PSICANÁLISE
Marco A. C. Albuquerque
Artesanias psicanalíticas Ensaios teóricos e clínicos
Artesanias psicanalíticas
Artesanias psicanalíticas Ensaios teóricos e clínicos
Marco A. C. Albuquerque
Artesanias psicanalíticas: ensaios teóricos e clínicos © 2026 Marco A. C. Albuquerque Editora Edgard Blücher Ltda. Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenação editorial Rafael Fulanetti Coordenação de produção Ana Cristina Garcia Produção editorial Maísa Kawata Diagramação Thiago Cordeiro Preparação de texto Edgar Costa Revisão de texto Henrique Torres Capa Thiago Cordeiro Imagem da capa iStockphoto
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570
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Albuquerque, Marco A. C. Artesanias psicanalíticas : ensaios teóricos e clínicos / Marco A. C. Albuquerque. – São Paulo : Blucher, 2026.
Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.
Bibliografia ISBN 978-85-212-3390-9 (Impresso) ISBN 978-85-212-3388-6 (Eletrônico – Epub) ISBN 978-85-212-3389-3 (Eletrônico – PDF)
É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.
1. Psicanálise. 2. Teoria psicanalítica. 3. Clínica psicanalítica. 4. Complexo de Édipo. I. Título.
Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.
288 p. : il.
CDU 159.964.2 Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise CDU 159.964.2
Agradecimentos
Minha gratidão aos meus professores de medicina, psiquiatria e psicanálise, aos amigos, colegas e alunos com quem aprendo diariamente sobre a vida e a complexidade dos pensamentos e afetos, e a todos os pacientes que me permitem seguir aprendendo com eles no processo único de cada dor e cada tratamento. Um agradecimento especial à minha mulher, Marlise, e ao meu filho, Diego, pelo amor e pela compreensão na vida e na profissão, pelo carinho, cuidado e apoio constante, sem os quais estudar e trabalhar seria bem mais difícil. Um agradecimento póstumo aos meus pais, Clarimundo e Cândida, que no início não sabiam o que era psicanálise e, mesmo sem saber, me incentivaram e acreditaram que eu poderia praticá-la com dedicação, criatividade e alguma competência.
Sumário
Prefácio – Os horizontes da clínica: entre a estrutura e o sentido Jacques Stifelman
9
Introdução
21
1.
“Porque eu sonho eu não o sou”
39
2.
Aspectos psicanalíticos do transtorno de pânico
57
3.
Origens, estruturação e destinos do complexo de Édipo na relação entre pai e filho
81
As ideologias e os estados mentais ideológicos na prática clínica
107
Estruturas não neuróticas e o tratamento de estados não representados da mente: particularidades clínicas e técnicas
125
6.
Melanie Klein ainda hoje
159
7.
Os ritmos psíquicos na relação entre pais e filhos
185
8.
Psicanálise e racismo: qual é a cor do outro?
195
4. 5.
8 artesanias psicanalíticas
9.
Algumas observações sobre as origens do ego e seus ideais
217
10. Paternidade, função paterna e função terceira
235
11. Privação extrema, perda da confiança básica e a escuta da dor irrepresentável
263
Prefácio Os horizontes da clínica: entre a estrutura e o sentido
Nesta obra, o leitor é convidado a percorrer uma cartografia da mente que se recusa a aceitar o sofrimento mental como matéria inerte ou lista de sintomas. Em vez de reduzir a vida psíquica a meros desequilíbrios neuroquímicos, o autor a trata como uma obra em construção: o esforço silencioso e muitas vezes desesperado da mente para sobreviver, simbolizar e encontrar um mínimo de coerência onde, tantas vezes, só há caos. O percurso inaugura-se com as contribuições de Melanie Klein, que deslocam radicalmente nossa compreensão do início da vida emocional. A “posição esquizoparanoide” deixa de ser pensada como um defeito de fabricação e revela-se como o primeiro arranjo possível do ego primitivo diante de angústias de aniquilação e perda. São estados mentais extremos, mas necessários – o alicerce sobre o qual se erguerão, a partir daí, formas mais elaboradas de vínculo, pensamento e simbolização. Essa jornada de compreensão da obra psíquica ganha nova dimensão ao integrarmos o pensamento de Wilfred Bion. Ao tratarmos do Transtorno de Pânico, somos transportados para além da simples descrição fenomenológica e dos protocolos farmacológicos.
