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A Relacao Psique Mundo

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MARION MINERBO

A relação

psique-mundo quatro perspectivas

2ª edição


A RELAÇÃO PSIQUE-MUNDO


A RELAÇÃO PSIQUE-MUNDO quatro perspectivas

Marion Minerbo

2a edição


A relação psique-mundo: quatro perspectivas 1ª edição (2000) sob o título Estratégias de investigação em Psicanálise: desconstrução e reconstrução de conhecimento © 2026 Marion Minerbo Editora Edgard Blücher Ltda. Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenador editorial Rafael Fulanetti Coordenadora de produção Ana Cristina Garcia Produção editorial Maísa Kawata Diagramação Fabricando Ideias Design Editorial Revisão de texto Ligia Alves Capa Muiraquitã Editoração Gráfica

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br

Minerbo, Marion A relação psique-mundo : quatro perspectivas / Marion Minerbo. – 2. ed. – São Paulo : Blucher, 2026. 222 p.

Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.

É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora. Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.

Bibliografia ISBN 978-85-212-3355-8 (impresso) ISBN 978-85-212-3354-1 (eletrônico – epub) ISBN 978-85-212-3352-7 (eletrônico – pdf) 1. Psicanálise. 2. Psique. 3. Psicanálise – Metodologia. I. Título. CDU 159.964.2 Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise CDU 159.964.2


Para Jaqueline Feltrin Inada, que resgatou de um sebo um exemplar empoeirado da primeira edição deste livro.


Sumário

Prefácio à primeira edição

9

Apresentação à primeira edição

17

Apresentação à segunda edição

19

1. Introdução

27

2. Bia, um caso exemplar

31

3. A questão-problema

35

4. Estratégias de pensamento

39

5. Primeira versão

67

6. Segunda versão

87

7. Terceira versão

113

8. Quarta versão

151


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9. A matriz de desconstrução

189

10. À guisa de “conclusão”

213

Referências bibliográficas

217


Prefácio à primeira edição

O besouro e o método Entrando em seu segundo século de existência, que coincide com novos século e milênio do calendário ocidental, a Psicanálise já não pode ignorar o vácuo interrogativo do tempo futuro. Este lhe questiona o projeto: ficará prisioneira do círculo traçado pela inegável eficácia de sua terapia na cura do indivíduo ou seguirá até à linha do seu horizonte de vocação, convertendo-se em ciência geral da psique? Na primeira hipótese, é bom não falarmos em milênio, que é tempo demais para uma doutrina e para sua técnica – uma “teoria regional” a que falta a correspondente “teoria geral”, assim o exprimiu certa vez Althusser. Na segunda, terá de se inventar como ciência, fora dos modelos atuais, e, de passagem, inovar o sentido de ser ciência. Ao gosto deste fim de século, dir-se-ia talvez dessa Psicanálise a ser criada: pós-ciência. Ou, acorde à sua posição de matriz de um novo conhecimento: ciência fatura. Em todo caso,


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optando por ir em frente, nossa disciplina não se pode furtar ao compromisso com a investigação. É difícil dizer se hoje, na Psicanálise, gastamos mais tempo investigando ou debatendo a propriedade de se investigar. Em não poucas de nossas teses universitárias, lá pela altura da Introdução ou do capítulo sobre Metodologia, um momento obsessivo da consciência acadêmica arguía possibilidade da pesquisa psicanalítica, para defendê-la ou admitir restrições preventivas. O fino paradoxo de uma investigação que se pergunta sobre seu direito a existir recorda uma conhecida passagem dos Comentarias Reales, de autoria de Garcilazo de la Vega, o Inca, nascido no Peru, mas vivendo na Espanha, em pleno século XVI, onde este alinha uma fieira de argumentos teológicos que sustentam a então disputada possibilidade de vida humana ao sul do equador, do tipo: “Crescei, multiplicai-vos e enchei a Terra, donde se vê que ela é habitável”. Não sem alguma razão, nos dois casos, é preciso argumentar em defesa da própria possibilidade de existir, que a mera existência provaria. Para os centros europeus da era colonial, os índios, mesmo os refinados incas, não eram gente de alma, portanto podendo ser escravizados, enquanto, para muitos epistemólogos do barroco positivismo contemporâneo, pesquisa só o é se contiver percentuais, colonialismo e escravismo equivalentes. Mesmo os autores psicanalíticos atuais têm suas dúvidas, que se vazam em receitas discrepantes. Alguns rejeitam a investigação em Psicanálise, invocando o princípio de que nosso conhecimento deve limitar-se ao que procede do tratamento de consultório, tendo como única fonte as impartilháveis intuições do analista e, por conseguinte, negando qualquer possível contato com as demais formas de saber sobre o homem. Contra essa tendência, outros autores propõem uma pesquisa empírica, de corte estatístico positivista, que, no intuito de demonstrar nossa eficácia terapêutica, busca


