Ronaldo Manzi Filho
A morte da narrativa
Uma reflexão sobre a disseminação de diagnósticos psiquiátricos em idade escolar

A morte da narrativa
Uma reflexão sobre a disseminação de diagnósticos psiquiátricos em idade escolar
Ronaldo Manzi Filho
A morte da narrativa: uma reflexão sobre a disseminação de diagnósticos psiquiátricos em idade escolar
© 2026 Ronaldo Manzi Filho
Editora Edgard Blücher Ltda.
Série Psicanálise Contemporânea
Coordenador da série Flávio Ferraz
Publisher Edgard Blücher
Editor Eduardo Blücher
Coordenador editorial Rafael Fulanetti
Coordenadora de produção Ana Cristina Garcia
Produção editorial Luana Negraes
Preparação de texto Maurício Katayama
Diagramação Negrito Produção Editorial
Revisão de texto MPMB
Capa Juliana Midori Horie
Imagem da capa One more time, de Ronaldo Manzi Filho
Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br
Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.
É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.
Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570
Manzi Filho, Ronaldo
A morte da narrativa : uma reflexão sobre a disseminação de diagnósticos psiquiátricos em idade escolar / Ronaldo Manzi Filho. – São Paulo : Blucher, 2026. 528 p. (Série Psicanálise Contemporânea / coord. Flávio Ferraz).
Bibliografia
ISBN 978-85-212-2850-9 (Impresso)
ISBN 978-85-212-2851-6 (Eletrônico – Epub)
ISBN 978-85-212-2848-6 (Eletrônico – PDF)
1. Psicanálise. 2. Psicanálise na escola. 3. Análise da criança. 4. Psicanálise na infância. 5. Análise de adolescentes. 6. Psicanálise e educação. I. Título. II. Ferraz, Flávio.
CDU 159.964.2
Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise CDU 159.964.2
Conteúdo
Prefácio – Escutando o que não se quer escutar: as raízes políticas da medicalização
O neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico
Excurso: A sociedade do mal-estar
Uma nota sobre a questão das drogas
Disseminação diagnóstica de transtornos mentais em crianças e adolescentes
O que significa rotular alguém com uma doença mental?
A disseminação do poder psiquiátrico
Excurso: O epílogo “O pássaro pintado” de Thomas Szasz
estudo sobre ensino e medicalização
ideia de narrativa
DSM como coisa pública
Excurso: Impactos das tecnologias digitais em nossas formas
Prefácio Escutando o que não se quer escutar: as raízes políticas da medicalização
Há momentos que fazem certas discussões serem incontornáveis para uma comunidade. Há, por outro lado, debates que não parecem envelhecer, exibindo perenidade no atravessamento de décadas a fio com sua pertinência sempre renovada. A escrita de livros não deixa de se inserir dentro dessas duas possibilidades: há livros que tiram sua potência da efervescência de uma combinação específica de tensionamentos, há outros cujo frescor desafia o passar do tempo e as especificidades de diferentes momentos históricos. A morte da narrativa é uma obra capaz de, pela astúcia de seu autor e pela qualidade de seu argumento, articular a paixão do embate atual com a constância da recorrência de uma reflexão que dificilmente se mostrará ultrapassada.
Isso porque Ronaldo Manzi Filho oferece a quem o lê uma discussão profunda e sofisticada, mas cuja temática geral tem sido manchete de noticiários contemporâneos. Os debates sobre educação, que já tiveram foco nas mais variadas temáticas, ganharam nos últimos anos a forma de uma disputa política intimamente entrelaçada ao aprofundamento de conflitos resultantes do esgotamento de formas de governo que tentavam realizar projetos contraditórios
entre si. Seu objeto específico, a medicalização da idade escolar, toca os mesmos elementos causais de que originaram outros debates, como aquele que teve seu ponto alto no movimento conhecido como Escola sem Partido. Olhemos rapidamente para isso.
Uma mirada minimamente atenta repara que as denúncias de atividades pedagógicas marcadas por “vieses ideológicos” não deixavam de revelar, em seu negativo, tanto o impossível que era supostamente defendido quanto o que essa defesa revelava enquanto intencionalidade. Isto é, por trás de um discurso (no mínimo) ingênuo a favor de uma educação que não tivesse qualquer viés ideológico, é possível reconhecer o caráter conservador do entusiasmo com a neutralidade. Seja em formas mais brutas que partem da afirmação de que seus ideais são verdadeiramente verdadeiras e, por isso, não ideológicas; seja em formas um pouco mais sofisticadas, que têm no horizonte a utopia (Hinkelammert, 1984/2013) de que a simples apresentação de pontos de vista contraditórios seria suficiente para que a melhor decisão fosse tomada, como se sob responsabilidade de um todo poderoso livre-mercado de ideias.
Tais crenças não deixam de apresentar grandes proximidades de formas extremadas de relação com o próprio conhecimento, em especial o negacionismo. Tanto na defesa de uma verdade supostamente livre de qualquer viés quanto na consideração da neutralidade enquanto uma possibilidade capaz de produzir saberes desinteressados, os vieses ideológicos são claros, embora denegados por seus enunciadores. Seria possível realizar uma discussão sobre a impossibilidade de um educar livre de reproduções ideológicas ou mesmo capaz de garantir posicionamentos críticos, entretanto Manzi Filho escolhe um caminho diferente, que sem dúvida contribui para esse tipo de discussão, mas que se debruça sobre outros temas igualmente urgentes.
Embora discussões sobre um cruzamento direto entre ideologia e educação tenham ganhado os holofotes com esse tipo de embate
O neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico
A ideia de transtorno mental é definida pelo Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM). A edição mais recente desse manual, o DSM-5-TR,1 publicado em 2022, define:
Um transtorno mental é uma síndrome caracterizada por perturbação clinicamente significativa na cognição, na regulação emocional ou no comportamento de um indivíduo que reflete uma disfunção nos processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento subjacentes ao funcionamento mental. Transtornos mentais estão frequentemente associados a sofrimento ou incapacidade significativos que afetam atividades sociais, profissionais ou outras atividades importantes. Uma resposta esperada ou aprovada culturalmente a um estressor ou
1 Até a quarta edição, utilizou-se o número romano para se indicar a versão do DSM: DSM-I, DSM-II, DSM-III e DSM-IV. Na quinta versão, estabeleceu-se o número arábico: DSM-5. As letras “TR” significam: “Texto Revisado”. Ou seja, houve a publicação do DSM-5 e, posteriormente, sua revisão.
perda comum, como a morte de um ente querido, não constitui transtorno mental. Desvios sociais de comportamento (p. ex., de natureza política, religiosa ou sexual) e conflitos que são basicamente referentes ao indivíduo e à sociedade não são transtornos mentais a menos que o desvio ou conflito seja o resultado de uma disfunção no indivíduo, conforme descrito. (APA, 2023, p. 14)2
A lista dos transtornos mentais, bem como os critérios diagnósticos seguidos por textos, é amplamente divulgada nos meios digitais e tem efeitos direto na vida dos indivíduos. Por exemplo, tornou-se uma experiência comum na prática clínica psicanalítica que pais tragam seus filhos para confirmarem diagnósticos psiquiátricos recebidos seja por profissionais da saúde, seja por profissionais da escola, como por pessoas leigas ou mesmo pelos pais. Nesses últimos casos, os leigos têm acesso a uma profusão de dados (nas mídias sociais) sobre como, supostamente, saber diagnosticar transtornos – como se tratasse simplesmente de saber preencher uma lista de sintomas e encontrar o transtorno correspondente. Nunca vimos uma proliferação tão vasta de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno bipolar e espectro autista, por exemplo. Ao lado dessa profusão de diagnóstico, o uso de medicamentos em crianças em idade escolar tem avançado de uma forma sem precedente.
2 Aproveitamos para destacar duas observações sobre as citações deste livro: 1) algumas citações foram traduzidas pelo autor – é o caso de todas as obras consultadas em outras línguas que estão citadas ao longo do texto (ver na lista de referências os casos correspondentes); caso haja tradução em português, esta foi utilizada (o nome do tradutor em questão consta na lista mencionada); 2) nos trechos citados, todos os grifos indicados são dos respectivos autores, nunca do autor desta obra.
Excurso: A sociedade do mal-estar
Apesar de podermos afirmar que os valores neoliberais vêm colonizando nossas formas de vida, em especial no Ocidente (mas não exclusivamente), nem sempre as pessoas vivenciam o sofrimento psíquico da mesma forma. É verdade que o Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM) vem impondo um padrão de gestão de sofrimento, como veremos, mas não podemos afirmar que uma pessoa sofre do mesmo modo em situações distintas mundo afora. Dependendo dos valores que uma sociedade privilegia para si, lidamos de maneiras distintas com a exigência de autorrealização, por exemplo. Alain Ehrenberg (2010b) desenvolve, em A sociedade do mal-estar, uma reflexão que coloca à tona como os Estados Unidos da América e a França criaram formas de lidar com o sofrimento que são próprias de sua sociedade. Em ambos os casos, os indivíduos foram submetidos aos valores neoliberais. Contudo, teriam reagido de maneira semelhante?
Ehrenberg destaca como houve uma mudança na gramática dos afetos com a gestão neoliberal. Nos Estados Unidos, isso se expressa em uma patologia1 da culpabilidade; ou uma espécie de
1 Nesse caso, a ideia de patologia é tomada nessa concepção: “A patologia afeta o
insuficiência depressiva na tentativa de afirmação de si, levando as pessoas a não se sentirem “à altura” do que se é esperado. Assim, “É sobre o modo do déficit, da insuficiência ou da desvantagem que aparece a culpabilidade” (Ehrenberg, 2010b, p. 13).
Já na França, saúde mental e sofrimento psíquico são objetos de discurso sobre o mal-estar da civilização enquanto um problema social, mais próximo de uma patologia social: “Com efeito, [na França,] no discurso sobre o sofrimento psíquico e a saúde mental, a referência à vida social, às transformações institucionais e normativas é permanente” (Ehrenberg, 2010b, p. 14). Os franceses sentiram, com o neoliberalismo, uma desinstitucionalização, psicologização e privatização da existência humana – como se os valores centrais republicamos tivessem sido modificados. Assim, os franceses vivenciam a ascensão do individualismo com o declínio da sociedade, tendo se “perdido” valores sociais como a solidariedade, comunidade etc., uma vez que “O Estado está para o individualismo francês como equivalente da moralidade para o individualismo americano” (Ehrenberg, 2010b, p. 189). Uma mudança de uma sociedade disciplinar para uma ideia de autonomia. Tal mudança é vivida também como uma mudança do estatuto social do sofrimento psíquico. Daí sua tese: “A ideia de que a sociedade faz sofrer é uma ideia social e, em consequência, um objeto para a sociologia” (Ehrenberg, 2010b, p. 16).
