pode existir sem o exame do contraditório, ou seja, a possibilidade de que o trabalho seja feito pelo método on-line, havendo opinião confluente e divergente quanto a que benefícios surgiram para cliente e analista quando foi adotado.

Bion, em fase tardia de suas contribuições nos Seminários Italianos em 1977, desenvolve precioso pensamento, que reforça a tese dos dois referidos expositores (Bion, 1985/ 2017). Ele encarece que para o analista existe um precioso colaborador, que vai muito além da ajuda que poderia obter de um supervisor, professor ou de livros que possa ter lido, ou seja, é o paciente que sabe o que é sentir ser ele ou ser ela. “Isto torna muito importante que sejamos capazes de ouvir, ver, cheirar e até mesmo sentir qual a informação que o cliente está tentando transmitir” (Bion, 1985/ 2017, pp. 14-15).

Bion salienta a importância da evidência, como referência científica que está disponível pelo paciente no tempo da sessão e, a seguir, enfatiza que o analista discrimine quais os requisitos mínimos com os quais pode contar para que possa ser capaz de realizar uma análise.

A meu ver, a evidência disponível diretamente a meus sentidos vale mais do que qualquer evidência - se ela

9. Psicanálise, política e propaganda: realidade material e psíquica1

Psicanálise prescinde de propaganda e procedimentos políticos; que não podem fazer nada pela psicanálise. Aqueles que desejam possuir as artes do político jamais desejariam obter uma psicanálise. Bion, 1967/2022b, pp. 157-158

O tema proposto pelos organizadores desse encontro está compactado por uma formulação verbal mesclando duas perguntas “E agora? Por que o presencial?”. Trata-se de uma consigna prévia de funcionamento grupal, com a pretensão de ser um “estímulo” – no linguajar dos organizadores.

Existe a possibilidade hipotética de que os formuladores da dupla pergunta, os colegas que organizam o evento no qual vocês e eu estamos reunidos, já a responderam; a própria formulação é uma indicação segura. Ou estão em dúvida, visível sensorialmente, pois há o sinal?; que já traz alguns mistérios, em si mesmo. Sob o vértice científico, é necessário considerar simultaneamente que não a tenham respondido.

1 Freud, S (1900) The Interpretation of Dreams, SE V, p. 613

Não os questionei, na minha condição de convidado para falar a respeito da dupla pergunta; o faria, caso participasse da organização. Minha limitada condição permite-me apenas fazer hipóteses; ou inferir, ainda hipoteticamente, no caso de que eu lance mão de minha experiência pessoal com todos os organizadores, que se estende pelas últimas quatro décadas, com alguns. E mais do que cinco, com outros.

A possibilidade hipotética está colocada acima de forma geral; admite pelo menos cinco especificidades, todas elas, hipotéticas

1. Considero que a probabilidade de que a tenham respondido é alta; como um novelista de suspense que sabe o desfecho de seu escrito, embora presuma que o leitor não o saberia; Corolário: a probabilidade de que não a tenham respondido seria baixa.

2. Pode ser que os organizadores esperem uma resposta, advinda do convidado e também da audiência que se atraiu para participar do evento.

3. Caso a dupla pergunta seja considerada como se fosse uma questão, nenhuma resposta seria necessária, mas apenas considerações e reflexões; a formulação verbal me parece duvidosa. “E agora?” parece-me definitivamente uma pergunta; “Por que o presencial” acrescenta a um estado de perplexidade da primeira pergunta, um tom que posso descrever como o de uma questão de dúvida rebelde, como a dos adolescentes; ou ligada a outro tipo de desorientação.

4. Suponho ainda que não esperem que eu dê alguma resposta, pois a consigna, no convite pessoal dos organizadores, é que minha função seja a de coordenar esse grupo.

5. Inferência, ainda hipotética: talvez os organizadores pensem, e esperem que eu tenha alguma resposta à dupla pergunta. Talvez esperem que vocês, que atenderam ao chamado para formar uma audiência, a tenham. Talvez procurem, como políticos procuram, sondar a opinião pública a respeito da dupla pergunta. Por

10. Passado ↔ Futuro: memórias1

Beijando teus lindos cabelos/ Que a neve do tempo marcou/ Eu tenho nos olhos molhados/ A imagem que nada mudou// Estavas vestida de noiva/ Sorrindo e querendo chorar/ Feliz, assim, olhando para mim/ Que nunca deixei de te amar Carlos Galhador, “Bodas de Prata”

