4 de dezembro de 2012 • ano XXii • n.º 254 • QUinzenal GratUito diretora ana dUarte • editor-eXeCUtiva ana morais
micro-conto
acabra
Jornal Universitário de Coimbra
Pág. 21
ANA DUARTE
Conselho Geral da UC
Eleições são já a 6 de dezembro Pág. 2 a 5
Ex-estudantes recebem ordem de execução fiscal
FUtEBol amEricano
EntrEvista:
Em coimBra
João sEmEdo
Pág.10
Pág. 16
Alunos que boicotaram a propina na década de 1990 são agora intimados a pagar o que devem Pág. 7
astronomia
União EUroPEia
ricardo morgado
Universo: o último limite do ser humano
Políticas de coesão não diminuem fosso
Votos brancos em análise
A astronomia remete-nos para a compreensão do universo, procurando dar resposta às origens do nosso planeta. A forma como a Lua e o Sol interagem com a Terra tem um efeito conhecido ao nível das águas do mar, na amplitude das marés. Contudo, ainda há muito por desvendar nesta ciência, mesmo com toda a evolução tecnológica: de olhos postos nos céus.
Os Estados-membro procuram um acordo que solucione os problemas da comunidade, perante o clima de crise económica. A União Europeia canaliza grande parte do seu Orçamento para politicas de coesão que não têm sido suficientes para reduzir o fosso entre os vários países, o que favorece lógicas de competição, de concorrência e não de convergência.
Depois de na semana passada ter sido reeleito para a Direção-geral da Associação Académica de Coimbra, Ricardo Morgado aborda em entrevista o facto dos votos em branco terem sido a segunda força política na oposição e o facto de esta ter sido uma campanha mais fraca.
Pág. 11
Pág.17
Pág. 4
@
Mais informação em
acabra.net
EstUdantEs qUErEm
o hardcorE voltoU?
Pág.9
mais aUtocarros
Pág.15
2 | a cabra | 4 de dezembro de 2012 | terça-feira
destAque
Novo Conselho Geral eleito esta semana Na quinta-feira, 6, a comunidade universitária elege os seus representantes no CG. A abstenção de há dois anos é apontada por todos como algo a inverter Ana Duarte Ana Morais Dois anos depois, os estudantes voltam às urnas para elegerem os próximos representantes no Conselho Geral (CG) da Universidade de Coimbra (UC). Também este ano são as eleições para os representantes dos professores e investigadores e dos trabalhadores não docentes e não investigadores. Depois de, em 2007, o Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES) ter imposto às universidades a criação deste órgão deliberativo que viria a substituir o Senado Universitário, o CG ainda é um órgão que soa estranho a alguns estudantes da UC. As grandes alterações provocadas pelo RJIES neste órgão de gestão prendem-se com a falta de representatividade estudantil e a integração de elementos externos à
universidade. A dois dias das eleições, os cabeças de cada lista apelam ao voto, para evitar os cerca de 70 por cento de abstenção, verificados há dois anos atrás. Afirmam que este órgão ainda passa ao lado de muita gente e que a ligação à comunidade académica é urgente. Comparativamente ao ano passado, o número de listas para o primeiro e segundo ciclos baixou. São elas: lista A – “A Alternativa És Tu!”, de novo com Catarina Ângelo, lista C – “UC Contigo”, com a recandidatura de Luís Rodrigues e lista T – “Pelo Teu Futuro”, com o
estreante José Dias. Pelo contrário, na situação do terceiro ciclo, há mais uma lista. Ana Pina Rodrigues assegura a continuidade da lista D – “Dá-te Voz!” e Nelson Coelho encabeça a lista N – “Nós Fazemos a UC”. A eleição é feita através do Método de Hondt, em que os lugares são distribuídos proporcionalmente por cada lista, consoante os votos obtidos. O presidente da Comissão Eleitoral (CE), António dos Santos Justo, destaca a quantidade de listas nos vários corpos de eleitores: “creio que a universidade está de parabéns, tem motivos para se regozijar
com este ato eleitoral”. O também professor da Faculdade de Direito da UC não fica indiferente à abstenção verificada há dois anos atrás, e afirma que “a CE está empenhada em fazer os desdobramentos para que o maior número de eleitores possa votar”.
A orgânica do CG O CG é composto por 35 membros, sendo dez deles elementos externos, 18 professores, dois funcionários e cinco estudantes. Atualmente, o presidente deste órgão é António Almeida Santos, que substituiu Artur Santos Silva desde maio. Sanana Duarte
tos Silva, também presidente do Conselho de Administração do BPI explica que “pelas regras, é o membro externo do CG mais antigo que substitui o presidente eleito” .Nas eleições para professores e funcionários, existem três listas – algumas delas também projetos de continuidade [ver página 5]. Este órgão reúne quatro vezes por ano, ordinariamente, e sempre que for pedido pelo reitor da UC ou um terço dos seus membros. Fazem parte das competências do CG a eleição e destituição, caso se justifique, do reitor, bem como a apreciação da sua atuação; a fixação da propina; a aprovação do plano de atividade orçamental; a nomeação do Provedor do Estudante; a aprovação das alterações aos Estatutos da UC, entre outras. Relativamente aos elementos externos - um tópico que ainda não é consensual -, estes são personalidades de reconhecido mérito. Atualmente, nove dos dez membros são ex-estudantes da UC. Os candidatos estudantes, apesar de considerarem que é uma forma de fazer ponte entre a UC e a sociedade, denotam um desequilíbrio entre o número destes elementos face à representatividade estudantil. Entrevistas na íntegra em
@
cabra net
candidatos primeiro e segundo ciclo
“Temos de nos unir e defender os estudantes” Ana Duarte Ana Morais
levar problemas concretos dos estudantes ao CG.
A frequentar a licenciatura em Direito, Catarina Ângelo recandidata-se ao Conselho Geral (CG). Nascida em Coimbra, mas criada no Alentejo, a estudante filiada na Juventude Comunista Portuguesa mostra-se contra a existência da propina e elementos externos
O CG conta com a representação de 10 elementos externos. É um número equilibrado? Acho que não. Não consigo compreender a necessidade de entidades externas, em especial representantes da ZON e da SONAE, e como é que essas entidades externas têm uma palavra a dizer no CG que supostamente é de estudantes e professores. Os estudantes deviam ter uma proporcionalidade igual a todos os outros membros, porque cinco não é uma voz ativa.
O que motivou a tua recandidatura ao CG? O meu nome surgiu porque temos um movimento bastante novo neste momento, e eu era a única pessoa que conhecia a universidade no seu total e já tinha sido candidata. Era mais fácil ser uma pessoa que já estivesse envolvida. Quais são as principais bandeiras que o projeto defende? A defesa do interesse dos estudantes e pretendemos, em especial, levar a voz dos estudantes aos professores e ao reitor. Vamos defender, no CG, a grande discussão a favor da abolição das propinas. Temos de ter mais transparência daquilo que é decidido no CG, tendo em conta os limites estatutários, pois há sigilo. Queremos
Qual é a solução que propões? Aumentar o número de alunos, mudarem-se os regulamentos. Uma alteração nos regulamentos significa aumentar a nossa proporcionalidade. Quantos? Dez ou mais. São 18 professores, punha 18 estudantes. Queremos uma proporcionalidade igual. Faz sentido que os estudantes no CG votem em bloco para terem mais força? Conforme o motivo. Mas se a causa for mesmo a defesa e o me-
lhoramento para a vida do estudante, claro que sim. Temos de nos unir todos e defender os estudantes. Também em 2010 afirmaste que “pouca coisa sai para fora do CG”. Se fores eleita, como pretendes contrariar isso? Existem várias possibilidades que não são usadas para falar sobre isto, pelo menos com a frequência necessária. Chamam-se comissões de curso, Reuniões Gerais de Alunos, plenários. Não são os cinco representantes que sabem tudo, têm de ouvir os seus representados. O que é para ti um valor justo de propina? Um valor justo é zero. Mas tendo em conta a conjuntura não seria mais exequível a redução gradual? Nunca podemos pedir a redução quando o nosso direito é o zero. É mais fácil, mas não quero facilidade, quero o meu direito por inteiro. A redução seja ela qual for, pode significar um muro para a entrada ou para a continuação de qualquer estudante no Ensino Superior (ES). Não pensamos na redução por ser mais fácil, mas na
abolição porque é um direito. O Processo de Bolonha e o Regime Jurídico das Instituições do ES são sistemas que já estão implementados há algum tempo. Ainda faz sentido contestar estes sistemas? Enquanto isso causar problemas a estudantes faz sempre sentido. O Processo de Bolonha só trouxe uma mera reorganização de ciclos, em que nos obriga a pagar mais. E enquanto isso me afetar a mim e aos outros colegas, faz sentido lutar contra esses regulamentos. Qual é o balanço que fazes do mandato do reitor até ao momento? A questão é que sobreviveu, tendo em conta o clima económico em que estamos. A UC continua a funcionar, fecharam alguns cursos, mas a culpa não é do reitor, é da falta de financiamento. Portanto, o mandato foi bom, não posso dizer que foi mau, porque continuamos a sobreviver. Mas a questão é que tem de haver uma posição mais forte. A verdade é que o reitor é um mero funcionário público que está a sobreviver com tostões e tem de tentar meter esses tostões em tudo. O mandato foi bom, tem é de ser mais proativo.
Lista A Catarina Ângelo “A Alternativa És Tu!”
joão gaspar
4 de dezembro de 2012 | terça-feira | a
cabra | 3
destAque candidatos primeiro e segundo ciclo
“A eleição do reitor foi fraturante” Ana Duarte Ana Morais Com assento no Conselho Geral (CG) desde que os estudantes têm representatividade, Luís Rodrigues recandidata-se novamente. Com 25 anos, frequenta atualmente a licenciatura em Direito e é natural de Porto de Mós. Com filiação partidária, faz questão de reforçar que a lista é apartidária. Apesar de defender a votação em bloco por parte dos estudantes conselheiros, confessa que a eleição do reitor foi fraturante para esta concertação Com quantas pessoas contas no teu projeto? O projeto assenta num grupo de oito pessoas. É um grupo de trabalho e contamos com o apoio de muitos estudantes da universidade. É um grupo representativo da Universidade de Coimbra (UC). Quais são as bandeiras do teu projeto? Uma supervisão muito ativa, informada e consequente do reitor e do Conselho de Gestão. O âmbito de propor iniciativas ao bom funcionamento da UC. A empregabilidade
Lista T José Dias “Pelo Teu Futuro”
dos estudantes: a UC tem de usar toda a sua influência, todo o seu poder no âmbito nacional e internacional. A reestruturação dos serviços académicos. Entendemos que a administração e os serviços académicos não podem ser um obstáculo. O que te levou a recandidatar? Porque acredito que a lista, no tempo de mandato, conseguirá concretizar na plenitude os desígnios que agora se apresentam. Tenho a disponibilidade pessoal para me dedicar exclusivamente ao CG. O conhecimento e a experiência que fui acumulando são mais-valias. Visto que é uma recandidatura, que trabalho é que ficou por fazer? Não conseguimos exponenciar mais os resultados porque a eleição do reitor foi fraturante. Votei num lado, eles votaram no outro e desde aí foi muito fraturante em termos de equipa. Neste CG tentámos estar juntos. Tive dificuldade em perceber os problemas que estavam a acontecer, é preciso instrumentos de informação sobre os problemas reais dos estudantes. Fazes parte da comissão que de Reestruturação dos Saberes (RS). Referiste que “há uma
No ano passado foi aprovado o Plano Estratégico da UC. Na altura classificaste-o como “o documento possível face aos cortes orçamentais”. Num ano em que esses cortes são mais acentuados, este Plano ainda é exequível? O Plano Estratégico foi bem concebido e bem discutido, houve uma envolvência de toda a academia. Aqueles são os nossos objetivos e é para eles que vamos trabalhar. É para aqueles e não para outros, vai ser feito um grande esforço para concretizar aqueles elementos. O que é para ti um valor justo de propina? Um valor que, no mínimo, garanta que nenhum estudante está ex-
cluído do ES. Que valor é esse? Os mil euros que são pagos é um valor muito elevado, porque não justifica. Nunca aprovei o valor da propina das licenciaturas e dos mestrados integrados. Essa deliberação tem a data de 2004. Nunca aprovámos, nunca votei se a propina era mil euros ou não.
Luís Rodrigues “UC Contigo”
Quanto ao Regime de Prescrições, como é que pensas abordar essa questão em CG? Esse problema está a ser resolvido. Estive envolvido na elaboração deste atual regulamento de prescrições. Quando soube disto, fui diretamente ao reitor. Propus-lhe que este regime de transição passasse para dois anos e estou convencido que ele vai alterar isso. Acredito que o problema esteja resolvido nas próximas semanas. Qual é o balanço que fazes do mandato do reitor até ao momento? É globalmente positivo, tendo em conta as circunstâncias muito difíceis de governação. Ele não tem trabalhado sozinho, tem tido o Senado e o CG, e tem sido um dirigente que tem procurado as melhores soluções, ouvindo as pessoas. Este reitor não é teimoso.
stephanie sayuri paixão
“Recusamos uma nova subida das propinas” Ana Duarte Ana Morais O mais novo dos candidatos ao CG pelo primeiro e segundo ciclos, José Dias, tem 20 anos e é natural de Coimbra. Filiado na Juventude Socialista, o estudante frequenta o Mestrado em Biologia Molecular e Celular. A ligação do CG aos estudantes é a aposta da lista T, sobretudo através do uso do Pelouro da Ligação aos Órgãos da Direção-geral da AAC O que é que motivou a tua candidatura? Pretendemos encontrar os problemas, enfrentá-los e, numa primeira instância, estudar muito bem os ‘dossiers’ e depois procurar soluções, que passassem pelos diversos órgãos onde os estudantes estão representados.
rafaela carvalho
fraca vontade de discutir os cenários”. Caso sejas reeleito, como é que vais continuar a insistir na questão? Neste momento está a ser apreciada a viabilidade das conclusões do relatório. O relatório está concluído, já foi entregue há meses e neste momento está em sede de reitoria. O que foi decidido em CG foi apostar no campo das artes. Mas, não há vontade política por parte dos agentes da UC para alterarem substancialmente a universidade que conhecemos enquanto orgânica.
Lista C
Quais são as bandeiras da Lista T? Temos três campos que vamos querer abordar, que serão as nossas três linhas de ação. A primeira é o elo de ligação entre os estudantes e o Conselho Geral (CG). A segunda é o melhoramento da
Universidade de Coimbra (UC) a vários níveis. E a terceira, a questão mais sensível, é o orçamento da universidade. Os estudantes do CG devam ter uma postura mais ativa no que toca ao diálogo com a AAC, com o Pelouro de Ligação aos Órgãos? Na nossa linha de ação temos três objetivos claros. O primeiro deles passa por um esclarecimento aos estudantes daquilo que é o órgão. Pretendemos ter o auxílio dos núcleos de estudantes e da Direçãogeral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC). Num segundo momento, gostaríamos de ter um gabinete, talvez com o Provedor dos Estudantes. E o terceiro objetivo passa por isso, pela ligação a todos os órgãos onde os estudantes estão representados. O CG conta com dez elementos externos. É um número equilibrado? No seu todo o CG tem trinta e cinco elementos, em que apenas cinco deles são estudantes. Eu não concordo. Não concordamos que a representatividade seja tão baixa. Os estudantes têm um peso muito superior, deve haver uma maior paridade entre os estudantes e os docentes. As entidades ex-
ternas trazem uma outra visão. No entanto, há um desequilíbrio. Que solução propões para atingir esse equilíbrio? Passaria por uma concertação entre os cinco elementos dos estudantes, só assim teremos um peso maior, só com os estudantes todos unidos é que conseguiremos criar uma mudança. Num segundo momento, podemos tentar aumentar o número de estudantes neste órgão. Foi aprovado o plano estratégico da UC. Num ano em que os cortes são mais acentuados achas que este plano ainda á exequível? Todos os objetivos do plano terão à partida de ser exequíveis. Não podem continuar a haver esses cortes, tem de se continuar a apostar na educação - só com a educação Portugal se consegue desenvolver cada vez mais, e, como tal, a própria UC tem que inovar. Se o Governo continuar a cortar dessa forma podem haver maiores dificuldades na competição internacional. Poderá haver outra solução que é tentar a busca de mais financiamento exterior. Consideras que a qualidade do ensino vai se manterá,
tendo em conta a atual conjuntura financeira? Nessa nossa linha de ação temos três objetivos específicos. O primeiro é a análise correta do orçamento, uma melhor canalização de verbas. Segundo, uma gestão de infrastruturas que poderá passar pela Reestruturação de Saberes. E o terceiro é relativo às propinas. Recusamos instransigentemente uma nova subida das propinas. O que é para ti um valor justo de propina? O valor justo na opinião da Lista T é zero. Não deverão haver propinas, o Estado deve apostar na educação, no desenvolvimento dos seus jovens, pois só assim é que os seus jovens desenvolverão o país. Qual é o balanço que fazes do mandato do reitor até ao momento? O reitor tem conseguido uma ligação entre estudantes. Na altura do corte que o Governo ia implementar, conseguiu realmente agregar toda a gente em seu torno. Considero que o seu mandato tem sido bastante bom, tem vindo ao encontro das espetativas dos estudantes, um elo de ligação que há muitos anos não se via.
