Skip to main content

Andanças com Ferenczi

Page 1

Pereira | Martins | Moreno | Pereira | Macedo

O GBPSF é um grupo fundado em 2018 e do qual fazem parte psicanalistas de diversas regiões do Brasil, de diferentes gerações e com formações plurais. Em comum, há a curiosidade e o interesse pelas ideias de Sándor Ferenczi. A presente coleção traz ao leitor textos relevantes inspirados por seu pensamento.

Este terceiro volume da coleção dá sequência à construção da memória, agora escrita, da 14ª Conferência Internacional Sándor Ferenczi, que aconteceu em São Paulo, em 2024. Seus 20 capítulos foram organizados em quatro partes: • Por uma psicanálise decolonial • Experiência estética e corpos afetados • Política como testemunho

Coleção Sándor Ferenczi

Organizadoras

Adriana Barbosa Pereira Karla Patricia Holanda Martins Maria Manuela Assunção Moreno Marleide Soares Pereira Mônica Medeiros Kother Macedo PSICANÁLISE

Os temas são discutidos a partir do pensamento de Ferenczi, com destaque para uma de suas principais heranças: o compromisso empático com o testemunho. Como não se trata apenas do reconhecimento das catástrofes e dos traumas que nos assolam – apesar de isso não ser pouco –, os textos apontam também para a invenção de formas mais horizontalizadas de viver, apostando em relações de reconhecimento e cuidado com as diferenças que mobilizam constantes flexibilização e transformação da clínica e do pensamento psicanalítico.

• Clínica e territórios

Andanças com Ferenczi

Os textos que compõem Andanças com Ferenczi: territórios, estética e política têm um fundo comum: o reconhecimento dos efeitos psíquicos das diversas faces da violência, da exclusão e da subalternização intersubjetivas, sociais e climáticas.

A obra conta com a contribuição de 27 pesquisadores brasileiros e estrangeiros, que trazem uma significativa diversidade de estilos de escuta e interpretação da cultura diante das inquietações da psicanálise do nosso tempo.

Andanças com Ferenczi Territórios, estética e política

PSICANÁLISE

PEREIRA - Coleção Sándor Ferenczi - Andanças com Ferenczi.indd Todas as páginas

20/03/2026 19:33


ANDANÇAS COM FERENCZI Territórios, estética e política

Organizadoras

Adriana Barbosa Pereira Karla Patricia Holanda Martins Maria Manuela Assunção Moreno Marleide Soares Pereira Mônica Medeiros Kother Macedo

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 3

02/07/2026 17:17


Andanças com Ferenczi: territórios, estética e política © 2026 Adriana Barbosa Pereira, Karla Patricia Holanda Martins, Maria Manuela Assunção Moreno, Marleide Soares Pereira, Mônica Medeiros Kother Macedo (organizadoras) Editora Edgard Blücher Ltda. Coleção Sándor Ferenczi Coordenadores da coleção: Daniel Kupermann, Jô Gondar e Eugênio Canesin Dal Molin Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenação editorial Rafael Fulanetti Coordenação de produção Ana Cristina Garcia Preparação de texto Lígia Alves Diagramação Fabricando Ideias Design Editorial Revisão de texto Equipe editorial Capa Juliana Midori Horie Imagem da capa iStockphoto

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br

Andanças com Ferenczi : territórios, estética e política / org. Adriana Barbosa Pereira et al. – São Paulo : Blucher, 2026.

Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.

Bibliografia ISBN 978-85-212-2895-0 (Impresso) ISBN 978-85-212-3089-2 (Eletrônico – Epub) ISBN 978-85-212-3086-1 (Eletrônico – PDF)

É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora. Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 4

288 p. : il. – (Coleção Sándor Ferenczi)

1. Psicanálise decolonial. 2. Ferenczi, Sándor, 1873-1933. I. Título. II. Série. CDU 159.964.2 Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise   CDU 159.964.2

02/07/2026 17:17


Conteúdo

Apresentação

11

Adriana Barbosa Pereira, Karla Patricia Holanda Martins, Maria Manuela Assunção Moreno, Marleide Soares Pereira e Mônica Medeiros Kother Macedo

Parte I – Por uma psicanálise decolonial Com Ferenczi, por uma psicanálise decolonial Jô Gondar

19

“Comércio amigável com o mundo dos espíritos”: alteridade e permeabilidade entre os seres Thais Klein

33

O complexo de vira-lata: identificação com o agressor, auto-ódio e “pulsão de repouso” (Ruhetrieb) Daniel Kupermann

45

Parte II – Experiência estética e corpos afetados Entre a política e a poética: a perspectiva clínica de Ferenczi Hélia Borges

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 7

63

02/07/2026 17:17


8 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

Eu sou uma arara, eu sou um rio: experiência estética e testemunho diante da catástrofe Adriana Barbosa Pereira

73

Catástrofe e profecia: o corpo e a voz na paisagem do sertão cearense Karla Patricia Holanda Martins

85

Partilha da luta pela terra Heloiza Abdalla

101

Unland e a dimensão de testemunho na arte contemporânea de Doris Salcedo: interlocuções com a psicanálise Anelise Hauschild Mondardo e Ana Lúcia Mandelli de Marsillac

113

A cor e a catástrofe: uma leitura do traumático na socialização da mulher negra Bárbara Cesário Navega

127

O desmentido na repercussão de casos de assassinatos de crianças negras no Brasil Deane Barbosa de Jesus

137

Parte III – Política como testemunho Confusão de línguas entre o jurídico e o psíquico em mulheres que sofreram violência conjugal Fernando da Silveira, Aline Souza Martins e Julia Garcia Durand 151

“Identificação com o Agressor” a partir de Ferenczi: implicações individuais, comunitárias e sociais Judit Mészáros

163

A influência hipnótica dos líderes e a criação de uma realidade alternativa Endre Koritar

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 8

181

02/07/2026 17:17


conteúdo

9

Sonhar e resistir: uma leitura ferencziana das narrativas oníricas em Primo Levi Bibiana Massem Homercher e Mônica Medeiros Kother Macedo

201

Comunidades de luto: entre trauma e testemunho Dora Musetti de Campos

213

Parte IV – Clínica e territórios Andanças com Sándor Ferenczi pelas periferias de São Paulo: relato de uma experiência Marleide Soares Pereira

227

As linguagens da ternura e da paixão como componentes do espaço escolar: professor para além da função normativa Luiz Paulo dos Santos Monteiro e Marília Etienne Arreguy

239

A narração do impossível: autenticidade e complacência no trabalho com migrantes Andrea Ciacci

251

A experiência de tornar-se analista e os desafios desse percurso, a partir do conceito de catástrofe em Ferenczi Ricardo Cavalcante e Cinthia Oliveira

263

Um elogio à dissidência Caetano Rudá e Camila Flaborea

Sobre os autores

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 9

275

283

02/07/2026 17:17


Com Ferenczi, por uma psicanálise decolonial Jô Gondar

Gostaria de transmitir, na abertura da 14a Conferência Internacional Sándor Ferenczi1, o espírito que está nos movendo neste evento. Posso afirmar, de saída, que nossa proposta não é defender uma psicanálise ferencziana. Tanto a ISFN quanto o GBPSF são organizações inclusivas, formadas por analistas ou pesquisadores com diferentes formações que não estão subordinados a Ferenczi, mas encontram nele um companheiro de percurso e uma fonte de profunda inspiração. Ferenczi foi proscrito do meio psicanalítico a partir do início dos anos 1930, devido a todas as críticas que fez ao dispositivo psicanalítico e às inovações que propôs ao método, pensamento e clínica da psicanálise. Não havendo condições subjetivas, coragem ou vontade política de incluí-las no pensamento e no dispositivo psicanalítico, ele sofreu o que chamamos hoje de “cancelamento”. Uma dessas inovações se refere à libertação dos purismos, dos dogmatismos e das palavras de ordem que se impunham nas formações psicanalíticas. Ferenczi foi um adepto das misturas em diversos