Em trabalho anterior (Castelo Filho, 2019), mencionei a experiência que tive quando jantava com um colega e amigo em Brasília, após fazer uma conferência naquela cidade. Olhando para a mesa que se encontrava ao lado da nossa, percebi um senhor na minha diagonal e eu enxergava suas costas e parte de seu perfil. Tive a sensação de que o conhecia de algum lugar. Subitamente um susto! Era meu reflexo que eu via em um espelho de parede inteira que dava a impressão de ser uma extensão da sala do estabelecimento. O tal do senhor era eu! O que tinha em meus registros como sendo eu mesmo não correspondia àquele que o reflexo revelava. O presente e o futuro ali se

1 Texto original publicado com o título “Entre memórias do passado e memórias do Futuro” no livro Os descaminhos do Édipo – A resposta é o infortúnio da pergunta (Blucher, 2023, pp. 113-126).

apresentavam para minha consideração. Aquele que eu fora não estava mais lá. Paradoxalmente, permanecia existindo algo em mim que me comunicava que, a despeito da novidade, eu permanecia sendo eu mesmo apesar de não ser o mesmo. Havia um invariante na variação.

Há cerca de 35 anos, durante o lançamento de um livro para o qual contribuiu com um capítulo, ouvi Frank Julian Philips, analista didata da SBPSP oriundo da Inglaterra, que se analisara com Melanie Klein e Wilfred Bion, e que foi uma das pedras fundamentais de nossa sociedade, sentado à mesma mesa em que eu me encontrava no Bar Balcão em São Paulo, comentar, com seu forte sotaque britânico, um vestido que se encontrava na vitrine de uma loja de roupas femininas na esquina diagonal à do bar. Ao lado dele estava sua esposa, Alba. Ele disse que o vestido era muito bonito. Acrescentou que, aos oitenta e tantos (acho que eram 85 ou 86) anos de idade, quando via uma moça bonita o que sentia por dentro era o mesmo que quando ele tinha vinte. Não havia mudado nada a experiência, apesar de ele ter mudado muito.

Observo em diversos pacientes uma fortíssima angústia que muitas vezes chega a beirar o terror quando mudanças vão ocorrendo em seus modos de se comportar ou de olhar os fatos da realidade que os circunda. As reações que experimentam em relação a eles, que não são mais as mesmas de antes. Ainda que se sentindo mais livres ou ágeis no lidar com as situações, veem-se muito assustados e com medo de estarem perdendo algo fundamental. Dei-me conta de que, para muitos deles, essa mudança seria vivida da mesma forma que o Alferes do famoso conto “O Espelho”, de Machado de Assis, experimentou ao ficar alguns dias sem seu uniforme habitual. Ao mirar-se no espelho, não conseguia se enxergar. Só recuperou sua forma no instante em que envergou sua farda novamente. A angústia dos pacientes seria a de despersonalização, uma vez que ficassem sem suas conhecidas e habituais angústias “neuróticas” ou “psicóticas” pelas

11. Memória do passado e memória do futuro: o presente

Chamarei esta comunicação de serendipidade ou a faculdade de fazer descobertas inesperadas e proveitosas por acidente. No meu trabalho isso aconteceu inúmeras vezes. Esse termo é um capítulo de um livro que publiquei em 2014 (Alves, 2014). Procurarei transmitir minha experiência usando esse conceito que me ocorreu, inúmeras vezes, na preparação deste escrito, um pensamento inesperado que me propiciou refletir sobre alguns aspectos psicanalíticos.

11.1. Apresentação

Não sou versado em teorias e, portanto, só me é possível falar de minha experiência, que é longa, pois trabalho com psicanálise desde 1967. Lembro-me do primeiro dia que procurei o Instituto de Psicanálise “Durval Marcondes” (SBPSP) para obter informações sobre os procedimentos necessários para frequentá-lo. Hoje, como um dos mais velhos membros da SBPSP, resolvi escrever sobre meu trabalho.

Conheci W. R. Bion pessoalmente e – nas diversas vezes que o ouvi em encontros no Brasil e na leitura de seus escritos – apreendi

o que ele sugeria: que confrontássemos nossas experiências com os fatos expostos por ele, oriundos das suas observações.

Minha psicanálise foi longa e ocorreu com duas analistas: a primeira foi muito importante, eu nunca havia feito nada parecido anteriormente, mas hoje eu diria que ela foi uma verdadeira catástrofe emocional com predomínio da posição esquizoparanoide. A segunda durou muito tempo e serviu para ter esta experiência que agora compartilho.