4 | a cabra | 4 de dezembro de 2012 | terça-feira
destAque candidatos terceiro ciclo
“No terceiro ciclo há situações muito díspares” Ana Duarte Ana Morais Natural de Viseu, Ana Pina Rodrigues encontrase no terceiro ano do programa doutoral de Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (UC). Filiada no Partido Comunista Português, candidata-se num projeto de continuidade. As especificidades do seu ciclo de estudos e a resulução dos mesmos parecem ser a sua motivação nesta candidatura. O que motivou esta candidatura? Este é um projeto que teve início há dois anos. A lista reforçou-se desde essa altura até agora, e, portanto, estamos hoje com melhores condições de ter capacidade de intervir e também de conhecer os problemas de cada estudante em cada curso, porque no terceiro ciclo há situações muito díspares. Quais são as principais bandeiras que o projeto defende? O reconhecimento do trabalho
Lista N Nelson Coelho “Nós Fazemos a UC”
dos alunos do terceiro ciclo, que não são apenas estudantes, são também pessoas que produzem trabalho científico e que é valioso para a UC. Fomentar a maior participação dos estudantes do terceiro ciclo no governo da universidade. Fomentar a diversidade dos programas doutorais, ou a possibilidade de poder obter ECTS’s em várias faculdades sem acarretar custos adicionais. Também o acompanhamento das teses de doutoramento. Sobre a ação social, temos assistido a uma degradação dos serviços prestados pelos Serviços de Ação Social da UC. Sabemos que tudo tem a ver com os cortes orçamentais, mas achamos que o Conselho Geral (CG) também pode tomar uma posição sobre isso. Realizaram vários encontros com investigadores e doutorandos, para apurar os problemas e necessidades que estes têm. Como pensam participar na resolução dos mesmos? A marcação de data de entrega de teses, que é feita de uma forma cega, sem atender à especificidade de cada caso. Desde não haver material, de a universidade não conseguir comprar material necessário para os projetos, ou
O CG conta com a representação de 10 elementos externos. Achas que o número de estudantes e elementos externos é equilibrado? Não achamos. Essa é uma das nossas questões, a alteração que foi feita com este Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES) em relação à gestão da universidade. Tornou-se uma gestão muito menos democrática em que, de facto, a participação das diversas ‘sub-comunidades’ da comunidade universitária são sub-representadas. Achamos que em relação aos membros externos podia ser criado um conselho consultivo, onde eles seriam ouvidos e onde poderiam dar opinião. Não nos parece de todo democrático que quase um terço de um dos maiores órgãos de gestão da universidade seja composto por pessoas de fora da comunidade universitária. Consideras que faz sentido que os estudantes no CG votem em bloco para terem mais força? Sempre que possível, sim. Mas
também imagino que haja situações em que não seja possível atingir unanimidade e aí cada um votará consoante aquilo que defende. O facto de as eleições serem a uma quinta vai prejudicar a afluência às urnas dos doutorandos? Na reunião em que isso foi debatido fomos contra, batemo-nos por eleições a uma sexta-feira, visto que uma grande parte dos estudantes do terceiro ciclo tem aulas à sexta e ao sábado e é nessa altura que estão na universidade. Estamos a tentar colmatar isso com um maior envolvimento das pessoas.
Ana Pina Rodrigues “Dá-te Voz!”
O que é para a lista D um valor justo de propina? Em termos de justeza, seria os estudantes de doutoramento não pagarem propinas. Qual é o balanço que fazes do mandato do reitor até ao momento? O que importa realçar é que este é o primeiro reitor que não é eleito por um número significativo de elementos da comunidade universitária. Achamos que a comunidade universitária tem de ser mais envolvida, tem que ter mais papel na eleição do reitor.
Daniel alves Da silva
“Há gavetas na UC que precisam de ser abertas” Ana Duarte Ana Morais Com 24 anos, Nelson Coelho candidata-se pela primeira vez ao Conselho Geral, inspirado na experiência como membro de uma secção da Associação Académica de Coimbra. Nascido em Paris, não tem filiação partidária e encontra-se no doutoramento em Política Internacional e Resolução de Conflitos. A lista que encabeça pede mais reconhecimento ao trabalho desenvolvido pelos doutorandos e melhores condições de investigação O que motivou esta candidatura? Foi uma experiência que tive enquanto seccionista na Rádio Universidade de Coimbra (RUC), onde tive a oportunidade de entrevistar investigadores da universidade. Perguntava o que é que achavam que a universidade podia fazer mais e comecei a ver que muitos doutorandos tinham bastantes ideias e os doutoramentos podiam ser algo mais.
Daniel alves Da silva
para experiências, que têm um prazo limite. Achamos que podemos ajudar a resolver estes problemas, levando-os ao CG.
Lista D
Quais as principais bandeiras
que a lista defende? Envolver a comunidade académica na solução dos problemas. Os doutorandos são pessoas com uma capacidade crítica e analítica extraordinária. Mostrar o potencial criador da UC, o que é que os doutorandos andam a fazer, mostrar o seu valor em termos comerciais. A questão dos recursos e dos espaços: muitos doutorandos, principalmente os das áreas das ciências humanas e sociais, queixam-se que não têm um local de trabalho. Fornecer ao doutorando mais autonomia na definição do seu percurso desde o primeiro ano. Acredito numa ferramenta que já existe, mas que está muito insipiente, que é a dos três I’s: o Instituto de Investigação Interdisciplinar. Pode surgir como uma congregação de saberes. Parece-me imprescindível que um doutorando, que o queira, tenha o direito de ter experiência de ensino. Existe demasiada burocracia e entraves na aquisição de recursos materiais que um doutorando precisa para investigar.
bros externos e quem são os estudantes.
O CG conta com a representação de 10 elementos externos. Achas que é um número equilibrado? Em 35 membros, cinco estudantes e 10 elementos externos faz sentido dependendo de quem são os mem-
Este ano as eleições serão a uma quinta-feira. Isso não pode prejudicar os alunos do terceiro ciclo? Prejudica porque muitos doutorandos vêm cá à sexta-feira ter os seus seminários e depois vão em-
Faz sentido os estudantes estarem em permanente diálogo e votarem em bloco? Os estudantes têm de reunir-se e apresentar as suas ideias uns aos outros. Obviamente tem que existir a estratégia de tentar chegar a um consenso. Mais do que representar estudantes, estamos a decidir para que rumo é que a universidade deve ir. A prioridade é o diálogo. Houve um relatório sobre a Reestruturação dos Saberes (RS) que “ficou na gaveta”. Caso sejas eleito, qual é que vai ser a tua posição? Tive a oportunidade de acompanhar esse dossiê. Há demasiadas gavetas na UC que precisam de ser abertas. Acredito que a RS tenha sido um projeto muito ambicioso. Acho que se confundiu a questão: reestruturar os saberes não é reestruturar os espaços.
bora. Outra coisa que prejudica bastante é a questão dos cadernos eleitorais. Imensos doutorandos não estão nos cadernos eleitorais. Se tivermos uma pessoa que está no laboratório a trabalhar e não pode votar porque não se matriculou a tempo, acho que a administração tem de ir ver a situação. O que é para ti um valor justo de propina? A minha preocupação nesta candidatura é muito concreta: a forma de pagamento da propina no ano da entrega da tese. É exequível pensar numa forma de pagamento de duodécimos da propina no ano da entrega. Porque não a UC cobrar na medida do tempo que o doutorando demorar? Que balanço fazes do mandato do reitor até ao momento? Quando surgiu este reitor tive um bocadinho a ideia de que era o Obama da UC, vai mudar o paradigma. Vi neste reitor a capacidade de redesenhar a UC e de a projetar. Confesso que vejo que o reitor ficou um pouco de pernas cortadas no exercício da sua função e compreendo porquê. O reitor tentou promover a mudança na UC, falhou algumas apostas. Aprendeu a comunicar com os estudantes, fálo com algum arrojo e humildade.
4 de dezembro de 2012 | terça-feira | a
cabra | 5
destAque candidatos docentes e investigadores LISTA A •
LISTA E •
LISTA U •
Encabeçada pelo professor da Faculdade de direito da UC (FdUC), José de Faria Costa, a Lista A mostra a continuidade do trabalho desenvolvido ao longo do primeiro mandato do CG. Segundo Faria Costa, esta lista “faz eco de um pensamento que é essencial à UC”. Com um programa assente em seis pilares, que se podem encontrar num “horizonte em que se movem todas as ideias”, a ideia da Lista A é “a autonomia do CG”, vista e consagrada pelo quadro normativo como “uma peça fundamental”. Para o cabeça de lista, este órgão “ tem andado muito a reboque da agenda reitoral”. “A UC tem muitas fragilidades, mas também tem muito potencial”, reitera o docente da faculdade de direito, ao propor uma “participação efetiva na definição das políticas e das estratégias da universidade”, bem como a forte aposta na internacionalização da instituição. visto que é um projeto de recandidatura, há o reconhecimento de que “ houve coisas que ficaram por fazer”. Ainda assim, Faria Costa encara já o futuro: “o próximo CG vai ter um papel preponderante porque pode vir a rever os estatutos”. Não se pronunciando sobre o mandato do reitor, Faria Costa referiu também questão da fixação da propina: “a lista A estará particularmente atenta a este assunto. Já propus em CG a formação de um fundo de solidariedade para ajudar os estudantes carenciados”.
António Gomes Martins, da Faculdade de Ciências e Tecnologia, é o cabeça da lista E, liderada anteriormente pelo atual Secretário de Estado do Ensino Superior (ES), João Queiró. A lista, que é de continuidade, tem como principal linha orientadora a “defesa da UC enquanto serviço público nacional”. Gomes Martins afirma que, para a lista, este é um valor “importantíssimo na democracia” e que “a UC, além de ser a universidade mais antiga do país, é uma universidade que se preza por prestar um serviço público de qualidade” e pretende que assim se mantenha. A defesa da autonomia da universidade também é encarada pela lista E. António Gomes Martins explica que “só assegurando essa autonomia é que se consegue assegurar as restantes, como a pedagógica e a científica”. O mesmo não esquece a crise em que o país se encontra, que tem assolado as condições do Ensino Superior, afirmando que esse será o grande desafio –concretizar linhas estratégicas que não comprometam a qualidade do ensino praticado. O professor catedrático da FCTUC alerta ainda para o progressivo envelhecimento e diminuição do corpo docente, que “não tem sido compensado por contratações de rejuvenescimento”. Isto poderá levar a que “o ES fique em condições de funcionamento que não são suficientes para prestar o serviço público que deve”.
Recandidato ao CG é o professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCTUC), João Carlos Marques, pelo projeto de continuidade, a lista U. Evocando a transversalidade do programa, a lista U faz questão de evidenciar que não tem compromissos ideológicos. “Somos uma lista transversal entre duas faculdades, que é importante dizer, e não temos compromisso ideológicos”. Com o lema “por uma universidade plural, dinâmica e criativa”, o objetivo central da lista encabeçada por João Carlos Marques é “impulsionar a universidade para a sua afirmação nacional e internacional”. “O último CG não era percetível”, evidencia o docente da FCTUC ao pedir uma “política interna que evite exclusões e tenha soluções institucionais”. Para João Carlos Marques, “a academia quase não dava pelo trabalho e presença do CG”. Também a atual conjuntura financeira é lembrada pelo candidato da lista U: “neste momento pode haver a tentação de deixar cair certos setores mais desprovidos de fundos”. Assim, João Carlos Marque vê na interação das faculdades “de forma inteligente” uma das soluções. “No que diz respeito à estratégia da UC existem vários problemas de fundo” - para João Carlos Marque esta é uma realidade. No entanto, o docente refere “a necessidade de dar resposta a esta situação imediata, a situação que o país atravessa”. Também a burocratização “excessiva” é um problema para a lista U, que “está a asfixiar a universidade, a roubar-lhe energia”.
Professores e funcionários vão a votos para lugar no Conselho Geral quatro anos depois, os docentes e os funcionários da universidade de Coimbra (uC) apresentam listas candidatas ao Conselho Geral (CG). Os vários projetos estão em sintonia quando se fala das melhorias de condições da instituição, que serão dificultadas pelos tempos adversos. Por Ana duarte e Ana Morais
candidatos não docentes e não investigadores LISTA A •
LISTA I •
LISTA P •
Com a motivação de alterar algo que durante quatro anos não foi o desejado, Luz do Céu Esteves, funcionária dos Serviços de Gestão Financeira da Universidade de Coimbra (UC), encabeça a lista A para o CG. “A necessidade de alterar o facto de a representação não ter sido a que desejávamos” é o objetivo, explica a candidata. Com o lema “A©tuar”, a lista A acredita na força do “capital humano”, ao caracterizá-lo como “a peça principal e mais valiosa”. Segundo Luz do Céu Esteves, “o sucesso da UC só é possível com o empenhamento e envolvimento de todos os trabalhadores”. Relativamente ao órgão a que se candidata, a cabeça da lista A denota a pouca transparência do CG, ao referir que “nem sempre deixa transparecer a sua linha de atuação e as suas ideias”. Ainda assim, Luz do Céu Esteves mostra que “embora as deliberações sejam divulgadas, porque têm efeitos a nível externo do órgão”, isso não é suficiente. “Há muita opacidade e pretendemos que haja transparência em todos os momentos relativos a todos os trabalhadores”, vinca a funcionária dos Serviços de Gestão Financeira da UC. Quanto às opções de campanha, a lista A optou por “não haver desperdícios em termos de papel”, apostando na primazia do contacto pessoal e “privilegiando sempre o meio informático”. A ideia que deixam é a de “atuar no passado e atuar no futuro”.
Funcionário dos Serviços de Gestão Financeira da UC, Sérgio vicente é o número um da lista I, lista recandidata ao CG. Com o ‘slogan’ “Investir”, esta lista pretende reforçar a representatividade dos funcionários neste órgão: “temos consciência de ter representado bem os trabalhadores não docentes e que fizemos um trabalho relevante. Queremos continuar a fazê-lo”. As sete estratégias de atuação da lista I vão desde a valorização do mérito das pessoas que constituem a UC e da elevada qualidade na participação dos funcionários no CG, visto que “um órgão de governo e uma instituição só funciona se governar para as pessoas”. Projetar a UC dando a conhecer e rentabilizando o que tem de bom e promover a ligação com a cidade, tendo uma relação mais próxima com a sociedade também são aspetos frisados por Sérgio vicente com linhas de atuação. Sobre a representação dos elementos externos, a lista I não advoga a sua redução, pois considera que têm uma “contribuição muito importante para o desenvolvimento dos trabalhos” e podem ajudar a “ir mais além como universidade”. Sérgio vicente vinca ainda a posição da lista face às propinas: “têm um efeito perverso de deixar de fora do Ensino Superior um número significativo de estudantes”. São a favor de propinas reduzidas ao mínimo.
A lista P, liderada por António Queirós, apresenta a candidatura ao CG porque não se sentiram representados nos últimos anos. “O que queríamos era uma pluralidade que não há”, atesta o Técnico Superior dos Serviços de Gestão do Edificado, Segurança, Ambiente e Segurança e Saúde no Trabalho da UC. batem-se, em primeiro lugar, por “uma universidade que valorize o seu património”, que na opinião de Queirós e da lista, “são as pessoas”. O cabeça de lista faz questão de frisar que a designação atribuída à lista de funcionários não é correta: “é uma designação que de futuro tentaremos mudar, agora temos de nos resignar”. Assim, pretendem fazer “entender que este grupo profissional com designação pouco prestigiante e sem sentido representa mais de metade dos trabalhadores e que muitos desempenham funções altamente diferenciadas e prestigiadas”, explana o também licenciado em Medicina. A lista P pretende que a UC aumente a possibilidade formativa para os funcionários. António Queirós alerta para o ensino à distância como forma de solucionar a proposta: “ é uma ferramenta que esta a ser desenvolvida na UC e que poderá servir este propósito”. Sobre a representatividade no CG, o Técnico Superior afirma que “a longo prazo, gostaríamos de atingir a paridade”.
6 | a cabra | 4 de dezembro de 2012 | terça-feira
eNsINO suPeRIOR
Conjuntura financeira da UC prejudicou mandato dos conselheiros estudantis em altura de fim de mandato, os cinco conselheiros estudantis no Conselho Geral (CG) da universidade de Coimbra (uC) analisam o trabalho desenvolvido e relembram as falhas. A falta de exteriorização do órgão e a conjuntura financeira da uC bloquearam a ação dos representantes. Por Liliana Cunha e Ana Morais arQuivo - fÁBio roDrigues
Depois de dois anos de mandato no conselho geral da universidade de coimbra, os cinco estudantes conselheiros fazem um balanço da sua atividade
O
desconhecimento dos estudantes relativamente ao CG há cerca de dois anos era de mais de 60 por cento. Ignoravam-se as suas competências, apesar de o número de candidaturas aos lugares de estudantes conselheiros ter sido superior. O mandato começou em 2010 e, ao contrário dos restantes membros que compõem o CG, é de apenas dois anos. Chegados ao fim desse ciclo, os cinco estudantes conselheiros fazem um balanço do seu trabalho no órgão de gestão da UC. “É um órgão que continua muito fechado em si mesmo, ninguém sabe muito bem o que faz, quando reúne e porque reúne.” A pouca familiaridade com o CG parece ainda não ter sido revertida ao longo do último mandato dos estudantes. Quem o diz é Filipe Januário, conselheiro eleito para o primeiro e segundo ciclo. O também conselheiro, Pedro Tiago, não crê que “haja um aumento drástico no conhecimento dos alunos do órgão e da instituição”. Luís Rodrigues, já representante no CG há dois mandatos e recandidato, considera que “todos os estudantes sabem que a universidade tem de ser governada de alguma maneira”. No entanto, o
mesmo alerta para o facto de a comunidade estudantil não entender a composição orgânica da UC. Por sua vez, o conselheiro Pedro Pacheco encontra na eleição do reitor o momento-chave para impulsionar uma “maior atenção por parte dos estudantes”. Todavia, o conselheiro eleito pelo terceiro ciclo, Pedro Nunes, pede “uma consciencialização para representar melhor a comunidade como um todo”. A tónica da comunicação reservada também é unânime. “Este mandato foi muito apertado em termos de comunicação com o exterior”, corrobora Luís Rodrigues. Os estudantes tentaram mas o regimento do CG só será mudado no próximo mandato. E as vias de acesso aos alunos, funcionários e docentes, e até sociedade civil, estará facilitada com a criação da plataforma Inforestudante – “é muito mais fácil enviar uma notificação que o reitor, o CG ou o Senado queiram enviar”, explica o conselheiro. O objetivo dos estudantes é “passar o máximo de informação possível daquilo que é o quadro do CG”, atesta Pedro Nunes, mas as regras, “de certa forma rígidas relativamente àquilo que pode ser ventilado face ao funcionamento
corrente”, podem prejudicar o envolvimento de quem está longe do meio.
