Conta-se a história de uma visita feita pelo Papa Leão XII ao presídio dos Estados Papais, em 1825, em que o pontífice insistiu em conversar com cada um dos prisioneiros, para entender por que estavam ali. Como era de esperar, todos os detentos afirmaram e reafirmaram sua inocência, exceto um, que admitiu ter sido falsário e ladrão. Voltando-se para o carcereiro, o santo padre determinou com severidade: “Solte este patife imediatamente, antes que corrompa todos os nobres cavalheiros que aqui se encontram!”
Pode parecer engraçado, mas há uma lição aqui para todos nós: o perdão de Deus é concedido aos que reconhecem que precisam dele, que não o merecem nem podem fazer por merecê-lo, ou seja, àqueles que dependem exclusivamente de Sua misericórdia e graça.
Este princípio se aplica à nossa salvação por fé, mas vale também para o dia a dia. Quantas vezes somos como os homens na história, relutantes a admitir nossos erros e limitações, privando-nos assim do perdão e dificultando a reconciliação com aqueles a quem prejudicamos? Com que frequência guardamos mágoas e ressentimentos pelas ações dos outros, em vez de virar a página e perdoar?
A Palavra de Deus nos diz para perdoarmos os outros (mesmo quando acharmos que não merecem), porque fomos perdoados por Deus sem merecermos: “Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.”1 Independentemente de a pessoa ter ou não se arrependido, ou expressado remorso, decidir perdoá-la é determinante para libertar você da prisão criada pela dor e pelo sofrimento, para assim você seguir em frente. Perdoar quem lhe fez mal nunca é fácil, mas é possível, com a ajuda de Deus.
Mário Sant’Ana
Editor
4:32 CEB
Contamos com uma grande variedade de livros, além de CDs, DVDs e outros recursos para alimentar sua alma, enlevar seu espírito, fortalecer seus laços familiares e proporcionar divertidos momentos de aprendizagem para os seus filhos.
Para obter informações sobre a Contato e outros produtos criados para a sua inspiração, visite nossa página na internet ou contate um dos distribuidores abaixo.
Eu estava passando por um período difícil. Não conseguia parar de pensar em mágoas que sofri e estava prestes a explodir com ressentimento e raiva.
O único resultado que esses sentimentos produzem é a perda de clareza de pensamento. Jamais resolvem coisa alguma e minha reação natural é retaliar e ir à forra, o que só piora as coisas.
O escritor Dale Carnegie certa vez citou uma nota fixada no quadro de avisos de uma delegacia policial: “Se egoístas se aproveitarem de você, tireos de sua lista, mas não tente ficar quites com eles. Você vai prejudicar mais a si próprio do que a eles.”
O massacre perpetrado na comunidade amish no Estado da Pensilvânia há alguns anos é um exemplo poderoso de perdão em ação. Um homem perturbado que não pertencia à comunidade, entrou em uma escola e fez dez meninas reféns, cinco das quais assassinou antes de tirar a própria vida. Não consigo imaginar a dor dessas famílias, mas perdoaram o atirador, procuraram a viúva e os órfãos do atirador em solidariedade e até criaram um fundo para ajudá-los.
Obviamente, minhas perdas são mínimas comparadas à devastação vivenciada pelos pais das meninas amish. Contudo, foram capazes de perdoar. Entendi que grande parte da minha infelicidade derivava do
Seu amor pela nossa família nos ajudou a encontrar a cura que tanto precisamos. Suas dádivas tocaram nossos corações de maneiras indescritíveis. Sua compaixão se estendeu além da nossa família, além da comunidade e está transformando nosso mundo. Eu lhes agradeço sinceramente. — Marie Roberts, viúva de Charles Carl Roberts, o atirador do massacre de 2 de outubro de 2006, em uma carta aberta aos seus vizinhos amish.
fato de eu não haver perdoado os outros pelo que me fizeram, o que se reprisava em minha mente e multiplicava minhas angústias. O juízo é prerrogativa de Deus.1 A nós, cabe o perdão. É como um bálsamo curador em nossos corações e dá espaço para Deus intervir na situação como Lhe parecer melhor. O perdão não absolve o infrator, mas subtrai de nosso coração um fardo pesado. É uma lição que espero aplicar.
