Este livro traz uma importante reflexão sobre a alteridade a partir da experiência da Dra. Lisette Weissmann no atendimento a famílias/ casais expatriados e em sua própria vivência migrante. Pensar o estrangeiro nos desafia a encarar o estranho em nós e em nossos vínculos. Na clínica, ajudar a acolher o “ajeno” do outro é papel fundamental do analista. A ideia de fusão do casal em um só corpo só se viabiliza no apaixonamento inicial, momento em que as fronteiras entre ambos ficam esmaecidas. E como lidar com as diferenças que surgem com o tempo? A vida a dois exige um intenso trabalho psíquico para incluir o que no outro nos perturba: hábitos, culturas, sexualidade e marcas do desenvolvimento de cada um. O trabalho vincular apoia-se em simbolizar e elaborar essas diferen ças, tornando-as um ganho criativo. Como cita Julien, em uma relação “trata-se de uma ética na qual se encontra a erótica do desejo e a estética do bem dizer, na arte de endereçar-se ao outro”. Sonia Thorstensen
A construção do outro na clínica de casal
Lisette Weissmann
A construção do outro na clínica de casal
PSICANÁLISE
Psicóloga e Psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), doutora e pós-doutora em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSUP). Psicanalista de casais, famílias e individual. Membro do departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientae e membro fundador da Associação Brasileira de Psicanálise de Casal e Família (ABPCF). Membro do Projeto Ponte, atendimento psicanalítico a migrantes. Sócia fundadora da Asociación Uruguaya de las Configuraciones Vinculares (AUPCV) e supervisora habilitante da Asociación Uruguaya de Psicoterapia Psicoanalítica (AUDEPP). Professora do Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP), do Sedes Sapientiae e do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro (CPRJ). Livros escritos: Famílias monoparentais (Casa do Psicólogo, 2009), Atendimento psicanalítico de família (Zagodoni, 2014), Interculturalidade nos vínculos familiares (Blucher, 2019), Parejas y famílias migrantes (Blucher, 2024), Working with intercultural expatriate families. A Psychoanalytic approach to interculturality (Routledge, 2026) (no prelo).
Weissmann
Lisette Weissmann
Lisette Weissmann analisa a complexidade das relações conjugais pela psicanálise vincular, a luz do conceito de estrangeiro. O livro explora como o individual, coletivo e estranho se manifestam nas alianças e fantasias inconscientes do casal. Ressalta-se o vínculo como espaço de constituição mútua, em um mundo fluído e complexo. Todo casal carrega possibilidades e renúncias, por vezes difíceis de serem abdicadas e sustentadas subjetivamente. Leitura essencial na dinâmica vincular e a subjetivação. David Levisky
série
PSICANÁLISE CONTEMPORÂNEA Coord. Flávio Ferraz PSICANÁLISE
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A construção do outro na clínica de casal © 2026 Lisette Weissmann Editora Edgard Blücher Ltda. Série Psicanálise Contemporânea Coordenador da série Flávio Ferraz Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenação editorial Rafael Fulanetti Coordenação de produção Ana Cristina Garcia Diagramação Thiago Cordeiro e Laudemir Santos Revisão de texto Juliana Bormio Capa Juliana Midori Horie Imagem da capa Merging Together, Evelyn W. Politzer
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Heytor Diniz Teixeira, CRB-8/10570
Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br
Weissmann, Lisette A construção do outro na clínica de casal / Lisette Weissmann. – São Paulo : Blucher, 2026.
Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.
Bibliografia ISBN 978-85-212-3066-3 (Impresso) ISBN 978-85-212-2934-6 (Eletrônico – Epub) ISBN 978-85-212-3067-0 (Eletrônico – PDF)
É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora. Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.
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192 p. (Série Psicanálise Contemporânea / coord. Flávio Ferraz).
1. Psicanálise. 2. Psicanálise vincular. 3. Casais – Psicanálise. 4. Vínculo conjugal. 5. Alteridade. I. Título. CDU 159.964.2 Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise CDU 159.964.2
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Sumário
Prefácio – O trabalho clínico e a construção de passagens
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Maria Inês Assumpção Fernandes
Apresentação
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1.
Por que análise vincular?
17
2.
O estrangeiro no casal
35
3.
Fazer com o outro
63
4.
O outro no casal
89
5.
