Skip to main content

Dimensões Da Experiência Estética

Page 1

Dimensões da experiência estética Dos fundamentos do psiquismo aos encontros transformativos

PSICANÁLISE

Janderson Farias Silvestre Ramos


Dimensões da experiência estética


Dimensões da experiência estética Dos fundamentos do psiquismo aos encontros transformativos

Janderson Farias Silvestre Ramos


Dimensões da experiência estética: dos fundamentos do psiquismo aos encontros transformativos © 2026 Janderson Farias Silvestre Ramos Editora Edgard Blücher Ltda. Série Psicanálise Contemporânea Coordenador da série Flávio Ferraz Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenação editorial Rafael Fulanetti Coordenação de produção Ana Cristina Garcia Produção editorial Maísa Kawata Preparação de texto Ariana Corrêa Revisão de texto Equipe editorial Diagramação Thiago Cordeiro Capa Thiago Cordeiro Imagem da capa iStockphoto

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br

Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.

É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.

Ramos, Janderson Farias Silvestre Dimensões da experiência estética : dos fundamentos do psiquismo aos encontros transformativos / Janderson Farias Silvestre Ramos. – São Paulo : Blucher, 2026. 2 96 p. – (Psicanálise Contemporânea / coord. Flávio Ferraz). Bibliografia ISBN 978-85-212-2975-9 (Impresso) ISBN 978-85-212-2978-0 (Eletrônico – Epub) ISBN 978-85-212-2977-3 (Eletrônico – PDF) 1. Psicanálise. 2. Experiência estética. 3. Arte. 4. Psiquismo. 5. Psicanálise contemporânea. 6. Objeto transformacional. 7. Bollas, Christopher, 1943-. I. Ferraz, Flávio. II. Título. III. Série. CDU 159.964.2

Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.

Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise   CDU 159.964.2


Para Alice, que ainda não conheço, mas que já me encanta e me transforma.


Agradecimentos

À minha orientadora, Marina Ribeiro, pela parceria tão frutífera e por tudo que tem me ensinado desde muito antes do ingresso no doutorado que deu origem a este livro. À Elisa Cintra e Gilberto Safra pelas valiosas contribuições durante as bancas de qualificação e defesa, e à Inês Loureiro e Luís Cláudio Figueiredo, pelas contribuições igualmente valiosas durante a banca de defesa. Aos amigos do grupo de pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), que durante esses anos foram mais do que brilhantes interlocutores intelectuais, foram um verdadeiro ambiente de cuidado, acolhendo amorosamente minhas dúvidas e inquietações, incentivando, criticando, sugerindo, e celebrando cada passo na construção da tese: Amanda Christina Melany, Ana Fatima Aguiar, Camila Young, Celina Diaféria, Claudia Perrotta, Cristiana Pondé, Davi Flores, Fátima Flórido Cesar, Fernanda Parra, Gabriela Lara Macedo, Ivy Semiguem de Carvalho, Lívia Bartolomei, Luigi Vetere, Maysa Bezerra, Pedro Hikiji, Péricles Machado Jr., Rachele Ferrari, Taís Nicoletti e Thaís Mariana Ferreira.


8 dimensões da experiência estética

Às amigas do “grupo do Bollas”, Alice Warschauer, Ingrid Cyfer, Márcia Barreto, além das já citadas Celina, Cláudia, Fátima e Rachele, pelos encontros tão férteis, dos quais sempre saio com questões instigantes e inspiradoras, muitas das quais ecoaram nas linhas deste livro. À Cláudia Rocha, secretária do Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP, pela pronta disponibilidade e atenção na resolução dos trâmites burocráticos e administrativos. À minha analista, Maria da Paz Pereira, pela sustentação por meio da escuta, da presença e das palavras, em tantos momentos de inquietação com a escrita. A Jonas e Marizete, meus pais, e a Jonas Júnior, João e Matheus, meus irmãos, pelo amor, pelo cuidado, pela atenção e por terem sido, e continuarem sendo, apoios indispensáveis em toda a minha vida. A todos os meus amigos, pela amizade fiel e sincera, e por perdoarem meu distanciamento em muitos momentos de imersão na pesquisa. À Bárbara, “Babi”, meu amor, minha parceira de vida, em quem encontro todos os dias a harmonia e a paz necessárias para escrever, pensar e criar. À Jacqueline Santoantonio, Fernanda Del Santoro e Rafaela Achatz pelos diálogos frutíferos que auxiliaram na expansão do meu caminho de pesquisa. Ao Diego Rodrigues, pela parceria e pela revisão atenta do texto. À Capes, pelo apoio financeiro para a realização da pesquisa. A Flávio Ferraz, pelo aceite do livro na coleção Psicanálise Contemporânea. À Blucher, por abrir as portas da editora para a publicação deste texto.