Uday Kumar vive em Bangalore, Índia, onde leciona inglês e ministra cursos de Desenvolvimento de Personalidade. ■
Por Uday Kumar
NÃO RETALIAÇÃO
Jesus começou o Sermão da Montanha com as Bem-aventuranças,1 que falam de bênçãos para os pobres de espírito, os que choram, os mansos, os que têm sede e fome de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacificadores, e os que sofrem perseguição por causa da justiça. Ele estava ensinando como deveriam ser os que fazem parte do reino de Deus. Então, mudou de assunto: “Ouvistes o que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao homem mau. Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também
1. Ver Mateus 5:3–12.
2. Mateus 5:38–42
3. Ver Êxodo 21:23–25; Levítico 24:19–20; Deuteronômio 19:18–21.
4. Levítico 19:18
5. Provérbios 24:29
6. Ver Êxodo 22:25–27; Deuteronômio 24:10–13.
7. Ver Mateus 27:32
a outra. E se alguém quiser demandar contigo e tirar-te a túnica deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.”2
No Antigo Testamento, se alguém prejudicasse ou matasse alguém, deveria receber como punição o mesmo dano que infligira aos outros.3 O conceito de retribuição proporcional é chamado lex talionis ou lei de talião, presente em vários antigos códigos penais.
O propósito era estabelecer a fundação da justiça, um meio de pôr termo ao conflito entre famílias, em que um indivíduo ou uma família decidia fazer justiça com as próprias mãos porque se sentia no direito de vingar o que havia sido feito a si ou a seu parente. A lei de talião preconizava que o culpado fosse punido na forma
Por Peter Amsterdam, adaptação
e medida de seu crime, para que a justiça fosse feita e o problema se resolvesse.
Entretanto, o Antigo Testamento tinha ensinamentos semelhantes ao que Jesus pregava: “Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo.”4 “Não digas: ‘Vingar-meei do mal; espera pelo Senhor, e ele te livrará’”5
Vejamos o primeiro exemplo usado por Jesus: “Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.”
Um tapa no rosto era considerado um insulto grave, pelo que uma pessoa poderia ser levada a julgamento e multada. Para que uma pessoa destra batesse na face direita da outra pessoa precisaria usar as costas da mão direita, o que, na época era considerado um insulto ainda maior, que poderia dobrar o valor da multa. Jesus estava dizendo que quando alguém o desonrar (no exemplo por meio de um tapa com as costas da mão no rosto), você não deve buscar a compensação prevista no sistema legal, mas aceitar o insulto e não retaliar, mas oferecer a face esquerda para ser ainda mais insultado.
Jesus então fala especificamente de um processo judicial: “Se alguém quiser demandar contigo e tirar-te a túnica deixa-lhe também a capa.”
Aqui Ele fala de uma situação em que alguém é levado à justiça por causa de sua túnica, ou camisa. Jesus diz que, em uma situação assim, devemos abrir mão não só da túnica, mas também de nossa capa — o que geralmente era uma peça mais pesada que a túnica e dobrada como um cobertor para a noite. A lei do Antigo Testamento proibia uma pessoa
de reter a capa de alguém durante a noite, caso essa tivesse sido dada como garantia de um empréstimo. Jesus estava dizendo para ir além do que era exigido e entregar também a capa, mesmo que isso significasse passar frio à noite.6
Seu terceiro exemplo dizia respeito à lei romana, segundo a qual um povo subjugado era legalmente obrigado a levar cargas ou realizar serviços, conforme as ordens de seus dominadores: “Se alguém te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.”
A prática de uma pessoa ser obrigada a levar uma carga por ordem dos romanos pode ser observada quando Simão de Cirene foi forçado a levar a cruz de Jesus.7
Jesus estava dizendo aos Seus discípulos que se fossem obrigados a realizar algum serviço, mesmo que por um inimigo, deveriam fazer o que lhes era imposto e ainda mais.
O quarto exemplo não remete a nenhuma questão legal, mas às situações do dia a dia: “Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.”
Jesus estava ensinando generosidade para com os carentes, fossem mendigos ou alguém que precisasse de dinheiro emprestado. Como nos casos anteriores, Jesus dá um exemplo da atitude que devem ter os membros do reino de Deus. Devemos ser generosos, dar ou emprestar generosamente. Isso não é um chamado para você doar a todos os mendigos nem emprestar todo o dinheiro que tem. O propósito é dar com uma atitude certa, não com um coração mesquinho. Como o apóstolo Paulo escreveu, quando estava arrecadando recursos para a igreja de Jerusalém que vivia uma situação de penúria: “Cada um
contribua segundo propôs no seu coração, não com tristeza ou por necessidade, pois Deus ama ao que dá com alegria.”8
Por meio desses quatro exemplos, Jesus aborda nossa tendência natural ao egoísmo, à defesa própria, à retaliação ou a querer justiça em situações em que consideramos que alguém está se aproveitando de nós ou estamos sendo insultados, ou de alguma outra forma prejudicados.