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O pânico é compreendido como a experiência limite de um colapso da capacidade de pensar: um transbordamento de elementos brutos que a mente, em sofrimento, ainda não logrou transformar em narrativa. É o “terror sem nome” que clama por um aparelho de pensar – em si mesmo ou no outro – que lhe devolva a dignidade da existência. É fundamental destacar que esta investigação não ignora os pilares da psiquiatria contemporânea baseada em evidências. Ao contrário, esta obra reconhece na ciência médica e em seus recursos – diagnósticos, classificações, psicofármacos – a base de segurança necessária para restaurar um mínimo de estabilidade ao paciente. Contudo, o autor nos alerta para um equilíbrio ético indispensável: se a medicina nos oferece a precisão para tratar a doença, é a psicanálise que nos impede de perder o sujeito que sofre. Como Hemingway lucidamente revelou sobre sua própria cura técnica, o banimento de um sintoma sem a compreensão de sua origem pode resultar em um esvaziamento emocional tão grave quanto a própria enfermidade. O terceiro capítulo nos conduz à grande encruzilhada pela qual todo ser humano, queira ou não, é obrigado a passar. Em “Origens, estruturação e destinos do complexo de Édipo na relação entre pai e filho”, o autor nos oferece algo raro na literatura psicanalítica: a paciência e a generosidade intelectual de quem conduz o leitor pela mão por meio de cada passagem sombria e de cada bifurcação desse território que Freud mapeou, mas não esgotou. O capítulo se inaugura com Geovani – um homem de 40 anos que deixou o pai morrer sem um gesto de socorro e que acorda em suor quando sonha que ele ainda está vivo – e essa abertura nos diz imediatamente que não estamos diante de uma revisão teórica abstrata, mas de uma investigação nascida da clínica, onde o Édipo não é um mito antigo, mas uma ferida que continua sangrando no presente de cada sessão. A contribuição central do capítulo é a distinção, ri-
Introdução
A psicanálise nasceu da clínica, do interesse de Freud em compreender e tratar os fenômenos mentais com expressão somática, chamados de histéricos no final do século XIX. Isso o forçou a imaginar e teorizar a respeito das queixas e sintomas que escutava no consultório, levando a insights originais, que mudaram a forma de compreender o ser humano do século XX em diante, não só no campo dos sintomas, mas na vida em geral, tanto a individual quanto a grupal e social. Nesse sentido, a psicanálise foi descrita por ele como um procedimento para a investigação de processos mentais inacessíveis por outros modos, um método para o tratamento de distúrbios neuróticos e seu desejo de que ela se constituísse em uma nova disciplina científica. Uma quarta finalidade surgida mais adiante foi denominada de “psicanálise aplicada”, isto é, a teoria psicanalítica aplicada à análise crítica de outros enquadres que não o de uma sessão de análise como fenômenos da cultura humana, como a arte (em todas as suas formas), a ciência, o esporte, a política, o comportamento das massas etc.
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O primeiro e o segundo itens descritos por Freud (procedimento investigativo e método de tratamento) parecem ser interdependentes e indissociáveis, já que a investigação da mente e de seu funcionamento pela psicanálise necessita da articulação com a prática clínica e a reflexão sobre o que acontece nela, permitindo novas teorizações, e estas, por sua vez, levando ao desenvolvimento de novas técnicas (Melanie Klein e a técnica do jogo, Winnicott e o desenho conjunto etc.) e novas maneiras de escutar o paciente, diferentes do modelo clássico. As ideias em cada capítulo giram em torno desse eixo central, tendo como base a articulação necessária entre teoria e prática clínica, dois pontos de vista diferentes mas convergentes, buscando ligar as teorias que nos permitem a investigação metapsicológica da mente e seus processos inconscientes com a prática clínica, lugar em que acontecem as vivências que permitem que o processo psicanalítico aconteça. Nunca é demais lembrar que a psicanálise é um processo artesanal, não industrial. Essa busca da compreensão dos fenômenos dinâmicos inconscientes dos nossos mundos, tanto o interno (a fantasia, que dá colorido à realidade psíquica) quanto sua relação com o externo (com a realidade factual, objetiva), é o que caracteriza a psicanálise e o tratamento psicanalítico, um processo geralmente longo e trabalhoso, mas recompensador, pois nos permite vermos a nós e ao mundo com outros olhos, na forma de um modelo tridimensional composto por muitas camadas. Algumas dessas camadas serão conhecidas, outras permanecerão secretas para sempre. Embora o termo “psicanálise” pareça dizer respeito a uma única entidade, o conhecimento psicanalítico não se traduz em uma disciplina monolítica pronta e acabada. Esse conhecimento é mais bem compreendido como um somatório de vários saberes teóricos e técnicos a respeito do campo psicológico, oriundos da prática clínica e do pensamento sobre essa prática. Esses diferentes saberes
1. “Porque eu sonho eu não o sou”1
A psicanálise de crianças foi uma possibilidade intuída, mas deixada inexplorada por Freud, cujos insights criativos e originais sobre esse período foram fruto principalmente de inferências sobre a infância a partir da análise de adultos e de sua autoanálise. Mesmo o pequeno Hans não foi tratado diretamente por Freud, que supervisionava o pai da criança à distância, daí extraindo informações valiosas para a formulação de hipóteses sobre a sexualidade infantil, a partir dos sintomas do menino (Freud, 1909). Com a evolução da teoria e da técnica psicanalítica, esse vasto campo foi também se desenvolvendo, tendo como pioneira Melanie Klein, que tratou crianças dentro da técnica analítica freudiana2 com o auxílio do brincar como forma de obter da criança comunicações e compreensão sobre seus conflitos, mesmo em idades
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Trabalho original publicado em Psicanálise – Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, 3(2), 2001.
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Com o estabelecimento de um setting analítico, com o uso de interpretações, com atenção flutuante do analista às produções das crianças na forma de brincadeiras, equivalentes à associação livre de Freud.