Sumário

Prefácio – A estética dos encontros transformativos

11

Marina F. R. Ribeiro

Introdução

17

1.

Estética, arte e psicanálise: considerações exploratórias

39

2.

Do trabalho estético da mente aos encontros transformativos

89

Da experiência estética na constituição psíquica primordial às transformações posteriores

147

4.

Experiência estética e trabalhos psíquicos inconscientes

185

5.

Dimensões da experiência estética

227

Em busca de uma síntese: experiência estética, cuidado e transformação

275

Referências

285

3.


Prefácio A estética dos encontros transformativos Marina F. R. Ribeiro1

Os momentos estéticos são encontros transformacionais, assim escreve Janderson. Espero que o leitor tenha essa experiência na lei-

1

Psicanalista, professora livre-docente do IPUSP, orientadora de mestrado e doutorado no Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo (USP). Coordenadora do Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea (LipSic). Autora e organizadora de vários livros, entre eles: Conversa sonhante: a função psicanalítica da personalidade (Blucher, 2024); De mãe em filha: a transmissão da feminilidade (Escuta, 2011). Organizadora dos livros: Vastas emoções e pensamentos imperfeitos: diálogos bionianos (Blucher, 2023); Por que Ogden? (Zagodoni, 2023); Melanie Klein na Psicanálise Contemporânea (Zagodoni, 2019); Para além da contratransferência: o analista implicado (Zagodoni, 2017). Coautora nos livros: Bion em nove lições: lendo transformações (Escuta, 2011); Balint em sete lições (Escuta, 2012); Por que Klein? (Zagodoni, 2018); Chuva n’alma: a função vitalizadora do analista (Blucher, 2023); Reading Bion’s Transformation (Routledge, 2024); Why Read Ogden? The importance of Thomas Ogden’s Work for Contemporary Psychoanalysis (Routledge, 2024) e Why Read Klein? The Importance of Melanie Klein’s Work for Contemporary Psychoanalysis (Routledge, 2026).


12 dimensões da experiência estética

tura deste livro que acredito ser o testemunho de vários encontros transformacionais ao longo dos últimos anos. Um dos presentes que a vida acadêmica tem me oferecido é a oportunidade de encontros que posso considerar momentos estéticos transformacionais. Conheci Janderson na qualificação do seu mestrado em 2016, e nesses quase dez anos de convivência assisti, com prazer e satisfação, o desabrochar de um pesquisador, psicanalista e escritor extremamente potente, sereno, delicado e receptivo. Este livro é uma consistente e original pesquisa sobre a experiência estética na constituição precoce do psiquismo e seu potencial de propiciar transformações posteriores. O autor faz uma cartografia dos fenômenos estéticos por meio de diferentes experiências: um fragmento clínico, uma série, um livro autobiográfico, e o testemunho de uma poetisa. Durante a leitura, somos atravessados pelo sublime e terminamos outros, marcados pela delicadeza e precisão do texto. Ao longo da trajetória da pesquisa que deu origem ao livro, da qual fui orientadora – aquele que favorece os processos de criação – Janderson se deparou com um autor e um tema que geraram diferentes momentos transformacionais. Os textos de Christopher Bollas tornaram-se para ele, na suplementariedade entre encanto e conflito, uma direção que o levou à realização da tese e, posteriormente, do livro. O leitor se sentirá acompanhado pelo autor como alguém que apresenta um jardim de complexos conceitos com a delicadeza de quem cuida de seres sensíveis. Há uma densidade teórica na apresentação dos conceitos de Bollas de inconsciente receptivo, genera psíquico, idioma pessoal e conhecido não pensado. Além de vários outros autores referidos: Meltzer e Williams, Klein, Winnicott, Hanna Segal e Balint. Entre psicanalistas brasileiros de referência, Gilberto Safra, Luís Cláudio Figueiredo e Nelson Coelho. Tal es-


Introdução

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras. Sentir tudo excessivamente Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas E toda a realidade é um excesso, uma violência, Uma alucinação extraordinariamente nítida Que vivemos todos em comum com a fúria das almas, O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos. Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas, Quanto mais personalidades eu tiver, Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver, Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas, Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento, Estiver, sentir, viver, for, Mais possuirei a existência total do universo (Álvaro de Campos)1

Há alguns anos, ainda durante meus estudos de graduação, eu estava às voltas com a escuta do álbum Chão, do cantor e compositor

1

Pessoa (1935/2012, p. 277).


