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titular formador da Sociedade Psicanalítica de Paris desde 1982. É um dos líderes do grupo Lyonnais dessa sociedade. Defendeu
orientação de Jean Guillaumin. É professor honorário da Université Lumière Lyon 2 desde 1989 e dirigiu o Departamento de Psicologia Clínica e Psicopatologia dessa Universidade por mais de 15 anos, onde também orientou muitas teses diretamente inspiradas na psicanálise. Profere inúmeras conferências em diferentes Sociedades PsicanalíC
ticas e Universidades ao redor do mundo,
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desenvolvendo e difundindo o ensino da
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psicanálise com ideias originais que nasce-
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ram a partir de seus estudos e prática clínica
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e que lhe permitiram construir pontes entre
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a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica. É
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um autor que cria uma interface entre a psicanálise e outras disciplinas, como a
O segundo volume da Coleção Conferências de René Roussillon –
dando continuidade ao livro anterior, dedicado ao impacto da abordagem do narcisismo e análise do Eu na metapsicologia – apresenta uma série de conferências realizadas ao longo dos últimos anos em que o autor expõe novos desafios para a clínica e a teoria psicanalíticas contemporâneas explorando diferentes aspectos das problemáticas que acompanham a exigência de uma evolução paradigmática. Nelas, encontramos um psicanalista que passa a se interrogar se a diversidade/pluralidade teórica de nosso saber – e, sobretudo, se a luta hegemônica entre teorias – não ameaçaria a integração possível em torno de conceitos nucleares que nos unem e que nos permitem o diálogo. Assim, corpo, pulsões e conflitos pulsionais, representância, apropriação subjetiva, associatividade, narratividade, sexual e sexualidade infantil, destrutividade, uso e presença do objeto, melancolia, integração psíquica, entre outros, poderiam ser pontos de convergência entre teorias ao serem descritores da experiência psicanalítica proveniente do arcaico, do infantil, do adolescente e do adulto.
psicologia do desenvolvimento, a neurociência, a biologia, entre outras. É autor de inúmeros livros, capítulos de livros e mais de trezentos artigos publicados, entre eles: Paradoxes et situations limites de la psychanalyse, Agonie, clivage et symbolisation, Le
Organizadores Luciane Falcão Renato Moraes Lucas
plaisir et la répétition, Le jeu et l’entre je(u), La réflexivité le transitionnel et le sexuel, La naissance de l'objet, L’Art Psychanalyste, Manual da Prática Clínica em Psicologia e Psicopatologia, O narcisismo e análise do Eu. Em 2016, recebeu o Signory Awards da IPA pelo conjunto de sua obra.
PSICANÁLISE
Em busca de novos paradigmas para a clínica e a teoria psicanalíticas contemporâneas
sua tese de doutorado, Du paradoxe incontenable au paradoxe contenu, em 1978, com a
COL EÇÃ O
Roussillon
René Roussillon é psicanalista, membro
A Coleção Conferências de René Roussillon foi idealizada para oferecer ao público brasileiro a oportunidade de se aproximar das reflexões de um psicanalista que vem, ininterruptamente, pensando e repensando a clínica psicanalítica contemporânea movida pela constante releitura de Freud e enriquecida pelo pensamento de vários autores psicanalíticos, como Winnicott, Bion, Green, Anzieu e de pesquisas da biologia e da neurociência. É composta por várias conferências que realizou a convite de universidades e instituições psicanalíticas de diferentes partes do mundo. Ideias pilares do seu pensamento, como a função simbolizante, a simbolização primária, a escuta do corpo, a sexualidade, o meio maleável, o nascimento e a sobrevivência do objeto, o modelo da epigênese relacional, a preocupação familiar primária, a linguagem do modo
René Roussillon
de presença do objeto, a questão do narcisis-
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das e apresentadas de forma integrada e
mo e da análise do eu, entre outros, são retomarenovada. É uma honra para todos nós que essa coleção esteja sendo editada de forma inédita em português, antes mesmo de uma publicação na França.
Luciane Falcão e Renato Moraes Lucas
EM BUSCA DE NOVOS PARADIGMAS PARA A CLÍNICA E A TEORIA PSICANALÍTICAS CONTEMPORÂNEAS
René Roussillon Tradução Vanise Pereira Dresch Revisão técnica Luciane Falcão e Renato Moraes Lucas
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Em busca de novos paradigmas para a clínica e a teoria psicanalíticas contemporâneas © 2026 René Roussillon Editora Edgard Blücher Ltda. Coleção Conferências de René Roussillon Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenador editorial Rafael Fulanetti Coordenadora de produção Ana Cristina Garcia Tradução Vanise Pereira Dresch Diagramação Mônica Landi Revisão de texto Equipe editorial Revisão técnica Luciane Falcão e Renato Moraes Lucas Capa Juliana Midori Horie Imagem da capa mas uma parte sua era luz, 2022, acrílica e grafite sobre papel, 150 x 100 cm, © Guilherme Dable
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570
Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br
Roussillon, René Em busca de novos paradigmas para a clínica e a teoria psicanalíticas contemporâneas / René Roussillon. – São Paulo : Blucher, 2025. 224 p. : il. – (Conferências de René Roussillon ; 2 v.)
Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.
Bibliografia ISBN 978-85-212-2856-1 (Impresso) ISBN 978-85-212-2852-3 (Eletrônico – Epub) ISBN 978-85-212-2853-0 (Eletrônico – PDF)
É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.
1. Psicanálise. 2. Psicanálise contemporânea. 3. Clínica psicanalítica. I. Título.
Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.