Jesus nos chama para abraçar o princípio da não retaliação e nos ensina a combater a reação natural da vingança, o desejo de nos defendermos ou nos vingarmos quando prejudicados ou insultados. Os cristãos são chamados a não ceder às ofensas nem condicionar suas reações às ações dos outros.
Os exemplos do insulto profundo, da túnica e da lei indicam qual deve ser a reação do cristão no que diz respeito à injustiça, a não pagar na mesma moeda em um espírito vingativo nem ir à forra quando for vítima de algum mal. Isso não quer dizer que os cristãos não possam ou não devam recorrer ao poder judiciário quando seus direitos ou os direitos dos outros são violados, particularmente no que diz respeito à vida, à liberdade ou a outros direitos humanos que estejam ameaçados.
O exemplo de ser compelido a carregar a bagagem do soldado ensina que quando devemos ir além das imposições legais (desde que não sejam imorais), devemos fazê-lo de bom grado e sem ressentimentos.
Dar e emprestar a quem nos pede vai de encontro à atitude de “o que é meu é meu” e “se eu dividir o que tenho, saio perdendo”. Mais uma vez, Jesus não estava dizendo que devemos dar tudo e ficar sem nada, a ponto de também nos tornarmos mendigos, mas ensinando-nos a confrontar nossos instintos egoístas. Talvez não possamos ajudar todos, mas se alguém tem uma necessidade genuína e possuímos os meios para ajudar, devemos fazê-lo. Isso é especialmente verdade quando se trata de um irmão ou irmã em Cristo, como o apóstolo João escreveu: “Quem tiver bens do mundo e, vendo o seu irmão necessitado, cerrar-lhe o seu coração, como estará nele o amor de Deus?”9
Por sermos cristãos, membros do reino de Deus, somos desafiados a transcender o comportamento natural. Devemos nos afastar do egoísmo e estarmos mais atento à prática do princípio de amarmos nosso próximo como a nós mesmos. Isso não quer dizer que devemos nos fazer de capacho para os outros, mas é um desafio para termos uma atitude de amor, misericórdia e compaixão; e a dignidade para deixar as coisas passarem, absorver algumas perdas, sejam morais ou financeiras. Em vez de retaliar e procurar defender nosso orgulho, ou sempre buscar o que nos interessa, somos chamados a amar, seguir o exemplo de Jesus e não buscar nossos próprios interesses.
Peter Amsterdam e sua esposa, Maria Fontaine, são diretores da Família Internacional, uma comunidade cristã. ■
Por Sally García
Sinto muito
Durante anos, fui monitora de crianças em atividades de recreação. Com toda aquela correria e pulação de crianças boazinhas e sapecas, volta e meia havia trombadas, tropeções, empurrões, etc.
Com frequência, os causadores dos acidentes garantiam: “Não foi minha culpa” ou “Foi sem querer”. Obviamente, identificar o culpado não era a prioridade imediata. O mais importante era o bem-estar da “vítima”.
A cena se repetia com tanta frequência que finalmente entendi que a maioria de nós precisa aprender empatia. Não é um processo natural. Admitir culpa e ter compaixão são duas coisas diferentes. Nos parquinhos e na vida adulta, é comum magoarmos os outros inadvertidamente e mesmo nessas situações devemos pedir desculpas.
Talvez tivéssemos nossas razões por fazer o que fizemos, é possível que não tivéssemos previsto os possíveis desdobramentos, as
circunstâncias levaram ao erro, houve mal-entendidos e outros participaram das ações. Toda história tem pelo menos dois lados. O problema é que, com frequência, dizemos: “Sinto muito, mas permita-me explicar…” É uma forma de atrair a atenção para nós, afastando-a das pessoas que ferimos. Tornamo-nos assim vítimas de um mal-entendido. Às vezes, ajuda fazer esclarecimentos, se pudermos oferecer nosso lado da história. Mas vamos por partes e a primeira é: alguém foi magoado? Um pedido de desculpas sinceras contém um bálsamo curador.
De volta ao playground... Outra lição que aprendi com meus 35 anos trabalhando com crianças: quando um lado é rápido para pedir perdão, o perdão pode vir mais rápido. E essa é a melhor parte.