A questão que Ehrenberg nos coloca é: diante do neoliberalismo, nossa “linguagem” é a mesma, mas não nos referimos às mesmas questões. Assim, se a saúde mental está em torno da ideia sujeito na sua ‘subjetividade’, sua ‘personalidade’, sua ‘interioridade’, quer dizer, no que a sociedade democrática põe como a essência mesma do humano. As patologias mentais são mentais no sentido que elas afetam as ideias que se faz de si e dos outros (perseguição, desprezo), os sentimentos morais (honra, culpabilidade) e as emoções (tristeza, desespero, angústia). É, portanto, a vida de relação que está concernida pelas patologias” (Ehrenberg, 2010b, p. 18).
Uma nota sobre a questão das drogas
Somos uma espécie resistente, sobreviventes bem-sucedidos de dez mil gerações de ancestrais engenhosos que tinham de ganhar sua precária vida cotidiana e evitar perigos onipresentes que iam muito além de nossa inocente imaginação. O cérebro e as estruturas sociais do ser humano são adaptados para lidar com as circunstâncias mais duras – somos plenamente capazes de encontrar soluções para a maioria dos percalços sem intervenção médica, a qual muitas vezes confunde e piora a situação. À medida que avançamos rumo à medicalização indiscriminada da normalidade, perdemos contato com nossas fortes capacidades autocurativas – esquecendo-nos de que a maioria dos problemas não são doenças e de que em raras ocasiões tomar um comprimido será o melhor caminho. Frances, 2013/2016, p. 201
Pela Organização Mundial de Saúde, a concepção de droga se resume em uma ideia abrangente: droga é qualquer substância natural ou sintética que, ao ser introduzida no organismo, modifica as suas funções. Ou seja, qualquer substância que altera o que se espera
1 Deixando clara a posição de Allen Frances (2013/2016): “Minha crítica é dirigida apenas aos excessos da psiquiatria, e não à sua essência” (p. 21). Não sigo aqui a tese de Frances senão em alguns pontos centrais que retornarão mais ao final dessa pesquisa.
90 uma nota sobre a questão das drogas
do funcionamento “normal” que o organismo vivo seguiria sem a introdução dessa substância. Juridicamente, as drogas são legais e/ ou ilegais. Assim, tanto um medicamento receitado pela medicina como um produto sintético ilegal, como a cocaína, são considerados drogas. Tais substâncias podem causar dependência – tal como é definida pela legislação brasileira: as drogas são substâncias ou produtos capazes de causar dependência (especificado no parágrafo único, art. 1º da Lei nº 11.343/2006, que institui o Sistema Nacional de Políticas sobre Drogas [Sisnad]).
Esta pesquisa parte dessa concepção de droga em sentido amplo e se pergunta, principalmente, o porquê do aumento exponencial do consumo de drogas medicamentosas.2 Mais especificamente, pensando no seu crescimento em crianças e adolescentes. Trata-se, como se vê, de uma faixa etária escolar. Perguntar-nos-emos da correlação desse aumento de consumo de psicotrópicos em geral com as exigências e/ou acomodações escolares. Na verdade, a afirmação anterior deve ser posta como questão: por que houve um aumento exponencial de uso de psicotrópicos por indivíduos em idade escolar? O que a escola tem a ver com isso?
Não há uma resposta direta para nossas indagações. É preciso levar em conta vários elementos aparentemente sem correlação com nosso tema. Comecemos lembrando que o aumento de uso de psicotrópicos na década de 1990 se deu principalmente no meio
2 “A imprecisão dos diagnósticos está causando uma overdose nacional [Estados Unidos da América] de medicamentos. Seis por cento da população norte-americana é dependente de fármacos prescritos, e hoje em dia há mais visitas a prontos-socorros e mortes decorrentes dessas substâncias legalizadas do que de drogas urbanas ilegais. Quando seus produtos são utilizados de maneira descuidada, os fabricantes de remédios podem ser tão perigosos quanto os cartéis de drogas” (Frances, 2013/2016, p. 15). “Hoje [2013, no caso], 7% dos norte-americanos são viciados em alguma droga psicotrópica legal. O abuso de medicamentos vendidos sob prescrição tornou-se mais problemático do que o de drogas ilícitas” (Frances, 2013/2016, p. 124).
Disseminação diagnóstica de transtornos mentais em crianças e adolescentes
“Porque você não gosta de tomar Ritalina?”, perguntei curiosa ao menino de 10 anos que acabara de fazer tal afirmação. “Porque deixa a brincadeira sem graça”. Eu não teria sido capaz de definir melhor um efeito colateral tão importante que, no entanto, não consta da bula de nenhum remédio.
Catão, 2020, p. 7
Em síntese, podemos afirmar que sob o cientificista algoritmo de criança que não aprende e/ou criança com problema de comportamento + exame físico normal + exames laboratoriais normais esconde-se, de fato, a criança que incomoda.
Moysés e Collares em Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, 2010, p. 90
O que acontece quando, na escola, os professores percebem “que algo não vai bem” com uma criança? Em qual critério podem se basear para afirmar tal? Quer dizer, há algo para além da escola, como algum distúrbio orgânico, que poderia justificar o comportamento supostamente errático de uma criança na sala de aula? E quando uma delas parece não acompanhar a turma? E se ela parece
104 disseminação diagnóstica de transtornos mentais em crianças…
aérea e sem interesse pelas atividades? Trata-se de um problema extraescolar que merece uma intervenção clínica?
Imaginemos, primeiramente, pais preocupados com um filho que está tendo dificuldade de atenção em sala de aula segundo o que teria relatado alguns professores. Imaginemos que esses pais busquem na internet algum site respeitado mundialmente sobre o assunto, como é o caso do CHADD (Children & Adult with ADHD)1 – uma entidade estadunidense com informações para pais, adultos, jovens, educadores, profissionais da saúde, curiosos etc. sobre o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Aqueles pais iriam encontrar, por exemplo, esse tipo de esclarecimento quando procurassem sobre o diagnóstico de tal transtorno:
Quais são os critérios do DSM-5 para o diagnóstico de TDAH?
Como acontece com qualquer diagnóstico do DSM-5, é essencial primeiro descartar outras condições que podem ser a verdadeira causa dos sintomas. Como todos mostram sinais desses comportamentos em um momento ou outro, as diretrizes para determinar se uma pessoa tem TDAH são muito específicas. Em crianças e adolescentes, os sintomas devem ser frequentes ou graves em comparação com outras crianças da mesma idade. Em adultos, os sintomas devem afetar a capacidade de funcionar na vida diária e persistir desde a adolescência. Além disso, os comportamentos devem criar dificuldades significativas em pelo menos duas áreas da vida, como casa, ambientes sociais, escola ou
1 O site pode ser acessado em: https://chadd.org/
O que significa rotular alguém com uma doença mental?
Está preso em uma doença que não existe. Está confinado em uma instituição invisível, sem paredes, virtual. Moysés, 2001, p. 22
Apenas para nos colocarmos no “espírito de época” anterior à publicação da 3ª edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-III), tão marcante na história do Ocidente no século XX, vejamos um dos críticos da psiquiatria de sua época. Tomemos uma coletânea de artigos de Thomas Szasz (1970/1977) denominada Ideologia e doença mental: ensaios sobre a desumanização psiquiátrica do homem.
Szasz é considerado um psiquiatra renomado nos Estados Unidos a partir da década de 1970, principalmente por ter sido professor da Universidade de Nova York e ser um crítico ferrenho da própria psiquiatria de sua época. É um pensador controverso e é visto como um humanista libertário, tornando-se o que se denominou o “papa da antipsiquiatria” estadunidense.
Sua questão naquela coletânea está em torno da própria ideia de doença mental e de como é ideológica a afirmação de que a
130 o que significa rotular alguém com uma doença mental?
psiquiatria é neutra. É surpreendente como várias das críticas que Szasz realiza em 1970 permanecem até hoje abertas. São questões travadas antes do DSM-III, mas que poderiam lhe ser endereçadas.
Mas, antes de nos voltarmos ao que nos diz Szasz, é importante ressaltarmos como podemos pensar diferentes formas de lidar com a doença mental. Esse ponto foi levantado por Allen Frances (2013/2016) em Voltando ao normal: como o excesso de diagnósticos e a medicalização da vida estão acabando com a nossa sanidade e o que pode ser feito para retomarmos o controle. Ele diferencia três formas específicas de se pensar a doença em um subcapítulo denominado “Os transtornos mentais são doenças, mitos ou outra coisa?”.
A primeira posição é, a seu ver, radical: existem as doenças mentais; elas são reais e os psiquiatras seriam responsáveis em apreender sua essência. Essa posição foi abandonada, segundo Frances, devido a seu otimismo e sua ineficácia em encontrar uma suposta “essência” do patológico. A terceira posição seria a mais próxima de Szasz: pensar a doença mental como um mito – igualmente uma posição radical para Frances, pois a doença seria uma construção teórica sem qualquer correspondência com a realidade. Nesse caso, corre-se o risco de afirmar que a doença mental não existe e que todos são sadios. A posição de Frances é a intermediária: podemos conhecer a doença mental em partes, uma vez que aquilo que ela supostamente é e o que podemos perceber não se sobrepõem. Segundo Frances, essa posição não toma a doença como uma enfermidade real, mas tem um viés utilitarista: aquilo que melhor funciona (ou seja, essa é a melhor explicação que temos sobre “tal” doença até hoje, o que não impede que a abandonemos amanhã – o que não se poderia fazer é negar o fato de existir a doença). Esse árbitro, diz Frances (2013/2016),
Ele aceita o fato de que estamos o tempo todo construindo percepções e descobrindo significados temporários
A disseminação do poder psiquiátrico
Michel Foucault se volta à reflexão sobre a psiquiatria em vários momentos de sua experiência intelectual. Nos anos 1970, pós-maio de 1968,1 a questão da antipsiquiatria dá um novo impulso para se criticar a psiquiatria vigente. Vários são os pensadores, como Szasz, por exemplo, que criticam a forma de lidarmos com o que se denomina doença mental. As instituições hospitalares que tratam de doentes mentais são questionadas; o poder psiquiátrico é colocado em questão; o saber médico é posto em dúvida etc. Justamente nesse período, nos anos 1973-1974, Foucault realiza um curso no Collège de France com o título O poder psiquiátrico. Seu objetivo é mostrar como o saber psiquiátrico se instaura, assim como a instituição psiquiátrica, para então ser possível uma crítica de suas instâncias normalizadoras.