18 dimensões da experiência estética

brasileiro Lenine (2011). Havia uma música em particular que eu ouvia repetidamente: “Uma canção e só”. Ela diz em uma de suas estrofes: “Desde que eu me encanto, sigo a voz do vento/ Já faz tanto tempo, canto, intento/ A cantoria que me levaria a qualquer lugar/ A melodia que transformaria a quem escutar, assim num piscar”. Essa canção me impactou sobremaneira afetivamente, proporcionando-me uma serenidade estranha que chegou, de fato, a levar-me às lágrimas. No mesmo período, eu desejava realizar uma pesquisa de iniciação científica, sem saber ainda o que investigar. Nessa época, eu estava envolvido com a leitura do livro O mito de Sísifo, de Albert Camus (1989), um livro que versa sobre o absurdo (daí seu subtítulo: ensaio sobre o absurdo), mas que tem o suicídio como um tema recorrente durante todo o texto. As descrições dadas por Camus sobre o problema do absurdo me impactaram de uma forma que até hoje não sei definir, mas considero que a experiência que tive com a obra de Camus foi de caráter estético. Talvez o leitor estranhe que eu encare a experiência com um livro de cunho filosófico como uma experiência estética e se pergunte onde se situa a dimensão do sensível nessa experiência.2 No entanto, ainda hoje, parece-me que as ideias lidas nesse livro se misturam de alguma maneira com as sensações vivenciadas com a escuta da canção de Lenine, com seu ritmo próprio, tonalidade, timbre etc., de modo que me parece difícil realizar uma distinção clara nessa experiên-

2

Vázquez (1992/1999) afirma: “Tão importante e indispensável é o sensível na relação estética, que a ciência (a estética), que estuda essa relação, assim como seu objeto, ao nascer – com Baumgarten – recorre ao termo grego (aisthesis), que originalmente significa sensação. E daí as reservas que sentimos ao aplicar o termo ‘estético’ ao nosso comportamento relativo à ideia ou conceito que não tem uma encarnação sensível” (p. 140).


1. Estética, arte e psicanálise: considerações exploratórias

Mas bem ficamos sabendo que é também das percepções primárias que nascem arpejos e canções e gorjeios. (Manoel de Barros, 2010, p. 450)

A poetisa portuguesa Matilde Campilho, em uma entrevista concedida a Eric Nepomuceno,1 ao contar uma experiência arrebatadora que teve ao contemplar um quadro em um museu,2 diz em certo momento: “Eu acho que a arte faz isso: salva momentos”. Penso que essa frase reflete a experiência da personagem Anne Shirley, do seriado Anne with an E, que parece ter tido muitos momentos salvos pela arte. Experiência semelhante parece ter tido Cole, um amigo de Anne. Nas duas seções que se seguem apresentarei as experiências desses dois personagens como um prelúdio à discussão subsequente.

1

Link para a entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=VldpHiRir4c.

2

Essa experiência é retomada e detalhada no Capítulo 5.