Sally García é educadora, missionária e membro da Família Internacional no Chile. ■
Quem se importa com quem está certo ou errado, quando a última palavra é um pedido de desculpa?
— Richelle E. Goodrich
♦
Pedir desculpas não quer dizer que você está errado e a outra pessoa está certa. Significa que você valoriza o relacionamento mais do que seu ego. — Autor desconhecido ♦
Um pedido de desculpas é a cola mágica da vida. Pode consertar praticamente qualquer coisa.
— Lynn Johnston (n. 1947)
♦
Peça desculpas rápida e francamente. Então, traduza suas palavras em ações. — Judy Ford ♦
Pedir perdão é como um perfume delicioso; pode transformar o momento mais constrangedor em uma dádiva maravilhosa.
— Margaret Lee Runbeck (1905–1956)
PODER PARA PERDOAR
por Stella Sabiiti, Contada pelo correspondente da Contato no Leste Africano, Kathleen Murawka
Descobri o poder do perdão numa tarde de julho de 1976. Foi durante o regime de Idi Amin, o qual paralisou Uganda. Carreiras, a economia, a infraestrutura, a educação e tudo o mais simplesmente parou. Eu estudava na Universidade de Makerere, fazia pouco tempo que havia me casado e estava grávida. A universidade não dispunha de recursos e os professores não tinham combustível para seu transporte, então não tínhamos aula. A solução era irmos todas as manhãs para a biblioteca ler ou levar os livros para estudarmos em nossos quartos. Por não ter estudado, Idi Amin não entendia por que estudávamos. Considerava uma manifestação contra ele, por isso sempre enviava
seus soldados para nos aterrorizar no campus.
Na época, meu marido trabalhava no Norte do país, perto da fronteira com o Sudão. Ele vinha periodicamente a Kampala ou eu ia visitá-lo e passávamos uns dias juntos. Ele havia acabado de chegar para o fim de semana e, na segundafeira pela manhã, me deixara no campus. Quando cheguei ao quarto, minha amiga, Brenda, contou que os soldados tinham ido por todos os dormitórios do outro lado do campus quebrando as coisas e espancando os alunos.
Não era a primeira vez. De vez em quando, caminhões cheios de soldados vinham e batiam nos rapazes. Nós, garotas, gritávamos das varandas dos nossos quartos,
dizendo-lhes para parar, e eles respondiam também aos gritos, dizendo que éramos mulheres ignorantes que não sabíamos nada. Por sermos mulheres, não era costume sermos atacadas.
Naquele mesmo dia, na hora do almoço, ouvimos uma batida à porta. Pensamos que eram amigas fazendo alguma brincadeira, então respondemos: “Vão embora, soldados!” E rimos — como fazem os estudantes. Mas a batida ficou mais forte e percebemos que eram, de fato, os soldados!
Brenda e eu corremos para a varanda e nos abaixamos. Judith pulou na cama e se cobriu. Momentos mais tarde, os soldados arrombaram a porta com tanta força que pedaços da fechadura e da porta atravessaram
o quarto e foram parar na varanda. Os homens invadiram o quarto aos gritos. Por um milagre eles não viram a Judith na cama, mas encontraram a mim e a Brenda na sacada. Lembro de pensar: Já era! Sempre que os soldados saíam ao encalço de alguém era o fim da pessoa.
Eles nos arrancaram da varanda e nos levaram para o corredor com suas armas apontadas para nós. Um soldado ficou no quarto e vasculhou nossos papéis. Judith podia ouvi-lo ali bem pertinho, mas ele não a viu.
“Achamos você! Achamos você!”
— gritavam para mim sem parar, como se tivessem certeza que eu fosse algum tipo de líder estudantil. Do alto da escada nos empurraram. Cada vez que nos levantávamos éramos derrubadas outra vez. Caímos,
levantamos, rolamos, caímos, levantamos e rolamos um lance de escada após o outro. Do alto do último lance de escadas, um soldado me acertou por trás com tanta força que voei e só parei quando bati no chão e perdi a consciência.
Quando os outros chegaram lá em baixo com Brenda, disseram que estavam nos levando para Makindye, um acampamento que na época funcionava como um centro de execuções. Mas primeiro nos levaram para o prédio ao lado, o Lumumba Hall, um bloco residencial para os rapazes, onde os soldados estavam torturando os rapazes. Nós os conhecíamos. Eram bons rapazes. Aparentemente haviam sido torturados a manhã inteira, sem que nós, mesmo estando no prédio ao lado, percebêssemos.
