A SAÍDA DO GRANDE ARMÁRIO DA HISTÓRIA E OUTROS DIÁLOGOS
Marion Minerbo
A saída do Grande Armário da História e outros diálogos © 2026 Marion Minerbo Editora Edgard Blücher Ltda. Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenador editorial Rafael Fulanetti Coordenadora de produção Ana Cristina Garcia Produção editorial Maísa Kawata Diagramação Fabricando Ideias Design Editorial Revisão de texto Ligia Alves Capa Muiraquitã Editoração Gráfica Imagem da capa “Sem título”, Marion Minerbo, 2026
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570
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Minerbo, Marion A saída do grande armário da história e outros diálogos / Marion Minerbo. – São Paulo : Blucher, 2026. 192 p.
Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.
É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora. Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.
Bibliografia ISBN 978-85-212-3341-1 (Impresso) ISBN 978-85-212-3339-8 (Eletrônico - Epub) ISBN 978-85-212-3337-4 (Eletrônico - PDF) 1.Psicanálise. 2. Masculinidade. 3. Sexualidade. 4. Cultura. 5. Infância. 6. Análise da criança. I. Título. II. Série. CDU 159.964.2 Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise CDU 159.964.2
Sumário
Apresentação
11 I – Da masculinidade hegemônica às sexualidades dissidentes
1. O valor do pênis mudou
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2. O que quer o macho?
23
3. Ter um pênis = ter mais valor?
31
4. A armadilha da virilidade
37
5. Pobreza emocional
45
6. Sexualidades dissidentes
51
7. A saída coletiva do Grande Armário da História
57
8. Não dá mais para “desver”
67
9. E se o poder fosse d*s ruiv*s?
73
10 a saída do grande armário da história e outros diálogos
II – Loucuras cotidianas 10. Sem maquiagem, a vida comum
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11. Jeans rasgado
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12. Gordura: um desvio moral?
97
13. A falta faz falta
105
14. Comer de joelhos
109
15. Paixão por uma causa
115
16. Polarização
123
17. O poder enlouquece?
131
18. Trocando figurinhas
135
19. “Que tiro foi esse”
141
III – Diálogos imaginários 20. Fiz dodói na bolacha!
151
21. Mamãe, você me machucou!
155
22. Mamãe, você está bem?
159
23. Mamãe, você NÃO PODE ter medo!
163
24. Você é só mamãe, né?
167
25. Papai descobriu!
173
26. Depois da pandemia
177
27. A Coisa
181
28. Querida mamãe,
185
Referências
189
I Da masculinidade hegemônica às sexualidades dissidentes
1. O valor do pênis mudou
Olá, AnaLisa, sobre o que você gostaria de conversar hoje? Olá, Marion. Veja só que loucura. Estou assistindo à série Machos Alfa na Netflix. Retrata bem a perplexidade de alguns homens ao perceberem que não dá mais para ocupar o lugar daquela masculinidade tradicional. Sei que você publicou um texto chamado “Da masculinidade hegemônica às sexualidades dissidentes” (Minerbo, 2025a). O que teria tornado possível, em relativamente pouco tempo, as profundas transformações no campo da masculinidade? O que a Psicanálise tem a dizer sobre isso? Uau, AnaLisa! Um tema e tanto! Urgente e, ao mesmo tempo, terreno minado. Aceito o desafio. Mas com uma condição. Qual? Enquanto pessoa, enquanto mulher, é claro que tenho uma posição sobre o tema: sou feminista. Mas nesta nossa conversa vou me ater estritamente ao vértice psicanalítico. Isso significa que, enquanto psicanalista, não vou emitir juízo de valor. Aceita? Aceito.