Não nos cabe aqui retomar como esse poder foi constituído, mesmo porque a crítica de Foucault se localiza em um período histórico em que as instituições hospitalares possuíam um poder de intervenção. Com a antipsiquiatria, essas instituições foram
1 Sugiro a leitura do livro Paris 1968: as barricadas do desejo, de Olgária Matos (1989), sobre essa questão.
154 a disseminação do poder psiquiátrico
abandonadas (ao menos tal como a conhecíamos) em prol de uma forma de gestão – a que estamos analisando: aquela que se volta ao poder dos fármacos, por exemplo, na contemporaneidade. Entretanto, várias questões que Foucault salienta em seu curso nos cabem, como a ideia de poder que é dada ao psiquiatra; a concepção de verdade que a psiquiatria cria para justificar suas intervenções; e como há um assujeitamento do indivíduo às normas que lhe são impostas. Há uma lição em especial, do dia 16 de janeiro de 1974, que nos interessa diretamente. A tese de Foucault nessa lição é de que o poder psiquiátrico operou a partir da psiquiatrização da infância. Seria essa operação que teria realizada a difusão do poder psiquiátrico, fazendo uma linha tênue entre hospital/escola; instituto sanitário/ sistema de aprendizagem. Para tanto, Foucault nos lembra de uma reflexão de Georges Canguilhem (1943/2007) em O normal e o patológico sobre a questão da própria elaboração do conceito de normal. Na verdade, o padrão de normalidade é mais bem descrito não com a “descoberta” de que há crianças loucas (datam do final do século
XIX os primeiros casos registrados), mas que há crianças que são completamente fora de norma:2 as crianças denominadas imbecis.
2 Algo ligado diretamente com a ideia de disciplina: “A disciplina fixa os procedimentos de adestramento progressivo e de controle permanente e, enfim, a partir daí, ela estabelece a divisão entre aqueles que serão considerados como inaptos, incapazes e os outros. Quer dizer que é a partir daí que faz a divisão do normal e do anormal. A normalização disciplinar consiste em pôr primeiramente um modelo ideal que é construído em função de um certo resultado, e a operação da normalização disciplinar consiste em tentar tornar as pessoas, os gestos, os atos conforme o modelo, o normal sendo precisamente o que é capaz de se conformar a essa norma e o anormal, o que não é capaz. Em outros termos, o que é fundamental e primeiro na normalização disciplinar não é o normal e o anormal, é a norma. Dito de outra forma, há um caráter primitivamente prescritivo da norma e é em relação a essa norma posta que a determinação e a vigilância do normal e do anormal se tornam possíveis. O caráter primeiro da norma em relação ao normal, o fato de que a normalização disciplinar vai da norma ao compartilhamento final do normal e do anormal
Excurso: O epílogo “O pássaro pintado” de Thomas Szasz
Szasz publica logo em seguida ao livro Ideologia e doença mental: ensaios sobre a desumanização psiquiátrica do homem, em 1971, A fabricação da loucura: um estudo comparativo entre a Inquisição e o movimento de Saúde Mental. Pelo próprio título podemos ver o quanto ele desafiava a psiquiatria da sua época. É preciso termos em conta que a psiquiatria nos Estados Unidos da América era (e ainda é) influente nas decisões jurídicas, contando com o diagnóstico dos psiquiatras nas suas decisões. Mas a concepção de doença mental era aqui tomada de forma moral, como busca mostrar a obra de Szasz. A seu ver, os médicos realizavam mais uma exclusão social do que uma pretensa terapia com aqueles considerados doentes mentais. Sua proposta é revelar como a psiquiatria de sua época herda e age exatamente como os inquisidores da Idade Média. Na caça às bruxas, feiticeiras etc., os inquisidores criavam formas de identificar quais pessoas eram perigosas à fé cristã; da mesma forma, diz Szasz, os psiquiatras buscam encontrar formas de exclusão com “disfarce” científico, mas que se mostram com argumentos puramente morais. Não por acaso vai afirmar que a concepção de doença mental é uma criação ideológica (o conceito de doença mental seria análogo ao de feitiçaria).
162 excurso: o epílogo “o pássaro pintado” de thomas szasz
O livro trata longamente dessa analogia em inúmeros detalhes, desde a criação da psiquiatria moderna nos Estados Unidos até sua época. Sua tese é que há uma transformação de uma ideologia religiosa a uma ideologia científica. Tanto em um caso como em outro, cria-se um bode expiatório que é sacrificado para “purificação” dos cristãos no caso da Inquisição; dos “normais e sadios” no caso da psiquiatria. Szasz expõe como a concepção de doença mental não tem um fundamento científico e serve mais para perseguir as pessoas que são consideradas diferentes do que para supostamente tratá-las. A legitimação dessa atitude se dá juridicamente e é apoiada pela população, por acreditar que os “diferentes” são perigosos. Sua tese é que esse ato é mais compreensível enquanto uma opressão social. Tanto na Inquisição quanto na psiquiatria, a pessoa acusada é destituída de direitos e é encarcerada contra sua vontade. Ou seja, a psiquiatria institucional age para proteger a sociedade de certos indivíduos que são acusados de serem perigosos e que são internados à força, sem nunca terem procurado ajuda para sua suposta doença.
Não pretendo explorar a psiquiatria que Szasz presenciou em sua época. A ideia de doença mental, por exemplo, agora é tomada pela psiquiatria como transtornos. Essa mudança é significativa, porque não estamos mais diante de uma dicotomia entre doença física e doença mental. Com a concepção de transtorno, a psiquiatria busca fundamentar-se em distúrbios biológicos tal como acontece em qualquer doença física, mesmo que ainda não se consiga fundamentar essa teoria – ela aparece como um horizonte. A medicalização, assim, passa a ser justificada, uma vez que se deve alterar o funcionamento do organismo para que o transtorno seja “corrigido”.
Apesar da potência crítica que Szasz nos apresenta, não penso que podemos acompanhá-lo na contemporaneidade. Pensemos, por exemplo, no epílogo denominado “O pássaro pintado” que Szasz traz em sua obra.
Um estudo sobre ensino e medicalização
Ele tem problema. Já fez eletro, disseram que não deu nada e mandaram a gente procurar outra forma de ensinar. Mas ele tem problema, eu sei! [uma professora entrevistada se referindo a um aluno].
Collares & Moysés, 1996, p. 85
Também trabalho em escola particular, mas lá é diferente, quase não tem reprovação. A gente chama as mães no começo do ano, explica o problema e elas levam no médico, fazem acompanhamento [uma professora entrevistada].
Collares & Moysés, 1996, p. 86
Na minha escola, todo mundo fica doente [Pedro, 7 anos].
Collares & Moysés, 1996, p. 150
A cabecinha dele estava longe, o tempo todo, pensando em como seria boa a vida se a escola também fosse coisa gostosa. Desatenção na criança não quer dizer que ela tenha dificuldades de aprendizagem. Quer dizer que há alguma coisa errada com a escola, e que a criança ainda não se dobrou, recusando-se a ser domesticada. [...] Surpreendime com esta enorme e perversa conspiração entre a direção
170 um estudo sobre ensino e medicalização
das escolas, os orientadores, os psicólogos. Todos unidos, contra a criança. O orientador, coitado, não tem alternativas. Se se aliar à criança, perde o emprego. Ele é o ideólogo da instituição, encarregado de convencer os pais, por meio de uma linguagem técnica, que tudo vai bem com a escola e que é melhor que eles cuidem da criança. Alves, 1985, p. 68
Em um estudo de 1996, Preconceitos no cotidiano escolar: ensino e medicalização, Cecília A. L. Collares e M. Aparecida A. Moysés nos mostram como crianças normais na escola incorporam o estigma de doente e perdem sua identidade. Nesse caso, se tornam doentes. Collares e Moysés pensam que é verdade que existam crianças que necessitam de necessidades especiais. O problema é que crianças normais vêm sendo diagnosticadas como doentes, sendo medicalizadas. Isso não só é um problema (iatrogênico, entre outros) para essa criança como também atrapalha na ajuda daquelas que realmente precisariam ser tratadas de forma especial. Isto é, rotula-se uma criança e a fazem ocupar um “espaço” que não lhe é próprio.
As autoras começam com um relato verídico de um aluno de pouco mais de 8 anos que é diagnosticado pela professora como tendo problemas mentais porque não consegue aprender. A família jamais havia observado nada que pudesse confirmar esse diagnóstico. Indo ao médico, este o confirma. Por insistência da escola, é levado novamente ao médico e este envia à escola um relatório detalhado afirmando que a criança é absolutamente normal e capaz de aprender.1 A escola não aceita o relatório; exigem que a criança
1 É importante destacar, como fazem Felipe Oliveira e Marilene Proença Rebello de Souza, que as propostas de leis a respeito de dislexia e TDAH nas escolas apresentadas à Câmara, ao Senado, à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e à Câmara Municipal de São Paulo entre os anos 2003 à 2010 “centram-se na capacitação do profissional da educação para identificar alguns sinais dos transtornos, numa espécie de ‘pré-diagnóstico’, para então encaminhar o
A ideia de narrativa
É conhecido na história da psicanálise o caso de Anna O. Trata-se dos primórdios das reflexões clínicas – um caso que foi conduzido por Josef Breuer e que foi bem-sucedido em larga medida em eliminar os sintomas de Anna O. O caso é intrigante em vários sentidos. Entretanto, vamos nos reter à questão do método denominado talking cure.
Breuer destaca os vários sintomas que Anna manifestava quando cuidava do seu pai doente. O caso desafiava a medicina da época, porque não se identificou nenhum distúrbio orgânico, especialmente do cérebro. Os sintomas persistiam (alucinações; paralisia espástica; distúrbios nos movimentos dos olhos; deficiência visual; dificuldade de manter a cabeça erguida; tosse nervosa; nojo de alimentos etc.) sem que uma intervenção médica desse qualquer resultado.