1 Tratando-se da abertura de um congresso, foi mantido, na medida do possível, o tom oral da apresentação.

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 19

02/07/2026 17:17


20 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

planos: apreciava o que hoje chamamos de transdisciplinaridade, pensava que a psicanálise deveria se adequar às transformações sociais, políticas e subjetivas de cada época e propunha uma quebra de hierarquias, tanto na construção teórica quanto na clínica. Por isso mesmo, situá-lo num lugar de mestria, estabelecer um séquito de discípulos repetindo suas frases como mantras, favorecer uma adesão acrítica aos seus conceitos – isso seria trair a abertura que ele foi capaz de nos trazer. Nossa proposta é, ao contrário, desenvolver e levar mais longe a disposição para a diversidade que Ferenczi nos legou. A 14ª Conferência está sendo realizada no Brasil, um país onde o interesse por Ferenczi só tem crescido. O GBPSF começou com vinte pessoas na última Conferência Internacional, em Florença. Hoje somos mais de trezentos. Por que há tanto interesse por Ferenczi no Brasil, me perguntou um dia Judit Mészáros, principalmente entre os jovens? De fato, as inspirações criativas de Ferenczi aqui se expandem com facilidade. Talvez porque seu modo de pensar e praticar a psicanálise nos fale muito de perto e potencialize algo que é nosso. Isso não vale só para o Brasil, mas para todos os países do sul, onde a psicanálise está muito viva: nos consultórios privados e públicos, nas clínicas de rua, nos coletivos, nos hospitais, nas universidades. As ideias de Ferenczi podem nos ajudar a pensar e a exercer uma psicanálise adaptada ao nosso tempo e à nossa própria maneira – uma psicanálise com perspectiva decolonial. Mas como Ferenczi, um europeu, poderia nos fazer avançar na direção de uma decolonialidade? A questão é que a Europa nunca foi um bloco unívoco. O Império Austro-Húngaro, por exemplo, onde nasceram Freud e Ferenczi, era composto por diferentes Europas. Os Habsburgos austríacos tiveram um domínio de mais de 150 anos sobre a Hungria, e a violência dessa dominação deixou sequelas traumáticas não digeridas pelos húngaros. Pode-se entender que isso não fizesse questão para Freud; Ferenczi, contudo, tendo crescido num ambiente marcado pela opressão austríaca, experimentou a

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 20

02/07/2026 17:17


“Comércio amigável com o mundo dos espíritos”: alteridade e permeabilidade entre os seres Thais Klein

Ao chegar ao término desta travessia de três dias, marcada por discussões tão potentes e plurais, questiono-me: o que ainda resta ser dito? O silêncio elaborativo se apresenta como convite sedutor, mas, já que aqui estamos, concedamos ao verbo sua derradeira oportunidade. Minha intervenção se estrutura em três movimentos temporais (e outros ritmos mais sutis). O primeiro deles diz respeito ao momento que antecedeu o envio da proposta para o painel. Nessa conjuntura, havia pensado em dar continuidade a uma discussão que venho construindo sobre a ideia de alteridade na psicanálise em articulação com outros campos do saber, especialmente a antropologia (Klein et al., 2018; Klein & Vieira, 2024) e com o que podemos denominar, de maneira geral, epistemologias decoloniais (Klein et al., 2023). Ferenczi configura-se, no âmbito psicanalítico, como um interlocutor fundamental para esta investigação. Suas considerações sobre o utraquismo – as quais explorei em um dos encontros preparatórios deste congresso (Klein, 2025) – buscam estabelecer analogias transgressoras entre elementos aparentemente dissonantes, pertencentes a campos epistemológicos tradicionalmente segregados pela divisão moderna do saber. Esse entrelaçamento manifesta-se de modo

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 33

02/07/2026 17:17


34 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

paradigmático em Thalassa (Ferenczi, 2011), ensaio que nos lança em um espaço liminar de fusões e metamorfoses. Nele, Ferenczi opera uma verdadeira anfimixia teórica, dissolvendo as fronteiras entre biologia e psicanálise, humano e não humano, natureza e cultura – gesto que antecipa, em certa medida, as críticas contemporâneas ao pensamento binário ocidental. A transição para o segundo momento desta exposição começou a tomar forma quando atentei, na obra ferencziana, à inseparabilidade entre a dimensão epistemológica e a experiência analítica. O próprio título anunciado para esta fala – “Comércio amigável com o mundo dos espíritos” – foi tomado de empréstimo do Diário clínico (Ferenczi, 1990, p. 54), passagem que se revelou decisiva para expandir os horizontes desta reflexão. Mais do que um debate sobre fundamentos do conhecimento, esse trecho do Diário clínico me conduziu inevitavelmente à clínica como espaço privilegiado de encontros e desencontros com a dimensão da alteridade. Afinal, em Ferenczi (1990) a alteridade não é um conceito abstrato, mas uma experiência viva de permeabilidade entre os seres – condição fundamental para o trabalho com o trauma. É nessa fronteira porosa, onde sujeito e mundo se interpenetram, que se revela toda a potência (e dificuldade) de seu projeto clínico: “sentir com” simultaneamente como ato ético e epistemológico. No processo de escrita que antecedeu este colóquio, retornei a Thalassa (Ferenczi, 2011) em um movimento de imersão nas suas imagens fundamentais. Essa releitura revelou-se crucial para articular o que me parece nuclear em sua concepção de símbolo: uma tessitura complexa onde se entrelaçam, de modo indissociável, a experiência ontogenética e filogenética, ambas marcadas pelo signo da catástrofe. O reencontro com Thalassa despertou em mim uma constelação afetiva singular: do encantamento ao constrangimento – afetos que se revelaram fundamentais para estruturar o segundo tempo dessa comunicação. Percebo que, com certa frequência (e me

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 34

02/07/2026 17:17


O complexo de vira-lata: identificação com o agressor, auto-ódio e “pulsão de repouso” (Ruhetrieb) Daniel Kupermann

Introdução Em 1958, às vésperas da Copa do mundo da Suécia, antes de o Brasil ser campeão mundial pela primeira vez, Nelson Rodrigues – conhecido dramaturgo e cronista brasileiro, morto em 1980 – escreveu uma crônica intitulada “Complexo de vira-latas”, eternizando uma expressão que, dali em diante, funcionou como reveladora de uma certa configuração psíquica coletiva nacional. Para ele, o complexo de vira-latas seria o efeito da trágica derrota para o Uruguai no Maracanã, na final da Copa de 1950, seu trauma desencadeador (Rodrigues, 1958). Mas Rodrigues, grande desvelador da alma e da sexualidade brasileiras, sabia que não era apenas isso. Ele ilustra “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo” (p. 52). Em seu livro Complexo de vira-lata: Análise da humilhação brasileira, a filósofa Marcia Tiburi (2021, pp. 154-180) afirma que o complexo de vira-lata serve de “operador teórico para uma reflexão sobre o Brasil”, acrescentando que, a partir de uma análise do comportamento dos nossos jogadores, “ele constitui uma alegoria [...]

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 45

02/07/2026 17:17


46 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

do sentimento recalcado sobre a imagem que fazemos de nós mesmos [...] do modo de ser de sujeitos marcados pela colonização como matriz subjetiva”. De fato, o que é um vira-lata? Segundo o diagnóstico criado pelo cronista, o critério para o complexo seria a presença das seguintes características: pessimismo obtuso ou seu inverso, esperança frenética; falta de fé em si mesmo; sentimento de humilhação e humildade espetacular; dor de cotovelo incurável; pânico da desilusão; sentimento de inferioridade; “deixar-se tratar a pontapés” (Rodrigues, 1958, pp. 51-52). Bem, não são características estranhas ao que escutamos com frequência também em nossos consultórios. No sentido coloquial brasileiro, o vira-lata é um cachorro sem pedigree. Na linguagem politicamente correta com os pets dizemos “sem raça definida”. Ele é também usualmente chamado de “caramelo”, em alusão à cor predominante em sua pelagem misturada oriunda de outras raças. Desse modo, o vira-lata de Nelson Rodrigues nos remete ao problema da raça, da cor e, finalmente, do afeto da humilhação como fator bastante presente no processo brasileiro de subjetivação – considerando que o Brasil apresenta uma sociedade caracterizada por uma imensa desigualdade socioeconômica e racial –, mais evidente, na população subalternizada e segregada de modo geral: trabalhadores com baixa escolaridade, mulheres, negros, indígenas, nordestinos, população LGBTQIA+1.

1 Rodrigues pergunta: “Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade” (1958, p. 52). A referência à raça e à cor, nessa passagem, é explícita. Interessante cotejar com o fato de que, atualmente, craques brasileiros são alvo de racismo nos campos de futebol da Europa.

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 46

02/07/2026 17:17


Entre a política e a poética: a perspectiva clínica de Ferenczi Hélia Borges

Em geral, encontramos nos textos psicanalíticos elaborações sobre a temática da arte que se constroem a partir de uma analítica das expressões artísticas ou do próprio artista que, colocados no divã, se concentram em leituras interpretativas. Numa direção oposta, propomos oferecer aqui elementos para refletir sobre o que a arte, em sua dimensão sensível, pode nos dizer enquanto psicanalistas visando à clínica. A arte, pela lente dos pesquisadores deste campo, se caracteriza por produzir experiências que dirigem nossos sentidos para a tragicidade da vida, pois expressa em seu bojo a força de ruptura do já codificado, pelo encontro propiciado com novos modos de existência. As expressões artísticas, por acionarem forças sintônicas no encontro com o observador, tangenciam novas afecções, permitindo uma abertura no campo perceptivo. Tais experiências, como nos chama a atenção Susanne Langer, em seu livro Sentimento e forma (Langer, 2006), se constituem a partir da ideia de que o encontro com uma obra de arte viabilizaria mudanças na ordenação já semiotizada do campo simbólico. Desta maneira, podemos dizer que o fenômeno perceptivo – implicado no encontro entre o observador e as manifestações artísticas – detona um efeito de operação no campo simbólico. Esse efeito