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bem precoces, nas quais havia o predomínio da comunicação não verbal, ou extraverbal, como se poderia chamar. Anna Freud também se dedicou a esse campo, porém com uma concepção teórica muito diferente de Klein, propondo um processo que se poderia chamar de mais educativo do que analítico, motivo de grandes e conhecidas controvérsias entre elas e suas diferentes abordagens. A partir do que observava no tratamento analítico de crianças, Klein (1991) formulou algumas hipóteses sobre as ansiedades e os mecanismos mais arcaicos da mente humana, presentes em estágios muito iniciais do desenvolvimento, desde os primeiros meses de vida do bebê. Para ela, estas ansiedades primitivas têm características encontradas nas psicoses (daí a origem da expressão “ansiedades psicóticas”), e a presença delas força o ego a desenvolver defesas para lidar com elas e processá-las. M. Klein descreve essas defesas mais típicas do ego primitivo, como a cisão (de impulsos e de objetos), a idealização, a negação da realidade (interna e externa), a onipotência e o abafamento de sentimentos. Essa constelação defensiva pertencia ao que Klein chamou de posição esquizoparanoide, um estado mental em que predominavam – além das defesas citadas – os sentimentos paranoides, oriundos de uma ansiedade e de uma culpa com características basicamente persecutórias. Tentando, nessa época, ser fiel à ideia de Freud a respeito dos pontos de fixação da libido, ela situou nesta fase inicial da vida humana os pontos de fixação das doenças mentais mais graves. Sabemos que essa demanda, por sua vez, tem se tornado cada vez mais significativa nos consultórios psiquiátricos e psicanalíticos, o que reforça a importância de atentarmos para estas ansiedades e defesas mais primitivas no atendimento de nossos pacientes, sob pena de, sem sua compreensão e abordagem adequada, não tocarmos em aspectos decisivos para o tratamento. Nesse trabalho ela também lançou o conceito fundamental de identificação projetiva, verdadeira revolução na teoria e na técnica,
2. Aspectos psicanalíticos do transtorno de pânico1
Alguns autores psicanalíticos descrevem situações de pânico em seus pacientes, em geral relacionadas a estados mentais aflitivos, que afloram em momentos de estresse ou rompimento de um equilíbrio defensivo até então utilizado com sucesso. A psiquiatria, por sua vez, classificou e circunscreveu o diagnóstico psiquiátrico de síndrome do pânico nos últimos anos, porém apoiada num referencial teórico bastante diverso, de cunho fenomenológico, com acentuada ênfase nos aspectos biológicos e comportamentais das doenças mentais. Assim, relega os fatores psicológicos a elementos acessórios ou meros desencadeantes da crise de pânico, não atribuindo importância a fenômenos intrapsíquicos inconscientes como estando ligados etiologicamente às crises de pânico, porque simplesmente não os considera em seu referencial teórico e técnico. Num primeiro olhar sobre essa diferença pode-se dizer que a psicanálise, como campo de investigação e abordagem dos complexos aspectos da vida mental inconsciente, nunca dedicou ao pâ-
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Trabalho original publicado em Psicanálise – Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, 5(1), 2003.
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nico o status de uma doença mental, mas sinaliza que, como sintoma, ele pode ser o indicador de que um movimento importante está se processando no mundo interno do sujeito, nem sempre de forma negativa. Penso que seria interessante, para melhor esclarecer esse contraste, uma breve revisão de como a psiquiatria atual define as crises de pânico. Estas são descritas como fazendo parte de um transtorno, em geral caracterizado por episódios agudos de terror acompanhados de uma súbita barragem de sintomas físicos, como batimentos cardíacos acelerados ou palpitações, dor torácica, tonturas, náuseas, dificuldade respiratória, calorões ou calafrios, sudorese, formigamentos ou perda de sensibilidade nas mãos, distorções perceptuais ou sensações de estar como num sonho, medo de perder o controle e fazer algo embaraçoso, medo de morrer e sensação de morte iminente. Em relação às causas, as pesquisas sugerem que o transtorno de pânico tem componentes biológicos e psicológicos em interação e que alguma vulnerabilidade genética pode estar envolvida. Estudos sugeriram que pessoas com transtorno de pânico teriam uma tolerância mais baixa às respostas fisiológicas e psicológicas normais ao estresse. Alguns pesquisadores teorizam que alterações nos mecanismos de adaptação poderiam ser produto de repetidos estresses em indivíduos predispostos, levando eventualmente ao transtorno de pânico. Pesquisadores também sugerem que pessoas com transtorno de pânico podem não ser capazes de utilizar suas próprias substâncias redutoras de estresse. Pode ser também que receptores neuronais que captem essas substâncias tenham um funcionamento anormal em pessoas com transtorno de pânico. É preciso, no entanto, ter em mente que o que é chamado de “psicológico” não se refere necessariamente, como estamos acostumados a pensar em nosso meio, à psicologia psicanalítica, ou metapsicologia, para usar um termo utilizado por Freud para di-
3. Origens, estruturação e destinos do complexo de Édipo na relação entre pai e filho1 Origens, estruturação e destinos do complexo de Édipo...
Geovani é um homem de cerca de 40 anos. Quando seu pai, em fase terminal de uma doença bastante grave, lhe pediu para que ficasse em casa, pois não estava se sentindo bem, ele não lhe deu ouvidos, viajando para outra cidade. Ao voltar, como seu pai tivesse piorado bastante, havia sido chamada uma ambulância para levá-lo a um hospital. Apesar de ser um rapaz forte, recusou-se a levar o pai no colo até a ambulância, dizendo com desprezo que, se dependesse dele, queria mesmo que o pai morresse, o que ocorreu menos de uma hora depois. Geovani tinha então por volta de 20 anos de idade e não sentiu a menor culpa, expressando grande alívio com a morte do pai e acrescentando que não perdeu uma noite de sono por causa disso. Ao contrário, seu pior pesadelo é quando sonha que o pai está vivo; nessas ocasiões acorda banhado em suor e muito ansioso.