Apresentação à primeira edição1

Acompanhar Marion Minerbo em seu percurso de feitura desta sua tese foi uma experiência rica e instigante que propiciou elaborações muito interessantes. É um trabalho que trilha um caminho onde o dar-se conta é uma constante e as reflexões partem da indução para a dedução, da análise e decomposição para a síntese. Este seu processo de desconstrução não nos deixa sem respostas e nos conduz a uma nova compreensão dos fenômenos. Marion instaura sua indagação por meio de um breve relato de um caso em que focaliza o narcisismo em sua expressão na compulsão a comprar roupas de marca, aspecto comum em nossos dias. Não se contenta, porém, com a redução da clínica. Nesta sua viagem, parte em busca da contribuição de outras percepções, exatamente por estar lidando com algo característico de nossa época. Vai

1 Agradeço a Latife Yazigi pela apresentação à primeira edição, e pela generosidade na orientação do meu doutorado. O trabalho foi realizado no departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo.


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transitando pelos enfoques oferecidos pela mídia, marketing, meio, cultura, enfim, pelas contribuições da sociologia moderna, para no final retornar, aos moldes de um bumerangue, à psicanálise contemporânea. Navega por mares conhecidos – apelos da cultura do narcisismo, demandas da sociedade de consumo, bombardeamento da mídia, imposições de rótulos e emblemas –, porém articula suas ideias de um modo diferente, novo. Empresta da Psicanálise de nossos dias o conceito de ato puro a fim de esclarecer o particular e o universal, respondendo com sucesso à questão proposta. A contribuição mais importante do presente estudo é demonstrar a todos que pesquisam e exercem a clínica psicanalítica a importância dos entornos cultural e social, do lugar de inserção do analisando e do analista. Marion alerta para a necessidade de se ampliar a espacialidade e a temporalidade do trabalho psicanalítico murado nos enquadres do aqui e do agora. Flexibilidade nas articulações da reflexão, abertura nas percepções dos fenômenos, atualidade nos conhecimentos e contemporaneidade das concepções psicanalíticas permitem um alcance abrangente e efetivo na prática analítica. Latife Yazigi


Apresentação à segunda edição

Sei exatamente onde e quando nasci como autora. Embora já tivesse escrito e publicado muitos textos, tive plena consciência de estar pensando com rigor, e por conta própria, lá pelas 11 da manhã de algum dia de junho de 1996. Tirei uma semana de férias do consultório e das demandas familiares, e me refugiei em uma casa de praia para escrever. Trabalhava por oito horas seguidas e saía para caminhar no calçadão. Estava empacada em uma questão que não conseguia resolver de jeito nenhum. De repente, entendi por que eu não conseguia avançar. Para abordar a subjetividade contemporânea, os vários autores que eu estava lendo se referiam à “família”. Mas não se davam conta de que “família” pode ser objetos diferentes, conforme o recorte que se está fazendo. Alguns trabalhavam com a família sociológica, cuja organização muda conforme a época e lugar. Outros consideravam a família edipiana, entendida como instituição que transmite significações de maneira inconsciente. Os autores estavam misturando alhos com bugalhos!


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Obviamente, não tinham como advertir o leitor. Por isso, ter reconhecido essa confusão foi uma verdadeira epifania! A tese nasceu no exato momento em que entendi que cada autor partia de pressupostos diferentes para relacionar família e subjetividade contemporânea. Ou seja, cada autor desenvolvia seu argumento em um plano diferente. O equívoco é compreensível. Afinal, todos sabemos o que é “família”. Não tinha me ocorrido que, dependendo da perspectiva, dependendo do recorte efetuado, são objetos de estudo bem diferentes. Eu estava aprendendo a ler. Estava descobrindo na prática que cada autor produzia alguma verdade dentro do seu recorte metodológico. E que isso nem sempre estava claro para ele. Por esse motivo, o autor em questão não se dava conta – e não explicitava – do alcance e dos limites do que estava afirmando. Para avançar na minha investigação sobre as condições de possibilidade da compulsão a comprar roupas de marca eu precisava, antes de mais nada, dessa clareza epistemológica sobre a relação psique-mundo. Ter passado pela experiência intelectual e emocional de discriminar diferentes níveis de pensamento e de argumentos rendeu frutos por todo o meu percurso como psicanalista, tanto na clínica quanto como pensadora da subjetividade contemporânea. * Sou do signo de virgem. Dizem que os virginianos são organizados. Deve ser verdade, porque detesto bagunça. Detesto sobretudo bagunça epistemológica. E foi assim que, trinta anos atrás, atirei no que vi, e acertei no que não vi. Era para ser uma tese sobre compulsão a comprar roupas de marca. Acabou sendo um estudo epistemológico-teórico-clínico sobre como pressupostos distintos nos levam a afirmar coisas muito diferentes sobre a compulsão a


