LEADING ARCHITECTS
ELIZABETH DE PORTZAMPARC
NOVA ARQUITETURA “A beleza das coisas está na verdade que elas comunicam no decorrer das horas.” Elizabeth de Portzamparc
“A interação humana produz a inteligência que molda nossa sociedade. É o que nos mostram os homens do Neolítico ao se sedentarizarem há 12.000 anos, formando os primeiros vilarejos. Essa aproximação humana permitiu o desenvolvimento das trocas e de uma inteligência coletiva, criando um contexto extremamente fecundo para as invenções que assentaram as bases da nossa civilização, como a escrita, a irrigação, a roda, as colunas, etc. Hoje, o contato humano virtual evolui e diversifica-se a uma velocidade exponencial. É nosso dever nos assegurar de que essa inteligência humana não se apague nem diante da velocidade dessas trocas, nem diante da ascensão da inteligência artificial e do empobrecimento social gerado pelo individualismo preponderante, e que não se deixe levar à deriva dos sistemas financeiros desconectados da realidade social e governados por programas automatizados e fora do domínio humano. A inteligência humana deve ser a barreira contra esses perigos. O espaço, quando público, torna-se vetor de interações humanas e de comunhão de ideias capazes de gerar ações. Considerando a arquitetura como a materialização dos ideais e valores de uma época, nossos projetos sempre incluem abundantes espaços de convívio, uma arquitetura composta de espaços abertos, flexíveis e adaptáveis, que se tornam interfaces privilegiadas na relação entre o Homem e a Natureza e entre os Homens, privilegiando todo o potencial de interações entre os seres vivos, via de transformações sociais.” Elizabeth de Portzamparc – Rencontres Capitales (Académie des Sciences, 26 de novembro de 2016)
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Por Elizabeth de Portzamparc
Interrogar-se sobre tudo o que modelou nossa visão de sociedade e demonstrar reflexividade são atitudes indispensáveis a nós como autores e atores do nosso universo.
pelas propriedades das outras partes. Enfim, são as inter-relações das partes que determinam a estrutura da trama inteira.”
Do Brasil, minha terra natal, eu trouxe importantes bagagens. Grandes malas repletas das minhas contradições de menina habituada ao conforto, mas que nunca se conformou ao observar passivamente as pessoas necessitadas. Membro das antigas elites1 conscientes de seu papel na construção de uma nação, seguidora dos preceitos de Gramsci: “o pessimismo da razão nos obriga ao otimismo pela determinação”.
Isto é o que considero a coluna vertebral do meu pensamento desde o início da minha carreira: essa noção de laços e de relações que se enriquecem mutuamente é a base do meu desejo de agir e de transformar a sociedade. Dessa ideia resultam naturalmente as noções de abertura, de generosidade, de solidariedade e de comunidade. Ela se opõe aos termos de fechamento, barreira, individualismo. E, neste ponto, a arquitetura mostra-se fundamental: como urbanistas e arquitetos, temos o dever de promover a emergência de uma vida social pela criação de espaços adequados.
Trago do meu país natal a herança da inquietude de uma consciência de classe responsável e a poesia alegre da música brasileira que deixo transparecer nas formas das minhas obras. Descobrir, desde muito jovem, as imensas desigualdades da sociedade brasileira e constatar a miséria não pode deixar nenhum ser humano indiferente. O desejo de compreender e de agir sobre esses problemas me impulsionou, a princípio, aos estudos universitários de economia e de sociologia, os mais voltados, a meu ver, a trazer soluções eficazes para esses problemas. Foi então que me tornei estudante na França. Dentre os inúmeros conhecimentos com os quais me beneficiei, os debates orquestrados pelo filósofo Henri Lefebvre a respeito do “Direito à cidade” com certeza me marcaram. Em seguida, a descoberta – graças ao físico F. Capra – da noção fundamental, na física e no taoísmo, das interconexões totais dos elementos do Universo foi uma verdadeira revelação, que enriqueceu meu olhar sobre o Mundo. “O Universo aparece [...] como uma trama de eventos interconectados; nenhuma das propriedades de uma parte da trama é fundamental: elas são todas geradas
O Tao da Física – Fritjof Capra
Esse último tema apresenta-se de forma recorrente em meu trabalho e representa, de certa forma, seu fio condutor. Ele aparece de diversas maneiras, mas sistematicamente, seja pelas constantes aberturas e múltiplas conexões com a cidade e pelos dispositivos “urbanos” de todos os meus equipamentos públicos, seja pelos espaços de vida coletiva como o concebido, entre outros, para o jornal Le Monde. Esse conceito foi trabalhado de forma ainda mais evidente nos meus projetos de grande escala, como as torres de Bagnolet, as de Miami, a torre Oásis (em Rabat), a torre do Taichung Intelligence Operation Center (em Taiwan) e a torre Pleyel (em Saint-Denis, ao norte da Grand Paris). Analisemos um pouco mais profundamente a questão das torres, que reflete a problemática contemporânea da arquitetura e do urbanismo: os grandes edifícios de escritórios ou de habitações, assim como as torres construídas no passado ou as em construção atualmente, são uma negação da cidade. Será possível imaginar a instalação de uma verdadeira parcela de cidade, que pode ir de 40 a 70.000 m², ou até mais, de forma totalmente
fechada, enclausurada, introvertida, voltada unicamente para si, enfim, sem vínculo algum com a cidade? A concepção de grandes edifícios ou de torres vai além da simples estética ou da sua altura. Essa questão é importante em todas as escalas da construção e ainda mais quando se trata de torres. Por essa razão, proponho uma leitura específica da evolução de sua morfologia, de seus propósitos e do que representam os princípios sobre os quais, a meu ver, devemos nos basear. A principal qualidade dessas torres vanguardistas de quarta geração é sua abertura, sua integração ao contexto. Assim, os prédios deixam de ser uma interrupção do urbanismo, um parêntese na cidade, para se tornarem uma continuação destes. Essa busca por abertura passa inicialmente pelas bases das torres e seus andares inferiores, espaços públicos por suas conexões com o bairro e com a cidade. Todos reconhecemos a importância de construir essas plataformas urbanas com locais que abriguem estruturas de uso público ou com outras funções urbanas. Porém, é necessário ultrapassar a ideia de conceber unicamente o nível da base como urbano e passar a conceber também andares superiores que sejam igualmente vetores de sociabilização e encontros, graças aos inúmeros laços entre esses espaços e os vários níveis. Assim, criam-se praças e espaços interiores baseados no modelo de espaço público, ligados por ruas interiores que se expandem horizontal e verticalmente. Esses locais têm vocações diversas, reproduzindo as escalas urbanas, indo do público ao mais privado e representando, de certa forma, uma reinterpretação da cidade no seio do edifício, como bairros ou sub-bairros, uma parcela de cidade vertical. Tal modelo permite a abolição das barreiras entre cidade e arquitetura e uma gradação mais fina das fronteiras entre público e privado e talvez até, utopicamente, sua dissolução total.