Os soldados forçaram Brenda e eu a nos juntarmos aos rapazes por um tempo, mas logo nos mandaram sair e ficamos na frente do prédio, separadas dos demais. Disseram que eu receberia tratamento especial porque era a líder.
Mais soldados chegaram. Eram centenas. Trouxeram mais garotas e as colocaram com os rapazes, forçando-as a engatinhar seminuas, sob a mira das armas, de um lado para o outro no calçamento. Seus joelhos ficaram em carne viva. Não faço a menor ideia por que acharam que eu era a líder. Não havia razão para isso. Mas, surpreendentemente, foi o que me deu forças, pois sabia que as acusações que me faziam aos berros não tinham fundamento.
Stella Sabiiti atualmente.
Stella Sabiiti com seu marido e filha, um ano após a traumática experiência na Universidade de Makerere.
Espancaram e pisotearam nós duas, mas eu era o alvo principal. Isso se arrastou por horas a fio — uma forma de tortura e crueldade após a outra. Foi um milagre que o bebê tenha sobrevivido.
No final da tarde, os soldados concluíram que já tinham me torturado o bastante e que me levariam para Makindye, o matadouro. Mas eu não queria morrer sem saber por que estavam fazendo aquilo comigo. Por que, de centenas de garotas no bloco onde eu morava, acharam que eu fosse a líder?
Fiquei calada o dia inteiro. Não chorava, não gritava nem tinha oferecido nenhuma resistência.
Agia como um pedaço de pau. Mas chegou um momento em que parte de mim queria perguntar por que estavam fazendo aquilo comigo, mas algo também me dizia que isso só os tornaria ainda mais cruéis. Então ouvi uma voz no meu coração dizer: Apenas olhe nos olhos deles e verá a razão de tudo isso.
Obedeci e me surpreendi pelo que vi: apesar de todos os palavrões e bravatas, aqueles homens estavam sofrendo por dentro! Ao contrário do
que até aquele momento eu havia entendido, não gostavam de fazer aquilo.
Fui de tal forma tomada de compaixão por eles que quis lhes dizer, antes que eu morresse, que entendia e que não me importava. Mas como fazer isso? Eu ainda estava sendo espancada e torturada, mas entre um soco e outro, ocorreu-me algo: Talvez se eu falar com eles sobre algo que temos em comum, isso os ajudará a entender. Foi uma ideia louca, mas não me importei. Eu não tinha nada a perder.
Mas o que eu teria em comum com aqueles soldados? Eles eram homens fortes e eu, uma mulher grávida. Eles tinham armas, botas e chicotes, enquanto eu era uma garota simples e indefesa. Então algo me disse: Você casou há pouco tempo e espera um bebê. Esses homens devem ter famílias também.
“O que suas esposas prepararam para o jantar ontem?” — eu lhes perguntei.
“O quê!?” — perguntaram pasmados e disseram algo em suaíli. Sempre que os soldados de Idi Amin torturavam as pessoas, falavam em suaíli. É por isso que a maioria dos
ugandenses não fala esse dialeto hoje, pois o associam às torturas e a outras coisas ruins. “Que mulher burra!” — gritaram e me deram mais alguns chutes.
Quando pararam, respirei fundo e lhes perguntei de novo: “O que suas esposas prepararam para o jantar ontem?” Voltaram a me espancar. E isso continuou até que, imagino, pensaram: Vamos fazer o jogo desse quase cadáver. E começaram a responder: “Eu comi isto e aquilo no jantar”.
Então perguntei: “Onde seus filhos estudam? Você os levam para escola de manhã?”
Minhas perguntas simples deram início a uma conversa. Por fim, os soldados se sentaram comigo ao pé de uma árvore onde conversamos e rimos. Sim! Literalmente rimos juntos! Brenda me disse mais tarde que quando viu aquela cena, o medo e a dor que ela sentia sumiram.
A verdade é que os soldados que passaram o dia comigo eram os líderes e com apenas um gesto fizeram tudo parar! Àquela altura já era seis e meia da tarde, o que significa que alguns rapazes foram
torturados o dia inteiro e o restante de nós, fazia umas seis horas.
Os caminhões vieram para levar os soldados e as ambulâncias chegaram para socorrer os que estavam mais feridos. Todos os portões da universidade haviam sido trancados e vigiados o dia inteiro, mas as ambulâncias provavelmente estavam esperando do lado de fora, pois entraram enquanto os soldados ainda estavam deixando o campus.