A sexualidade no casal
121
6.
A implicação do analista vincular na clínica multilíngue
141
7.
Fazer análise em língua estrangeira?
157
Tentando concluir o livro
181
Referências
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Prefácio O trabalho clínico e a construção de passagens
Neste trabalho de sólida construção, Lisette nos convida a uma corajosa aventura: adentrar nos espaços do íntimo, do privado e do público em busca de uma nova reflexão sobre os desafios de uma clínica psicanalítica vincular no trabalho com casais. Através de criteriosa investigação, coloca em jogo situações e circunstâncias da experiência clínica e as teorias por elas requeridas, obtendo uma versão singular de um cenário psíquico, clínico e, igualmente, político. Banhada nas teorias da psicanálise vincular, a autora desenvolve um vasto estudo sobre a construção do vínculo de casal na contemporaneidade, alcançando-o em parte a começar pela análise da problemática da diferença e do estrangeiro na constituição da subjetividade, ao discutir se o acordo amoroso no casal pressupõe complementaridade e diferença suficientes. Nessa construção, complementa sua análise a partir da reflexão sobre a experiência do tempo, encontrando em Puget e Berenstein a base para o debate sobre a cotidianidade, como um dos quatro parâmetros que sustentam o casal. Nesse trajeto, explora, igualmente, a dimensão da sexualidade no encontro com o outro, em que se discute que a “sexualidade no
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casal vai além de uma busca de repetição de uma vivência primordial, já que apresenta uma idiossincrasia própria...” com a criação de novos espaços vinculares. Tendo como horizonte que fazer vínculo solicita processos de simbolização de cada um e do conjunto aí constituído, como o casal, ao articular os espaços intra, inter e transubjetivos aos elementos que escapam à apropriação subjetiva, Lisette tangencia, nessa aventura, questões do âmbito social e político do mundo globalizado como as questões referidas aos processos migratórios, à diferença de línguas e à identidade intercultural. O esforço em atravessar fronteiras entre o acadêmico-teórico e o clínico revela, igualmente, o propósito dessa clínica vincular na qual a ética da diferença – no caminho de Lévinas – indica “que a subjetividade não é para si, mas para o outro; ... e propicia descobrir quais possibilidades habitam o vínculo de casal, para poder acolher o rosto do outro” ... sem esquecer de abandonar, certamente, “a ilusão de estabilidade e continuidade e a certeza de que podemos alcançar uma compreensão total do outro”, conforme nos alerta Lisette ao citar Puget (2015). Nas sociedades tradicionais, o casal é elemento fundamental do sistema social de trocas, adverte Kaës (2009). Casamentos selam alianças entre famílias no mesmo movimento em que ligam sexualidades e gerações. Em estruturações intricadas, intersubjetivas e inter/transgeracionais o “casal se apresenta como um espaço de pertença e de constituição mútua dos sujeitos que o compõem”. A construção do casal, de igual maneira, mostra a complexidade dessa realidade conjugal ao mesmo tempo corporal-sexual, psíquica e sociocultural que se desenvolve numa temporalidade própria entrecruzada de histórias diversas. A clínica ao se debruçar sobre essa realidade e os desafios nela colocados assume uma posição – ética – nem sempre confortável,
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Apresentação
O presente trabalho discute os vínculos de casal e as vicissitudes que eles atravessam nos tempos atuais. Sejam os casais que perduram no tempo, sejam os casuais. Essa discussão se apoia no conceito de estrangeiro, estranho, umheimlich. Visamos a estabelecer uma linha de pensamento que coloque o casal dentro do registro do estranho e não como um vínculo que, ao se estender no tempo, fica isento de inserir e dar um espaço à alteridade. O casal se caracteriza por um vínculo que abarca dois sujeitos em presença, com um “entre”, – à maneira de link –, que os une e estrutura como tal. O lugar do estrangeiro também pode ser pensado como parte constituinte dos vínculos, ainda que seus participantes tenham um bom conhecimento mútuo. Outorgar um lugar ao estrangeiro dentro do vínculo habilita um espaço de novidade e abertura à criatividade, amplia a perspectiva das relações, ao longo do tempo, não se remetendo simplesmente à repetição do vivido, mas permitindo que sejam modificados e redesenhados no futuro. Estabelecendo essa linha de pensamento, tentamos ampliar a visão psicanalítica orientada pelo conceito de repetição, para outorgar um olhar que visualize os vínculos sempre em construção e sendo repensados e reestruturados constantemente, no decorrer do tempo.