Melanie Klein, escreveu em 1929, um texto intitulado “Situações de ansiedade infantil refletidas em trabalhos de arte e no impulso criativo” (1929/1973), que me estimulou a escrever este trabalho evocando Shakespeare, Beethoven, T. S. Eliot, Bergson, Bion na abrangência do tema: “O tempo”. Esses autores foram geniais, criaram diversas peças, ultrapassaram o que estava estabelecido e apresentaram uma nova maneira de expressão e apreensão, cada um em sua área de trabalho.

Klein inspirou-se em Colette e Maurice Ravel, usou a ópera L’énfant et les sortilèges (Ravel, 1926), ela já havia utilizado outras criações artísticas para escrever textos psicanalíticos como, por exemplo, “Sobre a identificação” (1929/1973), quando tomou como inspiração o livro de Julien Green Se eu fosse você (1947/1995). Muitas vezes Klein usou textos artísticos para expressar sua experiência clínica.

No artigo “Cognitive Development” (1978), Roger Money-Kyrle fala do desenvolvimento da psicanálise e, na minha leitura, mostra as diversas mudanças de enfoque que aconteceram, com o passar do tempo.

De Klein tomei o impulso criativo e de “Mudança catastrófica” (Bion, 1971) tomei a ideia. O mesmo conceito intitula pesquisas feitas por Rene Thom (1985) e outros autores da mesma época. Chamam de mudança catastrófica resultados descontínuos que ocorrem em processos contínuos ou de outra forma: é o crescimento da capacidade de discriminação.

12. Entre memórias do passado e memórias do futuro: o hiato entre conhecer/não conhecer e ser ou tornar-se

Vivenciar períodos de perplexidades, irritação e dúvidas ao estudar a obra de Bion é uma experiência inelutável. Identifico que estes momentos me ocorreram especialmente ao ter de me haver com as mudanças de parâmetros em seu pensamento psicanalítico: da teoria dos grupos para o estudo do pensamento psicótico e deste para a teoria do pensar, que, por sua vez, levou-o à teoria do conhecimento, e desta para a teoria de ser ou tornar-se uno com a realidade última (O). No entanto, nenhuma destas disrupções me ficou tão impactante como a que me ocorreu com a mudança na teoria das transformações ( 1965 / 2004 b) , em que Bion propõe uma visão da mente como tendo duas dimensões que convivem, mas que não se integram: as do Conhecer/não conhecer (aqui equacionada com memórias do passado) e do Ser ou Tornar-se (aqui equacionado com memórias do futuro). Frente a este pano de fundo, a proposta desta Jornada, Entre Memórias do Passado e Memórias do Futuro , nos oferece uma oportunidade para desenvolver algumas questões sobre as relações e o hiato que separa/ une estas duas dimensões do funcionamento mental.

Na minha aproximação com estas ideias de Bion, quero reconhecer meu débito com trabalhos de Cecil J. Rezze (2001/2021d, 2009/2021c, 2012/2021b, 2017/2021a) e de Paulo Cesar Sandler (2005/2021, 2009, 2011, 2013).

12.1.Colocando em perspectiva nosso tema

A inevitável polarização entre memórias do passado e memórias do futuro nos remete a um ponto crítico no estudo da evolução da obra de Bion, o hiato entre os processos do conhecer/não conhecer e do ser ou tornar-se a realidade última (1965/2004b, p. 161).

A ideia Memórias do Passado nos conduz ao pensamento psicanalítico clássico de Freud e de Klein, assim como ao pensamento de Bion sobre os processos de pensar e do conhecer/não conhecer. Nesta perspectiva, a experiência do tempo presente é olhada como poderosamente influenciada – ou mesmo determinada – pelas formas com que as experiências acontecidas nos inícios da vida moldam âmbitos do funcionamento posterior da personalidade.

Já a ideia Memórias do Futuro pode ser entrevista, embora não explicitada, nas teorias de grupos (1943-1951) e do pensar (1961), através dos conceitos de proto-mente e de pré-concepções inatas, respectivamente, assim como nos conceitos de relações continente/ contido, de funções (vínculos), e da formação de pensamentos pelo pensador, e nas dimensões do conhecer/não conhecer e da alucinose em Transformações (1961/1988, 1962/1966, 1963/2004a, 1965/2004b).