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 63

02/07/2026 17:17


64 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

produz uma abertura para a recepção de signos imperceptíveis, signos alienados pelos assujeitamentos resultantes dos processos de subjetivação. Tais desvios teriam a capacidade de transformar a percepção, abrindo novas possibilidades existenciais. Nessa perspectiva, a arte como detonadora de possíveis, como lugar de favorecimento de gêneses, torna-se clínica e crítica ao derreter as linhas de contorno e constrangimento dos corpos, ativando as sensorialidades, produzindo movimento, deformando as formas. Na psicanálise, encontramos vetores de ressonância nas ideias trazidas sobre o modo como se constitui o sujeito pela leitura decolonial crítica ao modelo capitalista colonial/moderno. Ressaltam-se as contribuições de pensadores contemporâneos que reafirmam a produção do sujeito atravessado pelos fluxos das forças histórico-mundiais. Tais contribuições são fundamentais para pensar a respeito das reformulações necessárias às teorias sobre o sujeito na psicanálise, que portam, em repetição, os mesmos laços com as dimensões do poder. A ideia aqui não é procurar um caminho em oposição aos modelos de clínica psicanalítica cujos construtos teóricos redutores buscam, numa proposta hegemônica, apropriar-se como universais e “legítimos”, o que caracterizaria a ideia de descolonização. Mas como decolonização, que se estabelece não a partir de um discurso marginal em oposição ao estabelecido, levando em conta uma produção importante que se coloca na fronteira, transgressiva à lógica dominante. Tal perspectiva poderá resgatar espaços na clínica e, consequentemente, na teoria, para que potências singulares se manifestem em seus rearranjos sempre inaugurais (Borges, 2019). O artista Francis Bacon (1909-1992), sobre o pictural, se pergunta como a arte atinge o sistema nervoso, reconhecendo a implicação desta nas elaborações perceptivas (Deleuze, 2002). Nesse sentido, as formas expressivas da arte possibilitariam apreender a palpitação da

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 64

02/07/2026 17:17


Eu sou uma arara, eu sou um rio: experiência estética e testemunho diante da catástrofe Adriana Barbosa Pereira

Este trabalho dá continuidade às investigações sobre a potência da experiência estética como modo de “figurar o terror e sustentar o desejo”1 nas catástrofes psíquicas, políticas, sociais e ambientais. Neste escrito, a dimensão estética da experiência é pensada a partir dos conceitos psicanalíticos derivados dos estudos freudianos dos sonhos: condensação, deslocamento e figurabilidade. Nossa hipótese é que a força alucinatória dos sonhos, presente tanto na clínica no seu sentido estrito quanto na experiência estética com a arte, é capaz de sensibilizar sentidos em formas arcaicas de simbolização (Ferenczi, 1934). Segundo Ferenczi, “todo e qualquer sonho, ainda o mais desagradável, é uma tentativa de levar acontecimentos traumáticos a uma resolução” (1934/1992, p. 113). Nesse sentido, afirmamos que a função traumatofílica, ou seja, de “uma resolução e um domínio psíquico melhores” (p. 112), tanto dos sonhos quanto de outros processos estéticos, guarda uma potência curativa em nível individual e coletivo.

1 Subtítulo do livro organizado pela autora: Sonhar: Figurar o terror, sustentar o desejo (Zagodoni, 2021), a partir da coleção de sonhos Oniricopandemia (2020).

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 73

02/07/2026 17:17


74 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

Provocada pela proposta da 14ª Conferência Internacional Sándor Ferenczi em abordar a relação entre psicanálise, catástrofes e ambiente, elegi como tema de análise as performances da Reviravolta de Gaia2, que ocuparam as ruas de São Paulo em mais ou menos dez eventos que se deram entre agosto de 2021 e outubro de 2022, anos intensos para o mundo devido à pandemia do Covid-19 e agravados, no Brasil, por uma crise da democracia. Essas performances estão registradas no filme Eu sou uma arara. Antes de chegar a essas imagens, gostaria de localizar o texto entre os principais eixos de pesquisa em psicanálise, sendo estes: 1) a metapsicologia como modelo de psiquismo em suas dimensões intrapsíquica, intersubjetiva e transubjetiva ou cultural; (Figueiredo & Coelho Jr., 2004); 2) a intervenção clínica, como modo de continência e cuidado dos mal-estares, sofrimentos e adoecimentos psíquicos em uma dimensão individual e coletiva; 3) a interpretação da cultura e de seus objetos (Freud, 1906, 1910, 1913, 1927,1929). Ainda que esses eixos não possam ser pensados separadamente, este trabalho tem como foco a fronteira entre o segundo e o terceiro eixo, ou seja, como objetos culturais – as produções estéticas – promovem ressonâncias subjetivas que participam dos processos de elaboração psíquica e testemunho. Essa ideia está bem fundamentada no livro Cuidado, saúde e cultura: Trabalhos psíquicos e criatividade na situação analisante (2014), de Luís Cláudio Figueiredo, que investiga as relações entre os processos de saúde e os objetos da cultura. O trabalho de fronteira entre saúde e cultura nos permite avançar na interface entre psicanálise e saúde coletiva especificamente apontando para as funções subjetivantes da arte. São formas expressivas de continência e figuração que

2 Estas foram fotografadas por vários artistas e resultaram no livro A reviravolta de Gaia, de Rivane Neuenschawander e Mariana Lacerda (2023).

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 74

02/07/2026 17:17


Catástrofe e profecia: o corpo e a voz na paisagem do sertão cearense Karla Patricia Holanda Martins

Ponto de partida Intrigada com a melancolia que atravessava a terra nua e caústica do pesadelo de Euclides da Cunha (1902), comecei a ouvir homens que viviam no sertão sobre os possíveis impactos subjetivos da experiência da seca e da privação mais aguda da fome. Estava em jogo uma pergunta sobre a coincidência ou não do modo como a literatura que ficcionalizou o sertão brasileiro espelhava a forma como esses sertanejos falavam de si e do espaço onde viviam (Martins, 2014). Embora compreender os modos de subjetivação dessas experiências (consideradas potencialmente traumáticas) fosse o objetivo primeiro daquele trabalho, o caráter aberto das entrevistas, realizadas entre os anos de 2000 e 2004, nos permitiu também conhecer, num contexto de histórias de vida, o modo como as experiências de previsão de chuva eram realizadas, a forma como esse conhecimento havia sido transmitido pelas gerações anteriores (Martins, 2006). Sabemos da grande importância de considerar o pano de fundo político e econômico a partir do qual se desenvolve o fenômeno “profetas da chuva no sertão”. Todavia, diante da impossibilidade de fazer, no momento, uma discussão mais aprofundada

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 85

02/07/2026 17:17


86 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

desses aspectos, sugerimos os trabalhos da historiadora Kênia Rios (2006) e do antropólogo Renzo Taddei (2006; 2017), nos quais encontramos importantes reflexões sobre tais determinações. Voltemos ao ponto de partida da pesquisa. Naquela ocasião, nos idos de 1998, comecei a acompanhar o encontro que acontecia anualmente em Quixadá, no interior do Ceará, onde esses sertanejos (em sua maioria agricultores), reconhecidos em suas comunidades de origem como capazes de adivinhar ou prever as chuvas para o ano vindouro, se reuniam com políticos locais e a comunidade científica (técnicos da fundação de meteorologia do Estado, professores universitários etc.) para a apresentação de um prognóstico para inverno ou seca. O encontro ocorre há mais de 27 anos, e ainda hoje sempre no segundo sábado do ano, e tem representado, entre outros aspectos, uma confluência da técnica/da ciência com a observação sensível do espaço natural narrada pelos profetas (Pennesi, 2006; Taddei, 2006; Taddei, 2017). A cada ano, as previsões são amplamente divulgadas e o encontro torna-se também uma ocasião em que aqueles homens e, mais recentemente, mulheres emergem do anonimato para a história, renovando os elos de uma corrente que reafirma, através da transmissão, a tradição e, simultaneamente, a capacidade de criação de um saber que aponta para o futuro. Nesse contexto, a natureza é profetizada (e sonhada) e um novo sentido de comunidade e de política reúne o saber produzido nos meios acadêmicos e o saber das experiências sensíveis dos habitantes daquela região (Martins, 2006) Filiação, sonho e tradição são palavras que animam o dizer fraterno dos profetas da chuva, que colocam em cena modos de atenção transmitidos por outras gerações. Ao tecer suas considerações sobre as chuvas, que podem ou não chegar, ao sonhar com estas, os profetas da natureza, como também são conhecidos, traçam imagens, criam novos símbolos, convidando ao semeio de um porvir. Rancière (1995) afirma que, desde Noé, com a construção de sua arca, o dito

