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DESERTOS Rui José Carvalho Fotografia: António Caeiro Folha de Sala: Paulo José Miranda Revisão de texto: Céu Baptista Setembro, 2018
FOLHA DE SALA Há nas fotos de António Caeiro um desespero e um abandono que tangem a nossa sensibilidade, que fazem de nós um instrumento, uma harpa de cordas tensas a ser tocada pelo tempo. Pela intempérie do tempo e de como ele deixa as coisas e os lugares depois da sua passagem. O tempo sobrevoa os limites do que somos, sobrevoa a nossa pele, a nossa sensibilidade através das imagens, povoadas por objectos que foram, por lugares que deixaram de ser. E há também pequenas árvores e arbustos que surgem como pessoas que estão onde não deviam estar, coisas fora do lugar. A grande beleza, aterradora, das fotos de Caeiro emerge de imediato, intuitivamente, e estabelece uma relação entre árvores, arbustos, sofás, portas, antigas fábricas e cada um de nós mesmos. Basta umas ruínas à nossa volta, para que o crescimento das nossas folhas seja visto como um fracasso, que é toda a existência humana, como na foto à página 45, que o texto de Rui José Carvalho sublinha e alarga, estendendo esse fracasso à própria condição da procura, à própria condição do sublime. Se as fotos de Caeiro nos transformam em melodias tristes, cavas, regidas pela aura da escala menor, onde os tons coxeiam com regularidade, os textos de Rui José
Carvalho alargam essa melodia à compreensão de que o que nos falta não somos nós, nem sequer o que fomos, o que nos falta é o que já sentimos. “A adolescência, esse amor para sempre!” (p.78). Um dia quando fomos não estávamos lá. E existiu mesmo esse dia? Existimos mesmo ou é tão somente a memória inventando um rosto, uma linha, um horizonte. Não nos resta sequer uma fotografia que o prove ou um poema que justifique essa ausência de nós mesmos e dos outros. Porque o livro trata do tempo e de vidas humanas à beira dos livros e dos quadros e da música e da luz cravada no papel, que são estes textos e estas fotografias. “Haveríamos de ser estranhos e na estranheza virar todas as páginas em sobressaltos.” (p. 40) Um livro onde a existência é um desencontro. E Deus um deserto. Paulo José Miranda
Pavimentaram-nos o chão para que não nos semeássemos. E no entanto, eis-nos: ervas daninhas crescendo. A arte floresce onde menos se espera. Onde quer que haja sede de espírito e alguma chuva caindo, desde a imensidão do céu. Somos refletidos na imagem da terra, entre a terra e o céu. Eis-nos. Eis onde nos espelhamos. Por entre a triste cor dos pingos de chuva. Aguardaremos o dilúvio. Aqui aguardaremos que o céu nos caia, para que o céu caído seu infeliz amor reencontre. Gaia e Úrano suspensos na ira de Cronos, o Deus da decepação. Aqui ouvimos a chuva que ainda há pouco deixou de cair. Aqui escutamos o passar do tempo, entre a chuva que vai e a chuva que vem. Aqui é a terra, prenhe de nós. Prenhe de ervas daninhas crescendo, habitando os interstícios do solo, a terra. Pavimentaram-nos o chão. Pavimentaram-nos o chão para que do mundo mais não esperássemos que o haver a ser. Contudo, esperamos AINDA milagres. Ainda esperamos que o céu nos caia, que do céu caído nos recomece o mundo. Em ânsia, aguardamos o recomeço. Ansiamos cataclismos, o reencontro em Gaia e Úrano. Antes ainda do Tempo urdindo a vingança. Libertar-nos-emos das grades que nos cercam. As grades são imagens impostas na paisagem e ervas daninhas não conhecem prisões. Aqui, aqui nos espelhamos. Espraiamo-nos luz acima para que a luz nos incida. Temos sede de luz, da luminosa saudade impregnada em futuro. À vileza que nos cerca contrapomos os intrépidos lugares onde nos faremos crescer. Somos iluminados pela estranheza do que somos. Aqui, no preciso lugar das apostas perdidas seremos a vitória dos reencontros.
Nasço palavras habitando-me para que nelas me julgue menos só. Contudo, jamais serei a salvo. Sou atolado nesta pele até aos ossos e a mentira é uma ferida que por dentro me mina. Por dentro. Sou as feridas que me sangram. Nunca fui são, verdadeiramente nunca o fui. Mesmo quando um dia acreditei que meus passos me conduziriam a lugar algum. Fui prestes na encarnação de personagens que não sou. Habitei as casas junto aos homens e nelas construí um império de derrotas. Um dia acordarei com todas as coisas vibrando. Será esse o sinal de que não poderei mais vibrar. Somos derrotados. Somos derrotados pela natureza das coisas. Um dia acordarei com a vontade derrotada. É inevitável. É inevitável que assim seja, que os camiões cheguem para fazer a mudança. Levarão tudo o que fui. Levarão todos os livros tragados na fúria, todas as jovens mulheres em que me perdi. Um dia será noite. Um dia será noite e a noite ficará. A noite será íngreme e sem estrelas. Restarei só. Restarei só e serei doente, uma doentia mortalha por todos deixada ao abandono. Não restarão preces que mais não sejam estes ramos apontando ao céu. Um último acto de coragem. Sulcarei a terra até que os vendavais me sinalizem. Então, perante os vendavais me erguerei por entre o dom do abandono.
Aqui havia cortinas abrindo-nos a noite, para que toda a vida pudesse acontecer-nos. Aqui havia lugares e nos lugares nos sentávamos ainda prenhes de clareza. Todos os lugares eram alagados pelos rios jorrando em catadupa, pelo riso iluminado das jovens mulheres ainda em flor. A noite surgia florindo todos os resquícios do mundo e a noite era então a mais clara certeza de sermos um sonho vivido. Aqui. Aqui havia cortinas e as cortinas se nos abriam. Nós abríamo-nos com as cortinas, fingindo-nos mortos para a rotina. A rotina era a secura dos solos. Nós ainda vicejávamos. Entoávamos canções numa linguagem distante. E nas canções entoadas distávamos do amor por milímetros. Tudo falhou. Tudo falhou como tudo sempre falha. Tudo que quisemos foi desejado em demasia e a demasia entornou-nos borda fora. Extravasados de nós somos agora esta angústia. Esta angústia de casas desérticas minando-nos até aos ossos. Agora, sim, agora. Somos casas desérticas, desabitados no desamor. O escuro não chega. Agora o escuro não nos chega. Tornámonos brancos. Brancos e ressequidos como a branca cal das paredes que nos cercam. Nas paredes nos edificámos até à brancura da pele. Imiscuímo-nos na feitura das casas para que aí nos pregássemos nossa fundação. Contudo, fundimo-nos com a paisagem, somos aqueles que com a paisagem se fundem. A paisagem definha, como definham todas as paisagens tocadas pelos homens. Agora somos secos. Só teias de aranha nos habitam. É isto. É nisto que nos tornámos: corações empedernidos nas teias.
Água. Somos água escorrendo. Náufragos corpos buscando o estridente deserto, uma qualquer mágoa firmando todo este silêncio. De paradeiro incerto, sofridamente nos erigimos de encontro à estranheza do mundo. Tempos atrás habitámos distantes lugares, longínquas terras vividas em contramão. Antes. Antes houveram promessas e nas promessas ferozmente nos discorremos. Fomos ferozes de encontro às cidades, ferozmente escorrendo por fora do leito dos rios. Somos agora regressados a casa. No regresso nos reerguemos as decepadas cabeças firmadas no sonho. Somos de novo a afirmativa presença. E afirmativamente presentes apressamo-nos na escavação do célere augúrio das coisas vindouras. Antes. Antes houve poetas cantando o declínio. Agora somos incertos. Incertas certezas desesperando a vicissitude. Aguardamos declínios. Agora. Agora aguardamos a farta sede de augúrios. Somos agora desertos. Desertos náufragos abundando entre as cores, longinquamente reflexos na mais íngreme estranheza. Gritamos: “aqui somos!”. Ninguém nos ouve. Ninguém nos ouve porque ninguém há a ouvir. Náufragos. Náufragos até ao deserto. Aqui, desde onde nos perecemos.