Tendo ciência que não se tratava de um distúrbio orgânico, Breuer busca algum tipo de método que possa ajudar Anna. Em vários momentos, Breuer percebe que algo a perturbava; esse algo, “isso” (o que se passava com ela), não queria ser dito. Entretanto, “Quando o adivinhei e a forcei a falar”, relata Breuer, “a inibição,
que antes também tornara impossível qualquer outra manifestação, desapareceu” (Breuer & Freud, 1893-1895/2016, p. 46). Esse método de fazer com que a pessoa fale a própria Anna O. denominou talking cure (cura pela fala); e também como chimney sweeping (limpeza de chaminé).
O grande desafio de Breuer era fazer com que ela falasse – isso não só a aliviava como indicou a direção de sua cura. Nesse sentido, o lugar da fala de si dá um novo sentido à experiência. Não cabe aqui destacar o desenrolar do caso, mas a ideia de que a psicanálise se fundamenta na fala da pessoa: não é o médico que sabe o que o paciente tem; é o próprio paciente que sabe – diz não saber, conscientemente; mas, inconscientemente, ele sabe. Daí a insistência de a psicanálise ouvir o paciente, pois ele tem um saber que desconhece. Esse é um ponto que fora excluído até então da medicina: ouvir o que a pessoa que está sofrente tem a dizer.
Freud leva tão a sério seu método que o impõe como “contrato” com o paciente:
Com os neuróticos, então, fazemos este pacto: total franqueza de um lado, rigorosa discrição do outro. Isso dá a impressão de que buscaríamos apenas a posição de confessor secular. Mas a diferença é grande, pois dele não queremos somente escutar aquilo que sabe e esconde dos outros; ele deve também nos contar o que não sabe. Com esse propósito, fornecemos-lhe uma definição mais precisa do que entendemos por franqueza. Fazemo-lo se comprometer com a regra analítica básica, que doravante deve reger sua atitude para conosco. Ele deve não apenas nos comunicar o que diz intencionalmente e de bom grado, o que, como numa confissão, lhe traz alívio, mas também tudo o mais que sua auto-observação lhe propicia, tudo o que lhe vem à
O DSM como coisa pública
A história do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais nos remete a uma concepção de como a psiquiatria modificou ao longo dos anos a própria forma de pensar as doenças mentais.1 Quer dizer, o DSM não tem uma história hegemônica, como se suas revisões fossem simplesmente uma tentativa de deixar mais claro o que havia sido proposto em sua primeira versão. Muito pelo contrário. A terceira versão do DSM modifica a história da psiquiatria e, de forma mais abrangente, inclui nessa mudança 1 Há um estudo recente (publicado em 2020) que traz um quadro bibliográfico de teses, dissertações, livros, artigos etc. tanto contra quanto a favor do DSM sobre a “produção do discurso médico-científico que consolida bases de interpretação do referente às dificuldades de aprendizagem enquanto problemas médicos ou psicológicos, tanto quanto na organização das informações em uma Linha do Tempo, acerca de como os The Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM) vêm tratando as dificuldades de aprendizagem”. O quadro abrange desde o surgimento do DSM-I até o DSM-5. O artigo de discussão se intitula “Medicalização e patologização da educação: desafios à psicologia escolar e educacional”, das pesquisadoras Ana Carla Cividanes Furlan Scarin e Marilene Proença Rebello de Souza (2020). O link com a tabela bibliográfica é: http://newpsi.bvs-psi.org.br/uploads/linha do tempo DSM/referencias.html#III.
questões sociais, políticas, educacionais, culturais etc. Isso influencia o modo de concebermos o sofrimento mundo afora. Ou seja, sua influência não se limitou aos profissionais da saúde estadunidenses, mas se transformou no ponto de referência de diagnósticos da saúde mental de forma global e inclusive extrapolou o domínio dos profissionais de saúde, se tornando um debate público. Mas por que esse manual extrapolou o âmbito clínico? E por qual motivo exatamente depois do DSM-III? O que teria ocorrido?
Uma primeira resposta podemos tomar de Steeves Demazeux (2013) em seu livro O que é o DSM? – Gênese e transformações da Bíblia americana da psiquiatria: “O DSM-III encarnou os espíritos e as desilusões de uma nova era da psiquiatria, de um novo nascimento da clínica” (p. 241). Por quê? Que clínica nova seria essa que teria revolucionado nossa forma de pensar a saúde mental?
Seguindo a tradição clínica do século XIX e da primeira metade do século XX, o DSM-I (1952) foi elaborado basicamente a partir de concepções já consagradas na psiquiatria, na psicologia e na psicanálise. Possui pouco mais de cem categorias diagnósticas e, principalmente, se fundamentava na escuta do paciente e na estatística. A estatística vem de uma tradição que remonta o final do século XIX:
A necessidade de recolher informação estatística foi o impulso inicial para o desenvolvimento de uma classificação de transtornos mentais nos Estados Unidos. A primeira tentativa oficial foi o censo de 1840, que levou em conta a única oposição: idiotice ou insanidade. Quarenta anos mais tarde, o censo distinguiu entre sete categorias: mania, melancolia, monomania, paralisia, demência, alcoolismo. A partir destas, a Associação Psiquiátrica Americana (APA) e a Comissão Nacional de Higiene Mental desenvolveram um novo guia para
A difusão de patologias mentais mundo
afora
A serviço do que a psiquiatria trabalha? Ela está realmente a serviço do paciente, ou ainda de sua família? Ou da moral comum, o da indústria farmacêutica? Ou da sociedade em seu conjunto, ou do serviço penal em particular?
Demazeux, 2013, p. 104
Deveríamos nos preocupar com a perda da diversidade no mundo de diferentes concepções e tratamentos de doença mental na medida exata que preocupamos com a perda da diversidade biológica natural.
Watters, 2010, p. 7
Crazy like us: the globalization of the American psyche é o título de uma obra de Ethan Watters publicada em 2010 em que há um jogo de palavras: pode significar tanto “loucos como nós” como “loucos como os estadunidenses (US)”. Em ambas as acepções possíveis, Watters realiza um estudo de casos em que mostra como os estadunidenses não estariam simplesmente exportando sua forma de vida (cultura, linguagem, lazer, política, economia etc.), mas também realizando um projeto de americanizar a compreensão da mente
244 a difusão de patologias mentais mundo afora humana. Mais especificamente, como compreendemos as doenças mentais. Sua questão central é: por que doenças que são próprias de uma cultura começam a se tornar comuns em outras partes do mundo em que tais patologias ou eram desconhecidas ou raras, como a depressão?
A resposta de Watters (2010) é: “A premissa desse livro é que o vírus somos nós [estadunidenses]” (p. 2). Ora, depois da 3ª edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-III) (1980), o mundo começou a falar uma mesma língua ao se referir às doenças mentais. Consequentemente, “Ao ensinar o resto do mundo a pensar como nós, estamos, para o bem ou para o mal, homogeneizando a forma que o mundo enlouquece” (Watters, 2010, p. 2).
Watters destaca como em lugares diferentes, antes de 1980, as pessoas sofriam psiquicamente de formas diversas. Algumas doenças eram próprias de uma dada cultura. Não só isso. Watters (2010) afirma que as formas de adoecer se modificam em uma mesma cultura durante o tempo: “[...] as formas de loucura de um lugar e tempo na história com frequência parecem marcadamente diferentes da forma de loucura de outro lugar” (pp. 2-3). Ou ainda: “Sintomas de doença mental é o que ilumina o Zeitgeist [espírito de época], o produto da cultura e a crença em tempo e lugares específicos e tempos específicos” (p. 3).1 Assim, o que era próprio de uma cultura, de uma época específica, em uma determinada situação, hoje está desaparecendo – como se o mundo todo sofresse das mesmas doenças mentais; a diversidade é agora apagada por um discurso globalizado, por um sofrimento globalizado. É como se se tratasse de um vírus que estivesse se espalhando mundo afora, tal
1 Christian Dunker (2020) diz algo próximo: “Cada cultura, cada época, cada família, tem uma maneira própria de lidar e de reconhecer qual sofrimento merece atenção e cuidado e qual deve ser ‘engolido’ como parte da vida ou aceitação das tarefas incontornáveis da existência” (p. 74).
O poder da metáfora no marketing psiquiátrico
Deixamos de viver em uma época em que a ausência de doença era ponto de partida para uma vida saudável, para uma outra em que a possibilidade de adoecer coloca para cada um a responsabilidade pela gestão dos seus riscos. No lugar do direito à saúde, o dever de ficar bem. No lugar do “ficar bem”, o se superar. “Melhor do que bem”, tornou-se não apenas um anseio generalizado, mas uma obrigação. Da combinação paradoxal entre este anseio e a obrigação vigente resulta o incremento do mal-estar e as diversas adições (de fármacos, de cirurgias plásticas, de sexo). Mais, mais, mais..., num movimento que vai do mal ao pior. Mas na mídia é como se vivêssemos no melhor dos mundos. Existe remédio para tudo. E sempre algum novo.
Coser, 2010, p. 107
Vamos direto ao ponto: nos últimos 43 anos, o trabalho da EMS tem sido fabricar remédios. E, se rir é o melhor remédio, então podemos dizer que o trabalho da EMS tem sido fabricar sorrisos. Sorrisos de bem-estar, risos de alegria, gargalhadas de satisfação... a EMS foi eleita uma das marcas mais confiáveis entre os médicos. Por isso, sempre que você precisar de uma força e vir o logotipo azul da EMS, pode confiar. E depois, quando estiver tudo azul de novo, nem precisa dizer nada. Apenas responda com um sorriso.