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Refletir sobre os vínculos em situação implica não apenas a repetição do vivido, que gera marcas inconscientes no psiquismo, como também pensar no aqui e no agora que os constituem. Passado e presente se unem, assim, na situação vincular a ser tomada em consideração. A teoria será cotejada com a clínica, ao se desenhar um percurso, com uma dupla direcionalidade: da teoria a clínica e vice-versa. Centramo-nos em vinhetas clínicas, provenientes da experiência clínica da psicanalista que escreve a partir de suas memórias psicanalíticas, as quais serão descritas de modo ficcional. A literatura também irá nos auxiliar, já que os poetas sabem e escrevem sobre os sentires humanos que a Psicanálise tenta compreender e decifrar. Em certos capítulos, tomaremos produções literárias, poemas ou trechos de novelas, a fim de serem interpretados como material clínico. A Psicanálise das Configurações Vinculares vem nos auxiliar a pensar os casais da contemporaneidade em vínculo. A escuta estará dirigida, porém, ao vínculo de casal como paciente que apresenta um adoecimento e precisa ser compreendido, para debelar suas dores apresentadas na época atual. Inserir o estrangeiro dentro do vínculo de casal significa desconstruir o preconceito de que todo vínculo que se perpetua no tempo fica eximido de reconhecer a alteridade do outro, como parte do mesmo. Todo casal precisa ser repensado, ao longo do tempo, redefinindo também os pactos e os acordos inconscientes que os fizeram se estruturar como tais. Espero que o leitor possa acompanhar a leitura desse tecido de conceitos que irão se entrelaçando para construir um olhar mais abrangente sobre o outro no vínculo, e suas possibilidades de abranger o ajeno, o diferente em sua máxima capacidade de alteridade. Os vínculos trazem um enriquecimento tanto aos sujeitos que fazem parte deles quanto ao contexto que os rodeia.
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1. Por que análise vincular?
Nossa mente, Alonzo, é como uma grande e misteriosa casa, cheia de corredores, alçapões, portas falsas, quartos secretos de todo o tamanho, uns bem, outros mal iluminados. No fundo desse casarão existe um cubículo, o mais secreto de todos, onde estão fechados nossos pensamentos mais íntimos, nossos mais tenebrosos segredos, nossas lembranças mais temidas. Quando estamos acordados usamos apenas as salas principais, as que têm janelas para fora. Mas quando dormimos, o diabo nos entra na cabeça e vai exatamente abrir o cubículo misterioso para que as lembranças secretas saiam a assombrar o resto da casa. O demônio não dorme. E é quando nossa consciência adormece que ele aproveita para agir. (Verissimo, 2004, pp. 40-41)
Os pacientes do mundo contemporâneo vêm bater à porta de nossos consultórios, a fim de solicitar um espaço de acolhimento e compreensão para as dores e angústias vinculares que os assaltam. Como dar conta desses sofrimentos contemporâneos e escutá-los, dentro da situação vincular que trazem? Pensamos em responder a essas questões, buscando auxílio na Psicologia Social, com uma investigação teórico-clínica dentro da abordagem da Psicanálise das Configurações Vinculares, utilizando
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pequenas vinhetas clínicas surgidas nas consultas psicanalíticas vinculares e alinhavadas na memória psicanalítica da terapeuta, como ficção. Talvez antigamente não tivéssemos as ferramentas que nos permitissem, como analistas, escutar um discurso vincular e compreendê-lo como tal. Na análise vincular, não se trata de escutar a história de João e colocá-la a trabalhar em função da história de seu parceiro ou parceira. Estamos nos referindo a escutar um discurso vincular, no qual os pacientes e o analista estão fortemente implicados. Escutamos, assim, o “entre” que gera esse vínculo, ao mesmo tempo que os junta e os separa, sempre em conflito, como todo vínculo e todo sujeito conceitualizado pela Psicanálise. Janine Puget ressaltava que os casais e famílias que vinham nos consultar achavam que iam sair da experiência analítica sem problemas, quando, na realidade, iam ter que enfrentar mais conflitos, já que, na medida em que os vínculos vão se tornando mais complexos, tendem a ter mais encontros e desencontros. A máxima freudiana que pensa o sujeito como um ser em conflito nunca será abandonada pela Psicanálise. O mesmo acontece na clínica vincular, ao considerar o vínculo como paciente.