1. Introdução

Esta obra apresenta um estudo teórico a respeito da relação psique-mundo ancorado sobre a psicopatologia. Seu eixo condutor e produtor é um caso de compulsão1 a comprar roupas de marca. O estudo se desenvolve fazendo trabalhar a questão-problema relativa às condições de possibilidade de um sintoma dessa natureza. O mistério neuroanatômico representado pelo sintoma histérico levou Freud a postular a existência do inconsciente, lançando os fundamentos de uma disciplina capaz de iluminar sua psicogênese. Buscando inspiração no procedimento do mestre, este estudo é todo tecido a partir/em torno de um sintoma. Ocorre que esse sintoma apresenta uma peculiaridade: trata-se de um comportamento culturalmente determinado que, num caso particular, se tornou sintomático.

1 O termo compulsão será utilizado em seu sentido descritivo e não psiquiátrico. Estará em questão o aspecto urgente, irresistível e incontrolável do ato.


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Se o sintoma histérico nos remete ao trauma, sua ligação com a sexualidade e com o recalque, um sintoma tão evidentemente relacionado à cultura nos remete a um eventual fator traumático cultural, a uma teoria da relação psique-mundo para iluminar as condições de possibilidade do “sintoma culturalmente determinado”. Nosso intuito era, inicialmente, compreender Bia e seu sintoma. Num segundo momento talvez fosse possível abordar, de um ponto de vista psicanalítico, a “compulsão a comprar” ou, de modo ainda mais geral, comportamentos culturalmente determinados que se tornam sintomáticos. O que não estava em nossos planos era que este estudo nos levasse a problematizar a noção de psique e, consequentemente, a noção de psicopatologia. O estudo deste caso acabou por colocar em crise conceitos centrais de nossa disciplina. Explico. O psicanalista aprende, em sua formação, a dirigir a escuta para as manifestações do inconsciente de seu paciente. Geralmente relega-se a um segundo plano o fato de este estar inserido em determinado universo sociocultural, aliás, tanto quanto o próprio analista. No desenrolar desse trabalho essa postura é questionada. O acaso, por vezes, brinda-nos com descobertas felizes. Aqui, mais do que ao acaso, devemos o resultado à estratégia de pensamento adotada. É graças a ela que, partindo de um caso clínico, acabamos por elaborar, ao fim de nosso estudo sobre a relação psique-mundo, uma matriz de desconstrução. Essa matriz é um instrumento de revisão crítica de alguns conceitos psicanalíticos, bem como de desconstrução da identidade psicanalítica. Na estratégia de pensamento adotada os fatos não falam por si, exigem interpretação. Esta, por sua vez, deve ser coerente com algum recorte teórico e metodológico que legitime seu alcance e indique claramente seus limites. A cada vez que se adota determi­ nado binômio postura-procedimento produzimos interpretações


2. Bia, um caso exemplar

Bia é filha única, tem em torno de 30 anos, é arquiteta, embora já não exerça a profissão. É casada e tem duas filhas. Seu pai abandonou a mãe quando era bebê e “se esqueceu que tinha uma filha”. Nunca mais se ouviu falar dele. A análise evidenciou que esse fato foi vivido por ela como uma recusa paterna em reconhecê-la como filha, o que teve graves consequências com relação a suas referências identificatórias. A mãe, de família judaica de origem estrangeira, bastante conservadora, viveu esse abandono como o fim de sua própria vida. Em seu contexto cultural, “uma mulher abandonada pelo marido não é nada”. Mergulhada numa depressão narcísica, nunca mais teve qualquer vida cultural ou profissional. Sua vida social se resumiu à visita semanal à sinagoga. As referências identificatórias que transmitiu a Bia, conforme a análise pode revelar, foram as da exclusão. Essa dupla ferida narcísica – a dupla exclusão – foi por nós denominada de “sarjeta”, constituindo-se no núcleo identitário de Bia.