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CDU 159.964.2 Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise CDU 159.964.2
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Conteúdo
Apresentação
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Luciane Falcão e Renato Lucas
Introdução
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René Roussillon
1. Pluralidade e complexidade em psicanálise
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2. Narratividade e associatividade
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3. Origens da exacerbação da destrutividade
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4. O conceito do materno primário
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5. Empatia materna
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6. Luto do luto e melancolia
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7. Polimorfia da sexualidade infantil e linguagem do sexual
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8. Ruptura como instrumento de análise do vínculo
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9. O risco na adolescência
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10. Paradoxos e ambiguidade da servidão voluntária e do masoquismo
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11. A necessidade de ilusão: problemáticas e condições
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12. Articulação da metapsicologia com a biologia
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Referências
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1. Pluralidade e complexidade em psicanálise1
Introdução Ao menos para quem está atento aos debates interanalíticos que agitam os diálogos interculturais no seio da psicanálise mundial, como observamos nos congressos internacionais da IPA, a pluralidade em psicanálise é incontestável. Mas essa pluralidade permeia cada sociedade psicanalítica, sendo, também, intracultural. É provável que existam diversas causas, de natureza muito diversa, para essa circunstância. Primeiramente, ela parece resultar da necessidade de cada uma das culturas de interpretar sua própria versão da psicanálise. Portanto, há uma psicanálise (psicanálises?) à francesa, assim como à brasileira, à inglesa, à americana e assim por diante. Essa diversidade mostra que a prática psicanalítica lida necessariamente com certos traços dependentes da cultura: relação com o corpo, tipo dominante de trocas sociais, influências culturais diversas, traumas coletivos, entre outros.
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Conferência realizada em Bucareste em 2012.
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No entanto, ela também mostra a influência específica exercida sobre uma sociedade por um determinado número de autores que lhe são referenciais.2 Não podemos pensar a psicanálise à francesa sem considerarmos a influência que Jacques Lacan pode ter exercido sobre toda a psicanálise francesa, até mesmo sobre os não lacanianos ou antilacanianos. O mesmo se aplica à psicanálise à inglesa, que não pode ser concebida sem o legado do pensamento de Melanie Klein, em um sentido ou no sentido inverso. Esses processos nem sempre são tão explícitos quanto nos dois exemplos citados, mas ainda assim existem. Outro exemplo, embora mais sutil, é a psicanálise argentina da APA ou a psicanálise uruguaia da APU, que só podem ser compreendidas se levarmos em consideração o impacto do casal Baranger. Um terceiro fator de pluralismo diz respeito à diversidade dos quadros clínicos dos pacientes em análise. Embora o método seja supostamente o mesmo (como comentado mais adiante neste texto), ele apresenta variações significativas a depender de sua aplicação no tratamento de crianças, adolescentes ou adultos, assim como dos funcionamentos e estados ditos neuróticos, psicóticos, autistas ou estados-limite, para nos atermos às categorias nosográficas mais clássicas. Há, também, causas mais essenciais para essa pluralidade que dizem respeito à hipercomplexidade (Edgar Morin) da psique humana, a qual nenhum modelo pode ter a pretensão de explicar plenamente sem cair na ideologia de um pensamento único e em um sistema de pensamento totalitário – ainda que se admita, como seria razoável, que todo modelo reduz necessariamente a complexidade de seu
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Cabe acrescentar a questão da tradução, para cada idioma, dos grandes autores da psicanálise. Por exemplo, a tradução do corpus freudiano para o inglês influencia a leitura de Freud de maneira diferente da tradução para o francês e, é claro, para o português, o espanhol, o italiano, o romeno…
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2. Narratividade e associatividade1
A narratividade não é um tópico clássico do vocabulário da psicanálise de língua francesa. Contudo, nos últimos anos, à medida que a escuta e o estudo vão se concentrando mais nos processos do que nos conteúdos psíquicos, a narratividade tem se tornado cada vez mais imprescindível para todos que buscam alinhar a teoria à prática clínica. Embora esse tema seja recente na literatura psicanalítica, talvez possamos encontrar, no cerne da metapsicologia, alguns precursores do que ele abarca atualmente. Por exemplo, aquilo que Freud ressalta no trabalho do sonho a respeito da figurabilidade2 – isto é, a capacidade de um conteúdo do sonho de ser figurável (representado) no sonho – pode ser considerado um fator importante da narratividade onírica. Não devemos esquecer que, para Freud, há uma linguagem do sonho e que, de certo modo, o sonho conta uma história com o
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Conferência realizada em Cerisy, em julho de 2012. Embora a pertinência da tradução que leva a essa formulação tenha sido contestada, ela se consagrou sob essa forma no debate interanalítico. Eu a retomo aqui devido ao espaço que conquistou.