1.1 Os relatos clínicos como ficção Gostaria de aclarar, neste ponto, como penso as vinhetas clínicas, de sorte a sustentar a ética profissional. As vinhetas clínicas constituem relatos ficcionais que a analista constrói, com base em sua clínica, para lançar luz sobre a fundamentação teórica citada. A criação dessas vinhetas é pensada por alguns autores como um sonho conjunto do analista e seus pacientes, já que são escritas pelo analista depois de acontecidas, funcionando como se fosse o trabalho de sonho que recriasse essa clínica, logo após sua realização. Pensamos essa instância como
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2. O estrangeiro no casal1
– Hacíamos el amor como dos músicos que se juntan para tocar sonatas. – Precioso, lo que decís. – Era así, el piano iba por su lado y el violínpor el suyo y de eso salía la sonata, pero ya ves, en el fondo no nos encontrábamos. – Me di cuenta en seguida, Horacio, pero las sonatas eran tan hermosas. (Cortázar, 1963, p. 134)
Os poetas têm romanceado muito sobre o encontro amoroso dos sujeitos, desde Adão e Eva, no Gênesis bíblico, até os tempos atuais. E essas formas de pôr em palavras o atinente ao amor idealizado do casal expressam muito do imaginário social e as fantasias em torno do relacionamento dos sujeitos, nesse laço especial chamado casal. Isso também é expresso nos ditos populares sobre o amor, que tentam revelar um anseio de interpenetração de um no outro, de um espaço fantasiado para o “dois
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Artigo publicado na Revista de Psicanálise da SPPA, v. 29, n. 3, pp. 1-23, dezembro 2022.
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em um”, aludindo à indiferenciação de dois sujeitos fundidos em um relacionamento peculiar de indiscriminação. Talvez pretendam pôr em palavras uma fantasia primária baseada no anseio de anulação da diferenciação eu-outro, desejo que carrega o anseio de amor eterno que anule a solidão e a finitude humana. Por tudo isso, o vínculo de casal geralmente aparece como uma estrutura estável, na qual persiste uma forte intimidade, com um desejo de permanência no tempo e no qual parece se transmitir segurança aos sujeitos que o compõem. Talvez estejamos delineando um esboço de amor romântico, de relacionamento “para a vida toda”, como posição que acalme o desamparo. Também vislumbramos, nos tempos atuais, outro tipo de vínculo de casal, não somente apoiado na ideia de amor romântico, mas de uma parceria ou companhia especial em um tempo fugaz e atual. Assinala um relacionamento de troca entre parceiros, nem sempre abraçado pela paixão e enamoramento, porém, por um projeto de trocas e de inserção social estabelecida pelos sujeitos que se encontram em um relacionamento mútuo e propõem-se a formalizá-lo, uma relação de casal que responde à necessidade desse tempo de parceria mútua, na qual a separação é uma opção possível, se esse propósito se quebrar. Poderíamos chamar esses dois tipos de casal de casal romântico e casal da contemporaneidade. Os dois ficam incluídos em um imaginário social, o qual contempla duas visões: uma baseada no ideal “vamos nos casar e ser felizes para sempre” e outra visão mais atual, que se norteia pelo lema “vamos tentar ser casal, se der certo, permanecemos”. Contudo, permitir que o casal deixe um espaço para ver o outro como estrangeiro e diferente é uma opção poucas vezes visitada e trabalhada. Apesar de atribuirmos ao vínculo de casal certa permanência no tempo, o outro sempre aparecerá como um estrangeiro.
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3. Fazer com o outro
Os casais inseridos no mundo contemporâneo apresentam grande dificuldade de reconhecimento do outro como diferente no relacionamento. Talvez essa característica esteja ligada aos valores individualistas imperantes no século XXI e na modernidade chamada de “líquida”? Ou talvez se deva a um empecilho específico no vínculo de casal, em função de sua constituição e história, ao longo do tempo? Várias perguntas se abrem diante do funcionamento vincular do casal. O eixo deste trabalho se centra na descoberta do outro nos vínculos, tendo como fundamento a clínica baseada na Psicanálise das Configurações Vinculares, a qual se apoia em um fazer bidirecional entre sujeitos. Pensar em um relacionamento de casal implica a consolidação de um fazer vincular. Esse interesse aparece com base na escuta dos atendimentos clínicos psicanalíticos com casais no consultório, pela percepção da grande dificuldade que os sujeitos trazem de aceitar o outro do vínculo, em sua alteridade, como diferente, ajeno.1
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Utilizamos o termo ajeno, em espanhol, porque achamos que, em português, a tradução por “alheio” não permite descrever a total abrangência que o termo tem na Psicanálise das Configurações Vinculares.