Guarido em Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, 2010, p. 341
1 Essa é uma propaganda divulgada em revistas de grande circulação citada por Renata Guarido.
266 o poder da metáfora no marketing psiquiátrico
Como o marketing tem um poder de persuasão da suposta necessidade de uso de medicamentos?2
Orlando Coser escreve em 2010 uma reflexão sobre As metáforas farmacoquímicas com que vivemos: ensaios de metapsicofarmacologia. Coser busca evidenciar como a indústria farmacêutica necessita, por um lado, de um plano farmacoquímico, mas também de um plano mercadológico que faz com que seus produtos se tornem disseminados na mentalidade popular, como se fossem remédios necessários e de uso comum. Para isso, “Cria representações do viver e instaura políticas de produção subjetiva que nelas se fundamentam, constituindo uma encarnação das metáforas” (Coser, 2010, p. 10). Ou seja, há um marketing que fornece um imaginário social do uso de algum fármaco como se fosse necessário: um discurso que é tomado como evidente e inquestionável, porque supostamente revoluciona o tratamento dos transtornos.3
2 No Brasil a publicidade direta de medicamentos de transtornos mentais é proibida. Essa propaganda é feita, por isso, de forma indireta: na internet, em programas em que se chama um especialista para falar sobre o tema etc. Uma propaganda direta é encontrada nos Estados Unidos. Vejamos o depoimento de Allen Frances lamentando a liberação do marketing logo após o lançamento do DSM-IV: “O DSM-IV não nos trouxe de volta ao normal – sequer nos levou muito perto disso. Três anos após o lançamento, lobistas dos fabricantes de remédios conquistaram uma vitória esmagadora contra a regulamentação sensata. Os Estados Unidos tornaram-se o único país do mundo a autorizar o anúncio de fármacos direto ao consumidor. Muito em breve as ondas de rádio e a imprensa estavam cheias de indicações reluzentemente enganadoras de que os problemas cotidianos eram, na verdade, transtornos psiquiátricos não detectados. O DSM-IV revelou-se uma barreira muito frágil para conter a enxurrada de falsas demandas instigadas pela agressiva e diabolicamente astuta investida das companhias farmacêuticas. Apesar de nossa constante rejeição a sugestões que teriam beneficiado essas empresas não previmos que mesmo nosso manual conservador pudesse ser um instrumento tão frágil para a propaganda. Dentro de alguns anos, estava claro que eles haviam ganhado, e nós, perdido” (Frances, 2013/2016, pp. 99-100)
3 Revolucionário? “Se, na Segunda Guerra, prover cuidados aos soldados que se
Excurso: O TDAH como
um distúrbio cultural
Seria possível explicar certos sintomas considerados como distúrbios de ordem biológica a partir de nossas formas de vida? Ou seja, não exatamente afirmando que tal pessoa tem déficit de atenção, por exemplo, porque nasceu com um distúrbio biológico, mas que ela desenvolveu tal distúrbio devido à forma de vida que a sociedade contemporânea leva? Uma tentativa de fazer essa inversão encontramos no pensamento de Christoph Türcke. Sua teoria, nesse ponto, se resumiria assim: o déficit de atenção só seria compreensível a partir de uma abrangente teoria da cultura. Entretanto, a teoria de Türcke é controversa, porque se fundamenta em hipóteses que se baseiam em uma correlação entre filogênese e ontogênese. Além do que, pressupõe que a história da humanidade se fundamenta em uma espécie de mito da repetição como superação de nossos medos. O que nos interessa nesta reflexão não é defender o que Türcke nos propõe, mas mostrar que há possibilidades de se tentar encontrar outras explicações para os sintomas que o Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM) associa diretamente a um problema biológico, não se importando, por isso, com nossas formas de vida. Ao contrário,
286 excurso: o tdah como um distúrbio cultural
Türcke pretende mostrar que somos responsáveis por essa cultura de déficit de atenção. E isso teria se dado por uma inversão de como a compulsão à repetição, algo que seria próprio da formação do psiquismo humano, teria se desenvolvido na história da humanidade:
A excitação traumática que outrora impulsionava no sentido da formação e repetição de rituais, o desejo de se livrar dessa excitação e encontrar repouso – tudo isso é estranho à compulsão à repetição técnica. Ele funciona de modo meramente mecânico; sem dor, sem cansaço, sem desejo, sem objetivo. A tremenda força de sua simplicidade e de sua autossuficiência coloca em andamento nada menos que a inversão da lógica da repetição humana. Até a Idade Moderna, esta se resumiu à reversão da escalada, à sedimentação, à tranquilização. Agora a imaginação técnica se volta contra a imaginação humana e faz o seu caminho ao contrário. (Türcke, 2012/2016, p. 80)
Dizendo de outro modo, teríamos realizado uma inversão de conflitos: de uma repetição ritualizante-tranquilizadora a uma desritualizante-inquietadora. Essa última seria responsável pela nossa cultura de déficit de atenção.
O livro Hiperativos! Abaixo a cultura do déficit de atenção foi publicado em 2012 e nos dá uma nova forma de pensar a própria ideia de atenção. Sua obra se divide em duas partes: na primeira, nos mostra como a atenção foi fundamental na própria história da humanidade até chegarmos em uma sociedade em que ela parece se diluir; a outra parte é dedicada a uma forma de retomarmos a atenção em nossa vida, pensando especialmente na escola.
O fato de haver um crescimento sem precedentes de diagnósticos de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)
Excurso: A ideia de intoxicações eletrônicas
Estou tentando fazer amigos fora do Facebook. Saio na rua e vou dizendo pra todo mundo o que comi, como me sinto, o que estou fazendo e o que farei mais tarde. Escuto a conversa dos outros e grito “curti”. Até agora, já tenho três pessoas me seguindo: dois policiais e um psiquiatra.
Gueller em Baptista & Jerusalinsky, 2017, p. 63
Christian Dunker publica uma coletânea de textos em 2017 intitulada Reinvenção da intimidade: políticas do sofrimento cotidiano. Em meio a essa coletânea, o texto de número 24, “Intoxicação digital infantil”, trata de uma questão instigante para nosso tema, pois pode nos levar a pensar em outras possíveis explicações do sofrimento pensadas a partir de nossas formas de vida. Assim, ao lado dessa disseminação diagnóstica de pessoas em idade escolar, há de pensarmos também a forma de vida dessas crianças e adolescentes. Ou seja, como as tecnologias mudaram a maneira de nos relacionarmos conosco, com o mundo e com os outros.
Muitas crianças e adolescentes já nasceram em um mundo virtual, em que a internet já é algo dado – como se a web sempre tivesse existido. Isto é, se os professores e os pais dessa geração viveram,
296 excurso: a ideia de intoxicações eletrônicas
em sua maioria, uma infância em que o computador, celular, tablet etc., por exemplo, eram inacessíveis, hoje, desde o berço, a criança está envolta por gadgets.
Para essa geração que nasceu e cresceu em um mundo virtual esperam-se novos modos de sofrimento. Dunker se refere a essa geração como vivendo em uma intoxicação digital infantil (Dunker, 2017, p. 138). Como poderíamos caracterizar essas formas de sofrimento? Dunker propõe uma lógica de desencadeamento de sofrimento que se inicia com o bebê diante de “chupetas digitais”.1
Dunker parte de uma reflexão de estarmos diante de uma superoferta de presença. A questão da presença/ausência da mãe é um ponto central para pensarmos a capacidade da criança de suportar frustrações. Freud observa como a criança lida com frustrações desde uma brincadeira ou jogo infantil – o famoso Fort-da.
Freud nos descreve a observação de uma brincadeira infantil: trata-se de uma criança que lança um carretel entre uma cortina perto da sua cama; estando escondido o carretel, a criança balbuciava algo como “o-o-o-o”. Em alemão, esse som tem uma sonoridade próxima de Fort, que significa algo como “ir embora” ou “vai-te embora”. Logo após esse balbuciar, a criança puxa novamente o carretel. Agora, ela o saúda com um alegre “aqui”. Em alemão, se diz da, por isso essa experiência é conhecida como Fort-da. Mas o que essa simples brincadeira nos diz?
Freud interpreta esse desenrolar como um modo de a criança simbolizar a presença-ausência da mãe. Ao mesmo tempo, mostra uma tentativa de controlar a situação. Para tanto, a criança busca
1 “A captura do olhar da pequena criança na tela portátil costuma, em muitos casos, funcionar como uma ‘chupeta eletrônica’ que suspende as demandas e os deslocamentos do bebê pelo espaço e que fazem necessária a relação com outros que advirtam e compartilhem as possibilidades e riscos presentes no mundo simbólico, imaginário e real que os humanos habitamos” (Jerusalinsky em Baptista & Jerusalinsky, 2017, p. 48).
Excurso: Impactos das tecnologias digitais em nossas formas de vida
Se ao menos essa orgia digital deixasse nossos filhos felizes, poderíamos sem dúvida nos resignarmos. Mas não é o caso! Já há alguns anos que se multiplicam estudos que mostram a existência de uma estreita ligação, em meio às novas gerações, entre consumo digital e sofrimento psíquico (depressão, ansiedade, dor de cabeça, suicídio etc.).
Desmurget, 2019/2021, p. 206
O tempo que dedicamos ao consumo recreativo digital em nossos dias cresce de uma forma que ocupa boa parte do nosso tempo diário de vigília.1 Diante desse dado, Michel Desmurget, especialista em neurociência cognitiva, nomeado em 2011 diretor do Instituto
1 “O consumo recreativo do digital – em todas as suas formas (smartphone, tablets, televisão etc.) – pela nova geração é absolutamente astronômico. A partir dos 2 anos, as crianças dos países ocidentais acumulam diariamente quase 50 minutos diante da tela. Entre 2 e 8 anos, esse tempo é de 2h45min. Entre 8 e 12 anos, os jovens passam aproximadamente 4h45min diante dela. Entre 13 e 18 anos, eles chegam perto de 7h15min. Ao fim de um ano, isso totaliza mais de 1.000 horas para um aluno da pré-escola (1,4 mês), 1.700 horas para um estudante do nível fundamental (2,4 meses) e 2 650 horas para alunos do ensino médio (3,7 meses). Expresso em fração do tempo diário de vigília, isso resulta, respectivamente, em 20%, 32%, 45%. Ao longo dos 18 primeiros anos de vida
Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da França (Inserm), escreve em 2019 o estudo A fábrica de cretinos digitais: os perigos das telas para nossas crianças. Desmurget propõe mostrar como há um mito de que a geração pós-digital teria modificado seu cérebro para melhor (seria um nativo digital); pretende igualmente expor como as crianças e os adolescentes estão impregnados pelas redes (uma análise quantitativa e qualitativa do uso de tecnologias digitais); e os impactos que a vida em rede, o uso dessas tecnologias em geral, tem em nós, em nossa vida em geral, além de propor (a partir das pesquisas empíricas estudadas), no final, o que seria recomendado. Um dos seus argumentos centrais, e que nos interessa mais diretamente, está em mostrar que as redes sociais, as tecnologias digitais, têm efeito em nossas formas de vida, aumentando a probabilidade de patologias físicas e mentais, principalmente se pensarmos em crianças, pois elas estão passando pelo processo de amadurecimento do cérebro. Essas tecnologias impactam nossa saúde; são “causadores de doenças de nosso tempo”:
A comunidade científica afirma há anos que “a mídia [eletrônica] precisa ser reconhecida como um grande problema de saúde pública”. É preciso dizer que o corpus da pesquisa que associa os consumos digitais e os riscos sanitários é exorbitante. A lista de campos afetados parece infinita: obesidade, comportamento alimentar (anorexia/bulimia), tabagismo, alcoolismo, toxicomania, violência, sexo desprotegido, depressão, sedentarismo etc. Diante desses dados, pode-se afirmar sem a menor dúvida que as telas se encontram entre os piores causadores de doenças de nosso tempo
eles representam o equivalente a quase 30 anos letivos, ou, se preferirmos, 15 anos de um emprego em tempo integral” (Desmurget, 2019/2021, p. 9).