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Então vamos lá. Vou me basear no texto que você mencionou. Conforme adiantei, não atiro pedras nos homens, nem idealizo as sexualidades dissidentes. Quero entender como foi possível que, depois de milênios de dominação masculina, estejamos testemunhando o declínio do patriarcado e o que chamei de “saída do Grande Armário da História”. Mas, Marion, certos comportamentos masculinos são inadmissíveis. Bem que eles mereceriam que atirássemos pedras. Querida AnaLisa, entendo seu ponto. Mas veja. Uma coisa é atirar pedras no homem x que fez algo inadmissível. Fulano espancou a mulher: lei Maria da Penha nele! Outra coisa é atirar pedras “nos homens” enquanto categoria. Como você verá ao longo das nossas conversas, a subjetividade “dos homens” é, em grande parte, determinada pela cultura, pelo patriarcado. Não adianta atirar pedras contra um sistema simbólico. Adianta expor sua engrenagem inconsciente para que ele perca a capacidade de constituir subjetividades alienadas. Você vai se surpreender com o que uma análise é capaz de revelar sobre ela. Faz sentido, Marion. Voltando ao Machos Alfa, a série mostra que a cultura está mudando. E seu esforço para se adaptar aos novos tempos é tragicômico. Não é fácil perder referências identificatórias tão básicas. Sem falar nos privilégios que vinham atrelados a elas. Em O homem justo: do patriarcado às novas masculinidades, Ivan Jablonka (2020) conta a história da dominação masculina desde a Pré-História. Ele mostra que cada época e lugar teve sua forma do que denominamos hoje de masculinidade hegemônica (Connell, 1995). É o que chamaríamos, até algum tempo atrás, de “homem com H” (amo o Ney Matogrosso cantando essa música!); era o tal homem “de verdade”.
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E a dominação desse “homem de verdade” se dava em todas as esferas da vida. Na família e fora de casa, na economia e na política, nas ciências e nas artes… Quem visse isso poderia pensar que os homens são mesmo superiores às mulheres. A crença na superioridade masculina se justificava pela biologia. Em geral, homens são maiores e mais fortes do que as mulheres. Isso bastava como “prova”. Como vamos ver, quando a cultura empodera o homem, ele realmente vai se destacar, “comprovando” uma suposta superioridade. Vê o círculo vicioso? Vejo, está claríssimo. Mas como a cultura empodera o homem? É o assunto mais importante desta nossa conversa. Antes de chegar lá, vamos deixar claro que a crença na superioridade masculina se transmitiu de geração em geração, durante milênios, com a participação de todos, homens e mulheres. E isso pela boa razão de que ninguém escapa da cultura. Essa superioridade incluía não só o gênero, mas também a orientação sexual: considerava-se a heterossexualidade masculina como modelo do comportamento sexual normal e esperado. As demais eram consideradas desviantes, e eram inferiorizadas. A Psicanálise rompeu com essa crença? Em muitos aspectos, ela foi subversiva. Freud (1905/2016) falou em sexualidade infantil, em várias zonas erógenas (mucosas da boca, ânus, uretra; a pele, o olhar etc.), em sexualidade perversa polimorfa, em bissexualidade psíquica universal e em psicossexualidade, diferenciando pulsão de instinto. Mostrou que a sexualidade humana é complexa, e que o desejo é uma trama singular que se compõe de muitos fios. Ao mesmo tempo, colocou o pênis como centro dessa trama: os meninos têm medo de perdê-lo e as meninas têm inveja de quem o tem.
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Mas na época era assim mesmo, né? Era o que Freud escutava na clínica. Vamos combinar que ele não podia contestar tudo ao mesmo tempo. Não dava para ele ter um olhar crítico sobre a cultura falocêntrica, e analisá-la, sendo produto dela. Ainda assim, foi capaz de fazer uma bela análise do mal-estar na civilização, relacionando-o ao recalque das pulsões (Freud, 1930/2010). Pois é. Não é pouca coisa ter afirmado que a psicossexualidade não se reduz à biologia, e que percorremos um longo caminho até que o desejo se constitua como tal. Mesmo assim, e de forma contraditória, suas teorias sobre o Édipo postulam que a identificação com o genitor do mesmo sexo e o desejo pelo oposto são o desenlace esperado desse processo. De fato, Freud e muitos psicanalistas depois dele tomavam a sexualidade masculina como modelo da sexualidade humana. Esse equívoco fez com que, durante décadas, a sexualidade feminina fosse considerada um “continente negro”. Eles se perguntavam “o que quer uma mulher”. Mistério envolvendo o gozo feminino. Exatamente. E esse mesmo equívoco fez com que, durante décadas, ninguém se questionasse sobre o que é um homem, ou como um menino se torna um homem. Muito menos “o que quer um homem”. E pensar em termos de “masculinidades” no plural era inconcebível. Isso começou a ser questionado na década de 1950, com Lacan. Marion, quero voltar à pergunta com que começamos esta conversa. O que teria tornado possível, em relativamente pouco tempo, as profundas transformações no campo da masculinidade hegemônica? Sei que outras disciplinas vêm trazendo aportes significativos a essa questão. E a Psicanálise, o que ela tem a dizer sobre isso? Como o assunto é amplo e difícil, proponho fazermos algumas conversas.