40 dimensões da experiência estética

1.1  Anne Shirley: entre a literatura e a adoção por Green Gables Anne é uma pequena órfã enviada por engano para os Cuthberts, um casal de irmãos que “encomendaram” um menino para ajudar nos afazeres da fazenda. Estando na carruagem com Marilla Cuthbert, sendo mandada de volta ao orfanato, a menina diz: “Minha vida é um perfeito cemitério de esperanças enterradas. Li essa frase num livro e a repito para me consolar sempre que me decepciono”, ao que Marilla retruca: “Não vejo onde está o consolo”, e Anne explica: “Porque soa tão romântico, como se eu fosse a heroína de um livro”. No dia anterior, Anne estava arrasada. Após anos de humilhações, maus-tratos e violências, entre o orfanato e casas para onde era enviada para trabalhar, ela finalmente acredita ter chegado a sua oportunidade de ser uma filha (“Não costumam me levar para uma casa como filha. Pode imaginar que benção é isso, e como eu estou feliz”, diz Anne a Matthew Cuthbert no caminho para o lugar onde acredita que será seu lar), apenas para descobrir, ao chegar em Green Gables, um belo povoado na ilha do príncipe Eduardo, que tudo não se passou de um engano: “Eu já devia saber. Deveria saber que ninguém iria me querer”, diz Anne chorando, após Marilla, irritada, dizer a seu irmão, Matthew, na frente de Anne: “Isto foi uma grande confusão. Ela precisa voltar!”. Anne chora a noite inteira, mal se alimenta no jantar, mas no dia seguinte, a caminho do orfanato, na carruagem com Marilla, está tagarela, como é seu costume. Fala sobre a vida, sobre a paisagem, sobre seus cabelos ruivos, cita trechos de literatura. “É melhor imaginar do que lembrar”, diz Anne em outro contexto. De fato, sua imaginação é seu refúgio. Uma imaginação que se alimenta das histórias que leu. No caminho para a velha vida, deixando para trás a esperança de ser adotada, Anne parece usar a literatura para salvar esse momento, como parece ter feito em tantos outros.


2. Do trabalho estético da mente aos encontros transformativos

Antes de seguir para as ideias de Bollas, proponho um breve interlúdio. Explico esta proposição: como vimos até aqui, Freud não nutria grandes esperanças a respeito do potencial transformativo da arte ou da experiência estética. Embora cada vez mais, à medida que caminhamos, compreendamos as limitações do pensamento freudiano a esse respeito, e estejamos tentados a concluir que o tipo de experiência que testemunhamos na ficção são plausíveis no mundo fora dela, parece-me importante que antes de continuarmos a afunilar a compreensão teórica, possamos nos debruçar sobre uma experiência não ficcional, a fim de seguirmos pensando sobre a pertinência da concepção de Freud, das demais que vimos até aqui e das que ainda veremos. Assim, quando dermos continuidade à discussão conceitual, estaremos nutridos de uma experiência viva que, penso, iluminará a própria teoria. Ademais, a experiência que apresentarei nos permitirá explorar o papel de um elemento fundamental nas transformações de Anne e Cole, e que se apresenta ao lado da arte: os encontros humanos.


90 dimensões da experiência estética

2.1 Interlúdio: a odisseia de James Rhodes A vida do pianista inglês James Rhodes, conforme narrada na autobiografia Instrumental: memórias de música, medicação e loucura (Rhodes, 2014/2017) parece uma verdadeira odisseia. Como Ulisses, saindo de Tróia após a guerra, tentando voltar à Ítaca, seu lar, Rhodes também parece buscar um tipo de retorno. No entanto, o lar para o qual ele busca retornar não é um lugar físico, mas ao seu eu infantil, inteiro, antes de começar a ser estuprado aos 6 anos de idade pelo professor de educação física da escola. A experiência concreta de horror, o estupro,1 durou cinco longos e desesperadores anos, mas internamente o horror permaneceu em Rhodes (além de graves consequências físicas, que levaram, entre outras coisas, à necessidade de cirurgias na coluna), como uma guerra constante, como um Ulisses que deixou Tróia mas que levou a guerra consigo. Rhodes expressa essa sensação de guerra interior de diversos modos ao longo do livro, como: “Estou exausto o tempo inteiro. É uma espécie de Eu tóxico, corrosivo, difuso, penetrante, negativo, tudo de ruim” (Rhodes, 2014/2017, p. 8). Ou: “Sou movido por cem mil formas diferentes de terror” (p. 49). Rhodes começa seu livro dizendo que a música literalmente salvou sua vida: “Ela [a música] provê companhia quando não se tem ninguém, compreensão quando se está confuso, consolo onde há aflição e uma energia pura e não contaminada onde há um vazio de devastação e fadiga” (p. xii). No entanto, poucas páginas adiante, diz se sentir um “fracassado de um doente mental”

1

Uso aqui diretamente a palavra estupro, em vez de expressões como abuso ou violência sexual, para tentar preservar a força do próprio relato de Rhodes. O pianista não hesita em escancarar a violência atroz que sofreu. Ele diz, por exemplo: “Fui usado, fodido, quebrado, me fizeram de brinquedo e me estupraram desde os seis anos de idade. Repetidas vezes, durante anos e anos” (Rhodes, 2014/2017, p. 10).


3. Da experiência estética na constituição psíquica primordial às transformações posteriores Da experiência estética na constituição psíquica primordial...