Memórias do Futuro pode ser desenvolvida em sua plenitude a partir de Transformações (1965), na proposta de transformações em Ser ou Tornar-se a realidade última, como um segundo caminho1para o contato da mente com a realidade, através do evolver de elementos da

1 Considerando ser o primeiro caminho do contato de nossa mente com a realidade a formação de pensamentos do pensador através da elaboração de experiências emocionais criadas pelas impressões sensoriais e emocionais.

13. Transformações: místicas ou transcendentais

Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro

Na complexa cartografia do pensamento de Wilfred Bion, o conceito de “Transformação em O” ocupa um lugar central e, muitas vezes, enigmático. “O” representa, para Bion, aquilo que é a realidade última, incognoscível e irredutível – uma realidade ou verdade que está além da representação e à qual o sujeito não tem acesso direto, mas pode vir a sê-la, pode “tornar-se “O”. Essa é uma experiência emocional de transformação, muito mais do que uma aquisição de conhecimento (K), e é sempre uma experiência vivida numa relação.

No horizonte de “O”, James Grotstein – desenvolvedor do legado bioniano – propõe, no capítulo ‘The Concept of The “Transcendent Position”’ do livro A Beam of Intense Darkness (2007), o conceito de “posição transcendente”. Trata-se de uma posição mental que transcende a posição depressiva descrita por Melanie Klein (1946/1991), e se caracteriza por uma abertura radical ao outro, ao paradoxo e ao mistério da existência. Essa posição é marcada por uma atitude de reverência e humildade ontológica; nela, o sujeito não mais busca compreender e nomear o desconhecido (o mistério), ele integra a ambivalência (inerente a posição depressiva) aceitando a alteridade radical do outro e do

real, sustenta a dúvida e a incerteza como condições ontológicas fundamentais e, finalmente, acolhe o mistério com respeito e reverência, em oposição a um temor reverencial esquizoparan0ide.

O presente texto propõe uma aproximação do conceito de “transformação em O” de Bion ( 1970 / 2006 ) com o conceito de “posição transcendente” de Grotstein ( 2000 ). Como dito acima, Bion ( 1965 / 2004 ) refere que “não podemos conhecer “O”, apenas sê-lo” (p. 26 ). A transformação em “O” ocorre quando o sujeito se abre ao contato com o desconhecido e, simplesmente, permite que ele o afete. É uma experiência de despojamento do ego, em que as estruturas usuais de pensamento, identidade e narrativa são parcialmente suspensas em favor de uma entrega ao real e atual da experiência emocional. A principal invariância das T em “O” é a intuição; em “O”, aspectos da realidade que estão aquém ou além das nossas percepções sensoriais se apresentam à mente (Bion, 1970 / 2006 ).

Na relação analítica, as transformações em “O” constituem os movimentos do vir-a-ser, são o ápice da experiência emocional em sua forma mais radical, atual e original, sem, ou melhor, com o mínimo das deformações da realidade que estão presentes nas transformações em movimento rígido, projetivas, em alucinose ou mesmo em K. Elas dependem da operação favorável da função alfa do analista em conjunção com alguns fatores de sua personalidade, como espontaneidade, criatividade, segurança e coragem. Predominam em relação às transformações em K quando o analista se encontra na “posição transcendente” descrita por Grotstein. A “posição transcendente” é definida como uma estrutura mental relativamente estável, a partir da qual o sujeito pode experienciar o mundo com profundidade, ética e abertura: “a posição transcendente implica uma disposição mental que não busca dominar o objeto, mas estar com ele em sua alteridade irredutível” (Grotstein, 2000, p. 221).

14. Conversando sobre a obra de Bion

A ênfase na observação das evidências diretas e a consideração pelo desconhecido são recomendações de W. R. Bion para o psicanalista praticante. E a inserção da Psicanálise nas teorias da complexidade tornou-nos analistas mais ligados ao processo do que ao alcance de conhecimentos. Como escreveu o poeta Antonio Machado, Caminhante não há caminho, se faz o caminho ao caminhar.

Quando Bion propõe substituir o par consciente-inconsciente pelo par finito-infinito, está introduzindo uma grande virada no modo de pensar e exercer a psicanálise: de uma mente estruturada em sistemas para uma mente na qual o inconsciente é o que nunca foi pensado (desconhecido ou incognoscível) e o que se apresenta como consciente é uma transformação resultante do aprender-não aprender com a experiência emocional. Assim, como ele escreveu em Uma memória do futuro, “a própria psicanálise é apenas uma listra na pele de um tigre”.