II Loucuras cotidianas
10. Sem maquiagem, a vida comum
Olá, AnaLisa, sobre o que gostaria de conversar hoje? Olá, Marion, veja só que loucura! Tenho uma amiga que está fascinada com a Jout Jout, uma youtuber de 26 anos. Assiste aos vídeos um monte de vezes, não desgruda. Diz que a Jout Jout – que tem milhões de seguidores! – é sua melhor amiga. O que a Psicanálise tem a dizer sobre isso? Fico feliz em ver que você se interessa por esses pequenos fenômenos banais do cotidiano. Pois é justamente ali, longe dos holofotes que iluminam o que é considerado importante, que descobrimos as pequenas figuras do mal-estar contemporâneo. Entendo que cada cultura tem suas próprias formas de mal-estar. Já ouvi você dizendo que essas formas de mal-estar são produzidas por engrenagens que são inconscientes para as pessoas que vivem naquela época e lugar. É a tese de Freud em “O mal-estar na civilização” (1930/2010). No avesso do sofrimento neurótico, que era a forma típica de ser e de sofrer na sua época, estava o recalque das pulsões sexuais e
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agressivas. O texto permite depreender que uma civilização defende suas formas hegemônicas – tudo aquilo que teria de valer para todo mundo – amputando, relegando às margens, recalcando o que subverte a ordem que ela procura implantar. Esse processo é invisível para nós. É verdade! O avesso da histeria revela o que não era para ser visto: a sexualidade feminina. E isso porque ela tinha e tem potencial para subverter a ordem patriarcal. Por isso precisava ser recalcada. Exato. A mulher tinha que caber nos papéis domésticos que lhe eram atribuídos por essa instituição. Ora, a sexualidade não é domesticável. Nesse sentido, a feminina era um perigo e tinha que ser recalcada. Marion, tenho uma dúvida: quando você diz que o olhar psicanalítico se detém sobre o avesso da vida como ela é, seria como o avesso de um bordado? Do lado certo há uma figura bem bordada, e, do lado avesso, o emaranhado de fios ocultos que a produzem? Sim, isso mesmo, AnaLisa. Para essas análises, eu me apoio sobre o método proposto por Fabio Herrmann em Psicanálise do quotidiano (2004). O ponto de partida é o “lado direito” de um fenômeno qualquer. Por exemplo, a viralização dos vídeos da Jout Jout em 2015. É uma figura bem bordada, que todos podemos reconhecer. E o que torna um fenômeno como esse possível? É exatamente o que me interessa. Parto do pressuposto de que ele é, ao mesmo tempo, sintoma e tentativa de solução para algum tipo de mal-estar existencial produzido por nossa cultura. E veja que interessante: é um mal-estar que afeta a todos nós, já que estamos todos no mesmo barco cultural. Analisar esse fenômeno social acaba revelando pequenos setores de sofrimento individual. Faz sentido. E como reconhecer de que mal-estar se trata?
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Olhando para o “lado avesso” do fenômeno. É lá que vamos encontrar as engrenagens invisíveis que determinam aquela figura do mal-estar na cultura. Pode ser na clínica, pode ser na cultura. Na clínica eu até entendo. Mas qual seria o avesso de um fenômeno da cultura, como por exemplo a viralização dos vídeos da Jout Jout? Calma. Não vamos pôr a carroça na frente dos bois. Vamos tentar reconhecer, passo a passo, qual seria a figura do mal-estar contemporâneo que torna um fenômeno como esse não só possível como também necessário. Jout Jout atirou no que viu e acertou o que não viu. Certamente. Dificilmente ela pensou e produziu seus vídeos por ter identificado esse sofrimento existencial. Nós vamos tentar fazer isso – vamos expor as engrenagens invisíveis que produzem esse sofrimento. É o mesmo processo que usei quando conversamos sobre o patriarcado e seu declínio. Sim, e posso dizer que saí daquelas conversas me sentindo mais livre e menos alienada em relação às tais engrenagens inconscientes. Análises como essas têm mesmo algum efeito terapêutico, e valem tanto para a clínica como para fenômenos sociais. Sua amiga e os milhões de seguidores ficariam surpresos ao descobrir que Jout Jout trata de nós! Com certeza! Veja se entendi. Você está seguindo o método de Freud, retomado por Fabio Herrmann, que toma certos fenômenos como sintomas de algum tipo de mal-estar da nossa época. Sim, como figuras do mal-estar existencial de uma época. Do qual ninguém escapa. Nem eu, nem você. Se viralizou é porque, de alguma maneira, era necessária para “tratar” uma figura do mal-estar existencial que nos afeta a todos, e é inconsciente para nós.