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A vida emocional de Bia oscila bruscamente entre extremos. Ela não é capaz de vivenciar qualquer experiência com modulação afetiva; fatos corriqueiros são vividos com grande intensidade, tudo tem caráter absoluto. Do ponto de vista da paciente, buscar as filhas na escola envolve o grave risco de encontrar uma professora que “é sua inimiga mortal”. Encontrar uma colega de infância envolve o pânico de “ser olhada com desprezo”. Comprar uma roupa nova é o mesmo que “transformar-se numa princesa”. Mas, se comprou a roupa sem a anuência do marido, já sabe que “será acusada, criticada e humilhada”. Temendo encontrá-lo, refugia-se na casa da mãe. Com muita frequência comporta-se de acordo com sua vivência de ódio, terror ou perseguição, agredindo verbal ou fisicamente certas pessoas e fugindo de outras. Em nenhum momento se pergunta pela adequação de seus atos. Sua existência está seriamente limitada pela necessidade constante de controlar e impedir a irrupção de angústia de fragmentação psíquica. A primeira fase da análise, a fase das empregadas, revela claramente a indiferenciação Eu/não-Eu. A dependência vital do objeto primário se expressava por meio da relação com essas moças, de quem esperava um amor ilimitado; esperava que elas não tivessem outro desejo que o de servi-la, o que a levava a recusar-lhes qualquer autonomia. A idealização inicial, a frustração e por fim o ódio permeavam constantemente essa relação. A cada vez que era abandonada, e isso era frequente em vista do controle tirânico que exercia sobre elas, Bia sentia-se morrer psiquicamente. “Ser ou não ser”, era a questão. Na fase seguinte, a fase das marcas, parecia que, tendo sobrevivido, Bia procurava referências identificatórias. “Quem sou eu?”, parecia perguntar-se. Nessa fase desenvolve uma compulsão a comprar roupas de marca. Entretanto, Bia não usa as roupas de marca que compra em seu dia a dia. Nem em rodas sociais, pois


3. A questão-problema

O sintoma de Bia coloca algumas questões que são, à primeira vista, secundárias para a clínica psicanalítica. Como ficou dito na Introdução, o psicanalista não costuma se deter, em sua escuta, no fato de estar inserido em determinado universo sociocultural. Essa questão, embora apresentando algum valor teórico, não chega a interferir em seu trabalho. O fato de que o próprio psicanalista faça parte do mesmo (ou de outro) universo sociocultural é raramente problematizado. Isso não significa que as relações entre psiquismo e cultura tenham sido ignoradas, mas certamente essa reflexão não costuma ser levada às últimas consequências, com as devidas repercussões sobre a clínica. O psicanalista aprende, também, a não atribuir demasiada importância ao sintoma em sua acepção clássica. É tão sintomática uma sucessão de fracassos amorosos quanto um quadro fóbico. Ele é compreendido como defesa necessária em função da angústia decorrente de conflitos. Ao trabalhar tendo como foco a angústia, a defesa deixa de ser necessária e o sintoma desaparece.


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Ora, o caso Bia nos confronta com a fragilidade dessas posições teóricas. Não parecia adequado isolar Bia do mundo, e menos ainda desconsiderar seu sintoma, justamente em virtude de sua intrigante especificidade cultural. Ao contrário, Bia nos obriga a olhar para fora do consultório e a interrogar que mundo é este, capaz de produzir esse tipo de sintoma. Em outras palavras, este caso nos coloca radicalmente diante da relação psique-mundo. Uma segunda questão diz respeito à dimensão coletiva de um fenômeno de que Bia é a expressão caricatural. É que a grife pode e deve ser entendida como um universo bem mais abrangente do que o das roupas assinadas. Lugares turísticos, restaurantes, objetos pessoais ou de decoração, estilos de vida, carros, enfim, tudo isso pode fazer parte do amplo universo das marcas em função do status e do prestígio que conferem (evidentemente, estratificadas por classe social: cada qual tem as suas). Mesmo o intelectual não escapa a esse universo. Deseja ser publicado por uma revista científica de prestígio, ou ser o porta-voz de certos temas/autores em voga no momento. O fascínio pelas marcas, bem como algum grau de compulsão, é um fenômeno comum, cotidiano, culturalmente determinado. Bia aponta, pois, para uma condição cultural que é a de todos nós: em algum nível, somos todos um pouco como ela. Uma terceira questão diz respeito à incidência crescente da compulsão a comprar (Elliott, 1994; 1996; Christenson, 1994), propiciada, segundo Elliott, pelo continuum entre o normal e o patológico que se verifica com relação ao consumo. Em vários casos – seja na opinião de um observador, seja na opinião do próprio paciente –, o comportamento comum ultrapassa o limiar daquilo que é socialmente aceitável e se torna francamente sintomático. Sua incidência crescente nos obriga a considerar que talvez não se trate