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ELIZABETH DE PORTZAMPARC
NOVA ARQUITETURA “A beleza das coisas está na verdade que elas comunicam no decorrer das horas.” Elizabeth de Portzamparc
“A interação humana produz a inteligência que molda nossa sociedade. É o que nos mostram os homens do Neolítico ao se sedentarizarem há 12.000 anos, formando os primeiros vilarejos. Essa aproximação humana permitiu o desenvolvimento das trocas e de uma inteligência coletiva, criando um contexto extremamente fecundo para as invenções que assentaram as bases da nossa civilização, como a escrita, a irrigação, a roda, as colunas, etc. Hoje, o contato humano virtual evolui e diversifica-se a uma velocidade exponencial. É nosso dever nos assegurar de que essa inteligência humana não se apague nem diante da velocidade dessas trocas, nem diante da ascensão da inteligência artificial e do empobrecimento social gerado pelo individualismo preponderante, e que não se deixe levar à deriva dos sistemas financeiros desconectados da realidade social e governados por programas automatizados e fora do domínio humano. A inteligência humana deve ser a barreira contra esses perigos. O espaço, quando público, torna-se vetor de interações humanas e de comunhão de ideias capazes de gerar ações. Considerando a arquitetura como a materialização dos ideais e valores de uma época, nossos projetos sempre incluem abundantes espaços de convívio, uma arquitetura composta de espaços abertos, flexíveis e adaptáveis, que se tornam interfaces privilegiadas na relação entre o Homem e a Natureza e entre os Homens, privilegiando todo o potencial de interações entre os seres vivos, via de transformações sociais.” Elizabeth de Portzamparc – Rencontres Capitales (Académie des Sciences, 26 de novembro de 2016)
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Por Elizabeth de Portzamparc
Interrogar-se sobre tudo o que modelou nossa visão de sociedade e demonstrar reflexividade são atitudes indispensáveis a nós como autores e atores do nosso universo.
pelas propriedades das outras partes. Enfim, são as inter-relações das partes que determinam a estrutura da trama inteira.”
Do Brasil, minha terra natal, eu trouxe importantes bagagens. Grandes malas repletas das minhas contradições de menina habituada ao conforto, mas que nunca se conformou ao observar passivamente as pessoas necessitadas. Membro das antigas elites1 conscientes de seu papel na construção de uma nação, seguidora dos preceitos de Gramsci: “o pessimismo da razão nos obriga ao otimismo pela determinação”.
Isto é o que considero a coluna vertebral do meu pensamento desde o início da minha carreira: essa noção de laços e de relações que se enriquecem mutuamente é a base do meu desejo de agir e de transformar a sociedade. Dessa ideia resultam naturalmente as noções de abertura, de generosidade, de solidariedade e de comunidade. Ela se opõe aos termos de fechamento, barreira, individualismo. E, neste ponto, a arquitetura mostra-se fundamental: como urbanistas e arquitetos, temos o dever de promover a emergência de uma vida social pela criação de espaços adequados.
Trago do meu país natal a herança da inquietude de uma consciência de classe responsável e a poesia alegre da música brasileira que deixo transparecer nas formas das minhas obras. Descobrir, desde muito jovem, as imensas desigualdades da sociedade brasileira e constatar a miséria não pode deixar nenhum ser humano indiferente. O desejo de compreender e de agir sobre esses problemas me impulsionou, a princípio, aos estudos universitários de economia e de sociologia, os mais voltados, a meu ver, a trazer soluções eficazes para esses problemas. Foi então que me tornei estudante na França. Dentre os inúmeros conhecimentos com os quais me beneficiei, os debates orquestrados pelo filósofo Henri Lefebvre a respeito do “Direito à cidade” com certeza me marcaram. Em seguida, a descoberta – graças ao físico F. Capra – da noção fundamental, na física e no taoísmo, das interconexões totais dos elementos do Universo foi uma verdadeira revelação, que enriqueceu meu olhar sobre o Mundo. “O Universo aparece [...] como uma trama de eventos interconectados; nenhuma das propriedades de uma parte da trama é fundamental: elas são todas geradas
O Tao da Física – Fritjof Capra
Esse último tema apresenta-se de forma recorrente em meu trabalho e representa, de certa forma, seu fio condutor. Ele aparece de diversas maneiras, mas sistematicamente, seja pelas constantes aberturas e múltiplas conexões com a cidade e pelos dispositivos “urbanos” de todos os meus equipamentos públicos, seja pelos espaços de vida coletiva como o concebido, entre outros, para o jornal Le Monde. Esse conceito foi trabalhado de forma ainda mais evidente nos meus projetos de grande escala, como as torres de Bagnolet, as de Miami, a torre Oásis (em Rabat), a torre do Taichung Intelligence Operation Center (em Taiwan) e a torre Pleyel (em Saint-Denis, ao norte da Grand Paris). Analisemos um pouco mais profundamente a questão das torres, que reflete a problemática contemporânea da arquitetura e do urbanismo: os grandes edifícios de escritórios ou de habitações, assim como as torres construídas no passado ou as em construção atualmente, são uma negação da cidade. Será possível imaginar a instalação de uma verdadeira parcela de cidade, que pode ir de 40 a 70.000 m², ou até mais, de forma totalmente