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Trabalho original publicado em Psicanálise – Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, 13(2), 2011. Um agradecimento especial à psicóloga Gecelda A. Nunes da Silva, pela cedência do material clínico, proveniente de supervisão.
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Ele e o pai nunca foram próximos. O pai não queria que Geovani tivesse nascido e, embora o tenha registrado com seu sobrenome no cartório, parece nunca tê-lo registrado afetivamente como filho em seu mundo interno. Sua visão sobre o pai é de que este foi um homem duro, distante, severo, rígido e punitivo, por vezes muito agressivo e sádico, e que sua relação com ele era mediada apenas pelo dinheiro que necessitava dele, mais nada. O pai bebia bastante e, quando alcoolizado, maltratava sadicamente Geovani, o que o deixava com muita raiva e uma sensação de completa impotência e desamparo diante desse pai. Por outro lado, tinha ciúmes ao ver o pai conversando longa e amistosamente com seu irmão mais velho, o que aumentava seu sentimento de exclusão de uma relação amorosa com o pai. Em resposta ao tratamento que sentia receber do pai, uma figura importante do meio jurídico de sua cidade, atacava-o violentamente onde sabia que mais podia deixá-lo com raiva: desrespeitando e violando toda e qualquer forma de lei, com atos delituosos variados e destrutivos, péssimo desempenho escolar, com diversas repetências e expulsões de boas escolas por mau comportamento. Aos 10 anos de idade, já roubava o carro da família e dirigia, causando acidentes de trânsito em que o carro invariavelmente acabava destruído. Na adolescência apresentava um comportamento marcadamente antissocial, com diversas prisões por várias razões diferentes (dirigir sem habilitação, em excesso de velocidade, causando acidentes de trânsito com vítimas, disparar tiros de arma de fogo contra prédios, andar armado sem porte de arma etc.). Nenhuma dessas prisões acarretava qualquer punição para ele, uma vez que seu pai, pelo cargo e pela influência que tinha, o livrava na delegacia dos rigores da lei, embora em casa posteriormente o sentenciasse pesadamente, juiz e carrasco ao mesmo tempo, o que só fazia seu ódio por ele aumentar. Com esse comportamento, visava a expor o pai a situações vexatórias diante da sociedade local, na qual era bastante conhecido,
4. As ideologias e os estados mentais ideológicos na prática clínica1
Na globalizada diversidade multicultural, uma espécie de marca da vida moderna nas sociedades ocidentais, todos os tipos de crenças, costumes e ideologias parecem naturalmente justificados, ou vistos de forma politicamente correta como um mero exercício de liberdade pessoal, uma escolha tomada como consciente e fruto do livre-arbítrio, não necessariamente vinculada a significados psicológicos mais profundos. Tudo se tornou aceitável e pouco ou nada se questiona da função que os sistemas de pensamento e certas formas de agir no mundo podem desempenhar na dinâmica psíquica de uma pessoa, de um grupo, ou mesmo da sociedade como um todo. Prolifera na sociedade ocidental moderna uma atitude, individual e social, de um certo embotamento mental para os significados não manifestos. Como tudo está à vista, o que poderia ser símbolo transformou-se em ícone. Como consequência disso proliferam visões de mundo animistas, mágicas e racionalistas, que convivem entre si às vezes sem
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Trabalho original publicado em Psicanálise – Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, 16(2), 2014.
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qualquer contradição aparente e tornam-se objetos próprios para serem idealizados e consumidos, atacados ou defendidos, mas não para serem pensados e compreendidos. Assim, pessoas acreditam simultaneamente em florais de Bach, cristais egípcios da felicidade e do amor, búzios que predizem negócios milionários, em terapias de vidas passadas, nas igrejas universais e em outras nem tanto, no determinismo biológico, médico ou psiquiátrico, travestido de ciência, e assim por diante. Eventualmente até a psicanálise é vendida como parte do pacote que trará a felicidade desejada. No mercado persa das ideias, vende mais quem grita mais alto ou embrulha melhor seus pacotes. Talvez essa seja uma resposta necessária e defensiva contra a crescente complexidade da vida moderna e ao sem-número de estímulos que esta inflige ao aparelho psíquico, pois viver hoje parece vir se tornando cada vez mais algo fluido, complexo e sem a segurança das certezas de antigamente, em que os bons eram bons, os maus eram maus, Deus e o Diabo os dividiriam no Juízo Final, e assim imperava uma certa ordem milenar, diminuindo o caos da angústia e das incertezas. Freud, Galileu, Darwin, entre outros, complicaram essa ordem estabelecida de coisas, demolindo com suas ideias revolucionárias o narcisismo de quem se considerava regente de suas próprias emoções, no centro do Universo, à imagem e semelhança de Deus. Parece que desde então uma grande quantidade de angústia, fenômeno primariamente pessoal, vem sendo progressivamente liberada e experimentada no meio social, e vive-se em busca de neutralizá-la ou descarregá-la a qualquer preço. Uma das manobras defensivas utilizadas para lidar com essa angústia, em nível individual ou grupal, é o retorno ao pensamento mágico, a adesão a crenças irracionais ou seu inverso, a ideologias racionais que obturem a ferida narcísica das incertezas e produzam um estado mental/social ideal, em que as faltas possam ser justificadas, compensadas ou nem mesmo sentidas.