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Evidentemente, não assisti a todos os vídeos. Gostei de um chamado “Han han han han”; de outro que se chama “Para você que é uma fraude”; e outro “É óbvio que você tá ansioso”. Eu também vi esses vídeos! Ótimo, então podemos comparar nossas impressões. Vamos descrever o que vemos. Em todos os vídeos ela está na casa dela, que é uma casa comum. Está vestida com roupa de ficar em casa, sem maquiagem, sem produção nenhuma. E fala de assuntos que têm a ver com a vida real das pessoas, especialmente das mulheres. Ela fala diretamente com quem assiste, de um jeito simples e íntimo. Também achei isso. Ela propicia uma intimidade gostosa. Coisa de amigas. Mas o que isso tem a ver com o mal-estar que você mencionou? Eu acho que no avesso do fenômeno está a fome de intimidade e de naturalidade, especialmente dos jovens, seu público mais fiel. Fome de poder aparecer do jeito que somos de verdade, na vida real, sem maquiagem, concreta e metaforicamente. E, se temos fome disso, é porque nossa cultura “recalca”, impede, dificulta relações desse tipo. No lugar da intimidade, ela estabelece como valor máximo imagens de sucesso – a grana, a fama, viagens, roupas, cenários paradisíacos, beleza, amigos, festas e muitas, muitas risadas. E a Jout Jout propõe deixarmos tudo isso de lado por alguns minutos! Puro conforto emocional! Percebe de que forma ela conversa diretamente com o mal-estar existencial ligado aos valores da nossa cultura? E dos quais, vale repetir, ninguém escapa – nem eu e nem você, AnaLisa. Agora entendo melhor a ideia de mal-estar existencial. É um sofrimento “normal” de quem vive em determinada cultura. Faz parte da nossa forma de ser e de sofrer.
III Diálogos imaginários
Como anunciado na Apresentação, nesta terceira parte dou voz a uma criança pequena. Ela tenta explicar a um adulto, que a observa com perplexidade, como são as coisas no seu mundinho emocional. Pode parecer que tiro coelhos da cartola. Ao contrário, procuro mostrar que as teorias não nascem nos livros, mas da escuta analítica e da observação cuidadosa das crianças e da criança-no-adulto. Aqui trabalho no plano da “clínica do cotidiano”, em complemento ao trabalho no campo da cultura realizado nas seções anteriores. As três partes estão atravessadas pelo mesmo fio condutor: a tentativa de expor as engrenagens invisíveis, inconscientes, que determinam nossa forma de sentir, pensar e agir. Um esclarecimento: a criança se constitui como sujeito no vínculo com seu objeto primário. Esse conceito se refere ao conjunto dos psiquismos que se implicam pessoalmente em garantir, inicialmente, sua sobrevivência física; e que se implicam também do ponto de vista emocional. Na nossa cultura, o objeto primário é, em grande parte, constituído pelo psiquismo materno. Nada impede, porém, que outras pessoas se encarreguem prioritariamente dessa função.