Ser o sucesso do corpo; ser amado pelas jovens mulheres antes da noite chegando. Curvilíneo, em curva gravitar o vórtice dos dias; impacientemente percorrer o estrondo do mundo até ao enegrecimento da carne. Ser tangente. Ao contrário da paciência, ser a primeira e última vez de todas as coisas. Não esquecer nunca: envergar as sístoles e as diástoles como um troféu. Em queda. Ser em queda. Quedar-me quase exangue de mim e dos outros. Ser farto. Estar farto de tudo e de nada. Procurar as formas e, com as formas, enformar a matéria. Matar o tédio caindo em todos os precipícios. Cair. Cair e, de seguida, reerguer a queda. Ser a escalada das montanhas. Escalar montanhas com a dúvida às costas. Deixar depois a dúvida incrustada no cume, por cima da estupidez. De rosto descoberto. Descobrir o rosto para que as lágrimas vertam na nudez. Ser ao contrário da contrariedade do mundo. Deixar que as lâminas me cortem, que o aço incida na minha carne. Tornar-me duro. Ser o aço por dentro. Não representar papéis além do estritamente necessário. Sobrevir a dor. Não deixar nunca que a discrepância transpareça. Ser o aço por dentro. Não deixar nunca transparecer que assim não é. Jamais; não esquecer jamais que assim deve ser.
Desenhar-me arduamente. Ser um destino arduamente desenhado: linhas rectas, semi-rectas, paralelas, ascendentes, concêntricas, semi-curvas - descendentes - descender até à inscrição no labirinto. Ser a petrificação, nos planos e contraplanos. Inserir-me arquitectonicamente na paisagem. No espaço exterior, edificar-me. Contrapor-me. Contrapor a organização no espaço exterior à desorganização no espaço interior. Inscrever-me no tempo. Indagar. Onde nos edificarmos após as ruínas? Onde vislumbrar ainda o sortilégio? Onde reencontrar tudo aquilo que jamais fomos? A reorganização do espaço interior. Buscar a construção primeva, o primacial fundamento. Precaver-me da hecatombe. A inscrição, a edificação da arquitectura na alma. Edificar a alma longe dos pântanos. A arche e a techne. Uma vida assomada pela estranheza, pela impossibilidade do mero comércio com o mundo. Exangue de mim, o sentido deambulado, consumido no caminhar. Caminhando a desesperada tentativa de projectar o produto de minha edificação. Petrificando-me musicalmente. A arquitetura, a petrificação na musicalidade. Como ser ao abrigo das intempéries? Como ser ao contrário do mundo? Como percorrer os mapas por dentro? A actividade exterior e o seu resultado físico: prédios, casas, igrejas, palácios. A actividade interior e o seu resultado simbólico: livros, música, pintura, cinema. A correlação do homem no universo. O instrumento e o seu símbolo. A vida inscrevendo-me a pele. Ser firme, estruturado - teimar; Possuir um ideal, um desígnio - teimar nesse ideal; Respeitar o que deve ser respeitado e desrespeitar tudo o resto teimar no desrespeito; A beleza, principalmente respeitar a beleza, ser perto da beleza sempre que possível, da beleza da carne à beleza do espírito teimar, teimar na beleza. Ser a firmitas, ser a utilitas, ser o decorum, ser a venustas, fundamentalmente. Inscrever-me no tempo. Ser-me a ser, sendo.
Fundar-me.
Atingida a puberdade todos serão chamados a este território. Contudo, poucos ouvirão meu chamamento. Entre os poucos, pouquíssimos restarão. Pouquíssimos estarão aptos à escuta do vento soprando, cingidos às árvores onde me habito. Os que ouvirem minha voz serão únicos, unívocos, singulares. Inadequados. Mais concretamente: não crescerão. Os que escutarem minha voz recusarão o crescimento, recusarão suas sombras ofuscando o redor. Em volta, as crianças irão crescer. Deixarei que as crianças cresçam. O crescimento das crianças será então escutado entre meus ramos. Os nascidos neste mesmo solo onde me firmo serão inequívocos, isentos de ambiguidade. Tal qual em mim; para os nascidos em mim não existirá outra interpretação que não seja a perene recusa da perfídia. A homogeneidade do solo cercar-nos-á. Na homogeneidade nos enraizaremos. A luz transparecerá, como sempre, mas somente para aqueles que estejam aptos ao transparecimento. Os que transparecerem exercerão a árdua tarefa da escuta. Seremos ouvidos escutando. Os ramos compondo meu solo serão escutados no soprar do vento e o soprar do vento comporá a harmonia do mundo. Seremos entre o ruído estridente e a beleza harmónica da composição. Intocada, a música das esferas verterá sobre a copa das árvores. Então, somente então, serão nossos corações tocados pela magnificência das florestas.
A subida é uma escalada incerta e o fôlego é impreciso. Gastome, entre a proeza do equilíbrio e a ciência da respiração. O esgotamento das possibilidades leva tempo, muito tempo. A respiração é curta para tanto caminhar. Em cada degrau me restabeleço. Paro. Paro, por um segundo que seja. Em cada paragem a visão torna-se mais abrangente. A cada passo dado sou mais seguro ao vento, quase perto de voar. A segurança não é ter corrimões onde me agarrar, a segurança é ser-me cada vez mais perto do desequilíbrio. Adquirir a ciência da queda, precaver o amortecimento dos ossos no chão, ser o truque do domínio. Ser autárquico. Pouco mais que um punhado de livros abertos entre as mãos. Ter contudo saudades; da música, das mulheres nuas dançando entre meus dedos. Ter saudades da fortuna e ainda assim persistir. Olhar para baixo, olhar para baixo e ser tão alto. Sonegar o tempo à estupidez. Optar pela dificuldade quando aos outros tudo parece tão simples. Esgotar tudo o que se tem naquilo que é valioso. Recusar o chamamento da publicidade. Recusar a publicidade dos dias. Não correr. Discorrer. Ganhar fôlego no cansaço. Trazer-me poemas nas mãos. Nas mãos trazer-me ciladas onde me fazer cair, quase devoluto. Tropeçar-me a inexistência de claridade, continuadamente. Ser incerto, de ternura incerta, peito aberto e também ele incerto, ofuscado na penumbra. Inciso, impreciso, imprestável para a calibragem do mundo. Não correr. Discorrer. Tão só subir, tão só subir à vertigem de ser tão alto.
Dar passos em redor da deriva; olhar para cima sem que se reze. Saber que no deserto não existem cruzes, tão só a persistência do vento ecoando as intempéries. Aguardar as tempestades de areia. Coabitar com as tempestades. Sentir a areia pesar, assim rasgar o ar nos pulmões. Viver a vida como ela é, com a dor apertada junto ao pescoço. Soluçar. Persistir no soluço. Encarar as metástases como rios. Ser como os rios sangrentos onde me habito. Ser os conjuntos de células vibrando-me por dentro das vísceras. Aguardar a imergência dos organismos. Aguardar o crescimento inflamando a divisão celular. Os ciclos de vida. Aguardar o envelhecimento e a morte. Percustrar a matéria orgânica. Ser a intensa deriva da matéria. Ser a genética dos corpos, o processamento orgânico dos materiais até à anormal proliferação da divisão celular, até ao tumor anichado no peito. A germinação cancerígena habitando a viagem linfática, sanguineamente percorrendo os vários órgãos. A matéria, a inflamação da matéria, o inorgânico protelado no orgânico. Ninguém jamais venceu a guerra contra o corpo, nem mesmo Jesus, cuja carne sucumbiu ao Martírio da Cruz.