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64 A construção do outro na clínica de casal
Consideramos a diferença como um veículo para gerar transformações nos relacionamentos de casal e alterar as representações inconscientes vinculares, com amparo em um fazer bidirecional dos sujeitos nos casais, o que se constitui como complexidade vincular. Na realidade, todo vínculo inclui dois ou mais sujeitos em presença, criando um “entre” que opera como intermediário, como conexão, constituindo o relacionamento nos casais. Tomamos emprestado da Filosofia, de acordo com Alain Badiou (1996), o conceito de acontecimento, o qual permite après coup refletir sobre experiências vividas, gerando assim impactos que modificam estruturas vinculares. O filósofo entende a busca da verdade como ruptura de uma situação, trazendo uma novidade radical em relação ao que existia anteriormente. As consequências disso se abrem a novos encontros que geram a produção de mudanças. Para Badiou “o acontecimento é, então, a apresentação da verdade da situação (nos termos da oportunidade de aparecimento do novo); assim como é aquilo que, negativamente, explicita os interesses que compõem a lógica da dominação” (1996, p. 88). Isidoro Berenstein enuncia que “o acontecimento é imprevisto, não cabe no saber, mas sim no acontecer, no devir. Não é da ordem do ser, é irrepresentável, não tem lugar, mas terá de fazê-lo; é retirado de toda a enunciação e só pode ser enunciado depois, quando tiver sido comprovado” (2001, p. 78, tradução nossa). Veremos outras definições de acontecimento utilizadas na Psicanálise das Configurações Vinculares, por extenso, mais à frente. O trabalho vincular se apoia na possibilidade de representar essa diferença e fazê-la operar, para incluí-la nos vínculos como um ganho na prática clínica vincular. Os sujeitos do século XXI, permeados pela época e seus costumes, com suas características, pensam no amor líquido, segundo Bauman (2004), como um formato para constituir vínculos.
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4. O outro no casal
BODAS DE PERLAS Mario Benedetti Después de todo qué complicado es el amor breve y en cambio qué sencillo el largo amor digamos que éste no precisa barricadas contra el tiempo ni contra el destiempo ni se enreda en fervores a plazo fijo el amor breve aún en aquellos tramos en que ignora su proverbial urgencia siempre guarda o esconde o disimula semiadioses que anuncian la invasión del olvido en cambio el largo amor no tiene cismas ni soluciones de continuidad más bien continuidad de soluciones esto viene ligado a una historia la nuestra quiero decir de mi mujer y mía historia que hizo escala en treinta marzos que a esta altura son como treinta puentes como treinta provincias de la misma memoria porque cada época de un largo amor cada capítulo de una consecuente pareja
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90 A construção do outro na clínica de casal es una región con sus propios árboles y ecos sus propios descampados sus tibias contraseñas he aquí que mi mujer y yo somos lo que se llama una pareja corriente y por tanto despareja treinta años incluidos los ocho bisiestos de vida en común y en extraordinario alguien me informa que son bodas de perlas y acaso lo sean ya que perla es secreto y es brillo llanto fiesta hondura y otras alegorías que aquí vienen de perlas […]!1
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Casamento de Pérola Mario Benedetti Afinal como é complicado o amor curto e, em vez disso, quão simples é o longo amor digamos que este não precisa de barricadas contra o tempo ou contra o intempestivo Nem se emaranha em fervor por um prazo fixo o breve amor mesmo nesses trechos em que ele ignora sua urgência proverbial sempre manter ou esconder ou dissimula semideuses anunciando a invasão do esquecimento em vez disso, o longo amor não tem cismas nem soluções de continuidade e sim continuidade de soluções isso está ligado a uma história nossa quero dizer minha esposa e minha história que fez escala em trinta marchas que neste momento são como trinta pontes como trinta províncias da mesma memória porque cada vez de um longo amor cada capítulo de um par consequente
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5. A sexualidade no casal
Aqueles que melhor trataram sobre a sexualidade, o erotismo, a paixão e a mágica que emerge frente à união dos corpos têm sido os poetas. Pablo Neruda, poeta chileno, tem inúmeros poemas que relatam essa experiência difícil de descrever em palavras, mediadas pelo processo secundário, quando o que parece prevalecer nesses encontros tem mais a ver com o processo primário e as experiências dos momentos originais de vida. Escutemos o poeta para entrarmos no tema. No livro Os versos do capitão, ele escreve, dentre os poemas de amor: El alfarero
O oleiro
Todo tu cuerpo tiene
Todo teu corpo tem
copa o dulzura destinada a mí.