4. Estratégias de pensamento

Este capítulo corresponde ao que se denomina, tradicionalmente, “metodologia”. A opção por outro léxico – estratégias de pensamento – se impõe por uma questão de coerência com o campo epistemológico em que se insere este trabalho. Da mesma forma, a expressão “fazer trabalhar” a questão-problema (em lugar de respondê-la) e a recusa em denominar o último capítulo de “conclusão” reiteram uma postura relativa à produção de conhecimento, como veremos a seguir. Rosenau (1992), em Post-modernism and the social sciences, diferencia a postura epistemológica pós-moderna da maneira moderna de produzir conhecimento em Ciências Sociais. Apesar de referir-se especificamente à sua área, a autora promove um debate suficientemente amplo para abarcar as Ciências Humanas em geral. Afirma que as respostas pós-modernas às questões: “como sabemos o que sabemos”, “por que caminhos produzimos conhecimento” e “o que é o conhecimento” diferem muito da postura epistemológica moderna diante delas. Esta última está


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visceralmente relacionada ao método científico utilizado pelas Ciências Naturais, que pressupõe uma realidade em si que pode ser conhecida, bem como teorias que correspondem aos fatos. O pesquisador observa um fato que, a seu ver, aponta para a insuficiência da teoria vigente no momento. Formula e testa, mediante a aplicação de um método, uma nova hipótese que, se comprovada, modifica a teoria anterior. Prova-se cientificamente, isto é, mediante a aplicação de um método científico, a superioridade da nova teoria, dando-se mais um passo em direção ao progresso da ciência e à verdade. Método é, pois, um termo indissociavelmente ligado ao campo epistemológico moderno. O pós-modernismo o substitui por estratégias [de aproximação ao objeto] ou debates. (Rosenau, 1992, p. 116) Não se trata de simples preferência semântica, mas de uma postura crítica com relação a certas categorias básicas utilizadas na produção do conhecimento. Rosenau sintetiza de maneira bastante clara os principais aspectos do debate que ocupa a cena acadêmica contemporânea sobre os fundamentos epistemológicos pós-modernos: •

Nega-se a dicotomia sujeito/objeto, em uma postura crítica com relação à autonomia do “dado de realidade” e do “fato” com relação ao observador (pp. 110-112). Não há leitura da realidade fora de uma matriz de apreensão subjetiva. Essa matriz é constituída por categorias relativas à linguagem em sentido amplo: só aquilo que tem registro linguístico, que pode ser nomeado, ganha direito de cidadania, tornando-se um “dado de realidade”. Assim, a apreensão da realidade é sempre mediada por uma matriz subjetiva, isto é, que pertence ao sujeito e às categorias mentais disponíveis para ele. Não há o fato em si,


5. Primeira versão

5.1 Psique Dissemos que cada versão se configura e se delimita, por um conjunto de pressupostos teóricos. O conceito de psique, tendo como corolário determinada concepção de relação psique-mundo e um recorte de mundo compatível com os dois primeiros, representa os elementos teóricos indispensáveis à compreensão do sintoma de Bia. No sentido mais simples e mais amplo possível, definiremos psique como a estrutura resultante das identificações com os objetos primários que confere sentido emocional à realidade. É a essa estrutura, entendida como sujeito do ato psíquico – ato de dar sentido ao mundo –, que a escuta analítica se dirige. Uma catexia de objeto foi substituída por uma identificação … Desde então viemos a saber que esse tipo de substituição tem grande parte na forma tomada pelo ego e efetua


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uma contribuição essencial no sentido da construção do que é chamado de seu “caráter”. (Freud, 1923, pp. 42-43)

No referencial kleiniano o mundo interno representa a multiplicidade de objetos internos1 que mostram certa regularidade de expressão. Baranger (1981, p. 213), numa análise crítica do conceito de objeto interno, evidencia seu duplo estatuto metapsicológico: como interlocutor interno (a multiplicidade das identificações) e como estrutura psíquica. Assim, identificamos estruturas predominantemente narcísicas, obsessivas, histéricas, psicóticas, perversas. Admite-se uma constância na maneira de constituir emocionalmente os objetos, dentro dos limites impostos pela multiplicidade de identificações do sujeito psíquico. O recorte de mundo compatível com essa concepção de psique é, inicialmente, o objeto primário com o qual o sujeito se identifica. Mas é também, e principalmente, a realidade tal como experimentada por ele. O mundo assume uma determinada espessura emocional a partir do sujeito, que projeta e expele certas qualidades sobre os objetos externos. Se o mundo é vivido como persecutório, como cinzento e morto, ou como luminoso, isso se deve à projeção de aspectos, qualidades ou intenções que “pertencem” ao sujeito psíquico. Mundo é o palco em que os objetos internos ganham representação. “É porque o bebê projeta sua própria agressividade 1 Segundo Hinshelwood (1992), o termo objeto interno “denota a experiência ou fantasia inconsciente de um objeto concreto fisicamente localizado no interior do ego (corpo), que possui seus próprios motivos e intenções para com o ego e outros objetos. Ele existe dentro do ego, em maior ou menor grau de identificação com este.… [Os objetos internos] contribuem de modo significativo, através da projeção, para a maneira pela qual os objetos externos são, eles próprios, percebidos e experienciados” (p. 82).