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auxílio dessa linguagem. Nessa perspectiva, levar em conta a figurabilidade e, portanto, a fábrica do sonho contribui para uma forma de narratividade onírica. No entanto, ao debruçar-se sobre o estudo dos sintomas histéricos, como o faz em uma análise da crise histérica, Freud (1908) decompõe a pantomima de uma paciente para mostrar que aquilo que, à primeira vista, parece gestos desordenados se organiza em uma espécie de relato dramatizado ou teatralizado de estupro. Uma primeira metade do corpo encena o homem que tenta arrancar as roupas da mulher, enquanto a segunda metade representa, inversamente, a mulher que as segura e se defende. Em outro exemplo extraído do mesmo texto, Freud analisa o vaivém aparentemente absurdo de um paciente que circula de um cômodo a outro, relacionado à reminiscência de uma cena de conflito passado na qual ocorreram semelhantes vaivéns. Essa virtude significante não se restringe à histeria e à dramaticidade de sua expressão. No artigo “Atos obsessivos e práticas religiosas” (Freud, 1909), em um contexto psicopatológico mais característico da neurose obsessiva, Freud interpreta o ritual de uma paciente que se via obrigada a dar várias voltas em torno da bacia com água suja de suas abluções, antes de esvaziá-la, como uma advertência à irmã da paciente para que “não se separe da água suja” do casamento atual antes de ter encontrado um substituto para o marido. Para o fundador da psicanálise, os sintomas neuróticos têm certamente um significado, mas também contam uma história, carregam mensagens endereçadas a alguém próximo ou a um personagem do mundo interno ou interpessoal do sujeito. Já em Estudos sobre a histeria, Freud (1895) assinala a presença desse personagem interno, espectador indiferente, mas para quem não passam despercebidas cenas psíquicas e tramas que se desenrolam diante de seus olhos. Essa não é uma proposição passageira,
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3. Origens da exacerbação da destrutividade1
Proponho-me a abordar o tema da violência a partir da destrutividade. Estabeleço uma distinção entre ambas por considerar que o termo violência remete a alguma forma de atuação efetiva (mesmo que o ato seja apenas psíquico ou verbal), enquanto o termo destrutividade diz respeito a um movimento psíquico ou a uma moção que podem permanecer somente potenciais. Violência e destrutividade têm a mesma má reputação. Daí a pensar que suas formas de expressão devam ser erradicadas, basta um passo, que alguns dão com muita facilidade. Essa não é minha posição, pois considero que não há criação, autoafirmação e processos que não envolvam um componente de destrutividade. Assim, o que importa na análise de um processo psíquico ou de uma produção humana é o tipo de dialética que compõe o amálgama feito de criatividade e destrutividade necessário em todo e qualquer processo
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Conferência realizada em 2012, em Lausanne, durante um congresso sobre a destrutividade.
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psíquico e em todo e qualquer processo criador. O que caracteriza esses processos é a articulação e a combinação singular dos dois componentes pulsionais fundamentais da atividade humana. Consequentemente, a destrutividade pode assumir diferentes formas – o componente destrutivo é manifesto ou ruidoso em maior ou menor grau. As formas de destrutividade que motivam nosso encontro e sobre as quais os organizadores me pediram para discorrer, nessa intersecção, dizem respeito às formas clínicas que podem ser observadas nas problemáticas narcísico-identitárias,2 que representam um dos “ossos duros de roer” da clínica e da terapêutica atuais.
Epistemologia Essa questão resulta, em parte, da representação teórica e prática que se tem das relações da destrutividade com a pulsão. Uma interpretação clássica consiste em fazer da destrutividade uma manifestação ou uma forma de expressão da pulsão de morte. Todavia, em tal concepção, admite-se uma forma de expressão direta da pulsão, como se nenhum fator inconsciente viesse se imiscuir na expressão pulsional, como se não houvesse distância entre uma moção pulsional – mesmo a chamada pulsão de morte – e sua manifestação. Pode-se também indagar, em não havendo distância entre a moção pulsional e sua manifestação, como seria possível tratá-la clinicamente, uma vez que nada dela é interpretável. Restando apenas a repressão, a posição do clínico, então, pode ser comparada a uma posição superegoica. Assim, brotam concepções em que a pulsão se torna intrinsecamente perigosa e/ou recorre-se à concepção de uma
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Denomino problemática narcísico-identitária todo sofrimento narcísico que envolve uma ameaça identitária ao sujeito, isto é, todo aquele que apresenta ou contém alguma forma de agonia psíquica.
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4. O conceito do materno primário1
Os exemplos clínicos apresentados no relatório de Christine Anzieu-Premerreur (2011), sobretudo aqueles que dizem respeito à clínica da primeira infância, provavelmente representam a melhor oportunidade para uma retomada do relatório. Para levar adiante essa reflexão, nada é mais proveitoso do que a clínica dos casos limítrofes ou extremos. Aliás, ao longo de sua história, desde a década de 1920, foi sempre nessa clínica que a psicanálise buscou material para seu aprofundamento ou renovação. Contudo, antes de abordar esse tópico e para contextualizá-lo, eu gostaria de iniciar por uma reflexão epistemológica que questiona o próprio tema do nosso congresso: existe um materno que possa ser abordado em si? Ou, ainda, considerando-se suas variações, o materno para um bebê, para uma criança em plena crise edípica ou para um adolescente seria o mesmo que para sua mãe? Seria o mesmo tanto para um homem quanto para uma mulher? Para nos atermos apenas às categorias mais gerais. De um ponto de vista psicopatológico, a
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Conferência realizada em 2011 no Congresso de Psicanálise de Línguas Francesas (CPLF).