O fator decisivo na passagem para “pensamento” é uma função (α) desenvolvida no vínculo mãe-bebê através da identificação projetiva. Esta aparece expressa como rêverie na relação mãe-bebê, analista – analisando e, mais abstratamente, como relação continente-contido (♀♂).

250 expansões em bion

Os desenvolvimentos teóricos de W. R. Bion inserem, indubitavelmente, a Psicanálise nas teorias da complexidade, como tem sido ressaltado por diversos autores (Arnaldo Chuster entre eles). As teorias da complexidade obedecem a alguns princípios, dentre os quais destacamos alguns que devem interessar aos psicanalistas: incerteza, não causalidade, infinitude, singularidade, indecidibilidade sobre a origem, negatividade, imprevisibilidade, incompletude. Estes princípios, operando como diretrizes, nos levam a uma particular aproximação ao objeto psicanalítico.

Essas diretrizes acabam nos levando, como seres humanos, à busca por um outro, um par, um diferente para formarmos, às vezes, um casal e assim, poder sentir, criar e pensar. Condição inexorável que pode levar a – e sustentar – uma psicanálise.

Se, de um lado, as obras de Freud, Klein e Bion formam um continuum, umas se desenvolvendo das outras, por outro as diferenças podem ser de tal magnitude que a noção de um continuum se perde.

1. O que vemos acontecendo hoje é que a atenção dedicada à relação analítica acabou se impondo com mais força, ocupando parte do lugar antes ocupado exclusivamente pelo pensar em transferência (esta ligada ao complexo de Édipo das neuroses). As mudanças, em consequência das teorias de Bion, referem-se ao estado de mente do analista em sessão – capacidade negativa, sem memória, sem desejo, sem ânsia de compreensão – que lhe possibilita se colocar no tempo “presente” da sessão; também muda seu foco de observação – não só para o intrapsíquico do paciente, mas para o intrapsíquico do analista (a pessoa do analista em cena na sessão) e a relação no vínculo da dupla.

2. De forma similar, o foco na situação analítica (disposição para uma relação de par, às vezes de casal, às vezes um casal criativo) ganhou parte do lugar que sempre esteve ocupado pela noção de complexo de Édipo. Há uma enorme ampliação desta

15. O

analista

de Satã:

preliminares

a uma abordagem psicanalítica da psicopatia

O tema desta jornada se inspira no poema de T. S. Eliot “A canção de amor de J. Alfred Prufrock”. O poema nos envolve no torvelinho de emoções de Alfred Prufrock, alguém que sente ter algo a dizer e hesita frente à ousadia de vir a perturbar todo um universo de ideias e costumes já constituído. Assalta-o a dúvida, a insegurança quanto ao que o move a perturbar a ordem estabelecida, premonições de condenação. O desejo de acreditar que ainda haverá tempo para a tomada de decisão se contrapõe à angustiada consciência de que, agora ou depois, o momento adiado se imporá e trará seus inevitáveis desdobramentos. Psicanalistas de ofício, somos íntimos dessa angústia de múltiplas facetas que desfila na mente de Alfred Prufrock, a quem tomo como um personagem modelo criado por Eliot. Trata-se de uma canção de amor, diz Eliot, mas a amada de Alfred Prufrock não me parece ser uma mulher, e sim a verdade que o habita e o acompanha na angustiante decisão a tomar, por amor a ela.

“Atrevo-me a perturbar o universo?” pode ser o tema que mais de perto nos questiona. É fato a tendência humana de transformar o

conhecimento conquistado num universo estratificado no qual nos sentimos bem localizados e pelo qual nos referenciamos. Transformado em praça de assentamento, o conhecimento conquistado não perturba porque “já o sabemos”. Mas a psicanálise é avessa a acomodações, por força de ter a mente como objeto de pesquisa. A pesquisa psicanalítica da mente revela um universo mental em contínua expansão, não há como se acomodar.

Eu penso que a energia que emana da contribuição de Bion provém da sua alta capacidade de se manter desalojado e perturbado. Nessa posição disciplinar de recusa de acomodação, ele nos estimula fortemente a também ousarmos ser psicanalistas e nos mostra que a psicanálise ganha tanto mais em alcance e leveza quanto mais o analista se desembaraça dos entraves factuais peculiares à sua história pessoal. O conjunto que constitui sua Teoria do Conhecimento traça o complexo caminho para que a emoção se libere da carga sensorial dos fatos da vida e se transforme na energia que mantém a mente em contínuo trabalho de sonhar e pensar esses fatos. Ao propor que o analista observe os acontecimentos em curso na sessão como emanações provindas de uma origem desconhecida, Bion erige O , signo indicador dessa origem desconhecida, como o vértice de observação do analista. O que evolui no encontro analítico é visto como transformações de O que adentram o campo analítico formado pela mente do analisando e pela do analista trabalhando em conjunto. Adotar o vértice de O , tal como o relembrou Frochtengarten em recente trabalho, implica abrir-se para o contato com a dimensão desconhecida, infinita e imprevisível da mente” e leva o analista “a desenvolver e caracterizar um outro tipo de instrumento para a atuação na sessão: o de uma ‘atitude’ pessoal que seja receptiva e mesmo favorável a fazer brotar na sessão, no trabalho a dois, o que