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 86

02/07/2026 17:17


Partilha da luta pela terra Heloiza Abdalla

Caminho junto com o gesto psicanalítico político contemporâneo de reparação, capaz de escutar – testemunhar, dar crédito – a polifonia de vozes que cultivam saberes ancestrais de povos contracoloniais. Força para reconhecer o vivido da colonização. Do radical e ainda hoje presente extermínio brutal de povos inteiros. Força para não dizer que nada aconteceu. Nada está acontecendo. Ou não temos nada a fazer diante disso. Entro no fluxo desse texto envolvida há treze anos com o psicanalista Sándor Ferenczi – sua teoria do trauma e a via sensível da perlaboração (cf. Kupermann, 2019). Para Ferenczi, o traumático não está na ocorrência de um evento, e nem mesmo no seu grau de violência, e sim em algo que pode se dar – ou não – num segundo tempo. A originalidade de Ferenczi consiste em atribuir ao desmentido a vivência do trauma: “O pior é realmente o desmentido, a afirmação de que não aconteceu nada, de que não houve sofrimento [...] é isso, sobretudo, o que torna o traumatismo patogênico” (Ferenczi, 1931, p. 79). [...] Por desmentido entenda-se o não reconhecimento e a não validação perceptiva e afetiva da violência sofrida. Trata-se de um descrédito da percepção, do sofrimento e da própria condição de sujeito

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 101

02/07/2026 17:17


102 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

daquele que vivenciou o trauma. Portanto, o que se desmente não é o evento, mas o sujeito (Gondar, 2012, p. 195). Propomos então um gesto de fazer testemunho. Tecer uma escuta do movimento ancestral de luta pela terra dos povos contra coloniais. A nossa relação com as imagens de mundo dá-se na lógica da emancipação dos povos e das comunidades tradicionais através da contracolonização [...] para nós, quilombolas e indígenas, essa é a pauta. Contracolonizar. No dia em que as universidades toparem aprender as línguas indígenas – em vez de ensinar –, no dia em que as universidades toparem aprender a arquitetura indígena e toparem aprender para que servem as plantas da caatinga, no dia em que eles se dispuserem a aprender conosco como aprendemos um dia com eles, aí teremos uma confluência. Uma confluência entre os saberes. Um processo de equilíbrio entre as civilizações diversas deste lugar. Uma contracolonização (Bispo, 2023, pp. 16-17). Antônio Bispo dos Santos (1960-2023), do Quilombo do Saco-Curtume, em São João do Piauí, é filósofo, poeta e liderança da geração quilombola que aprendeu a ler e escrever para lutar por suas comunidades. Pessoas-povos contracoloniais – em coro polifônico – elaboram criticamente a emergência da catástrofe climática com o trauma histórico das colonizações ao mesmo tempo que permitem a (re)existência dos saberes tradicionais como recurso ancestral de elaboração dessa catástrofe. Narro aqui principalmente fragmentos da minha formação com o povo Guarani Mbya nas tekoa. A tradução mais frequente para tekoa é “aldeia”. Trata-se do lugar no qual se realiza o nhandereko – o modo de ser e bem-viver tradicional, milenar do povo Guarani Mbya.

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 102

02/07/2026 17:17


Unland e a dimensão de testemunho na arte contemporânea de Doris Salcedo: interlocuções com a psicanálise Anelise Hauschild Mondardo Ana Lúcia Mandelli de Marsillac

Quando Paul Klee (1879-1940) – artista suíço – lança a frase “A arte não reproduz o visível, mas torna visível” (2001, p. 31), confronta-nos com uma inquietante reflexão. O que dá-nos a ver (Didi-Huberman, 2010) a série de esculturas coletivamente denominada Unland (199598), da artista colombiana Doris Salcedo?

Figura 1 – Doris Salcedo, Unland. Tate © Doris Salcedo

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 113

02/07/2026 17:17


114 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

Audível na boca; A túnica do órfão1 e Testemunha irreversível (Figura 1) são os títulos de três esculturas feitas pela artista, que compõem a obra intitulada a (San Francisco Museum of Modern Art, San Francisco/EUA, 1998). Foi concebida em resposta ao testemunho de crianças que viram seus pais e/ou familiares assassinados durante a guerra civil colombiana que inicia em 1965 e segue até os dias atuais. São sobreviventes da violência política; testemunhas de acontecimentos traumáticos extremos. Aqui temos uma aproximação com a psicanálise. Basta lembrar da expressão a cura pela fala (Freud, 1985), em referência ao tratamento das pacientes histéricas nos primeiros tempos de Freud para situar a psicanálise como um dispositivo clínico que por si só envolve uma situação testemunhal. Nesse sentido, arte e psicanálise dialogam quando oferecem condições para que algo do real possa aparecer e/ ou reaparecer. Como diz o artista, torna visível. Propondo a dimensão do testemunho como ponto de articulação entre arte e psicanálise, este escrito analisa aspectos da obra Unland, de Doris Salcedo, à luz da contribuição de Sándor Ferenczi (1932) à teoria do trauma como excesso pulsional, proposta por Freud (1920). Para isso, levamos em consideração o que Catani (2023, pp. 249-250) destaca como pontos singulares para a compreensão da abordagem ferencziana: “o trauma como um evento exógeno; a função do sintoma como um recurso fundamental para a sobrevivência psíquica e a elaboração do trauma não necessariamente passa pela reintegração do ego”. Sublinha-se o lugar do testemunho como um lugar terceiro que é capaz de ver a cena traumática de fora e justamente por isso pode funcionar como uma estratégia potencial para uma espécie de acomodação psíquica do traumático.

1 Neste escrito, a ênfase será dada à escultura A túnica do órfão.

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 114

02/07/2026 17:17


A cor e a catástrofe: uma leitura do traumático na socialização da mulher negra Bárbara Cesário Navega

Intelectuais como Sueli Carneiro, Lélia Gonzales e Neusa Santos Souza fortalecem no Brasil da década de 1970 um debate já existente internacionalmente. Tais pensadoras nos apresentam como a questão racial é indispensável em relação à socialização feminina no Brasil e às condições psíquicas e sociais da mulher negra. Na tentativa de articular essas ideias, procurarei abordar a teoria ferencziana do trauma como chave de leitura sobre a mulher negra no país e sua história através, e a partir, do traumático. A luta feminista sofreu tensionamentos necessários para que o discurso de libertação e empoderamento feminino abarcasse uma gama maior de mulheres, com realidades de opressões diferentes das pautadas por um modelo eurocentrado. Prova disso é o discurso histórico “Eu não sou uma mulher?” (Ain’t I a woman?), da ativista abolicionista e feminista estadunidense Sojourner Truth (1797-1883), na Women’s Convention de 1851. Em sua fala, Truth questiona as demandas feministas que encabeçam e caracterizam o movimento, mas que reforçam a subordinação de pautas (Brah & Phoenix, 2004), abrindo caminho para o que futuramente iria ser chamado de feminismo negro.

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 127

02/07/2026 17:17


128 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

O Feminismo Negro é, segundo Patricia Collins “o pensamento feminista negro [...] especializado em formular e rearticular o ponto de vista próprio e distinto de mulheres negras americanas” (Collins, 2000. p. 302). Ou seja, será proposto não apenas uma maior participação de mulheres negras dentro do feminismo estadunidense como a produção de conhecimento sobre temas pertinentes às condições sociais das mulheres negras. Tal recorte se fortalece no Brasil em meados da década de 1970. Mas o que isso teria a ver com psicanálise e trauma? Brinco afirmando que Ferenczi fazia, na periferia da psicanálise, uma psicanálise periférica. O interesse pelo estudo do autor deu-se exatamente de sua relação estreita com o sofrimento social e o trauma intrapsíquico e intersubjetivo. O argumento é que sobreviventes de traumas sociais (e nisso podemos incluir racismo e misoginia) se assemelham ao que Ferenczi postula sobre o trauma e crianças desmentidas, cerne do texto Confusão de Línguas entre adulto e crianças (1933). O autor aproximará a mulher da posição da criança desmentida, sobrevivendo e tentando se haver em um mundo feito com regras e funcionamentos masculinos. Um mundo de desmentidos. Quais seriam tais desmentidos? Ao nos voltamos para a literatura ferencziana, encontramos a noção de desmentido, ou déscredito, como fundamental no traumático desestruturante, caracterizando uma desvalidação do sujeito diante da violência sofrida. Trata-se de um não reconhecimento por parte daquele que desmente a criança. Com o descrédito do relato infantil no que diz respeito à ocorrência da violência, Ferenczi (1933) evidencia a relação de poder entre as diferentes linguagens e o modo como o adulto não reconhece a criança como sujeito de direitos. Ao utilizar essa chave de leitura para abordar a noção de desmentido, temos uma possível via psicanalítica para pensar o processo de socialização e subjetivação do sujeito negro, e, no presente recorte, da mulher negra.