5. Estruturas não neuróticas e o tratamento de estados não representados da mente: particularidades clínicas e técnicas Estruturas não neuróticas e o tratamento de estados...
O conceito de estrutura, em psicanálise, se refere ao modo de organização das partes que compõem o nosso funcionamento mental, como na segunda tópica freudiana, também chamada de teoria estrutural da mente. Apesar de não serem utilizados com frequência por Freud os termos “estrutura” e “estruturas clínicas”, eles estão implícitos em sua obra e consagrados na prática psicanalítica há muitos anos. Em termos de estruturas clínicas, a psicanálise trabalhou classicamente com três grandes formas de estruturação do psiquismo. Neurose, psicose e perversão foram consagradas como estruturas mentais diferenciadas entre si, com base em suas características psicodinâmicas, nos conflitos que expressavam e em suas formas sintomáticas de expressão. A partir dos anos 1960, com Kernberg (1967), outra forma de estruturação somou-se a essas, chamada de organização borderline de personalidade; denominada por outros como estrutura não neurótica ou estados limítrofes. Ainda reina grande controvérsia sobre a existência dessa organização ou condição e quais seriam suas características. No entanto, essa quarta estrutura é reconhe-
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cida por diversos autores, dos quais, por questão de concisão, cito Lutemberg (2009) na forma descrita por Kernberg: “Condições limítrofes, clinicamente estabilizadas como ‘estruturas limítrofes’” (p. 90). Para Kernberg (1967), a organização de personalidade limítrofe é, resumidamente, caracterizada por falhas ou deficiências na formação do senso de identidade, uso predominante de defesas primitivas (cisão e identificação projetiva) e juízo de realidade prejudicado em situações de estresse. São pessoas que têm tendência a agir de modo imprevisível e sem consideração pelas consequências ou pelos demais, apresentam caprichos e variações de humor, com tendência a acessos de cólera e uma incapacidade de controlar os impulsos. Têm a tendência a adotar um comportamento briguento e, por isso, entram em conflito frequente com os outros, particularmente quando os atos impulsivos são contrariados ou censurados. Podem apresentar, além disso, perturbações da autoimagem e das preferências pessoais, dificuldades no estabelecimento de projetos de vida, uma sensação crônica de vazio, relações interpessoais intensas e instáveis (por isso a busca desesperada de algo ou alguém que o preencha, podendo ser uma relação interpessoal ou sexual, uso de substâncias, exercícios ou esportes em demasia ou perigosos etc.), e uma tendência a adotar um comportamento autodestrutivo, compreendendo tentativas de suicídio e gestos suicidas. Apesar de toda a discussão que se estabeleceu, desde meados do século passado, sobre a existência ou não de uma estrutura borderline de personalidade, considero esta como uma quarta estrutura psíquica, com características próprias e diferentes de outras entidades psicopatológicas, e que pode, inclusive, conter elementos das três outras estruturas (neurótica, psicótica e perversa), nas mais variadas combinações. Inclusive, uma das características encontradas na sexualidade de alguns pacientes borderline, a pro-
6. Melanie Klein ainda hoje1
Ela é um pouco tantã, só isso. Mas não há nenhuma dúvida de que seu espírito transborda de coisas muito interessantes. E ela tem uma personalidade encantadora.2 Joga pedra na Geni Joga pedra na Geni Ela é feita pra apanhar Ela é boa de cuspir (“Geni e o zepelim”, Chico Buarque)
Ainda hoje, depois de Freud, Melanie Klein é a psicanalista mais importante e mais influente, tanto no campo da teoria quanto no da técnica. Trouxe para a psicanálise uma fidelidade inicial às teorias freudianas, depois uma ampliação e expansão original dessas para, afinal, criar um corpo teórico e técnico próprio, um legado
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Trabalho original publicado, em coautoria com a Dra. Marlise Sandler Albuquerque, em Psicanálise – Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, 23(2), 2021.
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Assim Alix Strachey descreve Melanie Klein a seu marido, James Strachey (1985), que será o célebre tradutor e editor das obras completas de Freud, da Standard Edition.