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problemática ou a representação do materno seriam as mesmas na histeria, na neurose obsessiva, na melancolia ou na perversão? O materno seria um substantivo, como o congresso nos convida a pensar, ou simplesmente um epíteto, como indicaria a minha enumeração? A tendência fundamental da clínica psicanalítica seria abordar a questão do materno para um sujeito, isto é, na interface entre uma categoria conceitual e o desdobramento concreto de uma história singular. Em outras palavras, a maneira como o materno foi interpretado nos eventos significativos da história de um sujeito e o modo relacional predominante com o qual se construiu. Isso anularia, de saída, todo e qualquer esforço de tentar delimitar uma essência do materno? Em parte, com certeza, mas somente em parte. Então, como abordar a questão do que se apresenta como a forma mais próxima do que poderia constituir uma concepção em si do materno, do que poderia ser o fundo ou o fundamento do materno? A base de uma hipótese possível pode ser encontrada na clínica dos bebês, implícita em muitos aprofundamentos de Anzieu-Premerreur. Há uma convergência significativa de diferentes teorias sobre o nascimento da vida psíquica no que diz respeito à concepção dos fundamentos desta. Bion, que provavelmente formula a hipótese mais legível, postula a existência, no recém-nascido, de uma preconcepção daquilo que este pode encontrar ao vir ao mundo. Winnicott, por sua vez, pressupõe um espaço potencial que representa o efeito psíquico da bagagem biológica do bebê, à espera de confirmação pelas respostas do ambiente. Etólogos da primeira infância ressaltam que o bebê vem ao mundo com competências graças às quais ele pode realizar suas primeiras adaptações e orientar suas primeiras explorações no mundo humano. Preconcepção, potencial e competência indicam uma possibilidade inata do bebê, um primeiro espectro de protorrepresentações que ele é capaz de criar, conforme os
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5. Empatia materna1
Introdução A empatia ainda é um conceito pouco corrente no universo psicanalítico em língua francesa, e sua inserção na metapsicologia, até mesmo na teoria da técnica psicanalítica, está longe de ser efetiva. Pouco abordada por Freud, a empatia foi mais explorada por Ferenczi, mas não se impôs como conceito indispensável em sua metapsicologia, o que não deixa de ser surpreendente. Embora se tenha observado sua retomada2 nos últimos anos, a empatia ainda não conquistou seu espaço entre os conceitos basilares da metapsicologia. Para compreendermos por que isso ocorre, vários fatores merecem reflexão. Durante muito tempo, o afeto e tudo aquilo que concernia à vida afetiva foram mantidos relativamente apartados da grande empreitada teórica da psicanálise francesa e de língua francesa, pro-
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Conferência realizada em 2011, em Cerisy. Podemos pensar nos trabalhos de Stefano Bolognini, de Daniel Widlocher ou, em um mesmo volume, de Jacques Hochman. Vide, também, sob a organização de Patricia Attigui e Alexis Cukier, Les paradoxes de l’empathie, 2011, CNRS.
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vavelmente sob a influência de Lacan.3 A empatia diz respeito à vida afetiva do sujeito humano. Ao mesmo tempo, e talvez em estreita dialética com esse primeiro fator, verifica-se uma tendência geral a dar ênfase à diferença e suas formas, à separação e, mais recentemente, ao negativo, conceitos que dificilmente abrangem a empatia em seu campo associativo. A empatia é um conceito relativo à presença e ao encontro. Sua inserção na metapsicologia pressuporia uma metapsicologia da presença, que ainda está por vir.4 Por último, o conceito de identificação parece ser suficiente para abranger a metapsicologia das formas da empatia tidas como relevantes pelos psicanalistas. A identificação tem seu lugar na teoria psicanalítica, na qual se insere devidamente desde 1921. A esses primeiros argumentos a respeito da dificuldade de encontrar um lugar pleno para a empatia no pensamento psicanalítico francês, somam-se outros argumentos, associados ao uso corriqueiro do conceito por não psicanalistas. Na verdade, até recentemente, o fenômeno da empatia foi pouco pensado e explorado em suas eventuais dimensões inconscientes, sendo abordado, sobretudo, apenas em sua dimensão consciente. Em estreita relação com tal fator, convém, também, ressaltar que o elo que a empatia mantém com aquilo que a psicanálise designa como vida pulsional é tudo, menos evidente. A identificação, ao contrário, está associada à vida pulsional, assim como à análise do Eu (Freud, 1921).5
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Cf. o relatório de André Green para o CPLR de 1970, retomado em Le discours vivant, 1973, PUF. Esbocei as bases para esse argumento em 2010: La dialectique présence-absence, pour une métapsychologie de la présence. Tribune psychanalytique, 9, 13-39, Lausanne: Presse Centrales. Entretanto, a identificação permanece sendo um “conceito guarda-chuva” que, se não for acompanhado de predicados que especifiquem sua forma, designa
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6. Luto do luto e melancolia1
Introdução O luto e a renúncia, intimamente associados, são noções essenciais da clínica psicanalítica. Elas fazem parte de um conjunto de problemas que, para a clínica contemporânea em língua francesa, gira em torno do negativo, da diferenciação, da separação e das diversas formas da castração e do limite. Contudo, as questões envolvidas ou aquelas que se encontram sob sua penumbra associativa mascaram, com frequência, a complexidade dessas noções, assim como a pressa e o reducionismo resultantes de seu uso corrente. Lutos a serem feitos não são um problema. Aliás, o luto é uma palavra de ordem implícita em várias intervenções no trabalho psicanalítico. Mas quando nos questionamos concretamente sobre quais lutos precisam ser feitos, quais renúncias são necessárias e quais os processos envolvidos, deparamo-nos muitas vezes com aporias ou certas simplificações epistemológicas. Se não nos precavermos, isso pode levar a reações terapêuticas negativas ou a impasses paradoxais
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Conferência realizada em Atenas, em 2008, em um congresso sobre o luto.
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no processo psicanalítico e na integração psíquica, tão cara à clínica dos casos limítrofes. Posto isso, eu gostaria de reexaminar a questão do luto, principalmente sua relação com a melancolia – e com a desesperança que a acompanha –, que, para além da forma clínica extrema que assume na psicopatologia, é considerada um dos paradigmas essenciais das patologias e dos impasses do narcisismo.