Os cozinheiros e demais funcionários da cozinha, aos quais os soldados não haviam incomodado, levaram chá e pão para os alunos, sentaram-se conosco e choraram por nós. Somente então me desfiz em lágrimas. Não podia imaginar como havia sido para eles testemunhar tudo aquilo sem poderem fazer nada
Posso dizer verdadeiramente que perdoei aqueles soldados no momento em que os olhei nos olhos, porque percebi que todos nós — estudantes e soldados — éramos vítimas de algo que não entendíamos. E quando lhes perguntei sobre seus lares e famílias, viram que eu os entendia e perdoava.
Também devo muito à minha criação. Meus pais me ensinaram que
todo mundo tem alguma bondade em si, mesmo que não pareça. Faz sentido, pois a Bíblia nos diz que Deus nos criou à Sua própria imagem e semelhança.
Essa experiência me deu muita força e me mostrou que nunca devo temer outro ser humano — nunca! É por isso que posso fazer o que faço hoje. Fico à vontade mesmo quando cercada de soldados armados e não é raro eu me encontrar em áreas onde existem minas terrestres. Tenho medo das minas e das armas, mas não dos soldados nem dos rebeldes que as usam. Sei que também são humanos e temos muito em comum, coisas que ninguém nem nada pode tirar de nós.
Aquela experiência na Universidade de Makerere dá legitimidade às palestras que ministro sobre o perdão. Quando conto a história de como consegui perdoar e as maravilhas que aconteceram em consequência disso, as pessoas param para escutar.
“Por que eu perdoaria alguém que não pede perdão?” — muitas vezes me perguntam. A minha resposta é: “A vida é curta demais para eu ficar esperando que alguém venha pedir perdão”.
Muitas coisas boas advieram dessa experiência terrível, mas a melhor foi descobrir que, como todo mundo, nasci com algo maravilhoso dentro de mim: o poder para amar! Não foi algo que conquistei com meus esforços. Simplesmente existe e não acaba. Quanto mais uso, mais aumenta.
Stella Sabiti foi membro fundadora do Centro para Resolução de Conflitos (CECORE), uma ONG sem fins lucrativos com sede em Uganda, fundada em 1995 por mulheres que desejavam promover meios alternativos e criativos para administrar e resolver conflitos. Ela levou sua mensagem de perdão e reconciliação à Irlanda do Norte, à região do Pacífico Asiático, à América do Norte, à América Central, à América do Sul e a vários países africanos. Sua contribuição tem sido importante na solução de conflitos sangrentos em Uganda, na República Democrática do Congo, na Libéria, no Sudão, em Ruanda e no Burundi, dentre outros lugares. ■
GAME OVER
A VIDA E TETRIS
Sou fã de Tetris e, caso você ainda não tenha ouvido falar sobre ele, é um vídeo game na forma de quebra cabeça. Gosto porque consigo planejar o que vou fazer olhando para as partes que estão por vir e à medida que aparecem, posso encaixálas no lugar correto e diminuir a pilha. Pelo menos essa é a ideia.
E o melhor é que posso corrigir meus erros. Às vezes, puxo uma peça e a coloco no lugar errado, então tenho de ver como fazer para resolver
a situação e corrigir meu erro. Nem sempre funciona assim. Eu me saio muito bem nos primeiros níveis, mas as coisas ganham velocidade e as peças descem cada vez mais rápido até o ponto em que não consigo controlá-las mais. Elas acabam no lugar errado e a pilha de peças fica cada vez mais próxima do topo. Logo começa a piscar “FIM DO JOGO” na tela, e minha empolgação com o jogo se transforma em frustração.
do que tentemos fazer ou como lidamos com as coisas, os problemas se acumulam e é como se tivéssemos chegado ao fim do jogo.
Mas o melhor sobre um jogo como o Tetris é que você sempre pode voltar a jogar. Não importa quantas vezes tenha perdido; pode recomeçar do zero, sempre que quiser.
Billy Graham,
Home: Life, Faith, and Finishing Well (Thomas Nelson, 2011)
A vida às vezes pode ser assim. Cometemos um erro após o outro, e de repente é como se não houvesse nada que pudéssemos fazer para consertar as coisas. Às vezes, até os nossos melhores planos acabam em um desastre, e independentemente
É isso o que Jesus faz por nós. Ele sabe que não somos perfeitos. Entende as nossas limitações e fraquezas. Ele nos fez, e entende que não conseguimos “vencer” sempre.