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rico e significativo, que permitiu aos psicanalistas compreender e tratar pacientes anteriormente considerados não analisáveis, ou com aspectos narcisistas e regressivos que, antes dela, não seriam passíveis de análise com as ferramentas originais oferecidas pelo criador. Ela deu origem a um pensamento psicanalítico de grande riqueza e profundidade, no qual a teoria das relações entre objetos foi formulada e desenvolvida por alguns de seus discípulos mais próximos, como Ronald Fairbairn, Hanna Segal, Paula Heimann, Wilfred Bion, Donald Meltzer, Herbert Rosenfeld, entre outros. Suas teorias modificaram as concepções de ansiedade, introduziram a riqueza da fantasia inconsciente, da presença e das relações entre objetos internos, a teoria das posições mentais (posição esquizoparanoide e posição depressiva), a revisão da teoria dos instintos (a serviço não mais da descarga, mas da busca do objeto) e do conflito edípico, com a descoberta de um complexo de Édipo anterior à época descrita por Freud, assim como a existência de um superego precoce, o conceito de inveja associado à pulsão de morte e a noção teórica e técnica fundamental da identificação projetiva. Todos esses conceitos, tão inovadores quanto fundamentais, foram retomados e ampliados pelos que se seguiram, enriquecendo o acervo das ideias psicanalíticas e o alcance da técnica. Por ter entendido mais claramente do que qualquer pessoa a angústia, e por ter elegido a transferência, os afetos e a fantasia como territórios privilegiados da experiência analítica, ela fez da psicanálise uma arte de cuidar da capacidade de pensar. Melanie Klein é considerada a criadora da psicanálise de crianças, fato que por si só a coloca num patamar diferenciado. Não bastasse essa importância, ela refundou, depois de Freud, a psicanálise de adultos, permitindo com sua teoria e técnica a análise dos aspectos mais primitivos da mente, inacessíveis até então, o famoso leito de rochas intransponível das neuroses narcísicas, re-
7. Os ritmos psíquicos na relação entre pais e filhos1
Um antigo professor de psiquiatria contava que um estudo mostrou que ver um bebê fazia dilatar a pupila das mulheres, mesmo as que não tinham filhos, mas não dilatava a pupila dos homens. Até que estes se tornassem pais, porque daí em diante a visão de um bebê produzia a mesma dilatação pupilar que ocorre nas mulheres. Até o nascimento do meu filho, eu me achava um pouco surdo e atribuía isso aos anos passados escutando rock-and-roll em volume alto, um efeito colateral inevitável do uso do metal pesado do Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple e outros. Depois que ele nasceu, um breve suspiro ou um leve gemido, no quarto ao lado, onde ficava o berço dele, era suficiente para me acordar e prestar atenção, ver se estava tudo bem com ele. Minha audição foi restaurada como que por magia. A dilatação da pupila ou a melhora da audição não vêm de alguma instância inconsciente reprimida, mas daqueles aspectos
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Palestra proferida no VII Encontro Gaúcho sobre o pensamento de Donald W. Winnicott, sobre o tema “Núcleo rítmico: A mãe, o bebê e o processo de criação”. Porto Alegre, 16 a 19 de junho de 2021.
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orgânico-sensoriais, filogenéticos. Em condições normais, acontece uma ativação inédita de sensações, que vão desse sensorial sem nome ou forma ao representável psiquicamente, aquilo que então pode ser nomeado, verbalizado. São coisas que o “tornar-se pai” traz para a vida de um homem, numa nova relação que inicia com um outro que é outro, mas ao mesmo tempo é um pedaço de si mesmo. Um pedacinho do próprio self, pesando quase quatro quilos, para ser cuidado, embalado, criado e impulsionado para um novo tempo, no futuro. Uso essas histórias para ilustrar como a relação do homem consigo mesmo, com o pai que traz internalizado dentro de si, pode vir a pautar, colorir e dar ritmo próprio à relação dele com o filho. Se pegarmos a grande história psicanalítica entre pai e filho, contada em Édipo Rei e conhecida de todos nós, deveríamos também ficar curiosos sobre aquelas coisas que a tragédia sugere, mas não nos revela. Por exemplo, a relação de Laio com o próprio pai muito boa não devia ser, uma vez que ele rapidamente, sem grandes traumas de consciência de que tenhamos notícia, atuou seus impulsos filicidas. Afinal, a predição do oráculo a respeito de um hipotético parricídio no futuro nada mais era que a projeção, invertida, da satisfação desses desejos do rei no presente. “Não sou eu que quero te matar, tu é que queres me matar.” Algo que não conhecemos fez com que ele não suportasse a presença do filho na sua relação conjugal. Hoje diríamos que Laio era – literalmente – um sujeito pré-edípico, que não suportou bem a triangulação, já que o nascimento do bebê Édipo criou um triângulo familiar e atrapalhou a relação diádica do rei com Jocasta. O criado, e não sabemos se ele era pai ou não, mas eu suspeito que sim, se recusou a atuar os desejos do rei, entregou o menino a um pastor de ovelhas para que o matasse, mas este, por sua vez, também rejeitou o infanticídio e o entregou a Pólibo, rei de Corinto, e à mulher deste, Merope, pois não tinham descendentes.
8. Psicanálise e racismo: qual é a cor do outro?1
O racismo é um fato histórico, entranhado na história da humanidade há centenas de milhares de anos. O primeiro fenômeno racista de que temos conhecimento veio dos estudos que mostram como os dois grupos principais de hominídeos da época, Neandertais e Homo sapiens conviveram por algum período, talvez por cerca de 50 mil anos, e nesse período de existência conjunta tiveram disputas nada pacíficas. Portanto, há cerca de 100 mil anos ou mais, raças diferentes de hominídeos lutaram pela supremacia da espécie e pelo domínio de territórios, com a vitória dos Homo sapiens, como já sabemos. Mais recentemente, no século XX, aconteceu uma das experiências racistas mais destrutivas já conhecidas na história, o nazismo, alimentada pela falácia da supremacia da raça ariana perante as demais. Depois dele já ocorreram outros genocídios e “limpezas étnicas”, a mais recente sendo a da Guerra da Bósnia, nos anos 1990.
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Trabalho original publicado em Psicanálise – Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, 23(1), 2021.