“É fácil passar ao lado dos estudantes” Quem consultar a página do CG tem apenas acesso aos relatórios. E isso só foi possível neste mandato. Ainda assim, é insuficiente para manter os estudantes ao corrente do que se passa lá dentro. Desta forma, “é fácil passar ao lado dos estudantes”, como justifica Filipe Januário. A falta de exteriorização antes das deliberações bloqueia a resposta atempada dos estudantes face ao que se possa decidir. “O CG ganharia se os seus trabalhos pudessem ser escrutinados por toda a gente”, concretiza Pedro Tiago. A falta de assento do presidente da Direção-geral da Associação Académica de Coimbra é também apontada como mais uma falha para trazer os problemas reais dos estudantes à Universidade. A questão da concertação do voto dos estudantes foi defendido por todos os estudantes conselheiros em campanha para colmatar a falta de representatividade. “Defendi que temos de ser em uníssono, somos cinco em 35. Nunca podía-
mos internamente mostrar essas divisões”, assevera Filipe Januário. Opinião corroborada por Pedro Tiago, que explica que tentou “passar uma visão de unidade”. Por sua vez, Luís Rodrigues encontra na eleição do reitor um momento “fraturante” nesta união: “tínhamos de nos pautar pelo interesse dos estudantes, mas não podia ir contra a minha consciência”. Da mesma forma, Pedro Pacheco considera que o “consenso não foi possível” nesta decisão. Porém, Pedro Nunes refere que a união dos cinco conselheiros “não desvaneceu depois da eleição”. Ainda assim, o representante do terceiro ciclo alerta que “não há um compromisso possível porque a representação digna dos eleitores [terceiro ciclo] não permite uma posição conjunta”, devido às especificidades deste ciclo de estudos, onde a maioria dos estudantes não passa o tempo integral na universidade.
O que ficou por fazer? Em resposta a esta questão, os conselheiros estão de acordo ao referirem que a conjuntura económica, externa à UC, é a principal razão por não terem feito mais. “Tinha a ambição, talvez utópica, de dar aos
estudantes de Psicologia e Desporto melhores condições físicas”, recorda Pedro Pacheco. Apesar de todos os membros do CG terem sido unânimes em considerar a insuficiência nas estruturas físicas das faculdades, faltou o dinheiro. “A certeza é que foi um mandato ingrato, porque os estudantes viramse obrigados a concordar com o reitor em tudo o que é a estratégia para a universidade”, reitera Pedro Pacheco. Também Filipe Januário evoca esta problemática: “as coisas que ficaram por fazer têm muito a ver com as limitações financeiras da universidade”. No que diz respeito à representação do terceiro ciclo “é muito, muito minoritária”, afirma Pedro Nunes. Só agora o mandato foi cumprido em pleno, uma vez que Pedro Nunes havia sido o único candidato há dois anos. Por isso o trabalho foi importante para a afirmação dos doutorandos. Inês Almeida, suplente da mesma lista, substituiu este conselheiro numa reunião do CG e adianta que apenas “foi feito um balanço do mandato dos quatro anos do CG, já não foi uma reunião onde se tivessem de tomar decisões, foi um fim de ciclo”.
4 de dezembro de 2012 | terça-feira | a
cabra | 7
eNsINO suPeRIOR
Boicotantes recebem ordem fiscal stephanie sayuri paixão
A uC está a despachar ordens de execução fiscal relativas ao boicote às propinas que se realizou há uma década atrás. Alerta-se para a ilegalidade do acervo já que a dívida prescreveu Liliana Cunha “O que tem acontecido é que a Universidade de Coimbra (UC) está a instaurar processos de execução a vários estudantes de dívidas de há muitos anos e não tem base legal para o fazer”, começa por explicar Lúcia Gomes, aluna da UC no ano de 1998 até 2003. Foi uma das estudantes que resolveu boicotar o pagamento das propinas. Se esta estudante de Direito tivesse ingressado no ano letivo anterior poderia fazer o boicote sem cargo de consciência já que havia sido decretada a suspensão da propina. Contudo, os tempos de luta pelo ensino que se prevê tendencialmente gratuito na Constituição da República Portuguesa foram audazes. Maria Santana estudou Filosofia na UC e também boicotou. Chegou a Coimbra no auge da luta – em 1992. Até agora não pagou nem um tostão da sua licenciatura. Mal teve hipótese inscreveu-se imediatamente num estágio com vista à formação educacional e comprometeu-se até ao fim de entregar o certificado. “Agora, o problema é sempre que é preciso pedir alguma coisa na secretaria, na Filantrópica eles mandam-me um rol com as dívidas todas que tenho das propinas”, afirma num tom sarcástico a agora professora. Maria Santana nunca pagou o certificado de habilitações. Mas exerce a profissão.
6 Ricardo Morgado
Presidente reeleito da Direção-geral da Associação Académica de Coimbra
os depoimentos de três estudantes dos anos 90 na uc lembram a possibilidade de nos dias de hoje também se poder recorrer ao boicote Ricardo Matos é outro dos alunos que à época também não pagou as propinas. Até então. “A universidade, face a esses dois anos, vem tentar converter uma dívida mais do que prescrita e lançar a autoridade tributária sobre nós”, evoca o agora “engenheiro informático”. Entre aspas porque não tem o certificado. Na realidade nunca lho pediram. “Sempre trabalhei como informático e engenheiro informático na prática”, atesta o estudante que entrou para a Faculdade de Ciências e Tecnologia em 1993.
“Já existiam mais de 16 mil boicotantes” Os anos de 94 e 95 ferviam com o facto de no mandato de Cavaco Silva a primeiro-ministro a propina poder subir de 250 euros para 1000 euros. Por essa altura, dois destes estudan-
tes estavam na universidade. “Quando avançámos para o boicote já tinha existido toda uma contestação na academia. Foram anos inteiros de discussão sobre essa matéria”, frisa Ricardo Matos que até foi membro de quatro Direções-gerais da Associação Académica de Coimbra dessa década. “Já existiam mais de 16 mil boicotantes”, garante o estudante de Engenharia Informática. Transposto para os dias de hoje seria um número que abarcaria mais de 70 por cento de toda a comunidade estudantil. “Embora houvesse muita gente que se apercebia que não se aplicava qualquer sanção ou qualquer problema, houve muita gente que ficou sem pagar mesmo não havendo esse apelo”, recorda Matos. A lembrança destes tempos boicotantes faz com que Maria Santana continue a defender que se tem de ir “no sentido de
boicotar para tomar uma posição, não é o boicote pelo boicote, é para a afirmação de uma posição”.
Boicote hoje? A ordem de execução fiscal está a ser enviada a todos os estudantes da UC que devam alguma coisa que remonte a estes anos. Lúcia Gomes, que entretanto não conseguiu levar o boicote adiante por ter de pagar o certificado e as propinas para poder ter acesso à ordem adianta que “estes estudantes não receberam a carta a não ser em 2012”. Lúcia está a ser a advogada de cerca de nove casos deste tipo (incluindo o de Ricardo Matos) que interpôs um recurso de oposição ao Tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra. “Neste momento as execuções estão a ser tratadas como um imposto quando não devem ser. Já nem se-
quer tem fundamento legal porque na altura não o podiam fazer e porque já passaram os quatro anos em que eles podiam notificar as pessoas para pagar”, admite. “É exigir porque neste momento o valor da propina é obsceno. É uma espécie de direito de resistência”, adianta a advogada. Lúcia e Ricardo acreditam que vão conseguir levar a oposição avante e não pagar o valor em falta. E quanto à possibilidade de um boicote nos dias de hoje, Lúcia acha que a questão se coloca “ainda com mais força”. Matos pensa que antes de se ponderar o boicote ,“é importante ter a academia consciencializada e mobilizada pronta para lutar”. Quanto a Maria, que teve uma frequência no Ensino Superior gratuita, afirma que “nem só é possível como é desejável” o boicote a esta taxa.
“A minha predisposição para ser candidato não era a mesma” Ricardo Morgado foi pela segunda vez o eleito para liderar a Direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC). A sua reeleição fica marcada pelo grande número de votos em branco e pelo facto de ter a adesão mais baixa dos últimos três anos Como vês estas eleições? Cumprimos o nosso objetivo que era vencer à primeira volta. Não posso não deixar de dizer que nos deixa muito desiludidos a baixa adesão às urnas que surgiu. Estamos a falar num universo de quase cinco mil votantes quando o ano passado foi o dobro. Houve mais votos brancos do que qualquer uma das duas listas, no entanto, estamos satisfeitos. A tua lista foi a única que
não foi apresentada oficialmente. Só se soube dos membros da tua lista muito pouco tempo antes dos dias eleitorais. Porquê? Não foi feito porque foi muito difícil coordenar a agenda de presidente com o calendário de candidato. Depois, porque houve decisões nos lugares cimeiros que também ficaram para a última. Não consegui gerir este processo como no ano passado. Foste falar com as pessoas sobre o teu projeto? Sim. Claro que no ano passado falei em muitas aulas e tive cafés com pessoas individualmente para explicar o projeto. Este ano não. Agora as pessoas tinham uma coisa que há muito tempo não tinham – um recandidato. Este ano houve uma redução para metade nos votantes, mas nós não reduzimos para metade. A
minha predisposição para ser candidato não era a mesma. O número dois da tua lista disse que os votos brancos para ele não interessavam no momento. Desde há muitos anos que os votos em branco, e já aconteceu isso no ano do Miguel Portugal e com o Eduardo Melo, são a segunda grande força política. O que quer dizer que são de protesto contra a DG/AAC ou não acreditam em nenhuma das listas. É impossível definir o que é um voto em branco. Carregas algum peso com eles ou excluis a importância? Não excluo a importância, mas os votos nas outras listas e os em branco não podem ser uma preocupação. A minha responsabilidade enquanto presidente agora eleito tem de ser a
mesma com 99 por cento ou por 51 por cento. Não nos podemos esquecer que vivemos um momento no país muito difícil em que as pessoas descredibilizam muito as coisas, isto também chega a Coimbra. Temos infelizmente uma juventude muito afastada da política e tudo aquilo que é associativismo. O Conselho Fiscal (CF) teve mais votos que a DG/AAC e a Assembleia Magna. É uma indignação com o CF de até então? Houve uma diferença mais para o CF. Posso entender mais facilmente esse resultado que os votos brancos como um protesto mais direto e real à DG/AAC. Ao projeto, contra mim mesmo, as pessoas que escolhi e tudo que tenha a ver com lista L onde eu me incluo. Liliana Cunha
8 | a cabra | 4 de dezembro de 2012 | terça-feira
CuLtuRA
Aniversário com Pina e PO.EX cá
cultura por
A poesia encerrou as comemorações do segundo aniversário da Casa da escrita, no dia 30 de novembro, com a “evocação” a Manuel António Pina e a inauguração de “Nas escritas PO.eX”. Por Beatriz Barroca
20 NOV
"O LAçO BRANCO" CineMa aMsCav 21H30 1€ C/desContos
21 NOV
NORBeRtO LOBO MúsiCa tavgv • 21H30 7,5€ C/desContos
21 a 1 NOV
DEZ
“MIM - My INNeR MINd teatro Centro de neuroCiênCias e BioLogia CeLuLar 21H30 • 10€ C/desContos
22 NOV
JOsé duARte Conversa Conservatório de MúsiCa 21H30• entrada Livre
22 e 26 NOV
“OPeRAçãO OutONO” CineMa tagv • 21H30 4€ C/desContos
24 NOV
GOBI BeAR MúsiCa aqui Base tango 23H30 • entrada Livre
27 NOV
“sALVAdOR AO VIVO” stand-up CoMedy tagv • 21H30 10€ C/desContos
28 NOV
shAkesPeARe NO CINeMA
29
CineMa Casa das CaLdeiras 18H30 e 21H30 entrada Livre
NOV
ÓsCAR e A seNhORA COR-de-ROsA teatro Conservatório de MúsiCa 21H30 • 10€ C/desContos
A
Daniel alves Da silva
“Evocação” começou precisamente com música de Erik Satie como pano de fundo, ao mesmo tempo que eram projetadas fotografias de Manuel António Pina, juntamente com a declamação de poemas do mesmo. Num registo muito íntimo, o escritor, e amigo de Manuel António Pina, Álvaro Magalhães, contou ao público que ali se juntou algumas histórias do escritor, que escrevia literatura para crianças, «mas “para” com muitas aspas», porque “os livros são pura e simplesmente” livros. Ao escrever para os mais novos, “escrever não é mais do que brincar”. Para Pina, os livros eram como “objetos literários não identificados”, sendo que o seu livro preferido era o de Winnie the Pooh. No âmbito da poesia, “o poeta é aquele que vê, está em todo o lado”, e Álvaro Magalhães confidencia que é “O Inventão”, obra de Manuel António Pina, “que funda o lugar de poeta”. E como dizia Winnie the Pooh, que Pina citava, “devemos deixar ir as palavras da forma que lhes der jeito a elas”, porque o argumento de um livro depende somente das palavras. E há muitas outras coisas que vamos descobrindo sobre o cronista. A forma como escrevia as suas crónicas, “sempre à última da hora”, explica Álvaro Magalhães. E também como tinha, por vezes, dificuldades em escrever: “eu não tenho ideias nenhumas!”, dizia o Prémio Camões 2011. O seu sentido de humor era também conhecido: “ligava às 4h da manhã para contar uma anedota”,
NOV
suPeRNAdA MúsiCa tagv • 21H30 12,5€ C/desContos
Por Daniel Alves da Silva
confidencia Álvaro Magalhães. Manuel António Pina marcava-se por ser carismático, “uma pessoa de ‘gaffes’”, mas rigoroso nas crónicas: “gostava de ler manuais de instruções”, tinha boa memória e recitava poemas de cor. A sessão terminou com o declamar de mais alguns poemas de Pina, sendo que o último, de João Rasteiro, “Espera um pouco”, constitui uma homenagem deste ao poeta. O Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, João Paulo Barbosa de Melo, fecha o evento com a premissa de que com esta “Evocação” “progredimos em conhecer alguém, ganhá-
mos qualquer coisa”.
“Tensão entre o ser e o tempo” Com o término de um evento, iniciou-se, logo de seguida, a inauguração de um outro: “PROGESTOS_OBGESTOS, 1972-2012”, de António Barros, integrado no ciclo “Nas Escritas PO.EX”. Uma exposição de poesia experimental, que estará patente até ao dia 21 de dezembro, e de entrada livre. Esta é a segunda inicitiva do evento “PO.EX”, que se iniciou no dia 3 do mês de outubro. O comissário da exposição,
Jorge Pais de Sousa, informa que o “PO.EX” é um “movimento artístico complexo, que começa na literatura e vai para a música, vídeo, performance, etc.”. Assim, a poesia experimental tem “impacto na atualidade”. A exposição de António Barros é uma “tensão entre o ser e o tempo”, onde o próprio artista se apresenta: “o autor e o artista não explicam a sua obra, mostra a obra.” E acrescenta ainda: “é uma escrita do mínimo de palavras, de poucas palavras”. A exposição ocupa vários andares da Casa da Escrita, sendo composta por, essencialmente, jogos de palavras.
Café-teatro reabrirá parcialmente este mês Após ter encerrado há algumas semanas para obras, o funcionamento café-teatro do tAGV será retomado nos próximos dias, com novo concessionário Daniel Alves da Silva
30
a sessão, na casa da escrita, terminou com a dclamação de poemas de Manuel antónio pina
O café-teatro, parte integrante do Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), encontra-se fechado, estando a sofrer uma remodelação. Depois de ter expirado o contrato com o anterior concessionário, e de terem sido efetuados dois concursos públicos para uma nova concessão, vislumbra-se finalmente a reaber-
tura do espaço. O processo de remodelação do café-teatro atrasou-se, em primeiro lugar, devido à realização de um concurso que “não permitiu chegar a um concessionário novo” e efetuar as obras de remodelação em agosto, como explica o diretor do TAGV, Fernando Matos de Oliveira. “Abrimos um segundo concurso com novas condições de funcionamento, horário, e também baixámos o valor da renda”, acrescenta, aparecendo assim “algumas candidaturas interessantes”. A concessão foi atribuída a Luís Lapa Vitória, que tem experiência, explorando um café-teatro na cidade de Munique, tendo vontade, em Coimbra, de “criar um espaço cosmopolita”, segundo Matos de Oliveira. O segundo fator que impede uma maior celeridade no processo de re-
modelação do café-teatro é a classificação do edifício do TAGV como Imóvel de Interesse Público. “Exige cuidados na intervenção que se tem”, como refere o diretor, já que o próprio espaço está integrado no projeto da candidatura a Património Mundial da UNESCO. As intervenções no café-teatro decorrerão em duas fases: a primeira, com uma pequena mudança no balcão e renovação da maquinaria do bar, incidindo também na iluminação e no sistema de som. É assim que o café-teatro abrirá ao público, nas próximas duas semanas. Um investimento de várias dezenas de milhares de euros, suportado pelo concessionário. A segunda intervenção, que dotará o café-teatro de copa para a confeção de refeições, permitirá ao TAGV oferecer “jantares-espetáculo” ou “jantares-concerto”,
articulando assim a programação do teatro ao funcionamento do espaço café-teatro. Contudo, o início dessa próxima fase “não depende do concessionário”, mas dos Serviços de Gestão do Edificado, Segurança, Ambiente e Segurança e Saúde no Trabalho da Universidade de Coimbra, responsáveis por “um plano de intervenção para a criação das tais condições de apoio”, como assevera Fernando Matos de Oliveira. A incorporação do piano bar, prevista nessa segunda fase de intervenção e que permitirá uma maior articulação da programação do teatro com a do café-teatro, ainda irá demorar. O diretor aponta o primeiro semestre de 2013 como o período em que as intervenções ficarão concluídas, depois de cumpridos todos os processos burocráticos necessários à realização das obras.
4 de dezembro de 2012 | terça-feira | a
cabra | 9
CuLtuRA Daniel alves Da silva
Hardcore
Estará o movimento a fervilhar?