Complexidade e paradoxo do luto em Freud Em Luto e melancolia, Freud expõe a posição oficial da clínica psicanalítica a respeito do luto – digo oficial, pois, como veremos, Freud sustenta uma posição secreta. Quando o objeto é perdido, é preciso resignar-se a fazer o luto e, para tanto, separar “fragmento por fragmento” ou “detalhe por detalhe”, a depender da tradução, os investimentos libidinais atuais concentrados no objeto do luto. No entanto, a questão logo se complexifica se observarmos que, a partir de 1915, o objeto deixa de ter um simples valor libidinal, adquirindo um valor narcísico não somente pelo reflexo do investimento libidinal que o sujeito lhe atribui, mas também devido à sua função na economia narcísica deste. Ao fazer o luto da função libidinal do objeto o sujeito não estaria fazendo, também, o luto de sua função narcísica? Como se articulam função libidinal e função narcísica do objeto? Essa é uma das questões com que se depara a problemática melancólica diante do fracasso em renunciar. Quando o objeto é perdido, a parte narcísica do sujeito implicada na função narcísica do objeto também sofre a ameaça de ser perdida, como indica Freud (1921), por exemplo, a respeito da perda do líder na economia das massas. Essa perda provoca o pânico – ataque de pânico e desorganização –, pois, colocado no lugar do ideal do Eu, o líder desempenhava uma função narcísica. No adendo desse texto, Freud complementa sua análise dos processos
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7. Polimorfia da sexualidade infantil e linguagem do sexual1
Sexual e sexualidade Uma das características fundamentais da concepção psicanalítica do sexual e da sexualidade são a considerável ampliação e o reconhecimento dessas duas dimensões. De um ponto de vista psicanalítico, ao mesmo tempo que a vida psíquica não pode ser reduzida à dimensão do sexual, este está sempre presente e ativo em processos, conflitos e formações que a constituem. A hegemonia do sexual na psicanálise está intimamente ligada ao prazer, ao princípio do prazer-desprazer. Pode-se dizer que o sexual é a forma de expressão por excelência desse princípio fundamental que rege o funcionamento e a economia da integração no Eu. Considerado um dos dois fundamentos da análise do curso dos acontecimentos psíquicos, o prazer não pode ser compreendido sem referência ao sexual. Entretanto, ao mesmo tempo que a psicanálise amplia a concepção do sexual, ela altera consideravelmente o seu sentido. Por um
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Conferência realizada em comemoração aos cem anos da IPA, em 2010, em Londres.
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lado, ela separa sexual e sexualidade, reconhece uma parte do sexual fora da sexualidade e de suas manifestações, mas, por outro lado, também assinala a presença de aspectos não sexuais na própria sexualidade. Além disso, ao introduzir a noção de sexualidade pré-genital, a psicanálise também separa a sexualidade do sexo, reconhecendo um caráter sexual normal noutras áreas do corpo que não são áreas propriamente genitais. Em outras palavras, ela concebe uma polimorfia da expressão do sexual, ensina-nos a ler o sexual em formações, fantasias e processos nos quais ele não é manifesto. Os conceitos de sexual e sexualidade sofrem, portanto, uma derivação que transforma profundamente seu significado corrente, sendo essa uma das principais razões para o mal-entendido que, às vezes, opõe psicanalistas a outros teóricos da psique humana. Do mesmo modo, a concepção psicanalítica do sexual e da sexualidade não pode ser compreendida sem referência ao reconhecimento de uma vida psíquica inconsciente e de seus aspectos. É um truísmo afirmá-lo, mas é constatável que essa evidência pode ser rapidamente esquecida – e esquecida por aqueles que contestam o lugar que a metapsicologia psicanalítica reserva ao sexual, principalmente no que diz respeito à sexualidade infantil. Aliás, foi o reconhecimento de uma dimensão inconsciente da vida psíquica que possibilitou a concepção do sexual ampliado. Em 1915, quando Freud propôs a ideia de que o inconsciente é o infantil, ele tinha em mente a sexualidade e o sexual infantil, o sentido dado por este. Assinalar, como acabamos de fazer, as relações entre o sexual e o inconsciente significa entender a razão pela qual a psicanálise separa sexual e sexualidade. A sexualidade é um comportamento singular, um comportamento observável. O sexual, por sua vez, diz respeito à dimensão intrapsíquica, ao curso dos acontecimentos psíquicos, de acordo com a bela expressão de Freud. É a sexualidade interior, internalizada. Além disso, a medida do sexual não é dada por um comportamento, ela surge do sentido, de uma particularidade deste, muitas
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8. Ruptura como instrumento de análise do vínculo1
A ruptura é um tema amplo. As próprias rupturas são diversas e podem abranger todos os campos em que os seres humanos estão envolvidos. No âmbito social, a situação disruptiva de pessoas em situação de rua, o exílio e as revoluções são formas de ruptura. Contudo, há também rupturas invisíveis. No campo das ideias, Louis Althusser fala sobre a ruptura epistemológica ou paradigmática. No terreno das relações humanas, citemos, especificamente, aquelas que se baseiam em alguma forma de amor. Embora as formas manifestas de ruptura sejam diversas, só há ruptura se houver um sujeito. Uma ruptura só pode ser considerada como tal, em qualquer campo ou por quaisquer causas, por afetar sujeitos singulares e vínculos entre eles. A ruptura é também determinada e experienciada em função do sentido que um determinado incidente ou circunstância assume. É partindo dessa premissa que, na condição de psicanalista do vínculo e da relação, articulo a minha reflexão. Proponho partir do
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Conferência realizada em 2014 no Congresso da Federação Europeia de Psicanálise em Torino.
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seguinte raciocínio: a ruptura constitui um instrumento de análise da natureza e dos formantes do vínculo; é por meio dela que se revelam aspectos frequentemente invisíveis do vínculo que liga ou une os sujeitos entre si. Para aprofundar essa hipótese, recorro a um caso clínico.