20. Fiz dodói na bolacha!
Julinha (dois anos e meio) estende a mão para pegar a bolacha da mão da mãe. A bolacha cai no chão e se espatifa. Acontece uma crise sem precedentes. A mãe diz que não tem problema, pega outra bolacha do pacote e diz: “toma, é igual”. A criança continua berrando, inconsolável por causa da bolacha quebrada. Ela está transtornada. A mãe continua, um pouco menos paciente, mas ainda ok com a situação: aquela quebrou, mas tem outra igual, peguei do mesmo pacote, tem um monte! A crise continua até a mãe perder a paciência. Já aos berros, continua insistindo que está dando uma igualzinha, não tem motivo para chorar, e considera que o berreiro é manha. Mamãe, não é fácil te explicar o que me deixou tão transtornada quando vi que a bolacha se quebrou. Mas vou tentar. Para você, uma bolacha é uma bolacha. Você achou que eu estava chateada porque queria comer a bolacha inteira que estava na minha mão. Com toda a paciência do mundo, você tentou
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me explicar que eu não ia ficar sem bolachas porque tinha muitas iguais no pacote – era só pegar outra inteira. Se fosse só isso, mamãe, seria fácil. Eu não teria ficado transtornada. Mas eu tenho pensamentos-sentimentos escuros que tornam as coisas mais complicadas para mim. Sei que você não sabe quais são, então vou te contar. Para mim, uma bolacha quebrada não é a mesma coisa que uma inteira. Para você, uma pessoa quebrada é a mesma coisa que uma pessoa inteira? Claro que não! Eu fiz uma coisa horrível, imperdoável e irreparável quebrando a bolacha!! O pior é que, quando olhei para a bolacha espatifada, não sabia se aquilo tinha acontecido com ela, comigo ou com você. Eu ainda confundo tudo, mamãe! Bolachas também são gente! Uma bolacha tem um corpo. Sente coisas. Levei um susto quando se quebrou porque eu tinha feito dodói nela sem querer. Tinha um monte de pedacinhos no chão. Devia doer muito! Fiquei horrorizada. Me senti terrivelmente culpada, e não adiantava você me dizer que foi sem querer. E muito menos me oferecer outra! Desesperados, os pedacinhos de corpo “dela” olhavam feio para mim. A bolacha estava furiosa. Fiquei com medo de que fizesse a mesma coisa comigo – que me castigasse, que me deixasse espatifada no chão. Ela me acusava, dizia que sou má e que a culpa era minha. Ela tinha razão. Só que eu não sabia como sair daquela situação. Vou te dar uma dica. Quando faço alguma coisa errada e você fica brava comigo, vem aquele pensamento-sentimento escuro que é o pior de todos: que você não gosta mais de mim. Por isso, preciso muito que me perdoe. É urgente – urgentíssimo! – sentir que posso consertar o mal que fiz a você. Fico transtornada se você demora para me perdoar ou, pior, se vira a cara quando peço desculpas. Me sinto um monstro, pois só monstros não merecem perdão!
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Enquanto você não mostra claramente que ainda me ama, fico presa na escuridão do pensamento-sentimento de que eu não deveria existir. E só você pode me resgatar. Só você pode me acalmar. Como bolacha também é gente, você entende que eu precisava muito que a bolacha me perdoasse? A bolacha era também você, mamãe! Mas como você podia me perdoar, se estava lá no chão, espatifada? Você não tinha como adivinhar, mas eu precisava sentir que podia consertar o mal que tinha causado à bolacha. Precisava cuidar dela para que voltasse a se sentir bem e feliz. Só assim ela poderia me perdoar e meu pensamento-sentimento escuro iria embora. Não sei se você me entende: eu precisava consertar a bolacha para consertar você e me consertar também. Por isso não adiantava me dizer que tinha outras bolachas no pacote. Nem que eu tinha deixado a bolacha cair sem querer. Foi então que você, depois de ficar um pouco nervosa, se acalmou e teve a brilhante ideia de brincar de consertar a bolacha. Você é uma gênia, mamãe! Que brincadeira legal você inventou! A gente começou a conversar com a bolacha. Você era ela. Falava por ela. – Bolacha (num tom acusatório): Você me deixou cair, eu estou quebrada, está doendo muito. – Julinha (chorosa): Eu sei, Bolacha, fiquei muito assustada com o que fiz, e quero te ajudar. – Mamãe (amorosa e animada): Julinha, vamos levar a bolacha para o hospital? Lá o médico vai cuidar dela e ela vai ficar boa. – Julinha (já parando de chorar): Vamos, sim, mamãe. – Julinha (agora, animada): Bolacha, eu vou cuidar de você. Agora está doendo, mas logo vai passar. Você vai ver. – Bolacha (feliz): Que bom que você está cuidando de mim! Vou ficar boa [...]. Pronto, sarei! Eu já perdoei você.