Com o objetivo de manter o espírito hardcore vivo, um grupo de amigos decidiu criar a Zona Centro hardcore. Numa altura de crise, poderemos assistir ao renascer do movimento? Por daniel Alves da silva
A
É nas imediações do States Club, em Celas, que numa gélida sexta-feira se começam a juntar alguns fãs do hardcore e do metal. “O hardcore é um movimento da rua”, revela Ricardo Martins, mais conhecido pela sua alcunha Libelinha. Um dos mentores da Zona Centro Hardcore (ZCH) resume assim o espírito do movimento. Quando os fundadores começaram a ir aos concertos, em Lisboa ou ao Porto, repararam que viam várias vezes as mesmas caras. “Começámos a perceber que eram de Coimbra”, explica Libelinha. A ZCH surgiu mais tarde. “Foi na altura em que fomos a um festival marcante”. É assim que Libelinha define o Resurrection Fest, o festival em Vivero, na Galiza, que reúne um cartaz rico em hardcore, punk e metal. Como estiveram tanto tempo juntos, a preparar a viagem, surgiu a ideia: trazer bandas, começar a mostrá-las às pessoas. Retomando as ideias que já tinha fazer uns concertos em Coimbra. “Vamos fazer uma coisa em Coimbra, vamos fazer acontecer em Coimbra”, palavras de Libelinha que servem de mote à ZCH. Responderam mais de cem pessoas ao apelo de mais uma noite de hardcore com travo a metal no último evento organizado pela ZCH. O States recebeu os conimbricenses Fight Today e os Switchtense, originários da Moita. Uma união de públicos. Como refere Jorge Castanheira, também da ZCH “há uma maior aceitação dos nichos”. Há público que começa a unir-se sob uma só bandeira. «Não o metal, não o hardcore, mas o ‘underground’», sentencia. Os Fight Today surgiram pela mão, ou melhor, pela guitarra de Libelinha. “Já tinha pensado na minha cabeça fazer uma banda de hardcore”, confessa. Quando começou com a ZCH a organizar os concertos em Coimbra, decidiu “andar com o projeto para a frente”. Com Hélio Moreira nos vocais, o guitarrista Carlos André Pinto, Xico Dinamite no baixo e ba-
teria a cargo de Fernas, a banda surgiu. Para haver pelo menos uma banda hardcore de Coimbra, “ligada não só à zona centro”, mas para mostrar que é possível fazer hardcore na cidade. A banda apresentou as suas composições num concerto que, apesar de curto, ficou marcado pela satisfação da banda e público, que nas filas da frente se entregou ao moche.
Entre o punk e o metal Para o radialista Nuno Ávila, o hardcore foi um movimento que “já teve alguma visibilidade em Coimbra” na altura em que o Centro de Trabalhadores de Celas trouxe algumas bandas desse género. O movimento de Celas foi, para Libelinha, paradigmático. Recordase de ter assistido ao concerto dos X-Acto, “a banda de referência do hardcore”, na época. Um concerto que nunca se irá esquecer. Estava muita gente do hardcore. Coimbra vivia nessa altura do rock e do punk mais niilista. Quando a malta do hardcore apareceu, “a querer falar de política nos concertos”, de assuntos sociais, foram mal recebidos pela “malta do punk”, confidencia Ricardo Martins. Havia uma música dos X-Acto que se chamava “Too Much Smoke”. “Eles pediam às pessoas
O hardcore pode agregar outros públicos. É “um filho do punk que é bastardo do metal” do público para pousarem os cigarros”, conta Libelinha, para os não fumadores terem o direito de estar num local sem fumo. Lembra-se do pessoal mais velho, começava “tudo a acender cigarros”. Na música seguinte, chamada “Carne é Crime”, via-se o pessoal a “vir todo cá fora, comprar cachorros e hambúrgueres”, desafiando a banda. Para Libelinha, “o hardcore já está a voltar”. Não está na moda,
a Zona centro hardcore tem vindo a organizar concertos para manter vivo o movimento mas começa-se a evidenciar. Numa fase de crise, “o hardcore volta outra vez a fazer sentido”. O hardcore pode agregar outros públicos. É “um filho do punk que é uma espécie de bastardo do metal”. Daí que na organização dos concertos, há sempre algo “para o pessoal do metal e para o pessoal do punk”, continua Libelinha. “Sempre dentro da família dessa raiz musical”, adita. São poucos, querem pessoas para conversar, para trocar ideias. “Porque a base dessas três correntes musicais é isso, é a troca de experiências”, a partilha do conhecimento, acrescenta ainda.
Movimento com seguidores “Queremos soltar a nossa raiva, e o hardcore sempre foi isso”. Libelinha volta a sintetizar o movimento numa só frase. Apesar da dificuldade em arranjar espaços para os concertos. “O objetivo é continuar a trazer cada vez mais e melhores bandas”, assume Libelinha. Já conseguiram trazer alguns dos maiores nomes do hardcore nacional e algumas bandas internacionais. Para
além disso, já estão marcadas datas com bandas internacionais até março de 2013. “Se começar a haver mais concertos, há pessoas que vão começar a aparecer mais”, refere Nuno Ávila. “O movimento começa a fervilhar e a ter mais seguidores”, já que segundo o radialista “ainda há público com apetência para ver este
“Se as bandas não tocam, não aparecem, logo não existem”, afirma o músico Libelinha género de bandas”. Depois da enérgica atuação dos SwitchTense, onde sobressaiu o ‘headbang’ sincronizado dos espetadores com algum ‘crowdsurfing’ à mistura, chega o momento de tentar perceber qual a recetividade do público. Ricardo Pereira assume vir sempre que pode ao States, ver todas as bandas. “Há que apostar em Coimbra”, continuar o esforço. Ficou contente por ver uma casa
cheia. Assume que uma das melhores formas de divulgação destes movimentos é o passa-a-palavra, “entre amigos”. Resumindo, “se as bandas não tocam, não aparecem, logo não existem”, afirma Ricardo Martins. E acrescenta: “podem ainda estar na garagem”, esperando uma oportunidade para mostrarem o seu valor. “O que eu digo é para o pessoal se mexer, para fazerem acontecer”, aconselha o músico. Para Nuno Ávila, “se houver concertos, se o público aparecer, se começarem a aparecer discos, algumas reportagens, se as coisas começarem a ser faladas”, os jovens que estão a começar uma banda podem sentir-se atraídos para o género. “Se aquela banda conseguiu, nós também poderemos conseguir”, é o pensamento que ecoa no espírito das novas bandas, segundo o radialista. “Poderá, de facto, haver aí um renascer mais forte do movimento hardcore”, finaliza. Pode-se questionar se este despertar do hardcore é chama efémera ou a semente de uma cena que, nas palavras de Jorge Castanheira, ou Piri, “está a explodir”.
10 | a cabra | 4 de dezembro de 2012 | terça-feira
desPORtO coimbra templars
rafaela carvalho
rafaela carvalho
rafaela carvalho
rafaela carvalho
os coimbra templars treinam no parque verde da cidade aos domingos à tarde
O ‘kickoff’ de um novo projeto Já ouviu falar em ‘touchdown’, ‘endzone’ ou ‘quarterback’? Não são termos tão reconhecidos como ‘penalties’ ou ponta-de-lança, mas surgem agora no desporto português associados a uma modalidade que se expandiu a partir do outro lado do Atlântico - o futebol americano. Por Rita Abreu e tiago Rodrigues
V
isto por muitos como um desporto violento, o futebol americano vai alcançado, ainda assim, uma maior quantidade de praticantes e adeptos. É uma modalidade de equipa e de contacto que, apesar de muitas vezes confundido com o râguebi, por ser uma variação deste, dá mais importância à velocidade, agilidade e capacidade tática. Surgiu nos Estados Unidos da América, sendo um desporto extremamente popular, em particular nas universidades, onde se iniciou e desenvolveu. Em Portugal, este desporto começou a ser praticado há cerca de sete anos, com a formação de duas equipas, os Porto Renegades e os Lisboa Navigators. Existe até uma Liga Portuguesa de Futebol Americano (LPFA) que na primeira edição, em 2009, contou com cinco equipas, quatro delas portuguesas e outra espanhola, com o estatuto de equipa convidada. Este ano vai realizar-se a quarta competição da LPFA e as expetativas são favoráveis, visto que o número de equipas tem vindo a aumentar gradualmente. Espera-se, portanto, uma maior competitividade em relação às edições anteriores, todas vencidas pelos tricampeões Lisboa Navigators. Os projetos já criados neste âm-
bito impulsionaram uma nova vaga de desportistas que optam por esta modalidade, que está em fase de crescimento com o aparecimento de novas equipas, como os Coimbra Templars. “Assim como todas as equipas foram um exemplo para nós, também vamos ser um exemplo para outras equipas e cidades mais próximas”, explicam Darlann Mendes e Miguel Malato, os dois impulsionadores deste novo projeto. A ideia surgiu de uma outra
“Assim como todas as equipas foram um exemplo para nós, também vamos ser um exemplo” iniciativa, os Coimbra Black Wolves, que, por falta de divulgação e adesão, falhou: “acabei por me desleixar nesse aspeto, pois também não queria aceitar a responsabilidade de ter de gerir uma equipa, e o projeto, o primeiro de futebol americano na cidade, acabou por morrer”, confessa Miguel, o mentor de ambas equipas. Os Coimbra Templars são um projeto relativamente recente, nascendo de uma parceria entre dois
ex-jogadores que decidiram criar uma equipa em Coimbra. Miguel, que já foi jogador dos Porto Renegades, explica como tudo começou: “conheci o Darlann (que já tinha jogado futebol americano no Brasil) pelo Facebook, e queria participar nos treinos do Porto. Mas depois chegámos à conclusão que isso ficava caro para nós e acabamos por ter esta ideia em conjunto”.
A união faz a força Em relação à composição da equipa, o número de participantes que compareceram no primeiro treino foi de pouco mais de uma dezena, sendo que apenas metade deles deverão permanecer empenhados no sucesso do projeto. A seleção dos jogadores rege-se apenas por um critério, que é ter pelo menos 17 anos, a idade mínima exigida para participar na Liga, que é o objetivo a longo-prazo idealizado pelos fundadores dos Coimbra Templars. Darlann revela que essa é a beleza do futebol americano: “joga o magro, o gordo, o alto, o lento… Qualquer um pode jogar! Cada um tem uma função especial no jogo”. É um desporto que se caracteriza pelo seu jogo em equipa, que funciona como uma unidade, e não existe uma estrela, explica Miguel
Malato: “um bom ‘receiver’ [jogador rápido em posição ofensiva que se desloca em rotas curtas e longas para receber passes] que apanhe bem a bola, se não tiver um ‘quarterback’[o jogador que faz o lançamento] que passe bem ou uma boa linha defensiva que o proteja é indiferente”. Neste momento, os Coimbra Templars, tal como outras equipas portuguesas, não têm treinador. São os jogadores mais experientes
“Já tentei entrar em contato com a AAC para nos fornecerem um campo, mas ainda não obtive resposta” que vão orientando os novos praticantes, pois, sendo um desporto recente em Portugal, a tarefa de encontrar um técnico torna-se mais complicada. “Mesmo que um jogador possa não saber nada quando entra na equipa, passados dois meses pode saber mais que outro que já lá está há dois anos”, justifica Darlann. É uma modalidade que requer interesse, estudo das regras e táticas e empenho por parte de cada jogador.
Uma questão de treino Para os Coimbra Templars, o objetivo dos últimos treinos passa por transmitir a forma como o jogo funciona, as regras e táticas, porque muitos dos novos praticantes não as conhece. Como o número de jogadores ainda é reduzido e por não haver equipamento, “não dá para treinar com toda a “essência” do desporto”. Miguel e Darlann deparam-se com um outro problema: “como a maior parte das pessoas que participa nos nossos treinos são estudantes da universidade, muita gente tem aulas até às 20h e, durante a semana, só pode treinar à noite”. Os treinos têm-se realizado no Parque Verde do Mondego, aos domingos, à tarde, pois para puderem fazê-lo durante a semana seria necessária a cedência de um campo com melhores condições. “Já tentei entrar em contato com a Associação Académica de Coimbra para nos fornecerem um campo, como o de Santa Cruz ou o [Estádio]Universitário, mas ainda não obtive uma resposta”, afirma Miguel. Para o jogador, esse cenário seria o ideal, pois qualquer ajuda era boa para a equipa. A curto-prazo, os objetivos são conseguir um campo para os treinos, divulgação e a adesão de um maior número de jogadores.
4 de dezembro de 2012 | terça-feira | a
cabra | 11
CIêNCIA & teCNOLOGIA espaÇo
O desconhecido aos nossos olhos
do primeiro telescópio às pegadas do homem na Lua passaram-se somente quatro séculos. O universo, que já foi motivo de temor e crenças humanas, vai-se tornando mais claro para nós. Por stephanie d’Ornelas e Joel saraiva
E
ntre signos do zodíaco e descobertas de novos planetas há muita diferença. Astronomia e astrologia são palavras parecidas mas não têm, no entanto, grande relação entre si. “Muitas pessoas vêm à Secção de Astronomia perguntar pelo que o seu horóscopo lhes reserva”, afirma o vice-presidente da Secção de Astronomia, Astrofísica e Astronáutica da Associação Académica de Coimbra (SAC), Luís Antunes. A partir dos estudos astronómicos é possível compreender o nosso passado e também antever como será a evolução do cosmos. “A astronomia serve para conhecer como surgiu o universo e as nossas origens. A partir do passado é possível fazer uma previsão minimamente fiável do futuro”, explica Luís Antunes. De uma forma sucinta, a astronomia tem como objetivo estudar tudo aquilo que se encontra para lá da atmosfera terrestre - nomeadamente os astros, os planetas e os demais corpos celestes. A partir disso, esta ciência procura entender o funcionamento do universo e do nosso planeta. “A Terra é um astro que interage com outros e daí que certos fenómenos terrestres, como alguns fenómenos atmosféricos e o efeito de marés, também sejam incluídos na astronomia”, explicita o membro
da direção da Sociedade Portuguesa de Astronomia (SPA) e professor assistente na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Viseu (ESTV-IPV), Alexandre Aibéo. A grande rotura na astronomia advém da criação do telescópio no início do século XVII. Anteriormente, o ser humano contava apenas com a sua própria visão para presumir o que acontecia além do céu. Quatro séculos depois, este instrumento evoluiu e passou por diversas melhorias, assim como a astronomia em geral. “Do ponto de vista filosófico, a astronomia, como todas as ciências, é agora guiada por um processo objetivo e racional, e não pelas correntes sociais ou religiosas, como era o caso na altura de Copérnico ou de Galileu. De resto, a tecnologia evoluiu imenso e permite-nos hoje fazer perguntas aparentemente mais avançadas, mas o processo é o mesmo, continuamos a olhar o céu”, resume Alexandre Aibéo.
A relação entre Portugal e a astronomia O primeiro curso superior que surgiu em Portugal, na área da astronomia, foi em 1984, seguindo-se-lhe mestrados e doutoramentos. Hoje existem vários centros de investigação no país, muitos deles com inser-
ção internacional. Em Coimbra, existe o Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra (UC), onde é realizada investigação em astronomia e astrofísica. Além disso, existem grupos de estudo astronómicos amadores na cidade, como é o caso do Alfa Centauri, fundado em 2008. De acordo com Luís Antunes, os astrónomos amadores têm uma maior dificuldade nas grandes cidades. “Muita luminosidade implica não conseguir observar”, diz. No panorama internacional, Por-
Alfa Centauri, fundado em 2008, é um dos grupos astronómicos amadores da cidade tugal está integrado no ESO (European South Observatory – em português, Observatório Europeu do Sul). A participação no ESO “tem trazido coisas boas para Portugal”, refere o astrónomo e professor auxiliar no Departamento de Matemática (DM) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC (FCTUC), João Manuel Fernandes. De acordo com o astrónomo, o ESO tem contri-
buído muito com estudos cósmicos atuais, já que detém os melhores telescópios da atualidade, dentro da sua classe. O VLT (Very Large Telescope) e o Alma, acrónimo de Atacama Large Milimetre and Sub-Milimetre Array, são telescópios únicos em termos tecnológicos, e o E-ELT (European Extremely Large Telescope) promete ser o primeiro telescópio gigante do mundo. “Os países membros do ESO, como Portugal, têm assim uma vantagem competitiva importante sobre os restantes, que estão de algum modo limitados ao uso de telescópios menos avançados”, conta a astrónoma e membro da direção da SPA, Joana Ascenso.
O salto entre a Terra e a Lua A transposição da última fronteira do Homem ocorreu durante a Guerra Fria, com a corrida ao espaço por parte das duas potências mundiais, os EUA e a URSS, “sendo esta uma tremenda demonstração de poder”, afirma Alexandre Aibéo. A pegada do ser humano em solo lunar, protagonizada por Neil Armstrong, continua em aberto, responsável por uma das grandes dúvidas da astronomia: será que alguma vez estivemos realmente na Lua? rafaela carvalho
o céu continua a atrair hoje o homem, como o faz desde os primórdios da humanidade.
Revolução no cancro da próstata estará em Coimbra? Hugo Teixeira Mota João Neves O investigador da Universidade de Coimbra (UC), Ricardo Leão, liderou o desenvolvimento de um estudo que pode possibilitar avanços nos tratamentos do cancro da próstata. Esta doença oncológica, que constitui a segunda causa de morte na população masculina a nível mundial, pode causar disfunção erétil e dificuldade em urinar. Atualmente, esta patologia pode ser tratada com recurso a cirurgia, radioterapia, quimioterapia, entre outras, sendo um tipo de cancro que é mais incidente na Europa e nos Estados Unidos da América, em homens com idade superior a 50 anos. O estudo deste médico tem como objetivo principal “avaliar o efeito de determinadas drogas numa população específica de células tumorais”, explica Ricardo Leão. Essa resistência pode dever-se a “células denominadas ‘tumor initiating cells’ [células iniciadoras do tumor]”. Outra das finalidades deste estudo é, em conjunto com outros do género, “compreender os mecanismos de resistência destas células aos fármacos que hoje utilizamos”, refere. Apesar de ser improvável que qualquer estudo, por si só, revolucione os métodos terapêuticos, o trabalho de Ricardo Leão obteve “resultados interessantes”. O responsável pela investigação afirma que os avanços resultantes do seu trabalho podem traduzir-se em “novas drogas para doentes” cuja doença oncológica está num estado avançado. Em termos práticos, este estudo pode ter influência no tratamento desta doença e contribuir para uma “melhor compreensão desta patologia séria e com grande prevalência”. Contudo, será necessário passar “aos ensaios clínicos e daí tirar as devidas conclusões” para obter “mais e melhores resultados”, continua o clínico. O estudo foi reconhecido pela Sociedade Portuguesa de Urologia (SPU) e pela empresa Astellas que atribuiram uma bolsa no valor de oito mil euros à equipa de investigação. Este prémio permitiu a “aquisição de meios laboratoriais essenciais a esta fase do trabalho” e possibilitou o início do “trabalho experimental e gerar alguns resultados preliminares”. Ricardo Leão salienta que esta bolsa reconhece a “qualidade do projeto” e que, sem este apoio, o projeto não teria passado da “fase in vitro”. O grupo de trabalho multidisciplinar revela-se empenhado em continuar a desenvolver este estudo que conta com a colaboração do Centro Hospitalar da UC, das faculdades de Medicina e Farmácia e centros de investigação. O sucesso deste estudo constitui mais uma prova de que em Coimbra é possível levar a cabo investigações médicas relevantes.
12 | a cabra | 4 de dezembro de 2012 | Terça-feira
O qUe fALTA em COImbrA?