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 128

02/07/2026 17:17


O desmentido na repercussão de casos de assassinatos de crianças negras no Brasil Deane Barbosa de Jesus

Este trabalho tem como objetivo analisar a produção do desmentido nos modos de repercussão de casos de assassinatos de crianças negras no Brasil com base em um caso de assassinato ocorrido no ano de 2020. O assassinato de crianças negras é uma problemática de longa data e intrínseca à sociedade brasileira desde os primeiros tempos de sua formação. Somente no ano de 2019, segundo o 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2020), o Brasil somou quase 5 mil crianças e adolescentes mortos de forma violenta e intencional, sendo 75,28% dessas vítimas crianças e adolescentes negros. O cenário descrito no Anuário junta-se a outras cenas do cotidiano brasileiro, em que “matar, sequestrar, sumir com o corpo, arrastar o corpo na traseira de um carro, dar oitenta tiros em um homem ou não investigar um assassinato reforçam a ideia de que certas vidas não valem nada, não importam” (Almeida, 2021, p. 13). Ao investigar os modos como são repercutidos os casos de assassinatos de crianças negras, revelam-se atualizações das formas de fazer morrer e fazer viver que acompanham as transformações políticas e sociais a partir das técnicas de dominação. Estas se expressam na produção de diferentes sentidos para a morte e para a vida e seus respectivos efeitos na dimensão subjetiva da experiência humana, que se fazem perceptíveis a partir da produção de desmentidos presentes no

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 137

02/07/2026 17:17


138 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

laço social, na cultura e na esfera política. Desse modo, ao tomar aqui o desmentido como categoria central de análise, busca-se evidenciar como este opera como reconhecimento recusado, produtor de negações múltiplas e atualizador dos sentidos construídos em torno da morte e da vida (Gondar, 2012; Ferenczi, 1931).

Morte e vida no Brasil: olhar as histórias para pensar o presente e o futuro Morte e vida são palavras, substantivos, que inscrevem no simbólico e na linguagem experiências-atos comuns a todos os humanos: o morrer e o viver. Pensá-las possibilita tecer novos olhares e lugares para compreender as existências e os modos de organização social, pois é a concepção da morte de uma sociedade que revela sua(s) concepção(ões) de vida (Martins, 1983). Medeiros (2016, p. 39) afirma que “somente a humanidade tem consciência da morte e somente os homens, através das culturas, constroem significados para ela”. Esta, que é um acontecimento físico, biológico, sociológico e biográfico, dá-se na dinâmica das relações de poderes que compõe o tecido social e os processos de subjetivação (Medeiros, 2016). Desse modo, pensar a morte e a vida não significa analisá-las no abstrato, mas situá-las na tessitura social para compreendê-las “a partir de sua concretude histórica, com os meios dizendo da forma como se vive e se morre” (Costa & Mendes, 2021). Ao pensar morte e vida no Brasil, deve-se considerar que a experiência racial brasileira acompanha a violência colonial que cinde o mundo em dois (Fanon, 1968). Esta torna uma parte do mundo “a cidade do colonizado, ou pelo menos a cidade indígena, a cidade negra, a médina, a reserva, um lugar mal-afamado, povoado de homens mal-afamados. Aí se nasce não importa onde, não importa como. Morre-se não importa onde, não importa de quê” (Fanon, 1968, p. 29). E torna a outra uma parte onde os pés estão sempre

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 138

02/07/2026 17:17


Confusão de línguas entre o jurídico e o psíquico em mulheres que sofreram violência conjugal Fernando da Silveira Aline Souza Martins Julia Garcia Durand

Na América Latina a violência contra a mulher é um importante problema de saúde e dos direitos humanos, acometendo 15% das mulheres acima de 16 anos (IPEC, 2021). Entretanto, as mulheres frequentemente encontram respostas inadequadas às suas demandas na busca por apoio para o enfrentamento da violência, o que as fazem perderem a confiança em serem ajudadas (Oliveira & Schraiber, 2013). O longo caminho que elas têm que percorrer para romper com a violência foi chamado por Sagot (2000) de Rota Crítica. Essa rota inclui a sequência de decisões e ações tomadas pelas mulheres ao longo desse processo, bem como as respostas inadequadas oferecidas pelos serviços públicos a essas ações. As pessoas que vivenciaram situações de violência não encontram os cuidados apropriados mesmo dentro dos serviços de saúde, polícia ou justiça, pois isso implicaria: 1. Um modo de acolhimento particular, dado que esse tipo de violência não é facilmente denunciado pelas mulheres, e 2. Uma forma específica de escutar e trabalhar a situação relatada pelas mulheres. Lidar com a violência doméstica requer não apenas

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 151

02/07/2026 17:17


152 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

profissionais preparados para o acolhimento, mas também uma articulação entre serviços de diferentes áreas como a saúde, assistência social, a justiça e a polícia. Nossa experiência do atendimento psicojurídico e psicoterápico voltado às mulheres em situações de violência doméstica mostra as barreiras encontradas por elas nos serviços jurídicos quando a complexidade dos aspectos subjetivos envolvidos na violência não é suficientemente considerada (Durand et al., 2011). A hipótese que apresentamos neste capítulo é a existência de uma forma de confusão de línguas (Ferenczi, 1992/1932) nesses casos, entre as leis que regem o domínio jurídico e aquelas que organizam os vínculos intersubjetivos. Tomaremos como analisadora dessa confusão a noção jurídica de “separação de corpos”, vista a partir da perspectiva do cuidado psicanalítico de um caso, que nos permitiu discutir como um importante procedimento de garantia de direitos pode ser vivenciado, paradoxalmente, como uma fonte de ameaça ao invés de proteção.

Sobre a separação de corpos no caso M. Do ponto de vista jurídico, uma união estável pressupõe a coabitação. Entretanto, quando um dos parceiros decide extinguir o vínculo entre eles e o outro se recusa, muitas vezes com violência, a alternativa apresentada pela lei é a proposta de uma medida judicial de separação de corpos, pela qual o Poder Judiciário garantirá a remoção daquele que ofende ou ameaça, e com quem um de seus companheiros não pretende mais viver. No entanto, consideramos que na dissolução do vínculo conjugal, os processos jurídicos e psicológicos são regidos por lógicas simultaneamente heterogêneas e interdependentes, que se sustentam mutuamente. Enquanto as leis e instituições jurídicas devem ser garantidoras de um apoio metassocial (Tourraine,1965), as alianças inconscientes (Kaës, 2014) são garantidoras do que podemos considerar

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 152

02/07/2026 17:17


“Identificação com o Agressor” a partir de Ferenczi: implicações individuais, comunitárias e sociais1 Judit Mészáros

O nascimento da “Identificação com o Agressor” (IAG): Ferenczi, 1930 Já estamos fazendo as malas, a nova casa, quase impecável, nos aguarda. A mudança ocorrerá em 3 ou 4 de julho. O novo endereço será: I. Lisznyai utca 11. [...] Enquanto isso, estou trabalhando diligentemente: sete, oito, nove horas por dia; no mecanismo mais sutil do “trauma psíquico” [...] (Carta de Ferenczi a Freud, 29 de junho de 1930; Freud & Ferenczi, 2000, p. 394). Foi nessa casa que Ferenczi começou a trabalhar intensamente em uma nova abordagem ao trauma psicológico, refletida de forma mais proeminente em The clinical diary2 e em seu estudo, hoje mais

1 Tradução: Alice Müller Pereira, estudante de Psicologia e Criminologia na DePaul University. Revisão da tradução: Adriana Barbosa Pereira e Manuela Assunção Moreno. 2 The Clinical Diary (obra traduzida no Brasil como O diário clínico).

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 163

02/07/2026 17:17


164 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

conhecido, Confusion of tongues3. Ambas as obras foram criadas na casa de Ferenczi, entre 1930 e 1932.

Empirismo e método Ferenczi considerava-se, antes de tudo, um empirista: “Sou, acima de tudo, um empirista...”, confessou. “As ideias estão sempre ligadas às variações no tratamento dos pacientes e encontram nelas sua rejeição ou confirmação” (Carta de Ferenczi a Freud, 10 de outubro de 1931; Freud & Ferenczi, 2000, p. 419). O empirismo e os experimentos clínicos dele decorrentes orientaram seu pensamento e provocaram uma mudança de paradigma na teoria do trauma, além de originarem diversas ideias que ainda hoje estão presentes em nossa prática teórica e clínica.

Por que a teoria do trauma de Ferenczi representa uma mudança de paradigma? Por que passamos a pensar de forma diferente após compreendermos sua abordagem do trauma, em comparação ao que pensávamos antes dela? Seus elementos essenciais são reconhecíveis em diversos de seus escritos. Suas descobertas mais importantes encontram-se no artigo “Confusion of tongues between adults and the child” (Ferenczi, 1933/1980), atualmente a publicação de Ferenczi mais citada, embora tenha gerado consequências traumáticas para a relação entre Freud e Ferenczi.

3 Confusion of tongues (obra traduzida no Brasil como Confusão de línguas entre os adultos e a criança).

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 164

02/07/2026 17:17


A influência hipnótica dos líderes e a criação de uma realidade alternativa Endre Koritar

Introdução A conexão entre psique e pólis já foi examinada desde A república, de Platão, obra em que o autor sugere que a cultura da pólis é determinada pela externalização da essência das psiques individuais da população em geral e que a psique individual é impactada pela internalização da cultura da pólis (Lear, 1992). O estudo da cultura da polis lançará luz sobre questões que impactam a psique individual1. É um fato indiscutível que Trump estava em sintonia com as questões que eram significativas para a pólis e usou habilmente suas habilidades persuasivas para influenciar a opinião pública (Adams, 2017). Trump foi rotulado de muitas coisas pela mídia, mas eles não entenderam o ponto. Trump não é um narcisista, nem é um idiota ou um mentiroso compulsivo, embora retrate elementos desses “diagnósticos”. Eu o considero um mestre hipnotizador, que hipnotizou uma parcela significativa da população norte-americana para aceitar suas sugestões hipnóticas. Sob essa perspectiva, sua autoproclamação

1 Para fins de discussão, vou me referir a um líder, Donald Trump, mas outros líderes (Jair Bolsonaro, Silvio Berlusconi, Rodrigo Duterte) podem ser considerados como tendo traços de personalidade e habilidades persuasivas semelhantes.