Jamais vi flores nascer ou vicejar qualquer outra coisa que não o inabitado desalento. Ainda assim, alguns frutos adoçam o sabor desta derrota: os mortos escrevendo livros para que a vida os sossegue; como loucos, mentindo tanto quanto possível. Mais ninguém sentou este colo a não ser eles, os loucos mortos que me visitam. Assim me é o mundo desvelado. A rarefação de sentido no esforço da respiração. Inspiração e expiração expiando o antro das coisas. Todas as derrotas dadas na breve vitória da criação. Um dia, em tempos idos, a potência do mundo aqui foi dada em acto. O mistério das horas pareceu coisa pouca. Representáramos a presença do fogo a uma distância segura e assim sobrevivemos às queimaduras em nossas peles. Agora aperfeiçoo a queda e o tempo da queda. Sou suspenso, entre o passado e o futuro. Gravito em torno de algumas memórias, coisas nunca acontecidas. Quando criança esperava que os fósforos me ardessem entre os dedos. Acho que já então previa a preciosidade do fogo, ardendo por dentro das coisas. Tudo agora é tão perto que quase sempre me queimo. Antes não era assim. Antes havia uma distância que me separava dos objectos. Essa distância precavia meu corpo das queimaduras. Agora ardo-me tanto que sou quase cinzas, uma ferida aberta por dentro da pele. Ardendo-me.
Demora-nos uma vida inteira o apuramento para enfrentar o mar, percorrer a substância das coisas, aquilatar a estrutura dos materiais; tornar-nos pertinentes e na pertinência enfrentar as vagas. Adquiri-me na madeira revestida. Vedei-me com estopa para impedir a penetração das águas. Depois. Depois instruí-me na arte da navegação. Li todos os livros sobre oceanos. Debrucei-me na escuta das águas, escutei a estrutura das marés; o marulhar do vento incentivando a viagem. Contudo, não parti ainda. Fui seco na coragem da partida. Arranquei-me ao solo, mas minhas raízes ainda me arrastam os pés no lodo. Adquiri meu peso na pressa de chegar longe, a um cais que é agora cada vez mais longínquo. Mesmo após ter vencido todas as batalhas o mundo ainda me sopra o desalento, uma guerra perdida. Estarei disposto a suportar o embate das vagas, sempre estive. Houvesse vagas que me levassem perto de uma beleza Antiga, de uma tragédia erigida para gáudio do espírito vindouro. Pudesse eu soprar o vento e com ele alimentar toda uma sede de vida, fazer nela atolar toda a estupidez do mundo...
Avesso aos pingos de chuva, entorno-me nesta pressa de chegar a seco. Dias sem fim aguardando a chegada da noite, acendendome por dentro do escuro. Apreendo-me na arte do capotamento. Do cinzento ao negro, emaranhado nas iluminadas luzes do esquecimento. Como rio vertendo-me nas frestas, entre o início e o fim, a ténue linha onde me exerço. Funâmbulo me estico os dias para além da implausibilidade do regresso. Dentro de mim, agora me oiço. Vozes. Vozes ecoando no estrondo do rasgo. Mais ou menos temperadas, cindidas no avesso da carne. Não existe nenhuma cura mediante a sedação. Sim, não há muros que separem o inseparável, sequer pregos que durem a eternidade, que eternamente funcionem os mecanismos que nos dormem. Dentro em pouco acordaremos. Irromperemos o sonho da transmutação, para que na transmutação nos sejamos outros. Entretanto. Apreendo lições Antigas, canções ecoadas no torpor dos Tempos. Somente então serei digno de me entoar o regresso a casa.
Para lá deste céu apenas existem ruínas, os escombros de uma qualquer explosão. Um deserto idêntico a nada haver. Contemplo o horizonte, aí viso o plano onde a terra e o céu se unem. Interpostos no mar. Esta abstracção de linhas sobrepondose à paisagem. Nas linhas leio tudo que nelas se inscreve. O tempo, transcorrendo. Desenho um ponto imaginário no espaço e nesse ponto vislumbro o equilíbrio. Recupero o tempo perdido, acho. Coloco um pé no ponto imaginário e com o outro pé empurro os dias até onde me seja possível empurrá-los. Acompanho assim o percurso dos astros. Gravito a paisagem, tento descrever uma órbita certeira. Entre um lugar e esse mesmo lugar. Algo como a eterna repetição do mesmo. O mesmo peso caindo, repetidamente. O mesmo peso levantado, indefinidamente. Colo o mundo em meu peito e nele tatuo o declínio. Nada mais.
Em baixo chegam e partem comboios. Ao longo da linha férrea há um frio que me tolhe. As barras de aço são em frente, convergem no ponto de fuga. Convirjo com as barras, um olhar que me dança sobre os carris. Tanto metal indicia um estado de coisas, algo como uma espessura. A essa espessura chamamos mundo. Perante mim, a extensão da realidade. Não apenas uma coisa extensa. Uma densidade que me ecoa. Passageiros e mercadorias, a azáfama do mundo. É a azáfama que me transporta às coisas. O que vemos é em nós. Somos o que vemos. Quando um muro nos embate, a colisão é-nos interior. Acho que pretendo tornarme aço, algo como: esta desértica paisagem. Permaneço, até que me torne quase idêntico ao que vejo. Melancólico. Estruturado. Uma estrutura de ferro forjado suportando o embate do mundo. Torno-me apto para o combate. Apronto-me. Aponto ao horizonte mais longínquo, um lugar chamado Ítaca, alguns milénios atrás. Penélope, minha amada, Telémaco, meu adorado filho! Sou, entre o desencanto da partida e o desconhecimento da chegada. Surpreso do que está para ser.
Contemplo a descoberta do chão, algo que ainda me surpreenda mesmo quando já nada me possa surpreender. É esse o segredo. Dar continuidade à paixão até que no chão se descubra o que nas pedras se esconde. É fundamental saber olhar as pedras, nelas descobrir o cintilar das estrelas. Apreender a arte da joalharia. Procurar caminhos pedregosos e através deles percorrer-me no mais agreste troço. Saber que nada sei. Ser o desejo de aprender esse dom: a extração da beleza no pior imaginado. Sobrevivo os escolhos, toda a estupidez dos homens. Esse fétido cheiro de lixeira a céu aberto. Olho os homens ruminando o mundo, como ratos, despejados na mania da superioridade. Tão imbecis. Atávicos no imbecil mimetismo dos outros. Desejando a vanidade, todo o poder imbuído em suas mãos vazias. Este chão que me incide, que pelos pés me arrasta até ao concreto do cimento. Percorro-o com a incerta certeza de saber que estou certo. Comigo arrastei tempestades, searas onde me colhi. Fui improvável. Fui improvável até tornar-me quase deserto. Habitei a destreza de minha infância até torná-la imprópria. Sim, torneime velho antes ainda de o ter sido. Arrastei o chão até minhas mãos, transpu-lo até perto das nuvens e com ele me voei. Voeime, até que as aves grasnassem meu nome. Eis-me. Aguardando a presença do céu, o simples toque em teu corpo.
Aqui foi o esforço de crescer para além das coisas, essa necessidade de dormir ao relento. A isto se chama sair da Zona de Conforto. Um gajo gosta de outros gajos e logo temos mariquice. Os outros gajos chamam-se nomes que não recordo. Tarkovsky. Eisentein. Kubrick. Bergman. Tarantino. Dreyer. Leigh. Greenaway. Lynch. Todos os outros. É isso. Nomes estrangeiros, como tantos. A Zona de Conforto. Uma sílaba, duas sílabas. Três sílabas e estamos longe. Tão longe que nem sequer nos vemos. Aqui foi! Aqui é! Aqui será a Zona de Conforto. Não, não há outros planetas. Há telhas caídas e gente que não sabe sequer para onde ir. Há um precipício e imensas telhas caindo. Há gajos que batem palmas perante as telhas que caem. Ok, sejamos telhas caídas. Já agora, sejamos telhas caídas e este frio que nos vem desde onde não sabermos sequer onde é a Sibéria. O raio do Homem! O raio do homem somos nós e o Tarkovsky. Nós e o enormíssimo Tarkovsky. Puta que nos pariu!