Uma história clínica Myriam2 solicita uma consulta de urgência, após um rompimento amoroso. Ela me foi encaminhada por uma jovem colega, sua amiga. Encontro uma mulher bela e elegante de 50 anos. Assim que começa a me explicar o que lhe aconteceu, ela desmorona, desatando a chorar. Desde o rompimento com o namorado, Myriam perdeu a coragem, chora constantemente. Até mesmo o trabalho, que costumava adorar, agora a deixa relativamente indiferente. Casada duas vezes, foi ela quem tomou a iniciativa das duas separações, com as quais lidou muito bem. Desta vez, pensou que estaria com o homem certo, e fazia dois anos que o relacionamento ia muito bem. Eles se conheceram quando ela estava em missão profissional em um país estrangeiro, mas, devido à distância, encontraram-se apenas ocasionalmente durante o primeiro ano. Como tudo corria muito bem entre os dois, ela decidiu, um ano atrás, mudar-se para sua cidade natal, Lyon, onde também residem seus familiares, para viver com esse homem. Eles compraram uma casa juntos e estava tudo bem até poucos meses, quando surgiram violentos conflitos, principalmente em torno do filho mais novo de Myriam, que morava com o casal. Seu companheiro começou a
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Evidentemente, modifiquei todos os detalhes que poderiam comprometer, direta ou indiretamente, a confidencialidade da paciente. Desse caso clínico, mantive somente o que julguei importante para discutir a questão da ruptura.
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9. O risco na adolescência1
A problemática clínica proposta aqui é relevante e corresponde a uma preocupação diretamente perceptível em nossas práticas. Ao mesmo tempo, é difícil pensá-la, uma vez que abrange diferentes níveis, e o próprio modo de enunciá-la contém ambiguidades. O enunciado desse tema nos convida prontamente a refletir sobre a complexidade envolvida no emprego do termo risco. A pergunta é: quem está em risco nas condutas temerárias da adolescência? Para quem o risco se apresenta quando algum comportamento de um(a) adolescente é caracterizado pelos adultos como risco? Logo pensamos que a definição de risco tem a ver com a preocupação dos adultos com a saúde ou mesmo com a vida do adolescente,2 mas podemos nos perguntar até que ponto o suposto risco não
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Conferência realizada em maio de 2012, em Voiron, no congresso “Le risque à l’adolescence” (“O risco na adolescência”). Tendo em vista o limite da presente reflexão, abordo o processo adolescente em um sentido amplo e não diferencio meninos e meninas na adolescência. Existem certamente diferenças entre eles, mas também problemáticas comuns, nas quais pretendo me concentrar. Portanto, utilizo o termo adolescente para designar meninos ou meninas que atravessam o processo adolescente.
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confronta o adulto com os fundamentos de suas próprias convicções sobre como a vida e o comportamento devem ser. Por um lado, podemos dizer que alguns adolescentes se colocam em perigo quando não se dedicam suficientemente aos estudos, consomem maconha ou outras drogas, não respeitam determinadas regras fundamentais de prudência na condução de suas motocicletas ou scooters e até mesmo em suas perambulações noturnas em lugares pouco seguros. Por outro lado, sabe-se que há uma provação de si e do mundo na adolescência, levando a condutas ordálicas, ao encontro com os limites, que, por vezes, são explorados com danos. Entretanto, o confronto com o risco na adolescência não seria também essencial para o vir a ser adulto? Crianças pequenas correm poucos riscos, ou melhor, seus pais cuidam para evitá-los ao máximo. Mas e os adultos? Seria possível imaginar uma vida adulta sem riscos? A adultez não envolve uma certa dose de risco? E não seria essencial para o processo de vir a ser adulto saber correr riscos e enfrentar certa relação com o desconhecido, sempre arriscada, sem a qual não há possibilidade de realização criativa? Não há posição adulta sem engajamento criativo, não há criação sem o desconhecido e não há desconhecido sem risco. Sendo assim, não surpreende o fato de que a adolescência se depara com a problemática do risco. No entanto, talvez não se trate do risco em si, mas sim do tipo e do nível de risco. O problema dos adolescentes é o cálculo do risco. Trata-se de um problema complexo que não pode ser reduzido à sua dimensão mais manifesta. Voltaremos a esse ponto mais adiante. Por ora, ressalto um primeiro aspecto da complexidade do cálculo do risco, o qual aparece, em primeira instância, subordinado à organização dos sinais de alerta que advertem o sujeito de um possível perigo. Na medida em que a problemática dos limites é tão central quanto flutuante na adolescência devido à sua constante reformulação, a questão dos sinais de alerta
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10. Paradoxos e ambiguidade da servidão voluntária e do masoquismo1
A questão levantada pelo ensaio de La Boétie certamente convida a refletir sobre os fundamentos do social e os motivos subjacentes à sua implantação e à sua organização. Antes de abordar diretamente o tema proposto, chamo a atenção para algo que, na qualidade de clínico, considero uma ambiguidade contida no próprio tema e na leitura que o texto de La Boétie oferece. Enquanto psicanalista clínico, entendo que o ser humano não é o que parece, o que pensa ou crê ser; em outras palavras, ele tem uma vida psíquica inconsciente. Logo, a questão se apresenta em uma dimensão determinante tanto no que se refere à servidão como ao seu voluntarismo.
Servidão? A servidão voluntária a que nos referimos e da qual trata La Boétie seria uma servidão objetiva ou uma servidão subjetivamente vivenciada como tal?
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Conferência realizada em 2012, no Congresso na École Normale Supérieure, a respeito do ensaio de La Boétie, Discurso sobre a servidão voluntária.