6. Segunda versão

6.1. Psique A primeira versão permite ao psicanalista orientar-se para o trabalho clínico. Seus limites, porém, exigem uma reformulação dos pressupostos teóricos. Nessa versão, o sujeito psíquico ainda é o produto das identificações com os objetos primários, tal como na primeira versão. No entanto, esses objetos são marcados pelo mundo sociocultural em que se inserem. Acrescentamos à família edipiana a família sociológica e suas variações históricas. Abre-se, com essa reformulação, um espaço para pensarmos num sujeito psíquico historicamente determinado, uma vez que a família sociológica afeta, necessariamente, a estrutura da família edipiana no seio da qual se constitui o sujeito psíquico. Não se trata mais de uma ontologia do inconsciente, mas da “vida psicológica de sujeitos históricos” (Freire Costa, 1986b, p. 125). O mundo, nessa versão, ainda é o suporte projetivo do psíquico. Entretanto, ele ganha também um estatuto de realidade,


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independente dessas projeções. A organização familiar de fato se alterou enormemente, e, dessa perspectiva, o mundo pode comparecer como possível fator patogênico em si mesmo.

6.2 Relação psique-mundo Tanto no referencial freudiano quanto no kleiniano supõe-se, entre psique e mundo, um interjogo entre os mecanismos de projeção e introjeção que pode resultar em identificações. O referencial kleiniano postula uma atividade da psique materna mediando a relação psique-mundo do bebê. O conceito de maternagem, rêverie ou continência se referem à capacidade, por parte da mãe, de tolerar, metabolizar e transformar as fantasias nela projetadas, de forma a permitir sua integração ao self do bebê. No caso de essas fantasias serem devolvidas à mente infantil com uma carga de angústia insuportável, a integração dos aspectos projetados torna-se problemática. A criança recorrerá, de forma excessiva, aos mecanismos de cisão e identificação projetiva, caracterizando um funcionamento mental predominantemente psicótico. De acordo com Bion, citado por Frosh (1991), uma maternagem inadequada dificulta o desenvolvimento psíquico normal. A qualidade da maternagem pode ser afetada por circunstâncias relativas ao ambiente sociocultural mais imediato (pp. 71-72). Já no referencial freudiano, considera-se que o sujeito psíquico é a história de suas identificações, sendo que a identificação é o processo mediante o qual psique e mundo se articulam.

6.2.1 Édipo e identificação Não se pode falar em identificação sem falar em Édipo. Em A dissolução do complexo de Édipo (1924), Freud sustenta que, ao aceitar a


7. Terceira versão

A primeira versão centrava-se na constituição da grife em objeto idealizado pela projeção dos aspectos narcísicos do sujeito psíquico. Entretanto, se a grife não tem sentido a não ser quando investida emocionalmente, como explicar que ela se torne significativa, ao menos em algum grau, para a totalidade das pessoas? De onde nos vem, a todos, a propensão a projetar aspectos narcísicos justamente sobre esse mesmo objeto? É evidente que uma significação coletiva como esta não pode ser produto da psique individual. Partimos em busca de uma versão que nos permitisse falar em subjetividades historicamente determinadas. Na segunda versão falávamos de um sujeito psíquico que se estrutura na relação com o mundo. Associando Psicanálise e Sociologia, os três autores citados identificam no narcisismo um traço característico da subjetividade contemporânea. Ele é visto tanto como patologia quanto como gramática emocional. Contudo, ainda não pudemos compreender as condições de possibilidade de um sintoma tão específico como o de Bia. Para compreender sua


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hiperadaptação ao discurso consumista e às marcas será necessário ampliar a noção de sujeito psíquico, colocando em evidência a dimensão institucional da psique. É esse o movimento conceitual que efetuaremos da segunda para a terceira versão.

7.1 Psique A ruptura conceitual com as concepções de psique anteriores nos levará a enfatizar, mais adiante, as “matrizes institucionais do sujeito psíquico”.1 Essa expressão nos obriga a explicitar o que entendemos por instituição para melhor esclarecer o sentido da expressão “matrizes institucionais”.