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 181

02/07/2026 17:17


182 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

de “ser um gênio” provavelmente tem algum mérito. Sua genialidade reside na capacidade que tem de analisar a cultura da pólis e usar suas percepções para influenciar a opinião pública e introjetar com força sua mensagem nas psiques individuais.

Vértice psicanalítico Ainda que o uso da hipnose como técnica para o tratamento de pacientes tenha sido a abordagem mais antiga para a cura psicanalítica, remontando a Bernheim e à Escola de Nancy (Ellenberger, 1970), ao final da década de 1890, a associação livre substitui a hipnose como técnica psicanalítica preferida (Aron, 1996), e a análise da transferência foi considerada essencial para resolver conflitos inconscientes reprimidos. Mas o impacto da sugestão hipnótica na psique individual, na teoria e na técnica psicanalítica continuou a ser reconhecido por Freud mesmo após essa mudança de técnica: “não é fácil superestimar a importância do papel desempenhado pelo hipnotismo na história das origens da psicanálise. Tanto do ponto de vista teórico quanto terapêutico, a psicanálise tem à sua disposição um legado que herdou do hipnotismo” (1923, p. 192). A importante obra de Ferenczi, Introjection and transference (1909), relaciona a sugestão hipnótica à transferência, fornecendo insights sobre a dinâmica subjacente à hipnose e ao hipnotismo. Nessa obra rica e incisiva, Ferenczi delineou sua visão do crescimento e desenvolvimento da personalidade com base nos processos de introjeção e projeção. As relações objetais parentais precoces são introjetadas, resultando no crescimento da personalidade e na base para futuras relações transferenciais com objetos externos, uma vez que essas representações objetais internas são projetadas em pessoas significativas na experiência das relações objetais externas. Essas transferências são, portanto, baseadas na qualidade do ambiente da primeira infância. A transferência materna é caracterizada pelo

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 182

02/07/2026 17:17


Sonhar e resistir: uma leitura ferencziana das narrativas oníricas em Primo Levi Bibiana Massem Homercher Mônica Medeiros Kother Macedo

“Nas longuíssimas noites polonesas, o ar da enfermaria, denso de tabaco e odores humanos, saturava-se de sonhos insensatos. Este é o fruto mais imediato do exílio, do desenraizamento: a prevalência do irreal sobre o real” (Levi, 1963/2010, p. 102). Esse fragmento de A trégua, obra de Primo Levi, contempla a intenção deste capítulo: apresentar reflexões sobre o sonho como forma de resistência psíquica à violência do Lager. Para tanto, tomaremos como ilustração alguns sonhos narrados por Primo Levi em suas obras É isto um homem? (1947/1988) e A trégua (1963/2010), a fim de elaborar uma tessitura com as contribuições de Ferenczi sobre a função traumatolítica do sonho (Ferenczi, 1931/2011). Nos livros de Primo Levi, os sonhos produzidos por ele e os demais prisioneiros oferecem elementos que permitem explorar tanto a ação do traumático como as tentativas de superá-lo, desvelando, assim, os impactos no sujeito da dimensão tanática, própria da crueldade e indiferença instauradas pelos nazistas. O reconhecimento do aspecto “insensato” dos sonhos nascidos nesse contexto,

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 201

02/07/2026 17:17


202 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

como escreve Primo Levi, marca presença no excesso da violência, daquilo que escapa a qualquer “lógica” da razão e do bom senso, demandando um esforço hercúleo para não sucumbir à devastação de Thanatos. Entendemos, portanto, que os sonhos podem ser considerados valiosos exemplos de recursos psíquicos dos quais o sujeito lança mão a fim de não se submeter à dessubjetivação imperante. Nessa direção, os aportes singulares de Sándor Ferenczi sobre o sonho surgem como argumentos essenciais para a proposição do sonho como operação psíquica de resistência ao poder devastador do traumático. Conforme afirma Gondar (2017), é evidente a diferenciação, na obra de Ferenczi, em relação à perspectiva de Freud sobre os sonhos. Enquanto para Freud a prevalência está na realização de desejo, sendo a dimensão traumática uma exceção, para Ferenczi, segundo a autora, a exceção é a regra. Assim, encontramos em Ferenczi (1931/2011) a afirmação de que: “todo e qualquer sonho, ainda o mais desagradável, é uma tentativa de levar acontecimentos traumáticos a uma resolução e a um domínio psíquico melhores” (p. 128). Dar crédito e legitimidade a essa forma de o sujeito narrar a si mesmo e a suas vivências, como os sonhos relatados por Primo Levi, é reconhecer o valor das tentativas de domínio psíquico diante das intensidades experienciadas naquele cenário marcado pelo horror. As possibilidades e tentativas de domínio/elaboração de um sonho traumático permitem incluí-lo no rol de operações psíquicas que agem como vital força de resistência diante da crueldade presente no laço social. Tais considerações nos levam a propor neste capítulo que a repetição do evento traumático no sonho, espaço de criação psíquica, é uma singular ilustração da resistência à dessubjetivação produzida por regimes totalitários. Os aportes de Ferenczi sobre o sonho traumático, em diálogo com a obra de Levi, contribuem para a reflexão sobre as condições e possibilidades de sobrevivência psíquica diante do horror. Dessa forma, “a prevalência do irreal sobre o real” (p. 102), referida por Levi

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 202

02/07/2026 17:17


Comunidades de luto: entre trauma e testemunho Dora Musetti de Campos

Este texto é fruto do momento inicial de uma pesquisa de mestrado realizada no Programa de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), sob orientação do Prof. Dr. Daniel Kupermann e no âmbito do Laboratório de Pesquisas e Intervenções em Psicanálise (psiA). Após a 14ª Conferência Internacional Sándor Ferenczi (e com grande inspiração desta), muitas das incipientes ideias aqui semeadas foram mais desenvolvidas e germinaram. A pesquisa de mestrado pôde então ser concluída, ainda que, felizmente, sua finalização envolva a promoção de aberturas e o convite ao desbravamento de novos caminhos. Primeiro, sobre a catástrofe… O Brasil destacou-se perante o contexto global da pandemia do Coronavírus, dado que aqui tal evento foi bastante particular e marcante em sua gravidade. Já se somam mais de 700 mil vítimas do vírus no país desde o funesto março de 2020 (Ministério da Saúde, 2024). Estamos entre os países que obtiveram os mais altos índices de mortalidade pela doença, superando a média mundial (Fiocruz, 2022). Entende-se que o dado assustador é reflexo do péssimo desempenho no combate à pandemia, este comandado por uma gestão pública responsável por uma numerosa série de omissões e ações que agravaram o cenário nacional (Sociedade Maranhense de Direitos Humanos et

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 213

02/07/2026 17:17


214 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

al., 2021). O Estado brasileiro, ao invés de se comprometer com uma gestão da pandemia que contemple estratégias de enfrentamento ao vírus, foi agente produtor do sistemático incremento da catástrofe, mobilizando o aumento estrondoso do número de mortes. Conforme calcula Hallal (2021a; 2021b), aproximadamente quatro em cada cinco mortes por Covid-19 poderiam ter sido evitadas caso o país estivesse alinhado à média mundial em termos de enfrentamento à pandemia, isto é, centenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas caso o imperativo ético da vida prevalecesse. Transcendendo dimensões biológicas da incidência do vírus sobre os organismos humanos, evidencia-se que, no Brasil, essas mortes estão concentradas na classe trabalhadora, sobretudo em seus estratos mais pobres e oprimidos, majoritariamente compostos por pessoas negras (Brito, 2021). Como indica Kupermann (2021), aqui o acesso à proteção sanitária e à saúde foi escancarado como privilégio. Ressalta-se que a chance de uma pessoa negra morrer pela Covid-19 era 38% maior do que a de uma pessoa branca (Viñas et al., 2020). Menciona-se, ainda, que a disseminação do vírus e a ausência de políticas públicas gerou expressivo número de mortes nos povos indígenas, configurando imensa tragédia (Raquel, 2021). Desde o desembarque do projeto civilizatório colonialista, o Brasil é cenário de absurdos sociais. Isso se ilustra pelas desigualdades que se interseccionam historicamente, podendo-se destacar as decorrentes de uma sociedade de classes patriarcal e racista. Trata-se da reprodução de uma violência estrutural responsável pelo impedimento do exercício de direitos básicos, incluindo o direito à vida (Campos, 2021). Busca-se enfatizar que esse drástico cenário tem a morte como sua expressão mais radical. Espera-se explicitar, dessa maneira, que a especificidade das vítimas da Covid-19 está associada às históricas formas de precarização da vida que incidem sobre determinados segmentos da população.