fechada, enclausurada, introvertida, voltada unicamente para si, enfim, sem vínculo algum com a cidade? A concepção de grandes edifícios ou de torres vai além da simples estética ou da sua altura. Essa questão é importante em todas as escalas da construção e ainda mais quando se trata de torres. Por essa razão, proponho uma leitura específica da evolução de sua morfologia, de seus propósitos e do que representam os princípios sobre os quais, a meu ver, devemos nos basear. A principal qualidade dessas torres vanguardistas de quarta geração é sua abertura, sua integração ao contexto. Assim, os prédios deixam de ser uma interrupção do urbanismo, um parêntese na cidade, para se tornarem uma continuação destes. Essa busca por abertura passa inicialmente pelas bases das torres e seus andares inferiores, espaços públicos por suas conexões com o bairro e com a cidade. Todos reconhecemos a importância de construir essas plataformas urbanas com locais que abriguem estruturas de uso público ou com outras funções urbanas. Porém, é necessário ultrapassar a ideia de conceber unicamente o nível da base como urbano e passar a conceber também andares superiores que sejam igualmente vetores de sociabilização e encontros, graças aos inúmeros laços entre esses espaços e os vários níveis. Assim, criam-se praças e espaços interiores baseados no modelo de espaço público, ligados por ruas interiores que se expandem horizontal e verticalmente. Esses locais têm vocações diversas, reproduzindo as escalas urbanas, indo do público ao mais privado e representando, de certa forma, uma reinterpretação da cidade no seio do edifício, como bairros ou sub-bairros, uma parcela de cidade vertical. Tal modelo permite a abolição das barreiras entre cidade e arquitetura e uma gradação mais fina das fronteiras entre público e privado e talvez até, utopicamente, sua dissolução total.
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ELIZABETH DE PORTZAMPARC
NOVA ARQUITETURA
Esse sistema também permite preservar, quando necessário, a vocação inicial de cada nível seguindo uma hierarquia clara entre o privado e o público para se manter coerente com seus usos atuais, em que a torre não pode ser inteiramente destinada ao uso público. O emprego desse dispositivo possibilita, entretanto, uma grande flexibilidade ao longo do tempo e, no caso da evolução de seu uso, reafirmaria o caráter público da construção. A concepção dessas torres de quarta geração tem por objetivo favorecer o “estar junto”, a vida em sociedade, a união dos indivíduos, o combate às barreiras e à atomização, o projetar-se na construção de um futuro em comum, criando, assim, as condições para a emergência de uma inteligência coletiva indispensável ao desenvolvimento das invenções das quais nossa civilização necessita desesperadamente no contexto atual. Aqui surge um conjunto de questões que excedem o domínio específico das torres: a arquitetura enquanto um dos fundamentos do vínculo social, conforme já enunciado, e também a questão de sua temporalidade. Além disso, outra ideia – de grande importância – estrutura meu pensamento sobre a arquitetura: o longo prazo. A arquitetura e o urbanismo têm um ciclo de vida bastante longo, diferentemente da moda ou dos bens de consumo. Nós arquitetos construímos para o presente e para o futuro, para os séculos, e não apenas para os próximos 10 ou 20 anos. Um arquiteto não tem outra opção senão integrar sua obra neste universo em constante evolução. O tema da reversibilidade é, então, central dentro da arquitetura, assim como sua finalidade, seus usos ou ainda sua adequação ao contexto edificado, paisagístico e climático. Seja qual for o ambiente no qual uma obra arquitetônica está inserida, essa inserção deve se fazer no presente e no futuro. É a consideração de todos esses parâmetros, por meio de uma abordagem holística, que permitirá escapar da obsolescência da
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arquitetura, opondo-se à sucessão de modas fugazes e ao presentismo que reina atualmente. Construir o futuro com consciência do papel do ser humano – o de simples elo no processo de formação do mundo – guia as minhas ações. Refletir sobre os debates de cada época e trazer minha modesta contribuição guiam o modo como trabalho. Imaginar nossos edifícios em suas conexões globais com o clima das respectivas regiões, com a cultura local, com sua paisagem, suas configurações urbanas, com o homem, enfim, com a vida, é consequência óbvia dessa reflexão. Da mesma forma, concebo meus prédios como símbolos arquiteturais que carregam tais valores. Para orientar minhas próprias ações, em parte pela compreensão da arquitetura atual, e antecipar a que ainda virá, parece-me fundamental compreender as relações que ela mantém com nosso mundo em diferentes planos: ético e estético, industrial e tecnológico, econômico e político, ambiental e ecológico e, enfim, sobre a finalidade em si da criação. Também por essa razão constituí em minha agência um pequeno laboratório reunindo colaboradores polivalentes, vindos da arquitetura e de outros universos, como da sociologia e das ciências políticas. Essas são, a meu ver, respostas adequadas aos grandes desafios impostos pela barbárie econômica que impera. Hoje, diante da grande crise da civilização atual, uma importante conscientização coletiva gera no mundo uma formidável multiplicação de ações em reação. Muitos de nós querem trazer soluções arquiteturais concretas e adequadas aos inúmeros desafios contemporâneos. Apesar de todas as dificuldades envolvidas, eu orientei meus projetos nesse sentido e, com minha equipe, estudamos soluções que favoreçam a diversidade social, a flexibilidade, a economia das formas e materiais, a pré-fabricação, as construções econômicas, a
criação de espaços de vida coletiva que permitam o desenvolvimento de toda vida social e o surgimento de ações inovadoras. O conjunto dessas práticas arquiteturais inovadoras no plano social e sustentável anuncia o advento do que eu chamo de “Nova Arquitetura”. Esse termo não designa o retorno a um dogmatismo modernista. Ele ressalta e reúne iniciativas diversas que visam a um denominador comum: a busca de soluções arquiteturais para os desafios gerados pela crise social e energética que nossa civilização enfrenta atualmente. Estando pouco munidos de técnicas e exemplos para enfrentar essas mudanças no clima e na sociedade, pareceu-me importante fixar as regras que regem minha própria concepção arquitetural. Como no método das restrições criativas, estabelecido por Queneau na Oulipo (Oficina de Literatura Potencial), o rigor e as regras tornam-se fonte de criatividade e de inovação. Assim, defini 10 temas principais para delimitar os contornos daquilo que considero uma “Nova Arquitetura”, ou seja, uma arquitetura engajada na construção de uma sociedade verdadeiramente sustentável. Esses temas refletem as diferentes faces da questão fundamental que me coloco sobre a finalidade da arquitetura em si, em seu sentido original: “servir ao Homem e à Sociedade”. Atualmente, seria mais apropriado dizer: “servir ao Homem em relação com o seu ambiente”: 1. A economia de formas e de materiais, através da pureza e do rigor da arquitetura. Essa busca por simplicidade e coerência deve ser o fundamento da estética, afastando-se, para tanto, das derivas formalistas da arquitetura recente, geradoras de desperdício de matéria-prima. 2. A inserção da arquitetura em seu longo ciclo de vida por meio da flexibilidade, da reversibilidade e da
adaptabilidade de seus planos e volumes, para evitar a obsolescência da construção e permitir uma liberdade de mutualização e de requalificação dos espaços com a evolução dos usos ao longo do tempo. 3. A preservação da identidade dos lugares, pela inserção cuidadosa das construções, tanto em seu contexto climático quanto formal, seja por uma integração total ou por um verdadeiro diálogo com o local. 4. A sustentabilidade urbana e arquitetural como forma de inserção no tempo cíclico da natureza, associada ao desenvolvimento de uma economia circular útil à autonomia energética dos territórios e ao crescimento da produção e do consumo locais. 5. A busca e experimentação de construções pré-fabricadas como resposta rápida à escassez global de habitações, considerando especialmente o aumento de refugiados de todas as naturezas: econômica, política, religiosa e, atualmente, climática. 6. A busca por materiais sustentáveis, recicláveis, produzidos localmente e a consideração de métodos de construção tradicionais específicos de uma determinada cultura, lutando contra o caráter genérico potencialmente induzido pela industrialização dos materiais e técnicas construtivas. 7. A experimentação e as ações de autoconstrução, em prol da manutenção in loco das populações ameaçadas de exclusão e da melhora das condições de vida das comunidades mais frágeis. 8. A sustentabilidade urbana como noção indissociável do aspecto social. A sustentabilidade deve ser considerada como uma prática de luta contra as desigualdades sociais pelo estabelecimento de sistemas urbanos que evitem qualquer fenômeno de ruptura e de exclusão. Essas práticas devem igualmente favorecer a criação de laços e recursos
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ELIZABETH DE PORTZAMPARC
NOVA ARQUITETURA
Esse sistema também permite preservar, quando necessário, a vocação inicial de cada nível seguindo uma hierarquia clara entre o privado e o público para se manter coerente com seus usos atuais, em que a torre não pode ser inteiramente destinada ao uso público. O emprego desse dispositivo possibilita, entretanto, uma grande flexibilidade ao longo do tempo e, no caso da evolução de seu uso, reafirmaria o caráter público da construção. A concepção dessas torres de quarta geração tem por objetivo favorecer o “estar junto”, a vida em sociedade, a união dos indivíduos, o combate às barreiras e à atomização, o projetar-se na construção de um futuro em comum, criando, assim, as condições para a emergência de uma inteligência coletiva indispensável ao desenvolvimento das invenções das quais nossa civilização necessita desesperadamente no contexto atual. Aqui surge um conjunto de questões que excedem o domínio específico das torres: a arquitetura enquanto um dos fundamentos do vínculo social, conforme já enunciado, e também a questão de sua temporalidade. Além disso, outra ideia – de grande importância – estrutura meu pensamento sobre a arquitetura: o longo prazo. A arquitetura e o urbanismo têm um ciclo de vida bastante longo, diferentemente da moda ou dos bens de consumo. Nós arquitetos construímos para o presente e para o futuro, para os séculos, e não apenas para os próximos 10 ou 20 anos. Um arquiteto não tem outra opção senão integrar sua obra neste universo em constante evolução. O tema da reversibilidade é, então, central dentro da arquitetura, assim como sua finalidade, seus usos ou ainda sua adequação ao contexto edificado, paisagístico e climático. Seja qual for o ambiente no qual uma obra arquitetônica está inserida, essa inserção deve se fazer no presente e no futuro. É a consideração de todos esses parâmetros, por meio de uma abordagem holística, que permitirá escapar da obsolescência da
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arquitetura, opondo-se à sucessão de modas fugazes e ao presentismo que reina atualmente. Construir o futuro com consciência do papel do ser humano – o de simples elo no processo de formação do mundo – guia as minhas ações. Refletir sobre os debates de cada época e trazer minha modesta contribuição guiam o modo como trabalho. Imaginar nossos edifícios em suas conexões globais com o clima das respectivas regiões, com a cultura local, com sua paisagem, suas configurações urbanas, com o homem, enfim, com a vida, é consequência óbvia dessa reflexão. Da mesma forma, concebo meus prédios como símbolos arquiteturais que carregam tais valores. Para orientar minhas próprias ações, em parte pela compreensão da arquitetura atual, e antecipar a que ainda virá, parece-me fundamental compreender as relações que ela mantém com nosso mundo em diferentes planos: ético e estético, industrial e tecnológico, econômico e político, ambiental e ecológico e, enfim, sobre a finalidade em si da criação. Também por essa razão constituí em minha agência um pequeno laboratório reunindo colaboradores polivalentes, vindos da arquitetura e de outros universos, como da sociologia e das ciências políticas. Essas são, a meu ver, respostas adequadas aos grandes desafios impostos pela barbárie econômica que impera. Hoje, diante da grande crise da civilização atual, uma importante conscientização coletiva gera no mundo uma formidável multiplicação de ações em reação. Muitos de nós querem trazer soluções arquiteturais concretas e adequadas aos inúmeros desafios contemporâneos. Apesar de todas as dificuldades envolvidas, eu orientei meus projetos nesse sentido e, com minha equipe, estudamos soluções que favoreçam a diversidade social, a flexibilidade, a economia das formas e materiais, a pré-fabricação, as construções econômicas, a
criação de espaços de vida coletiva que permitam o desenvolvimento de toda vida social e o surgimento de ações inovadoras. O conjunto dessas práticas arquiteturais inovadoras no plano social e sustentável anuncia o advento do que eu chamo de “Nova Arquitetura”. Esse termo não designa o retorno a um dogmatismo modernista. Ele ressalta e reúne iniciativas diversas que visam a um denominador comum: a busca de soluções arquiteturais para os desafios gerados pela crise social e energética que nossa civilização enfrenta atualmente. Estando pouco munidos de técnicas e exemplos para enfrentar essas mudanças no clima e na sociedade, pareceu-me importante fixar as regras que regem minha própria concepção arquitetural. Como no método das restrições criativas, estabelecido por Queneau na Oulipo (Oficina de Literatura Potencial), o rigor e as regras tornam-se fonte de criatividade e de inovação. Assim, defini 10 temas principais para delimitar os contornos daquilo que considero uma “Nova Arquitetura”, ou seja, uma arquitetura engajada na construção de uma sociedade verdadeiramente sustentável. Esses temas refletem as diferentes faces da questão fundamental que me coloco sobre a finalidade da arquitetura em si, em seu sentido original: “servir ao Homem e à Sociedade”. Atualmente, seria mais apropriado dizer: “servir ao Homem em relação com o seu ambiente”: 1. A economia de formas e de materiais, através da pureza e do rigor da arquitetura. Essa busca por simplicidade e coerência deve ser o fundamento da estética, afastando-se, para tanto, das derivas formalistas da arquitetura recente, geradoras de desperdício de matéria-prima. 2. A inserção da arquitetura em seu longo ciclo de vida por meio da flexibilidade, da reversibilidade e da
adaptabilidade de seus planos e volumes, para evitar a obsolescência da construção e permitir uma liberdade de mutualização e de requalificação dos espaços com a evolução dos usos ao longo do tempo. 3. A preservação da identidade dos lugares, pela inserção cuidadosa das construções, tanto em seu contexto climático quanto formal, seja por uma integração total ou por um verdadeiro diálogo com o local. 4. A sustentabilidade urbana e arquitetural como forma de inserção no tempo cíclico da natureza, associada ao desenvolvimento de uma economia circular útil à autonomia energética dos territórios e ao crescimento da produção e do consumo locais. 5. A busca e experimentação de construções pré-fabricadas como resposta rápida à escassez global de habitações, considerando especialmente o aumento de refugiados de todas as naturezas: econômica, política, religiosa e, atualmente, climática. 6. A busca por materiais sustentáveis, recicláveis, produzidos localmente e a consideração de métodos de construção tradicionais específicos de uma determinada cultura, lutando contra o caráter genérico potencialmente induzido pela industrialização dos materiais e técnicas construtivas. 7. A experimentação e as ações de autoconstrução, em prol da manutenção in loco das populações ameaçadas de exclusão e da melhora das condições de vida das comunidades mais frágeis. 8. A sustentabilidade urbana como noção indissociável do aspecto social. A sustentabilidade deve ser considerada como uma prática de luta contra as desigualdades sociais pelo estabelecimento de sistemas urbanos que evitem qualquer fenômeno de ruptura e de exclusão. Essas práticas devem igualmente favorecer a criação de laços e recursos
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ELIZABETH DE PORTZAMPARC
NOVA ARQUITETURA
comuns: unidades básicas de vizinhança, “sub-bairros”, hierarquia de praças, etc. 9. A criação, dentro dos prédios, de espaços interiores de vida coletiva: fóruns, passeios urbanos, ruas interiores; hierarquia de intimidade dos espaços interiores, de modo a permitir que a cidade e a noção de vida em comunidade penetrem o cerne das construções. 10. A arquitetura holística, a dos laços, das relações, das conexões e das aberturas através da fusão total das funções e temas, pela imbricação entre espaços públicos e privados, atenuando a separação entre estes. Esse conjunto de temas apresenta um caráter universal, com exceção do tema da autoconstrução, que se refere, em especial, a realidades recorrentes nos países de terceiro mundo, visto que a indústria da construção suplantou há tempos as práticas de autoconstrução nos países desenvolvidos. Na minha agência, desde 2004, nós tentamos nos engajar na concepção dos projetos de forma que esses princípios sejam respeitados, tanto na escala arquitetural da construção como na escala urbana. São escalas pensadas em conjunto para moldar cidades ou habitações verdadeiramente adaptadas aos seus ocupantes.
espaços para um ciclo longo, portadores de valores, constituintes de um bem coletivo. É preciso que essa Nova Arquitetura venha encerrar as décadas de desprezo em relação às populações mais frágeis no que diz respeito às identidades regionais e, por extensão, à vida coletiva. A arquitetura voltará a ser, enfim, o principal revelador e suporte da vida humana e do ecossistema e, assim, há de inscrever-se de forma sustentável e duradoura, tanto no sentido real quanto no figurado, em nosso universo. Nós arquitetos, convencidos de nossa responsabilidade social, devemos, hoje e sempre, trazer soluções concretas para esses grandes desafios atuais, indo muito além da realidade do volume da construção para erguer uma verdadeira massa poética.
“O exemplo não é o melhor meio de convencer; ele é o único meio.” Albert Schweitzer “Seja a mudança que você deseja ver no mundo.” Mahatma Gandhi
Sem necessariamente formalizá-los, como eu faço aqui, inúmeros arquitetos começam a seguir igualmente alguns desses preceitos, visando à busca de soluções que nos permitirão enfrentar os próximos desafios sociais e ambientais, privilegiando, dessa forma, o bem coletivo para toda a humanidade, qualquer que seja a classe social. Nesse sentido, a generalização e o respeito a esses 10 temas farão parte da reconquista de um princípio fundador em arquitetura e urbanismo, esquecido ao longo desta época pós-moderna que se vai: produzir
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1 Velhas elites que hoje agonizam, haja vista a situação políticofinanceira atual no Brasil.
ELIZABETH DE PORTZAMPARC
NOVA ARQUITETURA
comuns: unidades básicas de vizinhança, “sub-bairros”, hierarquia de praças, etc. 9. A criação, dentro dos prédios, de espaços interiores de vida coletiva: fóruns, passeios urbanos, ruas interiores; hierarquia de intimidade dos espaços interiores, de modo a permitir que a cidade e a noção de vida em comunidade penetrem o cerne das construções. 10. A arquitetura holística, a dos laços, das relações, das conexões e das aberturas através da fusão total das funções e temas, pela imbricação entre espaços públicos e privados, atenuando a separação entre estes. Esse conjunto de temas apresenta um caráter universal, com exceção do tema da autoconstrução, que se refere, em especial, a realidades recorrentes nos países de terceiro mundo, visto que a indústria da construção suplantou há tempos as práticas de autoconstrução nos países desenvolvidos. Na minha agência, desde 2004, nós tentamos nos engajar na concepção dos projetos de forma que esses princípios sejam respeitados, tanto na escala arquitetural da construção como na escala urbana. São escalas pensadas em conjunto para moldar cidades ou habitações verdadeiramente adaptadas aos seus ocupantes.
espaços para um ciclo longo, portadores de valores, constituintes de um bem coletivo. É preciso que essa Nova Arquitetura venha encerrar as décadas de desprezo em relação às populações mais frágeis no que diz respeito às identidades regionais e, por extensão, à vida coletiva. A arquitetura voltará a ser, enfim, o principal revelador e suporte da vida humana e do ecossistema e, assim, há de inscrever-se de forma sustentável e duradoura, tanto no sentido real quanto no figurado, em nosso universo. Nós arquitetos, convencidos de nossa responsabilidade social, devemos, hoje e sempre, trazer soluções concretas para esses grandes desafios atuais, indo muito além da realidade do volume da construção para erguer uma verdadeira massa poética.
“O exemplo não é o melhor meio de convencer; ele é o único meio.” Albert Schweitzer “Seja a mudança que você deseja ver no mundo.” Mahatma Gandhi
Sem necessariamente formalizá-los, como eu faço aqui, inúmeros arquitetos começam a seguir igualmente alguns desses preceitos, visando à busca de soluções que nos permitirão enfrentar os próximos desafios sociais e ambientais, privilegiando, dessa forma, o bem coletivo para toda a humanidade, qualquer que seja a classe social. Nesse sentido, a generalização e o respeito a esses 10 temas farão parte da reconquista de um princípio fundador em arquitetura e urbanismo, esquecido ao longo desta época pós-moderna que se vai: produzir
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1 Velhas elites que hoje agonizam, haja vista a situação políticofinanceira atual no Brasil.
ELIZABETH DE PORTZAMPARC
URBANISMO – ARQUITETURA – MUSEOGRAFIA Vindo de uma cidade moderna, onde predominava na arquitetura o concreto protendido e sua subsequente leveza, meu olhar estético foi condicionado à ausência de ornamentos, à pureza das formas e à elegância da arquitetura brasileira dos anos 1960. Meu olhar sobre o mundo me conduziu ao respeito à cultura humana e dos espaços e também a considerar como objetivos prioritários dos projetos de urbanismo e arquitetura o uso e a apropriação dos lugares e dos espaços pelos habitantes, bem como a concepção de espaços que promovam a interação entre os indivíduos. Um urbanismo de conexões.
recentes: o Musée de la Romanité, a estação Le Bourget, infraestrutura emblemática do Grand Paris, a Grande Biblioteca de Documentação Bioclimática de Aubervilliers (GED), etc.
Diante da atual dissolução dos vínculos sociais em nossas cidades e da destruição do contexto social e natural, eu concebo a obra arquitetural como uma defesa contra esse colapso massivo e mundial da vida coletiva e da cultura dos espaços devido à sua capacidade de imaginar novas soluções para reconstruir os espaços e as conexões sociais, tanto na escala da cidade quanto na das construções. As noções de uso, de descompartimentação por meio de conexões espaciais e da abertura para a cidade, da criação de espaços interativos como suporte de vida coletiva guiaram meus projetos para o Museu Nacional da Coreia (1992), o Museu da Bretanha (1995), a Grande Biblioteca do Quebec (2000), a Embaixada da França em Berlim (1997), a Banque Populaire (2003) e a sede do jornal Le Monde (2003). Essas noções inspiraram igualmente todos os meus grandes projetos
No que diz respeito às formas, a busca de linhas dinâmicas foi igualmente uma constante em meu trabalho desde o princípio. A poesia leve e fluida da música brasileira deve ter contribuído para isso.
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O papel dos museus e das bibliotecas evolui neste sentido: se suas funções primordiais permanecem as de “guardiões da cultura” como patrimônio, um fundamento imutável, a apresentação das coleções e a consulta dos livros se dessacralizam, abrindo-se para a cidade e propondo a criação de vínculos interativos entre os visitantes. Minha concepção desse tipo de edificação sempre obedeceu a esses postulados.