Jesus prometeu afastar de nós os nossos erros e pecados “como o oriente está longe do ocidente.”1 Isso significa que não existem mais; temos uma ficha limpa e podemos começar de novo. E isto não se aplica apenas
5.
Nearing
Por Marie Story
à sua vida espiritual. Não importa quão bem você tente planejar sua vida, haverá ocasiões em que terá de começar de novo.
Uma ficha limpa é algo impressionante. Significa que o passado ficou no passado e não existe mais. Quando você começa um novo jogo de Tetris, ele não lhe recusa a oportunidade de jogar novamente por você ter perdido outras vezes. Simplesmente lhe dá um começo inteiramente novo, sem fazer nenhuma pergunta. Quando Jesus lhe dá uma ficha limpa, ela é realmente limpa. Ele não está olhando para o seu registro de erros e fracassos. “Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!”2
Você acha que os seus planos não deram em nada e não sabe como começar a reconstruir? Ou está desanimado porque suas primeiras tentativas fracassaram? Lembre-se que sempre terá uma oportunidade de recomeçar o jogo. Jesus tem um plano, uma meta para a sua vida e vai usar até os erros que você cometeu para aproximá-lo dessa meta.
O Rei Salomão nos diz que um homem justo cairá sete vezes e se levantará.3 Não tem como não cairmos. É o voltar a levantar-se que conta.
Marie Story mora em San Antonio, Texas, onde trabalha como ilustradora e conselheira voluntária em um abrigo para moradores de rua. ■
A vida pode ser uma viagem por uma estrada muito traiçoeira. Há buracos que nos atrapalham, desvios que nos tiram do caminho e sinais de aviso de perigo à frente. O destino da alma e do espírito é de extrema importância para Deus, por isso Ele nos oferece orientação cada dia. Alguns prestam muita atenção às instruções de Deus; outros ignoram e passam voando pelas luzes de alerta piscando. Mas todos finalmente chegam ao destino final: a porta da morte…
Todo mundo passa por alguma dificuldade. Algumas pessoas têm saúde ruim desde sua juventude. Outras nascem na riqueza e perdem tudo. Algumas buscam amor e só encontram rejeição vez após vez. Sem um firme alicerce, é impossível edificar uma boa vida.
Deus tem um propósito para cada um de nós, e Ele quer que construamos sobre Ele, o verdadeiro alicerce que Ele estabeleceu. As Escrituras falam do artífice firmando a obra das suas mãos com pregos “para que não venha a mover-se.”4 Quando as mãos de Cristo foram furadas por estacas e presas à cruz, Ele tornou-Se nosso alicerce seguro. — Billy Graham5 ♦
Você quer um recomeço? É o que Jesus pode lhe dar. Simplesmente, peça-Lhe: Querido Jesus, aceito Sua oferta de um novo começo para minha vida ao Seu lado. Por favor, entre em minha vida, encha-me com Seu amor e me ajude a me tornar mais como Você. Amém.
Por Marie Alvero
Como Deus vê o PERDÃO
Jesus contou uma história sobre perdão que mexe comigo toda vez que a ouço.1 Conta que um bom rei foi informado que um de seus servos lhe devia uma quantia enorme, algo na casa de bilhões de dólares em valores de hoje, ou seja, uma quantia tão vultuosa que era impossível pagar.
O rei convocou o servo e exigiu o pagamento. Quando este avisou ao monarca que não tinha como saldar a dívida, o soberano determinou que a família do servo fosse vendida como escravos. Desesperado, o devedor rogou misericórdia e o rei,
1. Ver Mateus 18:21–35.
2. Lucas 12:48
sensibilizado, decidiu perdoar a dívida. Não foi definido um plano de pagamento, não houve penalidades, apenas a quitação total de todas as pendências. O servo estava livre, um homem sem dívidas. Imagino que ele tenha se sentido como eu, quando paguei a última parcela da hipoteca de nossa casa, só que muito melhor! Mas a alegria do homem da história durou pouco. Ao sair do palácio real, encontrou um velho conhecido que lhe devia algum dinheiro, o equivalente ao salário de um mês. De alguma forma esquecendo-se da grande misericórdia que tinha acabado de receber, o servo não sentiu compaixão e executou a dívida desse conhecido, o que resultou na
prisão do inadimplente.
Um dos amigos do rei testemunhou esses eventos e os relatou para o monarca, que determinou que o servo voltasse à sua presença. “Como você pôde não perdoar quando você recebeu tanta misericórdia?” Furioso, o rei decidiu: “Você será lançado na prisão até que cada centavo seja pago!” Sempre imagino que o rei então libertou o homem que fora preso por não haver pago um valor tão pequeno e perdoou essa dívida.