Os comentários feitos no fim do capítulo anterior a respeito da relação de Anne com a mãe enquanto objeto estético, me levam a pensar na proposição de Bollas (1987/2015) de que o encontro do bebê com a mãe é primordialmente um encontro estético, me fazem refletir sobre qual o lugar desses encontros na constituição psíquica mais primordial, e, consequentemente, em pensar sobre qual é a relação desses encontros primevos com as potenciais transformações posteriores oriundas das experiências estéticas. Neste capítulo, seguirei essas questões, abordando concepções de outros autores, além de Bollas, que investigam o lugar da experiência estética na constituição psíquica precoce, para, em seguida, propor diálogos com as ideias até aqui expostas.

3.1 O conflito estético De acordo com Meltzer e Williams (1988/1994), no encontro primevo com a mãe, o bebê experiencia um conflito entre a percepção que ele tem do exterior materno, sua beleza fulgurante que se apresenta primariamente na face e nos seios, e seu interior, que está fora da percepção do bebê. De um lado, há o impacto estéti-


148 dimensões da experiência estética

co causado pelo objeto materno em sua concretude, que acalenta, nina, alimenta, propiciando ao bebê experiências de prazer e satisfação, apresentando a ele, desse modo, a beleza do mundo em sua sensorialidade. Por outro lado, contudo, há as ausências maternas, há o seu interior insondável. Mesmo pequenos gestos, pequenas mudanças de olhar, pequenas hesitações, indicam para o bebê que há algo além daquilo que ele pode captar pelos sentidos. Esse algo, não estando acessível aos sentidos, precisa ser construído pela imaginação criativa. Esse conflito entre a percepção do exterior da mãe e seu interior incognoscível, Meltzer e Williams (1988/1994) denominam conflito estético. Para os autores, esse conflito estaria na base da clivagem primitiva que cinde categoricamente bom e mau, self e objeto, clivagem que, de acordo com Klein, é essencial para a constituição egoica. O incipiente ego do bebê interpreta a ausência materna (ausência concreta ou psíquica) como presença de um perseguidor: “nos termos de Bion, o objeto presente é visto como contendo a sombra do objeto-ausente-presente-como-um-perseguidor” (p. 25). Desse modo, Meltzer e Williams (1988/1994) sugerem que “a apreensão do belo contém, em sua própria natureza, a apreensão da possibilidade de sua destruição” (p. 25). Daí a necessidade psíquica da clivagem, que permite que o bebê sustente a apreensão da beleza materna e mantenha sua relação com ela, garantindo assim sua sobrevivência (física e psíquica). Mélega (2017) afirma que a incerteza das relações íntimas é o cerne do conflito estético. Quanto maior a proximidade do objeto, maior é o impacto causado por seu exterior e mais enigmático se torna seu interior. É a angústia da intimidade, com todo o peso que ela traz, que leva o bebê a clivar sua percepção para proteger-se da luz fulgurante do objeto (que contém a sombra da destruição), recorrendo então a mecanismos esquizoparanoides.


4. Experiência estética e trabalhos psíquicos inconscientes

No capítulo anterior, defendi a ideia de que as primordiais experiências de encanto formam uma base a partir da qual o indivíduo pode vivenciar criativamente o conflito estético, de maneira que esse possa ser vivido como um conflito generativo. Apontei também, en passant, a relação dessas experiências com o momento estético, aludindo a um possível trânsito entre momento e conflito estético. Agora expandirei essas ideias, argumentando que o solo primordial formado pelas experiências estéticas precoces, em particular as experiências de encanto, ao propiciar a possibilidade de o indivíduo se entregar ao conflito e ao momento estético, permite também a realização de trabalhos psíquicos inconscientes. Para introduzir meu argumento, tecerei breves considerações sobre a relação entre trabalho psíquico e transformação, considerações que serão expandidas nos tópicos posteriores.