DSM: apenas uma questão burocrática?
Com a publicação da quinta versão do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM), todos parecem preocupados e prontos para um debate sobre as modificações que esta nova versão apresenta, mas ninguém parece se preocupar com a forma como o DSM classifica as doenças. Esse ponto em específico é o que nos traz Ian Hacking em um artigo denominado “Perdido na floresta”, publicado no dia 8 de agosto de 2013 no London Review of Books, entre outros artigos. Trata-se de uma reflexão da então recente publicação do DSM-5. Segundo Hacking, não há nenhuma mudança estrutural nessa versão, apenas novos nomes ou renomeações de velhos. Assim, o problema não é o reconhecimento dos transtornos que são apresentados, mas a ideia em geral do DSM em classificar. Metaforicamente, Hacking faz uma associação: em uma floresta, há madeiras; nós as classificamos em classes de árvores, mas não questionamos o nosso critério de classificação. Hacking parte de uma questão prática: quem, afinal, necessita do DSM? O médico, o paciente, a sociedade? Sua resposta é: a burocracia. É necessário para que o sistema de saúde funcione que haja uma classificação que identifique um problema específico (na
334 dsm: apenas uma questão burocrática?
cobertura de gastos, por exemplo, em um plano de saúde). Também é útil para a burocracia enquanto um manual estatístico que prevê os gastos futuros.
Outro ponto que destaca Hacking é sobre como esse manual pode indicar como um paciente pensa, sente e comporta em relação a si. Uma espécie de projeção a partir de casos anteriores. Eis por que Hacking destaca como não há uma verdadeira ruptura na crítica de Insel quando pronuncia um desligamento do Instituto Nacional de Saúde Mental (National Institute of Mental Health –NIMH) com o DSM. Insel critica o DSM por não ser tão radical em sua fundamentação biológica, sem conseguir explicitar ou demonstrar como as categorias são fundadas em um problema orgânico. Ou seja, o DSM só trataria de sintomas e não de causas. Insel exigia explicações genéticas e neurológicas, por exemplo, que estão ausentes no DSM.1
Entretanto, apesar das críticas, o DSM está sempre se atualizando com novas versões. “O DSM é um ser vivo, criatura orgânica, que se mantém vivo por uma miríade de abelhas operárias” (Hacking, 2013). Uma das formas de o manter vivo é, sem dúvida, ir cada vez mais ampliando os espectros dos transtornos como se assim eles ficassem mais específicos e confiáveis. Por isso, diz Hacking, a esquizofrenia, por exemplo, fica incompreensível no DSM-5, porque foi subdividida em tantas ramificações que não se tem mais como compreender qual seria o quadro esquizofrênico. Outro ponto sobre essas especificações é o de chegar ao não especificado: ao pensar em uma categoria geral, como a esquizofrenia,
1 Uma espécie de crença partilhada entre os cientistas: “Minha impressão é que o resultado de cada um destes fracassos em demonstrar que um distúrbio é genético foi um paradoxal aumento na convicção, tanto dos cientistas quanto do público informado, de que o distúrbio é, e logo será provado que é, simples e diretamente transmitido por herança” (Kramer em Coser, 2006, p. 139).
Abrindo a caixa de Pandora
As pessoas continuam as mesmas, os rótulos diagnósticos é que mudaram e ficaram elásticos demais.
Frances, 2013/2016, p. 110
Em uma fala realizada no campus Dom Bosco da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) em maio de 2012 (na Etapa Brasileira do Movimento Internacional Stop/DSM), François Sauvagnat realiza algumas críticas ao Manual diagnóstico e estatístico dos transtornos mentais (DSM). A primeira questão que ele nos traz é sobre o “lugar de poder” que a psiquiatria estadunidense se coloca para “impor” seu manual aos demais países. Trata-se de um manual que visa a sociedade estadunidense1 e, aliás, como argu-
1 “Eu não entendo por que uma associação de psiquiatras de um país qualquer que tem resultados fracos, por qual milagre, porque a reflexão deles se tornaria uma regra mundial, uma norma mundial. De qualquer maneira é muito estranho. Imaginemos que se exporte o sistema penal norte-americano. Ninguém suportaria. Eu diria que simplesmente se estabelece certo consenso em torno de certas categorias que se isolam. O DSM era simplesmente uma lista de categorias ligadas a um país para responder as necessidades desse país. Cada um faz o que quer com seu próprio país. Não sei por que uma categoria ligada a
menta Sauvagnat, os Estados Unidos não são nenhum referencial de saúde psíquica para querer servir de exemplo às outras nações – basta lembrarmos que, na época, os Estados Unidos ocupavam o trigésimo sexto no ranking sobre a saúde dos estados mentais pela Organização Mundial de Saúde.2 Ou seja, se posiciona como um país que não pode ser considerado modelo para querer impor a forma como lida com a saúde mental para outros países.
Sauvagnat também afirma que, “Se tentarmos entender a que tipo de paciente o primeiro DSM se endereça, é um paciente morto” (Sauvagnat, 2012, p. 15). Isso porque se baseia na epidemiologia, ou seja, em uma ciência que não lida com o ser vivo, como se o paciente não tivesse uma estória ou não pudesse responder. A questão da normalidade também é questionável:
Nós temos uma noção nos Estados Unidos que é o “transhumanismo”. O nome transhumanismo é um indivíduo normal, que não é normal. Isso significa que todo mundo deveria se tornar uma espécie de super-homem. Talvez certos medicamentos, certos tratamentos nos permitiriam um super-homem. Por exemplo, a publicidade que foi feita pela zoloft ou a ritalina etc. A ideia de que um indivíduo habitual é insuficiente. Que certo país valeria necessariamente para os outros. Por exemplo, o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Um diagnóstico extremamente duvidoso. Em minha opinião isso recobra, recorta casos bastante diferentes” (Sauvagnat, 2012, p. 21).
2 Allen Frances (2013/2016) mesmo diz: “Gastamos o dobro do que outros países em assistência médica e temos resultados apenas medíocres em contrapartida. Alguns de nossos cidadãos são prejudicados por uma superabundância médica; outros, por uma vergonhosa negligência. Tanto a medicina como a psiquiatria passam por uma grande necessidade de ser domadas, aparadas, reformuladas e redirecionadas” (p. 20).
Uma estratégia biopolítica?
Em uma passagem que encontramos no curso Segurança, território, população, de 1977-1978, Michel Foucault nos indica como o modelo do panóptico, que era o modelo fundamental para se pensar a disciplina dos corpos, tal como na prisão, nas escolas, não convém para refletir sobre a população. Que se veja:
A ideia do panóptico, ideia moderna em um sentido, pode-se dizer assim que ela é arcaica, pois se trata, no fundo, no mecanismo panóptico, de colocar no centro alguém, um olho, um olhar, um princípio de vigilância que poderia, de algum modo, exercer sua soberania sobre todos os indivíduos [situados] no interior dessa máquina de poder. Nessa medida, pode-se dizer que o panóptico é o sonho mais antigo do mais velho soberano: que nenhum de meus sujeitos escapa e que nenhum gesto de nenhum de meus sujeitos me sejam desconhecidos. Soberania perfeita novamente, de certo modo, o ponto central do panóptico. Em compensação, o que vemos aparecer agora, é [não] a ideia de um poder que tomaria a forma de uma vigilância exaustiva
de indivíduos para que, de algum modo, cada um deles, a cada momento, em tudo que ele faz, esteja presente aos olhos do soberano, mas o conjunto de mecanismos que vão tornar pertinentes para o governo e para quem governa fenômenos bem específicos que não sejam exatamente fenômenos individuais, mas que, e aí seria preciso retornar porque é muito importante –, os indivíduos figuram de um certo modo e que os processos de individualização sejam bem específicos.
É uma outra maneira de se fazer jogar a relação coletivo/individual, totalidade do corpo social/fragmentação elementar, é um outro modo que vai jogar no que se denomina população. E o governo de populações é, creio, algo de diferente do exercício de uma soberania nos mais finos comportamentos individuais. Tem-se duas economias de poder que são, parece-me, diferentes. (Foucault, 2004b, p. 68)
Foucault já anuncia aqui um outro modo de exercer o poder: a partir de mecanismos, tecnologias de poder, que atuam na população em geral e não somente no indivíduo. Surge, como destaca Foucault, um novo personagem político: a população. Nesse sentido, a ideia de disciplina que atua no individual não funciona para se pensar a população – seria preciso pensar em um mecanismo mais geral do governo sobre esse novo personagem.
Desde a conclusão da História da sexualidade I – A vontade de saber, de 1976, Foucault destaca a concepção de biopoder. Sua reflexão em torno dessa nova forma de se pensar o poder se estende nos cursos que ministrava nessa época. De 1976 a 1979, principalmente, há uma série de questões que Foucault elabora para destacar como esse poder sobre a vida se exerce – desde quando
A questão do risco
Pensando na biopolítica, Caponi retoma a questão de que o “deixar viver” convive com o racismo, com uma exclusão biológica que se justificava inclusive cientificamente. Apesar de não encontramos atualmente mais discursos científicos que defendam essa higienização racial (ao menos explicitamente), Caponi destaca que é necessário estarmos atentos aos modos que operam as estratégias biopolíticas na contemporaneidade. Por exemplo, seguindo a lógica neoliberal do capital humano, por que se investiria em um jovem que tem risco de desenvolver um transtorno bipolar? Há uma lógica de exclusão em processo nos mecanismos de segurança, como evitar e antecipar riscos. E esse discurso se prolifera:
Novos discursos e certezas se instalam no campo das ciências da vida, novas intervenções sobre as populações que se validam nas promessas de um saber médico e psiquiátrico obcecado por antecipar os riscos, evitar a dor e garantir a meta impossível de uma vida sem sofrimentos. (Caponi em Caponi et al., p. 104)
De fato, vemos uma promessa cada vez maior por parte da medicina de vivermos sem sofrimento; que é possível antecipar os riscos etc.1 É diante disso que Caponi se questiona nesse estudo: “Seria possível pensar a atual expansão de diagnósticos psiquiátricos referidos a comportamentos cotidianos, como sendo uma estratégia biopolítica hoje hegemônica e quase universalmente aceita?” (Caponi em Caponi et al., 2013, p. 104).