Partilhar em comunidade e pensar no que falta em Coimbra. A comunidade criada por um grupo de três ex-estudantes da Universidade de Coimbra (UC) tornou-se de certo modo viral e já responde por si só com soluções. Internautas escolhem a falha, votam e ainda participam na solução do problema. Por Liliana Cunha e João Valadão
“A
própria pergunta já por si é algo positivo, porque leva as pessoas a pensar sobre as coisas”, explica o criador da questão, Daniel Lopes. O que falta em Coimbra? No momento, a pergunta poderá bloquear a resposta por alguns instantes, mas obriga o cidadão a considerar do que realmente pode falhar na cidade. Esta espécie de experiência social ainda está no arranque. Pode-se encontrar na comunidade de “O que falta em Coimbra” um vasto conjunto de problemas que qualquer um pode inscrever num fórum com ‘rating’ e direito a votação. “É uma série de problemas, certo? Se alguém tiver a capacidade de resolver o problema é winwin”, afiança outro dos mentores do projeto, Pedro Gaspar. Em conjunto com Sérgio Santos, está composta a equipa que saiu direta da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC para incubar uma empresa destinada a projetos que envolvam indústrias criativas. Está ponderado que tanto se resolve o problema como se pode fazer um negócio à volta deste. Porém, antes do negócio chega o retorno de preocupações de quem possa viver na cidade e de um olhar por vezes tímido na hora de responder. A sugestão que reúne o maior número de votos é “mais autocarros, sobretudo depois da meia-noite”, e os comentários de retorno vão ao encontro disso. Reclama-se mais acessibilidade pelo Polo II, alude-se à maior utilização
de bicicletas pela cidade, há ainda quem atente que o dinheiro vai para os táxis e outros há que numa cidade “com bastante vida noturna” consideram que se devia “apostar em transportes a partir dessa hora”. A razão prende-se, segundo Sérgio Santos, com o “público mais jovem”. Dentro desse público mais jovem está Ana Costa, de 29 anos. A transeunte na Rua Ferreira Borges reagiu cética à pergunta, mas de entre muitas queixas fala também dos transportes públicos à noite. Como vive na freguesia de Santo António dos Olivais, vê-se impossibilitada de sair de fora do círculo. “Podiamse mexer [as pessoas], mas não se mexem”, queixa-se. Por outro lado, Laura Peixoto, de 21 anos, considera que as bibliotecas da cidade “deviam ter mais informação” e aponta a “fraca restauração perto da Escola Superior de Educação de Coimbra”, onde estuda. Outro dos pontos frequentemente abordado no site é a questão da segurança. Sara Rodrigues, de 24 anos, aponta a “falta de segurança noturna e diurna”, especialmente “em certos pontos da Alta”. A jovem sugere a colocação de polícias à noite nos locais “mais problemáticos”. Na perspetiva de Luís Coimbra, de 29 anos, a cidade “poderia ser muito melhor aproveitada”. O jovem conimbricense admite que poderia haver uma maior variedade de espaços noturnos: “temos principalmente duas discotecas cá no inverno, e no verão temos o espaço das docas”.
Laura Peixoto, de 21 anos, considera que as bibliotecas da cidade “deviam ter mais informação” e aponta a “fraca restauração perto da Escola Superior de Educação de Coimbra”, onde estuda
Criar discussão por ela mesma resolve os problemas Sérgio Santos assume que a comunidade poderá servir como um intermediário entre as pessoas e as ideias. O responsável lembra que “muitas vezes acontece que esses problemas nem precisam de uma ação concreta, muitas vezes o problema é não haver divulgação”. Para os responsáveis do projeto, outro dos objetivos é gerar discussão, já que “criar discussão pela própria discussão resolve os problemas”, argumenta Pedro Gaspar. O mesmo adianta que o fomentar da discussão tem um propósito: “ver os problemas, apresentar outros e comentá-los, o que já é um bom efeito a gerar”. No caso da realização de um encontro, os responsáveis do projeto organizariam os primeiros eventos. No entanto, estes eventos seriam sessões não muito prolongadas, onde se tentariam encontrar resoluções para situações concretas. O responsável dá o exemplo de um fim-de-semana em que pessoas, particularmente na área da engenharia e designer, se juntem para “criar pequenas aplicações ou soluções para resolver algum problema”. A “inépcia” da CMC Na opinião dos próprios criadores do site, as pessoas “estão bastante distantes da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) e há uma certa inépcia desta em fazer coisas pelos cidadãos”, conclui Sérgio Santos. Para o informático o que falta é
4 de dezembro de 2012 | Terça-feira | a
cabra | 13
O qUe fALTA em COImbrA? ILUSTRAção poR TIAgo dInIS
“uma ligação melhor com as pessoas que estão a tentar resolver os problemas da cidade e as que estão a identificá-los”. Contudo, Pedro Gaspar considera que “se tivermos pessoas da Câmara a olhar e a pensar nas sugestões, já conseguiríamos fazer algo de bom”. Questionado sobre o ganho de credibilidade do projeto, Sérgio Santos acredita que “só o facto de as pessoas terem cientes aquilo de que faz falta já é meio caminho para isso ser mudado”. Daniel Lopes comenta que “interessa que as coisas sejam feitas” e acrescenta que “já muita gente fala por aí e o importante é ter pessoas que se cheguem à frente”. Sérgio Santos complementa que muitos dos pedidos que existem “tratam da questão da transparência, de serem apresentados mais dados por parte da CMC”. O informático sustenta que se “se tivéssemos informação aberta sobre o que está a ser feito pela CMC, isso poderia ser tratado por outras pessoas”. O mesmo defende ainda que há a perceção de que se espera “que o problema vá parar à Câmara e que seja ela a resolvê-lo” e acrescenta que um dos objetivos do projeto é “também mudar um bocado isso”. O que falta mais? Restarão com certeza muitas mais sugestões que os habitantes desta cidade gostavam de deixar. Entre elas – um supermercado na alta, bares mais calmos com um ambiente mais familiar ou estacionamentos em sítios estratégicos para dinamizar polos de comércio que não os ‘shoppings’. “Só não vê quem não quer”, aponta para o cenário Luís Coimbra. Nota-se um certo esmorecer na cara destas pessoas a quem frente a frente se perguntou o que faltava. E é também por isso que este projeto e esta experiência social querem testar até onde vai: “o site pode não ser a resposta total mas é um abre olhos”, assegura Pedro Gaspar. Se apenas um dos problemas ficar resolvido já é mais um habitante dentro da comunidade que estará predisposto a dar a solução a outro que tenha o mesmo receio. Ativar “a cidadania no global” é outra das formas de interpretar o projeto. A ideia de pôr todas as pessoas em rede a discutir sobre o que poderá beneficiar todas é com certeza um enaltecimento da entreajuda mesmo numa cidade com cerca de 140 mil habitantes. O site oquefaltaemcoimbra.pt continuará a recolher propostas e a dar sem notar por isso as soluções no próprio fórum. Se as coisas evoluírem será por parte da iniciativa de quem por lá escreve: “queríamos uma experiência social que não ficasse afetada desde início por quem é que estava a organizar e por detrás disso. Para tentar não viciar nem tender para nenhum lado a conversa”, contextualiza Sérgio Santos. Por isso, partilha-se em rede.
AS
5
+
1º “Mais autocarros, sobretudo depois da meia-noite”
419votos
2º “Restaurar e pintar a fachada de edifícios abandonados e degradados”
253votos
3º “Tirar aquele "lixo" pintado nas monumentais”
231votos
4º “Reabilitação urbana da baixa”
223votos
5º “Comida depois das 04h00 da manhã”
141votos
14 | a cabra | 4 de dezembro de 2012 | Terça-feira
CIdAdE RAfAELA CARvALho
As crianças e jovens do Bairro do Ingote e do Bairro da Rosa são particularmente afetadas pelo fenómeno de absentismo e abandono escolar
Instituições assinam protocolo no combate ao abandono escolar Assinado no passado mês de Novembro, está em desenvolvimento o Projeto de Acompanhamento Individualizado do Percurso Escolar das Crianças do Planalto do Ingote (AIPEC) João Valadão O projeto, que visa o combate ao absentismo e ao abandono escolar, é constituído por um grupo de trabalho que, entre outros, incluí: a Câmara Municipal de Coimbra (CMC), a Escola Secundária D. Dinis e a Cáritas Diocesana de Coimbra. O vereador da Habitação da câmara municipal, Francisco Queirós, começa por explicar que o projeto nasce da “rede social da própria autarquia, que envolve um conjunto de instituições so-
ciais do concelho”. O vereador acrescenta que já tinha sido “constatado um abandono escolar elevado naquela zona da cidade” e aponta razões como a “pobreza e constrangimentos do ponto de vista social”. Dessa constatação surgiu a “necessidade de criar um protocolo que envolva várias instituições, para procurar formas de
Este projeto já conseguiu “erradicar” parte do abandono escolar, segundo Francisco Queirós reduzir o absentismo e o insucesso escolar”, afirma ainda. O projeto AIPEC conta com várias vertentes, de acordo com cada uma das instituições. Primeiramente, cabe às escolas identificar o problema e reportá-lo. O diretor da Escola Secundária D. Dinis, Augusto Nogueira, explana que quando “os alunos estão em ausência, ficamos atentos e co-
municamos o caso à Comissão de Proteção de Crianças e Jovens”. Posteriormente, é assinado “um documento de responsabilidade entre os pais e os alunos, com conhecimento das escolas”, adianta Augusto Nogueira, assegurando ser este o mecanismo geralmente adotado. O diretor da Escola Secundária D. Dinis esclarece que, “graças ao trabalho que tem sido feito, no terceiro ciclo conseguimos praticamente erradicar o abandono”. O professor reconhece, no entanto, que a extensão do ensino obrigatório até aos 18 anos poderá constituir um problema. “Há dois anos tínhamos zero por cento de abandono, agora vai ser mais complicado”, observa o professor.
Razões familiares e culturais O abandono e o absentismo escolar parecem, no caso dos Bairro do Ingote e do Bairro da Rosa, estarem assentes em dois pontos: a questão da etnicidade e as famílias afetadas pela ausência de uma figura paternal. As crianças de etnia cigana, particularmente do
sexo feminino, constituem um dos grupos mais sensíveis - o que se prende com o facto de “os pais casarem-nas muito cedo”, frisa Augusto Nogueira. Por outro lado, há “casos pontuais de jovens de famílias destruturadas, pelos mais diversos motivos”, esclarece ainda o diretor da escola. Também presente neste projeto
“A intermediação entre as escolas e as famílias”, é um dos objetivos do projeto de acompanhamento está a Cáritas Diocesana de Coimbra, através do seu Centro Comunitário de São José. A diretora, Guida Rasteiro, afirma que o centro está “incumbido de fazer um acompanhamento sistemático às crianças que frequentam a escola na área de residência” da instituição. O acompanhamento é feito na ordem das quarenta crianças, de todos os ciclos do ensino.
O papel principal do centro passa por fazer “a intermediação entre as escolas e as famílias, sempre que se justifiquem situações de abandono ou absentismo”, comenta ainda Guida Rasteiro.
Um fenómeno em crescimento? Questionado sobre a possibilidade do abandono escolar ser um fenómeno recorrente, Francisco Queirós diz que “existem duas forças contrárias”. O vereador contrapõe a atual conjuntura económica com o esforço feito pelas instituições envolvidas no projeto e conclui que se “é verdade que há um maior esforço de um conjunto de instituições, também é verdade que a situação tenderá a piorar”. Augusto Nogueira corrobora a afirmação e reconhece que “o perigo do abandono tem tudo a ver com as condições sociais”. Com uma opinião diferente, Guida Rasteiro aponta para a diminuição do abandono escolar e afirma ter “consciência de que poderá não aumentar, a tendência é mesmo diminuir”. PUBLICIDADE
4 de dezembro de 2012 | Terça-feira | a
cabra | 15
CIdAdE ServiçoS municipalizadoS de tranSporteS urbanoS de coimbra
Falta de serviço noturno afeta cidadãos Os SMTUC asseguram, através de um sistema de autocarros, o transporte urbano na cidade e arredores entre as cinco e meia da manhã e a meia-noite. Contudo, quem deseje circular pela cidade a partir dessa hora tem de obrigatoriamente utilizar o serviço de táxis. Por Ian Ezerin e Stephanie d’Ornelas
C
onstantemente abordada nas redes sociais e no meio estudantil está a possibilidade de Coimbra usufruir de uma rede de transportes noturnos. À noite e de madrugada, a Baixa e a zona da Praça da República são os locais mais procurados por estudantes e a população jovem de Coimbra. Nem todos têm sorte de viver nas habitações do centro da cidade. O estudante do quinto ano da Faculdade de Farmácia, residente em Celas, comenta que “era importante haver mais autocarros à noite, não só para quem sai à noite, mas também para quem vai estudar para associação ou para as cantinas”. A ausência de transporte público no período noturno leva a consequências na vida da cidade e dos cidadãos. A estudante residente em Santa Clara, Carina Rodrigues, que utiliza os transportes públicos todos os dias, esclarece que “saio à noite principalmente para Praça da República, mas como não há o autocarro de regresso a casa, tenho de esperar pela disponibilidade de conhecidos que me dão boleia”. Os residentes de áreas centrais são também atingidos com esta situação. O estudante Adriano Mourão, residente na Praça do Comércio, sempre que vai a algum lugar distante e tem que regressar à
noite, depende de transportes alternativos. “Eu já tive problemas para voltar do Fórum, tenho sempre que voltar de táxi”, conta. O estudante tem também dificuldades em movimentar-se no período de aulas: “tenho que apanhar o autocarro uma hora antes, deviam existir mais linhas para o Polo II”.
A procura não é significativa O administrador dos Serviços Municipalizados de Transportes Urba-
“Como não há autocarro de regresso a casa, tenho de esperar por quem me dá boleia” nos de Coimbra (SMTUC), Manuel Correia de Oliveira, esclarece que a ideia de introduzir os horários suplementares no período da uma até às cinco de manhã não é uma realidade provável. “Isso é impraticável, está fora de questão por várias razões”, afirma o responsável. Na experiência de Manuel Correia de Oliveira, a procura não é significativa e comprova isso com uma viagem que fez num dos últimos autocarros do dia, em que a certa StEPhAnIE SAyURI PAIxão
altura apenas se encontrava o próprio, o motorista e um utente. A possibilidade de uma rede noturna nunca foi, no entanto, tentada em Coimbra. A exceção dá-se apenas em ocasiões especiais, como na semana da Queima das Fitas (QF). Nos últimos quatro anos foram disponibilizados transportes gratuitos para apoiar as noites do Parque: “na perspetiva dos estudantes utilizarem o menos possível os automóveis”, conta o administrador. De acordo com Manuel Correia de Oliveira, durante os quatro anos em que foi disponibilizado o transporte noturno na QF só num foi conseguido apoio para isso, mas praticamente simbólico. O administrador conta que o valor dispensado para possibilitar os autocarros é alto. “Representa um bocado de dinheiro, foi um valor significativo”, afirma. Por ter condições diferentes das empresas semelhantes que existem no Porto e em Lisboa, os SMTUC estão mais limitados no seu desenvolvimento, uma vez que os transportes urbanos são propriedade da Câmara Municipal de Coimbra, e só há o apoio financeiro por parte do município.
Falta de financiamento “É muito difícil sobreviver e por isso é que não temos a possibilidade de StEPhAnIE SAyURI PAIxão
uma renovação da frota que gostaríamos de fazer”, esclarece Manuel Correia de Oliveira. O administrador constata que entre 2002 e 2010 a frota foi renovada, “isso era possível porque era a única verba do Estado, através do Plano de Investimentos da Administração Central, distribuído por intermédio do Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres (IMTT), explica Manuel Correia de Oliveira. Há três anos que os SMTUC não recebem este valor, facto que implica
“Isso é impraticável, está fora de questão por várias razões”, afirma o administrador dos SMTUC um maior esforço às viaturas que estão em serviço. A necessidade de renovação da frota é essencial, visto que “ainda sete dos autocarros em funcionamento são de 1984”, sustenta o administrador. A última aquisição dos SMTUC com a verba do IMTT foi um ‘trolley’, comprado em 2009. Foi possível pagar metade do valor do meio de transporte com a verba recebida do instituto, na altura. A perspetiva era comprar um ‘trolley’ por ano
com a verba municipal, mas isso não se concretizou. “A ideia era ter em cinco ou seis anos, umas seis viaturas dessas a funcionar”, expõe Manuel Correia de Oliveira. O ‘trolley’ custou 475 mil euros, mais de 280 por cento do valor de um autocarro comum, que custa cerca de 170 mil euros. O administrador acredita que a compra dos ‘trolleys’ vale a pena porque a manutenção desses veículos é muito mais reduzida. “Ainda temos um ou dois motores de ‘trolleys’ encaixotados, nunca foram substituídos e estão a funcionar”, explica. Além disso, em termos ambientais, os ‘trolleys’ não produzem tanta poluição nem tanto barulho como os restantes autocarros. A recente renovação do sistema dos passes levou a benefícios consequentes no funcionamento do serviço. Permite, em tempo real, saber a procura em cada uma das linhas. Nos sistemas antigos os dados sobre o número de viagens era uma aproximação da procura, mas com o novo sistema cada passe utilizado permite saber o número de viagens utilizadas. Além disso, o administrador dos SMTUC explica que o desconforto relacionado no processo de carregamento dos passes: “em 2013 será possivelmente carregar o passe pela internet”. Com João Valadão StEPhAnIE SAyURI PAIxão
StEPhAnIE SAyURI PAIxão
Entre a meia noite e as cinco e meia da manha os utentes estão limitados à utilização do serviço de táxis
16 | a cabra | 4 de dezembro de 2012 | Terça-feira
PAÍS AnA moRAIS
João Semedo coordenador do bloco de eSquerda
“Sair do euro seria um suicídio” António Cardoso Daniel Alves da Silva 13 anos depois da sua fundação, o Bloco de Esquerda (BE) sofre a sua primeira renovação na liderança do partido. A saída de Francisco Louçã deu lugar a uma coordenação paritária encabeçada por Catarina Martins e João Semedo. Foi este último, deputado que ascendeu à coordenação do partido, que faz um balanço da atualidade política e social de Portugal e algumas das soluções propostas pelo BE, em entrevista ao Jornal A Cabra O BE apresentou seis medidas para salvar a economia. Acredita que o Governo ponha em prática alguma das propostas? Não. O PSD e o CDS-PP já tornaram muito claro que não aceitarão propostas de alteração ao Orçamento do Estado (OE) que propuseram na Assembleia da República (AR). A expectativa que tenho é que vamos continuar o combate que travamos todos os dias, e sempre para que este Governo seja demitido. Para que haja um Governo de esquerda que possa aplicar as propostas que foram rejeitadas na disussão deste OE. O BE defende a renegociação da dívida. Como encara o plano de refundar o Memorando, que o Governo anunciou? Quando o Governo fala em refundar a divida do Memorando, significa o
agravamento da política de austeridade, reduzindo a despesa pública, para poder recuperar mais quatro mil milhões de euros. Como vai o Governo diminuir essa despesa? Reduzindo e descaracterizando o que é hoje o nosso Estado Social. O Governo já disse que será na despesa com a saúde, a escola pública, a segurança social e através do despedimento de dezenas de milhares de funcionários públicos que vai reduzir esses quatro mil milhões de euros. A refundação do Memorando, do ponto de vista do Governo, é mais Memorando, no sentido de mais austeridade e mais desemprego.
vernação. Se o Governo não se demitir, pode também acontecer através do CDS-PP, que tem feito muito malabarismo para simultaneamente estar no Governo, e ao mesmo tempo estar na oposição. Há tensões na própria coligação, e isso é um ponto de fragilidade, que resulta de um contexto onde um país não acredita no Governo. No entanto, será difícil porque, na realidade, PSD e CDS-PP foram as forças que apoiaram a recandidatura de Cavaco Silva à Presidência da República, foram os partidos que o puseram em Belém. PSD e CDS-PP têm um amigo em Belém, mas a política não se pode basear nas amizades.