4.1 Trabalhos psíquicos e transformação Na obra freudiana, encontramos repetidas vezes a noção de trabalhos psíquicos. O sufixo arbeit (trabalho) está presente em noções como trauarbeit (trabalho do luto), traumarbeit (trabalho do


186 dimensões da experiência estética

sonho), bearbeitung, durcharbeitung e verarbeitung. De acordo com Ventura (2016), esses últimos são comumente traduzidos por elaboração, como em sekundäre bearbeitung (elaboração secundária). Garjaka (2014) mostra como a noção de trabalho na obra freudiana é derivada da concepção de trabalho na física clássica, tendo Freud se valido dessa disciplina para a formulação de metáforas que dessem conta de explicar processos psíquicos. De acordo com a autora, a noção de trabalho na física clássica remete a um “necessário entrelaçamento entre os conceitos de energia, força e movimento (mudança de estado, mudança de velocidade) . . . A ausência de qualquer um desses componentes torna o conceito de ‘trabalho’ inaplicável” (p. 65). Isto é, para a física clássica, um trabalho é realizado quando uma força age sobre um corpo ou um sistema, havendo um dispêndio de energia. Entretanto, como salienta Garjaka (2014): apenas a partir dos efeitos do trabalho realizado pode-se determinar se se realizou ou não trabalho, ou seja, são os produtos do trabalho realizado, aquilo que se manifesta como fenômeno novo relativo àquele corpo ou sistema, e apenas eles, que permitem afirmar que alguma força realizou trabalho naquele corpo ou sistema. (p. 64, grifos da autora)

A autora prossegue, afirmando que: o conceito de trabalho é tributário das leis de movimento descobertas por Isaac Newton, uma vez que com elas descobre-se que somente a aplicação de uma força pode alterar a velocidade ou o movimento de um corpo. Ou seja, a modificação do estado dinâmico de um sistema/corpo depende, portanto, da ação de uma força sobre ele e, mais, da aplicação de uma nova força que supere a ação da resultante das forças que já existem no sistema e que determinam o seu estado atual. (p. 66)

Essas concepções encontram claramente eco no pensamento freudiano, visto que Freud descreve o psiquismo como um aparelho


5. Dimensões da experiência estética

A intenção de todos os esforços humanos é estabelecer – ou provavelmente, restabelecer – uma harmonia envolvente com o entorno, para poder amar em paz. (Balint, 1968/1993, p. 59)

Ao longo deste livro, abordei diferentes tipos de experiência estética, cada qual com a sua peculiaridade. Ao longo do percurso, o leitor se deparou com expressões diversas que denotavam experiências estéticas variadas: impacto estético, momento estético, conflito estético, encanto. A partir dessas concepções, esforcei-me por descrever um tipo de experiência que propus denominar conflito generativo. Cunhei essa expressão numa tentativa de fazer dialogar diferentes ideias de certos autores que, a meu ver, como tentei argumentar no Capítulo 3, não estão em oposição, mas esclarecem diferentes aspectos da experiência humana na relação com os objetos estéticos. Levando-se em consideração algumas definições possíveis de intersubjetividade, todas as experiências estéticas podem ser consideradas experiências intersubjetivas. Penso que compreender esse caráter intersubjetivo pode lançar luz sobre a ideia de que as diver-


228 dimensões da experiência estética

sas experiências estéticas se suplementam umas às outras. Nessa trilha, nas linhas que se seguem, apresentarei uma argumentação baseada em duas hipóteses principais: em primeiro lugar, muitas das experiências intersubjetivas têm um caráter estético. Em segundo lugar, assim como diversos tipos de experiência intersubjetiva concorrem para a constituição subjetiva, experiências estéticas díspares, e mesmo aparentemente antagônicas, fazem parte dessa constituição.

5.1 Experiência estética e intersubjetividade Considerando as diferentes definições de intersubjetividade, Coelho Junior e Figueiredo (2004) afirmam que essa costuma ser definida, em termos psicológicos, como sendo a situação na qual, por suas mútuas relações, numerosos (ou apenas dois) sujeitos formam uma sociedade ou comunidade ou um campo comum e podem dizer: nós. Pode ser definida também como sendo o que é vivido simultaneamente por várias mentes, surgindo então a denominação “experiência intersubjetiva”. (p. 13)

Tomando como base essa definição, o caráter intersubjetivo do conflito estético e do encanto se mostra relativamente claro. Ambas as experiências necessitam da presença de um outro, ao menos duas mentes, ou duas subjetividades em interação, para que a experiência se dê. É claro que se poderia contra-argumentar que as experiências estéticas nem sempre se dão na presença de um outro, pois muitas vezes o sujeito vive uma experiência diante de um objeto, seja uma obra artística ou não. No entanto, mesmo nesses casos, há um outro implícito, de maneira que se trata também de uma experiência intersubjetiva, considerando outra definição de intersubjetividade: “a capacidade de estabelecer-se inferências sobre intenções, crenças e sentimentos de outros, que envolveriam a