Para responder essa questão, Caponi põe em relevo como a concepção de vida envolvida na biopolítica é aquela da vida biológica e não do cidadão capaz de diálogo e com direitos-deveres; é a vida enquanto espécie que se visa. Nesse sentido, seria uma vida de certa forma intercambiável e substituível. Reduzido ao campo biológico, afirma:
Nossos sofrimentos individuais e cotidianos, nossos vínculos sociais, medos e desejos passarão a estar mediados por intervenções terapêuticas ou preventivas, sejam elas médicas ou psiquiátricas, interessadas em classificar todos os assuntos próprios da condição humana em termos de normalidade ou de patologia, limitando cada vez mais nossa margem de decisão ética e de ação política. (Caponi em Caponi et al., 2013, p. 112)
Essas formas de intervenções se dão porque a vida tomada biologicamente por um dispositivo estatístico pode ser avaliada, comparada, classificada etc. dentro de um discurso científico. E, como vimos, o poder da estatística na biopolítica é longamente
1 Que se veja como contemporaneamente se segue essa ideia: “Uma em cada duas pessoas enfrenta ou enfrentará em sua vida a doença psíquica, e uma em cada cinco apresentará uma forma grave de distúrbio psicológico. Conhecer melhor esses distúrbios, tratá-los melhor, é vital” (Meyer, 2005/2012, p. 26).
O lugar do suposto saber –os especialistas
Tudo aconteceu por causa de um incidente com a administração da cidade de Campinas. Havia um pequeno balão ajardinado, no meio da avenida Brasil. Lá no centro, uma velha Tipuana, antiga conhecida de todos. Era uma ilha em meio à selvageria do tráfego. De lá as pessoas podiam esticar suas línguas para os automóveis, impunes. A Prefeitura resolveu alargar a tal avenida. Mais espaço para os automóveis. Era necessário correr mais. E assim se decretou a morte do balão e o corte da Tipuana. A população berrou. O balão não sai. É parte do nosso corpo. Fica a Tipuana e a sua sombra. Os carros que trafeguem pedindo licença, devagar como convém às máquinas. Afinal, o desejo de quem mora deve ter prioridade sobre tudo o mais. Houve até um moço que se acorrentou à Tipuana, já transformada em símbolo de um desejo. A Prefeitura recuou e todos cantaram vitória. Tolice. Poucos dias depois a administração investiu como um tanque de guerra. Ação de comando. O técnico convocou a força das armas. A polícia obedeceu. O lugar foi ocupado. A Tipuana foi cortada. A praça foi arrasada. O técnico responsável justificou sua ação alegando que “o povo é ignorante em questões de tráfego”. Acham absurda a prepotência do técnico? Mas ela é absolutamente lógica. Ele simplesmente repetiu aquilo que já se instalou como realidade, em meio à nossa vida cotidiana. Alves, 1985, pp. 35-36
A disseminação do DSM, como era de se esperar, entrou nas escolas. Crianças e adolescentes se tornaram também alvo do saber-médico com base em comportamentos erráticos, falta de atenção, insociabilidade etc. Na verdade, a própria escola se tornou um dispositivo que regula a entrada desse saber psiquiátrico, pois se torna mediadora entre pais e psiquiatras ao indicá-los com certa “desconfiança” de que algo “está errado” com o aluno. Uma consequência dessa mediação é como esse saber e intervenção médico-farmacológico estão assegurados por essa mesma instituição. A medicalização, afinal, se torna um dispositivo útil na escola para responder às demandas esperadas na sala de aula (Kamers, 2013). Tal medicalização só se torna possível porque damos credibilidade ao saber dos especialistas. É preciso, por isso, analisar aqui seu papel.
Ao longo da experiência de pensamento de Marilena Chaui, ela define e critica o que denomina ideologia da competência. A seu ver, trata-se de uma crença de que há, por um lado, aqueles que são competentes (os especialistas), porque possuem conhecimentos científicos e tecnológicos; e que haja, por outro lado, um descrédito naqueles que executam tarefas comandadas pelos especialistas. Assim, “Não é qualquer um que tem o direito de dizer alguma coisa a qualquer outro em qualquer lugar e em qualquer circunstância” (Chaui, 2016, p. 57). Trata-se de um discurso que só pode ser proferido por especialistas, que ocupam a posição do saber; os que não tiveram acesso ao saber devem apenas obedecer.
Essa questão fica mais clara quando nos damos conta que esse discurso da competência passa a orientar o que devemos fazer, agir, pensar, valorar etc., como se na esfera da vida privada não possuíssemos nenhum saber próprio digno de ser confiado. Por isso, precisaríamos a todo momento que algum especialista nos dissesse como agir. Ou seja, o saber está do lado do Outro. Seria com esse tipo de deslocamento do saber, a meu ver, que a psiquiatria se dá o direito de “matar” a narrativa, porque o saber do paciente sobre sua
A potencialidade da teoria de Goldstein
No livro Voltando ao normal: como o excesso de diagnósticos e a medicalização da vida estão acabando com a nossa sanidade e o que pode ser feito para retomarmos o controle, Allen Frances (2013/ 2016), em um capítulo denominado “O que é e o que não é normal?”, busca justificar como a sua concepção de normalidade proposta no DSM-IV não era satisfatória. Enquanto líder da equipe responsável pela elaboração dessa versão do DSM, ele buscava a melhor definição possível de normal. Como vimos no capítulo O DSM como coisa pública, Frances se volta à filosofia, medicina, psicologia, antropologia etc. na busca de uma definição e demonstra a surpreendente escassez de reflexão sobre esta questão fundamental: como diferenciar o normal do patológico?
Vimos que Frances chega a uma concepção de normal que parte de estudos clínicos, mas que não tem nenhum critério que justifique que tal caso seja patológico. Sua conclusão é que a definição de normalidade deve ser utilitarista: não se busca definir exatamente o que é o normal, mas o que seja mais útil para as pessoas no tratamento.
Essa reflexão de Frances não leva em conta uma concepção de normalidade que foi pensada na década de 1930 na Alemanha e que foi retomada posteriormente, principalmente na França por Georges Canguilhem e Maurice Merleau-Ponty,1 por exemplo. Trata-se de um estudo apresentado por Kurt Goldstein (1934/1939) denominado O organismo: uma aproximação holística da biologia derivada de dados patológicos no homem. Goldstein é neurologista e psiquiatra e analisa vários casos de lesão cerebral oriundos de feridos da Primeira Guerra Mundial. Seus estudos partem da biologia e têm como horizonte uma concepção de organismo enquanto um todo estruturado. O estudo de lesões o leva a pensar de outro modo o que se compreende por normalidade. Eis sua definição:
Um organismo que atualiza suas particularidades essenciais ou, o que significa o mesmo, encontra seu meio adequado e as tarefas surgidas dele, é “normal”. Desde que essas realizações ocorram em um meio específico em um modo ordenado comportamental, pode-se denominar o comportamento ordenado sob essa condição como comportamento normal. (Goldstein, 1934/1939, p. 427)
Estamos diante de um caso na história da medicina que guarda uma potencialidade que não foi explorada, pois sua concepção de normalidade nos força a pensar fora das propostas que Frances, por exemplo, tinha em mãos para diferenciar normal e patológico. Mas, afinal, o que nos diz Goldstein de tão inovador?
Goldstein escreveu na década de 1930 sua principal obra tendo em vista a apresentação de uma nova forma de se pensar o organismo. Como veremos, a ideia de Goldstein sobre o normal não foi
1 Ver, por exemplo, Manzi (2020b).
Uma outra concepção de normal
A ameaça da doença é um dos constituintes da saúde. Canguilhem, 1943/2007, p. 217
Frente a frente com as crianças, a partir da decisão de avaliá-las, do ponto de vista intelectual e neuromotor, como avaliá-las? Como avaliar uma criança? Com quais instrumentos? A partir de que parâmetros? Portando que concepções teóricas sobre normalidade? Em outras palavras, olhar o quê, a partir de que lugar? Moysés, 2001, p. 35
Georges Canguilhem defende uma concepção de normal e patológico partindo da biologia e de estudos sobre fisiologia, medicina etc. que é contraintuitiva mesmo em nossos dias. Seu questionamento sobre o que seria o normal pensado como uma média quantitativa, por exemplo, não poderia ser sustentado mesmo em casos que pareceriam óbvios, como o déficit ou superávit de glicose no sangue.
O normal e o patológico foi publicado em 1943 e propunha uma concepção de normal como uma instauração de norma do
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organismo. Imaginemos, portanto, a que ponto poderíamos colocar enquanto problema questões de ordem comportamental. Como vimos, hoje é um lugar-comum pensarmos que uma criança tem déficit de atenção se tomarmos a sério a ideia de um comportamento-padrão esperado. Se uma criança manifesta sintomas de déficit, ela é diagnosticada como tendo um transtorno que tem uma origem biológica (mesmo que não haja uma comprovação). Pela teoria de Canguilhem, isso pode ser pensado de outro modo.
Partamos do dado de que uma pessoa se diz doente quando algo “não vai bem”. Sem queixas, há uma espécie de impercepção em relação ao funcionamento do organismo. Um médico (o saber médico em geral) só é requisitado quando percebemos que alguma coisa está supostamente errada, mesmo sem sabermos como deveria ser o seu suposto funcionamento normal. É por algo não estar bem que se busca compreender como deveria ser o normal. Assim, a patologia nos força a pensar a normalidade – como se a doença expusesse o que há de possível na normalidade de forma exagerada (ao expor o que é difícil de se perceber no estado normal). É isso que destaca René Leriche segundo Canguilhem: a doença nos revela a função normal do organismo no momento mesmo em que ele é interdito de exercê-la. Ou seja, “A saúde é a vida no silêncio dos órgãos” (Leriche citado em Canguilhem, 1943/2007, p. 52) – sem queixas, não haveria um porquê de se questionar o que seria a saúde.