Na atual conjuntura acha possível o Presidente da República demitir o Governo? Muitas vezes as pessoas perguntanos se um Governo com maioria na AR pode ser demitido. A estabilidade e as competências de um governo não são medidas alcançadas e asseguradas apenas por uma maioria parlamentar. O que vemos e registamos na sociedade portuguesa é que este Governo incompatibilizou com o país e até com a base política e social que o elegeu. Se este Governo continuar agravar a dívida pública, aumentar o défice e o desemprego, se a pobreza não deixar de continuar a crescer no nosso país, como é que o Presidente da República pode permitir que o Governo continue esta obra de destruição social e económica do país? Ele tem um compromisso que assumiu com os portugueses, de respeito pela Constituição. Esse compromisso deverá levá-lo a interromper esta go-
O BE coloca a hipótese de algum tipo de coligação préeleitoral? Com que partidos? Não. O que é norma, na democracia, é que cada partido concorra por si às eleições, e julgo que assim será no caso de haver eleições antecipadas. O Bloco procurará ter os melhores resultados possíveis, e depois se verá a possibilidade de um entendimento para formar um governo de esquerda. O BE aceitaria fazer parte de uma coligação pós-eleitoral com o PS e a sua atual direção, caso esta assuma uma posição inequivocamente contra o memorando? O BE definiu uma fronteira a partir da qual considera que é possível que um governo execute uma política de esquerda. Um governo que diga “nós queremos mudar as políticas do Memorando, não queremos mais Memorando” é um governo que deu
um passo muito importante para poder vir a concretizar uma política de esquerda. Veremos se há condições para isso. Depende da expressão da vontade eleitoral. Se houver uma maioria de esquerda e um entendimento mínimo para um programa de esquerda, não será por responsabilidade do BE que não haverá um Governo de esquerda em Portugal. Há quem defenda a saída dos países com economias mais frágeis do euro. O BE reconhece que isso seria uma opção válida para economias como a portuguesa? A nossa posição é clara: não pomos em hipótese a saída da UE nem a saída do euro. É evidente que a integração de Portugal na Zona Euro suscitou um conjunto de problemas cuja dimensão talvez tenha sido mal avaliada. Mas as consequências da saída do euro seriam devastadoras, neste momento. Haveria uma desvalorização [de moeda] brutal, e os trabalhadores portugueses ficariam numa situação muito mais difícil. Nós não equacionamos essa possibilidade, temos é de admitir que o futuro da Europa é uma caixinha de surpresas. Nós não abandonamos a ideia europeia, mas reconhecemos que há muitos fatores de desagregação da UE. Veja-se o que se está a passar com uma discussão tão simples como a de um Orçamento Comunitário: os países mais fortes, que têm mais responsabilidade, são os governos que mais querem cortar na sua comparticipação para Orçamento da UE. Há elementos nas próprias políticas liberais e conser-
vadoras de desagregação da ideia europeia e do projeto da construção da UE. Neste contexto, e apesar destes pontos de interrogação sobre o futuro, consideramos, e não temos nenhuma dúvida sobre isso, que sair do euro seria um suicídio para o país e que traria consequências gravíssimas para as condições de vida dos trabalhadores portugueses. Na sua opinião, os estudantes devem-se envolver em ações promovidas pela sociedade civil, que transcendem os problemas especificamente estudantis? Primeiro, o estudante é um cidadão, tem direitos de cidadania, e tem interesses e problemas enquanto português. Há um conjunto de problemas muito próprios nesse setor social importantíssimo na sociedade portuguesa. Julgo que hoje um em cada três jovens está desempregado – são números exorbitantes e chocantes e que criam enormes tensões na sociedade. É natural que haja cada vez mais participação de jovens e de estudantes na movimentação social. Depois existem os próprios problemas dos estudantes, do Ensino Superior (ES) e nos outros graus de ensino. Todos sabemos que os apoios sociais têm sofrido cortes significativos: as propinas não deixam de aumentar, as bolsas estão-se a reduzir em número e em valor; isso cria um colete-de-forças que dificulta grande parte dos estudantes a conseguirem concluir os seus estudos na universidade.
@
Entrevista na íntegra em
cabra net
4 de dezembro de 2012 | Terça-feira | a
cabra | 17
MUNdO
Orçamento da UE não traduz coesão JoAnA AmoRIm.
Apesar de representar cerca um terço do orçamento da UE, a aplicação nas políticas de coesão têm sido insuficiente para diminuir o fosso entre os países
Estados-membro debatem orçamento da União Europeia, que pode por em causa os fundos para a politica de coesão.Assimetrias entre países também podem sofrer Luís Azevedo Pedro Martins Num clima de crise económicofinanceira, os estados-membro têm debatido sobre a procura de um acordo que satisfaça todas as partes. A problemática do Orçamento Europeu prende-se com a distribuição que implica que “se façam escolhas que são fundamentais para a política europeia”, afirma a eurodeputada do Bloco de Esquerda (BE), Marisa Matias. Seis anos após a negociação do primeiro Orçamento orientado para uma Europa alargada para 25 es-
tados-membro, o impasse mantem-se agora numa Europa de 27. Perante a discussão sobre a distribuição das parcelas orçamentais, a possibilidade da Política Agrícola Comum (PAC) manter a parcela correspondente a quase metade das despesas permanece, deixando a política de coesão para segundo plano. Previstas nos tratados europeus, estas políticas têm sido desprezadas nas negociações, procurandose uma diminuição da percentagem que lhes corresponde. Nas palavras da eurodepudata, “vê-se muito esta narrativa de países que são contribuintes líquidos e outros que são beneficiários” olhando apenas para a contrapartida que cada estado. O mesmo é reiterado pelo eurodeputado independente, Rui Tavares, que refere que a política de coesão “é a vítima mais fácil, para a qual os países que querem diminuir o orçamento da União se viram”. Contudo, o eurodeputado relembra o carácter programático dos artigos dos tratados europeus relativos à coesão, “de-
vendo estar refletidos em todas as políticas da UE”.
Desequíbrios nas relações entre os estados-membros Após a aprovação do Tratado de Lisboa, foi extinta a exigência de unanimidade nas tomadas de decisão do Conselho da União Europeia, abrindo caminho para um desquilíbrio de poderes em favor de países de maior dimensão, como a Alemanha ou a França. “Os países passaram a ter peso diferente nas decisões do Conselho”, afiança Marisa Matias, tendo como consequência “mais legitimidade para interferir nos assuntos da UE”. Porém, a influência desta alteração na balança de poderes sobre as decisões orçamentais é posta de lado pelo ex-eurodeputado do Partido Social Democrata e professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, Manuel Lopes Porto. O professor afirma não ver “na reponderação dos votos do Conselho no Tratado de Lisboa um fator”.
Porém, o social-democrata vê também uma agravante na entrada dos países leste-europeus. “O alargamento foi bom para os países de leste e respetivas populações”, mas “pela sua população e pelo estado em que estão justificam as verbas recebidas” representando “uma nova concorrência não so em matéria de fundos mas também em termos de competitividade”.
Resultados insuficientes da politica de coesão Apesar de representar cerca de um terço do Orçamento da UE, os resultados da aplicação do dinheiro nas políticas de coesão têm sido insuficientes. “Esta política de coesão tem ganho muito má fama em Bruxelas, de um fundo mal aplicado por comissários e que perde muito em corrupção em certos países onde há fenómenos de corrupção endémica”, assegura Rui Tavares. Porém, a eurodeputada do BE coloca o ónus sobre as medidas de austeridade, reiterando que “no orçamento comunitário que deveria colmatar as lacunas,
acabamos por ver também um Orçamento de austeridade, que favorece também lógicas de competição, de concorrência e não de convergência”. Independentemente da primazia dada aos fundos destinados à politica de coesão comunitária enquanto aparelho-chave dissuador de assimetrias económicas, a sua forma de aplicação é desprovida de consenso. “Estes fundos são necessários para a UE para cumprir as suas obrigações legais, como o pagamento de bens, trabalhos e serviços providenciados” afirmou Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu em comunicado oficial, após recusa dos negociadores do Orçamento em comparecer à reunião com o Conselho. No entanto, em queixume dos resultados das negociações e citado pelo site do canal de televisão News Asia, o presidente do Partido Socialista Europeu, Hannes Swoboda, reitera que “se não conseguem concordar em pagar as contas, em que é que eles podem concordar?”. Com António Cardoso
América abre portas à legalização da canábis Washington e Colorado legalizam consumo e comércio de canábis. América Latina perspetiva a mesma possibilidade Pedro Martins Bárbara Sousa No passado dia 6 de novembro os estados norte-americanos de Washington e Colorado aprovaram, em referendo, a legalização do
uso de canábis para fins recreativos, para maiores de 21 anos e posse até 28,3 gramas. Esta medida resultou da procura de “novas abordagens e práticas mais corretas por todo o mundo”, assumindo que “existem vantagens numa possível legalização”, nas palavras de Tim Surmont, doutorando em Ciência Política na Universidade Nova de Lisboa, ex-conselheiro político sobre droga no município holandês de Gemeente e antigo investigador na área do fenómeno das drogas na Universidade de Gent.
Num país onde, de acordo com Tim Surmont, “os níveis de consumo e tráfico são equivalentes ou superiores aos da maioria da Europa”, o movimento pró-legalização tem registado um crescimento significativo de apoiantes, nos últimos anos. Ainda assim, a Agência de Combate à Droga, dos Estado Unidos da América, promete a oposição das leis federais à legalização do uso de canábis, com o apoio dos estados mais conservadores “menos propícios a votar neste tipo de leis”, afirma o politólogo. Apesar da controvérsia, a regula-
mentação poderá trazer, a longo prazo, vantagens económicas. Segundo o investigador, “o Estado poderá beneficiar a nível fiscal, mas não é possível prever se trará mais benefícios do que custos”. Os consumidores também poderão beneficiar da legalização, com um produto regulado pelo Estado que poderá ser avaliado na sua qualidade. Porém, Tim Surmont alerta para os riscos que possam surgir com a legalização: “criar impostos assegura que as organizações criminosas continuarão a produzir e a
distribuir marijuana ilegalmente”. Perante esta situação, vários chefes de estado da América Latina têm procurado soluções relativas ao problema da droga e da sua possível legalização. Contudo, esta medida iria enfrentar a oposição dos cartéis, que têm como fonte de lucro a exportação e o comércio ilegal. O ambiente político atual tem sido pautado pela procura de soluções para o problema da droga, ainda assim é difícil prever a eficácia destas medidas no contexto internacional. Com António Cardoso
18 | a cabra | 4 de dezembro de 2012 | Terça-feira
CiNEMA
ArTES
“O Substituto”
O
de TONy K AyE com AdrIEN brOdy, ChrISTINA hENdrICKS 2012
Corações de ardósia
VER
crítica de lourenço carvalho
E
stá na moda fazer do fim do mundo a “coqueluche” do cinema. E este último ano, sabe-se bem porquê, têm-se revelado bastante profícuo nesta matéria. Só que esta praga contamina todos. Não temos apenas aqueles 'blockbusters' - como “Armageddon” ou “2012” - que se aproveitam da forma como o público se sente fascinado pelo medo e o submergem em vistosos efeitos especiais. O dito cinema de autor também começa a mostrar sintomas de tal mal - “Melancolia” de Lars von Trier foi o desastre a que se assistiu no início deste ano e depois foi Abel Ferrara que se atirou de cabeça para o fim e se afogou dramaticamente com “4:44 –
s miúdos são problemáticos, e quando vivem em dificuldades são-o ainda mais. Mas Henry Barthes (interpretado de forma sublime por Adrien Brody) não quer saber. Os seus sentimentos ficaram no passado, ou pelo menos é o que quer transparecer. Já lhe bastam os problemas da sua vida pessoal. A última coisa de que precisa é de se preocupar com mais uma fornada de alunos malcomportados, criados por um sistema defeituoso, que acabarão por lhe sair das mãos ainda antes de conseguir distingui-los pelo nome. “Não há responsabilidade em ensinar, mas sim em garantir que ninguém se matará na sala de aula”, confessa-nos. Na sua opinião, a culpa dos miúdos irrequietos é dos pais irresponsáveis. “Para ser pai devia ser
preciso apresentar currículo”, diz a certa altura. O realizador Tony Kaye - que já abordou esta temática de putos problemáticos no sobejamente conhecido “América Proibida” - quer deixar esta posição bem vincada. Neste drama, em jeito de documentário, Kaye não rompe os cânones dos filmes do género. Apesar da “Indiferença” (tradução à letra do título original “Detachment”) deste professor, a personagem de Brody acaba por se deixar envolver. Sabese que o coração humano é mole quando a personalidade parece mais dura e a verdade é que esta é a única forma de Barthes esquecer por momentos a sua difícil vida pessoal e a sua solidão, e se sentir necessário. Vimos o mesmo acontecer com Michelle Pfeiffer em “Mentes Perigosas” e com Ryan Gosling em
“Half Nelson”. No fundo, esta é a história de homens e mulheres que sendo jovens se sentem velhos e sendo velhos se vêm perante uma vida sem memórias boas. Tony Kaye leva-nos a vaguear por uma vida crua, cheia de ruas desertas e perigosas. Uma viagem vertiginosa ao âmago de uma solidão desconsolante. O intuito é mostrar que o bullying não só entre alunos, mas também atinge os professores e nem todos têm, para o bem e para o mal, a coragem de o enfrentar com humor negro e um frasco de comprimidos. “O Substituto” quer mostrar que a solução de todos os problemas não está ao virar da esquina. Fica, e bem realisticamente, a ideia de que o sistema está pelas horas da morte e nem um drama romanceado pode resolver o problema.
4:44 – Último dia na terra” Último dia na Terra”. Nesta Manhattan, onde vive o casal de artistas Cisco ( Willem Dafoe) e Skye (Shanyn Leigh), Abel Ferrara rompe com o mito de que com o fim do mundo vem o caos e a anarquia. Não há multidões em fúria, carros a arder ou montras destruídas. O mundo parece estar como sempre foi: o contador dos táxis continua e a ainda há comida ao domicílio. O que Abel Ferrara se esforça por nos mostrar é que quando chegar a hora final o que todos procuraremos é o reencontro com os que nos foram mais próximos e a arte como catarse, como exteriorização do medo e forma de cada um se sentir menos perdido e sozinho.
Porém, depois de tudo isto, será esta visão realista? Não será acreditar demasiado na bondade da natureza humana? Não devia a promessa do fim ser o fim em si? Não podemos deixar de perguntar porque tudo continua a funcionar da mesma forma. “4:44” está carregado de situações irreais e sem nexo. Ferrara tentou mostrar que o apocalipse é só mais um acontecimento na rotina do dia-a-dia. Um acontecimento tão ordinário que nem razão suficiente para apanhar uma moca é. E, apesar de ser uma visão melhor do que a que qualquer ‘blockbuster’ nos mostrou até agora, também não convence. rafaela carvalho
FiLME
de AbEL FErrArA editora ALAMbIqUE
2012
Artigo disponível na:
A vulgaridade do fim do mundo
4 de dezembro de 2012 | Terça-feira | a
cabra | 19
FEITAS OUViR
LER
breakthrough”
la coca”
B
em vistas as coisas, a música sempre evolui num contraciclo à socieO revisitar dade. E o conceito é bem mais do próprio simples do que parece. Quem criou o blues, roubado e disseminado nas épocas mui primitivas do capitalismo dominado por brancos? Os escravos negros, símbolos da opressão. O doom-metal nasceu no Reino Unido, fruto do aborrecimento do industrialismo em série. Hoje em dia, à superfície, a música sustenta-se no plástico, na produção industrial em série, no mau e no ordinário. À margem de tudo isto, começa felizemnte a surgir uma nova música marginal, que vê no que está lá atrás de uma fonte inesgotável de reinGASLAMP KILLEr venção. Uma nova arte, se me permitem, um movimento nobieditora líssimo onde pontificam nomes NINjA TUNE como Flying Lotus ou Gaslamp Killer, que vêem no passado um 2012 reflexo do futuro. Nesta espécie de contraciclo, o norte-americano começa agora a assumir posição de destaque na Brainfeed e muito do mérito deve-se a “Breakthrough”. No sexto registo de originais, revela-se instantaneamente uma colecção de harmonias distorcidas, melodias quentes (Gonjasufi canta e produz num par de feixas) e variações brilhantes que assentam e crescem com as várias texturas quebradas de ‘flow’ inesgostável – por entre ‘sampling’ e criação, fica uma espécie de homenagem ao labiríntico trabalho de Fly-Lo. No fundo, este trabalho de reciclagem contracíclico de William Benjamin Bensussen resulta num produto totalmente novo e refinado. Apesar de, em abono da boa verdade, “Breakthrough” se revelar-se muito mais cerebral que “Spit to The Grave”, mas menos dançável e noctívago que a mixtape “Akuma No Chi Ga Oduru”, fica no ar a certeza de que William sabe escolher o melhor caminho, o introspectivo: aquele que é sempre mais difícil, mas que nos permite conhecer-nos mais e melhor a nós próprios.