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O Brasil é um país multirracial e vivencia o fenômeno do racismo como qualquer outra nação com essa característica. Como psicanalistas temos a possibilidade de um olhar diferenciado, com a visão de mundo da psicanálise, sobre esse tema do nosso cotidiano. Rasmussen e Salhani (2010) dizem que: A ideia de uma sociedade pós-racial é uma ilusão. O racismo é um problema social e psicológico extraordinariamente tenaz que, tanto nas formas históricas como contemporâneas, manifesta uma teia de destrutividade que se estende a todos os alcances da sociedade. Ele está inserido em instituições sociais como educação, emprego, moradia, imigração, saúde, política, mídia e justiça criminal. Nenhuma estrutura social ou domínio de ação e interação social está livre de racismo ou impermeável a seus efeitos insidiosos. (p. 491)
Esses autores concordam com a opinião dominante de que a raça não tem nenhum status ontológico (natural ou objetivo) e que a diferenciação da família humana em categorias classificadas por formas de características fenotípicas superiores ou inferiores é falsa; não existem tais distinções na realidade. Além disso, utilizar o conceito de raça, como é feito no uso cotidiano, não lhe confere uma realidade e legitimidade. Mas os autores reafirmam a natureza destrutiva do problema, sua origem psicológica, bem como sua infiltração nos mais diversos substratos da sociedade. Pode haver racistas e racismo sem raça? A posição dos estudos atuais é a de que o racismo, em seus fundamentos, é uma ideologia que consiste em um ou mais dos seguintes tópicos: 1) uma prática que naturaliza as identidades humanas com base em categorias ou conceitos raciais; 2) uma ação social que produz uma alocação injusta de recursos socialmente valorizados, baseada em tais significados; 3) uma estrutura social que reproduz tais alocações; 4) o
9. Algumas observações sobre as origens do ego e seus ideais1
A psicanálise tem um problema insolúvel, com o qual temos convivido durante seus mais de cem anos de existência, que é a falta de uma terminologia uniforme, em que as coisas sejam nomeadas com precisão e alguma coerência. Isso inclusive é uma das coisas que torna difícil sua aceitação no campo científico, mesmo como uma ciência inexata. Do que mesmo estamos falando quando falamos em nascimento do Eu? Do Eu como sinônimo de ego, instância psíquica, como alguns preferem? Ou Eu como sinônimo de self, algo mais total e abrangente no nosso modo de funcionamento? Em minha opinião, o termo “Eu” não é uma boa tradução para ego porque a palavra “Eu”, com E maiúsculo e em português, remete à ideia de que é ele que nos confere uma identidade enquanto sujeitos, uma “Eu-dade” (em contraponto a “alter-idade”). O problema não é apenas semântico, é conceitual, porque Eu e ego são conceitos teóricos diferentes em psicanálise.
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Trabalho original publicado em Psicanálise – Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, 24(1), 2022.
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Não vou me deter em discutir as questões relativas à tradução da palavra “Ich” do alemão, portanto vou usar a palavra “self ” no sentido winnicottiano, para designar a totalidade do ser humano, da qual o ego é apenas parte, não o todo. Quando me referir ao Eu enquanto instância psíquica, usarei o termo que a versão brasileira da Standard Edition já tornou clássico, o ego. Ideais, que Freud atribuiu ao ego, são uma característica própria da espécie humana, algo que nos distingue dos animais irracionais. Paradoxalmente, no entanto, suas raízes não são completamente racionais, porque tudo em nós é mais complicado, tudo tem um duplo estatuto, que vem em pares antagônicos, numa constante interação dialética: 1. Consciente × inconsciente. 2. Representável × sensorial. 3. Racional × emocional. 4. Real × ideal. 5. Ego × self. Onde são gerados e a quem pertencem os ideais, ao ego ou ao self? Uma resposta teórica a essa pergunta será proposta a seguir. Não é meu objetivo fazer uma ampla revisão do conceito ou de onde vêm os ideais, mas podemos descrever o self como aquilo que define a pessoa na sua individualidade e subjetividade. Para Winnicott e outros autores, o self designa a pessoa enquanto lugar de atividade psíquica, ou seja, o self é o produto, o resultado de processos dinâmicos que asseguram a unidade e a totalidade do sujeito. O self não é o ego, mas a pessoa que é “Eu”, que possui uma totalidade baseada no funcionamento do processo de maturação. Ao mesmo tempo, o self é constituído por várias partes, que se unem desde uma direção interior para uma exterior no curso do funcionamento do processo de desenvolvimento e maturação, ajudado – na melhor das hipóteses – por um meio ambiente apoiador e facilitador.
10. Paternidade, função paterna e função terceira1
Este ensaio nasceu a partir de um convite para uma palestra sobre função paterna e função terceira, esta última proposta no trabalho intitulado “Desconstruindo o conceito de função paterna: um paradigma interpelado”, da Dra. Leticia Fiorini, uma importante psicanalista argentina, ex-presidente da APA e atual assessora do Comitê de Publicações da IPA.2 Para quem ainda não conhece esse texto, nele a autora propõe o fim do conceito de função paterna e sua substituição pelo nome de “função terceira”, uma modificação da psicanálise para que esta se adapte às novas realidades socioculturais, ao que ela chama de “novas configurações” e “novas subjetividades”, quando o homem não está presente no casal parental.
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Trabalho original apresentado em palestra no Instituto Piera Aulagnier, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, agosto de 2023.
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No Brasil ele está publicado em Revista de Psicanálise da SPPA, 22(2), 479-491. (Agosto de 2015).