Infelizmente, toda vez que ouço essa história, reconheço-me nas ações do servo que não quis perdoar. Pela morte na cruz, Jesus fez expiação e perdoou meus pecados. Simplesmente não faz sentido eu não perdoar quem fez algo errado contra mim, pois fui perdoada de tanto mais. “A qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá.” 2
Marie Alvero foi missionária na África e no México. Hoje vive com seu marido na Região Central do Texas. ■
Deus provou Seu amor na Cruz. Quando Cristo foi crucificado, sangrou e morreu, Deus estava dizendo ao mundo “Eu te amo.” — Billy Graham (n. 1918)
Por Elsa Sichrovsky
EU TAMBÉM
De um modo geral , eu me considero uma perdoadora, alguém legal. Contudo uma experiência que tive no Ensino Médio pôs esse conceito à prova. Meu colega de sala, Matt e eu trabalhamos juntos em uma apresentação sobre Literatura Inglesa Contemporânea. Matt dificultou as coisas para mim desde o início.
Meu jeito exigente e meticuloso de trabalhar entrou em conflito com a maneira mais espontânea com que ele tratava o projeto. Ele raramente era pontual nos encontros e costumava não dar muita atenção aos detalhes. Além de tudo, ele nunca cumpria os prazos do projeto, apesar de minhas constantes mensagens lembrando-lhe de suas obrigações.
Faltavam três dias para a apresentação quando vi que ele não havia escrito a conclusão, como havíamos combinado, e eu não conseguia falar com ele. Por fim, Matt fez o upload de uma conclusão feita nas coxas, horas antes do prazo final, pedindo desculpas e explicando que estava ocupado com outro trabalho. Como era de se esperar, nossa
apresentação não atendeu às expectativas do professor e enquanto ele enumerava as deficiências do nosso trabalho, eu fervia de raiva do Matt. Ele, contudo, não parecia muito preocupado e um amigo em comum me disse que Matt lhe havia dito ter feito sua parte bem. Como não havia satisfação em tratar mal alguém que não reconhecia seu erro, permaneci cortês e me congratulei por ser tão nobre com alguém que nada merecia.
Dois meses depois, em outra turma, fiz uma dupla com Celine para fazer uma apresentação sobre gramática da língua japonesa. Eu pensava que tinha feito o melhor ao meu alcance para me preparar, mas durante a seção de Perguntas e Respostas, vi que meu entendimento de alguns conceitos que apresentei estava completamente errado e, por isso, mais uma vez, a nota foi baixa. Eu esperava que Celine ficasse zangada, pois estava claro para mim que o resultado ruim era culpa minha, mas ela me animou e me ajudou a fazer os ajustes necessários
para a versão final. O perdão imediato de minha parceira me fez refletir muito, pois sua reação tinha sido tão diferente da minha, no caso envolvendo Matt.
Fiquei matutando sobre isso por algumas semanas, até que percebi que não havia perdoado meu colega e, por isso, volta e meia fazia comentários maldosos sobre ele. Matt se atrasou e talvez foi até negligente, mas ficou muitíssimo claro que eu também podia cometer erros e prejudicar seriamente uma equipe. Eu me achava tolerante e misericordiosa, mas minha reação com respeito ao Matt mostrou o oposto. Celine me concedeu uma misericórdia que eu não merecia, e o fez com sinceridade e generosidade. Pedi a Deus que essa experiência me tornasse mais amorosa, humilde e generosa, por saber que somos todos humanos sujeitos a falhas que precisam do perdão dos que nos cercam.
Elsa Sichrovsky é escritora free lance. Vive com sua família em Taiwan. ■
PERDOAR É DIVINO
O poder de perdoar é parte da natureza e da essência de Deus, e quem o exercita assume uma condição semelhante à divina.
Optar por perdoar é uma das decisões mais difíceis que existem, principalmente se o perdão não for merecido. Essa dificuldade se dá porque a natureza humana clama por vingança e justiça. Mas vim para trazer perdão e salvação do pecado.
A questão não é se a pessoa que lhe fez mal merece perdão, mas se você está fazendo o que deve. Ninguém merece perdão. Quem praticou o mal, merece o justo castigo. Mas o perdão vai bem além do senso de justiça. Executar a justiça é da natureza humana; perdoar é divino.
Perdoe quem o ofendeu, assim como o seu Pai celestial o perdoa.