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Por exemplo, a mãe de um recém-nascido se encontra em um estado de servidão objetiva, aceitando submeter-se a todas as necessidades do bebê, atenta a qualquer manifestação de mal-estar, curvando-se ao que imagina serem os desejos dele. Esse estado descreve uma forma de servidão extrema, mas, na maioria das vezes, a mãe não o vivencia como um estado de servidão. Ela está apenas desempenhando sua função, seguindo seus próprios movimentos internos de modo natural, como uma consequência do fato de ser mãe. Em outras palavras, ela não tem um sentimento subjetivo de servidão, se é que posso formular assim. Outro exemplo extraído da clínica evidencia outros aspectos da ambiguidade a que me refiro. O que é comumente chamado de masoquismo no campo da perversão sexual ou moral envolve um processo no qual a servidão é supostamente buscada, desejada e provedora de um considerável gozo. Aliás, será que se pode dizer servidão mesmo quando ela é desejada? O masoquismo não implica um certo paradoxo da servidão? Ademais, a clínica nos mostra que, no masoquismo, a servidão pode se inverter e o servo figuraria como um senhor do qual não se pode escapar. Recordemos esta famosa história: Um masoquista: “Me machuque”. Um sádico: “Não”. Um masoquista: “Obrigado”. Essa história evidencia que o (suposto) sádico obedece ao masoquista e que, sejam quais forem as circunstâncias, ele não pode perder: “cara eu ganho, coroa você perde”. Se nos ativermos a um único nível de complexidade, a servidão desejada, voluntária, atribui um controle – ou, ao menos, uma ilusão de controle – àquele que ocupa essa posição. Contudo, a clínica nos habitua a uma complexidade ainda maior.
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11. A necessidade de ilusão: problemáticas e condições1
A contribuição freudiana e seus limites A questão da ilusão foi introduzida na metapsicologia freudiana em dois livros breves: O futuro de uma ilusão (1926), dedicado principalmente às relações da ilusão com a religião, e O mal-estar na civilização (1929), em que um diálogo com Romain Rolland a respeito do sentimento oceânico é o ponto de partida para uma reflexão sobre a ilusão. Em O mal-estar na civilização, Freud se mostra inicialmente cético em relação à universalidade da vivência de sentimento oceânico e afirma não o ter experienciado. Mas, à medida que avança em sua compreensão da possível origem desse sentimento de formar um todo com o mundo, ele propõe uma reflexão a partir de sua concepção dos primórdios da vida do ser humano. Freud formula um modelo baseado na hipótese da existência de um período precoce da vida humana que se caracteriza por uma indiferenciação entre o Eu e o mundo (objeto) regida por uma vivência de todo e por um sentimento de pertencimento do sujeito ao mundo
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Fédération Européenne de Psychanalyse. Cannes, março de 2023.
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e do mundo ao sujeito. Para Freud, esse sentimento é inevitavelmente abalado por frustrações e decepções impostas pela realidade, e, na tentativa de manter ou restabelecer, apesar de tudo, a ilusão oceânica primordial, o sujeito adota meios psicopatológicos ou, mais sadiamente, sublimatórios. Ao longo do texto, a busca pela felicidade (a expressão não é de Freud, mas minha) é associada a uma necessidade de ilusão oceânica. A exploração freudiana traz vários elementos referenciais a respeito da ilusão, mas, ao que me parece, é dificultada pela insuficiência dos modelos de que Freud dispunha à época, em relação à primeira infância e às origens, para assentar os fundamentos da ilusão. Várias dificuldades sobre as problemáticas e as condições da ilusão primordial podem ser apontadas a partir da leitura de seu texto. Vou destacar algumas brevemente. – Freud concebe a vida psíquica precoce a partir do modelo do infantil, mas tudo leva a crer, hoje, que a vida psíquica dos dois primeiros anos obedece a processos que diferem em vários aspectos daqueles tradicionalmente identificados como infantis. Destaco apenas um aspecto, por seu caráter determinante: o modo de registro das primeiras experiências vividas segue o modelo dos processos2 e não dos conteúdos, o que as neurociências chamam de memória procedural. Trata-se de uma memória processual, feita de sensações-formas-movimentos – memória de encontro, interface, memória de contato, memória do tipo de ligação. Sem sujeito nem objeto, ela é o ponto em que ambos se encontram e se misturam. Os traços de memória processual são Isso, não podendo se tornar conscientes sob essa forma (Freud, 1923). São misturas enigmáticas e condensados de sensações, formas e movimentos multipulsionais e multiafetivos. Os trabalhos de Bion,
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Conforme Mancia, M. (2007). RPF.
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12. Articulação da metapsicologia com a biologia1
Introdução/problemática/metodologia Mesmo no século XXI, o exercício da psicanálise ainda enfrenta dificuldades e encontra limites que resultam de certos impasses do sofrimento narcísico-identitário. É na tentativa de avançar nessa problemática que venho conduzindo investigações clínicas e metapsicológicas há mais de trinta anos. Então, neste ensaio sobre a articulação da metapsicologia com a biologia, com o soma, pretendo concentrar minha reflexão na mesma problemática. Cabe notar que o sofrimento narcísico-identitário tem estado no centro de obras de referência de autores que marcaram o pensamento psicanalítico desde a morte de Freud, como Klein, Bion, Winnicott, Lacan, Green, Anzieu, Laplanche, Bleger, Madeleine e Willy Baranger, Kohut, Ogden. Mas, ao mesmo tempo, esses psicanalistas se aventuraram a propor modificações das concepções da metapsicologia freudiana que haviam sido consolidadas por tradições de leitores de Freud. Na maioria das vezes, essas tradições se baseiam em uma
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Centro de Estudos Psicanalíticos, São Paulo, 17.06.2023.