7.1.1 Instituição Lapassade apud Guirado (1987) em Psicologia institucional faz uma distinção entre grupos, organizações e instituições. Os grupos formam a base da vida social: na escola é a classe. Estes podem vir a configurar organizações, com seus regimentos e regulamentos, condições materiais e espaço físico: a escola. Ambos, grupos e organizações, estão sobredeterminados pela instituição, que seria, nesse exemplo, a Educação. As instituições preenchem uma série de funções vitais a uma sociedade (Guirado, 1987, p. 29). Algumas se encarregam de determinar o modo de produção de bens; outras decidem o que, como e a quem os conhecimentos devem ser transmitidos. Outras, ainda, propõem uma forma de gestão da coletividade, da regulação dos litígios.

1 Expressão de Guirado (1995), título de seu livro Psicanálise e análise do discurso: matrizes institucionais do sujeito psíquico.


8. Quarta versão

8.1 Introdução Partindo de um caso clínico, nossa proposta consistiu em fazer trabalhar uma questão-problema: qual a natureza da relação psique-mundo tal que um sintoma como o de Bia seja possível. Essa questão foi trabalhada em três níveis epistemológicos diferentes. A terceira versão nos conduziu a considerar a dimensão aditiva do consumo, abrindo um campo de investigação que Levin (1987) denominou epidemiologia cultural.1

1 Levin (1987), em Pathologies of the modern self, introduz o termo “epidemiologia cultural” para referir-se a formas de sofrimento que são manifestações específicas de uma determinada situação histórica – no caso, patologias do self contemporâneo. O livro traz uma série de estudos pós-modernos sobre narcisismo, esquizofrenia e depressão. “Chamo estes estudos de pós-modernos porque eles situam certas patologias epidêmicas do self com relação às práticas sociais, às instituições e ao modo de vida contemporâneo e porque, de


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Krueger (1988) observou que a compulsão a comprar é frequentemente associada à bulimia e ao exercitar-se incessantemente. Esse fato sugere que a compulsão a comprar não é um caso isolado: outros comportamentos culturalmente determinados podem também se apresentar num espectro sintomático que vai do brando, invisível a olho nu, ao mais severo. Realmente, basta um olhar mais atento para constatarmos, à nossa volta, uma grande variedade de comportamentos cujo exagero chama a atenção. Trabalhar, assistir à TV, jogar videogames, navegar na internet podem consumir muitas horas; “malhar”, a preocupação com a alimentação, com a beleza e com a aparência física em geral também podem se transformar na principal ocupação de muitas mulheres. Por outro lado, a síndrome do domingo é conhecida. As pessoas se entediam – leia-se: ficam deprimidas ou angustiadas – quando têm tempo livre, quando “não há nada para fazer”. Mesmo nas férias há necessidade de se estar em atividade incessantemente – há equipes de lazer para adultos e crianças nos hotéis. Evidentemente, o tempo livre pode ser ocupado como melhor aprouver a cada um. Entretanto, o que se verifica atualmente é a evitação fóbica do ócio, do tempo livre desocupado. Pareceria, enfim, que estamos todos empenhados, em maior ou menor grau, em “fazer coisas” incessantemente, assombrados pelo estresse e fadiga crônica de um lado, e pela depressão e angústia por outro. Há, ainda, outras observações nessa mesma linha que não provêm do cotidiano, mas da clínica. Cinira é uma paciente borderline. maneira geral, situam-se criticamente com relação à modernidade como um todo” (p. 3). O autor comenta o paradoxo da expressão epidemiologia cultural; reconhece que o termo “epidemiologia” se refere à medicina enquanto “cultural” se refere aos sistemas simbólicos. No entanto, é exatamente disto que se trata: da caracterização epidemiológica das patologias do self cuja determinação é cultural.


9. A matriz de desconstrução

Nos primórdios da Psicanálise, o enigma neuroanatômico representado pelo sintoma histérico atraiu a atenção de Freud. Sua descoberta de que o sintoma tem um sentido se contrapõe à lógica da Medicina e lança as bases desta nova área do saber. Em que pese a importância histórica do sintoma, do ponto de vista terapêutico ele nunca chegou a ser mais valorizado do que outras produções psíquicas. É a angústia que sempre ocupou um lugar privilegiado, por torná-lo necessário. Analisando Bia, contudo, a especificidade cultural de seu sintoma chamou minha atenção. Como explicar sua aparente continuidade com o comportamento coletivo se, entendido como solução defensiva, ele é, implícita e necessariamente, uma produção psíquica individual? Esse sintoma, cuja lógica parece dissolver-se na lógica social, exigia um complemento à teoria da solução defensiva. Foi exatamente esse o motor e fio condutor das quatro versões. É chegado o momento de afastar nosso olhar de cada versão em particular e considerar o conjunto. A arquitetura básica das versões