H A Coca que nos faltava
de j. rENTES dE CArvALhO editora qUETzAL 2011
á cinquenta anos, Rentes de Carvalho fixou-se no país onde há três séculos viveu e escreveu Espinoza, famoso filósofo nascido de uma família judaica expulsa de Portugal e radicada em Amsterdão. Puro acaso. Mas acaso apenas no país de destino, porque abandonar Portugal é uma estranha lei que o tempo não consegue revogar. Só para alguns, claro. Não é estranho, portanto, terse ignorado durante tanto tempo um autor que, felizmente ainda vivo, só aos oitenta anos vê consagrar-se uma obra que é das mais relevantes que a literatura portuguesa nos legou em muito tempo. O país é estreito, é certo, de espaço e de mentes, o que sem dúvida não contribui nem para a criação nem para a fruição de obras cuja arte não está em primeiramente lucrar, ou imediatamente fazer render. Rentes de Carvalho domina um tom e uma argúcia invulgares na narrativa portuguesa. Os oficiais da escrita em português esquecem-se com frequência de que a força e a coragem são essenciais para que a escrita se aguente de pé, não se dissolva no ar como fumo. A clareza e a nitidez do olhar são afins à limpidez da prosa. Se um autor não vê bem, não escreve bem; se um escritor pensa de modo retorcido, a frase sai-lhe retorcida. Ora, a leitura do romance La Coca mostra como é possível escrever-se em português sem se recorrer ao nevoeiro. Pelas críticas que li ao livro e à escrita do autor, fala-se muito de um tom jornalístico ou cinematográfico. Eu diria que estamos perante um romance de qualidade ímpar, perante a literatura no que de melhor ela tem. Não é jornalismo, embora o tom seja o da imparcialidade da investigação; não é guião de cinema, ainda que a nossa imaginação recrie
JOGAR
bruno cabral
call of duty: black ops ii”
antónio matoS Silva
black ops 2 ou a urgência de um lançamento
GUERRA DAS CABRAS A evitar Fraco Podia ser pior Vale a pena A Cabra aconselha A Cabra d’Ouro
Artigos disponíveis na:
constantemente, com uma clareza de filme, as cenas que se vão sucedendo. Esta prosa vem de longe, da tradição de António Vieira e de Eça de Queirós. É um português regressado à sua terra natal quem narra a história. Em busca de memórias da infância, de um tempo irremediavelmente perdido, procura compreender o modo como o tráfico de droga alterou a realidade social do Minho e da Galiza. Com a calma de um detective, vai-se encontrando com figuras do seu passado, ao longo de um território de fronteira que cruza, alternadamente, para se aperceber de que o mundo quase pacífico de outrora do contrabando do álcool e do tabaco, se vê invadido pelas redes de tráfico de droga, com tudo o que isso acarretou: a violência, o enriquecimento da noite para o dia, as ameaças, as vinganças... As personagens vão desfilando, evocando um passado muito distinto, um passado talvez deformado pela memória: «Relâmpagos de memória. Tão vivos como se os factos acabassem de acontecer. Por vezes incómodos, feitos juízes, opondo-se aos arranjos que inconscientemente propomos para moldar as versões do passado. (...) A memória que nos põe em palcos onde nunca estivemos (...) Cheia também de armadilhas em que de boa vontade caímos. (...) A memória e o seu comparsa, o esquecimento.» Um grande poder de sugestão e um olhar terno que o autor lança sobre as suas personagens fazem deste um livro singular. Só a mestria e um grande domínio da matéria da escrita podem dar obras assim. Ler hoje Rente de Carvalho é ler um clássico no seu tempo. Que coca é esta que nos falta?
plataforma PC, PS3, XbOX 360, WII U editora TrEyArCh/ACTIvISION 2012
quase um trauma de perda – como aqueles sujeitos lastimosos que dois meses após o fim da relação continuam a insistir em debitar por tudo quanto é rede social as fotos daquela viagem a dois para ver o desbotar das amendoeiras em flor – a indústria cultural norte-americana, ou pelo menos a dos videojogos, não superou o fim da União Soviética. ‘World in Conflict’ deitava-se a imaginar uma invasão russa da costa oeste dos Estados Unidos e, de década a década, ‘Red Alert’ traznos ao ideário o envilecimento de um Lenine humanoide. Para ‘Call of Duty: Black Ops II’, isto é brincadeira de meninos, e vai muito mais longe. Um enredo capaz de fazer corar o argumentista mais básico da ação contemporânea da era Reagan. Toda a raiz de uma confrontação entre analepses e prolepses tem lugar em 2025, a bordo do USS Obama, durante (pasme-se Fukuyama!) a segunda Guerra Fria. Pelo olhar de vários personagens (marca de CoD) somos levados por diferentes missões que ultrapassam a mais esquizofrénica noção de intersecção de linhas de história e temporais. Tão depressa partilhamos um apartamento com Noriega, como avançamos armados até aos dentes com Savimbi perante um magote de
É
guerrilheiros do MPLA, de catana em punho e um irrepreensível português do Brasil na ponta da língua. E tudo isto sob um pano narrativo onde aparecem bem pontuados cada um dos elementos do conflito dramático. De resto, não se almeja grande evolução na série de CoD, a estrutura de campanha é a mesma de sempre, as armas – até mesmo as futuristas – têm um certo gosto de já visto e a liberdade de jogo continua determinada pelo comandante da missão. A emancipação de escolha do jogador, essa sobra para duas ou três opções disponíveis ao longo dos inúmero e dolorosamente infinitos trechos narrativos que persistem em interromper cada cinco minutos de ação. Remanesce a derradeira esperança, a última cidadela, aquilo que a Treyarch deveria ter reconhecido como a sua grande aposta, num período em que estão bem patente que os modos de campanha em FPSs estão, para grande lamento, votados à sua morte. Ainda longe de ‘Battlefield’, nota-se porém um grande avanço desde ‘CoD:MW’. Tanto na sua forma “casual”, como na opção ‘zombie’, que regressa com novas preferências. No final, assalta-nos uma dúvida: que é feito do 9/11 no meio de tudo isto? João miranda
20 | a cabra | 4 de dezembro de 2012 | Terça-feira
SOLTAS
CrITIC’ArTE
rITMO CONTAGIANTE
O Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) foi, durante uma hora, espetador de cinco grandes talentos da música portuguesa. Da vontade de trocar ideias, experiências e emoções surgira pela vontade de fazer música e partilhar o palco os que são hoje os SuperNada. A produzir desde 2002, a banda, que junta Manuel Cruz, Rui Lacerda, Eurico Amorim, Miguel Ramos e Francisco Fonseca, lançou este ano o seu primeiro CD – “Nada é possível”. Uma compilação de dezasseis faixas apaixonantes que faziam adivinhar um emocionante concerto. Com uma sala composta, das mãos de Manuel Cruz irromperam os primeiros sons. Da guitarra e do baixo emergem os primeiros acordes. Da bateria surgem batidas frenéticas. Das teclas do piano soltamse as notas e o silêncio cai. O ritmo foi aumentando e uma sinfónica combinação de sons penetraram-nos os ouvidos. Atrevidamente, as cordas vocais vibram e a música completa-se. E assim envolvidos numa perfeita simetria se introduziram. A deliciosa harmonia entre os membros era notória. Manuel Cruz, com a melodia da sua voz e uma profunda criatividade, fez combinar os mais estranhos e vibrantes sons, que foram completando cada música tocada. A energia e o à-vontade da banda, em palco contaminaram o público, que não resistiu em juntar-se aos artistas e sentir de perto todo aquele frenético momento. Tornou-se assim um concerto de amigos para amigos. O pedido de mais músicas foi deixado. Que continuem a produzir! Que continuem esta prematura compilação de sons! Que continuem a apaixonar! Que continuem a vibrar! Que continuem juntos pois todo o concerto foi o imperativo exemplo que a boa música portuguesa não morreu.
Por inês Martins InêS mARtInS
UMA IdEIA PArA O ENSINO SUPErIOr MANUEL CASTELO brANCO • PrESIdENTE dO ISCAC
abandonar bolonha Perguntar a razão de abandonar Bolonha supõe, primeiro, perguntar a razão por que se adoptou Bolonha. Ora, Bolonha não foi adoptado por qualquer razão ligada à melhoria da qualidade do ensino. Bolonha resultou, tão só, da necessidade de harmonização dos ciclos de estudos a nível europeu a fim de simplificar o livre reconhecimento no espaço comunitário dos diplomas de estudos pós-secundários com a duração temporal mínima de três anos. Bolonha, nessa medida, mais não representa que um instrumento de consecução de um mercado interno definido, também, pela livre circulação de pessoas. Com Bolonha sacrificou-se a qualidade, a densidade e a profundidade dos programas, com o empobrecimento dos conteúdos e a fragilização dos saberes; donde, a tecnicização, a burocratização e a se-
cundarização do ensino superior. Bolonha implicava um claro aumento do investimento e do financiamento público no ensino superior, necessário, desde logo, para permitir um ensino de proximidade pessoal entre o docente e os alunos, proximidade apenas possível com uma diminuição severa da ratio professores/alunos. Aplicar Bolonha num contexto de restrição orçamental é tarefa, pois, impossível. Não estamos, pois, em Bolonha. Nunca estivemos em Bolonha. Estamos numa pálida caricatura de Bolonha. Caricatura pela qual o Estado, de modo engenhoso conseguiu, em contravenção ao estipulado na Constituição da República Portuguesa, através da nova realidade a que os Mestrados
dizem respeito, praticamente deixar de financiar espaços significativos dos estudos pós-secundários, convertendo o ensino superior, antes bem público, em bem praticamente privado, atento o elevadíssimo valor das respectivas propinas/preços. Com Bolonha o saber banalizou-se, o quantitativo sobreleva o qualitativo, o descritivo o explicativo, o demonstrativo o crítico. Com Bolonha, em contexto de crise económica e de subfinanciamento politicamente orientado, o ensino superior tende a voltar ser um ensino de elites, mas não de elites culturais-científicas, mas, apenas, de elites sócio – económicas, logo um ensino classista. Acabar com Bolonha, no quadro brevemente descrito, é um imperativo. Apenas sem Bolonha o ensino superior poderá recuperar o perdido ‘status’ de pausado e democrático local de construção e transmissão crítica de conhecimento.
D.R.
NAqUELE TEMPO... Por ricardo Matos ...só havia um telemóvel na Associação Académica de Coimbra. A luta estudantil havia obrigado António Guterres, pretendente do PS ao cargo de Primeiro-Ministro, a declarar paixão pela educação. Perante a nossa Academia, promete ainda revogar a lei das propinas do governo PSD de Cavaco Silva e Ferreira Leite. Chegado ao poleiro, apenas a suspende e, passados dois anos,
cai-lhe a máscara da paixão. Em 1997, faz entrar em vigor a sua própria lei de propinas. As eleições para a Direcçãogeral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), que até então decorriam em Março, por imposição estatutária passam pela primeira vez a realizar-se em Novembro, como hoje acontece. Logo após as eleições, já em Dezembro, há 15 anos, a Academia acorre em massa ao Teatro Aca-
démico de Gil Vicente. Em Assembleia Magna, declara guerra a mais uma lei que volta a exigir às famílias maior esforço no financiamento e exclui estudantes menos recursos económicos do ensino superior. Uma semana mais tarde, a Academia sai à rua numa das maiores manifestações estudantis que Coimbra viu. Começou SMS's, de faculdade em faculdade, de sala em sala, interrompendo aulas e
esclarecendo os colegas para que se juntassem aos milhares que já enchiam a Praça do D. Dinis. Em luta, os estudantes descem as Monumentais em direcção à Baixa. Na altura não os pude acompanhar. Com outros colegas da DG/AAC, estava incumbido de preparar o momento final daquela acção de luta. Fomos à volta até ao Parque da Cidade e montámos uma lei em ponto grande. Ensopámo-la de
gasolina e, assim que a manifestação lá chegou, ateámos-lhe fogo, para gáudio da Academia em luta. Foi o início de um ano de dura luta que inspirou, mobilizou e juntou estudantes de todo o país em várias acções de contestação.
RAfAELA CARvALho
4 de dezembro de 2012 | Terça-feira | a
cabra | 21
SOLTAS brAvô
MICrO-CONTO
Por josé Fanha
C
arregada de anéis, a mão afagava pesadamente o próprio busto em mármore negro. “Nasci portuguesa e isso quer dizer muita coisa, não acha?” O francês parou de escrever, passou por ela os olhos frios de jovem peixe translúcido. “Se tivesse nascido espanhola, seria diferente?” “Era uma grande fogueira!” “E assim?” Ela alongou os olhos em busca de um infinito possível na parede forrada a fotografias e deixou cair as palavras num passe de tango que o francês acompanhou com o aparo da caneta sobre o chão do papel. “Assim… Sou uma espécie de fogo preso…” O whisky tinha chegado ao fim e Elvira também. O vermelho perfeito das unhas pontuava o mapa de veias inchadas que lhe cruzavam a mão. Virou-se numa fúria para a grande gaiola onde frente á janela chilreavam canários, bengalins, bicos-de-lacre e atirou-lhes com a água do gelo derretido que restava no copo. “Já disse que não quero mais ninguém a cantar nesta casa!” Deixou cair a cabeça para trás numa pose de teatro , esfregou um dedo nas gotículas de água que restavam nas paredes do copo, molhou a pele atrás das orelhas e gritou numa pose de vedeta antiga: “Bravô!” Jean Pierre desligou o gravador, arrumou os papeis e quase que se assustou quando ela se aproximou por trás da cadeira, mergulhou a mão na palha solta do seu cabelo e
lhe entornou no rosto uma baforada do seu perfume pesado. Elvira agarrou-lhe o queixo e puxou-lho para trás. Aproximou o rosto cheio de creme do rosto dele. Agarrou-o com firmeza e falou-lhe com inesperada fragilidade: “Tu c’est joli, mon petit… Podias dizer Bravô!” A voz do francês soltou-se sem grande convicção: « Bravô…“ Elvira puxou ainda mais a cabeça do rapaz e encostou a nuca ao seu ventre mole. “Um dia talvez te deixe possuíres-me…” “Não me parece que a Elvira seja o género de mulher que se deixa possuir…”
A mão de Elvira parecia uma garra de ferro e os olhos de Jean Pierre fixavam-se no queixo dela, no pescoço de peles soltas onde aparecia a marca amarelada de final de tempestade onde acabava a maquilhagem. Ela largou-lhe a cabeça com brusquidão, dirigiu-se cambaleante ao piano e abriu-lhe a tampa. “Madame…” “Senta-te. Não te dei autorização para sair! Vou cantar para ti.” Ah! Mais non! Não lhe pagavam para tanto! Elvira atacou uma das suas velhas canções.
“Foi estreada no Alhambra de Madrid!” Fechou os olhos, deixou correr as mãos ferrugentas pelo teclado, puxou a cabeleira atrás e, numa voz perdida, cantou e cantou sem reparar que Jean Pierre saía silenciosamente. No final deixou cair a cabeça sobre o teclado. Levantou-se a custo. De olhar turvo, dirigiu-se à janela lançando a mão teatral em direcção aos pássaros. “Hoje estivemos inexcedíveis, meus queridos! Fomos um êxito!” E não reparou que dois dos passaritos estavam caídos, imóveis, num canto da gaiola. IlUSTrAção Por João PEdro FonSECA
JoSÉ FAnHA 61 AnoS José Fanha, nascido em lisboa, sabe como poucos contar histórias voltadas para crianças e jovens. Este homem de palavras sabe também como expressar as suas emoções aos adultos, como neste microconto, “Bravô”. Além da vertente poética, José Fanha é declamador, contador de histórias, autor de letras de canções, histórias para crianças, dramaturgo, com textos para rádio, teatro, guionista de televisão e cinema. o escritor português estudou no Colégio Militar entre os 10 e 17 anos, mas a educação rígida não contemplava o seu espírito livre e artístico. na década de 70, viveu a ditadura e percebeu a realidade cinzenta do país, quando as pessoas não eram livres para falar e aproveitar a vida em todas as suas potencialidades. Esse momento foi o catalizador para que nascesse aí o poeta de intervenção. Ele faz parte da geração de poetas que encontraram na literatura uma forma de lutar pela liberdade, declamando para as pessoas que era preciso acabar com a ditadura para que elas fossem mais livres e felizes.
Stephanie D’Ornelas
ENTrE A ArrEGAçA E O CALhAbé
TOdA A vIdA EM qUINzE dIAS
Por bacharel jorge Gabriel
L
á se passou mais uma quinzena fértil em novidades já esperadas. Ricardo Morgado foi reconduzido como presidente da direcção-geral da AAC. Diz que houve uma taxa de abstenção, e que bem fica esta expressão quando de eleições se fala, até parece uma coisa a sério, de cerca de 80 por cento. Porém, houve outros momentos altos, fora a sempre emotiva super-terça-feira. Nas respectivas campanhas, alguns candidatos animaram o debate público, diatribes notáveis oferecidas ao vento. Uma candidata fez o obséquio de oferecer um bonito título: “não sou a favor das manifestações”, lapso tão notável como tremendo, justificou, as coisas que a ingenuidade e a inexperiência política fazem. Na mesma entrevista, Celina mostraria ainda um palpitante coração de manteiga que, curiosamente, não fala através do habitual pumpum pumpum, antes segreda o nome de seu dono, não resiste aos magníficos encantos do
magnífico reitor, notáveis casos cardiovasculares se observam em Coimbra. Se a sinceridade de Celina é de alguma forma tocante, pouco habitual que é nestas andanças dos sufrágios, houve ainda outro tipo de frontalidade. Uma frase, pumba, então e oh Ricardo, quanto aos 900 colaboradores do ano passado eram mesmo colaboradores, ah isso, “a maior parte foi para preencher o papel”, saúde-se a sinceridade. E o Ricardo continua, “isto é tudo muito bonito mas as eleições também se têm que ganhar”, eh pah mas oh Ricardo então mas isso pode não parecer muito correcto a algum pessoal, afinal de contas, pode-se ganhar e ser uma coisa bonita. Ah não há problema, atenção, “este ano não será o mesmo sistema”. Ufa, podemos respirar de alívio, com uma afirmação destas, de certeza que este paladino democrático erradicou o cacique e o tachismo dos corredores do número um da Padre António Vieira.