Alimento-me de peixe cru trazido na corrente do rio. É fácil habituarmo-nos a viver com pouco quando tudo que queremos é ser ao contrário do mundo, pequenos barcos transitando o imenso mar. Precavi-me das intempéries secando o peixe sobrado. Após a secagem o peixe torna-se comestível durante um largo período de tempo. Neste barco transitei os rios, transcorri o avesso das águas até à nascente das coisas. Sim, fui ao contrário da gravidade. Agudo, no pretexto que me funda. Percorri planícies desérticas, caminhos que pudessem edificar-me, precaver-me da estupidez dos homens. Fui o rombo de minha carne. Suturei as feridas com as linhas da pesca. É este meu corpo. São estas as cicatrizes do tempo. Não há nada a fazer, as pessoas são o que são. Se as circunstâncias de minha vida fossem iguais às da geração do Minotauro seria eu o enclausurado no labirinto de Creta. Trar-me-ia então Egeu o periódico fausto de sete donzelas. Assim me julgaria feliz até ser dizimado por Teseu, aquele que após minha morte perderá seus amores de sempre: seu pai, o nobre Rei de Atenas, Ariadne, sua doce amada. Não há nada a fazer. É necessário percorrer toda a estupidez do mundo para que percebamos nosso valor. Alarves na ganância até ao vislumbre dos precipícios. Nada temei. Somos cadáveres adiados. Igualzinhos uns aos outros, sem nada pôr, sem nada tirar.
Uma porta que se abre, alguém que nos dá as boas vindas. Um estrangeiro aguardando o dom da hospitalidade. Desconheço a pertença a uma terra que não o mundo inteiro. Gosto de ouvir vozes, línguas desconhecidas, reconhecer-lhes a aridez dos sons, as cantadas desarmonias. Uma língua gasta-se, como qualquer outra coisa. Com o desgaste do uso as palavras perdem o seu peso intrínseco. Ao contrário do ódio, o amor é uma palavra gasta. Dizemo-lo tão dissimuladamente como dizemos: “vou ali mijar”. Partimos, chegamos, somos exactamente os mesmos. Bom, fisicamente não. O tempo deixa as suas marcas, e, algumas cicatrizes são irregeneráveis. Quanto ao resto há uma rotina. Chegamos dizendo amo-te, partimos dizendo exactamente o mesmo. Somos prolixos no mimetismo das proposições mais usuais. De tanto amor temos um mundo enterrado na perfídia. No amor se induzem drogas. No amor se traficam armas. No amor se vendem mulheres. Todo o dinheiro escondido nos indómitos paraísos, tão terrestres quanto nós. Uma porta que se abre abre-se para ser fechada. Entre o abrir e o fechar das portas há sempre duas certezas. Sabemos quando nelas entramos, sabemos que nelas não mais voltaremos a ser os mesmos a entrar. Eu, repleto nesta enorme vontade de mijar. Quanto a todos vos odeio, ó vil corja tecnocrata!
Cerco-me, com as palavras dançando o desequilíbrio e no desequilíbrio me danço. Fui estulto ao ponto de acreditar nas cores do mundo, perder-me entre a vegetação. Deixei meu coração tornar-se leve e assim me fundi nas folhas beijadas no vento. Doem-me agora os resquícios do sonho que um dia fui. Acho que sempre quis ser parte de um dom agudo; vago, como peixe em escamação. Cercar-me na angústia e na angústia ganhar calo para a morte. Coisa estranha essa, uma criança querendo atear fogos em detrimento de se deixar ser os incêndios. Sim, o peso de um coração morto é toda uma medida, o merecimento de uma vida. Por conseguinte, todas as páginas deveriam ser meticulosamente escritas. Deveria ser essa nossa única e maior ambição. Aqui seria o reino de Osiris, Juiz dos Mortos e deus da vegetação, e o humano criado a partir das lágrimas e suor de um deus. Nós, o miserável “gado de Rá” irritando o mundo até aos confins do inferno. Ainda em vida o faraó aqui começaria a construir o túmulo para seu corpo. No sarcófago seria colocado o Livro dos Mortos, essa espécie de biografia que Osiris utilizaria aquando do meu julgamento. Uma certeza aguda me fere: alguns de nós são filhos do Sol. Outros são filhos da estupidez. Tantos outros não passam de filhos de uma enormíssima puta, todos paridos ao mesmo tempo e no mesmo lugar. São estas as areias que me movem - próximas - tão próximas do Egipto, desse sonho delirante.
A vegetação sempre aqui esteve, mesmo quando esta sala era habitada pelo choro das crianças - todas elas nascidas no percalço de não haver mais lugares onde nos habitarmos. Após terem nascido era necessário acalmá-las para o susto do mundo. Alguém me pegava ao colo para que sentisse a estranheza dos braços, o vigor de perder o pé, ser retirado ao chão. Ao fim de poucos abraços habituei-me ao escuro. Dormia sozinho num quarto amplo onde os pequenos ruídos se tornaram a minha paisagem. Os sons dos passos e o ranger de portas foram toda a música com que cresci. Assim apreendi os tons do mundo, toda a musicalidade entre o riso e o choro. Quando voltei já nada havia. Parti levando comigo o esquecimento, os pequenos alforges repletos de vegetação, a amálgama dos dias, uma espécie de assombração. Tentei habituar-me noutros lugares, pôr a minha vida a funcionar com o auxílio do motor de velhos automóveis. Abandonei depois a beira da estrada, como se a algum lado fosse. Pois é, desenhamos figuras na paisagem, linhas rectas, tracejados. Deixamos sinais, a violência que o tempo nos exerce. Somos criados em círculos. Sem início, sem fim. Repetições, somos meras repetições. Eternamente nos repetimos na miséria de não ter conserto. Apenas isso. Os corações estragam-se e o resto das coisas pouco ou nada importa.
Demorávamo-nos tardes inteiras discorrendo ruínas. Isso mesmo e apenas isso. Era esse um tempo onde sequer olhávamos os jovens corpos, as mulheres deflagrando em redor. Interessavanos perceber o funcionamento das coisas, como a matéria se corrói. Não é possível estudar o mundo e amá-lo, pelo menos ao mesmo tempo. Uma coisa de cada vez. Deixávamos assim o amor para mais tarde. Sorvíamos o vinho das tabernas. Tinto, sempre tinto. No fim havia quem nos resolvesse a prova dos nove. Um qualquer taberneiro antipático querendo ver-nos pelas costas. Uma dessas tardes houve a notícia de uma jovem turca visitando um amigo. Ambos chegaram onde nada havia, onde nada jamais houve senão vinho regado e filosofia, todas as outras artes impossíveis. Chegada ao local onde jazíamos, a jovem turca tentara perceber se ali era o Amor. Não, não era ali o Amor. São frequentes as confusões onomásticas, ainda mais para um estrangeiro. Uma vogal a mais troca-nos sempre as voltas. Os pequenos pormenores. São sempre os pequenos pormenores que me tramam a vida. Eu, que distraidamente esqueço quem amo nos mais inusitados lugares e que depois me gasto o resto da vida a procurá-los. Que tropeçando nas letras me estatelo ao comprido. As vogais, as consoantes. Não, nada é consoante. Tudo é uma eterna cacofonia. Há sempre uma vogal a mais. É sempre essa vogal que impede o mundo de nos bater certo. Eu, procurando elidir de uma localidade o “a” vocálico que nela a mais é ou de um fruto silvestre o fragor do seu último som. Sou dado a coisas inusitadas, ainda que nada aqui seja. Em Amora, este lugar junto ao rio.