Por outro lado, espera-se, normalmente, que, diante de uma queixa, a medicina seja capaz de restaurar a normalidade do organismo – que ele volte a funcionar da mesma forma que antes (tal como era). É esse um dos pontos centrais para Canguilhem: há uma impossibilidade lógica (devido à ideia de estrutura) e fisiológica de o organismo restaurar uma ordem anterior. O que ocorre no caso de cura é a instauração de uma nova ordem (consequentemente, uma reestruturação do organismo e não um retorno a uma
Qual o sentido do sintoma?
Ao começar a perceber a criança, tornada invisível pelo olhar em busca do caso, fui aprendendo com elas que deveria ouvi-las se quisesse conhecê-las; ouvir o que elas quisessem contar, sem medo de errar, sem a preocupação de adivinhar o que eu queria ouvir.
Moysés, 2001, p. 258
A própria ideia de se buscar um sentido do sintoma já é em si algo que diferencia a psicanálise da psiquiatria. É bem conhecido como Freud e Breuer revolucionaram o meio médico ao começarem a ouvir seus pacientes. Até então, as histéricas eram tomadas como mulheres que fingiam, que faziam escândalo etc. Isso porque seus sintomas não tinham nenhuma causa biológica. Afinal, como é possível que haja a paralisação de um membro, como uma perna, sem uma causalidade fisiológica?
A concepção de sintoma em Freud modifica profundamente a maneira de lidarmos com o sofrimento. O sintoma não é necessariamente uma “falha”; ele indica uma tentativa de solução de um conflito psíquico que nem sempre é bem-sucedido. Assim, se na medicina o sintoma deve ser eliminado, a psicanálise o vê de
sintoma?
outra forma. Na verdade, o sintoma pode nos levar a repensar a própria concepção de diagnóstico, uma vez que a psiquiatria parte, em larga medida, dos sintomas. O Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM), por exemplo, lista os sintomas de um transtorno para que ele seja “identificável” e então diagnosticado e tratado de uma forma pré-estabelecida pelo saber médico. Enquanto um desdobramento de uma suposta causa biológica, os sintomas de um dado transtorno seriam universais.
Para se saber, por exemplo, se uma pessoa sofre de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, lembremos como o site brasileiro da Associação Brasileira do Déficit de Atenção lista dezoito perguntas que podem ser respondidas de forma quantitativa entre “nem um pouco” a “bastante”. Trata-se de uma lista de sintomas comportamentais como: se consegue ou não prestar muita atenção a detalhes ou comete erros por descuidados nos trabalhos escolares; se tem dificuldade de manter a atenção em tarefas ou atividades de lazer etc. Ou seja, não se busca compreender o sentido do sintoma, mas enquadrar os sintomas em uma categoria clínica. Passa-se muito diferente na psicanálise freudiana.
Maria Cristina Ocariz escreve em 2003 uma reflexão sobre O sintoma e a clínica psicanalítica: o curável e o que não tem cura. Já na introdução, ela afirma:
A psicanálise não é uma clínica centrada no sintoma; o que se focaliza na terapia psicanalítica não é a supressão do sintoma, mas é expectativa do psicanalista atingir o sintoma mediante a interpretação ou algum outro tipo de intervenção, para transformá-lo, levantá-lo, deslocá-lo, fazê-lo mais suportável. Em muitas ocasiões, o trabalho é árduo, pois para o paciente é perigoso abandonar tal companheiro, para construir uma nova economia libidinal e renunciar aos ganhos de sua
Dar forma às pessoas
Ao pensarmos nos diagnósticos psiquiátricos nos voltamos à ideia de que há transtornos que podem ser classificados. Mesmo que o objetivo não seja classificar pessoas segundo o Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM), a pessoa se identifica com seu diagnóstico e isso tem um efeito. Por mais que se esteja classificando doenças, como o DSM insiste em dizer (classifica-se o transtorno e não a pessoa), nosso modo de estar doente, nossas ações, condutas, atitudes, emoções são classificadas por uma lógica que interage com a pessoa.
Desde que trouxemos Szasz ao debate, a ideia de doença mental está envolta por uma transformação na pessoa (instaurando uma nova realidade), em que ela se identifica com seu diagnóstico. Mas é Ian Hacking que leva ao extremo o poder de classificar – um poder de dar forma às pessoas. Já apontei essa reflexão de Hacking alhures (no capítulo “DSM: apenas uma questão burocrática?”), mas é preciso nos determos nela.
Em 2001-2002, Ian Hacking ministra um curso no Collège de France denominado Dar forma às pessoas (ou Inventar pessoas) (Façonner les gens). Em 2004-2005, retoma o mesmo tema (Dar
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forma às pessoas II).1 Esses cursos tratam sobre a classificação de pessoas; a maneira como as pessoas interagem com essas classificações; como são classificadas; como nos transformamos ao sermos classificados. O que inquieta Hacking é o poder da classificação em dar forma às pessoas; dar forma às espécies, tipos, categorias de pessoas e aos indivíduos dessa espécie. E, mais fundamentalmente, ao categorizar uma pessoa, ela se modifica – com uma categorização, cria-se uma nova classe de pessoas; e não somente novas maneiras de ser, mas novas formas de escolher o que se é. Assim, dar forma às pessoas modifica o espaço de possibilidades que as definem: não somos somente o que fizemos ou fazemos, mas o que podemos fazer. Daí esta segunda hipótese:
A criação de uma nova classificação ou a modificação de critérios para a aplicação de uma classificação antiga pode ter efeitos sobre os indivíduos classificados, que assumem ou repelem os atributos que caracterizam a nova classe. Além disso, novas possibilidades de escolha ou de existência surgem do fato da criação da nova classe. (Hacking, 2001, p. 19)
Esse poder de modificar a pessoa se dá devido ao poder da nomeação. Hacking se inscreve aqui em um nominalismo; entretanto, um nominalismo dinâmico que é limitado ao domínio humano: o domínio de indivíduos, de seus comportamentos e de suas relações sociais. Há uma diferença, segundo Hacking, entre as ciências naturais e as ciências humanas. Nas ciências naturais classificamos as coisas sem que isso modifique seu estado de ser (elas permanecem indiferentes ao serem classificadas – classificação natural). Nas ciências humanas, ao classificarmos as pessoas, modificamos seu
1 Disponível em: https://www.college-de-france.fr/fr/chaire/ian-hacking-philosophie-et-histoire-des-concepts-scientifiques-chaire-statutaire
A morte da narrativa
Devo uma explicação mais clara aos leitores da escolha do título e do subtítulo desta pesquisa. O ano de 1980 é o marco que usamos nesta pesquisa para destacarmos o que denominei A morte da narrativa. O ano de 1980 é marcante por dois motivos: 1) é o ano em que se publica a 3a edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-III) – momento de virada da nosografia do manual psiquiátrico em que se exclui do diagnóstico, entre outras coisas, a necessidade de se ouvir o paciente. Doravante, a estória pessoal não tem uma ligação etiológica com os transtornos mentais. 2) É a década em que o neoliberalismo se instaura mundo afora. Seria coincidência?
O neoliberalismo não é simplesmente um termo cunhado para se referir à economia política; ele se impôs enquanto uma gestão de nossas formas de vida. No tomo Neoliberalismo e educação: conversas e desconversas (Manzi, 2022), apresentei como os valores neoliberais nos colonizam e se passam como naturais. A força dos neoliberais está exatamente em tornar natural que as pessoas aceitem, ajam, pensem, desejem etc. esses valores. Não por acaso a educação não seria senão um “capítulo” de nossas formas de vida que deveria ser gerida como se gere uma empresa: buscando elevar
o capital humano. Enquanto uma gestão de nossas formas de vida, retomei essa questão nessa reflexão para destacar que se trata de uma gestão também do sofrimento psíquico. Ou seja, a incorporação dos valores neoliberais na sociedade e na constituição dos sujeitos nos leva a certas formas de sofrimento – modo de afirmar que as sociedades neoliberais possuem uma gramática própria de sofrimento.
O DSM-III é a expressão maior dessa gramática. Assim, a morte da narrativa não é um acontecimento isolado no interior da clínica – é um acontecimento social. A depressão, por exemplo, é um acontecimento social que foi disseminado nos países neoliberais. Seu diagnóstico e tratamento não se valem da estória pessoal justamente porque sua etiologia advém de uma forma de vida que leva à depressão. O que está em jogo não é uma mudança nessas formas de vida, mas de uma melhor adequação de um indivíduo que sofre com os valores sociais estabelecidos.
O DSM-III aparece como esse marco ao justificar o diagnóstico pelos sintomas, “calando a narrativa” do indivíduo por um tratamento que supostamente teria uma causalidade biológica – uma justificativa que se insere em uma homologia com doenças com causas fisiológicas. O problema é que essa homologia é uma hipótese que, aliás, há muito tempo parece ter sido esquecida como hipótese e tratada como uma verdade científica.
Em 2009, Mark Fischer publica sua primeira e mais conhecida obra: Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? Nessa obra, que marcou uma geração de militantes e que incidiu nos debates políticos, Fischer faz uma correlação entre neoliberalismo, saúde mental e educação. O título do trabalho já nos indica sua tese: o realismo capitalista é o sentimento disseminado em nossa era de que o capitalismo é a única possibilidade política e econômica viável (Fischer, 2009/2020,

Com o aumento excessivo de diagnósticos em crianças e adolescentes, é preciso nos perguntarmos se eles estão sendo ouvidos ou se simplesmente delegamos ao domínio do saber médico-psiquiátrico todo problema que enfrentam. É verdade que cada vez mais percebemos que crianças e adolescentes sofrem. Também temos a impressão de que hoje esse sofrimento se manifesta de formas distintas, como em automutilações. Mas esse sofrimento deve ser reduzido necessariamente a modalidades que devem ser consideradas transtornos mentais e, por isso, essas crianças devem ser encaminhadas a psiquiatras e submetidas ao saber biológico sobre esse sofrimento? Ou a uma combinação de fármacos e terapia cognitiva comportamental?