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 214

02/07/2026 17:17


Andanças com Sándor Ferenczi pelas periferias de São Paulo: relato de uma experiência Marleide Soares Pereira

Minhas andanças com Sándor Ferenczi se iniciaram em 1999 no bairro de Sapopemba, periferia de São Paulo, e seguiram para outras regiões da cidade. O trabalho aqui mencionado é de escuta clínico-social direcionada a crianças, adolescentes e seus familiares ou responsáveis. Na solidão do meu fazer profissional em início de carreira, a presença de Ferenczi ocorreu quando me perguntei sobre como agir diante das situações ocorridas nos trabalhos que aqui apresento – adolescentes em medidas socioeducativas, crianças e adolescentes em acolhimento institucional; e Humanização Antirracista. Sándor Ferenczi é um psicanalista das periferias sociais que direciona os sujeitos à margem do sistema social hegemônico numa perspectiva de inclusão mental, social e política. É a essas pessoas que me refiro e que se fazem presentes a todo momento no texto aqui apresentado. Este trabalho relata minha experiência como psicóloga de abordagem psicanalítica, adaptando a psicanálise às necessidades de diferentes grupos sociais e formas de sofrimento mental, com base nas ideias do autor mencionado.

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 227

02/07/2026 17:17


228 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

A quebrada “Eu gosto de onde eu tô e de onde eu vim” (Fórmula mágica da paz – Racionais MC’s, 1997). A palavra “quebrada” é polissêmica, ou seja, tem dois significados ou mais. Porém, aqui farei uso dela em dois contextos: a região de moradia; e no sentido do fragmentado, em desmoronamento, numa associação ao contexto do traumático. O início do meu trabalho como psicóloga se deu no final dos anos 1990 e coincide com o começo de um movimento positivado de residir na periferia, dando origem a uma identidade cultural. Até a metade dos anos 1990 era comum para os jovens sentir vergonha de onde residiam; porém, sob influência do movimento hip-hop, eles passaram a sentir orgulho. O grupo Racionais MC’s teve importante influência na valorização das comunidades periféricas de São Paulo, ajudando os moradores, especialmente os jovens, a enxergarem sua quebrada como um espaço de cultura e identidade, orgulhosamente passando a denominá-la “minha quebrada”. Relaciono essa perspectiva ao trabalho clínico-social de um psicólogo, que percebe o impacto do território na subjetividade dos indivíduos. Sándor Ferenczi é um psicanalista que considera os fatores externos, a relação com o ambiente, sendo a mãe, na gestação, esse primeiro ambiente, que é seguido por outros ao longo da vida. Nesse sentido o espaço geográfico também é relevante, pois é nele que as pessoas sentem as vulnerabilidades físicas, sendo onde reside o corpo. Não obstante, há sentimentos diversos pelo fato de morar num local fragmentado, com poucos recursos de saneamento básico, ou num barraco de favela no alto de uma ribanceira, ao lado de um córrego malcheiroso. É desse ambiente de moradia potencialmente traumático a origem da grande maioria das pessoas que atendo ao longo da minha prática profissional.

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 228

02/07/2026 17:17


As linguagens da ternura e da paixão como componentes do espaço escolar: professor para além da função normativa1 Luiz Paulo dos Santos Monteiro Marília Etienne Arreguy

Este trabalho parte de um estudo clínico-político, adotando como base as práticas pedagógicas do corpo docente do campus Realengo II do Colégio Pedro II. A realização desta pesquisa seguiu os protocolos éticos vigentes, e o projeto que a embasou foi submetido aos comitês de ética de números 8160 e 9047, respectivamente, por meio da Plataforma Brasil. Ressaltamos a interlocução da psicanálise com o quadro sociopolítico da atualidade por meio das noções de “linguagem da ternura” e de “linguagem da paixão”, do psicanalista húngaro Sándor Ferenczi (1933/2011). O objetivo geral foi o de aprofundar nossos conhecimentos na interface de psicanálise e educação, a partir do estudo aprofundado

1 Este trabalho é fruto da pesquisa de pós-doutorado do autor, cujo projeto é intitulado As linguagens da ternura e da paixão como componentes do espaço escolar: o professor para além da função normativa. O desenvolvimento desta pesquisa contou com a supervisão da Professora Doutora Marília Etienne Arreguy e foi submetido ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense e aprovado, em novembro de 2023.

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 239

02/07/2026 17:17


240 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

de conceitos concebidos por Sándor Ferenczi. No que concerne aos objetivos específicos da pesquisa, investigamos de que modo a “linguagem da ternura” e a “linguagem da paixão” se entrecruzam na prática docente perante as exigências normativas que regulamentam o trabalho dos professores do CPII. Estudamos, também, de que modo o docente do campus Realengo II, do CPII, conservava seu pensamento crítico e sua autonomia diante dos traumas produzidos no ambiente escolar. Pautando-nos nas ideias desenvolvidas por Ferenczi em Psicanálise e pedagogia, ressaltamos que o processo educativo na escola tende ao “recalcamento das emoções e representações” dos estudantes (1908/2011, v. 1, p.40). A simples repressão ou censura de seus sentimentos contribuiria, dessa maneira, para fomentarmos a idealização de um protótipo de estudante, com suas expressões afetivas ou emocionais classificadas segundo estruturas binárias preestabelecidas e legitimadas pela escola, que não levam em conta os traumas produzidos na relação entre os sujeitos. Segundo Freud, a cultura age impedindo a manifestação da agressividade por parte do indivíduo, e, para o teórico: “[...] a tendência à agressividade é uma disposição pulsional original, autônoma do ser humano, [...] a cultura encontra nela o seu mais poderoso obstáculo” (Freud, 1930/2020, p. 72). Indagamos se o discurso da escola, que refuta a presença do conflito no ambiente escolar, em prol de uma harmonia comportamental constante, não seria insuficiente, já que a educação prevê uma série de renúncias pulsionais daqueles que a frequentam, sobretudo dos estudantes, em um contexto em que ambos precisam se adequar, não sem razão, a um aglomerado de normas disciplinares, que tem por fim a preservação da autoridade (Freud, 1930/2020, p. 79). A proposta de articulação entre o pensar e o sentir do docente, no ambiente escolar, conduziu-nos aos conceitos de “linguagem da ternura” e de “linguagem da paixão”. Interpretamos que essas duas

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 240

02/07/2026 17:17


A narração do impossível: autenticidade e complacência no trabalho com migrantes Andrea Ciacci

Em um trabalho anterior (Ciacci, 2021), procurei mostrar que as experiências não elaboradas dos migrantes – marcadas por um sofrimento excessivo – só podem se tornar expressáveis no contexto de relações de ajuda sustentadas por um interesse genuíno, em um ambiente percebido como verdadeiramente acolhedor. Essas reflexões derivaram do meu trabalho como diretor de um centro para refugiados e solicitantes de asilo na Itália. Essa experiência me permitiu observar como um clima generalizado de desinteresse, somado à escassez de ferramentas sociais e linguísticas e ao fatalismo dos próprios migrantes em relação ao desfecho do pedido de proteção internacional, favorecia a instalação de um estado de anomia1 (Merton, 1938/1949). Tal condição se traduzia

1 O termo “anomia”, introduzido inicialmente pelo filósofo francês Jean-Marie Guyau (1885), foi compreendido pelo sociólogo francês Émile Durkheim (1893) como uma ausência de normas sociais capazes de conter e orientar o comportamento individual. Posteriormente, o termo foi adotado pelo sociólogo funcionalista Robert Merton (1938, 1949), em cuja obra assume o significado de um descompasso entre os objetivos existenciais prevalentes na cultura e a escassez ou inacessibilidade de meios legítimos para alcançá-los.

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 251

02/07/2026 17:17


252 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

frequentemente em episódios de comportamentos antissociais ou autodestrutivos, tornando impossível investir em um novo projeto de vida no país de acolhimento. Com a continuidade do meu trabalho com migrantes, pretendo aprofundar essas reflexões e explorar outros aspectos do acolhimento. Essas reflexões podem ser consideradas em torno das seguintes questões: • •

•

•

A impossibilidade de expressar em palavras experiências de vida marcadas por um sofrimento excessivo. A possibilidade de que experiências dissociadas encontrem representação em uma relação de ajuda, em um ambiente percebido como verdadeiramente acolhedor. A avaliação da qualidade do acolhimento com base em sua capacidade de mobilizar o investimento afetivo do sujeito como indicador do caráter sustentador do ambiente. A qualidade da escuta e o significado da autenticidade no interesse pelas pessoas migrantes, suas histórias de vida e necessidades atuais.

Neste artigo, procurarei desenvolver essas considerações, esclarecendo-as por meio de algumas vinhetas clínicas.