16. Ousaremos? Sobre perguntas, poetas e trilogias

And indeed there will be time

To Wonder, “Do I dare?” and, “Do I dare?”

Time to turn back and descend the stair, Do I dare

Disturb the universe? In a minute there is time

For decisions and revisions which a minute will reverse.

T. S. Eliot, The Love Song of J. Alfred Prufrock, citado em J. Grotstein (1981)

Depois de um tempo demasiado longo, as últimas décadas do século XX deram testemunho de uma “mudança catastrófica” (Bion, 1970) na história das ciências e da cultura. Separações tais como ciências da natureza e do espírito, duras ou brandas, ciência e arte etc., apesar de suas “impressionantes cesuras”, foram perdendo espaço para continuidades inimagináveis até há pouco tempo. Cientistas se preocupam cada vez mais com as dimensões estéticas de seu campo de trabalho, os “belos pensamentos” (Nouvel, 2001). Fazer ciência não consiste

278 expansões em bion

mais em encontrar respostas ou desvendar enigmas, e sim abrir novos problemas (Nouvel, 2001). A metáfora é incorporada como parte fundamental do processo de descobrimento nas ciências e, com ela, o mistério e a ambiguidade no lugar da certeza e da precisão. Sua força provém de seu poderoso componente de especulação imaginativa e surpresa.

De diferentes campos da ciência nos chegaram conceitos fundamentais como: a não-linearidade dos sistemas afastados do equilíbrio, a complexidade, a incerteza, a indecidibilidade, a indeterminação, e muitos outros. Como diz Calabrese (2002): “da mão da não-linearidade, a incerteza entra nos núcleos mais duros da ciência e se transforma numa propriedade do mundo em que vivemos”. Como consequência, a hegemônica lógica aristotélica foi perdendo posições para novas lógicas (polivalentes, para-consistentes etc.) que contemplam os novos desenvolvimentos. A lógica excludente, do terceiro excluído, agora é uma lógica possível entre outras tantas lógicas que toleram paradoxos e que, ao inserirem-se no pensamento complexo (Morin, 1999), incluem um terceiro: são triádicas e não mais diádicas ou duais. São tri-lógicas ou trilogias, como venho chamando.

O gênio, o místico, são alguns dos nomes que Bion usou para descrever os que ousam perturbar o Universo. Nos diferentes vértices trabalhados por ele (científico, místico/religioso e estético, por exemplo), encontramos essa invariância nomeada pela pergunta do poeta: Do I dare disturb de universe? A pergunta indica uma incerteza porque não sabemos de antemão o resultado do desafio; pode redundar em desenvolvimento ou tragédia, em mudança catastrófica ou catástrofe. As perguntas, para Bion, foram ocupando no decorrer de sua obra um lugar fundamental. Hoje, diferentemente do ideal de ciência inicial da psicanálise, consideramos a possibilidade de formular melhores perguntas como um indicador confiável de uma expansão do universo mental. Elas perturbam o universo conhecido

Aprendemos com Bion que o pensamento nasce da capacidade de tolerar o desconhecido.

É nesse espírito de abertura e descoberta que convidamos o leitor a conhecer Expansões em Bion: várias Jornadas, alguns textos.

Esta publicação não é apenas um livro, mas um mapa de múltiplas cartografias. Nela, diferentes autores se reúnem para compartilhar seus próprios caminhos pelo pensamento bioniano, propiciados pelos encontros nas Jornadas de Bion entre 2018 e 2023 em São Paulo.

Os autores, cada um no seu estilo, aprofundam e ampliam as ideias de Bion na clínica, na cultura e na vida de todos que se interessam pelos mistérios de nossa subjetividade e de nossa cultura.

Julio Frochtengarten

Regina Weinfeld Reiss

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Expansões em Bion by Editora Blucher - Issuu