taça e doçura destinada a mim
Cuando subo la mano
Quando subo a mão
encuentro en cada sitio una paloma
encontro em cada lugar um pombo
que me buscaba, como
que me procurava, como
si te hubieran, amor, hecho de arcilla
se tivessem, amor, te feito de argila
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para mis propias manos de alfarero.
para minhas próprias mãos de oleiro.
Tus rodillas, tus senos,
Teus joelhos, teus seios,
tu cintura
tua cintura
faltan en mí como en el hueco
faltam em mim como num buraco
de una tierra sedienta
de uma terra com sede
de la que desprendieron
da qual desprenderam
una forma,
uma forma,
y juntos
e juntos
somos completos como un solo río,
somos completos como um rio só,
como una sola arena.
como uma areia só.
O poeta parece fazer alusão à solidão dos corpos que se procuram, na medida em que parecem ter sido feitos um para o outro. Talvez a solidão crie a sede de se encontrar com o outro, mas permeada pela fantasia de que o mesmo seja um amparo para aquele que o procura. O ato sexual carrega a fantasia de constituir um corpo só, momento no qual pareceriam desaparecer as individualidades de cada sujeito, para se fundir com o corpo e o ser do outro. A fantasia que desperta no encontro dos corpos aparece como uma necessidade imperiosa de se complementar um com o outro; o poeta alude a partes do corpo de um que faltam no outro, de uma terra com sede que procura o corpo do outro, apelando à fantasia de completude para se constituir como um rio só, como uma areia só. Talvez, a procura pelo encontro sexual carregue a fantasia da primeira separação com o corpo da mãe, na busca de achar uma completude que apague o desamparo inicial. Mas a sexualidade, no casal, somente propicia um substituto precário ao desamparo do objeto primário, já que essa mãe primeira nunca é achada. No encontro dos casais, sempre fica um resto que promove uma eter-
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6. A implicação do analista vincular na clínica multilíngue1
Aquele que não duvida erra duas vezes. (Mastreta, 1996, p. 61)
Falar da implicação do analista significa compartilhar pensamentos/devaneios psicanalíticos nos atendimentos a casais em várias línguas. Chamo-os de devaneios, já que pressupõem tomar conta de uma clínica implicada com a teoria psicanalítica que há tanto tempo me acompanha. Eu nasci e me formei no Uruguai e moro no Brasil há 21 anos. Escuto pacientes em português, sendo essa a língua do país de acolhida, na qual também clinico, estudo, escrevo e vivo cotidianamente. Como estrangeira e brasileira ao mesmo tempo, vivo sempre no paradoxo do umheimlich que Freud nos ensinou há tanto tempo, conceito que se divide e se superpõe ao não familiar conjuntamente com o familiar.
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Apresentação oral na 2ª Jornada IPA-FEPAL Psicanalistas trabalhando com
casais e famílias: dispositivos de subjetivação contemporâneos, em 24 jun. 2023.