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facilita a construção de uma matriz que permite tomar distância e refletir sobre o novo panorama que se apresenta. Ela sintetiza os movimentos de desconstrução da teoria decorrentes da estratégia de trabalhar comprometida com uma questão concreta – o sintoma de Bia. Simultaneamente, demonstra de que forma as modificações operadas pela desconstrução da teoria repercutem sobre o psicanalista, levando-o a modificar sua visão do caso Bia. Este capítulo ressignifica, pois, a trajetória empreendida até o momento, acrescentando-lhe, ou melhor, ressaltando sua dimensão crítica – a nosso ver o aporte mais significativo deste livro. A matriz de desconstrução Versão I

Versão II

Versão III

Psique

estrutura individual (história emocional)

idem + historicidade (família sociológica)

estrutura psique do real transindividual (lógica (ordem produtora) simbólica)

Relação

identificação projetiva

estressores socioculturais

formações psíquicas intermediárias

crise da representação: ato puro

objeto externo

cultura do narcisismo

sociedade de consumo publicidade

pósmodernidade regime do atentado

angústia defesa

potencializa a angústia

prótese psíquica

comprar: ato puro

psique-mundo Recorte do mundo Bia

grife: solução grife: narcisismo grife: sintomática regenerador significação instituída

Psicopatologia individual cultura: patoplastia

individual cultura: potencialização

continuum normal / patológico ___ = adição

Versão IV

grife: emblema do ato puro psicose de ação


10. À guisa de “conclusão”

Nosso colega já percebeu, ao fim de seu percurso pela matriz de desconstrução, que não encontrará qualquer conclusão do tipo “a compulsão a comprar é…” ou “a relação psique-mundo é…”. Ele já entendeu que a essência do “método” gerador da matriz que acaba de percorrer é, justamente, manter em aberto as possibilidades interpretativas, recusando sentenças que pretendam expressar qualquer verdade absoluta, ontológica, sobre o fenômeno em questão. Ao contrário, ele acaba de concluir que a verdade é sempre relativa ao arcabouço conceitual com o qual o observador se aproxima do fenômeno a ser estudado. É o olhar do observador que permite interpretar o comportamento de Bia como “exagero”, “compulsão”, “adição” ou “psicose de ação”. Outras verdades poderiam se alinhar a estas: por exemplo, “possessão demoníaca” ou “disfunção dos neurotransmissores”, cada qual em perfeita coerência com o quadro conceitual empregado. Desde essa perspectiva não há, nem haverá, um critério último, “objetivo”, para decidir qual das quatro interpretações corresponde


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de maneira unívoca à verdade, à realidade última do comportamento de Bia. Ao contrário, ele se rende à evidência de que há apenas interpretações, as quais remeterão sempre às teorias que as tornam possíveis. O que não significa, evidentemente, que não haja interpretações melhores, mais abrangentes e/ou mais sofisticadas do que outras, caso em que o critério hierárquico será sua utilidade: “melhor” porque mais útil e não porque mais verdadeira. Nosso colega parece decepcionado. Como psicanalista, ele já sabia que nenhuma interpretação apreende a essência ou a verdade final do paciente. Além disso, essas conclusões já estavam, de certa forma, pressupostas no capítulo Estratégias de Pensamento. Aos poucos, contudo, ele percebe que há uma grande diferença entre saber e SABER. Saber é ter conhecimento intelectual; SABER é incorporar, assimilar, introjetar, integrar e se apropriar de um conhecimento através da experiência vívida, viva e vivida corporalmente no percurso pela matriz. Ele acaba de “aprender com a experiência”.1 Então nosso psicanalista conclui: É por isso que a autora relutava em redigir uma “conclusão”: sua conclusão é a pesquisa toda! Sua versão não poderia ser uma quinta versão, melhor ou mais verdadeira do que as quatro existentes; sua conclusão é a justaposição das quatro versões, todas com seu valor intrínseco e sua coerência interna! Sua conclusão é o movimento interno da busca, é o próprio processo de desconstrução contínua que demonstra, ao vivo e em cores, a equivocidade do fato psicopatológico, ponto de partida deste trabalho. 1 Expressão de Bion.


Sei exatamente onde e quando nasci como autora. Embora já tivesse escrito e publicado muitos textos, tive plena consciência de estar pensando com rigor, e por conta própria, lá pelas 11 da manhã de algum dia de junho de 1996. Tirei uma semana de férias do consultório e das demandas familiares, e me refugiei em uma casa de praia para escrever. Estava empacada em uma questão que não conseguia resolver de jeito nenhum. De repente, entendi por que eu não conseguia avançar. E foi assim que, trinta anos atrás, atirei no que vi, e acertei no que não vi: parti de um estudo sobre a compulsão a comprar e descobri ferramentas teóricas e metodológicas para trabalhar questões ligadas à subjetividade contemporânea.

MARION MINERBO


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