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76 | dezembro | 2017

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Entrevista (2)

e

treinar, dar sempre o melhor

nunca desistir, apesar de ao início ser sempre difícil.

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este assunto? GM - Seria muito bom se equiparassem as bolsas, todos somos atletas de alto rendimento, todos representamos Portugal, todos temos treinadores, todos treinamos, todos nos esforçamos. Se somos todos iguais e o objetivo do país é a igualdade e a inclusão, os valores deveriam ser os mesmos. Atualmente, ainda existe uma desigualdade, visto que um atleta olímpico recebe 3 a 4 vezes mais que o paraolímpico, mas penso que, a médio prazo, as bolsas serão equiparadas e estou a favor disso, vamos ver se, até Tóquio 2020, as bolsas ficam equiparadas.

aos atletas adversários, ao abastecimento durante as provas. Eles é que têm de ter a preocupação toda de me levar pelo melhor caminho, pelo melhor percurso, para não haver problemas. Eu só tenho de correr! É fácil trabalhar e competir nestas condições? Quais as maiores dificuldades sentidas? JR - Praticamente, o Gabriel já disse tudo. Somos atletas, somos amigos, existe uma base de confiança, eu conheço as suas limitações e o que fazemos, durante os treinos e as provas, é tentar minimizar as dificuldades que ele tem, relacionadas com a falta de visão. Eu ajudo-o a fazer a prova, da melhor maneira possível, evitando obstáculos, informando-o onde é que estão os adversários… o guia tem de estar atento para dar a melhor ajuda ao atleta para que este tenha a melhor prestação possível. Praticamente, eu funciono como os olhos do Gabriel. GM - Os guias são o meu complemento. Como eu não posso fazer tudo sozinho, pois a vista não me permite, eles fazem por mim o que eu não consigo. Por isso é que eles têm de estar bem frescos e bem preparados, para não me limitarem em nada, porque eles estão ali para me ajudar. No entanto, há atletas, no atletismo adaptado, paralímpico, que mesmo com a deficiência de visão, não correm com guia, obviamente porque não têm as limitações que eu tenho. No caso da deficiência ao nível da visão, há três patamares: o cego total ou com uma visão de apenas 5%; o de baixa visão; e o de baixa visão, mas que consegue ver mais do que eu. Dentro da minha classe, a T12, o atleta tem a opção de correr com ou sem guia, a T11 são os cegos e a T13 são os de baixa visão. Os que ficam à minha frente, normalmente, correm quase todos sem guia, só tem ficado um atleta japonês à minha frente que é cego total, corre com guia e, por isso, para mim, correr com guia é opcional. JR – Mas o Gabriel, se correr sem guia, não conseguia ter o desempenho que ele tem. GM - Para já, não conseguia apanhar o abastecimento. JR - E os obstáculos, ele só se apercebe deles muito em cima. GM - Eu, se correr sozinho, tenho de correr atrás de alguém para me guiar por essa pessoa. Aconteceu isso, por acaso, na última Taça do Mundo, um japonês vinha sem guia e ele também via muito mal e vinha-se a guiar por nós, ele tentou ir embora uma vez, no meio da prova, mas

viu que não tinha ninguém à frente para se guiar e teve que ficar à nossa espera novamente. E isso é o que me acontece a mim. Se eu correr sozinho, tenho de ir atrás de alguém, mas, mesmo assim, não conseguiria apanhar os abastecimentos, e ir atrás de alguém iria depender do ritmo dos outros, por isso é que, obviamente, prefiro correr com guia, porque é a única forma que eu tenho de correr de forma competitiva. Quais as principais competições em que participou e quais foram os seus resultados? GM - Participo em competições desde 2006 e as principais foram os jogos paraolímpicos realizados de 4 em 4 anos (Pequim 2008; Londres 2012 e Rio 2016). Nestes jogos ainda não consegui medalhas, mas os resultado têm vindo a melhorar. Noutras provas internacionais, já obtive vários pódios em maratona, 3 em taças do mundo e 1 mundial. Em pista, já obtive um pódio nos 5000 metros e outro nos 10000 metros, ambos nos europeus. Os principais pódios são os das maratonas, onde obtive 3 medalhas de bronze e 1 medalha de prata. Como é estar nos jogos paraolímpicos? O que sente depois de representar o país em diversas paraolimpíadas e qual o sentimento quando recebeu a 1ª medalha internacional? GM - Ir aos jogos paraolímpicos é uma sensação inesquecível, é o topo da carreira de um atleta. Apesar de não ter nascido em Portugal, neste momento, sinto que este é o meu país, pois já aqui estou há muito tempo. é um orgulho para mim representá-lo e tento dar sempre o meu melhor. Subir ao pódio é o reconhecimento do nosso esforço, é uma sensação ótima! Recentemente, não foi aprovada uma legislação que visava equiparar os atletas olímpicos a atletas paraolímpicos em termos dos valores das bolsas. Qual a sua opinião em relação a E-mail: jornalescolar@aevvr.pt

Está integrado no programa de participação para os jogos paraolímpicos de Tóquio 2020. Como está a correr essa preparação e quais são os objetivos para estes jogos? GM - Estamos no projeto paraolímpico já há alguns anos. Agora, em 2018, vai ser a taça do mundo de maratona, e temos de lá estar em plena forma para fazer um bom resultado e continuar no projeto. Depois, a longo prazo, é continuar a fazer bons resultados para lá chegar bem e melhorar os resultados em relação aos jogos do Rio 2016. A que atividades se dedica quando não está a treinar ou a competir? GM - Além do trabalho, tenho a família e os amigos, o Jorge é que tem outras atividades JR - São diversas coisas, desde agricultura, pesca e outros biscates. Para dar um exemplo, hoje fui treinar às 6h30, para depois estar com o Gabriel aqui e, à tarde, ainda ir fazer alguma coisa no final do dia. O Gabriel não faz mais coisas, não treina mais devido à sua limitação, porque vontade também a tem. Que conselhos dá a crianças e jovens portadora de deficiência que queiram fazer carreira no desporto? GM - Devem começar na escola, sob orientação do professor de Educação Física. Depois, o professor deve encaminhar o jovem para um clube ou uma associação que ofereça uma modalidade que ele possa praticar. Ter uma deficiência não quer dizer que não se possa fazer desporto. Hoje em dia, cada vez há mais modalidades paraolímpicas. Por exemplo, no Rio 2016, já houve um aumento de modalidades e, para Tóquio 2020, ainda se prevê um novo aumento. Um conselho que eu deixo aos jovens é: TREINAR, DAR SEMPRE O MELHOR E NUNCA DESISTIR, apesar de ao inicio ser sempre difícil.

Gente em Ação

Um conselho que eu dou sempre aos jovens é:

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"Gente em Ação" n.º 76 - dezembro 2017  

Jornal escolar do Agrupamento de Escolas de Vila Velha de Ródão - Edição n.º 76 - dezembro 2017

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Jornal escolar do Agrupamento de Escolas de Vila Velha de Ródão - Edição n.º 76 - dezembro 2017

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