Todo este cimento, forjado na monotonia, rarefeito como a atmosfera. Ao inalá-los guardo em mim o destino dos terríveis lagartos. O que representam 230 milhões de anos na economia do Universo? Tudo se trata de enormíssimas explosões. Meteoritos. Profundas crateras. Espessas nuvens de poeira eliminando as espécies. Muito bem, chegámos ao humano, esta evidência fóssil da acumulação de todos os detritos. Um quadrúpede que se sustenta sob duas pernas. A inteligência, já se sabe. Somos distintos, tão distintos. Excepto quando o nevoeiro nos traga. O nevoeiro - este lugar onde me situo. Será aqui que o recobro virá, ou não. Nunca se sabe o que o nevoeiro nos esconde. Resta-nos esperar, por dentro do nevoeiro. Esperar jamais colidir uma qualquer predeterminação. São as predeterminações que nos sufocam, que nos tornam imbecis como todos os outros. As predeterminações cegam-nos para o que verdadeiramente importa. A Arte. Antes correr o labirinto de olhos vendados que sustentar-me na predeterminação!
Cimento e ferro forjado, nada que impeça a força das águas deglutindo aquele que jamais fui. A orgânica matéria suplanta em tudo as misturas. Sim, os materiais jamais suplantarão o húmus do mundo. Para mais, há a certeza de também nós sermos dados à corrosão. Conto até cinco, inspiro - expiro. Seja como for, tudo é dióxido de carbono, e todos morreremos de asfixia. Conto até cinco. Reverto a contagem. Descolo-me dos dias como animal ao abandono. Ainda assim, educo-me o desejo. Algo como descentrar-me toda a ambição. Nada ambicionar excepto: um percurso ao contrário, isso mesmo, da morte para a vida. Reconto as frases feitas, os calendários com crianças sorrindo, alguns breves animais de estimação. Então, e de seguida, adequo o desejo ao seu ideal objecto: quem me dera ter quatro braços e quatro pernas! Tudo fazer com a precisão dos anjos. Vestir qualquer roupa intrajável, tornar-me invisível e invisível peregrinar esse fundamental gesto - destruir toda a mentira. Procurar ainda a substância das coisas, que as marés me atinjam e ao atingir-me revertam a contagem do tempo. Ser impossível, tal qual toda a impossibilidade. Entretanto, é fundamental viver as oficinas, esses locais onde as mulheres são nuas e descartáveis como fósforos; onde tudo é possível acender-se e somente tu és tão longe quanto os quilómetros que nos distam.
Os anos restam-nos desde a primeira vez e quando soar a hora da partida nada mais haverá que partilhar. Seremos qualquer coisa insidiosa. Qualquer coisa esboroando-se rente à simplicidade, algum pão acompanhando um vinho barato. Sobre a mesa jazem copos acicatando os corpos. Algumas cadeiras vagas, nada que possa já resgatar-nos ao cansaço. Este é o intenso lugar onde nossos caminhos se bifurcam. O céu como uma pintura de William Turner, um breve estudo sobre a cor e a luz. Poderíamos ter ficado na contemplação deste céu sobre Lisboa, teimando que só a arte nos pode salvar as vidas. Há contudo vozes que nos chamam, uma ponte unindo ambas as margens. É essa ponte que nos grita a necessidade de partirmos. Arranjamos então uma desculpa e assim corremos céleres rumo à infelicidade. Esta tenebrosa ânsia, a procura de um sentido onde ele não se faz. Percorreríamos linhas rectas, treinaríamos alguns exercícios de geometria. Contudo, o auge é sempre algures, entre o início e o fim. A acme. A partir daqui já não é possível o retrocesso e a excepção é um longo caminho, sempre em frente. Não estamos adequados a viver o absurdo. Esse é o anátema que nos tropeça. Deixamos que a trama da razão nos erija o mundo e nada é mais longe que esta estúpida procura pela verdade. Os dias são longos como gelo e as horas o limite da corrida.
Às 16H00, religiosamente. Assinalava-me na piromania. Terminava as aulas nesse horário quando as aulas terminavam muito depois. A música chegava de continentes distantes, de Inglaterra basicamente. Estranha coisa essa, deixar namoradas esperando em troca da mera voz de um homem. Havia contudo esse éter que me embriagava a descoberta. Mesmo aqui ao lado havia vida - O Som da Frente. Aqui nada havia excepto o enfadonho fado do ensimesmamento. Era necessário sairmos de nós próprios para voltarmos a nós mesmos. Havia a magia das bandas fazendo magia. Echo and the Bunnymen, a paixão antes ainda das paixões. Os transistores percorrem o vazio, emitem sinais que se propagam numa determinada frequência de onda. Daqui até à minha adolescência. À adolescência dos seres vivos que se reservam à aprendizagem da queda. Tanta miséria faz lembrar-me alguma coisa. Que há algo que nos une, essa pira de corpos transmitindo sinais por entre as chamas - o espírito. Há chamas que jamais se extinguem e pessoas que são eternas. Dance, dance, dance to the radio! À memória do António Sérgio.
A fuligem pré-anuncia o desastre. Os anos passam, ou vão passando até nos tornarmos um gerúndio de nós mesmos – sem passado nem futuro – somente toda uma sombra que nos estica até ao limite. Os instantes retratam a vida melhor que a vida se retrata a si própria e a volatilidade do tempo impossibilita a fixação de sentido. De qualquer modo, nossos olhos não acompanham a velocidade das coisas e, assim sendo, o mundo é uma assombração que nos visita a cada vislumbre. Sim, as paisagens são-nos sempre outra coisa diferente do que vemos. Somente a memória nos fixa. Não fosse a memória seríamos loucos como peixes, embatendo nos vidros do aquário a cada vez que o mundo nos chama. Talvez fosse melhor assim. Teríamos um olhar sempre novo e a magia dos encontros acontecer-nos-ia a cada segundo. Desconheceríamos os aziagos factos. Que o mundo é sempre aquém daquilo que precisamos que seja. Que a ilusão nos ilude até nos deixarmos sem pé. Depois da queda nossos dentes auto destroem-se e outra coisa não nos resta senão o destino das vacas, ruminando erva até à regurgitação. Somos o breve vomitado de deus. Habitamos casas limpas e acéfalas, alguns campos junto ao rio. João Batista aqui viveu até ter sua cabeça decepada nas mãos de Salomé. É sempre assim. Procuramos a purificação do espírito e tudo o que sobra é este insólito desejo, a sólida carne da mulher amada tornando-me cada vez mais longínquo.
A noite aguardava-nos essa ânsia que o mundo acontecesse. Haveríamos de ser estranhos e na estranheza virar todas as páginas em sobressalto. Haveríamos de ler livros impossíveis, aqueles que no sangue se infiltram e depois de lá não saem. Digovos os nomes, sem nada de permeio: A Crítica da Razão Pura; O Livro do Desassossego; O Ser e Tempo; A Morte de Virgílio; tudo de Kierkegaard; O Homem sem Qualidades; As Ondas; de Canetti, tudo também; A História de Portugal (de Oliveira Martins); Herberto Helder (a simbiose de todos os poetas, de toda a poesia). E claro está, Platão, Aristóteles, Wittgenstein; e o último livro do mais próximo amigo. Essas cores que me libertam de ser preso. Tudo isso e alguma coisa mais; tudo aquilo que da catástrofe me aproxime. O inócuo desejo da caverna, de ser junto a Nietzsche, de com ele não enlouquecer jamais. Ser lúcido até à transparência e na transparência aquilatar o inferno de aqui estar encarcerado. Durante a noite vemos coisas impossíveis. As silvestres plantas, esse eterno abandono junto às sebes. E a impossibilidade de recobro. Andamos com ambos os pés, um atrás do outro, até ser demasiado tarde. Até ser apenas tempo de todos os passos se extinguirem. Em redor. Nada vemos em redor excepto a escuridão, as plantas que a escuridão acende. Um qualquer rasto, uma memória. Os sinais deixados para trás, todos os trilhos percorridos sem que saibamos a miséria que nos habita. Um dia, a vida explodir-nos-á as mãos e não mais teremos dedos com que afagar o corpo. Tudo é mesmo assim. A coisa mesma e a mesma coisa, tudo é tão efémero quanto tudo o resto. E, além do mais: Era uma vez o Homem…
Haverá sempre alguém que corre em contramão, alguém que deteste a finitude e detestando a finitude dure todo o tempo a apreendê-la. De qualquer modo, a luminosidade dos túneis por onde o sangue passa é pelo menos tão intensa quanto isto. Apressamo-nos na fuga àquilo que somos, um desastre tão simbólico quanto o desrespeito pelos sinais vermelhos. Podemos sempre escapar-nos às multas por excesso de velocidade, mas jamais ao sangue que nos corre por dentro das veias. A determinada altura a pressão será tão intensa que a alma rebentarnos-á por dentro das vísceras. É para isso que me preparo. Para saber cumprir a morte. Ouvi-la chegar de raspão, essa fracção de segundo que é tudo o que somos. Pouca coisa resta dos lençóis de água onde um dia vibrámos os sonhos, pouco mais que a precoce necessidade de seguir em frente. Ouvir o sinal de alerta e ainda assim prosseguir a marcha. Depois do sinal de aviso virá o trajecto do comboio. Ninguém esperará por mim. Nem o comboio deixará de seguir seu destino, nem eu darei a mão a quem não quero. Não me restarão mais estações nem apeadeiros, tão só este precipício sem fim. Esta coisa tramada a que chamamos Vida. Haverá sempre quem morra em contramão, alguém que deteste a finitude e detestando a finitude dure todo o tempo a apreendê-la.
Sabe-se, de ouvir dizer – aqui se conjurou a vida. Todas as noites as lâmpadas sobre-aqueceram a ignição das possibilidades, a atmosfera criada em redor. A luz dos candeeiros guiou as almas dos combatentes e o absinto manteve-nos de pé, erguidos contra o antagonismo dos ventos. Deveríamos ter sido mais comedidos? É provável. Foi estulto jogarmos contra todas as probabilidades? Talvez. O mundo pode ser sempre qualquer outra coisa, mas nunca aquilo que queremos que seja. Contudo, nunca somos derrotados enquanto alguma luz persistir. Por isso, não descansem os abutres. Há sempre alguém pingando sangue. Há sempre um qualquer solo tingido pela dúvida. Enquanto a dúvida for a paixão e a beleza o único antídoto contra o mal, aqui virá alguém munido de archotes. Sim, não descansem os abutres, os candeeiros manter-se-ão acessos. Nos mesmos dias, à mesma hora, aqui estará alguém. Poucas almas, é certo; o mundo é imprestável e a estultícia cola-se nas pessoas, entranhase-lhes como um gás nocivo. Quando um dia for já demasiado tarde, talvez os muitos percebam que rasto nenhum deixaram. É sempre assim. Sempre é demasiado tarde quando todo o mal já está feito. Ainda assim, não se esqueçam os abutres, os abutres e todos os outros animais de idêntica vileza: resta-nos esta luz, esta luz que todas as noites reacenderemos. Enquanto esta luz nos restar jamais a beleza vos será rendida.
Um labirinto de troncos e ramos, nada mais que a realidade que nos cerca. Iludimo-nos na imberbe tentativa de domar a natureza esquecendo-nos a escuta das raízes crescendo - que as raízes do mundo crescem até ao cerne da lava, até se tornarem puras metáforas. Por baixo deste solo existem rios correndo até ao magma, esse distante lugar que o universo nos centra. Segundo parece tudo começa aí, nas enormes bolas de lava rebentando por todo o lado. Fomos ardendo até ao arrefecimento, nós e a matéria do mundo formando uma unidade esférica – singular. Que esta história dure desde há milhares de anos é desde logo um milagre. Contudo, talvez seja possível saber o que o mundo é, mesmo sem conhecimento directo dos factos. Aliás, nunca pode ser de qualquer outra maneira. Trata-se de nos pormos a adivinhar, essa mínima diferença entre o xamanismo e a filosofia. Trata-se sempre de chamarmos a nós a Natureza, invocarmos dentro de nós os rios, os mares, as montanhas. Basta sentarmonos num qualquer penhasco junto ao mar. Aí onde tudo se ouve, onde o mundo nos segreda a nossa precariedade. Estamos sempre a um mero passo de cair. Por mais que treinemos andar jamais seremos seguros. Bom, a não ser que sejamos nados e criados no estupor. Os estupores gostam de julgar-se invencíveis, de subverter todos os outros no riso da sua ganância. Como são gananciosos os estupores, querendo tudo para si! Não apenas a riqueza material, também as almas que a criam. A perfídia está tão bem engendrada que quase ninguém dá conta dela. Pois é, os muitos não leram os Antigos. Nem os Antigos nem qualquer outra coisa. Nem um passo deram. Os livros são duros como ferro e as cabeças são ocas como o vento. De qualquer modo, a vida explodiu na matéria unicelular e um dia tudo voltará a explodir de novo. Se tudo isto não for poesia, não vislumbro que outra coisa possa ser.
Outrora a luz era outra! Percorremos os inúteis túneis onde sabíamos nada haver, onde mais ninguém havia. Os trilhos degradam-se, meu amor, como toda a matéria… de qualquer modo, de que nos serve saber o terror dos precipícios se neles não embarcarmos? Esta luz apagar-se-á. Ir-se-á apagando. Não o desejo. O desejo não se apaga nunca. Pelo menos enquanto possíveis formos. A vida é qualquer outra coisa que nos move para além das coisas dadas. O mundo não pára a não ser aqui! Este lugar onde na pele nos tocamos as várias estações e apeadeiros. Nosso destino é percorrer o mundo. Nunca sairmos de casa. Bom, a não ser para… Matarmos a sede. Acompanharmos o Minotauro no labiríntico percurso. Que sabiam os Gregos que nós não sabemos? Porque nos enterramos na pequenez de não saber um pingo de História? Porque não sabemos a Lua Azul onde os poetas moram, onde todos morreremos? Sim, outrora a luz era outra. Outrora a luz era outra e a vitória é tardia. Chegar-vos-á quando forem nossos filhos condenados. Tudo é metafísica, meus amores. Lips like sugar. Sugar kisses!
Os Livros estão escritos e as aulas serão dadas. Não obstante, o tempo passar-nos-á a perna. Será neste fim de mundo que nossos esqueletos tropeçarão. Prolongaremos no entanto o cortejo, a aspereza dos corpos tentando escapar ao declínio, esticando-nos até algures, o máximo que possa ser. Seremos então entre as pedras, entre as ervas daninhas que ninguém quer. O tempo arruinar-nos-á o corpo. E. Seja como for. Seja como for, aqui viveremos como estrangeiros. Nossos melhores amigos serão os mortos, tanto aqueles que ainda vivem quanto aqueles que já morreram. Desde Heráclito, Arte e Filosofia são para ninguém. Sim, sabemos coisas impossíveis: o semear das raízes, a degradação do solo, o tempo corroendo-nos. Ainda assim, e acima de tudo: a beleza inscrita nos olhos de quem vê como ninguém. Uma força nos empurra para dentro da Natureza, para que aí contemplemos o cerne do dilúvio. Os meteoritos caindo em redor, abrindo-nos brechas na carne. Será aqui. Será aqui que guardaremos a acuidade das visões, todo o resto que ainda seja de restar. A revelação. Os teus lábios nos meus lábios. O apocalipse, onde quer que estejas ou sejas. Não o fim do mundo, o princípio de tudo.
Assim sou: uma vida erigindo a passada, adquirindo o modo da velocidade não excessiva; este vício de nada querer de raspão. Qualquer outra coisa que não a precisão da dor de todos os ossos penetrando fundo. Esta estúpida pretensão: algo como a elasticidade dos segundos, que os segundos sejam elásticos, que me durem mais que o possível. A eterna ressaca de um qualquer conforto contornando a embriaguez do desabrigo, esse algo que me permite ainda dormir, encontrar o sono, nem que seja um lugar mínimo, um par de horas que seja. Uma margem de segurança que me impeça de enlouquecer. Enquanto isso, os mecanismos do tempo fazem de mim cinzeiro. Tantas beatas que em mim se apagam. A imensidão das cicatrizes. Essa estrita simbiose entre a humana existência e a vida dos cinzeiros. A concisa estranheza nos objectos apagando beatas. Não, não essas beatas, não as beatas que vão à igreja. As outras. Aquelas que se fumam até ao tutano, que gangrenam nos pulmões dos fumadores. Há qualquer coisa de tóxico neste vício, nesta necessidade de fazer sentido da eterna repetição do mesmo. Uma vez não me deveria bastar para perceber que não vale a pena a oferenda de flores, que as flores são breves a murchar? Que nenhum sopro me salvará. Nada. Nada me abrigará das intempéries. Esta estúpida mania de transportar objectos simbólicos no pulso, nos dedos, no coração. Quando a intempérie se abater sobre nós nada nos salvará. Meros poemas, uma qualquer musicalidade reflectindo o contrário do mundo.
Segui a pista do último dos elefantes, aquele que morrerá sozinho e precário como todos os outros. Reconheci-o no respeito, no porte de quem deixará rasto. Após vários anos acompanhando-lhes o trilho, pressenti-lhe hoje o primeiro indício de declínio: a fraqueza dos molares. Será essa fraqueza que trairá a solidez dos passos dados, que trará a inevitável dificuldade de deglutição; as plantas e ervas cravadas no chão sem que possam ser sequer tragadas. Há sempre algo que tentamos ignorar, durante anos, durante décadas, qualquer coisa aquém de toda a dignidade: a progressão horizontal de nossa dentição, como um tapete rolante. Os novos dentes crescem-nos na parte de trás da boca e empurram para a frente os dentes mais velhos, os mais gastos pelo uso. Por fim, os últimos dentes cair-nos-ão e nem já a mais tenra comida lhes servirá de alimento. Contudo, manteremos intacto o apurado sentido do cheiro, a intensa capacidade para determinar amigos e inimigos. Estaremos ainda aptos ao derrube de árvores, ao enrolar de nossa tromba nas trombas de nossos “irmãos” - qualquer coisa como um apertar de dedos. Sobretudo, manter-nos-emos espessos. A espessura de nossas peles subtrair-nos-á às balas, à cobiça do marfim. Ainda assim, não obstante a força de nossas patas firmando o chão, adiando-nos à possibilidade da queda, sempre soubemos: a) a luta pela beleza é um acontecimento terrível e o amor das mulheres sempre implicará uma rivalidade - o intenso ódio dos homens; b) nada nos será útil senão a Arte, toda a inutilidade do mundo; c) arrastar-nos-emos até ao declínio de todas as forças; não importa quando, não importa onde; d) tudo acabará talhado em pedra, algum mármore onde conste nosso percurso; e) nada como os campanários para nos fazer soar a passagem do tempo, alguma catástrofe, algum incêndio perigando o corpo. Campanários, esses tristes lugares onde os elefantes me perseguem.
Anseio tornar meu coração uma biblioteca, pejar-me de livros até ao tecto e acompanhar assim a secreta ambição de sobreporme aos mosaicos. Os mosaicos apenas duram até formarem a abóbada onde a vista se perde. Adquiro o olhar no cinzento, esse tom que me sulca o bem e o mal. Aí me adequo às grandes catástrofes, e às pequenas alegrias. Também os livros formam longínquas paisagens e a vida é um túnel apertado que nos conduz algures onde nos perdermos, ou não. Somos conduzidos como gado até esse local onde nos querem mortos, um qualquer sofá babando a estupidez que nos impingem. Tudo se trata de movimento, da inócua berraria dos apresentadores de telenovelas reduzindo-nos as diferenças, menos ainda que o preto e o branco, sem cores intermédias. Seria necessária a dureza do granito para suportar tanta inocuidade. Seria necessário esvaziar-me o espírito, tornar-me tão estulto quanto as várias modalidades do estar sentado. Esquecer que o mundo existe e exige participação. A participação nas formas são degraus a subir até um qualquer lugar onde a realidade irrompa. Por conseguinte, devo treinar os músculos até ser apto. Percorro agora as vírgulas, todos os pontos de interrogação. A dialéctica do mundo: a eterna luta dos contrários até à síntese, ou a miserável vitória do maior poder? Isso e apenas isso. Seja como for, devo libertar-me das amarras que me prendem, ganhar calo na estranheza até que nada me seja estranho. Um desígnio; um desígnio apenas!
Pois é, é este local de coisas opacas que nos gera a possibilidade da queda ao mero toque. E. Se algo valesse o esforço de sua dicção, dir-vos-ia que a transparência não é visível. Poderia reescrever-vos todo um tratado sobre a invisibilidade das coisas, tudo aquilo que verdadeiramente importa. Contudo, de nada adianta a sustentação de uma tese que não pode ser materialmente comprovada. Nossos olhos apenas tocam a efervescência dos materiais e a essência do mundo é qualquer outra coisa que não vimos. Pois é, filosofia não nos põe comida na mesa e eu não guardo paciência para quem não a merece. Nem uma coisa nem outra. Seria necessário tocarmos a chama dos vulcões, ter o magma incendiando-nos as mãos. Que nos adaptássemos então a viver apenas com os cotos. Seria essa a prova do merecimento, que mereceríamos reganhar os dedos. Primeiro as cartilagens, depois a pele ao longo dos ossos. Sim, deveríamos ser outros a merecer o dom do toque. Não meros animais de pata larga fugindo de si próprios, na fuga destruindo todo o redor. Assim sendo: Nem a filosofia nos põe comida na mesa nem eu guardo paciência para quem não a merece. Nem uma coisa nem outra. Deixemo-nos de meras diatribes agonísticas e demais esterilidades discursivas! “Nihil est in intellectu quod non sit prius in sensu.” :ou, melhor dizendo: “baby, baby, baby, light my way!”
Este é o trabalho de deus. A época das vindimas e o lento pisar das uvas. Somos semeados nos mais íngremes socalcos e depois colhidos como sumo. Nós, que nos prenhes lagares nos pisamos para gáudio de um deus sedento. Os dias são claros como água, somos nós que criamos as vírgulas onde nos tropeçarmos os corpos. No tropeço nos pisamos. Pés e mãos trucidando quem connosco se atravessa. Para além do mais. A vida cresce para lá dos pontos cardeais e a leste da cidade antiga de Jerusalém há um monte onde foi perpetrada a perfídia. Todos os anos aqui nos recolhemos, no jardim de Getsémani, no dia anterior à crucificação de Jesus. Segundo os Evangelhos, a angústia aqui foi tão profunda “que Seu suor tornou-se grandes gotas de sangue, correndo até ao chão.” Suor e sangue, essa linguagem única que os judeus sabem interpretar como ninguém. Cristo é na proporção de 1 para 1.000.000,00. Tal implica que entre nós haja vários Judas e a despedida com um beijo indicie sempre o pior que o mundo é. Para além do mais. O húmus vermelho é uma condição necessária à criação. Devemos pois ser moldados na terra áspera e sedenta. É que sem sangue escorrendo - quase eterno - a vida secar-nos-ia até ao definhar da pele.
Mais coisa menos coisa, a adolescência foi a cem metros daqui enrolando bobines de aço fervendo - descortinando no trabalho a sua estupidez genérica. Os homens indo e vindo, rotativamente, em turnos rotativos, sujos de um trabalho sujo. O pior que fica é essa experiência da igual soma dos dias, os dias somando-se sem nada que verdadeiramente nos importe ou acrescente. Apenas algumas queimaduras nos braços marcando a solidez dos ferros em brasa. O lugar onde meu pai nasceu, o cemitério onde jazem alguns amigos, alguns deles tendo acertado a vida em cheio, tal qual os elefantes se abatem na senda do marfim. À noite a música saía da eterna garagem de um amigo, tudo no mesmo perímetro. A vida, a morte e o seu intermédio. A adolescência foi a cem metros daqui, a cem metros da morte, a cinquenta metros de não se saber bem o quê. Haverá uma zona intermédia onde a vida se agita, desde lá até então. O sumo sai agora. É isso que importa: - que o sumo verta e que em cheio atinja o cerne do mundo; - que os corações se gastem de tanto bater; - que o fumo dos cigarros se nos pregue nos pulmões; - que o álcool me mine até à putrefação do fígado. A adolescência, esse amor para sempre!
São as máscaras que usamos que suportam o peso de sermos quem somos. Contudo, tarde ou cedo teremos que haver-nos com a crueza dos factos. A luz da noite irromper-nos-á os dias e as máscaras cair-nos-ão no desassombro. Saberemos então que nada resiste à temperatura do fogo, nem os homens de fatos de amianto retorcendo o aço, nem as mulheres que em casa os esperam com filhos de colo nos braços. Somos mais ou menos dúcteis, é certo. Diferimos quanto ao grau de deformação que nos é possível suportar, pelo menos até ao momento da queda; esse incurável precipício onde todos nos devastaremos. Atingida a temperatura de fusão, os átomos dispõem-se de modo que a estrutura atómica irradie a possibilidade de deslizamento. Os átomos deslizam então uns sobre os outros, permitindo assim o estiramento da matéria. Há pois quem seja apto a estirar-se sem romper-se, a transformar-se na ténue espessura desde onde o espírito transcorre. Outros há que jamais se estiram, e, assim, se gerem na necessidade dos muitos: revestir-se no incombustível asbesto, adquirir-se na estúpida pretensão de resistir ao incomensurável arbítrio do fogo. Contudo, as máscaras usadas apenas podem permitir-nos escapar à intensidade das chamas, jamais à asbestose, às incuráveis lesões do tecido pulmonar causadas pelo ácido exalado no interior do organismo. Esgotada pois a tentativa de dissolver as mortais fibras que nos jazem, as lesões tornar-se-ão tão extensas que nos impossibilitarão o funcionamento dos pulmões. Aguardemos então o período de incubação, a latência da doença. Aguardemos cerca de 30/40 anos: A fragilidade no rasgo, o instante da ruptura.
Digamos que os sonhos de apagam, que se vão tornando cada vez mais ténues. No início dão-se com uma força tal que nos empurram à acção. Depois, é a acção que nos empurra. Deixamonos ficar colados ao mundo e colados ao mundo tornamo-nos horizontais. A verticalidade dilui-se com o tempo. Damos por nós sendo quem jamais quisemos ser. O mundo ocorre-nos como uma beleza hostil. Nós ocorremos com o mundo. Somos qualquer coisa transcorrendo entre a bestialidade e o divino. E. Há imagens que nos espelham melhor que o nosso olhar no espelho. O abandono. Quando a manhã ocorre o mundo torna-se tarde. Como rios desaguando as encostas de uma qualquer lixeira, somos levados na enxurrada. O primeiro a chegar sentese mais alto, mais próximo da afirmação. Aí chegados, perdemonos na obesidade mórbida. Deixamos para trás as incertezas. Deveríamos manter sempre uma distância segura relativamente à estupidez. Até porque, qualquer travagem do veiculo da frente nos trará a colisão. Subtraímo-nos ao que poderíamos ter sido e esse é o pior retrocesso. Rondamos o abismo cheios de certezas até cairmos de bruços sobre o nosso próprio vomitado.
Fornicando o dilúvio, Jocasta levita os espasmos até que Édipo perca a visão. Antígona permanece emparedada entre os meus olhos. Sigo o mesmo caminho de sempre, percorro-me até à densificação do solo. A paisagem intensifica-se e, como se nada fosse, as paredes ruem. Após haverem ruído tudo fica a descoberto; a loucura, inclusive. Da vulva da viúva de Laio irrompeu o trágico desmando, os longos frutos do incesto. Toda a sorte me abandonou com excepção de Antígona, minha filha. Somente Antígona não me abandonou ainda. Foram curtos os meus dotes de pai e ainda assim sou bafejado no amor filial. Expulso de Tebas por meus próprios filhos, vago agora o que de mim resta, meu próprio exílio no rio dos mortos. Tal qual a paz, a guerra não conduz a lugar algum. Polinice e Etéocles morrerão na cobiça, e na cobiça darão meu trono a Creonte. Somente Antígona permanecerá no amor. Perante o insepulto cadáver de Polinice se reerguerá a sua dor. Contrária à proibição imposta por Creonte, pois que quem sem os rituais fúnebres morresse condenado seria a vagar as margens do rio que conduz ao mundo dos mortos, com suas próprias mãos enterrará Antígona seu infeliz irmão. Ao enterrá-lo se enterra em sua própria morte. Emparedada entre meus olhos, assim permanece Antígona. Desde agora - para sempre.
O tédio invade-me, irrompe por dentro das casas. Depois, em longos tragos, a inundação desapropria-me das várias dependências. Todas excepto uma. Aquela que comigo formará uma necessidade básica: o solipsismo, a pre-condição para que a existência ocorra. Os nossos passos tropeçam o chão e, além do mais, deus recusa o comércio dos homens. Essas são as duas condições que nos revelam quem somos. Ocupamo-nos de coisas supérfluas, nada que esteja directamente adstrito à noção de peso. Ainda assim, acedemos ao peso por via indirecta. Após o tropeço rasamos o chão. Somente então são nossos focinhos guiados para a assimilação das profundezas. Antes da queda o solo é uma realidade indescernível. Somente na queda o mundo nos dança. “A angústia faz-nos dançar!” - terá dito o Mestre. Entretanto, haverá que aguardar o último instante antes que a loucura se instale. Enquanto isso, percorramos o percurso das sombras, brindemos o amor e o ódio, todas as artes perigosas em demasia. “Com as pedras afiadas dentro dos bolsos desafio-vos para o exercício da queda!” - terá ainda dito o Mestre. Então sim, estaremos aptos para ouvir-nos o rebentamento dos ossos, o trote ascendente do cavalo de Turim.
Alguns lugares são inclinados, descem até às raízes das árvores. Apontados ao centro da terra, aí nos olharemos pela primeira vez. Despidos de roupas somos assim: pedaços de carne diluídos até à putrefação. Abandonámos os quartos vazios, deixámos as salas plenas de insectos. Dirigimo-nos depois para longe. Alguns quilómetros antes do fim julgamo-nos perto de vencer o mundo. Basta contudo breves segundos para que tudo se desvaneça. Ainda assim, é importante o modo como nos damos à morte. Vamos sendo arquivados no fluxo das coisas, será nesse fluxo que ocorrerá nosso rasto. As direcções são múltiplas e, há escolhas que não têm retorno. O horizonte é longo e curvilíneo. Desse facto se infere a impossibilidade do voo. Boca a boca acendemos pequenos luzeiros. Como morcegos, irrompemos as cavernas guiados pelos ecos emitidos. Assim vamos andando, até rasarmos a descrença. Tornamo-nos voláteis. Voláteis e inúteis. Não há como evitar a perda das asas. Jamais deixaremos de ser meras sombras, mesmo que a madrugada ocorra.