Do trauma à narração Essas considerações sobre a qualidade da acolhida encontram respaldo já nas obras de Ferenczi (1929a), que, em seu artigo “A criança mal acolhida e sua pulsão de morte”, mostra que, para crianças que nasceram como hóspedes indesejados da família, bastaria terem percebido sinais de uma rejeição – mais ou menos consciente – por parte da mãe para que se produzisse uma fratura em sua vontade de viver. Isso poderia levar, na idade adulta, ao surgimento de pessimismo moral e filosófico, ceticismo e desconfiança, aversão ao trabalho e certo grau

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 252

02/07/2026 17:17


A experiência de tornar-se analista e os desafios desse percurso, a partir do conceito de catástrofe em Ferenczi Ricardo Cavalcante Cinthia Oliveira

Introdução Este texto é fruto da nossa participação enquanto integrantes do Projeto Aproximações, uma atividade coordenada pelo Grupo Brasileiro de Pesquisa Sándor Ferenczi (GBPSF). A estrutura do grupo possibilitou um debate em que a diversidade de olhares favorecia a discussão dos temas apresentados. Foi em um desses encontros que a conversa encaminhou-se para pensarmos as nossas vulnerabilidades enquanto trabalhador(a) da saúde. Quem cuida de quem cuida? Quem ouve nossas dificuldades? Os nossos testemunhos naquele encontro marcam o elo que tece o fio de conexão que produziu este texto, mas não se encerra nele. Antes de abordar o campo de formação dos analistas, acreditamos ser fundamental nos situarmos. Partimos de uma perspectiva que considera gênero, raça e classe social marcadores importantes. Somos profissionais da clínica e atendemos pessoas vivendo em diferentes contextos de vulnerabilidades. Também vivemos, nós, sob a influência de diversas vulnerabilidades, as quais, por vezes,

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 263

02/07/2026 17:17


264 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

comprometeram e comprometem nossas vidas e nossa formação enquanto analistas. Como pessoas negras, tivemos as nossas formações entrecortadas por atravessamentos que ainda hoje nos destituem do lugar de analistas. Não acessamos as clássicas formações em psicanálise na “Sociedade de Psicanálise” – não por escolha nossa, mas por serem espaços que, muitas vezes, têm uma dinâmica de exclusão que inviabiliza nosso acesso a essas formações.

Formação em psicanálise Quando pensamos na formação em psicanálise, é importante lembrarmos de alguns aspectos da história dessa área de conhecimento no Brasil, conforme destacado por Paim e Cidade (2020, pará­grafo oito): Como sabemos, a psicanálise começa o seu processo de institucionalização no Brasil em 1927, o projeto de formação de analistas em 1936. Portanto, temos 84 anos de história dedicados à psicanálise, à transmissão e à formação de analistas. Um longo tempo, de uma história de produção de ideias, de conhecimento e de política, que nos permitiu uma inserção importante em nossas instituições maiores FEBRAPSI, FEPAL e IPA. Mas esse cenário revela em seus bastidores uma boa dose de submissão – nossa herança racista e escravocrata não trabalhada vigora em nós – raramente estudamos autores brasileiros brancos, negros nunca. Crescemos, conquistamos um lugar, porém mantivemos um distanciamento radical de nossas origens: sua origem define seu destino. Podemos comparar os derivados (do inconsciente) aos mestiços daquelas raças humanas que a grosso modo já se assemelham aos brancos, mas cuja

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 264

02/07/2026 17:17


Um elogio à dissidência Caetano Rudá Camila Flaborea

Este texto nasceu de uma conversa despretensiosa sobre o encaminhamento de alguém com demanda de análise. A pessoa a ser encaminhada era uma pessoa trans, e Caetano Rudá e eu cogitávamos o quanto seria ou não importante que essa pessoa fosse ouvida por alguém com alguma vivência na transição de gênero. Foi quando meu colega disparou a frase. E uso a palavra “disparou” de forma pensada, porque suas palavras me atingiram como uma flecha. Aqui, cito Caetano: “O problema não é a falta da experiência trans, mas sim a escuta cis”. A conversa seguiu sem maiores considerações naquele momento, mas essa frase reverberou em minha mente por dias, voltando a minha consciência repetidamente, sem me dar sossego. Decidi compartilhar essa reverberação com Caetano e pedir a ele que nos uníssemos para levar essa inquietação provocada por suas palavras a outras mentes, pois nos parece que o assunto da escuta é sempre urgente e imprescindível para nós, psicanalistas. O que vou ler a seguir é, pois, o desenvolvimento que fizemos até agora dessas ideias, esperando que o diálogo possa expandi-las ainda mais em novas reverberações e inquietudes. A psicanálise nasceu com a dissidência de Freud em relação à neurologia e às crenças judaico-cristãs, se estabeleceu como método a partir da priorização da

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 275

02/07/2026 17:17


276 andanças com ferenczi: territórios, estética e política

escuta e se desenvolveu apoiando-se na contracorrente da sexualidade vigente na era vitoriana. Mas foi com interesse especial nas pessoas profunda e precocemente traumatizadas que Ferenczi aportou à psicanálise uma dissidência muito particular e, ainda que rendendo homenagens e créditos a Freud, pôs em questão o status quo vigente na psicanálise de outrora. Devolvendo ao trauma real o estatuto de gerador de defesas severas, Ferenczi problematiza a influência dos pais sobre as crianças e, posteriormente, dos analistas sobre os analisandos. É de poder que se trata quando o húngaro nos alerta sobre a confusão de línguas e o desmentido (Ferenczi, 1932/2011). É para tentar evitar a potencial iatrogenia do encontro analítico que ele nos convoca à horizontalidade. Propõe a adaptação da família à criança (Ferenczi, 1928/2011), bem como a do analista ao analisando, elevando ao estatuto de sujeito (ainda que em devir) tanto o bebê quanto o paciente profundamente cindido, que adentra nossos consultórios rotulado como “paciente difícil”. Traumas na infância, sim. Mas também traumas cotidianos, mais ou menos explícitos, mais ou menos severos, provenientes de estruturas sociais e familiares que nos atravessam, reafirmando sistemas que operam sem cessar, fundados e refundados no poder, diuturnamente. Para lidarmos com esse aspecto do trauma no contexto da contemporaneidade – que acontece dentro e fora do encontro analítico –, entendemos que estamos pondo em xeque muito da própria epistemologia na qual a psicanálise tem se baseado. A partir do momento em que contestamos pressupostos básicos da época em que nossos textos seminais foram desenvolvidos há de haver muito cuidado ao olharmos para isto. As perguntas que nos surgem são desafiadoras e não têm respostas imediatas, mas precisam ser enunciadas. Assim, nos questionamos: Em que medida a diferença sexual fundamentada no binarismo deve continuar sendo bússola da nossa escuta? O complexo de Édipo pode ainda sustentar nossos pressupostos? Estará o

Miolo_Andancas com Ferneczi.indd 276

02/07/2026 17:17


Pereira | Martins | Moreno | Pereira | Macedo

O GBPSF é um grupo fundado em 2018 e do qual fazem parte psicanalistas de diversas regiões do Brasil, de diferentes gerações e com formações plurais. Em comum, há a curiosidade e o interesse pelas ideias de Sándor Ferenczi. A presente coleção traz ao leitor textos relevantes inspirados por seu pensamento.

Este terceiro volume da coleção dá sequência à construção da memória, agora escrita, da 14ª Conferência Internacional Sándor Ferenczi, que aconteceu em São Paulo, em 2024. Seus 20 capítulos foram organizados em quatro partes: • Por uma psicanálise decolonial • Experiência estética e corpos afetados • Política como testemunho

Coleção Sándor Ferenczi

Organizadoras

Adriana Barbosa Pereira Karla Patricia Holanda Martins Maria Manuela Assunção Moreno Marleide Soares Pereira Mônica Medeiros Kother Macedo PSICANÁLISE

Os temas são discutidos a partir do pensamento de Ferenczi, com destaque para uma de suas principais heranças: o compromisso empático com o testemunho. Como não se trata apenas do reconhecimento das catástrofes e dos traumas que nos assolam – apesar de isso não ser pouco –, os textos apontam também para a invenção de formas mais horizontalizadas de viver, apostando em relações de reconhecimento e cuidado com as diferenças que mobilizam constantes flexibilização e transformação da clínica e do pensamento psicanalítico.

• Clínica e territórios

Andanças com Ferenczi

Os textos que compõem Andanças com Ferenczi: territórios, estética e política têm um fundo comum: o reconhecimento dos efeitos psíquicos das diversas faces da violência, da exclusão e da subalternização intersubjetivas, sociais e climáticas.

A obra conta com a contribuição de 27 pesquisadores brasileiros e estrangeiros, que trazem uma significativa diversidade de estilos de escuta e interpretação da cultura diante das inquietações da psicanálise do nosso tempo.

Andanças com Ferenczi Territórios, estética e política

PSICANÁLISE

PEREIRA - Coleção Sándor Ferenczi - Andanças com Ferenczi.indd Todas as páginas

20/03/2026 19:33


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Andanças com Ferenczi by Editora Blucher - Issuu