Em busca de uma síntese: experiência estética, cuidado e transformação

Eu abri o primeiro capítulo deste livro com a afirmação de Matilde Campilho a respeito do potencial “salvífico” da arte. Esta, em sua visão, salva momentos. No capítulo seguinte, foi a vez de apresentar a autobiografia de James Rhodes. O pianista inglês também acredita que a arte (em especial a música) oferece salvação, e sua crença parece ultrapassar a da poetisa portuguesa: ele considera que a música literalmente salvou sua vida. A extensão dessa salvação foi posta em questão nos capítulos mencionados, e agora, olhando em retrospecto para as diversas experiências descritas durante o percurso, uma palavra surge como provavelmente mais justa, no sentido de se ajustar melhor às descrições do que os indivíduos reais ou fictícios receberam em cada uma das experiências aqui apresentadas: cuidado. Esse termo tem o mérito de permitir a validação das potencialidades transformativas da experiência estética ao mesmo tempo que permite certa relativização dessas capacidades, nos afastando do teor mais “absoluto” que a palavra salvação comporta. A noção de cuidado apareceu algumas vezes ao longo do livro. Discuti, por exemplo, a ideia bollasiana de que os pais transmitem


276 dimensões da experiência estética

ao bebê um idioma de cuidados e que ele, ao internalizar a lógica de cuidados dos pais, cuida de seu próprio self como objeto, como outrora foi cuidado. Apresentei também a ideia de que os momentos estéticos oferecem ao indivíduo elementos de cuidado que estavam originalmente presentes no objeto materno. Agora penso que cabe enunciar claramente: todas as experiências estéticas são potencialmente propiciadoras de cuidados, inclusive oferecendo certos cuidados que podem ter estado ausentes ou sido escassos na experiência primitiva do indivíduo. Retomo aqui uma parte de uma afirmação de Bollas já apresentada anteriormente: “a mãe foi o objeto transformacional, ‘conhecido’ como um complexo processo de cuidados” (Bollas, 1987/2015, p. 87). Uma afirmação simples, mas bastante potente. Se retirarmos a palavra mãe da oração, ficaríamos com uma sentença semelhante a esta: o objeto transformacional é vivido como um complexo processo de cuidados. Figueiredo (2014) define a cultura como uma “rede relativamente organizada e estável de objetos transformacionais capazes de oferecer cuidados a todos capazes de habitá-los, e no bojo dos quais nos formamos e reconstituímos” (p. 82). O autor diz ainda que as obras criadas a cada geração, objetos que se apresentam em diversas modalidades de criação artística, são objetos transformacionais compartilháveis e permanentes que oferecem para os indivíduos de sua própria geração e para as gerações posteriores, recursos simbolizantes que o indivíduo não poderia oferecer a si mesmo. Essa ideia nos leva à concepção de que as experiências estéticas vividas no encontro com tais objetos são encontros com “objetos transformacionais derivados” (Figueiredo, 2014, p. 19). Para configurar uma teoria geral do cuidado a partir de uma ótica psicanalítica, se faz necessária, segundo Figueiredo (2014), a superação das antinomias que se estabeleceram ao longo da constituição do pensamento psicanalítico, como: paradigma da pulsão


Somos neste livro de Janderson Farias Silvestre Ramos convocados a uma viagem teórico-poética com palavras que nos acolhem com delicadeza para entender a experiência estética e seu potencial de transformação. Seguimos acompanhados por Freud, Bollas, Meltzer, Klein, Winnicott, Gilberto Safra, Luís Claudio Figueiredo, Nelson Coelho Jr. O autor auxilia-nos a adentrar num pensamento complexo por meio de experiências diversas: um livro autobiográfico, uma série, um fragmento clínico, a fala sensível de uma poetisa. Um mergulho na experiência estética desde a constituição precoce do psiquismo, propiciadora de encontros posteriores nos quais vibram laços vitais, à potência dos objetos artísticos. Esta obra é um convite a psicanalistas e psicólogos, mas estende-se a todos que se interessam por fenômenos estéticos: “lugares de espera que mantêm aberto o horizonte do encontro”.

–F átima Flórido Cesar Psicanalista com pós-doutorado em Psicologia Clínica pela PUC-SP e pela USP

série

PSICANÁLISE CONTEMPORÂNEA Coord. Flávio Ferraz PSICANÁLISE


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook