Todos os direitos reservados a Nilson Adelino Azevedo. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos ou fotocópia, sem autorização prévia do autor.
Autor: Nilson Azevedo Edição: Fabiano Azevedo Coordenação: Carlos Machado Pesquisa: Erick Azevedo Revisão: Wellington Srbek Diagramação: Cleber Campos
Este livro foi realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.
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Século 19 - Nova Era, Minas Gerais. Uma indígena puri se apaixonou pelo sinhozinho filho do dono da fazenda que foi contra o romance. Ameaçou deserdar o filho e até mesmo mandá-lo imediatamente para o Caraça. Os dois amantes fugiram, caíram no mundo. Foram se esconder em Santo Antônio do Grama. Essa puri era minha bisavó. Antes mesmo de saber dessa história, meus irmãos, minhas irmãs e eu sempre nos identificamos mais com os indígenas do que com os caubóis nos filmes e nos quadrinhos. O herói preferido delas era o Buffalo Bill de Fred Meagher. Que era o mesmo desenhista do Flecha Ligeira, o meu herói preferido. Adorávamos tudo o que era dos indígenas: roupas, adornos, cocares, colares, nomes... Tudo! Buffalo Bill namorava uma indígena: a linda Águia Branca... Flecha Ligeira, Apache Kid do Harvey Kurtzman, o Índio Branco do Frank Frazetta, na verdade eram brancos que se vestiam de indígenas... Bom, melhor que nada. Mas e o indígena brasileiro, onde estava? Só tinha um: “O Guarani”, de José de Alencar na revista “Edição Maravilhosa”, da Editora Brasil América (a Ebal), quadrinizada por um desenhista haitiano negro: André Le Blanc. Ele ilustrava os livros de Monteiro Lobato e fez uma obra magnífica. Seria Pery um puri? Não, era um goitacás, mas foi muito importante ver Pery beijar Ceci. Em quadrinhos! Havia também a “História do Brasil em Quadrinhos”, de Ivan Wasth Rodrigues, da mesma Ebal. Pela primeira vez os indígenas e os portugueses foram desenhados de maneira fiel, fruto de pesquisa. O descobrimento virou invasão, colonização e neocolonização. Primeiro Portugal, depois França, depois Inglaterra e hoje Istazunidos tratam o Terceiro Mundo como seu quintal. E a maior vítima disso são os indígenas, os negros e os pobres! Um batalhão de caubóis barra a entrada de nossos heróis! Por isso resolvi desenhar minha visão do descobrimento em quadrinhos! Publiquei em 1974 a minha história “Pindorama”, na revista “Bicho” número três... Eu precisava saber mais sobre a minha parte indígena. Danei a pesquisar. Aí aconteceu uma coisa... Eu ia pela rua da Bahia e passei pela porta da Livraria Francisco Alves, que estava em liquidação. De repente uma força estranha vinda não sei de onde me empurrou para dentro da livraria e me conduziu como um robô até uma estante. Nela vi um livro, um único exemplar de “A Organização Social dos Tupinambá” de Florestan Fernandes. Florestan Fernandes, um dos fundadores do PT - o Partido dos Trabalhadores - como eu... O livro foi sua tese de mestrado na USP em 1948 - ano do meu nascimento. É muita coincidência. Acho que foi coisa do Sobrenatural de Souza. Neste livro estava tudo o que eu precisava saber sobre os tupinambás. 4
Outro livro essencial foi “A Guerra dos Tamoios”, de Aylton Quintiliano, que comprei num sebo. Sou do lado dos indígenas e contra a colonização, mas não nego meu lado português. Amo Bocage, Camões, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa e Florbela Espanca. Leio em voz alta trechos do livro das três Marias, “Novas Cartas Portuguesas”, só para ouvir a linda fala portuguesa, sua sintaxe. Por isso, nas tiras da “Caravela” me recusei a fazer piadas com a fala portuguesa. Abaixo os clichês. Sim, os portugueses foram tão psicopatas quanto os outros colonizadores da época, mas não se pode minimizar o valor que se alevanta ao analisar seus feitos... E olha aqui: o inglês que transou com a Pocahontas foi embora, não assumiu a relação. O português que transou com a Iracema casou com ela e a levou para Portugal. Isso diz muito sobre a colonização anglo-saxã e a colonização ibérica. Em 1974, comecei a publicar no “Jornal de Minas” as tirinhas do “Pery a Perigo”, sobre um indígena cuja nação está em extinção, e a primeira versão da Caravela. Ao contrário das pinturas e da história oficial, que só falam de reis e nobres, resolvi que meus heróis seriam dois pobres marinheiros, Manuel e Joaquim. Viva esse clichê! Achar livros do período colonial foi fácil, há muitos. O difícil foi achar imagens da época. Na versão final da Caravela consegui retratar de maneira mais fiel, graças à minha pesquisa, as roupas, as armas, as armaduras, os navios, etc. E, modéstia à parte, acho que o maior valor dessa história é que é a primeira vez que ela é contada através do desenho de cartum, sem clichês e com o humor que esse tipo de desenho permite. Nilson Agosto, 2022
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Os personagens Manuel - um camponês apanhado nas malhas da história. Contra sua vontade, embarca numa viagem rumo a um admirável mundo novo. Seu medo é ir ao fundo.
Joaquim - um plebeu alfabetizado e esquizoide. Leitor de livros de cavalaria e tiete de Marco Polo, odeia a realidade. E é correspondido! Corre atrás de uma utopia, mas bem devagar.
O Frade - devoto de São Bartolomeu e de Santa Inquisição. Seu santo ofício é levar aos selvagens a palavra de Roma, mesmo que seja pela boca dos canhões. Inimigo mortal do calvinismo, do maometismo e do cristianismo. Capitão-mor - um fidalgo da mais alta linhagem, dono de uma admirável árvore genealógica e de brasões respeitadíssimos; o que em caso de naufrágio só o fará afundar mais depressa!
Cavaleiro - responsável pelo esquema de segurança da Caravela. Um homem duro, feito de ferro. Mas lá dentro dessa armadura bate um coração bom como o de Pinochet.
Os marinheiros - os trabalhadores do mar. Um bando de homens rudes! Estão todos no mesmo barco. Sonham com sereias e têm pesadelos com monstros marinhos. São os verdadeiros sujeitos desta história, mas eles não sabem.
Bastião Gangrena - o capataz da Caravela, encarregado de extrair dos marinheiros o máximo de produtividade. É uma besta, mas assume!
Sereias por elas, os marinheiros morrem de amor. 6
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A CARAVELA – um resumo da trajetória de Nilson e uma tentativa de situar artística e cronologicamente os trabalhos aqui publicados Nilson Azevedo nasceu em Belo Horizonte, em 1948, mas gosta de incluir em sua biografia o município de Raul Soares, na Zona da Mata mineira, sobretudo porque foi lá, durante a longa infância, que ele tomou gosto pela história em quadrinhos e aprendeu a desenhar caubóis e cavalos. Nilson estreou como cartunista em 1967, num suplemento do Jornal dos Sports, do Rio, chamado Cartum JS. O editor desse suplemento era Ziraldo, que já havia desenhado um roteiro de Nilson para uma história de seu personagem Pererê, em 1964. Daí em diante, Nilson passou por diversos jornais e revistas brasileiras, com cartuns, charges, quadrinhos e ilustrações. O Cruzeiro, o Pasquim, o Jornal de Minas, o Estado de Minas (onde ele criou um dos grandes quadrinhos infantis do Brasil, o Negrim), o Diário de Minas, a Folha de São Paulo e o Jornal do Brasil são apenas alguns dos veículos de imprensa pelos quais ele passou. Foi no Jornal de Minas, em 1975, que ele iniciou a publicação da série de tiras “A Caravela”, que é o tema desta exposição (depois, redesenhadas, as tiras passaram a sair no Estado de Minas, já no início dos anos 80). Em A Caravela, Nilson, desde sempre um cartunista combativo, de esquerda e comprometido com as causas sociais, realizou uma verdadeira obra-prima, com muito humor, crítica e sobretudo uma elaborada e minuciosa pesquisa histórica. A Caravela ajuda a contar um momento fundamental da formação do Brasil, que foi a chegada dos portugueses à nossa terra. Mas isso, por si só, seria muito pouco para uma mente criativa como a de Nilson. Ao longo das mais de 200 tiras que compõem a obra, há re exões profundas sobre a condição humana, as desigualdades sociais, religião, liberdade e sexualidade. Tudo, sempre, com o humor latente e a autocrítica que são, também, característicos do trabalho do cartunista. A série saiu incompleta no Estado de Minas, e posteriormente foi republicada – integralmente e em cores - no Jornal do Brasil. Das duas páginas avulsas – aquela em que Manuel acorda na caravela e o cartum final, apenas a primeira foi publicada, na revista “A Caravela”, da editora Crisálida. 125
Neste álbum, reunimos, também, outras obras criadas por Nilson dentro do contexto das navegações portuguesas e do encontro entre europeus e indígenas brasileiros. A começar por “Pindorama”, que, aliás, foi a primeira criação de Nilson neste sentido. Desenhada em 1974, saiu na revista O Bicho, que publicava quadrinhos mundiais de vanguarda. Sua cadência cinematográfica e suas múltiplas possibilidades de leitura são proporcionadas pela sucessão de pequenos quadros que detalham, quase como em um estudo antropológico, o cotidiano de uma aldeia indígena. Este ritmo só é quebrado no quadro final, o único que contém, a um só fôlego, humor e tragédia. As histórias “Situação” e “Milagre dos Peixes” fazem parte do universo de A Caravela, embora Nilson, como de praxe na série, promova saltos de tempo e de realidade, vindo parar ora em nosso tempo, ora em um contexto de HQ de super-herois da Marvel (não soa estranho a ninguém que os personagens da caravela – dos marujos ao padre, do capitão ao capataz – citem músicas de Milton Nascimento ou trechos de Sartre, personagens de filmes e ex-presidentes norteamericanos...). “Situação” foi publicada na revista Carta de Minas, e “O Milagre dos Peixes” – a maior história de todo o álbum, com nada menos que 32 páginas – saiu no extinto “Jornal de Domingo”. Já a série de quadrinhos “As Invasões Portuguesas” foi realizada ao longo das décadas de 80 e 90, e trata, por assim dizer, do momento seguinte àquele eternizado em A caravela: o momento em que os portugueses desceram em terra firme, nas praias brasileiras, e tiveram os primeiros contatos com os indígenas. Posteriores (não só historicamente) à série A Caravela, as páginas de “As Invasões Portuguesas” denotam o auge estilístico de Nilson. É quando seu trabalho ganha “vida própria”: o traço é sinuoso, limpo e seguro, a reconstituição histórica é a mais fiel possível, o ritmo das histórias é envolvente e hilariante, mas sem perder a aura de “momento histórico”. Apesar disso, “As Invasões Portuguesas” saiu apenas em fanzines e publicações de baixas tiragens, das quais as principais foram as revistas Graffiti 76% quadrinhos e Ideário. “Ficando” foi realizada em 1999, para participar do concurso de quadrinhos do I FIQ, o Festival Internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte. Narra, de forma singela, irônica e um tanto poética, o episódio da primeira visita de Cabral ao Brasil e a observação que dois garotos portugueses fazem dos indígenas. A trama inclui eventos históricos, como o abandono de degredados no Brasil e a redação da carta de Caminha, que conta a história dos dois grumetes que decidiram ficar no Brasil... “Ficando” foi publicada na revista Bundas. Fabiano Azevedo 126
Estudos
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Detalhe de uma história que não foi concluída
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