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Na chegada ao Brasil, decidi fazer meu mestrado sobre o tema Famílias Monoparentais com um olhar psicanalítico. Isidoro Berenstein, meu mestre argentino, conjuntamente com Renato Mezan, foram meus coorientadores. Lembro que, uma vez, Isidoro me disse que eu corria com uma vantagem frente à pesquisa, já que eu era duplamente estrangeira: por um lado, era geograficamente estrangeira, já que tinha nascido e vinha de outro país, e era estranha à população que estava investigando, pois se tratava de famílias brasileiras de funcionários de um hospital, população esta à qual eu não pertencia. Essa dupla estrangeirice me colocava a uma distância necessária para fazer minha pesquisa, no mesmo instante que me impulsionava a mergulhar em uma população e temática totalmente desconhecidas culturalmente para mim. Acho que esse posicionamento sempre me ajudou na oscilação entre uma posição de muita implicação ao mesmo tempo que estabelecia distância quando não entendia a cultura dos pacientes que atendia, para compreendê-la e compreendê-los. Ao se tratar de ocupar o espaço do psicanalista, de me colocar no lugar de trabalho na “cura através da palavra”, definida por Freud, considerando meu caso e, especificamente, a minha migração, vejo-me na nova tarefa de clinicar em várias línguas. Tal situação me põe em um lugar a partir do qual preciso entrar e sair da minha língua materna em direção à língua do país de acolhida, assim como na língua no inglês, na qual também clinico. Grande confusão de línguas que também me habilita a me perder e me achar, na língua escolhida de atendimento, com cada paciente, como meio de comunicação. A partir do lugar de estrangeira/uruguaia, gostaria de citar, neste ponto, um apanhado sobre o tema da implicação em Psicanálise, aprofundado por psicanalistas brasileiros que o estudaram, com o foco no paciente individual. Depois, procurarei esclarecer a temática teórica através da clínica vincular. Contudo, gostaria de
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7. Fazer análise em língua estrangeira?1
Uma palavra converte-se em outra, uma coisa transforma-se em outra distinta. Desta mesma forma, diz-se, funciona a memória. Imagine o interior de uma imensa Torre de Babel e um texto que se traduz a si mesmo em uma infinidade de línguas distintas; mil idiomas que gritam ao mesmo tempo em seu interior, com um clamor que ressoa em um labirinto de cômodos, corredores e escadas, centenas de andares mais acima. Repita-se. No labirinto da memória, tudo é o que é e, ao mesmo tempo, algo a mais. (Auster, 1994, pp. 193-194)
A questão da língua é uma temática que tem estado presente desde tempos imemoriais, estimulada por migrações, exílios e refúgios de seres humanos ocorrendo em todos os continentes. Quando a Torre de Babel é mencionada, faz-se alusão a uma fase de indiscriminação das diversas línguas, a partir da qual elas vão se diferenciando e se estabelecendo como códigos a serem usados pelos diversos povos no globo terrestre. Essa situação também atinge os atendimentos psicanalíticos dirigidos a pacientes estrangeiros ou que falam várias línguas. Tanto os pacientes multilíngues solicitantes de
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Artigo publicado no Jornal de Psicanálise, v. 54, n. 101, julho-dezembro 2021, Instituto de Psicanálise da SBPSP.
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atendimento quanto os analistas defrontam-se com uma grande incógnita na hora de escolher a língua na qual preferem expressar-se e a língua na qual sentem que serão mais bem entendidos. Como todo problema dentro da Psicanálise, para cada pergunta temos tantas respostas quantas pessoas houver que tentem desvendá-la; não temos, portanto, uma resposta única. Caso a caso, teremos que pensar tanto na língua de escolha do paciente quanto na língua que cada analista escolheu para escutar aquele que o solicita. Apresenta-se a grande pergunta das possibilidades e empecilhos que a língua materna traz consigo, assim como os prós e contras de cada sujeito ser atendido em uma segunda ou terceira língua que o afaste daquela primordial língua aprendida. Não é em vão que se chama a língua do país de origem de “língua materna”. Gerome é um jovem adulto de origem belga, sua língua materna é o francês; ele é expatriado em São Paulo e solicita atendimento psicanalítico nessa cidade. Eu, analista uruguaia cuja língua materna é o espanhol, lhe pergunto em que língua gostaria de ser atendido. Nós dois falamos inglês como segunda língua, mas, a pedido dele, combinamos que iríamos nos comunicar em português, língua do país da atual moradia tanto do analisando quanto da analista. A língua portuguesa é a terceira língua aprendida pela dupla. Vélikovsky diz que “uma língua aprendida na idade adulta pode realmente integrar-se numa rede simbólica fértil e polivalente, mesmo em nível inconsciente” (Amanti-Mehler; Argentieri; Canestri, 1990, p. 75). Pensamos, além do mais, que essa língua será o veículo que permitirá internamente a compreensão e o trabalho analítico da dupla. A escolha da língua a ser usada no consultório psicanalítico, língua na qual o paciente será escutado e em que vai se expressar, assim como a língua na qual o analista escutará e interpretará, traz muitos entraves a serem levados em conta. Trata-se de uma escolha que norteia o trabalho psicanalítico tanto para o paciente quanto para