Utilizei e aprofundei o princípio do deslocamento de volumes em inúmeros projetos: nas Grandes Marches, na Banque Populaire, no Le Monde, no Riocentro e na Casa Jardim. E, recentemente, acentuei ainda mais esse jogo de volumes nos projetos do Centro Cultural Francês de Florianópolis (CCFF), de Casablanca “Les Arènes”, da Marina da Glória, da estação Le Bourget, entre outros. Essas preocupações iniciais se desenvolveram a partir de duas experiências no Brasil. A primeira é a do edifício com energia positiva concebido para o Centro Cultural Francês em Florianópolis – CCFF
(2008). Tal projeto motivou a criação de uma série de dispositivos espaciais que correspondessem aos aspectos sustentáveis e sociais desejados. Eu integrei nesse projeto, que a princípio foi concebido para abrigar a Aliança Francesa, frequentada pelas elites, alguns elementos programáticos abertos à população mais carente da vizinhança. Em seguida, em 2009, tive a grande honra de participar de um concurso privado para conceber um projeto para uma instituição sociocultural e médico-esportiva exemplar no Brasil, o SESC, que se tornou célebre no mundo e entre os arquitetos graças ao formidável SESC-Pompeia, concebido por Lina Bo Bardi. Essa cidade, aberta a todos, com uma estrutura social de grande qualidade, atrai todas as categorias sociais para descobrir arte, teatro, cinema e outras atividades culturais. Desde então, tento me inspirar em tais princípios de partilha nos meus trabalhos, fazendo projetos de arquitetura bastante abertos ao ambiente social e ecológico. Busco fazer com que suas qualidades beneficiem a todos e que possam gerar, mediante suas conexões, um forte impacto positivo social e urbano para os territórios dos quais eles se tornam parte. Hoje, fazendo a arqueologia de meu próprio trabalho, percebo mais nitidamente que essas preocupações foram os postulados – conscientes ou não – que sempre guiaram minha concepção ao longo dos anos. Elizabeth de Portzamparc
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ELIZABETH DE PORTZAMPARC
URBANISMO – ARQUITETURA – MUSEOGRAFIA Vindo de uma cidade moderna, onde predominava na arquitetura o concreto protendido e sua subsequente leveza, meu olhar estético foi condicionado à ausência de ornamentos, à pureza das formas e à elegância da arquitetura brasileira dos anos 1960. Meu olhar sobre o mundo me conduziu ao respeito à cultura humana e dos espaços e também a considerar como objetivos prioritários dos projetos de urbanismo e arquitetura o uso e a apropriação dos lugares e dos espaços pelos habitantes, bem como a concepção de espaços que promovam a interação entre os indivíduos. Um urbanismo de conexões.
recentes: o Musée de la Romanité, a estação Le Bourget, infraestrutura emblemática do Grand Paris, a Grande Biblioteca de Documentação Bioclimática de Aubervilliers (GED), etc.
Diante da atual dissolução dos vínculos sociais em nossas cidades e da destruição do contexto social e natural, eu concebo a obra arquitetural como uma defesa contra esse colapso massivo e mundial da vida coletiva e da cultura dos espaços devido à sua capacidade de imaginar novas soluções para reconstruir os espaços e as conexões sociais, tanto na escala da cidade quanto na das construções. As noções de uso, de descompartimentação por meio de conexões espaciais e da abertura para a cidade, da criação de espaços interativos como suporte de vida coletiva guiaram meus projetos para o Museu Nacional da Coreia (1992), o Museu da Bretanha (1995), a Grande Biblioteca do Quebec (2000), a Embaixada da França em Berlim (1997), a Banque Populaire (2003) e a sede do jornal Le Monde (2003). Essas noções inspiraram igualmente todos os meus grandes projetos
No que diz respeito às formas, a busca de linhas dinâmicas foi igualmente uma constante em meu trabalho desde o princípio. A poesia leve e fluida da música brasileira deve ter contribuído para isso.
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O papel dos museus e das bibliotecas evolui neste sentido: se suas funções primordiais permanecem as de “guardiões da cultura” como patrimônio, um fundamento imutável, a apresentação das coleções e a consulta dos livros se dessacralizam, abrindo-se para a cidade e propondo a criação de vínculos interativos entre os visitantes. Minha concepção desse tipo de edificação sempre obedeceu a esses postulados.
Utilizei e aprofundei o princípio do deslocamento de volumes em inúmeros projetos: nas Grandes Marches, na Banque Populaire, no Le Monde, no Riocentro e na Casa Jardim. E, recentemente, acentuei ainda mais esse jogo de volumes nos projetos do Centro Cultural Francês de Florianópolis (CCFF), de Casablanca “Les Arènes”, da Marina da Glória, da estação Le Bourget, entre outros. Essas preocupações iniciais se desenvolveram a partir de duas experiências no Brasil. A primeira é a do edifício com energia positiva concebido para o Centro Cultural Francês em Florianópolis – CCFF
(2008). Tal projeto motivou a criação de uma série de dispositivos espaciais que correspondessem aos aspectos sustentáveis e sociais desejados. Eu integrei nesse projeto, que a princípio foi concebido para abrigar a Aliança Francesa, frequentada pelas elites, alguns elementos programáticos abertos à população mais carente da vizinhança. Em seguida, em 2009, tive a grande honra de participar de um concurso privado para conceber um projeto para uma instituição sociocultural e médico-esportiva exemplar no Brasil, o SESC, que se tornou célebre no mundo e entre os arquitetos graças ao formidável SESC-Pompeia, concebido por Lina Bo Bardi. Essa cidade, aberta a todos, com uma estrutura social de grande qualidade, atrai todas as categorias sociais para descobrir arte, teatro, cinema e outras atividades culturais. Desde então, tento me inspirar em tais princípios de partilha nos meus trabalhos, fazendo projetos de arquitetura bastante abertos ao ambiente social e ecológico. Busco fazer com que suas qualidades beneficiem a todos e que possam gerar, mediante suas conexões, um forte impacto positivo social e urbano para os territórios dos quais eles se tornam parte. Hoje, fazendo a arqueologia de meu próprio trabalho, percebo mais nitidamente que essas preocupações foram os postulados – conscientes ou não – que sempre guiaram minha concepção ao longo dos anos. Elizabeth de Portzamparc
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ELIZABETH DE PORTZAMPARC 9 Linha A
Anel periférico
Linha B
Redes de ônibus expresso
Linha C
Rede de ônibus principal
Estação
Redes férreas
10
Limite municipal 8
Fase 1 Fase 2
11 7 1
TRAMWAY DE BORDEAUX Elizabeth de Portzamparc desenhou a “cenografia” e o mobiliário urbano das estações do tramway (metrô de superfície) de Bordeaux. Cada elemento do design é parte de um sistema formal projetado para gerar uma identidade visual imediatamente identificável que abranja uma família de objetos para a rede de 44,6 km que serve Bordeaux e mais seis cidades vizinhas. Evitando ornamentos e outros elementos supérfluos, a estética do mobiliário urbano é rigorosa, poderosa e, ao mesmo tempo, suave e sensual. Desenvolvida com uma linguagem baseada na transparência, leveza e rigor, a composição como um todo evita a criação de barreiras arquiteturais ou visuais na cidade, ainda assim afirmando sua presença.