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Não pretendo fazer uma defesa da manutenção do conceito nem da importância da paternidade e da função paterna, pois estão amplamente provadas, não só pela história e pela psicanálise, mas por outros aportes científicos também. O ônus da prova cabe a quem quer “desconstruir” o conhecimento racional e científico acumulado e construir outra coisa em seu lugar. E a autora, no referido trabalho, não chega nem perto de conseguir a desconstrução que pretende, pelo menos não do ponto de vista teórico, que é muito fraco. Mas a tentativa de passar um novo conceito em psicanálise não cai do alto do céu azul para dentro de um texto. Ele sempre é fruto do espírito do tempo (Zeitgeist), ou seja, de um meio social e cultural de grupos ou sociedades numa determinada época, captado e posto no papel por uma ou mais pessoas. Portanto, para compreendermos em que universo psicanalítico, filosófico ou epistemológico a ideia de uma “função terceira” nasce e busca se validar, primeiro será preciso termos uma visão mais ampla do contexto em que ela surge. Vou pedir um pouco de paciência ao propor que me acompanhem nessa linha de pensamento, do mais geral para o mais específico, do mais filosófico para o mais psicanalítico. Essa digressão será importante porque pretendo demonstrar que a proposta dessa nova função, mesmo vindo de uma psicanalista, é filosófica, mas não é psicanalítica, e suas bases estão alicerçadas no pensamento dos filósofos pós-modernos em vez dos autores psicanalíticos. Nunca é demais lembrar que um texto escrito por um psicanalista não é automaticamente um texto psicanalítico. Para fins de melhor compreensão, vou dividir os elementos da minha análise em sete tópicos: 1) O surgimento do conceito no pensamento pós-moderno e os efeitos do pós-modernismo sobre a psicanálise; 2) O conceito de função em psicanálise; 3) Quando a função falta; 4) A proposta teórica de uma “função terceira”; 5) O
11. Privação extrema, perda da confiança básica e a escuta da dor irrepresentável1 Privação extrema, perda da confiança básica...
Quem foi torturado, permanece torturado. (Jean Améry, sobrevivente do Holocausto, 1980)
O conceito popular de trauma vem do campo da medicina, no qual significa uma lesão que produz algum rompimento de barreiras, desde o rompimento celular microscópico com o impacto de forças físicas externas, mesmo que não causem laceração cutânea, até aquelas em que um trauma físico tem energia suficiente para produzir um rompimento da barreira da pele. Do ponto de vista psicanalítico, desde as primeiras ideias de Freud, muito se escreveu sobre o trauma a partir de diversas perspectivas teóricas, um tema complexo e que já foi revisado amplamente. Nos estudos que contam com material clínico, este costuma ser de pacientes em análise, o que não é o caso neste trabalho, em que o diferencial é a escuta psicanalítica de pessoas com história de eventos traumáticos sérios, realizada em um enquadre “extramuros”, neste caso, na atenção primária à saúde, descrevendo os
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Trabalho original publicado em Psicanálise – Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, 26(2), 2024.
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efeitos do trauma em um grupo de pessoas que não teriam possibilidades de uma escuta e uma abordagem de orientação psicanalítica, por não terem o conhecimento, o desejo ou condição de pagar uma análise ou uma terapia de orientação psicanalítica. O material clínico vem do atendimento que presto a pessoas de baixa renda, muito pobres ou em situações de miséria, morando em lugares insalubres, com configurações familiares frequentemente desajustadas, em que predominam a pobreza objetiva, subjetiva e afetiva, um controle deficitário dos impulsos, levando a agressividade, violência e, com frequência, histórias de abusos físicos e sexuais. Portanto, um grupo de pessoas já submetidas a um contexto de privações sociais e econômicas, potencialmente traumáticas. Atendo a esses pacientes em postos de saúde pertencentes a um grande hospital público do Sistema Único de Saúde (SUS). Assim, além da prática privada, em que atuo como psicanalista e psicoterapeuta de orientação psicanalítica, um turno em cada dia de trabalho é atuando como um profissional de referência em saúde mental em um serviço público de atenção primária à saúde, atendendo em localidades pobres na periferia da cidade. Esse é um trabalho que me coloca em contato diário direto com um traumático de outra natureza, acompanhado de sofrimentos mentais bem mais severos, de graves e destrutivas consequências sobre o aparelho psíquico, numa população que já sofre das mais diversas carências e privações. Antes de discorrer sobre o material clínico, faz-se necessário um breve levantamento sobre alguns aspectos teóricos, que serão relevantes para compreender as pessoas com traumas e dor psíquica persistente. A ideia de um evento traumático externo produzindo sofrimento psíquico está na raiz da psicanálise, desde os primórdios de
O livro é composto por trabalhos psicanalíticos e ensaios que abordam a teoria e a técnica, tanto no trabalho psicoterápico psicodinâmico quanto na prática psicanalítica. As ideias em cada capítulo buscam ligar a investigação metapsicológica da mente e de seus processos inconscientes, com a prática clínica na sala de análise, lugar em que acontecem as vivências transformadoras. O fio condutor que une esses trabalhos ao longo das diferentes épocas em que foram escritos é a escuta psicanalítica que orienta a abordagem clínica cotidiana, conectada com as teorias que as embasam, das clássicas às contemporâneas. Destina-se a psicanalistas, psiquiatras, psicólogos, psicoterapeutas e a todos os profissionais que necessitam lidar com a compreensão mais profunda do ser humano no seu dia a dia.
PSICANÁLISE