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metodologia de leitura do pensamento freudiano focada no que ele formulou em determinados momentos de seu percurso. Baseiam-se em uma série de proposições que se misturam na investigação de problemáticas clínicas ou teóricas às quais se referem. Essas leituras renderam frutos inestimáveis sobre a importância da psique infantil, os quais não podem ser ignorados, mas talvez o método tenha os seus limites. Tentarei desenvolver uma metodologia de leitura diferente que possa acrescentar à leitura tradicional – uma abordagem da obra de Freud focada principalmente na elaboração a partir de processos secundários – outra metodologia de leitura, amparada na hipótese de que a metapsicologia freudiana – a “bruxa metapsicologia”, como Freud a chama – pode ser o lugar de transferência em que ele prossegue seu trabalho analítico pessoal, iniciado em A interpretação dos sonhos, para aquém do infantil, em direção às zonas mais arcaicas da vida psíquica. A atividade de teorizar, mesmo aquela de adultos criativos, nunca é totalmente desvinculada, como já demonstrei em várias oportunidades, dos processos e da produção da atividade teorizante infantil, que não pode ser reduzida às teorias sexuais infantis. Existem também teorias infantis sobre o bem, o mal, o sofrimento, o prazer, o cuidado e a vida psíquica ou uma autoteorização da vida psíquica... É nesses restos que se encontram, muitas vezes, verdadeiros repositórios potenciais de criatividade teorizante. Do mesmo modo que o rol das proposições formalizadas por um autor é um dado importante de seu pensamento, o encadeamento de seus escritos, as metáforas utilizadas, as falhas encontradas etc. são indícios que “se intrometem na conversa” (Freud, 1894) oficial do autor, compondo a trama de outra problemática que está longe de ter alcançado o mesmo status secundário daquilo que foi deliberadamente formalizado. Em outras palavras, proponho buscar no processo de teorização de Freud elementos que complementem seus enunciados claramente formulados. Em complemento àquilo que aparece secundarizado e
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titular formador da Sociedade Psicanalítica de Paris desde 1982. É um dos líderes do grupo Lyonnais dessa sociedade. Defendeu
orientação de Jean Guillaumin. É professor honorário da Université Lumière Lyon 2 desde 1989 e dirigiu o Departamento de Psicologia Clínica e Psicopatologia dessa Universidade por mais de 15 anos, onde também orientou muitas teses diretamente inspiradas na psicanálise. Profere inúmeras conferências em diferentes Sociedades PsicanalíC
ticas e Universidades ao redor do mundo,
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desenvolvendo e difundindo o ensino da
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psicanálise com ideias originais que nasce-
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ram a partir de seus estudos e prática clínica
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e que lhe permitiram construir pontes entre
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a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica. É
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um autor que cria uma interface entre a psicanálise e outras disciplinas, como a
O segundo volume da Coleção Conferências de René Roussillon –
dando continuidade ao livro anterior, dedicado ao impacto da abordagem do narcisismo e análise do Eu na metapsicologia – apresenta uma série de conferências realizadas ao longo dos últimos anos em que o autor expõe novos desafios para a clínica e a teoria psicanalíticas contemporâneas explorando diferentes aspectos das problemáticas que acompanham a exigência de uma evolução paradigmática. Nelas, encontramos um psicanalista que passa a se interrogar se a diversidade/pluralidade teórica de nosso saber – e, sobretudo, se a luta hegemônica entre teorias – não ameaçaria a integração possível em torno de conceitos nucleares que nos unem e que nos permitem o diálogo. Assim, corpo, pulsões e conflitos pulsionais, representância, apropriação subjetiva, associatividade, narratividade, sexual e sexualidade infantil, destrutividade, uso e presença do objeto, melancolia, integração psíquica, entre outros, poderiam ser pontos de convergência entre teorias ao serem descritores da experiência psicanalítica proveniente do arcaico, do infantil, do adolescente e do adulto.
psicologia do desenvolvimento, a neurociência, a biologia, entre outras. É autor de inúmeros livros, capítulos de livros e mais de trezentos artigos publicados, entre eles: Paradoxes et situations limites de la psychanalyse, Agonie, clivage et symbolisation, Le
Organizadores Luciane Falcão Renato Moraes Lucas
plaisir et la répétition, Le jeu et l’entre je(u), La réflexivité le transitionnel et le sexuel, La naissance de l'objet, L’Art Psychanalyste, Manual da Prática Clínica em Psicologia e Psicopatologia, O narcisismo e análise do Eu. Em 2016, recebeu o Signory Awards da IPA pelo conjunto de sua obra.
PSICANÁLISE
Em busca de novos paradigmas para a clínica e a teoria psicanalíticas contemporâneas
sua tese de doutorado, Du paradoxe incontenable au paradoxe contenu, em 1978, com a
COL EÇÃ O
Roussillon
René Roussillon é psicanalista, membro
A Coleção Conferências de René Roussillon foi idealizada para oferecer ao público brasileiro a oportunidade de se aproximar das reflexões de um psicanalista que vem, ininterruptamente, pensando e repensando a clínica psicanalítica contemporânea movida pela constante releitura de Freud e enriquecida pelo pensamento de vários autores psicanalíticos, como Winnicott, Bion, Green, Anzieu e de pesquisas da biologia e da neurociência. É composta por várias conferências que realizou a convite de universidades e instituições psicanalíticas de diferentes partes do mundo. Ideias pilares do seu pensamento, como a função simbolizante, a simbolização primária, a escuta do corpo, a sexualidade, o meio maleável, o nascimento e a sobrevivência do objeto, o modelo da epigênese relacional, a preocupação familiar primária, a linguagem do modo
René Roussillon
de presença do objeto, a questão do narcisis-
Em busca de novos paradigmas para a clínica e a teoria psicanalíticas contemporâneas
das e apresentadas de forma integrada e
mo e da análise do eu, entre outros, são retomarenovada. É uma honra para todos nós que essa coleção esteja sendo editada de forma inédita em português, antes mesmo de uma publicação na França.
Luciane Falcão e Renato Moraes Lucas