6
1 Bordeaux 2 Pessac 3 Talence 4 Villenave D'ornon 5 Bègles 6 Floriac 7 Cenon 8 Lormont 9 Carbon-Blanc 10 Bruges 11 Le Bouscat 12 Mérignac
Local Bordeaux, França Projeto/Data 1998-2013 (concurso, projeto vencedor) Cliente Comunidade Urbana de Bordeaux Programa Design das estações e do mobiliário urbano do tramway de Bordeaux Área 44,6 km/130 estações Fotografia © 2Portzamparc – Elizabeth de Portzamparc Arquiteta; © Nicolas Borel
12
3
2
PLANTA DA REDE
5 4
0
2km
As estações e seu mobiliário estabelecem um diálogo com todos os diferentes tipos de ambiente urbano nos quais estão inseridos: bairros antigos e modernos, zonas residenciais e áreas com paisagem natural. De maneira estruturada, as estações e o mobiliário urbano estão intencionalmente absorvidos pelo contexto e não confrontam os elementos preexistentes. Em áreas mais distantes do centro, ao contrário, as estações assumem uma presença mais marcada, que tem o papel de estruturar o contexto urbano existente. O rigor e a clareza dos aspectos estéticos do projeto convenceram o arquiteto responsável pelos monumentos históricos de Bordeaux a aceitar elementos que havia previamente rejeitado, tais como a instalação de estações em áreas simbolicamente importantes da cidade, como a Porta da Borgonha. As estações tornaram-se, na verdade, parte da vida cotidiana, por exemplo, quando são usadas como ponto de encontro. Em virtude de sua transparência e de seu conceito identitário, esse tramway, mais do que transformar o tecido urbano, consegue inserir-se e é sobreposto a ele, tornando-se um elemento unificador das diversas áreas urbanas de Bordeaux.
ELEVAÇÃO DA ESTAÇÃO
0
5m 0
20
5
10
15
0
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1m
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ELIZABETH DE PORTZAMPARC 9 Linha A
Anel periférico
Linha B
Redes de ônibus expresso
Linha C
Rede de ônibus principal
Estação
Redes férreas
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Limite municipal 8
Fase 1 Fase 2
11 7 1
TRAMWAY DE BORDEAUX Elizabeth de Portzamparc desenhou a “cenografia” e o mobiliário urbano das estações do tramway (metrô de superfície) de Bordeaux. Cada elemento do design é parte de um sistema formal projetado para gerar uma identidade visual imediatamente identificável que abranja uma família de objetos para a rede de 44,6 km que serve Bordeaux e mais seis cidades vizinhas. Evitando ornamentos e outros elementos supérfluos, a estética do mobiliário urbano é rigorosa, poderosa e, ao mesmo tempo, suave e sensual. Desenvolvida com uma linguagem baseada na transparência, leveza e rigor, a composição como um todo evita a criação de barreiras arquiteturais ou visuais na cidade, ainda assim afirmando sua presença.
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1 Bordeaux 2 Pessac 3 Talence 4 Villenave D'ornon 5 Bègles 6 Floriac 7 Cenon 8 Lormont 9 Carbon-Blanc 10 Bruges 11 Le Bouscat 12 Mérignac
Local Bordeaux, França Projeto/Data 1998-2013 (concurso, projeto vencedor) Cliente Comunidade Urbana de Bordeaux Programa Design das estações e do mobiliário urbano do tramway de Bordeaux Área 44,6 km/130 estações Fotografia © 2Portzamparc – Elizabeth de Portzamparc Arquiteta; © Nicolas Borel
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PLANTA DA REDE
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As estações e seu mobiliário estabelecem um diálogo com todos os diferentes tipos de ambiente urbano nos quais estão inseridos: bairros antigos e modernos, zonas residenciais e áreas com paisagem natural. De maneira estruturada, as estações e o mobiliário urbano estão intencionalmente absorvidos pelo contexto e não confrontam os elementos preexistentes. Em áreas mais distantes do centro, ao contrário, as estações assumem uma presença mais marcada, que tem o papel de estruturar o contexto urbano existente. O rigor e a clareza dos aspectos estéticos do projeto convenceram o arquiteto responsável pelos monumentos históricos de Bordeaux a aceitar elementos que havia previamente rejeitado, tais como a instalação de estações em áreas simbolicamente importantes da cidade, como a Porta da Borgonha. As estações tornaram-se, na verdade, parte da vida cotidiana, por exemplo, quando são usadas como ponto de encontro. Em virtude de sua transparência e de seu conceito identitário, esse tramway, mais do que transformar o tecido urbano, consegue inserir-se e é sobreposto a ele, tornando-se um elemento unificador das diversas áreas urbanas de Bordeaux.
ELEVAÇÃO DA ESTAÇÃO
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ELIZABETH DE PORTZAMPARC
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MUSÉE DE LA ROMANITÉ DE NÎMES
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ELIZABETH DE PORTZAMPARC
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MUSÉE DE LA ROMANITÉ DE NÎMES
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ELIZABETH DE PORTZAMPARC
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MUSÉE DE LA ROMANITÉ DE NÎMES
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MUSÉE DE LA ROMANITÉ DE NÎMES
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Todos os esforços foram feitos no sentido de se encontrar a fonte dos direitos autorais de todo o material contido neste livro. Os editores gostariam de ouvir os detentores dos direitos autorais para corrigir qualquer erro ou omissão. As informações e ilustrações desta publicação foram preparadas e fornecidas por Elizabeth de Portzamparc. Ainda que todos os esforços tenham sido feitos para assegurar da exatidão, os editores não podem, sob qualquer circunstância, ser responsabilizados por erros, omissões e declarações explícitas ou implícitas.