StEPhAnIE SAyURI PAIxão
Quanto à outra candidata, confesso que não me é fácil mandar o bitaite. Acima de tudo, tenho muita dificuldade em discernir alguma coisa de uma frase proferida com sotaque açoriano, quanto mais mensagens políticas, mea culpa. O problema seria decerto ultrapas-
sado, pensei, assim pudesse ler uma entrevista, e aí estava ela, hossana nas alturas. Abro a página, vamos lá então, eis que o jornal em questão me brinda com um hipnotizante plano a la Daniel Oliveira que me impediu de pensar em algo mais que não tentar adivinhar o que
aqueles olhos diziam, se aquele preto e branco escondia um cintilante verde-esmeralda se um vertiginoso azul celeste, são de facto as janelas da Alma. E chegou o debate, nos decrépitos e abandonados grelhados, quase se sentia o saudoso aroma do frango, quase se ouvia a pele aviária encarquilhar na brasa. O que se ouvia mesmo eram os ecos do passado, perpetuados e redundantes, e palmas, muitas palmas. A repetição de todos os anos, fórmulas para ganhar eleições, que têm de se ganhar, não esqueçamos as sábias palavras de Ricardo, nem que para isso haja cada vez menos gente a ouvir, cada vez mais gente a dizer o mesmo, e outros que não sabem o que dizem, e outros que não fazem o que dizem, há até quem não diga o que faz. Ah AAC, quando te perguntarem o que és, responde: a sinédoque do país. aprendi a gostar de ti.
22 | a cabra | 4 de dezembro de 2012 | Terça-feira
OPINIãO cartaS à diretora coimbra é o coração que pulSa! rogério lima barboSa, doutorando do ceS/uc
onde há fumaça há fogo, imagino que onde há um coração pulsando e livre, há força para luta e contestação. que o manto negro seja novamente o simbolo da contestação”
No início de 2012 cheguei em Coimbra motivado pelos excelentes textos produzidos pela Universidade. Apesar de muitas diferenças, aqui, entendi que a cultura pode transcender as fronteiras delimitadas no papel e percebi duas sociedades que ora se alinham e outras se distanciam(Brasil e Portugal). Um dos momentos de alinhamento é o amor ao futebol e o seu significado nacionalista. Com alguns amigos e amigas vibrei com a vitória da Briosa na Taça Portugal de 2012. Apesar das muitas comemorações o que realmente chamou a minha atenção foi a conversa que tive com um amigo português benfiquista. Ele me falava da importância da vitória da Briosa e, ao mesmo tempo, se remetia ao ambiente vivido na final de 1969. A sua esperança que a vitória da Académica, mesmo sendo benfiquista, pudesse ser um incentivo para reação do país Portugal, ficou marcada em meu peito. Após alguns pedidos de esclarecimento, finalmente, entendi que aquela final foi um momento de contestação a um regime. Como os panteras negras, nas olimpíadas de 1968, mostraram ao mundo que o punho cerrado, em luva preta, era a força de um povo, o manto negro da final de
1969 foi a forma que a Académica mostrou que a luta contra um regime era inadiável e irrevogável. Assim como me emocionei ao reviver o passado, meu coração ainda pulou, gelou e se aqueceu no dia da reunião no TAGV, onde tive a oportunidade de viver um momento coimbrão. Naquele dia, consegui ficar sentado ao lado esquerdo do palco ou mesa de apresentação da UC, como preferirem. Ao fim do discurso do reitor, quando ele ficou de frente para o lado que eu estava, em posição desafiadora, olhando para o público a sua frente e com a palavra CHEGA. Demorou um pouco para eu entender que a capa vermelha ao vento, uniforme azul e o S em seu peito nada mais era que a imaginação agindo em meus olhos e tudo não passava de uma ocasião muito bem estudada e trabalhada. Aquele momento, para mim, foi uma premonição do que seria uma linda manhã. Bem, chegamos a Coimbra com a ideia da independência do discurso estudantil e com o peito inflamado em conhecer a sua história da época que a faculdade de Química trabalhava para formulação dos artefatos que protegiam os portugueses da invasão espanhola. Mas como nem tudo na história constrói o presente,
ao perceber que o alinhamento do manto negro, representativo dos estudantes da UC, com o terno do representante da Académica era mais importante que a sua fala independente e contestadora percebi que aquele dia seria esvaziado por um discurso não condizente com o vigor estudantil. Da imagem revigorante e efervescente do manto negro suspenso ao ar, mostrando a energia e consciência , vi um discurso alinhado e permissivo ao do reitor. Para minha sorte e acho que para maioria dos presentes, um grupo pediu a palavra e salvou aquela manhã demonstrando a energia perdida. Naquele instante, recordando o grupo de punk rock brasileiro Titãs, lembrei de um trecho de suas músicas “O PULSO AINDA PULSA...”. E passei a imaginar uma Coimbra que vive sem medo do seu passado porque este se torna tão grande ou importante quanto mais inexpressivas forem as ações do presente. No meu pequeno curso em Coimbra, vi um clube que após 73 anos voltou a vitória, ao mesmo tempo, povos se reuniram na Praça da República para uma conquista portuguesa demonstrando que ser da Universidade de Coimbra não é obrigatoriamente ser de Portugal, por-
tugueses confiaram na força do centro, uma manifestação no TAGV que não acontecia há anos e, por último, a greve geral de Portugal que culminou na exoneração dos principais executivos da rede de TV estatal. Dessa maneira penso ou imagino que Coimbra é o centro, é o pulsar, a alegria, o incentivo, enfim, é o coração que enquanto pulsar de maneira independente, sua respiração areja todas as outras partes do corpo Portugal. Assim como onde há fumaça há fogo, imagino que onde há um coração pulsando e livre, há força para luta e contestação. Que o manto negro seja novamente o símbolo da contestação, que seja proibido o seu “alinhamento com o terno”, que a sua cor seja a expressão sombria de um povo consciente, que o seu uso contínuo e ininterrupto seja o luto de uma geração e, principalmente, a demonstração que a academia suporta as pressões que surgem e apesar de muitas vezes calada que tod@s saibam que por baixo do manto ainda há um coração que bate livre de ideias e autónomo de princípios.
governo é necessária uma visão crítica e uma política de acção concreta e bem definida. Por muito estimulantes e criativas que sejam as acções simbólicas, o seu efeito prático está longe de ser o desejado, e corre-se o risco de qualquer dia o “crime” se tornar real e de acordarmos nas mãos de uma entidade externa que passa a decidir o nosso futuro como se de contentores de mercadorias se tratasse. O primeiro passo é a consciencialização dos estudantes para a realidade em que o ES verdadeiramente se encontra e tal não pode acontecer sem a promoção de iniciativas que estimulem o debate e aproximem as decisões políticas das salas de aula, dos auditórios, dos bares ou das cantinas. Indicadores como a taxa de abstenção nas últimas eleições para a Direção-geral da Associação Académica de Coimbra são claros e indiciam um afastamento dos estudantes e da academia, num momento tão crucial como o que hoje vivemos; é essa a realidade que é preciso, antes de mais,
mudar. E a responsabilidade que Coimbra tem, pela sua história de resistência e luta académica, é a de não se deixar subjugar pelos desígnios de uma elite política e económica que pretende fazer da universidade um meio acrítico e amorfo, facilmente influenciável e manobrável, ao serviço do poder vigente e de um reduzido número e empresas por ele legitimadas. Por tudo isto e muito mais há que dizer não ao Regime Jurídico das Instituições do ES, não às políticas de mercantilização do ES, não à submissão intelectual e cultural e não à privatização do conhecimento, que deve ser público e livre, de todos e para todos.
manifeSto contra a privatização do conhecimento franciSco nuneS, eStudante de Sociologia da faculdade economia da univerSidade de coimbra
há que dizer não ao regime Jurídico das instituições do eS, não às políticas de mercantilização do eS, não à submissão intelectual e cultural e não à privatização do conhecimento”
Perante a recente vaga de privatizações que varre o nosso país, é importante olhar para o caso da universidade pública e tentar perceber de que forma podemos nós ser atingidos pelas políticas de credo neoliberal deste governo que ameaçam o acesso ao conhecimento livre no Ensino Superior (ES) público. Em questões de (in)sensibilidade social, as posições deste governo têm vindo a clarificar-se, e as tragédias sociais e económicas que destas decorrem são diariamente vividas e sentidas por muitos de nós; os sucessivos cortes no financiamento ao ES, o aumento anual do valor das propinas e os cortes nas bolsas são algumas das medidas que as propulsionam e desencadeiam. Há, no entanto, um “inimigo fantasma”, que nos cerca (e se acerca), que se entranha, e cuja porta de entrada (aberta, quem sabe pelo “Dr.” Relvas, que para efeitos de abertura de portas não há equivalências que bastem) tem sido construída por um ministro
de um governo que tem por objectivo não só a privatização dos recursos materiais e empresas de serviço público de um país, como também a privatização de um património imensamente mais valioso: o património intelectual e cultural. Para tal, vai sorrateiramente mercantilizando estruturalmente a universidade pública, fazendo de estudantes, professores e investigadores, meros peões num jogo de caça ao lucro, subvertendo o conhecimento à lógica de mercado, desrespeitando o que é (e deve ser) um processo de criação intelectual livre e fora da órbita e do raio de acção de grandes empresas cujas pretensões não vão além da obtenção do lucro máximo, possibilitando a uma elite económica um nível de vida que permite muito mais luxos que o dos “bifes todos os dias” e que “aguenta” toda e qualquer austeridade, situando-se assim longe da miséria do resto do povo. Para que não sejamos engolidos por esta gigante máquina de capital legitimada e promovida pelo
Cartas à diretora podem ser enviadas para
acabra@gmail.com
4 de dezembro de 2012 | Terça-feira | a
cabra | 23
OPINIãO RAfAELA CARvALho
editorial a abStenção mecânica
1
Depois das eleições para os corpos gerentes da Associação Académica de Coimbra, eis que surgem mais dois atos eleitorais: eleições para o Conselho Geral (CG) e para o Senado. A 6 de dezembro, os estudantes voltam às urnas, mas desta feita para elegerem os seus representantes num dos órgãos de gestão mais importantes da Universidade de Coimbra (UC). Os projetos apresentados dos estudantes do primeiro e segundo ciclos foram menos comparativamente ao ano passado. Há duas listas de continuidade, que se pautam por objetivos semelhantes de há dois anos atrás. Relativamente ao terceiro ciclo, há mais uma lista a concorrer. Os doutorandos e investigadores, que por vezes passam por uma “comunidade à parte” da UC, revelam este ano uma maior consciencialização sobre este órgão e da importância que tem. Sabemos que a UC nem sempre apresenta as melhores condições de trabalho, por isso, há que lutar por elas. E é de louvar que os alunos do terceiro ciclo estejam a fazer isso, desta vez com mais força. A consciencialização também passa pela maior propaganda verificada. Há dois anos, apurou-se cerca de 70 por cento de abstenção neste ato eleitoral, bem como uns modestos 63,7 por cento de desconhecimento face a este órgão. Com a divulgação que tem sido feita – maioritariamente no Facebook -, é de esperar que os estudantes se mexam e exerçam o seu direito de voto para um órgão que realmente pode mudar as suas vidas e o seu percurso académico.
“
o que importa destacar é que morgado satisfaz-se com uma maioria absoluta que acaba por ser apenas - pretensa. votou-se em bloco no branco e a abstenção voltou a ganhar
2
A Cabra errou: Na edição nº 253, na entrevista feita ao candidato para a Direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), Ricardo Morgado, referia-se que este pertencia à Juventude Social Democrática, quando esta juventude se intitula Juventude Social Democrata. Na mesma edição, em entrevista à também candidata à DG/AAC, Alma Rivera, a sua filiação partidária não ficou esclarecida. Alma Rivera é filiada na Juventude Comunista Portuguesa. Ainda na edição 253, no artigo “Uma facada que tem sido a Arquitetura por Coimbra”, a primeira frase (“Pediram mais romance para uma escola sem identidade.”) encontra-se errada. Onde se lê “pediram mais romance” deve ler-se “pediram mais escola”. Aos visados, o nosso pedido de desculpas.
Secção de Jornalismo, Associação Académica de Coimbra, Rua Padre António Vieira, 3000 - Coimbra Tel. 239410437 e-mail: acabra@gmail.com
Ricardo Morgado, reeleito para o próximo mandato na Direçãogeral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) não se sentiu predisposto a investir na campanha como no ano anterior. O ano passado estava diferente, estava como numa “batalha”. No ano passado houve pré-campanha. Este ano, não houve apresentação de lista, não houve ‘merchandising’ no término da Festa das Latas e não houve (parece) um oponente de ideias como à altura fez parecer André Costa. A luta política não esteve à altura? O que importa destacar é que Morgado satisfaz-se com uma maioria absoluta que acaba por ser apenas – pretensa. Votou-se em bloco no branco e a abstenção voltou a ganhar. Nada que pareça abalar o propósito do projeto que quer apresentar uma verdadeira remodelação na estrutura dos pelouros. O novo presidente firmou que escolheu as pessoas pelo mérito, mas, quanto ao facto de ter deixado alguns com provas dadas de fora, afirma que a palavra final é sempre sua. Não será dos 22926 possíveis votantes? A legitimação de uma DG/AAC que teve a pior afluência às urnas dos últimos três anos quer evidenciar dois pêndulos: o primeiro, que a maior parte não sabe ao que vota, por quem vota e para que é que serve o seu voto; o segundo, que o facto de “muita gente achar que já estava ganho à partida” fez com que não houvesse brio na campanha. O voto, esse, surge de uns mecanicistas que insistem em não divulgar o porquê de não irem à urna. Por Liliana Cunha e Ana Duarte
Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA Depósito Legal nº183245/02 Registo iCS nº116759 Diretora Ana Duarte Editora-Executiva Ana Morais Editores Stephanie Sayuri Paixão (Fotografia), Liliana Cunha (Ensino Superior), Daniel Alves da Silva (Cultura), João Valadão (Cidade), Paulo Sérgio Santos (Ciência & Tecnologia), António Cardoso (País & Mundo) Secretária de Redação Mariana Morais Paginação António Cardoso, Catarina Gomes, Rafaela Carvalho Redação Beatriz Barroca, Daniela Proença, Emanuel Pereira, Ian Ezerin, João Martins, Joel Saraiva, Luís Azevedo, Miguel Patrão Silva, Pedro Martins Colaborou nesta edição Bárbara Sousa, Hugo Teixeira Mota, Inês Martins, João Neves, Rita Abreu, Tiago Rodrigues, Stephanie D’Ornelas Fotografia Ana Duarte, Ana Morais, Daniel Alves da Silva, Fábio Rodrigues, Inês Martins, Joana Amorim, João Gaspar, Rafaela Carvalho, Stephanie Sayuri Paixão ilustração Carolina Campos, Joana Cunha, João Pedro Fonseca, Tiago Dinis Colaboradores permanentes António Matos Silva, Bruno Cabral, Camila Borges, Camilo Soldado, Carlos Braz, Catarina Gomes, Fábio Rodrigues, Filipe Furtado, Inês Amado da Silva, Inês Balreira, João Gaspar, João Miranda, João Ribeiro, João Terêncio, José Miguel Pereira, José Miguel Silva, Luís Luzio, Manuel Robim, Rafaela Carvalho, Ricardo Matos, Rui Craveirinha, Tiago Mota, Torcato Santos Publicidade António Cardoso - 914647047 impressão FIG - Indústrias Gráficas, S.A.; Telefone. 239 499 922, Fax: 239 499 981, e-mail: fig@fig.pt Tiragem 4000 exemplares Produção Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra Propriedade Associação Académica de Coimbra Agradecimentos José Fanha, Manuel Castelo Branco
Mais informação disponível em
Redação: Secção de Jornalismo Associação Académica de Coimbra Rua Padre António Vieira 3000 Coimbra Telf: 239 41 04 37
acabra.net
e-mail: acabra@gmail.com Conceção e Produção: Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra
Jornal Universitário de Coimbra
puBLiCiDaDe puBLiCiDaDe
Câmara Municipal de Coimbra
A Câmara Municipal de Coimbra (CMC) estabeleceu um protocolo de cooperação entre várias instituições da cidade, com vista a combater o absentismo e o abandono escolar de crianças e jovens do Planalto do Ingote. Numa altura em que conjuntura atual ameaça seriamente aumentar os níveis de insucesso escolar, a iniciativa apresenta-se como uma mais-valia na articulação dos diversos apoios da cidade. O vereador da habitação da CMC, Francisco Queirós, reconhece o esforço feito pelas entidades envolvidas, mas teme que a situação possa piorar devido aos constrangimentos económicos Pág. 14 atuais. J.V
União Europeia
É impossível não olhar para o documento como mais um gesto de imposição da vontade dos países ditos mais ricos contra os menos desenvolvidos. Se é suposto a política de coesão aproximar realidades económicas e sociais, a verdade é que na prática isso não passa de uma demagogia. Mas não se critique apenas a política francesa e alemã. É importante que se procure olhar cada vez mais para o que realmente se passa e para a forma como são aplicados determinados fundos, nomeadamente em países onde é conhecido o historial de corrupção. Assim, de facto, não há dinheiro que aproxime. P.S.S. Pág. 7
FarraPos por rita abreu
Reitoria
A reitoria da Universidade de Coimbra está a emitir desde este ano ordens de execução fiscal a uma taxa vulgarmente apelidada de propina e que remonta à época em que mais de 16 mil estudantes a boicotavam. O que acontece é que esta espécie de perseguição, só pode ter esse nome dado que estão a haver cobranças a alunos que já haviam desistido do curso, o que é ilegal. Remonta a anos muito anteriores que já caducaram o prazo de prescrição, por isso a universidade não pode querer encaixar nos seus cofres dinheiro a que já não tem direito. Aguarda-se pelo resultado da Pág. 9 oposição. L.C.
200 x 100
stephanie sayuri paixão
Que te seja permitido vaguear, que te seja permitido amar. Que a verdade esteja em ti e a mentira nunca seja um entrave. Que te lembres que batalhas não são guerras e nada está perdido, que o mundo te pertença e não tu a ele. Que te sejam permitidas as calças rasgadas, que os teus ténis estejam sujos e a tua mente clara. Que nunca a tua vida seja a preto e branco e o azul te lembre o mar. Que a melodia nunca seja do adeus mas de um até já. Que nunca sintas que o tempo passa demasiado depressa e que as amizades sejam para sempre. Que a saudade seja passageira. Que a vaidade não te impeça de viver. “ Sê meia dúzia de farrapos e emenda-te a ti mesmo”