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Tentando concluir o livro
Fechar um ciclo não é coisa fácil, é só para aqueles corajosos ou talvez desacreditados e ingênuos que acham que conseguem fechar uma porta e deixar aquilo que questionam para trás. Pessoalmente, minhas inquietações permanecem sempre pipocando em mim e me pedindo para continuar pensando além. Há um ditado em inglês de que gosto muito: Last but no least. Desse modo, apelamos a ideias que aparecem no final, mas não significa que sejam menos importantes; para mim, é uma forma de dar um final sem final. Gostaria de deixar pensamentos em aberto para que outros continuem pensando e aportando ao conhecimento sobre o outro, seus vínculos, os desconhecidos que nos habitam, deixando entrar o estrangeiro que nos inquieta, nos pertence e faz parte de nossos vínculos. Tentei unir vários laços que, por sua vez, aparecem como contraditórios e também complementares: os relacionamentos por escolha e o estrangeiro que ocupa o lugar do desconhecido, que está sempre nos aguardando ao virar a esquina. Os vínculos parecem oferecer um espaço de segurança que está constantemente ameaçado frente à possibilidade de nos deixar surpreender pelo ajeno do outro.
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Este livro traz uma importante reflexão sobre a alteridade a partir da experiência da Dra. Lisette Weissmann no atendimento a famílias/ casais expatriados e em sua própria vivência migrante. Pensar o estrangeiro nos desafia a encarar o estranho em nós e em nossos vínculos. Na clínica, ajudar a acolher o “ajeno” do outro é papel fundamental do analista. A ideia de fusão do casal em um só corpo só se viabiliza no apaixonamento inicial, momento em que as fronteiras entre ambos ficam esmaecidas. E como lidar com as diferenças que surgem com o tempo? A vida a dois exige um intenso trabalho psíquico para incluir o que no outro nos perturba: hábitos, culturas, sexualidade e marcas do desenvolvimento de cada um. O trabalho vincular apoia-se em simbolizar e elaborar essas diferen ças, tornando-as um ganho criativo. Como cita Julien, em uma relação “trata-se de uma ética na qual se encontra a erótica do desejo e a estética do bem dizer, na arte de endereçar-se ao outro”. Sonia Thorstensen
A construção do outro na clínica de casal
Lisette Weissmann
A construção do outro na clínica de casal
PSICANÁLISE
Psicóloga e Psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), doutora e pós-doutora em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSUP). Psicanalista de casais, famílias e individual. Membro do departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientae e membro fundador da Associação Brasileira de Psicanálise de Casal e Família (ABPCF). Membro do Projeto Ponte, atendimento psicanalítico a migrantes. Sócia fundadora da Asociación Uruguaya de las Configuraciones Vinculares (AUPCV) e supervisora habilitante da Asociación Uruguaya de Psicoterapia Psicoanalítica (AUDEPP). Professora do Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP), do Sedes Sapientiae e do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro (CPRJ). Livros escritos: Famílias monoparentais (Casa do Psicólogo, 2009), Atendimento psicanalítico de família (Zagodoni, 2014), Interculturalidade nos vínculos familiares (Blucher, 2019), Parejas y famílias migrantes (Blucher, 2024), Working with intercultural expatriate families. A Psychoanalytic approach to interculturality (Routledge, 2026) (no prelo).
Weissmann
Lisette Weissmann
Lisette Weissmann analisa a complexidade das relações conjugais pela psicanálise vincular, a luz do conceito de estrangeiro. O livro explora como o individual, coletivo e estranho se manifestam nas alianças e fantasias inconscientes do casal. Ressalta-se o vínculo como espaço de constituição mútua, em um mundo fluído e complexo. Todo casal carrega possibilidades e renúncias, por vezes difíceis de serem abdicadas e sustentadas subjetivamente. Leitura essencial na dinâmica vincular e a subjetivação. David Levisky
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PSICANÁLISE CONTEMPORÂNEA Coord. Flávio Ferraz PSICANÁLISE
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